Avivamento, de onde vem?

O ‘avivamento’ bíblico, no sentido de ‘realizar’, ‘implementar’, decorre do que Deus estabeleceu, por meio da sua palavra. À parte da palavra de Deus, não há obra e nem ‘avivamento’. Deus ‘avivou’ a sua obra, quando os filhos de Israel foram levados cativos para a Babilônia, cumprindo a sua palavra, anunciada pelos profetas, desde Moisés.


Introdução

Basta uma pesquisa na internet, para encontrar algumas definições de ‘avivamento’:

“Avivamento é o ato de se avivar, ou seja, de se tornar mais vivo, mais ativo, mais intenso, despertado e nítido”[1];

“Avivamento é, simplesmente, aquele momento, quando Deus se manifesta diretamente no meio dos homens; quando Ele ‘rasga os céus e desce’”[2].

Desde garoto ouço, nos púlpitos das igrejas evangélicas, pregações cujo tema é o ‘avivamento’. No decurso dos anos, presenciei inúmeras cruzadas, congressos, eventos, festividades, vigílias, que tiveram por tema a necessidade de um avivamento na igreja, porém, nada de significativo e duradouro se estabeleceu ao término desses eventos.

Muitos preletores congressistas citavam eventos históricos como fruto de um avivamento, tendo como ícones líderes cristãos da antiguidade, como o clérigo anglicano e teólogo cristão britânico John Wesley que, no século dezoito, supostamente, ajudou a Inglaterra a evitar uma revolução sangrenta, semelhante à revolução que dizimou a França; ou, a suposta diminuição de índices de criminalidade em algumas comunidades, como no país de Gales, em 1905, ou, ainda, no Zaire, em 1976, ou, Pensacola – Flórida (EUA), em 1995; a erradicação do trabalho infantil e da prostituição infantil, na Inglaterra, supostamente promovida pelo Exército da Salvação, liderado pelo William Booth, no século 19, etc.

Com o tempo, muitos ‘avivamentos’ passaram a ser denominados por ‘moveres espirituais’, sendo que tais movimentos caracterizaram-se pelo grande número de pessoas envolvidas e pela ocorrência de fenômenos considerados sobrenaturais, como: curas, revelações, profecias, danças, êxtase, etc., muitas vezes acompanhados por experiências sensoriais, como tremores, fraquezas, desmaios, etc. Tais fenômenos não se restringem às denominações evangélicas e neopentecostais, pois, também, ocorrem em meio a alguns seguimentos católicos, como a renovação carismática e a teologia da libertação; no hinduísmo, nas religiões orientais, com o crescente número de gurus, lamas e mestres; e no islamismo, com a proposta de expansão pelo continente europeu, etc.

A partir dos chamados ‘movimentos espirituais’, o que se constata é o surgimento de doutrinas e práticas diversas, como ‘cair no espirito’, ‘unção do riso’, ‘movimento profético’, ‘unção do paletó’, práticas e ensinamentos que não possuem respaldo bíblico.

Um crente em Cristo não deve nortear a sua crença, a partir de transcrições ou, de interpretações das experiências humanas ou, ainda, se apoiar em alguma experiência sensorial. O apóstolo Pedro viu o Cristo se transfigurar, quando estava no monte e ouviu uma voz dos céus, porém, a sua crença não estava apoiada no que viu e no que ouviu, mas, no que é firme: a palavra dos profetas, a qual todos devem estar atentos.

“Porquanto, ele recebeu de Deus Pai, honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido. E ouvimos essa voz, dirigida do céu, estando nós com Ele no monte santo; E temos mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça e a estrela da alva apareça em vossos corações” (2 Pe 1:17-19).

O cristão tem de se restringir a seguir somente o que está estabelecido nas Escrituras. Como não encontramos no Novo Testamento os apóstolos fazendo alusão a ‘avivamentos’ na Igreja de Cristo, faz-se necessário apreciar tais movimentos à luz das Escrituras.

Jesus não deu mandamento aos seus discípulos, para que aguardassem por um avivamento. A única ordem dada a seus seguidores, foi para ficarem em Jerusalém, até que do alto fossem revestidos de poder (At 1:4) e, após a descida do Espírito Santo, já não há o que se esperar, a não ser a volta de Cristo.

A Bíblia fala somente da necessidade de um novo nascimento e o nascimento, segundo o evangelho, é imprescindível a quem não crê em Cristo. Quem é nova criatura não necessita nascer de novo, pois há quem confunda o ‘novo nascimento’ com o que denominam de ‘avivamento’.

 

Aviva, ó Senhor!

Não adianta alguém gritar da tribuna: – ‘Aviva, ó Senhor, a tua Igreja’, pois não há suporte bíblico para tal petição.

Alguém dirá: – “Mas, Habacuque fez esse pedido a Deus” e apresentam esse versículo:

“Ouvi SENHOR a tua palavra e temi; aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia” (Hc 3:2).

Em primeiro lugar, temos que considerar que a oração de Habacuque pedindo a Deus para ‘avivar’ a sua obra não se refere à Igreja de Cristo, antes tinha por alvo a nação de Israel. Em segundo lugar, a petição do profeta Habacuque teve por base a revelação de que Deus iria punir os filhos de Israel, por causa da apostasia.

Que obra Deus haveria de realizar no transcorrer do tempo (no meio dos anos), que deixou o profeta perplexo? Deus levantaria os caldeus, um povo feroz, de língua desconhecida e de terras bem distantes, que guerrearia contra Israel e os levaria cativos (Hc 1:6-11).

“Vede entre os gentios,  olhai, maravilhai-vos e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada. Porque eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas” (Hc 1:5-6).

O profeta Habacuque via que os filhos de Israel eram homens ímpios e ele questiona por que Deus não agia (Hc 1:1-4). Mas, quando Deus respondeu, dizendo que traria a guerra sobre Israel e quando apontou para as nações gentílicas, dizendo que faria uma obra que ninguém acreditaria quando fosse anunciada (Hc 1:5), Habacuque ficou perplexo! O temor apoderou-se do profeta, por causa do que Deus haveria de fazer, tendo em vista que uma nação ímpia seria utilizada por Deus, como vara, para corrigir os filhos de Israel (Hc 1:12).

Então, Habacuque se postou como vigia, esperando uma resposta de Deus, pois ele não compreendia como Deus poderia tolerar um povo perverso (caldeus) devorar outro povo (judeus) que, a seu ver, era mais justo (Hc 1:12). Deus respondeu a Habacuque e garantiu que, depois de realizada a Sua obra, punindo os filhos de Israel, os caldeus não sairiam impunes das suas maldades, apesar de terem sido utilizados como vara de correção de Israel (Hb 2:6).

Ao ficar a par do que Deus faria com o seu povo, o profeta Habacuque ora ao Senhor, dizendo: – ‘Ouvi Senhor as tuas palavras e estou alarmado’! Apesar de saber o que haveria de ocorrer com os filhos de Jacó, Habacuque clama: – ‘Aviva, ó Senhor, a tua obra’!

Que obra Deus haveria de ‘avivar’? A obra que Ele prometeu realizar no capítulo 1 do Livro de Habacuque:

“Vede entre os gentios, olhai, maravilhai-vos e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” (Hb 1:5).

Essa obra seria executada nos dias dos filhos de Israel e não nos dias da Igreja.

Ao dizer: ‘Aviva’, Habacuque estava dizendo: ‘execute’, ‘implemente’, ‘realize’, a sua obra, ó Senhor! A oração de Habacuque é transcrita na forma de cântico e contém, em si, alguns elementos pertinentes à poesia hebraica. Através do paralelismo sinônimo, que é próprio à poesia hebraica, depreendemos da segunda linha do poema a ideia expressa na linha anterior, porém, com palavras diferentes:

Aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos,

no meio dos anos, faze-a conhecida

O termo hebraico חיה transliterado ‘chayah’, comumente traduzido por ‘viver, ter vida, permanecer vivo, sustentar a vida, viver prosperamente, viver para sempre, reviver, estar vivo, ter a vida ou, a saúde recuperada’, procede de outra palavra hebraica primitiva חוה, também, transliterada ‘chavah’, que significa ‘contar, declarar, mostrar, tornar conhecido’. Assim, por ‘avivar’, Habacuque estava dizendo: ‘torna conhecida, mostra, declara, realiza, conta a sua obra’. No contexto, ‘avivar’, é Deus ‘fazer conhecida’ a obra que prometeu!

Certo de que Deus haveria de enviar os caldeus para combater contra Israel, o profeta Habacuque roga a misericórdia de Deus. Se o ‘avivar’ da obra de Deus fosse uma benesse para os filhos de Israel, o profeta não rogaria por misericórdia. Ele rogou por misericórdia, porque visualizou a ira de Deus:

“… na tua ira lembra-te da misericórdia” (Hc 3:2).

A obra anunciada a Habacuque, Deus a realizou quando a Babilônia, através de Nabucodonosor II, invadiu, destruiu Jerusalém e levou os filhos de Israel cativos. A primeira deportação teve início em 609 a.C. e os filhos de Israel foram feitos escravos dos seus inimigos.

O alerta no Livro de Habacuque aplica-se aos judeus, tanto que o apóstolo Paulo, ao pregar, num sábado, na sinagoga de Antioquia, na Pisídia, citou um verso do livro de Habacuque, após demonstrar que Jesus é o Cristo, alertando-os, caso não cressem em Cristo:

“E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê. Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” (At 13:39-41).

Diante disso, caberia se perguntar se o Livro de Habacuque teria alguma aplicação prática para a Igreja de Cristo? A resposta é – sim, como todas as Escrituras, conforme o exposto pelo apóstolo Paulo:

“E estas coisas nos foram feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram (…) Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Co 10:6 e 11);

“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir e para instruir em justiça” (2 Tm 3:16).

O ‘avivamento’ bíblico, no sentido de ‘realizar’, ‘implementar’, decorre do que Deus estabeleceu, por meio da sua palavra. À parte da palavra de Deus, não há obra e nem ‘avivamento’.

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando os filhos de Israel foram levados cativos para a Babilônia, cumprindo a sua palavra, anunciada pelos profetas, desde Moisés:

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás” (Dt 28:49).

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando enviou o Cristo ao mundo, cumprindo o que prometera a Abraão e a Davi: um descendente em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

“E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3; Gl 3:16);

“Quando teus dias forem completos e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens e com açoites de filhos de homens” (2 Sm 7:12-14).

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando Cristo passou a ser anunciado a todas as gentes, com a descida do Espírito Santo, pois se cumpriu a palavra anunciada por Joel: o espírito de Deus foi derramado como orvalho sobre toda carne, pois toda carne é como a flor da erva (Dt 32:2; Is 40:6).

“Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E, nos últimos dias, acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos terão sonhos; E, também, do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas, naqueles dias, e profetizarão; E farei aparecer prodígios em cima, no céu; E sinais embaixo, na terra, Sangue, fogo e vapor de fumo” (At 2:16-19).

No dia do Pentecostes, uma festa judaica, houve a descida do Espírito Santo, o Consolador, e também o conhecimento (espírito) do Senhor foi anunciado (derramado) a todas as gentes, que estavam em Jerusalém, pois cada um ouviu em suas próprias línguas nativas as grandezas de Deus.

O espírito do Senhor derramado sobre toda carne é o mesmo que a doutrina de Deus, sendo gotejada como a chuva sobre a erva, pois toda carne é como a erva e o evangelho anunciado é o espírito derramado sobre toda carne (1 Pe 1:24; Is 40:6).

Cristo ‘avivou’ a sua obra, quando enviou o Consolador, cinquenta dias (Pentecostes) após a sua assunção aos céus (Jo 16:7). Cristo ‘avivará’ a sua obra quando vier para arrebatar a sua Igreja, conforme o que prometera (At 1:11).

 

A Igreja de Cristo

 

Há quem proclame que Deus quer dar um ‘avivamento’para a Sua Igreja hoje, porém, o apóstolo Pedro deixou registrado que Deus já concedeu tudo o que diz respeito à vida e piedade:

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (2 Pe 1:3).

O apóstolo Paulo afirma que nenhum dom falta à Sua Igreja, pois os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais:

“De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1:7);

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1:3).

Muitos preletores, ‘avivalistas’, chegam a afirmar que é necessário um avivamento, quando a igreja está fraca, prestes a morrer.

“Avivamento é o Espírito Santo enchendo um corpo prestes a tornar-se um cadáver.” – D. M. Panton;

“Um avivamento espiritual sugere a ideia de que houve, antes, um declínio espiritual.” – Charles Finney;

Tais posicionamentos são temerários, com relação à Igreja de Cristo, pois não há, na Bíblia, qualquer suporte que dê sustentabilidade à ideia de que a Igreja, como corpo de Cristo, necessite de avivamento hoje, ou, até à volta de Cristo. Como é possível a Igreja necessitar de avivamento, se Cristo prometeu estar com os que crêem, todos os dias até à consumação de todas as coisas?

“Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco, todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém” (Mt 28:20).

São estarrecedoras algumas frases que procuram promover a necessidade de movimentos avivalísticos. De que corpo o Dr. Panton está falando? Como é possível o corpo de Cristo, que é a sua Igreja, estar prestes a se tornar um cadáver? Qual o sentido da palavra ‘encher’, aplicada à pessoa do Espírito Santo, por Panton? O que é um declínio espiritual, segundo a concepção de Finney?

Das asserções acima, tenho que concluir que Panton não está falando da Igreja, como o corpo de Cristo, pois é impossível o corpo de Cristo definhar, quando tem por cabeça o Salvador do corpo – Cristo. Se a Igreja chegar a definhar, o problema deriva da cabeça e não do corpo. É infeliz a ideia de considerar que o corpo de Cristo precisa de uma intervenção do Espírito Santo, por estar ‘prestes a tornar-se um cadáver’. A vida da Igreja decorre de Cristo e o Espírito Santo é o guia de cada membro, em particular, à verdade (Jo 16:13).

Quando falamos da Igreja de Cristo, jamais podemos entender que ela sofra declínio ‘espiritual’, vez que Deus, como agricultor, poda aqueles ramos que dão frutos para que deem mais fruto e corta fora os que não dão frutos. Aqueles que pertencem ao mundo é que declinam, pois vão de mal a pior, enganando e sendo enganados (2 Tm 3:13).

Por avivamento[3], os avivalistas entendem que se trata de Deus conceder ‘nova vida em um corpo que já está morrendo’. É possível aos membros do corpo de Cristo estarem quase deixando de ser sal e luz da terra? Se assim é, não é o caso de Deus os lançarem fora, para serem pisados? Se alguém é membro de Cristo, também, é sal e luz do mundo, portanto, se alguém deixa de ser sal e luz do mundo é porque não está mais ligado a Cristo, a videira verdadeira.

A maior estratégia de Satanás é enganar os cristãos, fazendo com que acreditem que não estão de posse das bênçãos prometidas por Deus. Embora de posse de todas as bênçãos espirituais, de modo que nenhum dom lhes falte, rogos e cânticos proliferam em meio aos cristãos, com a seguinte mensagem:

“Envie o fogo

Olhe para baixo e veja esta multidão esperando.

Dê-nos o prometido Espírito Santo

Queremos um novo Pentecostes”[4]

Os discípulos foram instruídos a deixarem de olhar para o alto, pois o que se espera do céu é que o mesmo Jesus, assim como subiu, há de vir (At 1:11). O que devemos esperar é a volta de Cristo, pois a promessa do Espírito Santo já foi cumprida e não haverá uma nova ‘descida’ do Espírito Santo (novo Pentecostes). Os dons de Deus são irrevogáveis! O apóstolo Pedro disserta, dizendo que nenhum dom falta àqueles que estão em Cristo (1 Co 1:7), pois, foram abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef 1:3).

“Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (Tt 2:13).

Como carece de suporte bíblico, não raras vezes, um avivalista lançará mão da Bíblia para dar suporte à sua doutrina. O Pr. Paul David Cull, conforme consta do portal ‘www.avivamentoja.com’, cita Malaquias 3, versos 1 a 5 e dá a seguinte explicação:

“Neste trecho em Malaquias capítulo 3 nós temos uma profecia sobre a visitação divina – uma profecia que se cumpriu com a primeira vinda de Jesus, que se cumprirá na Sua segunda vinda, mas que também se cumpre nas “vindas” do Senhor através do Seu Espírito (João 14:16 e 18). Estas “vindas” ou derramamentos do Espírito Santo, são chamados de renovação, despertamento, avivamento etc… Podemos ver neste trecho em Malaquias as fases destas visitações do Espírito Santo”. Pr. Paul David Cull<http://www.avivamentoja.com/pmwiki.php?n=Avivamento.Fases> Consulta realizada em 17/05/17.

De onde surgiram essas vindas entre aspas? Onde elas estão previstas nas Escrituras e os tais derramamentos do Espírito? Jesus deixou claro que chamava os seus discípulos de amigos (servos ladinos), por eles terem sido informados de tudo, portanto, é de se estranhar que Ele não dissesse de outras vidas!

“Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai, vos tenho feito conhecer” (Jo 15:15).

Para embasar a sua fala, o Pr. Paul cita João 14, verso 16, em que Jesus garante que o Espirito Santo haveria de ser enviado e permaneceria com a Igreja para sempre “E eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14:16).

Ao apresentar algumas frases para o avivamento, com base em Malaquias 3, o Pr. Paul afirma que, antes de um avivamento, há uma voz, e cita a profecia que predisse a vinda do mensageiro do Senhor, João Batista (Mt 3:3; Ml 3:1). No entanto, quando João Batista veio, ele não apregoou uma mensagem avivalística, mas, sim, uma mudança de concepção (arrependimento).

Os judeus, ante à mensagem de João Batista, que anunciava a chegada do reino dos céus, deviam abandonar as suas crenças, de que eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão e crerem em Cristo, como o enviado de Deus.

Em seguida, o Pr. Paul aponta homens como Evan Roberts no País de Gales, Frank Bartleman na Rua Azusa, Peggy e Christine Smith (de 84 e 82 anos de idade) nas Ilhas Hébridas, etc., como se desempenhassem o mesmo papel que João Batista. João Batista foi o precursor de Cristo e depois dele jamais haverá outro, pois não há previsão bíblica para tal.

O Senhor que os filhos de Israel buscavam (indagavam), diz do Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel: a Rocha de Israel (Dt 32:20; Is 8:17). De repente, ao seu tempo, viria o Senhor e Cristo veio na plenitude dos tempos, cumprindo-se, cabalmente, a profecia, portanto, não se deve esperar por um ‘avivamento’, tendo por base essa passagem de Malaquias.

Observe o que alguns líderes[5] dizem, acerca do avivamento:

“Mesmo tendo um teor místico muito acentuado, reavivamento é muito mais que isso. É o motor de coisas novas, de realizações extraordinárias e de certa duração, na área da educação religiosa, na área de evangelização e missões, na área de socorro ao sofrimento humano. Forçosamente, o reavivamento sempre gera preocupação com os não-salvos, pela graça de Deus e com os moralmente marginalizados. A história dos reavivamentos mostra que este sopro do Espírito induz os crentes a fazerem obras de caridade e a levantar a sua voz contra a injustiça social, seja ela qual for e custe o preço que custar” (Entrevistas com Ashbel Green Simonton, p. 107.)

“Reavivamento é uma visitação inteiramente sobrenatural do Espírito soberano de Deus, pela qual uma comunidade inteira toma consciência de sua santa presença e é surpreendida por ela. Os inconversos se convencem do pecado, arrependem-se e clamam a Deus por misericórdia, geralmente em números enormes e sem qualquer intervenção humana. Os desviados são restaurados. Os indecisos são revigorados. E todo o povo de Deus, inundado de um profundo senso de majestade divina, manifesta em suas vidas o multifacetado fruto do Espírito, dedicando-se às boas obras.” John Stott, A Verdade do Evangelho, p. 119.

Dentre muitos comentários que há acerca do avivamento, pois não há um consenso sobre o que é ‘avivamento’, percebe-se que tal pensamento não possui relação com a Igreja, o corpo de Cristo, do qual são membros todos quantos creem que Jesus é o Cristo segundo as Escrituras.

O que entendem por avivamento, geralmente está atrelado a uma igreja local, comunidade, ajuntamento, assembleia, instituição, etc., e tais avivamentos se mostram um movimento local conduzido sob a liderança de uma pessoa, e geralmente, se evidencia em um congresso, festividade, evangelismo, etc. Se tais avivamentos se dão em igrejas locais, isso significa que não possui relação com a Igreja de Cristo, que é universal.

A ideia de que o avivamento está atrelado a profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e morais, geralmente decorre de uma liderança politica que se diz cristã e que impõe os seus valores à sociedade. Eventos históricos que pontuam a intervenção de alguns cristãos, que proporcionaram mudanças sociais, como o fim de regimes escravocratas ou uma luta pelo fim da cobrança de juros exorbitantes, etc., não pode ser tido como base para afirmar um avivamento.

Por que não? Porque Jesus deixou claro que os pobres sempre existiriam, ou seja, Jesus não veio transformar as condições socioeconômicas da humanidade (Mt 26:11; Dt 15:11). O apóstolo Paulo, em momento algum, emitiu juízo de valor aos meios de produção da sua sociedade, que era escravagista, o que demonstra que quem levanta tais bandeiras não é por ação sobrenatural de Deus.

Na Bíblia, não encontramos nenhuma alusão ao avivamento do corpo de Cristo, antes, há uma única referência às sete cartas enviadas aos anjos das igrejas locais, que estavam na Ásia, quando Jesus instrui, exorta, repreende e consola os líderes daquelas sete igrejas (Ap 2:1 a 3:22).

Nas cartas de João às sete igrejas da Ásia, Jesus trata, pontualmente, com cada bispo, o que nos leva a compreender que, pontualmente, um líder de uma igreja local pode sofrer uma repreensão, para não ser dizimado pelo inimigo de nossas almas. Mas, esta é uma questão pontual e não global, de modo que envolva o corpo de Cristo, o templo santo do Senhor.

 

Nova Vida versus avivamento

Deus concedeu à humanidade vida abundante, em Cristo. Quem crer em Cristo, como diz as Escrituras, recebe de Deus uma nova vida, pois é gerado de novo, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24).

O novo nascimento não é uma reformulação do velho homem, pois, para o homem ser de novo gerado, primeiro o velho homem tem que ser crucificado, morrer e ser sepultado com Cristo. O corpo que pertence ao pecado precisa ser desfeito, através da morte com Cristo, para que o pecado não mais tenha domínio sobre o homem.

Após ser sepultado com Cristo, o homem ressurge uma nova criatura, designada pelo apóstolo Pedro ‘pedra viva’. Se cada cristão é pedra viva, assim como Cristo é a pedra viva de esquina, a Igreja de Cristo, que é o seu corpo, constitui-se templo santo para habitação de Deus em espírito.

“No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2:22).

A Igreja, como corpo de Cristo, jamais necessita de avivamento, pois Cristo é a cabeça e o salvador do corpo.

“Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Ef 5:23).

O crente, como membro do corpo não precisa de avivamento, pois quem come e bebe de Cristo, nunca mais terá fome e sede:

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome e quem crê em mim nunca terá sede” (Jo 6:35).

A Igreja, como corpo de Cristo, compara-se a uma lavoura ou a um edifício e todos que trabalham são somente cooperadores, pois quem dá o crescimento apropriado é Deus. Qualquer crítica ao crescimento do corpo é feita a Deus e não aos homens!

“Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Co 3:7).

Quem cuida da Igreja é Deus, como um agricultor, que poda os ramos que dão fruto e corta e lança fora os que não dão fruto.

“EU sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo 15:1-2).

Com base na obra que Deus realiza junto à Igreja, vez que os poderes do inferno não prevalecem contra ela, a ideia de avivamento não subsiste (Mt 16:18).

O evento da descida do Espírito Santo, que coincidiu com a festa judaica do Pentecostes, não foi um ‘avivamento’ aos moldes do anunciado pelos avivalistas, mas, sim, o cumprimento da promessa de Deus (Lc 24:49), pois os discípulos foram ‘vestidos’ da habilidade necessária para a missão a que foram incumbidos: ir por todo mundo (povos e gentes) ensinando-as a guardar os ensinos de Cristo (Lc 24:47). Que habilidade seria? Intrepidez e compreensão das Escrituras, segundo o que aprenderam de Cristo.

A promessa de Deus, anunciada por intermédio de Joel, era que o seu espírito (palavra) seria derramado sobre toda a carne (At 2:17), assim como foi anunciado a Moisés que a doutrina de Deus deveria ser destilada como orvalho, como chuva sobre a erva (Dt 32:2). Não podemos esquecer que todos os homens são erva e que a doutrina de Deus seria derramada sobre toda carne (Is 40:6).

A essência da descida do Espírito Santo não estava no som, como de um vento impetuoso, que encheu a casa onde os discípulos estavam e nem na visão das línguas repartidas como de fogo, que era visível sobre cada discípulo (At 2:2); a marca da descida do Espírito Santo não estava nas diversas línguas que cada cristão falou e que deixou perplexas as pessoas, que visitavam Jerusalém; a essência e marca da descida do Consolador estava na mensagem que cada visitante de Jerusalém ouviu, em suas próprias línguas nativas, por boca dos discípulos de Cristo. As línguas que os discípulos falaram só foi um sinal para os incrédulos (judeus), portanto, não é a essência da virtude prometida pelo Pai.

“De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis” (1 Co 14:22).

Quando Pedro se apresentou diante dos líderes judaicos e dos homens religiosos, vindos dentre todas as nações (At 2:5), e anunciou abertamente que Jesus de Nazaré era o Cristo, ai estava a essência do derramamento do ‘espírito’ do Senhor sobre toda carne, pois naquela pregação do apóstolo Pedro o ‘espírito’ do Senhor estava sendo gotejado como chuva sobre toda carne.

No seu primeiro discurso, o discípulo Pedro citou o profeta Joel e os Salmos e dissertou a respeito, demonstrando que as Escrituras haviam se cumprido na pessoa de Cristo, o que demonstra que o entendimento do apóstolo Pedro fora aberto para compreender as Escrituras (Lc 24:45) e ele tornou-se testemunha de Cristo (At 1:8).

Devemos ter cuidado para que ninguém nos engane com palavras persuasivas, pois a Igreja de Cristo jamais estará às portas da morte, a ponto de ser necessário um avivamento.

“Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por estas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Ef 5:6).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1]<https://www.significados.com.br/avivamento/> Consulta realizada em 25/05/17.

[3] “A palavra ‘avivamento’ (ou ‘reavivamento’, como está traduzida no Inglês) significa a entrada de nova vida em um corpo que já está morrendo. Quando a igreja de Cristo no mundo para de ser o verdadeiro sal e luz da sociedade, quando não vemos mais as verdadeiras obras de Jesus em nosso meio, quando a igreja parece ter muita fumaça mas pouco fogo, está na hora de pedir por um novo avivamento dos Céus” Por Que Precisamos do Avivamento?<http://www.avivamentoja.com/pmwiki.php?n=Avivamento.Porqueprecisamos> Consulta realizada em 17/05/17.

[4]General William Booth – ThouChristofBurning, Cleansing Flame.

Ler mais

Salmo 41 – O Auxiliador dos pobres

A promessa é firme: o Bem-aventurado seria livre, conservado em vida, abençoado na terra e o Pai não o deixaria à mercê dos seus inimigos (v. 2), contudo, o premio proposto só foi alcançado porque Jesus esvaziou-se, voluntariamente, da sua glória ( Fl 2:7 -8), o que O tornou sujeito ao dia do mal “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).


SALMO  41

  1. BEM-AVENTURADO é aquele que atende ao pobre; o SENHOR o livrará no dia do mal.
  2. O SENHOR o livrará, e o conservará em vida; será abençoado na terra, e tu não o entregarás à vontade de seus inimigos.
  3. O SENHOR o sustentará no leito da enfermidade; tu o restaurarás da sua cama de doença.

De posse da informação de que os salmos são profecias ( 1Cr 25:1 ), e que eles fazem referência a pessoa de Cristo ( Lc 24:44 ), constataremos se o texto do Salmo 41 também aplica-se a pessoa e vida de Cristo ( Jo 5:39 ; Sl 40:7 ).

Para interpretar este salmo é necessário identificarmos quem atende o pobre e quem é o pobre.

O salmista faz imprecações de bênçãos a alguém em específico que atende, ou seja, que socorre os pobres. Seria o salmista Davi? Não!

Quem é que atende o pobre?

Socorrer os pobres é ação exclusiva do Senhor, sendo certo que esta glória Ele não dará a ninguém “Pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o SENHOR; porei a salvo aquele para quem eles assopram” ( Sl 12:5 ).

A previsão de Davi neste salmo faz referência ao seu Descendente e Senhor, que é Cristo ( Sl 22:43 ), pois de seu Filho disse pelo Espírito: “Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te à minha mão direita até que eu ponha os teus inimigos por estrado de teus pés” ( Mt 22:44 ; Sl 110:1 ), o Senhor que se levantará para por a salvo os pobres.

Certo é que o Senhor que se ‘levantará’ do Salmo 12 verso 5 diz de Cristo, assim como o Bem-aventurado que atende o pobre do Salmo 41 verso 1, e aquele que se compadece do aflito e do pobre salvando a alma dos necessitados “Compadecer-se-á do pobre e do aflito, e salvará as almas dos necessitados” ( Sl 72:13 ). Cristo é o nome pelo qual Deus salva os pobres e aflitos livrando os necessitados que clamarem ( Sl 72:12 ), por isso mesmo todos os reis se prostrarão perante Ele ( Sl 72:11), e n’Ele todas as nações serão abençoadas ( Sl 72:17 ).

Ele é o bem-aventurado em quem os homens serão abençoados “O seu nome permanecerá eternamente; o seu nome se irá propagando de pais a filhos enquanto o sol durar, e os homens serão abençoados nele; todas as nações lhe chamarão bem-aventurado ( Sl 72:17 ); “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra ( Gn 12:3 ).

Quem é o pobre?

Os pobres, por sua vez, não se tratam dos descamisados do povo, dos homens desprovidos de posses, dos mendigos, dos maltrapilhos, dos sem pátria, etc., pois na Lei está claro e Jesus reiterou: nunca deixará de haver pobre na terra ( Dt 15:11 ; Mt 26:11 ).

Os termos ‘pobres’, ‘necessitados’, ‘tristes’, ‘quebrantados’, etc., são figuras bíblicas utilizadas para fazer referencia a uma condição espiritual pertinente aos homens, quer detentores de muitos bens materiais ou totalmente desprovidos deles, homens que reconhecem a sua miséria em decorrência do pecado herdado de Adão e, que em consequência, procuram se socorrer de Deus.

São termos que apresentam uma figura profética para fazer referencia aos errados de espírito que se deixam ser instruir pelo Senhor Jesus “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ); “Os aflitos e necessitados buscam águas, e não há, e a sua língua se seca de sede; eu o SENHOR os ouvirei, eu, o Deus de Israel não os desampararei” ( Is 41:17 ).

É por isso que Jesus disse: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ), pois Cristo é o descanso do cansado e o refrigério daqueles que atenderem o convite: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ); “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ).

‘Pobre’ e ‘abatido’ são figuras para fazer referencia a todos que obedecem (treme) a palavra de Deus “Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” ( Is 66:2 ; Is 11:4 ).

Os que confiam no Senhor faz parte dos conselhos dos pobres ( Sl 14:6 ; Lc 4:18 ; Is 29:19 ), contrastando com o conselho dos ímpios, que são os loucos, os arrogantes, os ricos ( Sl 1:1 ; Ap 3:17 ).

O salmista registra, pelo Espírito, a promessa de que Deus há de livrá-Lo no dia do mal, ou seja, um dia em que o Filho de Davi e Senhor haveria de entregar o seu espírito nas mãos do Pai (v. 1).

Mas, para que Cristo se tornasse o Bem-aventurado e aquele que socorre os pobres e aflitos, teve que primeiro se sujeitar ao dia mal, tornando se menor que os anjos por causa da paixão da morte ( Hb 2:9 ), e em tudo tornar-se semelhante aos homens para aniquilar o que tinha o império da morte ( Hb 2:14 ).

Somente após sujeitar-se ao dia mal, Cristo alcançou o sacerdócio possibilitando-O a interceder pelos seus irmãos ( Hb 2:17 ), conquistaria o poder de livrar os pobres que estavam por toda a existência sujeitos ao pecado ( Hb 2:17 ).

A promessa é firme: o Bem-aventurado seria livre, conservado em vida, abençoado na terra e o Pai não o deixaria à mercê dos seus inimigos (v. 2), contudo, o premio proposto só foi alcançado porque Jesus esvaziou-se, voluntariamente, da sua glória ( Fl 2:7 -8), o que O tornou sujeito ao dia do mal “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

As promessas continuam no verso 3, onde é garantido ao Bem-aventurado guarida mesmo no leito de ‘enfermidade’ e, por fim, a promessa de restauração (v. 3).

Cristo só foi restituído a sua glória porque primeiro se despiu dela e, como servo foi obediente até a morte “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ; Jo 17:5 ).

Cristo é o bem-aventurado que atende ao pobre, pois:

  • Deus o livrou no dia do mal (v. 1);
  • Deus o livrou e o conservou em vida (v. 2);
  • Deus não o entregou à vontade de seus inimigos;
  • Deus o restaurou da sua cama (morte) de doença (v.3).

 

4. Dizia eu: SENHOR, tem piedade de mim; sara a minha alma, porque pequei contra ti.

O Salmo 41 dá ênfase às agruras que o Servo do Senhor se sujeitou segundo a vontade do Pai, aspecto diferente da ênfase que o Salmo 38 apresenta, onde é apresentado o Servo perfeito: cego e mudo.

A partir do verso 4 o próprio Senhor que atende o pobre, em Espírito, toma a palavra na previsão do salmista e utiliza o pronome na primeira pessoa: “Dizia eu: Senhor, tem piedade de mim…” (v. 4).

Por que o Bem-aventurado clama por piedade? Porque só o Pai podia livrá-lo da morte “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia” ( Hb 5:7 ).

Para compreender por que o Bem-aventurado roga ao Pai para que a sua alma seja curada, faz-se necessário considerar que Ele tomou sobre si as enfermidades e as dores da humanidade, ou seja, o que o tornou ‘enfermo’ foi o pecado dos homens, pois é certo que o Servo do Senhor não pecou “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido” ( Is 53:4 ); “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pe 2:22 ; Is 53:9 ).

Cristo rogou ao Pai em decorrência das ‘enfermidades’ e ‘dores’ que tomou sobre si, pois foi em decorrência das transgressões e iniquidades que Ele foi ferido e moído ( Is 53:5 ). Pelo fato de ter levado sobre si o pecado de muitos, em suplica ao Pai disse por intermédio da pena de Davi: “SENHOR, tem piedade de mim; sara a minha alma, porque pequei contra ti” (v. 4), isto porque, foi constituído por Deus sacerdote e teve que ser participante da mesma natureza dos homens para ser Mediador, sendo que na intercessão inclui-se entre os que precisam de salvação “E possa compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados; pois também ele mesmo está rodeado de fraqueza” ( Hb 5:2 ).

O Senhor Jesus esteve no ‘leito da enfermidade’ (v. 3), porque foi do agrado do Pai moê-lo quando tomou sobre si o pecado de muitos ( Is 53:12 ), porque foi posto por expiação do pecado ( Is 53:10 ) e Deus fez cair sobre Ele a iniquidade de todos “… porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ; Is 53:6 ; Lv 16:21 ).

Ao verso 4 aplica-se a mesma abordagem do salmos 38 e 40, pois se faz necessário considerar que Cristo é o Servo do Senhor cego e mudo. Que o bode da expiação e o bode emissário são figuras representativas da sua pessoa e obra redentora e, que, portanto, quando da leitura dos salmos onde se tem um verso semelhante a este: “Porque eu declararei a minha iniquidade; afligir-me-ei por causa do meu pecado” ( Sl 38:18 ), basta verificar se há alguma alusão à cegueira ou surdez, como se lê: “Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca (…) e em cuja boca não há reprovação” ( Sl 38:13 -14), para poder concluir que o salmo aplica-se ao Messias, pois se na boca não há reprovação, segue-se que o coração é humilde e manso, pois a boca fala do que há no coração ( Mt 12:34 ).

 

5 Os meus inimigos falam mal de mim, dizendo: Quando morrerá ele, e perecerá o seu nome?

6 E, se algum deles vem ver-me, fala coisas vãs; no seu coração amontoa a maldade; saindo para fora, é disso que fala.

7 Todos os que me odeiam murmuram à uma contra mim; contra mim imaginam o mal,dizendo:

8 Uma doença má se lhe tem apegado; e agora que está deitado, não se levantará mais.

O verso 5 apresenta o anseio dos inimigos do Messias: a sua morte ( Jo 8:37 ), e o verso 6 aponta a análise que Ele faria da exposição doutrinária dos seus inimigos: coisas vãs (v. 6), pois da abundância que havia em seus corações enganosos, mentirosos, disso falava a boca ( Mt 12:34 ).

O salmista prevê que os opositores de Cristo o odiariam e murmurariam constantemente e, que sempre presumiriam o mal contra Ele “E agora digo-vos: Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará” ( At 5:38 ); “Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e crê-lo-emos” ( Mt 27:42 ); “Dizendo: Senhor, lembramo-nos de que aquele enganador, vivendo ainda, disse: Depois de três dias ressuscitarei” ( Mt 27:63 ; Mt 27:1 ).

 

9 Até o meu próprio amigo íntimo, em quem eu tanto confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar.

O apóstolo João registrou quando o próprio Mestre interpreta este salmo e aplica este verso a Sua pessoa e a de Judas Iscariotes “Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido; mas para que se cumpra a Escritura: O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar” ( Jo 13:18 -27 ; Jo 6:71 ).

 

10 Porém tu, SENHOR, tem piedade de mim, e levanta-me, para que eu lhes dê o pago.

11 Por isto conheço eu que tu me favoreces: que o meu inimigo não triunfa de mim.

12 Quanto a mim, tu me sustentas na minha sinceridade, e me puseste diante da tua face para sempre.

13 Bendito seja o SENHOR Deus de Israel de século em século. Amém e Amém.

Diante do quadro funesto, visto que o seu ‘amigo’ íntimo aliou-se aos seus inimigos, o Servo obediente enfatiza a sua confiança na piedade de Deus que o ‘erguerá’ do leito de enfermidade (morte), dando lhe a oportunidade de retribuir aos seus inimigos segundo as suas obras (v. 10 ; Sl 62:12 ).

Os seus inimigos pensavam na sua morte como a queda de um homem, no entanto, o triunfo do Messias estava além-túmulo, pois ao entregar-se na morte concluiu sua obra “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si ( Is 53:11 ), e quando ressurgiu conquistou poder acima de todos os principados e potestades “E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” ( Cl 2:15 ).

Através da ação de Deus, que o favorece, o Messias tem certeza plena de que o seu inimigo, o inimigo da humanidade, não triunfará (v. 11).

O Bem-aventurado reconhece o amor do Pai por retribuir-lhe segundo a sua retidão: a presença do Pai é segurança eterna “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( v. 12 ; Sl 17:15 ).

O salmo termina com o salmista bendizendo ao Senhor Deus de Israel (v. 13).

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