O espírito do anticristo

Qualquer mensagem que não aborda as riquezas que há no conhecimento de Cristo Jesus para se fixar em questões terrenas é sermão de perdição, produzida pelo ‘espírito do anticristo’. É mensagem que tem o fito de fomentar miseráveis sobre a face da terra “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” ( Fl 3:18 -19 ; 1Co 15:19 ; Cl 3:1 ).


Geralmente muitos cristãos ficam impressionados e se preocupam com a manifestação física do Anticristo, o chamado iníquo ( 2Ts 2:8 ), mas pouco se importam com a mensagem que o espírito do anticristo vem propagando ao longo dos séculos.

O apóstolo João nos assegura que já no seu tempo o espírito do anticristo operava e que muitos cristãos se desviaram da verdade do evangelho e se fizeram anticristos “… mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” ( 1Jo 4:3 ); “Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos, por onde conhecemos que é já a última hora” ( 1Jo 2:18 ).

Percebe-se a gravidade quanto a operação do espírito do anticristo quando na abordagem do apóstolo João fica claro que o espírito do anticristo já estava e operava no mundo, que muitos anticristos haviam surgido e, pior ainda, que os que se fizeram anticristos saíram dentre os cristãos ( 1Jo 2:19 ).

O apóstolo Paulo ciente desta gravidade também alertou: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” ( Gl 1:8 ), pois ele estava ciente que o ‘ministério da injustiça’, ou o ‘espírito do anticristo’, já operava ( 2Ts 2:7 ).

Todos os cristãos devem se ocupar de batalhar em defesa da verdade do evangelho ( Jd 1:3 ), afim de que se evite que outras doutrinas sejam anunciadas em substituição ao evangelho ( 1Tm 1:3 -4), pois o ‘terreno’ mais fértil para o surgimento de heresias de perdição se dá no ajuntamento solene dos membros do corpo de Cristo ( Jd 1:12 ; 2Pe 2:13 ).

O maior perigo geralmente surge em um grupo específico de cristãos: aqueles que desejam a posição de mestres para promoverem os seus interesses mesquinhos e escusos! Geralmente estes pseudos mestres são astutos e falsificadores da palavra de Deus ( 2Co 4:2 ).

Os apóstolos Paulo, João, Pedro e Tiago deixaram registrado que havia entre os cristãos muitos que queriam ser mestres da lei ( 1Tm 1:7 ), e outros, levados por inveja e sentimento faccioso buscavam a primazia entre os cristãos, porém, em ambos os casos eles nada conheciam do evangelho de Cristo ( Tg 3:1 e 3:14 ).

Diante desta realidade que os apóstolos destacaram, como é possível um cristão se proteger da ação implacável do espírito do anticristo? Como combater o chamado ministério da injustiça?

O apóstolo João demonstrou que a ação do espírito do anticristo essencialmente é transtornar a verdade do evangelho, como:

a) Negar que Jesus de Nazaré é o Cristo, ou seja, o Filho de Deus ( 1Jo 2:22 ) – À época do apóstolo João muitos judaizantes propagavam a ideia de que Jesus não passava de um dos filhos do carpinteiro José, ou seja, não reconheciam o Cristo como o Filho do Deus vivo. Esta mensagem do anticristo facilmente se instalou entre os judeus, e chegou até a ser propagada entre os convertidos ao cristianismo, ideia que permanece até hoje entre os judeus;

b) Negar que Jesus veio em carne ( 1Jo 4:2 ; 2Jo 1:7 ) – Também surgiu à época dos apóstolos a ideia de que Cristo não veio em carne. O apóstolo João demonstra que tais pessoas não permaneceram no ensinamento de Cristo, antes foram além da doutrina de Cristo ( 2Jo 1:7- 9). Tais doutrinas equivocadas são facilmente identificáveis pela negação de questões essenciais ao evangelho, como se vê no posicionamento dos judaizantes ( Tt 1:11 -12), e na sua vertente gnóstica, e;

c) Negar a eficácia da obra vicária de Cristo ( 1Jo 2:25 e 4:6 e 4:9 ) – Este é o ramo mais perigoso promovido pelo espírito do anticristo, pois foca-se em negar alguns aspectos da obra redentora de Cristo, tais como: ressurreição, morte, vida, nascimento, divindade, etc. “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Quando analisamos as cartas dos apóstolos é possível determinar que o espírito do anticristo não é proveniente de uma possessão maligna, antes é um fascínio, uma insensatez promovida por alguns pseudos cristãos que se introduziram entre os cristãos movidos por torpe ganância, ignorância, desconhecimento, inveja, dissensão, partidarismo, filosofias, etc. ( Gl 1:7 ; 3:1 ).

Judas descreve tais homens como transtornares daquilo que não entendem, ou pior, até o que é natural, que deveriam compreender, também nisto se corrompem ( Jd 1:10 ), porém, se posicionam diante dos membros da igreja de Cristo como mestres, mas não passam de bajuladores interesseiros ( Jd 1:16 ).

E o que promovem tais homens? Após se introduzirem dissimuladamente transtornam a graça de Deus, ou seja, negam a Cristo como o único e soberano Senhor dos cristãos ( Jd 1:4 ), ou seja, os homens dos quais Judas fez referência são pessoas sobre as quais opera o espírito do anticristo ( Jd 1:4 compare com 1Jo 2:22 ).

  • “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo ( Jd 1:4 );
  • “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” ( 1Jo 2:22 );
  • “E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição” ( 2Pe 2:1 ).

Jesus deixou claro que as palavras que Ele proferia são espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida ( Jo 6:63 ), e o apóstolo João ordena que os cristãos provem os espíritos (as palavras proferidas pelos homens) se elas são provenientes de Cristo ou não ( 1Jo 4:1 ).

Para o cristão se proteger necessita de conhecimento para provar a doutrina (espírito) anunciada por qualquer que se diz enviado de Deus. Portanto, é essencial que os cristãos estejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder ( Ef 6:10 ; 1:18-19 ), ou seja, devem estar revestidos de toda a armadura de Deus, o mesmo que possuir pleno conhecimento da palavra de Deus.

Qualquer que maneja bem a palavra da verdade revestiu-se de toda a armadura de Deus ( 2Tm 2:15 ), é pleno (cheio) do espírito, ou seja, da palavra que é espírito e vida “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito( Ef 5:18 ); “… para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” ( Ef 3:18 -19).

O apóstolo Paulo apresentou vários desvios doutrinários e, dentre eles destacam-se os posicionamentos acerca da ressurreição, sendo que alguns apregoavam que a ressurreição já havia ocorrido ( 2Tm 2:16 -18), e outros, que não havia ressurreição dos mortos ( 1Co 15:12 ).

Tais mentiras parecem sem efeito nocivo, porém, o apóstolo demonstra que, se alguém diz que não há ressurreição dos mortos, como diziam os saduceus, segue-se que Cristo também não teria ressuscitado, doutrina que, por fim, invalidaria a eficácia do evangelho, pois se Cristo não ressuscitou, os que creram nele permanecem no pecado ( 1Co 15:17 ).

Observe a seguinte colocação de Cipriano (século III d.C) “A Esposa de Cristo não pode adulterar, é fiel e casta. Aquele que se separa dela saiba que se junta com uma adúltera, e que as promessas da Igreja já não o alcança. Aquele que abandona a Igreja não espere que Jesus Cristo o recompense, é um estranho, um proscrito, um inimigo. Não pode ter Deus por Pai no céu quem não tem a Igreja por mãe na terra” Frase atribuída a São Cipriano.

A mentira sempre aparece mesclada a uma parcela de verdade, ou melhor, a mentira sempre rouba da verdade parte da sua legitimidade, e esta frase do III século não foge à regra. Que a Igreja, a esposa de Cristo, a noiva do Cordeiro é fiel, isto é corretíssimo, porém, as considerações seguintes são estranhas à verdade do evangelho.

Enquanto as Escrituras demonstram que todos quantos creem em Cristo, ou seja, que fazem a vontade do Pai são seus irmãos, pai e mãe (família), Cipriano apresenta uma instituição humana (igreja), e não Cristo, como aquela que desfaz a barreira de pecado que há entre Deus e os homens “Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:48 -50 ; 1Jo 3:23 ).

A igreja jamais poderia ser rotulada de mãe, pois todos que fazem a vontade de Deus são membros da sua família na condição de irmão, irmã e mãe de Cristo. Se alguém admitir a ideia de que a igreja é mãe, segue-se que nenhum cristão é membro do corpo de Cristo, antes seriam entes autônomos e estranhos ao corpo de Cristo, porém, a bíblia demonstra que, cada cristão em particular é membro do corpo de Cristo, a igreja.

Pensamentos tais como: “Onde está Cristo Jesus, está a Igreja católica” Santo Inácio de Antioquia (†107), Carta aos erminenses 8,2, evoluíram para o posicionamento de Cipriano, e deu azo a ideia de que uma instituição é superior aos membros do corpo de Cristo “Não te afaste da Igreja: Nada é mais forte do que ela. Ela é a tua esperança, o teu refúgio. Ela é mais alta que o céu e mais vasta que a terra. Ela nunca envelhece” São João Crisóstomo (350- 407).

Enquanto a bíblia demonstra que: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ), qualquer instituição que se arrogue como ente salvador é anátema.

O apóstolo Paulo alerta acerca de tais apóstolos, bispos, pastores, cleros, etc.: “Porque, se alguém vem e vos prega outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, de boa mente o suportais (…) Pois os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz. Não é muito, pois, que também os seus ministros se disfarcem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras” ( 2Co 11:4 e 13 -15).

Geralmente o engano se dá pela distorção ou substituição da palavra da verdade, e o gnosticismo é exemplo de distorção. Porém, há outros ramos não menos pernicioso se comparado ao ascetismo, como se verifica na abordagem do apóstolo Paulo ao Colossenses “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados (…) Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão ( Cl 2:16 e 18).

Em nossos dias o ascetismo é um ramo da apostasia que mais influencia a cristandade, pois muitos buscam servir a Deus através de sacrifícios e proibições, ou de elementos proibitivos decorrentes da lei mosaica, porém, tais serviços servem somente para que alguns lideres exerçam domínio sobre os incautos “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; Proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças” ( 1Tm 4:1 -3).

A questão do cuidado com a filosofia é tão relevante do ponto de vista doutrinário, que o apóstolo Paulo alertou quanto ao risco das filosofias, porém, apesar do alerta, o que mais influenciou e tem influenciado os ditos mestres do cristianismo ao longo dos séculos foi e é a filosofia “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” ( Cl 2:8 ).

Muito do que se produziu ao longo dos séculos, e que possui o nome de teologia ou doutrina cristã, foi influenciado por correntes filosóficas tais como platonismo, aristotelismo, estoicismo, epicurismo, ceticismo, ecletismo, etc., a ponto de alguns críticos rotularem o cristianismo como um doce platonismo para o povo.

Desde os patrísticos até a reforma protestante a filosofia tem ditado vários posicionamentos doutrinários e teológicos, isto sem falar nas tendências teológicas modernas como a teologia da prosperidade, da libertação, liberal, etc.

Todos estes desvios foram produzidos pelo espírito do anticristo, pois os pseudo doutores do cristianismo não receberam a Cristo, o amor de Deus demonstrado aos homens, e creram na mentira “E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade” ( 2Ts 2:11 -12).

Para se proteger do espírito do anticristo é necessário ao cristão que compreenda a mensagem do evangelho “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” ( Mt 13:19 ), e é por este motivo que o apóstolo Paulo rogava a Deus pelos cristãos, para que pudessem compreender perfeitamente o amor de Deus, o que anula a ação do maligno “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” ( Ef 3:18 -19).

Compreender o evangelho de Cristo em todas as suas dimensões é estar cheio do Espírito, que é a palavra de Deus. Portanto, todos os cristãos devem se inteirar da verdade do evangelho, manejando bem a palavra da verdade e se ocupar de batalhar em defesa da verdade do evangelho ( Jd 1:3 ).

Somente se revestindo do poder de Deus, que é a palavra do evangelho, é possível evitar ser engendrado por doutrinas que surgem e tentam ofuscar o evangelho ( 1Tm 1:3 -4). O apóstolo Paulo lembra que a serpente enganou Eva com sua astucia, e alerta que os falsificadores da palavra podem com astucia corromper o entendimento dos cristãos ( 2Co 11:3 ).

Qualquer mensagem que não aborda as riquezas que há no conhecimento de Cristo Jesus para se fixar em questões terrenas é mensagem de perdição, produzida pelo espírito do anticristo “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas( Fl 3:18 -19).

Fazer do evangelho negócio é marca registrada dos anticristos, pois tal posicionamento não é conforme a mensagem de Cristo “Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade (…) cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais” ( 1Tm 6:3 -5).

Profeticamente o apóstolo Pedro alertou que, nos últimos dias muitos cristãos seguiriam o anunciado pelos anticristos, homens iníquos que fariam de seus seguidores negócios com palavras mentirosas “E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita” ( 2Pe 2:2 -3).

As propostas dos anticristos para os seus seguidores remonta aos princípios utilizados na tentação de Jesus no deserto ( Mt 4:3 -9), pois são cheios de luxuria, deleitam em suas mistificações e engodam as pessoas que não possuem firmeza na palavra da verdade para fazê-las questionar a filiação que alcançaram em função de coisas terrenas “Mas estes, como animais irracionais, que seguem a natureza, feitos para serem presos e mortos, blasfemando do que não entendem, perecerão na sua corrupção, Recebendo o galardão da injustiça; pois que tais homens têm prazer nos deleites quotidianos; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em seus enganos, quando se banqueteiam convosco; Tendo os olhos cheios de adultério, e não cessando de pecar, engodando as almas inconstantes, tendo o coração exercitado na avareza, filhos de maldição; Os quais, deixando o caminho direito, erraram seguindo o caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça” ( 2Pe 2:12 -15 ; Jd 1:12 ).

Esta é uma ordem do apóstolo Paulo: “Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ; 1Tm 6:5 ).

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Salmo 121 – Promessas que se cumpriram

O crente em Cristo deve ver nas promessas do Salmo 121 a proteção que Deus estabeleceu sobre o seu Filho e, se sentir necessidade de proteção, basta confiar em Deus!


Salmo 121 – Promessas que se cumpriram

  1. LEVANTAREI os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro.
  2. O meu socorro vem do SENHOR que fez o céu e a terra.
  3. Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará.
  4. Eis que não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel.
  5. O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita.
  6. O sol não te molestará de dia nem a lua de noite.
  7. O SENHOR te guardará de todo o mal; guardará a tua alma.
  8. O SENHOR guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.

 

Introdução

Deus prometeu ao rei Davi um Descendente, que haveria de se assentar, para sempre, sobre o trono das duas casas de Israel: “Fiz uma aliança com o meu escolhido e jurei ao meu servo Davi, dizendo: A tua semente estabelecerei para sempre e edificarei o teu trono, de geração em geração” (Sl 89:3-4).

Deus prometeu que o Descendente nasceria da linhagem de Davi e haveria de ser o Filho de Deus, e Deus, o Seu Pai. Que o Filho de Davi haveria de edificar um templo a Deus, sendo Ele mesmo a pedra angular e, posteriormente, Deus estabeleceria o seu reino para sempre (2Sm 7:13-14).

Deus escolheu o Descendente de Davi para remir o povo de Israel, porém, Ele também foi dado por salvação a todos os povos, a fim de cumprir a promessa que foi feita a Abraão: “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3); “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação, até as extremidades da terra” (Is 49:6).

Na plenitude dos tempos, nasceu o descendente de Davi, de uma virgem, em Belém da Judéia. O Verbo Eterno veio ao mundo despido da sua glória e sujeitou-se às mesmas fraquezas dos homens (Fl 2:7; Hb 2:17), porém, sem pecado, e nunca houve engano na sua boca, e na condição de servo, precisou se socorrer de Deus devido aos seus muitos inimigos.

Mas, como identificar o Filho de Davi, entre os muitos filhos de Israel? Somente pelo testemunho que Deus deu acerca do seu Filho, nas Escrituras. O objetivo da Lei, dos Profetas e dos Salmos é revelar o Filho de Deus aos homens, de modo que os filhos de Israel pudessem identificá-Lo e obedecê-Lo ( Lc 1:69 ).

Quem crê nas Escrituras, crê em Cristo Jesus, e quem crê em Cristo Jesus, crê no testemunho que Deus deu acerca de seu Filho nas Escrituras: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7:38); “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

Como o objetivo das Escrituras é revelar Cristo ao mundo, analisaremos o Salmo 121 com esse viés. Se examinarmos a Escrituras, temos que chegar à conclusão de que elas testificam de Cristo.

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

 

Monte

LEVANTAREI os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro. 2 O meu socorro vem do SENHOR que fez o céu e a terra.

O que esperar de uma ’montanha’? Por que questionar de onde vem o socorro, após observar as montanhas? Para compreender este verso, temos de nos socorrer de outras passagens bíblicas.

Na Bíblia, ‘monte’, ‘montanha’, ‘outeiro’, além de fazer referência às diversas formas de relevo, tais expressões, também, são utilizadas como figuras, para fazer referência as nações e aos povos. Os profetas utilizavam os ‘montes’ e os ‘outeiros’ como figura para se referirem, tanto à nação de Israel, quanto às nações vizinhas, como se lê:

“E acontecerá, nos últimos dias, que se firmará o monte da casa do SENHOR no cume dos montes e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações” (Is 2:2; Ez 3:6);

“Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as fizeram errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6; Mq 6:2).

O profeta Isaías fez uso da figura do ‘monte’, como sendo a nação de Israel, após restaurada a sua glória, ou seja, a nação de Israel será estabelecida acima de todas as nações (se elevará por cima dos outeiros).

O profeta Zacarias profetizou acerca do mesmo evento, porém, sem fazer uso dos montes como figura:

“Assim virão muitos povos e poderosas nações, a buscarem em Jerusalém ao SENHOR dos Exércitos e a suplicar o favor do SENHOR” (Zc 8:22; Jr 3:17).

Enquanto o profeta Zacarias anuncia que muitos povos e nações virão a Jerusalém buscar o Senhor, o profeta Isaias faz uso da figura do ‘monte’, para destacar a mesma verdade: que a nação de Israel estará acima de todas as nações.

Quando o profeta Jeremias disse: “Certamente em vão se confia nos outeiros e na multidão das montanhas; deveras no SENHOR nosso Deus está a salvação de Israel” (Jr 3:23), estava alertando o povo de Israel para não fazer aliança com os povos vizinhos (outeiros e montanhas) quando saíssem à guerra ou, à procura de proteção (Jr 50:6).

Quando houvesse guerra, segundo a lei, era necessário que o sacerdote se pusesse diante do povo e apregoasse que Deus estava com ele (Dt 20:4). Não era para irem direto ao combate, corpo a corpo, antes, era para sitiar a cidade, confiados em Deus, que entregaria os inimigos nas mãos dos filhos de Israel (Dt 20:12).

No entanto, não era isso que se via, pois os filhos de Israel queriam traçar estratégias de guerra, como os povos vizinhos, confiados no número de homens e cavalos à disposição dos seus capitães e nas alianças politicas dos seus reis.

O Egito foi uma nação (monte) que os filhos de Israel ‘olharam’, esperando socorro, e Isaias os alertou, dizendo: “Que descem ao Egito, sem pedirem o meu conselho; para se fortificarem com a força de Faraó e para confiarem na sombra do Egito. Porque a força de Faraó se vos tornará em vergonha e a confiança na sombra do Egito, em confusão” (Is 30:2-3; Is 31:1).

“Certamente, em vão se confia nos outeiros e na multidão das montanhas; deveras no SENHOR nosso Deus está a salvação de Israel” (Jr 3:23);

“Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as fizeram errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

O profeta Daniel, ao contemplar o reino messiânico, viu uma pedra cortada de um monte, sem auxilio de mãos, e após ser lançada contra os pés da estátua, que representava os reinos do mundo, se fez um grande monte e encheu toda a terra. Novamente o monte representa um reino, o reino de Cristo (Dn 2:35).

O profeta Isaías profetizou dizendo:

“Os montes e outeiros tornarei em deserto, toda a sua erva farei secar e tornarei os rios em ilhas e as lagoas secarei” (Is 42:15).

No verso, ‘erva’ é uma figura para fazer referência aos homens, e os ‘montes’ e os ‘outeiros’, são figuras para fazer referência às nações: “Uma voz diz – Clama; e alguém disse – Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo” (Is 40:6).

Após verificar que o termo ‘monte’ é uma figura para fazer referência a uma nação, temos elementos para afirmar que o salmista aponta para um tempo em que o Cristo enfrentaria a oposição das nações contra o seu povo.

O Salmo 46 também faz uso da figura dos montes, como se lê:

“Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza” (Sl 46:3);

E em seguida temos a explicação da figura:

“Os gentios se embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a terra se derreteu” (Sl 46:6).

O Salmo 121 fala de um dia em que Deus reunirá todas as nações (montes) para uma peleja contra Jerusalém (Zc 14:2) e o socorro virá do Senhor, que fez os céus e a terra, pois Ele se manifestará colocando os seus pés sobre monte das Oliveiras e será Rei sobre toda a terra (Zc 14:2 -4; Zc 14:9).

O Salmista, inspirado pelo Espírito de Deus, profetiza acerca da confiança no Senhor, que fez os céus e a terra, ou seja, acerca do Filho de Davi, que se manifestará em glória para socorrer os filhos de Israel, quando estiverem em grande aperto.

“O meu socorro vem do SENHOR que fez o céu e a terra” (Sl 121:2).

No Salmo 110, o Salmista profetiza acerca do Seu Filho, quando se assenta à destra da Majestade, nas alturas, e o chama de Senhor (Sl 110:1), e no Salmo 121, temos o Salmista profetizando acerca de Cristo, o Senhor, que fez os céus e a terra (Sl 102:25-27; Hb 1:10-12), quando se levantar para socorrer os filhos de Israel: “Agora, pois, me levantarei, diz o SENHOR; agora me erguerei. Agora serei exaltado” (Is 33:10).

No Salmo 2, temos o registro das nações conspirando e imaginando coisas vãs, muito tempo depois de Cristo estabelecer o seu reino (Sl 2:1; Sl 47:7-8; Is 24:23), pois, intentam rebelar-se contra o domínio de Deus e do seu Ungido – Cristo glorificado (Sl 2:3; Zc 12:3), que estará regendo as nações com vara de ferro (Sl 2:9).

 

O Filho de Davi

Diferentemente dos filhos de Israel, que buscavam compor alianças políticas para repelirem os seus inimigos (olhavam para as nações esperando socorro), o salmista olhou para o Senhor, que fez os céus e a terra, o seu próprio Filho.

Cristo, o Filho de Davi, é o Senhor que fez os céus e a terra. Compare:

“E Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, e, como um manto, os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão” (Hb 1:10-12).

“Desde a antiguidade fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles se envelhecerão como um vestido; como roupa os mudarás, e ficarão mudados. Porém tu és o mesmo, e os teus anos nunca terão fim” (Sl 102:25-27).

Mas, apesar de o Senhor do Salmista ser o Criador dos céus e da terra (Sl 110:1), quando se manifestou em carne, o Filho de Davi precisou da proteção do Pai. Embora o Filho de Davi seja Senhor, em quem os filhos de Israel devem esperar, quando vissem os montes, quando se manifestou em carne, Cristo esteve ao abrigo das asas do Altíssimo.

O leitor do Salmo 121 precisa observar que há uma mudança drástica de perspectiva no Salmo. As Escrituras nos apresentam o Cristo como Criador, Senhor, Deus, Rei, sacerdote, mas, também fala dele como menino, servo, homem, aflito, ferido, enfermo, etc. O Salmo 121, em especial os versos 1 e 2, apontam para o Cristo, como criador dos céus e da terra (Jo 1:3). Já os versos 3 a 8, apontam para o Cristo na condição de servo.

 

3  Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará. 4  Eis que não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel. 5  O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita. 6  O sol não te molestará de dia nem a lua de noite. 7  O SENHOR te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. 8  O SENHOR guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.

O Salmista enumera as bênçãos de Deus sobre o seu Filho, Jesus Cristo:

Não deixará vacilar o teu pé (v. 3) – Por que Cristo não vacilaria? A resposta está no salmo 16:

“Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei. Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Sl 16:8-11).

Por confiar no Pai, o Cristo não vacilou (Sl 91:2). O Salmo 16 aplica-se a Cristo, conforme o que demonstrou o apóstolo Pedro aos israelitas no dia de pentecostes (At 2:25-28);

Aquele que te guarda não tosquenejará, eis que não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel. O SENHOR é quem te guarda (v. 4) – Deus promete, através da boca do salmista, velar e guardar o seu Filho, com todo zelo. Não haveria o menor descuido quanto ao Filho (não tosquenejará). O Filho de Deus jamais ficaria abandonado neste mundo, pois seria objeto do cuidado constante de Deus, mesmo nas horas de angústia que antecederiam a sua morte, pois, foi do agrado do Pai, moê-Lo e estabelecê-lo por aliança do povo (Israel) e luz para os que jaziam em trevas (gentios):

“Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” (Is 53 :10);

“Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, te tomarei pela mão,  te guardarei, te darei por aliança do povo e para luz dos gentios” ( Is 42:6);

“Guarda a minha alma, pois sou santo: ó Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia” (Sl 86:2).

O SENHOR é a tua sombra à tua direita (v. 5) – Deus promete ao seu Filho proteção constante, ou seja, seria a sua própria sombra, tendo em vista que o Filho haveria de invocá-lo. Cristo é a destra do Altíssimo e o Altíssimo a sombra protetora à direita do Filho:

“Guarda-me como a menina dos olhos; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas” (Sl 17:8);

“Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem, em todos os teus caminhos” (Sl 91:11; Sl 91:15).

O sol não te molestará de dia, nem a lua de noite (v. 6) – Este verso aponta a investida dos homens e de satanás contra Cristo, através de palavras de engano (setas):

“Não terás medo do terror de noite, nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia” (Sl 91:5-6).

Nem os homens da religião e nem satanás haveriam de demover o Cristo da sua firmeza, com palavras de engano, pois a palavra que expressa a vontade do Pai lhe seria como escudo e broquel. Cristo estaria protegido debaixo das asas do Pai, o que demonstra que Deus é fiel à sua palavra, ou seja, ao Verbo que se fez carne (Sl 91:1 e 4).

O SENHOR te guardará de todo o mal (v. 7a) – Cristo foi morto de forma cruenta e negaram-lhe justiça. Como se cumpriu o Salmo 121 na vida de Cristo à vista das agruras na cruz? O mal que o Salmo fala, diz da palavra do engano, pois Cristo não pecou, visto que não houve na sua boca nenhum engano:

“E puseram a sua sepultura com os ímpios e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” (Is 53:9; IPe 2:22).

Por colocar o Pai como refúgio, Deus promete ao Filho completa isenção do mal:

“Porque tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda” (Sl 91:9-10).

Guardará a tua alma (v. 7b) – Esta é uma promessa além-túmulo, quando Cristo fosse sepultado, vez que não seria deixado na morte: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16:10). “Para que viva para sempre, e não veja corrupção” (Sl 49:9). “Em ti, ó Senhor, me refugio; nunca seja eu envergonhado; livra-me pela tua retidão (…) Nas tuas mãos encomendo o meu espírito…” (Sl 31:1-5).

O SENHOR guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre (v. 8) – Esta promessa remete ao momento em que Cristo seria introduzido no mundo, na condição de Unigênito de Deus (Hb 1:6). Deus usou José poderosamente para cuidar de Maria e do menino, avisando-o em sonhos para saírem de Nazaré, livrando-o das mãos de Herodes. Diferente de todos os homens, que entraram neste mundo por Adão, a porta larga, Cristo foi lançado da madre por Deus na condição de porta estreita, porém, seria perseguido ao nascer: “Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” (Sl 22:10; Sl 139:13-15; Mt 2:18).

Já, a saída, se daria sob a proteção do Pai, visto que, triunfalmente, antes de morrer, disse: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus da verdade” (Sl 31:5). Quando, no seio da terra, Deus não permitiu que Jesus Cristo permanecesse na morte e nem que o seu corpo visse corrupção, sendo ressuscitado por Deus, dentre os mortos.

 

Conclusão

O crente em Cristo deve ver no Salmo 121 a proteção que Deus estabeleceu sobre o seu Filho e, se sentir necessidade de proteção, basta confiar em Deus! O crente precisa ter em mente que a sua vida está escondida com Cristo em Deus, pois, quando creu em Cristo, para a sua salvação, passou a ser um dos seus filhos: “Porque já estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3:3).

Cristo prometeu estar com os seus seguidores, todos os dias, até a consumação dos séculos (Mt 28:20). Mas, saiba que a presença de Cristo na sua vida não exclui as aflições deste mundo (Jo 16:33).

O alívio e o descanso prometido por Cristo, não diz dos trabalhos, fadigas, desilusões e aflições deste mundo, antes se refere à libertação do pecado, decorrente da ofensa de Adão.

O crente precisa saber que Deus estabeleceu o dia da bonança e o da adversidade, com um objetivo bem específico: que o homem nada descubra do que há de vir depois dele. Nesse aspecto, não há exceção, tanto para o justo, quanto para o ímpio: “No dia da prosperidade, goza do bem, mas, no dia da adversidade, considera; porque, também, Deus fez a este, em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

Geralmente, os problemas que os homens enfrentam se fixam na expectativa do mal que virá. Conhecedor dessa realidade, Jesus instruiu o povo no Sermão da Montanha, dizendo: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mt 6:25-34).

Apesar das Escrituras demonstrarem que Deus estabeleceu o dia da adversidade, muitos tentam se socorrer dos Salmos para se livrarem das aflições do dia a dia, o que transtorna a compreensão dos Salmos.

Quantas vezes o Salmo 121 é recitado! Quantas vezes ele é utilizado como amuleto!

Quando lemos os evangelhos, devemos considerar que tudo o que o Senhor Jesus ensinou à multidão, foi dito por enigmas, por parábolas: “E sem parábolas, nunca lhes falava; porém, tudo declarava, em particular, aos seus discípulos” (Mc 4:34).

“E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” (Mc 4:13).

Muitos, por falta de conhecimento, não sabem distinguir as bênçãos eternas concedidas por Deus aos homens, das aquisições materiais que se conquistam com o suor do rosto, para utilizar o Salmo 121 como amuleto da sorte.

Quais as bênçãos de Deus para com os homens? O Salmo 103 contém um rol de bênçãos que Deus concede gratuitamente aos homens. O Salmista enumera como benefício do Senhor o perdão dos pecados (Sl 103:3; Is 53:4), ou seja, a remissão, pelo Seu amor e misericórdia, etc.

No verso 5, do Salmo 103, o salmista anuncia, em meio às bênçãos de Deus, que é Ele que enche a boca do homem de bens (Sl 103:5). Por que os bens do Senhor não estão relacionados com as mãos? Por que os bens estão relacionados com a boca.

Para ‘enriquecer’ o homem ‘enchendo sua boca de bens’, é necessário uma intervenção divina profunda. Da boca do homem natural só procede a mentira e o engano, pois, é disso que o homem fala, desde que nasce (Sl 58:3). O Homem é gerado com um coração enganoso e incorrigível. Quando o homem é circuncidado por Deus, o coração enganoso é trocado por um novo coração, de sorte que o homem renasce e torna-se uma nova criatura (Sl 51:10; Ez 36:25-28). Somente com um novo coração dado por Deus, sairá abundantemente o bem da boca do homem, pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca (Mt 12:34).

Jesus ordenou aos seus ouvintes para não ajuntarem tesouro na terra, onde a traça e a ferrugem consomem. Seria um contra senso o Salmo declarar que uma boca cheia de bens, faz referência a bens materiais. Para a mocidade se renovar é necessário um novo nascimento e um novo coração, donde procedem bens que fartam a boca: “Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” (Sl 103:5).

“Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem e onde os ladrões não minam nem roubam” (Mt 6:20).

Certo é que a ‘bênção do Senhor que enriquece’, não trará bens pertinentes a este mundo, mas ao mundo vindouro, pois a vida do homem não consiste nos bens que ele possui (Lc 12:15).

Cristo, a sabedoria de Deus, é a bênção do Senhor que enriquece: “Riquezas e honra estão comigo; assim como os bens duráveis e a justiça” (Pv 8:18), pois n’Ele não há trabalho, dores, antes Ele é o descanso prometido (Hb 4:3).

O que acrescenta dores é o trabalho diuturno do homem, pois foi penalizado no Éden com o trabalho árduo. O homem só comerá do suor do seu rosto e com dores (Gn 3:17).

Seria um veículo automotor, a bênção do Senhor? Não, pois junto com um carro vêm despesas como impostos, combustível, manutenção, seguro, etc. Que dizer da preocupação com ladrão, ferrugem, calamidades, acidentes, etc. A bênção do Senhor é tesouro que se guarda nos céus, onde a traça e a ferrugem não consomem.

O cristão deve acatar o que o apóstolo Paulo recomendou: “Tendo, porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” (1Tm 6:8), visto que aqueles que querem ser ricos neste mundo, serão acometidos de muito trabalho. Portanto, resta-nos refugiarmos em Cristo, que é justiça e bem durável: “Mas, os que querem ser ricos, caem em tentação e em laço e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e na ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1Tm 6:9 -10).

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