Eleição e Predestinação

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).


“Porquanto, aos que de antemão conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:29 -30)

Os fins da predestinação

É consenso entre os estudiosos pensar a predestinação tendo o homem como fim imediato, isso porque, na sua grande maioria, entendem que, através da predestinação, Deus concede salvação aos homens.

Apesar de inúmeros textos bíblicos rezarem que Deus salva o homem por meio  do evangelho, que é poder de Deus para salvação de todo que crê (Rm 1:16), simplesmente, ignoram a verdade e se agarram a algumas teorias teológicas.

Sem embargo, os apóstolos afirmam, com todas as letras, que Deus, segundo a sua misericórdia, salva o homem pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, ou seja, pela semente incorruptível, que é a palavra de Deus (Tt 3:5).

Mesmo diante de declarações contundentes, de que Cristo Jesus aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a incorrupção, pelo evangelho, (2 Tm 1:10; Ef 1:13; 1 Co 1:21), muitos insistem em afirmar que a salvação se dá através da predestinação.

 

O fim imediato da predestinação está vinculado a Cristo

Na Antiga Aliança, os primogênitos tinham direito a vários privilégios, em relação aos demais irmãos, pois, a eles, pertencia a bênção, o principado, o sacerdócio, porção dobrada da herança, etc. Em virtude de ter nascido primeiro, em relação aos demais irmãos, o primogênito detinha a preeminência em tudo.

Semelhantemente, Cristo é o primeiro a ressurgir dentre os mortos e, por isso, foi declarado primogênito dentre os mortos (Cl 1:18; Ap 1:5). Ao ressurgir dentre os mortos, Cristo conduziu muitos filhos à glória de Deus (Hb 2:10), de modo que Aquele que foi introduzido no mundo, na condição de Unigênito, agora é primogênito entre muitos irmãos.

Mas, para Cristo ser primogênito entre muitos irmãos, cada irmão, necessariamente, deve ser semelhante a Ele, pois, só é irmão aquele que participa das mesmas coisas (Hb 2:14). Cristo, para chamar os homens de irmãos, teve de participar da carne e do sangue (Hb 2:11-14), semelhantemente, os homens, para chamarem o Cristo glorificado de irmão, necessitam ser participantes de Sua glória.

A solução dessa equação está na predestinação! Na eternidade, antes de haver mundo, Deus estabeleceu que todos os homens salvos por intermédio do evangelho estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, com o único objetivo de Ele ser o primogênito entre muitos irmãos.

Ao ser gerado de novo, através da semente incorruptível, o novo homem em Cristo faz parte da geração eleita, ou seja, eleito antes da fundação do mundo, para ser santo e irrepreensível diante de Deus (Ef 1:3).

Isso significa que Deus não elegeu indivíduos para serem santos e irrepreensíveis, mas, elegeu a geração de Cristo. Se Deus tivesse elegido indivíduos a escolher, a escolha recairia sobre os descendentes da geração imunda e culpável, segundo a semente corruptível de Adão. Entretanto, Deus elegeu a descendência de Cristo, o último Adão, pois os homens gerados segundo Cristo, são criados em verdadeira justiça e santidade, ou seja, santos e irrepreensíveis.

Como a geração de Cristo é eleita, significa que todos os que são gerados de novo, pela verdade do evangelho, sem exceção, também são predestinados a serem semelhantes a Cristo (1 Jo 3:1-2). Através da predestinação, todos os salvos pela misericórdia de Deus, demonstrada por intermédio do evangelho, terão a mesma imagem do homem celestial: Cristo (1 Co 15:49).

O evangelho foi anunciado para a salvação e a predestinação estabelecida para a imagem. O evangelho é semente incorruptível que trás à existência novas criaturas e são eleitos por terem sido de novo gerados segundo o último Adão, o eleito de Deus.

A eleição e a predestinação estão em conexão com a aprovação régia que Deus propusera em Si mesmo na pessoa de Cristo de, na plenitude dos tempos, tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as do céu quanto as da terra (Ef 2:9-10).

Nos céus, Cristo foi elevado à posição de cabeça da Igreja (Ef 1:22), e na terra à posição de mais sublime (Sl 89:27). Ao eleger Abraão, Deus congregou as coisas da terra em Cristo, e no Descendente prometido a Abraão, Cristo, Deus congregou as coisas dos céus.

“E sujeitou todas as coisas a seus pés e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja” (Ef 1:22);

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27)

Segundo o conselho da Sua vontade, o propósito de Deus estabelecido em Cristo foi levado a efeito quando Ele se assentou à destra da Majestade nas Alturas, na posição de cabeça da Igreja, Primogênito entre muitos irmãos.

Agora, Cristo está aguardando que todos os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés (Sl 110:1), quando Ele se levantará para reger as nações da terra, assentado sobre o trono de Davi, seu pai, como o mais elevado do que os reis da terra.

Mas, como é ser semelhante a Cristo? Segundo o apóstolo João, ainda não é manifesto como haveremos de ser, mas uma coisa é certa: quando Cristo se manifestar seremos semelhantes a Ele! (1 Jo 3:2)

 

O fim mediato da predestinação em relação aos homens

Na eternidade, Deus decretou que a geração de Cristo, além de ser santa e irrepreensível, visto que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, todos os gerados d’Ele serão conformes à imagem de seu Filho.

É impossível Deus escolher os descendentes da carne de Adão, pois todos, juntamente, se desviaram e se fizeram imundos. Mas, por intermédio de Cristo, o homem, segundo Adão, que ouve a mensagem do evangelho e crê, morre e é sepultado com Cristo e, em seguida, ressurge uma nova criatura, santa e inculpável, predestinada a ser conforme a imagem de Cristo.

Tanto a eleição quanto a predestinação, estão relacionados à nova criatura, ou seja, àquele que está em Cristo. Por conseguinte, aquele que está em Cristo conhece a Deus e é conhecido d’Ele. É ‘conhecido’ de Deus, por estar intimamente ligado a Ele, ou seja, se fez um só corpo com Ele.

O fim imediato da eleição e da predestinação é a preeminência de Cristo, sendo que, na eternidade, a geração de Cristo foi eleita e predestinada a ser conforme a imagem de Cristo, segundo a vontade de Deus. Tanto a eleição, quanto a predestinação, foram levadas a efeito, quando da vinda da existência ao mundo das novas criaturas, que são criadas segundo o mesmo poder de Deus, manifesto em Cristo.

As benesses da eleição e da predestinação são herdadas no nascimento do cristão, de modo que, ser santo e irrepreensível  conforme a imagem de Cristo, não resulta de obras realizadas pelo crente, antes, tais benesses foram concedidas em Cristo, antes dos tempos dos séculos, segundo o próprio propósito de Deus: fazer Cristo preeminente em todas as coisas.

“Que nos salvou e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos” (2 Tm 1:9).

Quanto à salvação, a eleição e a predestinação não têm um fim, e sim, a misericórdia e a graça de Deus, concedidas pelo evangelho.

A misericórdia de Deus é manifesta à humanidade na encarnação de Cristo, que concede salvação a todos que n’Ele creem. O evangelho que concede salvação aos que creem foi anunciado, primeiramente, a Abraão (Gl 3:8) e hoje o evangelho é anunciado como o mandamento de Deus.

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3);

“Mas que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

O mandamento de Deus é dado a todas as nações, para que obedeçam ao evangelho, a fé que uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3).

“Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16);

“Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?” (1 Pd 4:17).

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 1:8).

O mandamento do evangelho é crer em Cristo (1 Jo 3:23), a obra que o homem precisa realizar para se tornar servo de Deus (Jo 6:29). Só ama a Deus quem cumpre o seu mandamento, de modo que quem crê em Cristo, verdadeiramente amou a Deus.

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai,  eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21);

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes e crestes que saí de Deus (Jo 16:27).

O evangelho é mandamento de Deus que demanda obediência. Quem obedece ao evangelho de Cristo não tem medo, pois o medo decorre da penalidade imposta ao desobediente (1 Jo 4:18).

Diante do evangelho de Cristo, o homem não pode ficar passivo. A ordem é: – “Entrai pela porta estreita” (Lc 13:24); “Operai a vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2:12).

Com o homem efetua a própria salvação? O homem é salvador de si mesmo? É claro que não! Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens na casa de Davi quando enviou Cristo ao mundo.

Quem obedece a Cristo ‘salvar-se-á’, pois o ‘temor’ diz do mandamento de Deus e o ‘tremor’ da obediência à sua palavra.

“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á,  entrará, sairá e achará pastagens” (Jo 10:9).

O fim da fé, ou seja, o objetivo do evangelho é a salvação do homem:

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pd 1:9).

O fim da predestinação é a primogenitura de Cristo, pois, por ela, os homens são constituídos conforme a imagem de Cristo, portanto, o fim da predestinação não é a salvação.

O termo grego τελος, transliterado telos e traduzido por ‘fim’, no contexto, tem o sentido de propósito, objetivo. O termo πιστις, transliterado pistis e traduzido por ‘fé’, no contexto significa ‘verdade’, ‘fidelidade’, ‘lealdade’, em substituição ao termo ‘evangelho’, que é a ‘fé’ anunciada em todo o mundo (Rm 1:8).

A ‘fé’ deve ser anunciada a todas as gentes e obedecida (Rm 1:5), pois ela é o dom de Deus, por meio da qual o homem é salvo.

“Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8);

“Pelo qual, recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da entre todas as gentes pelo seu nome (…) Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque, em todo o mundo, é anunciada a vossa (Rm 1:5 e 8).

É por meio do evangelho de Cristo que o homem é salvo, de modo que, aos não crentes não se prega eleição ou predestinação mas, sim, o evangelho, a palavra da redenção, que é poder de Deus para salvação.

“E nos impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1 Ts 2:16).

“E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo (Lc 8:12).

Deus não escolheu e nem predestinou indivíduos para a salvação, pois é contraditória a concepção de que Deus deseja que todos se salvem e, no entanto, escolhe e predestina somente alguns para a salvação. Salvar a humanidade é desejo de Deus por sua graça e misericórdia, tanto que deu o Seu Filho Unigênito, no entanto, para ser salvo o homem precisa se tornar um com a verdade, crendo.

“Que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4);

“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:40).

É imprescindível ao homem ‘conhecer’ a verdade, por dois motivos:

  1. Primeiro, para ser salvo, e;
  2. Em segundo lugar, para ser eleito e predestinado.

Pois só é predestinado a ‘serem conformes à imagem’ de Cristo, para que Ele seja o Primogênito entre muitos irmãos, aqueles que O conheceram, ou seja, que se fizeram um corpo com Cristo, a verdade que liberta (Jo 8:32). Mesmo Deus querendo salvar todos os homens, o meio de salvá-los não é através da Sua soberania, e sim, através da palavra da verdade!

Há um equívoco que perdura entre os teólogos, de que o termo grego προγινοσκω (proginosko), traduzido por ‘dantes conheceu’ significa ‘ter conhecimento de antemão’, ‘prever’, ‘predestinar’.

Entretanto, o termo, no contexto, foi utilizado como expressão idiomática judaica, indicando comunhão intima, quando o homem e a mulher se tornam uma só carne. São predestinados somente os que se tornaram um com o Pai e o Filho, ou seja, que ‘conhecem’ a Deus (Jo 17:21).

Somente os que se tornam uma só carne com Cristo, ou seja, os que amam a Deus, crendo que Jesus é o Cristo, também foram predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8:29).

Deus é onisciente, ou seja, igualmente conhecedor de todas as coisas, quer seja do passado, quer do presente ou, do futuro. Ao dizermos que Deus é presciente, estabelecemos uma subdivisão da onisciência, que tolhe a compreensão acerca desse atributo de Deus. Deus anuncia de antemão, por intermédio dos seus profetas, eventos futuros, o que se dá pela sua onisciência e não pela sua presciência.

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).

A má leitura de alguns versos impera, quando homens torcem a verdade exposta pelos apóstolos, com o objetivo de exporem uma doutrina contrária ao evangelho.

Por exemplo, leem 1 Pedro 1, verso 2 (“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.”), como se Deus elegeu alguns segundo a sua ‘presciência’. No entanto, o apóstolo Pedro estava enfatizando que os cristãos são eleitos segundo o anunciado de antemão pelos profetas (presciência), conforme expresso nos versos 10 a 12 do mesmo capítulo (1Pe 1:10 -12).

Os cristãos são designados ‘eleitos’, segundo o anunciado de antemão pelos profetas, santificados pela palavra de Cristo, vez que as palavras de Cristo são espírito e vida, sendo necessária aos cristãos a obediência, para serem purificados:

“… eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2).

Ao escrever aos Tessalonicensses, o apóstolo Paulo expressa a mesma verdade:

“… porque Deus vos escolheu[1], desde o princípio, para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Ts 2:13).

O verso não trata de uma ‘escolha’ para ser salvo, antes pela santificação do evangelho (vez que o crente é ministro do espírito) e pela crença (fé) na verdade, os cristãos foram tomados como propriedade (herança) de Deus, desde o princípio, para a salvação (Ef 1:11 e 14), pois a salvação é o fim da fé (verdade).

O objetivo fim da predestinação é a preeminência de Cristo, mas, só os que se fizeram um corpo com Cristo (conheceram), são predestinados (Rm 8:29). Porém, os predestinados também foram eleitos, ou seja, foram feitos santos e irrepreensíveis (Ef 1:3).

Contudo, para ser predestinado e eleito, primeiro Deus declara justo o novo homem que ressurge com Cristo, porque, para ser justificado, é necessário ao homem morrer com Cristo, quando por intermédio do evangelho, o homem torna-se participante da carne e do sangue de Cristo (Rm 4:25; Rm 6:7; Jo 6:55).

Mas, para o crente ser justificado, eleito e predestinado, primeiro teve que ser glorificado, tornando-se um só corpo com Cristo, ou seja, conhecendo a Cristo. O crente é glorificado quando ressurge dentre os mortos com Cristo, pois, sofreu com Cristo, para ser participante da glória da sua ressurreição (Rm 8:17; Cl 2:12; Cl 3:1).

Os que estão em Cristo são templos de Deus, ou seja, conhecidos de Deus, membros do Seu corpo, concomitantemente, também, estão destinados a serem conforme a imagem de Cristo, quando se revelarem os filhos de Deus (Rm 8:19).

Mas, para fazerem parte do propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo, de fazê-Lo preeminente em todas as coisas, através do poder que há no evangelho, para salvação do que crê, Deus glorificou os que creram, ressuscitando-os com Cristo e os declarou justos, livres de condenação!

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “138 αιρεομαι haireomai provavelmente semelhante a 142; TDNT – 1:180,27; v 1) tomar para si, preferir, escolher 2) escolher pelo voto, eleger para governar um cargo público”, cf. Dicionário Bíblico Strong.

Ler mais

Conhecimento, presciência, pré-conhecimento – προγινώσκω (proginóskó)

Conhecimento, presciência, pré-conhecimento – O verbo προγινώσκω (proginóskó) e o substantivo πρόγνωσις (prognósis), foi impregnado com certa conotação fatalista, porém, uns apontam a soberania e outros a presciência divina como fator determinante da salvação.

Ler mais

Predestinação e eleição na ‘pré-ciência’?

Após a queda da humanidade, a redenção passou a ser condicionada ao Descendente da mulher ( Gn 3:15 ), e o dia chamado ‘hoje’ é o dia oportuno de salvação. Se a salvação e a perdição fossem incondicionais, o ‘hoje’ não seria o momento de salvação, ou o ‘dia’, ou o ‘ano’ sobre modo oportuno, antes a oportunidade e o dia de salvação estaria na eternidade, antes que houvesse mundo, pois lá seria estabelecido os perdidos e os salvos ( Is 61:2 ; Hb 3:7 ; ).


 

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 )

No afã de justificar uma concepção doutrinária acerca da eleição e predestinação, alguns estudiosos redefiniram o significado do termo ‘pré-conhecimento’ para ‘presciência’ ou ‘pré-ordenação’. Isto seria mesmo necessário? Para justificar um posicionamento doutrinário é correto redefinir termos básicos como graça, perdição, presciência, etc.?

A seguinte passagem bíblica: “… pelo determinado conselho e presciência de Deus…” ( At 2:33 ), é muito utilizada para demonstrar a concepção doutrinária de que algumas pessoas em particular foram ‘escolhidas’ e ‘predestinadas’ para serem salvas, e outras não. O ‘determinado conselho’ é o mesmo que ‘presciência’? O que é presciência? Presciência é o mesmo que ‘pré-ordenar’?

 

Conselho

“A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 )

O apóstolo Pedro demonstra aos seus leitores que Jesus foi entregue aos homens em função do conselho de Deus. Que conselho é este que Deus estabeleceu (determinado)?

Segundo o conselho de Deus Cristo foi entregue, ou seja, Cristo não foi conquistado, antes se entregou em obediência ao conselho da vontade de Deus “… daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” ( Ef 1:11 ; Jo 10:17 ).

Este conselho foi estabelecido na eternidade e é imutável, pois está atrelado ao seu propósito estabelecido em Cristo conforme o exarado em sua palavra. O conselho de Deus decorre da sua vontade, do seu desígnio, e foi exarado nas Escrituras muito antes de ocorrer “Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” ( Is 46:10 ); “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11; Hb 6:17 ).

O conselho segundo a vontade de Deus é fazer Cristo preeminente, estabelecendo-O como o primogênito entre muitos irmãos e o mais elevado dentre os reis da terra. Esta vontade foi levada a cabo quando o Cristo foi introduzido no mundo, foi obediente ao Pai até a morte, e morte de cruz, e ressurgiu dentre os mortos. Este é um desígnio soberano, firme e imutável, assim como a palavra de Deus é firme, imutável e faz tudo o que é aprazível.

Deus fará que o Filho tenha preeminência em tudo. Para consumar o seu propósito, Deus criou o homem, e, ao desobedecer a ordem divina, o homem ficou impróprio para o seu propósito.

Mas, graciosamente, Deus providenciou salvação a todos os homens e deseja que todos se salvem e, todos que aceitam a salvação em Cristo, concomitantemente, passam a fazer parte do propósito de tornar o Filho primogênito entre muitos irmãos. Este ‘querer’ de Deus (diferente do conselho da sua vontade) não é uma imposição, antes expressa um desejo “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ).

O ‘conselho’ de Deus é fruto do conhecimento, da sabedoria, da vontade, da prudência, e faz o que é aprazível, perfeito diante dele ( Pv 3:19 -20).

Em função da sua vontade Deus criou o mundo através da palavra do seu poder ( Ap 4:11 ) e, antes de criar o homem à sua imagem e semelhança, Ele expressou a sua vontade conforme lemos em seu Conselho: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ).

A vontade perfeita de Deus está registrada em seu Conselho, a sua perfeita vontade é expressa na sua palavra: “Porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo” ( Sl 107:11 ).

O desígnio de Deus decorre do conselho da sua vontade, porém, em nada fere a vontade livre dos homens. A essência de Deus é liberdade, equidade, justiça, imutabilidade, etc., e na execução desta vontade, jamais Deus poderia conspurcar a vontade livre de suas criaturas.

Deus não faz acepção de pessoas, de modo a dar livre vontade para alguns sem concedê-la a outros. Por ser justo e equânime, ao oferecer salvação a todos os homens, sem exceção todos devem fazer exercício da sua livre vontade, aceitando ou rejeitando o dom de Deus em Cristo.

Para os homens serem remidos da ofensa, segundo a sua boa vontade, Deus utilizou-se da sua multiforme sabedoria e prudência ( Ef 1:8 ).

Quando se lê: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ), o ‘determinado conselho’ refere-se às Escrituras que de ante mão (presciência) demonstrava que Deus entregaria o seu próprio Filho à morte, e morte de cruz, por mãos de malfeitores.

Os atos de Deus decorrem da sua vontade, vontade esta que está registrada em seu Conselho e é imutável, que por sua vez, leva a termo o seu propósito. Tudo o que Deus faz é segundo o seu conselho; é segundo o que lhe apraz; é segundo a sua palavra, que é Cristo, o Verbo encarnado ( At 4:28 ; At 20:27 ; Hb 6:17 ).

 

Obs.: beneplácito s. m.- 1. Consentimento; 2. Aprovação; 3. Aprazimento, e 4. Licença.

 

O Propósito Eterno

Mas, por que Deus criou o homem? Porque na eternidade Deus propôs segundo a sua vontade estabelecer a sua palavra acima de todo o Seu nome e, para tanto, a Sua palavra teria que ter preeminência em tudo “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

Em outras palavras, Deus criou o homem para estabelecer a preeminência de Cristo em tudo e, ao levar a efeito o predito acerca do seu Filho, a fidelidade e imutabilidade da sua palavra é demonstrada ( Cl 1:18 ).

Quando estabeleceu a igreja, o corpo de Cristo, Deus desvendou o mistério da sua vontade, que é convergir em Cristo todas às coisas. Só através da igreja é possível os homens ver o beneplácito que Deus propôs em Cristo e, por intermédio da igreja os anjos conseguiram ver a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 1:9 e 3:10 ).

Para levar a efeito o seu propósito: ‘Cristo preeminente em tudo’, Deus criou o homem.

Mesmo sabendo que Adão transgrediria e que a geração segundo a semente de Adão ficaria aquém do seu propósito (onisciência), Deus criou o homem.

Mesmo sabendo que todos os descendentes da carne de Adão tornar-se-iam imundos, incompatíveis para o propósito estabelecido, Deus levaria a efeito seu desígnio.

A queda da humanidade não foi um obstáculo ao desígnio de Deus, pois o seu propósito é imutável “O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos do seu coração de geração em geração” ( Sl 33:11 ). Para estabelecer a sua palavra acima de todo o seu nome, Deus anunciou as boas novas do evangelho aos homens perdidos para trazer a existência uma nova geração de homens espirituais segundo a semente do último Adão, que é Cristo.

O propósito que consta no conselho de Deus é tornar seu Filho Unigênito, o Primogênito entre muitos irmãos. Através da mensagem do evangelho, todos os que creem são de novo gerados e recebem poder para serem feitos filhos de Deus e, a cada conversão, o número de irmãos de Cristo que são conduzidos à glória pelo Filho aumenta, de modo que entre seus semelhantes, os filhos de Deus, Cristo é preeminente.

Tiago escreveu dizendo que Deus gerou de novo os cristãos pela palavra da verdade, para que fossem como o melhor (primícias) das suas criaturas. Ora, os homens espirituais são superiores aos homens carnais e aos anjos. O apóstolo Paulo, por sua vez, deixa claro que, tal qual Cristo é, assim são os homens de novo gerados pela semente incorruptível: semelhantes a Ele “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ); “O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” ( 1Co 15:47 -49).

O apóstolo Paulo relata que Deus revelou o mistério acerca da sua vontade ao estabelecer a Igreja. E que mistério era este? Tornar Cristo preeminente em tudo, de modo que através da Igreja, Deus congrega em Cristo todas as coisas. Através das suas novas criaturas, que são primícias, semelhantes a Ele, Jesus é o primogênito de toda a criação: preeminente entre muitos irmãos! ( Cl 1:15 )

Para resgatar a humanidade que jazia em trevas sob a maldição do pecado de Adão, Cristo ofertou o seu corpo segundo a vontade de Deus ( Hb 10:10 ; Hb 10:9 ). Para torná-lo preeminente, o primogênito de toda a criação, Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos através do seu poder, momento em que Ele tornou-se primogênito dentre os mortos.

Antes de ser morto e ser sepultado, Cristo era semelhante em tudo aos homens, no entanto, após ressurgir dentre os mortos, Cristo conquistou a posição de semelhante ao Altíssimo ( Sl 17:15 ), e tornou-se a expressa imagem de Deus ( Hb 1:3 ), e todos que são sepultados à semelhança da sua morte ressurgem com Cristo uma nova criatura e, trazem a imagem do homem celestial, sendo semelhantes ao Altíssimo “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” ( Cl 3:10 ).

O propósito eterno de Deus é único e foi estabelecido na pessoa de Cristo: a preeminência de Cristo em todas as coisas! “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 e 1:9 ).

Diferente dos homens, Deus é perfeito, pois não depende de raciocínio, de intuição, de análise para chegar a uma conclusão. Deus simplesmente age segundo a sua boa vontade. Ele é todo poder, sabedoria, conhecimento, onipresente, onisciente, etc., o que não demanda da parte dele raciocínio, inquirir, concluir, etc. Ele faz todas as coisas segundo o conselho (beneplácito) da sua vontade.

O propósito eterno de Deus é algo que Ele, na eternidade, propôs realizar em si mesmo “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ). Tal propósito visou a sua própria glória e graça ( Ef 1:6 e 12).

A salvação refere-se ao tempo chamado ‘hoje’, e há um tempo estabelecido para encerrar, mas, o propósito de Deus é eterno, visto que foi proposto em si mesmo e perdurará por toda eternidade.

Na eternidade Deus propôs convergir em Cristo todas as coisas “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ), de modo que Ele fez o Verbo ressurreto herdar um nome que é acima de todos os nomes e que perdurará para sempre “Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:21 ; Fl 2:9 ; Sl 138:2 ; Hb 1:4 ).

Deus é conhecido pelo seu poder e grandeza, sendo nomeado grande, poderoso e o terrível Senhor dos exércitos “Pois o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas” ( Dt 10:17 ); “Porque o SENHOR é Deus grande, e Rei grande sobre todos os deuses” ( Sl 95:3 ; Sl 138:2 ), porém, foi do seu agrado elevar a sua palavra acima de todo o seu nome.

O que isto significa? Significa que, Deus não quer ser reverenciado, tão somente, por seus atributos como onipotência, onisciência, onipresença. Deus propôs dar-se a conhecer às suas criaturas através da sua fidelidade, bondade, misericórdia, etc. Para sua palavra, que é fiel, assumir tal posição, Cristo foi encarnado na condição de unigênito do Pai segundo o anunciado pelos profetas ( Jo 1:1 e 12 ; Sl 138:2 ).

O propósito eterno de Deus visa a sua própria glória (para louvor e glória de sua graça), pois ao revelar aos homens, na plenitude dos tempos, o Verbo encarnado, fez com que a sua palavra tenha preeminência em tudo, visto que, Cristo foi constituído cabeça da igreja “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

O corpo de Cristo, que é a igreja, é formado por muitos filhos de Deus semelhantes Aquele que os criou “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” ( Cl 3:10 ), sendo que, na hierarquia celestial, os membros do corpo de Cristo assumiram a mais alta posição, superior a dos anjos, o que os tornam primícias das criaturas de Deus “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( 1Co 6:2 e 3; Tg 1:18 ).

Justamente por ser ‘as primícias’ das criaturas de Deus é que a igreja, geração dos filhos de Deus, serve ao propósito que foi estabelecido em Cristo, pois como cabeça daqueles que são gerados de novo, Ele é preeminente entre muitos irmãos, posição superior a todas as criaturas de Deus “E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados” ( Ap 1:5 ).

É através de Cristo que o propósito de Deus se concretiza, sendo que através d’Ele, uma nova geração de homens espirituais inscritos nos céus forma uma assembleia universal de primogênitos “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ); “À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 ).

E não somente isto, Deus propôs fazer também o seu Filho o mais elevado dos reis da terra, concedendo a Ele o trono de Davi e, por herança, todas as nações “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” ( Sl 89:27 ; Sl 2:8 ; Is 52:13 -15).

Cristo é a cabeça da igreja e é na união de Cristo com o seu corpo que o propósito celestial é estabelecido. Cristo também é rei, o mais elevado da terra, pois assentará no trono de Davi, e n’Ele é estabelecido o propósito terreno conforme o prometido a Abraão.

É com base no que Deus propôs em Cristo, o Verbo de Deus encarnado, que a sua palavra é alçada acima de todos os nomes pelo qual Deus é nomeado “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

Além de conhecido pelo seu poder, magnificência e soberania, é do agrado de Deus torna-se conhecido pela sua palavra, que é fiel, verdadeira, imutável, etc., o que O fez elevar a sua palavra acima de todo o seu nome, para que as suas criaturas o sirvam com temor e alegria “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” ( Sl 2:11 ).

A palavra ‘temor’ neste salmo não é o mesmo que medo, antes ‘temor’ é o mesmo que a palavra de Deus e, ‘tremor’ é obediência, confiança na sua palavra “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” ( Is 66:5 ; Sl 34:11 ; Sl 86:11 ).

A eleição e a predestinação refere-se ao propósito que Deus estabeleceu em Cristo, já a salvação decorre da misericórdia de Deus revelada em Cristo.

Em todos os tempos (dispensações), Deus, pela sua graça, salva os homens que se perderam em decorrência da ofensa de Adão, porém, somente os salvos na plenitude dos tempos, pela graça contida no evangelho, constituem a igreja, o corpo de Cristo, a geração eleita, predestinada para serem conforme a imagem de Cristo.

Somente os salvos na plenitude dos tempos, por intermédio da graça revelada no evangelho, são chamados para fazerem parte do propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Deus salva por intermédio do poder contido na sua palavra (evangelho) e todos os salvos em Cristo, ou seja, na plenitude dos tempos (período compreendido entre a ressurreição de Cristo e o arrebatamento da igreja), foram eleitos antes dos tempos dos séculos para compor o corpo de Cristo e faz parte do propósito que Deus estabeleceu em Si mesmo “… antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ; Rm 1:16 ).

Primeiro Deus salva o homem por intermédio do poder contido na sua palavra, pois Deus estabeleceu antes dos tempos dos séculos que aqueles que cressem em Cristo, além de serem salvos da condenação que há no mundo, são chamados com uma santa vocação, segundo o seu eterno propósito: tornar Cristo preeminente.

 

Presciência

Soberanamente Deus levou a efeito o seu conselho que estabelecera em Cristo antes dos tempos imemoriais, de fazê-lo preeminente. A vontade de fazer Cristo preeminente é perfeita e boa e, não há quem possa se insurgir contra o propósito de Deus e sair vitorioso.

Para estabelecer o propósito eterno, Deus levou a efeito o seu conselho, não poupando o seu único Filho (gerado pelo Espírito Santo) e nem os judeus, que eram os ramos naturais ( Rm 8:32 e Rm 11:21 ), e entregou o seu Filho para ser crucificado e morto pela mão de homens injustos. Porém, tudo foi feito segundo a vontade de Deus conforme o predito nas Escrituras pelos profetas, ou seja, segundo o conselho e presciência “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

Por que pela ‘presciência’? Ora, desde a eternidade, ao estabelecer de antemão que faria Cristo o mais sublime entre os sublimes (propósito eterno), Deus sabia que a geração de Adão tornar-se-ia imunda, pois todos juntamente em um único evento (onisciência), a desobediência de Adão, se desviariam do propósito e da comunhão com Deus ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ).

Cristo foi entregue, morreu, ressurgiu segundo o conselho de Deus, ou seja, o conselho refere-se ao que Deus antecipou aos homens nas Escrituras e o propósito eterno é Cristo primogênito entre muitos irmãos.

A ‘presciência’ de Deus refere-se ao ‘conhecimento’ de Deus anunciado previamente pelos seus profetas de que Cristo seria morto na plenitude dos tempos em função do beneplácito da vontade de Deus, pois Cristo é o Cordeiro de Deus morto deste a fundação do mundo, ou seja, a ‘presciência’ ou o ‘pré-conhecimento’ diz dos eventos que se sucederam com relação à vida e morte de Cristo em conformidade com as Escrituras “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).

Deus estabeleceu de antemão que haveria de entregar o seu único Filho, pois somente o sangue imaculado, incontaminado de Cristo resgataria os homens do domínio do pecado. Pelas profecias foi anunciado que o cordeiro seria morto, de modo que o sangue do Cordeiro já era conhecido ainda antes da fundação do mundo, porém, tal sacrifício só tornou-se conhecido dos homens na plenitude dos tempos (presciência ou pré-conhecimento) “Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:19 -20 ; Hb 9:26 ).

Tornou-se consenso na teologia que o termo ‘presciência’ quer dizer que Deus prevê eventos futuros, e não é questionado tal uso. Devemos ter o cuidado de analisar os termos empregados nas Escrituras dentro do seu contexto, e segundo os princípios bíblicos, ou incorreremos em erros graves. Além de muitos aceitarem passivamente certos consensos, temos também os problemas decorrentes das barreiras culturais que obscurece as nuances da língua em que o Novo Testamento foi escrito, sem falar nas propensões teológicas que surgem ao longo do tempo.

“Presciência”, ou “pré-conhecimento” é um termo secular, mas ao ser inserido no Novo Testamento adquire um significado peculiar em decorrência do tema central das Escrituras. Como o termo ‘fé’, por exemplo: possui uma identidade sacra porque ao utiliza-la, muitos são remetidos a ideia de religião, entretanto, o termo ‘fé’ é similar a qualquer outra palavra quanto ao seu uso secular, visto que fé deriva evoca o que é verdadeiro, fidedigno, fiel.

O substantivo pistis, cujo verbo é pisteuein, foi utilizado pelos apóstolos para fazer referência a Cristo como a fé que havia de se manifestar. No verso a seguir o uso do termo é objetivo, pois identifica a pessoa de Cristo, através de uma figura de linguagem (metonímia) estrategicamente aplicada pelo escritor ao texto para evocar uma ideia acerca da pessoa do Cristo “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Se depender de um dicionário, ou da compreensão temporal, o termo fé (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia) diz de uma opinião firme de que algo é verdade, mesmo que não haja qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação. Também é apontada a ideia de que fé refere-se à adesão a um dogma de uma doutrina religiosa.

Mas, considerando o contexto de Gálatas 3, verso 23, qual o significado de fé? Ora, o texto faz com que o significado do termo transcenda, pois o termo deixa de fazer referencia a uma crença subjetiva ou a um dogma específico para fazer referência à pessoa de Cristo. Neste sentido, o mesmo ocorre com o termo proginosko e, para determinar o seu significado bíblico temos que considerar as passagens onde o termo é empregado.

Não é recomendável abstrair o significado do termo ‘presciência’ simplesmente com base na definição contida em um dicionário. É usual utilizar o termo onisciência para fazer referencia ao conhecimento que Deus possui de todas as coisas, da mesma forma tornou usual utilizar o termo ‘presciência’ para dizer que Deus vê eventos futuros, porém, como o conhecimento de Deus é uno, ou seja, não podemos fracioná-lo em passado, presente e futuro, visto que Ele sabe todas as coisas igualmente bem, não se deve aceitar passivamente o termo ‘presciência’ como um aspecto da onisciência.

A palavra traduzida por presciência (proginosko) é um composto de ‘pró’(antes) e ‘ginosko’ (conhecer, saber). Estudiosos apontam que o prefixo ‘pró’(antes) situa o termo no tempo ou no espaço e não alteram o seu sentido.

Os estudiosos analisam o termo quando empregado no grego clássico, na septuaginta, no grego Koine e no Novo Testamento.

Vale destacar que, na literatura clássica, o verbo ‘proginosko’ e sua forma substantiva (prognóstico) possui conotação de conhecimento futuro, significando “conhecer, perceber, aprender, saber ou compreender de antemão para que o sabedor possa emitir um julgamento, uma opinião ou decidir de antemão”, o que não inclui o conceito de decreto ou de preordenação.

O termo ‘ginosko’ é utilizado para fazer referencia a comunhão íntima que o homem compartilha com Deus. Aplicar o sentido de ‘ginosko’ e ‘yada’’ ao homem como ‘saber’ ou ‘vir a saber’ é perfeitamente compreensível, mas aplicar estes mesmos termos a Deus produz um entrave.

Deus sabe (ginosko) todas as coisas, e o termo utilizado para fazer referencia a este saber na teologia é onisciência. Não há nada que Deus desconheça ou que tomará conhecimento por toda a eternidade.

Quando lemos: “Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” ( Gn 18:19 ), o termo ‘conhecido’ não diz de uma previsão, ou de um ‘saber acerca de’, antes diz da comunhão, do relacionamento íntimo entre Abraão e Deus.

É em função da comunhão estabelecida entre Abraão e Deus que Deus dá testemunho do que sucederá a linhagem de Abraão. Deus deu uma ordem a Abraão e, quando ele obedeceu, formou-se um vínculo perfeito.

O ‘ conhecimento’ de Deus acerca de seus servos é relacional, assim como o homem conhece a sua mulher ( Gn 4:1 e 17).

Há traduções bíblicas que vertem o termo ‘conhecer’ (ginosko e yada) por ‘escolhido’, o que perverte o significado do termo, pois ao traduzir o termo yada’tayv, além do termo ginosko, também é utilizado o termo equivalente ‘ergo’.

Quando se refere ao profeta Jeremias, o conhecimento de Deus é ‘saber acerca de’ ( Jr 1:5 ), o que remete a mesma ideia registrada em João 8, verso 58: ‘… antes que Abraão existisse, eu sou’. Desde sempre Deus é o Eu Sou e desde sempre Ele sabe o presente, o passado e o futuro. A palavra que veio a Jeremias serviu de consolo, garantia, segurança, incentivo, demonstrando ao vidente que, antes de ser formado no ventre, o Eu Sou já sabia de Jeremias e estabeleceu ele como profeta.

O verso não indica uma relação intima entre Jeremias e Deus antes que fosse formado no ventre materno, visto que só Deus é pré-existente. Ora, é possível ser profeta, porém, não ter comunhão com Deus, ou seja, conhecê-lo, ou antes ser conhecido d’Ele como foi o caso de Balaão ( Jd 1:11 ).

O termo ginosko na Septuaginta é utilizado no sentido de ‘conhecer’, ‘saber acerca de’, e tanto os homens quanto Deus figuram como sujeito deste verbo. Os homens são informados acerca de, e Deus, por sua vez, sabe perfeitamente todas as coisas, o que não exclui eventos futuros.

É inegável que Deus conhece todas as coisas, eventos, fenômenos e pessoas, mas quando é dito que Deus ‘conhece’ alguém, o sentido do termo transcende a ideia de ‘saber acerca de’ e passa a ter a conotação de relação íntima. Não podemos nos apegar as definições léxicas, como é o caso de ‘ginosko’ que significa ‘saber’, ‘vir a conhecer’, pois o termo em função do contexto também é utilizado para relações sexuais ou, para fazer referência a uma comunhão íntima, indicando que o homem pertence a Deus ou que se tornou um com Ele.

A Septuaginta é um importantíssimo objeto de pesquisa e de comparação para melhor compreender a língua grega e o surgimento de hebraísmo. Através dela é possível observar várias nuances pertinentes as duas línguas pela conexão entre as ideias do Antigo Testamento e o Novo.

Porém, conhecer a língua hebraica e a língua grega não é garantia de uma correta interpretação, conforme se depreende das passagens bíblicas a seguir: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ). Se os doutores de Israel que conheciam o grego e o hebraico não compreendiam o significado de ‘misericórdia’, o que mais não compreendiam?

Dos escribas e fariseus disse o apóstolo Paulo: “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ). Os judaizantes não entenderem o que diziam e nem o que afirmavam, demonstra que o conhecimento linguístico não deve ser tido como algo que confere autoridade nos assuntos pertinentes as Escrituras.

Apesar de os judeus serem guardiões das Escrituras, não tinha o ‘conhecimento’ de Deus ( Rm 10:2 ), rejeitaram o Cristo previsto nas Escrituras, pois não sabiam responder de quem o Cristo é Filho ( Mt 22:41 -46).

Isto demonstra que, conhecer o hebraico e o grego não garante uma compreensão da mensagem do evangelho “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” ( Jo 8:43 ). Doutorado em hebraico e grego não habilita ninguém a ser mestre do evangelho, pois se assim fosse os fariseus e os escribas à época de Cristo seriam os primeiros a entrar no reino dos céus.

Ora, o termo fé, além de estar relacionado à verdade, relaciona-se com os seguintes termos: veracidade, sinceridade, honradez, retidão, fidelidade, lealdade, seguridade, crédito e firmeza. Por definição, muitos teólogos argumentam que fé (acreditar) é sempre um dom de Deus, e nunca algo que pode ser produzido pelas pessoas’.

A declaração acima parece verdadeira, mas se analisarmos detidamente a colocação acima, verifica-se que o dom de Deus é Cristo, que por sua vez é descrito como ‘a fé que havia de se manifestar’ “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ); “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ).

Na verdade, Cristo – o dom de Deus – jamais poderia ser produzido pelas pessoas. Cristo é a fé, a fidelidade, a verdade digna de toda confiança, de modo que primeiro é manifesta a fé para que o homem possa nela crer. O termo fé deriva de fidelidade.

É comum dar ao termo fé o sentido de crer, acreditar, mas se considerarmos as escrituras o termo grego ‘pistis’ e o hebraico arcaico ‘emunah’ decorre de fidelidade. Cristo é apresentado como a fé porque Ele é fiel, verdadeiro, digno de confiança. Se Cristo é digno de confiança, o mérito em confiar n’Ele não é do homem, antes de Cristo.

Quando dizem que fé ‘é sempre um dom de Deus, e nunca algo que pode ser produzido pelas pessoas’, geralmente os teólogos querem dizer que é impossível ao homem crer em Cristo se antes não for regenerado, alegando que há mérito em crer. Entretanto, não há mérito em quem confia, o mérito está naquele que é verdadeiro, firme, fiel.

O termo fé adquire significado único no contexto das Escrituras, pois às vezes é apresentado como o Cristo ( Gl 3:23 ), ou como a doutrina do Evangelho ( Jd 1:3 ; Rm 1:8 ).

O mesmo ocorre com o termo piedade, que se considerarmos o seu significado secular é compaixão, dó, pena, comiseração. Do ponto de vista ‘teológico’, alguns dão o significado de ‘virtude que leva a render a Deus a honra que lhe é devida’, ‘devoção’, ‘afeição e respeito pelas coisas da religião’.

Se considerarmos a análise que fazem do termo piedade, geralmente buscam o seu significado no grego. A palavra “piedade” vem do termo grego “eusebeia”, junção de duas palavras: “eu” que significa “bom ou correto”, e “sebomaie” que significa “adorar”. Daí a conclusão: piedade é adorar bem ou corretamente.

Mas, seria este o seu significado quando encontramos o termo piedade nas Escrituras?

O que significa ‘piedade’ neste verso: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ). O termo ganhou novo significado, pois representa a essência do evangelho: “Contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais” ( 1Tm 6:5 ).

Este mesmo fenômeno ocorre com o termo ‘conhecimento’ quando inserido no contexto do Novo Testamento. Quando o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de corinto dizendo: “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento (γνῶσις gnósis) de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:5 ); “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento (γνῶσις gnósis) de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:8 ).

O termo γνῶσις (gnósis) é um termo cognato derivado de ginóskó que significa ‘conhecimento’, ‘doutrina’, ‘sabedoria’, que dentro do contexto do Novo Testamento aponta para o conteúdo do evangelho.

Quando lemos este verso de Hebreus: “Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” ( Hb 10:26 ), o termo ἀλήθεια (alétheia – verdade) assume a conotação de evangelho, do conhecimento, da doutrina, e o termo conhecimento (ἐπίγνωσις – epignósis) significa reconhecimento, discernimento da verdade.

Ora, o conhecimento de Deus é equivalente à lei, a palavra de Deus “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos” ( Ml 2:7 ).

Ora, o termo ‘conhecimento’ possui várias conotações no contexto das Escrituras, com pelo menos quatro variantes a serem consideradas e, quando nos depararmos com o termo ‘conhecimento’ dentro do contexto do Novo Testamento, pode significar:

  • ‘saber acerca de’, ‘ter conhecimento de’;
  • ‘comunhão íntima’, ‘relacionamento interpessoal’;
  • ‘relação sexual’, e;
  • ‘doutrina’, ‘evangelho’.

É por isso que a compreensão do termo ‘presciência’ ou ‘pré-conhecimento’ não pode basear-se no significado que um dicionário apresenta. Apesar de muitos estudiosos dizerem que o significado de um termo deve ser compreendido a partir do contexto onde foi aplicado, de pronto relacionam o termo presciência com a onisciência divina, o que leva ao erro.

É correta a informação que os estudiosos da língua grega apresentam sobre o termo proginosko de que é termo cognato formado de um composto de pró (antes) e ginosko (saber acerca de). O prefixo pro (antes) introduz um significado espacial e temporal ao termo que se segue, porém, não altera o sentido do verbo (ginosko) ou do substantivo (gnósis).

Quando lemos um verso bíblico que possui incrustado nele o termo προγινώσκω ‘proginosko’, como é o caso de Romanos 8, verso 29, o sentido de ‘ginosko’ é o de comunhão íntima, um só corpo, de modo que o prefixo προ (antes) situa o termo no tempo, o que dá a conotação de prévia comunhão íntima. Este aspecto é abordado na carta aos Gálatas, pois os que ‘conheceram a Deus, ou antes foram conhecidos (ginóskó) d’Ele’ refere-se aqueles que primeiro compartilham da unidade do corpo de Cristo ( Gl 4:9 ).

Mas, quando lemos o termo πρόγνωσις (prognósis), o substantivo gnósis assume o valor de ‘piedade’, ‘fé’, ‘doutrina’, ‘conhecimento’ e o prefixo προ (antes) aponta o tempo em que o ‘conhecimento’ (gnósis) foi anunciado aos homens, de forma que ‘pré-conhecimento’ significa que Deus anunciou de antemão por intermédio dos seus profetas o mistério da piedade, ou a fé que havia de se manifestar, ou seja, o ‘conhecimento’ (gnósis).

A presciência, ou o pré-conhecimento está intimamente ligado à ideia deste versículo: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

Por Deus ter dito a Abraão: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ), ficou registrado implicitamente nas Escrituras que Deus haveria de abençoar os gentios e o apóstolo Paulo entendeu que esta passagem bíblica é uma previsão.

O apóstolo Paulo lançou mão desta promessa para demonstrar o prenuncio do evangelho, ou seja, o pré-conhecimento. O que lemos nas Escrituras acerca da promessa feita a Abraão foi um prenuncio, uma previsão daquilo que Deus iria fazer através do descendente prometido a Abraão. Esta previsão que envolve a pessoa do Descendente prometido a Abraão é o que se denomina de presciência.

Não podemos conceber que, Deus sendo onisciente, onipotente e onipresente necessite prever o futuro para levar a efeito a Sua vontade, como dizem aqueles que defendem que a presciência é um ramo da onisciência. Deus não antevê o futuro, antes o correto é dizer que Ele é conhecedor de todas as coisas e, antecipa aos seus servos o que irá fazer.

A previsão das Escrituras: ‘Em ti serão benditas as famílias da terra’, tem relação com o evangelho, de modo que a previsão diz da fé que havia de se manifestar, do mistério da piedade, da verdade, do conhecimento de Deus. Quando foi anunciado o evangelho ao patriarca Abraão ocorreu o que o apóstolo Pedro chamou de pré-conhecimento, ou pré-ciência, ou seja, ‘presciência’, o conhecimento de Deus que foi antecipado aos patriarcas ou profetizado pelos seus santos profetas e que está exarado nas Escrituras, portanto, é descabida a ideia de que Deus é presciente, porque, na verdade, Ele é onisciente “PAULO, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade, em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:1 -2).

Ao anunciar o evangelho de antemão a Abraão dizendo: ‘Em ti serão benditas todas as famílias da terra’, Deus não faz qualquer referencia a ideia de eleição ou predestinação, ou seja, no pré-conhecimento anunciado a Abraão tem-se a promessa de Deus.

O que primeiramente foi dito pelos santos profetas diz do pré-conhecimento “Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador” ( 2Pe 3:2 ).

Quando o apóstolo Pedro escreveu aos cristãos que estavam dispersos, adjetivou-os de eleitos em virtude do conhecimento que antes fora revelado por Deus através dos seus profetas (presciência). Somente através do conhecimento de Deus anunciado aos homens é possível obedecer a Cristo e ser aspergido com o seu sangue.

É por causa do conhecimento, é como resultado do conhecimento e é com base no conhecimento de Deus contido no evangelho, a fé dos eleitos de Deus, que Paulo e Pedro foram comissionados como apóstolos. A fé dos eleitos de Deus é Cristo que trouxe o conhecimento da verdade, segundo o que lhes fora anunciado: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo e recebido acima na glória.

A estrutura da saudação do apóstolo Pedro em 1Pe 1, versos 1e 2 é como se segue:

  • De: Pedro, apóstolo de Jesus Cristo;
  • Para: Os peregrinos da dispersão;
  • Condição: eleitos;
  • Pré-conhecimento: a condição é segundo o conhecimento de Deus Pai (que é segundo a piedade) anunciado desde o princípio através dos seus santos profetas;
  • Nomeados: ‘eleitos’ pela obra santificadora do Espírito;
  • O conhecimento: possibilita obedecer a Jesus e ser aspergido com o Seu sangue;
  • Saudação: Graça e paz vos sejam dadas em abundância.

 

A condição dos estrangeiros dispersos tem por base o pré-conhecimento, ou seja, o que foi anunciado primeiramente a Abraão: o evangelho. Já a escolha de Deus recai sobre a geração de Cristo, que é eleita para ser santa e irrepreensível ( Ef 1:4 ; 1Pe 2:9 ).

Os arminianos erram na interpretação desta passagem bíblica porque entendem o pré-conhecimento (a piedade, o evangelho anunciado previamente a Abraão) como um conhecimento prévio de eventos futuros. Já os calvinistas erram ao interpretá-la por considerarem que Deus além de antever o futuro, preordenou eventos futuros, determinando de antemão aqueles que seriam salvos e os perdidos.

Ora, o que Deus determinou de antemão é que salvaria os crentes pela loucura da pregação, ou seja, pelo conhecimento, piedade, evangelho, etc “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Após serem salvos através do lavar regenerador da palavra, os crentes são declarados eleitos por pertencerem à geração dos justos, santos e irrepreensíveis, uma geração predestinada a ser conforme a imagem de Cristo.

Para interpretar o composto verbal προγινώσκω ‘proginosko’ e nominal πρόγνωσις (prognósis), devemos considerar o contexto, sendo que, apesar de falar de fatos e eventos, temos que considerar o personagem central, que é Cristo, o que foi dito nas Escrituras acerca do Cristo e a doutrina do Cristo.

Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

Em passagens bíblicas em que o ‘conhecimento’ das pessoas está em voga, o verbo προγινώσκω ‘proginosko’ deve ser tomado como “ter um relacionamento anterior” ou “ter uma relação íntima, especial com antecedência” “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Em Atos 26, verso 5, ao dar testemunho do apóstolo Paulo, Lucas utiliza o termo ‘προγινώσκοντες’ (proginóskó), demonstrando que todos os judeus sabiam quem era Saulo, o fariseu. O que sabiam acerca de Paulo era um conhecimento específico com base no que presenciaram desde a mocidade. O termo não possui nada de eletivo ou de previsão “Quanto à minha vida, desde a mocidade, como decorreu desde o princípio entre os da minha nação, em Jerusalém, todos os judeus a conhecem, Sabendo de mim desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu” ( At 26:4 -5).

O sentido relacional, o sentido de comunhão íntima, só aparece no composto verbal προγινώσκω (proginosko), já o composto nominal πρόγνωσις (prognósis) é anterior à existência de seus objetos. O que isto demonstra? Demonstra que, o ‘conhecimento’ de Deus como a palavra de Deus é pré-existente, e que a relação íntima (ginosko) entre Deus e os homens só se processa através do conhecimento (gnósis), que não é ‘saber acerca de’, antes diz do mistério da ‘piedade’, do ‘evangelho’, da ‘fé’.

A relação íntima entre Deus e os homens não envolve uma escolha arbitrária de um déspota, antes ela é estabelecida em liberdade, pois onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Observe a liberdade na seguinte palavra do Senhor: “Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:9 -10).

Ora, o Senhor é a palavra, é o Espírito, por isso os cristãos são ministros do Espírito, ou seja, da palavra, contrastando-a com a letra, com a lei ( 2Co 3:6 ). Quando o apóstolo Paulo diz que o Senhor é Espírito, está falando do espírito que vivifica, ou seja, da palavra de Cristo que é espírito e vida. E é pela palavra de Cristo, a semente incorruptível que os homens são transformados de glória em glória na mesma imagem de Cristo ( 2Co 3:18 ).

É através do conhecimento de Deus anunciado de antemão pelos profetas que somos informados que Deus salva os homens pela oferta do corpo de Cristo e, concomitantemente, todos que são salvos através do evangelho durante o período compreendido entre a ressurreição de Cristo e o arrebatamento da igreja, também são chamados com uma santa vocação segundo o eterno propósito que fizera em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

A vocação é segundo o propósito estabelecido em Cristo de fazê-lo a cabeça da igreja, já a salvação é segundo o amor de Deus, que deu o seu filho unigênito para que os homens não pereçam, mas tenham vida eterna.

Como o proposto por Deus em Cristo era fazê-lo preeminente em tudo, Deus salva os homens da condenação de Adão através do poder do evangelho e confere aos de novo gerados a condição de semelhantes a Ele, para que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ; Cl 3:10 ).

Ao estabelecer o seu propósito eterno de convergir em Cristo todas às coisas, Deus também estabeleceu a vida eterna por intermédio da sua palavra “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ).

A promessa de vida eterna é antes dos tempos dos séculos, pois a vontade de Deus desde a eternidade é imutável, sendo conhecido o sangue do Cordeiro antes mesmo da fundação do mundo. Como o cordeiro foi morto antes da fundação do mundo, a esperança de vida eterna é uma promessa efetiva antes dos tempos que se mensuram em séculos.

Cristo é o eleito de Deus para o seu propósito ( Pv 8:23 ). Como Deus estabeleceu que Cristo morreria para resgatar a humanidade, o sangue de Cristo foi conhecido antes dos tempos dos séculos, e ao anunciar de antemão estes eventos acerca da morte e ressurreição de Cristo por intermédio dos profetas deu-se a presciência.

O beneplácito que Deus propusera em si mesmo era um mistério para todas as suas criaturas ( Ef 1:9 ; 1Pe 1:12 Ef 3:11 ). Deus propôs seu beneplácito tendo em vista a Si mesmo, ou seja, a preeminência de Cristo em todas as coisas.

O propósito de Deus não foi estabelecido nas suas criaturas, antes estabeleceu o seu propósito em Si mesmo, a fim de que as suas criaturas como primícias sejam louvor à sua glória. É por isso que o propósito é eterno se centra no Criador e não nas criaturas pois elas não são eternas.

Que honra maior pode haver para uma criatura do que ser convidada a participar de um propósito concernente a pessoa do Criador?

Quando Deus (Elohim) fez o seguinte acordo na eternidade: “Eu lhe serei por Pai, e tu me será por Filho” ( 2Sm 7:14 ), fez em Si mesmo o seu propósito (Ef 1:9 ), e introduziu uma das pessoas da divindade no mundo efetivando o que foi estabelecido por decreto a condição do Verbo eterno entre os homens, conforme o acordo estabelecido na eternidade: Tu és meu Filho “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:7 ), neste instante surgiu um grande mistério que até os anjos queriam compreender (atentar) “Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 ).

O que os anjos queriam entender refere-se ao anunciado pelos profetas acerca dos ‘sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir’. Os ‘sofrimentos’ e a ‘glória prevista pelos profetas’ é o mesmo que ‘pré-ciência’, ou ‘pré-conhecimento’. Mas, somente pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus tornou-se conhecida ( Ef 3:9 -10). Somente agora, através da igreja, toda a criação compreende o eterno propósito que Deus fez em Cristo Jesus ( Ef 3:11 ): Cristo foi feito a cabeça da Igreja.

Há uma ardente expectativa da criação, pois todos aguardam a revelação dos filhos de Deus. A criação aguarda a revelação daqueles que são as criaturas que assumem a condição de primícias do Espírito Eterno ( Rm 8:23 ; Tg 1:18 ).

 

Eleitos segundo a presciência

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 )

A onisciência de Deus destaca-se nas mais variadas situações, podendo ser notada em vários eventos das escrituras:

  • Deus chamou o rei Ciro pelo nome muito antes dele nascer, porém, tal chamado e revelação não concedeu salvação ao rei Ciro ( Is 44:28 );
  • Os sonhos de José demonstram a presciência de Deus ( Gn 37:5 );
  • Moisés anunciou que o povo de Israel afastar-se-ia de Deus ( Dt 32:5 );
  • Jesus previu que o apóstolo Pedro o negaria antes que o galo cantasse por três vezes ( Mt 26:34 ).

Com relação à vida e morte do Messias:

  • Cristo foi conhecido antes da fundação do mundo ( Jo 17:24 );
  • A semente de Cristo foi prevista em oposição a semente da serpente ( Gn 3:15 );
  • A linhagem de Cristo foi prevista ( Gn 12:3 );
  • O nascimento virginal foi previsto ( Is 7:14 );
  • A traição dos mestres da lei ( Sl 49 )
  • A crucificação foi prevista ( Sl 22:16 );
  • A morte e ressurreição foram previstas ( At 2:31 );
  • A glória futura de Cristo foi prevista ( Is 52:13 ; 1Pe 1:12 ), etc.

Tudo que Deus anunciou de antemão tem relação com o propósito eterno que fora proposto em Si mesmo ( Ef 3:11 ). Segundo o conselho da sua vontade Deus elegeu Cristo para o seu propósito e, segundo a ‘pré-ciência’ foi anunciado de antemão os sofrimentos de Cristo, o que estabeleceu a sua morte desde a fundação do mundo.

Quando Cristo ressurgiu, trouxe à existência a nova geração eleita para ser conforme a imagem daquele que os criou: assim tornou-se firme o seu propósito, pois foi estabelecido no Criador e não nas criaturas (Cl 3:10 ).

Suprimir a ideia de que Deus anunciou de antemão os eventos a que o Cristo estaria sujeito (presciência), tomando-a como vontade-prévia para explicar a eleição e a predestinação não encontra respaldo na bíblia.

Ora, Deus conhece todas as coisas porque é onisciente, e o futuro está incluso neste conhecimento, porém, saber o futuro não é o mesmo que pré-ordenar. Deduzir que o significado do termo grego traduzido por ‘presciência’ é o mesmo que ‘pré-ordenação’ é um equivoco.

 

Eleição

Deus onisciente tornou os cristãos eleitos aos santificá-los. Como? A condição de eleito é pertinente àqueles que obedecem a palavra de Deus, crendo em Cristo, pois a santificação é pela palavra ( Jo 17:17 ; At 26:18 ). Os eventos seguem a seguinte ordem:

1º) Deus santificou (separou para Si) os cristãos purificando as suas almas através da obediência à verdade do evangelho (nação santa, povo adquirido 1Pe 2:9 -10), pois só através da obediência ao evangelho há a aspersão do sangue que é ‘conhecido’ por Deus antes da fundação do mundo ( 1Pe 1:2 ; 19 e 22);

2º) Após ser santificado pela aspersão do sangue (morte com Cristo), os cristãos ressurgem uma nova criatura (regenerados), eleita para ser santa e irrepreensível.

Não há dentre os homens gerados da semente terrena e corruptível um que fora eleito e designado santo e irrepreensível, mas todos os gerados de novo através da semente espiritual e incorruptível, que é a palavra de Deus (evangelho), são eleitos, pois foram criados em verdadeira justiça e santidade.

Cristo é a pedra viva, eleita e preciosa, pois foi conhecido e escolhido antes da fundação do mundo segundo o eterno propósito ( Ef 3:11 ) e, através d’Ele os cristãos também tornam-se pedras vivas, ou seja, eleitos de Deus e preciosos aos olhos de Deus, mas, em Cristo.

Deus elegeu a Cristo para ser preeminente em todas as coisas e, todos aqueles que são gerados de novo foram eleitos n’Ele antes da fundação do mundo. Deus escolheu, segundo o seu propósito, os gerados do Descendente prometido a Abraão. A geração de Cristo é a geração eleita segundo o beneplácito que Deus propusera em Cristo ( Ef 1:9 ): a preeminência de Cristo em tudo!

Quando os cristãos (gerados por Cristo) foram eleitos? Antes da fundação do mundo.

Como os cristãos foram eleitos? Deus elegeu a Jesus Cristo, seu Filho unigênito, consequentemente, a descendência de Cristo foi eleita. O patriarca Abraão e o povo de Israel são figuras da eleição estabelecida na eternidade e, é por isso que o apóstolo Paulo deixa claro que os cristãos foram eleitos n’Ele, pois as promessas feitas ao Descendente de Abraão, que é Cristo, alcança os gerados em Cristo ( Gl 3:16 ).

Assim como Deus escolheu o gentio Abraão estabelecendo a sua posteridade sem especificar quais e quantos dos seus descendentes entrariam no Egito e quais israelitas seriam resgatados de lá, assim também se dá com a igreja, visto que Deus escolheu a Cristo, o descendente de Abraão e estabeleceu a sua descendência sem fixar quais homens são conduzidos à glória na condição de filhos de Deus ( Hb 2:10 ). O que ficou estabelecido é que a promessa é dada aos crentes, e todos que creem em Cristo são filhos de Deus ( Gl 3:26 -29; 1Co 1:21 ), por causa da promessa feita a Cristo ( Gl 3:16 ).

À descendência de Abraão é dado a terra ( Gn 15:18 ), aos descendentes de Cristo é dado o reino dos céus e também é concedido ser conforme a expressa imagem de Cristo “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” ( Lc 12:32 ); “Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” ( 1Co 15:48 -49 ; 1Jo 3:2 ).

Somente pela fé em Cristo os homens são salvos e, especificamente aqueles que têm fé em Cristo durante o período compreendido entre a ressurreição e o arrebatamento da igreja, recebem a salvação e a adoção de filhos de Deus em vista do propósito eterno ( Gl 3:26 ), diferente da ideia de que é pela eleição e predestinação que os homens são salvos.

Quando crê em Cristo o homem é batizado em Cristo, isto é, na sua morte, e só então, se reveste de Cristo, isto é, ressurge semelhante a ele ( Gl 3:27 ; Rm 6:3 ). Ao ser gerado do Descendente de Abraão, além da salvação da condenação de Adão, o homem torna-se semelhante à expressa imagem do Deus vivo (filho de Deus) e herdeiro da mesma promessa ( Gl 3:29 ). Por causa da sua descendência, Cristo é alçado à posição de primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele “Isto é, que o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dentre os mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios” ( At 26:23 ; 1Jo 3:2 ; 1Jo 4:17 ).

 

Os filhos da ofensa

Todas as vezes que o apóstolo Paulo faz referência à antiga condição dos cristãos quando sob o pecado, ele o faz nos seguintes termos: filhos da ira, filhos da desobediência, trevas, filhos das trevas, mortos em delitos e pecados, ignorantes, entenebrecidos no entendimento, etc., porém, em nenhuma referência à antiga condição dos cristãos é utilizado o termo ‘eleitos’ e ‘predestinados’.

Não há na bíblia a seguinte afirmação: “Noutro tempo éreis eleitos…”, antes só encontramos as seguintes expressões: “Noutro tempo éreis trevas, filhos da ira, vasos para desonra, plantas que o Pai não plantou, filhos da desobediência, etc.”. Diante de tantos adjetivos acerca da antiga condição daqueles se tornaram eleitos, como perdidos, trevas, filhos da ira, filhos da desobediência, como explicar o motivo pelo qual o apóstolo Paulo não mencionou a condição de ‘eleitos’ pertinentes à antiga condição dos cristãos quando sob o pecado?

Somente os cristãos são nomeados de eleitos de Deus. Somente os cristãos, gerados em Cristo, por serem membros do Seu corpo, são eleitos, condição adquirida ‘em Cristo’ antes da fundação do mundo, não por obras de justiça que houvessem feito, antes pelo simples fato de serem gerados d’Ele: geração eleita.

O apóstolo Paulo é específico ao demonstrar que Deus elegeu os cristãos e não os incrédulos ao utilizar o pronome na 1º pessoa do plural: nos (cristãos) elegeu! ( Ef 1:4 )

O apóstolo Pedro também demonstra que os eleitos são os cristãos: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão…” ( 1Pe 1:1 ) Almeida RA, e no verso 9, do capítulo 2 da mesma epístola, ele explica que os cristãos são eleitos por fazerem parte de uma geração eleita ( 1Pe 2:9 ).

Este é o título para fazer referencia à condição dos que se assentaram nas regiões celestiais em Cristo. Diz somente daqueles que já entraram no descanso proposto ( Hb 4:3 ).

 

Onisciência

A onisciência refere-se ao conhecimento de Deus, que é perfeito em natureza e em abrangência, pois Deus conhece plenamente a Si próprio e todos os demais seres, coisas, fenômenos e eventos. Ele conhece igualmente bem presente, passado e futuro e a essência de todas as coisas.

Deus está acima de tudo, até mesmo das questões relativas ao tempo, porém, devido a algumas considerações filosóficas, de que o futuro é uma contingência, alguns teólogos lançaram mão do termo grego πρόγνωσις (proginṓskō – presciência), e devido a uma má leitura do texto lançaram mão do termo para fazer referencia ao conhecimento de Deus com relação a fatos futuros.

É um equivoco apresentar a ‘presciência’ como ramo da onisciência, pois este é um modo de reduzir a onisciência divina. Ora, Deus conhece igualmente todos os eventos, tantos os futuros, presentes ou passados. Deus jamais previu ou prevê algo, pois ele desde sempre soube todas as coisas, sem esforço, pesquisa, pensamento, etc.

Com relação a Deus não podemos pensar que tempo e espaço é uma barreira, que fraciona os eventos em passado, presente e futuro, pois Deus sabe tudo igualmente bem. Deus jamais se surpreende, descobre ou busca informação acerca de eventos, estado, condições, etc.

Tudo o que é necessário ocorrer no mundo físico, ocorre por meio de leis físicas estabelecidas desde o fundamento do mundo. Há leis estabelecidas que regem todos os eventos físicos, e Deus desde de a eternidade conhece todos os eventos físicos que ocorreram, ocorrem e ocorrerá e, apesar de Deus ter estabelecido as leis físicas, os homens podem interagir com elas movidos por seus próprios desejos.

Deus conhece todos os eventos chuvosos que ocorreram, ocorre e ocorrerá na face da terra, desde a primeira gotícula de água que foi precipitada até a última, porém, este fenômeno natural é regido por leis estabelecidas, segundo o que Deus determinou e sustem. As contingências decorrentes das chuvas não foram pré-ordenadas por Deus, antes dependem da interação do homem com o meio, porém, Ele conhece todas as contingências igualmente bem. O que Deus estabeleceu foram leis que regem tais eventos e, apesar de sustentar tais leis por seu poder, não interveem nos fenômenos e eventos delas decorrentes.

Mas, além das leis naturais, Deus criou o homem que, sendo livre, pode construir barragens para represar as águas provenientes das chuvas. Apesar de Deus conhecer todas as barragens construídas pelos homens antes mesmo de haver mundo, elas são frutos da imaginação e do trabalho do homem. Desde sempre Deus conhece os homens que trabalhariam na represa e o volume de águas represada, porém, a construção da represa, as benesses e os problemas dela decorrente não foram preordenadas por Deus, e sim pelos interesses dos homens, pois a represa originou-se da livre vontade humana que interagiu com as leis físicas estabelecidas por Deus “E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

O homem dominar sobre a terra é uma lei divina. Anjos não dominam a terra. Para dominar sobre a terra, Deus teve que vindicar o domínio por meio de Cristo que, após ressurgir, disse: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” ( Mt 28:18 ).

Caso alguém, em sua loucura, cometer um atentado terrorista contra a represa, apesar de Deus conhecer tal evento desde a eternidade, o ato do terrorista é uma ação livre e autônoma e todas as contingências delas decorrente regem-se por leis naturais ou leis físicas.

Deus não prevê, antes tudo sabe. Quando Ele antecipa eventos futuros nas Escrituras, simplesmente demonstrou o seu eterno poder e que a sua palavra é firme “Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” ( Is 46:10 ).

Deus antecipou vários eventos futuros na bíblia, porém, isto não significa que Ele tenha estabelecido qualquer tipo de contingência. Jesus antecipou que Pedro o trairia antes que o galo cantasse três vezes, mas isto não significa que ele foi destinado a trair, antes que, por conhecer todos os eventos, foi revelado pelo Pai qual seria a atitude daquele discípulo diante da condenação do Mestre.

Ao antecipar um evento ou a atitude de uma pessoa, não significa que houve um ‘decreto’. Ou seja, Deus não decretou que Judas trairia o Cristo, antes antecipou um evento futuro que evidencia a onisciência divina. Isto significa que não houve qualquer tipo de intervenção divina que tenha predestinado Judas a traição, antes todas as suas decisões foram autônomas e a partir das suas crenças e impressões adquiridas pela inteiração com o mundo.

Por onisciência entende-se que Deus conhece todos os eventos no passado, no presente e no futuro (espaço-tempo), e na eternidade. Nada escapa aos ‘olhos’ de Deus. Por isso ele chama à existência as coisas que não são como se já fossem “(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem” ( Rm 4:17 ).

Deus, de antemão nomeou Abraão como Pai de muitas nações: temos aqui a grandeza da onisciência demonstrada aos homens, visto que Abraão nem mesmo podia ter filhos com Sara.

Como Deus conhece todos os eventos: no passado, no presente e no futuro, é certo que ele sabe de antemão quem são os salvos e quem são os perdidos, porém, não quer dizer que Ele, unilateralmente, preordenou quem seriam os salvos e quem seriam os perdidos. Esta visão fatalista e determinista não é conforme a verdade bíblica, pois Deus não interfere no arbítrio dos homens para fazê-los crer ou não.

Embora Deus saiba de antemão todas as coisas, o ‘conhecimento’ de Deus não determina e nem vincula a condição futura do homem: se perdido, ou se salvo.

A bíblia demonstra que a perdição do homem foi determinada pela ofensa de Adão “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ), e não pela onisciência de Deus. De igual modo, a bíblia demonstra que a salvação decorre da misericórdia de Deus, bastando ao homem aceitar a oferta de redenção.

 

Constitui-se mérito aceitar a salvação?

O fato de aceitar a oferta não seria mérito por parte do homem? Não! A ordem é clara: “Entrai pela porta estreita!” ou, “Necessário vos é nascer de novo”. O fato de o homem sedento beber da água da vida que Cristo dá não lhe confere mérito. O fato de deixar que o Senhor lave toda imundície através do lavar regenerador não confere ao homem mérito algum.

Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos…” ( Is 45:22 ), o fato de o homem olhar, não lhe confere mérito, antes ‘olhar’ demonstra que o homem confiou na palavra que lhe foi anunciada. Qualquer que não olhar para Aquele que oferta salvação, demonstra simplesmente que não creu na palavra de Deus.

Não há mérito algum em quem confia, pois o mérito está em Deus que é fiel, o que o torna digno de confiança.

Quando convencido da necessidade em deixar que Jesus lavasse os pés, Pedro logo se apresentou: “Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” ( Jo 13:9 ). Caso o apóstolo Pedro não consentisse que Cristo lavasse os seus pés, por não se sentir merecedor, não seria lavado.

Esta passagem bíblica demonstra que, quem rejeita a oferta de salvação por se achar indigno (auto reprovação), ou quem acredita que é digno de aceitá-la em vista de algum mérito, diante de Deus estão em pé de igualdade: não tem parte com Cristo.

Permitir ser lavado de suas imundícies demonstra que o homem confia que Deus é poderoso para limpá-lo, o que não demanda esforço da parte do homem. Quando o homem adora a Deus dizendo: – “Dignifica Senhor em lavar-me”, demonstra que o mérito está em Deus que é poderoso e é fiel para fazer o que prometeu.

Deus se propôs lavar a imundície dos homens que confiassem n’Ele, e é por Cristo que o homem passa a ter tal confiança em Deus.

Lavar o homem do pecado é ação de Deus, visto que Jesus trouxe a vasilha, a água, a toalha e as mãos. Quem confia apresenta os seus pés.

Por se considerarem ‘extremamente’ perdidos, muitos se dizem indignos de até mesmo aceitarem o que Deus propõe, porém, se o homem não aceitar a oferta de salvação que Deus lhe oferece, que é lavá-lo da imundície da carne, não terá parte com Deus “Se eu te não lavar, não tens parte comigo” ( Jo 13:18 ).

Quem se sente indigno é porque não crê em Deus, pois se cresse saberia que Deus é poderoso para purificar o homem de toda imundície.

A perdição do homem deu-se em Adão, sendo todos igualmente encerrados debaixo do mesmo pecado: sem exceção alguma. Com relação à salvação, não é o fato de Deus saber algo acerca do futuro – até porque Deus não somente sabe o futuro como também está presente em todos os eventos – que determina quem será salvo ou não, antes a salvação está condicionada à resposta que o homem morto em delitos e pecado dá a seguinte convocação: “Olhai para mim e sereis salvos…” ( Is 45:22 ), pois somente deste modo viverá ( Jo 11:25 ; Dt 8:3 ).

A palavra que diz: “… que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ), demonstra que o homem precisa da palavra do Senhor para viver, visto que está morto (separado de Deus). Que para obter vida não depende do pão cotidiano, mas da palavra que produz vida em abundância.

Embora Deus saiba de antemão todas as coisas, vê-se que, com relação ao passado, Deus pedirá conta aos homens do que passou, o que demonstra que cada pessoa é livre e tem sobre si a oportunidade de mudar a sua condição e destino “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” ( Ec 3:15 ).

O Pregador demonstra que todos os eventos que o homem considera como sendo presentes e futuros, para Deus é o mesmo que passado, e pede conta de toda a existência do homem. Ora, se Deus pré estabeleceu na eternidade os salvos porque conhece previamente o futuro, não há porque Ele pedir conta ao homem do que passou, visto que pediria conta dos seus próprios atos.

Devemos considerar que Deus é onipresente, que além de saber, Ele contempla todos os homens e as suas ações (onipresença e onisciência). A onipresença de Deus não tolhe e nem exerce domínio sobre a liberdade do homem, o que também deve ser dito da onisciência.

A multiforme sabedoria de Deus está em que os atributos de Deus possuí perfeito equilíbrio com a liberdade do homem, tanto que no exercício da sua liberdade o homem pecou e, soberanamente Deus providenciou salvação em Cristo para todos os homens porque é misericordioso.

A alegação de que a “presciência” é tanto um atributo quanto um ato de Deus é descabida, pois o atributo de Deus é a onisciência. Da mesma forma que Deus onipresente estava junto a Adão quando da queda, Deus sempre soube que Adão pecaria, mas o fato de Deus ‘saber’ não foi a causa determinante da queda.

Mesmo sabendo o que o homem faria com a sua liberdade, Deus a concedeu e, para levar a efeito o proposto em Cristo, a preeminência de Cristo, Deus providenciou o Cordeiro que, foi morto na fundação do mundo. Embora a queda era sabida, não foi preordenada, antes ocorreu em decorrência da desobediência de Adão, fruto do exercício da sua liberdade.

A doutrina da reprovação incondicional é antibíblica, pois a bíblia demonstra que quem não crê está condenado ( Jo 3:18 ), não porque Deus preordenou, mas porque não creu no nome do Filho Unigênito de Deus, ou seja, a condenação e a salvação estão condicionadas ao crer e ao não crer.

A onisciência nada tem de determinista porque ele mesmo diz que o dia de hoje é um dia sobre modo oportuno e aceitável “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ). Se o Senhor apresenta o ‘agora’ como tempo aceitável, certo é que a sua onisciência não é determinista, pois se assim fosse, o tempo de salvação seria na eternidade, e não ‘hoje’ (hoje é uma unidade de tempo na terra). A oração do salmista seria sem sentido: “Eu, porém, faço a minha oração a ti, SENHOR, num tempo aceitável; ó Deus, ouve-me segundo a grandeza da tua misericórdia, segundo a verdade da tua salvação” ( Sl 69:13 ).

Tudo o que Deus estabeleceu concernente ao propósito eterno o fez com base em sua sabedoria e prudência. Que sabedoria há em fazer uma terra com contagem de tempo, colocar nela seres alienados da sua glória e simplesmente destinar uns à perdição e outros à salvação?

Deus não determinou quem eram os perdidos na eternidade, antes a bíblia demonstra que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa de uma única transgressão que se deu no tempo dos homens ( Rm 3:23 ). Não foi Deus quem determinou, por ser onisciente, quem haveria de se perder, antes todos se extraviaram e juntamente se fizeram imundos em Adão, que fez uso da liberdade para fazer o que era inconveniente ( Rm 3:12 ).

Estar perdido é uma condição decorrente da decisão que Adão fez de desobedecer, o que tornou todos os homens filhos da ira e da desobediência. Tal condição não foi estabelecida pela ideia de que Deus é presciente, pois Deus é onisciente.

Deus estabeleceu que havia de justificar os crentes pela fé e, ao anunciar o evangelho a Abraão, a fé foi ‘prevista’, ou seja, anunciada de ante mão “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: ( Gl 3:8 ), o que difere da ideia arminianista de que Deus previu quem teria fé e, portanto, os elegeu para serem salvos.

O evangelho anunciado a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’, era uma previsão exarada nas Escrituras de que Deus justificaria os que cressem no descendente prometido a Abraão, ou seja, um conhecimento pré-anunciado, ou seja, presciência. Isto não é o mesmo que dizer que Deus é presciente, pois Ele não é. Deus é onisciente, o que não condiz com a ideia de que Deus escolheu pela ‘presciência’ quem haveria de ser justificado.

A ‘presciência’ é um termo utilizado pelo apóstolo Pedro para fazer referência ao evangelho, o conhecimento de Deus anunciado de antemão pelos seus profetas ( Gl 3:23 ).

Não há base bíblica para a reprovação incondicional, pois a condenação decorre de um só que pecou, ou seja, ela é condicionada à ofensa de um só homem. De uma única ofensa de Adão veio o juízo sobre todos os homens para condenação e a pena foi a alienação de Deus: morte ( Rm 5:18 ).

Como a perdição é condicionada à ofensa de Adão, a salvação não pode ser incondicional, antes é condicionada à obediência de um homem: Jesus Cristo, o último Adão ( Rm 5:19 ).

Após a queda da humanidade, a redenção passou a ser condicionada ao Descendente da mulher ( Gn 3:15 ), e o dia chamado ‘hoje’ é o dia oportuno de salvação. Se a salvação e a perdição fossem incondicionais, o ‘hoje’ não seria o momento de salvação, ou o ‘dia’, ou o ‘ano’ sobre modo oportuno, antes a oportunidade e o dia de salvação estaria na eternidade, antes que houvesse mundo, pois lá teria sido estabelecido os perdidos e os salvos ( Is 61:2 ; Hb 3:7 ).

O convite de salvação é especifico: “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” ( Is 45:22 ). Basta olhar para Deus que o homem será salvo, ou seja, a salvação não é unilateral.

Existe uma teoria que afirma que o homem é tão depravado que, para olhar para Deus é necessário uma graça ‘preveniente’, o que remonta a teologia de Santo Agostinho (maniqueísta e neoplatonista), pois entende que, se o homem voluntariamente atender o chamado ‘Olhai para mim…’, e olhar para aquele que O chama, a salvação já não é por fé, mas por obras, como se o olhar do pecador fosse suficiente para resgatar um homem da morte. Este posicionamento se enraíza em quem desconhece a real condição que o homem assumiu ao desobedecer a Deus (Sl 49:7-8). Também desconhece qual o significado do termo ‘fé’ quando é dito que a salvação é por fé, pois Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). A atitude deles é semelhante a do apóstolo Pedro antes de ser devidamente instruído “Nunca me lavarás os pés” ( Jo 13:8 )!

Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos”, ele está conscientizando os seus ouvintes de que estão perdidos, ou seja, mortos (separados) em delitos e pecados. Estão em uma condição semelhante a dos filhos de Israel que pecaram e foram mordidos por serpentes ardentes. Todos que estavam picados estavam condenados à morte e, bastava somente um olhar na direção da serpente de metal para serem curados, ou seja, necessitam crer na palavra que diz: “Olhai para mim…”.

‘Olhar’ refere-se ao resultado da confiança que os ouvintes exerceriam na palavra anunciada por Moisés, que diz: “… e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” ( Nm 21:8 ) . Como a fé vem pelo ouvir, ao ouvir a palavra da fé (firme fundamento), os picados mortalmente pelas serpentes eram sarados. Quando Deus diz: “Olhai para mim e sereis salvos”, o olhar demonstra que a salvação é por fé somente, pois para o homem olhar para quem diz ‘Olhai para mim’, significa que o homem conscientizou-se da sua real condição (pecado), e creu naquele que prometeu (viverá).

Neste sentido é que Cristo foi levantado da terra, para que todo aquele que olhar (crê) para Ele, seja salvo ( Jo 3:14 -15). E para quem Cristo foi erguido? Para alguns indivíduos selecionados previamente? Não! Ele foi erguido para que todos os termos da terra pudessem vê-lo “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:14 -15), pois todos os homens estavam mortos por causa do veneno da serpente no Éden.

Um calvinista dirá que o homem está morto e, que, portanto, não poderá atender o chamado, sem antes ser regenerado, ou que a graça de Deus para os eleitos é diferenciada, sendo irresistível. Porém Jesus disse “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ), ou seja, o homem morto em delitos e pecados está separado da vida (Deus), mas é dotado da capacidade de crer ou não em Cristo e, dependendo da resposta que der ao convite de salvação, viverá ou permanecerá morto.

Jesus demonstrou que é Ele que concede vida aos mortos, ou seja, é Ele que desfaz a barreira de inimizade entre Deus e os homens, reconciliando o homem com Deus. Quando Ele diz: “Quem crê em mim…”, a mensagem dele tem por alvo os que necessitam de comunhão com Deus para serem participantes da vida. Quando ele diz: “ainda que esteja morto”, aponta a real condição do homem sem Deus: separado, alienado da vida que há em Deus. Por fim, a vida, a ressurreição dentre os mortos, é o que Ele oferece. Todos os mortos que olham para Cristo obtém vida, portanto, quando foi dito ‘… ainda que esteja morto’, Jesus não falava de morte física, pois para Deus vivem todos!

Jesus, o pão vivo que desceu dos céus, somente repetiu o anunciado por Deus ao povo de Israel através de Moisés: “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ). A mensagem do evangelho serve para dar a entender aos homens separados de Deus (mortos) que Cristo concede vida, visto que eles estão entenebrecidos no entendimento.

Estão separados de Deus pela dureza de coração ao rejeitarem o dom de Deus, mas, se aquiescerem à luz do evangelho, são salvos “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ). O povo de Israel sofreu quarenta anos no deserto porque Deus queria livrá-los da ignorância.

É necessário crer na ressurreição e na vida para que o homem morto possa obter vida. A inversão ‘regeneração para depois crer’ perpetrada pelos calvinistas nega a eficácia da palavra de Cristo, pois para beber da água que concede vida é necessário ter sede. Deus não sacia primeiramente a sede para depois servir a água que concede vida ao homem ( Jo 4:14 ).

Todos os homens sem Deus têm sede, porém, muitos tentam saciar sua sede em fontes rotas. Porque uns saciam a sua sede em Cristo e outros não? Porque muitos estão abastados em seus próprios conceitos, religiosidade, moralidade, legalidade, ritualismo, etc.

Através da entrega do corpo de Cristo, Deus anuncia para a humanidade presa ao pecado (vivo para o pecado) que há um novo e vivo caminho para os homens que quiserem unir-se a Deus (viver unido a Deus). Qual é o caminho? O caminho é Cristo, e todos que entram por Cristo se conformam com Ele na morte, ou seja, morre para o pecado.

Os calvinistas e arminianistas apontam a impossibilidade do homem se salvar como ‘depravação total’, ou seja, consideram a impossibilidade de se salvar como ‘inabilidade’ para aceitar a salvação ofertada por Deus.

A impossibilidade de salvação está no fato de que o homem não possui os meios para promover a sua própria salvação, ou seja, a mensagem de Deus tem por objetivo alcançar o intelecto do homem de modo que venha a aceitar a salvação providenciada por Deus “Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 13:23 ), desfazendo a ignorância que os mantém separados de Deus “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

O único modo de o homem ver-se livre do pecado é morrendo para ele. Somente a morte livra o homem do pecado, mas não a morte física, antes a morte com Cristo, porque se o homem descer à sepultura como servo do pecado, segue perdido para o juízo final, onde suas obras serão julgadas.

O homem precisa morrer para o pecado ainda nesta existência, o que só é possível quando crê em Cristo, conformando-se com Cristo na sua morte. Ao morrer com Cristo, o homem é livre do pecado e passa a ser servo da justiça, ganha vida eterna, filiação divina e suas obras serão julgadas no Tribunal de Cristo.

O convite do evangelho resume-se na premissa: morram com Cristo para que possais compartilhar da vida que há em Deus. Todos os famintos e sedentos devem comer da carne e beber do sangue de Cristo. Há uma só carne e um só sangue pelo qual os homens são salvos, ou seja, não há graça comum e graça superior. Não há graça resistível ou irresistível, antes há somente uma graça, a Graça de Deus “Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” ( Rm 3:22 -24).

 

Conclusão

Os atos de Deus decorrem única e exclusivamente da sua vontade, porém, quando o seu propósito é expresso, o homem é inteirado do seu conselho. Tudo o que Deus faz é segundo o seu conselho, ou seja, segundo a sua palavra, que é Cristo, o Verbo encarnado ( At 4:28 ; At 20:27 ; Hb 6:17 ).

Da onisciência, que é um dos atributos de Deus, não decorre a presciência, que não é um ato e nem uma qualidade de Deus. A palavra ‘presciência’ não se refere a acontecimentos futuros e nem é atributo de Deus, pois o atributo é a onisciência.

‘Presciência’ é um termo cunhado para fazer referencia a mensagem que Deus anunciou de antemão pelos seus profetas acerca de Cristo, o que não tem relação com eventos futuros.

Os atributos referem-se à natureza de Deus e eles não influenciam e nem interferem nas decisões de suas criaturas.

Deus é onipresente e a sua onipresença não interfere nas decisões de suas criaturas. A presença de Deus é soberana e onipotente, mas não interferiu na vontade de Adão quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus está presente em todos os momentos e lugares, mas a sua presença não impediu Caim de matar Abel. A onipresença de Deus é imanente, ou seja, existe sempre n’Ele e é inseparável d’Ele.

Concomitantemente a onisciência e a onipotência de Deus são imanentes. Apesar de Deus ter dado origem a todas as coisas, Deus não interfere nas decisões de suas criaturas por ser onipotente ( Jó 37:23 ). Apesar de presenciar todos os eventos materiais e espirituais pela sua onipresença, tal atributo divino não interfere nas decisões de suas criaturas, porque Deus é Espírito e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade.

A presciência não é ato divino, e nem implica em pré-ordenação. Os atos de Deus decorrem somente da sua vontade expressa por sua palavra, e não dos seus atributos “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” ( Ef 1:11 ).

O calvinismo adota a presciência como pré-ordenação para conceder à eleição e a predestinação ‘status’ de ato divino, como se ambas, a eleição e a predestinação tivessem por base as criaturas de Deus, porém, a eleição e a predestinação visa o propósito eterno que Deus determinou em Cristo ( Ef 1:9 ). A presciência refere-se somente ao conhecimento que Deus anunciou previamente às suas criaturas acerca da salvação em Cristo.

Ao adotar a presciência como ato divino, alguns calvinistas estipulam que ela ‘quase’ tem o significado de ‘pré-ordenação’, mas quando evoluem a abordagem, equiparam-na a ‘pré-ordenação’ calcados na concepção que formularam entorno do termo ‘conhecer’.

Pelo fato de o termo ‘presciência’ não existir no Antigo Testamento, os calvinistas concluem que ‘pré-conhecer’ implica em afeição para com a pessoa em vista, de onde surge a ideia de que presciência é preordenar.

Observe os seguintes versos:

a) “Antes que te formasses no ventre te conheci” ( Jr l:5 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ indica a onisciência, mas não indica preordenar para salvação, visto que Jeremias foi comissionado para profetizar às nações, o que é diferente de ter sido escolhido para ser salvo ( Jr 1:10 );

b) “De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido” ( Am 3:2 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ não refere-se à pré-conhecimento, antes indica que Deus escolheu o povo de Israel como propriedade, o que tornou o povo de Israel separado das demais nações ( Dt 7:6 );

“Porque o Senhor conhece o caminho dos justos” ( Sl 1:6 ) – neste verso o termo ‘conhecer’ indica comunhão, união íntima, estar ligado a, pois o Senhor é o caminho dos justos ( Jo 14:6 ).

Como se verifica, o termo ‘conhecer’ nos versos acima assumem vários significados distinto em função do contexto no qual está inserido, porém, não significa que aquele que Deus ginóskó (conhece) desde a eternidade, preordenou para salvação ou perdição.

A palavra ‘conhecer’ é utilizada varias vezes no Novo Testamento com o sentido de ‘saber acerca de’, ‘ter ciência de’, etc., porém, também é contemplado com o sentido de ‘comunhão íntima’ ou ‘estar intimamente ligado a’ “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci” ( Mt 7:23 ).

Concluir que o veredicto: ‘Nunca vos conheci’ significa que Jesus nunca soube da existência deles ou, que não os elegeu, escolheu e nem preordenou para a salvação é se estribar no próprio conhecimento, desprezando a onisciência de Deus, visto que, tal termo significa exclusivamente que tais pessoas nunca se tornaram um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ).

Quando Jesus disse: “Eu sou o bom pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido” ( Jo 10:l4 ), ou “Mas, se alguém ama a Deus, este é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ), ou “O Senhor conhece os que são seus” ( 2Tm 2:19 ), o termo expressa comunhão íntima, ou seja, refere-se ao grande mistério expresso pelo apostolo Paulo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” ( Ef 5:30 -32).

O ‘conhecimento’ que os versos acima expressam refere-se a tornar-se uma só carne, um só corpo com Cristo, ou seja, o ‘conhecer’ de Cristo limita-se aos salvos, ou seja, homens que creram no conhecimento de Deus revelado em Cristo, porém, não significa eleição através de ‘afeição’ ou ‘preordenação’.

Podemos dizer que Deus conhece (onisciência) a todos os homens, mas nem todos são ‘conhecidos’ (comunhão íntima) d’Ele ( Gl 4:9 ), pois Ele só tem comunhão íntima, ou seja, conhece, aqueles que O amam ( 1Co 8:9 ), aqueles que guardam os seus mandamentos.

A onisciência de Deus refere-se tanto às pessoas quanto às suas ações, portanto a concepção calvinista de que a ‘presciência de pessoas’ significa pré-conhecer com propósito benigno não possui respaldo nas Escrituras. Tal engano induz o interprete a considerar que Romanos 8, verso 29, indica que o primeiro ato da benevolência de Deus para com os pecadores foi ‘pré-conhecer’.

A interpretação do verso: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” ( Rm 8:29), é a seguinte: tudo concorre para o bem daqueles que ‘amam’ a Deus, ou seja, tudo concorre para o bem daqueles que tem ‘misericórdia’ ( Os 6:6 ).

O apóstolo Paulo é específico: daqueles que amam a Deus, ou seja, daqueles que são chamados segundo o seu propósito ( Rm 8:28 ).

Como ser ‘chamado’ por Deus, ou como amar a Deus? Deus responde: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:10 ), e Jesus complementa: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Em resumo, tudo concorre para o bem daqueles que ‘tem e guarda os mandamentos de Jesus’, ou seja, que creem n’Ele. Estes amam a Deus e são amados do Pai, pois crer em Cristo é o mandamento de Deus. Estes são os chamados segundo o propósito de Deus!

Os que Deus anteriormente conheceu referem-se aos que foram regenerados, pois somente na regeneração o homem torna-se um com o Pai e com o seu Filho (conhecer). Quando regenerado, o novo homem faz parte da nova geração, a geração eleita, predestina a ser filho, ou seja, o verso 29 reafirma o que foi dito no verso 28.

‘Ser regenerado’, ‘conhecer’, ‘tornar-se um com Cristo’ são formas diferentes de fazer referência a um mesmo evento e condição, daí temos que os que conheceram a Deus tem um destino predefinido: serem conforme a imagem de Cristo “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

Os que amam a Deus são os que se tornaram um só corpo com o Pai e o Filho e, estes, por sua vez, foram chamados segundo o propósito que Deus estabeleceu em si mesmo, visto que foram destinados a serem recebidos como filhos por adoção.

Por que foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo? Porque a predestinação visa o propósito estabelecido em Cristo ( Ef 3:11 ), que é Cristo preeminente, ou seja, primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

O termo ‘dantes’ no verso 29 não pode ser tomado como ‘presciência’, antes significa ‘anteriormente’. O verso aponta a mesma ideia (comunhão íntima) exarada no seguinte versículo: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ). Seria a seguinte leitura: “Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam (conheceram) a Deus (…) Pois os que dantes (anteriormente) conheceu…” (parafraseando o apóstolo Paulo).

Estes versos não dizem que Deus olhou unilateralmente para alguns pecadores específicos com favor gracioso para salvá-los da condenação de Adão, antes demonstra que os misericordiosos (que o amam) tornaram-se um com Ele e o seu Filho, e que, portanto, serão semelhantes a Seu Filho glorioso.

Os versos demonstram que Deus torna-se um (conhece) com aqueles que o amam (guardam os seus mandamentos), e que estas pessoas que O conheceram, ou antes, foram conhecidas d’Ele, também foram predestinadas em decorrência do que propusera em Si mesmo, a serem filhos por adoção ( Ef 1:9 ).

Ora, todos que conhecem a Cristo, ou seja, que se tornaram um só corpo com Ele, foram gerados de novo e, portanto, são uma nova geração, a geração eleita. São destinados a serem filhos porque foram gerados de novo através do lavar regenerador do evangelho.

Devemos ter em mente que Deus escolheu um povo, o povo de Israel, não para serem salvos, antes para preservar a linhagem do Messias. Deus não os rejeitou como nação, apesar da rebeldia deles, por causa da sua promessa aos pais: Abraão, Isaque e Jacó ( Rm 11:28 -29).

Agora, através da igreja, ou seja, daqueles que ‘conheceram’ a Deus, temos os salvos, a descendência de Cristo, geração eleita por causa do Descendente. Individualmente todos os que são conhecidos de Deus são salvos por causa da promessa do evangelho que foi primeiramente anunciado a Abraão ( Gl 3:8 ), tornando-se os bem-aventurados filhos de Abraão.

Os cristãos são os “eleitos” ( 1Pe 1:2 ), porém, a eleição não é baseada na ideia de que a salvação é fruto de um olhar diferenciado de Deus para algumas pessoas previamente escolhidas para obedecerem o evangelho (fé), para só então, serem agraciados com a aspersão do sangue de Cristo.

Se a eleição fosse para a salvação, a salvação não seria pela fé em Cristo. Os calvinistas acreditam que os eleitos são justificados (salvos) por Deus e que tal escolha deve ser complementada pela fé no sangue de Cristo.

Para compreender a primeira epístola de Pedro, capítulo 1, verso dois, temos que ter em mente que o propósito de Deus é um beneplácito proposto em Si mesmo e os cristãos foram chamados para fazerem parte deste propósito grandioso ( Ef 1:9 ). Devemos ter em mente que ‘os estrangeiros da dispersão’ são designados eleitos em decorrência do que Deus propôs em Si mesmo (preeminência de Cristo), e não que o propósito d’Ele tenha em vista somente os cristãos (salvação).

A eleição é baseada na pessoa de Cristo ( Ef 1:4 ; Ef 3:11 ), e não na ideia que construíram com o termo presciência. A eleição é para o propósito estabelecido em Cristo e não nos homens. Como o tempo da eleição se deu antes da fundação do mundo, o evento antecipado segundo a ‘presciência’ de Deus Pai diz da santificação do Espírito, ou seja, da palavra, para a obediência e aspersão do sangue de Cristo.

Não se pode confundir santificação do Espírito com a ação do Espírito Santo. A santificação do Espírito é santificação através da palavra, pois os cristãos são ministros do Espírito, e as palavras de Cristo espírito e vida.

Observe a seguinte tradução bíblica interlinear do Novo Testamento: “Pedro apóstolo de Jesus Cristo a (os) eleitos forasteiros de (a) dispersão de (o) Ponto, de (a) Galácia, de (a) Capadócia, de (a) Ásia e de (a) Bitínia, segundo (a) presciência de Deus Pai em santificação de (o) Espírito para obediência e aspersão…” 1Pe 1:1- 2 Novo Testamento Interlinear Grego-Português SBB (grifo nosso).

Agora, observe a seguinte tradução bíblica e compare: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” 1Pe 1:1 -2 – Bíblia Sagrada, Antigo e Novo Testamento, Edição Contemporânea, Ed. Vida.

O apóstolo Pedro escreveu aos eleitos de Deus, forasteiros da dispersão, o que é completamente diferente de dizer que ele escreveu aos estrangeiros da dispersão, eleitos segundo a presciência de Deus. Os cristãos são eleitos em Cristo, e a presciência está relacionada com o sangue de Cristo, visto que o Cordeiro de Deus foi morto antes da fundação do mundo para obediência e aspersão do sangue de Jesus.

A presciência não está no fato de que Deus previu ou preordenou quem seriam, nestes últimos tempos, os homens agraciados com o sangue de Cristo para serem salvos, antes a presciência está no fato de que o sangue de Cristo foi conhecido ainda antes da fundação do mundo e anunciado de antemão pelos profetas “Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:19 -20).

Novamente reitero: a presciência não é um aspecto da onisciência de Deus, portanto a eleição não decorre da concepção teológica de presciência como um aspecto da onisciência. Deus é onisciente é onipresente. Como Ele está em todos os lugares e tempos simultaneamente, segue-se que é onisciente. Mesmo Deus sendo onipresente, nada emana d’Ele que possa alterar as decisões de suas criaturas, a não ser a sua fidelidade.

Deus conhece todos os eventos, quer sejam passado, presente ou futuro, mas o seu saber não preordena.

A eleição é segundo o beneplácito que Deus propôs em Cristo, pois Ele escolheu a Cristo e a sua geração: a geração eleita. Para levar a efeito o que propusera em Cristo, o Cordeiro de Deus foi anunciado de antemão e, tudo o que foi predito ocorreu para que na plenitude dos tempos fosse possível a santificação pelo Espírito, que se dá através da aspersão do sangue de Cristo após a obediência ao evangelho ( 1Pe 1:11 ).

O apóstolo João fala da santificação do Espírito com os seguintes termos: “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” ( 1Jo 3:3 ). Ter a esperança em Cristo, ou seja, o crer no evangelho é o que purifica o homem, e não o contrário, de que o homem necessita purificar-se a si mesmo através de regras como não toques, não proves, não manuseies ( Cl 2:21 ).

A presciência de Deus aparece nas escrituras intimamente associada à pessoa e sacrifício de Cristo ( At 2:23 ; 1Pe 1:2 ), e a eleição e a predestinação ao propósito que Deus propôs em si mesmo, ou seja, na pessoa de Cristo ( Ef 1:9 ; Ef 3:11 ).

Qual a ordem cronológica dos eventos expresso no verso 30, de Romanos 8?

“E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” ( Rm 8:30 ).

Como já analisamos anteriormente, todos que se tornaram um com Cristo (conheceu) possuem um único destino: ser conforme a imagem de seu Filho “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Geralmente o apóstolo Paulo apresenta inicialmente a condição atual dos cristãos para depois demonstrar qual era a antiga condição deles ( Ef 1:13 e Ef 2:1 ). No verso em comento não é diferente: “Aos que predestinou” refere-se à condição atual dos cristãos, pois agora são filhos de Deus, coerdeiros com Cristo, predestinados a serem conforme a imagem do seu Filho ( Rm 8:29 ; 1Jo 3:1 ).

No verso 30 o apóstolo Paulo retroage os eventos no tempo: aos que predestinou, a estes também chamou, ou seja, o evento anterior à predestinação é o chamamento, conforme se lê: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

O chamado é uma santa vocação segundo o propósito que Deus estabeleceu antes dos tempos dos séculos em Cristo, mas que é concedido aos cristãos por estarem em Cristo (por conhecê-Lo).

Retroagindo os eventos no tempo, o apóstolo Paulo descreve: “… e aos que chamou a estes também justificou…”, ou seja, a justificação é o que antecede o chamado de Deus para o seu propósito.

A justificação resulta do ato criativo de Deus, que declara justos aqueles que ressurgem com Cristo. Quando Deus cria o novo homem, gerado de novo pelo Seu poder (evangelho), Ele faz os homens justos e os declara justos.

E no que consiste a glorificação? A glorificação refere-se ao evento anterior à justificação, que é a ressurreição com Cristo e faz com que os cristãos estejam assentados nas regiões celestiais. Leia: “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ), ou seja, se o homem morreu com Cristo, livre está do pecado, ou seja, é declarado justo por ter conformado com Cristo na sua morte.

Ora, os que Deus declarou justo (justificou porque morreram para o pecado), a estes ele glorificou, ou seja, predestinou para serem conforme a expressa imagem de Cristo. A glorificação que o apóstolo Paulo faz alusão neste verso refere-se à ressurreição com Cristo em uma nova criatura (filiação divina), e não a glorificação futura, que é revestir o que é mortal da imortalidade.

A glorificação do verso 30 de Romanos 8 é a mesma que o apóstolo fez referência no verso 17: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:16- 17).

Quando os cristãos ressurgiram com Cristo ( Cl 3:1 ), são glorificados de fato porque recebem de Cristo a mesma glória que o Pai concedeu ao Filho “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ), pois ‘conheceram’ a Deus, ou antes foram ‘conhecidos’ d’Ele, nova condição que encaixa-se no chamado segundo o propósito em Cristo, destinando-os a serem filhos por adoção. ‘Glorificar’ é o mesmo que se tornar ‘um com Cristo e o Pai’, ou seja, é o mesmo que ‘conhecer’.

“E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” ( Rm 8:30 ).

Assim, temos que todos que se conformam com Cristo na sua morte, Deus os fez ressurgir com Cristo (glorificou), mas antes de ressurgirem, foi-lhes necessário morrer com Cristo, momento em que ocorreu a justificação.

Ora, os ressurretos são uma nova geração em Cristo e, por isso são chamados com uma santa vocação (chamou), para serem conforme a imagem d’Aquele que os criou, ou seja, glorificados, predestinados ( 1Jo 3:1-2).

A geração eleita não possui outro destino que não seja ser filho, pois foi para isso que Deus os chamou: para que Cristo seja preeminente entre os seus muitos irmãos.

Ler mais

O Evangelho anunciado

O eterno propósito de Deus é convergir em Cristo todas às coisas, para que em tudo Cristo seja preeminente. Ora, Deus revelou o mistério da sua vontade através da mensagem do evangelho. Mistério que estava oculto em Deus por causa do beneplácito (consentimento, aprovação) proposto em Cristo, o Cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo.

 


As ‘boas novas’ do evangelho anunciadas por Cristo aos homens é única. Qualquer outra mensagem que destoe da palavra anunciada por Cristo é anátema.

 

O Propósito Eterno

A mensagem do evangelho foi estabelecida antes dos tempos eternos (na eternidade), segundo o eterno propósito de Deus de fazer convergir em Cristo todas às coisas, para que em tudo Ele seja proeminente “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ); “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

O eterno propósito de Deus é convergir em Cristo todas às coisas, para que em tudo Cristo seja preeminente. Ora, Deus revelou o mistério da sua vontade através da mensagem do evangelho. Mistério que estava oculto em Deus por causa do beneplácito (consentimento, aprovação) proposto em Cristo, o Cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo.

Ao escrever aos cristãos em Éfeso, Paulo fala acerca deste evangelho: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas insondáveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que a tudo criou” ( Ef 3:8 -9).

Deus é eterno. O Verbo encarnado é eterno. O propósito é eterno. A promessa é eterna. Assim que, todas as promessas de Deus cumprem-se em Cristo “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” ( 2Co 1:20 ).

O propósito eterno de Deus não pode ser frustrado, visto que:

  1. O Verbo de Deus ao ser introduzido no mundo tornou-se o unigênito de Deus ( Jo 1:14 e 18) e o primogênito de toda a criação ( Cl 1:15 ; Hb 1:6 ) – O único Filho (unigênito) de Deus também é designado o ‘primeiro gerado’ (primogênito) de Deus, diferente dos outros seres, que foram criados;
  2. Ao ressurgir dentre os mortos, Cristo tornou-se o primogênito dentre os mortos ( Cl 1:18 ) – Primeiro gerado dentre os mortos; isto porque todos os que crêem no evangelho a semente incorruptível, são de novo gerados segundo Deus ( 1Pe 1:3 );
  3. Através de seu corpo, a igreja, Ele trouxe muitos filhos a Deus ( Hb 2:10 ), tornando-se primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Na eternidade, Deus (El Eloim) estabeleceu um propósito eterno: a preeminência de Cristo. Para isto, fizeram um acordo que, ao ser introduzido o Verbo de Deus no mundo, seria estabelecida a relação Pai e Filho, e por isso o profeta anunciou: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ). Ora, temos uma relação estabelecida entre as pessoas da divindade.

Quando o Verbo se fez carne soou o decreto: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:7 ). Embora feito menor que os anjos ( Hb 2:9 ), por causa da paixão da morte, foi dado ordem aos seres angelicais: “E todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 ).

Mas, para que Cristo em tudo tivesse preeminência, segundo o beneplácito da vontade de Deus, convinha que fosse consagrado através da aflição na morte, para aniquilar o que tinha o império da morte, o diabo ( Hb 2:14 ).

Hoje e sempre, Jesus é Senhor nos céus e na terra, para a glória de Deus Pai. Os anjos vêem no propósito eterno de Deus a sua multiforme sabedoria, e toda a criação está na expectativa da manifestação dos filhos de Deus que revelará a todos a condição de primogênito entre muitos irmãos que Cristo conquistou na cruz ( Rm 8:19 ).

Em resumo, o propósito de Deus é sujeitar todas as coisas a Cristo, e acima de todas as coisas que foram sujeitas, Ele foi constituído como a cabeça do corpo, que é a igreja – a plenitude de Cristo que enche tudo em todos ( Ef 1:22 -23).

Na ordem crescente: todas as coisas foram sujeitas a Cristo (principado, domínio, autoridade, poder, etc). Acima destas coisas foi dada a condição de cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ora, o seu corpo está acima de tudo o que foi posto abaixo dos seus pés.

 

Convergindo todas as Coisas

Ao implementar (por em prática, dar execução) o Propósito Eterno, temos: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” ( Gn 1:26 ).

A imagem que foi dada ao homem é proveniente de Cristo “… Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ), e a semelhança que foi concedida é o domínio sobre a terra “… domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

Tudo que há em Deus foi concedido ao homem por semelhança: domínio, liberdade e uma natureza perfeita. Porém, Adão não deu crédito à palavra de Deus e atentou contra a sua própria vida quando comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Através da ofensa de Adão veio o juízo e a condenação para todos os homens (Romanos 5: 18). Adão tornou-se a porta larga que dá acesso ao caminho largo que conduz à perdição. Através do nascimento em Adão todos os homens tornaram-se destituídos da glória de Deus.

A Escritura demonstra que o homem é pecador, sem esperança no mundo, morto diante de Deus. Esta condição não é proveniente da moral ou do comportamento humano, antes da natureza herdada de Adão. É por isso que Paulo diz: “Pois assim como a morte veio por um homem (…) Pois assim como todos morreram em Adão…” ( 1Co 15:21 -22).

Sobre Adão Jesus disse: “Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 ). Adão é a porta larga que dá acesso ao caminho espaçoso que conduz à perdição, e muitos são os que entram por Adão, exceto Cristo, o unigênito de Deus. É por isso que Ele disse ‘muitos’, e não ‘todos’ que entram por ela.

Ora, se a porta estreita que é Cristo, o último Adão, por quem os homens são vivificados, o primeiro Adão é a porta larga por quem os homens entram no caminho de perdição ( 1Co 15:45 ).

Como Adão tornou-se pecador, destituído da vida que há em Deus, os seus filhos tornaram-se iguais a ele “Qual o terreno, tais são também os terrenos…” ( 1Co 15:48 ). É por isso que os homens são chamados de filhos da ira e filhos da desobediência.

Não importa a conduta, a moral, a religião, os sacrifícios, a origem dos homens nascido segundo Adão, todos entraram pela porta larga ao nascer e seguem para a perdição. Diante de Deus um homem com todas as qualidades morais e intelectuais como era o caso de Nicodemos é igual a alguém sem méritos, como era o caso da mulher samaritana.

Mas, em sua infinita graça e amor, Deus enviou o seu Filho Unigênito ao mundo para salvá-lo de condenação em Adão, que é anterior à sua vinda. É por isso que Ele disse: “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” ( Jo 12:47 ).

Isto demonstra que Jesus não veio julgar os homens porque todos já estavam sob condenação. Ele veio salvar porque todos entraram pela porta larga e trilhavam o caminho de perdição.

É por isso que Ele disse: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:12 ), ou seja, entrar pela porta estreita é o mesmo que: “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ). Entrar pela porta estreita é uma necessidade que só é possível através do novo nascimento.

Nicodemos perguntou: “Como pode um homem nascer sendo velho?” ( Jo 3:4 ). Ora, para o homem é impossível nascer de novo! É por isso que a bíblia demonstra que o homem é escravo do pecado, perdido, não pode salvar-se a si mesmo.

Mas, através do chamado do evangelho que diz: ‘Entrai pela porta estreita’ ou ‘Vinde a mim, vos que estais cansados e oprimidos’ é oferecido salvação poderosa a todos os homens. O convite é universal, pois Deus amou o mundo, e deseja que nenhum homem se perca ( Jo 3:16 ; 1Tm 2:5 ).

Cristo morreu em resgate por todos os homens ( 1Tm 2:6 ), e não por alguns. Deus amou a todos os homens, e não só por alguns. É por isso que Jesus disse: “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos” ( Mt 22:14 ). Por que ‘muitos’ são chamados, e não ‘todos’? Porque nem todos ouviram a mensagem do evangelho.

O chamamento do evangelho é universal por destinar-se a todos os homens, porém, muitos não ouviram esta maravilhosa mensagem. Ex: os aborígenes, índios, povos da Ásia e da África, povos da America antes das grandes viagens, etc. Paulo mesmo diz: “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:24 ).

No momento da pregação do evangelho surgem os chamados, que são muitos, e pertencentes a todos os povos, porém, os escolhidos são poucos.

Quem são os escolhidos? Ora, como são poucos os escolhidos e poucos os que entram pela porta estreita, temos que os escolhidos são aqueles que nasceram de novo e entraram pela porta estreita, que é Cristo.

Há somente um evangelho que foi anunciado pelos apóstolos. Qualquer outro evangelho é anátema.

Esta mensagem de boas novas é direcionada a todos os homens, pois isto foi anunciado: “Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens” ( Lc 2:14 ). A boa vontade de Deus é para com todos os homens, e não somente alguns.

Qualquer evangelho que vete a graça de Deus para todos os homens indistintamente é anátema. Qualquer evangelho que estabelece diferentes níveis de graça é anátema. Qualquer evangelho que considere que Deus ama alguns homens em detrimento de outro é anátema. Qualquer evangelho que nega a universalidade e eficácia da mensagem do evangelho é anátema.

 

O Convite à Salvação

Ora, a bíblia demonstra a impossibilidade dos homens salvarem-se a si mesmo pelas suas obras ou méritos pessoais. Por mais regrado e cheio de méritos que o homem seja, ele entrou por Adão, a porta larga, e trilha um caminho de perdição.

Por mais que os homens criem regras, vivam despojados das coisas desta vida, reneguem os prazeres, façam justiça, estejam resignados a sofrerem a injustiça, etc. continuam trilhando um caminho de perdição.

É por isso que Paulo demonstra que através do seu poder, Deus pega o barro (homem) de uma mesma massa e faz vasos honra e desonra. Todos os homens (barro) são provenientes de uma mesma massa, mas em Adão são feitos vasos para desonra, e em Cristo, são feitos vasos para honra ( Rm 9:21 -24).

Paulo demonstra que os cristãos são vasos para honra para dar a conhecer as riquezas da sua misericórdia. Os cristãos foram chamados dentre todos os povos através da mensagem do evangelho, pois antes de ser feito vaso para honra, éramos todos vasos de desonra, vasos de ira, preparados para a perdição ( Ef 2:4 -7).

Antes os cristãos eram trevas (vasos de ira preparados para a perdição), agora são luz no Senhor (vasos para honra) “Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” ( Ef 5:8 ).

Que obra ou dignidade há da parte do homem em ser feito vaso para honra? Nenhuma! Da mesma forma que não há obra ou dignidade por parte daquele que foi feito vaso para desonra.

Ora, se quem nasce de Adão entra pela porta larga que dá acesso ao caminho largo que conduz a perdição, que obra, ação, bem ou mal fez quem foi feito vaso para ira destinado a destruição? Isto demonstra que, embora o homem não tenha nascido, nem feito bem ou mal, para que o propósito eterno de Deus segundo a eleição permaneça firme, os nascidos em Adão serão vasos para desonra.

De igual modo, os já nascidos de Adão precisam nascer de novo. E não importa a obra, mérito ou condição do homem, para que o propósito de Deus segundo a eleição continue firme, os nascidos em Cristo são vasos para honra.

Onde está a jactância? Onde há mérito? Onde há dignidade? Onde há obra?

O evangelho de Cristo é:

  • Boas novas de salvação – Mensagem de Deus a todos os homens perdidos por causa da condenação de Adão;
  • Gratuito – é um convite incondicional a todos os homens, independente das suas ações e condições morais;
  • Para os pecadores – o público alvo da mensagem do evangelho é todos os pecadores, pois Deus não faz acepção de pessoas; o amor de Deus é segundo a sua justiça, ou seja, ele não tem ninguém em preferência;
  • Oferecido – Deus oferece salvação, livre de qualquer imposição. A graça do evangelho é segundo a sua santidade, ou seja, Ele a ninguém oprime “O Todo Poderoso está além do nosso alcance, ele é exaltado em poder; em sua justiça e grande retidão ele ninguém oprime” ( Jó 37:23 ). Embora todo poder (soberania), Deus é justiça e retidão, ou seja, Ele não oprime a nenhuma de suas criaturas;
  • Incondicional – Deus não exige obras ou méritos por parte dos pecadores para salvá-los. Do mesmo modo que sem obra ou méritos os pecadores foram feitos vasos para desonra (vasos para ira e destruição), ao salvá-los, Ele faz vasos para honra aparte das obras ou dos méritos e utiliza a mesma massa;
  • É poder – A salvação decorre do poder criativo de Deus segundo a sua palavra (bara – só Deus ‘bara’ através da palavra). Ora, todos que recebem a Cristo, ou que creem na mensagem do evangelho, recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus segundo a sua vontade ( Jo 1:12 -13); o homem não tem poder para operar a sua própria salvação. Somente o poder que faz paralítico andar é que pode dar vida ao novo homem “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa” ( Lc 5:24 );
  • É graça – É um presente de Deus aos homens. Não é imposta aos homens a tal ‘graça irresistível’, pois ‘todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo’ ( Jl 2:32 ). Somente invoca os necessitados, os pobres de espírito, os que necessitam de socorro, e não aqueles que têm algo a oferecer. Quem ouvir as boas novas e invocar a Deus será salvo, porém, Deus não obriga ninguém a invocá-lo para em seguida salvar.

Como invocarão a Deus? Ele sujeitará o homem subvertendo a sua vontade? Não! Se assim fosse, não haveria a necessidade de o homem esperar em Deus (confiar); não haveria a necessidade da pregação; pra que ouvir ou pregar? Por que Isaias questiona a Deus “Quem creu na nossa pregação?”, se Ele impõe a sua vontade?

O evangelho de Cristo não é um ramo do fatalismo, concepção filosófica que considera serem o mundo e os seus acontecimentos produzidos de modo irrevogáveis. Ora, a concepção calvinista e a arminianista, em última análise, são fatalistas, pois alguns homens estão fadados à perdição, e outros, mesmo que não invoquem a Deus, à salvação.

O fatalismo fazia parte da cultura grega antiga e do estoicismo grego romano. Certas idéias ‘pseudo’ cristãs fundam-se na ideia da ‘divina providência’ ou no ‘determinismo’, ramo equivalente ao fatalismo.

Ora, sabemos que se fé é impossível agradar a Deus. Agradá-lo ou aproximar-se dele constitui-se em mérito por parte do homem? ( Hb 11:6 ). É preciso ser salvo para depois invocar a Deus? A bíblia recomenda invocar para ser salvo, mas se o homem primeiro é salvo para depois invocar a Deus, já não é preciso invocá-lo ( Jl 2:32 ).

O evangelho da graça não é regeneração para crer (invocar), antes é invocar (crer) para regeneração (salvação).

 

Propósito Segundo a Eleição

Como os vasos para honra fazem parte do propósito eterno de Deus de fazer convergir em Cristo todas as coisas?

A preeminência de Cristo está em Ele ser o primogênito de toda a criação, primogênito dentre os mortos e primogênito entre muitos irmãos ( Cl 1:15 e 18; Rm 8:29 ).

Mas, para que Jesus fosse constituído por Deus primogênito entre muitos irmãos, fez-se necessário Deus constituir filhos para si. Para ele constituir filhos para si, fez-se necessário Cristo morrer e ressurgir, tornando-se primogênito dentre os mortos.

Para Cristo tornar-se primogênito dentre os mortos, fez-se necessário participar da carne e do sangue, tornando se o Unigênito de Deus, o primogênito de toda criação.

Para tornar-se o primogênito de toda criação, o Unigênito de Deus, o Verbo que se fez carne e que habitou entre nós teve que deixar a Sua glória.

Isto demonstra que, na eternidade, antes de virem à existência, os homens já eram alvos do eterno propósito de Deus, visto que, para Cristo ser primogênito entre muitos irmãos, Deus constituiu dentre os homens regenerados filhos para si. Ora, é impossível ser primogênito sem que haja outros irmãos.

Mas, como Deus constitui dentre os homens filhos para si? Todos que entrarem pela porta estreita, que é Cristo, são salvos da condenação anterior proveniente da queda de Adão, a porta larga por onde entram todos os homens. A todos que conhecem a Deus, ou antes, que são conhecidos dele através do evangelho ( Gl 4:9 ), além da salvação serão semelhantes a Cristo “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas, sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

Ora, a salvação em Cristo é oferecida através da mensagem do evangelho a todos os homens “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” ( At 2:39 ), porém, todos que são salvos em Cristo não têm outro destino: são filhos de Deus, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, o primogênito entre muitos irmãos “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

É por isso que Paulo relata que Deus predestinou os cristãos. Ele demonstra que foi segundo a vontade e beneplácito de Deus que os cristão foram predestinados a serem filhos.

O erro surge quando alguém considera que Deus predestinou dentre não crentes alguns para salvação. O que Paulo nos demonstra é que Deus estabeleceu qual seria o destino eterno dos cristãos, uma vez que eles estavam em Cristo.

Paulo escreve a cristãos e não a incrédulos. Ele reafirma: em amor Deus nos (Paulo e os cristãos de Éfeso) predestinou para sermos filhos ( Ef 1:5 ). Ora, os santos que estavam em Éfeso é que se tornaram filhos, e não os descrentes.

Ora, muitos homens do passado foram salvos pela fé em Deus, porém, eles não fazem parte do corpo de Cristo. Somente os membros do corpo de Cristo, a igreja, que além da salvação não terão outro destino, a não ser, serem filhos de Deus. Este destino reservado por Deus antes dos tempos dos séculos à igreja é por causa do eterno propósito de Deus, pois os salvos em Cristo são filhos para que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos.

Não encontramos na bíblia predestinados à salvação, antes predestinados a serem filhos. Ao longo da história da humanidade encontramos salvos antes da lei, salvos dentre o povo de Israel, salvos na grande tribulação e salvos no milênio, porém, nenhum destes salvos é predestinado a serem filhos.

Todos os salvos ao longo dos séculos, os anjos, os principados, autoridades e poderes estão sujeitos a Cristo, ou seja, debaixo dos seus pés. Porém, acima de todas estas coisas temos a igreja, o corpo de Cristo, e Ele é a cabeça da igreja ( Ef 1:22 ).

É por isso que ao falar da predestinação e da eleição, Paulo estabelece a condição: ‘em Cristo’.

1º) ‘em Cristo’ é a condição de existência da nova criatura “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é” ( 2Co 5:17 );

2º) Somente a nova criatura é filho de Deus, santa e irrepreensível, e por isso todas as vezes que Paulo fala da predestinação ou da eleição ele estabelece: ‘em Cristo’, ‘no Amado’, ‘nele’, etc. ( Ef 1:3 -13);

3º) Deus determinou antes do séculos, que a nova criatura gerada segundo a sua vontade (Espírito) e palavra (água) seria filho por Adoção ( Jo 1:12 e Jo 3:5 ), por Cristo Jesus, e;

4º) Cristo torna-se primogênito entre muitos irmãos, segundo o propósito eterno de convergir em Cristo todas as coisas, quando Deus cria (bara) a nova criatura, concedendo ao homem um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

O evangelho demonstra que o homem precisa morrer com Cristo, para depois ressurgir um novo homem. Como Deus predestina e elege alguém que tem que morrer à salvação? Ora, se Deus predestinou e elegeu o pecador para ser salvo, ele não poderia morrer.

Mas, o evangelho demonstra que todos quantos crerem em Cristo morrem e ressurgem uma nova criatura. Antes de morrer era vaso para desonra, preparado para perdição. Após morrer e ressurgir, o homem é feito vaso para honra. Antes trevas, agora luz no Senhor.

Quando formularam o posicionamento doutrinário de que algumas pessoas perdidas foram predestinadas e escolhidas para serem salvas, esqueceram que é impossível nascer de novo sem antes morrer. Ora, se o homem precisa morrer com Cristo para depois renascer, percebe-se que os pecadores não são predestinados e nem eleitos, uma vez que não poderiam morrer com Cristo.

Mas, todos que morreram, foram sepultados e ressurgiram com Cristo, estes são feitos filhos de Deus. As novas criaturas foram predestinadas a serem filhos de Deus, para que Cristo seja primogênito dentre muitos irmãos.

Paulo é enfático: “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da salvação…” ( Ef 1:13 ). Ora, aquele que está em Cristo, ou seja, que é uma nova criatura, é um dos escolhidos de Deus para ser santo e irrepreensível. ‘Em Cristo’ (no Amado) é que Deus predestinou para ser filho por Adoção.

Somente após ouvir a mensagem do evangelho da salvação e tendo nele crido é que se opera a regeneração (estar em Cristo, ou seja, ser uma nova criatura). Ser regenerado para crer é uma idéia descabia frente ao evangelho de Cristo. Como é possível alguém que não tem mais sede pedir água? Ora, segundo o pensamento calvinista e arminianista Deus forma no homem uma fonte que jorra para a vida eterna (regeneração), de modo que a pessoa não terá mais sede, e então, o homem está apto a pedir a água oferecida (crer)?

Cristo ofereceu água viva à samaritana, e caso ela bebesse a água fornecida gratuitamente, então seria feito nela uma fonte que jorra para a vida eterna, sem nunca mais ter sede ( Jo 4:14 ). Como ela pediria água, depois que não tivesse mais sede?

É anti-bíblico o argumento que apresenta a regeneração para crer. Ora, teríamos a regeneração, depois a pregação e por fim a fé. No entanto, o evangelho é a mensagem de Deus que traz fé, o homem crê e morre com Cristo. Ressurge dentre os mortos (regeneração) com Cristo, que é o primogênito dentre os mortos, e na condição de nova criatura herdamos com Cristo todas as coisas (filhos).

Ele é o primogênito entre muitos irmãos, e os que crêem co-herdeiros com Cristo, para que em tudo ele tenha a preeminência: Ele é a cabeça do corpo!

Se anunciarem outro evangelho, que seja anátema!

Ler mais

1 Pedro – Regenerados pela palavra da verdade

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho: a salvação da perdição do pecado. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).


1 PEDRO, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; 2 Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

Pedro não teve o mesmo problema que o apóstolo Paulo quanto a ter que defender o seu apostolado. Por ter sido escolhido por Cristo para ser discípulo, e visto o Mestre ainda em carne, não teve dificuldades no exercício do seu ministério.

Paulo demonstra em suas cartas que Pedro possuía uma posição de destaque entre os primeiros cristãos, tanto que foi significativo para Paulo passar quinze dias com Pedro e ser recebido entre os discípulos pelo evangelho que anunciava aos gentios ( Gl 1:18 ; Gl 2:9 ).

No decorrer da carta Pedro também se apresenta como o ‘Ancião’ ( 1Pe 5:1 ), e que Silvano foi quem escreveu (escriba) a carta, e que eles estavam na companhia de Marcos ( 1Pe 5:12 -13). A maestria na escrita da carta deve-se a Silvano, mas o conteúdo da carta ao apóstolo Pedro.

Muitos questionam a autoria da carta de Pedro por ele ter sido um simples pescador da Galileia e ter escrito uma carta tão bela em grego semelhante à literatura ática. Estudiosos questionam a autoria da carta por ele citar a Septuaginta, por usar o ‘artigo’ de modo elegante como nenhuma outra carta do Novo Testamento e por ter um vocabulário próprio e numeroso.

Ora, Pedro mesmo demonstra que não foi ele quem escreveu a carta, e sim Silvano. Percebe-se que Pedro apresentou os argumentos e Silvano, na condição de hábil escriba usou o seu conhecimento para imprimir à carta o estilo próprio as frases da literatura ática.

Quando escreveu, Pedro estava em uma cidade que ele nomeou de Babilônia ( 1Pe 5:13 ). Os destinatários da carta estavam em cinco províncias Romanas: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia.

Após identificar-se, o apóstolo aponta quem são os destinatários da sua epístola: os estrangeiros dispersos. ‘Estrangeiros dispersos’ diz dos cristãos que foram perseguidos por causa da mensagem do evangelho ( At 8:1 ; At 11:19 ). Ora, é certo que os dispersos eram na maioria judeus, porém, ao escrever, Pedro tem como foco os cristãos, sem qualquer referência a origem carnal dos cristãos.

Pedro escreveu aos eleitos, ou seja, aos santos e irrepreensíveis em Cristo ( Ef 1:4 ). Os arminianista utilizam-se deste verso para afirmar que a eleição é segundo a presciência de Deus, porém, é necessária uma análise mais rigorosa.

Uma tradução bíblica datada de 1681 diz o seguinte:

Pedro Apoftolo de Jefu Chirifto a os eftrangeiros efpalhados em Ponto, em Galacia, em Cappadocia, em Afia, e em Bythynia. Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae, em fanctificaçaõ de Efpirito…”

Novo testamento, Companhia das Indias Oriental, cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.

Observe o verso em questão: “Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae…” (v. I). Ora, a eleição é segundo a presciência ou providência?

Como já demonstramos no artigo O Evangelho Anunciado, a eleição não é o modo pelo qual Deus salva o homem. Deus não escolheu antes dos tempos eternos quem seria salvo ou não, com base na sua presciência ou na sua soberania. As concepções calvinista e arminianistas não são bíblicas.

Para compreender a ideia que o apóstolo Pedro procurou evidenciar, não se pode interpretar um verso fora do contexto, ou isolá-lo do restante da bíblia.

A estrutura da primeira carta de Pedro comparada à carta de Paulo aos Efésios é equivalente na estrutura do texto e na ideia que procuraram demonstrar. Observe:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:1 -2).

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus: a vós outros graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” ( Ef 1:1 -2).

Tanto Pedro quanto Paulo se apresentam, identificam os destinatários, saúdam com graça e paz, apresentam o local onde os cristãos se reuniam, porém, enquanto Pedro fala da nova condição pertinente aos salvos, ‘eleitos’ (presente), Paulo faz referência ao evento da eleição (passado).

Ora, Deus elegeu os cristãos em Cristo ( Ef 1:3 ), e os cristãos são eleitos (condição atual) por estarem em Cristo ( 1Pe 1:2 ).

Para os arminianistas a eleição é segundo a presciência de Deus, e os calvinistas apontam a soberania de Deus. Como a maioria dos tradutores segue uma tendência teológica, não sabemos o quanto estes posicionamentos doutrinários influenciam os tradutores.

Porém, é possível extrair do texto uma resposta: a eleição não é segundo a presciência e nem segundo a providência de Deus Pai, antes é na (em, ou através) Santificação do Espírito. Observe:

segundo a presciência de Deus Pai

Eleitos (condição atual) na santificação do Espírito

para a obediência e aspersão do sangue

Se considerarmos que a frase ‘segundo a presciência de Deus Pai’ é um aposto explicativo, veremos que não imposta à posição que ela é inserida no texto. Ora, têm-se várias cominações possíveis:

“… segundo a presciência de Deus Pai, eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito, segundo a presciência de Deus Pai, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, segundo a presciência de Deus Pai…”.

Alguém que segue uma visão arminianista prefere agrupar as várias frases que compõe o versículo segundo a sua concepção: eleitos segundo a presciência. Outro, que não prefere a concepção arminianista, mas a calvinista, preferem a providência divina.

Porém, de acordo com o restante das escrituras, a eleição não é segundo a presciência, antes a eleição é segundo o propósito eterno de Deus. Ora, se é segundo o propósito eterno não pode ser segundo a presciência!

Por tanto, para interpretar ( 1Pe 1:2 ), é necessário considerar que:

  • Nenhum ponto das Escrituras deve ser considerado isoladamente do restante das escrituras “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” ( 2Pe 1:20 );
  • Algumas frases contidas nos textos são um tipo de aposto explicativo;
  • É necessário observar a forma do discurso do interlocutor, que neste caso específico é o apóstolo Pedro;
  • Não deixar ser influenciado por tendências doutrinárias, que são muitas;
  • Comparar o versículo com o texto de outros escritores da bíblia;
  • Por ser um versículo complexo deve ser analisado segundo a ideia geral da bíblia.

Segundo o que Paulo demonstra, os cristãos foram eleitos em Cristo “Pois nos elegeu nele…” ( Ef 1:4 ), e Pedro do mesmo modo demonstra que os eleitos alcançaram está condição ‘… em santificação do Espírito…’ ( 1Pe 1:2 ).

Perceba que tanto Pedro quanto Paulo utiliza o dativo de forma especial (en Cristo = em Cristo) ao escreverem acerca da eleição. É um uso específico do dativo preposicionado, característica própria à sintaxe cristã ao utilizarem o grego.

Ora, Paulo disse que os cristãos foram eleitos em Cristo, portanto, não podemos interpretar que a eleição é segundo a presciência, e sim, em santificação do Espírito.

Como? Ora, as palavras de Cristo são Espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). É através da Palavra que Cristo santificou a sua igreja “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

A santificação do Espírito é pela palavra do evangelho e a eleição se deu em Cristo, ou seja, ‘em santificação do Espírito’ (santificação pela palavra), pois Cristo é o Verbo de Deus, a palavra da vida encarnada.

Ora, dizer que os cristãos foram eleitos ‘em Cristo’, ou que são eleitos ‘em santificação do Espírito’ evidencia a mesma ideia: a nova criatura (os cristãos) é eleita por estar em Cristo ( 2Co 5:17 ).

Segundo Paulo, os cristãos foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, é para santificação que os cristãos foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo. Temos aqui dois eventos distintos:

  • antes dos tempos eternos, segundo o seu propósito eterno, Deus escolheu a Cristo para ser preeminente sobre todas as coisas;
  • para que Cristo fosse preeminente em tudo, Deus o constituiu como cabeça da igreja, que são os santificados pela palavra, as novas criaturas, homens nascidos segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Em Cristo Deus escolheu os cristãos para que hoje sejam santos e irrepreensíveis. Paulo apresentou o tempo da eleição para demonstrar que os cristãos agora estavam em Cristo na condição de eleitos de Deus ( Ef 1:13 ), e Pedro apresenta a condição dos cristãos hoje (eleitos), e como alcançaram tal condição: em santificação pelo Espírito.

Percebe-se que através da santificação se dá a eleição dos homens, pois para a santificação é necessário ser anunciada a palavra aos homens, estes por sua vez creiam na pregação, e Deus opera a sua maravilhosa obra: a regeneração. Através da regeneração ocorre a justificação e santificação simultaneamente.

Paulo demonstra que os cristãos foram eleitos para santificação (objetivo), e Pedro demonstra que pela santificação do Espírito os Cristãos são eleitos (condição). A condição de eleitos decorre da santificação, mas quando Deus escolheu antes dos tempos eternos aqueles que estariam em Cristo, foi para serem santos e irreprimíveis.

Cristo demonstrou que a santificação é proveniente da sua palavra, que é espírito e vida para todos os que creem. A regeneração só é operada através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Compare: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 ), e “Tendo purificado as vossas almas na obediência a verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

A ‘santificação’ ou ‘purificação’ só ocorre através da obediência.

Mas, o que é obediência? Obediência é crer na mensagem do evangelho do mesmo modo que cumprir os mandamentos de Deus é crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Qual a verdade que os cristãos da Galácia não estavam obedecendo? À verdade do evangelho “Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” ( Gl 3:1 ).

Como se obedece a verdade do evangelho? Crendo, como está escrito: “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” ( Rm 10:11 ).

Pedro procurou demonstra em sua saudação inicial que os cristãos são os eleitos de Deus, pois todos são santos por estarem em Cristo ( Ef 1:2 ). Eles tornaram-se santos (separados) após serem lavados pela palavra da verdade, a palavra do evangelho que obedeceram.

É através da obediência ao evangelho e aspersão do sangue de Jesus que os cristãos foram purificados, tornaram-se eleitos.

Tudo o que ocorreu com os cristãos após ouvirem e obedecerem à palavra do evangelho (aspersão do sangue, santificação e eleição) já era de conhecido de Deus (onisciência) antes dos tempos eternos “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ).

Quando os apóstolos falaram da eleição, eles tinham em mente a geração que foi escolhida por Deus e a condição dessa geração. A geração dos eleitos ocorre em Cristo, e a geração dos não eleitos, em Adão ( 1Pe 2:9 ). A geração dos eleitos (justos) se dá em Cristo e a geração dos não eleitos (ímpios) em Adão porque uma é a geração dos justos e outra é a geração dos ímpios.

Nenhum descendente da carne de Adão foi eleito por Deus para ser santo e irrepreensível, antes só os homens que creem em Cristo, ou seja, que obedeceram a verdade do evangelho e são de novo gerados segundo Deus, são eleitos para serem santos (separados). É por isso que apóstolo Pedro fala que é por meio da santificação do Espírito que os cristãos são conhecidos d’Ele.

A ideia que Pedro procurou evidenciar é a mesma que Paulo demonstrou no verso seguinte: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Através da onisciência Deus é conhecedor de todas as coisas, ou seja, nada se exclui do seu saber, conhecimento. Porém, quando os cristãos eram incrédulos, eles não eram conhecidos de Deus. O que isto quer dizer, que Deus não é conhecedor de todas as coisas? ( Gl 4:8 ).

Não! Quando os cristãos não conheciam a Deus, Deus também não os conhecia. Porém, agora que conheceram a Deus, ou antes, tornaram-se um com Ele, conhecidos por Ele através da aspersão do sangue de Cristo que se da através da obediência à sua palavra, tornaram se filhos, eleitos (escolhidos) conforme o propósito eterno, que é a preeminência de Cristo como cabeça da igreja.

Conhecer a Deus vai além de um simples saber. Fala de união, ou seja, de tornar-se um só corpo com Cristo, conhecendo um ao outro em amor. Quando o cristão torna-se um só corpo com Cristo é o mesmo que Deus ter conhecido os cristãos, tornam-se um só corpo, pois o homem passa a compartilhar da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

A palavra ‘presciência’ não deve ser utilizada para fazer referência a ideia de que Deus antevê eventos futuros, pois Deus sabe de todas as coisas e eventos através dos séculos igualmente bem, o que se dá o nome de onisciência. O termo ‘presciência’, ou melhor, pré-conhecimento ou pré-ciência refere-se á mensagem acerca do Cristo que os profetas anunciaram de antemão (previamente). Que por intermédio do conhecimento de Deus em Cristo os homens tornar-se-iam um com Deus, conhecendo-O ( Dt 9:24 ; Am 3:2 ; Mt 7:23 ; Jo 10:14 -15).

Ora, o sangue da aspersão foi conhecido ainda antes da fundação do mundo do mesmo modo que os eleitos são conhecidos d’Ele através da aspersão deste mesmo sangue ( 1Pe 2:20 ).

Isto não coaduna com a ideia arminianista de que Deus determinou quem seria salvo através da ‘presciência’. O que Pedro demonstra não é o atributo da onisciência, antes que Deus determinou tudo o que é relativo à salvação do homem: o cordeiro, a palavra e a fé.

 

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,4 Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, 5 Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo

Após o prefácio e a saudação, Pedro passou a bendizer a Deus pela sua misericórdia.

A estrutura inicial desta carta é similar a carta de Paulo aos Efésios e aos Salmos 103 e 104.

Pedro passa a bendizer, ou seja, a adorar a Deus reconhecendo os atributos de Deus (Salmos 104) e os benefícios concedidos aos homens (Salmos 103).

O fato de Pedro bendizer ou adorar a Deus nada acrescenta ao Criador, pois Deus não depende da adoração de suas criaturas para existir. Diferente são as imagens esculpidas, que são ícones idolatrados que surgem e são mantidos somente por serem venerados pelos homens, e que dependem desta veneração para continuarem sendo ídolos.

No entanto, os ídolos nada são ( 1Co 8:4 ), pois mesmo quando venerados, a adoração dos seus adeptos nada acrescenta ou omite as imagens de escultura. Somente são ídolos por causa de seus veneradores, mas afastando os seus adeptos, nada representam.

Como o homem adora a Deus?

Em primeiro lugar, só é possível adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, somente aqueles que creram em Cristo e foram de novo criados é que o adoram segundo o que Ele estipulou: em espírito e em verdade;

Após o novo nascimento, cabe ao cristão reconhecer a grandeza de Deus e todos os seus atributos, e cantar todos os benefícios concedidos.

Pedro bendiz a Deus pela sua misericórdia, do mesmo modo que Davi e Paulo bendisseram ( Ef 1:3 ; Sl 103:10 ).

Ele aponta a misericórdia de Deus como sendo a causa de uma nova esperança, ou seja, em primeira instância a fé e a esperança do crente estão em Deus ( 1Pe 1:21 ).

Pedro é bem claro ao falar da regeneração em Cristo: gerar de novo. Ora, nascer de novo é o mesmo que ser participante de uma nova geração. Em Adão os homens são gerados segundo a carne, em Cristo, o último Adão, os homens são gerados de novo. Esta é a geração dos justos e aquela é a geração dos ímpios.

Mas, como ocorre o novo nascimento?

O ‘gerar de novo’ é um ato criativo de Deus (bara), onde Ele concede um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Deus não reformula ou melhora o velho homem gerado em Adão, antes, Ele faz tudo novo.

Quando Pedro falou ‘nos gerou de novo’, ele se incluiu na narrativa para demonstrar que, tanto ele quanto os cristãos foram de novo gerados. Este não é um privilégio restrito, antes todos os que creem são novamente criados.

É através da ressurreição de Cristo que Deus concede nova vida aos que crêem. Pela ressurreição de Cristo, o primogênito dentre os mortos, os homens nascidos sob a condenação de Adão também ressurgem para a glória de Deus e passam a condição de filhos de Deus, e Cristo assume a posição sublime de primogênito entre muitos irmãos.

Assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos e ascendeu aos céus, os cristãos ressurgem com Cristo e assentam se nas regiões celestiais em Cristo. O mesmo poder que agiu em Cristo ressuscitando-O dentre os mortos é que opera a ressurreição dos que são alcançados pela misericórdia de Deus ( Ef 1:19 -20).

A viva esperança do crente é uma herança incorruptível e incontaminável, que não está guardada neste mundo, antes está guardada nos céus. A herança diz de bênçãos, do mesmo modo que Paulo agradece a Deus por todas as bênçãos concedidas por Deus ( 1Pe 3:9 ; Ef 1:3 ).

Ora, o que guarda o cristão para salvação é o poder de Deus, da qual o homem torna-se participante pela fé. Não é a confiança do homem que o salva ou que o sustem (guarda), antes é o poder de Deus que preserva o homem na salvação recebida.

Qual a virtude ou, qual o poder de Deus para salvação?

O poder de Deus para salvação é o evangelho de Cristo, como lemos em Romanos “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ; 1Co 1:18 ).

Basta descansar (crer) em Deus que os cristãos são escondidos (guardado) através do seu poder para salvação que será manifesta muito em breve a todos. Revelar, tornar conhecido a todos os homens o retorno de Cristo (V. 5).

O poder de Deus que preserva os que creem da contaminação deste mundo é o evangelho da graça.

 

6 Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, 7 Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo; 8 Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso; 9 Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

A alegria do cristão é proveniente das coisas pertinentes à salvação. Este deve ser o contentamento e a exultação do cristão, a salvação.

Há quem exulte por expulsar demônios ou quando opera algum milagre, porém, o alerta solene de Jesus é: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Lc 10:20 ).

Esta recomendação de Jesus e do apóstolo Pedro é para que os cristãos não caiam no engodo do diabo e sejam levados pelos falsos profetas que fazem inúmeros milagres ( Mt 7:22 ).

A alegria pela salvação também se faz acompanhar de aflições. As aflições e as tentações contristam os seguidores de Cristo, mas estas coisas não são para comparar com a glória futura “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” ( Mt 5:12 ).

No verso sete, Pedro aborda a questão da perseverança e compara a fé com o processo de purificação do ouro.

A fé comparada com o ouro é muito mais preciosa. O ouro que segundo a concepção dos homens é um material nobre e que resiste ao tempo, porém, mesmo após ter sido provado pelo fogo continua sendo perecível.

A fé dos cristãos, quanto mais provada, redundará em louvor, honra e glória quando da volta de Cristo. Quanto maior as provações, ficará demonstrado quão grande é o valor da nossa fé, a fé que uma vez foi entregue aos santos (Judas 3).

Pedro demonstra quão maravilhoso é o evangelho, visto que ele apresenta aos cristãos Cristo crucificado, mas, mesmo não tendo visto a Cristo em carne, ou ressurreto, foram conquistados pelo seu amor.

Embora os cristãos não vejam a Cristo agora, o amam crendo, e sentem as suas vidas inundadas por uma alegria inefável e gloriosa. A alegria de Deus é proveniente da paz estabelecida entre Deus e os homens.

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho, a fé que foi entregue aos cristãos. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

10 Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, 11 Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. 12 Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 13 Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo;

Pedro apresenta um fato curioso acerca dos profetas do Antigo Testamento. Eles inquiriram diligentemente acerca de Cristo, a salvação que seria manifesta aos homens.

Os profetas perguntavam sobre a salvação que haveria de ser relevada, e eram diligentes quando profetizavam acerca de Cristo. Eles queriam saber os tempos que Deus estabeleceu pelo seu poder.

O Espírito de Cristo concediam aos profetas mensagens acerca da vinda do Messias e dos seus sofrimentos, porém, a época em que estes eventos se dariam não lhes era revelado.

Ora, segundo a onisciência de Deus Pai os eventos futuros eram revelados aos profetas, mas o fato de Deus conceder de antemão a revelação de eventos futuros (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) não interfere nas decisões dos homens (v. 11). Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas  “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

É pela onisciência que Deus antecipou aos seus profetas os eventos futuros, porém, a salvação não é determinada com base na ideia equivocada de ‘presciência’ como ‘saber de antemão’, antes a salvação é na santificação através da obediência ao evangelho, que é a fé entregue aos santos ( Jd 1:3).

Os profetas tinham conhecimento que falavam de coisas grandiosas para outros, e que as suas mensagens não diziam respeito a eles. Pedro quer que os cristãos tenham na memória que os profetas não profetizam acerca de bens para eles mesmos, antes, que eles (profetas) conheciam plenamente que outros seriam favorecidos pela graça de Deus.

Os profetas testificavam acerca de Cristo, e os apóstolos agora, pelo Espírito Santo anunciavam o evangelho. Ou seja, a mensagem anunciada aos cristãos era a mesma anunciada pelos profetas e que lhes aguçava a curiosidade para saber a respeito da salvação que hoje é revelada.

Muitos entendem que os anjos desejaram pregar o evangelho aos homens, porém, Pedro estava demonstrando que a mesma curiosidade pertinente aos profetas, também era pertinente aos cristãos. Do mesmo modo que os profetas inquiriram diligentemente, os anjos também desejaram compreender (v. 12b).

As coisas que os anjos desejaram atentar não foi desejo de anunciar as boas novas do evangelho, antes desejaram compreender a multiforme sabedoria de Deus, que até antes do advento da igreja era um mistério aos principados e potestades celestiais ( Ef 3:10 ).

Ora, se os anjos desejaram compreender as grandezas do evangelho, e os profetas inquirira diligentemente acerca da salvação, coisa que não estava reservada a eles, chega-se a seguinte conclusão: “Portanto,…” ( 1Pe 1:13 ).

Se os anjos desejaram compreender e os profetas inquiriram acerca dos tempos, o que resta aos que estão sendo beneficiados pela salvação revelada é cingir os lombos do entendimento. A recomendação de Pedro é para que os cristãos tenham uma compreensão apurada acerca das riquezas de Deus apresentada no evangelho.

Quando os cristãos ajustam bem a sua compreensão acerca do evangelho, deixando de lado as dúvidas e especulações, ele passa a esperar inteiramente na graça oferecida. Sobre a compreensão dos cristãos o apóstolo Paulo orou a Deus pelos cristãos em Éfeso: “Oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

A compreensão acerca das verdades eternas deve ser a temática da vida cristã, pois o cristão só consegue crescer na graça e conhecimento de Cristo. Não há crescimento espiritual, pois o homem espiritual é perfeito diante de Deus. Muitos apregoam crescimento espiritual, mas os cristãos já são criados idôneos, ou seja, já pode participar da herança dos santos em Deus ( Cl 1:12 ).

O que é preciso àqueles que creram na mensagem do evangelho? Falta somente transformarem-se através da renovação do entendimento. O que era pertinente a velha natureza, o cristãos deve lançar fora, para viver segundo o conhecimento de Cristo ( Rm 12:2 ).

Do mesmo modo que Paulo agradece a Deus pelas bênçãos alcançadas do verso 3 ao 14 da carta aos Efésios, e ora a Deus para conceder aos cristãos o que lhes faltava (conhecimento) ( Ef 1:18 ), Pedro recomenda os cristãos a ajustar a compreensão acerca do conhecimento revelado.

Jesus alertou na parábola da semente que a compreensão é essencial a salvação, pois a ação nefasta do inimigo do homem é arrancar a semente dos corações que não compreendem “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no coração” ( Mt 13:19 ).

É por isso que o escritor aos Hebreus recomenda os cristãos atentarem diligentemente para as coisas que já ouviram, para que em tempo algum (bonança ou perseguição) se desviem ( Hb 2:1 ).

Pedro recomenda a sobriedade, pois ela é essencial à vigilância, principalmente àqueles que aguardam a revelação de Cristo Jesus, o Senhor ( 1Ts 5:6 ).

 

14 Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; 15 Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 16 Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. 17 E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, 18 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, 19 Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,

O comportamento dos cristãos deve ser conforme o comportamento de filhos obedientes. Quando obedeceram a fora de doutrina que foi entregue no evangelho, crendo, os cristãos receberam poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Agora, de posse desta nova condição: filhos do Deus vivo, também devem viver como filhos obedientes. Ora, não é o comportamento dos cristãos que os faz filhos de Deus, e nem o comportamento diário que os mantém na condição de filhos.

Antes, os cristãos são filhos porque obedeceram ao mandamento que diz: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do eu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 2:23 ). Crer é o mesmo que obedecer a Deus!

Porém, apesar de não ser o comportamento que faz o homem filho de Deus, antes o ser de novo gerado segundo o poder do evangelho, agora que se é filho, os cristãos não devem se conformar com as concupiscências que antes tinham na ignorância.

Os desejos são pertinentes ao homem. Desde o Éden a concupiscência acompanhava o homem ( Gn 3:6 ). Percebe-se que a concupiscência não é o pecado, porém, os desejos do novo homem não devem ser conforme os desejos dos homens que ainda vivem na ignorância.

Se o homem foi alcançado pelo conhecimento do evangelho, que o liberta das trevas da ignorância, deve agora pensar nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado a destra de Deus. Deve aguardar inteiramente na graça que a revelação de Cristo oferece (v. 13).

Os desejos são pertinentes a esta vida, e todos que se deixam levar pelas concupiscências da carne, dos olhos e pela soberba da vida é por que não são sóbrios (vigilantes). Pedro quer demonstrar que a concupiscência gera tentação “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência, depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Os cristãos devem pautar os seus desejos segundo o amor não fingido, pois os desejos segundo a concupiscência dos homens não é pertinente àqueles que foram iluminados pela luz do evangelho “Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus” ( 1Pe 4:2 ).

Mas, como é Santo Àquele que chamou os cristãos à sua misericórdia, os cristãos também deveriam ser santos em todo o procedimento.

Observe que o comportamento dos cristãos é uma recomendação do apóstolo, e não uma imposição de Deus. Deus é santo porque a ninguém oprime, ou seja, ele não obriga nenhuma de suas criaturas a servi-lo “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

Ele é santo e por isso chama, convida, oferece aos homens salvação. A santidade de Deus não impõe aos homens a sua vontade. Ele não predestina ninguém à salvação ou à perdição.

O cristão é santo porque foi criado de novo participante da natureza de Deus. Não é o comportamento do cristão que o mantém separado dos pecadores, pois há muitos pecadores que tem uma vida regrada, e não são santos (separado para uso exclusivo de Deus).

Mas, como Deus é santo e chamou o homem à santidade, é de bom alvitre que os cristãos mantenham-se separados também do comportamento dos ímpios pecadores ( 1Pe 1:15 ).

Ora, Pedro não faz esta recomendação por acaso, visto que está escrito: “Sede santos, porque eu sou santo” ( 1Pe 1:16 ). Ora, o versículo não recomenda aos homens que se santifiquem, pois isto é impossível aos homens. Antes o versículo expressa a vontade de Deus, pois é através da oferta do corpo de Cristo que o homem é santificado ( Hb 10:10 ).

Ora, quando Deus diz: ‘Sede santo’, temos a sua vontade (querer), e o seu efetuar através da sua palavra (Sede) “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” ( Fl 2:13 ). ‘Sede’ não é uma ordem, antes expressa a vontade de um Deus que trabalha para aqueles que nele esperam.

Este verso apresenta a mesma vontade de Deus a Abraão, ‘anda na minha presença e sê perfeito’ ( Gn 17:1 ). Ora, ser perfeito não é a condição para se andar na presença de Deus, mas ao andar na presença de Deus, o homem é perfeito, visto que ele justifica todos os que nele esperam como foi justificado Abraão pela fé.

Deus não exige perfeição do homem, antes é na sua vontade que o homem é aperfeiçoado “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ). O homem só é santo porque Deus o separou dos demais para ser santos ( Lv 20:26 ).

Pedro chama os seus interlocutores ao raciocínio. Se os cristãos invocam por Pai um Deus que não faz acepção de pessoas, ou seja, um Deus que julgará e retribuirá a cada um segundo as suas obras, deve entender que, se Deus punirá os ímpios pelas suas más ações, também será censurando pelo mal ou bem que houver feito ( 2Co 5:10 ).

Ora, os seus filhos precisam compreender que, o comportamento não é para salvação, visto que a salvação é em Cristo, porém, assim como os ímpios serão julgados segundo as suas obras, os justos também serão.

Quem cinge os lombos do entendimento compreendem que Deus não faz acepção de pessoas; que não foi com coisas corruptíveis que foram salvos; que o sangue de Cristo é precioso, o cordeiro de Deus sem mácula.

Pedro convoca os cristãos à sobriedade, para que não andassem segundo a vaidade dos pensamentos, entenebrecidos no entendimento ( Ef 4:17 -18), mas que servissem ao Senhor não fazendo uso do que é pertinente ao velho homem, que já foi crucificado e sepultado co Cristo ( Cl 3:8 -10).

 

20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; 21 E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;

Pedro compara o sangue de Cristo como sendo o de um cordeiro sem mancha ou mácula, ou seja, perfeito ( 1Pe 1:19 ).

Ora, Cristo foi ‘conhecido’ do Pai antes da fundação do mundo (na eternidade). Em ‘outro tempo’, ou seja, um tempo específico que não é conforme o tempo dos homens.

Mas, o que é ter sido ‘conhecido’ antes da fundação do mundo? Que tipo de ‘conhecer’ é este apontado pelo apóstolo Pedro?

É ‘conhecido’ de Deus aquele que o ama “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ). Jesus também falou acerca de ter sido conhecido do Pai, pois o Pai O amou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 ).

Compare:

a) “… porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 );
b) “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo…” ( 1Pe 1:20 ).

Antes de haver mundo, Cristo e o Pai estavam unidos em amor, que é o vínculo da perfeição, ou seja, Cristo é conhecido do Pai antes mesmo de ser introduzido no mundo como Filho amado.

Ser conhecido de Deus é estar em Deus e Deus em nós. O homem em Deus é surpreendente, porém, Deus nos homens é maravilhoso!

Ser ‘conhecido’ de Deus é uma forma específica de fazer referência a divindade de Cristo. É fazer dos homens e as pessoas da divindade um só “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), e “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade…” ( Jo 17:21 -23).

Ora, o mundo não conheceu a Cristo porque não amou a Deus, mas Cristo conheceu a Deus, pois sempre estiveram unidos em amor. O ‘conhecer’ de Deus é compartilhar da mesma natureza, e os anjos, apesar de maior em poder e glória, jamais serão conhecidos do mesmo modo que os que creem conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos dele ( Gl 4:8 -9).

Observe que Cristo foi conhecido de Deus e revelado aos homens. Os anjos não conheceram a Cristo como o Verbo encarnado na eternidade, mas viram o Unigênito de Deus que foi revelado aos homens “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ).

Os anjos ficaram maravilhados quando viram que Deus se manifestou aos homens em carne, o Verbo Eterno encarnado. Foi lhes revelado a multiforme sabedoria quando viram que todos que creem tornam-se semelhantes a Cristo, pois são novamente criados em verdadeira justiça e santidade segundo o poder contido no evangelho.

A palavra grega ‘proginosko’ (conhecer) usada em At 26:5 ; Rm 8:29 ; Rm 11:2 ; 1Pe 1:20 e 2Pe 3:17 não é idêntica à palavra grega ‘prognosis’, usada em At 2:23 e 1Pe 1:2 , mesmo sendo correlatas. ‘Presciência’ não é um dos aspectos da ‘onisciência’, atributo de Deus relacionado ao conhecimento que ele tem de todas as coisas em todos os tempos (eternidade e o tempo dos homens: passado, presente e futuro).

Ao unirem-se (conhecer) o homem e a mulher, tornam-se uma só carne, mas o mistério eterno revela-se na igreja, quando o cristãos torna-se membro do corpo de Cristo ( Ef 5:30 -32).

Cristo foi manifesto aos homens para que eles pudessem crer em Deus. Como? Ora, a mensagem do evangelho demonstra que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pelo poder de Deus, e que ele recebeu glória e poder, fato que dá garantias, àqueles que com medo da morte eram servos do pecado, de que basta confiar em Deus que será livre do medo e da servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

Cristo foi manifesto porque Deus amou o mundo de tal maneira (v. 20), e deu o seu Filho (que foi morto e ressurgiu), para que, por intermédio de Cristo, exemplo de fé (autor e consumador), os homens também passem a crer em Deus (v. 21).

Ora, a fé está em Deus, que zela pela sua palavra para cumpri-la, e a esperança do homem também, pois espera inteiramente na salvação que a revelação de Cristo oferece gratuitamente.

Ora, mediante a fé os cristãos estão guardados na virtude (fidelidade) de Deus. A palavra do evangelho é a fé que um dia foi dada aos santos (Judas 3), e por meio dela o cristãos é preservado, esperando inteiramente na graça oferecida.

Esperar em Deus é fé, porém, a palavra do evangelho também é designada fé. A fé que o homem deposita em Deus equivale a esperança, e a fé que foi entregue aos santos (evangelho) é o mesmo que ‘esperança proposta’ ( 1Pe 1:5 ; 13 e 21). Deste modo temos uma esperança proposta, que é designada evangelho ou fé, e quem tem esta esperança em Deus, exerce ‘fé’ (esperança) em Deus.

Os calvinistas e arminisnistas causam um grande prejuízo à compreensão da verdade do evangelho porque não conseguem distinguir que o evangelho é o mesmo que a esperança proposta. Que o evangelho é a fé que uma vez foi dada aos santos.

Caso conseguissem distinguir que o evangelho, a esperança proposta e a fé dada aos santos são coisas provenientes de Deus, veriam também que crer na mensagem do evangelho, ter fé em Deus é o mesmo que esperar inteiramente na esperança proposta.

 

22 Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; 23 Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. 24 Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; 25 Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.

Os versos 22 e 23 são equivalentes, ou seja, expressam dois eventos provenientes da mensagem do evangelho.

Somente Deus gera de novo e purifica o homem. Somente Deus podia realizar o pedido do salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Somente Deus (Espírito) pode espargir água limpa (palavra) sobre os homens, concedendo-lhes um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 -27). O novo Nascimento somente ocorre por intermédio da água (semente incorruptível) e do Espírito (Deus) ( Jo 3:5 ).

Pedro demonstra que efetivamente os cristãos foram purificados quando creram na mensagem do evangelho (v. 22). ‘Obedecer à verdade’ é o mesmo que ‘cumprir o mandamento de Deus’ que é: “… que creiamos no nome do seu Filho…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente quando se crê (obedece) na mensagem do evangelho o Espírito Eterno digna-se em realizar a sua obra “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Deus purifica o homem completamente (livra do jugo) e o fardo que agora deve carregar por estar em Cristo é amar uns aos outros, segundo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ).

Antes, por ser descendente de Adão, o coração do homem era ‘enganoso’ e ‘incorrigível’, agora, por estar em Cristo, foi concedido um novo coração puro, sendo possível amar uns aos outros ardentemente com um coração puro ( Jr 17:9 ; Sl 51:10 ; 1Pe 1:22 ).

Observe a semelhança entre o verso 22 e o verso 2:

“…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus …” (v. 1);
“Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade…” (v. 22).

Pedro apresenta a doutrina da regeneração ou do novo nascimento.

Por que os cristãos foram de novo gerados? Porque todos os homens são gerados em Adão, de uma semente corruptível ( Jo 1:13 ). Após crer na mensagem do evangelho, os homens que foram gerados em Adão, agora são de novo gerados pela palavra de Deus.

A palavra de Deus é viva e permanece para sempre, e todos que são de novo gerados passam a viver para sempre com Deus.

Para demonstrar que todos os homens nascidos em Adão são perecíveis, Pedro cita uma passagem de Isaias: “Diz uma vos: Clama. E eu disse: Que hei de clamar? Todos os homens são como a erva, e toda a sua beleza como as flores co campo. Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra do nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 -8).

Observe que a citação de Pedro não é “ips literis”. Ele somente evidência a ideia do texto de Isaias, demonstrando que todos os homens nascidos da carne (toda carne) são comparados a erva. Toda a glória que o homem possui é comparável a flor da erva.

Para demonstra quão fugaz é a existência dos homens, Pedro somente arremata: “Secou-se a erva, e caiu a sua flor”. Ele não se ateve ao processo de degradação pertinente a existência do homem que culmina com os eu retorno ao pó da terra.

Já a palavra de Deus é completamente diferente: ela permanece para sempre, e os que por ela são de novo gerados subsistem eternamente.

Sobre esta verdade Jesus disse: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Ora, a planta que o Pai não plantou são os homens nascido em Adão e todos serão arrancados. Porém, aqueles que nascem da palavra de Deus, são plantação do Senhor, árvores de justiça “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

Ler mais

Os anjos desejaram pregar o evangelho?

Qual o significado de ‘atentar’ neste verso? Seria pregar, anunciar o evangelho? Não! O significado é compreender, entender, perscrutar, olhar para dentro, examinar, etc. O apóstolo Pedro estava demonstrando aos cristãos que a graça que lhes foi concedida é tão grandiosa que os profetas queriam saber o que seria tal graça. Que este mistério era tão grandioso que até os anjos desconheciam e desejaram compreender (atentar).


É quase um consenso a ideia que se propaga no meio evangélico, de que os anjos desejaram pregar o evangelho.

Tal ideia deriva de uma má leitura do verso 12, do capítulo 1 da primeira epístola do apóstolo Pedro que, por sua vez, induz a uma má interpretação. Observe:

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar ( 1Pd 1:12 ).

Para compreender este verso se faz necessário formular algumas perguntas ao texto e contexto do versículo, para depois analisar a questão concernente aos anjos e o evangelho.

Em primeiro lugar, é necessário saber o que foi revelado e a quem foi revelado? O que foi revelado refere-se à graça que foi concedida aos cristãos por estarem em Cristo e, a quem foi revelado, refere-se aos profetas do Antigo Testamento.

A graça que os profetas anunciaram não fora dada a eles, antes aos cristãos, e os profetas queriam saber qual seria o tempo, ou ocasião de tempo em que tais eventos aconteceriam.

E que evento seria este que os profetas anteviram e anunciaram de antemão (pré-ciência) pelo Espírito de Deus? Os sofrimentos de Cristo e a glória que se estabeleceria.

O que os profetas ministravam não pertencia a eles e, a mensagem que anunciaram é a mesma que os apóstolos de Cristo estavam anunciando aos homens: o evangelho, as boas novas do reino.

Os apóstolos são descritos como mensageiros de Deus que apregoavam o evangelho comissionados pelo Espírito de Deus.

E o que os apóstolos anunciavam? A mesma mensagem (coisas) que foram anunciadas pelos profetas.

  • Aos quais – profetas ( 1Pd 1:10 );
  • Foi revelado que – Sofrimento de Cristo e a glória que havia de seguir;
  • Não para si mesmos – A mensagem da profecia não era para os profetas e nem para o povo de Israel;
  • Mas para nós – A mensagem tinha em vista os cristãos;
  • Eles ministravam – Os profetas;
  • Estas coisas que agora vos foram anunciadas – A mensagem dos profetas e apóstolos;
  • Por aqueles que – Diz dos apóstolos;
  • Pelo Espírito Santo enviado do céu – O autor da mensagem;
  • Vos pregaram o evangelho – Os apóstolos
  • Para as quais coisas – Que coisas?
  • Os anjos desejam bem atentar – O que os anjos desejaram?

 

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pd 1:12 ).

Lendo o versículo novamente, o erro ocorre quando se relaciona as coisas que os anjos desejaram com a palavra evangelho, devido à proximidade entre as frases no versículo.

Porém, se o leitor for atento, perceberá que ‘as quais coisas’ que os anjos desejaram refere-se as coisas que os profetas indagavam ao ministrar.

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pd 1:12 ).

Os anjos estavam interessados nas mesmas coisas que os profetas, ou seja, como seria a salvação dos homens, nos tempos, no sofrimento predito e na glória que haveria de seguir tais eventos.

Qual o significado de ‘atentar’ neste verso? Seria pregar, anunciar o evangelho? Não! O significado é compreender, entender, perscrutar, olhar para dentro, examinar, etc.

O apóstolo Pedro estava demonstrando aos cristãos que a graça que lhes foi concedida é tão grandiosa que os profetas queriam saber o que seria tal graça. Que este mistério era tão grandioso que até os anjos desconheciam e desejaram compreender (atentar).

O apóstolo Pedro não prossegue a carta destacando o anseio dos anjos, porém, o apóstolo Paulo esclarece os cristãos em Êfeso:

“A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor, no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” ( Ef 3:8 -12).

Do mesmo modo que o apóstolo Pedro, Paulo demonstra que a graça de anunciar o evangelho foi conferida a ele, um dos apóstolos.

E o que seria anunciar o evangelho? É o mesmo que divulgar as riquezas incompreensíveis de Cristo. É o mesmo que tornar compreensível o que era incompreensível. É demonstrar a quem quer que seja o conteúdo do mistério que estava oculto em Deus, que a tudo criou por intermédio de Cristo.

Como o segredo estava oculto em Deus, nem mesmo os seres angelicais tinham conhecimento do que Deus propusera em si mesmo (eterno propósito que fez em Cristo que a tudo criou).

O apóstolo Paulo estava radiante, visto que, agora, pela igreja, o mistério que encobria a multiforme sabedoria de Deus tornou-se conhecida pelos principados e potestades nos céus. O que eles desejaram atentar (compreender), somente através da igreja puderam compreender.

As coisas que os profetas anunciaram e, que agora estão sendo anunciadas a todos os homens, é o que produz fé nos homens, que após crerem tornam-se um com aquele que criou todas as coisas ( Ef 3:17 ).

Quando os cristãos se tornaram membros do corpo de Cristo, ou seja, a igreja do Deus vivo “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 ), o mistério foi revelado e puderam compreender (atentar) o que Deus propôs em Cristo: a preeminência d’Ele em todas as coisas.

Ler mais

Por que Deus permite o sofrimento dos Inocentes?

Devemos considerar que sobre a humanidade já pesa uma condenação, ou seja, não há como o homem questionar a justiça de Deus dizendo que Ele é tolerante com os injustos, ou que é complacente com atos injustos, visto que sobre todos os homens gerados de Adão pesa uma condenação. Todos os homens já nascem sob condenação! Observe que o Juízo de Deus já foi estabelecido em Adão quando ele pecou. O juízo já veio, ou seja, foi estabelecido por causa de uma só ofensa para condenação. Quando Adão pecou, ele trouxe juízo e condenação sobre os seus descendentes, conforme Rm 5:16 e 18.


Uma irmã questionou o motivo pela qual Deus não intervém em casos brutais, semelhante ao que ocorreu no Rio de Janeiro, no caso do menino João. Se Deus conhece todas as coisas e é justo, por que permite atrocidades?

“Por causa das muitas opressões os homens clamam por causa do braço dos grandes. Porém ninguém diz: Onde está Deus que me criou, que dá salmos durante a noite” (Jó 35:9 -10)

 

É certo que Deus conhece todas as coisas! É isto o que a Bíblia nos ensina. Deus, antes que qualquer evento ocorra, sabe o que há de vir! Daí o questionamento: Por que Deus permite que ocorra atrocidades, guerras, desastres, etc.?

A Bíblia nos dá a resposta:

1º Tudo o que o homem intentar ou programar fazer Deus permitirá que ocorra.

Da mesma forma que permitiu que Adão pecasse, Deus permitirá que os homens tracem livremente os seus próprios caminhos (Rm 1:28). É o que chamamos de livre- arbítrio.

Por que Deus permitiu que Adão pecasse? Porque ‘Onde o Espírito de Deus está, aí há liberdade’ ( 2Co 3:17 ), ou seja, no Éden, Deus concedeu plena liberdade a Adão, visto que podia comer livremente de todas as árvores do jardim ( Gn 3:16 ). Deus deu plena liberdade para Adão comer de todas as árvores do jardim, e garantiu livre acesso a todas as árvores, incluindo a árvore do conhecimento do bem e do mal.

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16 -17).

Com a liberdade concedida foi apresentado um aviso solene: no dia em que Adão comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, certamente haveria de morrer (Deus deu o motivo pelo qual não se deveria comer da árvore do conhecimento).

O conceito de morte apresentado no livro do Gênesis diverge do conceito do homem natural, que só pensa no termino das funções vitais do corpo.

Se para Deus vivem todos os homens, como podemos entender a morte como sendo uma pena?

O apóstolo Paulo esclarece o conceito de morte para Deus: Quem está morto para Deus é porque não é participante da natureza de Deus, ou seja, não tem comunhão com Aquele que é a vida. O homem morto para Deus adquiriu outra natureza e passou a viver para o pecado como escravo! Quem está morto para o pecado, passa da morte para vida, ou seja, vive para Deus ( Rm 6:11 )!

Abel era justo e, mesmo assim Deus permitiu que Caim matasse Abel. Deus foi injusto em permitir a morte de Abel? É o que descobriremos. Mesmo quando foi morto por Caim, para Deus Abel continuou vivo! ( Lc 20:38 ).

O apóstolo Paulo várias vezes fez referencia a antiga condição dos cristãos, quando ainda não conhecia a verdade do evangelho, de mortos. Com relação ao passado dos cristãos (Paulo fala de outro tempo), mesmo quando vivos, para Deus estavam mortos! ( Ef 2:5 ).

2º Deus poderia ter impedido o acesso de Adão à árvore do conhecimento do bem e do mal, mas, mesmo sabendo do intento do homem, Ele não interferiu.

Quando foi formado do pó da terra, o homem foi criado à imagem e semelhança do seu Criador. A imagem que o homem recebeu foi a mesma imagem e semelhança que Jesus havia de vir ao mundo.

A imagem dos homens foi concedida por Cristo, o último Adão. Como criador de todas as coisas, Cristo criou o homem segundo a imagem que havia de vir ao mundo, e assim compreendemos o motivo pelo qual o apóstolo Paulo disse que Adão era figura daquele que havia de vir ( Rm 5:14 ).

Deus é Espírito, e espíritos não tem forma. A forma que o homem recebeu foi concedida por Cristo, que a tudo criou “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3).

A semelhança que o homem alcançou do seu Criador refere-se ao domínio, ou seja, a livre vontade soberana dentro da sua esfera de atribuição. Deus deu ao homem o domínio sobre tudo na face da terra, e estabeleceu o tempo como garantia desta soberania ( Gn 1:26 ). Caso o homem queira concertar uma decisão que tenha tomado anteriormente, terá que tomar uma nova decisão. Nem mesmo o homem pode alterar as suas decisões, visto que por semelhança Deus não muda os seus desígnios.

Assim como Deus não volta atrás em seus intentos (Ele não volta atrás em sua vontade, pois é soberano), por semelhança as decisões do homem são soberanas, visto que, se o homem quiser alterar uma decisão, não conseguirá. Terá de tomar uma nova decisão para ‘consertar a anterior’.

(Observe que Satanás não quis ser Deus, visto que tal intento é impossível de ser alcançado pelas suas criaturas. Satanás reconhece que a posição de Deus é inatingível por suas criaturas ao chamá-lo de: o Altíssimo. Satanás almejou ser semelhante ao Criador ( Is 14:13 -14). Para alcançar o seu intento, Satanás calculou mal, visto que pensou que, para alcançar a semelhança do Altíssimo precisaria subir acima das estrelas de Deus (anjos). Porém, a semelhança não se alcança de moto próprio, visto que Deus desceu e deu a sua semelhança aos homens. Isto é comentário para outra oportunidade, visto que é um erro gravíssimo dizer que Satanás quis ser Deus, ou que intentou roubar a glória de Deus).

3º Muitos questionam a justiça de Deus quando uma criança morre, ou quando se vê crianças morrendo de fome, guerras, misérias, etc.

Mas, o que a Bíblia nos mostra?

Primeiro devemos considerar que sobre a humanidade já pesa uma condenação, ou seja, não há como o homem questionar a justiça de Deus dizendo que Ele é tolerante com os injustos, ou que é complacente com atos injustos, visto que sobre todos os homens gerados de Adão já pesa uma condenação. Todos os homens já nascem sob condenação, pois foram apenados com a morte, ou seja, foram destituídos da glória de Deus!

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23);

 

Observe que o Juízo de Deus já foi estabelecido em Adão por causa da ofensa. O juízo já veio, ou seja, já foi estabelecido por causa de uma só ofensa, e isto para condenação. Quando Adão pecou, ele trouxe juízo e condenação sobre os seus descendentes, conforme Rm 5:16 e 18.

(Obs.: Ao desobedecer, Adão foi julgado conforme a liberdade e o conhecimento oferecido. Após pecar, ele foi condenado e recebeu a pena estabelecida: morte! ( 1Co 15:22 ), e com ele toda a humanidade morreu (foi destituída da vida que há em Deus).

“Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para a condenação…” ( Rm 5:18 ).

Como questionar a justiça de Deus se todos já estão debaixo de condenação? Portanto, não é verdadeiro o ditado que diz: ‘A justiça de Deus tarda, mas não falha’. Como pode ser tardia a justiça de Deus, se todos os homens já nascem sob condenação?

(Outro erro é considerarmos que o juízo de Deus será estabelecido no futuro, na consumação de todas as coisas. Terrível engano! O juízo já foi estabelecido em Adão. O que se dará no futuro é o julgamento quanto as obras dos homens perdidos “Já está condenado” ( Jo 3:18 ). Se o homem sem Cristo já está condenado é porque o julgamento já se deu no passado da humanidade).

4º Deus não é tolerante com a injustiça, visto que, mesmo que os homens estejam sob condenação ou salvos, Ele estabeleceu dois tribunais para julgamento das ações dos homens no futuro.

a) O tribunal de Cristo será estabelecido para julgamento das ações dos salvos, e;

b) O Grande Trono Branco, será estabelecido para os perdidos, uma vez que Deus trará a juízo as ações de todos os homens, sem exceção.

Resumindo:

a) A humanidade já está sob condenação, ou seja, já foi julgada e apensada em Adão;
b) Deus recompensará a cada um segundo as suas obras, sem acepção de pessoas ( Rm 2:11 ) , e isto se dará no futuro: no Tribunal de Cristo ( Rm 14:10 e 2Co 5:10 ) e no Grande Trono Branco ( Ap 20:11 ). Observe que as referencias dizem das obras dos homens, salvos e não salvos respectivamente.

5º Todos os que creem em Cristo, estes morrem com ele, e ressurgem uma nova Criatura. Sobre eles não pesa mais a condenação de Adão, pois passaram da morte para a vida e vivem para Deus. Mas, mesmo vivendo para Deus, o novo homem ainda pode praticar más ações, porém, isto será alvo de julgamento no Tribunal de Cristo.

Assim poderemos entender o versículo seguinte:

“Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…” ( Rm 8:1 ).

Porque nenhuma? Se o apóstolo Paulo dissesse: ‘não há condenação’, entenderíamos que só era possível uma condenação aos homens. Mas, quando o apóstolo diz que ‘nenhuma condenação há’, é porque pesava sobre o homem mais que uma condenação:

1- A condenação de Adão, e;
2 – a condenação no Grande Trono Branco.

Hoje, em Cristo, o cristão está livre da condenação em Adão, e comparecerá ante o Tribunal de Cristo, para ser recompensado pelo que houver feito por meio do corpo, ou bem ou mal.

“Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

Por todos esses motivos apresentados não podemos questionar a justiça de Deus por questões circunstanciais como guerras, tragédias, calamidades, doenças, etc.

Deus é o oleiro e tem poder sobre o barro (homem) para de uma mesma massa fazer vasos com diferentes atribuições ( Rm 9:21 ).

Em Adão todos os vasos são criados para a desonra. Em função da carne e do sangue de Adão todos os homens nascem de uma semente corruptível, ou seja, são provenientes da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue, portanto, não são filhos de Deus. São vasos para desonra, visto que estão em um caminho que os conduz à perdição.

Mas, Deus suporta com paciência os vasos da ira, ou seja, os vasos da desobediência que surgiram em Adão, pois espera que todos venham ao conhecimento da verdade.

Os vasos para honra são criados em Cristo, o último Adão. Deus tem poder sobre o barro (os homens), para da mesma massa (carne de Adão) fazer vasos para honra, demonstrando que Ele é misericordioso. Ao fazer vasos para honra (ao qual somos nós Rm 9:24 ), Deus dá a conhecer a sua glória e misericórdia, revelando aos anjos a sua multiforme sabedoria, etc. ( Ef 3:10 ).

Em Adão são criados os vasos para desonra, e em Cristo os vasos para honra!

Por isso o apóstolo Paulo diz: “Quem és tu, que a Deus replicas?” ( Rm 9:20 ). Precisamos conhecer o conselho de nosso Deus, visto que o diabo lança as suas setas precisamente sobre as questões bíblicas que não compreendemos.

Deus permite o sofrimento porque deu o domínio da terra aos homens, e os seus dons são irrevogáveis (Gn 1:26). Caso Deus interviesse no dia a dia dos homens, certamente questionariam a liberdade concedida por Deus.

Os homens só se lembram de clamar a Deus, ou questionar os seus desígnios quando são afrontados ou quando lhes sobrevém algum mal, mas ninguém pergunta onde Deus está nos momentos de bonança (Jó 35:10).

Sim, Deus permite o sofrimento, para que o homem não saiba o que há de vir. Por isso deve considerar temer ao Senhor, que apesar de permitir o mal, há de pedir conta de tudo que o homem fizer.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

“O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” (Ec 3:15).

O Livro de Jó – A cilada de Satanás

O Livro de Jó – Transcendendo a problemática do sofrimento

Ler mais