O conflito na alma e o inimigo na alma

Enquanto Barclay analisa os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, que foram traduzidos por: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias, a partir do comportamento desregrado dos gregos e dos romanos (esquecendo que o apóstolo Paulo não julga os que são de fora, mas os que são de dentro), não percebe que a lista das obras da carne foi feita a partir da apostasia dos filhos de Israel, que foram postos por exemplos.


O conflito na alma e o inimigo na alma

Este artigo tece considerações, em função do livro “As obras da carne e o fruto do Espírito”, de William Barclay, publicado pela editora ‘Edições Vida Nova’, em especial, sobre o capítulo I, que aborda duas questões: ‘O conflito na alma’ e ‘O inimigo na alma’.

 

O conflito na alma

O Dr. Barclay, já no primeiro parágrafo do seu livro, afirma que ‘A filosofia e a teologia são essencialmente uma transcrição e uma interpretação da experiência humana… ’, e conclui: ‘… e a experiência humana é de que há um conflito na alma humana’[1] Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

Apesar de citar trecho da carta do apóstolo Paulo aos Gálatas, tanto a asserção, quanto a conclusão de Barclay, não refletem a verdade exarada nas Escrituras. Primeiro, porque a filosofia não é matéria bíblica. Segundo, se esses, também, são os termos da teologia, uma transcrição e uma interpretação da experiência humana, não estamos falando de um estudo de Deus, mas, de uma matéria secular.

A Bíblia tem por base a revelação divina, não as experiências humanas. Por mais que a experiência humana diga que há um conflito na alma, a Bíblia não trata desses conflitos e nem se apoia nas experiências humanas. Por mais que evidências palpáveis aos sentidos humanos apontem a existência de um conflito na alma, a revelação das Escrituras, por ser a verdade, suplanta as experiências humanas.

Por mais que o pensamento judaico acerca do homem aponte para a existência de um conflito interno, conforme exarado na doutrina de yetserhatobh e yetserhara[2] (a natureza boa e a má), tal pensamento nada pode comunicar aos cristãos, pois a Bíblia é clara, aos dizer que os judeus não tem o conhecimento de Deus (Dt 32:28; Is 1:6; Os 4:6), portanto, a doutrina deles não é confiável.

No entanto, o Dr. Barclay busca, não só o pensamento judaico, mas, também, entre os gregos[3], evidencias para sustentar a sua asserção inicial e aponta para Platão que, no Fedro (246B), “descreve a alma do homem como o cocheiro, cuja tarefa é dirigir, em arreios duplos, dois cavalos, um dos quais é ‘nobre e de raça nobre’, e o outro é ‘o oposto na raça e no caráter’”. Barclay não para por aí e busca, entre Ovídio (Metamorfoses 7.20), Sêneca (Cartas 112.3), Epíteto (Discursos 2.11.1) e outros, evidenciar a tal ‘experiência humana’[4], que comprove que há um conflito na alma.

Barclay destaca dois escritores gregos: Platão e a sua obra Fédon, que narra às últimas horas de Sócrates e Filo, e acrescenta que este último estabeleceu uma ponte entre o pensamento hebraico e o grego e aquele influenciou incalculavelmente o pensamento cristão, e que ambos sublinharam em seus escritos que o corpo é eminentemente mal (idem, págs. 14 e 15).

A informação inicial apresentada por Barclay, de que o apóstolo ‘Paulo não foi, de modo algum, a primeira pessoa que viu a vida em termos do conflito interno’ (idem, pág. 13), não é verdadeira, pois, em suas epístolas, o apóstolo dos gentios não trata das experiências humanas e nem dos seus conflitos internos, mas, da ‘oposição’ entre o ‘mandamentos de homens’, que é contrário ao ‘mandamento de Deus’, ou seja, ‘carne’ versus ‘espírito’.

Quando o apóstolo Paulo afirma que a carne milita contra o espírito, ele tem em vista dois sistemas doutrinários antagônicos: os mandamentos dos homens e o mandamento de Deus. Aqueles que estão em Cristo Jesus, são os que andam no espírito, diferentemente daqueles que andam segundo a tradição dos homens, ou seja, segundo a carne.

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:1).

A oposição entre a ‘carne’ e o ‘espírito’ descrita pelo apóstolo Paulo não é interna ao homem, pois o que ‘carne’ e ‘espírito’ disputam é o homem, na busca de sujeita-los ‘para que não façais o que quereis’ (Gl 5:17). A oposição entre carne e espírito, descrita pelo termo grego αντικειμαι (antikeimai), não diz de um embate, de um enfrentamento, mas, de oposição. Os que são segundo o evangelho, agradam a Deus, pois se sujeitam ao mandamento, que é crer em Cristo (At 10:35), mas os que são segundo a lei, ou seja, segundo as obras da carne, são inimigos de Deus, pois não se sujeitam ao mandamento de Deus (Rm 8:7-9).

A má leitura de Barclay se deve à falta de compreensão, acerca do termo grego ‘pneuma’, quando empregado pelo apóstolo Paulo, em certos contextos, nas suas epístolas.[5]

O problema exposto na base de um dilema, se o pneuma (espírito), faz parte do homem ou, se é uma parte do homem após ele se tornar cristão, demonstra o quanto a incompreensão de certos termos gregos empregados no Novo Testamento interferiu na leitura e na compreensão de Barclay. Pela incompreensão do tema, Barclay cita J. E. Frame, que, por sua vez, cita Teodoro de Mopsuéstia (ou, Teodoro de Antioquia; 350-428), somando-se erro sobre erro:

“Deus nunca colocou os três, a alma, o espírito e o corpo, num descrente, mas somente nos crentes. Destes, a alma e o corpo são naturais, mas o espírito é um benefício (euergesia) especial para nós, uma dádiva da graça aos que creem”. Teodoro de Mopsuéstia.

Em primeiro lugar, o homem, seja ele crente em Cristo ou, não, só é homem, porque é formado por corpo, alma e espírito. É impossível ao homem ser homem sem corpo, da mesma forma que é impossível ao homem ser o que é sem a alma e o espírito. O espírito que compõe a natureza do homem, tanto natural, quanto espiritual, não diz da dádiva da graça ou de um dom de Deus para a natureza humana redimida.

Todos os homens possuem um corpo constituído de matéria orgânica, formado do pó da terra (Gn 2:7) e Cristo, ao se tornar homem, também teve que ser participante de carne e sangue (Hb 2:14 e 16; Sl 139:13-16; Sl 22:9-10; Sl 40:6). Todos os corpos dos homens são constituídos de matéria orgânica e semelhantes entre si, pois, todos vem do pó e ao pó retornam.

Todos os homens possuem um espirito criado por Deus, exceto Jesus Cristo-homem, visto que o próprio espirito do Verbo eterno esvaziou-se a si mesmo do seu poder e glória e se faz homem, sendo introduzido pelo Altissimo no ventre de Maria, no corpo que lhe foi preparado, sem vínculo com a semente de Adão (Hb 10:5; Fl 2:7).

Todos os homens possuem uma alma, que muitos se referem como a sede dos sentimentos, emoções e desejos dos homens. No entanto, a alma é a identidade do espírito, que unido ao corpo passa a existir dotado de sentimentos, emoções e desejos. Um espírito unido a um corpo, distingue-se dos demais espíritos, quando são unidos a um corpo pela concepção e a alma diz da individualidade do espírito, que o distingue dos demais.

Todos os espíritos dos homens, quando criados por Deus, são idênticos entre si, sem nada que os distingam. Quando do nascimento do homem, em que há a união entre o corpo e o espírito, temos uma alma vivente: um espírito que é único, pela identidade que adquire, através da sua alma.

Os seres angelicais são espíritos e quando criados, o foram de uma única vez, cada qual com a sua identidade e individualidade, distintos um do outro, diferentemente do homem, no qual a identidade e a individualidade do espírito se dá, quando unido ao corpo.

Se Deus retirar o espírito e o fôlego que concedeu ao homem, imediatamente, todos sem exceção, expiram e voltam ao pó da terra (Jó 34:14). O fôlego está relacionado à vida do corpo, constituído de matéria orgânica (Jó 33:4-6) e o espírito está relacionado à existência do homem, o que permite compreender os eventos à sua volta (Jó 38:36). Sem o espírito, o homem seria semelhante aos animais, que se guiam por instintos, ou seja, sem compreender os eventos à sua volta (Sl 32:9).

É próprio do espírito do homem ter e expressar sua opinião, ante os eventos que o cercam por intermédio do corpo, ou seja, através dos lábios (Jó 32:17-20). Eliú, filho de Baraquel, o buzita, antes de ouvir Jó e os seus amigos, achava que era próprio aos mais velhos ensinarem sabedoria e, por isso, tinha receio de expor a sua opinião (Jó 32:6-7). Ao ouvir os mais velhos, Eliú decepcionou-se e chegou à conclusão de que os mais velhos não são os mais sábios e nem os idosos tem conhecimento do que é mais correto (Sl 32:9). Embora fosse consenso à época de Eliú que a sabedoria e o conhecimento eram próprios aos mais velhos, o jovem Eliú conseguiu abstrair, através do que ouviu da discusão dos amigos de Jó, que não era assim.

Como é próprio a todos os homens ter um espírito (o sopro do Senhor Todo Poderoso), Eliú compreendeu que o entendimento e a sabedoria são, igualmente, alcançados por todos, independentemente de ter ou não idade avançada, o que fez com que aquele jovem expressasse a sua opinião diante de alguns velhos (Jó 32:8 e 17).

“Pensava eu: ‘Que a experiência fale mais alto e os muitos anos de vida ensinem a sabedoria’. Contudo, o homem tem um espírito e o sopro de Shaddai, o Todo-Poderoso, que lhe proporciona entendimento. Não são apenas os mais velhos, os maiores e mais sábios, nem os mais idosos que têm o conhecimento do que é mais certo” (Jó 32:7-9).

O espírito do homem não é um entendimento, antes o entendimento é uma faculdade do espírito, que o torna capaz de raciocinar, considerar, compreender, etc. Ao nascer, o homem é um ser terreno, dotado de um espírito, com a faculdade de compreensão, aprendizagem, interação, etc. Entretanto, o discernimento do homem precisa ser exercitado, assim como o corpo, para que possa se desenvolver, até chegar à maturidade, tornando-se apto a discernir entre o bem e o mal (Is 7:16; Hb 5:14).

O espírito do homem, paulatinamente, cresce em entendimento quando interage com o mundo, e isso por intermédio do seu corpo. Deus soprou no homem o fôlego da vida e, assim, este tornou-se alma vivente, dotado de um espírito. O entendimento de Adão só veio através da interação que ele tinha com Deus na virada do dia e com a vivência no jardim do Éden e, assim, é com todos os seus descendentes, pois os filhos interagem com os pais.

A consideração de Teodoro de Mopsuéstia é equivocada, pois, todos os homens, sem exceção, são constituídos de corpo, alma e espírito. Na morte física, o corpo volta ao pó, porém, o espírito, que volta para Deus, jamais se dissocia da alma, pela eternidade. Todo homem, primeiro, teve o corpo formado do pó da terra, através da herança de carne e sangue, que recebe dos pais; em seguida, um espírito, que procede de Deus e, por fim, surge a alma, como identidade do espírito. Ao morrer,o corpo volta para o pó da terra, porém, espírito e alma seguem para a eternidade, quando os homens ressurgirão com corpo glorioso ou, em ignomínia.

Mas, o que é o ‘pneuma’, como dom de Deus, que é próprio à natureza redimida do crente em Cristo? Por ‘natureza redimida’, entende-se como o homem de novo gerado, por meio da palavra do evangelho, que é semente incorruptivel.

O termo grego ‘pneuma’ (espírito), além de se referir a um dos elementos imateriais do homem criado por Deus, também, é utilizado para fazer referência à mensagem do evangelho. O termo ‘espírito’ é utilizado para fazer referência a uma doutrina, assim como o termo ‘fé’, que contém, em seu bojo, a ideia de ‘verdade’. É com esse significado que Jesus afirmou que as suas palavras são ‘espírito e vida’ (Jo 6:63).

Adão, ao pecar, separou-se de Deus, ou seja, morreu. Todos os descendentes de Adão, igualmente, alienaram se de Deus, ou seja, estavam mortos em delitos e pecados (Ef 2:1). O termo ‘morte’ é empregado no sentido de ‘separação’, não no sentido de término das funções vitais. Para a cessação das funções vítias do individuo, o escritor do Gênesis utilizou a expressão ‘voltar ao pó’.

Mas, como o homem volta à comunhão com Deus? Em outras palavras, como o homem é vivificado? Através do espírito, ou seja, pela palavra de Deus (Dt 8:3), pois, por ela, é criado um novo homem (Ef 4:23).

É por isso que o Verbo eterno se fez carne, pois o mandamento de Deus, dado através de Cristo, concede vida aos que creem! Esse mandamento (espirito) é concedido gratuitamente (1 Jo 3:23; Jo 3:16), pois, é dito: pela graça sois salvos! (Ef 2:8). O homem é salvo por meio da ‘verdade anunciada’ (Gl 3:1), que é a ‘fé’, ou seja, evangelho, espírito (Rm 1:16), a fé, que de uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3), a palavra anunciada pelos ministros do espírito.

O apóstolo Paulo foi feito ministro do espírito, ou seja, de um Novo Testamento:

“O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2 Co 3:6).

É por isso que o apóstolo Paulo faz referência a Cristo como o último Adão, o espírito vivificante:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1 Co 15:45).

O espírito do homem regenerado é o mesmo, antes de ser gerado de novo, porém, o que muda é o espírito como mensagem, entendimento, o que se dá no arrependimento. O arrependimento, essencialmente, é uma mudança de espírito, ou seja, de compreensão, acerca de como ser salvo. O espírito dos escribas e fariseus era de que estavam salvos, por serem descendentes da carne de Abraão, mas com o evangelho, deveriam mudar de concepção, espírito, pois a salvação se dá por Cristo, o reino dos céus que era chegado (Mt 3:2 e 8-9).

É pelo espírito (mensagem) do evangelho que sabemos que Deus está em nós e nós n’Ele (1 Jo 3:24). Quem é gerado de novo pelo espírito, é espiritual (Jo 3:6) e quem foi gerado segundo a carne, é carnal, sendo que o espírito (mensagem que acredita ser a verdade) deste, consiste em mandamento carnal e daquele, ‘poder da vida incorruptível’ (Hb 7:16) .

Outro equívoco, é entender que é por meio do pneuma, como espírito do homem[6], que Deus pode falar aos homens, ou que os homens podem ter comunhão com Deus. O pneuma, que Deus fala aos homens, diz da sua palavra, da sua mensagem anunciada por Cristo. É somente por meio do evangelho, que é espirito e vida, que o homem tem comunhão com Deus. O homem possui um espírito, mas não é esse espirito que tem comunhão com Deus ou que torna possível ouvir a Deus.

Watchman Nee, em seu livro, ‘O homem espiritual’ incorre no mesmo erro de Barclay, ao afirmar que:

“É através do espírito que temos comunhão com Deus e somente por ele podemos compreendê-lo e adorá-lo. Por isso se diz que ele é o elemento que nos confere consciência de Deus. Deus habita no espírito; o eu, na alma; e os sentidos, no corpo (…) Por meio do seu espírito, o homem se relaciona com o mundo espiritual e com o Espírito de Deus…” Nee, Watchman, ‘O homem espiritual’ Vol. 1, Editora Betânia – Belo Horizonte, 2002, Pág. 34.

Deus não habita no espírito do homem, mas, no seu corpo:

“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Co 6:19).

O corpo do crente não está em posição inferior ao seu espírito, pois o corpo pertence ao Senhor e o Senhor ao corpo (1 Co 6:13). Ao crer em Cristo, o homem une-se ao Senhor em um só espírito (1 Co 6:17; Ef 2:18), tornando-se, assim, membro do corpo de Cristo (1 Co 6:15). É pelo espírito do evangelho que o homem tem acesso a Deus, por isso, é dito um só espírito (Ef 2:18; Ef 4:4).

Após a queda de Adão, todos os seus descendentes são concebidos todos em pecado, ou seja, em corpo, alma e espírito. Esses elementos não se dividem, não há um mais nobre que o outro, ou seja, o corpo inferior e o espírito superior. É, eminentemente, platônica a ideia de que o espírito é mais nobre[7] que o corpo e o corpo, inferior. Todos os elementos que compõem a natureza do homem estão, igualmente, separados de Deus, sem comunhão, por causa da pena imposta, em decorrência da ofensa de Adão: morte.

Quando o homem crê em Cristo, por intermédio da palavra do evangelho, é purificado, completamente, pelo lavar regenerador do espirito (palavra), de modo que o seu corpo, alma e espírito são plenamente santificados e conservados irrepreensíveis.

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito,  alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo” (1 Ts 5:23).

Deus não se comunica com o espírito do homem, como se fosse autônomo do corpo, antes, se comunica com o homem, através do evangelho, o qual o apóstolo Paulo foi feito ministro, e esse homem é corpo, alma e espírito. Para Deus comunicar-se com o homem, é necessário alguém que pregue e que o homem ouça, e isso só é possível através dos ouvidos, ou seja, através do corpo.

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10:14-17).

Adão foi formado do pó da terra e Deus soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida, concedendo-lhe, além do corpo formado do pó da terra, um espírito, tornando-se assim alma vivente (Gn 2:7). No Éden, Deus se comunicava com o homem pessoalmente, e não com o seu espírito, como se o espírito de Adão fosse independente do corpo.

O Verbo eterno, ao se fazer homem, também, lhe foi preparado um corpo por Deus (Sl 40:6) e Ele foi lançado no ventre de Maria (Sl 22:9-10). Por não ser gerado do sangue, da vontade da carne e do varão, Cristo veio ao mundo sem pecado. O corpo de Cristo não era menos nobre que o seu espírito e alma, tanto que Deus garantiu que nenhum dos seus ossos seriam quebrados (Sl 34:20). Deus ressuscitou o corpo de Cristo e o glorificou, o que demonstra que o corpo não é menos nobre que o espírito.

O termo ‘pneuma’ é utilizado para fazer referência, tanto a Deus, como o Espírito eterno; ao homem, como alma vivente; à parte imaterial do homem criada por Deus; ao evangelho como doutrina; e, ao Espírito Santo. Se o leitor não souber distinguir essas nuances, quanto à aplicabilidade do termo, através do contexto onde empregado, acabará fazendo uma leitura equivocada.

Cristo falou que enviaria o Consolador, ao fazer referência à terceira pessoa da trindade; em outras passagens, é dito que Deus envia o seu espírito, ou o espírito do Seu Filho, uma referência ao evangelho de Cristo; em outras passagens, o Espírito Santo é apresentado fazendo morada no cristão, assim como o Pai e o Filho.

O posicionamento de Barcley é equivocado, conforme se lê:

“Se for assim, o cristão é distintivamente um homem em quem esta presença e poder tem entrado como não podem entrar em outros homens. Então, seria verdadeiro dizer que o espírito do cristão não é outra coisa senão o Espírito Santo fazendo Sua habitação no homem, e dando à vida deste uma paz, uma beleza e poder que simplesmente não estão disponíveis nem são possíveis ao homem não-cristão” Idem, Pág. 17.

O espírito do homem é o homem e o Espírito Santo é a divindade, em comunhão com o homem, o que ocorre pela palavra de Deus que, também, é denominada espírito.

“Que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto” (2Ts 2:2)

Quando o apóstolo Paulo escreve aos cristãos desejando que a bênção de Deus estivesse com eles, assim o faz dizendo: ‘A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito’ (Gl 6:18, Fl 4:23 e Fm 25). A graça de Deus não pode estar com o espírito dos não cristãos, mas é afeta aos espíritos dos cristãos.  Espírito foi empregado por Paulo como indivíduo, não como uma personalidade cristã.

Os termos gregos arraboñ (penhor) e sfragizein (selar) que o apóstolo Paulo utilizou em conexão com o termo pneuma, não significa que o espírito do homem é a presença e o poder de Deus dentro dele. Na verdade, o apóstolo Paulo estava demonstrando que, ao Jesus conceder o Consolador, os cristãos foram selados, sendo o Consolador uma garantia da herança dos cristãos (Ef 1:13-14).

O erro de interpretação de Barcley torna-se mais nítido, quando ele faz referência à passagem bíblica de Romanos 8, versos 1 à 17, quando ele conclui que a passagem trata do Espírito de Deus e do espírito do homem.

“Este fato é exposto de modo mais claro na passagem mais rica de Paulo a respeito do Espírito Santo e o espírito do homem” Idem. Pág. 19.

A passagem de Romanos 8 apresenta o evangelho como antagônico ao mandamento de homens, ou seja, o espírito antagônico à carne, não o espírito do homem e o Espírito Santo, até porque, segundo Barclay, o homem sem Deus não tem espirito[8], e outras vezes tergiversa[9] sobre essa questão. O espírito que faz do homem um cristão diz do evangelho, não do Espírito Santo, que guia o homem a toda verdade.

Além de fazer referência ao homem, através do termo pneuma, o apóstolo Paulo faz uso do termo psuché, traduzido por alma. O termo é utilizado para fazer referência ao homem como individuo, ou, para fazer referência à humanidade (Rm 2:9; Rm 13:1), ou, à própria existência do individuo com vida física (Rm 16:4).

O adjetivo psuchikos, também é utilizado para classificar o individuo como natural, o que o desqualifica para compreender, por si só, as coisas de Deus, o que só é possível através da revelação do evangelho (1 Co 2:14).

 

O inimigo na alma

Mas, com o homem é pneuma, psuchê e sõma, verifica-se que este último termo é utilizado para fazer referência ao corpo constituído de matéria orgânica. Há passagens que utilizam o termo sõma para fazer referência ao homem sujeito ao pecado, em que o corpo é figura utilizada para fazer referência ao homem, como pertencente ao pecado, por causa da ofensa de Adão. O corpo físico é apresentado como corruptível, mas, os cristãos aguardam a sua incorruptibilidade, vez que, o que é mortal, será revestido da imortalidade.

Geralmente, o termo sõma possui um sentido negativo, quando empregado como figura, para descrever a realidade do homem sem Deus, ou, positivo, quando a serviço de Deus, mas no geral, o corpo físico não é nem bem nem mal.

O apóstolo Paulo também utiliza o termo sarx, comumente traduzido por carne, e Barclay interpreta que o tal conflito da alma se dá pela oposição carne e espírito.

“i. Sarx é a inimiga mortal do pneuma. O conflito na alma é exatamente entre a carne, para usar a tradução comum da palavra, e o espírito. ‘Estes,’ diz Paulo, ‘são opostos entre si’ (Gl 5:17). Qualquer que seja, uma outra verdade a este respeito, estas duas são forças opostas dentro da existência humana” Idem. Pág. 20.

Apesar de confessar que o termo sarx não possui uma tradução adequada, Barclay se lança a comentar o que é a carne. No item 5[10], Barclay aponta que, em certos contextos, o termo ‘carne’ significa ‘julgando por padrões humanos’. Ora, carne refere-se à concepção dos judeus, segundo o mandamento de homens que foram instruídos, o que se opõe ao evangelho, que é revelação de Deus em Cristo.

A Bíblia não trata de nenhum conflito na alma, mas, da carne como doutrina, e o espírito como doutrina. Os homens que são segundo a carne, se inclinam para as coisas da carne, que são: circuncisão, nacionalidade, tribo, genealogias, etc. A inclinação da doutrina, segundo a carne é morte, pois, não é segundo a lei de Deus e todos que seguem a carne não podem agradar a Deus.

Há passagens em que o apóstolo Paulo utiliza o termo para fazer referência a uma doutrina e, em outras, ele utiliza o termo para fazer referência às pessoas que vivem segundo essa doutrina. Os sábios, segundo a carne, diz daqueles que são versados na doutrina de homens (1 Co 1:26).

E por que o termo ‘carne’ passou a ser empregado como sinônimo da doutrina dos judaizantes? Porque a circuncisão se dá no prepúcio da carne, símbolo da aliança que Deus fez com os descendentes de Abraão, e que os judeus tomaram por símbolo de salvação.

Como todos os homens são constituídos, fisicamente, de carne, o termo, também, foi utilizado para fazer referência à humanidade (Rm 3:20), entretanto, o uso mais comum, é para retratar o pensamento judaico, que faz da sua carne o seu braço.

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne o seu braço, e que aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

É por isso que o apóstolo Paulo alerta que, apesar de Jesus descender de Davi, segundo a carne, pelo vinculo de sangue com Maria, contudo, não podemos considerá-lo segundo esses parâmetros e nem a ninguém (2 Co 5:16). Isso porque, qualquer que era alguma coisa, segundo a carne, não tem o que comunicar a quem está em Cristo (Gl 2:6).

Viver na carne é o inverso de ser cristão, se considerarmos o judaísmo, que é a essência da carne. Daí, conclui-se que o apóstolo Paulo, como os filósofos, nunca tratou de um conflito na alma, mas, da oposição lei e evangelho, como água e óleo.

A ilustração que Barclay faz da carne é totalmente descabida, pois, a Bíblia apresenta o homem como em pecado, desde o nascimento, portanto, não há que se falar que é através da ‘carne’ que o pecado invade o homem [11]. O homem é formado em iniquidade e concebido em pecado (Sl 51:5), desvia-se desde a madre e anda errado desde que nasce,  proferindo mentiras (Sl 58:3).

O pecado não precisa ‘entrar’ no homem, porque o homem já está sujeito ao pecado como escravo.

Por fim, Barckay passa a descrever as ‘obras da carne’ e, pelo erro inicial, com relação à carne e ao espírito, a leitura que faz das obras da carne e do fruto do espírito não passa de um equivoco generalizado.

Enquanto Barclay analisa os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, que foram traduzidos por: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias, a partir do comportamento desregrado dos gregos e dos romanos (esquecendo que o apóstolo Paulo não julga os que são de fora, mas os que são de dentro), não percebe que a lista das obras da carne foi feita a partir da apostasia dos filhos de Israel, que foram postos por exemplos.

Como Deus não se agradou dos filhos de Israel, e por isso muitos pereceram no deserto, eles foram feitos figuras, para que não incorramos no mesmo exemplo de desobediência.

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber e levantou-se para folgar” (1 Co 10:6-7).

A lista de obras da carne tem em vista os cristãos utilizarem da lei, legitimamente, não como os que vivem, segundo a carne, pois a lei foi feita para os judeus, homens injustos e obstinados.

“Querendo ser mestres da lei e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa, legitimamente; Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros e para o que for contrário à sã doutrina, conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado” (1 Tm 1:7-11).

Vale destacar que a experiência universal da vida[12] nada pode nos comunicar com relação à verdade das Escrituras, pois, esta, é revelação e aquela, sabedoria humana, em que a sabedoria humana, invariavelmente, desembocará em mandamentos tais como: “Não toques, não proves, não manuseies” (Cl 2:21).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“A filosofia e a teologia são essencialmente uma transcrição e uma interpretação da experiência humana, e a experiência humana é de que há um conflito na alma. Para Paulo, tratava-se de uma guerra entre duas forças opostas que chamava de carne e espírito. “Porque a carne milita contra o Espírito,” disse ele, “e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl 5.17).” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[2]“No homem, conforme entendiam, havia duas naturezas, de modo que este sempre estava na situação de alguém que é atraído para duas direções ao mesmo tempo (…) O impulso mau estava espreitando o homem quando emergia do ventre, porque ‘o pecado jaz à porta,’ ou seja: à porta do ventre (Gn 4.7; Sanhedrin 91b) e no decurso de toda vida do homem, permanecia ‘seu inimigo implacável’ (Tanhuma, Beshallah 3). O conflito na alma fazia parte da herança da crença judaica” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[3]“O cavalo nobre é a razão e o cavalo indócil é a paixão; o cavalo de natureza má ‘sobrecarrega o carro’ e o arrasta para a terra. Aqui, também, há o mesmo quadro de guerra e tensão, sempre com a terrível possibilidade da ruína como consequência”.  Idem.

[4]“O mal do corpo veio a ser uma das ideias dominantes do pensamento hebraico. SômaSêma, o corpo é um túmulo, dizia o provérbio rimado órfico. O corpo, disse Filolao, é uma casa de detenção onde a alma é aprisionada para expiar seu pecado. Epíteto pode dizer que tem vergonha de possuir um corpo, que é uma ‘pobre alma algemada a um cadáver’ (Fragmento 23). Sêneca fala da ‘habitação detestável’ do corpo e da carne vã a que a alma está aprisionada (Cartas 92.110). ‘Desprezem a carne,’ diz Marco Aurélio, ‘sangue e ossos e a rede que é uma meada torcida de nervos, veias e artérias’ (Meditações 2.2).

[5]“Descobrir o que Paulo quer dizer com espírito, o pneuma, não é totalmente fácil. A dificuldade torna-se clara quando comparamos diferentes textos gregos do NT com diferentes versões, porque as versões não concordam entre si quanto à ortografia de espírito e pneuma, com ou sem maiúscula inicial, ou seja, quando a referência diz respeito ao Espírito de Deus ou ao espírito do homem (…) Mas, o verdadeiro problema é saber se o pneuma, o espírito, faz parte do homem propriamente dito, ou se é apenas uma parte do homem depois de ele se tornar cristão; se o pneuma faz parte da natureza humana ou se é o dom de Deus para a natureza humana redimida” Idem. Pág. 17.

[6]“Ainda mais, o pneuma é o elo entre Deus e o homem; é através do pneuma que Deus pode falar aos homens e que os homens podem ter comunhão com Deus” Idem. Pág. 17.

[7]“Por intermédio da alma, o espírito pode subjugar o corpo, para que obedeça a Deus. Da mesma forma, o corpo, através da alma, pode levar o espírito a ter amor pelo mundo. Desses três elementos, o espírito é o mais nobre porque se une com Deus. O corpo é inferior, pois está em contato com a matéria” Nee, Watchman, ‘O homem espiritual’ Vol. 1, Editora Betânia – Belo Horizonte, 2002, Pág. 34.

[8]“Pode ser dito que para Paulo o espírito do homem é o poder de Deus que nele habita ou, num outro modo de expressar o fato, é o Cristo ressurreto que reside nele” Idem. Pág. 19.

[9]“Além disso, é exatamente a possessão desse espirito que torna o homem diferente da criação animal” Idem. Pág. 17.

[10]“v. Paulo usa sarx em frases e contextos onde usaríamos uma frase tal como: ‘julgando por padrões humanos” Idem. Pág. 21.

[11]“A essência da carne é a seguinte. Nenhum exército pode invadir um país pelo mar a não ser que possa obter uma cabeça de ponte. A tentação não teria a capacidade de afetar os homens, a não ser que houvesse algo já existente no homem que correspondesse à tentação. O pecado não poderia obter nenhuma cabeça de ponte na mente, coração, alma e vida do homem a não ser que houvesse um inimigo dentro dos portões que tivesse disposto a abrir a porta para o pecado. A carne é exatamente a cabeça de ponte, através da qual o pecado invade a personalidade humana. A carne é como o inimigo do lado de dentro e que abre o caminho para o inimigo que está forçando a porta” Idem. Pág. 24.

[12]“Mas de onde vem esta cabeça de ponte? De onde surgiu este inimigo do lado de dentro? É experiência universal da vida que um homem pela sua conduta capacita-se ou não a experimentar certas coisas” Idem. Pág. 24.

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O vinho da prostituta do Apocalipse

As abominações e imundícies são o vinho que a meretriz deu aos reinos e reis da terra que os tornam sujeitos à ira de Deus. O vinho do furor que as nações beberão decorre da promiscuidade da cidade que se fez meretriz e provocou o ciúme do seu Senhor “Porque assim me disse o SENHOR Deus de Israel: Toma da minha mão este copo do vinho do furor, e darás a beber dele a todas as nações, às quais eu te enviarei. Para que bebam e tremam, e enlouqueçam, por causa da espada, que eu enviarei entre eles” ( Jr 25:15 -16).


Continuação do Artigo “A meretriz do Apocalipse”

 

A nação de Israel foi cuidada e adornada por causa da promessa que Deus fez aos pais, como se lê: “Então te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue, e te ungi com óleo. E te vesti com roupas bordadas, e te calcei com pele de texugo, e te cingi com linho fino, e te cobri de seda. E te enfeitei com adornos, e te pus braceletes nas mãos e um colar ao redor do teu pescoço. E te pus um pendente na testa, e brincos nas orelhas, e uma coroa de glória na cabeça. E assim foste ornada de ouro e prata, e o teu vestido foi de linho fino, e de seda e de bordados; nutriste-te de flor de farinha, e mel e azeite; e foste formosa em extremo, e foste próspera, até chegares a realeza” ( Ez 16:9 -13).

O cuidado de Deus fez com que a nação de Israel adquirisse muitas riquezas e que os filhos de Jacó se multiplicassem em grande número, o que tornou as suas cidades grandiosas e desejáveis. Por causa da pujança da nação de Israel, as nações vizinhas se aproximaram oferecendo alianças. Os filhos de Jacó deixaram de confiar em Deus (apostasia) e passaram a confiar nas suas alianças políticas, no seu poder militar, na sua capacidade econômica e na sua religiosidade.

A aliança com Deus foi quebrada por causa da apostasia do povo, como consequência Deus trouxe sobre os filhos de Jacó tudo o que fora previsto por Moisés. As cidades de Israel foram esvaziadas dos seus habitantes e o povo que sobrou da espada, da fome e da peste desterrado ( Dt 28:61 ; 2Rs 24:20 ), mas a promessa de redenção para o remanescente permanece por causa dos pais (Abraão, Isaque e Jacó), pois o remanescente será salvo quando Deus tirar do meio do povo a apostasia.

A meretriz que se assenta sobre a besta é vista vestida de púrpura e de escarlata, adornada com ouro, pedras preciosas e pérolas, uma descrição semelhante às palavras do profeta Ezequiel acerca de Israel. É de se estranhar que a meretriz tenha domínio sobre uma besta, e por causa da sua beleza, sente-se segura a ponto de cavalgar em uma fera que pode destruí-la.

Vale destacar novamente que foi Deus quem tornou a nação de Israel formosa em extremo até chegar à realeza, porém, ao confiar em sua beleza, a nação tornou-se pérfida, quebrou a aliança com seu Deus.

 

O vinho das prostituições da grande cidade

“… e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua prostituição ( Ap 17:2 )

Com certeza o vinho que a meretriz deu aos reis da terra não é o mesmo vinho que Noé fez usou após plantar uma vinha “E bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda” ( Gn 9:21 ); “Tardai, e maravilhai-vos, folgai, e clamai; bêbados estão, mas não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte” ( Is 29:9 ).

O vinho da meretriz diz do vinho que fez o povo de Israel errar “Mas também estes erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham; até o sacerdote e o profeta erram por causa da bebida forte; são absorvidos pelo vinho; desencaminham-se por causa da bebida forte; andam errados na visão e tropeçam no juízo. Porque todas as suas mesas estão cheias de vômitos e imundícia, e não há lugar limpo” ( Is 28:7 -8).

Ao longo da história de Israel profetas e sacerdotes desencaminhavam o povo ( Is 28:14 ), e Deus continuamente estendia a mão a um povo rebelde e contradizente. As vicissitudes que o povo de Israel enfrentava foi estabelecida por Deus por sinal e por maravilha para que ouvissem a voz de Deus ( Dt 28:46 ). Por não confiarem em Deus o povo de Israel foi desterrado para a Babilônia.

A profecia de Isaias no capítulo 28 estabelece um ‘ai’ contra os filhos de Jacó (bêbados de Efraim) que ocorrerá na última semana de Daniel, tempo em que restarão do povo de Israel uns ‘rabiscos’ (remanescentes), e o Senhor dos Exércitos (Cristo) será estabelecido como coroa de glória do Seu povo “Naquele dia o SENHOR dos Exércitos será por coroa gloriosa, e por diadema formosa, para os restantes de seu povo” ( Is 28:5 ).

Desde quando foi resgatado do Egito o povo de Israel esteve bêbado, mas não do vinho que Noé bebeu. O povo estava embriagado porque recebeu um espírito de profundo sono, ou seja, as Escrituras era como as palavras de um livro selado “Tardai, e maravilhai-vos, folgai, e clamai; bêbados estão, mas não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte. Porque o SENHOR derramou sobre vós um espírito de profundo sono, e fechou os vossos olhos, vendou os profetas, e os vossos principais videntes. Por isso toda a visão vos é como as palavras de um livro selado que se dá ao que sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele dirá: Não posso, porque está selado” ( Is 29:9 -11; Rm 11 :8 ).

Deus estendeu a mão ao povo Israelita todos os dias dando-lhes mandamento “Também vos enviou o SENHOR todos os seus servos, os profetas, madrugando e enviando-os, mas vós não escutastes, nem inclinastes os vossos ouvidos para ouvir” ( Jr 25:4 ), mas o povo seguia o devaneio dos seus corações, pelo que Deus os entregou às concupiscências de seus corações ( Rm 1:24 ; Is 30:1 e 9; Rm 10:21 ; Is 65:2 ; Is 63:10 ).

Quando o homem não se ‘cobre’ do espírito, a palavra de Deus não passa de regras sobre regras ( Is 30:1 ). Para o povo de Israel, a palavra do Senhor era preceito sobre preceito, regra sobre regra e mandamento sobre mandamento ( Is 28:13 ), e tudo que aprendiam não passava de mandamento de homens ( Is 29:13 ). Não compreendiam as profecias contidas nos salmos, lei e profetas, de modo que rejeitaram o Messias.

Juravam pelos céus que eram obedientes a Deus, mas não conseguiram compreender que o filho de Maria, nascido em Belém, era o Messias prometido, e crucificaram o autor da vida do qual Davi profetizando disse: “Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre. Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha. Escureçam-se-lhes os seus olhos, para que não vejam, e faze com que os seus lombos tremam constantemente. Derrama sobre eles a tua indignação, e prenda-os o ardor da tua ira. Fique desolado o seu palácio; e não haja quem habite nas suas tendas” ( Sl 69:21 -25; Rm 11: 9 -10).

Na plenitude dos tempos o povo de Israel tratou o Messias com pão da amargura (perseguição e sofrimento) e lhe deram por bebida vinagre ( Gl 4:4 ), de modo que o veredicto previsto por Davi recaiu sobre a nação: as duas casas de Israel foram enlaçadas e presas ( Is 8:14 ).

A lei foi dada ao povo de Israel para conduzi-lo a Cristo, porém, a pretexto de guardarem a lei, mataram o Autor da vida. Foram enlaçados na concupiscência dos seus corações malignos herdados de Adão. A lei tornou-se um laço para o povo de Israel, como foi previsto, tropeçaram na pedra de tropeço “Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei?” ( Sl 94:20 ).

A comida de Cristo era fazer a vontade do Pai ( Jo 4:34 ; Sl 40:8 ; Hb 10:7 -10), de modo que, quando foi ordenado pelo Pai que Cristo seria crucificado, Deus estava preparando para o Messias uma mesa na presença dos seus algozes, que por sua vez, foram enlaçados e presos “Como alimento me deram fel, e na minha sede me deram vinagre. Que sua mesa seja armadilha para eles, e sua abundância uma cilada” ( Sl 69:22 -23 Bíblia da CNBB; Sl 23:5 ).

Enquanto Jesus obedecia realizando a vontade do Pai na cruz ( Gl 1:4 ), os inimigos de Cristo eram enlaçados e presos, pois não creram nas palavras de Cristo e durante a crucificação serviram vinagre ao Autor da vida, o que indica que as Escrituras se cumpriu “Fui opróbrio entre todos os meus inimigos, até entre os meus vizinhos, e horror para os meus conhecidos; os que me viam na rua fugiam de mim” ( Sl 31:11 ; Sl 22:1 ).

O Salmo 69 cumpriu-se cabalmente: os moradores de Jerusalém estavam como que cegos, de modo que sorveram o vinho da ira por não crerem no enviado de Deus, crucificando-O. Ainda não vimos a queda da cidade por um detalhe: as 69 semanas previstas por Daniel encerrou-se antes da morte do Messias ( Dn 9:26 ).

Após a ordem para restaurar e edificar a Jerusalém, certo é que a cidade de Jerusalém continuou sob o domínio de nações estrangeiras, como os persas, gregos e romanos. Quando a última semana tiver início, a nação de Israel não mais estará subjugada politicamente, pois durante a plenitude dos gentios os judeus conseguiram se estabelecer como nação, mas por não crerem no enviado de Deus, a cidade cambaleará, e a sua queda se dará na última metade da última semana de Daniel. O vinho é figura da ira de Deus, que tem por consequência a falta de equilíbrio, a confusão, e por fim, dá-se a queda, e não há quem livre.

A doutrina que os sacerdotes, escribas e líderes de Israel produziam era proveniente dos seus corações malignos que herdaram de Adão, portanto, desde que nasceram falavam mentiras ( Sl 58:3 ). Não deram ouvidos à voz de Deus como se fossem ‘víboras surdas’, e o que saia da boca deles era semelhante ao veneno de serpentes “O seu veneno é semelhante ao veneno da serpente; são como a víbora surda, que tapa os ouvidos” ( Sl 58:4 ).

Este foi o veredicto de Deus sobre Israel por prevaricarem: “Assim o SENHOR cortará de Israel a cabeça e a cauda, o ramo e o junco, num mesmo dia (O ancião e o homem de respeito é a cabeça; e o profeta que ensina a falsidade é a cauda). Porque os guias deste povo são enganadores, e os que por eles são guiados são destruídos” ( Is 9:14 – 16).

A mentira, o engano atrai a ira de Deus, de modo que aquele que se embriaga no vinho da confusão, consequentemente bebe o vinho da ira de Deus. O salmo 80 é uma suplica a Deus por causa da ira que se abate sobre Israel, a vinha do Senhor ( Sl 80:1 -19).

O VINHO DA MERETRIZ – “E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas; e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio das abominações e da imundícia da sua prostituição” ( Ap 17:4 ) – As abominações e as imundícies do cálice da meretriz provoca a ira de Deus, de modo que ser participante das abominações e imundícies da meretriz é o mesmo que beber do vinho da ira de Deus;

O VINHO DA IRA E DO JUÍZO – “Também este beberá do vinho da ira de Deus, que se deitou, não misturado, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro” ( Ap 14:10 ) – o vinho da ira fala da justa punição que Deus dará aos pecadores, vinho proveniente do lagar que o Cristo sozinho pisou e teve as suas vestes salpicadas de sangue ( Jr 26:15 -16; Jr 26:27 ; Is 63:3 ). Aqueles que sorverem o vinho da ira seguirão para a segunda morte, onde há tormento eterno.

 

Israel produziu e bebeu do vinho de engano e das mentiras, que é como veneno de serpente, e na plenitude dos tempos não creram em Cristo como o Filho de Deus, de modo que a retribuição virá, mas somente na última das setenta semanas de Daniel.

Com a vinda do Cristo suspendeu-se o tempo da contagem das setenta semanas de Daniel em virtude da entrada do tempo dos gentios ( Dn 9:25 ), portanto, a invasão de Jerusalém por Roma no ano de 70 depois de Cristo não é o princípio de dores previsto por Cristo ( Mt 24:8 ).  A indignação e o ardor da ira de Deus que fará com que os palácios de Jerusalém e as tendas dos seus habitantes fiquem desertos, se dará na última semana de Daniel, após o arrebatamento da igreja, quando se encerrará a plenitude dos gentios ( Dn 9:27 ).

As abominações e imundícies são o vinho que a meretriz deu aos reinos e reis da terra que os tornam sujeitos à ira de Deus. O vinho do furor que as nações beberão decorre da promiscuidade da cidade que se fez meretriz e provocou o ciúme do seu Senhor “Porque assim me disse o SENHOR Deus de Israel: Toma da minha mão este copo do vinho do furor, e darás a beber dele a todas as nações, às quais eu te enviarei. Para que bebam e tremam, e enlouqueçam, por causa da espada, que eu enviarei entre eles” ( Jr 25:15 -16).

As nações que participam das abominações e imundícies da meretriz sorverão o vinho do furor de Deus. Cairão e não se levantarão, porque a queda se dará pela espada “Pois lhes dirás: Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Bebei, e embebedai-vos, e vomitai, e caí, e não torneis a levantar-vos, por causa da espada que eu vos enviarei” ( Jr 25:27 ).

O vinho da taça da mulher vestida de vermelho é o mesmo vinho produzido na vinha de Sodoma e nos campos de Gomorra: a ira de Deus “Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm. O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:32 -33).

Sodoma e Gomorra foram duas cidades destruídas por Deus por causa da impiedade dos seus habitantes e são símbolo do juízo e do castigo de Deus. Ora, se a vinha é de Sodoma e os campos são de Gomorra e ambas as cidades foram subvertidas por Deus, significa que a ira d’Ele paira sobre os que semeiam nos campos da impiedade, pois o que o homem plantar, isto mesmo ceifará ( Gl 6:7 -8).

Quando Moisés falou da vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra que resulta no juízo e no castigo de Deus, estava anunciado que o povo de Israel haveria de se corromper e abandonar a aliança com Deus ( Dt 32:5 ). Moisés profetizou que o juízo e a ira de Deus viria sobre Israel porque haviam de provocar a Deus quando entrassem na terra prometida, visto que seguiriam a deuses estranhos e suas abominações ( Dt 32:16 ).

Após prever as abominações do povo de Israel, Deus dá, por intermédio de Moisés, o seguinte veredicto: “E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade. A zelos me provocaram com aquilo que não é Deus; com as suas vaidades me provocaram à ira: portanto eu os provocarei a zelos com o que não é povo; com nação louca os despertarei à ira. Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes. Males amontoarei sobre eles; as minhas setas esgotarei contra eles” ( Dt 32:20 -23).

Foi profetizado que Israel acenderia o fogo da ira de Deus que consumiria toda a terra, consumindo tanto os montes (nações) quanto a colheita da terra (habitantes). Por deixarem de confiar em Deus e confiarem naquilo que não é Deus (vaidade), os filhos de Jacó provocaram a ira de Deus. Pasmem os leitores, mas na lei também há doutrina das últimas coisas!

As abominações de Israel são tidas como o ‘estopim’ que acende o fogo da ira de Deus, e este fogo, por sua vez consumirá as nações que ‘entraram’ à meretriz.

Por que Israel é o ‘estopim’ da ira, e por que as nações serão punidas?

Ora, o desvio de Israel tem por consequência o castigo de Deus. E, para castigar a nação obstinada ( Is 9:8 – 9), Deus constituiu nações vizinhas como vara de correção contra Israel. Num primeiro momento tais nações são varas nas mãos de Deus, mas como elas não dosaram a medida da punição e atribuíram aos seus deuses os seus feitos, são punidas logo após castigar Israel.

A Assíria foi uma destas varas ( Is 10:5 ), que após desempenharem a missão que Deus lhes outorgou, passaram a imaginar coisas vãs: que dominariam todas as nações ( Is 10:7 ). Consideraram que Israel era igual às demais nações que despojaram, provocando a zelos a ira de Deus ( Is 10:12 ).

Observe o previsto por Jeremias: “Todos os teus amantes se esqueceram de ti, e não perguntam por ti; porque te feri com ferida de inimigo, e com castigo de quem é cruel, pela grandeza da tua maldade e multidão de teus pecados. Por que gritas por causa da tua ferida? Tua dor é incurável. Pela grandeza de tua maldade, e multidão de teus pecados, eu fiz estas coisas. Por isso todos os que te devoram serão devorados; e todos os teus adversários irão, todos eles, para o cativeiro; e os que te roubam serão roubados, e a todos os que te despojam entregarei ao saque” ( Jr 30:14 -16).

De longa data as prostituições dos filhos de Israel desperta a ira de Deus, que por sua vez, convoca as nações em redor para puni-los, mas aqueles que são utilizados como ‘machado’ nas mãos de Deus se exaltam, e tornam-se alvos da ira de Deus ( Is 10:15 ; Is 33:1 ).

A meretriz do Apocalipse deu a beber à todas as nações da terra o vinho da ira quando saiu a prostituir-se com os reis e reinos da terra. O vinho que a meretriz distribuiu às nações em seu suntuoso cálice de ouro é a ira de Deus “Porque todas as nações beberam do vinho da ira da sua prostituição, e os reis da terra se prostituíram com ela; e os mercadores da terra se enriqueceram com a abundância de suas delícias” ( Ap 18:3 ); “E a grande cidade fendeu-se em três partes, e as cidades das nações caíram; e da grande Babilônia se lembrou Deus, para lhe dar o cálice do vinho da indignação da sua ira” ( Ap 16:19 ).

Primeiro a meretriz (Israel) provoca a zelos o Senhor quando se esquece d’Ele e sai após os seus amantes (nações vizinhas). Em seguida vem o castigo pelo pecado dos filhos de Jacó. As mesmas nações que, pretensamente se beneficiaram com as riquezas dos filhos de Jacó, se levantam para destruí-los, mas, todos os que são utilizados para castiga-los serão devorados à espada.

Após a besta e seus chifres colocarem a meretriz (a grande cidade) desolada e nua (sem edifícios e sem habitantes), o Messias aparecerá em glória e exterminará a besta e os seus dez chifres. O extermínio das nações é o lagar que o filho do homem pisará ( Is 63:6 ).

O cálice de ouro que a grande prostituta segura é repleta de abominações, segundo a imundície das suas prostituições, pois abandonaram o Senhor e foram cavar para si fontes rotas “Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas” ( Jr 2:13 ; Jr 14:3 ; Ap 17:4 ).

A taça da mulher é cheia de abominações e prostituições, e qualquer que se torna participante das suas prostituições, consequentemente sorverá o vinho da indignação e da ira de Deus. Quem se embriaga nas abominações da meretriz consequentemente cairá, pois encontrará a ira de Deus.

Apesar de Deus proteger o povo de Israel como a ‘menina dos seus olhos’, o povo lançou-se à prostituição, provocaram o zelo de Deus e trouxeram sobre si a ira “Com deuses estranhos o provocaram a zelos; com abominações o irritaram” ( Dt 32:16 e 21 ; Tg 4:5 ).

Cristo, ao falar aos fariseus e escribas, nomeia-os de ‘raça de víboras’, ‘loucos’, ‘néscios’, ‘adúlteros’ ( Mt 16:4 ). Estas figuras são utilizadas continuamente pelos profetas, salmos e provérbios para fazer referência ao povo de Israel ( Is 1:10 ; Jr 23:14 ; Ez 23:1 -4; Os 2:2 ).

Os apóstolos fazem referencia a Israel como povo constituídos de adúlteros e adúlteras ( Tg 4:4 ; Rm 2:22 ), daí a figura da prostituta que provoca o ciúmes do marido ( Pv 6:34 ), e o marido, por sua vez, além de castigar a mulher pérfida, vinga-se dos seus amantes.

Uma das prostituições de Israel consistia em procurar as nações vizinhas para fazer aliança em tempo de guerra e desprezavam a palavra do Senhor ordenada por Moisés. O Egito foi uma das nações com as quais Israel prostituiu-se e o veredicto do Senhor veio sobre eles ( Is 31:1 e 3; Is 30:1 -5).

Outro tipo de abominação foi adotarem os deuses das nações vizinhas, sendo que Israel adotou Baal por Deus e foram arremessados para Babilônia “Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento” ( Jr 19:5 ).

Somam-se às iniquidades da nação de Israel as falsas doutrinas (preceitos de homens) criadas pelos lideres, sacerdotes, falsos profetas e anciões e a oposição ferrenha que faziam contra os profetas de Deus “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” ( Is 59:13 ); “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste?” ( Lc 13:34 ; Mt 21:33 -46). Mas a pior das abominações de Israel foi desprezar a palavra da vida, o Cristo de Deus e como consequência desta afronta a cidade de Israel ficará desamparada enquanto não disserem: – Bendito aquele que vem em nome do Senhor!

A grande cidade será punida por ser culpada de ter derramado o sangue dos profetas e dos santos ( Ap 18:24 ). A cidade de Israel será punida durante a grande tribulação por ter se embriagado no sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Cristo ( Ap 17;6 ; Ap 19:2 ).

A cidade dos Caldeus (Babilônia) não é vista derramando o sangue dos profetas ou dos santos, pelo contrário, preservou a vida de muitos deles. Jeremias foi preservado por um dos emissários do rei Nabucodonosor ( Jr 40:4 ). Daniel, Sadraque, Mesaque e Abednego foram preservados na Babilônia, etc. “E entre eles se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias” ( Dn 1:6 ).

A grande cidade aliou-se à besta ao fazer aliança com sete reinos e sete reis, porém, a própria besta e os dez chifres hão de se insurgir contra a grande cidade e a derribará, deixando a grande cidade (mãe das prostituições) desolada e nua.

Ao perceber que a prostituta, mãe das prostituições e abominações da terra era a cidade de Israel, o evangelista João ficou admirado sobre maneira ( Ap 17:6 ).

A mulher não é a cidade dos caldeus. A mulher não é o papado. A mulher não é a Igreja Católica. Definitivamente: a mulher prostituta é a nação de Israel!

 

6  E vi que a mulher estava embriagada do sangue dos santos, e do sangue das testemunhas de Jesus. E, vendo-a eu, maravilhei-me com grande admiração. 7  E o anjo me disse: Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem sete cabeças e dez chifres.

O evangelista declara duas vezes seguidas que viu a mulher:

1) ‘E vi a mulher…’, e;

2) ‘E, vendo-a eu…’.

A segunda declaração do evangelista soa como um reconhecimento, um modo de expressar que ele identificara quem seria aquela mulher.

A admiração do evangelista resultou em uma resposta do anjo: – ‘Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem sete cabeças e dez chifres’ ( Ap 17:7 ).

Barcley declara que a mulher é Roma: “A mulher é Babilônia, quer dizer, é Roma. Há uma dificuldade que se expõe no princípio do capítulo, mas pode ser esclarecida de maneira imediata. Afirma-se que a mulher está assentada sobre “muitas águas” (v. 1). Esta é uma imagem de Roma representada mediante o simbolismo que corresponde a Babilônia, segundo os ditos dos antigos profetas de Israel” Barclay, William, The Revelation of John, Tradução: Carlos Biagini, pág. 370.

Moody entendia que a mulher é um poder espiritual: “Ela é definidamente algum vasto sistema espiritual que persegue os santos de Deus, traindo aquilo para o que foi chamada. Ela entra em relações com os governos desta terra, e por algum tempo os governa. Eu acho que o mais perto que possamos chegar a uma identificação é compreender que esta prostituta é um símbolo de um grande poder espiritual que se levantará no fim dos tempos, o qual estabelecerá uma aliança com o mundo e assumirá compromissos com as forças do mundo. Em vez de ser espiritualmente verdadeira – ela é espiritualmente falsa, e assim exerce uma influência maligna em nome da religião” Moody, pág. 59.

Mas a única cidade acusada de derramar o sangue dos santos e das testemunhas de Cristo foi Jerusalém. Como nação Israel foi apontado como sendo um leão que devorava os profetas que Deus enviava, como se lê: “Por que contendeis comigo? Todos vós transgredistes contra mim, diz o SENHOR. Em vão castiguei os vossos filhos; eles não aceitaram a correção; a vossa espada devorou os vossos profetas como um leão destruidor. Oh geração! Considerai vós a palavra do SENHOR: Porventura tenho eu sido para Israel um deserto? Ou uma terra da mais espessa escuridão? Por que, pois, diz o meu povo: Temos determinado; não viremos mais a ti? Porventura esquece-se a virgem dos seus enfeites, ou a noiva dos seus adornos? Todavia o meu povo se esqueceu de mim por inumeráveis dias. Por que ornamentas o teu caminho, para buscares o amor? Pois até às malignas ensinaste os teus caminhos. Até nas orlas dos teus vestidos se achou o sangue das almas dos inocentes e necessitados; não cavei para achar, pois se vê em todas estas coisas. E ainda dizes: Eu estou inocente; certamente a sua ira se desviou de mim. Eis que entrarei em juízo contigo, porquanto dizes: Não pequei” ( Jr 2:29 -35).

O profeta Jonas foi enviado a Nínive, cidade dos Assírios, e não foi morto. Daniel, Jeremias, Ezequiel, Elias, Eliseu, Jesus, etc., foram enviados as outras nações para profetizarem e não foram mortos. Mas, de Jerusalém se diz: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste?” ( Lc 13:34 ; Mt 23:29 ).

O evangelista João conseguiu visualizar algo importante quando identificou que a meretriz estava embriagada com o sangue dos santos e das testemunhas de Cristo, e foi isto que o deixou admirado. Ora, a única cidade com histórico de matar os santos profetas de Deus e as testemunhas de Cristo é a cidade de Jerusalém ( Lc 13:34 ; At 3:15 ).

As duas testemunhas do Apocalipse serão mortas em Israel, a mesma cidade onde o Cristo foi morto ( Ap 11:8 ), de modo que a grande meretriz, a mulher cheia de pompa e realeza (vestida de escarlata) é Israel, a mãe de prostituições que se embriagou com o ‘sangue dos santos, e do sangue das testemunhas de Jesus’.

O evangelista João observou que a mulher estava embriagada (bêbada) por causa do sangue dos santos e do sangue das testemunhas de Jesus ( Ap 18:24 ), ou seja, a embriagues representa a queda da grande cidade por meio da espada dos seus algozes.

Continua…

O mistério da ‘Babilônia’ do Apocalipse

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É possível santificar a si mesmo?

Num primeiro momento os cristãos haviam sido santificados através da vontade de Deus, por meio da oferta do corpo de Cristo ( Hb 10:10 ). Levando em conta este primeiro momento, o apóstolo Paulo, juntamente com Timóteo e Silvano, falam da vontade de Deus para aqueles que já alcançaram a Santificação. Ou seja, a vontade de Deus para os cristãos que já haviam alcançado uma nova condição através da oferta do corpo de Cristo (santos), é que se abstenham da prostituição.


“Esta é a vontade de Deus para a vossa santificação; que vos abstenhais da prostituição”
( 1Ts 4:3 ).

É possível ao homem santificar-se a si mesmo?

Este versículo é muito utilizado por aqueles que defendem a santificação progressiva. Dentre eles temos o Dr. Bancroft:

“A justificação difere da santificação no seguinte: aquela é um ato instantâneo e que não comporta progressão; esta, é uma crise que visa a um processo – um ato que é instantâneo, mas que ao mesmo tempo traz em si a ideia de desenvolvimento até a consumação” Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, 3º Ed. Editora EBR, pág. 262.

Por causa destas afirmações surgem muitas dúvidas: o homem consegue santifica-se? O homem consegue, segundo uma disposição interna, separar-se para Deus? Esta idéia é válida?

Como já visto anteriormente, é a vontade de Deus que santifica o homem: Nesta vontade é que temos sido santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas” ( Hb 10:10 ), mas o que dizer do versículo que diz: “Esta é a vontade de Deus para a vossa santificação; que vos abstenhais da prostituição” ( 1Ts 4:3 ).

Basta abster-se da prostituição que o homem alcançará a Santificação? É por meio da abstenção de certas condutas que o homem se santifica, ou é a vontade de Deus que executa esta obra?

Observando o contexto no qual foi inserido este versículo, verifica-se que Paulo, Timóteo e Silvano passam as considerações finais quando da escrita da carta aos Tessalonicenses “Finalmente, irmãos…” ( 1Ts 4:1 ).

Em seguida, eles passam a demonstrar uma verdade que não podemos nos furtar em observar: “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como recebestes de nós, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, assim andai, para que abundais cada vez mais” ( 1Ts 4:1 ).

Sobre a maneira que o homem deve ‘viver’ e ‘agradar a Deus’ tratar-se da nova vida em Cristo proveniente do evangelho da graça, e não de questões comportamentais. O que os cristãos haviam recebido do apóstolo quanto ao viver e agradar a Deus? O evangelho de Cristo, que é poder de Deus (semente incorruptível) para todo aquele que crê ( Jo 1:12 ; 1Pe 1:23 ).

O evangelho foi entregue, “…recebestes de nós…” para que pudessem viver e agradar a Deus. Só é possível agradar a Deus após receber vida por meio da semente incorruptível, quando o homem é feito filho de Deus

Como agradar a Deus, ou ser agradável a Deus? A resposta encontra na nova vida concedida aos que creem. Somente os nascidos do Espírito podem agradar a Deus “Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” ( Rm 8:8 ). Se os que estão na carne (os nascidos segundo a carne, filhos da ira, filhos da desobediência, descendentes de Adão) não podem agradar a Deus, somente os nascidos de semente incorruptível, que é a palavra de Deus, recebem poder para serem de novo criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Os cristãos já viviam em Espírito e agradavam a Deus, uma vez que já haviam crido em Cristo. Isto pode ser confirmado quando Paulo agradece a Deus pelos Tessalonicenses “… e da vossa firmeza de esperança em nosso Senhor Jesus Cristo…” ( 1Ts 1:3 ). Eles haviam assumido a condição de eleitos de Deus: “…reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição” ( 1Ts 1:4 ).

Em resumo, o verso 1 do capítulo 4 de Tessalonicenses apresenta o mesmo conceito presente na carta aos Gálatas e Efésios:

“Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz ( Ef 5:8 );
“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito ( Gl 5:25 );
“…quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, assim andai…” ( Ts 4:1 ).

A maneira que o homem deve viver e agradar a Deus decorre do evangelho, o mandamento emitido pelo Senhor Jesus, conforme lemos no verso 2, do capítulo 4, da carta aos tessalonicenses: “Pois vós bem sabeis que mandamento vos temos dado pelo Senhor Jesus” ( 1Ts 4:2 ). Qual o mandamento de Deus? “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente através deste mandamento torna-se possível ao homem viver segundo o Espírito e tornar-se agradável a Deus. É neste evento, quando o homem passa a viver em Cristo, ao receber a condição de filho da Luz, que o homem torna-se santo em Cristo.

O abster-se da prostituição não concede vida no Espírito, e nem torna os homens agradáveis a Deus. Abster-se da prostituição diz do andar no Espírito, que só é possível através da verdade do evangelho. Abster-se da prostituição refere-se ao andar do cristão na condição de filho da Luz.

Abster-se da prostituição não concede santificação, e nem mesmo concede a tal santificação progressiva, que não é contemplada pela doutrina bíblica.

Num primeiro momento os cristãos haviam sido santificados através da vontade de Deus, por meio da oferta do corpo de Cristo ( Hb 10:10 ). Levando em conta este primeiro, o apóstolo Paulo, juntamente com Timóteo e Silvano, falam da vontade de Deus para aqueles que já alcançaram a Santificação.

“Ou seja, a vontade de Deus para os cristãos que já haviam alcançado uma nova condição através da oferta do corpo de Cristo (santos), é que se abstenham da prostituição”

Abster-se da prostituição não proporciona Salvação e nem mesmo a Santificação, pois Salvação, Justificação e Santificação somente são possíveis em Cristo. Porém, após alcançar a nova condição em Cristo, a vontade de Deus para os Santificados é que se abstenham da prostituição. É o mesmo que dizer: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” ( Gl 5:25 ).

A santificação torna-se efetiva na nova vida que o homem adquire em Cristo através da fé (viver no Espírito), e agora, deve saber possuir o seu próprio corpo separado da concupiscência e corrupção que há no mundo (andar no Espírito) ( 1Ts 4:4 ).

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