Perdição e salvação estão atreladas aos caminhos, e não aos homens

O termo ‘conduz’ utilizado na parábola dos caminhos apresenta a função que o caminho desempenha, ou seja, conduzir a um destino àquele que entra pela porta. A perdição é o destino do caminho espaçoso, e a salvação é o destino do caminho estreito. Como são os caminhos que possuem destinos (salvação e perdição), através da parábola Jesus exclui qualquer conceito de sina, determinismo ou fatalismo quando ao futuro dos homens.


Após analisar a parábola das duas portas e dos dois caminhos, o leitor será capaz de dizer se verdadeiramente Deus predestinou alguns homens à salvação e o restante à danação eterna.

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:13 -14)

 

Quando anunciou o reino dos céus no Sermão da montanha, Jesus instruiu os seus ouvintes a ‘entrarem pela porta estreita’ “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ). Jesus é a porta estreita pela qual os justos haveriam de entrar, pois Ele mesmo disse: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 ).

O salmo 118 é messiânico e apresenta Cristo como a porta dos justos, assim como Ele é a pedra angular, a pedra de esquina, o servo ferido, a destra do Altíssimo, a Luz que veio ao mundo, o Bendito que vem em nome do Senhor e a vítima da festa “Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão” ( Sl 118:15 -27 )

Mas, por que é necessário entrar por Cristo? Como entrar por Cristo?

Jesus apresentou três motivos pelos quais é imprescindível entrar pela porta estreita:

“… porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 )

  • A porta é larga;
  • Dá acesso ao caminho de perdição, e;
  • Muitos entram por ela.

 

Identificando a porta larga

A parábola apresenta somente duas portas e, com relação às portas, Jesus se apresenta como a porta estreita “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão” ( Lc 13:24 -25; Jo 10:9 ).

A Bíblia não contém uma definição explícita da porta larga, porém através de Cristo, que é a porta estreita, é possível determinar o que é, ou quem é a porta larga.

Há várias concepções que apresentam alguns candidatos para ocupar o ‘cargo’ de porta larga, entretanto, devemos considerar que há uma justa posição entre a figura da porta larga e a figura da porta estreita, de modo que, há quesitos a serem satisfeitos para que um ‘candidato’ à porta larga se enquadre perfeitamente na figura.

Se a porta estreita, que é Cristo, é um homem, segue-se que a figura da porta larga deve fazer referência a um homem. Se a porta estreita é cabeça de uma nova geração, a porta larga também deve fazer referência à cabeça de uma geração.

Muitos indicam o diabo para o cargo de porta larga, entretanto, ele é um anjo caído (não é um homem), e como não pode trazer a existência seres semelhantes a ele, logo, não pode ser cabeça de uma geração. O diabo não se enquadra na justa posição que há entre as figuras da porta larga e da porta estreita ( Lc 20:35 -36).

O pecado, por sua vez, diz de uma condição a que o homem está sujeito, ou seja, alienado de Deus, portanto, não é um ser, não é anjo e nem homem. O pecado não se enquadra no cargo de porta larga, além de ser impossível o pecado assumir a posição de cabeça de uma geração ( Is 59:2 ).

As instituições humanas também são, muitas vezes, indicadas como porta larga, porém, uma instituição é composta de vários homens reunidos em torno de um objetivo. Não passa de uma assembleia de pessoas, de modo que não se ajusta à figura de porta larga.

O mundo não é a porta larga, visto que o mundo, na bíblia, diz dos homens alienados de Deus regidos por suas paixões, pela concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e pela soberba da vida ( Ef 2:2 ; Cl 2:8 ). Logo, não podemos considerar que a porta larga é o diabo, o pecado, o mundo ou uma instituição religiosa.

Resta-nos considerar que, se a porta estreita é um homem, a porta larga necessariamente deve ser um homem. Como Cristo, a porta estreita, veio ao mundo sem pecado, o candidato à porta larga também deve ser um homem que veio ao mundo sem pecado. Como Cristo é a cabeça de uma nova geração de homens espiritais, a porta larga refere-se à cabeça de uma geração de homens. O único homem que se encaixa na figura da porta larga é Adão, pois veio ao mundo sem pecado e é a cabeça de uma geração de homens carnais.

Como pode ser isso? Ora, na bíblia a porta é figura que possui diversos significados, porém, as figuras das portas que Jesus apresentou no Sermão da montanha dizem de nascimento, de modo que Adão é a porta larga por quem todos os homens entram no mundo. Todos os homens quando vem ao mundo (abrem a madre) são gerados segundo a semente de Adão. Todos os homens, exceto Cristo, entraram no mundo através de Adão, que é a porta larga.

Cristo foi lançado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, ou seja, desassociado da semente corruptível de Adão. Por ter sido introduzido no mundo por Deus, Cristo é o último Adão, a cabeça de uma geração de homens espirituais ( 1Co 15:45 ). Em outras palavras, Adão é o tipo e Cristo é o antítipo. Adão a figura e Cristo a realidade “… Adão, o qual é figura (tipo) daquele que havia de vir (antítipo)” ( Rm 5:14 ).

Para estar sujeito à paixão da morte, Cristo teve que vir ao mundo à semelhança dos homens (carne do pecado), porém, sem pecado ( Hb 2:9 ). Para isso foi introduzido pelo Espírito Santo no ventre de Maria, pois se fosse gerado segundo a carne, estaria sob a mesma condenação que se abateu sobre a humanidade ( Gl 4:4 ; 1Jo 3:9 ). Já no Éden foi anunciado que o descendente viria da descendência da mulher, em vista da oposição que haveria entre as duas sementes ( Gn 3:15 ).

Vale destacar que, quando Cristo criou o homem no Éden ( Hb 2:10 ), Adão foi criado à imagem e semelhança do Cristo-homem, e não à semelhança do Deus invisível e em glória ( Hb 2:9 ). Adão foi criado à imagem e semelhança do Cristo-homem que havia de vir ao mundo, sendo gerado no ventre de Maria ( Rm 5:14 ), ou seja, não a semelhança do Cristo glorificado, pois tal condição Cristo somente alçou após ressurgir dentre os mortos “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ).

 

A porta é larga

A porta é designada larga porque todos os homens, para virem ao mundo, necessariamente tem que entrar por Adão ( 1Co 15:46 ). Jesus deixa claro que são muitos que entram pela porta larga, e não todos, isto porque Cristo foi exceção à regra. Enquanto os homens naturais foram lançados na madre através de uma semente corruptível, Jesus foi lançado na madre através da operação sobrenatural do Espírito Santo ( Sl 22:10 ).

Antes de Adão não havia desobediência, pecado ou morte para a humanidade. Com a transgressão de Adão, entrou no mundo o pecado e a morte ( 1Co 15:21 -22 ). Por causa da ofensa de Adão todos os seus descendentes juntamente alienaram-se de Deus ( Sl 53:3 ).

A bíblia é clara quando demonstra que todos os homens juntamente se desviaram, alienaram de Deus. Como foi possível aos homens alienarem-se de Deus juntamente? Ora, existiu um único evento no qual todos os homens estavam ‘juntamente’ reunidos. Por interpretação ( Hb 7:2 ), no Éden todos os homens estavam reunidos na ‘coxa’ de Adão ( Hb 7:10 ). Quando Ele transgrediu, todos se tornaram transgressores. Quando Adão tornou-se imundo, contaminou toda a sua linhagem, pois do imundo não há como vir o puro ( Sl 53:3 ).

Quando os homens alienaram-se de Deus? Alienaram-se de Deus no Éden. Lá no Éden pereceu o homem piedoso e todos os seus descendentes tornaram-se imundos “Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com a rede” ( Mq 7:2 ). É em função da transgressão no Éden que os homens alienam-se de Deus desde a madre, são gerados de uma semente corruptível, a semente de Adão. Como consequência, andam errantes desde que nascem, pois estão em um caminho que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

 

O caminho de perdição

Após abrir a madre (nascer), ou seja, ‘entrar pela porta larga’ o homem trilha um caminho específico atrelado à perdição. A parábola mostra que a figura do caminho é funcional, pois demonstra que o caminho leva, ou seja, conduz todos os homens que nele se encontram a um único lugar: perdição. De igual modo, a parábola demonstra que o caminho estreito conduz todos os homens que nele se encontram à vida, ou seja, o caminho estreito possui como destino um lugar específico: salvação ( M 7:13 -14).

O termo ‘conduz’ utilizado na parábola dos caminhos apresenta a função que o caminho desempenha, ou seja, conduzir a um destino àqueles que entram pelas portas. A perdição é o destino do caminho espaçoso, e a salvação é o destino do caminho estreito. Como são os caminhos que possuem destinos (salvação e perdição), através da parábola Jesus exclui qualquer conceito de sina, determinismo ou fatalismo quando ao futuro dos homens.

O termo ‘conduz’ evidência a função do caminho, e nada mais. O caminho conduz a um destino específico e certo. Por exemplo: a perdição é o destino do caminho espaçoso, e a vida é o destino do caminho estreito. Ora, a parábola não apresenta a salvação ou a perdição atreladas aos homens, antes a salvação e a perdição foram apresentadas atrelados aos caminhos.

Ninguém vem a Deus se não por Cristo, pois Ele é o caminho que conduz o homem a vida. De igual modo, ninguém vai à perdição se não pelo caminho espaçoso, que conduz à perdição. Enquanto os judeus e os gregos possuíam uma visão fatalista e determinista de mundo, Jesus demonstra que a sua doutrina não segue a concepção da humanidade. Jesus não apresenta a salvação e nem a perdição com destino dos homens, antes como destino dos caminhos, de modo que o evangelho não segue as bases de correntes filosóficas como o fatalismo e determinismo.

Por que é necessário evidenciar esta peculiaridade dos caminhos? Para desmistificar algumas concepções, pois em algumas civilizações antigas, como a dos gregos, o mundo e os seus eventos cotidianos eram regidos por uma sucessão de eventos inevitáveis e preordenados por uma determinada ordem cósmica ou divindade. Tal doutrina afirma que todos os acontecimentos ocorrem de acordo com um destino fixo e inexorável, sem que os homens não podem controla-los ou influenciá-los.

Na mitologia grega têm-se as Moiras, três irmãs que, através da Roda da Fortuna, determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos, portanto, o destino submetia os deuses, que por sua vez, deveriam resignar-se à sua sorte, sina, fado.

Além da cultura greco-romana, temos o fatalismo regendo o estoicismo romano e grego, que por fim, influenciou a doutrina dita cristã da Divina Providência. Divina Providência tornou-se um pensamento teológico que confere à onipotência de Deus controle absoluto sobre todos os eventos nas vidas das pessoas e na história da humanidade. Tal concepção afirma que Deus decidiu e preordenou todos os eventos e nada acontece sem que Deus permita.

Outra corrente filosófica, o determinismo, afirma que todo acontecimento (inclusive o mental) é explicado por relações de causalidade (causa e efeito).

Na bíblia tais pensamentos, sejam mitológicos ou filosóficos, não encontram eco, pois o ‘destino’ é apresentado única e especificamente como o local que se chegará após trilhar um caminho. Na bíblia o termo ‘destino’ é empregado no sentido de local, lugar, porém, não envolve a ideia de preordenação “Como também trezentos escudos de ouro batido; para cada escudo destinou trezentos siclos de ouro; e Salomão os pôs na casa do bosque do Líbano” ( 2Cr 9:16 ).

Quando se lê: “E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou” ( Lc 22:29 ), não há nada de determinismo no sentido filosófico ou mitológico, antes Jesus indicou que, da mesma forma que Deus reservou o reino para o seu Filho, certo é que o reino pertence aos que creem, pois herdarão com Cristo todas as coisas.

Ora, os dois versos acima possuem o mesmo princípio: assim como o ouro foi preparado em função do escudo, o reino foi preparado para os que creem em Cristo. Isto não quer dizer que algumas pessoas foram destinadas ao reino, e outra não, antes que o reino foi preparado para os que creem. O equivoco de alguns se dá em função da linguagem, pois deixam de considerar que, na antiguidade, as coisas eram definidas pela sua função, serventia “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (Aristóteles, A Política. Tradução Nestor Silveira Chaves. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 22).

Quando lemos: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” ( 1Ts 5:9 ), temos que considerar que o apóstolo apresenta a figura do caminho estreito: ‘por nosso Senhor Jesus Cristo’. No verso em comento, o termo ‘destinar’ não foi empregado no sentido de preordenar, e sim, no sentido de reservar.

Como o apóstolo está tratando com os cristãos e trazendo a memória deles a atual condição em Cristo: filhos da luz ( 1Ts 5:5 ), recomenda que deveriam permanecer vigilantes e sóbrios ( 1Ts 5:7 ), revestindo-se do poder de Deus, que é o evangelho ( 1Ts 5:8 ). Pois agora, diferente do tempo em que estavam nas trevas e eram filhos da ira, os cristãos, em função do caminho que conduz à vida (Jesus Cristo nosso Senhor), alcançaram, adquiriram salvação. Ou seja, o apóstolo não diz que os cristãos foram predestinados a salvação, antes que, por estarem no caminho estreito, o destino agora é de salvação, diferente do caminho espaçoso, que é de ira.

Qual a função de um caminho? Conduzir a um lugar, ou seja, destino certo. O lugar vincula-se ao caminho sem qualquer conotação de ‘predestinação’, ‘previsão’, ‘preordenação’. O destino do caminho ligado à porta larga é de perdição, assim como o destino da Rodovia Presidente Dutra é o Rio de Janeiro para quem sai de São Paulo.

Devemos considerar que o Senhor Jesus afirmou que quem tem destino é o caminho ao exortar as pessoas que porfiassem por entrar pela porta estreita. Deste modo, Jesus demonstra que o viajante não está preordenado, predestinado, etc., à perdição, antes é o caminho que dá em um lugar de perdição.

Diante do alerta de Cristo, verifica-se que o viajante pode trocar de caminho, assim como é possível a alguém que está em São Paulo a caminho do Rio de Janeiro pela Rodovia Presidente Dutra pegar a Rodovia Raposo Tavares com destino ao estado do Paraná.

  • “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 );
  • “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando” ( Mt 23:13 );
  • “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 );

 

A porta é espaçosa porque muitos entram por Adão, e o caminho é espaçoso porque todos que são gerados de Adão são conduzidos à perdição. Jesus vinculou a perdição ao caminho, e não aos homens. Através da parábola fica evidente que o destino vincula-se ao caminho. O caminho e o destino são fixos e atrelados, porém, o homem é atrelado à porta (nascimento), o que significa que é possível deixar o caminho em que está e passar para o outro.

 

O caminho é espaçoso

A porta é espaçosa porque todos os homens, exceto Cristo, entram por Adão e o caminho é espaçoso porque muitos homens são conduzidos à perdição.

Na parábola dos dois caminhos Jesus vinculou a perdição ao caminho, e não aos homens. Através de uma leitura atenta da parábola é evidenciado que o destino está atrelado ao caminho.

O homem nasce pela primeira vez segundo a carne, o sangue e a vontade do varão, ou seja, nasce vinculado à porta larga. Não foi Deus quem estabeleceu que o homem seria gerado em pecado, antes quando Adão desobedeceu, sujeitou-se à condição de alienado de Deus (pecado) e arrastou todos os seus descendentes para a mesma condição. A porta larga surgiu em Adão, que pecou e vendeu todos os seus descendentes ao pecado, de modo que, ao vir ao mundo, nenhum homem é livre do pecado.

A entrada dos homens ao mundo pela porta larga ficou vinculada ao primeiro pai da humanidade, pois nascer da carne é o único meio de o homem entrar no mundo “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ; Os 6:7 ). Para entrar pela porta larga o homem não exerce escolha, assim como os que descendiam (filhos) dos escravos não escolhiam a condição social quando viam ao mundo. Ou seja, ninguém que entra pela porta larga escolheu entrar por ela.

A figura é completa em si mesma, pois os caminhos possuem um destino certo e imutável, porém, os homens não estão atrelados a um destino, quer seja perdição ou salvação.

No dia a dia, se um homem quiser chegar a um destino, necessariamente terá que escolher qual caminho tomar, pois o destino está atrelado ao caminho. Se um viajante deseja sair de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro, terá de percorrer a Rodovia Presidente Dutra.

Através da parábola dos dois caminhos é patente que Deus não predestinou ninguém à salvação eterna ou a danação eterna. Quando um novo homem vem ao mundo, necessariamente entra pela porta larga e estará em um caminho largo que o conduz á perdição.

Ninguém que entra no mundo por Adão está predestinado à perdição, pois é o caminho que conduz à perdição. O caminho espaçoso possui um destino, ou seja, está atrelado a um lugar. O lugar que o caminho espaçoso conduz é de perdição, diferente do caminho estreito, que conduz à salvação.

Semelhantemente, ninguém que entra por Adão está predestinado à salvação, visto que, por ter entrado no mundo através da porta larga, está em um caminho largo que o conduz à perdição. A concepção de que há homens que veem ao mundo predestinados à salvação deixa de considerar que todos são formados em iniquidade e concebidos em pecado, portanto, nascem pecadores e no caminho de perdição.

Ora, se houvesse predestinação para salvação, necessariamente o indivíduo predestinado não poderia vir ao mundo por Adão. Teria que entrar por outra porta, à parte de Cristo ou de Adão, porém, tal porta não existe. Para entrar por Cristo, primeiro o homem tem que entrar por Adão, e após entrar por Adão, somente é possível entrar no reino dos céus fazendo obra que exceda a dos escribas e fariseus: crer em Cristo, ou seja, nascendo de novo ( Mt 5:20 ; Jo 3:3 e Jo 6:29 ).

Quem nasce apenas uma vez permanece no caminho espaçoso, quem nasce de novo, ou seja, a segunda vez, sai do caminho de perdição e passa para o caminho que conduz à salvação, que é Cristo.

Salvação e perdição não são destinos preordenados aos homens antes de nascerem, pelo contrário, salvação e perdição estão vinculadas ao caminho que os homens trilham após entrarem pelas portas. Os homens acessam as portas uma por vez e na seguinte ordem: primeiro a porta larga, depois a estreita. Se entrar por Adão, estará em um caminho de perdição, se por Cristo, em um caminho de salvação.

 

Muitos entram pela porta larga

Quando nascem, os homens estão em um caminho de perdição (exceto Cristo), porém, lhes é concedido a oportunidade de entrarem pela porta estreita. Todos os homens entram pela porta larga e, para receber salvação, precisam entrar por mais uma porta, de modo que, para alcançar vida eterna, os homens devem passar por duas portas, ou seja, por dois nascimentos.

Como já afirmamos, o destino de um caminho é imutável, ou seja, se há alguma espécie de fatalismo ou determinismo expresso no cristianismo, ele recai única e exclusivamente sobre o caminho, jamais sobre os viajantes.

Todos os homens entram neste mundo por Adão, e nenhum deles está predestinado à salvação. O que a bíblia demonstra é que todos que entram por Adão percorrerem um caminho largo que os conduz à perdição. Os dois caminhos estão atrelados a lugares específicos (destinos) e imutáveis.

Como a perdição (destino, lugar) está atrelada ao caminho espaçoso, e não aos homens, Jesus faz um convite solene, verdadeiro e real a todos os homens nascidos de Adão: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ). Tal convite demonstra que é possível mudar do caminho com destino à perdição para o novo e vivo caminho cujo destino é a vida eterna.

A porta larga é figura de nascimento natural e a porta estreita do novo nascimento. A porta larga trás ao mundo almas viventes e a porta estreita trás homens espirituais. O novo nascimento diz de uma nova geração proveniente da semente incorruptível (palavra de Deus), diferente do nascimento natural, que é decorrente da semente corruptível ( 1Pe 1:23 ).

Nesta parábola, porta é o mesmo que nascimento, de modo que, todos quantos são nascidos de Adão, são carnais e seguem por um caminho que conduz à perdição. Semelhantemente, todos quantos entram por Cristo, nascem de novo, estão em um caminho estreito que os conduz a Deus.

Jesus disse: – “Eu sou a porta”! “Eu sou o caminho”! Primeiro o homem entra neste mundo por Adão, depois é necessário entrar por Cristo, nascendo de novo da água e do Espírito. Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus. Cristo é o caminho que possui salvação como destino. Qualquer que entra por Ele está no caminho que o conduz única e especificamente a Deus.

O caminho é estreito porque poucos entram por Cristo, e o caminho é largo porque são muitos que entram por Ele. Não é comportamento, moral ou caráter que qualifica a largura do caminho, e sim a quantidade de acesso.

 

Mudança de caminho

Como sair do caminho largo e entrar no caminho estreito?

Para o homem nascer de novo, primeiro é necessário tomar sobre si a sua própria cruz e seguir após Cristo, ou seja, para nascer de novo primeiro é necessário morrer ( Cl 3:3 ). Sem morrer é impossível nascer de novo “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ; Rm 6:6 ).

Fica evidente que dentre os nascidos de Adão não há ninguém predestinado à salvação, visto que, se não nascer de novo, não entrará no reino dos céus. Ora, quem entra nos céus é a nova criatura, porque a velha gerada em Adão é crucificada e morta, evidenciando que é impossível aos gerados em Adão herdarem a salvação.

Se alguém gerado da semente de Adão fosse predestinado à salvação, não necessitaria morrer com Cristo. Mas, se é necessário morrer com Cristo, evidentemente ninguém é predestinado à salvação. Se houvesse predestinação para salvação, certo é que o homem não seria sujeito à morte: nem a física, nem a morte com Cristo.

O homem que herda a salvação não é o mesmo que veio ao mundo, visto que do homem que veio ao mundo só é aproveitado o barro, a massa, porém, é dado um novo coração e um novo espírito. Quando o homem morre com Cristo, o vaso de desonra é quebrado e feito um novo vaso de honra da mesma massa. É por está peculiaridade que é impossível ao homem gerado de Adão ter sido predestinado à salvação, pois é necessário um novo nascimento, uma nova criação, um novo pai de família, um novo coração e um novo espírito “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

O homem pode assumir duas condições: a de perdido, pois quando nasce segundo a carne é homem natural, velha criatura, velho homem, velho ‘eu’, carnal, terreno, etc., e: a de salvo, pois quando nasce de novo, crucificou a velha natureza e foi de novo criado em verdadeira justiça e santidade. Se a velha criatura é crucificada e morre, certo é que tal indivíduo não foi predestinado à salvação.

Volto a repetir, se o homem fosse predestinado à salvação não seria necessário morrer para ser gerado um novo homem.

O novo homem é criado em verdadeira justiça e santidade, diferente do velho homem que foi gerado em iniquidade e em pecado ( Sl 51:5 ). O novo homem possui um novo coração e um novo espírito, portanto, não possui vínculo com o velho homem que herdou um coração de pedra. O velho homem não foi predestinando à salvação, pois é necessário a todos que se salvam crucificarem a velha natureza com as suas concupiscências ( Gl 5:24 ).

A ideia de que Deus predestinou alguns homens à salvação e outros à danação eterna antes mesmo de virem ao mundo, não coaduna com o posicionamento da bíblia, pois se assim fosse, os homens gerados de Adão predestinados à salvação não teriam que ser crucificados “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ). Como é imprescindível a crucificação com Cristo, certamente não há predestinação de indivíduos à salvação. Como é imprescindível morrer e renascer, certamente o homem salvo não é o mesmo que nasceu segundo a carne e o sangue ( Jo 1:12 -13).

A predestinação que a bíblia apresenta é para ser filho por adoção, difere muito da ideia de predestinação para salvação ( Ef 1:5 ).

O que isso significa ser predestinado para filho por adoção? Que qualquer que entrar por Cristo e perseverar n’Ele não terá outro destino: será um dos filhos de Deus ( Rm 8:29 ).

Todos que entram pela porta estreita, que é Cristo, conhecem a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele (conhecer=tornar-se um só corpo, comunhão íntima). Para que Cristo fosse alçado à posição de primogênito entre muitos irmãos após morrer e ressurgir (uma vez que fora introduzido no mundo sendo o Unigênito de Deus), todos os que entraram por Cristo foram predestinados a serem filhos de Deus “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Sem a igreja, a assembleia dos primogênitos, não haveria como Jesus ser primogênito entre muitos irmãos. Em função do propósito de tornar Cristo preeminente em tudo, Deus criou uma nova categoria de homens semelhantes a Cristo, sendo Ele a cabeça. Para o primogênito ser preeminente, há a necessidade de irmãos semelhantes a Ele em tudo. Entre sublimes, Cristo é mui sublime. É neste sentido que Deus predestinou os que conheceram a Cristo para serem filhos por adoção, assunto diverso da ideia de predestinação para salvação ( Ef 1:5 ).

Todas as vezes que o apóstolo Paulo aborda a questão da predestinação, o faz em conexão com a filiação divina, de modo que, qualquer que entrar por Cristo, inexoravelmente será filho de Deus. Não há outro destino, ou destinação para aqueles que entram por Cristo: são filhos por adoção, portanto, santos e irrepreensíveis.

Uma má leitura das Escrituras que despreza o fato de que salvação não é o mesmo que filiação divina levará o leitor a considerar que o termo predestinação se aplica à salvação e à perdição, porém, o equivoco ocorre pode alcançar a salvação sem, contudo alcançar a condição de semelhante a Cristo, condição exclusiva para os que compõe o corpo de Cristo: a igreja.

Os homens salvos no milênio não farão parte da igreja, não serão filhos por adoção e nem serão semelhantes a Cristo. A bíblia demonstra que, além de serem salvos da condenação estabelecida em Adão, por ser o corpo de Cristo, os que creem alcançaram a posição de semelhantes a Cristo, filhos de Deus, participantes da assembleia dos primogênitos, para que Cristo seja o primogênito e tenha a preeminência entre muitos irmãos.

A condição dos membros do corpo de Cristo na plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ), a igreja, é completamente distinta dos salvos em outras épocas. O grande diferencial está no quesito filiação. Enquanto os salvos à parte da igreja são contados como filhos de Israel, os cristãos são contados como filhos de Deus, pois assim como Cristo é, os cristãos hão de vê-Lo e serão semelhantes a Ele. Por causa desta condição, à saber: a de semelhantes a Cristo, será dado à igreja a autonomia de julgar os anjos ( 1Co 6:2 -3).

 

O equilíbrio entre as figuras

Há equilíbrio entre os elementos que compõem as figuras das duas portas e dos dois caminhos. Por exemplo: Como Cristo é a cabeça de uma geração de homens espirituais (servos da justiça), e é a porta estreita; a porta larga também se refere à cabeça de uma geração de homens, porém, de homens carnais, servos do pecado.

Para compreender melhor a figura das duas portas, é essencial compreender que em Cristo, Deus estabelece a sua justiça, de modo que, pela desobediência do primeiro Adão a penalidade da morte foi imposta e todos morreram e, pela obediência do último Adão, a ressurreição veio, portanto, todos que creem são vivificados ( 2Co 15:21 -22).

Ora, se a justiça está na obediência de Cristo e a injustiça na desobediência de Adão, a justiça de Deus é substituição de ato: obediência em lugar da desobediência.

Ora, os nascidos da desobediência são filhos da ira, da perdição; já os filhos da obediência são filhos de Deus.

A relação que há entre Jesus e Adão é nítida em Romanos 5, versos 14 à 19: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos. E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação. Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos”.

Quando observamos os homens: Adão e Cristo, respectivamente, temos a figura e a imagem exata. Enquanto este trouxe a morte, aquele a vida. Enquanto Adão é o primeiro homem, Jesus é o último Adão. Enquanto Adão, que estava vivo, trouxe a condenação na morte, Jesus morreu e trouxe a redenção ( 1Co 15:45 -47).

 

O destino é atrelado ao caminho, e não aos homens

Através das figuras dos dois caminhos, constata-se que os caminhos permanentemente estão atrelados a um lugar, um destino. Através da figura das duas portas, que os homens estão atrelados a uma condição decorrente do seu nascimento: terreno ou espiritual.

Deus não mudará o destino dos caminhos (salvação e perdição) e nem a condição decorrente do nascimento (pecado e justiça), ou seja, há lugar de perdição e lugar de descanso e, perdidos e salvos. Mas, como a condição de nascimento pode ser alterada, Deus roga, pelos seus embaixadores, que os homens porfiem por entrar pela porta estreita “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão” ( Lc 13:24 ); “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

A mensagem dos embaixadores de Cristo é de reconciliação ( 2Co 5:18 ). Na reconciliação há oportunidade, e não preordenação. Em Deus há liberdade, pois liberdade é pertinente ao Espírito de Deus. Se há liberdade diante do espírito que concede vida, certo é que nada foi preordenado quanto ao futuro dos homens, evidenciando assim a soberania e a justiça de Deus que a ninguém oprime “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

O homem sem Cristo está separado de Deus em função do caminho, e não em função de um destino, sina, fado, preordenação, etc. “Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá” ( Sl 1:6 ); “E os teus ouvidos ouvirão a palavra do que está por detrás de ti, dizendo: Este é o caminho, andai nele, sem vos desviardes nem para a direita nem para a esquerda” ( Is 30:21 ).

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Duas portas, dois caminhos

A Bíblia ensina que todos os homens entram pela porta larga, quando vem ao mundo, e estão em um caminho largo, que os conduzirá à perdição.

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A essência da doutrina da predestinação

Deus nunca vinculou a perdição ou a salvação como destino dos homens, antes vinculou a salvação e o destino ao caminho no qual estão, por isso ninguém está predestinado à salvação ou à perdição.


“E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:49)

Ao abrir a madre todos os homens estão predestinados a serem conforme a expressa imagem de seus pais, daí a base da premissa do apóstolo Paulo: ‘… trouxemos a imagem do terreno…’ (1 Co 15:49).

Antes de todos os homens nascerem, já estava determinado qual imagem teriam: a imagem dos seus pais! Ninguém escapa ao que está preordenado, acerca da imagem que os pais transmitem aos seus filhos.

Semelhantemente, assim como todos estão predestinados a herdarem a expressa imagem dos seus pais, em Cristo, também estão predestinados a serem conforme a expressa imagem de Cristo.

Sobre esta verdade, declara o apóstolo Paulo, que Deus predestinou ‘para serem conforme a imagem de seu Filho’, todos   os que creem em Cristo, através da mensagem do evangelho  (Rm 8:29), de modo que todos os que são de novo nascidos, passam a ter a imagem do homem celestial, que é Cristo.

A afirmação de que todos quantos abrem a madre estão predestinados a serem conforme a imagem dos seus pais, remete a Adão, o primeiro homem. Quando Deus criou Adão, ele foi feito alma vivente e, por serem descendentes dele, todos os homens foram feitos almas viventes, de posse da imagem que Adão foi criado.

De Jesus Cristo, o Senhor, é dito que Ele é o último Adão, espírito vivificante e homem celestial. Por intermédio do evangelho, a semente incorruptível, todos os que são de novo gerados, são celestiais e conforme a imagem de Cristo.

A essência da predestinação bíblica vem expressa nestes versos:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais, também, os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:45-49).

Da mesma forma que é impossível os filhos não compartilharem da mesma imagem dos pais, essa impossibilidade se estende aos homens ‘celestiais’. Por causa desta impossibilidade, de ‘terrenos’ e ‘celestiais’ não se desvincularem da imagem que herdam ao nascer, é dito que estão ‘predestinados’.

O verbo grego traduzido por ‘predestinar’ é προορίζω (proorizó), que significa predeterminar, decidir de antemão e foi utilizado nas seguintes passagens bíblicas: Atos 4:28, 1 Corintios 2:7, Romanos 8:29 e Efésios 1:5 e 11.

Ao criar o homem, Deus estabeleceu que os descendentes de Adão seriam conforme a imagem de Adão. Neste quesito, diz-se que Deus ‘προορίζω’, ou seja, deixou estabelecido, preordenou, traçou limites, antes de os descendentes de Adão virem à existência, qual imagem teriam: a imagem do homem terreno.

Por que Deus estabeleceu, de antemão, que a imagem dos celestiais seria conforme a imagem de Cristo, o homem celestial?

O motivo pelo qual os celestiais são conforme a imagem dos celestiais é claro e especifico: para que Jesus Cristo seja o primogênito de Deus entre muitos irmãos!

“Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

 Jesus foi introduzido no mundo na condição de unigênito de Deus, mas, ao ressurgir dentre os mortos, tornou-se o primogênito de Deus. Por quê? Porque, com Cristo, ressurge uma nova criatura todo aquele que crê na verdade do evangelho. Ao crer em Cristo, o homem morre, é sepultado e ressurge uma nova criatura, criada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

Por intermédio de Cristo, o homem alcança a imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26), pois, Cristo é a expressa imagem do Deus invisível, o primogênito de toda Criação e os que creem são feitos à sua expressa imagem e semelhança: “O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênitos de toda a criação” (Cl 1:15).

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que haveremos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é, o veremos” (1 Jo 3:2).

A predestinação dos que creem, para serem semelhantes a Cristo, visa satisfazer o propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo: a preeminência de Cristo em tudo.

O mistério da vontade Deus, diz do beneplácito proposto em Si mesmo, que é tornar a reunir em Cristo todas as coisas!

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Cl 1:18);

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus, como as que estão na terra” (Ef 1:9-10).

A predestinação bíblica é funcional, pois visa o propósito eterno de Deus estabelecido em Cristo: exaltá-lo soberanamente!

“Por isso, também, Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fl 2:9).

Na cultura greco-romana encontramos a concepção fatalista e na cultura grega antiga, temos os mitos, como as Moiras e o estoicismo entre os gregos e romanos.

Essa concepção fatalista acabou por influenciar pensadores cristãos, de modo a pensar que todos os eventos são arquitetados por Deus, ao que nomeiam predestinação, diferenciando do fatalismo, pelo fato de não recorrer a nenhuma ordem natural.

Vale destacar que as correntes filosóficas como o ‘fatalismo’ e a ‘predestinação’ diferem do determinismo, ‘teoria filosófica de que todo acontecimento (inclusive o mental) é explicado pela determinação, ou seja, por relações de causalidade’ Wikipédia.

Enquanto a Bíblia apresenta a predestinação, relacionada com o propósito eterno que Deus estabeleceu na pessoa de Cristo, alguns teólogos, como Agostinho de Hipona e João Calvino, influenciados pelo pensamento greco-romano,  entenderam que a predestinação é doutrina que trata da salvação de alguns e da condenação eterna de outros.

Em nenhuma passagem bíblica, encontramos expresso que Deus predestinou alguém à salvação, antes encontramos que Deus predestinou aqueles que foram de novo gerados pela palavra da verdade, para serem conforme a imagem de Cristo (Rm 8:29). O novo homem, por ser gerado de Deus, alcança a mesma imagem de Cristo, além de ser herdeiro com Ele de todas as coisas.

Quando escreveu aos cristãos de Éfeso, o apóstolo Paulo enfatiza que Deus havia predestinado os cristãos a serem filhos por adoção, o que indica qual é a condição e natureza dos cristãos (Ef 1:5). O objetivo da predestinação, na qual os cristãos são feitos herança, visa o louvor da glória de Deus (Ef 1:11-12), não a salvação.

Uma má leitura do versículo 5, do capítulo 1, da carta de Paulo aos Efésios, dá conta que Deus predestinou os não crentes a serem salvos, porém, o apóstolo diz que Deus predestinou por adoção os santos e fiéis em Cristo, que estavam na cidade de Éfeso, a serem filhos (Ef 1:1).

Quando disse: ‘E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo…’, o apóstolo Paulo utilizou o pronome na primeira pessoa do plural: ‘nos’ (ἡμᾶς), indicando que tanto ele quanto os cristãos estavam predestinados, uma das bênçãos espirituais com que foram abençoados.

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça” (Ef 1:5-6)

É em Cristo que os cristãos são santos e fiéis. É em Cristo que os crentes foram abençoados, com todas as bênçãos espirituais. É em Cristo que os cristãos são eleitos e predestinados! Mas, como os cristãos passaram a estar em Cristo? Quando creram, ao ouvirem “a palavra da verdade, o evangelho da ‘vossa’ salvação” (Ef 1:13).

Os calvinistas e arminianistas erram o público alvo da predestinação, ao entenderem que esta se refere a não crentes em Cristo, sendo que o apóstolo Paulo aponta para a condição dos que creram em Cristo, em decorrência de uma das bênçãos concedidas: a predestinação.

Esperar de antemão (προελπιζω) em Cristo é o mesmo que ser conhecido (προέγνω) de Deus. O único modo de alcançar a salvação em Cristo é crendo no evangelho. Os que esperam em Cristo é porque creram no evangelho. Os que são conhecidos de Deus são aqueles que cumprem o seu mandamento, que é crer em Cristo (1 Co 8:3; 1 Jo 2:3).

Observe:

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Co 8:3);

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

O que concede salvação ao homem é crer no evangelho, que é poder de Deus para salvação (Rm 1:16) e não a predestinação, que concede a imagem de Cristo aos que são salvos pelo evangelho.

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16);

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

A fórmula para a salvação em Cristo, está expressa nos seguintes termos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:8-11).

A Bíblia deixa claro que quem invocar a Cristo será salvo! A salvação em Cristo não segue o viés fatalista que é próprio ao pensamento greco-romano! Ninguém abre a madre predestinado à salvação, antes, ao nascer, entra por uma porta larga, que dá acesso a um caminho largo, cujo destino é a perdição.

O caminho que os homens trilham, quando vem ao mundo, está atrelado à perdição, pois entraram por uma porta larga quando nasceram: Adão. Já o caminho que os gerados de novo trilham está atrelado à salvação, por isso a necessidade de entrar por Cristo, a porta estreita.

Deus nunca vinculou a perdição ou a salvação como destino dos homens, antes vinculou a salvação e o destino ao caminho no qual estão, por isso ninguém está predestinado à salvação ou à perdição.

Todos os homens, quando vêm ao mundo, estão predestinados a serem conforme a imagem de Adão e essa verdade não podem mudar. Entretanto, todos os homens que entrarem no mundo estão em um caminho de perdição e essa condição só pode ser alterada, desde que os homens nasçam novamente.

Nenhum homem escolhe entrar pela porta larga, visto que todos os homens, ao virem ao mundo, entram por ela. A todos que entraram no mundo por Adão e que estão seguindo para a perdição, através do evangelho é ofertada a oportunidade de serem gerados de novo, entrando por Cristo, a porta estreita e o último Adão.

Ao nascer de novo, o homem se livra da condenação, que é próprio ao caminho largo, e atrelado à salvação em Cristo, torna-se participante da natureza divina, predestinado a ser conforme a expressa imagem de Cristo.

Embora ainda não seja manifesto o que haveremos de ser, contudo sabemos que seremos semelhantes a Cristo (1 Jo 3:2), pois o motivo da predestinação bíblica repousa no fato de que Cristo é o primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele:

“O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:45-49).

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Introdução à Hamartiologia – Doutrina do Pecado

Por uma transgressão (παραπτώματι) entrou o pecado (ἁμαρτία), uma falha, um erro, ou seja, a humanidade perdeu a marca, ficou aquém do alvo. Neste sentido, a hamartia diz de uma mancha, um princípio, um poder, um senhor, um reino, etc., que afetou a natureza do homem. Esse significado do termo ἁμαρτία não possui condão ético ou moral, antes aponta para a condição do homem alienado de Deus.


“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12)

Entenda como todos os homens pecaram

Como foi possível todos os homens pecarem? Qual lei transgrediram? Onde, quando e como pecaram? Que ação, ou omissão, fez com que todos pecassem?

 

Introdução

Na frase: ‘… por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12), o termo ‘pecaram’ é tradução do verbo grego ἁμαρτάνω, transliterado ‘hamartano’[1].

Geralmente, os teólogos consideram o significado do termo grego ἁμαρτάνω (hamartano) somente como ‘errar o alvo’, ‘cometer um erro’, ‘cometer um pecado’ (contra Deus), relacionando o termo grego ἁμαρτάνω à transgressão de uma lei, porém, o apóstolo Paulo enfatiza que os gentios ‘pecaram’ (ἁμαρτάνω), mesmo sem lei (ἀνόμως).

Considerando que ‘onde não há lei também não há transgressão’ (Rm 4:15), como é possível os gentios pecarem sem uma lei para transgredirem? Na ausência de lei, o que se espera é que não haja transgressão, porém, o apóstolo Paulo afirma que, mesmo sem uma lei semelhante a lei de Moisés os gentios pecaram, o que nos compele a investigar se há distinção entre ‘transgressão’ e ‘pecado’ e qual a relação entre estes dois termos: “Porque todos os que sem lei (ἀνόμως) pecaram (ἁμαρτάνω), sem lei, também, perecerão; e todos os que, sob a lei, pecaram, pela lei serão julgados” (Rm 2:12).

Se é possível um indivíduo ‘pecar’ mesmo não tendo recebido uma lei semelhante a de Moisés, isso, por si só, demonstra que, o significado do termo grego ἁμαρτάνω quando empregado no Novo Testamento não decorre da transgressão da lei de Moisés, portanto, se faz necessário analisar os significados dos termos αμαρτια e ἁμαρτάνω para compreendermos as várias nuances destas palavras quando empregadas no Novo Testamento.

Neste estudo procuraremos demonstrar que os descendentes de Adão são contados como transgressores porque são filhos da desobediência (Cl 3:6), ou seja, nenhum dos descendentes de Adão teve que desobedecer um mandamento específico de Deus para ser pecador. Todos os homens nascidos de Adão são pecadores em função da morte, maldição que passou a todos, daí o qualificativo ‘filhos da desobediência’.

Também procuraremos demonstrar que o ‘pecado’ atribuído a Adão refere-se a perda da perfeição dada por Deus. A perfeição é o padrão que Deus estabeleceu ao criar o homem, uma espécie de marca dada por Deus ao homem,

 

Qual a definição bíblica de pecado?

Quando o apóstolo Paulo afirmou que, tanto gentios, quanto judeus, estavam debaixo do pecado, citou algumas passagens do Antigo Testamento que evidenciam que os judeus também eram pecadores, assim como os gentios.

Além de evidenciar a condição dos judeus, essas passagens do Antigo Testamento também servem para entendermos o significado do termo αμαρτια (pecado), transliterado ‘hamartia’ quando empregado no Novo Testamento.

“… pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado. Como está escrito:

‘Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus’ ” (Rm 3:9-11).

A preposição ὑφ’ (debaixo) da frase “ὑφ’ ἁμαρτίαν εἶναι” (estão debaixo do pecado) serve para dizer de ‘alguém que trabalha especificamente como servo’, de modo que, ‘estar debaixo do pecado’, significa ‘estar a serviço do pecado’, que, neste verso, é apresentado como senhor de escravos.

‘Estar debaixo do pecado’ (ὑφ’ ἁμαρτίαν εἶναι) ou ‘ser constituído pecador’ (ἀνθρώπου ἁμαρτωλοὶ κατεστάθησαν οἱ πολλοί) é o mesmo que estar ‘extraviado’, ser ‘inútil’.

O apóstolo Paulo demonstra que todos os homens sem Cristo estão a serviço do pecado, e cita as Escrituras para demonstrar o que é estar a serviço do pecado (Rm 3:10-11). Os servos do pecado são injustos e ignorantes (sem compreensão), daí o emprego do adjetivo ‘pecadores’ (ἁμαρτωλός)[2].

O termo hamartia serviu ao propósito de descrever o homem caído, apresentando a humanidade sob o domínio do pecado. Quando o apóstolo Paulo afirmou que ‘todos estão debaixo do pecado’ (Rm 3:9), sendo o termo grego ὑπό (hupo) traduzido por ‘debaixo’, ‘sob autoridade’, e o termo grego ἁμαρτία (hamartia) traduzido por pecado, utilizou as seguintes passagens bíblicas para demonstrar o que é o pecado:

“Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Rm 3:10-12; Sl 14:1-3; Sl 53:1-3);

“A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios” (Rm 3:13; Sl 5:9; Jr 5:16; Sl 141:3);

“Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm  3:14-18; Is 59:7-8; Sl 36:1; Pv 1:16).

O termo hamartia foi utilizado pelo apóstolo Paulo para descrever a humanidade como extraviada (desviada, afastada, perdida, errante) e sem valor (inútil, corrompida, assim como algo que azeda), conforme o que é apresentado pelas Escrituras.

Os versos elencados pelo apóstolo Paulo apresentam a condição da humanidade afetada pelo pecado decorrente da transgressão de um só homem, e o termo grego hamartia serviu ao propósito de revelar esta realidade aos cristãos.

Quando é dito que não há um justo (δίκαιος), significa que não há ninguém conforme o padrão de justiça de Deus (Mq 7:2), ou seja, todos perderam o padrão que Deus concedeu a Adão: a perfeição. Com a ofensa de Adão ocorreu a ‘perda da marca’, ou seja, a hamartia, concomitantemente o homem perdeu a comunhão com Deus.

Quando é dito que não há quem entenda (συνίημι), significa que não há compreensão, conhecimento de Deus, portanto, o homem, sob domínio do pecado, é um ignorante (Ef 4:18). Embora tenha zelo, falta o conhecimento; o conhecimento revelado em Cristo (Rm 10:2-3).

A descrição dos Salmos demonstra que o termo hamartia foi utilizado para descrever a natureza do homem, ressaltando que a humanidade está arruinada por completo.

A garganta do homem descrita no salmo como sepulcro evidencia que a boca do homem sem Deus é plena de maldição e amargura, o que remete ao próprio coração do homem, pois do que há no coração disto fala a boca (Mt 12:34; Jr 17:9). A condição de maldito o homem herda de berço ( Sl 58:3 ), e a bem-aventurança se alcança somente através do novo nascimento.

O profeta Jeremias dá um argumento notável, que se amolda ao significado do termo hamartia: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9), ou seja, a natureza caída do homem (raça de víboras), é incorrigível. Embora saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus o homem é mau (no sentido de sem valor, baixo, ralé), daí a descrição do salmista: inúteis.

A sujeição ao pecado impossibilita o homem de fazer o bem, mesmo que dê ‘boas dádivas’ aos seus semelhantes (Rm 3:12; Rm 7:21).

Portanto, dentre os muitos significados atribuídos ao termo αμαρτια[3] (hamartia) na literatura grega, devemos escolher aquele que melhor estampa a condição da humanidade, como descrita pelo apóstolo dos gentios, em Romanos 3, versos 10 a 18.

Durante a análise do termo, é imprescindível considerar que, na sociedade grega, todas as coisas se definiam pela função[4], de modo que questões éticas[5] ficavam em segundo plano, pois só, tardiamente, tais questões foram abordadas em tratados filosóficos.

Na Grécia Antiga, o verbo ἁμαρτάνω (harmatano), cognato do substantivo ἁμαρτία, era regularmente utilizado para fazer referência à ação de um lanceiro que errava o alvo, ou seja, não atingia a marca pretendida, significando ‘erro’, ‘perda da marca’, ‘errar o alvo’.

Entretanto, estudiosos entendem que o significado ‘perda da marca’ do termo ἁμαρτία não é empregado no Novo Testamento, por considerarem que o termo adquiriu nova significação, em função de questões como ética, moral, culpa, responsabilidade, etc.

Vale destacar que a falha, ou o erro, que o termo ἁμαρτία remete, não está somente no resultado de uma ação, antes permeia a execução da ação por completo, ou seja, engloba toda ação que resulta no erro. Desse modo, a partir do momento que uma lança era empunhada, calculado o ângulo e arremessada, visando a marca pretendida – um alvo – em não o atingindo, ocorria a ἁμαρτία.

No arremesso de uma lança, as intenções boas ou más, não eram preponderantes para a utilização do termo ἁμαρτία, pois, quando um atleta empunhava uma lança com o objetivo de acertar o alvo, tal ação não abrigava viés moral.

Mas, se voltarmos no tempo, veremos que a postura tradicional da Grécia homérica, era a culpa coletiva, pois se acreditava que a ἁμαρτία era ‘uma mancha que se espalhava’ e afetava o génos (família, clã, grupo familiar ou descendência), ou seja, a consequência da falta de um indivíduo recaia sobre todos os seus parentes e descendentes (pessoas ligadas por laços de sangue), tanto com relação ao parentesco sagrado (pais, filhos, netos ou irmãos) quanto ao parentesco profano (esposos, cunhados, sobrinhos e tios).

Como a ‘arte imita a vida’, nas tragédias gregas, o termo hamartia era utilizado para retratar a ação ou omissão do herói[6] não por falha de caráter ou por maldade. A hamartia, na verdade, apontava para uma maldição que envolvia o herói grego, por causa de um vínculo de sangue com um antepassado amaldiçoado.

As tragédias gregas refletiam o pensamento dos gregos antigos, de que a realidade existencial era perfeita e difícil de explicar ou de descobrir, tanto que a religião olímpica afirmava a existência de um equilíbrio e harmonia que regia a tudo e a todos, em uma espécie de estado universal em perfeição.

Quando havia alguma mudança ou desvio no ‘status quo’ da perfeição, o equilíbrio devia ser restaurado. É neste cenário que o termo hamartia era utilizado com relação ao herói trágico, pois o equilíbrio precisava ser restaurado, mas o herói, apesar de ser integro, de boa índole, invariavelmente, falhava ao tentar recompor a perfeição e o equilibro existencial perdido.

A falha do herói trágico não decorre de violações legais e nem por faltas de cunho moral. O resultado das ações do herói, na tentativa de recompor o equilíbrio, é sempre indesejável em função da hamartia, uma maldição que permeia a existência do herói, mas que ele desconhece (ignora).

Do ponto de vista teológico, os estudiosos não abordam a questão da hamartia como uma ‘mancha que se espalha’, ou do ponto de vista do ‘erro trágico’, e acabam por preferir o conceito de hamartia presente na obra aristotélica ‘Ética a Nicômaco’, em detrimento do conceito estético presente na ‘Poética’, obra do mesmo autor.

Daí a pergunta: Qual definição de ‘hamartia’ adotar ao ler o Novo Testamento?

 

Adão

Adão transgrediu a lei que Deus deu no Éden (Gn 2:16-17) e a ação dele, contrária àquele mandamento específico, é designada pelo apóstolo Paulo como transgressão (παράπτωμα). Em outras palavras, a ‘ofensa’ de Adão foi uma ação deliberada, em oposição ao mandamento de Deus, que envolve dolo e responsabilização.

De Adão é dito que ‘transgrediu’ (Rm 5:18), porque não deu ouvidos à palavra de Deus (desobedeceu- παρακοῆς, cf. Rm 5:19). Também é dito que, por Adão, entrou o pecado (ἁμαρτία) no mundo (Rm 5:12).

Daí surge a pergunta: a transgressão (παράπτωμα) de Adão em não dar ouvidos a palavra de Deus é ἁμαρτία, ou resultou na ἁμαρτία?

É comum confundirem a ‘transgressão’ com o ‘pecado’, porém a παράπτωμα precede a ἁμαρτία, e esta decorre daquela. Concomitantemente, Adão transgrediu e pecou, ou seja, desobedeceu e perdeu o padrão de perfeição que possuía.

O verbo grego ἁμαρτάνω traduzido por ‘pecou’, com relação a Adão, não encerra, em si, uma ação contrária ao mandamento de Deus (Rm 5:16), mas à perda da marca, à perda do padrão concedido por Deus. Adão errou ao desobedecer, daí a culpa e responsabilização e, agregado ao erro, tornou-se injusto, ou seja, perdeu o padrão de justiça concedido por Deus.

Se considerarmos que ‘hamartia’ diz de um ‘erro’, conforme a definição do dicionário VINE: ‘originalmente vinculado ao arremesso de lança (significando errar ou não atingir o alvo)’, certo é que, ao transgredir o mandamento de Deus, Adão errou, ou seja, neste sentido pode-se dizer que Adão ‘pecou’, ‘errou o alvo’.

Entretanto, a ideia contida no verso 16, de Romanos 5 ao afirmar que Adão pecou (ἁμαρτήσαντος) não remete ao erro de ter transgredido o mandamento, mas à condição de extraviado, de inútil.

Vale destacar que há termos gregos que servem para designar o erro, como o termo grego πλάνη (plané), que significa erro, desvio, errante, vaguear, coxear, etc., e que poderia ter sido utilizado pelo apóstolo para descrever o comportamento de Adão, contrário ao mandamento de Deus, assim como foi utilizado em Romanos 1, verso 27.

Se considerarmos o argumento de que a hamartia ‘entrou’ no mundo por um homem, o significado do termo traduzido por ‘erro’, apresentado pelo dicionário VINE, fica aquém da ideia apresentada pelo apóstolo Paulo, vez que após entrar no mundo a hamartia, a morte (aguilhão) também entrou, e por causa da morte é dito que todos pecaram.

Percebe-se que o significado da hamartia, no capítulo 5 de Romanos, possui mais relação com a postura tradicional da Grécia homérica ‘uma mancha que se espalha’[7] e afetava o génos[8] em função do vínculo de sangue que o clã tinha com o faltoso, do que com o erro em função de não ter atingido um alvo.

É só de Adão, que a Bíblia diz, especificamente, que transgrediu (παράπτωμα) um mandamento; transgressão que trouxe consequências para toda a humanidade, pois é dito que ‘por uma transgressão’ entrou o pecado no mundo.

Se entendermos a hamartia como ‘erro’ ou ‘transgressão’, cada indivíduo que viesse ao mundo, teria que transgredir um mandamento à semelhança de Adão. Entretanto, o significado do termo hamartia transcende a ideia de uma transgressão (παράπτωμα) ou de um erro (πλάνη), pois atinge, indistintamente, a todos os descendentes de Adão, por ‘personæ sanguine conjunctæ’ (pessoas ligadas por laços de sangue), vez que a morte passou a todos.

Os descendentes de Adão são contados como transgressores porque são filhos da desobediência (Cl 3:6), ou seja, nenhum dos descendentes de Adão teve que desobedecer um mandamento específico de Deus para ser pecador. Todos são pecadores em função da morte, maldição que passou a todos pelo vínculo de sangue com Adão, daí filhos da desobediência.

Vale salientar que, para os descendentes de Adão transgredirem à semelhança de Adão, seria necessário:

  • Não estarem sujeitos ao pecado e à morte, o que é impossível, visto que foram concebidos em pecado (Sl 51:5);
  • Receberem um mandamento que os alertasse das consequências da transgressão.

No entanto, os descendentes de Adão estão sob o domínio de um senhor – o pecado – que tem por aguilhão a morte, situação completamente diferente da de Adão, quando foi criado.

Após o mandamento no Éden, Deus deu mais dois mandamentos:

  • Através de Moisés, para conscientizar os judeus de que eles também eram pecadores como os gentios, e;
  • O evangelho, que livra do pecado e da morte a todos quantos creem, portanto, é impossível a qualquer descendente de Adão transgredir à semelhança de Adão.

A lei de Moisés serviu de ‘aio’ – guia, mestre – para conduzir os homens a Cristo e o mandamento de Deus no Evangelho, não envolve condenação, pois Cristo mesmo evidenciou que não veio julgar o mundo, mas salvá-lo (Jo 14:47). O mundo já foi julgado e condenado (Rm 5:18), portanto, a lei só evidencia a condição do homem perdido (Rm 3:20).

Adão desobedeceu ao mandamento de Deus e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, de modo que, pela transgressão (παραπτώματι), entrou o pecado (ἁμαρτία) no mundo, e pelo pecado a morte: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse…” (Rm 5:17); “Porque, assim como a morte veio por um homem (…) Porque, assim como todos morrem em Adão…” (1Co 15:21-22); “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16-17).

Por uma transgressão (παραπτώματι) entrou o pecado (ἁμαρτία), uma falha, um erro, ou seja, a humanidade perdeu a marca, ficou aquém do alvo. Neste sentido, a hamartia diz de uma mancha, um princípio, um poder, um senhor, um reino, etc., que afetou a natureza do homem.  Esse significado do termo ἁμαρτία não possui condão ético ou moral, antes aponta para a condição do homem alienado de Deus.

 

Hamartano (ἁμαρτάνω)

No capítulo 2, verso 12, o apóstolo Paulo diz que ‘todos que sem lei pecaram, sem lei também perecerão’. Observe que ele não utiliza o termo transgressão (παραπτώματι), mas o termo ἁμαρτάνω (hamartano), para ‘pecaram’.

Ele não diz que todos transgrediram, mas, sim, que todos pecaram, o que demonstra que o verbo hamartano, refere-se à perda da marca concedida por Deus, e não à transgressão de uma lei, ou a erros de cunho moral ou de caráter.

O apóstolo demonstra, no mesmo verso, que, mesmo os judeus, que estavam sob o domínio da lei, pecaram ἁμαρτάνω, ou seja, estavam fora do padrão de justiça estabelecido por Deus. O termo hamartano não foi utilizado para relatar que os judeus transgrediram a lei, mas, sim para descrevê-los em sujeição ao pecado.

Quando é dito que os judeus ‘pecaram’, devemos entender que eles estavam fora do padrão de justiça estabelecido por Deus, ou seja, que eram injustos, tanto que a lei foi entregue a eles: “Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas” (1Tm 1:9; Dt 9:4). Aqui vai um adendo, para esclarecer que essa é uma linguagem enigmática, pois o homicídio se refere à morte espiritual do indivíduo, perpetrada pelo engano, ou por uma indisposição de contrariar a palavra dada por Deus.

Os judeus, assim como os gentios, perderam a perfeição, perderam a marca (padrão), por isso é dito que pecaram. A lei foi dada para demonstrar que os judeus também eram contados entre os ‘transgressores’, um modo de revelar que eram injustos e obstinados, pois também são filhos da desobediência: “Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade, a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro” (Gl 3:19).

Das oito palavras base para falar das questões relativas ao pecado no Antigo Testamento, os termos hebraicos ןוֹועָ (avon) e אטְחֵ (chet) remetem à ideia de uma maldição, decorrente de um vínculo de sangue:

“Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5).

Os termos avon e chet – ambos significando perversidade, iniquidade, pecado – são intercambiáveis, considerando o paralelismo sintético construtivo ou formal, visto que a segunda parte do verso 5 do Salmo 51 amplia ou acrescenta nova ideia à asserção anterior.

Por intermédio de Moisés, Deus demonstra que não se esquece da condição do homem no pecado (visito), pois a condição do homem se perpetua, indefinidamente, através das gerações (terceira e quarta).

“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Êx 20:5).

Para o homem livrar-se do pecado de Adão, era necessária a circuncisão do coração, ou seja, morrer para o pecado e não a circuncisão do prepúcio, uma marca física.

Quando os judeus receberam a lei, já estavam sob o domínio do pecado, de modo que foi dito que, para obterem vida, era necessário observar o que estava sendo prescrito por Deus, o que demonstra que estavam presos ao pecado, por causa da morte: “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR” (Lv 18:5).

Mas, por intermédio da lei, era impossível ao homem obter vida, pois havia uma obrigação para os mortos alcançarem vida: “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” (Gl 3:12). Ora, se a lei não é da fé, segue-se que tudo o que não é proveniente da fé é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23).

Na definição do apóstolo, o termo ‘fé’ não se refere à crença (πιστεύω-pisteuó) do homem, antes diz de Cristo, que foi enviado por Deus. Tudo que não é proveniente de Cristo, a ‘fé’ manifesta na plenitude dos tempos, é pecado (ἁμαρτία): Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé, que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

Com lei ou sem lei, todos pecaram (Rm 3:23), o que demonstra que não se aplica ao termo hamartano a ação do verbo παραπτώματι (transgressão), antes a transgressão (παραπτώματι) de um homem resultou em uma queda, que comprometeu todos os homens, igualmente.

No verso 25 de Romanos 4, o apóstolo Paulo utiliza o termo παράπτωμα[9] (paraptóma), traduzido por ‘pecados’, demonstrando que Jesus morreu pelo παράπτωμα, ou seja, o termo aponta para um erro que não decorre de questões morais, comportamentais e nem de caráter.

Onde ocorreu o desvio, ou seja, a παραπτωμα (paraptóma)? No Éden, ou seja, na madre, como se lê: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3). É por esse desvio que Jesus morreu, vez que todos necessitam nascer de novo!

O pecado (ἁμαρτία), que entrou no mundo (κόσμος-kósmos), decorre da transgressão (παραπτώματι) de um só homem, portanto, nesse contexto, a hamartia não pode ser confundida com a ação de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, antes a hamartia resultou daquela ação.

A transgressão de lançar mão do fruto e comer, muitos rotulam como ‘pecar’, porém, quando é dito que ‘um só pecou’, a ideia do termo ‘pecou’, no texto, é ‘perda da marca’, ou seja, ‘ficar aquém do padrão’. Quando é dito que ‘um só pecou’, significa que um só perdeu a marca, por conseguinte, todos perderam; um se fez inútil, todos foram feitos inúteis. A marca ou o padrão que Adão perdeu, quando é dito que ‘pecou’, diz da perda da perfeição concedida por Deus.

Quando o apóstolo Paulo pergunta se o cristão há de ‘pecar’ por não estar sujeito à lei (Rm 6:15), o termo ‘pecar’ é tradução do verbo ἁμαρτάνω (hamartano). A discussão do apóstolo é existencial, e não comportamental, assim como a abordagem de Jesus:

“Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34).

A pergunta: ‘Havemos de pecar?’, é o mesmo que: ‘Permaneceremos no pecado’? (Rm 6:1). Quem está morto para a ἁμαρτία, já não vive para a ἁμαρτία, antes vive para Deus (Rm 6:2), de modo que, se o corpo que pertence ao pecado foi desfeito, é impossível servir ao pecado, portanto, é impossível pecar (Rm 6:6).

Ao ser crucificado com Cristo, o homem deixa de estar debaixo (ὑπό hupo, traduzido por ‘debaixo’, ‘sob autoridade’) do pecado, portanto, não peca (Jo 3:6). O verbo hamartano foi utilizado pelo apóstolo João para demonstrar que aquele que permanece sob autoridade de Cristo, não perde a marca, ou seja, o padrão de justiça imputado através de Cristo é conservado. Pecar é perder o padrão, o que é contraponto a conservar, manter inalterado, intacto.

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo e o maligno não lhe toca” (1Jo 5:18).

A discussão que o apóstolo Paulo introduz, no capítulo 5 de Romanos, não tem relação com a prática de ações inconvenientes reprováveis, segundo a moral e as leis dos homens (Rm 1:27), ou dos tropeços a que todos estão sujeitos (Tg 3:2), onde as questões de cunho comportamental devam ser consideradas.

A ideia discutida, tem relação com o senhorio da justiça ou do pecado (Rm 6:17), vez que aqueles que pecam pertencem ao diabo (1Jo 3:8) e os que não pecam pertencem a Deus (1Co 6:20). Por outro lado, os filhos de Deus não (impossibilidade) pecam (perder o padrão, a marca), pois a semente de Deus permanece em seus filhos (1Jo 3:9).

A questão é de domínio da justiça ou do pecado, portanto, não se trata de questões éticas, de moral, de culpa, de responsabilidade, etc.

Aquele que está morto com Cristo, está livre (δικαιόω)[10] do pecado (Rm 6:7), no sentido de estar em conformidade com o padrão de justiça que há em Cristo. Por que livre do pecado? Porque é livre do aguilhão (morte) (Rm 6:9), que prende o homem no pecado (Rm 6:14; Hb 2:15).

Quando se questiona: ‘Havemos de pecar por não estarmos debaixo da lei?’ (Rm 6:15), a pergunta não se refere a fazer coisas inconvenientes do ponto de vista moral, mas sim, se o crente em Cristo, por não estar debaixo da lei, mas da graça, se não teria o padrão de justiça tal como é exigido por Deus (Rm 6:18).

Esta mesma verdade verifica-se na seguinte premissa:

“Todo aquele que comete[11] pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34).

A ênfase do período está na sujeição do homem ao pecado como servo e não no comportamento inconveniente ou depravado, visto que Jesus estava tratando com religiosos.

O termo grego ποιεω (poieo), comumente traduzido por ‘comete’, dá ideia de ação contrária a um mandamento, porém, o termo grego possui diversos significados, dependendo do contexto.

O problema dos interlocutores de Jesus não eram as suas ações, mas, sim, o fato de que eram guiados, ou seja, ‘levados a fazer algo’, ou ‘fazer algo a partir de alguma coisa’, que, no texto em comento, é o pecado, o que nos remete à explicação do apóstolo Paulo:

“Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei do pecado, que está nos meus membros” (Rm 7:21-23).

Os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de Deus (Rm 8:14) e os filhos da desobediência, guiados pelo pecado. A carne milita contra o Espírito e o Espírito contra a carne, para terem domínio sobre o homem, ou seja, para que não realizem o seu próprio querer (Gl 5:17).

‘Pecar’ é consequência da sujeição ao pecado: – O homem é escravo do pecado e, por ser servo, ‘peca’. Tal afirmação não comporta o argumento como motivo, só como consequência, até porque, em função da transgressão de Adão: “… não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e nunca peque” (Ec 7:20).

É por isso que é dito: “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” (Jó 14:4). Embora saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus o homem é mal, vil, ralé, baixa estirpe (Mt 12:34). A árvore má só produz maus frutos, semelhantemente o pecador: todos os seus pensamentos e ações estão comprometidos, pois o homem está sob o domínio da ἁμαρτάνω. Tudo que o homem faz com os seus membros, quando sob domínio do pecado é o mal, até as boas dádivas aos semelhantes (Rm 7:19).

Por definição, os escravos do pecado praticam o pecado e os servos da justiça praticam a justiça (1Jo 3:4 e 7), vez que um servo não pode servir a dois senhores (Mt 6:24), de modo que, a expressão ‘aquele que comete pecado’, deve ser entendida como aquele que está sujeito (escravo) ao pecado – ὑφ’ ἁμαρτίαν -, ou seja, ὑφ’  significa ‘em poder de’, ou, ‘sob a autoridade’ do pecado (Rm 3:9).

Quando lemos: “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou” (Rm 5:16), o termo ἁμαρτήσαντος traduzido por ‘pecou’ não se refere a transgressão (παραπτώματι) da lei no Éden, mas, sim à perda da marca, que afetou todos os descendentes de Adão.

A hamartia que entrou no mundo, se assemelha à falha que afeta o herói trágico, à chamada ‘falha aristotélica’ ou ao ‘erro trágico’, que se dá pela ignorância do herói, e não por falha de caráter. Diante desta perspectiva, não importa o que o homem faça para livrar-se da sua condição desventurosa, sempre estará fadado ao erro.

Além do pecado e da morte, a transgressão também introduziu no mundo questões relativas ao bem e ao mal, pois o bem e o mal é conhecimento produzido pelo fruto da árvore que estava no meio do jardim. O conhecimento do bem e do mal, por sua vez, não é a hamartia, pois o próprio Deus é conhecedor do bem e do mal.

A hamartia que entrou no mundo não está vinculada ao conhecimento do bem e do mal, mas, sim à transgressão. Essa hamartia assemelha-se à mancha que se espalha em função do vínculo de sangue. Tem mais relação com o conceito estético da Poética do que com a abordagem filosófica da Ética a Nicômaco.

Quando foi dito pelo apóstolo Paulo que ‘todos pecaram’, é comum o entendimento de que ‘pecaram’ porque todos cometeram atos (ação ou omissão) contrários à lei de Deus.

Inúmeras concepções doutrinárias equivocadas, como a que diz que o homem aprende[12] a pecar, ou que o ensinamento de que o homem herda o pecado de Adão, remove do pecador a responsabilidade dos seus erros, surgem da má leitura do termo hamartia.

Há quem confunda inocência[13] com ‘não sujeição ao pecado’, que ser inocente é o mesmo que ser justo e se esquece do alerta que diz: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples (inocente) passam e sofrem a pena” (Pv 27:12).

Sabemos que Deus não destrói o justo com o ímpio (Gn 18:23-25). Quando Deus prometeu que não destruiria Sodoma e Gomorra se lá houvesse dez justos (Gn 18:32), apesar dos inúmeros inocentes que haviam na cidade, Deus não teve as crianças como justas, pois as duas cidades foram destruídas.

 

Todos pecaram

Assim como é dito que um fruto ‘pecou’ quando não ‘vinga’ e é impróprio para o consumo, devemos entender que o termo ‘todos pecaram’, como ‘todos perderam a marca’, o padrão de qualidade, ou seja, são inúteis, reprováveis, impróprios, etc.

O apóstolo Paulo utilizou o termo grego ἁμαρτάνω para enfatizar que a humanidade está aquém do padrão exigido por Deus, portanto, são inúteis:

“ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον” (Rm 5:12)

“em que todos pecaram” (Rm 5:12)

Quando o apóstolo Paulo diz: ‘… em que todos pecaram’ (Rm 5:12), fez uma releitura do Salmo 53, para demonstrar que, tanto judeus quanto gregos, estavam sob o pecado, portanto judeus e gentios são inúteis: “Porque em Jesus Cristo, nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (Gl 5:6); “A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” (1Co 7:19).

 “πάντες ἐξέκλιναν

ἅμα ἠχρεώθησαν[14](Rm 3:12; Sl 53:3);

‘Todos se desviaram, juntos se fizeram inúteis’ (Rm 3:12).

O termo grego ‘ἥμαρτον’ (pecaram), no contexto de Romanos 5, não se refere a nenhuma ação ou omissão, antes diz da condição da humanidade afetada pelo pecado e pela morte, que entram no mundo. Por causa de um motivo específico que é dito ‘todos pecaram’: porque a morte passou a todos os homens e não por terem transgredido um mandamento! “… e assim a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12)

Como a morte passou a todos os homens, é dito que todos pecaram, ou seja, estão em falta, são inúteis, de modo que são impróprios para o objetivo para o qual foram criados.

Quando disse que ‘todos pecaram’, o apóstolo Paulo demonstrou que o homem está aquém do exigido por Deus, no sentido de que “não atingiu a marca”, sem amalgamar à ideia questões de culpa, consciência, responsabilidade, etc.

A ‘marca’, neste caso, diz de um padrão de perfeição (τέλειος[15]-teleios), que deve ser entendido do ponto de vista funcional e não do ponto de vista moral.

O apóstolo Paulo não enfatizou que todos são pecadores, porque transgrediram um mandamento específico, antes, é dito que, como a morte passou a todos os homens, todos são imundos, inúteis, impróprios, ou seja, pecaram (ἥμαρτον), condição que independe de consciência, culpa, ação/omissão ou responsabilidade: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5:12).

A morte passou a todos os homens, de modo que: “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” (Mq 7:4). Daí a máxima: ‘Não há entre os homens um que seja justo’ (Mq 7:2; Sl 53:3).

Os espinhos são inúteis e só servem para serem queimados: “E os povos serão como as queimas de cal; como espinhos cortados arderão no fogo” (Is 33:12).

Da mesma forma que é dito que um fruto pecou, quando impróprio para consumo, assim os homens são impróprios para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Por causa da pena estabelecida no Éden: a morte, é dito que todos pecaram.

Qual o propósito de Deus para o homem?

O propósito de Deus é a preeminência de Cristo, pelo que Deus o fez primogênito entre muitos irmãos e o mais sublime dos reis da terra: “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27).

Em Israel cumpre-se o propósito de estabelecer Cristo como o mais sublime dos reis da terra, pois se assentará sobre o trono de Davi, e na Igreja cumpre-se o propósito da primogenitura de Cristo, pois são conduzidos a Deus muitos filhos que serão semelhantes a Ele (1Jo 3:2).

Os homens são pecadores no sentido de impróprios para o que foram criados, pois Deus é vida e o homem está morto. Daí a necessidade de nascerem de novo da semente incorruptível que é a palavra de Deus.

Por serem descendentes de Adão, também é dito nas Escrituras que todos os homens são ‘mentirosos’. Não significa que todos os homens são desonestos e faltam com a verdade com os seus semelhantes, antes são mentirosos, no sentido de serem impróprios para o que foram criados: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e venças quando fores julgado” (Rm 3:4); “Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos” (Sl 116:11).

Os filhos de Israel eram designados por Deus como mancha, mentirosos, corrompidos, perversos, etc., no sentido de não terem parte com Ele, no sentido de serem adversários: “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9); “Corromperam-se contra Ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5).

Todos os homens se fizeram inúteis em Adão, ou seja, ‘pecaram’ (Sl 58:3), pois, toda a humanidade estava unida no lombo de Adão, assim como Levi estava no lombo de Abraão, quando este deu dízimo a Melquisedeque: “Porque ainda ele estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hb 7:10).

Conclui-se, portanto, que, quando o apóstolo Paulo deixou registrado que todos pecaram, não fez referência à ação ou omissão de indivíduos, antes, estava indicando que, por serem descendentes de Adão, todos os homens estavam em pecado: mortos, separados de Deus, portanto, impróprios, inúteis, aquém da marca.

 


[1] “264 αμαρτανω hamartano talvez de 1 (como partícula negativa) e a raiz de 3313; TDNT – 1:267,44; v 1) não ter parte em 2) errar o alvo 3) errar, estar errado 4) errar ou desviar-se do caminho da retidão e honra, fazer ou andar no erro 5) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado” Dicionário Bíblico Strong; “hamartanô (desde Homero) significava originalmente, “errar”, “errar o alvo”, “perder”, “não participar de alguma coisa”, “enganar-se”. O conceito gr. do erro tem orientação intelectual. O subs. cognato é hamartia (desde Ésqu.), “erro”, “falta de alcançar um alvo” (mormente espiritual). O resultado desta ação é hamartêma, “fracasso”, “erro”, “ofensa” cometida contra os amigos, contra o próprio corpo, etc. Derivaram-se daí (no século V a.C.) o adj. e o subs. hamartólos, “coisa ou pessoa que falha” ; em Aristóf. ocorre como barbarismo que se emprega em tom depreciativo e irônico, hamartètikos (a forma melhor) também é raro, e de data posterior. A raiz hamart-, com seu significado de “fracassar”, produziu muitos compostos populares, e.g. hamartinoos, “louco”. 1. No mundo de língua grega, o subs. hamartèma prevaleceu sobre o vb. hamartano. Aristóteles o colocava entre adikèma, “injustiça”, e atychéma, “infortúnio”, como ofensa contra a ordem estabelecida, mas sem intenções malignas, i.é, sem kakia, “maldade”, “perversidade” (Eth. Nic. 5,8, 1135b 18)” Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000.

[2] “268 αμαρτωλος hamartolos de 264; TDNT – 1:317,51; adj 1) dedicado ao pecado, um pecador 1a) não livre de pecado 1b) pre-eminentemente pecador, especialmente mau 1b1) homens totalmente malvados 1b2) especificamente de homens marcados por determinados vícios ou crimes 1b2a) coletores de imposto, pagão, idólatra” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “266 αμαρτια hamartia de 264; TDNT – 1:267,44; n f 1) equivalente a 264 1a) não ter parte em 1b) errar o alvo 1c) errar, estar errado 1d) errar ou desviar-se do caminho de retidão e honra, fazer ou andar no erro 1e) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado 2) aquilo que é errado, pecado, uma ofensa, uma violação da lei divina em pensamento ou em ação 3) coletivamente, o conjunto de pecados cometidos seja por uma única pessoa ou várias Sinônimos ver verbete 5879” Dicionário Bíblico Strong; “I. hamartia (ἁμαρτία) é, literalmente, “perda da marca”, mas este significado etimológico quase que se perdeu por completo no Novo Testamento” Vine, W. E., e outros, Dicionário VINE, O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento, Tradução Luís Aronde Macedo, Ed. CPAD, 2002; “Hamartia significa ‘erro’, nem mais nem menos. Originalmente vinculado ao arremesso de lança (significando errar ou não atingir o alvo), passou a ser usado para qualquer tipo de engano, desde tropeçar em uma pedra até deixar escapar a palavra errada ou simplesmente criar um mal entendido. Na filosofia grega, imperfeição moral podia ser descrita como hamartia, significando ‘não alcançar’ o ideal em pensamento ou conduta” MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2000. Pág. 28.

[4] “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (ARISTÓTELES, 2011, p. 22).

[5] “A ideia de que moralidade e ética podiam ser codificadas era recente, mesmo nos dias de Aristóteles, e resultava menos de um impulso para prescrever ou pregar do que da incessante indagação de questões e proposição de soluções que caracterizavam o início da filosofia grega” MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2000, pág. 13.

[6] “Resta, portanto, a situação intermediária. É a do homem que não se distingue muito pela virtude e pela justiça; se cai no infortúnio, tal acontece, não porque seja vil e malvado, mas por força de um erro; e esse homem há de ser algum daqueles que gozam de grande reputação e fortuna, como Édipo, Tiestes ou outros insignes representantes de famílias ilustres. É, pois, necessário que um mito bem estruturado seja antes simples do que duplo, como alguns pretendem; que nele se não passe da infelicidade para a felicidade, mas, pelo contrário, da dita para a desdita; e não por malvadez, mas por algum erro de uma personagem, a qual, como dissemos, antes propenda para melhor do que para pior” Souza, Eudoro de. A Poética de Aristóteles: tradução e comentários. Porto Alegre: Editora Globo, 1966, cap. 13 – 1453ª, 7-22.

[7] “… um ato perigoso, cometido porque o agente não é conhecedor de alguma circunstância vital. A essência da hamartía é a ignorância combinada com a ausência de intenção criminosa” Hirata, Filomena Yoshie, Anais de Filosofia Clássica, vol. 2, nº 3, A hamartía aristotélica e a tragédia grega, 2008

[8] “Quanto à génos pode o vocábulo ser traduzido, em termos de religião grega, por “descendência, família, grupo familiar” e definido como personae sanguine coniunctae, quer dizer, pessoas ligadas por laços de sangue. Assim, qualquer falta, qualquer hamartía cometida por um génos contra o outro tem que ser religiosa e obrigatoriamente vingada. Se a hamartía é dentro do próprio génos, o parente mais próximo está igualmente obrigado a vingar o seu sanguine coniunctus. Afinal, no sangue derramado está uma parcela do sangue e, por conseguinte, da alma do génos inteiro. Foi assim que, historicamente falando, até a reforma jurídica de Drácon ou Sólon, famílias inteiras se exterminavam na Grécia. É mister, no entanto, distinguir dois tipos de vingança, quando a hamartía é cometida dentro de um mesmo génos: a ordinária, que se efetua entre os membros, cujo parentesco é apenas em profano, mas ligados entre si por vínculo de obediência ao gennétes, quer dizer, ao chefe gentílico, e a extraordinária, quando a falta cometida implica em parentesco sagrado, erínico, de fé — é a hamartía cometida entre pais, filhos, netos, por linha troncal e, entre irmãos, por linha colateral. Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens. No primeiro caso, a vingança é executada pelo parente mais próximo da vítima e, no segundo, pelas Erínias” Brandão, Junito de Souza, Mitologia Grega, Vol. 1, Editora Vozes, Petrópolis, 1986, pág. 77.

[9] “3900 παραπτωμα paraptoma de 3895; TDNT – 6:170,846; n n 1) cair ao lado ou próximo a algo 2) deslize ou desvio da verdade e justiça 2a) pecado, delito. Sinônimos ver verbete 51”, e; “51 αγνοημα agnoema de 50; TDNT 1:115,18; n n 1) um pecado cometido por ignorância ou descuido” Dicionário Bíblico Strong.

[10] “1344 δικαιοω dikaioo de 1342; TDNT – 2:211,168; v. 1) tornar justo ou com deve ser 2) mostrar, exibir, evidenciar alguém ser justo, tal como é e deseja ser considerado 3) declarar, pronunciar alguém justo, reto, ou tal como deve ser” Dicionário Bíblico Strong.

[11] “4160 ποιεω poieo aparentemente forma prolongada de uma palavra primária arcaica; TDNT – 6:458,895; v 1) fazer 1a) com os nomes de coisas feitas, produzir, construir, formar, modelar, etc. 1b) ser os autores de, a causa 1c) tornar pronto, preparar 1d) produzir, dar, brotar 1e) adquirir, prover algo para si mesmo 1f) fazer algo a partir de alguma coisa 1g) (fazer, i.e.) considerar alguém alguma coisa 1g1) (fazer, i.e.) constituir ou designar alguém alguma coisa, designar ou ordenar alguém que 1g2) (fazer, i.e.) declarar alguém alguma coisa 1h) tornar alguém manifesto, conduzi-lo 1i) levar alguém a fazer algo 1i1) fazer alguém 1j) ser o autor de algo (causar, realizar) 2) fazer 2a) agir corretamente, fazer bem 2a1) efetuar, executar” Dicionário Bíblico Strong.

[12] “É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente, onde ninguém cria objeção alguma” Shedd, Russell P., Lei, Graça e Santificação, São Paulo: Ed. Edições Vida Nova, 1990, pág. 99.

[13] “2. Jesus não herdou a mancha do pecado, porque nenhuma criança herda o pecado. A pureza de Jesus, quando nasceu, nada tinha a ver com qualquer Imaculada Conceição de sua mãe para quebrar a maldição herdada do pecado. A culpa não é herdada, nem por Jesus, nem por nossos filhos ou netos” Dennis Allan, artigo disponível na Web < http://www.estudosdabiblia.net/d34.htm > Consulta realizada em 23/08/15; “É claro que a referência não pode ser a pecados efetivos, mas somente a pecados potenciais, já que a criancinha ainda não desenvolveu sua consciência moral nem sua responsabilidade (…) Todos os seres humanos são “por natureza filhos da ira” (Ef 2:3), porque todos nascem com a tendência para o pecado, mas não nascem em pecado na realidade. A condenação que recai sobre cada um que vem à raça adâmica é uma culpa judicial, não uma culpa pessoal. Todos estão condenados diante de Deus porque “todos pecaram” em Adão, nosso representante (Rm 5:12)” Norman Geisler – Thomas Howe, Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia, Editora Mundo Cristão.

[14] “889 αχρειοω achreioo de 888; v 1) tornar inútil, corromper-se 1a) de caráter” Dicionário Bíblico Strong.

[15] “A ideia grega de perfeição é funcional. Uma coisa é perfeita quando se realiza plenamente o propósito para o qual foi planejado, projetado e feito. Na verdade, esse significado está envolvido na derivação da palavra. O adjetivo teleios é formado a partir do substantivo telos. Telos significa um fim, um propósito, um objetivo, uma meta. Uma coisa é teleios, se realiza a finalidade para a qual foi planejado, um homem é perfeito se ele percebe o propósito para o qual foi criado, e enviado ao mundo. Tomemos uma analogia muito simples. Suponha que na minha casa há um parafuso solto, e eu quero apertar e ajustar esse parafuso. Eu saio para comprar uma chave de fenda. Acho a chave de fenda que se encaixa exatamente no aperto da minha mão, não é nem muito grande nem muito pequena, muito áspero, nem muito suave. Eu coloco a chave de fenda na ranhura do parafuso, e eu vejo que se encaixa exatamente. Eu, então, giro o parafuso e o parafuso é fixado” Barclay, W: O Estudo Diário da Bíblia Series, Rev. ed Filadélfia: A imprensa de Westminster ou Logos.

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Por que o homem precisa de salvação?

Para compreender o motivo pelo qual o homem precisa de salvação se faz necessário saber como, quando, onde e porque se está condenado e qual pena foi estabelecida. É necessário compreender como Deus justifica aquele que está condenado sem invalidar a sua justiça e o porquê da necessidade de um salvador. Por fim, se faz necessário identificar a verdadeira causa do sofrimento da humanidade.


“Por que o homem precisa de salvação?” é uma explicação sucinta do plano da salvação para que fique claro o porquê e por quem Jesus morreu, ou antes, ressurgiu dentre os mortos. Que fique claro que Ele não veio condenar o mundo, mas veio salvá-lo “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” ( Jo 3:17 ).

Todos passam por muitos problemas e sofrimentos nesta existência, mas estes não são os motivos pelos quais o homem precisa de salvação.

O homem precisa de salvação hoje por causa de uma condenação que sujeitou toda a humanidade à morte no passado. A morte foi imposta pelo pecado, uma barreira erguida que separa o homem de Deus. No entanto, por causa de uma visão desfocada, geralmente os homens só se perguntam se estão perdidos quando defrontam com alguma vicissitude – não rotineira – da vida.

A Bíblia nos revela que Deus já julgou a humanidade lá no Éden, e que todos os homens estão sob condenação, mas equivocadamente acredita-se que Deus ainda há de julgar a humanidade para determinar aqueles que serão salvos ou que perecerão.

Por causa de uma visão distorcida, várias religiões prometem salvação após o julgamento final, mas Jesus e os apóstolos afirmaram que o juízo de Deus já foi estabelecido e que todos estão debaixo de condenação. Como a perdição é uma realidade, através do evangelho de Cristo é oferecido salvação hoje, o chamado ‘dia aceitável’ ( Rm 5:16 ; Jo 3:18 ; 2Co 6:2 ).

Apesar da condenação que pesa sobre a humanidade, com o nascimento de Jesus, o Emanuel, cumpriu-se a profecia que diz: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ), e Cristo foi estabelecido por salvação para todos os povos.

 

O problema da humanidade

Geralmente o que salta aos olhos quando se pensa em salvação são os erros de conduta das pessoas. Por causa de questões comportamentais e morais muitos entendem que se a pessoa for ‘boazinha’, será salva.

Quando se observa uma pessoa desregrada, transviada, má, criminosa, etc., de imediato acredita-se que o tal necessita de salvação muito mais que o restante da humanidade. Isto não é verdade, pois as pessoas desregradas precisam de salvação, como também todos os demais homens, mesmo os religiosos, sábios, regrados, ordeiros, etc.

A Bíblia nos diz que Jesus veio salvar os perdidos, e os perdidos não estão somente entre os desajustados da sociedade. Os perdidos são vistos nas sarjetas e nos palácios, nos templos e nos prostíbulos, na filosofia e na religião, nos ateus e nos crédulos, etc.

Uma visão distorcida dá a falsa segurança para alguém que é saudável, inteligente, abastado de bens, pertencente a uma família e tem muitos amigos, que não necessita de salvação. Mas, segundo a Bíblia, nenhum desses quesitos são indicativos de que o homem está salvo.

 

Uma natureza má

Todo homem sem Cristo está sob o domínio do pecado, ou seja, são escravos do pecado. A sujeição ao pecado não é perceptível aos sentidos naturais e nem é possível identifica-lo através dos sentimentos ou das emoções. Somente as Escrituras revelam o pecado como o mal que afeta a todos através da revelação das Escrituras.

Isto significa dizer que o pecado não tem cheiro, gosto, forma, não emite som, etc. Todos os homens possuem sentimentos e emoções, porém, não é possível identifica-los como pecadores através das emoções ou dos sentimentos, porque quando a Bíblia aponta para a natureza má do homem aponta para uma condição que se estabeleceu desde o nascimento.

A natureza má do homem não se manifesta somente através de condutas desregradas como matar, mentir, roubar, etc. Mesmo quando o homem parece correto, controla as suas emoções, segue bons princípios de convivência e sabe dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus tal pessoa é designada má tal qual os desregrados “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ).

A Bíblia nos informa que tanto o religioso, o monge, o padre, o juiz, etc., quanto o roubador, homicida, estuprador, etc., se não aceitarem a Cristo, são igualmente maus diante de Deus. O mal está na natureza humana, pois é contaria a natureza de Deus. Deus é vida e a natureza humana herdada de Adão morte.

O mal da natureza herdada de Adão não é o caráter, a moral ou a índole do indivíduo, mas uma condição contraria à natureza de Deus. Se o homem possui comunhão com Deus: é luz, é verdadeiro, é justo, é santo e bom (nobre). Se não há comunhão com Deus, a sua condição é contraria à nobre, ou seja, é treva, mentiroso, injusto, impuro e mau, no sentido de baixo, vil.

Quando a Bíblia diz que o homem é mau, não se refere às ações – se boas ou más.

O Salmista enfatiza do ponto de vista social que tanto os homens nobres, quantos os homens da ralé são mais leves que o efêmero. No quesito mal – não importa o comportamento – e sim o nascimento. Se descendente de Adão, são mentirosos, ruins “Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade” ( Sl 62:9 ); “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ).

Quando é dito na bíblia que todo homem é mentiroso, não significa que todos são desonestos, ou que todos faltam com a verdade para com os seus semelhantes. ‘Mentiroso’ é condição decorrente do coração enganoso herdado de Adão e não uma falha de caráter ( Sl 58:3 ; Jr 17:9 ).

O problema da humanidade teve início na ofensa de Adão, pois através de uma ofensa veio o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação: morte. O juízo já foi estabelecido, por isso Jesus não veio condenar o mundo, mas salvá-lo ( Rm 5:18 ).

Deus é vida, luz, bom, santo, justo, etc., e o homem alienado de Deus passou a condição de morto, trevas, ruim, impuro, injusto, etc.

O problema da humanidade não está em suas ações, assim como o problema de uma infecção não está no pus, antes o problema está e decorre da semente que foi gerada. Todos os homens são gerados da semente corruptível de Adão, árvores que Deus não plantou, mas se crer em Cristo é enxertado na oliveira verdadeira, transportado das trevas para luz.

O homem sem Cristo é miserável pelo que é, e não pelo que faz. Adão, o primeiro homem, foi criado justo e santo, mas desobedeceu o Criador e sofreu as consequências da sua decisão: separou-se de Deus. Em razão da sua condição maldita, a semente de Adão tornou-se má e só produz descendentes maus.

Semelhante a semente de uma árvore má que produz outra árvore também má, assim são os descendentes de Adão concebidos em pecado: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores …” ( Rm 5:19 ).

O homem não possui o poder de mudar a sua natureza, assim como os anjos não podem mudar a deles. Os homens precisam de Cristo porque só no evangelho há poder que faz de quem crê uma nova criatura participante da natureza divina.

 

Boas e más ações

A desobediência de Adão (que foi comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal) é a ofensa que alienou toda a humanidade da glória de Deus. Um mal que se perpetua de pai para filho, independentemente de quaisquer ações que o homem realize.

Além de se tornar pecador, algo decorrente da desobediência ao mandamento dado no Éden, o homem também adquiriu um conhecimento: o conhecimento do bem e do mal. Conhecer o bem e o mal não é o pecado, antes é consequência de ter comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Por causa do conhecimento do bem e do mal todos os homens, tanto justos como injustos, são capazes de realizar boas ações e más ações, entretanto, a natureza em pecado do homem não pode ser alterada através de suas ações, quer sejam boas ou más ( Ec 7:20 ). Se fizer boas ações, a natureza permanecerá má, se fizer más ações, a sua natureza permanecerá igualmente má.

Geralmente se presume que somente as pessoas que comentem más ações são pecadoras, porém, Jesus evidencia através da parábola do ‘Fariseu e o Publicano’ que, apesar de o fariseu se cercar de boas ações, diante de Deus não estava justificado.

No período da escravidão tudo que um escravo produzia – por lei – pertencia ao seu senhor. Esse mesmo princípio aplica-se ao homem sem Cristo, pois tudo que o pecador produz pertence ao pecado, quer sejam boas ou más ações.

O pior homem sem Cristo não se mensura por suas más ações, e mesmo o melhor homem sem Cristo não se mensura por suas boas ou más ações “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” ( Mq 7:4 ). Diante de Deus o melhor dos homens quanto o mais reto estão em igual condição ( Sl 53:3 ).

Devemos olhar com reservas para concepção do homem sem Cristo, por mais justo e correto que pareça, pois a aparência engana e, a concepção deste homem acerca das coisas de Deus é tão perniciosa quanto à do pior dos homens: o melhor e o pior dos homens estão equivocados. Por causa da natureza má, o pensamento do homem alienado de Deus é permanentemente mau. Por causa da natureza herdada de Adão, o homem sem Deus, além de trilhar um caminho de perdição, é mentira desde a origem ( Rm 3.4; Sl 58:3 ).

É em função da natureza do homem sem Deus que Cristo conta a parábola da ‘Árvore boa e a má’: a árvore má produz maus frutos e a árvore boa produz bons frutos ( Mt 12:33 ). A figura da árvore representa o homem; a árvore má representa o homem que não nasceu de novo, árvore que não foi plantada por Deus, ou seja, é árvore nascida de uma semente corrupta, a semente de Adão.

O homem (árvore má) pode até dar coisas boas aos seus semelhantes, porém, dizer coisas boas é impossível, pois possui um mau tesouro no coração enganoso e corrupto ( Mt 12:35 ), e Jesus aplica a figura da árvore má diretamente aos fariseus, porque sendo maus, nascidos de Adão, era impossível (não podiam) dizer boas coisas ( Mt 12:34 ).

É por causa da impossibilidade de um homem sem Cristo (árvore má) dizer (fruto) coisas boas que Jesus alerta acerca de como identificar os falsos profetas: pelo fruto, ou seja, pelo que dizem, pois a boca evidencia o que há no coração. É possível um falso profeta se manter escondido sob o disfarce de ovelha, ou seja, pela aparência (boas ações), mas é impossível disfarçar o fruto ( Mt 7:15 -16).

Embora muitos pensem: “Eu não sou malévolo”, ou até diga: “Cometo erros, mas isto não me faz merecer queimar em fogo pela eternidade”, o juízo de Deus para condenação foi estabelecido por causa de um só homem que pecou. Por causa da ofensa de Adão a condenação se abateu sobre todos os homens ( 1Co 15:21 -22), e muitos ignoram o fato de estarem condenados.

Muitos argumentam que é injusto ser condenado à perdição eterna porque um homem pecou! Este era o sentimento dos filhos dos escravos, pois nada fizeram para estarem sujeitos ao mando de seus senhores, entretanto, estavam condenados a uma existência de servidão.

Alegar que é injusto ser condenado pelo erro de outro não livra o homem da sua condição de sujeição ao pecado. O que livra o homem de tal condenação é crer no evangelho, que é poder de Deus para fazer dos filhos de Adão filhos de Deus.

 

A doutrina de Cristo

“O que eu devo fazer para ser salvo?”

A Bíblia dá a seguinte resposta: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa” ( At 16:30 -31).

Quem é Jesus para que eu possa confiar n’Ele?

Jesus foi um homem da cidade de Nazaré como qualquer outro homem, porém, o diferencial entre Cristo e os demais homens está na forma como veio ao mundo. Enquanto os demais homens vêm à existência da concepção derivada da união íntima de um homem e uma mulher – na eternidade o Verbo Eterno teve que se esvaziar da sua glória, ou seja, deixar o seu divino poder, e ser ‘lançado’ pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem (Maria). Fato que determina que nasceu sem pecado!

O Verbo – desde sempre existiu – mas ao despir-se da sua glória, conforme as profecias se fez homem e nasceu na casa de Davi. Entre os homens foi nomeado ‘Jesus’ conforme orientação de Deus, e tudo o que estava escrito acerca d’Ele nas Escrituras cumpriu-se ( Rm 1:3 ).

Enquanto o primeiro homem Adão, que veio ao mundo sem pecado, desobedeceu a Deus, o Verbo eterno – ao assumir a forma humana – se fez servo e foi obediente até a mote, e morte de cruz. A desobediência de Adão trouxe condenação sobre todos os homens, e Cristo, pela Sua obediência, trouxe salvação a todos quanto crerem n’Ele.

Jesus foi declarado Filho de Deus com poder quando Deus O ressuscitou dentre os mortos ( Rm 1:4 ), cumprindo cabalmente o que foi dito a Davi:- “O teu descendente que proceder das tuas entranhas (…) Eu lhe serei por Pai e Ele me será por Filho” ( 2Sm 7:12 -14).

O apóstolo Pedro deu testemunho que Cristo foi crucificado, mas que Deus o ressuscitou dentre os mortos e que em nenhuma outra pessoa há salvação, pois na terra não há outro nome pelo qual os homens são salvos ( At 4:11 -12).

Jesus é o Salvador, porque quando o homem (Adão) pecou contra o Criador, Deus prometeu um libertador (O Messias, que é o Cristo) e, na plenitude dos tempos Deus enviou o seu Unigênito aos homens, cumprindo-se as profecias escritas a respeito de Jesus séculos antes do Seu nascimento.

Jesus é o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra seriam benditas. Ele é o rebento na casa de Jessé, o Filho de Davi. Conforme a profecia, Jesus nasceu de uma virgem na cidade de Belém, e na sua boca nunca houve engano, porque falava verazmente segundo o seu coração.

Conforme as profecias, na crucificação, as mãos e pés de Jesus foram perfurados, morreu e foi sepultado na cova de um homem rico e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, provando assim que o Jesus de Nazaré é efetivamente o Cristo, o Filho de Davi conforme confessou o cego a beira do caminho de Jericó.

Até aqui, apresentamos aspectos da vida de Jesus homem quando habitou entre nós, porém é imprescindível salientar que Jesus também é o Senhor da Glória.

Jesus, desde sempre (eternidade) é Deus ( Jo 1:1 ). De posse do Seu eterno poder tem toda autoridade. Na eternidade não há hierarquia entre as pessoas da trindade (são um) “Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra (Verbo Eterno), e o Espírito Santo; e estes três são um” ( 1Jo 5:7 ) , de modo que o Verbo Eterno possui toda autoridade, é conhecedor de todas as coisas, é onipresente e dá vida a todos que crerem nele conforme as Escrituras.

Antes de haver mundo, o Verbo eterno criou todas as coisas e Ele sustem todas as coisas pelo Seu poder, mas para ser introduzido no mundo o Verbo eterno despiu-se do seu eterno poder (Jo 17.5; Fl 2.7), e se fez carne e passou a habitar entre os homens na qualidade de único gerado de Deus, pois a sombra do Espírito repousou sobre Maria e ela achou-se grávida.

Quando esteve entre os homens admitiu abertamente: “Eu e o Pai somos um”. E aquele que o ouviram retrucaram: “… tu, sendo homem, te fazes Deus” ( Jo 10:30 -33). Eles achavam que Jesus estivesse blasfemando e queriam matá-lo. Todas as vezes que Jesus anunciou a sua divindade, os seus ouvintes quiseram apedrejá-Lo: – “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse ‘Eu Sou’” ( Jo 8:58 ).

Quando João Batista deparou-se com Jesus, apesar de ver um homem semelhante a ele, declarou: – “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Jesus sendo homem, João batista enfatizou: – “Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que tem a primazia, porque era primeiro do que eu”, apontando a preexistência de Cristo ( Jo 1:30 ).

Na eternidade não havia a relação Pai, Filho e Espírito Santo. Na eternidade o Verbo é 100% Deus, e ao deixar a sua glória ao ser introduzido no ventre de Maria se fez 100% homem. No mundo dos homens com a encarnação do Verbo eterno passou a existir a relação Pai e Filho, pois seres celestiais não procriam e, este foi o acordo de Deus Elohim na eternidade ( 2Sm 7:14 ).

Em meio aos homens, Jesus não deteve nem se quer 0.0001% do poder que possui antes de ser introduzido no mundo, pois só tornando-se efetivamente homem reuniria os elementos imprescindíveis para ser mediador entre Deus e os homens, ou seja, em tudo Cristo foi semelhante aos homens “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” ( 1Tm 2:5 ; Hb 2:17 ).

Lembrando que o poder de Deus é infinito, qualquer porcentagem do poder de Deus, a mais ínfima, diz de um poder ilimitado. Quando em meio aos homens, Jesus viveu na dependência completa do Pai, ou seja, efetivamente se fez homem e foi obediente ao Pai até o fim.

Quando homem, apesar de não estar de posse da sua glória (poder), Jesus – o Espírito Eterno encarnado – era digno de adoração. Os discípulos e os seguidores de Jesus não conseguiam compreender que, aquele homem nascido em Belém e que residiu na cidade de Nazaré era o Criador do mundo.

Os contemporâneos de Jesus não conseguiam ter ideia da glória e majestade de Cristo porque Ele se fez homem por causa da paixão da morte. Mas através da sua ressurreição, agora é possível compreender que todas as coisas estão sujeitas a Cristo ( Hb 2:8 -10).

É imprescindível ao crente compreender que Jesus é o Sumo-sacerdote da Nova Aliança que pode compadecer dos pecadores, pois esteve sujeito às mesmas fraquezas e em tudo foi tentado, porém, sem pecado ( Hb 4:15 ). Ele mesmo – em obediência ao Pai – se interpôs como sacrifício ( Hb 9:15 ), e entrou nos céus, em um tabernáculo não feito por mãos de homens ( Hb 9:24 ); “Mas Ele, que já permanece para a eternidade, possui um sacerdócio exclusivo. Eis porque tem condições de salvar definitivamente os que, por meio dele, se aproximam de Deus, pois está sempre vivo para interceder em favor dele” ( Hb 7:24- 25).

A mensagem de Jesus é universal e atemporal: Jesus salva crianças, velhos, mulheres, homens, rico, pobre, sábio, ignorante, etc.

Quando entre os homens, Jesus recebeu afetuosamente tanto os rejeitados pela sociedade e pela religião, quanto aqueles que, tendo uma religião e desempenhando um papel social, creram n’Ele.

Jesus comissionou os seus discípulos, dizendo: – “Ide e fazei discípulos de todas as nações” ( Mt 28:9 ; Jo 3:16 ), pois Ele morreu pela humanidade inteira.

Cristo morreu por todos os homens, e não por alguns em particular ou em especial, pois o desejo de Deus é que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade ( 1Tm 2:4 ).

Para ser salvo é necessário crer que aquele Jesus que residiu na cidade de Nazaré é o Filho de Deus, nascido da descendência de Abraão e na casa de Davi. Que Ele fez muitos milagres e maravilhas enquanto andou entre os homens com a missão de revelar Deus a humanidade ( At 4:10 ). Foi morto, sepultado, mas ressurgiu ao terceiro dia e está à destra da Majestade nas alturas.

Jesus veio ao mundo como o Unigênito do Pai e, por tudo que sofreu, fica evidente que, mesmo sendo o Filho de Deus, foi obediente em tudo, até à morte ( Hb 5:8 ). Ele foi conduzido ao calvário como um cordeiro que não abriu sua boca e, abdicou de fazer a sua vontade, sujeitou-se à vontade do Pai ( Lc 22:42 ). E, ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos como o Primogênito de Deus, pois por Ele muitos filhos são conduzidos a Deus ( Hb 2:10 ), pois aqueles que creem em Cristo – morrem para o mundo e nascem de novo – como filhos de Deus.

 

Novo Nascimento

O novo nascimento através da semente incorruptível é providência graciosa de Deus que torna o homem livre da natureza má herdada de Adão.

Quando você crê que Jesus é o Cristo, torna-se participante da carne e do sangue de Cristo ( Jo 6:35 e 53). Isto significa que você é participante da morte de Cristo, ou seja, tomou a sua própria cruz e seguiu após Cristo, foi crucificado, morto e sepultado à semelhança da Sua morte ( Rm 6:5 ).

Quando o homem crê em Cristo, o juízo de Deus estabelecido no Éden é satisfeito, pois a pena estabelecida para os pecadores – a morte – não passa da pessoa do transgressor. Deus é justo juiz quando o pecador morre com Cristo, pois recebe o cumprimento da sua sentença , pois o salário do pecado é a morte.

É no momento da morte com Cristo que o homem passa à condição de morto para o pecado ( Rm 6;11 ), e a maravilhosa graça de Deus se manifesta, pois mesmo não tendo obrigação nenhuma para com aquele que foi apenado na morte com Cristo, graciosamente Deus traz a existência um novo homem pela ressurreição de Cristo.

O velho homem é crucificado para que o corpo que pertencia ao pecado seja aniquilado ( Rm 6:6 ), e o pecado não tenha mais domínio sobre o tal homem , pois é certo que, morrendo o homem não há mais lei que o vincule ao pecado ( Rm 7:4 ).

O crente em Cristo ressurge com Cristo ( Cl 3:1 ) uma nova criatura criada segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), de modo que já não há nenhuma condenação ( Rm 8:1 ).

O apóstolo Paulo diz que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, porque aquele que está em Cristo Jesus é uma nova criatura isenta de culpa ( Rm 8:1 ; 2Co 5:17 ). Esta nova criatura é participante da natureza divina, ou seja, bom, luz, filho, etc. ( 2Pd 1:4 ). Do bom tesouro do coração fala coisas boas: confessa que Jesus é o Filho de Deus, produz o fruto dos lábios de quem está ligado à oliveira verdadeira: – “Paz, paz, para os que estão longe e para os que estão perto” ( Is 57:19 ).

A nova criatura não mais comete erros? Sim comete, pois apesar de se livrar da condenação estabelecida no Éden, ainda é conhecedor do bem e do mal. Entretanto, as suas obras e intenções do seu coração serão julgadas no Tribunal de Cristo, e não mais no Grande Trono Branco ( 2Co 5:10 ).

 

Falta alguma coisa?

O crente em Cristo arrependeu-se quando creu em Cristo conforme tudo o que foi predito acerca d’Ele nas Escrituras, momento em que Deus concedeu o perdão de todos os seus pecados e delitos.

Agora em Cristo – uma nova criatura – você não precisa viver admitindo culpa (confessando erros do cotidiano) diante de Deus para garantir a salvação, pois nenhuma condenação há que pese sobre você como nova criatura.

Todas as ações dos cristãos serão julgadas no Tribunal de Cristo, portanto, você pode pedir perdão a Deus por questão de consciência, mas não são estas questões que te levará à perdição.

Como crente, você não precisa mais arrepender-se acerca de como alcançar salvação, ou seja, mudar de concepção (metanoia), pois o seu arrependimento diante da mensagem do evangelho é o que te levou a crer em Cristo. O arrependimento bíblico não se repete ao longo da existência do cristão neste mundo, pois crer em Cristo se dá de uma vez por todas, sendo necessário somente a perseverança.

O arrependimento ligado ao remorso e que se concita a confissão de erros diante de um sacerdote, ministro, padre, etc., decorre de uma concepção católica antiga que vinculava o arrependimento à penitência, ou indulgência.

Por causa das questões próprias à penitencia e à indulgencia surgiram afirmações como: – “Não basta admitir culpa, tem que se arrepender”; ou – “Arrependimento genuíno só parte de um coração quebrantado”; ou – “Arrependimento é mais que remorso”, etc.

A culpa pelos erros cometidos, somado à ideia de arrependimento como penitencia e indulgência fazia com que as pessoas doassem seus bens como prova de genuíno arrependimento e devoção, porém, o arrependimento bíblico é somente admitir que Jesus é o Cristo de Deus que tira o pecado do homem.

A oração do crente nascido de novo é de alegria, expressão verbalizada da sua confiança por ter amplo acesso ao trono de Deus “No qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” ( Ef 3:12 ; Hb 10:19 ). Você não deve se apresentar como indigente diante de Deus, mas como filho agradecido por todas as bênçãos concedidas, pois Deus nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 1:3 ).

Ainda falta alguma coisa para o crente? Sim.

Há a necessidade de se alimentar constantemente. Primeiro com leite racional, depois com alimento sólido até chegar a estatura de varão perfeito, a medida da estatura de Cristo. Prosseguir para o alvo, que é o pleno conhecimento de Cristo. Combater o bom combate em defesa do evangelho e permanecer crendo nele!

E depois de haver feito isto, permanecer firme, até que o corpo mortal seja revestido da imortalidade.

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Você é realmente salvo?

As religiões buscam demonstrar que o homem é pecador através de questões morais e legais, mas a bíblia demonstra que todos se tornaram pecadores por causa de uma única ofensa “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo”  ( Jo 16:8 ).


Muitos cristãos não sabem se são salvos, insegurança que advém de certos posicionamentos doutrinários, ou por não compreender alguns versos da bíblia.

Versos que contêm advertência quanto aos cuidados com a salvação parecem suplantar as garantias contidas no evangelho, e muitos duvidam se realmente são salvos.

Como compreender a advertência contida no seguinte verso: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” ( Mt 7:21 ).

Diante deste verso, muitos duvidam de sua salvação e questionam-se sobre a possibilidade de estarem enganados por acreditarem que são salvos. Além da dúvida, ainda encontram os pseudos mestres do cristianismo que se utilizam do versículo somente para incutir medo nas pessoas, mas que também não compreendem a verdade ali contida.

Quando Jesus disse: ‘Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!’, estava falando a uma multidão demonstrando que, não basta chamá-lo de Senhor, antes, é necessário fazer a vontade de Deus para poderem entrar no céu.

Jesus esclareceu os seus ouvintes sobre o que é necessário fazer para ter garantia da salvação quando demonstrou aos seus ouvintes que dizer ‘Senhor, Senhor’, não garante salvação. A garantia de salvação está em fazer a vontade do Pai celestial. Jesus não demonstrou somente o que não garante salvação e deixou por conta do homem decidir por si mesmo qual é a vontade de Deus. Não! Jesus veio ao mundo fazer a vontade do Pai e declarar ao homem qual é a vontade de Deus a ser realizada pelo homem para alcançar a salvação.

Qual é a vontade de Deus que, se o homem realizar, garante entrada nos céus?

Alguns pregadores, de posse deste verso arrematam dizendo que tais palavras têm por alvo aqueles que ‘professam’ publicamente com os lábios que crê em Cristo, mas que nunca se converteram genuinamente, alegando que confessar que creu em Cristo não redunda em salvação se o penitente não obedecer a Deus fazendo a sua vontade, o que gera confusão, pois não esclarecem qual é a vontade de Deus, ou pior, alegam que conformar-se com comportamentos estabelecidos pela sociedade como correto é realizar a vontade de Deus.

Uma coisa é certa: só entrará nos céus quem nascer de novo! Só entrará nos céus quem tiver obra superior a dos escribas e fariseus! Só entrará nos céus quem faz a vontade Deus! Ora, a vontade de Deus é especifica: que creiam em Cristo.

A obra de Deus, ou o mandamento de Deus, ou a vontade de Deus resume-se na seguinte frase: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ; Jo 6:29 ).

Ora, se a vontade de Deus é que os homens creiam em Cristo, quando Jesus disse que não basta dizer: -‘Senhor, Senhor’, mas que é necessário realizar a obra de Deus – a essência da mensagem de Cristo é que cressem n’Ele “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou ( Jo 6:29 ).

Fazer a vontade de Deus resulta em salvação, nunca o contrário, que a salvação resulta em fazer a vontade de Deus. Chavões como: ‘Tu não fazes a vontade de Deus para que sejas salvo, mas farás a vontade de Deus se és verdadeiramente salvo’, possui um equivoco tremendo.

Muitas vezes o pecador ouve que é pecador por ter sido gerado de Adão e que necessita de Cristo para ser salvo, e após o pecador crer que Jesus é o Filho de Deus que tira o pecado do mundo, tem a sua confiança desconstruída em função do argumento de que ‘o verdadeiro fruto da salvação é fazer a vontade de Deus’. Está é uma das artimanhas de Satanás que está ao derredor buscando a quem possa tragar. Este é um engano de perdição, pois crer em Cristo é a vontade de Deus, condição essencial para entrar no reino dos céus, quando o crente passa a estar em Cristo e Cristo no crente “E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado” ( 1Jo 3:25 ).

Crer em Cristo como o Cristo de Deus que havia de vir ao mundo é o mesmo que estar em Cristo, portanto, quem crê torna-se nova criatura, pois basta crer em Cristo para o homem cumpra o mandamento de Deus.

Quando o carcereiro de Filipo perguntou ao apóstolo Paulo e a Silas o que deveria fazer para se salvar, a resposta foi especifica e categórica: creia no Senhor Jesus! “E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar? E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” ( At 16:30 -31).

Quem crê que Jesus é o Filho de Deus vence o mundo “Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” ( 1Jo 5:5 ). Em admitir que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que Deus o ressuscitou dentre os mortos está a salvação “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

Quando se crê em Cristo, ou seja, quando se faz a vontade de Deus, o homem passa a estar ligado à videira verdadeira. Por ser uma vara ligada à videira é impossível não dar fruto “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:4 -5; 1Jo 3:25 ).

Quando Jesus diz: ‘Estai em mim e eu em vós’, estava dizendo: – “Façam a vontade do Pai”; – “Creiam que Eu sou o enviado de Deus”; – “Realizem a obra de Deus”, pois qualquer que crê em Cristo passa a estar em Cristo e Cristo no crente. Para estar em Cristo basta crer em Cristo ( Jo 14:1 ), pois este é o mandamento de Deus que resulta em salvação, uma vez que Cristo foi enviado por Deus para que todo aquele que nele crê não pereça, antes tenha a vida eterna ( Jo 3:16 ).

O fruto que o crente produz é professar o nome de Jesus como salvador do mundo “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ). Fazer a vontade de Deus é crer em Cristo, e o fruto daquele que crê consiste em professar a Cristo, o fruto dos lábios, que não é o mesmo que ‘fruto da salvação’ ( Hb 13:15 ).

O mandamento é crer em Cristo, o fruto é anunciar as boas novas do evangelho, pois no fruto está a semente que produz vida. É um equivoco grotesco confundir o fruto dos lábios com o mandamento de Deus.

A evidência da salvação está em que Deus ressuscitou o Seu Filho dentre os mortos, e que todo o que obedece a Deus crendo em Cristo é salvo, pois o seu mandamento é crer em Cristo.

Se o Cristão crê que Jesus é o salvador do mundo, o Filho de Deus nascido na casa de Davi, que viveu sem pecado, foi morto e ressurgiu dentre os mortos e está assentado à destra do Pai nas alturas, está salvo, como se lê: “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” ( Rm 1:2 -4).

Não deixe que outra pessoa examine a autenticidade da tua salvação, antes prove, analise a si mesmo se permaneceis crendo em Cristo, pois Ele é a fé que havia de se manifestar e que nos foi manifesta ( Gl 3:23 ). Se o crente permanece crendo que Jesus é o Cristo conforme diz as Escrituras, é aprovado diante de Deus.

Se alguém tentar por em dúvida a salvação de quem creu em Cristo, basta fazer o recomendado pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Corintos: Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” ( 2Co 13:5 ).

É por este motivo que o crente deve se interirar do que alcançou após ouvir o evangelho e crer em Cristo Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

Agora, se o cristão desconhece que está em Cristo e que Cristo está nele; se desconhece que é nova criatura por estar em Cristo; se desconhece que é templo, habitação do Espírito de Deus; se desconhece que é o corpo de Cristo; se desconhece que é luz no Senhor; se desconhece que é filho de Deus; se desconhecer que foi batizado na morte de Cristo; se desconhece que já ressurgiu com Cristo dentre os mortos; se desconhece que o Pai e o Filho vieram e fizeram nele morada, qualquer questão proveniente do anticristo demoverá tal cristão da sua fé e será achado reprovado “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” ( 2Co 13:5 ).

O cristão que não compreende que a vontade de Deus é crer em Cristo, ou que não compreende que crer em Cristo é suficiente para redundar em salvação, é comparável à semente caída a beira do caminho, suscetível de o maligno vir e arrebatar a semente, conforme lemos na parábola do semeador: “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” ( Mt 13:19 ).

Se o crente crê que:

a. Era pecador porque era descendente de Adão, porque foi gerados em pecado ( Rm 3:23 );

b. Jesus foi enviado ao mundo para salvar a humanidade porque todos estavam alienados de Deus por causa da ofensa de Adão ( Jo 3:16 );

c. Jesus é o Verbo eterno que no princípio estava com Deus ( Jo 1:1 -2), e sendo Deus, esvaziou-se do seu poder e glória e tornou-se homem ( Fl 2:7 );

d. Jesus foi introduzido no mundo como o Unigênito Filho de Deus gerado no ventre de Maria pelo Espírito de Deus ( Jo 1:18 ; Mt 1:18 );

e. Jesus viveu entre os homens, foi participante de todas as aflições, porém, sem pecado ( Hb 2:17 );

f. Jesus foi crucificado, morreu, foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia e está assentado à destra de Deus nas alturas ( Rm 1:3 -4), significa que se arrependeu, ou seja, que a sua concepção foi mudada, transformada pela mensagem do evangelho e efetivamente salvo.

Há uma má leitura acerca do que é o arrependimento genuíno que também turva o entendimento de muitos cristãos. Arrependimento segundo a bíblia diz de mudança de concepção, de entendimento. Quando Jesus diz ao Fariseus: “… se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” ( Lc 13:5 ), estava demonstrando que, apesar de pensarem que estava em condição privilegiada diante de Deus por serem descendentes de Abraão, na realidade, se não mudassem a concepção que tinham, pereceriam do mesmo modo que aqueles gentios que os fariseus haviam acabado de emitir um julgamento.

Arrependimento não é confessar erros e crimes cometidos. Arrependimento não é ir a um confessionário. Arrependimento não é penitenciar-se. Arrependimento não é remorso. Arrependimento, ‘metanoia’ no grego, é deixar de ter um conceito para abraçar uma nova compreensão.

Os fariseus acreditavam que era salvos por serem descendentes de Abraão, porém, se um fariseu se arrependesse, deveria substituir a concepção de que era salvo por ser descendente de Abraão pela concepção de que a salvação se dá em Cristo, o descendente prometido a Abraão. É por isso que João Batista disse aos escribas e fariseus: – “Arrependei-vos. Ou seja, mudem a concepção de vocês, pois para ser salvo não basta pensar que tendes por pai a Abraão, pois das pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”; “Mude a concepção de vocês, pois o reino de Deus está entre vós”.

Dizer: – ‘Senhor, Senhor’, é portar-se como alguns judeus que diziam crer em Cristo ( Jo 8:31 ), mas que ao serem questionados, apresentaram a sua real crença: “Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

Apesar de muitos judeus crerem em Cristo, criam ao seu modo, pois entendiam que Cristo era um dos profetas, ou que era somente um dos filhos de José e Maria. Eles não criam em Cristo como o descendente prometido a Davi; não criam que Cristo é superior a Abraão; não criam que Cristo existia antes de Abraão; não criam que Jesus é o Eu Sou ( Jo 8:53 ).

Os judeus criam em Deus, porém, não queriam obedecê-Lo, por isso Jesus disse aos seus discípulos: “Crede em Deus, crede também em mim” ( Jo 14:1 ). O protesto de Tiago quanto ao posicionamento dos judeus é claro: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem”( Tg 2:19 ). Mas, por que Tiago protestou deste modo? Porque o mandamento de Deus é que os homens creiam em Cristo, e quem, na verdade, crê em Deus, deve crer em Cristo “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou”( Jo 12:44 ). Se não crer em Cristo, na verdade não crê em Deus “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

Crer é suficiente e crer é o exigido para a salvação da alma. Quando alguém alega que ser salvo ‘não é apensas crer, antes que há um crer específico’ somente trás entrave à compreensão.

Qual é o tipo de crença que é para a salvação da alma?

Ora, crer que Jesus veio em carne é o tipo de crença que é para salvação da alma, mas crer que Jesus não veio em carne é uma crença de perdição fomentada pelo anticristo “Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo” ( 2Jo 1:7 ; 1Jo 4:2 ).

Crer que Jesus foi crucificado, morreu e ressurgiu dentre os mortos é o tipo de crença que redunda em salvação da alma,  mas crer que Jesus não morreu ou que não ressuscitou dentre os mortos, é o tipo de crença que não livra da condenação ( 1Co 15:3 -4).

Crer que o Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho de Deus, é o tipo de crença que é para salvação, mas negar que Jesus é o Cristo é o tipo de crença que não redunda em salvação.

Crer que Jesus é o Eterno, o mesmo ontem hoje e eternamente, é o tipo de crença para salvação, mas crer que Jesus é um anjo ou arcanjo, não redunda em salvação.

Confessar, admitir que Jesus é o Filho de Deus é o tipo de crença que redunda em salvação, mas crer que Jesus nasceu de Maria e José é o tipo de crença que não é conforme a verdade do evangelho, portanto, não redunda em salvação.

Crer que Jesus faz milagres, que é um dos profetas, o maior mestre que já existiu, que é o maior psicólogo, o homem mais bondoso que já passou pela terra, que resolve problemas mil, etc., não é o tipo de crença que redunda em salvação, antes é salvo aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus que tem palavras de vida eterna “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” ( Jo 5:24 ).

Os judeus tropeçaram na pedra de tropeço porque não reconheceram que Jesus era o filho de Davi, portanto, o Filho de Deus, o cerne da confissão cristã “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ). Se admitisse que Jesus era o Filho que Deus prometeu a Davi, concomitantemente teriam que admitir, segundo as Escrituras que Jesus era o Filho de Deus ( 2Sm 7:13 -14; Sl 2:7 ). A confissão da irmã de Lázaro, Marta, estava em consonância com a declaração do apóstolo Pedro: “Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio
que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” ( Jo 11:27 ).

A conversão do homem decorre da pregação da mensagem do evangelho, semelhante ao que se deu com os habitantes de Nínive que, ao ouvirem a mensagem do profeta Jonas, se converteram ( Lc 11:32 ). A conversação não possui relação com o tipo de programa que o cristão assiste na televisão; com o traje do homem ou da mulher; com a aparência física; com o cabelo, se curto ou longo; com enfeites, brincos, perfumes, etc., antes a conversão está atrelada à confissão do evangelho.

Outro equivoco decorrente de uma má leitura das Escrituras é a ideia de que uma pessoa só pode crer verdadeiramente quando se ‘arrepender’ sentido pesar, remorso, tristeza pelos erros de condutas cometidos. Ora, ‘arrepender-se’ é o mesmo que crer na verdade do evangelho, pois o crer em Cristo para salvação só é possível quando o homem abandona (metanoia) os seus próprios conceitos quanto à salvação.

Por exemplo: Quando o evangelista Mateus narra a parábola dos dois filhos contada por Jesus aos fariseus, foi demonstrado que os publicanos e as meretrizes creram na mensagem de João Batista, mas os religiosos, apesar de ver tamanha maravilha, os pecadores crendo, não mudaram a concepção para crer na mensagem de João Batista “… nem depois vos arrependestes para o crer” ( Mt 21:32 ).

Uma evidencia de que os fariseus não creram na palavra de João Batista é que eles não mudaram a confissão, pois apesar de ouvirem que o reino de Deus estava próximo, continuavam dizendo que eram descendentes de Abraão. Se houvessem arrependimento, deixariam de fazer alusão a Abraão e passariam a confessar que Jesus é o Cristo.

Os fariseus não se arrependeram (metanoia) porque não creram, e não creram porque não mudaram a concepção que aprenderam dos seus pais (não se arrependeram). É necessário cuidado para não confundir ‘metanoia’ (arrependimento) com a concepção católica da penitência derivada da indulgencia que ainda permeia o significado da palavra ‘arrependimento’.

Para ser salvo é necessário que o Espírito Santo convença o homem do pecado, da justiça e do juízo. O convencimento do pecado que o Espírito Santo promove não decorre de questões legalista, moralista ou formalista. O convencimento do pecado que o Espírito Sato promove é conscientização segundo as Escrituras, de que :

– o homem é pecador por causa da desobediência de Adão; que a ofensa de Adão trouxe juízo sobre todos os homens para condenação.

– o juízo de Deus já foi estabelecido no Éden, trazendo condenação sobre todos os homens.

– a justiça de Deus é substituição de ato, a obediência de Cristo pela ofensa de Adão, e não por questões comportamentais.

As religiões buscam demonstrar que o homem é pecador através de questões morais e legais, mas a bíblia demonstra que todos se tornaram pecadores por causa de uma única ofensa “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo”  ( Jo 16:8 ).

Quando se crê em Cristo, o homem passa da morte para vida. Quando se crê, o homem entra pela porta estreita. Quando se crê, o homem passa estar em Cristo, o caminho estreito que conduz o homem a Deus. Basta estar em Cristo que o homem passou a estar separado do pecado e unido a Deus.

O homem é salvo pelo evangelho, que é poder de Deus para salvação de todo que crê.

Quando dizemos que o homem é salvo pela fé, estamos dizendo que o homem é salvo por meio do evangelho, pois o evangelho é a fé que foi dada aos santos, pois foi manifesta na plenitude dos tempos ( Jd 1:3 ; Gl 3:23 ).

O homem é salvo pela pregação da fé, que é dom de Deus. Quando o homem ouve o evangelho e crê, obedeceu a fé, o que lhe dá poder de ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ). A crença (fé) genuína decorre da obra que Jesus realizou no Calvário (obediência) que redundou em sua ressurreição dentre os mortos.

Ser salvo é crer que Jesus morreu pelos pecadores para remi-los da condenação herdada de Adão.

Entretanto, milhares, sim, talvez milhões de religiosos, que são membros de igrejas, que dizem que invocam ao Senhor, ficarão chocados quando forem rejeitados por Deus. Por que? Porque alguns creem em Cristo ao seu modo, e não conforme as Escrituras “E saiu Jesus, e os seus discípulos, para as aldeias de Cesaréia de Filipe; e no caminho perguntou aos seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens que eu sou? E eles responderam: João o Batista; e outros: Elias; mas outros: Um dos profetas” ( Mc 8:27 -28). Outros porque não perseveraram crendo em Cristo conforme as Escrituras, antes se desvaneceram em seus próprios conceitos, rejeitando a verdade do evangelhoNão rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão. Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:35 -36), pois a promessa de Cristo é especifica aos que creem em seu nome: “E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” ( 1Jo 2:25 ); “A este dão testemunho todos os profetas, de que todos os que nele creem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome” ( At 10:43 ); “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ).

Crer que Jesus é o Filho de Deus é suficiente para alcançar a salvação, porém, é necessário guardar esta confiança até o fim, pois esta é a admoestação do apóstolo Paulo “Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão” ( 1Co 15:2 ). Depois de ter feito a vontade de Deus, que é crer em Cristo, basta a perseverança até o fim para alcançar a promessa: a vida eterna!

O objetivo do evangelho e das Escrituras é que o homem creia que Jesus de Nazaré é o Cristo “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ).

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A doutrina da predestinação e a parábola dos dois caminhos

Sobre as duas portas e os dois caminhos escreveu o apóstolo Paulo: “Pois assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Pois assim como todos morreram em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22). Adão é a porta larga pela qual todos os homens entram ao nascer. Todos eles ao nascer morrem em Adão. Porém, do mesmo modo que todos os homens morrem em Adão, assim também todos são vivificados em Cristo!

Duas Portas e Dois Caminhos

Jesus demonstrou haver ‘duas portas’ e ‘dois caminhos’ e que todos os homens que desejam salvação precisam entrar pela porta estreita, uma vez que trilham um caminho de perdição ( Mt 7:13 ).

Jesus é a ‘porta estreita’ pelo qual todos os homens necessitam entrar para que possam deixar de trilhar o caminho de perdição. Cristo é o ‘caminho apertado’ pelo qual somente os homens que creem têm acesso a Deus.

Cristo e Adão são dois personagens antagônicos (Adão conduz à morte e Cristo à vida). Cristo é o último Adão (espírito vivificante), diferente de Adão, que foi criado alma vivente ( 1Co 15:45 ). Enquanto este foi criado por Deus, aquele foi gerado de Deus. Por causa da transgressão de Adão todos os homens (que dele são gerados) tornaram-se escravos do pecado. Todos os homens são concebidos e gerados em pecado ( Sl 51:5 ).

Portanto, Adão é a ‘porta larga’ pelo qual todos os homens ao serem concebidos (segundo a vontade do varão, segundo a vontade da carne e do sangue) entram ao nascer. O nascimento natural segundo Adão é a porta larga que dá acesso ao caminho largo de perdição. Por causa desta realidade Jesus disse a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ), ou ainda: ‘entrai pela porta estreita’. Sem Cristo o homem seguirá rumo a um destino de perdição, porém, tal destino não pode ser tido como um fado, um destino (fatum), fatalismo ou predestinação.

Em Adão ocorreu o juízo por causa da ofensa (pecado) para condenação. O juízo e a condenação foram estabelecidos em Adão e alcançaram todos os homens, por isso todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus ( Rm 5:18 ).

 

Destino e Predestinação

Ao nascer, por ser descendente de Adão, o homem entra por uma porta larga e segue por um caminho que fatalmente o levará à perdição ( 1Co 15:47 ). Isto significa que o homem está ‘destinado’ à perdição?

Antes de uma resposta afirmativa ou negativa, precisamos definir qual o significado das palavras ‘destino’ e ‘predestinação’.

Destino sm. 1. Sucessão de fatos que podem ou não ocorrer, e que constituem a vida do homem, considerados como resultantes de causas independentes de sua vontade; sorte; fado. 2. O futuro. 3. Aplicação, emprego. 4. Lugar aonde se dirige alguém ou algo; direção.

Dos quatro sentidos pertinentes a palavra destino, qual é o utilizado na parábola dos dois caminhos? A sucessão de fatos e eventos cotidianos determinará a sorte (fado) do homem sem Deus? Não! A parábola dos ‘dois caminhos’ definem o ‘lugar’ para onde se dirige alguém após trilhar o caminho largo ou estreito? Sim!

Por causa de algumas crendices geralmente as pessoas aplicam a palavra destino a ideia proveniente do conceito grego, a ‘moira’, ou do pensamento romano, o ‘fatum’. O fado, sina, sorte ou destino surge como uma ameaça implacável que determina a inexorável punição diante da falta cometida.

Segundo a mitologia, o ‘Destino’ nasceu da noite e do Caos. Ele estava acima das divindades, submetendo-as ao seu poder. Era descrito como cego e inexorável, exercia domínio sobre o universo.

Da filosofia estoica temos o ‘fatum’ ou ‘destino implacável’ que aparece também acima de todos os deuses e homens. O ‘fatum’ estabelecia as leis do universo, e ninguém podia furtar-se a seu alcance.

No evangelho não existe a ideia de um destino (sina, fado) implacável e inevitável como é o caso da mitologia grega ou da filosofia estoica.

Jesus apontou a existência de dois caminhos e a possibilidade de mudar para o caminho estreito;

A ideia de ‘destino’ que o evangelho contém aponta para um lugar especifico para onde o homem se dirige.

A parábola dos dois caminhos demonstra que os caminhos (largo e estreito) possuem destino, e não o viajante, por isso é factível ao homem que segue o caminho de perdição entrar pela porta estreita que dá acesso ao caminho que conduz à vida.

Quem está em um caminho que ‘conduz’ a uma determinada cidade tem a opção de mudar de caminho a qualquer momento, porém, tal pessoa não está predestinada a seguir para tal cidade, pois pode mudar de caminho. Todo caminho possui um destino, porém, quem segue pelo caminho não é predestinado.

Se houvesse predestinação para a salvação, ao nascer, alguns homens nasceriam trilhando o caminho apertado, porém, a bíblia demonstra que todos os homens nascem no caminho de perdição e são convidados a entrar por Cristo.

De igual modo, não há predestinação para perdição, visto que, todos os homens nascem no caminho de perdição. É o caminho que conduz à perdição, o que difere do argumento que diz que o homem (viajante) está predestinado à perdição “Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição…” ( Mt 7:13 ).

É possível ao homem mudar o seu ‘destino’, visto que ninguém nasce predestinado à perdição. Todos ao nascerem entram pela porta larga e trilham um caminho de perdição, mas ao decidir-se por Cristo, a porta estreita, obterá poder para alcançar a salvação. Esta verdade é evidente no alerta que Jesus apresenta a Nicodemos “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:3 ).

Existem dois caminhos bem definidos que conduzem a dois lugares distintos: perdição e salvação. O homem sem Cristo segue o caminho que conduz à perdição. Não é o homem que tem um destino, antes é o caminho que conduz, ou seja, há um lugar específico para onde o caminho conduz.

Do mesmo modo, todos que entrarem por Cristo terá um novo rumo, uma nova direção, que lhes conduz à vida. Cristo é o caminho que conduz à salvação. O homem não é predestinado à salvação, antes é Cristo, o caminho estreito que conduz à salvação “Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida…” ( Mt 7:14 ).

Haveria predestinação para salvação se em qualquer das portas que o homem entrasse (Adão ou Cristo) alcançasse salvação. Porém, todos os homens nascem em um caminho que conduz à perdição, e precisam nascer de novo para que possam ver a Deus.

Entrar por Adão e seguir pelo caminho que conduz à perdição não é resultado de escolhas por parte da humanidade. Os homens gerados segundo Adão trilham o caminho de perdição por causa da escolha de Adão. É por isso que Jesus disse que muitos entram pelo caminho de perdição sem fazer qualquer alusão a uma escolha ou decisão por parte dos homens.

Entrar por Adão não depende da consciência, conhecimento, moral, comportamento (bem ou mal). Basta nascer! Em contra partida, para entrar pela porta estreita demanda conhecimento da verdade contida no evangelho tais como: a vontade de Deus, a oferta de salvação e decisão consciente tal qual a decisão de Adão no Éden “Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” ( Jo 6:68 ).

Só escapará quem atentar para porta estreita “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” ( Hb 2:3 ).

 

Salvação e Predestinação

Temos duas portas (Adão e Cristo), dois nascimentos (natural e espiritual), dois caminhos (largo e apertado) que conduzem a dois destinos (morte e vida). Onde a doutrina da predestinação se encaixa neste quadro?

Adão e Cristo são as duas portas apresentadas na da parábola dos dois caminhos, sendo que todos os homens obrigatoriamente entram por Adão quando nascem (exceto Cristo, porque ele foi gerado de Deus), porém, para todos que entram por Adão e estão caminhando para a perdição é anunciado o caminho de salvação.

O nascimento é o modo pelo qual o homem entra pelas portas (larga e estreita). Enquanto o nascimento natural faz com que o homem seja conduzido à perdição (caminho largo), através do novo nascimento o homem percorre o caminho (Jesus) que conduz a Deus.

Enquanto o homem percorre o caminho que conduz à perdição, não significa que ele está predestinado à perdição. Do mesmo modo, enquanto o homem percorre o caminho que conduz à salvação, não significa que ele foi predestinado à salvação. Perdição e salvação são destinos pertinentes aos caminhos, e não aos homens, pois cabe aos homens decidirem-se a trilhar o caminho do demonstrado no evangelho de Cristo.

Oferecer salvação a quem está predestinado a perdição é plausível? Caso não houvesse uma oportunidade para os perdidos através do evangelho de Cristo, o evangelho não seria de boas novas, antes seria um engodo. Enquanto há uma oportunidade para o homem deixar o caminho que está trilhando, não há o que se falar em predestinação.

  • Como Deus sendo justo e verdadeiro poderia oferecer salvação a quem nunca se perdeu?
  • Como Deus sendo justo e verdadeiro poderia oferecer salvação a quem não foi predestinado para ser salvo?
  • Como é possível Deus providenciar salvação poderosa a todos os homens, se ele mesmo predestinou àqueles que haveriam de ser salvos e perdidos?

Nenhum homem nasce predestinado à perdição porque não seria plausível ter que lhes anunciar o evangelho sem haver a possibilidade real de salvação ( 1Tm 2:4 ). Pelo fato de Jesus ter ordenado: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ), demonstra que não é possível rotular a condição da humanidade sem Cristo de predestinada à morte.

Não há predestinação para perdição porque há dois caminhos, porque todos os homens obrigatoriamente entram por Adão e segue pelo caminho que conduz a perdição. Todos os cristãos, necessariamente, foram de novo gerados pela semente incorruptível, o que demonstra que estavam efetivamente perdidos, contrastando com a ideia da predestinação para salvação.

Os homens sem Cristo entraram por uma ‘porta larga’ ao serem gerado segundo Adão e seguem um caminho que conduz à perdição, porém, Deus estabeleceu antes dos tempos eternos salvação poderosa o bastante para todos os homens, uma vez que o Cordeiro de Deus foi morto antes mesmo da fundação do mundo, o que demonstra que pecador algum foi destinado à morte.

 

Salvos e Predestinados

No que consiste a doutrina da predestinação?

Desde os reformadores alguns estudiosos apontam que a predestinação é para salvação. Porém, sabemos que a perdição se deu em Adão e a salvação está em Cristo “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ). É provável que este pensamento tenha surgido por causa de distorções quanto ao entendimento acerca da porta larga e de como ter acesso a ela.

O propósito deste texto não é negar a doutrina da predestinação, e sim, corrigir erros quanto ao seu entendimento.

Sobre as duas portas e os dois caminhos escreveu o apóstolo Paulo: “Pois assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Pois assim como todos morreram em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22).

Adão é a porta larga pela qual todos os homens entram ao nascer. Todos eles ao nascer morrem em Adão. Porém, do mesmo modo que todos os homens morrem em Adão, assim também todos são vivificados em Cristo!

Não há predestinação para salvação, visto que, assim como todos morrem ao entrar pela porta larga, todos quantos entrarem pela porta estreita serão vivificados. Ora, basta atender a ordem solene: “Entrai pela porta estreita” que serão vivificados.

Até este ponto falamos de salvação da perdição proveniente da queda de Adão. Agora, analisemos a predestinação.

Adão era terreno, e todos os seus descendentes terrenos. Todos os seus descendentes trouxeram a imagem exata de Adão ( 1Co 15:47 -49). Porém, o último Adão (Cristo) é do céu, e todos quantos foram gerados de Deus são semelhantes a Ele “… e qual o celestial, tais também os celestiais” ( 1Co 15:48 b).

Do mesmo modo que os homens gerados de Adão trouxeram a imagem do terreno, os gerados de Deus trarão a imagem do celestial (do último Adão). Ou seja, assim como Jesus foi feito as primícias dos que dormem ( 1Co 15:20 ), os que entram pela porta estreita são feitos primícias “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ).

Para entrar pela porta estreita e livrar-se do caminho que conduz à perdição é necessário nascer de novo. No novo nascimento, quando o homem é regenerado, ocorrem dois eventos simultaneamente: o homem livra-se da condenação de Adão (salvação) e adquire também a filiação divina (primícias das criaturas).

Em Adão o homem encontrou a morte, em Cristo (último Adão) a vida ( 1Co 15:45 ), porém, para obter a eterna redenção em Cristo (salvação), o homem tem que ser gerado pelo Espírito Eterno, o que concede aos homens (regenerados) a condição de ‘filhos de Deus’ semelhantes ao Altíssimo ( Hb 2:10 ).

No Antigo Testamento houve salvação, porém, os salvos do Antigo Testamento não foram gerados de novo pela fé em Cristo, portanto, não são herdeiros da esperança celestial: filhos de Deus e semelhantes a Cristo para que Ele seja primogênito entre muitos irmão. Quando da ressurreição os salvos do Antigo Testamento continuarão sendo homens, mas os salvos na plenitude dos gentios, a Igreja, serão glorificados e terão um corpo semelhante ao de Cristo glorificado.

Observe que os profetas do Antigo Testamento anunciavam grandezas inimagináveis, porém, essas grandezas não eram para eles, era para a igreja de Cristo ( 1Pe 1:12 ). Até mesmo os anjos queriam compreender (atentar) as grandezas que os profetas anunciavam, mas só puderam compreende-las com o advento da Igreja ( Ef 3:10 ).

Os homens de novo gerados, além de adquirirem salvação que os livra da condenação em Adão, são filhos de Deus. Cristo é o primogênito entre muitos irmãos (O Sublime entre sublimes), para que em tudo tenha a preeminência.

Predestinação significa ‘determinar de antemão’, ou seja, ‘preordenar’, estabelecer uma condição futura, o que é diferente de determinar eventos futuros. Ora, por causa da condenação em Adão, Deus providenciou em Cristo um novo e vivo caminho pelo qual os homens têm acesso a Deus ( Hb 10: 20 ). Porém, além da salvação dos homens em Cristo, o propósito eterno de Deus é a preeminência de Cristo sobre todas as coisas (primogênito dentre os mortos, e primogênito entre muitos irmãos).

Para levar a efeito o propósito eterno, Deus estabeleceu antes dos tempos eternos que, todos quantos entrassem pela porta estreita, que é Cristo, estariam predestinados a serem filhos do Altíssimo, conforme a imagem expressa do Cristo glorificado dentre os mortos ( 1Jo 3:2 ). Deus determinou de antemão que os de novo gerados (que entraram por Cristo), herdariam com Cristo todas as coisas.

Todos os versículos do Novo Testamento que fazem referência à ideia da predestinação apontam para a filiação divina:

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 );

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:5 );

“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” ( Ef 1:11 ).

Qual elemento é comum aos versículos citados acima? Ora, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos foram predestinados para serem filhos, semelhantes a Cristo, ou seja, para que Cristo alcançasse a condição de primogênito precisaria de irmãos. Ao nascer de novo, o homem é gerado do Espírito. Cristo é o primogênito entre muitos irmãos porque na eternidade Deus estabeleceu (predestinou) que todos quantos fossem gerados de novo em Cristo serão filhos de Deus. Do mesmo modo que os homens gerados segundo Adão trouxeram a mesma imagem do homem terreno, os homens gerados de novo em Cristo trarão a imagem do celestial ( 1Co 15:49 ).

Quem pode receber herança se não os filhos? Por que os cristãos são co-herdeiros com Cristo? Quem são os herdeiros de Deus?

Ora, o beneplácito da vontade divina estabeleceu antes dos tempos eternos que Cristo haveria de ser mui sublime “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” ( Is 52:13 ), e para levar a efeito ao seu propósito eterno, Deus constituiu dentre os homens filhos para si (não nascidos da vontade do varão, da vontade da carne e do sangue).

Verifica-se que, todos os que entram por Cristo alcançam salvação. Porém, além da salvação, não lhes resta outro ‘destino’, serão filhos por adoção. Resta que a predestinação é para alcançar a filiação divina, a expressa imagem de Cristo, e não para salvação.

Quem aceita a Cristo como salvador, além da salvação da condenação em Adão, receberá a filiação divina e será a imagem e a semelhança do Altíssimo conforme o que foi pré-estabelecido antes dos tempos eternos ( Gn 1:26 ).

O nascimento natural é a porta de entrada que dá acesso ao caminho que conduz à perdição. O novo nascimento (nascimento espiritual) é a porta de entrada que dá acesso ao Caminho que conduz à vida. Porém, além da salvação adquirida após entrar pela porta estreita, o homem de novo gerado alcança a filiação divina, pois para isso os de novo gerados foram predestinados.

A predestinação não é para salvação, antes é concernente a filiação divina. No Antigo Testamento, na grande tribulação e no milênio haverá homens salvos pela graça e misericórdia de Deus, porém, somente os salvos em Cristo, que hoje constituem o seu corpo, que é a igreja, alcançam a filiação divina.

É possível ser salvo sem ter sido predestinado à filiação divina, como foi o caso dos justos do Antigo Testamento.

Em última instância, quem não quiser ser um dos filhos de Deus tal qual Cristo é, que não entre pela porta estreita, que é Cristo; não deve nascer de novo; não deve beber da água que faz jorrar uma fonte que salta para a eternidade, visto que, todos quantos aceitarem a verdade do evangelho serão constituídos filhos de Deus, para que Cristo seja primogênito dentre muitos irmãos.

Para filhos por Adoção é que Deus predestinou todos quantos entrarem por Cristo.

A salvação é fato para todos quantos se refugiam em Deus. Desde o Antigo Testamento é possível aos homens alcançar salvação ofertada por Deus. Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara e muitos outros homens que alcançaram o testemunho de que agradaram a Deus, antes eram pecadores (desagradáveis), pois eram descendentes de Adão. Todos eles alcançaram o testemunho de que eram justos e agradáveis, porém, não são filhos por adoção; eles não são um corpo com Cristo; não são pedras espirituais; não fazem parte da igreja.

Há um grande diferencial entre os justos do Antigo Testamento e os justos do Novo Testamento. Enquanto estes são recebidos e nomeados filhos de Deus, feitos herança pela fé em Cristo, aqueles são somente salvos da condenação.

É por isso que o apóstolo João argumenta que os cristãos receberam ‘graça’ sobre ‘graça’, visto que foram salvos da condenação de Adão (graça), e ao mesmo tempo, por terem sido gerados de novo, receberam também a filiação divina (graça).

A salvação ofertada por Deus livra o homem da condenação proveniente da queda de Adão, ou seja, o homem deixa de ser conduzido à perdição e passa a ser conduzido a Deus. A bíblia demonstra que os que são conhecidos por Deus, salvos em Cristo, são os predestinados a serem filhos e herdeiros de Deus.

 

Perseverança e Salvação

É por isso que os apóstolos enfatizaram que, após crer na mensagem do evangelho (entrar pela porta que é Cristo e passar a percorrer o novo e vivo caminho), é preciso a perseverança: a obra perfeita da fé “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Qual a vontade de Deus que os cristãos fizeram? A resposta é clara: eles creram no enviado por Deus ( Jo 6:29 ). Somente aqueles que creem em Cristo, O enviado de Deus, permanecerão para sempre “E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” ( 1Jo 2:17 ).

Os cristãos haviam crido em Cristo, porém, necessitavam de perseverança para alcançar a promessa. Mas, de que tipo de perseverança os cristãos precisavam? Eles precisavam perseverar na esperança proposta “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

Haveria necessidade de perseverança caso a salvação fosse pré-determinada? Não! Mas, como a salvação é segundo a promessa, após a confissão é necessário estar seguro em quem prometeu “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” ( Hb 10:23 ); “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” ( 1Pe 1:21 ).

Tiago falou acerca da perseverança, pois somente a perseverança termina a obra que teve inicio através da fé “… sabendo que a prova da vossa fé desenvolve a perseverança. Ora, a perseverança deve terminar a sua obra, para que sejais maduros e completos…” ( Tg 1:2 -3).

Qual a obra pela qual a fé é aperfeiçoada? ( Tg 2:22 ) Não é a perseverança?

As obras que Tiago faz referência não são boas ações. Interpretar o comparativo estabelecido nos versos 15 a 17 como sendo as obras exigíveis por Deus é um engodo. O comparativo “Assim também a fé…” ( Tg 2:17 ), demonstra que a fé sem a perseverança é semelhante a alguém que, mesmo após saber que o irmão tem fome, despede-o irmão sem dar-lhe mantimento.

Do mesmo modo, de que adianta professar a verdade do evangelho e não perseverar na verdade? Ora, a perseverança é a perfeita obra da fé! Sem perseverança a fé é morta. Sem a perseverança o cristão é incompleto e menino, podendo ser levado por vários ventos de doutrinas.

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O barro nas mãos do Oleiro e a doutrina calvinista

Como é possível Deus ter determinado o destino final das pessoas segundo a sua vontade, se são muitos os que entram pela porta larga? Ora, se a vontade expressa de Deus é que ninguém pereça e que muitos venham ao conhecimento da verdade, como conciliar a parábola dos dois caminhos com a ideia de que o destino final das pessoas foi estabelecido por Deus?

 

Uma Lição na Casa do Oleiro

“A PALAVRA do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer” ( Jr 18:1 -4).

Após escutar a voz de Deus, Jeremias desceu à casa do oleiro e passou a observar o oleiro trabalhando o barro.

O profeta observou que o oleiro em questão fazia a sua obra sobre as rodas. Perceba que o ato de trabalhar o barro até formar os vasos é uma obra específica do oleiro. Em determinado momento, o vaso que estava sendo moldado quebrou-se, e o oleiro tornou a fazer do vaso quebrado outro vaso. Tudo que foi realizado pelo oleiro era conforme o seu parecer.

De tudo que o profeta Jeremias observou podemos destacar o seguinte:

  • A matéria prima que o oleiro utiliza sobre as rodas é o barro;
  • O produto final da obra do oleiro é o vaso;
  • Quando um vaso, que esta sendo moldado, se quebra o oleiro pode utilizar a mesma massa, porém, o resultado final é outro vaso;
  • O oleiro tem autonomia para fazer o vaso segundo o seu parecer.

O Profeta Isaias complementa o exposto por Jeremias: “Ai daquele que contende com o seu Criador! O caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?” ( Is 45:9 ).

  • Para os que contendem com o Criador não há salvação;
  • A obra soberana de Deus é formar vasos a partir do barro;
  • O caco de barro que contende com o Oleiro Eterno questiona as ações como se as mãos do Criador não pudessem salvar.

Após o profeta observar o oleiro exercendo o seu ofício, Deus falou com Jeremias:

“Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? Diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel”
( Jr 18:6 -7)

A palavra de Deus teve inicio com uma pergunta: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?”. A pergunta é respondida com um sonoro ‘Sim’! Assim como o barro inerte depende do oleiro para tomar forma, o povo de Israel precisava descansar (confiar) nas mãos do Oleiro Eterno, que tem poder para fazer novamente todas as coisas.

Para os calvinistas a soberania de Deus se estabelece quando Deus salva ou condena o homem, porém, o que se depreende da palavra de Deus anunciada pelo profeta Jeremias é que a soberania de Deus é exercida na criação do homem. O apóstolo Paulo ciente desta verdade escreveu aos cristãos em Roma e alertou aqueles que achavam que a palavra de Deus havia falhado para com o povo de Israel ( Rm 9:6 ).

 

Princípios

“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 )

Para rebater os judeus contradizentes e enfatizar que a palavra de Deus não falhou ( Rm 9:6 ), o apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos em Roma introduziu as mesmas figuras que Deus apresentou ao profeta Jeremias: o oleiro, o barro e o vaso.

É assente entre os cristãos que Deus é o oleiro, visto que, através de algumas referências bíblicas é possível aos leitores das Escrituras chegarem a esta conclusão “Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos” ( Is 64:8 ).

Seguindo o exposto no versículo anterior é fácil concluir que os homens são ‘feitos’ a partir do barro. Não importa se salvos ou não, todos os homens são provenientes do ‘barro’, como é demonstrado no Gênesis ( Gn 2:7 ). Do mesmo modo que se conclui que todos os homens são vasos ‘confeccionados’ (formados) a partir do barro, conclui-se também que todos os homens (salvos e perdidos) são obras da mão de Deus “… da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

O apóstolo Paulo apresenta duas categoriais de vasos: vasos para honra e vasos para desonra. Daí surgem outras perguntas: Quem são os vasos para honra e os vasos para desonra? Quando são ‘modelados’? No que diferem os vasos para honra dos vasos para desonra?

Analisemos a argumentação paulina:

  • Deus é o oleiro“… não tem o oleiro poder sobre o barro…?” – a figura do oleiro foi utilizada por vários escritores do Antigo Testamento e Paulo utilizou a mesma figura de modo singular, visto que é da alçada de quem exerce o ofício de oleiro modelar o barro segundo a sua livre vontade, decisão e agência;
  • Deus é Todo Poder“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro…?” – é incontestável o poder criativo de Deus. Ele é todo poder (soberano) “Porque toda a casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” ( Hb 3:4 ). Soberanamente Deus cria (forma) os homens tendo por matéria prima o barro;
  • O Oleiro e o barro – Deus exerce o seu poder sobre o barro, ou seja, o poder do Oleiro Eterno é exercido especificamente sobre o barro, diferente da idéia difundida de que o poder de Deus ou a sua soberania é a imposição da sua vontade sobre alguns vasos. O ‘barro’ é a matéria prima onde o ‘oleiro’ exerce soberanamente o seu oficio.O comparativo estabelecido por Paulo demonstra que Deus exerce o seu eterno poder criativo (soberania) sobre o barro (massa), para trazer a existência os homens (vasos) “… ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso…”. Este verso demonstra que Deus exerce poder quanto à criação dos homens (poder sobre o barro para fazer vasos), porém, como é próprio à sua santidade, Deus a ninguém oprime, ou seja, Ele não exerce o seu poder criativo com o fito de obrigar as suas criaturas (vasos) a submeterem-se ao seu senhorio. O oleiro não exerce o seu poder sobre os vasos, antes o seu poder é exercido sobre o barro, podendo fazê-los (criar) conforme o estabelecido pelo seu propósito eterno: vasos para honra e vasos para desonra.
  • O homem é feito do barro“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro…?” – utilizaremos Isaias 64: 8 para compreender melhor a atuação de Deus sobre o barro. Em Is 64:5 , o profeta indaga sobre como é possível ao homem alcançar salvação; no verso 6 ele demonstra que todos os homens são comparados ao que é imundo; os atos de justiça dos homens são comparáveis a trapos de imundície; todos os homens estão sujeitos a morte (folha que cai) devido ao pecado (salário do pecado). Devido à condição da humanidade não há quem esteja vivo (acordado), que invoque a Deus e detenha a sua ira; Porém, mesmo diante deste quadro horrível, o profeta clama a Deus invocando-o como Pai, pois ele sabia que, para ser salvo é necessário a filiação divina, e este milagre só é operado por Deus quando o homem reconhece a sua condição de miséria herdada de Adão e descansa (fé) em Deus. A massa (barro) utilizada para fazer os vasos para honra e desonra é a mesma. Isaias profetizou neste texto, por figura, a ideia da doutrina do novo nascimento;
  • A massa utilizada é única “… para da mesma massa…” – a matéria prima utilizada para moldar os vasos para honra e desonra é a mesma: o barro! Da mesma massa Deus faz vasos para honra e desonra. Como isto é possível? Os homens (vasos para desonra) são gerados através da semente corruptível de Adão (barro), e por serem gerados de novo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus (evangelho), Deus usa a mesma ‘massa’ para fazer vasos para honra em Cristo.

Através da análise anterior foi possível determinar que:

  • Deus é o oleiro;
  • Os homens são vasos (para honra ou desonra);
  • Ambos os vasos são feitos de uma mesma massa: o barro;
  • Deus exerce o seu poder sobre o barro para fazer vasos (homens), diferente da idéia de que Deus exerce poder sobre os vasos; Obs.: o senhorio do pecado ou da obediência sobre os homens vincula-se respectivamente a Adão e Cristo, visto que, a quem o homem se oferecer por servo para obedecer, será servo de quem obedecer: ou do pecado ou da obediência ( Rm 6:16 );
  • Adão vendeu-se ao pecado, e com ele todos os seus descendentes (humanidade).

 

Honra

Resta determinar quem são os vasos para honra. Ora, o apóstolo Paulo demonstra que ‘nós’, ou seja, os cristãos (aqueles que são chamados através do evangelho dentre judeus e gentios) são os vasos de honra “… a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós…” ( Rm 9:23 -24).

“Vasos de misericórdia” é o mesmo que “vasos de honra”, de acordo com o que se depreende da argumentação paulina. Todos que creem em Cristo, conforme diz as Escrituras, são vasos para honra, visto que, em Cristo todos são feitos participantes da natureza divina, contados como filhos de Deus.

Os vasos para honra são os cristãos. Todos os que creram foram de novo modelados (criados) segundo o evangelho que é poder de Deus ( Jo 1:12 -13; Rm 1:16 ). Deixam a condição de filhos da ira para serem vasos de misericórdia. Deixaram a condição de pecado proveniente da desobediência de Adão, e passaram a condição de filhos de Deus proveniente da obediência do último Adão (Cristo).

 

Desonra

Ora, se os vasos para honra são provenientes da obediência do último Adão, que é Cristo, segue-se que os vasos para desonra são provenientes da desobediência do primeiro Adão. Todos os homens sem Cristo são vasos para desonra, visto que são nascidos segundo a vontade do varão, da vontade da carne e do sangue, e por isso todos os homens nascem sob o senhorio (jugo) do pecado ( Jo 1:13 –13). Em Adão os vasos para desonra são ‘criados’.

Ora, o poder de Deus trás à existência tanto os ‘vasos’ para desonra quanto os ‘vasos para honra. O barro utilizado para fazer os vasos para a honra e desonra é o mesmo. Porém, não podemos esquecer que, primeiro são feitos os vasos para desonra, para depois vir à existência os vasos para honra ( 1Co 15:46 -48). Primeiro o homem natural, depois o espiritual.

Através da análise anterior chega-se a conclusão que:

  • Todos os homens são vasos;
  • Os homens sem Cristo são vasos para desonra;
  • Os que creem em Cristo são vasos para honra;
  • Os ‘vasos’ para desonra passam somente uma vez pela ‘olaria’ de Deus, e isto se dá quando do nascimento natural; já os vasos para honra passam pela segunda vez na mão do Oleiro, visto que, é necessário que o vaso para desonra seja quebrado, e novamente modelado, ou seja, o homem necessita nascer de novo para ser feito vaso para honra.

 

O Barro nas Mãos do Oleiro e a Teologia da Reforma

A teologia reformada ou calvinista considera que o homem sem Deus é semelhante a uma porção de barro, desprovido de vida e de poder.

Com base nos versos analisados anteriormente, podemos demonstrar que o homem sem Deus não é uma porção de barro, antes é um vaso “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” ( Rm 9:22 ).

O Oleiro Eterno exerceu o seu ofício quando criou o primeiro homem a partir do pó da terra, utilizando o barro como massa “Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra…” ( Gn 2:7 ), porém, esta obra não parou, visto que, ao conceder aos homens a dádiva de trazerem a existência os seus semelhantes, Deus continua a exercer o ofício de oleiro.

A bíblia demonstra que o caminho dos ventos e a formação da criança no útero da mãe é obra exclusiva d’Ele “Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos…” ( Gn 1:28 ). Porém, devemos lembrar que, foi Adão quem gerou filhos segundo a sua espécie, e não Deus. Deus gera filhos para si através da sua palavra, e Adão segundo a carne. A carne gera homens carnais e o Espírito gera homens espirituais ( Jo 3:6 ). Para o homem nascer de Deus é necessário nascer da água, ou seja, da palavra de Deus ( Jo 3:5 ).

Nicodemos ficou perplexo diante do ensinamento de Jesus e perguntou: “Como pode ser isso?” ( Jo 3:4 ). Jesus respondeu com uma citação de Eclesiastes: “Assim como não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida, também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas ( Ec 11:5 ).

Ora, todos os homens descendem de Adão, e, portanto, são obras da mão de Deus. Todos os homens passaram pela olaria de Deus na condição de barro e foram modelados assumindo a condição de vasos.

Porém, por causa da queda de Adão, todos os vasos (descendentes de Adão) que são moldados são vasos para desonra. São destituídos da vida que há em Deus.

(Sobre a origem da parte imaterial do homem será feito uma exposição em outra ocasião)

Outra afirmativa dos reformadores dá conta que não há diferença intrínseca entre os eleitos de Deus e os não eleitos. Ambos são feitos do mesmo barro. Concordo com este posicionamento, de que não há diferença entre salvo e perdidos quanto à substância da qual foram formados: ambos são formados do barro “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra, e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

No entanto, vale salientar que, como não há diferença intrínseca entre os salvos e os não salvos, é possível demonstrar uma falha na declaração de que o homem sem Deus é uma porção de barro. Ora, tanto os salvos quanto os não salvos são feitos e uma mesma massa, porém, após saírem da olaria de Deus são vasos. Os vasos para honra, embora feitos da mesma massa utilizada para fazer os vasos de ira, foram refeitos participantes da vida que há em Deus, enquanto os vasos para desonra, aqueles que permanecem na condição oriunda do primeiro nascimento, permanecem divorciados da vida que há em Deus.

A ideia calvinista também dá conta que o destino final dos homens é decidido (soberanamente) por Deus, porém, o que se depreende das figuras do oleiro, do barro e do vaso não coaduna com este posicionamento.

Observe que soberanamente Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ), e, segundo o que propôs na eternidade, o Oleiro Eterno formou o homem do pó da terra.Quem era Adão para se queixar do Criador? Ora, acaso a coisa formada poderia queixar-se do Criador, dizendo: “Por que me fizeste assim?” Não! Embora alguém possa questionar a soberania de Deus, o homem na condição de vaso jamais poderia fazê-lo, pois o Oleiro é detentor de todo poder.

O que se observa na leitura do Gênesis, Jeremias e Romanos é que o poder de Deus e a sua soberania se estabelecem sobre o barro, ou seja, quando Ele cria o homem. A soberania de Deus não se dá sobre os vasos, visto que, Adão como vaso perfeito, recém saído da olaria de Deus, rebelou-se contra o Criador. De vaso para honra Adão passou a condição de vaso para desonra. De filho de Deus passou a condição de filho da desobediência. De agradável a Deus passou à condição de filho da ira.

Ora, se a soberania de Deus se dá sobre os vasos, como dizem os calvinistas, era da vontade de Deus a queda de Adão? Adão não conseguiu resistir à sugestão da serpente ou a queda foi da vontade de Deus? Se um calvinista responder que Adão não conseguiu resistir à vontade da serpente, conclui-se que a soberania de Deus não engessa a vontade do homem. Se responder que a vontade de Deus não era a queda de Adão, como ele conseguiu resistir à vontade de Deus?

O que se verifica nos textos que fazem referência ao poder e soberania de Deus é que ambos, poder e soberania, se demonstram quando o Oleiro Eterno trabalha o barro, e não quando os vasos estão formados “… tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer ( Jr 18:4 ).

Todos os homens são obras das mãos de Deus, visto que ele os faz conforme o que parece bem aos seus olhos: vasos para honra e vasos para desonra “Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos” ( Is 64:8 ).

Paulo destaca que Deus tem poder sobre o barro para fazer vasos conforme bem parece aos seus olhos “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).Observe que o poder do Oleiro se manifesta sobre a massa para tão somente fazer vasos, ou seja, em momento algum temos a ideia de que Deus intervém ou influência o destino final dos vasos.

O que determinou o destino dos vasos para desonra foi a desobediência de Adão e não Deus, como dizem os seguidores da reforma.

Através de Adão Deus faz do barro vasos para desonra, e através do último Adão, que é Cristo, Deus faz vasos para honra. A desobediência de Adão fez surgir os vasos para desonra, e a obediência de Cristo os vasos para honra. Ora, o que se percebe é que Deus não decidiu o destino da humanidade, antes todos os homens podem decidir-se por Cristo para se verem livres da condenação estabelecida em Adão.

Como é possível Deus ter determinado o destino final das pessoas segundo a sua vontade, se são muitos os que entram pela porta larga? Ora, se a vontade expressa de Deus é que ninguém pereça e que muitos venham ao conhecimento da verdade, como conciliar a parábola dos dois caminhos com a idéia de que o destino final das pessoas é segundo a vontade de Deus?

Jesus demonstrou que são muitos os que entram pela porta larga e seguem o caminho que conduz à perdição ( Mt 7:13 ), porém, o apóstolo Paulo demonstra que a vontade de Deus é que nenhum homem se perca, antes que todos venham ao conhecimento da verdade ( 1Tm 2:4 ).

Ora, se são muitos os que seguem pelo caminho de perdição, isto demonstra claramente que Deus não impõe a sua vontade sobre os homens, pois ela é clara: Ele deseja que todos venham ao conhecimento da verdade. Embora soberano, Ele não é ditador, visto que não oprime as suas criaturas para que façam ou se submetam a sua vontade.

Como é possível Deus decidir o destino final dos homens se a desobediência de Adão deu origem à porta larga por onde todos os homens entram? Como é possível Deus estipular o destino final das pessoas se elas entraram pelo caminho que as conduz à perdição? É Deus que conduz os homens à perdição ou à salvação, ou é o caminho que trilham que os conduz? “Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela ( Mt 7:13 ).

Jesus demonstrou que é o caminho em que os homens estão que os conduz à perdição ou à salvação. Embora muitos homens não desejem conscientemente a perdição, esta vontade não muda e nem influência o destinou final deles. Caso continuem sem se decidirem pelo caminho estreito, seguirão inexoravelmente para a perdição.

Sabemos que a porta estreita é Cristo e que Ele é o caminho que conduz os homens a Deus. Também sabemos que Adão é a porta larga, por onde os homens entram ao nascer, e que a porta larga dá acesso ao caminho largo que conduz à perdição.

Para os calvinistas, Deus molda os vasos segundo o seu propósito e consentimento. É o que denominam de eleição incondicional, ou seja, para eles Deus decidiu unilateralmente onde cada um dos homens passará a eternidade. O que se observa através da leitura da bíblia é que o pensamento que teve origem na reforma não é conforme a verdade do evangelho!

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Romanos 6 – O homem velho foi crucificado com Cristo

Há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus. Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).


Introdução ao Capítulo 6

“Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante” ( 1Co 15:45 )

 

Para compreendermos a exposição de Paulo nos capítulos 6 e 7 é preciso entendermos as comparações que Paulo faz entre Cristo e Adão.

No capítulo 5 Paulo demonstrou que Adão e Cristo constituem-se ‘os cabeças’ de duas famílias distintas. Este trouxe à vida (existência) os filhos de Deus, e àquele traz à existência na condição de mortos e em inimizade com Deus os filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, ou filhos de Adão.

Comparando Adão e Cristo, os contrastes são evidentes:

  • Em Adão a transgressão e em Cristo o dom gratuito ( Rm 5:15 );
  • Em Adão a condenação e em Cristo a justificação ( Rm 5:16 );
  • Em Adão morte e inimizade, e em Cristo vida e paz ( Rm 5:17 );
  • Em Adão ofensa e em Cristo justiça ( Rm 5:18 );
  • Adão desobedeceu e Cristo obedeceu ( Rm 5:19 );

Em Adão todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e são justificados em Cristo (o último Adão), gratuitamente pela sua graça por meio da fé ( Rm 3:23 -24).

Paulo iniciou a exposição do livro de Romanos demonstrando o comportamento dos homens destituídos de Deus, e que, todos sem exceção serão trazidos a juízo por causa de suas obras no dia da retribuição de Deus (dia da ira), quando também será manifesto o juízo de Deus que se deu em Adão a todos os homens ( Rm 2:5 -11).

Paulo aponta questões futuras, demonstrando que Deus recompensará a cada um segundo as suas obras ( Rm 2:7 -8), quando forem estabelecidos o Tribunal do Trono Branco para os ímpios ( Rm 2:6 ), e o Tribunal de Cristo para os justos ( 2Co 5:10 ).

Depois, Paulo passou a demonstrar qual a condição dos homens que hoje estão sem Cristo: todos pecaram e juntamente se extraviaram, sem que houvesse um único homem que fizesse o bem ( Rm 3:10 -20). Concomitantemente, ele demonstra a condição daqueles que estão em Cristo: justificados gratuitamente pela graça de Deus por meio da fé em Cristo!

Desta forma, há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus.

Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).

A exposição que Paulo faz aos cristãos Romanos é argumentativa e principalmente teológica, diferente da exposição de Cristo, que é por parábolas e ilustrativa.

Desta forma temos que as parábolas como os dois caminhos, as duas portas, as árvores boas e as árvores más, as plantas que o Pai não plantou, etc, fazem referência a Adão e a Cristo.

Depois de fazer uma exposição teológica, Paulo também apresenta uma figura para ilustrar as considerações teológicas: os vasos para honra e os vasos para desonra ( Rm 9:21 ).

Isto posto, verifica-se que, para estudarmos o capítulo 6 e 7 e chegarmos a uma conclusão plausível, é preciso analisados segundo a ótica do primeiro e do último Adão.

 

1 QUE diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?

A pergunta deste versículo decorre do versículo 20 do capítulo anterior.

“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse. Mas onde o pecado abundou, superabundou a graça (…) Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente?” ( Rm 5:20 e Rm 6:1 ).

Após demonstrar que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, Paulo antecipa-se àqueles que poderiam argumentar que permaneceriam no pecado visando aumentar a graça.

‘Que diremos…’, ou seja, qual deve ser o entendimento do cristão? Permanecer no pecado (em Adão), para que a graça aumente? Não! Este não deve ser o entendimento do cristão.

Não é porque a graça superabundou onde o pecado abundou que o comportamento do cristão deva ser de devassidão.

O pecado reinou pela morte (pena decorrente da transgressão de Adão), e a lei somente fomentou a ofensa ( Rm 5:20 ). Mas, a graça de Deus se há manifestado para que, da mesma forma que o pecado reinou por meio da natureza decaída do homem (carne) e em obediência as suas concupiscências (conduta aquém da lei de Deus), a graça também reine pela justiça através da nova natureza (espiritual) e em obediência à justiça (conduta segundo a lei da liberdade).

 

2 De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

De modo nenhum! Os cristãos em Roma e o próprio escritor da carta não permanecem no pecado.

Paulo espera que os cristãos raciocinem e cheguem a uma conclusão sobre o ‘permanecer no pecado’ através do parâmetro estabelecido neste verso: Se os cristãos ‘Estão mortos para o pecado’, como é possível permanecer nele? Para os que estão mortos para o pecado não há como viver ou permanecer no pecado.

Da mesma forma que Cristo, quanto a ter morrido, ‘de uma vez morreu para o pecado’ ( Rm 6:10 ), os que morreram com Cristo também de uma vez estão mortos para o pecado ( Rm 6:8 e 10).

 

3 Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?

Para os leitores da carta que argumentassem que permaneceriam no pecado para que a graça aumentasse, Paulo demonstra que quem assim pensa desconhece o real significado do batismo.

Tanto Paulo quanto os leitores da sua carta havia sido batizados na morte de Cristo por meio da fé “…fomos batizados em Jesus…”, ou seja, todos os que creem são batizado na morte de Cristo Jesus “…um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Se todos morreram porque Cristo morreu, isto demonstra que ‘de uma vez morreram para o pecado’ conforme Paulo demonstra no verso 10.

 

4 De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.

É pela fé que o cristão torna-se participante da morte e da ressurreição de Cristo. O batismo nas águas somente simboliza o que o cristão já alcançou pela fé em Cristo: o verdadeiro batismo do homem efetivasse na morte com Cristo.

O cristão é batizado na morte de Cristo e sepultado juntamente com ele. Isto porque, da mesma forma que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória e poder de Deus, os que com ele ressurgem obtenham nova vida (espírito) e andem conforme ele andou (comportamento).

Neste ponto está o grande mistério revelado: Da mesma maneira que através do primeiro Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo que não há nenhum deles que pratique o bem (embora pratiquem boas ações) ( Rm 3:10 -18 e 23), por meio de Cristo, o último Adão, os homens são justificados e conduzidos à glória dos filhos de Deus, e estes por sua vez não praticam o mau (embora sejam suscetíveis de praticar más ações).

Como isto é possível? Este versículo é uma explicação teológica da figura da árvore que Cristo apresentou aos seus discípulos: “Do mesmo modo, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:17 -18).

Ou seja, os homens nascidos segundo a semente corruptível de Adão não fazem o bem, e jamais poderão fazer o bem. Eles são plantas que o Pai não plantou ( Mt 15:13 ), nascidos da semente corruptível, e portanto, árvores más, e só podem produzir frutos maus.

Da mesma forma, os homens nascidos da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, estes fazem o bem, visto que as suas obras foram preparadas por Deus de ante mão para que andassem nelas. Estes são plantas que o Pai plantou, árvores boas, e que só produzem frutos bons.

Como Deus fez (plantou) os cristãos novas criaturas para as boas obras (bons frutos), resta que não há como andar segundo o pecado, pois Deus já preparou para as suas criaturas para que andassem em boas obras ( Ef 2:10 ).

Resta que, é impossível àqueles que creem em Cristo, e que, portanto, são boas árvores (participantes da videira verdadeira), pratiquem más obras ou dêem maus frutos ( Tg 3:11 -12).

Com base no princípio demonstrado anteriormente é que Paulo demonstra que é impossível aos que foram agraciados com nova vida por meio a fé em Cristo permanecer (v. 1), viver (v. 2) ou andar segundo a velha natureza que foi crucificada com Cristo (v. 4).

 

5 Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;

Este versículo apresentada a mesma ideia que o apóstolo João apresenta em uma de suas carta: “Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no da do juízo tenhamos confiança, porque, qual ele é, somos nós também neste mundo ( 1Jo 4:17 ).

A exposição de João é declarativa, enquanto a de Paulo argumentativa. João afirma categoricamente que os cristãos são como Cristo é, e aqui e agora, neste mundo. João não aponta o mundo vindouro, quando os cristãos serão revestidos da imortalidade, mas que, neste sistema de coisas (mundo) o Cristão já alcançou a mesma posição do Filho de Deus.

É a maneira de João dizer que os cristãos já estão assentados nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 2:6 ).

Como a exposição de Paulo é argumentativa, ele conduz o leitor para chegar a uma conclusão. ‘Se fomos…’ é o mesmo que ‘fomos’ plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte, uma vez que com ele morremos.

Por terem sido plantados na semelhança da sua morte, os cristãos também ressurgem dentre os mortos à semelhança de Cristo. Desta maneira, da mesma forma que Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo. Estão assentados nas regiões celestiais em Cristo.

 

6 Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.

Não há como um cristão dizer que permanecerá no pecado com a ideia de que aumentará a graça de Deus, visto que:

  • O velho homem (nosso) foi crucificado com Cristo;
  • O corpo do pecado (carne) é desfeito, e;
  • Não serve mais ao pecado.

Como seria possível a alguém que crê em Cristo permanecer no pecado, visto que os que creem são crucificado com Cristo e tiveram o corpo do pecado desfeito? Se o corpo do pecado foi desfeito, como viver ou andar no pecado?

O crente é crucificado e sepultado com Cristo para que não mais sirva ao pecado, e segundo este saber, as possíveis argumentações do verso 1 são inconsistentes.

 

7 Porque aquele que está morto está justificado do pecado.

Ou seja, aquele que morreu com Cristo (que está morto) justificado está do pecado. Por assim dizer, também cessou do pecado.

Aquele que está morto para o pecado, não permanece inerte, antes ressurge dentre os mortos para a glória de Deus Pai. O novo homem que ressurge com Cristo, este é declarado justo diante de Deus (justificado).

Aquele que está morto para o pecado é o mesmo que vive para Deus. Por viver para Deus é que o homem recebe a declaração de que é justo.

Os que vivem para o pecado jamais serão justificados por Deus, uma vez que os vivos para o pecado estão mortos para Deus. Paulo disse que, quem está morto para o pecado está justificado, isto por causa do versículo seguinte, onde ele demonstra que quem morre com Cristo, vivem para Deus (v. 8).

A declaração de justo (justificação) é concernente a nova vida adquirida de Deus. Para receber a nova vida é preciso morrer (ter um encontro com a cruz de Cristo). Segue-se que a graça de Deus veio sobre todos os homens, “… para justificação e vida” ( Rm 5:18 ).

 

 

Abordagem Histórica das Transformações Lingüística

Antes de prosseguirmos o estudo da Carta de Paulo aos Romanos, faz-se necessário nos deter em observar as transformações que ocorreram ao longo da história recente sobre o modo de exposição e argumentação do pensamento humano.

A abrangência interlocutiva da linguagem é um fenômeno de todos os tempos e de todas as sociedades, porém, o estudo cientifico deste fenômeno (Pragmática) é recente.

A tendência da metafísica ocidental a partir de Platão (428 – 427 a.c), salvo exceções, tendeu privilegiar a dimensão apofântica (lógica do verdadeiro e falso), declarativa e locutória da linguagem. Perseguiam um ideal de linguagem (lógico-matemático).

O que a metafísica não alcançou, a ciência moderna se declarou herdeira. Para os da ciência moderna (Kepler, Galileu, Descartes e Newton), fazer ciência consiste em matematizar e formalizar, eliminando da linguagem as considerações implícitas, tendo estes elementos da linguagem natural como equívocos ou inadequadas ao discurso científico.

Veja o que Perelman diz da metafísica e da ciência moderna sobre o discurso declarativo como única forma de descrição da linguagem: “Negar as outras formas de discurso, ou a desvalorizá-las como fazia Platão, acusando de sofístico todo o uso linguístico não apoiado na essência, na definição, na clareza a priori” (Perelman, citado em Meyer, 1992: 120).

Apesar do ostracismo imposto pelas regras da metafísica quando realçadas pela ‘linguagem’ adotada pela ciência moderna, temos na história um outro tipo de abordagem linguística do discurso: a retórica.

A primeira referência a retórica remonta ao século V a.C, tendo em dois sicilianos (Corax e Tisia) os seus idealizadores, por causa de Hiéron, um certo tirano de Siracusa, que, segundo a lenda, teria proibido os seus súdito de utilizar a fala.

A Retórica cresceu em importância na democracia ateniense, visto que, saber falar para persuadir e convencer nas assembleias, tribunais, praças públicas, etc transformou-se em necessidade.

Era preciso a quem fizesse o uso da fala saber convencer o interlocutor da pertinência de sua abordagem. Por fim, os Sofistas, que se auto intitulavam ‘mestres de Retórica’ os seus principais representantes.

Aristóteles ao abordar a Retórica, transforma a ‘técnica de persuasão’ em ciência quando dedica três livros a Retórica, ao compor um conjunto de conhecimentos, categorias e regras.

Essencialmente, Aristóteles demonstrou que a Retórica visa criar meios de persuadir um auditório acerca de uma determinada matéria. Sem fixar-se naquilo que é demonstrável ou analítico, a Retórica tem o que é verossímil ou provável como seu objeto, através de uma natureza puramente discursal (dialética).

O declínio da Retórica teve início no final do século XVI num processo que estendeu-se até o século XIX, que marca o seu desaparecimento. Ela perdeu a influência e sofreu modificações: perdeu o seu objetivo pragmático, deixando de aplicar-se ao persuadir para aplicar-se ao ensino de ‘belos’ discursos.

Tal declínio deve-se a ascensão do pensamento burguês através da evidência pessoal do protestantismo, racional do cartesianismo ou sensível do empirismo (Perelman 1993: 26). Este processo é marcado pelo racionalismo de Descartes, quando erigiu a evidência em critério de verdade. Ele excluiu a argumentação do campo do saber geral e da filosofia em particular. Para ele evidência só através da demonstração, e nunca através da discussão (Perelman 1987: 264).

Mas, qual a relação entre a Retórica, a Metafísica e a linguagem da ciência moderna com a abordagem a Carta de Paulo aos Romanos? A Retórica como uma ‘ciência’ da argumentação de modo a persuadir e convencer o interlocutor teve o seu ápice entre os Gregos e Romanos, sociedade que Paulo, como cidadão Romano fazia parte, e que acabou por influenciar o estilo de composição de suas cartas.

Para uma melhor compreensão dos escritos de Paulo, é preciso utilizar como ferramenta de interpretação de texto e contexto elementos da Retórica. É plenamente verificável que o método de ensino de Paulo é segundo a arte do bem falar, de modo que ele procurava persuadir e convencer os seus interlocutores

As várias condições que Perelman enumera como sendo necessárias a argumentação (Retórica) são plenamente observáveis nas Cartas de Paulo. Paulo sempre:

  • Situa e insere- o seu discurso em um contexto determinado e dirige-se a um auditório determinado;
  • Paulo como orador, através do seu discurso procurava exercer uma ação (de persuasão ou convicção) sobre o auditório;
  • Os interlocutores precisam estar dispostos a escutar, ou seja, a sofrer (aceitar)a ação do orador;
  • Querer persuadir implica renúncia por parte do orador em dar ordens ao auditório, procurando antes, a sua adesão intelectual;
  • Paulo, além do estilo argumentativo, que nada tem a ver com a verdade do evangelho, aponta e defende a verdade do evangelho desvinculado do seu conhecimento humano ou do próprio uso da Retórica;
  • Ao argumentar, Paulo demonstra que é tão possível defender uma tese como a sua contrária. Aplicação prática do exposto por: (Perelman, 1987: 234).

 

A argumentação (Retórica) de Paulo é distinta da demonstração (lógica), visto que, a concepção da argumentação insere a noção de auditório “O conjunto daqueles que o orador quer influenciar mediante o seu discurso” (Perelman, 1987: 237). O ‘auditório’ de Paulo é os cristãos, e ele conhecia os valores e as teses do seu auditório em especial.

Paulo era versado na Retórica, uma vez que ele não apresenta erros como orador, que é a petição de princípio, que segundo Perelman é: “Supor admitida uma tese que se desejaria fazer admitir pelo auditório” (Perelman, 1987: 239-240). Durante as suas exposições, Paulo trabalha as teses e valores do seu auditório (cristãos), mesmo quando constituído de apenas uma ou algumas pessoas (cartas pastorais e cartas as igrejas), através do questionamento, técnica muito utilizada por Sócrates em seus diálogos platônicos. (Perelman, 1987: 240).

O Capítulo 6 é composto por frases argumentativas, e, portanto, elas não devem ser consideradas ou confundidas com frases conclusivas ou afirmativas.

Quais as diferenças entre frases argumentativas, conclusivas e afirmativas? Como interpretá-las?

Um exemplo claro de frase afirmativa é: “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ). O apóstolo João é quem trabalha muito com frase afirmativas, ou por vezes declarativas.

Ao relembrar a mensagem anunciada por Cristo, João faz menção de uma frase declarativa e afirmativa: Deus é luz! Tais frases são utilizadas para evidenciar uma verdade inconteste, ou para declarar algo acerca de alguém.

Por exemplo: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje e eternamente” ( Hb 13:8 ). Temos uma verdade e uma declaração acerca de Cristo Jesus. Estas frases podem ser tomadas de maneira isolada do texto e contexto que não trarão grande prejuízo ao leitor.

Ao citar Hb 13:8 é quase impossível alguém intentar negar a imutabilidade de Cristo, embora há quem intente.

As frases afirmativas, declarativas constituem-se premissas que dão sustentabilidade às frases argumentativas e conclusivas.

O apóstolo Paulo é dado a linguagem argumentativa, visto que, o seu discurso visa convencer ou persuadir, seja qual for os seus interlocutores (judeus ou gentios). Argumentar é fornecer argumentos e razões a favor ou contra uma determinada tese ou matéria.

A linguagem de Paulo é segundo a retórica dos Gregos e dos Romanos, que foi concebida como a arte do bem falar, embora a doutrina apregoada por Paulo não tenha se firmado em sublimidade de palavras ou de sabedoria ( 1Co 2:1 ). A arte do bem falar é o falar de modo a persuadir e a convencer através da dialética e tópica, ou seja, uma arte no conduzir o diálogo e a exposição de temas controversos.

A arte do bem falar trabalha com operadores argumentativos que a língua dispõe. Estes dispositivos são designados operadores e conectivos argumentativos. Por causa destes operadores argumentativos, os enunciados de uma frase ou oração, embora tenha uma significação própria do ponto de vista lógico, acaba por divergir quando analisadas do ponto de vista argumentativo.

Vejamos o seguinte exemplo:

a) “Ora, a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés?”;

B) “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:13 -14).

Temos dois enunciados que se analisados do ponto de vista lógico e argumentativo, somente o ponto de vista argumentativo faz com que o segundo enunciado complemente o primeiro. Observe: a pergunta ‘b’ quando tida como um enunciado de cunho lógico somente carece de respostas: Os anjos são ou não ministros enviados a servir em favor dos santos?

Porém, quando analisadas argumentativamente, os operadores argumentativos transformam simples premissas que conduzem a uma única conclusão, diferente do que é próprio a abordagem lógica (verdadeiro – falso).

Desta forma, verifica-se que o enunciado ‘b’ exerce somente a função de enfatizar a divindade de Cristo, sem a pretensão de especificar qual o ‘serviço’ desenvolvido pelos anjos.

Os operadores argumentativos aplicados aos enunciados transforma-os em premissas que conduzem a uma única conclusão, posicionando o enunciado numa certa direção que implicam em conclusões específicas.

Já os conectores argumentativos são dispositivos (advérbios, conjunções e locuções de subordinação ou de conjunção, etc.) que permitem a conexão ou a ligação recíproca de dois ou mais enunciados. Numa argumentação, os conectores podem ligar as premissas entre si, as premissas com a conclusão e a conclusão com as premissas.

Bibliografia: Retórica e Argumentação, Paulo Cesar, Universidade da Beira Interior, 95/96.

 

 

As argumentações deste capítulo devem ser analisadas segundo o que Paulo demonstrou nos versos 12 à 19 do capítulo 5, da mesma forma que o capítulo 3, versos 23 ao capítulo 5, verso 11, deveriam ser analisados com base no exposto nos versos 21 à 22 do capítulo 3.

Ao declarar que a justiça de Deus é pela fé em Cristo ( Rm 3:21 -22), Paulo apresenta um vasto repertório de argumentos no intuito de demonstrar e convencer alguns dos cristãos da validade do exposto, e, para demonstrar que os seus argumentos não comportam mais que uma conclusão, ele apresenta a seguinte conclusão: “Sendo, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), e no que ela implica: “… temos paz com Deus…” ( Rm 5:1 ).

A exposição do verso 1 do capítulo 6 segue o mesmo molde do exposto acima. Neste verso o apóstolo simplesmente antecipa-se a possíveis ‘contradizentes’, demonstrando que, qualquer argumento contrário ao que ele haveria de expor, não chegaria a uma conclusão válida segundo a verdade do evangelho, que é conforme o exposto acerca de Adão e Cristo ( Rm 5:12 -19).

O verso 1 deste capítulo fundamenta-se no verso 20 do capítulo 5, onde fica claro que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, ou seja, a graça já foi demonstrada abundante (passado) em Cristo (na sua morte), não sendo mais necessário que alguém procurasse ‘promover’ a graça (para que a graça aumente).

O pecado abundou sobre os nascidos em Adão, porém, a graça de Deus demonstrou-se superabundante por intermédio de Cristo, nosso Senhor. Qualquer tentativa humana em promover a graça, é inócua, visto que, ela já foi demonstrada em plenitude (superabundou), quando Cristo morreu pelos homens, sendo eles ainda pecadores ( Rm 5:8 -10).

 

8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos;

Os versos 1 à 6 traz o leitor a seguinte conclusão: o cristão já morreu com Cristo (juntamente). Observe que Paulo inclui-se na narrativa ao demonstrar que, ele e os destinatários da carta, morreram com Cristo.

Até o verso 2 deste capítulo o apóstolo tão somente fez referência à morte de Cristo, demonstrando que, Ele foi entregue e morto por causa dos pecados dos homens que foram gerados em Adão ( Rm 4:25 ). As questões acerca da morte de Cristo, que reconciliou os que crêem com Deus, são plenamente respondidas ( Rm 5:10 ), porém, como se deu a justificação dos que crêem, está questão é respondida através dos versículos que demonstram que os cristãos também morreram com Cristo.

O verso 8 é um enunciado argumentativo por causa dos conectores argumentativos (ora, se e que), porém, o enunciado apresenta o seguinte pressuposto: Já morremos (os cristãos) com Cristo.

Em primeiro lugar, o apóstolo demonstrou que Cristo morreu ( Rm 5:8 ) (argumentação segundo valores intrínsecos a ele e seus interlocutores: a fé no evangelho). Todos os cristãos sabiam que Cristo havia morrido na cruz do calvário! Temos na argumentação uma premissa: Cristo morreu.

Logo em seguida, Paulo apresenta outro enunciado argumentativo, do qual podemos extrair a seguinte premissa: todos os cristãos estão mortos para o pecado ( Rm 6:2 ). Após apresentar um novo enunciado argumentativo, Paulo procura certificar-se de que todos possuíam o mesmo conhecimento: “Ou não sabeis que…” ( Rm 6:3 ), de que o batismo do cristão representa a sua morte com Cristo.

Dai segue-se o seguinte raciocínio:

a) Cristo morreu (premissa 1);

b) Os que crêem morreram com ele para o pecado (premissa 2 – é o que o batismo representa);

c) surge a conclusão ao relacionar a premissa 1 com a premissa 2: Como Cristo morreu e os cristãos também morreram, logo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, os cristãos também ressurgiram com Ele ( Cl 3:1 ).

Mas, por que o versículo aponta que com Cristo viveremos (futuro), e não que com ele vivemos (presente)? Por causa do exposto no verso 5, onde o apóstolo destaca a semelhança com Cristo. Ou seja, os cristãos foram plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte para que os cristãos alcancem a semelhança do Cristo ressurreto, o que ocorrerá quando o que é mortal se revestir da imortalidade (futuro).

Hoje o cristão vive e anda em Espírito, pois o corpo do pecado foi desfeito na cruz do calvário, porém, só alcançará a semelhança da ressurreição de Cristo, quando da manifestação dos filhos de Deus ( Rm 8:19 ), que serão semelhantes a Cristo.

Desde o momento em que o homem crê, ele passa a viver e andar segundo a vida concedida por Deus, porém, este versículo destaca que a vida com Deus é sempiterna (viveremos = habitaremos para sempre). “Ora se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos”, ou seja, o viveremos indica a eficácia da salvação poderosa providenciada por Deus e manifesta na morte de Cristo (graça superabundante).

 

9 Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele.

No verso três Paulo, lembra os cristãos que todos foram batizados na morte de Cristo “Ou não sabeis que…” (v. 3), e nos versos 6 e 9, ele demonstra que todos tinham um conhecimento em comum “Pois sabemos isso (…) Pois sabemos que…” (vs. 6 e 9).

Os cristãos sabiam que Cristo morreu (v. 3), e que havia ressuscitado dentre os mortos, e que Ele jamais voltaria a morrer novamente. Cristo jamais voltará a se sujeitar a passar pela paixão da morte, uma vez que ela foi vencida na cruz do calvário.

 

10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.

O verso 10 complementa o verso anterior. Paulo reafirma que, quanto a ter morrido, Cristo morreu uma só vez por causa do pecado da humanidade decorrente de Adão. Porém, com relação a vida decorrente da ressurreição, Ele vive para sempre à destra de Deus.

Este verso demonstra que, se os cristãos realmente criam que efetivamente morreram à semelhança de Cristo, isto significava que eles também morreram de uma vez (não é preciso morrer outra vez) e para sempre para o pecado. Da mesma forma, quanto a viver, viverão para sempre com Deus à semelhança de Cristo “…cremos que também com ele viveremos” (v. 9).

 

11 Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.

Paulo procura conscientizar os seus leitores a considerarem (Retórica perfeita) que estavam mortos para o pecado e vivos para Deus. “Assim também…” remete as considerações apresentadas anteriormente.

Ou seja, da mesma maneira que ‘conheciam’ que Cristo morreu uma única vez por causa do pecado e foi sepultado, os cristãos deveriam considerar estarem mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus.

Esta relação entre a morte de Cristo e a morte dos cristãos, e a vida de Cristo e a nova vida dos cristãos Paulo Já havia estabelecido no verso 8, porém, discorre de forma a não deixar dúvidas quando a morte dos cristãos para o pecado, e ressurreição deles para vida, por meio de Cristo Jesus.

Considerar é ter em conta, ou seja, é andar conforme a nova vida alcançada “…assim andemos nós também em novidade de vida” (v. 4). Paulo não recomenda um faz de conta ao pedir que os cristãos considerassem estarem mortos para o pecado e vivos para Deus. Eles deviam contar com a nova vida e descansar por estarem de posse dela (regeneração), porém, andarem de modo digno da nova condição alcançada graciosamente (comportamento).

 

 

12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências;

Os versos 12 e 13 não devem ser considerados como uma determinação (ordem), pois é próprio à retórica a renúncia, pelo orador, a dar ordens ao auditório.

A conjunção coordenativa conclusiva (portanto) demonstra que todo o enunciado (vs 12 e 13) depende das considerações expostas anteriormente (vs 9- 12), ou seja, o verso 12 não é uma ordem direta e inflexível (Não reine.), como se o homem possuísse domínio sobre o pecado (isto considerando o pecado quanto a figura de senhor).

A partir do momento que o cristão considera que está morto para o pecado (v. 11), automaticamente estará cônscio de que o pecado não exerce domínio sobre ele (reinado), e que já não cumpre com as obrigações do pecado.

O pecado não exerce domínio (reine) sobre o corpo mortal dos que crêem, de maneira que o cristão ‘deva’ se submeter as suas concupiscências (do pecado).

Este verso apresenta a mesma idéia do verso 14: a partir do momento que o homem passa a estar debaixo da graça, é porque o corpo do pecado foi desfeito (v. 6) e a lei não exerce qualquer influência sobre ele. O pecado deixa de ter domínio, e portanto, já não reina o pecado sobre o corpo mortal dos que crêem.

Este versículo apresenta uma nova realidade aos cristãos, e não uma determinação do apóstolo aos cristãos.

 

13 Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.

A nova condição em Cristo permite aos cristãos não apresentar os seus membros (corpo mortal) ao pecado (antigo senhor) por instrumento de iniqüidade. Diante da nova realidade decorrente da morte com Cristo que é a do pecado não exercer domínio (não reine) sobre os seus ouvintes, Paulo apresenta argumentos que demonstram ser possível também andar em novidade de vida.

Os que morreram com Cristo passaram à condição de vivos para Deus, uma vez que rejeitaram o pecado através da fé em Cristo, e podiam apresentarem-se a Deus, visto que estavam de posse da nova condição: vivos dentre mortos.

Apresentar-se a Deus refere-se ao serviço voluntário do servo ao seu novo Senhor, ou seja, é estar consciente de que os seus membros (corpo) deve estar a serviço do seu Senhor como instrumento de justiça.

Observe que a função de instrumento é estabelecida através de um comparativo: ‘como’ instrumento. Os homens não são instrumentos, porém, podem entregar-se ‘como’ instrumento de iniqüidade ou de justiça. Um instrumento não tem iniciativa própria, ficando na dependência de quem o usa. Este comparativo nos remete à carta de Paulo aos Gálatas: “Estes se opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

Um instrumento não possui vontade própria, e por isso carne, e Espírito se põem, para terem os homens como instrumentos. Desta forma os homens como instrumento não fazem o que desejam, antes, são utilizados como instrumento, ou da carne para a iniqüidade, ou do Espírito para a justiça.

Um instrumento não possui vontade própria, da mesma forma se estabelecermos este comparativo a pessoa de um escravo. Apesar de um escravo possuir ‘vontade’ por ser um ser humano reduzido a servidão, a condição de servidão faz com que o escravo não passe da condição de um objeto.

Um escravo era tido como um instrumento de produção (máquina), e a sua vontade não era levado em conta, visto que:

a) um escravo não podia possuir propriedades (bens);

b) tudo quanto produz pertence por direito ao seu Senhor, e;

c) em última instância, o escravo não passa da condição de propriedade do seu senhor.

A única certeza de um escravo quanto a receber alguma coisa desta vida era a morte, que o tornaria livre do seu senhor. Desta forma, a morte seria o único salário (recompensa) que um escravo teria direito, pois, como ‘coisa’ que era, um escravo não podia ter posses ou herdades.

 

14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.

Após saber ou conhecer que Cristo ressurgiu dentre os mortos e que a morte não tem domínio sobre Ele, resta que o pecado não tem domínio sobre os cristãos, uma vez que ressurgiram com Cristo (v. 9) “Portanto, se fostes ressuscitados com Cristo…” ( Cl 3:1 ).

O fato de os cristãos terem sido batizados com Cristo na sua morte, e ressurgido dentre mos mortos para a glória do Pai (v. 4), tirou-os da condição de sujeição a lei, para estabelecê-los debaixo da graça de Deus.

A premissa é: o pecado não tem domínio sobre o cristão. Mas, tal premissa é introduzida por um operador e conectivo argumentativo: porque – conjunção coordenativa explicativa. Ou seja, a premissa (o pecado não terá domínio sobre vós) do verso 14 é introduzida como uma explicação sobre porque o cristão deve considerar-se morto para o pecado e vivo para Deus.

 

 

Jesus Cristo Crucificado

Paulo foi instruído (versado) na arte do bem falar, porém, as suas mensagens não estavam apoiadas e nem consistiam em conhecimento humano (retórica). O tema das suas mensagens era e é a cruz de Cristo “E EU, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado ( 1Co 2:1 -2).

Demonstramos anteriormente que (pág. 17), através da arte do bem falar, Paulo trabalhava a concepção dos ouvintes através da persuasão, porém, em momento algum ele esteve apoiado em elementos provenientes da sabedoria humana (retórica) “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana…” ( 1Co 2:4 ).

Ao expor o evangelho de Cristo, Paulo não estava confiado na Retórica (sublimidade de palavras ou palavras persuasivas de sabedoria humana), antes estava cônscio de que a mensagem do evangelho é poder de Deus ( 1Co 2:5 ; Rm 1:16 ).

Paulo demonstrava efusivamente que a mensagem do evangelho é Espírito e poder (vida), para que os cristãos não depositassem confiança em meras palavras de conhecimento humano “O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são Espírito e vida ( Jo 6:63 ) compare: “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder ( 1Co 2:5 ).

Observe a relação entre ‘poder’ e ‘vida’: a vida eterna decorre do poder que emana de Deus por meio da fé em Cristo, o Verbo de Deus, que é a vida de Deus concedida graciosamente aos homens ( Jo 1:4 ).

Jesus, ao falar de si mesmo, apresentou-se como a vida de Deus concedida aos homens ( Jo 14:6 ), e Paulo ao testificar d’Ele, apresenta-O como ‘poder de Deus’, visto que, somente através do poder de Deus (evangelho) os homens alcançam a vida eterna.

Observe a primeira carta aos Coríntios, onde é possível inferir que as divisões entre os cristãos em vários partidos eram provenientes do entendimento de alguns que estabeleciam aqueles que detinham maior conhecimento humano em uma posição de preeminência sobre os demais ( 1Co 1:13 ).

O que percebemos através dos textos bíblicos é que Paulo não promovia estas desavenças. Paulo procurava demonstrar que todos os cristãos foram agraciados e enriquecidos em Cristo, em toda palavra e conhecimento, de modo que, nenhum dom faltava aos cristãos ( 1Co 1:5 ). Se todos foram de igual modo enriquecido em conhecimento e sabedoria, porque estavam se gloriando nos homens se tudo pertencia a eles? ( 1Co 3:21 ).

Se todos os cristãos foram enriquecidos em Cristo em tudo, para quê focar elementos provenientes do conhecimento humano “…os quais são vãos” ( 1Co 3:20 ), se a maior riqueza está na cruz de Cristo?

Paulo demonstra que nada propôs saber aos cristãos, a não ser a Cristo, e Este crucificado “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ), ou seja, o apóstolo não apresentou aos cristãos elementos de sabedoria humana, visto que, tal sabedoria é vã e não vem do alto, conforme também atesta o apóstolo Tiago ( Tg 3:14 -15).

As dissensões nas igrejas eram provenientes daqueles que estavam equivocados em sua carnal compreensão. Tinham a si mesmos por sábios, mas esqueciam que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus ( 1Co 3:18 -19).

Além daqueles que consideravam a si mesmos por sábios segundo a sabedoria deste mundo, havia outros que se gloriavam naqueles que se diziam sábios, o que potencializava as contendas entre os cristãos “…portanto, ninguém se glorie nos homens!” ( 1Co 3:21 ).

Através do exposto por Paulo aos cristãos de Coríntios, verifica-se que a mensagem do evangelho não se mescla à sabedoria humana. Enquanto esta é vã, aquela promove a vida eterna.

Quando Paulo escreveu que a sabedoria deste mundo é vã, ele não estava descartando de todo o conhecimento humano. É salutar que os cristãos sejam instruídos no conhecimento secular, porém, é preciso compreender que o homem jamais se achegará a Deus por meio deste conhecimento.

Enquanto na condição de ‘peregrinos’ nesta vida, o cristão precisa instrui-se para melhor relacionar-se com os concidadãos deste mundo, mas deve estar ciente de que a instrução deste mundo não o torna apto a compreender as coisas do reino de Deus.

Alguém pode perguntar: por quê? A bíblia apresenta vários motivos:

  • Ter um diploma ou ser versado em ciências humanas não habilita homem algum a compreender a mensagem do evangelho “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14 );
  • A mensagem do evangelho é loucura para os sábios deste mundo “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem…” ( 1Co 1:18 );
  • A sabedoria deste mundo não promove o conhecimento de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria…” ( 1Co 1:21 );
  • O evangelho apresenta Deus se revelando aos homens por intermédio do seu Espírito, mas nenhum dos ‘príncipes’ deste mundo conheceu a Cristo, embora fossem sábios e entendidos “A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu (…) Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito…” ( 1Co 2:8 -10).

O que observamos em Paulo é que, apesar de ele ter sido instruído nas questões seculares, ele não usou desta sabedoria para se impor sobre os demais cristãos. Porém, não podemos negar que, ao expor o evangelho em suas cartas, Paulo utiliza elementos da retórica para melhor expor a verdade do evangelho.

Mas, quando comparamos as cartas de Paulo e Pedro, verificamos que, com relação à mensagem apregoada, as cartas de Pedro não ficam aquém do exposto pelas cartas Paulinas.

O problema quanto à sabedoria deste mundo surge quando alguém se arroga na posição de sábio e mestre, porém, firma-se na sabedoria deste mundo, e não na sabedoria que é do alto, proveniente da revelação de Deus por intermédio do evangelho ( 1Co 3:18 -20).

O homem movido pelo conhecimento deste mundo se vangloria em suas conquistas pessoais e apresentam os seus títulos como troféus. Acaba ensoberbecendo-se contra o seu irmão, e esquece que, as conquistas pessoais deste mundo não tornam ninguém diferente perante Deus “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ).

Um exemplo claro de como o conhecimento humano interfere na compreensão da palavra do evangelho encontramos na doutrina da justificação.

Muitos estudiosos ao examinar a bíblia compreendem que a justiça divina é semelhante a apresentada nos tribunais humanos, e estabelecem esta relação pura e simplesmente por causa da palavra ‘justificação’.

Scofield e Bancroft comungam da mesma opinião quando fazem referência à justificação: “A justificação é o ato judicial de Deus, mediante o qual aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo a Seus olhos…” Teologia Elementar, Bancroft, Emery H., Editora EBR, 3º Ed., pág. 255 (grifo nosso), e nota explicativa do rodapé da Bíblia de Scofield com Referências à Rm 3: 28.

Na mesma página, Bancroft dá uma definição ‘bíblica’ para a palavra justificação: “A palavra ‘justificação’, tanto na terminologia religiosa como na linguagem comum, é um termo ligado à lei (…) É termo técnico e forense…”. Destas colocações surge a pergunta: Onde está definido que a palavra justificação é termo técnico e forense? O que se percebe, é que homens versados em ciências jurídicas passaram a adotar o termo ‘justificação’ como sendo um termo jurídico por entenderem que a justiça divina assemelhasse a justiça humana, ou seja, que Deus também trabalha com ‘ato judicial’.

Ledo engano! Isto quando não apresenta contradições em suas definições. Se considerarmos as notas de Scofield, o que é justificação? É um ato judicial ou um ato de reconhecimento divino?

Se considerarmos a bíblia, verificaremos que os dois conceitos não condizem com a verdade. A bíblia não trás uma definição, porém, ela apresenta elementos que apontam para a seguinte definição: Justificação resulta de um ato criativo de Deus!

Por que um ato criativo? Por que envolve o poder de Deus. O homem só é justificado (tornar justo, declarar justo, declarar reto ou livre de culpa e merecimento de castigo) quando crê no evangelho e recebe poder para ser feito (criado) novamente (regeneração) um novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

A necessidade da justificação do homem não é por causa de seus atos, antes por causa da natureza herdada em Adão. Por isso a justificação é de vida, através da ressurreição com Cristo, onde o poder manifesto em Cristo, também se manifesta sobre os que creem “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida ( Rm 5:18 ; Ef 1:19 -20).

Desta maneira, verifica-se que o conhecimento humano não alcança a magnitude da revelação de Deus por meio do evangelho. A sabedoria de Deus não surpreende somente os homens uma vez que a multiforme sabedoria de Deus é revelada aos principados e potestades por intermédio da igreja.

Enquanto o mundo procura sabedoria, o cristão deve fixar-se na mensagem da cruz de Cristo, que é escândalo para os sábios deste mundo, porém, a sabedoria de Deus confunde a sabedoria dos sábios deste mundo, pois o que é anunciado por meio do evangelho constitui-se poder de Deus.

 

 

15 Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.

A argumentação apresentada no verso 2 é complementada através deste verso e apresenta a mesma colocação de João e uma de suas cartas: “Qualquer que permanece nele não peca (…) Qualquer que é nascido de Deus não comente pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:6 -9).

Sem esquecer que os argumentos deste capítulo fundamenta-se no capítulo 5, do verso 12 ao 21, João apresenta uma figura que ilustra a condição daquele que á nascido de Deus, ou seja, é uma planta plantada por Deus “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

João apresenta o motivo pelo qual o homem nascido de Deus não peca: porque a semente de Deus permanece nele, ou seja, o que determina o tipo de uma planta é a semente.

A bíblia apresenta dois tipos de sementes: a corruptível e a incorruptível. Está é a palavra de Deus e aquela refere-se a semente corruptível de Adão, por quem todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus por causa da semente de Adão.

Sabemos que uma planta não pode produzir dois tipos de frutos, e nesta ilustração, verifica-se que a planta plantada pelo Pai só pode produzir segundo a semente planta. É um contra senso considerar que a planta que o Pai plantou possa produzir dois tipos de frutos: o bem e o mau.

Segundo o que Paulo apresentou temos:

  • Os mortos para o pecado não podem viver para o pecado ( Rm 6:2 );
  • Ao ser plantado na semelhança da morte de Cristo, o homem é semelhante a Cristo na ressurreição ( Rm 6:5 ). Uma vez que os cristãos já ressuscitaram com Cristo ( Rm 6:8 ; Cl 3:1 ), segue-se que, qual Ele é, os cristãos o são neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 );
  • A única referência às questões comportamentais no capítulo 6 refere-se a “andar em novidade de vida” ( Rm 6:4 ), visto que ‘viver em Espírito’ diz da nova vida proveniente de Deus;
  • Uma vez que os cristãos não estão debaixo da lei, mas da graça, segue-se que o pecado perdeu o seu domínio ( Rm 6:14 ). Como um servo só pode servir a um senhor, conclui-se que é impossível aos que tem a Cristo como Senhor em suas vidas produzir para Deus e para o pecado.

Neste versículo (v. 15) Paulo retoma a abordagem do verso 2, e demonstra que não há como o cristão pecar (De modo nenhum). Paulo demonstra que este saber era comum aos cristãos, visto que eles sabiam que haviam morrido com Cristo (v. 6). Também sabiam que Cristo havia ressuscitado dentre os mortos (v. 9). Mas, no que implica a morte e a ressurreição de Cristo?

Uma vez que o velho homem foi crucificado com Cristo (v. 6), segue-se que, com a ‘morte’ do velho homem, o cristão é declarado justo (v. 7), conforme demonstra o verso 5: “Porque, uma vez que temos sido plantados juntamente com Ele na semelhança da Sua morte…” assim é o cristão, justo e santo ‘na semelhança da Sua ressurreição’ ( 1Jo 4:17 ).

Uma vez que os cristãos já morreram com Cristo e a ressurreição é na semelhança da ressurreição de Cristo, segue-se que aqueles que morrem juntamente com Cristo, de uma vez por todas morrem para o pecado, já que tanto Cristo como os cristãos passaram a viver para Deus por intermédio da ressurreição. Desta forma os cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo, por causa da nova condição do homem espiritual gerado em Cristo (v. 10).

Muitos entendem que neste versículo (v. 15) Paulo está perguntado aos seus leitores se é pertinente aos cristãos permanecerem em uma vida de devassidão simplesmente por não terem o freio da lei, uma vez que agora estão na graça.

Mas, não é esta a colocação do apóstolo. É preciso considerar a primeira pergunta: “Pois que?”, que introduz os elementos necessário à compreensão do leitor, quando ler a conclusão: “De modo nenhum”.

Paulo através da pergunta: “Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?” procurou introduzir uma nova figura que ilustrasse e trouxesse conhecimento aos Cristãos: “Não sabeis vós que…” (v. 16), contrastando com o conhecimento que era comum: “Sabendo isto…” (v. 6 e 9).

Após apresentar Adão e Cristo, o pecado e a graça no capítulo anterior ( Rm 5:12 -21), neste capítulo, a primeira referência à lei encontra-se no verso 15. Através deste versículo Paulo demonstra que a ausência da lei não determina a condição de submissão ao pecado, e sim o fato de o homem ter herdado de Adão tal condição. Antes mesmo de ser instituída a lei, já estava o pecado no mundo ( Rm 5:13 ), o que demonstra que a abundante graça de Deus promove a justificação de vida ( Rm 5:18 ), em contraste à condenação herdada de Adão.

Na justificação, Deus declara o homem livre de pecado e culpa, ou seja, o homem é justo perante Ele. Para receber tal declaração de Deus é preciso que o homem não esteja na condição de sujeição ao pecado, e, para isso, não pode pecar, uma vez que somente os escravos do pecado pecam “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

Somente cometem pecado os servos do pecado, ou seja, àqueles nascido da semente corruptível de Adão. Isto porque, segundo o apóstolo João, os que tem em si a semente de Deus, nascidos da vontade de Deus ( Jo 1:12 ), estes não pecam ( 1Jo 3:6 -9).

A frase ‘De modo nenhum (…) Pecaremos…” não é uma determinação divina que o homem deva cumprir como uma lei, antes diz da impossibilidade da nova natureza criada na regeneração através da semente incorruptível pecar.

Por não estarmos debaixo da lei (tutelados) pecaremos? De modo nenhum! Pois que os que morreram e ressurgiram com Cristo, de uma vez morreram para o pecado.

 

16 Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?

A frase ‘De nenhum modo’ pede uma explicação da parte do apóstolo sobre a impossibilidade de o homem pecar quando alcançado pela graça. Tal explicação advém de elementos pertinente à figura do escavo, que é introduzida através da argumentação seguinte “Não sabeis vós…?”.

Não sabeis vós que é impossível servir a dois senhores? Não sabeis vós que a árvore só produz fruto segundo a sua espécie? Ou não sabeis que um fonte não pode jorrar água doce e salgada? ( Tg 3:12 ). Todas estas figuras complementam-se e apontam para os elementos apresentados por Cristo acerca das duas portas e dos dois caminhos.

Como o homem apresenta-se como servo para obedecer ao seu senhor (…a quem vos apresentardes por servos…)? Ou seja, como o homem passa a condição de servo daquele a quem ele obedece (pecado ou obediência)?

A bíblia é clara sobre este aspecto. Todos os homens quando vem ao mundo através do nascimento natural, segundo Adão, apresentam-se ao pecado para o servir e obedecer. Ou seja, o nascimento natural é a porta larga que dá acesso a um caminho espaçoso que conduz a perdição “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 ).

O nascimento segundo a semente corruptível de Adão (natural) é a maneira como o homem se apresenta como servo ao pecado. É o nascimento segundo a vontade da carne, segundo a vontade do varão e do sangue que coloca o homem em sujeição e em obediência ao pecado ( Jo 1:13 ).

Como o homem se apresenta a Deus como servo? Através da obediência a palavra da verdade (evangelho) “…obedecestes de coração a forma de doutrina a que fostes entregues” (v. 17).

 

17 Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.

Paulo agradece a Deus por de modo nenhum ser possível àqueles que morreram e ressurgiram com Cristo pecarem. Graças a Deus, pois outrora os cristãos foram escravos do pecado, mas, agora, em Cristo, por terem obedecido de coração à forma de doutrina a que foram entregue, foram feitos servos da justiça.

 

18 E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.

Esta é a condição daqueles que obedeceram a verdade do evangelho: libertos do pecado e servos da justiça.

É Deus que, por intermédio de Cristo, faz (feitos= criados) os que creem servos da justiça ( Jo 1:12 ).

 

 

19 Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.

(Falo como homem) – Observe o comentário ao capítulo 3, verso 5. Por causa da fraqueza da carne ou para evidenciar a condição da carne é que Paulo ilustra o tema como se os cristãos judeus ainda estivessem na carne.

Observe que ao falar aos Judeus Paulo se inclui na explicação “Qual é a vantagem do Judeus? (…) E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus? … (Falo como homem)” ( Rm 3:1 -5).

Da mesma forma, ao escrever aos cristãos da Galácia, Paulo assim diz: “Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito. Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta” ( Gl 3:14 -15).

‘Nós’ quem? Paulo fala acerca da bênção de Abraão aos gentios e da promessa do Espírito aos judeus, e que, tanto Paulo e os cristãos judeus receberam (nós).

Por ter feito referência a sua condição como judeu, ou seja, quando Paulo ainda estava na carne, é que ele introduz a ressalva: falo como homem. Isto demonstra que Paulo jamais quis se valer da sua condição de judeu para anunciar a verdade do evangelho.

Neste versículo Paulo registrou que falava como homem porque no verso 1 do capítulo 4 ele fez referência a seu irmãos na carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne” ( Rm 4:1 ), sendo que, as escrituras foram deixadas aos descendentes de Abraão segundo a carne “Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta, mas também por nós, a quem será tomado em conta…” ( Rm 4:23 -24).

Em seguida Paulo demonstra que ser descendente de Abraão é ser fraco, visto que, ser descendente de Abraão não é ser filho de Abraão “Porque Cristo, estando nós ainda fracos…” ( Rm 5:6 ). Ser filho de Abraão só é possível por meio da fé.

Desta maneira, ao chegar no capítulo 6, verso 19, Paulo reitera que, falou como homem, por causa da fraqueza da carne dos judeus, que não aproxima homem algum de Deus “Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne…” (v. 19).

Compare: ‘nós ainda fracos’ diz de Paulo e dos judeus quando ainda estavam sem Cristo, e ‘pela fraqueza da vossa carne’ diz da condição dos judeus que confiavam da carne (descendência de Abraão) para a salvação, condição que Paulo não mais estava.

Após evidenciar a nova condição daqueles que estão em Cristo (v. 18), Paulo procurou tratar do comportamento dos cristãos judeus, visto que, por ter sido evidenciado que eles não estavam mais tutelados pela lei (v. 14), consideravam Paulo um libertino “Façamos males para que venham bens?” ( Rm 3:8 ).

Ora (pois que), se os cristãos judeus haviam apresentado os seus corpos para servirem à imundície e a maldade através da sujeição à lei, embora as suas ações fossem alvo de louvor por parte dos homens por causa da moral e ética que seguiam, por que não continuar a fazer boas ações e receber de Deus o louvor?

Paulo estabelece um comparativo entre o antes e o depois de aceitarem a verdade do evangelho: “…assim como apresentastes os vossos membros (…) assim apresentai agora os vossos membros …” ( Rm 6:19 ).

Compare:

Na fraqueza da carne, ou seja, na submissão à lei, por acreditar que eram filhos de Abraão (de Deus) por serem descendentes de Abraão, permaneciam filhos da ira e da desobediência, permaneciam carnais. No poder do Espírito, ou seja, na submissão à graça por meio da fé em Cristo, os judeus cristãos tornaram-se filhos de Abraão, livrando-se da fraqueza da carne e foram criados homens espirituais ( Jo 1:12 e Jo 3:6 ).
Por quererem servir a Deus por intermédio da lei, os judeus possuíam uma conduta ilibada se comparado aos outros povos de sua época, porém, esta devoção à lei somente era um serviço à maldade e a imundície. Assim como possuíam uma conduta ilibada diante dos homens por pensarem que era possível servir a Deus por intermédio da lei, agora, libertos da lei e servos da jus
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Romanos 2 – Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus

Há um dia predeterminado para a ira de Deus “Pois é vindo o grande dia da ira deles, e quem poderá subsistir?” ( Ap 6:17 ). Neste dia os homens conhecerão (saber acerca de, entender, compreender) o juízo de Deus. O juízo de Deus foi estabelecido lá em Adão, mas os homens ignoram esta verdade. Quando do dia da ira será manifesto a eles que estão debaixo de condenação. Por serem filhos de Adão, ou filhos da desobediência, por conseguintes, também são filhos da ira ( Cl 3:6 ); “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” ( Ef 2:3 ).


Lógica

Antes de prosseguirmos, segue mais uma lição de interpretação bíblica. Utilizaremos nesta lição uma linguagem própria à lógica.

Conforme escreveu o apóstolo João, sabemos que: ‘Deus é luz’, e que: ‘não há nele trevas alguma’ ( 1Jo 1:5 ).

Considerando os elementos da lógica, a primeira oração é uma proposição simples declarativa: Deus é luz. Há valores lógicos às proposições: verdadeiro e falso. Conforme a ideia bíblica, temos que a proposição ‘Deus é luz’ tem o valor lógico verdadeiro.

Dentro da lógica há três princípios:

a) Princípio da identidade – se qualquer proposição é verdadeira, então, ela é verdadeira;
b) Princípio de não-contradição – nenhuma proposição pode ser verdadeira e falsa;
c) Princípio do terceiro excluído – uma proposição ou é verdadeira ou é falsa.

A proposição ‘Deus é luz’ é verdadeira, e por conseqüência não é falsa. Jamais esta proposição assumirá dois valores simultaneamente.

Dada uma proposição qualquer, se inserirmos o conectivo ‘não’, poderá formar a sua própria negação. Ex: ‘Deus não é luz’ – proposição simples declarativa com valor lógico falso.

A segunda oração ‘não há em Deus trevas alguma’, apesar de ter o conectivo ‘não’ tem o valor lógico verdadeiro, visto que reafirma a ideia da proposição ‘Deus é luz’.

As cartas bíblicas foram escritas essencialmente na linguagem lógica, sendo que definições e conceitos quase não são utilizados.

Definir: determinar a extensão ou os limites de; explicar o significado de; fixar, estabelecer; etc;
Conceituar: formulação de uma ideia por palavras, definição.

Já estudamos o seguinte versículo: “Do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça” ( Rm 1:18 ). Considerando que este versículo é uma proposição simples declarativa e verdadeira quanto ao valor lógico, é plenamente possível construímos uma nova proposição se substituirmos alguns elementos.

Da mesma forma que ‘do céu se manifesta a ira de Deus’, é certo que de lá também se manifesta a bondade de Deus. Como a bondade de Deus é certa, restam as perguntas: sobre quem a bondade se manifesta?

Durante o estudo do segundo capítulo da carta aos Romanos aplicaremos os elementos que apresentamos acima.

 

Romanos – Capítulo II

1 PORTANTO, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo.

O capítulo dois tem início com uma conjunção (portanto), o que indica uma relação de conclusão ao que foi dito anteriormente.

O que foi dito anteriormente (no capitulo 1)? Foi dito que:

a) Os homens que detém a verdade em injustiça são objetos da ira de Deus ( Rm 1:18 );
b) A natureza depõe contra os homens que detém a verdade em injustiça, deixando-os inescusáveis ( Rm 1:20 );
c) Há homens que detém a verdade em injustiça, e que, mesmo reconhecendo a existência de Deus, seus raciocínios tornarem-se fúteis e os corações insensatos se obscureceram, e criaram deuses para si ( Rm 1:21 ), e;
d) Há homens que detém a verdade em injustiça e que foram entregues às suas concupiscências ( Rm 1:24 ), as suas paixões infames ( Rm 1:26 e a uma disposição mental reprovável ( Rm 1:28 ), e passaram a praticar todos os tipos de ações reprováveis diante de Deus e dos homens ( Rm 1:29 -31).

O homem que Paulo evoca neste versículo “ó homem”, refere-se ao mesmo homem que ‘detém a verdade em injustiça’ do capitulo anterior ( Rm 1:18 ). Por que refere-se ao mesmo homem do capítulo anterior? Ao lermos o versículo “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais cousas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” ( Rm 1:32 ), percebe-se que as conjunções ‘ora’ e ‘portanto’ são empregadas indicando uma relação de conclusão em relação ao que foi dito anteriormente.

Neste caso em específico, a conjunção ‘ora’ ou ‘portanto’ introduz uma conclusão. O versículo trinta e dois, do capítulo um, demonstra que, embora os homens que detêm a verdade em injustiça, conhecendo a justiça de Deus (de que são dignos de morte quem pratica as ações enumeradas anteriormente), praticam as ações reprováveis e consentem com quem as praticam. Com base nestas informações, qualquer que seja o homem, mesmo que ele se sinta em posição privilegiada por julgar outros homens, ele permanece inescusável diante de Deus.

Seja quem for o homem (a fala de Paulo é para pegar os judeus), se ele detém a verdade em injustiça, ele está na mesma condição de quem ele julga, e pratica o que ele mesmo condena.

Neste versículo o apóstolo Paulo desfaz toda e qualquer diferença entre os homens. Este versículo e o último do capítulo anterior são inseparáveis quando se faz uma interpretação.

 

2 E bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade sobre os que tais coisas fazem.

Paulo reitera que os cristãos estão cônscios de que o juízo de Deus é segundo a verdade. Observe que ele enfatiza: “Bem sabemos…”. A verdade da qual o apostolo faz referência é a verdade do evangelho.

Através desta afirmativa, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos não julgam aqueles que estão fora da verdade, porém, é de conhecimento que o juízo de Deus é certo sobre quem pratica as ações descritas no capítulo primeiro, versos 29 a 31.

O conhecimento que o cristão dispõe é segundo a verdade do evangelho, enquanto que o ‘conhecimento’ dos homens que detêm a verdade em injustiça é proveniente da lei escrita em seus corações, ou da consciência ( Rm 2:15 ).

3 E tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus?

Paulo volta a questionar o ‘homem’ que detém a verdade em injustiça, e aponta o seu comportamento questionável: basta julgar aqueles que fazem as coisa descritas anteriormente para se ver livre do juízo de Deus?

Observe que o juízo segundo a verdade já está estabelecido e as atitudes dos homens visam escapar a tal juízo. O escritor ao Hebreus é claro: “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” ( Hb 2:3 ).

Note que há uma diferença entre ser inescusável e escapar ao juízo de Deus. Este refere-se a condenação adquirida em Adão, enquanto aquele refere-se ao comportamento reprovável dos que foram condenados em Adão. O juízo de Deus é uma condição muito mais dura diante de Deus, pois afeta a natureza do homem. Do juízo de Deus surgiu a semente corruptível de Adão. Tal semente faz com que os frutos dos homens nascidos de Adão sejam maus ( Jo 3:19 -20). A árvore que tem origem na semente de Adão só produz o mal, visto que uma árvore não pode produzir dois tipos de frutos ( Mt 7:17 ).

4 Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?

O versículo quatro depende do versículo três. No versículo três Paulo questiona a atitude do homem que pensa ser possível praticar as coisas reprováveis descritas anteriormente e escapar ao juízo de Deus. O homem que julga os que praticam as coisas reprováveis, ou pensa é possível escapar ao juízo de Deus, ou evidencia uma atitude mais grave ainda: desprezar a benignidade de Deus.

Paulo demonstra não entender a atitude daqueles que detêm a verdade em injustiça. Ou tal homem acha que é possível escapar ao juízo de Deus estabelecido lá em Adão, ou é uma atitude de desprezo a benignidade, paciência e longanimidade de Deus.

O desprezo à benignidade de Deus é por incredulidade, visto que, é a benignidade que leva o homem a arrepender-se de suas concepções errôneas.

 

Uma Figura Importante

Antes de perseguirmos no estudo faz-se necessário entendermos a seguinte colocação de Jesus:

“Entrai pela porta estreita. Pois larga e a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram” ( Mt 7:13 -14).

Jesus demonstra que há duas portas e dois caminhos. Há uma porta estreita e há uma porta larga. Há um caminho apertado e um caminho espaçoso.

O texto demonstra duas diferenças gritantes entre os dois caminhos e as duas portas, eles conduzem: a vida, ou a perdição.

O leitor deve perceber que há uma ordem clara: “Entrai pela porta estreita”, ou seja, Cristo alerta os seus ouvintes para que entrem pela porta estreita. É um convite que demanda uma decisão por parte de quem ouve. Para ter acesso a vida é preciso entrar pela porta sugerida por Cristo.

Por que é necessário entrar pela porta estreita? Jesus explica: porque ‘larga e a porta’, e ‘espaçoso é o caminho que conduz à perdição’. Através da explicação de Jesus, percebe-se que não é necessário ao homem tomar uma decisão para entrar na porta e percorrer o caminho que conduz a perdição. Por quê? O que isto quer dizer?

A explicação de Jesus demonstra implicitamente que todos os homens quando nascem, eles entram por uma porta larga; ou seja, a porta é larga que comporta todos quantos vêem ao mundo. O nascimento é a entrada por esta porta, e por isso não é necessário uma decisão de entrar por ela.

Todos os homens entraram por uma porta e percorrem um caminho que conduz a perdição. Para ter acesso ao caminho da vida, se faz necessário tomar a decisão de entrar pela porta estreita, e seguir o caminho apertado.

A figura das duas portas e dos dois caminhos são semelhantes à figura da árvore boa e da árvore má ( Mt 12:33 ); o bom tesouro e o mal tesouro ( Mt 12:35 ); as fontes de água doce e água amarga ( Tg 3:11 -12). Estas figuras são semelhantes quanto a idéia principal e cada uma apresenta um dos aspectos da salvação em Cristo.

A idéia principal destas figuras aponta para o evento da queda de Adão. Em Adão todos os homens foram julgados e condenados. A pena que pesa sobre a humanidade é a morte. Para Deus os homens nascidos de Adão estão mortos em delitos e pecados. A queda de Adão comprometeu a natureza do homem: Deus é vida, e a queda separou o homem de Deus. O homem perdeu a essência da natureza divina, deixando-o na condição de morto para Deus.

Todos os homens nascem sem ser participantes da natureza divina. A natureza do homem é segundo a natureza de Adão, visto que, nasceram da vontade da carne, da vontade do homem e do sangue ( Jo 1:13 ). Para o homem livrar-se da condenação que ocorreu em Adão, é preciso ao homem nascer de novo. Ele precisa nascer da vontade de Deus para tornar-se um dos filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Com base nestas informações, verifica-se que todos nascem sob condenação, e pesa sobre eles o juízo de Deus e por isso todos que vem ao mundo ‘são os que entram por ela’, a porta larga e o caminho espaçoso ( Mt 7:13 ). Todos entram pela porta ao nascer e no caminho que conduz à perdição, e esta figura evidência a necessidade do homem decidir-se pela oferta de salvação que há em Cristo.

Para entrar pela porta, que é Cristo, é necessário um novo nascimento. Observe que o nascimento é a ‘porta’ de entrada para a perdição eterna e para a vida eterna.

Todos descendem da semente de Adão (semente corruptível), e, portanto, são árvores más. Como pesa sobre eles a condenação de Adão, resta às árvores que tiveram origem na semente corruptível serem cortadas e lançadas no fogo. Como é próprio das árvores produzirem frutos segundo a sua espécie, as árvores que descendem da semente de Adão, só produzem frutos maus. Diferente da figura da porta e do caminho, a figura da árvore demonstra que é impossível aos homens nascidos de Adão produzirem o bem ( Mt 12:34 ).

Os corações dos homens nascidos sob a condenação de Adão são maus, e por mais que se esforcem, só pode tirar do coração o mau, do seu mau tesouro. Esta figura demonstra que o problema do homem pecador encontra-se em seu coração, na sua natureza. Para livrar-se desta condição é preciso circuncidá-lo por meio da circuncisão de Cristo.

Os homens nascidos de Adão têm uma vida restrita a este mundo. Vivem para si e para o pecado. Após aceitar a Cristo, o novo homem terá uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna, passando a viver para Deus ( 2Co 5:15 ; Rm 14:7 ).

A figura da árvore demonstra que os homens permanecem na condição herdada em Adão: serão ‘cortados’ e lançados no inferno por pesar sobre eles o juízo de Deus ( Rm 2:3 ; Mt 3:10 ). Como uma árvore produz um único tipo de fruto, os frutos das árvores que surgiram da semente corruptível de Adão são maus, ou seja, segundo a espécie da árvore. Por mais que o homem nascido de Adão procure fazer o bem, isto é impossível, visto que as suas obras não foram feitas em Deus, e não foram preparadas por Deus.

Por produzirem o mal, o homem entesoura ira para si. A condenação em Adão decorre da retidão e justiça de Deus, sem qualquer referência a ira. Já que o homem se deixou levar pela natureza corrompida, à prática de toda impiedade e injustiça, Deus trará a juízo todas as ações dos homens, e com relação a isto, não há acepção de pessoas.

As ações dos nascidos de novo serão julgadas e recompensadas no tribunal de Cristo, e as ações do velho homem serão julgadas e recompensadas no grande trono branco.

Depois desta pequena introdução estamos aptos a interpretar os versículos seguintes.

5 Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus;

A ‘dureza’ refere-se a ação de resistir à verdade em injustiça, e o ‘coração impenitente’, refere-se à natureza pecaminosa herdada em Adão.

Todos os homens quando vêm ao mundo, nascem com um coração impenitente. No Antigo Testamento, mesmo após a entrega da lei, Moisés recomenda ao povo de Israel a circuncisão do coração “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Observe que a circuncisão do prepúcio do coração refere-se ao coração impenitente, e o endurecimento da cerviz à dureza do homem.

No Novo Testamento é recomendado a circuncisão de Cristo, no despojar do corpo da carne. A circuncisão do A. T equivale a circuncisão do N. T., visto que, qualquer incisão no coração levará a morte. A morte em Cristo é o despojar do corpo da carne “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

A circuncisão de Cristo (N. T.), não é feita por mãos humanas, da mesma forma que a circuncisão do coração (A. T.), recomendada por Moisés;

A circuncisão de Cristo (N. T.), e a circuncisão do prepúcio do coração (A. T.), e pode ser realizado no homem e na mulher.

O homem que detém a verdade em injustiça, por manter-se insensível ao convite de salvação, simplesmente continua na empreitada de entesourar ira para si. Como compreender esta declaração de Paulo? Devemos ter em mente que:

a) Todos os homens estão condenados em Adão ( Rm 5:18 );
b) A condenação da humanidade em Adão decorre da justiça e retidão de Deus, sem qualquer referência a ira. Deus não se irou contra o homem quando da queda, antes fez justiça conforme a determinação dada a Adão ( Rm 3:23 );
c) A condenação afetou a natureza do homem, e todas as suas ações passaram a ser reprováveis diante de Deus ( Mt 12:34 );
d) Por não estarem em Deus, as ‘obras’ dos homens não são feitas em Deus, e por isso são reprováveis ( Jo 3:19 -21);
e) Todas as ações de todos os homens serão julgadas em juízo específico, e isso independe da condição de salvos ou perdidos ( Rm 2:11 );
f) Haverá o juízo do Trono Branco para os perdidos e o juízo do Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 e Ap 20:13 );
g) O homem que detém a verdade em injustiça continua na prática do mal, visto que as suas obras não são feitas em Deus e não foram preparadas por Deus ( Jo 3:21 e Ef 2:10 );
h) As obras más serão retribuídas por Deus com indignação e ira, e as obras feitas em Deus serão retribuídas com glória, honra e paz.

Há um dia predeterminado para a ira de Deus “Pois é vindo o grande dia da ira deles, e quem poderá subsistir?” ( Ap 6:17 ). Neste dia os homens conhecerão o juízo de Deus. O juízo de Deus foi estabelecido lá em Adão, mas os homens ignoram esta verdade. Quando do dia da ira será manifesto a eles que estão debaixo de condenação. Por serem filhos de Adão, ou filhos da desobediência, por conseguintes, também são filhos da ira ( Cl 3:6 ); “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” ( Ef 2:3 ).

6 O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: 7 A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; 8 Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniqüidade;

O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber:

a) Dará vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção;
b) Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniqüidade;

A vida eterna é prometida àqueles que procuram glória, honra e incorrupção, e não a quem faz boas ações, pois fazer boas ações não é fazer o bem. O homem só pode fazer o bem quando está em Cristo. Somente em Cristo o homem encontra glória, honra e incorrupção, e após encontrar estas bênçãos em Cristo, é preciso ao crente perseverar fazendo o bem. Boas ações não concederão vida eterna aos homens.

Em primeiro lugar é preciso ao homem buscar o reino de Deus e a sua justiça, que é Cristo; e como Deus há de recompensar a cada um segundo as suas obras, é de bom alvitre que se faça o bem. O bem que o cristão faz visa a recompensa futura, e não a salvação. A salvação só é possível através do evangelho de Cristo, que é poder de Deus.

Deus também recompensará as obras dos homens que detêm a verdade em injustiça. Observe que a ira e a indignação de Deus permanece sobre aqueles que são desobedientes à verdade. A indignação e a ira não decorre das más ações dos homens, antes decorre da desobediência à verdade e obediência à iniqüidade. Enquanto o homem for obediente à iniqüidade, jamais será filho de Deus. Permanecerá na condição de filho da ira e sujeito à ira de Deus.

O homem sem Cristo é desobediente à verdade, e acumula ira para si por ser faccioso, contencioso. As boas ações realizadas pelos homens obedientes à iniqüidade não será tido por Deus como sendo boas obras. Essas ações Isaias nomeia ‘trapos de imundície’.

9 Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; 10 Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego;

Paulo demonstra que não há qualquer diferença entre judeus e gentios. Tanto os judeus quanto os gentios praticam o mal diante de Deus caso sejam desobedientes à verdade do evangelho. Lembre que uma árvore má não produz frutos bons. A natureza corrompida do homem, que é obediente à iniqüidade, impede que o homem faça o bem.

Da mesma forma que o pecado escraviza judeus e gregos, também não há diferença entre judeu e grego quando se tornam escravos da justiça. Todos que aceitam a Cristo praticam o bem. Por terem adquirido um novo coração em Cristo tem um bom tesouro, e as suas ações são boas, pois são feitas estando em Deus.

Quem aceita a Cristo pode fazer o bem e o mal, mas suas ações não o levarão para o inferno, pois Deus já o recebeu por seu. Da mesma forma, os descrentes fazem o bem e o mal, mas para Deus as suas ações são más, pois eles não pertencem a Deus.

 

11 Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.

Se um judeu e um grego praticam o bem (devemos entender a prática do bem vinculado à crença em Cristo), não há distinção entre eles perante Deus. Ele recompensará a cada um segundo as suas obras, pois em Deus não há acepção de pessoas.

Se um judeu e um grego praticam o mal (a prática do mal decorre da obediência à iniquidade), para Deus não há acepção: receberão a recompensa devida: indignação e ira.

 

 

Introdução

Na página quatro estudamos alguns elementos de lógica, e na página cinco algumas questões doutrinárias. Agora veremos como aplicar elementos da lógica durante uma leitura bíblica para não nos afastarmos das questões doutrinárias.

Lemos em uma publicação evangélica, no tópico ‘Falsos profetas’, ao citarem Mateus dez, versículo dezesseis, o seguinte: “É possível ao homem de falso coração fazer certas coisas boas. Pode-se até receber edificação pela sua mensagem, porque Deus honra a sua Palavra. Mas a pregação não o salvará da sentença do Juiz: ‘Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade!'” Pearlman, Myer, Mateus, o Evangelho do Grande Rei, 1. edição, Rj, Ed. CPAD, pág. 44.

Considerando que fazer ‘coisas boas’ é possível a todos os homens, mas fazer ‘o bem’, só é possível aos nascidos de novo, visto que ‘não há quem faça o bem’ sem estar ligado em Cristo Rm 3: 12. Considerando que aos homens é pertinente limparem o exterior do copo e do prato, mas que é impossível limparem o seu interior “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniqüidade” ( Mt 23:25 ), segue-se que, ao tentar explicar que “Há maldade nos melhores, e bondade nos piores” Pág 39, Myer não faz distinção entre ‘fazer coisas boas’ e ‘fazer o bem’, e acaba por afirmar que o homem de coração ‘falso’ faz ‘certas coisas boas’.

Aos falsos profetas é pertinente fazem boas ações, pois somente com ações exteriores é que eles se dão a conhecer como ovelhas, porém, o interior deles é comparado a lobos. As religiões que negam a Cristo como Senhor geralmente se esmera em praticar boas ações aos seus semelhantes, mas a mensagem que apregoam não aproxima o homem de Deus.

Fazer o bem não é uma questão de vontade, e sim de natureza. Não basta querer fazer o bem, antes é necessário obter uma nova natureza, segundo a semente incorruptível que é a palavra de Deus, para que se torne possível ao homem produzir o bem ( 1Pe 1:23 ). Somente aqueles que são nascidos de Deus fazem bem ( Jo 3:21 ). As boas obras foram preparadas por Deus para que os vivificados em Cristo possam andar nelas ( Ef 2:9 ).

Fazer boas ações está ligado a vontade do homem. Se ele quiser fará boas ações aos seus semelhantes, e isto não diz da disposição do seu coração. Agora, fazer o bem só é possível quando se está em Deus, pois é algo vinculado a natureza do novo homem e não à vontade, como é o caso de boas ações ( Jo 3:21 ).

É plenamente possível a um falso profeta fazer certas coisas boas, mas é impossível a eles fazerem o bem. Primeiramente porque a bíblia diz que ‘não há quem faça o bem’ ( Rm 3:12 ). Um falso profeta não pode fazer de modo algum o bem, pois eles não estão em Deus. Fazer ações humanitárias ou boas ações fará com que os homens acreditem que eles são ‘ovelhas’ ( 2Tm 4:1 -4).

Observe o que Jesus disse: “Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:18 ). Se é impossível a árvore má produzir bons frutos, como é possível ao homem de coração falso (coração falso remete a falso profeta), produzir ‘certas coisas boas’ quando Myer faz a citação acima? A análise de Pearlman não está em consonância com o que Jesus ensinou ( Mt 7:18 e Mt 12:33 -35). Se ele quis dizer ‘certas coisas boas’ não utilizou a citação de Mt 7: 18 em seu contexto correto. Da mesma forma, se ele utilizou ‘certas coisas boas’ em lugar de ‘fazer o bem’, contrariou o que Jesus disse: “…nem a árvore má produzir bons frutos” ( Mt 7:18 ).

A segunda declaração que complementa a primeira é muito mais grave: É possível receber edificação por meio da mensagem de um falso profeta?

A premissa que foi utilizada para dar sustentação à argumentação é verdadeira, pois ‘Deus honra a sua palavra’, e condiz com a idéia bíblica: “E disse-me o SENHOR: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la” ( Jr 1:12 ), mas, dizer que é possível receber edificação através das palavras de um falso profeta corresponde a uma inverdade.

Há um erro na argumentação do Sr. Myer, visto que:

a) Se Deus vela sobre a palavra de um ‘falso profeta’, este falso profeta já não é falso, e passou à condição de profeta;
b) O cuidado que a bíblia demonstra que devemos ter com os falsos profetas é com aquilo que dizem (doutrina) “E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição” ( 2Pe 2:1 );
c) Aspectos humanos como caráter, comportamento e moral não são fatores que determinam se alguém é ou não um falso profeta.

Não há como receber edificação por meio de uma mensagem de um falso profeta. Primeiro, porque a mensagem de um falso profeta não provém de Deus; segundo, a tal mensagem não é a semente incorruptível; o fruto que um falso profeta produz é segundo a sua natureza: é mal ( Mt 12:34 -35).

Elementos humanos como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, orações, são utilizados pelos falsos profetas como vestimentas para se disfarçarem em ovelhas. Tais elementos são manipuláveis pelos homens, pois diz de aspectos externos, como o exterior do copo e dos sepulcros. O que não podem manipular é o interior, onde somente Deus tem acesso e pode mudar.

Paulo ao escrever a Timóteo alerta dizendo: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentiras e tem cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento, e ordenam a abstinência de alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças…” ( 1Tm 4:1 -3).

Deus não honra a palavra de um falso profeta, pois a palavra de um falso profeta não é a palavra de Deus. A palavra é clara: Quem é que pratica a iniqüidade? Os falsos profetas, que se apresentam disfarçados de ovelhas, porém são lobos devoradores.

Somente é possível identificar os falsos profetas pelos seus frutos. Quais são os frutos de um falso profeta? O que um falso profeta produz? Mensagens que não têm origem em Deus! Este é o fruto dos falsos profetas: mensagens que não são conforme a verdade do evangelho!

Da mesma forma, o fruto de alguém que é profeta de Deus, é o fruto dos lábios, que professam que Cristo é o Filho de Deus ( Hb 13:15 ) compare ( 1Jo 4:1 -3).

A mensagem de Cristo visa transformar a natureza do homem, e a conduta é transformada gradativamente por intermédio do Espírito de Deus. A mensagem do evangelho não tem a finalidade de transformar concepção de mundo, caráter, conduta, etc. Se assim fosse, Paulo não pediria aos cristãos que vivessem de modo digno do evangelho de Cristo ( Ef 4:1 ).

Myer Pearlman também registrou um argumento de Agostinho: “O que faz com que o caminho seja estreito? perguntou Agostinho. Ele mesmo responde: ‘O caminho não é estreito por si mesmo, mas nós o fazemos assim, mediante o insuflar do nosso orgulho…” Pág. 42 (idem e grifo nosso).

A premissa “estreita é a porta, e apertado o caminho’ foi anunciada por Jesus. Esta premissa é verdadeira! Conforme Pearlman, Agostinho declara que ‘o caminho não é estreito’, o que torna a declaração de Agostinho uma premissa falsa. A premissa de Agostinho contraria completamente a idéia anunciada por Cristo.

Cristo disse ser o caminho e que o caminho é estreito. Quando se afirma que o caminho não é estreito por si mesmo, estamos negando que a declaração de Jesus seja verdade e que a sua natureza não é conforme o que foi dito por si mesmo.

A bíblia demonstra que o caminho é apertado, mas Agostinho argumenta que o caminho é ‘feito’ estreito. A bíblia demonstra que Jesus é o caminho, mas Agostinho declara que ‘nós o fazemos assim’. Observe que as alegações de Agostinho contrariam completamente as premissas bíblicas, pois o caminho é estreito, e não é o homem que o faz desta maneira. Cristo é o caminho, e não é pertinente aos homens determinar a largura do caminho.

Myer declara que Jesus disse que devemos optar por um dos caminhos “Cristo, no entanto, ensinou haver dois caminhos, que levam a direções opostas, e por um dos quais devemos optar” Pág. 40 (idem), mas o que diz a bíblia? “Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram” ( Mt 7:13 -14).

Há alguma discrepância entre o que diz Myer e a bíblia? Há sim!

Jesus ordenou aos seus ouvintes que entrassem pela porta estreita, ou seja, é uma premissa que não apresenta opções “Entrai pela porta estreita…”. Jesus não apresentou opções aos seus ouvintes como se eles estivessem em um ‘limbo’. Cristo ensinou haver dois caminhos, mas não apresentou duas opções.

Cristo se apresenta como única opção à condição em que os seus ouvintes estavam. Cristo é a única opção aos perdidos! Não há, portanto, a idéia de duas opções aos homens perdidos.

Estes erros que apontamos decorre da seguinte análise equivocada de Myer Pearlman: “…mas um exame mais profundo do caráter humano mostrará que a classificação de Cristo é verdadeira” Pág. 38 (idem). A mensagem de Cristo é a verdade, e independe de comprovação pautada em questões humanas. Não é uma análise do comportamento humano que fará compreendermos as declarações de Cristo.

Não é a filosofia, ou a sociologia que nos fará dimensionar as verdades do evangelho. Só é possível entendermos as declarações de Cristo “comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 -14).

 

12 Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados.

Paulo demonstra que não há acepção de pessoas em Deus, visto que não há diferenças entre judeus e gregos diante da retribuição divina: cada um será recompensado segundo as suas obras ( Rm 2:6 ).

Os gentios foram concebidos em pecado, e por isso, todos pecaram. Eles pecaram, não por falta de uma lei, mas por causa da condenação em Adão. Observe que o pecado aqui não decorre da transgressão da lei, visto que não havia lei para os gentios. Porém, mesmo não havendo lei para os gentios, eles pecaram. Mesmo sem lei, eles estão condenados.

Não é alívio para o judeu ser levado a julgamento. Todos os que pecaram, mesmo tendo uma lei, serão julgados pela lei que receberam. Da mesma forma que os gentios, os judeus, por terem pecado, estão sob condenação, visto que a alma que pecar, esta morrerá. Qualquer devedor que for a juízo perecerá, não importando quem seja: judeu ou grego.

13 Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.

Os pretensos seguidores da lei eram somente ouvintes. Os ouvintes da lei (os judeus) não eram justos diante de Deus, visto que não a praticavam. A lei é bem clara: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir por eles viverá” ( Lv 18:5 ; Rm 10:5 ).

Há como ser justificado pela lei? “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” ( Tg 2:10 ).

14 Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; 15 Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os;

Os judeus consideravam serem melhores que os gentios por terem uma lei. Paulo apresenta argumentos que desmistificam esta idéia. Os gentios não tinha um código específico, porém, faziam ‘coisas’ da lei Mosaica, mesmo não tendo a lei. Paulo demonstra que Deus trará a juízo as ações dos gentios, visto que eles tem uma lei interna, em seus corações. Aliado a lei interna, há a consciência e os seus pensamentos, quer acusando quer defendendo as suas ações.

Perceba que nem todos os homens são depravados e que muitos fazem naturalmente o que preceitua a lei. Observe que os homens constituem leis para as suas ações.

16 No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.

Deus recompensará a cada um segundo as suas ações no dia que Ele se assentar para julgar os segredos de todos os homens.

Não podemos confundir as vicissitudes da vida com o juízo de Deus. Muitas pessoas consideram que Deus pune os homens no dia-a-dia, porém, esquecem que o que o homem colhe o que plantou, e esta lei natural não diz do juízo de Deus.

17 Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; 18 E sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; 19 E confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, 20 Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei;

Após demonstrar que:

a) Deus não faz acepção de pessoas ( Rm 2:11 );
b) que Deus retribuirá a cada um (todos os homens) segundo as suas obras, tanto judeus quanto gregos ( Rm 2:6 -10);
c) que a lei não estabelece diferencias entre gentios e judeus diante de Deus ( Rm 2:12 ), visto que tanto judeus quanto gentios foram julgados em Adão e nasceram sob a égide do pecado, e;
d) que não há distinção entre judeus e gentios, visto que todos os homens serão julgados quanto as obras ( Rm 2:6 ).

Paulo passa a questionar os homens que se escudavam no sobrenome ‘judeu’. Observe que, apesar do sobrenome ‘judeu’, o primeiro nome ainda continua sendo ‘homem’. Quando Paulo faz referência aos Judeus, procura não fazer distinção, e continua a tratá-los como os outros homens, o que demonstra que não há distinção entre os homens, a não ser pelo sobrenome que adotaram.

Os quesitos abaixo não tornam os judeus melhores que os outros homens:

  • adotar o sobrenome judeu;
  • descansar na lei de Moisés nas questões relativas à salvação;
  • ter um sentimento de orgulho por terem sido escolhidos como povo de Deus;
  • saber a vontade de Deus, e não conhece- lá;
  • pensar que aprova o que é melhor;
  • ser uma pessoa instruída da lei;
  • confiar que está em melhor condição que os outros homens por reputar ser guia, instrutor, mestre, etc;
  • adotar a lei como ciência e verdade.

21 Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? 22 Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? 23 Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?

Paulo coloca em xeque o comportamento dos judeus. Muitos dos judeus ensinavam, mas pareciam não ter aprendido a matéria que ensinavam.

Eles pregavam que não se devia furtar, e acabavam furtando. Diziam que não podia adulterar, e adulteravam. Abominar os ídolos era a bandeira dos judeus, no entanto, cometiam sacrilégios. Os homens que se orgulhavam de ter recebido a lei, desonravam a Deus quando transgrediam a lei.

24 Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.

Paulo apresenta a base para as suas argumentações: as Escrituras! “Agora, que farei eu aqui, diz o Senhor, visto ter sido o meu povo levado sem preço? Os seus tiranos sobre ele dão uivos, diz o Senhor; e o meu nome é blasfemado incessantemente todo dia” ( Is 52:5 ). Observe que Paulo não cita o versículo ‘ipses literes’, porém, ele fez uma citação aplicada: por causa dos judeus, o nome de Deus estava sendo blasfemado entre os outros povos.

Em toda citação que fizermos da bíblia, devemos nos portar da mesma maneira que Paulo: preservar a ideia principal. Como Deus disse que o seu nome era blasfemado entre os gentios por causa dos judeus, qualquer citação que contrarie esta ideia deve ser tida por anátema.

Qual seria o argumento dos judeus para rebater a própria Escritura? Isaías demonstra que o próprio Deus disse que o nome d’Ele era blasfemado entre os gentios por causa dos judeus.

25 Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão.

A circuncisão foi um ritual instituído por Deus após ter anunciado a Abraão uma aliança. Deus apareceu a Abraão e lhe propôs uma aliança, onde Deus abençoaria sobre modo a Abraão e a sua descendência. Por Deus ter prometido abençoar Abraão e a sua descendência, os judeus acreditavam que eram salvos por serem descendentes de Abraão e por cumprirem o ritual da circuncisão ( Gn 17:10 -11).

Paulo contesta a crença dos judeus, demonstrando que a circuncisão só é proveitosa após o homem cumprir o determinado pela lei. A condição estabelecida para a validade da circuncisão é o cumprimento cabal da lei.

Após demonstrar a condição para a circuncisão ser válida diante de Deus, Paulo se reporta aos transgressores da lei. Aos transgressores da lei, a circuncisão não representa nada.

26 Se, pois, a incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão não será reputada como circuncisão?

Paulo torna a lembrar que os gentios, quando cumprem com os preceitos da lei, são reputados como prosélitos (pessoas convertidas ao judaísmo) pelos próprios judeus, e por isso, circuncidadas. Se é válido reputar um prosélito que cumpre com os preceitos da lei um circunciso, que se dirá de um judeu que não cumpre a lei? Será tido por incircunciso, embora tenha feito a circuncisão na carne.

27 E a incircuncisão que por natureza o é, se cumpre a lei, não te julgará porventura a ti, que pela letra e circuncisão és transgressor da lei?

Paulo demonstra que ser judeu ou gentil é uma questão da natureza. A incircuncisão (gentios) é determinada pela natureza, da mesma forma que a circuncisão (judeu). Ser judeu, da forma que consideravam, não é uma condição proveniente de Deus, antes é uma condição determinada pela natureza.

Ser judeu ou gentil é uma condição determinada pelo nascimento e decorre de vínculos sanguíneos, o que demonstra não ter relação com a vontade e Deus.

Paulo destaca que, se os incircuncisos cumprem os quesitos da lei, eles estão em condição de julgar os circuncidados. Observe que os circuncidados de Israel tinham a lei de Moisés e a circuncisão, porém, mesmo com estes dois quesitos, eles eram transgressores da lei.

Os judeus eram transgressores da lei, visto que, ao tropeçarem em um único quesito da lei, tornavam-se culpados de toda a lei ( Tg 2:10 -11).

Já os incircuncisos não haviam recebido a circuncisão e nem mesmo uma lei, e o fato de cumprirem quesitos da lei, demonstra que a prática da lei compete a todos os homens, não importando quem quer que eles sejam. Este argumento demonstra que não há diferenças entre judeus e gentios perante Deus, pois todos são inescusáveis.

Enquanto os judeus reputavam que eram salvos por cumprirem com o rito da circuncisão e por terem recebido a lei, Paulo demonstra que a verdadeira condição de ‘judeu’ e a verdadeira ‘circuncisão’ não é possível determinarmos por questões externas como nascimento e regras exteriores.

 

28 Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. 29 Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.

Paulo apresenta os motivos da sua argumentação anterior. Devemos considerar que, neste versículo, Paulo está se referindo ao verdadeiro judeu, ou seja, ao homem que realmente é salvo por Deus.

Ele demonstra que tudo quanto os judeus consideravam ter recebido de Deus por serem descendentes de Abraão, somente se constituíam em aspectos externos, o que não condizia com a realidade interior.

Para o apóstolo, o verdadeiro judeu, ou seja, o homem que é salvo por Deus, é aquele que recebeu de Deus a circuncisão no coração. Enquanto os judeus se apegavam às questões externas da lei, Paulo procura demonstrar que a verdadeira circuncisão se dá no coração do homem.

Enquanto os judeus consideravam aspectos exteriores da lei e a circuncisão da carne como sendo os elementos essências a quem desejasse ser salvo, Paulo demonstra que o verdadeiro judeu precisa da circuncisão do coração. A mensagem do evangelho de Cristo apregoado por Paulo não difere em nada do que era apregoado pelos profetas: “Circuncidai-vos ao SENHOR, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” ( Jr 4:4 ).

Moisés apregoava a circuncisão do coração mesmo após ter entregue a lei ao povo de Israel: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

A circuncisão do coração remete ao despojar da velha natureza (velho homem), e somente através de Cristo é possível adquiri-la “Nele também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

A circuncisão de Cristo se dá no coração e não é feita por mão humanas. A circuncisão dos homens é exterior, no corpo, segundo os quesitos da lei, mas não é proveniente de Deus e nem recebe d’Ele louvor. O homem que é judeu interiormente, é aquele que recebeu a circuncisão no coração, no espírito, desvinculado dos elementos da lei (letra), que são exteriores.

Por intermédio de Jeremias Deus censura as obras do povo, mas por qual motivo? Por que as obras dos judeus, um povo religioso e cheio de regras morais e éticas é reputado ‘maliciosas’ por Deus? Eles não praticavam boas ações?

Os judeus sempre praticaram boas ações aos seus irmãos no intuito de conquistar a salvação, e em decorrência desta particularidade elas são ‘maliciosas’, visto que a salvação só é possível através da circuncisão do coração, que é uma ação exclusiva de Deus.

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