Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito

‘Violência’ e ‘força’ são figuras que os profetas utilizavam para fazer referencia a falta de confiança em Deus e a disposição do povo em oferecer sacrifícios, Jesus também utilizou essas figuras para asseverar aos seus interlocutores, que, desde os dias dos profetas, até aquele momento, os homens se ‘apoderavam’ do reino dos céus à força, ou seja, confiados que eram descendência de Abraão e oferecendo sacrifícios!

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Salmo 26 – Aquele que lava as mãos na inocência

Ao ler o Salmo 26, o leitor precisa considerar a pessoa de Cristo e que o salmista era profeta. É imprescindível considerar que o salmista não estava orando a Deus confiado em si mesmo, antes, profetizava acerca do Cristo.

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Isaías 56 – A bem-aventurança prometida a Abraão chega aos gentios

As Escrituras depõem contra todos os homens, classificando-os de ‘mentirosos’( Sl 116:11; Rm 3:4). Por que todos são mentirosos? Todos os homens são mentirosos, porque todos os homens, juntamente, se desviaram desde a madre (Sl 53:3) e falam mentiras. desde que nascem (Sl 58:3). Isso não quer dizer que todos os homens faltam com a verdade, ou que são infiéis nos negócios, etc.


Isaias 56 – A bem-aventurança prometida a Abraão chega aos gentios

Introdução

É através da seguinte ótica que se deve compreender o capítulo 56 de Isaias: Deus estava prestes a cumprir a promessa feita a Abraão!

Qual a promessa de Deus feita a Abraão? Que, na descendência de Abraão, seriam benditas todas as famílias da terra, apesar de que, à época da promessa, Abraão ainda não tinha filhos.

“… em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 28:14).

Considerando que Deus notificou a Abraão que, em seu Descendente seriam benditas todas as famílias da terra, os filhos de Israel, equivocadamente, passaram a considerar que eram herdeiros da bem-aventurança prometida por causa da carne e do sangue de Abrão que corria em suas veias (Gl 3:8; Gn 28:14).

O apóstolo Paulo nos esclarece que a bem-aventurança não foi dada aos descendentes segundo a carne de Abraão, antes, a bem-aventurança estava vinculada ao Descendente de Abraão que seria chamado em Isaque  (Rm 9:7).

Como a descendência de Abraão seria chamada em Isaque, isso significava que a promessa não tinha por base a carne de Abraão, portanto, os descendentes de Abraão não haviam sido agraciados com a bem-aventurança.

Ora, todos os israelitas se gloriavam no fato de serem descendência de Abraão e, por confiarem na carne, se afastavam de Deus. Em vez de bem-aventurados, eram malditos, segundo a palavra do Senhor, anunciada por intermédio de Jeremias, por fazerem da carne o seu braço (força, salvação):

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Essa profecia de Jeremias demonstra que o homem que confia em si mesmo é maldito! O homem que confia em si mesmo é aquele que faz da sua carne a sua salvação, porque ‘braço’ é figura de força, o que remete à salvação.

“O SENHOR é a minha força e o meu cântico; Ele me foi por salvação; este é o meu Deus, portanto, lhe farei uma habitação; ele é o Deus de meu pai, por isso o exaltarei” (Êx 15:2);

“Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico e se tornou a minha salvação” (Is 12:2).

Considerando a argumentação do apóstolo Paulo, de que tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, isso significa que a reprimenda de Jeremias tinha por alvo o homem judeu, pois eles, sabidamente, se gloriavam pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão.

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne” (Fl 3:3);

“Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque, destas coisas me agrado, diz o SENHOR” (Jr 9:24; Tg 1:9; 1 Co 1:31).

 

Salvação para todos os povos

“ASSIM diz o SENHOR: Guardai o juízo e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça, para se manifestar” (Is 56:1)

Através do profeta Isaias, Deus ordenou aos filhos de Israel que ‘guardem o juízo’ e ‘façam justiça’, ou seja, eles deviam obedecer à palavra de Deus. A palavra do Senhor, por intermédio de Isaias, remete ao exarado em Deuteronômio:

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25).

O que Deus exigiu dos filhos de Israel não é justiça social e nem a justiça que é administrada em tribunais humanos. Esse é um equivoco que afeta a compreensão de muitos, pois interpretam o ‘guardar o juízo’ e ‘fazei justiça’ como um apelo divino para que os filhos de Israel se ocupassem de questões sociais.

Na verdade, quando é dito ‘guardai o juízo’ e ‘fazei justiça’, Deus estava conclamando os filhos de Israel para observarem o Seu mandamento. Uma pequena análise de dois versículos, levando-se em conta a estrutura do texto – paralelismo – verifica-se que obedecer à voz de Deus é o mesmo que ‘fazer justiça’ e ‘guardar o juízo’:

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25);

“AMARÁS, pois, ao SENHOR teu Deus e guardarás as suas ordenanças, os seus estatutos, os seus juízos e os seus mandamentos, todos os dias” (Dt 11:1).

Na verdade, o verso 1: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus…” é uma ordem aos filhos de Israel, para que obedecessem a Deus!

“Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso os abati pelos profetas; pelas palavras da minha boca os matei; e os teus juízos sairão como a luz, porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:4 -6);

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, por que Deus concita o povo a obedecê-Lo? O motivo é patente: – “… porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça prestes a manifestar-se”. O motivo apresentado por Deus não diz de um conceito ou, de uma ideia filosófica, acerca da salvação e da justiça.

Através dessa profecia, Deus notifica os seus interlocutores que a Sua salvação e a Sua justiça estavam prestes a virem personificadas! Ora, o apóstolo Paulo deixa claro que, antes que Cristo viesse, as Escrituras encerrou todos os homens debaixo do pecado e os judeus, por sua vez, estavam sob o cuidado da lei, uma espécie de curador (aio), que os conduzia a Cristo, a salvação e a justiça de Deus (Gl 3:24).

A lei é apontada como ‘aio’, que conduz o homem a Cristo: a salvação de Deus e a justiça de Deus manifesta (Gl 3:24). Ao guardar as ordenanças de Deus, o homem descobriria que a justiça de Deus não é segundo a lei, antes, Deus encerrou todos debaixo do pecado (judeus e gregos), para que soubessem que a promessa da fé é dada aos crentes (Gl 3:21-22).

A justiça de Deus é segundo a promessa estabelecida no Descendente de Abraão, que é Cristo, a justiça de Deus.

 

“Bem-aventurado o homem que fizer isto e o filho do homem que lançar mão disto; que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de fazer algum mal” (Is 56:2)

Deus enfatiza que é bem-aventurado qualquer que O obedecesse, ou seja, que faz justiça e guarda o juízo. O profeta dá um exemplo de como guardar o juízo e fazer justiça à época (Zc 8:16), guardando os sábados e não realizarem mal algum.

Para compreender todas as nuances deste verso, o leitor deve considerar que Deus falava ao povo de Israel por enigmas, pois somente com Moisés Deus falava cara a cara e sem utilizar enigmas: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” (Nm 12:8).

Os enigmas contidos nas Escrituras faziam com que as visões do livro estivessem como que seladas, de modo que os interpretes de Israel não pudessem compreender: “Por isso toda a visão vos é como as palavras de um livro selado que se dá ao que sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele dirá: Não posso, porque está selado” (Is 29:11).

Se o interprete não desvendar os significados dos enigmas, qualquer interpretação das escrituras será equivocada.

O primeiro enigma a ser desvendado está em com o homem se guardar de fazer o mal. Como é possível ao homem deixar de fazer o mal, se a própria escritura diz que ‘não há quem faça o bem’? “Desviaram-se todos e, juntamente, se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Sl 53:1).

Ao falar com os fariseus, Jesus deu uma pista para elucidar o enigma acerca do ‘mal’, pois Ele disse que, apesar de os fariseus darem boas dádivas aos seus semelhantes (filhos), na essência eram ‘maus’. Até dizer boas coisas os fariseus estavam impedidos, pela condição deles: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mt 7:11); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34).

Os fariseus não eram maus porque faziam maldades, mas, sim, maus, porque, diante de Deus, eram vis, inferiores, da ralé, portanto, maus. Jesus não estava apontando para o comportamento dos fariseus, pois Ele a ninguém julgava, mas, apontou para a condição de alguém que é escravo do pecado: vil, mal.

Ora, os fariseus podiam falar acerca de temas nobres, princípios comportamentais, questões religiosas e questões de ordem filosófica, porém, tais temas tão caros aos homens, não são ‘boas coisas’ diante de Deus. Por que não? Porque tais questões não desfazem a barreira de inimizade que há entre Deus e os homens.

Os fariseus não podiam fazer o bem e nem dizer boas coisas, por causa dos seus corações enganosos. Fazer o bem e dizer boas coisas só é possível através da revelação de Deus em Cristo, o nobre tema que o salmista Davi anunciou no Salmo 45. Se a revelação de Deus, o mistério revelado em Cristo, o homem não consegue decifrar o enigma anunciado por Deus (Sl 49:4; Sl 45:1).

As Escrituras depõem contra todos os homens, classificando-os de ‘mentirosos’( Sl 116:11; Rm 3:4). Por que todos são mentirosos? Todos os homens são mentirosos, porque todos os homens, juntamente, se desviaram desde a madre (Sl 53:3) e falam mentiras. desde que nascem (Sl 58:3). Isso não quer dizer que todos os homens faltam com a verdade, ou que são infiéis nos negócios, etc.

Quando é dito que todos os homens são mentirosos é o mesmo que dizer que todos pecaram. Assim como Deus é luz, verdade e vida, o homem alienado de Deus está em trevas, é mentira e está morto.

Os judeus se esforçavam para não faltar com a verdade com os seus semelhantes, porém, não é acerca dessa questão que Deus conclama aos filhos de Israel para que fale cada um a verdade com o seu companheiro.

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” (Zc  8:16).

Considerando que ‘a boca fala do que está cheio o coração’, quem fala o mal, fala segundo o seu coração mau. Qualquer descendente da carne de Adão é mau, porque herdou tal condição de Adão, herdou um coração enganoso e fala segundo o seu coração: engano contínuo.           

Para falar boas coisas é necessário um novo coração, por isso Deus anunciou, através de Moisés, a necessidade de circuncidarem o coração pois, com a circuncisão do coração, o homem morre e recebe de Deus um novo coração e um novo espírito (Sl 51:10; Is 57:15; Ez 18:31 ).

Ora, os filhos de Israel achavam que guardavam o sábado, porém, Deus continuamente protestava contra eles, demonstrando que eles eram homens de dura cerviz e que não circuncidavam o coração: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10:16).

No oitavo dia, após o nascimento de uma criança, os filhos de Israel circuncidavam os seus filhos no prepúcio da carne, porém, não se deixavam circuncidar pelo Pai celeste. Sem a circuncisão do coração, que significa morte para o pecado, jamais os filhos de Jacó seriam judeus de fato, e todas as obras deles continuavam sendo más, continuadamente.  

“Circuncidai-vos ao SENHOR e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo e arda, de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” (Jr 4:4);

“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente, na carne. Mas, é judeu o que o é no interior e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2:28-29).

Os judeus se consideravam os ‘bons’, e consideram os gentios ‘ruins’. Entenda ‘bons’, no sentido de bem nascidos, nobres, filhos de Abraão, consequentemente, filhos de Deus. Por isso, sempre argumentavam, dizendo: ‘Temos por Pai a Abraão’.

De igual modo, entenda ‘ruins’ como baixos, plebes, sem levar em conta conotação moral. Enquanto se achavam filhos de Abraão, Deus protestava contra os filhos de Israel, declarando-os filhos da agoureira, da adúltera.

“Mas, chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina e de prostituição” (Is 57:3).

O erro dos judeus era considerar que eram bem nascidos, portanto, bons, e que os estrangeiros eram mal nascidos, consequentemente ‘ruins’. Igualmente, judeus e gentios são ruins (Rm 3:4), portanto, mentirosos, pois todos, juntamente, alienaram-se de Deus em Adão (Rm 3:9).

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem (Jr 4:22).

Apesar dos judeus guardarem os sábados, as festas, as assembleias, etc., nenhum deles observava a lei.

“Não vos deu Moisés a lei? E nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” (Jo 7:19).

Na verdade, as Escrituras depunham contra os judeus como blasfemos:

“E agora, que tenho eu que fazer aqui, diz o SENHOR, pois o meu povo foi tomado sem nenhuma razão? Os que dominam sobre ele dão uivos, diz o SENHOR; e o meu nome é blasfemado, incessantemente, o dia todo” (Is 52:5; Rm 2:24).

A circuncisão na carne era uma marca dada aos descendentes da carne de Abraão para identificá-los como nação e não como filhos de Deus. Tal marca só seria proveitosa se os judeus obedecessem a Deus, assim como o crente Abraão (Gn 17:10-11; Gn 26:5). É nesse quesito que o apóstolo Paulo repreende os cristãos convertidos, dentre os judeus, que estavam em Roma:

“Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão” (Rm 2:25).

O profeta Isaias estava conclamando os seus ouvintes a obedecerem a Deus (mantende o juízo e fazei justiça), através de alguns preceitos da lei (utilizados como figuras): guardar o sábado e guardar a mão de fazer o mal, pois qualquer que, como Abraão, obedecesse ao mandamento de Deus, seria bem-aventurado.

“Bem-aventurado o homem que fizer isto e o filho do homem que lançar mão disto; que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de fazer algum mal” (Is 56:2); “Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Rm 26:5);

“De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” (Gl 3:9).

Através do profeta Isaias, Deus deixa claro que os sábados dos filhos de Israel eram equivalentes à abominação!

“Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, as luas novas, os sábados e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene” (Is 1:13; Is 58:13).

Por quê? Porque andavam após os seus ídolos! ‘Ídolos’, quando utilizado, nas profecias, acerca do povo de Israel, tem relação com riquezas (Mamom), uma figura para demonstrar que os filhos de Israel estavam a serviço de si mesmos: “Porque rejeitaram os meus juízos, não andaram nos meus estatutos e profanaram os meus sábados; porque o seu coração andava após os seus ídolos” (Ez 20:16).

Quando os filhos de Israel jejuavam, achavam que estavam realizando um trabalho para Deus, porém, equivocadamente, trabalhavam para satisfazerem a si mesmos.

“Dizendo: Por que jejuamos nós e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas e tu não o sabes? Eis que, no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho(Is 58:3).

 

“E não fale o filho do estrangeiro que, se houver unido ao SENHOR, dizendo: Certamente o SENHOR me separará do seu povo; nem, tampouco, diga o eunuco: Eis que sou uma árvore seca. Porque assim diz o SENHOR a respeito dos eunucos, que guardam os meus sábados e escolhem aquilo em que eu me agrado e abraçam a minha aliança: Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Is 56:3-5)

Em seguida, Deus dirige a palavra aos estrangeiros e aos eunucos, para que não pensassem que haviam sido rejeitados (Is 56:3), antes, se eles também guardassem o mandamento de Deus, teriam lugar na casa de Deus e dentro dos muros da cidade e um nome superior a de filhos e filhas (Is 56:5).

Os estrangeiros e os eunucos seriam aceitos por causa da seguinte promessa: – “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7). Ora, essa promessa Deus fez a Abraão: – “… em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 28:14).

Através de Isaias, Deus estava demonstrando que a promessa feita a Abraão estava prestes a ser manifesta, pois, sem distinção alguma, todos os homens teriam lugar na casa de Deus. Estava sendo enfatizado que os homens seriam aceitos no Descendente prometido a Abraão e a Davi, pois Cristo é a casa (descendente) que Deus prometeu a Davi.

“… também o SENHOR te faz saber que te fará casa” (2 Sm 7:11).

A ‘casa’ prometida a Davi diz do renovo justo – Cristo – da raiz de Jessé(Jr 33:15), que através do seu corpo, que é a Igreja, está a edificar um templo ,que abriga todos os povos. O corpo de Cristo é a casa de oração para todos os povos, o templo edificado sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas e santuário (Ef 2:20; Is 8:14). Em Cristo, cumpre-se a promessa de se ajuntar os dispersos de Israel e os outros, aos que já se lhe ajuntaram (Is 56:8).

É em função dessa verdade que Jesus expulsou os que vendiam no templo e os cambistas, dizendo: “Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões” (Mt 21:13), e, como Pastor enfatizou que agregaria ao seu aprisco outras ovelhas: “Ainda tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco; também, me convém agregar estas, elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um Pastor” (Jo 10:16).

Em linhas gerais, a profecia de Isaias, registrada no capítulo 56, refere-se a Cristo e ao seu corpo, a Igreja. Através do corpo de Cristo, estrangeiros e eunucos (homens considerados imundos para os judeus), poderiam oferecer os seus holocaustos e os seus sacrifícios e serem aceitos por Deus.

“Eis que chamarás a uma nação que não conheces e uma nação que nunca te conheceu correrá para ti, por amor do SENHOR teu Deus e do Santo de Israel; porque ele te glorificou” (Is 55:5)

Apesar de serem discriminados pelos filhos de Israel, Deus dá aviso aos forasteiros (gentios) que não digam que Deus não os aceitará; ou aviso aos eunucos, de que não devem se considerar como uma árvore cortada. Por que não deveriam pensar que eram inúteis? Porque qualquer que guarda o mandamento de Deus (mesmo os estrangeiros e os eunucos) tem um lugar e um nome na casa de Deus.

Qualquer que guarda a aliança de Deus terá um nome superior ao de filhos e filhas. Um nome eterno, que jamais será esquecido.

“Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Is 56:5).

“E aos filhos dos estrangeiros, que se unirem ao SENHOR, para o servirem, e para amarem o nome do SENHOR, para serem seus servos, todos os que guardarem o sábado, não o profanando, e os que abraçarem a minha aliança, Também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Assim diz o Senhor DEUS, que congrega os dispersos de Israel: Ainda ajuntarei outros aos que já se lhe ajuntaram” (Isaias 56:6-8)

A promessa de Deus se estende aos filhos dos estrangeiros que obedecerem à Sua aliança, o que dá elementos para compreender a seguinte promessa:

“E há de ser que, todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR, e entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32; Rm 10:13)

Como os estrangeiros e seus filhos seriam conduzidos ao monte do Senhor e como os seus holocaustos e sacrifícios aceitos por Deus? O apóstolo Paulo dá a resposta:

“Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15:16).

Através do evangelho de Cristo a ‘oferta’ dos gentios se torna agradável a Deus, pois é santificada pelo Espírito Santo. A aliança, da qual o profeta Isaias faz referência, diz do Novo Testamento no sangue de Cristo (1 Co 11:25), e não no Testamento da velhice da letra que foi gravada em pedras (2 Co 3:6).

Em Cristo, o homem é verdadeiro adorador, pois adora a Deus, em espirito e em verdade. Cristo é a pedra assentada no santo monte Sião, o verdadeiro santuário, casa de oração para todos os povos. Apesar de ser o santuário estabelecido por Deus, as duas casas de Israel rejeitaram o Cristo (Is 8:14). Para os que crêem, Jesus é santuário, mas para os incrédulos pedra de tropeço.

“Portanto, assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” (Is 28:16)

A promessa para os estrangeiros e seus filhos está condicionada a guardarem o ‘sábado’, ou seja, o descanso verdadeiro, que é Cristo. Como? Abraçando a aliança do Senhor expressa no Seu evangelho, crendo que Jesus é o Cristo.

Os filhos de Israel deveriam guardar o sábado como memorial de que foram resgatados do Egito (Dt 5:15), de que Deus é quem os santifica (Ex 31:13). Como a Aliança do Novo Testamento foi feita no sangue de Cristo, o memorial estabelecido é a ceia do Senhor, para que os cristãos se lembrem da sua morte e anunciem o seu nome até que Ele venha (1 Co 11:25-26).

E o que os gentios oferecem como sacrifício na Nova Aliança? O fruto dos lábios que confessam a Cristo, ou seja, a beneficência e a comunicação! (Hb13:15-16) Os seus corpos em sacrifício vivo, que é o culto racional (Rm 12:1)

Para compreendermos a figura dos sábados, se faz necessário compreender que os sacerdotes da Antiga Aliança eram inculpáveis, por trabalharem no templo aos sábados (Mt 12:5). Como Cristo é superior ao templo e os estrangeiros e eunucos são aceitos no Santuário estabelecido por Deus, os que estão em Cristo não necessitam guardar sábados e luas novas (Cl 2:16).

“Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa? Pois, eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo. Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes. Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor” (Mt 12:5-8).

Cristo é o descanso prometido, o refrigério, mas não quiseram ouvi-Lo:

“Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” (Is 28:12).

Deus exige obediência (misericórdia), e não sacrifícios, como guarda de dias, luas, festas, etc. Para encontrar descanso para a alma é necessário andar por bom caminho, ou seja, em obediência: crendo em Cristo, pois, Deus faz misericórdia aos que O obedecem.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6);

“Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Cristo, como santuário para todos os povos, é superior ao templo, onde os sacerdotes violavam o sábado. Semelhantemente, em Cristo os crentes são sacerdotes que oferecem, continuamente, sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o culto racional, portanto, não estão sujeitos aos ritos da Antiga Aliança.

Na Antiga Aliança era Deus que santificava o povo e, por isso, deveriam santificar o sábado. Na Nova Aliança é Deus quem santifica o crente, por meio da palavra do evangelho, portanto, devem santificar a Cristo em seus corações, ou seja, guardar o descanso verdadeiro (1 Pe 3:15).

O sábado é sombra de uma realidade que o homem experimenta em Cristo: o descanso verdadeiro (Hb 10:1).

O Senhor que promete reunir os dispersos de Israel, é o mesmo Deus que reunirá outros aos que já se ajuntaram. O que isso quer dizer? Que esse é um oráculo do Senhor, acerca da união entre judeus e gentios, do qual resultaria um corpo: a igreja (Ef 2:13-14).

O oráculo aos filhos de Israel, por intermédio do profeta Isaias, foi feito por parábola, o que o apóstolo Paulo fala, abertamente. Cristo é a paz, tanto para aqueles que estão perto(judeus) quanto para os que estão longe (gentios): “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR e eu o sararei” (Is 57:19).

Deus, que reúne os dispersos de Israel aos gentios que se achegam a Cristo, por meio do evangelho. Jesus Cristo falou, por parábola, que haveria de reunir outras ovelhas que não do aprisco de Israel: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também, me convém agregar estas e elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um Pastor” (Jo 10:16).

Desde Moisés, Deus já havia alertado ao povo de Israel que haveria de o por em ciúmes com os gentios:

“Mas, digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira” (Rm 10:19).

 

Punição

“Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” (Is 56:9).

Deus faz um convite a todos os animais do campo e das florestas, para reunirem-se para comer. Que animais são estes? O que será oferecido como alimento?

Está é mais uma profecia que se utiliza de uma parábola, para falar da punição que Deus dará a Israel, por desviarem-se da aliança com Deus.

Os animais do campo e do bosque são figuras que remetem às nações vizinhas, que são convidadas por Deus, para invadirem Israel. Esses animais são apresentados em outras passagens bíblicas como bestas do campo.

“Arvorai a bandeira rumo a Sião, fugi, não vos detenhais; porque eu trago do norte um mal, e uma grande destruição. Já um leão subiu da sua ramada, e um destruidor dos gentios; ele já partiu, e saiu do seu lugar para fazer da tua terra uma desolação, a fim de que as tuas cidades sejam destruídas, e ninguém habite nelas” (Jr 4:6-7);

“Irei aos grandes e falarei com eles; porque eles sabem o caminho do SENHOR, o juízo do seu Deus; mas estes, juntamente, quebraram o jugo e romperam as ataduras.Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” (Jr 5:5-6);

“Depois eles se fartaram em proporção do seu pasto; estando fartos, ensoberbeceu-se o seu coração, por isso se esqueceram de mim. Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão. Para a tua perda, ó Israel, te rebelaste contra mim, a saber, contra o teu ajudador” (Os 13:6-9).

Deus coloca a nação de Israel como banquete às nações vizinhas e faz o convite: vinde comer!

Deus já havia predito, por intermédio do profeta Moisés que, caso o povo de Israel se desviasse da Aliança com Deus, seria perseguido pelos inimigos, o que seria um sinal da parte de Deus, para que se arrependessem (Dt 28:45-46; Jr 18:11), uma prova de que Deus repreende e castiga a todos os que ama (Hb 12:6; Is 1:5):

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” (Dt 28:49-50).

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados e gostam do sono. E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte. Vinde, dizem, trarei vinho, e beberemos bebida forte; e o dia de amanhã será como este, ainda muito mais abundante” (Is 56:10-12).

Apesar do convite de Deus às nações inimigas (bestas) para virem sobre o seu povo, os profetas (atalaias) de Israel estavam como que cegos, pois desconheciam os desígnios do Senhor (Ez 33:7).

Uma atalaia exerce a função de segurança, vigilante, porém, como é possível um cego exercer tal função? Por não estarem aptos a desempenhar a função, os atalaias de Israel estava mais para um laço de caçador de aves: “Efraim era o vigia com o meu Deus, mas o profeta é como um laço de caçador de aves em todos os seus caminhos e ódio na casa do seu Deus” (Os 9:8).

Outra descrição dos profetas de Israel é a de cães mudos, ou seja, cães que não podem dar o aviso (ladrar). Estão como que adormecidos, deitados e se deleitam em dormir. São cães gulosos, que não se fartam da gordura do povo, mas que não desempenham o seu papel de proteção (Sl 53:4).

Os líderes de Israel são descritos como pastores, mas que nada compreendem: “Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4; Mt 13:13; Jr 10:21; Jr 50:6; Ez 34:10). Cada pastor desviava para o seu próprio caminho, ou seja, após o seu coração enganoso: “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2).

“O Senhor enviou uma palavra a Jacó e ela caiu em Israel.E todo este povo o saberá, Efraim e os moradores de Samaria, que em soberba e altivez de coração, dizem:Os tijolos caíram, mas, com cantaria tornaremos a edificar; cortaram-se os sicômoros, mas, em cedros as mudaremos.Portanto, o SENHOR suscitará, contra ele, os adversários de Rezim, e juntará os seus inimigos. Pela frente virão os sírios e por detrás os filisteus, e devorarão a Israel à boca escancarada; e nem, com tudo isso, cessou a sua ira, mas, ainda, está estendida a sua mão.Todavia este povo não se voltou para quem o feria, nem buscou ao SENHOR dos Exércitos. Assim o SENHOR cortará de Israel a cabeça e a cauda, o ramo e o junco, num mesmo dia (O ancião e o homem de respeito é a cabeça; e o profeta que ensina a falsidade é a cauda).Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos” (Is 9:8-16).

Enquanto Deus está convidando as ‘bestas’ do campo e das florestas para atacar o povo de Israel, os líderes de Israel somente convidavam o povo para se embriagarem no vinho colhido dos campos de Sodoma e Gomorra.

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10);

“E toda a sua terra abrasada com enxofre e sal, de sorte que não será semeada, nada produzirá, nem nela crescerá erva alguma; assim como foi a destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim, que o SENHOR destruiu na sua ira e no seu furor.E todas as nações dirão: Por que fez o SENHOR assim com esta terra? Qual foi a causa do furor desta tão grande ira? Então se dirá: Porquanto deixaram a aliança do SENHOR Deus de seus pais, que com eles tinha feito, quando os tirou do Egito” (Dt 29:23-25);

“Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm” (Dt 32:32).

A doutrina dos lideres de Israel se assemelha ao vinho que entorpece os sentidos, de modo que, quem é participante da doutrina deles, sempre está confiante em um futuro melhor, embora a palavra de Deus não seja para paz.

 

Correção ortográfica: Carlos Gasparotto

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Ficarão de fora os cães

Na Bíblia os profetas são apresentados como ‘atalaias’, homens que alertavam os moradores de Israel anunciando a palavra do Senhor. O profeta Habacuque era uma atalaia, pois ao ver a iniquidade do povo dava o alarde gritando: – “Violência, violência”! ( Hc 1:2 ). Esta violência trouxe a justa retribuição de Deus através dos caldeus conforme o predito pelo profeta Moisés.


“Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira” ( Ap 22:15 )

 

Introdução

O termo ‘cães’ no verso: “Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:15),  não é um xingamento derivado de um destempero emocional de seu locutor. Essa assertiva foi feita pelo Senhor Jesus Cristo glorificado e registrado pelo apóstolo João no livro do Apocalipse com a finalidade de alertar os cristãos acerca da iminente volta de Cristo ( Ap 22:20 ).

O Senhor Jesus, neste alerta, não trata de animais irracionais, quer sejam animais domésticos ou animais que sobrevivem na natureza. Vale destacar que os animais quando morrem, até mesmo os de estimação, não irão ao céu e nem a nenhuma outra parte. Não existe céu e nem inferno para animais. Um animal, após o termino das funções vitais deixa de existir, ou seja, animais não ‘ressurgem’.

Durante o seu ministério terreno Jesus utilizou vários termos como ‘víboras’, ‘loucos’, ‘ignorantes’, ‘cegos’, ‘cães’, em suas pregações, mas não tinha a intenção de ofender os seus interlocutores. Na verdade Jesus utilizou estes termos em seus ensinos para evidenciar aos seus ouvintes que eles estavam em igual condição que a dos seus antepassados que morreram durante a peregrinação no deserto ( Hb 1:1- 2; Jo 6:49 ), pois estes termos foram amplamente empregados pelos profetas.

 

Termos e figuras

Verifica-se nas Escrituras que os profetas utilizaram termos que remontam a algumas figuras para esclarecer e evidenciar a condição e algumas situações envolvendo o povo de Israel ( Jr 5:4 ; Dt 32:6 ).

Para compreendermos o significado de alguns termos ou interpretar as figuras utilizadas, tanto por Jesus quanto pelos apóstolos, primeiro é necessário entender como os profetas fizeram uso de tais elementos.

Ora, não convém ao leitor da Bíblia estabelecer, através das próprias conjecturas e suposições, o significado das figuras e das parábolas anunciadas por Cristo e os apóstolos, visto que eles mesmos afirmam que tiveram o cuidado de serem fiéis às Escrituras quando falavam ao povo.

Fidelidade ao mandamento de Deus era o compromisso de Cristo: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ). E este era o posicionamento do apóstolo Pedro: “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pd 1:19 ). Neste mesmo diapasão segue o apóstolo dos gentios: “Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer” ( At 26:22 ).

Isto significa que o interprete não pode dar significado aos termos e figuras por si mesmo, antes deve se socorrer do significado que a própria Bíblia apresenta.

 

Atalaia

“ENTÃO disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta. Tu falarás tudo o que eu te mandar; e Arão, teu irmão, falará a Faraó, que deixe ir os filhos de Israel da sua terra” ( Ex 7:1-2);

“Filho do homem: Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; e tu da minha boca ouvirás a palavra e avisá-los-ás da minha parte ( Ez 3:17 ; Ez 33:7 ).

O livro do Êxodo explica que profeta é aquele que tem a incumbência de retransmitir aquilo que especificamente ouviu de Deus. Quando Moisés e Arão foram a Faraó, Deus colocou Moisés como deus sobre Faraó e Arão como ‘profeta’ de Moisés, e a relação que se estabeleceu entre Moisés e Arão deixa claro qual é a missão do profeta “Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá” ( Dt 18:20 ).

Através da palavra dada ao profeta Ezequiel, verifica-se que Deus associa o oficio de profeta à função da atalaia.

A função da atalaia (sentinela) é vigiar, e para exercer o seu papel necessita estar em um lugar alto que proporcione uma visão ampla afim de que possa ver o perigo ao longe e dar o aviso em tempo hábil.

Por causa da importância e responsabilidade inerente à função de atalaia, verifica-se que há similaridade entre a incumbência do profeta com a função da atalaia, de modo que do ponto de vista bíblico ‘atalaia’ significa profeta. Isto por si só demonstra que a Bíblia possui terminologias próprias.

Para exercer bem a função de atalaia em Israel, ou seja, avisar o povo do perigo, os profetas deveriam estar em Deus, o altíssimo, mas muitos profetas em Israel prevaricaram na sua atribuição “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal, e andaram após o que é de nenhum proveito” ( Jr 2:8 ).

Além da figura da ‘atalaia’, nas profecias há a figura do ‘cão mudo’ para representar aqueles profetas que não falam o que Deus ordenou:

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 )

Pela similaridade que há entre a função da atalaia e do cão de guarda, é introduzida a figura do ‘cão mudo’ para descrever os profetas de Israel. No que diz respeito à vigilância, o cão desempenha o mesmo papel que a sentinela, pois tem a audição e o olfato apurado e dá o alarde quando sente qualquer aproximação.

A atalaia cega não dá o alarde porque nada sabe. Já o cão mudo não dá o aviso pela impossibilidade de ladrar (latir).

 

O desvio das atalaias e do povo

Apesar de Deus ter instituído profetas como atalaias em Israel, tanto as atalaias quanto a nação rejeitaram ouvir a palavra de Deus “Também pus atalaias sobre vós, dizendo: Estai atentos ao som da trombeta; mas dizem: Não escutaremos” ( Jr 6:17 ); “A quem falarei e testemunharei, para que ouça? Eis que os seus ouvidos estão incircuncisos, e não podem ouvir; eis que a palavra do SENHOR é para eles coisa vergonhosa, e não gostam dela” ( Jr 6:10 ); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” ( Jr 6:13 ; Jr 8:10 ).

Os profetas ensinavam mentiras, ou seja, falavam visões segundo os seus corações enganosos, e não da parte do Senhor “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 ; Jr 23:16 ). Na verdade desencaminhavam ainda mais um povo que já era propenso a errar ( Os 11:7 ; Jr 50:6 ).

Como os profetas não davam o alarde e o povo rejeitava a palavra do Senhor, todos estavam alheios ao mau que estava por vir, pois Deus estava suscitando contra Israel inúmeros inimigos dentre os povos vizinhos ( Jr 6:19 -23).

 

A profecia de Moisés

Os filhos de Israel profanaram a aliança de Deus, ou seja, não fizeram justiça ( Dt 6:25 ), e as pragas preditas por Moisés estavam por se abater sobre o povo de Israel ( Dt 28:15 -68).

Dentre as pragas previstas por Moisés estava o levante de nações inimigas que viriam de terras longínquas e dominaria sobre a nação de Israel “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” ( Dt 28:49 -50).

O profeta Habacuque cônscio da sua função, alardeou: “SOBRE a minha guarda estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que falará a mim, e o que eu responderei quando eu for arguido” ( Hc 2:1 ).

Habacuque estava sabia que, como profeta, era uma ‘atalaia’ de Deus em Israel. A função dele era estar de ‘vigia’, assim como uma atalaia permanece vigilante em seu posto. E o que Habacuque estava à espera? Esperava ouvir o que Deus falaria acerca do seu povo.

Isto não quer dizer que Habacuque estava encarregado de vigiar os muros e os portões da cidade, função esta que cabia aos soldados e vigias. A função de Habacuque era esperar o que Deus havia de falar, pois só podia anunciar o que Deus dissesse ( Hc 2:1 ).

Deus anunciou que havia de fazer uma obra tal que os filhos de Israel não creriam quando fosse anunciada ( Hb 1:5 ), ou seja, Deus estava levantando os caldeus – nação gentílica – como vara de correção contra Israel, e Habacuque estava incumbido de anunciar que estes eventos ocorreriam em função da rebeldia dos filhos de Israel.

Sem compreender o motivo de Deus suscitar uma nação gentílica para punir o seu povo, Habacuque se posta vigilante como uma atalaia a espera de uma resposta de Deus.

Lembre-se que Habacuque não era um soldado em um posto de observação (sentinela) com a missão de dar o alarde caso identificasse uma invasão inimiga, antes ele estava aguardando, como uma atalaia, para compreender o que Deus havia falado.

Nas escrituras os profetas são apresentados como ‘atalaias’, homens que alertavam os moradores de Israel anunciando a palavra do Senhor. O profeta Habacuque era uma atalaia, pois ao ver a iniquidade do povo dava o alarde gritando: – “Violência, violência”! ( Hc 1:2 ). Esta violência trouxe a justa retribuição de Deus através dos caldeus conforme o predito pelo profeta Moisés.

O profeta Isaias como atalaia também anunciou o castigo do Senhor conforme o que foi predito por Moisés em Deuteronômio: “Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” ( Is 56:9 ). As nações inimigas são representadas nas Escrituras através de figuras de alimárias do campo, como leão, leopardo, urso, etc., daí o convite a ‘todos os animais do campo’.

O convite para que se aproximassem e comessem é feito às nações inimigas, e Israel é o banquete “Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” ( Jr 5:6 ).

Israel estava para ser punido através das nações inimigas (os animais do campo) por ser rebelde, e conforme o predito pelos profetas, ocorreu às invasões dos povos vizinhos: Babilônia (leão), Medos-Persas (urso, carneiro) e Gregos (leopardo, bode) “Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão” ( Os 13:7 -9).

A mesma mensagem anunciando a derrocada dos filhos de Israel foi anunciada por profetas que foram perseguidos e mortos, enquanto que, os muitos falsos profetas em Israel, que rejeitavam anunciar a palavra do Senhor, foram acolhidos pelo povo.

 

Cães que não ladram

Quando Isaias disse que os profetas de Israel eram cegos e nada sabiam, nada sabiam mesmo. Desconheciam que por esquecer de Deus, Israel foi dado por presa às nações vizinhas, a justa retribuição de Deus por causa da rebeldia do povo “Então se dirá: Porquanto deixaram a aliança do SENHOR Deus de seus pais, que com eles tinha feito, quando os tirou do Egito;” ( Dt 29 : 25 )

Além da punição iminente, as atalaias de Israel também precisavam ver e anunciar que a ‘salvação de Deus’ estava prestes a se manifestar ( Is 56:1 ).

Os filhos de Israel precisavam distinguir a justiça manifesta na punição com deportação e exilio, da justiça de Deus que seria manifesta a todos os povos através da encarnação de Cristo. Por causa da rebeldia de Israel, Deus faz um convite aos animais do campo e as feras dos bosques para que viessem comer ( Is 56:9 ). O que isto significa? A invasão das nações vizinhas e o exílio!

Antes de fazer uso do termo ‘cães’ no verso 10 do capítulo 56, Isaias profetizou que a justiça de Deus estava prestes a se manifestar, ou seja, Cristo ( Is 56:1 ), e seria bem-aventurado aquele que O obedecesse, assim como foi obediente o crente Abraão  ( Is 56:2 ).

As atalaias precisavam divulgar que ‘estrangeiros’ seriam congregados ao rebanho do Senhor ( Is 56:4 -5). Era imprescindível às atalaias anunciarem que a casa de Deus é casa de oração para todos os povos, no entanto, muitos profetas de Israel desconheciam estas verdades ( Is 56:7 ).

É em função deste quadro de letargia diante da palavra de Deus que Isaias declara que os atalaiais de Israel eram cegos! O que pode fazer uma sentinela cega? Como pode uma atalaia alardear a cidade que ela está em perigo se a atalaia é cega, não vê o perigo? “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 ).

O profeta Isaias compara os profetas de Israel a cães adormecidos, deitados e que amam o tosquenejar. São descritos como gulosos e que nunca se fartam ( Is 56:11 ).

A função da atalaia é a mesma de um cão de guarda, atribuições que, bem desempenhada, remete à figura de um pastor.

Um pastor que não compreende o seu papel, que nada sabe e segue os seus próprios devaneios é um mercenário, pois satisfaz a sua ganancia e conduz o rebanho para o abismo. É por isso que Isaias descreve os filhos de Israel andando como cegos, tropeçando ao meio-dia “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ).

É em função desta descrição do profeta Isaias que Jesus declarou que todos os que vieram antes d’Ele eram ladrões e salteadores “Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram” ( Jo 10:8 ), pois todos os pastores em Israel não conheciam a Deus e seguiam as elucubrações de seus corações cheios de engano, o que não é bom “E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, sem exceção” ( Is 56:11 ; Is 66:3 ; Jr 50:6 ).

Isaias desempenhava a sua função de atalaia fiel, pois alertava os filhos de Israel dizendo: “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ). Mas, como não atendiam e nem entendiam a palavra do Senhor, foi derramado sobre Israel a indignação da ira de Deus “Mas este é um povo roubado e saqueado; todos estão enlaçados em cavernas, e escondidos em cárceres; são postos por presa, e ninguém há que os livre; por despojo, e ninguém diz: Restitui. Quem há entre vós que ouça isto, que atenda e ouça o que há de ser depois? Quem entregou a Jacó por despojo, e a Israel aos roubadores? Porventura não foi o SENHOR, aquele contra quem pecamos, e nos caminhos do qual não queriam andar, não dando ouvidos à sua lei? Por isso derramou sobre eles a indignação da sua ira, e a força da guerra, e lhes pôs labaredas em redor; porém nisso não atentaram; e os queimou, mas não puseram nisso o coração” ( Is 42:22 -25).

Quando Jesus veio, anunciou que a Sua missão era dar vista aos cegos. Os fariseus, por sua vez, questionaram se Jesus também estava dizendo que eles eram cegos. Se os fariseus reconhecessem que eram cegos, consequentemente se arrependeriam (metanoia) “E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos. E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:39 -41).

Daí o veredicto acerca dos fariseus: “Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” ( Mt 15:14 ).

Além de seguirem cada um por seu próprio caminho, os ‘pastores’ (cães cegos e mudos) que nada compreendiam sobre o que Isaias descreve, eram ‘loucos’, pois convocavam os seus adeptos a trazerem vinho para que juntos (profetas e povo) pudessem beber, ou seja, alegrarem-se. E qual o argumento da alegria? Que o dia de amanhã seria como o dia de hoje, ou muito melhor. Segundo a cegueira deles nada de ruim estava para acontecer ( Is 56:12 ).

Os falsos pastores embriagavam o povo com falsos discursos, dizendo que havia paz, porém, não havia paz! “Porquanto, sim, porquanto andam enganando o meu povo, dizendo: Paz, não havendo paz; e quando um edifica uma parede, eis que outros a cobrem com argamassa não temperada” ( Ez 13:10 ); “Nada sabem, nem entendem; porque tapou os olhos para que não vejam, e os seus corações para que não entendam” ( Is 44:18 ).

A cegueira dos filhos de Israel persistiu até a vinda de Cristo, a raiz de Davi “Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:41 ). Cristo é o sol nascente das alturas para iluminar os que jazem em trevas, mas os líderes de Israel permaneciam às cegas ao meio dia “Disse-lhes, pois, Jesus: A luz ainda está convosco por um pouco de tempo. Andai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:35 -36); “Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, Com que o oriente do alto nos visitou; Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:78 -79); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ).

Os líderes de Israel eram condutores cegos (cães mudos, atalaias cegos), pois não perceberam que a justiça anunciada por Deus se manifestou quando nasceu um menino em Belém da Judeia na casa de Davi. A sabedoria deles pereceu, pois quando anunciada a obra maravilhosa de Deus – Cristo a luz do mundo – não creram conforme previu o profeta Isaias “Portanto eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; porque a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá” ( Is 29:14 ).

Ao discursar na sinagoga de Antioquia da Pisídia, o apóstolo Paulo alertou os judeus (irmãos segundo a carne) a crerem em Cristo sob pena de se cumprir o predito por Habacuque “Seja-vos, pois, notório, homens irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê. Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, Obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” ( At 13:38 -41 ); “Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” ( Hc 1:5 ).

Além da punição iminente, as atalaias de Israel também precisavam ver e anunciar que a ‘salvação de Deus’ estava prestes a se manifestar ( Is 56:1 ). Os filhos de Israel precisavam distinguir a justiça manifesta na punição com deportação e exilio, da justiça de Deus que seria manifesta a todos os povos através da encarnação de Cristo, a raiz de Davi “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

 

A raiz de Davi

Cristo se identifica no Apocalipse como a raiz, a geração de Davi ( Ap 22:16 ), conforme profetizou Isaias: “PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” ( Is 11:1 -2).

Cristo é um rebento (filho) do tronco (casa, família) de Jessé, o renovo do Senhor que frutificou na casa (descendência) de Davi. É este mesmo Jesus que anuncia através do evangelista João no Apocalipse que é a raiz, a geração de Davi.

Crer que Jesus de Nazaré é o rebento do tronco de Jessé é o mesmo que crer que Ele é filho de Davi, por conseguinte, filho de Deus “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ). Ele é a luz que veio ao mundo para que os homens não andem em trevas, portanto, a resplandecente estrela da manhã “Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, com que o oriente do alto nos visitou; Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:78 -79).

 

Convite aos sedentos

Deus disse a Abraão: “E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz” ( Gn 22:18 ).

O apóstolo Paulo interpretou esta promessa feita a Abraão como uma previsão de que Deus havia de salvar os gentios, portanto, o evangelho foi anunciado a Abraão quando na incircuncisão da carne, ou seja, Abraão era um gentio da cidade de Ur dos Caldeus quando Deus lhe fez uma promessa “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

Após muito tempo da promessa feita a Abraão em que em seu descendente todas as nações da terra seriam benditas, Isaías profetizou convidando todos os sedentos a virem às águas, e os que não tinham com que comprar, que viessem e comprasse sem preço vinho e leite ( Is 55:1 ).

E o que era necessário para os ‘sedentos’ e ‘famintos’ participarem da água, do pão e do leite oferecido por Deus? Inclinar os seus ouvidos, atender o convite, e em consequência, obteriam vida, pois Deus concederia as firmes beneficências prometidas a Davi ( Sl 55:3 ).

E no que consistia a firmes beneficências prometida a Davi? Um descendente de suas entranhas que teria o seu reino estabelecido para sempre e edificaria uma casa ao nome do Senhor ( 2Sm 7:12 ).

Aos sedentos e famintos não seria dado água que saciam a sede cotidiana e nem pão que mata a fome cotidiana, antes seria dado um ente santo, o descendente prometido a Davi, pois Ele é a água que jorra para a vida eterna e o pão que quem se alimenta obtém vida eterna “E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 ); “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” ( Is 9:6 ).

Por causa da promessa feita a Abraão, um menino foi dado por testemunho aos povos ( Is 9:6 ), como príncipe e governador dos povos e um povo que não conhecia ao Senhor concorreria para Deus e para o Santo de Israel ( Is 55:5 ).

O capítulo 55 de Isaias é uma profecia acerca da salvação de Deus anunciada a todos os povos: o descendente de Davi por testemunho e príncipe dos povos ( Is 55:4 ).

Deus prometeu salvação a todos os povos por intermédio do descendente prometido a Davi e Israel estava despercebido, alheio a voz de Deus. Na plenitude dos tempos, quando Deus enviou Jesus para salvação de todos os homens, os judeus aguardavam somente uma salvação nacional.

Cristo veio na casa de Davi conforme o predito pelos profetas ( Rm 1:3 ), e o salmista Davi previu que um ajuntamento de malfeitores cercaria e traspassaria as mãos e os pés de Cristo. Estes malfeitores são descritos como cães: “Pois me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores me cercou, traspassaram-me as mãos e os pés” ( Sl 22:16 ).

O Salmo 59 também faz referência aos ‘cães’ nomeando-os como sanguinários, iníquos, pérfidos, pois armam ciladas para matar o Cristo ( Sl 58:4 ). Uma características dos cães que é evidenciada no salmo é a boca, demonstrando que sua língua é como espada entre seus lábios ( Sl 59:7 ) “Que afiaram as suas línguas como espadas; e armaram por suas flechas palavras amargas” ( Sl 64:3 ); “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ).

O Salmo 22 descreve os opositores do Cristo como leões que abrem a boca e ruguem ( Sl 22:13 ), demonstrando que a força deles é a ‘espada’ que tem na boca, ou seja, uma língua mentirosa e perversa “Livra a minha alma da espada, e a minha predileta da força do cão” ( Sl 22:20 ;  Sl 59:5 -7); “Para que o teu pé mergulhe no sangue de teus inimigos, e no mesmo a língua dos teus cães” ( Sl 68:23 ); “Uma flecha mortífera é a língua deles; fala engano; com a sua boca fala cada um de paz com o seu próximo mas no seu coração arma-lhe ciladas” ( Jr 9:8 ).

Cristo é o pão e a água que Deus ofereceu por intermédio do profeta Isaias a todos os sedentos e famintos, mas a nação de Israel o rejeitou ( Is 55:7 ; Jo 1:11 ).

 

Os cães

Quem são os cães? Na Antiga Aliança os ‘cães’ eram os líderes da nação, sacerdotes e profetas de Israel, homens que tinham a missão de anunciar a palavra de Deus ao povo, porém, não anunciavam. Nos dias do Senhor Jesus aqui na terra os ‘cães’ remetia aos príncipes, sacerdotes, fariseus, escribas e juízes de Israel, que perseguiram e mataram o príncipe da vida. Em nossos dias os ‘cães’ são os maus obreiros, líderes religiosos que transtornam a verdade do evangelho ( Gl 1:7 ).

Ao utilizar o termo ‘cães’, o apóstolo Paulo conserva intacta a essência da figura, aplicando-a aos falsos mestres, no caso específico dos cristãos em Filipos, aos da circuncisão.

Os mestres da circuncisão eram atalaias cegas e que nada sabiam. Cães mudos que não ladravam. Eles estavam adormecidos e deitados, famintos e insaciáveis.

Enquanto a alegria dos cães está no vinho em que há contenda (afastamento da palavra de Deus), o apóstolo Paulo recomenda aos cristãos se alegrarem no Senhor “Quanto ao mais, irmãos meus, regozijai-vos no Senhor…” ( Fl 3:1 ). Ora, os fariseus eram denominados ‘insensatos’, ‘loucos’ e ‘cegos’ por não compreenderem a vontade de Deus, visto que estavam embriagados com vinho. Mas, aqueles que são cheios do Espírito não são insensatos, pois entendem a vontade do Senhor “Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” ( Ef 5:17 -18).

Daí a ordem expressa: “Guardai-vos dos cães, guardai-vos dos maus obreiros, guardai-vos da circuncisão” ( Fl 3:2 ).

Qualquer atalaia, profeta, ministro, etc., que anuncie uma mensagem que não é conforme o evangelho de Cristo é um ‘cão mudo’, ‘um mau obreiro’.

Há várias descrições dos maus obreiros nas cartas dos apóstolos que nos remente às mesmas características dos ‘cães’ apresentado pelo profeta Isaias: gulosos e que não se fartam ( Is 56:11 ). Geralmente os apóstolos se referiam aos maus obreiros através de algumas características dos cães mudos, e todas elas aplicam-se aos maus obreiros:

  • Gulosos que não se fartavam;
  • Pastores que nada compreendem;
  • Cada qual segue seu próprio caminho: a ganância.

Ora, os opositores do evangelho, na época dos apóstolos, se diziam mestres da lei, porém, a própria escrituras depunham contra eles dizendo que estavam de olhos vedados para não ver e nem entender (pastores que nada compreendem) “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ; Is 44:18 ).

O apostolo Paulo teve que deixar Timóteo em Éfeso com a incumbência de dissuadir qualquer que se propunha a ensinar outra doutrina que não o evangelho, nem que se ocupasse com fábulas (filosofia grega) ou genealogias (judaísmo) ( 1Tm 1:6 ). Isto porque alguns se desviaram de obedecer (amor) ao evangelho (mandamento) e se entregaram a discursos vãos ( 1Tm 1:5 ).

Ao escrever aos Romanos o apostolo alerta que tais homens serviam ao seu próprio ventre (cães gulosos), enganando com suaves palavras e lisonjas os incautos “Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” ( Rm 16:18 ).

A descrição dos ‘cães’ é apresentada aos filipenses no verso 19 do capítulo 3: “Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” ( Fl 3:19 compare com Cl 3:1 ). Por estarem a serviço do próprio ventre, tais homens têm o seu foco somente em questões terrenas.

Estes falsos mestres não passam de ‘mercenários’, ‘cães gulosos’, pois apascentam a si mesmos “Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas” ( Jd 1:12 ).

Em lugar de pensarem nas coisas que são de cima, os cães fixam-se nas coisas terrenas. O deleite deles não é o mandamento do Senhor, e sim o engano “Recebendo o galardão da injustiça; pois que tais homens têm prazer nos deleites quotidianos; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em seus enganos, quando se banqueteiam convosco” ( 2Pd 2:13 ).

Enquanto o apóstolo Paulo se resignava a anunciar somente o que os profetas disseram, os maus obreiros vão além do que está escrito. Observe o posicionamento do apóstolo Paulo:

“Por isso, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. Antes anunciei primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalém, e por toda a terra da Judéia, e aos gentios, que se emendassem e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas de arrependimento. Por causa disto os judeus lançaram mão de mim no templo, e procuraram matar-me. Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer, Isto é, que o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dentre os mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios” ( At 26:19 -23).

Os maus obreiros contemporâneos dos apóstolos anunciavam que, se os cristãos não se circuncidassem segundo o costume de Moisés, não poderiam ser salvos ( At 15:1 ). Outros anunciavam que não havia ressurreição dos mortos ( 1Co 15:12 ). Outros anunciavam que Jesus não veio em carne ( 2Jo 1:7 ).

No meio do povo de Israel havia falsos profetas, e hoje, no meio dos irmãos, há os falsos mestres, pessoas que anunciariam encobertamente heresias de perdição. São indivíduos que negando a Cristo ou negando a eficácia da sua obra na cruz do calvário, trazem sobre eles perdição. Estes falsos mestres são seguidos por muitos, consequentemente o evangelho é blasfemado e, por avareza, arrebanham seus seguidores para lucrar como se fossem mercadorias ( 2Pe 2:1 -3).

Sobre estes obreiros maus alertou o apóstolo Paulo de que eles não serviam ao Senhor, mas ao seu próprio ventre, enganando os incautos com suaves palavras e lisonjas “Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” ( Rm 16:18 ); “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” ( Tt 1:10 -11).

O apóstolo Paulo rogou aos cristãos que identificassem aqueles que promoviam dissensões e escândalos contra o evangelho de Cristo para que os cristãos se desviassem deles ( Rm 16:17 ).

A tônica da mensagem dos ‘cães’ é fé em Deus, nos anjos, nos profetas, no milagre, na vitória, etc., porém, negam que Jesus é o Cristo ou a eficácia da obra vicária. Jesus mesmo disse: – “Credes em Deus, crede também mim” ( Jo 14:1 ); “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ).

Os obreiros fraudulentos negam a eficácia da obra de Cristo quando pedem dinheiro para o crente ser abençoado, pois os apóstolos enfatizavam que os cristãos já são abençoados com todas as bênçãos espirituais ( Ef 1:3 ). Sob o pretexto de ‘buscar a Deus’, não ensinam que os cristãos são templo, morada do Altíssimo.

Geralmente fazem dos seus seguidores presa, alegando que o crente ‘busca’ a Deus nos momentos que estão reunidos cantando, orando ou jejuando. Na verdade, quando o crente crê em Cristo, a barreira de separação foi desfeita, e o crente tem acesso perene a Deus pelo corpo de Cristo, de modo que está assentado nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 1:3 ).

Só crê em Deus aquele que crê no Filho, pois o testemunho de Deus é acerca do Seu Filho ( Jo 3:33 ; 1Jo 5:10 ).

Somente acreditar que Deus existe não muda a condição do homem diante d’Ele, pois é necessário crer em Cristo. Acreditar na existência de Deus sem crer no testemunho que Ele dá de seu Filho não resulta em salvação. Quando não se crê que Jesus é o Cristo está negando a Deus através das obras, pois a obra de Deus é que se creia em Cristo ( Jo 6:29 ).

É por causa dos judaizantes que diziam conhecer a Deus que o apóstolo Paulo diz que negavam com as obras, pois não confessavam a Cristo, o único meio de se conhecer a Deus Confessam que conhecem a Deus, negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ). Quem crê em Cristo é porque observou a lei da liberdade e nela persevera ( Tg 1:25 ), ou seja, é fazedor da obra, diferente daqueles que dizem ter fé em Deus, mas não tem as obras. A fé em Deus pode salvar alguém sem que creia que Jesus é o Cristo? “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” ( Tg 2:14 ).

O apóstolo João abordou este mesmo aspecto de quem diz ter fé, mas não tem a obra quando evidenciou que alguns diziam conhecer a Deus (tem fé), mas que não guardavam o seu mandamento (obra). De nada adianta dizer conheço a Deus e não crer que Jesus é o Cristo ( 1Jo 2:4 e 1Jo 3:23 )

Alguém que se diz obreiro e não confessa a Cristo, não está qualificado para ser ministro do evangelho. É reprovável e desqualificado para o evangelismo quem não crê que Jesus é o Cristo. ‘Toda boa obra’ consiste em anunciar Cristo, pois como crerão se não há quem pregue e, como pregarão se não forem enviados? É através da pregação da fé (evangelho) que Deus nos fez participante do corpo de Cristo, e através do corpo de Cristo (obreiros fiéis à palavra da verdade) que Deus roga ao mundo que se reconciliem com Ele crendo em Cristo ( 2Co 5:20 ).

A ‘boa obra’ é plena (toda) quando se anuncia e alguém crê. O evangelho é de fé em fé, ou seja, deve ter seu curso completo. Quem anuncia deve entender e, para entender é imprescindível ouvir e experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” ( Mt 13:19 ); “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pd 2:2 ); “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pd 1:7 ); “Alcançando o fim da vossa  fé, a salvação das vossas almas” ( 1Pd 1:9 ).

O apóstolo Pedro, ao enfatizar a essência do ensinamento do apóstolo Paulo, que era aguardar novos céus e nova terra, deixa claro que muitos homens indoutos e inconstantes torciam o que o apóstolo Paulo escreveu, bem como as Escrituras ( 2Pe 3:16 ), por causa destes homens, cada cristão tem a incumbência de se guardarem do engano destes homens perversos.

Para identificar maus obreiros (cão), basta observar que tais homens tem prazer em ajuntar tesouros na terra, tem prazer nos deleites quotidianos, e não na lei do Senhor ( Sl 1:2 ). Eles buscam o ajuntamento solene somente para angariar prestigio, poder político, fama, posição, dinheiro, etc., e fazem proliferar as suas mistificações ( 2Pe 2:13 ; Jd 1:12 ).

Sobre estes homens ímpios deixou registrado o irmão Judas que são pastores que se apascentam a si mesmos, ou seja, cães gulosos. Estes são manchas nas festas ágapes, homens sem recato algum.

São descritos como nuvens sem água, pois oferecem uma esperança vazia. São árvores desprovidas de frutos e desarraigadas, duplamente mortas, ou seja, não ligado a videira verdadeira ( Jo 15:4 ).

São comparáveis às ondas do mar, espumando suas próprias sujidades, conforme profetizou Isaias ( Is 57:20 ). São murmuradores, queixosos, andam segundo suas concupiscências, são arrogantes e bajulam as pessoas por interesse ( Jd 1:16 ).

São exercitados na avareza, pois deixam a Cristo e seguem o mesmo caminho de Balaão, filho de Beor, que seguiu um caminho perverso e a muda jumenta se lhe opôs ( Nm 22:32 ).

Os falsos profetas usam a tática de fascinar com concupiscências da carne e dissoluções aqueles que tentam se afastar do erro. Prometem liberdade, porém, são servos da corrupção ( 2Pe 2:18); “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 ; Jr 23:16 ).

O conhecimento de Cristo é o que traz liberdade da corrupção que há no mundo ( Is 53:11 ). O conhecimento de Deus indica ao homem qual é o caminho da justiça, porém, os falsos mestres induzem os homens a desviarem do santo mandamento dado por Deus: que creiais naquele que Ele enviou! ( Is 53:11 ; Sl 118:20 )

Aqueles que falam mentiras segundo uma consciência cauterizada, que disseminam doutrinas de demônios ( 1Tm 4:1 ), que proíbem o casamento, ordenam a abstinência de alimentos, propõem fábulas profanas e de velhas, etc. também são cães, são maus obreiros ( 1Tm 4:3 ).

As doutrinas dos cães se baseiam em proibições tais como: não proves, não manuseies, não toques. Destas proibições surgem os julgamentos por causa de comidas, bebidas, vestimentas, festas, dias, etc. O que na lei era sombra da realidade e que foi transtornado por preceitos e ensinamentos de homens é apresentado como aparência de sabedoria, culto espontâneo, humildade (fingida), severidade para com o corpo, etc. “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” ( Mt 15:9 ; Cl 2:16 -23).

O apostolo Paulo escreveu a Tito lembrando que outrora todos eram insensatos (loucos), desobedientes e perdidos (extraviados). Ora, o apóstolo Paulo era judeu, fariseu, irrepreensível segundo a justiça da lei, e excedia em judaísmo a muitos da sua idade por ser zeloso das tradições, entretanto, ele se inclui no rol dos que outrora eram loucos, desobedientes e extraviados, a serviço da concupiscência e deleites “E na minha nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais” ( Gl 1:14 ; Fl 3:6 ). Os termos: ‘louco’, ‘desobediente’ e ‘extraviado’ etc., são utilizados para apontar para os filhos de Israel, visto que lhes falta conhecimento de Deus ( Sl 53:1 -4; Dt 32:6 e 28; Rm 10:2 ).

Por ignorância os judaizantes se opunham ao evangelho de Cristo, e apresentavam questões loucas, genealogias, contendas, debates acerca da lei, etc. ( Tt 3:9 ; 1Pd 2:5 ; 1Tm 1:13 ; Tt 3:1 -2).

As concupiscência e deleites dos falsos mestres de hoje centram-se em questões desta vida, principalmente com relação às riquezas, pois fazem dos seus seguidores negócio ( 2Pd 2:3 ) e aguçam a ambição destes ( 1Tm 6:5 ).

Nas exposições dos falsos mestres não se ouve dizer que os que vivem de acordo com o evangelho padecem perseguições ( 2Tm 3:12 ); nem se ouve que o crente deve se gloriar nas fraquezas, injurias, necessidades, perseguições, angustias, etc. ( 2Tm 3:12 ; 2Co 12:10 ; 1Pd 4:13 ); jamais evidenciam que as aflições por causa do evangelho se dão com todos os cristãos no mundo ( 1Pe 5:9 ). O tema de suas pregações não tem por alvo as coisas de cima, mas as da terra ( Cl 3:1 ; Fl 3:19 ).

Os ‘cães’ jamais tocam no assunto de que ‘grande lucro’ é o evangelho com contentamento ( 1Tm 6:6 ). Não ensinam que tendo sustento e com o que se cobrir já é motivo de contentamento, e jamais recomendam aos seus seguidores que se acomodem as coisas humildes ( Rm 12:16 ). Não alertam seus seguidores que se traspassam com muitas dores (trabalho) os que querem ficar ricos e naufragam e ruina e perdição.

Apesar do posto de obreiros, ficarão de fora, porque são cães.

 

Não podem entrar

Há um paralelo entre as passagens bíblicas:

“Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:15 ), e;

“Aquele que não nascer de novo” ( Jo 3:3 ).

‘Quem não nascer de novo’ não pode ver o reino de Deus assim como ‘os cães’ por não terem direito à árvore da vida não podem entrar na cidade pelas portas, logo, ‘os cães’ é figura que remete a quem não está em Cristo, ou seja, não é nova criatura.

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 );

“Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas. Ficarão de fora os cães…” ( Ap 22:14 -15)

Há cães que, como os judaizantes, nunca compreenderam o evangelho de Cristo, e se posicionam como mestres Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ). Porém, há cães que, estavam no meio dos cristãos e se afastaram da verdade “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós” ( 1Jo 2:19 ).

É por causa dos apóstatas que foi dado o alerta: Não ameis o mundo ( 1Jo 2:15 ), como se deu com Demas “Porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para Tessalônica, Crescente para Galácia, Tito para Dalmácia” ( 2Tm 4:10 ).

 

O que é necessário para entrar no céu?

Encontramos na Bíblia diversas passagens que demonstram o que é necessário para o homem entrar no reino dos céus, no entanto, a assertiva: – “Ficarão de fora os cães”, aguça a curiosidade por causa da figura utilizada.

É necessário nascer de novo para entrar no reino dos céus, portanto, a passagem bíblica que estabelece que os cães, os feiticeiros, os que se prostituem, etc., ficarão de fora, não deve causar preocupação aos que nasceram de novo “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ). Basta nascer de novo e permanecer crendo na mensagem do evangelho.

A figura dos ‘cães’ que ficarão de fora é intrigante, porém, a qualquer que não nascer de novo é igualmente vetado entrar no reino dos céus. Se, quem não nascer de novo não pode entrar no reino, e os cães ficarão de fora, as duas passagens bíblicas deveriam despertar a curiosidade “Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

A curiosidade não pode ficar somente na pergunta: – “Quem são os ‘cães’?”, antes deve ir além: – “Por que ficará de fora”? Neste sentido, a pergunta maior deveria ser: – “Por que o homem não pode ver o reino de Deus”?

O mesmo Jesus que disse que ‘os cães ficarão de fora da cidade’, também disse que ‘quem não nascer de novo não pode ver o reino dos céus’! Enquanto a passagem de Apocalipse diz que os ‘cães’ ficarão de fora, a passagem do evangelista João diz que o homem não entrará no reino dos céus, a não ser que nasça de novo!

O reino dos céus também é vetado aos que não tiverem obras superiores à dos escribas e fariseus, e não causa tanta curiosidade, mas a expressão ficarão de fora os ‘cães’, os ‘feiticeiros’, ‘os que se prostituem’, etc., causa grande impacto pela figura utilizada: cães “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Desde já gostaríamos de acalmar os ‘ânimos’ de quem receia fazer parte do grupo dos que ficarão de fora, pois se você crê que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, você adquiriu o direito à árvore da vida e pode entrar na cidade pelas portas “Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas” ( Ap 22:14 ); “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” ( Jo 3:36 ).

Por que basta crer em Cristo para ter vida eterna? Porque quem crê nas palavras de Cristo crê em Deus, pois as Escrituras são testemunho vivo que Deus deixou acerca do seu Filho “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” ( Jo 5:24 ).

Esta é a obra de Deus: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Este é o mandamento que o homem deve guardar para que tenha direito à árvore da vida “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ); “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou. Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia. Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:44 -50).

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Manso e humilde de coração

No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai  “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai…” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.


Introdução

Deparei-me com a seguinte máxima estampada em uma rede social atribuída a um pastor: “Humildade é aquela virtude que, quando você percebe que a tem, já a perdeu”  Andrew Murray. A frase parece resumir uma ideia grandiosa e completa em si mesma, mas a ideia se sustenta à luz das Escrituras?

Andrew Murray foi um pastor que teve o seu ministério eclesiástico influenciado pelo pai, um pastor vinculado à Igreja Presbiteriana da Escócia, que, por sua vez, mantinha estreita relação com a Igreja Reformada da Holanda. Como pastor, Murray é caracterizado no meio cristão como alguém que possuía uma profunda e ardente espiritualidade. Pelos idos de 1877, Murray fez inúmeras conferências acerca do tema santidade. Ele era adepto de uma teologia conservadora, opondo-se ao liberalismo, enfatizando em seus escritos a necessidade de uma consagração integral e absoluta a Deus através da oração e da santidade.

Como a frase foi proferida pelo Pr. Murray e sintetiza uma espécie de louvor à humildade, muitos cristãos abraçam o conteúdo da frase como verdade, porém, vejo a necessidade de analisa-la à luz das Escrituras.

Considerando que o Senhor Jesus apresentou-se como ‘manso’ e ‘humilde’ de coração, e comparando com a ideia exposta na frase do Pr. Murray, temos a seguinte interrogação: Jesus deixou de ser humilde quando afirmou ser manso e humilde?

Se ‘humildade é uma virtude que, quando se percebe que se tem, já perdeu’, o que dizer de Cristo quando afirmou ser manso e humilde de coração? Considerando a frase do Pr. Murray como verdadeira, teríamos que concluir que Jesus perdeu a humildade por entender e declarar ser humilde.

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 )

Se admitirmos que o pastor Andrew foi verdadeiro em sua asserção, teremos que admitir que, naquele instante o Senhor Jesus deixou de ser humilde, por conseguinte, também faltou com a verdade.

Se admitirmos que Cristo falou a verdade, ou seja, que o seu coração realmente era manso e humilde, temos que admitir que o Pr. Murray se expressou de modo equivocado.

Cristo é a verdade, e as Escrituras dão testemunho de que nunca houve engano em sua boca, portanto, não dá para aceitar que seja uma expressão verdadeira a frase atribuída ao Pr. Andrew Murray.

“E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” ( Is 53:9 );

“O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pe 2:22 ).

A comparação acima evidencia o perigo em aceitar como verdadeiras frases de efeito, sem analisar a ideia à luz das Escrituras.

Para analisar a frase, ou o pensamento à luz das Escrituras, você precisa dispor de conhecimento bíblico. Existe a necessidade de você estar alimentado com sólido alimento, pois o sólido alimento é o que torna o cristão apto a distinguir tanto o bem quanto o mal, como se lê: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ).

 

Humildade

Quando Jesus se apresentou dizendo: – ‘Sou manso e humilde de coração’, o termo grego traduzido por humilde é ‘ταπεινος’, transliterado ‘tapeinos’.

Humilde –“5011 ταπεινος tapeinos de derivação incerta; TDNT – :1,1152; adj 1) que não se levanta muito do chão 2) metáf. 2a) como uma condição, humilde, de grau baixo 2b) abatido pela tristeza, rebaixado, deprimido 2c) humilde de espírito, humilde 2d) num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão” Dicionário Bíblico de Strong.

“ταπεινος (tapeinos), primariamente “aquilo que é baixo e não sobe muito do chão”, como na Septuaginta em Ez 17.24. daí, metaforicamente, significa “humildemente, de nenhum grau” (2 Co 10.1; cf. Lc 1.52; Tg 1.9). Contraste com os termos tapeinophrosune, “humildade de mente”, e tapeinoõ, “humilhar”” Dicionário VINE

Um dicionário secular apresenta as seguintes definições:

Humilde – “adj. Que tem ou aparenta humildade, que se diminui voluntariamente: uma criatura humilde. Que denota respeito, deferência. Medíocre, baixo, obscuro: exercer funções humildes. (Usa-se como expressão de modéstia e civilidade: sou seu humilde criado.) S.m. Pessoa humilde: sempre protegeu os humildes” Dicionário online de português <http://www.dicio.com.br/humilde/>.

Naquele momento Jesus não estava falando da sua aparência física, não estava se diminuindo voluntariamente e nem estava falando das mazelas decorrentes da sua condição social ou econômica como carpinteiro. Não! Ele foi específico: – “Sou manso e humilde de coração”.

Quando Jesus declarou ser manso e humilde não estava se apresentando como alguém respeitoso, nem estava emocionalmente triste ou exercendo uma função medíocre. Não!

Quando Jesus disse ser manso e humilde estava exigindo que os homens se sujeitassem a Ele na condição de servos.

As definições de humilde que constam no dicionário online de português não se encaixam na exposição de Cristo, até porque Ele não esta se diminuindo, ou sendo respeitoso, antes estava exigindo sujeição (diminuíssem) a Ele.

Considerando o exposto no Dicionário Bíblico de Strong, vale destacar que Jesus não estava falando de suas emoções e sentimentos, como se estivesse triste, abatido, deprimido, etc., ou de sua condição socioeconômica: pobre, oprimido, etc. Ele também não está se apresentando como alguém que ‘não se levanta muito do chão’, no sentido de condição modesta e nem como alguém que foi abatido, humilhado.

Na verdade, ao se apresentar como ‘manso e humilde de coração’, Cristo reivindicou seu senhorio, dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim…” ( Mt 11:29 ). Jesus enfatiza que é necessário tomar sobre si o seu jugo e carregar o seu fardo ( Mt 11:30 ).

No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai  “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai…” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.

Quando Jesus diz: ‘todas as coisas me foram entregues por meu Pai’, estava se apresentado como o Filho de Deus prometido a Davi, o rebento da raiz de Jessé ( Is 11:1 -4 ; 2Sm 7:14 ).

Resta considerar um último sentido do termo apontado por Strong: ‘num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão’. Ora, Jesus não era alguém que se comportava de modo humilhante, subserviente. Não encontramos nas Escrituras Jesus se submetendo aos homens, quem quer que eles fossem ( Mc 12:14 ; Lc 13:32 ).

Para Strong humilhar-se no mau sentido é ‘submeter-se à servidão’, mas, se olharmos para as profecias acerca do Cristo, veremos que Ele foi escolhido por Deus para ser o servo do Senhor ( Is 49:1 -6). Cristo foi nomeado ‘o Sevo do Senhor’ quando foi dito: – “Tu és o meu servo” ( Sl 49:3 ). Cristo foi formado desde o ventre para ser servo, com a missão de trazer a casa rebelde (Jacó) a Deus e ajuntar a nação escolhida (Israel). Mas, Deus não restringiu a missão de Cristo, pois ela não se limitou à casa de Israel: Cristo também foi dado por Deus como Luz para os gentios ( Is 49:6 -7).

Analisando o termo ‘humilde’ com a visão do homem do nosso tempo, é compreensível a concepção de que há um mau sentido no termo ‘humilde’ por estar associada à escravidão, à crueldade do ser humano, porém, é possível considerar que há um ‘mau sentido’ quando o termo é utilizado para indicar que o homem submeteu-se a Deus?

Vale destacar que consta nos profetas que Deus fez menção do Cristo desde a fundação do mundo. Cristo foi colocado na aljava de Deus como uma flecha limpa e fez a boca d’Ele como uma espada aguda. Flecha na aljava aponta para a filiação divina do Cristo ( Sl 127:4 -5).

Deus concede apenas aos filhos o privilégio de servirem a Ele. Ser servo de Deus é honroso, de modo que não cabe ao termo ‘humildade’ um mau sentido quanto a ser servo de Deus. O mau sentido de ‘humildade’ decorre dos eventos recentes na historia da humanidade “Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus” ( 1Pd 2:16 ).

Acerca de Cristo profetizou Davi: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:6 -8; Hb 10:5 -10).

Apesar das variantes nas traduções: a) ‘os meus ouvidos abriste’, e; b) ‘corpo me preparaste’, o Salmo descreve a submissão voluntária do servo do Senhor à vontade de Deus. Cristo é o servo eleito de Deus, e o Salmista descreve esta sujeição através de uma prescrição na lei de Moisés, pois o escravo que ganhava a liberdade e que quisesse continuar sujeito ao seu senhor teria a ‘orelha furada’ pelo seu senhor diante dos lideres do povo (à porta). Temos aí a figura do servo voluntário, que se sujeita ao seu senhor porque o ama e se sente bem “Então tomarás uma sovela, e lhe furarás a orelha à porta, e teu servo será para sempre; e também assim farás à tua serva” ( Dt 15:17 ).

Ao apresentar-se como manso e humilde, Jesus não estava falando acerca do que estava sentido, antes estava apontando para a sua condição. Quando Ele disse: Sou manso e humilde de coração, estava dizendo, eu sou o Servo do Senhor enviado de Deus conforme a predito nas Escrituras.

Jesus foi comissionado a ensinar aos homens as coisas de Deus, e como servo resignou-se a falar somente o que o Pai estabeleceu nas Escrituras sem nada acrescentar ou diminuir “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ); “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada” ( Jo 8:28 -29).

O termo ‘humilde’ na fala de Jesus aponta para a condição dele como servo, no sentido de quem ‘se submete à servidão’. Segundo a visão do homem da antiguidade não há como considerar um mau sentido em ser ‘humilde’, ou seja, ser ‘servo’ de Deus. Sujeitar-se a Deus é uma honra, e estar a serviço de Deus é uma honra que ninguém toma para si se não for chamado “E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” ( Hb 5:4 ; Is 49:3 ).

A missão do servo do Senhor era proclamar a mensagem que dá descanso e refrigério a alma “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ); “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ).

Por intermédio de quem Deus daria descanso. Por intermédio de Cristo, a pedra provada, bem firme e fundada. Por intermédio de Cristo, o servo eleito, a paz foi concedida a todos os homens “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7); “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ).

Cristo é o servo do Senhor por sujeitar-se de coração à vontade do Pai: “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ); “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ); “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” ( Hb 10:9 ).

Cristo é o servo do Senhor no qual Deus teve prazer ( Is 42:1 ; Mt 3:17 ), porque Ele se resignou a fazer a vontade de Deus em todo o tempo “Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” ( Lc 22:42 ).

O termo ‘humilde’ não se refere a uma questão de foro íntimo, pessoal, subjetivo, antes aponta para algo objetivo. A humildade decorre da sujeição a um mandamento, o mesmo que submissão, obediência, fidelidade. Sem a ordem, sem o mandamento, sem a figura do senhor que ordena, não há humildade “Sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa” ( Hb 3:2 ).

A exortação para dar o seu melhor para Deus não contempla a humildade de Jesus, antes exalta a voluntariedade dos homens. O voluntarioso é altivo, é aquele que anula a vontade do Senhor expressa no mandamento e que realiza a própria vontade sob o argumento de que está servindo, como foi o caso do rei Uzias, que ousou entrar no templo e oferecer holocausto a Deus. Agiu guiado por intuição (carnal compreensão).

Obstinado – “authades (aúôriòriç), “que agrada a si mesmo” (formado de autos, “mesmo, próprio”, e hedomai, “agradar”), denota aquele que, dominado por interesse pessoal e em desconsideração de outros, afirma arrogantemente a própria vontade, “obstinado, rebelde, voluntarioso” Dicionário VINE.

Os filhos de Arão, Nadabe e  Abiú experimentaram as consequências da altives quando ofereceram fogo estranho ao Senhor e foram rejeitados: “E OS filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o SENHOR, o que não lhes ordenara” ( Lv 10:1 ); “Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso” ( 2Cr 26:16 ).

A forma em que Davi fez a condução da arca da aliança exala a voluntariedade, o que trouxe a punição divina, mas a correção de atitude segundo a lei é submissão: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” ( 2Sm 6:9 ).

Ao despir-se da sua gloria para ser introduzido no mundo, no Verbo de Deus houve prontidão de vontade, pois tinha autonomia de fazê-Lo. Mas, após se fazer homem, ou seja, achado na forma de servo, o Verbo eterno não foi voluntarioso propondo sacrifício ou oferta a Deus ( Hb 10:5 ; Hb 5:4 -5), antes resignou-se a obedecer tudo o que foi prescrito pelo Pai ( Hb 10:9 ).

Fl 2.7-8

A obediência é sacrifício agradável, é a disposição em resignar-se a cumprir a determinação de Deus. Para compreendermos o valor da obediência e do voluntarioso, é necessário observar o crente Abraão quando teve que apresentar o seu único filho em holocausto em obediência a Deus. Abraão não queria sacrificar o seu único filho, mas seguiu para o monte Moriá em obediência. O que estava sendo posto à prova no holocausto de Isaque era a obediência de Abraão, e não a sua voluntariedade “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

Voluntariedade é uma disposição do homem em agradar a Deus através do que possui ou representa, mas o homem só agrada a Deus quando obedece à sua palavra. É Deus quem estabelece o que é agradável a Ele.

A humildade é condição de quem se sujeita ao Senhor como servo:

“Isto está claro em passagens como o Sl 86, onde Davi confessa que, embora ele seja o rei de Israel, ele é humilde (santo) e que, embora desfrute das riquezas do reino, ele é necessitado (confia em Deus). Com base nestas condições espirituais, ele ora pela resposta do concerto de Deus: “Guarda a minha alma, pois sou santo; ó Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia” (Sl 86.2). As bênçãos buscadas são eternas (Sl 86.11-13) e temporais (Sl 86.14-17)” Dicionário VINE.

Embora a identificação do paralelismo seja perfeita, contudo a observação de Vine não se refere ao rei Davi, antes o Salmo 86 é messiânico, uma profecia acerca do filho de Davi – Cristo.  Como rei na sua primeira vinda, Cristo é o pobre (humilde) e necessitado (confia em Deus).

A condição ‘pobre’ e ‘necessitado’ não é de bens materiais. São figuras extraídas da lei, pois Deus deixou a sua casa como abrigo dos pobres e necessitados ( Dt 26:12 ), referência de socorro e subsistência. Os termos apontam para aquele humilde (separado como servo) porque é necessitado (confia em Deus).

O servo (humilde) é santo (fiel) e pede que o seu Senhor guarde a sua alma, livrando-a do poder da morte ( Sl 86:13 ).

 

Manso

Semelhantemente, na declaração: ‘Sou manso e humilde de coração’ o termo ‘manso’ na frase em comento não é uma questão de foro íntimo, subjetiva, antes possui valor objetivo. A ‘mansidão’ de Cristo não decorre da relação com o próximo, mas da relação entre Ele e o Pai.

“praütes ou p ra o /e s, forma mais antiga (TTpaúrriç ou Tipaoníç) denota “mansidão”. Em seu uso na Escritura, no qual tem um significado mais extenso que nos escritos gregos seculares, não consiste só no “comportamento exterior da pessoa; nem ainda em suas relações para com o próximo; tampouco na sua mera disposição natural (…) está relacionado de perto com a palavra tapeinophrosune [humildade], e resulta diretamente dela (E f 4.2; Cl 3.12; cf. os adjetivos na Septuaginta em S f 3.12, ‘humilde e pobre’); […] é somente o coração humilde que também é manso, e o qual, como tal, não luta contra Deus e mais ou menos se debate e combate com Ele (…) O significado de praütes “não é expresso prontamente em nosso idioma, pois os termos mansidão, brandura, comumente usados, sugerem fraqueza e pusilanimidade em maior ou menor extensão, ao passo que praütes não diz nada disso. Não obstante, é difícil encontrar uma tradução menos aberta à objeção que ‘mansidão’; gentileza’ foi sugerido. Mas como praütes descreve uma condição da mente e coração, e visto que ‘gentileza’ é apropriada preferivelmente para ações, esta palavra não é melhor que a outra. Deve ser entendido claramente que a mansidão manifestada pelo Senhor e recomendada para o crente c o fruto de poder. A suposição comum é que quando o homem é manso, é porque ele não pode se ajudar; mas o Senhor era ‘manso’ porque Ele tinha os recursos infinitos de Deus à Sua disposição” Dicionário VINE.

Da relação, Senhor e Servo estabelecida entre o Pai e o Filho, decorre a condição ‘manso’ do Filho, e como Deus quer salvar todos os homens, a submissão do servo proporciona aos homens a graça da redenção.

Competia ao Servo do Senhor substituir a desobediência de Adão pela obediência para que, pela obediência do Servo do Senhor, muitos possam ser feitos justos “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Para compreender a declaração de Cristo, vale destacar novamente que, no contexto, Jesus havia acabado de declarar que ‘Todas as coisas me foram entregues pelo meu Pai’. A qualidade de ‘manso’ se dá pelo poder investido pelo Pai no Filho, o Servo que se sujeitou a vontade do Pai em tudo “Sairei na força do Senhor DEUS, farei menção da tua justiça, e só dela” ( Sl 71:16 ).

O Filho é manso mesmo quando propõe seu senhorio aos homens, ele é manso mesmo quando a sua linguagem parece ser rude, como se lê na parábola dos trabalhadores contratados em horários diferentes “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” ( Mt 20:15 ).

Só é possível compreender a declaração de Cristo como ‘manso’ quando se compreende a total sujeição de Cristo a Deus, mesmo Deus entregando todas as coisas a Cristo “Sou como um prodígio para muitos, mas tu és o meu refúgio forte” ( Sl 71:7 ).

O termo grego traduzido por ‘entregue’ é παραδιδωμι, transliterado paradidomi, significa:

“1) entregar nas mãos (de outro), 2) transferir para a (própria) esfera de poder ou uso, 2a) entregar a alguém algo para guardar, usar, cuidar, lidar” Dicionário Bíblico de Strong.

Ao convidar os homens sobrecarregados e cansados em decorrência de um jugo duro e do fardo pesado que levam, Jesus prometeu alivio aos que se sujeitam a Ele. O convite expressa o poder de um Senhor que oferece um jugo suave e um fardo leve aos seus servos. Ele demonstra ter o poder de livrar qualquer homem da opressão e do cansaço do jugo do pecado, desde que se submeta ao seu senhorio.

As Escrituras testificam de Cristo ( Jo 5:39 ), apresentando dois aspectos pertinente àquele que declarou: – “Sou manso e humilde de coração”: a) era o Servo do Senhor, porque se sujeitou a vontade do Pai ( Sl 40:8 ), b) e Rei, porque todas as coisas foram entregues a Ele pelo Pai;

O Servo do Senhor foi descrito por Isaias como prudente e, quando exaltado, elevado e mui sublime: rei “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” ( Is 52:13 ); “Aumentarás a minha grandeza, e de novo me consolarás” ( Sl 71:21 ).

Este mesmo Servo trouxe um conhecimento específico, de modo que demanda por parte dos homens aprenderem este conhecimento e, em contra partida, serem aliviados de suas iniquidades, pois o jugo e a carga que pesa sobre os homens, o Servo do Senhor levou sobre si “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

O conhecimento das Escrituras é imprescindível para que os homens entendam, assim como as criancinhas que estavam no templo, que Cristo é aquele que veio em nome do Senhor: – “Hosana ao que vem em nome do Senhor” ( Mt 21:15 ), e lembrar do profetizado por Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta” ( Zc 9:9 ). Diante deles não estava um profeta, mas o filho de Davi, o rei de Israel, o Filho de Deus ( Mt 16:13 -14).

É um equivoco considerar que Jesus era manso no sentido de possuir um gênio submisso aos homens. Ele era manso por enfatizar a autoridade do Pai como servo. A autoridade que viam em Jesus decorria do seu ensino e, diferente dos escribas que transtornavam o mandamento de Deus, Cristo cumpriu o mando do Pai “Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas” ( Mt 7:29 ); “E admiravam a sua doutrina porque a sua palavra era com autoridade” ( Lc 4:32 ).

O termo grego traduzido por manso é:

“4239 πραυς praus aparentemente, palavra primária, ver 4235; TDNT – 6:645,929; adj1) gentileza, bondade de espírito, humildade” Dicionário Bíblico de Strong

O termo hebraico traduzido por manso é:

“06035 anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT – 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico de Strong

A definição de ‘manso’ que consta dos dicionários não é o que Jesus enfatizou ao dizer: – “Sou manso e humilde de coração”. Cristo era ‘manso’ não no sentido de ser pobre, aflito, fraco, modesto, etc., mas em função da maneira em que, como Servo do Senhor cumpria a sua missão.

Os homens reputaram o Cristo como aflito e ferido de Deus, no entanto, o Cristo estava sendo manso, ou seja, não lançou mão das prerrogativas que possuía antes de ser encarnado, e nem antecipou as prerrogativas que receberia ao ser glorificado pelo Pai ‘… e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido’ ( Is 53:4 ).

O termo não deve ser compreendido do ponto de vista moral ou socioeconômico e nem como autocontrole.

No texto a seguir muitos veem autocontrole, mas nele fica estampada a obediência: “E aconteceu que, completando-se os dias para a sua assunção, manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém. E mandou mensageiros adiante de si; e, indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos, para lhe prepararem pousada, Mas não o receberam, porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém. E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia” ( Lc 9:51 -56).

A orientação de Cristo aos discípulos vai além da ideia de autocontrole, pois deveriam identificar, compreender, a que espirito pertenciam, portanto, deviam se ater à missão recebida “Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido” ( Mt 18:11 ).

Como servo do Senhor, Jesus é o majestoso salvador que cavalgou prosperamente pela causa da verdade, mansidão e da justiça, e como Ele punha a confiança em Deus, Deus ensinou a Ele coisas terríveis “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” ( Sl 45:4 ); “Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei” ( Sl 16:8 ).

Jesus era manso porque nada realizou entre os homens que promovesse uma glória própria. Apesar de o Pai entregar a Ele todas as coisas, tudo o que realizou visava a glória do Pai “Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei” ( Jo 12:28 ).

Cristo não promoveu a si mesmo buscando honra e glória ( Jo 8:50 ), tudo o que falou restringia-se ao mandamento que o pai determinou que falasse “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:49 -50).

Através do paralelismo antitético do provérbio: “Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos” ( Pv 16:19 ), em que ‘humilde de espírito’ é condição oposta a ‘soberbo’, verifica-se que o manso não visa lucro no exercício do seu mister, diferente dos soberbos querem o despojo “Por que, pois, não deste ouvidos à voz do SENHOR, antes te lançaste ao despojo, e fizeste o que parecia mau aos olhos do SENHOR?” ( 1Sm 15:19 ).

Apesar de ser herdeiro de todas as coisas e ter o poder de fazer todas as coisas assim como o Pai, Cristo abriu mão de qualquer ação autônoma “Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente” ( Jo 5:19 ).

Ser manso é ter o poder de realizar ou de se vingar, mas resignar-se a cumprir estritamente a vontade do seu Senhor. É ter à mão doze legiões de anjos, e não fazer uso do recurso por preocupar-se com a palavra do seu Senhor “Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” ( Mt 26:53 -54).

Ora, temos registrado nas Escrituras que Moisés foi o homem mais ‘manso’ da terra ( Nm 12:3 ). O termo manso (עָנָו anav) refere-se a um sentimento ou a uma virtude? O termo não aponta para questões do sentimento e nem da moral!

“Em sua primeira ocorrência a palavra descreve a condição objetiva como também a postura subjetiva de Moisés. Ele era completamente dependente de Deus e via o que era: ‘E era o varão Moises mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra’ (Nm 12.3)” Dicionário VINE.

“06035 עָנָו anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT – 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico Strong

Em nossos dias não é aprovado como manso um homem que lança mão de um homem para mata-lo ( Ex 2:12 ). Alguém gentil pode ser severo, pesado ao falar? ( Ex 4:10 ) Como o homem mais manso fica irado a ponto de arremessar e quebrar as tábuas dos mandamentos? ( Ex 32:19 )

As Escrituras designam Moisés como mui manso porque ele não defendia a sua causa ou posição, antes deixava a cargo de Deus defende-Lo. Por várias vezes o profeta Moisés foi desafiado por seus irmãos segundo a carne, e em nenhuma delas Moisés utilizou da autoridade concedida para vindicar a sua posição.

Miriam e Arão confabularam contra Moisés, e Deus interveio ( Nm 12:1 ). Eles até poderiam censurar Moisés por ter tomado para si uma mulher cusita, mas não tinham o direito de contestar o ministério e a autoridade de Moisés com base em uma questão familiar ( Nm 12:2 ); “A Deus não amaldiçoarás, e o príncipe dentre o teu povo não maldirás” ( Êx 22:28 ).

O povo revoltou-se contra Moisés e queriam eleger um líder que os conduzisse de volta ao Egito ( Nm 14:4 ). Moisés poderia se impor sobre o povo como líder, no entanto, ele se voltou para Deus se prostrando como servo ( Nm 14:5 ). Apesar de estar investido de poder sobre a casa de Deus, Moisés evidencia a força de Deus ( Nm 14:17 -19).

Coré, Datã e Abirão, juntamente com duzentos e cinquenta príncipes do povo, se opuseram a Moisés contestando a sua autoridade sob o argumento de que toda a congregação era santa ( Nm 16:3 ), e Moisés nada argumentou em seu favor. Apesar da ira que lhe sobreveio, porque nunca havia defraudado a nenhum dos filhos de Coré, Datã e Abirão ( Nm 16:15 ), deixou a cargo de Deus evidenciar quem era o escolhido para conduzir o povo ( Nm 16:28 ).

Por ser mui manso, Moisés fez com que os filhos de Israel apresentassem segundo o número de suas tribos doze varas. Após serem identificadas com os nomes das tribos, as varas foram deixadas de um dia para o outro na tenda da congregação, e no dia seguinte a vara de Arão havia florescido, as flores desabrocharam e produziam amêndoas ( Nm 17:8 ).

A Bíblia descreve Moisés como ‘mui’ manso. O termo hebraico traduzido por ‘mui’ é מְאֹ֑ד, significando:

“1) extremamente, muito subst. 2) poder, força, abundância n m 3) grande quantidade, força, abundância, extremamente 3a) força, poder 3b) extremamente, grandemente, muito (expressões idiomáticas mostrando magnitude ou grau) 3b1) extremamente 3b2) em abundância, em grau elevado, excessivamente 3b3) com grande quantidade, grande quantidade” Dicionário Strong.

Se comparado aos outros homens, Moisés era muito manso, e não foi nomeado ‘manso’, o que indicaria uma condição plena, porque certa feita, em lugar de obedecer a palavra do Senhor e falar a rocha, feriu a rocha duas vezes, de modo que não evidenciou ao povo quem lhes deu água a beber da rocha ( Nm 20:11 -12).

Cristo por sua vez apresenta-se manso e humilde, condição que O habilita a ensinar os seus ouvintes o conhecimento que lhes dará descanso “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Jesus não se defendeu, antes confiou inteiramente no Pai “Pois tu tens sustentado o meu direito e a minha causa; tu te assentaste no tribunal, julgando justamente” ( Sl 9:4 ); “O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” ( 1Pd 2:23 ).

Quando Jesus foi incisivo, a intervenção visou a causa do Pai, como podemos ver quando Ele expulsou os cambistas da casa do Pai, mas em tal evento ele permaneceu manso “E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda. E os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorará” ( Jo 2:16 -17).

Da mesma forma, Cristo, como Filho sobre a sua própria casa, foi um servo gentil, obediente, conforme o expresso nas Escrituras: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ).

Quem é cego, surdo e perfeito? A resposta está no verso 1: “EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ).

Ser cego, surdo e perfeito aponta para condição, e não para questões circunstanciais como a emoção ou o sentimento. Cristo é o servo do Senhor em quem Deus se apraz. E Jesus foi ungido com o espírito do Senhor porque, como servo, tinha que tirar da prisão os presos “Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz dos gentios. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7).

Quando Jesus disse: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim…”, estava anunciando as boas novas de salvação. Qualquer que se fizesse servo de Cristo, ou seja, tomasse sobre si o jugo de Cristo, aprenderia d’Ele, o servo (humilde) gentil (manso) de coração, consequentemente, tais pessoas encontrariam o descanso prometido por Deus.

Jesus não disputava uma cadeira na galeria dos humildes que a humanidade elegeu para si com pessoas como Ghandi, Madre Paulina, Madre Tereza de Calcutá, etc. Quando Jesus disse: “… sou manso e humilde de coração…” ( Mt 11:29 ), estava se apresentando aos seus ouvintes como Aquele que se submeteu a vontade do Pai como servo, ungido (escolhido, eleito) a pregar boas novas que dá liberdade aos cativos “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:1 -2).

  • Jesus continuou sendo o servo do Senhor quando disse: “… sou manso e humilde de coração…” ( Mt 11:29 ).
  • Jesus continuou manso e humilde quando expulsou os cambistas do templo (Jo 2:15 ).
  • Jesus não deixou de ser humilde quando se apresentou como o ‘Eu Sou’ que existia antes mesmo que Abraão existisse “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).
  • Jesus continuou humilde após se apresentar a Pilatos “Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” ( Jo 18:37 ).
  • Jesus não perdeu a humildade após se declarar Mestre e Senhor “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” ( Jo 13:13 ).
  • Ao dizer ser o Filho de Deus, Jesus não faltou com a verdade e nem perdeu a sua condição de humilde, pois continuou sendo o servo (ταπεινος tapeinos) do Senhor “Àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?” ( Jo 10:36 ).
  • Mesmo após dar testemunho de Si mesmo, Cristo continuou sendo o servo do Senhor, ou seja, humilde e manso de coração “Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai que me enviou” ( Jo 8:18 ).
  • Cristo, o Verbo eterno se esvaziou a si mesmo ao tomar a forma de servo se fazendo semelhante aos homens “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ). Mas, tomar a forma de servo não é o mesmo que ser servo. Porém, Cristo após se achar na forma de servo, ou seja, semelhante aos homens, humilhou-se a si mesmo sendo obediente até a morte “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

Tomar a forma de servo é se fazer homem, mas ser servo (humilhar a si mesmo) é obedecer.

Onde está o segredo da humildade? Na obediência! Ao obedecer a vontade do Pai resignando-se a morrer na cruz, Cristo humilhou-se a si mesmo fazendo-se servo.

Além de Cristo humilhar a si mesmo se fazendo servo apresentando-se como cordeiro sobre a cruz, os seus algozes negaram-lhe um julgamento justo “Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra” ( At 8:33 ; Is 53:8 ).

O que se depreende da frase em comento, como do livro ‘Humildade – A Beleza da Santidade’, ambos produzidos pelo Pr. Andrew Murray é que ele não compreendeu o que é humildade do ponto de vista bíblico.

 

Quem se humilha será exaltado

Em dois momentos que Jesus censurou os escribas e fariseus, foi dito: “E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado” ( Mt 23:12 ; Lc 18:14 ).

O texto não diz que os cristãos são aqueles que são humilhados, no sentido de serem desprezados. Jesus enfatizou que aquele que se humilha é que será exaltado, ou seja, se humilha aquele que se sujeita a Deus “Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” ( 1Pd 5:6 ).

À época de Cristo um homem livre estava na mais alta posição, se contrastada a sua condição social com a de um escravo. Como alguém poderia ‘humilhar’ a si mesmo? Se fazendo servo!

Como se humilhar a si mesmo do ponto de vista bíblico? Se fazendo servo de Deus. E como tornar-se servo de Deus? Obedecendo a sua ordem? E qual a sua ordem? Que creiais naquele que Ele enviou.

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 );

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Daniel foi um homem que se humilhou diante de Deus. Como? Primeiro ele se aplicou a compreender o que o profeta Jeremias havia profetizado (Dn 9:2 ), e ao querer colocar em prática o que compreendeu, estava se humilhando, ou seja, se fez servo de Deus “Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras (…) Mas eu te declararei o que está registrado na escritura da verdade” (Dn 10:12 e 21).

Já o rei Belsazar, apesar de saber tudo o que o seu pai, o rei Nabucodonosor, passou por não reconhecer que Deus é o Altíssimo, não se fez servo de Deus “E tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que soubeste tudo isto” ( Dn 5:22 ).

O servo do Senhor não pode ter a iniciativa de falar de si mesmo, antes deve seguir o exemplo do apóstolo Paulo: “Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras” ( Rm15:18 ). Para fazer os gentios obedientes, o apóstolo Paulo não ousou falar coisa alguma que Cristo não houvesse feito por intermédio do apóstolo.

Cristo como servo falou as palavras de Deus conforme Deus havia estabelecido sem alterá-la em nada “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou” ( Jo 8:28 ). E porque Jesus teve o cuidado de falar conforme o Pai ensinou? Porque Ele sabia que o mandamento de Deus é a vida eterna, e alterar o mandamento de Deus produz morte “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ).

Ao crer em Cristo o apóstolo Paulo se humilhou a si mesmo, pois se fez servo de Cristo. Ao perseverar anunciando o evangelho tal qual aprendeu, o apóstolo permanecia na posição de servo, pois somente anunciando tal qual aprendeu os outros seriam exaltados “Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?” ( 2Co 11:7 ).

Obediência estrita ao conteúdo do evangelho é a essência da auto humilhação, e não questão de caráter, como aponta Murray: “Vamos estudar o caráter de Cristo até nossa alma estar cheia de amor e admiração por Sua humildade” Andrew Murray, Série Riquezas de Cristo – Humildade – A Beleza da Santidade, Título do original em inglês: Humility – The BeautyofHoliness © 1994 Christian LiteratureCrusade, EUA © 2000 CCC Edições; Tradução: Alessandra Schmitt Mendes.

Obediência não diz de um feitio moral, senão o reino de Deus estaria vetado às meretrizes e publicanos. ‘Obediência’ ou ‘se fazer servo’ está em que se faça o que foi determinado, como se lê: “Mas, que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer” ( Mt 21:28-32).

A Bíblia apresenta a desobediência de Adão como a ofensa contra Deus que trouxe a queda da humanidade e a obediência de Cristo como causa da justificação, de modo que a salvação é substituição de ato, obediência pela desobediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Por não compreender que a humildade de Cristo teve relação exclusiva com o fato de Ele ser o servo obediente é que surgem colocações como: “Cristo é a humildade de Deus incorporada na natureza humana: o Amor Eterno humilhando-se a Si mesmo, revestindo-se com as vestes da mansidão e da bondade para vencer, e servir e nos salvar. Como o amor e condescendência de Deus fazem Dele o benfeitor, e auxiliador e servo de todos, assim, Jesus, por necessidade, se tornou a Humildade Encarnada. E, assim, mesmo no centro do trono, Ele é o manso e humilde Cordeiro de Deus” Idem.

Cristo foi humilde porque se sujeitou a Deus como servo. Mas, a quem o Altíssimo se sujeitaria para ser humilde? Há humildade em Deus? Deus deixou de ser bom (ἀγαθός agathos)? Ora, o predicativo ‘bom’ quando aplicado a Deus significa aquele que é superior, de cima, nobre, em contrate com aqueles que são de baixo, ralé, inferiores, significado que não contempla a ideia do homem do nosso tempo que acha que Deus é bonzinho, condescendente, etc. “E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ).

“18 αγαθοςagathos uma palavra primitiva; TDNT 1:10,3; adj 1) de boa constituição ou natureza. 2) útil, saudável 3) bom, agradável, amável, alegre, feliz 4) excelente, distinto 5) honesto, honrado” Strong

Por não compreender que o termo ‘humildade’ na Bíblia faz parte de uma linguagem utilizada para se fazer compreender diante dos homens à época, ou seja, homens que não pertencem ao nosso tempo, é que o Pr. Murray fez a seguinte colocação: “É nesse estado de mente, nesse espírito e disposição, que a redenção de Cristo tem sua virtude e eficácia. É para trazer-nos para essa disposição que somos feitos participantes de Cristo. Esta é a verdadeira abnegação, para a qual nosso Salvador nos chama: o reconhecimento de que o ego não tem nada de bom em si mesmo, exceto como um recipiente vazio que Deus tem de preencher, e de que sua pretensão de ser ou fazer qualquer coisa não deve, nem por um momento, ser permitida. É nisto, acima e antes de todas as coisas, que consiste a conformidade com Jesus: nada ser e nada fazer de nós mesmos, para que Deus seja tudo” Idem.

Sendo Cristo o ente santo gerado de Deus, em tudo semelhante aos homens, significa que o seu ego não tinha nada de bom em si mesmo? E os que crêem em Cristo, portanto, gerados de novo participantes da natureza divina, não possuem nada de bom no ego?

Cristo era participante da natureza do seu Pai, Ele era bom porque seu Pai é bom. Primeiro era ‘bom’ no sentido de ‘bem nascido’, ‘distinto’, ‘nobre’, segundo, porque Cristo era benevolente.

É um erro entender que o mal decorre do ego do indivíduo, pois o mau se instalou no homem decaído por causa da barreira de separação (pecado) que alienou o homem de Deus, o bom e o bem supremo. O conhecimento do bem e do mal que tornou o homem como Deus não é a causa do mau, portanto, não se deve afirmar que o ego não tem nada de bom em si mesmo.

Leia a seguinte definição de Ego:

“Ego é termo da psicanálise que aponta para o eu de cada indivíduo, a essência da personalidade. A principal função do ego é harmonizar os desejos com a realidade, e depois harmonizar os desejos e a realidade com as exigências presentes nos valores da sociedade. O ego define a personalidade, filtrando os conteúdos do inconsciente impedido que passem para o campo da consciência” Teoria psicanalítica  < http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_psicanal%C3%ADtica > Consulta realizada em 17/03/2014.

Tudo que o homem é e realiza possui relação com o ego. Mesmo o salvo tem ego, pois Deus jamais anula o indivíduo, mesmo após o evento do novo nascimento. O ego faz parte da massa, que Deus, o oleiro, tem poder para fazer vasos para honra. O ego não é sinônimo de altivez, orgulho, etc. Não há como falar em homem se não considerarmos o ego. Se excluir o ego do homem, o homem deixa de ser homem.

O Pr. Murray chegou a conclusão de que Cristo negou o seu ego após listar alguns versos onde aparece o advérbio de negação ‘não’, como se vê:

“O Filho nada pode fazer de Si mesmo” ( Jo 5:19 ); “Eu nada posso fazer de Mim mesmo (…) O Meu juízo é justo, porque não procuro a Minha própria vontade” (v. 30); “Não aceito glória que vem dos homens” (v. 41); “Eu desci do céu, não para fazer a Minha própria vontade” ( Jo 6:38 ); “O Meu ensino não é Meu” (Jo 7:16 ); “Não vim de Mim mesmo” (v. 28); “Nada faço por Mim mesmo” (Jo 8:28 ); “Não vim de Mim mesmo, mas Ele Me enviou” ( Jo 8:42 ); “Eu não procuro a Minha própria glória” (v. 50); “As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim mesmo” ( Jo 14:10 ); “A palavra que estais ouvindo não é Minha” (v. 24).

A análise de um psicólogo com base nestes versículos daria a ideia de que Jesus estava negando o seu ego, porém, o que dizer dos versos em que Ele enfatiza o ‘Eu’?

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 ); “E dizia-lhes: Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo” ( Jo 8:23 ); “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ); “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ); “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 ); “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” ( Jo 10:11 ); “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ); “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ); “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” ( Jo 13:13 ).

Após ler estes versos, seria Jesus narcisista?

Que dizer das seguintes palavras:

“Elas mostram o que Cristo considerou como o estado de coração que Lhe cabia como o Filho do Pai. Elas nos ensinam o que são a natureza e vida essenciais dessa redenção que Cristo cumpriu e agora transmite. É isto: Ele não era nada para que Deus fosse tudo. Ele renunciou a Si mesmo totalmente, com Sua vontade e Suas forças, para que o Pai trabalhasse Nele. De Seu próprio poder, Sua própria vontade, Sua própria glória, de toda a Sua missão com todas as Suas obras e Seu ensinamento — de tudo isso, Ele disse: “Não sou Eu, não sou nada. Eu Me dei totalmente ao Pai para trabalhar; não sou nada, o Pai é tudo”” Idem.

Jesus não disse as palavras acima, ou buscou apregoar a ideia expressa pelo Pr. Murray. Ora, João Batista foi quem procurou se diminuir, e não Cristo “É necessário que ele cresça e que eu diminua” ( Jo 3:30 ).

Cristo não disse que não era nada, antes Ele disse: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ). Jesus não disse ‘eu me dei totalmente ao pai para trabalhar, antes Ele disse: “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” ( Jo 5:17 ).

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Salmo 23 – O Senhor é o meu pastor, nada me faltará

Salmo 22 – Aquele que confia em Cristo encontra descanso, conforme o escritor aos Hebreus escreveu: “Ora, nós que temos crido, entramos no descanso…” ( Hb 4:3 ).

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Isaías 1 – Filhos rebeldes

Após ‘ajudar’ os oprimidos, ‘fazer’ justiça aos órfãos e ‘cuidar’ das viúvas, ou seja, obedecer a palavra de Deus, por mais funesta que seja a condição do homem, no momento em que se submete à palavra de Deus, Deus faz do homem uma nova criatura, pois está é a sua promessa: ‘Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã’ (v. 18).


 

1  VISÃO de Isaías, filho de Amós, que ele teve a respeito de Judá e Jerusalém, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz, e Ezequias, reis de Judá.

A visão do profeta Isaias neste capítulo tem por alvo o povo de Judá e a cidade de Jerusalém antes do exílio Babilônico. O termo ‘visão’ ou ‘profecia’ refere-se a uma revelação ou comunicação de uma mensagem divina aos homens. Apesar das grandezas que constam nas visões de Isaias, somente com o profeta Moisés Deus falou cara a cara e sem enigmas ( Nm 12:6 ).

Como as visões foram concedidas por Deus a Isaias, temos o próprio nome do profeta cedendo título ao livro. O termo traduzido por visão era utilizado para fazer referencia ao profeta como vidente.

Uzias ( 2Rs 15:1 -7), Jotão ( 2Rs 15:32 -38), Acas ( 2Rs 16:1 -20) e Ezequias ( 2Rs 18:1 -20 ) foram quatro reis que governaram sobre Judá em Jerusalém antes do exílio Babilônico.

 

2  Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra; porque o SENHOR tem falado: Criei filhos, e engrandeci-os; mas eles se rebelaram contra mim.

Aparentemente o verso dá a entender que Deus está dando ‘publicidade’ à sua mensagem, porém, não é este o único objetivo da ordem que convoca os céus e a terra por testemunha: ‘Ouvi, ó céus, e dá ouvido, tu, ó terra’. Esta introdução na profecia era para remeter o povo de Israel à lei dada por Moisés, lembrando o que estava previsto a destruição do povo, caso não se convertessem a Deus “Hoje tomo por testemunhas contra vós o céu e a terra, que certamente logo perecereis da terra, a qual passais o Jordão para possuí-la; não prolongareis os vossos dias nela, antes sereis de todo destruídos” ( Dt 4:26 ).

Ao convocar os céus e a terra por testemunha, Deus esta demonstrando que o seu protesto tinha um público alvo específico: o povo que fez um concerto com Deus e se comprometeu cumprir as palavras de Deus.

Além de ter evocado os céus e a terra por testemunha, Deus lhes informou das pragas e moléstias que seriam acometidos por não obedecerem a Deus, conforme o registrado em Deuteronômio 28, versos 15 à 68. Após vários avisos, havia chegado o momento predito pelo Senhor, pois já não adiantava castiga-los, já estavam completamente feridos, mas não atinavam que era em decorrência de não terem obedecido a Deus (v. 5 ; Sl 50:4 ; Dt 4:36 ; Sl 76:8 ).

Qual a mensagem divina em que Deus interpõe os céu e a terra por testemunha? O Senhor disse por intermédio do profeta Isaias: “Criei filhos, e engrandeci-os, mas eles se rebelaram contra mim” (v. 2). O poro de Israel teve origem em Abraão e, após peregrinarem no Egito, Deus os resgatou com mão poderosa, mas já nos primeiros dias após serem resgatados do Egito, o povo de Israel mostrou-se rebelde à palavra de Deus ( Dt 1:43 ).

A mensagem de Deus é de cima e Ele mostra sinais na terra para que os homens se deixem instruir “Desde os céus te fez ouvir a sua voz, para te ensinar, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, e ouviste as suas palavras do meio do fogo” ( Dt 4:36 ). Toda a criação é testemunha de que Deus de muitas maneiras falou ao homem ( Hb 1:1 ).

Os filhos que foram criados e engrandecidos referem-se ao povo de Israel que se tornou um grande povo, porém, desviaram do Senhor “Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles” ( Is 63:10 ).

 

3  O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende.

Deus faz uma comparação entre os animais irracionais e o povo de Israel para expor uma realidade terrível: o povo que devia ser pleno de sabedoria por ter sido instruído por Deus, não conhecia o seu Deus. O boi, um animal irracional, conhece o seu dono da mesma forma que o jumento a sua manjedoura, mas Israel não conheceu e nem conhecia o seu Deus  e Libertador “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência” ( Pv 9:10 ).

Diferente dos animais irracionais, que reconhecem o seu dono e o seu lugar de descanso, o povo de Israel não entendeu que Deus estava repreendendo para que entendesse que necessitavam do cuidado do Senhor, pois Ele é, juntamente, sustento e descanso para o seu povo.

Faltava ao povo de Israel o ‘conhecimento’ do Santo, não entendiam, não compreendiam a palavra do Senhor, e quem deveria ensiná-los, os mestres da lei, estavam devorando o povo como se fosse pão “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” ( Os 4:6 ; Sl 53:4 ; Rm 10:2 ; Is 30:1 ).

O povo devia crer que Deus os justificava por aguardar o Descendente prometido a Abrão, porém, acreditavam que eram justos por descenderem da carne de Abraão ( Is 53:11 ). Construíram veredas tortuosas para si quando repousaram na carne e no sangue de Abraão ( Is 59:8 ).

 

4  Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás.

O profeta destaca algumas características pertinentes ao povo de Israel:

  • Nação pecadora;
  • Povo iníquo;
  • Descendência de homens maus, e;
  • Filhos corruptores.

 

Eles são nomeados de pecadores, iníquos, homens maus e corruptos. Não quiseram o Senhor, voltaram atrás e blasfemaram do Santo de Israel “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” ( Rm 2:24 ).

À época de Cristo, ele mesmo enfatizou que nenhum dos escribas e fariseus cumpria a lei, apesar de guardarem o sábado, fazerem a circuncisão, não matarem, não roubarem, dizimarem, jejuarem, etc. “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ); “O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano” ( Lc 18:11 ).

Deus deixou claro que Israel não tinha conhecimento, ou seja, que o seu povo não entendia (v. 3), e o apóstolo Paulo também enfatizou “Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento. Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus” ( Rm 10:2- 3).

O desconhecimento era tamanho que Jesus igualmente protestou: “Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” ( Mt 22:29 ). Tudo o que o povo sabia não passava de preceitos de homens que decoraram “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

Como isto é possível, se o povo de Israel continuamente oferecia sacrifícios e buscavam cumprir a lei?

 

5  Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. 6  Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres não espremidas, nem ligadas, nem amolecidas com óleo.

Se o povo de Israel se recordasse da lei, veriam que já estava previsto que, caso se rebelassem contra os preceitos de Deus, seriam acometidos de diversos castigos ( Dt 28:15 -69).

O povo de Israel era avesso a Deus, e quando castigados, rebelava-se ainda mais. Deus demonstra que a correção já não adiantava, pois todo o Israel estava acometido de pecado. Quando recebe o homem por filho, Deus o corrige e deixa claro o motivo: porque ama “Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” ( Hb 12:6 ), mas o povo de Deus ignorava esta característica Dele.

Deus descreve o povo de Israel com problemas na cabeça e no coração (v. 5), e aponta que todo o corpo estava enfermo desde os pés até a cabeça e que nunca se submeteram a qualquer tipo de tratamento que mudasse a condição deles. Bastava o povo abrir mão do argumento de que eram povo de Deus por serem descendentes de Abraão reconhecendo que eram miseráveis como todos os outros homens, que Deus haveria de curá-los. Esta condição do povo é retratada em provérbios: “Há uma geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia” ( Pv 30:12 ).

 

7  A vossa terra está assolada, as vossas cidades estão abrasadas pelo fogo; a vossa terra os estranhos a devoram em vossa presença; e está como devastada, numa subversão de estranhos. 8  E a filha de Sião é deixada como a cabana na vinha, como a choupana no pepinal, como uma cidade sitiada. 

A cidade de Jerusalém assolada por guerras e intrusos desfrutando do que o povo de Israel haviam plantado era o último estágio da gama de castigos descritos por Moisés antes de serem levados cativos ( Dt 28:39 ).

Com o castigo, a terra foi assolada e as cidades queimadas. Os estrangeiros tinham livre circulação na cidade e o povo de Jerusalém nada podia fazer para impedir.

Em função da correção, tudo foi devastado e subvertido por estrangeiros. A cidade de Jerusalém estava sitiada, semelhante a uma cabana na vinha cercada de uvas, ou uma choupana em meio ao pepinal: abandonada a própria sorte.

Neste ponto o castigo já não era alternativa, pois apesar da condição deplorável do povo, não reconheciam a sua miserabilidade e não se socorriam de Deus.

 

9  Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra. 10  Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra.

Isaias faz referência a um remanescente preservado por Deus para evitar a extinção de Judá e, consequentemente, a extinção da linhagem do Messias. Um povo remanescente tem resistido ao longo dos tempos em função da fidelidade de Deus que prometera a Davi o Descendente ( 2Sm 7:12 ).

Se não fosse a misericórdia de Deus em preservar um remanescente o povo de Judá havia desaparecido da face da terra “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 ).  Após esclarecer o povo de que se não fosse a misericórdia, há muito Jerusalém teria deixado de existir, o profeta introduz Sodoma e Gomorra como figura de Judá. Moisés já havia feito referencia a Israel como Sodoma e Gomorra: “Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm” ( Dt 32:32 ; Gn 18:16 e 19:28 ; Rm 9:29 ).

O povo e os lideres de Jerusalém não atentaram para a palavra de Deus e novamente Deus lhes dá o aviso que ecoou em Israel ( Jr 23:14 ; Ez 16:46 -58). Enquanto Sodoma e Gomorra tornou-se símbolo de promiscuidade, Israel e Judá tornaram-se adúlteros, visto que transtornaram, adulteraram as palavras de Deus e os sacerdotes ensinaram o povo somente preceitos de homens ( Jr 23:16 ).

Em função dessas duas figuras (Sodoma e Gomorra), o povo de Israel é nomeado diversas vezes como adúlteros. O termo ‘adultero’ é empregado como figura para retratar a condição espiritual do povo, por ter abandonado o seu Deus ( Tg 4:4 ). Dt 4.2

A apostasia do povo de Jacó teve dois extremos. Na época dos reis houve uma apostasia enorme, pois não buscavam a Deus e seguiam após outros deuses conforme o costume das nações, tornando-se um povo idólatra e promiscuo, etc. Após o retorno do cativeiro, houve algumas reformas religiosas, com seu ápice no período dos Macabeus, quando, provavelmente, surgiu a seita dos fariseus e saduceus, porém, mesmo conservadores e legalistas, continuaram distantes da verdade revelada na lei ( Lc 18:11 ).

Com figuras como Sodoma e Gomorra, Deus passa a falar com o povo utilizando-se de adágios, parábolas e enigmas. Para compreender a mensagem de Deus, primeiramente se faz necessário desvendar os enigmas para depois interpretar as parábolas (v. 21).

 

11  De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. 12  Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios?

O elemento de culto que os habitantes de Jerusalém julgavam de maior valor, o sacrifício, é posto em xeque pelo próprio Deus. Deus faz a pergunta: – ‘De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios?’

Além de deixar claro que estava farto dos holocaustos, Deus enfatiza que não se agrada de sangue de animais. Esta verdade permeia os livros do A. T., pois o salmista diz: “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ). O profeta Samuel também anunciou: “Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

Como ofereciam tantos holocaustos, era de se presumir que ao menos Deus houvesse pedido aos homens que oferecessem holocaustos, porém, Deus é enfático: – ‘Quem requereu isto?’. Quando lemos os livros do Pentateuco, vemos Deus requerendo do seu povo que obedeça a sua palavra, sem diminuir ou acrescentar ( Dt 4:2 ), e não encontramos Deus requerendo sacríficos, antes disciplinando como deveriam proceder caso se propusessem oferece-los “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá …” ( Lv 1:2 ).

Desde Abel e Caim voluntariamente os homens oferecem sacrifícios a Deus, porém, Deus nunca requereu isto das mãos dos homens, pois Deus tem interesse no homem (ofertante), e não na oferta (sacrifícios). O povo de Israel estava como Caim, oferecendo sacrifício debalde, pois Deus não tem interesse no sacrifício ou na oferta, antes no ofertante.

Em primeiro lugar Deus atenta para o ofertante e depois para a oferta. E se Deus rejeita o ofertante, consequentemente a oferta está rejeitada “E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou” ( Gn 4:3 -5).

 

13  Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. 14  As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer.

O alerta de Deus é solene: – ‘Não continueis a trazer ofertas vãs’. Após avisá-los, vêm os motivos: o incenso é abominação. As luas novas, os sábados (dias de festas solenes), datas tão importantes ao povo de Jerusalém também eram abominações.

Da mesma forma que Deus não pode suportar a iniquidade, também não podia suportar a reunião solene. Enquanto o homem não se submete à palavra de Deus sem alterá-la, os seus sacrifícios e ofertas são vãos. Deus não muda com o passar do tempo, então, desde o primeiro holocausto Deus repudiava os seus sacrifícios. Deus odiava, não suportava e sofria com as solenidades.

Um povo que se dizia servo de Deus, ignorava a vontade do seu Senhor, o que nos remete ao exposto nos versos 2 e 3.

 

15  Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. 16  Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. 17  Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.

Deus apresenta o motivo pelo qual não atendia as suplicas do povo. Quando estendiam as mãos suplicando por socorro, Deus não voltava o rosto para observá-los. Mesmo que aumentasse em quantidade o número de orações (multiplicando), Deus não os atenderia. Somente a oração de um justo pode muito em seus efeitos, visto que a iniquidade do ímpio separa o homem de Deus para que não seja ouvido. Enquanto o homem não ouvir a palavra de Deus e crer, Deus não o ouve, porque somente após ouvir e crer é que o homem se torna justo diante de Deus.

O apóstolo Paulo deixou registrado que o seu povo “… têm zelo de Deus, mas não com entendimento” ( Rm 10:2 ). Os sacrifícios, jejuns, orações e ofertas era um zelo de Deus sem entendimento, mas ainda em nossos dias muitos procuram aproximar-se de Deus através desses mesmos elementos.

O motivo pelo qual Deus não atendia o povo: – ‘As vossas mãos estão cheias de sangue!’ ( Is 59:3 ).

Estes três versos constituem uma parábola repleta de enigmas e, para compreender a parábola, primeiro é necessário desvendar os enigmas.

As mãos manchadas de sangue é figura de violência contra Deus. Não diz de agressão contra o semelhante, antes da violência em querer se apoderar do reino de Deus por sua própria força. É por isso que Deus alerta: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ).

Enquanto João Batista apregoava o reino dos céus, os seus ouvintes não se arrependiam, e continuavam a fazer da carne e do sangue (descendência da carne de Abraão) o seu braço (salvação), portanto, o que professavam não era segundo o Espírito, antes obras de iniquidade, obras de violência “E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”  ( Mt 11:12 ; Is 59:6 ). As práticas como os jejuns, orações, sacrifícios, ofertas, etc., era o que manchavam as suas mãos de sangue.

Como a palavra de Deus é: “Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ), e no início da visão Isaias disse: “Ouvi a palavra do Senhor, vós príncipes de Sodoma; dai ouvidos à lei de nosso Deus, vós o povo de Gomorra” (v. 10), para lavarem-se, purificarem-se, tirando a maldade dos seus atos (obras) das suas mãos, deveriam cessar de fazer o mal, ou seja, ouvirem (obedecerem) a palavra de Deus.

Somente a palavra de Deus para lavar e purificar o homem. Somente após ser lavado através da palavra de Deus, o homem retira a maldade dos seus atos. Deus olhou do céu para os filhos dos homens e não havia um que fizesse o bem. Mesmo o povo de Israel que haviam recebido as escrituras e a promessa, não havia quem fizesse o bem, pois apesar de terem recebido a palavra, cada um seguia os seus próprios conceitos e conjecturas ( Is 58:13 ).

Como a palavra de Deus é espírito, o homem que obedece a Deus compreendeu a mensagem dita a Zorobabel: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ).

Ou seja, Deus disse a Zorobabel o mesmo que foi dito por Samuel e Isaias: Obedecer é melhor que sacrificar, pois sacrificar é violência, força, diz da ação do homem em busca de agradar a Deus. Mas, o espírito diz da palavra de Deus, pois somente a palavra de Deus lava e purifica completamente o homem.

Para compreender estes dois versos: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas” (v. 16 -17), faz-se necessário analisar os seguintes versos:

  • “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 );
  • “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 );
  • “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro” ( 1Pe 1:22 ).

Ou seja, quem obedece a verdade, que é a palavra de Deus, deixa a violência dos seus atos e passa a servi-lo pelo seu espírito: está limpo pelas palavras dita por Cristo, que é espírito e vida.

Mas, os enigmas e figuras não se restringem aos dois versos analisados. O verso seguinte possui muitos outros enigmas que compõem a parábola: “Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas” (v. 17).

Os que deixam de fazer o mal aprendendo a fazer o bem são os que obedecem a Deus. Os que aprendem e obedecem a Deus automaticamente deixam de fazer o mal e passam a fazer o bem. É da natureza dos que são vivificados pelo espírito (palavra de Cristo) fazer o bem, pois a árvore boa dá fruto bom “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Aprender a fazer o bem é o mesmo que obedecer a Deus procurar o que é justo, pois obedecer a Deus é a justiça e o bem. Fazer o bem e procurar o que é justo é o mesmo que ajudar o oprimido, fazer justiça ao órfão e cuidar das viúvas. Os oprimidos, os órfãos e as viúvas são figuras que remente o homem a considerar a sua real condição diante de Deus: necessitados. São figuras que demonstra a condição do pecado, uma forma de apontar e fazer referência à condição do povo e dos seus lideres. Ajudar os oprimidos, fazer justiça aos órfãos e cuidar das viúvas é o mesmo que falar a palavra de Deus com verdade ( Zc 8:16 ; Ef 4:25 ; Is 58:13 ), ajudarem a si mesmos obedecendo à palavra do Senhor, pois Adão abandonou toda a sua geração quando se vendeu ao pecado, e todos estão separados de Deus até que creiam em sua palavra.

Se o leitor não se aperceber que está diante de uma parábola repleta de figuras e enigmas, interpretará como se Deus estivesse tratando de questões socioeconômicas. Neste ponto, em vez de converter-se a Deus obedecendo a sua palavra, o leitor aplicar-se a religiosidade e os seus sacrifícios, pois reputará que Deus o aceitará por estar cuidando dos órfãos e das viúvas.

Outros consideram que o sacrifício de sangue não era aceito porque as pessoas não estavam apresentando o melhor do rebanho no altar, e se esquecem que o sacrifício que Deus não rejeita é um coração contrito “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ). Somente quando o homem é aceito por Deus é que suas ofertas e sacrifícios são aceitos “Então te agradarás dos sacrifícios de justiça, dos holocaustos e das ofertas queimadas; então se oferecerão novilhos sobre o teu altar” ( Sl 51:19 ).

 

18  Vinde então, e argui-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã.

Após ‘ajudar’ os oprimidos, ‘fazer’ justiça aos órfãos e ‘cuidar’ das viúvas, ou seja, obedecer a palavra de Deus, por mais funesta que seja a condição do homem, no momento em que se submete à palavra de Deus, Deus faz do homem uma nova criatura, pois está é a sua promessa: ‘Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã’ (v. 18).

Mesmo que os pecados fossem como a escarlata, certo é que se tornariam brancos como a neve! O proposto por Deus é simples, mas o homem tem que querer. Se o homem quiser e ouvir a voz do Senhor, alcança a promessa: ainda que os vossos pecados sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã.

 

19  Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra. 20 Mas se recusardes, e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do SENHOR o disse.

Este verso demonstra a misericórdia e longanimidade de Deus que, antes de impingir o castigo, apresenta uma oportunidade. Isto foi posto para exemplo, pois no dia em que se chama hoje, se ouvires a vos do Senhor, não endureças o coração ( Hb 4:11 ).

Após a promessa do perdão dos pecados, caso quisessem e obedecessem, também haveriam de comer do melhor da terra. Não havia como se estabelecerem na terra da promessa sem antes ser extirpado o pecado do meio do povo.

Como Deus está falando diretamente com os judeus, a promessa divide-se em duas: a) salvação individual, e; b) salvação nacional. Ao serem resgatados do Egito, o povo foi resgatado nacionalmente, porém, permaneceram escravos do pecado. Agora Deus quer resgatá-los do pecado e, se quisessem e obedecessem, seriam salvos nacionalmente “Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” ( Jr 23:6 ).

Mas, haverá um tempo de refrigério para Israel quando as duas casas serão redimidas pelo Senhor Jesus, e Deus o nomeará de: O Senhor justiça nossa ( 2Co 3:16 ).

Mas, por que é necessário o homem querer obedecer a sua palavra? A resposta encontra-se o seguinte verso: “Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” ( 2Co 3:17 ). O Senhor é Espírito, ou seja, o Verbo que se fez carne, e onde está a palavra da Vida, aí há liberdade ( 1Jo 1:2 ).

No Éden diante da expressa Imagem de Deus que tudo criou pelo poder de sua palavra ( Jo 1:1 -3), o homem teve a liberdade de permanecer na vida e rejeitar a morte; hoje, a oportunidade e dada, porém, o homem tem a liberdade de querer a vida obedecendo, ou permanecer na morte.

 

21  Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas agora homicidas.

A palavra de Deus entregue a Israel por mão de um medianeiro é perfeita, reta, justa, mas os interpretes amalgamaram os seus próprios conceitos e criaram preceitos que, em vez de vida, tornou-se palavra de engano, palavra de morte.

A condição da cidade de Jerusalém era de se admirar. A cidade plena de retidão, onde a justiça estabeleceu a sua morada, agora estava cheia de homicidas (homens violentos, mãos manchadas de sangue).

Por que a cidade era fiel, plena de retidão e justiça? Porque Deus a escolheu para ali habitar “E habitarei no meio dos filhos de Israel, e lhes serei o seu Deus” ( Êx 29:45 ); “Então haverá um lugar que escolherá o SENHOR vosso Deus para ali fazer habitar o seu nome” ( Dt 12:11 ); “Por que saltais, ó montes elevados? Este é o monte que Deus desejou para a sua habitação, e o SENHOR habitará nele eternamente” ( Sl 68:16 ).

Como os habitantes de Jerusalém não deram crédito à palavra de Deus, não foram gerados de novo da semente incorruptível, portanto, não eram servos de Deus e nem amaram a Deus “E herdá-la-á a semente de seus servos, e os que amam o seu nome habitarão nela” ( Sl 69:36 ).

O verso 21 de Isaias 1 complementa o salmo 132: “Porque o SENHOR escolheu a Sião; desejou-a para a sua habitação, dizendo: Este é o meu repouso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei. Abençoarei abundantemente o seu mantimento; fartarei de pão os seus necessitados” ( Sl 132:13 -15).

Como o povo não se resignou a ser os ‘necessitados’ do Senhor, pois confiavam que eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão, a cidade fiel tornou-se prostituta, promiscua, Sodoma e Gomorra!

 

22  A tua prata tornou-se em escórias, o teu vinho se misturou com água. 23 Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva.

Deus havia dado ao seu povo a sua palavra (prata pura), porém, como não a receberam integralmente, antes foram rebeldes transtornando o mandamento ( Dt 4:2 ), o que seguiam não passava de escória, mandamentos de homens “As palavras do SENHOR são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes” ( Sl 12:6 ); “Prata escolhida é a língua do justo; o coração dos perversos é de nenhum valor” ( Pv 10:20 ).

O vinho é figura da alegria, da salvação, e Deus protesta contra eles demonstrando que a alegria proveniente da aliança foi desfeita “Porque são gente falta de conselhos, e neles não há entendimento. Quem dera eles fossem sábios! Que isto entendessem, e atentassem para o seu fim (…) O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:28 -29 e 33). Diz do vinho da contenda que o apóstolo Paulo veta aos cristãos ( Ef 5:18 ). Israel misturou a palavra da verdade (vinho) com preceitos de homens (água).

Como o vinho misturou-se com a água, a aliança de Deus com os que titubeavam foi desfeita “Tardai, e maravilhai-vos, folgai, e clamai; bêbados estão, mas não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte” ( Is 29:9 ); “Tanto mais que, por ser dado ao vinho é desleal; homem soberbo que não permanecerá; que alarga como o inferno a sua alma; e é como a morte que não se farta, e ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos” ( Hb 2:5 ; Rm 9:6 ).

Como transtornaram a palavra do Senhor sendo rebeldes a aliança, os príncipes de Jerusalém não passavam de ladrões, salteadores ( Jo 10:8 e 10). Os lideres de Israel não eram pastores, mas mercenários, visto que andavam atrás de recompensas. Por negarem aos homens que necessitavam (órfãos, viúvas) a palavra da verdade, a justiça de Deus não era estabelecida.

Por sua vez, Cristo quando veio denunciou os ladrões, os mercenários e como pastor fez justiça aos oprimidos pelo pecado ( Mt 11:28 ; Sl 146:5 -10 compare com Mt 5:3 -11). Jesus, o servo do Senhor, veio fazer justiça aos oprimidos ( Mt 11:28 ).

 

24  Portanto diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, o Forte de Israel: Ah! tomarei satisfações dos meus adversários, e vingar-me-ei dos meus inimigos.

Neste verso, Cristo toma a palavra, pois Ele é o Senhor dos Exércitos, o Deus Forte, o braço do Senhor.

Há um dia estabelecido em que o Senhor Jesus glorificado há de vingar-se dos seus adversários, aqueles que transtornaram a sua palavra.

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