Eleição e Predestinação

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).


“Porquanto, aos que de antemão conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:29 -30)

Os fins da predestinação

É consenso entre os estudiosos pensar a predestinação tendo o homem como fim imediato, isso porque, na sua grande maioria, entendem que, através da predestinação, Deus concede salvação aos homens.

Apesar de inúmeros textos bíblicos rezarem que Deus salva o homem por meio  do evangelho, que é poder de Deus para salvação de todo que crê (Rm 1:16), simplesmente, ignoram a verdade e se agarram a algumas teorias teológicas.

Sem embargo, os apóstolos afirmam, com todas as letras, que Deus, segundo a sua misericórdia, salva o homem pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, ou seja, pela semente incorruptível, que é a palavra de Deus (Tt 3:5).

Mesmo diante de declarações contundentes, de que Cristo Jesus aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a incorrupção, pelo evangelho, (2 Tm 1:10; Ef 1:13; 1 Co 1:21), muitos insistem em afirmar que a salvação se dá através da predestinação.

 

O fim imediato da predestinação está vinculado a Cristo

Na Antiga Aliança, os primogênitos tinham direito a vários privilégios, em relação aos demais irmãos, pois, a eles, pertencia a bênção, o principado, o sacerdócio, porção dobrada da herança, etc. Em virtude de ter nascido primeiro, em relação aos demais irmãos, o primogênito detinha a preeminência em tudo.

Semelhantemente, Cristo é o primeiro a ressurgir dentre os mortos e, por isso, foi declarado primogênito dentre os mortos (Cl 1:18; Ap 1:5). Ao ressurgir dentre os mortos, Cristo conduziu muitos filhos à glória de Deus (Hb 2:10), de modo que Aquele que foi introduzido no mundo, na condição de Unigênito, agora é primogênito entre muitos irmãos.

Mas, para Cristo ser primogênito entre muitos irmãos, cada irmão, necessariamente, deve ser semelhante a Ele, pois, só é irmão aquele que participa das mesmas coisas (Hb 2:14). Cristo, para chamar os homens de irmãos, teve de participar da carne e do sangue (Hb 2:11-14), semelhantemente, os homens, para chamarem o Cristo glorificado de irmão, necessitam ser participantes de Sua glória.

A solução dessa equação está na predestinação! Na eternidade, antes de haver mundo, Deus estabeleceu que todos os homens salvos por intermédio do evangelho estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, com o único objetivo de Ele ser o primogênito entre muitos irmãos.

Ao ser gerado de novo, através da semente incorruptível, o novo homem em Cristo faz parte da geração eleita, ou seja, eleito antes da fundação do mundo, para ser santo e irrepreensível diante de Deus (Ef 1:3).

Isso significa que Deus não elegeu indivíduos para serem santos e irrepreensíveis, mas, elegeu a geração de Cristo. Se Deus tivesse elegido indivíduos a escolher, a escolha recairia sobre os descendentes da geração imunda e culpável, segundo a semente corruptível de Adão. Entretanto, Deus elegeu a descendência de Cristo, o último Adão, pois os homens gerados segundo Cristo, são criados em verdadeira justiça e santidade, ou seja, santos e irrepreensíveis.

Como a geração de Cristo é eleita, significa que todos os que são gerados de novo, pela verdade do evangelho, sem exceção, também são predestinados a serem semelhantes a Cristo (1 Jo 3:1-2). Através da predestinação, todos os salvos pela misericórdia de Deus, demonstrada por intermédio do evangelho, terão a mesma imagem do homem celestial: Cristo (1 Co 15:49).

O evangelho foi anunciado para a salvação e a predestinação estabelecida para a imagem. O evangelho é semente incorruptível que trás à existência novas criaturas e são eleitos por terem sido de novo gerados segundo o último Adão, o eleito de Deus.

A eleição e a predestinação estão em conexão com a aprovação régia que Deus propusera em Si mesmo na pessoa de Cristo de, na plenitude dos tempos, tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as do céu quanto as da terra (Ef 2:9-10).

Nos céus, Cristo foi elevado à posição de cabeça da Igreja (Ef 1:22), e na terra à posição de mais sublime (Sl 89:27). Ao eleger Abraão, Deus congregou as coisas da terra em Cristo, e no Descendente prometido a Abraão, Cristo, Deus congregou as coisas dos céus.

“E sujeitou todas as coisas a seus pés e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja” (Ef 1:22);

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27)

Segundo o conselho da Sua vontade, o propósito de Deus estabelecido em Cristo foi levado a efeito quando Ele se assentou à destra da Majestade nas Alturas, na posição de cabeça da Igreja, Primogênito entre muitos irmãos.

Agora, Cristo está aguardando que todos os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés (Sl 110:1), quando Ele se levantará para reger as nações da terra, assentado sobre o trono de Davi, seu pai, como o mais elevado do que os reis da terra.

Mas, como é ser semelhante a Cristo? Segundo o apóstolo João, ainda não é manifesto como haveremos de ser, mas uma coisa é certa: quando Cristo se manifestar seremos semelhantes a Ele! (1 Jo 3:2)

 

O fim mediato da predestinação em relação aos homens

Na eternidade, Deus decretou que a geração de Cristo, além de ser santa e irrepreensível, visto que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, todos os gerados d’Ele serão conformes à imagem de seu Filho.

É impossível Deus escolher os descendentes da carne de Adão, pois todos, juntamente, se desviaram e se fizeram imundos. Mas, por intermédio de Cristo, o homem, segundo Adão, que ouve a mensagem do evangelho e crê, morre e é sepultado com Cristo e, em seguida, ressurge uma nova criatura, santa e inculpável, predestinada a ser conforme a imagem de Cristo.

Tanto a eleição quanto a predestinação, estão relacionados à nova criatura, ou seja, àquele que está em Cristo. Por conseguinte, aquele que está em Cristo conhece a Deus e é conhecido d’Ele. É ‘conhecido’ de Deus, por estar intimamente ligado a Ele, ou seja, se fez um só corpo com Ele.

O fim imediato da eleição e da predestinação é a preeminência de Cristo, sendo que, na eternidade, a geração de Cristo foi eleita e predestinada a ser conforme a imagem de Cristo, segundo a vontade de Deus. Tanto a eleição, quanto a predestinação, foram levadas a efeito, quando da vinda da existência ao mundo das novas criaturas, que são criadas segundo o mesmo poder de Deus, manifesto em Cristo.

As benesses da eleição e da predestinação são herdadas no nascimento do cristão, de modo que, ser santo e irrepreensível  conforme a imagem de Cristo, não resulta de obras realizadas pelo crente, antes, tais benesses foram concedidas em Cristo, antes dos tempos dos séculos, segundo o próprio propósito de Deus: fazer Cristo preeminente em todas as coisas.

“Que nos salvou e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos” (2 Tm 1:9).

Quanto à salvação, a eleição e a predestinação não têm um fim, e sim, a misericórdia e a graça de Deus, concedidas pelo evangelho.

A misericórdia de Deus é manifesta à humanidade na encarnação de Cristo, que concede salvação a todos que n’Ele creem. O evangelho que concede salvação aos que creem foi anunciado, primeiramente, a Abraão (Gl 3:8) e hoje o evangelho é anunciado como o mandamento de Deus.

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3);

“Mas que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

O mandamento de Deus é dado a todas as nações, para que obedeçam ao evangelho, a fé que uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3).

“Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16);

“Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?” (1 Pd 4:17).

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 1:8).

O mandamento do evangelho é crer em Cristo (1 Jo 3:23), a obra que o homem precisa realizar para se tornar servo de Deus (Jo 6:29). Só ama a Deus quem cumpre o seu mandamento, de modo que quem crê em Cristo, verdadeiramente amou a Deus.

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai,  eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21);

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes e crestes que saí de Deus (Jo 16:27).

O evangelho é mandamento de Deus que demanda obediência. Quem obedece ao evangelho de Cristo não tem medo, pois o medo decorre da penalidade imposta ao desobediente (1 Jo 4:18).

Diante do evangelho de Cristo, o homem não pode ficar passivo. A ordem é: – “Entrai pela porta estreita” (Lc 13:24); “Operai a vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2:12).

Com o homem efetua a própria salvação? O homem é salvador de si mesmo? É claro que não! Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens na casa de Davi quando enviou Cristo ao mundo.

Quem obedece a Cristo ‘salvar-se-á’, pois o ‘temor’ diz do mandamento de Deus e o ‘tremor’ da obediência à sua palavra.

“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á,  entrará, sairá e achará pastagens” (Jo 10:9).

O fim da fé, ou seja, o objetivo do evangelho é a salvação do homem:

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pd 1:9).

O fim da predestinação é a primogenitura de Cristo, pois, por ela, os homens são constituídos conforme a imagem de Cristo, portanto, o fim da predestinação não é a salvação.

O termo grego τελος, transliterado telos e traduzido por ‘fim’, no contexto, tem o sentido de propósito, objetivo. O termo πιστις, transliterado pistis e traduzido por ‘fé’, no contexto significa ‘verdade’, ‘fidelidade’, ‘lealdade’, em substituição ao termo ‘evangelho’, que é a ‘fé’ anunciada em todo o mundo (Rm 1:8).

A ‘fé’ deve ser anunciada a todas as gentes e obedecida (Rm 1:5), pois ela é o dom de Deus, por meio da qual o homem é salvo.

“Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8);

“Pelo qual, recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da entre todas as gentes pelo seu nome (…) Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque, em todo o mundo, é anunciada a vossa (Rm 1:5 e 8).

É por meio do evangelho de Cristo que o homem é salvo, de modo que, aos não crentes não se prega eleição ou predestinação mas, sim, o evangelho, a palavra da redenção, que é poder de Deus para salvação.

“E nos impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1 Ts 2:16).

“E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo (Lc 8:12).

Deus não escolheu e nem predestinou indivíduos para a salvação, pois é contraditória a concepção de que Deus deseja que todos se salvem e, no entanto, escolhe e predestina somente alguns para a salvação. Salvar a humanidade é desejo de Deus por sua graça e misericórdia, tanto que deu o Seu Filho Unigênito, no entanto, para ser salvo o homem precisa se tornar um com a verdade, crendo.

“Que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4);

“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:40).

É imprescindível ao homem ‘conhecer’ a verdade, por dois motivos:

  1. Primeiro, para ser salvo, e;
  2. Em segundo lugar, para ser eleito e predestinado.

Pois só é predestinado a ‘serem conformes à imagem’ de Cristo, para que Ele seja o Primogênito entre muitos irmãos, aqueles que O conheceram, ou seja, que se fizeram um corpo com Cristo, a verdade que liberta (Jo 8:32). Mesmo Deus querendo salvar todos os homens, o meio de salvá-los não é através da Sua soberania, e sim, através da palavra da verdade!

Há um equívoco que perdura entre os teólogos, de que o termo grego προγινοσκω (proginosko), traduzido por ‘dantes conheceu’ significa ‘ter conhecimento de antemão’, ‘prever’, ‘predestinar’.

Entretanto, o termo, no contexto, foi utilizado como expressão idiomática judaica, indicando comunhão intima, quando o homem e a mulher se tornam uma só carne. São predestinados somente os que se tornaram um com o Pai e o Filho, ou seja, que ‘conhecem’ a Deus (Jo 17:21).

Somente os que se tornam uma só carne com Cristo, ou seja, os que amam a Deus, crendo que Jesus é o Cristo, também foram predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8:29).

Deus é onisciente, ou seja, igualmente conhecedor de todas as coisas, quer seja do passado, quer do presente ou, do futuro. Ao dizermos que Deus é presciente, estabelecemos uma subdivisão da onisciência, que tolhe a compreensão acerca desse atributo de Deus. Deus anuncia de antemão, por intermédio dos seus profetas, eventos futuros, o que se dá pela sua onisciência e não pela sua presciência.

Pela onisciência Deus conhece (saber) todos os salvos e todos os perdidos em todos os tempos. Entretanto, há aqueles que Deus nunca conheceu (nunca foram um com Ele) e estes irão para o fogo eterno (Mt 7:23) e há aqueles que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele, ou seja, são um com Ele e são salvos (Gl 4:9).

A má leitura de alguns versos impera, quando homens torcem a verdade exposta pelos apóstolos, com o objetivo de exporem uma doutrina contrária ao evangelho.

Por exemplo, leem 1 Pedro 1, verso 2 (“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.”), como se Deus elegeu alguns segundo a sua ‘presciência’. No entanto, o apóstolo Pedro estava enfatizando que os cristãos são eleitos segundo o anunciado de antemão pelos profetas (presciência), conforme expresso nos versos 10 a 12 do mesmo capítulo (1Pe 1:10 -12).

Os cristãos são designados ‘eleitos’, segundo o anunciado de antemão pelos profetas, santificados pela palavra de Cristo, vez que as palavras de Cristo são espírito e vida, sendo necessária aos cristãos a obediência, para serem purificados:

“… eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2).

Ao escrever aos Tessalonicensses, o apóstolo Paulo expressa a mesma verdade:

“… porque Deus vos escolheu[1], desde o princípio, para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Ts 2:13).

O verso não trata de uma ‘escolha’ para ser salvo, antes pela santificação do evangelho (vez que o crente é ministro do espírito) e pela crença (fé) na verdade, os cristãos foram tomados como propriedade (herança) de Deus, desde o princípio, para a salvação (Ef 1:11 e 14), pois a salvação é o fim da fé (verdade).

O objetivo fim da predestinação é a preeminência de Cristo, mas, só os que se fizeram um corpo com Cristo (conheceram), são predestinados (Rm 8:29). Porém, os predestinados também foram eleitos, ou seja, foram feitos santos e irrepreensíveis (Ef 1:3).

Contudo, para ser predestinado e eleito, primeiro Deus declara justo o novo homem que ressurge com Cristo, porque, para ser justificado, é necessário ao homem morrer com Cristo, quando por intermédio do evangelho, o homem torna-se participante da carne e do sangue de Cristo (Rm 4:25; Rm 6:7; Jo 6:55).

Mas, para o crente ser justificado, eleito e predestinado, primeiro teve que ser glorificado, tornando-se um só corpo com Cristo, ou seja, conhecendo a Cristo. O crente é glorificado quando ressurge dentre os mortos com Cristo, pois, sofreu com Cristo, para ser participante da glória da sua ressurreição (Rm 8:17; Cl 2:12; Cl 3:1).

Os que estão em Cristo são templos de Deus, ou seja, conhecidos de Deus, membros do Seu corpo, concomitantemente, também, estão destinados a serem conforme a imagem de Cristo, quando se revelarem os filhos de Deus (Rm 8:19).

Mas, para fazerem parte do propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo, de fazê-Lo preeminente em todas as coisas, através do poder que há no evangelho, para salvação do que crê, Deus glorificou os que creram, ressuscitando-os com Cristo e os declarou justos, livres de condenação!

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “138 αιρεομαι haireomai provavelmente semelhante a 142; TDNT – 1:180,27; v 1) tomar para si, preferir, escolher 2) escolher pelo voto, eleger para governar um cargo público”, cf. Dicionário Bíblico Strong.

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A essência da doutrina da predestinação

Deus nunca vinculou a perdição ou a salvação como destino dos homens, antes vinculou a salvação e o destino ao caminho no qual estão, por isso ninguém está predestinado à salvação ou à perdição.


“E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:49)

Ao abrir a madre todos os homens estão predestinados a serem conforme a expressa imagem de seus pais, daí a base da premissa do apóstolo Paulo: ‘… trouxemos a imagem do terreno…’ (1 Co 15:49).

Antes de todos os homens nascerem, já estava determinado qual imagem teriam: a imagem dos seus pais! Ninguém escapa ao que está preordenado, acerca da imagem que os pais transmitem aos seus filhos.

Semelhantemente, assim como todos estão predestinados a herdarem a expressa imagem dos seus pais, em Cristo, também estão predestinados a serem conforme a expressa imagem de Cristo.

Sobre esta verdade, declara o apóstolo Paulo, que Deus predestinou ‘para serem conforme a imagem de seu Filho’, todos   os que creem em Cristo, através da mensagem do evangelho  (Rm 8:29), de modo que todos os que são de novo nascidos, passam a ter a imagem do homem celestial, que é Cristo.

A afirmação de que todos quantos abrem a madre estão predestinados a serem conforme a imagem dos seus pais, remete a Adão, o primeiro homem. Quando Deus criou Adão, ele foi feito alma vivente e, por serem descendentes dele, todos os homens foram feitos almas viventes, de posse da imagem que Adão foi criado.

De Jesus Cristo, o Senhor, é dito que Ele é o último Adão, espírito vivificante e homem celestial. Por intermédio do evangelho, a semente incorruptível, todos os que são de novo gerados, são celestiais e conforme a imagem de Cristo.

A essência da predestinação bíblica vem expressa nestes versos:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais, também, os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:45-49).

Da mesma forma que é impossível os filhos não compartilharem da mesma imagem dos pais, essa impossibilidade se estende aos homens ‘celestiais’. Por causa desta impossibilidade, de ‘terrenos’ e ‘celestiais’ não se desvincularem da imagem que herdam ao nascer, é dito que estão ‘predestinados’.

O verbo grego traduzido por ‘predestinar’ é προορίζω (proorizó), que significa predeterminar, decidir de antemão e foi utilizado nas seguintes passagens bíblicas: Atos 4:28, 1 Corintios 2:7, Romanos 8:29 e Efésios 1:5 e 11.

Ao criar o homem, Deus estabeleceu que os descendentes de Adão seriam conforme a imagem de Adão. Neste quesito, diz-se que Deus ‘προορίζω’, ou seja, deixou estabelecido, preordenou, traçou limites, antes de os descendentes de Adão virem à existência, qual imagem teriam: a imagem do homem terreno.

Por que Deus estabeleceu, de antemão, que a imagem dos celestiais seria conforme a imagem de Cristo, o homem celestial?

O motivo pelo qual os celestiais são conforme a imagem dos celestiais é claro e especifico: para que Jesus Cristo seja o primogênito de Deus entre muitos irmãos!

“Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

 Jesus foi introduzido no mundo na condição de unigênito de Deus, mas, ao ressurgir dentre os mortos, tornou-se o primogênito de Deus. Por quê? Porque, com Cristo, ressurge uma nova criatura todo aquele que crê na verdade do evangelho. Ao crer em Cristo, o homem morre, é sepultado e ressurge uma nova criatura, criada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

Por intermédio de Cristo, o homem alcança a imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26), pois, Cristo é a expressa imagem do Deus invisível, o primogênito de toda Criação e os que creem são feitos à sua expressa imagem e semelhança: “O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênitos de toda a criação” (Cl 1:15).

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que haveremos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é, o veremos” (1 Jo 3:2).

A predestinação dos que creem, para serem semelhantes a Cristo, visa satisfazer o propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo: a preeminência de Cristo em tudo.

O mistério da vontade Deus, diz do beneplácito proposto em Si mesmo, que é tornar a reunir em Cristo todas as coisas!

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Cl 1:18);

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus, como as que estão na terra” (Ef 1:9-10).

A predestinação bíblica é funcional, pois visa o propósito eterno de Deus estabelecido em Cristo: exaltá-lo soberanamente!

“Por isso, também, Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fl 2:9).

Na cultura greco-romana encontramos a concepção fatalista e na cultura grega antiga, temos os mitos, como as Moiras e o estoicismo entre os gregos e romanos.

Essa concepção fatalista acabou por influenciar pensadores cristãos, de modo a pensar que todos os eventos são arquitetados por Deus, ao que nomeiam predestinação, diferenciando do fatalismo, pelo fato de não recorrer a nenhuma ordem natural.

Vale destacar que as correntes filosóficas como o ‘fatalismo’ e a ‘predestinação’ diferem do determinismo, ‘teoria filosófica de que todo acontecimento (inclusive o mental) é explicado pela determinação, ou seja, por relações de causalidade’ Wikipédia.

Enquanto a Bíblia apresenta a predestinação, relacionada com o propósito eterno que Deus estabeleceu na pessoa de Cristo, alguns teólogos, como Agostinho de Hipona e João Calvino, influenciados pelo pensamento greco-romano,  entenderam que a predestinação é doutrina que trata da salvação de alguns e da condenação eterna de outros.

Em nenhuma passagem bíblica, encontramos expresso que Deus predestinou alguém à salvação, antes encontramos que Deus predestinou aqueles que foram de novo gerados pela palavra da verdade, para serem conforme a imagem de Cristo (Rm 8:29). O novo homem, por ser gerado de Deus, alcança a mesma imagem de Cristo, além de ser herdeiro com Ele de todas as coisas.

Quando escreveu aos cristãos de Éfeso, o apóstolo Paulo enfatiza que Deus havia predestinado os cristãos a serem filhos por adoção, o que indica qual é a condição e natureza dos cristãos (Ef 1:5). O objetivo da predestinação, na qual os cristãos são feitos herança, visa o louvor da glória de Deus (Ef 1:11-12), não a salvação.

Uma má leitura do versículo 5, do capítulo 1, da carta de Paulo aos Efésios, dá conta que Deus predestinou os não crentes a serem salvos, porém, o apóstolo diz que Deus predestinou por adoção os santos e fiéis em Cristo, que estavam na cidade de Éfeso, a serem filhos (Ef 1:1).

Quando disse: ‘E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo…’, o apóstolo Paulo utilizou o pronome na primeira pessoa do plural: ‘nos’ (ἡμᾶς), indicando que tanto ele quanto os cristãos estavam predestinados, uma das bênçãos espirituais com que foram abençoados.

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça” (Ef 1:5-6)

É em Cristo que os cristãos são santos e fiéis. É em Cristo que os crentes foram abençoados, com todas as bênçãos espirituais. É em Cristo que os cristãos são eleitos e predestinados! Mas, como os cristãos passaram a estar em Cristo? Quando creram, ao ouvirem “a palavra da verdade, o evangelho da ‘vossa’ salvação” (Ef 1:13).

Os calvinistas e arminianistas erram o público alvo da predestinação, ao entenderem que esta se refere a não crentes em Cristo, sendo que o apóstolo Paulo aponta para a condição dos que creram em Cristo, em decorrência de uma das bênçãos concedidas: a predestinação.

Esperar de antemão (προελπιζω) em Cristo é o mesmo que ser conhecido (προέγνω) de Deus. O único modo de alcançar a salvação em Cristo é crendo no evangelho. Os que esperam em Cristo é porque creram no evangelho. Os que são conhecidos de Deus são aqueles que cumprem o seu mandamento, que é crer em Cristo (1 Co 8:3; 1 Jo 2:3).

Observe:

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Co 8:3);

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

O que concede salvação ao homem é crer no evangelho, que é poder de Deus para salvação (Rm 1:16) e não a predestinação, que concede a imagem de Cristo aos que são salvos pelo evangelho.

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16);

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

A fórmula para a salvação em Cristo, está expressa nos seguintes termos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” (Rm 10:8-11).

A Bíblia deixa claro que quem invocar a Cristo será salvo! A salvação em Cristo não segue o viés fatalista que é próprio ao pensamento greco-romano! Ninguém abre a madre predestinado à salvação, antes, ao nascer, entra por uma porta larga, que dá acesso a um caminho largo, cujo destino é a perdição.

O caminho que os homens trilham, quando vem ao mundo, está atrelado à perdição, pois entraram por uma porta larga quando nasceram: Adão. Já o caminho que os gerados de novo trilham está atrelado à salvação, por isso a necessidade de entrar por Cristo, a porta estreita.

Deus nunca vinculou a perdição ou a salvação como destino dos homens, antes vinculou a salvação e o destino ao caminho no qual estão, por isso ninguém está predestinado à salvação ou à perdição.

Todos os homens, quando vêm ao mundo, estão predestinados a serem conforme a imagem de Adão e essa verdade não podem mudar. Entretanto, todos os homens que entrarem no mundo estão em um caminho de perdição e essa condição só pode ser alterada, desde que os homens nasçam novamente.

Nenhum homem escolhe entrar pela porta larga, visto que todos os homens, ao virem ao mundo, entram por ela. A todos que entraram no mundo por Adão e que estão seguindo para a perdição, através do evangelho é ofertada a oportunidade de serem gerados de novo, entrando por Cristo, a porta estreita e o último Adão.

Ao nascer de novo, o homem se livra da condenação, que é próprio ao caminho largo, e atrelado à salvação em Cristo, torna-se participante da natureza divina, predestinado a ser conforme a expressa imagem de Cristo.

Embora ainda não seja manifesto o que haveremos de ser, contudo sabemos que seremos semelhantes a Cristo (1 Jo 3:2), pois o motivo da predestinação bíblica repousa no fato de que Cristo é o primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele:

“O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:45-49).

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Por teus pecados

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

 


Li um trecho do Sermão nº 350, do Dr. Charles Haddon Spurgeon, sob o título “Um tiro certeiro na justiça própria”, e não consegui deixar de tecer um comentário acerca de uma afirmação contida no sermão.

Chamou-me a atenção a última frase do sermão, que diz:

“Cristo foi castigado por teus pecados antes que fossem cometidos” Charles Haddon Spurgeon, trecho do sermão nº 350 “Um tiro certeiro na justiça própria”, extraído da web.

Ora, se o Dr. Spurgeon considerou o texto bíblico que diz que Jesus é ‘o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo’, na verdade ele devwria destacar que Cristo morreu antes que o pecado fosse introduzido no mundo ( Ap 13:8 ; Rm 5:12 ). Porém, como ele afirma que Jesus foi castigado antes que cada pecado dos cristãos fossem cometidos individualmente, entendo que o Dr. Spurgeon não fez referência ao verso 8, capítulo 13 do Livro de Apocalipse.

Cristo foi castigado pelo pecado de toda a humanidade, porém, quem cometeu a ofensa que levou toda a humanidade a estar debaixo do pecado? Ora, pelas Escrituras entendemos que o pecado é proveniente da ofensa (desobediência) de Adão, e não pelos erros de condutas que os homens cometem.

O castigo que trouxe a paz não se deu por causa de erros de conduta cometidos individualmente’, visto que todos os homens são gerados na condição de alienados de Deus (pecadores). Cristo é cordeiro de Deus morto antes da fundação do mundo, ou seja, o cordeiro foi ofertado antes que a ofensa de Adão ocorresse.

O castigo que recaiu sobre Cristo não decorre da conduta dos homens (pecados cometidos), antes decorre da ofensa de Adão. Em Adão os homens foram feitos pecadores, visto que, por uma ofensa veio o juízo e a condenação sobre todos os homens, sem exceção ( Rm 5:18 ).

Se o pecado (condição do homem sem Deus) decorre da conduta dos homens, para que a justiça fosse estabelecida, necessariamente a salvação somente seria possível através da conduta dos homens. Seria exigível que os homens praticassem algo bom para amenizar a sua conduta ruim, porém, jamais seria ‘justificado’.

Mas, a mensagem do evangelho demonstra que pela ofensa de um homem (Adão) todos foram condenados à morte, e somente por um homem (Cristo, o último Adão) o dom da graça de Deus abundou sobre muitos ( Rm 5:15 ). Quando Jesus morreu pelos nossos pecados, ocorreu uma substituição de ato: como Adão desobedeceu, o último Adão foi obediente até o calvário.

A última frase do trecho do sermão do Dr. Spurgeon demonstra que não foi considerado que:

  • Todos os homens são pecadores porque o primeiro pai da humanidade (Adão) pecou ( Is 43:27 );
  • Que todos os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 );
  • Que toda a humanidade desviou-se de Deus desde a madre ( Sl 58:3 );
  • Que todos os homens andam errados desde que nascem ( Sl 58:3 ), porque entraram por uma porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);
  • Que por terem sido vendidos como escravo ao pecado, ninguém transgride conforme a transgressão de Adão ( Rm 5:14 );
  • Que o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto pior que uma sebe de espinhos ( Mq 7:4 );
  • Que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa da condenação estabelecida em Adão;
  • Que não há nenhum justo, nenhum sequer, entre os descendentes de Adão ( Rm 3:10 ), etc.

Que bem ou mal comete uma criança no ventre materno para ser concebido em pecado? Que pecado uma criança comete para andar ‘errada’ desde que nasce? Quando e onde todos os homens desviaram e juntamente se fizeram imundos? ( Rm 3:12 ) Acaso o extravio da humanidade não se deu através da ofensa de Adão?

Em Adão todos os homens juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ), isto porque Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer. O nascimento segundo a carne, o sangue e a vontade do varão é a porta larga por onde todos os homens entram, se desviam e juntamente se fazem imundos ( Jo 1:13 ).

Que evento fez com que todos os homens ‘juntamente’ se tornassem imundos? Somente a ofensa de Adão explica o fato de todos os homens, em um mesmo evento, tornarem-se imundos (juntamente), visto que é impossível a todos homens de inúmeras épocas praticarem um mesmo ato juntos.

Considere: Cristo morreu porque Caim matou Abel, ou Cristo morreu por causa da ofensa de Adão? Qual dos eventos comprometeu a natureza de toda humanidade? O ato de Caim ou a ofensa de Adão?

Observe que a condenação de Caim não é proveniente do seu ato criminoso, antes decorre da condenação em Adão. Jesus demonstrou que não veio condenar o mundo, antes salvá-lo, pois seria contraproducente julgar o que já está condenado ( Jo 3:18 ).

Cristo foi castigado por causa do pecado da humanidade, porém, o pecado não se refere àquilo que os homens cometem, antes diz da ofensa que trouxe juízo e condenação sobre todos os homens, sem distinção.

As ações dos homens sob o jugo do pecado também é denominado pecado, visto que, qualquer que peca, peca porque é escravo do pecado. A barreira de separação entre Deus e os homens se deu através da ofensa de Adão, e por causa da ofensa no Éden não há entre os filhos dos homens quem faça o bem. Por que não há quem faça o bem? Porque se extraviaram todos e juntamente se fizeram imundos. Portanto, por causa da ofensa de Adão, tudo que o homem sem Cristo faz é imundo.

Quem do imundo tirará o que é puro? Ninguém! ( Jó 14:4 ) Ou seja, não há quem faça o bem porque todos são escravos do pecado.

Ora, o escravo do pecado comete pecado, visto que, tudo que realiza pertence por direito ao seu senhor. As ações dos servos do pecado são pecaminosas porque são feitas por escravos do pecado. É por isso que Deus libertou os que creem para que sejam servos da justiça ( Rm 6:18 ).

Já os filhos de Deus não podem pecar porque são nascidos de Deus e a semente de Deus permanece neles ( 1Jo 3:6 e 1Jo 3:9 ). Qualquer que comente pecado é do diabo, mas os que creem em Cristo pertencem a Deus ( 1Co 1:30 ; 1Jo 3:24 ; 1Jo 4:13 ), visto que são templo e morada do Espírito ( 1Jo 3:8 ).

Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo ( 1Jo 3:5 e 1Jo 3:8 ), e todos que são gerados de Deus permanecem n’Ele ( 1Jo 3:24 ) e em Deus não há pecado ( 1Jo 3:5 ). Ora se em Deus não há pecado, segue-se que todos que estão em Deus não pecam, visto que foram gerados de Deus e a semente de Deus permanece neles.

Uma árvore não pode dar dois tipos de frutos. Assim, aqueles que são nascidos da semente de Deus não podem produzir frutos para Deus e para o diabo, da mesma forma que é impossível um servo servir dois senhores ( Lc 16:13 ). Toda planta plantada pelo Pai dá muito fruto, porém, frutifica somente para Deus ( Is 61:3 ; Jo 15:5 ).

Após morrer para o pecado, o antigo senhor, resta ao homem ressurreto apresentar-se a Deus como vivo dentre os mortos, e os membros do seu corpo como instrumento de justiça ( Rm 6:13 ). A condição ‘vivo’ dentre os mortos é adquirida pela fé em Cristo, através da regeneração (novo nascimento). Através do novo nascimento o homem torna-se vivo dentre os mortos, e resta, portanto, voluntariamente apresentar a Deus os membros do seu corpo como instrumento de justiça.

O pecado não mais reina, pois não tem mais domínio sobre os que creem ( Rm 6:14 ). O cristão deve oferecer os seus membros para servirem a justiça, ou seja, para servirem Aquele que os santificou, visto que Cristo é a justificação e a santificação dos cristãos ( Rm 6:19 ; 1Co 1:30 ).

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

Os homens sem Deus, por sua vez, existem sem esperança neste mundo, pois são como o imundo e tudo que produzem, é imundo. Não há como o homem sem Deus fazer o bem, pois a natureza má só produz o mau “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” ( Is 64:6 ).

O profeta Isaias ao descrever a condição do seu povo, comparou-os com:

  • O imundo – Quando o povo de Israel tornou-se imundo? Quando todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos, ou seja, em Adão, o primeiro Pai da humanidade ( Sl 14:3 ; Is 43:27 );
  • Justiça como trapos de imundície – Todas as obras de justiça dos imundos são comparáveis a trapos de imundície, que não servem para vestes. Embora fossem religiosos, as obras do povo de Israel eram obras de iniquidade, obras de violência ( Is 59:6 );
  • Murcham como a folha – Não havia esperança para o povo de Israel, visto que como a folha estavam mortos ( Is 59:10 );
  • As iniquidades são como vento – Nada que Israel fazia podia livrá-los desta horrenda condição, visto que a iniquidade é comparável ao vento que arrebata a folha, ou seja, o homem não pode livrar-se do senhoril do pecado.

Cristo, a seu tempo, morreu pelos ímpios. O Cordeiro de Deus foi imolado desde a fundação do mundo pelos pecadores “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” ( Rm 5:6 ); “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

Ora, Cristo morreu pelos escravos do pecado, e não pelos ‘pecados’ que os escravos do pecado praticam, como entendeu o Dr. Spurgeon.

Cristo morreu pelos pecadores, logo os que creem morrem juntamente com Ele. Cristo morreu por todos para que os que são vivificados não mais vivam para si, antes vivam para Aquele que morreu e ressurgiu ( 2Co 5:14 ).

Os que ressurgiram com cristo estão em segurança, visto que:

  • Estão em Cristo;
  • São novas Criaturas;
  • As coisas velhas passaram;
  • Tudo se fez novo ( 2Co 5:17 ).

Deus reconciliou consigo mesmo os que creem por intermédio de Cristo e deu aos vivos dentre os mortos o ministério da reconciliação ( 2Co 15:18 ).

Aos vivos dentre os mortos resta a exortação: não recebais a graça de Deus em vão ( 2Co 6:1 ). Deus te ouviu em tempo aceitável, por tanto, como instrumento de justiça os cristãos são recomendados a:

  • Não dar escândalo em coisa alguma – Por que os cristãos não devem dar escândalos? Para serem salvos? Não! Para que o ministério da reconciliação não seja censurado;
  • Sendo recomendáveis em tudo – Na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, etc ( 2Co 6:3 -6).

Cristo foi morto desde a fundação do mundo, antes mesmo que toda a humanidade se tornar-se escrava da injustiça em função da desobediência de um só homem que pecou: Adão.

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1 Pedro – Regenerados pela palavra da verdade

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho: a salvação da perdição do pecado. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).


1 PEDRO, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; 2 Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

Pedro não teve o mesmo problema que o apóstolo Paulo quanto a ter que defender o seu apostolado. Por ter sido escolhido por Cristo para ser discípulo, e visto o Mestre ainda em carne, não teve dificuldades no exercício do seu ministério.

Paulo demonstra em suas cartas que Pedro possuía uma posição de destaque entre os primeiros cristãos, tanto que foi significativo para Paulo passar quinze dias com Pedro e ser recebido entre os discípulos pelo evangelho que anunciava aos gentios ( Gl 1:18 ; Gl 2:9 ).

No decorrer da carta Pedro também se apresenta como o ‘Ancião’ ( 1Pe 5:1 ), e que Silvano foi quem escreveu (escriba) a carta, e que eles estavam na companhia de Marcos ( 1Pe 5:12 -13). A maestria na escrita da carta deve-se a Silvano, mas o conteúdo da carta ao apóstolo Pedro.

Muitos questionam a autoria da carta de Pedro por ele ter sido um simples pescador da Galileia e ter escrito uma carta tão bela em grego semelhante à literatura ática. Estudiosos questionam a autoria da carta por ele citar a Septuaginta, por usar o ‘artigo’ de modo elegante como nenhuma outra carta do Novo Testamento e por ter um vocabulário próprio e numeroso.

Ora, Pedro mesmo demonstra que não foi ele quem escreveu a carta, e sim Silvano. Percebe-se que Pedro apresentou os argumentos e Silvano, na condição de hábil escriba usou o seu conhecimento para imprimir à carta o estilo próprio as frases da literatura ática.

Quando escreveu, Pedro estava em uma cidade que ele nomeou de Babilônia ( 1Pe 5:13 ). Os destinatários da carta estavam em cinco províncias Romanas: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia.

Após identificar-se, o apóstolo aponta quem são os destinatários da sua epístola: os estrangeiros dispersos. ‘Estrangeiros dispersos’ diz dos cristãos que foram perseguidos por causa da mensagem do evangelho ( At 8:1 ; At 11:19 ). Ora, é certo que os dispersos eram na maioria judeus, porém, ao escrever, Pedro tem como foco os cristãos, sem qualquer referência a origem carnal dos cristãos.

Pedro escreveu aos eleitos, ou seja, aos santos e irrepreensíveis em Cristo ( Ef 1:4 ). Os arminianista utilizam-se deste verso para afirmar que a eleição é segundo a presciência de Deus, porém, é necessária uma análise mais rigorosa.

Uma tradução bíblica datada de 1681 diz o seguinte:

Pedro Apoftolo de Jefu Chirifto a os eftrangeiros efpalhados em Ponto, em Galacia, em Cappadocia, em Afia, e em Bythynia. Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae, em fanctificaçaõ de Efpirito…”

Novo testamento, Companhia das Indias Oriental, cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.

Observe o verso em questão: “Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae…” (v. I). Ora, a eleição é segundo a presciência ou providência?

Como já demonstramos no artigo O Evangelho Anunciado, a eleição não é o modo pelo qual Deus salva o homem. Deus não escolheu antes dos tempos eternos quem seria salvo ou não, com base na sua presciência ou na sua soberania. As concepções calvinista e arminianistas não são bíblicas.

Para compreender a ideia que o apóstolo Pedro procurou evidenciar, não se pode interpretar um verso fora do contexto, ou isolá-lo do restante da bíblia.

A estrutura da primeira carta de Pedro comparada à carta de Paulo aos Efésios é equivalente na estrutura do texto e na ideia que procuraram demonstrar. Observe:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:1 -2).

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus: a vós outros graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” ( Ef 1:1 -2).

Tanto Pedro quanto Paulo se apresentam, identificam os destinatários, saúdam com graça e paz, apresentam o local onde os cristãos se reuniam, porém, enquanto Pedro fala da nova condição pertinente aos salvos, ‘eleitos’ (presente), Paulo faz referência ao evento da eleição (passado).

Ora, Deus elegeu os cristãos em Cristo ( Ef 1:3 ), e os cristãos são eleitos (condição atual) por estarem em Cristo ( 1Pe 1:2 ).

Para os arminianistas a eleição é segundo a presciência de Deus, e os calvinistas apontam a soberania de Deus. Como a maioria dos tradutores segue uma tendência teológica, não sabemos o quanto estes posicionamentos doutrinários influenciam os tradutores.

Porém, é possível extrair do texto uma resposta: a eleição não é segundo a presciência e nem segundo a providência de Deus Pai, antes é na (em, ou através) Santificação do Espírito. Observe:

segundo a presciência de Deus Pai

Eleitos (condição atual) na santificação do Espírito

para a obediência e aspersão do sangue

Se considerarmos que a frase ‘segundo a presciência de Deus Pai’ é um aposto explicativo, veremos que não imposta à posição que ela é inserida no texto. Ora, têm-se várias cominações possíveis:

“… segundo a presciência de Deus Pai, eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito, segundo a presciência de Deus Pai, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, segundo a presciência de Deus Pai…”.

Alguém que segue uma visão arminianista prefere agrupar as várias frases que compõe o versículo segundo a sua concepção: eleitos segundo a presciência. Outro, que não prefere a concepção arminianista, mas a calvinista, preferem a providência divina.

Porém, de acordo com o restante das escrituras, a eleição não é segundo a presciência, antes a eleição é segundo o propósito eterno de Deus. Ora, se é segundo o propósito eterno não pode ser segundo a presciência!

Por tanto, para interpretar ( 1Pe 1:2 ), é necessário considerar que:

  • Nenhum ponto das Escrituras deve ser considerado isoladamente do restante das escrituras “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” ( 2Pe 1:20 );
  • Algumas frases contidas nos textos são um tipo de aposto explicativo;
  • É necessário observar a forma do discurso do interlocutor, que neste caso específico é o apóstolo Pedro;
  • Não deixar ser influenciado por tendências doutrinárias, que são muitas;
  • Comparar o versículo com o texto de outros escritores da bíblia;
  • Por ser um versículo complexo deve ser analisado segundo a ideia geral da bíblia.

Segundo o que Paulo demonstra, os cristãos foram eleitos em Cristo “Pois nos elegeu nele…” ( Ef 1:4 ), e Pedro do mesmo modo demonstra que os eleitos alcançaram está condição ‘… em santificação do Espírito…’ ( 1Pe 1:2 ).

Perceba que tanto Pedro quanto Paulo utiliza o dativo de forma especial (en Cristo = em Cristo) ao escreverem acerca da eleição. É um uso específico do dativo preposicionado, característica própria à sintaxe cristã ao utilizarem o grego.

Ora, Paulo disse que os cristãos foram eleitos em Cristo, portanto, não podemos interpretar que a eleição é segundo a presciência, e sim, em santificação do Espírito.

Como? Ora, as palavras de Cristo são Espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). É através da Palavra que Cristo santificou a sua igreja “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

A santificação do Espírito é pela palavra do evangelho e a eleição se deu em Cristo, ou seja, ‘em santificação do Espírito’ (santificação pela palavra), pois Cristo é o Verbo de Deus, a palavra da vida encarnada.

Ora, dizer que os cristãos foram eleitos ‘em Cristo’, ou que são eleitos ‘em santificação do Espírito’ evidencia a mesma ideia: a nova criatura (os cristãos) é eleita por estar em Cristo ( 2Co 5:17 ).

Segundo Paulo, os cristãos foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, é para santificação que os cristãos foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo. Temos aqui dois eventos distintos:

  • antes dos tempos eternos, segundo o seu propósito eterno, Deus escolheu a Cristo para ser preeminente sobre todas as coisas;
  • para que Cristo fosse preeminente em tudo, Deus o constituiu como cabeça da igreja, que são os santificados pela palavra, as novas criaturas, homens nascidos segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Em Cristo Deus escolheu os cristãos para que hoje sejam santos e irrepreensíveis. Paulo apresentou o tempo da eleição para demonstrar que os cristãos agora estavam em Cristo na condição de eleitos de Deus ( Ef 1:13 ), e Pedro apresenta a condição dos cristãos hoje (eleitos), e como alcançaram tal condição: em santificação pelo Espírito.

Percebe-se que através da santificação se dá a eleição dos homens, pois para a santificação é necessário ser anunciada a palavra aos homens, estes por sua vez creiam na pregação, e Deus opera a sua maravilhosa obra: a regeneração. Através da regeneração ocorre a justificação e santificação simultaneamente.

Paulo demonstra que os cristãos foram eleitos para santificação (objetivo), e Pedro demonstra que pela santificação do Espírito os Cristãos são eleitos (condição). A condição de eleitos decorre da santificação, mas quando Deus escolheu antes dos tempos eternos aqueles que estariam em Cristo, foi para serem santos e irreprimíveis.

Cristo demonstrou que a santificação é proveniente da sua palavra, que é espírito e vida para todos os que creem. A regeneração só é operada através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Compare: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 ), e “Tendo purificado as vossas almas na obediência a verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

A ‘santificação’ ou ‘purificação’ só ocorre através da obediência.

Mas, o que é obediência? Obediência é crer na mensagem do evangelho do mesmo modo que cumprir os mandamentos de Deus é crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Qual a verdade que os cristãos da Galácia não estavam obedecendo? À verdade do evangelho “Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” ( Gl 3:1 ).

Como se obedece a verdade do evangelho? Crendo, como está escrito: “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” ( Rm 10:11 ).

Pedro procurou demonstra em sua saudação inicial que os cristãos são os eleitos de Deus, pois todos são santos por estarem em Cristo ( Ef 1:2 ). Eles tornaram-se santos (separados) após serem lavados pela palavra da verdade, a palavra do evangelho que obedeceram.

É através da obediência ao evangelho e aspersão do sangue de Jesus que os cristãos foram purificados, tornaram-se eleitos.

Tudo o que ocorreu com os cristãos após ouvirem e obedecerem à palavra do evangelho (aspersão do sangue, santificação e eleição) já era de conhecido de Deus (onisciência) antes dos tempos eternos “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ).

Quando os apóstolos falaram da eleição, eles tinham em mente a geração que foi escolhida por Deus e a condição dessa geração. A geração dos eleitos ocorre em Cristo, e a geração dos não eleitos, em Adão ( 1Pe 2:9 ). A geração dos eleitos (justos) se dá em Cristo e a geração dos não eleitos (ímpios) em Adão porque uma é a geração dos justos e outra é a geração dos ímpios.

Nenhum descendente da carne de Adão foi eleito por Deus para ser santo e irrepreensível, antes só os homens que creem em Cristo, ou seja, que obedeceram a verdade do evangelho e são de novo gerados segundo Deus, são eleitos para serem santos (separados). É por isso que apóstolo Pedro fala que é por meio da santificação do Espírito que os cristãos são conhecidos d’Ele.

A ideia que Pedro procurou evidenciar é a mesma que Paulo demonstrou no verso seguinte: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Através da onisciência Deus é conhecedor de todas as coisas, ou seja, nada se exclui do seu saber, conhecimento. Porém, quando os cristãos eram incrédulos, eles não eram conhecidos de Deus. O que isto quer dizer, que Deus não é conhecedor de todas as coisas? ( Gl 4:8 ).

Não! Quando os cristãos não conheciam a Deus, Deus também não os conhecia. Porém, agora que conheceram a Deus, ou antes, tornaram-se um com Ele, conhecidos por Ele através da aspersão do sangue de Cristo que se da através da obediência à sua palavra, tornaram se filhos, eleitos (escolhidos) conforme o propósito eterno, que é a preeminência de Cristo como cabeça da igreja.

Conhecer a Deus vai além de um simples saber. Fala de união, ou seja, de tornar-se um só corpo com Cristo, conhecendo um ao outro em amor. Quando o cristão torna-se um só corpo com Cristo é o mesmo que Deus ter conhecido os cristãos, tornam-se um só corpo, pois o homem passa a compartilhar da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

A palavra ‘presciência’ não deve ser utilizada para fazer referência a ideia de que Deus antevê eventos futuros, pois Deus sabe de todas as coisas e eventos através dos séculos igualmente bem, o que se dá o nome de onisciência. O termo ‘presciência’, ou melhor, pré-conhecimento ou pré-ciência refere-se á mensagem acerca do Cristo que os profetas anunciaram de antemão (previamente). Que por intermédio do conhecimento de Deus em Cristo os homens tornar-se-iam um com Deus, conhecendo-O ( Dt 9:24 ; Am 3:2 ; Mt 7:23 ; Jo 10:14 -15).

Ora, o sangue da aspersão foi conhecido ainda antes da fundação do mundo do mesmo modo que os eleitos são conhecidos d’Ele através da aspersão deste mesmo sangue ( 1Pe 2:20 ).

Isto não coaduna com a ideia arminianista de que Deus determinou quem seria salvo através da ‘presciência’. O que Pedro demonstra não é o atributo da onisciência, antes que Deus determinou tudo o que é relativo à salvação do homem: o cordeiro, a palavra e a fé.

 

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,4 Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, 5 Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo

Após o prefácio e a saudação, Pedro passou a bendizer a Deus pela sua misericórdia.

A estrutura inicial desta carta é similar a carta de Paulo aos Efésios e aos Salmos 103 e 104.

Pedro passa a bendizer, ou seja, a adorar a Deus reconhecendo os atributos de Deus (Salmos 104) e os benefícios concedidos aos homens (Salmos 103).

O fato de Pedro bendizer ou adorar a Deus nada acrescenta ao Criador, pois Deus não depende da adoração de suas criaturas para existir. Diferente são as imagens esculpidas, que são ícones idolatrados que surgem e são mantidos somente por serem venerados pelos homens, e que dependem desta veneração para continuarem sendo ídolos.

No entanto, os ídolos nada são ( 1Co 8:4 ), pois mesmo quando venerados, a adoração dos seus adeptos nada acrescenta ou omite as imagens de escultura. Somente são ídolos por causa de seus veneradores, mas afastando os seus adeptos, nada representam.

Como o homem adora a Deus?

Em primeiro lugar, só é possível adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, somente aqueles que creram em Cristo e foram de novo criados é que o adoram segundo o que Ele estipulou: em espírito e em verdade;

Após o novo nascimento, cabe ao cristão reconhecer a grandeza de Deus e todos os seus atributos, e cantar todos os benefícios concedidos.

Pedro bendiz a Deus pela sua misericórdia, do mesmo modo que Davi e Paulo bendisseram ( Ef 1:3 ; Sl 103:10 ).

Ele aponta a misericórdia de Deus como sendo a causa de uma nova esperança, ou seja, em primeira instância a fé e a esperança do crente estão em Deus ( 1Pe 1:21 ).

Pedro é bem claro ao falar da regeneração em Cristo: gerar de novo. Ora, nascer de novo é o mesmo que ser participante de uma nova geração. Em Adão os homens são gerados segundo a carne, em Cristo, o último Adão, os homens são gerados de novo. Esta é a geração dos justos e aquela é a geração dos ímpios.

Mas, como ocorre o novo nascimento?

O ‘gerar de novo’ é um ato criativo de Deus (bara), onde Ele concede um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Deus não reformula ou melhora o velho homem gerado em Adão, antes, Ele faz tudo novo.

Quando Pedro falou ‘nos gerou de novo’, ele se incluiu na narrativa para demonstrar que, tanto ele quanto os cristãos foram de novo gerados. Este não é um privilégio restrito, antes todos os que creem são novamente criados.

É através da ressurreição de Cristo que Deus concede nova vida aos que crêem. Pela ressurreição de Cristo, o primogênito dentre os mortos, os homens nascidos sob a condenação de Adão também ressurgem para a glória de Deus e passam a condição de filhos de Deus, e Cristo assume a posição sublime de primogênito entre muitos irmãos.

Assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos e ascendeu aos céus, os cristãos ressurgem com Cristo e assentam se nas regiões celestiais em Cristo. O mesmo poder que agiu em Cristo ressuscitando-O dentre os mortos é que opera a ressurreição dos que são alcançados pela misericórdia de Deus ( Ef 1:19 -20).

A viva esperança do crente é uma herança incorruptível e incontaminável, que não está guardada neste mundo, antes está guardada nos céus. A herança diz de bênçãos, do mesmo modo que Paulo agradece a Deus por todas as bênçãos concedidas por Deus ( 1Pe 3:9 ; Ef 1:3 ).

Ora, o que guarda o cristão para salvação é o poder de Deus, da qual o homem torna-se participante pela fé. Não é a confiança do homem que o salva ou que o sustem (guarda), antes é o poder de Deus que preserva o homem na salvação recebida.

Qual a virtude ou, qual o poder de Deus para salvação?

O poder de Deus para salvação é o evangelho de Cristo, como lemos em Romanos “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ; 1Co 1:18 ).

Basta descansar (crer) em Deus que os cristãos são escondidos (guardado) através do seu poder para salvação que será manifesta muito em breve a todos. Revelar, tornar conhecido a todos os homens o retorno de Cristo (V. 5).

O poder de Deus que preserva os que creem da contaminação deste mundo é o evangelho da graça.

 

6 Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, 7 Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo; 8 Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso; 9 Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

A alegria do cristão é proveniente das coisas pertinentes à salvação. Este deve ser o contentamento e a exultação do cristão, a salvação.

Há quem exulte por expulsar demônios ou quando opera algum milagre, porém, o alerta solene de Jesus é: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Lc 10:20 ).

Esta recomendação de Jesus e do apóstolo Pedro é para que os cristãos não caiam no engodo do diabo e sejam levados pelos falsos profetas que fazem inúmeros milagres ( Mt 7:22 ).

A alegria pela salvação também se faz acompanhar de aflições. As aflições e as tentações contristam os seguidores de Cristo, mas estas coisas não são para comparar com a glória futura “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” ( Mt 5:12 ).

No verso sete, Pedro aborda a questão da perseverança e compara a fé com o processo de purificação do ouro.

A fé comparada com o ouro é muito mais preciosa. O ouro que segundo a concepção dos homens é um material nobre e que resiste ao tempo, porém, mesmo após ter sido provado pelo fogo continua sendo perecível.

A fé dos cristãos, quanto mais provada, redundará em louvor, honra e glória quando da volta de Cristo. Quanto maior as provações, ficará demonstrado quão grande é o valor da nossa fé, a fé que uma vez foi entregue aos santos (Judas 3).

Pedro demonstra quão maravilhoso é o evangelho, visto que ele apresenta aos cristãos Cristo crucificado, mas, mesmo não tendo visto a Cristo em carne, ou ressurreto, foram conquistados pelo seu amor.

Embora os cristãos não vejam a Cristo agora, o amam crendo, e sentem as suas vidas inundadas por uma alegria inefável e gloriosa. A alegria de Deus é proveniente da paz estabelecida entre Deus e os homens.

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho, a fé que foi entregue aos cristãos. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

10 Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, 11 Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. 12 Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 13 Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo;

Pedro apresenta um fato curioso acerca dos profetas do Antigo Testamento. Eles inquiriram diligentemente acerca de Cristo, a salvação que seria manifesta aos homens.

Os profetas perguntavam sobre a salvação que haveria de ser relevada, e eram diligentes quando profetizavam acerca de Cristo. Eles queriam saber os tempos que Deus estabeleceu pelo seu poder.

O Espírito de Cristo concediam aos profetas mensagens acerca da vinda do Messias e dos seus sofrimentos, porém, a época em que estes eventos se dariam não lhes era revelado.

Ora, segundo a onisciência de Deus Pai os eventos futuros eram revelados aos profetas, mas o fato de Deus conceder de antemão a revelação de eventos futuros (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) não interfere nas decisões dos homens (v. 11). Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas  “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

É pela onisciência que Deus antecipou aos seus profetas os eventos futuros, porém, a salvação não é determinada com base na ideia equivocada de ‘presciência’ como ‘saber de antemão’, antes a salvação é na santificação através da obediência ao evangelho, que é a fé entregue aos santos ( Jd 1:3).

Os profetas tinham conhecimento que falavam de coisas grandiosas para outros, e que as suas mensagens não diziam respeito a eles. Pedro quer que os cristãos tenham na memória que os profetas não profetizam acerca de bens para eles mesmos, antes, que eles (profetas) conheciam plenamente que outros seriam favorecidos pela graça de Deus.

Os profetas testificavam acerca de Cristo, e os apóstolos agora, pelo Espírito Santo anunciavam o evangelho. Ou seja, a mensagem anunciada aos cristãos era a mesma anunciada pelos profetas e que lhes aguçava a curiosidade para saber a respeito da salvação que hoje é revelada.

Muitos entendem que os anjos desejaram pregar o evangelho aos homens, porém, Pedro estava demonstrando que a mesma curiosidade pertinente aos profetas, também era pertinente aos cristãos. Do mesmo modo que os profetas inquiriram diligentemente, os anjos também desejaram compreender (v. 12b).

As coisas que os anjos desejaram atentar não foi desejo de anunciar as boas novas do evangelho, antes desejaram compreender a multiforme sabedoria de Deus, que até antes do advento da igreja era um mistério aos principados e potestades celestiais ( Ef 3:10 ).

Ora, se os anjos desejaram compreender as grandezas do evangelho, e os profetas inquirira diligentemente acerca da salvação, coisa que não estava reservada a eles, chega-se a seguinte conclusão: “Portanto,…” ( 1Pe 1:13 ).

Se os anjos desejaram compreender e os profetas inquiriram acerca dos tempos, o que resta aos que estão sendo beneficiados pela salvação revelada é cingir os lombos do entendimento. A recomendação de Pedro é para que os cristãos tenham uma compreensão apurada acerca das riquezas de Deus apresentada no evangelho.

Quando os cristãos ajustam bem a sua compreensão acerca do evangelho, deixando de lado as dúvidas e especulações, ele passa a esperar inteiramente na graça oferecida. Sobre a compreensão dos cristãos o apóstolo Paulo orou a Deus pelos cristãos em Éfeso: “Oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

A compreensão acerca das verdades eternas deve ser a temática da vida cristã, pois o cristão só consegue crescer na graça e conhecimento de Cristo. Não há crescimento espiritual, pois o homem espiritual é perfeito diante de Deus. Muitos apregoam crescimento espiritual, mas os cristãos já são criados idôneos, ou seja, já pode participar da herança dos santos em Deus ( Cl 1:12 ).

O que é preciso àqueles que creram na mensagem do evangelho? Falta somente transformarem-se através da renovação do entendimento. O que era pertinente a velha natureza, o cristãos deve lançar fora, para viver segundo o conhecimento de Cristo ( Rm 12:2 ).

Do mesmo modo que Paulo agradece a Deus pelas bênçãos alcançadas do verso 3 ao 14 da carta aos Efésios, e ora a Deus para conceder aos cristãos o que lhes faltava (conhecimento) ( Ef 1:18 ), Pedro recomenda os cristãos a ajustar a compreensão acerca do conhecimento revelado.

Jesus alertou na parábola da semente que a compreensão é essencial a salvação, pois a ação nefasta do inimigo do homem é arrancar a semente dos corações que não compreendem “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no coração” ( Mt 13:19 ).

É por isso que o escritor aos Hebreus recomenda os cristãos atentarem diligentemente para as coisas que já ouviram, para que em tempo algum (bonança ou perseguição) se desviem ( Hb 2:1 ).

Pedro recomenda a sobriedade, pois ela é essencial à vigilância, principalmente àqueles que aguardam a revelação de Cristo Jesus, o Senhor ( 1Ts 5:6 ).

 

14 Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; 15 Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 16 Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. 17 E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, 18 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, 19 Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,

O comportamento dos cristãos deve ser conforme o comportamento de filhos obedientes. Quando obedeceram a fora de doutrina que foi entregue no evangelho, crendo, os cristãos receberam poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Agora, de posse desta nova condição: filhos do Deus vivo, também devem viver como filhos obedientes. Ora, não é o comportamento dos cristãos que os faz filhos de Deus, e nem o comportamento diário que os mantém na condição de filhos.

Antes, os cristãos são filhos porque obedeceram ao mandamento que diz: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do eu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 2:23 ). Crer é o mesmo que obedecer a Deus!

Porém, apesar de não ser o comportamento que faz o homem filho de Deus, antes o ser de novo gerado segundo o poder do evangelho, agora que se é filho, os cristãos não devem se conformar com as concupiscências que antes tinham na ignorância.

Os desejos são pertinentes ao homem. Desde o Éden a concupiscência acompanhava o homem ( Gn 3:6 ). Percebe-se que a concupiscência não é o pecado, porém, os desejos do novo homem não devem ser conforme os desejos dos homens que ainda vivem na ignorância.

Se o homem foi alcançado pelo conhecimento do evangelho, que o liberta das trevas da ignorância, deve agora pensar nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado a destra de Deus. Deve aguardar inteiramente na graça que a revelação de Cristo oferece (v. 13).

Os desejos são pertinentes a esta vida, e todos que se deixam levar pelas concupiscências da carne, dos olhos e pela soberba da vida é por que não são sóbrios (vigilantes). Pedro quer demonstrar que a concupiscência gera tentação “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência, depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Os cristãos devem pautar os seus desejos segundo o amor não fingido, pois os desejos segundo a concupiscência dos homens não é pertinente àqueles que foram iluminados pela luz do evangelho “Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus” ( 1Pe 4:2 ).

Mas, como é Santo Àquele que chamou os cristãos à sua misericórdia, os cristãos também deveriam ser santos em todo o procedimento.

Observe que o comportamento dos cristãos é uma recomendação do apóstolo, e não uma imposição de Deus. Deus é santo porque a ninguém oprime, ou seja, ele não obriga nenhuma de suas criaturas a servi-lo “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

Ele é santo e por isso chama, convida, oferece aos homens salvação. A santidade de Deus não impõe aos homens a sua vontade. Ele não predestina ninguém à salvação ou à perdição.

O cristão é santo porque foi criado de novo participante da natureza de Deus. Não é o comportamento do cristão que o mantém separado dos pecadores, pois há muitos pecadores que tem uma vida regrada, e não são santos (separado para uso exclusivo de Deus).

Mas, como Deus é santo e chamou o homem à santidade, é de bom alvitre que os cristãos mantenham-se separados também do comportamento dos ímpios pecadores ( 1Pe 1:15 ).

Ora, Pedro não faz esta recomendação por acaso, visto que está escrito: “Sede santos, porque eu sou santo” ( 1Pe 1:16 ). Ora, o versículo não recomenda aos homens que se santifiquem, pois isto é impossível aos homens. Antes o versículo expressa a vontade de Deus, pois é através da oferta do corpo de Cristo que o homem é santificado ( Hb 10:10 ).

Ora, quando Deus diz: ‘Sede santo’, temos a sua vontade (querer), e o seu efetuar através da sua palavra (Sede) “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” ( Fl 2:13 ). ‘Sede’ não é uma ordem, antes expressa a vontade de um Deus que trabalha para aqueles que nele esperam.

Este verso apresenta a mesma vontade de Deus a Abraão, ‘anda na minha presença e sê perfeito’ ( Gn 17:1 ). Ora, ser perfeito não é a condição para se andar na presença de Deus, mas ao andar na presença de Deus, o homem é perfeito, visto que ele justifica todos os que nele esperam como foi justificado Abraão pela fé.

Deus não exige perfeição do homem, antes é na sua vontade que o homem é aperfeiçoado “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ). O homem só é santo porque Deus o separou dos demais para ser santos ( Lv 20:26 ).

Pedro chama os seus interlocutores ao raciocínio. Se os cristãos invocam por Pai um Deus que não faz acepção de pessoas, ou seja, um Deus que julgará e retribuirá a cada um segundo as suas obras, deve entender que, se Deus punirá os ímpios pelas suas más ações, também será censurando pelo mal ou bem que houver feito ( 2Co 5:10 ).

Ora, os seus filhos precisam compreender que, o comportamento não é para salvação, visto que a salvação é em Cristo, porém, assim como os ímpios serão julgados segundo as suas obras, os justos também serão.

Quem cinge os lombos do entendimento compreendem que Deus não faz acepção de pessoas; que não foi com coisas corruptíveis que foram salvos; que o sangue de Cristo é precioso, o cordeiro de Deus sem mácula.

Pedro convoca os cristãos à sobriedade, para que não andassem segundo a vaidade dos pensamentos, entenebrecidos no entendimento ( Ef 4:17 -18), mas que servissem ao Senhor não fazendo uso do que é pertinente ao velho homem, que já foi crucificado e sepultado co Cristo ( Cl 3:8 -10).

 

20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; 21 E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;

Pedro compara o sangue de Cristo como sendo o de um cordeiro sem mancha ou mácula, ou seja, perfeito ( 1Pe 1:19 ).

Ora, Cristo foi ‘conhecido’ do Pai antes da fundação do mundo (na eternidade). Em ‘outro tempo’, ou seja, um tempo específico que não é conforme o tempo dos homens.

Mas, o que é ter sido ‘conhecido’ antes da fundação do mundo? Que tipo de ‘conhecer’ é este apontado pelo apóstolo Pedro?

É ‘conhecido’ de Deus aquele que o ama “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ). Jesus também falou acerca de ter sido conhecido do Pai, pois o Pai O amou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 ).

Compare:

a) “… porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 );
b) “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo…” ( 1Pe 1:20 ).

Antes de haver mundo, Cristo e o Pai estavam unidos em amor, que é o vínculo da perfeição, ou seja, Cristo é conhecido do Pai antes mesmo de ser introduzido no mundo como Filho amado.

Ser conhecido de Deus é estar em Deus e Deus em nós. O homem em Deus é surpreendente, porém, Deus nos homens é maravilhoso!

Ser ‘conhecido’ de Deus é uma forma específica de fazer referência a divindade de Cristo. É fazer dos homens e as pessoas da divindade um só “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), e “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade…” ( Jo 17:21 -23).

Ora, o mundo não conheceu a Cristo porque não amou a Deus, mas Cristo conheceu a Deus, pois sempre estiveram unidos em amor. O ‘conhecer’ de Deus é compartilhar da mesma natureza, e os anjos, apesar de maior em poder e glória, jamais serão conhecidos do mesmo modo que os que creem conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos dele ( Gl 4:8 -9).

Observe que Cristo foi conhecido de Deus e revelado aos homens. Os anjos não conheceram a Cristo como o Verbo encarnado na eternidade, mas viram o Unigênito de Deus que foi revelado aos homens “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ).

Os anjos ficaram maravilhados quando viram que Deus se manifestou aos homens em carne, o Verbo Eterno encarnado. Foi lhes revelado a multiforme sabedoria quando viram que todos que creem tornam-se semelhantes a Cristo, pois são novamente criados em verdadeira justiça e santidade segundo o poder contido no evangelho.

A palavra grega ‘proginosko’ (conhecer) usada em At 26:5 ; Rm 8:29 ; Rm 11:2 ; 1Pe 1:20 e 2Pe 3:17 não é idêntica à palavra grega ‘prognosis’, usada em At 2:23 e 1Pe 1:2 , mesmo sendo correlatas. ‘Presciência’ não é um dos aspectos da ‘onisciência’, atributo de Deus relacionado ao conhecimento que ele tem de todas as coisas em todos os tempos (eternidade e o tempo dos homens: passado, presente e futuro).

Ao unirem-se (conhecer) o homem e a mulher, tornam-se uma só carne, mas o mistério eterno revela-se na igreja, quando o cristãos torna-se membro do corpo de Cristo ( Ef 5:30 -32).

Cristo foi manifesto aos homens para que eles pudessem crer em Deus. Como? Ora, a mensagem do evangelho demonstra que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pelo poder de Deus, e que ele recebeu glória e poder, fato que dá garantias, àqueles que com medo da morte eram servos do pecado, de que basta confiar em Deus que será livre do medo e da servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

Cristo foi manifesto porque Deus amou o mundo de tal maneira (v. 20), e deu o seu Filho (que foi morto e ressurgiu), para que, por intermédio de Cristo, exemplo de fé (autor e consumador), os homens também passem a crer em Deus (v. 21).

Ora, a fé está em Deus, que zela pela sua palavra para cumpri-la, e a esperança do homem também, pois espera inteiramente na salvação que a revelação de Cristo oferece gratuitamente.

Ora, mediante a fé os cristãos estão guardados na virtude (fidelidade) de Deus. A palavra do evangelho é a fé que um dia foi dada aos santos (Judas 3), e por meio dela o cristãos é preservado, esperando inteiramente na graça oferecida.

Esperar em Deus é fé, porém, a palavra do evangelho também é designada fé. A fé que o homem deposita em Deus equivale a esperança, e a fé que foi entregue aos santos (evangelho) é o mesmo que ‘esperança proposta’ ( 1Pe 1:5 ; 13 e 21). Deste modo temos uma esperança proposta, que é designada evangelho ou fé, e quem tem esta esperança em Deus, exerce ‘fé’ (esperança) em Deus.

Os calvinistas e arminisnistas causam um grande prejuízo à compreensão da verdade do evangelho porque não conseguem distinguir que o evangelho é o mesmo que a esperança proposta. Que o evangelho é a fé que uma vez foi dada aos santos.

Caso conseguissem distinguir que o evangelho, a esperança proposta e a fé dada aos santos são coisas provenientes de Deus, veriam também que crer na mensagem do evangelho, ter fé em Deus é o mesmo que esperar inteiramente na esperança proposta.

 

22 Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; 23 Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. 24 Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; 25 Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.

Os versos 22 e 23 são equivalentes, ou seja, expressam dois eventos provenientes da mensagem do evangelho.

Somente Deus gera de novo e purifica o homem. Somente Deus podia realizar o pedido do salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Somente Deus (Espírito) pode espargir água limpa (palavra) sobre os homens, concedendo-lhes um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 -27). O novo Nascimento somente ocorre por intermédio da água (semente incorruptível) e do Espírito (Deus) ( Jo 3:5 ).

Pedro demonstra que efetivamente os cristãos foram purificados quando creram na mensagem do evangelho (v. 22). ‘Obedecer à verdade’ é o mesmo que ‘cumprir o mandamento de Deus’ que é: “… que creiamos no nome do seu Filho…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente quando se crê (obedece) na mensagem do evangelho o Espírito Eterno digna-se em realizar a sua obra “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Deus purifica o homem completamente (livra do jugo) e o fardo que agora deve carregar por estar em Cristo é amar uns aos outros, segundo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ).

Antes, por ser descendente de Adão, o coração do homem era ‘enganoso’ e ‘incorrigível’, agora, por estar em Cristo, foi concedido um novo coração puro, sendo possível amar uns aos outros ardentemente com um coração puro ( Jr 17:9 ; Sl 51:10 ; 1Pe 1:22 ).

Observe a semelhança entre o verso 22 e o verso 2:

“…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus …” (v. 1);
“Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade…” (v. 22).

Pedro apresenta a doutrina da regeneração ou do novo nascimento.

Por que os cristãos foram de novo gerados? Porque todos os homens são gerados em Adão, de uma semente corruptível ( Jo 1:13 ). Após crer na mensagem do evangelho, os homens que foram gerados em Adão, agora são de novo gerados pela palavra de Deus.

A palavra de Deus é viva e permanece para sempre, e todos que são de novo gerados passam a viver para sempre com Deus.

Para demonstrar que todos os homens nascidos em Adão são perecíveis, Pedro cita uma passagem de Isaias: “Diz uma vos: Clama. E eu disse: Que hei de clamar? Todos os homens são como a erva, e toda a sua beleza como as flores co campo. Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra do nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 -8).

Observe que a citação de Pedro não é “ips literis”. Ele somente evidência a ideia do texto de Isaias, demonstrando que todos os homens nascidos da carne (toda carne) são comparados a erva. Toda a glória que o homem possui é comparável a flor da erva.

Para demonstra quão fugaz é a existência dos homens, Pedro somente arremata: “Secou-se a erva, e caiu a sua flor”. Ele não se ateve ao processo de degradação pertinente a existência do homem que culmina com os eu retorno ao pó da terra.

Já a palavra de Deus é completamente diferente: ela permanece para sempre, e os que por ela são de novo gerados subsistem eternamente.

Sobre esta verdade Jesus disse: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Ora, a planta que o Pai não plantou são os homens nascido em Adão e todos serão arrancados. Porém, aqueles que nascem da palavra de Deus, são plantação do Senhor, árvores de justiça “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

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Como obter vida?

A palavra que procede da boca de Deus é o que concede vida ao homem, portanto, a vida proveniente de Deus é concedida através da palavra d’Ele. É a palavra de Deus que possui o poder criativo (bara) e é por intermédio da palavra que o novo homem é gerado em verdadeira justiça e santidade com um novo coração e um novo espírito ( Ef 4:24 ; Is 51:10 ; Ez 36:26 e27 ; 1Pe 1:23 ).


“Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 )

 

Através do convite: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim…” ( Is 55:3 ), Deus prometeu vida aos homens, visto que todos estavam mortos em delitos e pecados “… ouvi, e a vossa alma viverá ( Is 55:3 ).

A bíblia demonstra que todos os homens pecaram e que foram destituídos da glória de Deus ( Rm 3:23 ; Sl 53:3 ), ou seja, o termo ‘morte’ é empregado para fazer alusão à condição pertinente à natureza dos homens herdada de Adão, ou seja, refere-se à separação de Deus.

Por intermédio do profeta Isaías é anunciado que basta dar ouvidos à palavra de Deus que o homem se aproximará d’Ele, ou seja, ‘inclinar’ os ouvidos é o mesmo que dar crédito (ouvir), e então, o homem passa da morte para a vida.

Esta mesma mensagem foi anunciada pelo profeta Moisés quando disse: “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná (…) para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

A análise destes dois versículos demonstra que a palavra que procede da boca de Deus é o que concede vida ao homem, portanto, a vida proveniente de Deus é concedida através da palavra d’Ele. É a palavra de Deus que possui o poder criativo (bara) e é por intermédio da palavra que o novo homem é gerado em verdadeira justiça e santidade com um novo coração e um novo espírito ( Ef 4:24 ; Is 51:10 ; Ez 36:26 e27 ; 1Pe 1:23 ).

Enquanto Moisés descreveu a justiça da lei ( Rm 10:5 ), a justiça da fé falou por si mesma ensinando ao povo de Israel as seguintes questões: quem subirá ao céu? Ou, quem descerá ao Abismo “Mas a justiça decorrente da fé assim diz:…” ( Rm 10:5 ), pois o espírito de Cristo estava sobre Moisés alertando que os mandamentos segundo a promessa não são penosos ( Ap 19:10 ; 2Pe 1:21 ; 1Jo 5:3 e Dt 30:11 -14 ).

A mesma palavra que foi anunciada que estava perto dos ouvintes da lei, na boca e no coração, é a palavra da fé que o apóstolo Paulo pregou ( Rm 10:8 ), pois todo o que crê, ou antes, invoca a Deus, será salvo ( Rm 10:11 e 12). Basta aos ouvintes da lei darem crédito à palavra de Deus que cumpririam o ordenado por Deus “De novo darás ouvidos à voz do Senhor, e cumprirás todos os seus mandamentos que hoje te ordeno” ( Dt 30:8 ; Is 55:3 ).

O apóstolo Paulo resume esta verdade quando conclui: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ), pois para invocar é necessário crer, e para crer é necessário ouvir a mensagem daquele que é enviado de Deus ( Rm 10:14 ). O apóstolo evidencia que a mensagem da fé, cujo tema é Cristo, é essencial para que o homem creia, pois exclusivamente através do Verbo encarnado viverá o homem.

O que os profetas Moisés, Habacuque e Isaías, bem como o apóstolo Paulo evidenciaram? Que o querigma, a palavra, a mensagem, as boas novas do evangelho é a ‘fé’ pela qual o homem viverá. O que faz o homem ter vida perante Deus é o poder que há em sua palavra ( Jo 1:12 ), que é Cristo, o Verbo encarnado, tema central do evangelho e poder de Deus para salvação dos que creem ( Rm 1:16 ).

O apóstolo Paulo assim descreve a ‘fé’ pela qual o homem obtém vida: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar ( Gl 3:23 ). A ‘fé’ que havia de vir e que havia de ser manifesta não contempla outra interpretação: a fé é Cristo.

A ‘fé’ que havia de se manifestar é Cristo, pois todos os que jazem mortos em delitos e pecados, ao ouvirem a voz do Filho viverão por Ele.

Esta verdade contraria muitos eruditos que dizem que a regeneração precede a fé sob o argumento de que os homens estão mortos espiritualmente e incapazes de ouvir e atender a voz de Deus “A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé” Sproul, R. C., O Mistério do Espírito Santo, Tyndale House, 1990 – Disponível na Web sob o título ‘A regeneração precede a fé’ – Tradução de Felipe Sabino de Araújo Neto.

Jesus deixa claro que os mortos podem ouvir a sua voz, e muito mais, ainda que estejam mortos, se crerem, viverão “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ); “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão ( Jo 5:25 ).

Como aquiescer a declaração de Sproul, uma vez que a ‘fé’ que foi revelada na plenitude dos tempos, que é Cristo, é pré-existente.

Interpretar alguns textos bíblicos, em que o termo ‘fé’ é empregado como ‘querigma’, como se fizesse referencia à disposição interna do indivíduo em crer, trás distorções e um prejuízo incomensurável a compreensão do evangelho.

Quando lemos: “E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé” ( Gl 3:11 ), o apóstolo contrapôs a matéria do antigo testamento com a do novo:

a) o da lei, que resume-se em maldição para aqueles que não a cumprirem, e remete às obras “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” ( Gl 3:12 ; Dt 27:26 ), e;

b) o da fé, que resume-se na bênção proveniente do evangelho, e o homem descansa na esperança proposta ( Gn 12:3 ; Gl 3:8 -9).

O capítulo 3 de Gálatas consiste em uma análise quanto às implicações da lei e do evangelho. Embora o apóstolo aborde no verso 6 a crença de Abraão, contudo o capítulo foi redigido de modo a contrastar a lei e a ‘fé’ como querigma, e não como crença particular.

De igual modo, o escritor aos Hebreus cita a passagem de Habacuque enfatizando que os cristãos pertencem à fé para a conservação da alma (O termo conservação é utilizado como manutenção, contrastando com destruição) “Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos entretanto, da fé, para a conservação da alma” ( Hb 10:39 ) ARA – Texto equivalente ao do novo Testamento Interlinear Grego – Português.

Outras versões rezam: “Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma” ( Hb 10:39 ), enfatizando a crença do homem em lugar de destacar a mensagem que os apóstolos anunciaram, como acertadamente faz a versão ARA.

Se o leitor não for criterioso, fará uma má leitura dos versículos e cometerá um equivoco na interpretação, pois em um mesmo contexto o termo ‘fé’ pode assumir conotações distintas, como verificaremos nas passagens bíblicas a seguir: “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas” ( Rm 3:21 ).

É necessário fazer as seguintes indagações ao texto: O que se manifestou sem a lei? O que têm o testemunho da lei e dos profetas? A resposta decorre do expresso por Paulo aos Gálatas: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Cristo foi manifesto e, somente Ele tem o testemunho da lei e dos profetas, sendo Ele a ‘fé’ que foi manifesta e, somente Ele é o possuidor do testemunho da lei e dos profetas. Cristo é a justiça de Deus manifesta aos homens e, exclusivamente no evangelho o homem descobre Cristo como a justiça de Deus ( Rm 1:16 -17).

Por causa da complexidade do que expôs no verso 21, do capítulo 3 de Romanos, o apóstolo faz um adendo explicativo no verso seguinte e, novamente expõe esta verdade: “Isto é, a justiça de Deus…” ( v. 22).

O Novo Testamento Interlinear Grego – Português, no verso 22 reza da seguinte maneira: “… justiça[2] e[1] de Deus mediante (a) fé de Jesus Cristo para todos os que creem” (v. 22). Observe que a ‘fé’ que o apóstolo faz referência é de Cristo, ou seja, pertence a Ele, pois Ele é o autor e consumador dela. Logo a seguir, tem-se o verbo ‘crer’, que se refere à disposição interna do homem em confiar.

A frase fica sem sentido quando se atribui ao termo ‘fé’ o mesmo sentido do verbo ‘crer’, como se lê a seguir: “… justiça[2] e[1] de Deus mediante (a) crença de Jesus Cristo para todos os que creem” (v. 22). Parafraseando o apóstolo Paulo, teríamos: “… a justiça de Deus mediante o evangelho (fé) de Jesus Cristo para todos os que creem”.

A justiça de Deus é mediante o evangelho, a ‘fé’ pela qual os cristãos são exortados a batalharem e que foi manifesta aos homens ( Jd 1:3 ; Gl 3:2 e Gl 3:23 ). Esta mesma ‘fé’ assegura justificação àqueles que creem, sejam eles judeus ou não.

Qual o objetivo desta análise? Buscar uma interpretação correta do verso 26, do capítulo 3 de Romanos:

“… para a demonstração da justiça dele em o presente tempo, para ser ele justo e o que justifica o (que é) de (a) fé de Jesus” ( Rm 3:26 ) – Novo Testamento Interlinear Grego – Português.

O verso destaca que Deus justifica os que são (pertencem a) da fé, o que contrasta com a condição daqueles que são da lei. Enquanto os que são da fé são justificados porque creem (descansam) na justiça que se manifestou, os que são da lei tropeçam porque se propuseram a trabalhar.

O apóstolo Paulo não tinha do que se envergonhar do evangelho, pois ele é anterior e superior a lei: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé( Rm 1:17 ).

A ênfase da fala do apóstolo consiste em demonstrar que o cristão obtém vida através do evangelho, ou seja, através da palavra de Deus, que é a ‘fé’ enquanto querigma, posicionamento que contraria a ideia de que a justificação é proveniente da disposição interna do indivíduo em crer “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:25 -26).

A ‘fé’ que foi entregue aos santos ( Jd 1:3 ), é descrita pelo apóstolo dos gentios como: a) Meu evangelho; b) A pregação de Jesus; c) A revelação do mistério que esteve oculto desde tempos eternos; d) Manifestou-se agora; e) Foi notificado pelas escrituras dos profetas; f) É segundo o mandamento de Deus, e; g) Foi revelado a todas as nações para obediência.

O apóstolo dos gentios demonstra que a pregação de Jesus não difere da mensagem contida no ‘seu’ evangelho, ou seja, a pregação de Jesus e o ‘evangelho’ do apóstolo diz do mesmo mistério que esteve oculto desde os tempos eternos. O que foi ‘notificado’ pelas escrituras (lei, salmos e profetas) e, que agora se manifestou, é o mesmo que: a) o mistério revelado; b) a pregação de Cristo, e; c) o evangelho de Paulo.

Cristo é a palavra encarnada manifesta aos homens na plenitude dos tempos, sendo ele mesmo o tema da pregação que foi confiada aos apóstolos. A pregação do apóstolo Paulo é conforme o mandamento de Deus, uma vez que somente é possível obedecer ao mandamento de Deus através da ‘fé’ (querigma), ou seja, através do evangelho de Cristo. Deus estabeleceu o único modo de o homem cumprir o exigido por Ele: obediência da fé “De novo darás ouvidos à voz do Senhor, e cumprirás todos os seus mandamentos que hoje te ordeno” ( Dt 3:8 ).

Qual o mandamento de Deus? Que os homens creiam naquele que Ele enviou ( 1Jo 3:23 ). É por isso que Cristo se manifestou, pois ao crer n’Ele, o homem também crê no Pai que o enviou “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” ( Jo 12:44 ). Cristo é a ‘fé’ que havia de se manifestar, o Verbo manifesto em carne, do qual o profeta Moisés disse que, de tudo o que procede da boca de Deus viverá o homem “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ).

Portanto, faz-se necessário observar que, na bíblia, como em outras literaturas, há o emprego de figuras de linguagem, sendo o termo ‘fé’ empregado muitas vezes para fazer referência ao conteúdo da mensagem do evangelho. Tal figura de linguagem consiste em substituir um nome (evangelho) por outro (fé), em virtude de haver entre os termos forte associação de significado (fé e evangelho).

A figura de linguagem que ocorre com o terno ‘fé’ e ‘evangelho’ denomina-se metonímia e, refere-se ao recurso de substituir a causa (evangelho, fé, Cristo) pelo seu efeito (crer, salvação, redenção), ou vice-versa.

Quando o apóstolo dos gentios diz: ‘a fé que havia de se manifestar’, temos a substituição do nome do autor da obra pela obra do autor, pois sabemos que Cristo é o autor e consumador da fé.

A metonímia como recurso linguístico faz com que um mesmo termo passe a amalgamar significados distintos. Por exemplo, a palavra ‘fé’, dependendo do contexto, pode significar ‘acreditar’, ‘confiar’, ‘crer’, ou significar ‘evangelho’, ‘mensagem’, ‘pregação’, ‘boas novas’, etc.

É por isso que o apóstolo Paulo diz que a justiça de Deus se descobre no evangelho, que é de fé (evangelho) em fé (crença), ou seja: primeiro o querigma, depois a crença. Sem as garantias contidas e reveladas na mensagem do evangelho é impossível que o homem venha a confiar em Deus para salvação.

A mensagem do evangelho expressa a fidelidade de Deus e, sem Deus não há nada firme em que o homem possa crer para salvação. A crença do homem surte efeito para salvação somente quando repousa nas garantias estabelecidas na mensagem do evangelho ( Rm 10:14 ). Deus prometeu e, Ele é o garantidor da promessa. A promessa, por sua vez é firme, porque Deus é fiel e poderoso para cumpri-la.

O evangelho é a fé que havia de se manifestar. A fé consiste nas boas novas do reino, sendo Cristo o tema central, a palavra de Deus encarnada. Sem a fé manifesta é impossível ao homem ter fé (crer), pois o que torna a crença do homem viável para a salvação é a obra redentora de Cristo.

Neste sentido temos que Cristo, a fé manifesta, precede a regeneração, pois é o tema da mensagem que provoca a mudança de compreensão (metanóia) no homem. Sem a pregação da mensagem que diz que Cristo morreu e ressurgiu dentre os mortos, não há como crer para justiça e nem como confessar para salvação ( Rm 10:10 ), pois o homem só admite (confissão) que é pecador quando ouve a mensagem do evangelho e, só admite (confissão) que Cristo é o Filho do Deus vivo quando crê na mensagem do evangelho.

Não saber diferenciar quando o termo ‘fé’ refere-se ao querigma e quando o mesmo termo refere-se à confiança produzida no cristão, produz um entendimento distorcido da verdade do evangelho, como se verifica na colocação do Dr. Louis Berkhof : “… Quer dizer que a fé nunca é apresentada como a base da nossa justificação. Se fosse, a fé teria que ser considerada como uma obra meritória do homem. E isto seria a introdução da doutrina da justificação pelas obras, à qual o apostolo coerente e consistentemente se opõe…” Berkhof, Louis, Teologia Sistemática, pág. 514-528, Editora Cultura Cristã – Grifo nosso.

O apóstolo Paulo afirma categórica e taxativamente que, Deus justifica a circuncisão e a incircuncisão mediante a fé “Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão” ( Rm 3:30 ), como o eminente doutor pode dizer que a ‘fé’ nunca é apresentada como a base da nossa justificação?

Quando o termo ‘fé’ significa querigma, certamente a fé é a base da justificação, pois Deus demonstrou a sua justiça no tempo presente, para que Ele seja justo e o que justifica os que pertencem à fé ( Rm 3:26 -27).

Cristo é a base da justificação, pois Ele é a fé pela qual viverá o homem. A não compreensão da natureza da fé como querigma e da fé como crença leva à afirmação descabida de que a fé nunca é a base da justificação e, o erro soma-se a outros, sendo um deles a ideia de que a fé como ‘confiança’, ‘crença’ teria que ser considerada como uma obra meritória.

Que mérito tem uma pessoa que acredita em alguém que é fidedigno? Que mérito há em clamar a Deus por salvação? Digna-te, SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio” ( Sl 40:13 ).

Se existe uma obra realizada, esta pertence a quem prometeu, portanto, merecedor da confiança daquele que crê. Com relação ao evangelho de Cristo não há o que se falar em jactância por parte de quem crê “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” ( Rm 3:27 ). Só por estar no evangelho qualquer jactância é excluida, pois só na carne há jactância, pois no Espírito não sequer sombra de altivez.

Entender que a crença do cristão, que decorre da ‘fé’ (evangelho) teria a possibilidade de ser meritória, uma obra ou um modo de colaborar na salvação por parte de quem é alcançado pelo evangelho é transtornar a mensagem da fé, pois não há que se falar em mérito por parte de quem invoca a Deus segundo o evangelho do seu Filho, antes o mérito está n’Ele que é fiel e propôs salvar todos os que O invocam “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ; Jl 2:32 ).

Aquele que confia no evangelho não executa, não auxilia e nem concede nada a Deus que fez a promessa, visto que, quem prometeu é fiel e digno de toda confiança. Quando alguém crê em Deus, o mérito é d’Ele, por ser fiel e imutável, e não daquele que confia. Se alguém confia em Deus é porque Deus é digno desta confiança por sua própria virtude, poder “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” ( 1Pe 1:5 ).

Ou seja, mediante o querigma os cristãos estão seguros na virtude de Deus, que é fiel e imutável, portanto, não há mérito algum em quem deposita em Deus a sua confiança. Que virtude ou poder possui quem crê na salvação proposta em Cristo, a fé manifesta aos homens?

Quando temos o termo ‘fé’ associado à ideia de evangelho, ‘palavra da fé’, certo é que tal ‘fé’ á a base da justificação, pois somente após ouvi-la o homem crê ( Rm 10:10 ), porém, se o termo ‘fé’ fizer referência ao ‘ato’ de descansar, crer, tal disposição não é a base da justificação. Por outro lado, quando o homem crê, ouve, invoca ao Senhor, não há nem sombra de obra ou méritos por parte do homem.

Por não levar em conta o exposto acima, Berkhof diz: “Na verdade se nos diz que a fé que Abraão tinha lhe foi imputada para justiça, Rm 4.3, 9, 22; Gl. 3.6, mas, em vista da argumentação completa, isto certamente não pode significar que, no caso dele, a fé propriamente dita, como obra, tomou o lugar da justiça de Deus em Cristo” Idem – grifo nosso.

Jamais podemos considerar a disposição de Abraão em crer como obra, pois a obra vincula-se à carne, e a certeza que Abraão possuía decorria da promessa e do poder de Deus ( Rm 4:20 -21), o que excluiu completamente a carne e as suas obras ( Rm 4:1 -2). Segundo a carne Sara era estéril e Abraão, mesmo podendo ter filhos, com relação a Isaque teve que recobrá-lo dentre os mortos, logo a jactância pertinente a carne foi excluída “Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar” ( Hb 11:18 ).

Não há distinção entre aqueles que pertencem à fé, pois são benditos como o crente Abraão ( Gl 3:9 ), pois vivem segundo a palavra de Deus e não confiam da carne ( Rm 8:4 ).

O evangelho que lhe foi anunciado primeiramente a Abraão: ‘Em ti serão benditas todas as nações’ ( Rm 3:8 ), é o mesmo evangelho, a pregação da fé, que tem como tema central o Descendente, que é Cristo, é a fé da qual todos os que creem são participantes ( Gl 3:2 e 4).

Abraão foi justificado porque creu na promessa que Deus lhe fez e ao seu Descendente, sendo que, mesmo que Abraão não permanecesse fiel, o seu Descendente, que é Cristo, em tudo foi fiel e digno da bem-aventurança prometida ( Gl 3:16 ). Abraão foi justificado quando creu porque ao crer tornou-se participante da promessa. O evangelho diz de Cristo e Ele é a base da justificação e o homem, por sua vez, torna-se participante de Cristo quando confia “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” ( Hb 3:14 ).

A obediência de Cristo foi a base da justificação de Abraão, pois ao crer na palavra de Deus acerca do seu Descendente, que é Cristo, Abraão tornou-se participante da bem-aventurança conquistada pelo seu Descendente. O Descendente de Abraão foi fiel em toda a sua casa como Filho e, quando o homem crê n’Ele, torna-se participante da sua vida e justiça ( Cl 2:9 -10).

Deus dá do seu Espírito e obra maravilhosamente para com o homem através da pregação da ‘fé’ ( Gl 3:5 ), e Abraão creu em Deus. Por crer em Deus segundo o evangelho que lhe foi anunciado, Abraão passou a viver para Deus, sendo declarado justo, segundo a palavra que diz: o justo viverá da fé ( Gl 3:11 ), pois a justificação é de vida “… por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Portanto, o justo vive em decorrência da ‘fé’ que se revelou, e não em função da sua crença, como alguns pensam. Embora o cristão receba o testemunho de que é justo por crer ( Hb 11:4 ), contudo só é possível agradar a Deus através de Cristo ( Hb 11:6 ).

As palavras pisteuo (crer) e pistis (fé) denotam originalmente o relacionamento de confiança entre duas partes num acordo, porém, elas são intercambiáveis dependendo do contexto. A ‘fé’ que Jesus faz referencia em Lucas 18, verso 8 aponta para a mensagem de Cristo “Quando vier o Filho do homem, achará fé na terra” ( Lc 18:8 ), assim como em Romanos 1, verso 5 e, em Gálatas 1, verso 23.

Quando o escritor aos Hebreus define a fé, por certo que não fala da disposição interna do homem, antes da palavra de Deus, visto que só em Deus as coisas esperadas são certas, mesmo quando não são visíveis e, é por intermédio desta fé que os antigos receberam testemunho.

Portanto, a crença do homem é anterior à regeneração e decorre da mudança de concepção do homem quando alcançado pelo evangelho (metanóia), tendo em vista que o homem só crê para salvação após ouvir a mensagem da fé, que promove a mudança de concepção e a regeneração do homem “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre (…) Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pe 1:23 -25).

A palavra que é evangelizada tem por alvo aqueles que jazem nas trevas em delitos pecados e, após crer, aquele que estava vivo (unido) para o pecado e morto (separado) para Deus é crucificado com Cristo, sepultado e ressurge juntamente com Cristo, instante em que este novo homem é declarado justo, contrastando com o velho homem que foi crucificado, pois aquele jamais seria justificado por Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ).

Não há qualquer mérito por parte do justificado, pois o que Deus declara acerca do novo homem não tem em vista ações, obras, comportamento ou moral, e sim a nova vida da qual é participante por Cristo. Deste modo não há contradição nenhuma em Deus ser justo e justificador, pois Deus não justifica o ímpio, antes abate-o juntamente com Cristo, cria um novo homem e declara justo o novo homem, pois a justificação é de vida ( Rm 5:18 ).

Portanto, o homem viverá da fé, que é Cristo, conforme os escritores do novo testamento interpretaram Habacuque: “Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” ( Rm 1:17 ); “Mas o justo viverá da fé; E, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele” ( Hb 10:38 ); “E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé” ( Gl 3:11 ).

Quando o profeta Habacuque disse que, pela sua fé o justo viverá, a ênfase está na condição do homem que é justo, portanto, vive pela fé que lhe foi dada, logo lhe pertence, e não por causa da sua própria confiança “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” ( Hb 2:4 ); “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim( Jo 6:57 ).

Enquanto os apóstolos destacaram a pessoa de Cristo, o profeta Habacuque destaca a condição do justo por estar unido a fé que havia de se manifestar “E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” ( Rm 13:11 ); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ; Hb 3:14 ).

Após anunciar Cristo, o eunuco manifestou o desejo de ser batizado, e disse Felipe “É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” ( At 8:37 ). Sem a pregação da ‘fé’ segundo o que profetizou Isaias e foi explicado por Felipe ( At 8:35 ), jamais o eunuco responderia por si mesmo: “Creio que Jesus é o Filho de Deus”.

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Visão panorâmica da história dos reformadores

Não há como alcançar uma nova vida sem antes não morrer para o mundo, para lei e para o pecado. Um dos erros do calvinismo está em alegar que a regeneração promove a fé, mas estes esquecem que a necessidade do homem é dupla: primeiro é preciso morrer para depois ocorrer a Regeneração (renascer). Se a fé só ocorre depois da Regeneração, de que maneira o homem toma a sua cruz e segue após Cristo? Como o homem torna-se digno de Cristo sem a fé necessária para tomar a cruz, e seguir após Jesus? Como comer da carne e beber do sangue de Jesus sem antes crer nele, uma vez que argumentam que a fé só é possível após a regeneração.

 


Uma visão panorâmica da História

A principal figura dos reformadores foi Martinho Lutero (1483- 1546) teólogo alemão, que se insurgiu contra o papado ao defender que a salvação em Cristo é por meio da graça. Ao comentar a carta de Paulo aos Gálatas, Lutero assim escreveu:

“Mas a doutrina da justificação é esta: somos pronunciados justos e somos salvos exclusivamente pela fé em Cristo, e sem obras (…) Segue-se, imediatamente, que não somos pronunciados justos, nem pôr meio de monasticismo nem mediante votos nem mediante missas ou quaisquer outras obras”.

João Calvino (1509-1564), teólogo cristão francês continuou a reforma protestante defendendo a salvação pela graça. Calvino foi além quando defendeu a doutrina da salvação pela graça. Ele passou a demonstrar que Deus escolhe (elege) alguns para a salvação através da sua soberania. Calvino no afã de defender a salvação pela graça, em oposição a salvação pelas obras, criou outro seguimento teológico, onde a salvação decorre da soberania de Deus, ante a inabilidade do homem em fazer algo para ser salvo.

Após Calvino estabelecer que a salvação decorre da eleição divina (Deus escolhe alguns dos perdidos), um dos seus seguidores, Jacobus Armínios (1560 – 1609), teólogo holandês, acabou por discordar de que a eleição decorre da soberania divina. Armínios defendia que a eleição se dá através da ‘presciência’ de Deus.

Desde então varias contradições persistem: se a salvação decorre da soberania divina, onde está a responsabilidade humana? Se a salvação é pela presciência, continua sendo por ‘obras previstas’? Como resolver este entrave?

 

Calvinismo: Posição teologia que afirma que o Espírito Santo é o único agente na regeneração. Para estes pensadores a vontade humana não possui nenhuma inclinação à santidade até ser regenerada e não pode decidir-se pela salvação. Dizem que para o homem ser salvo é necessário Deus transmitir poder a alma caída capacitando a pessoa que será salva a receber a oferta da redenção. Ou seja, antes da Regeneração é necessário o homem ser capacitado espiritualmente a se ligar a Cristo. A capacitação para a graça transforma-se em uma fé viva, onde o pecador se arrepende dos seus pecados e passa a amar a Deus. O calvinismo fundamenta-se principalmente sobre a soberania divina reforçada com a tese da inabilidade humana. Para explicar os entraves e questionamentos acerca da justiça de Deus, surgiram às explicações da eleição incondicional ou predestinação, a redenção particular (ou expiação limitada), a graça irresistível (chamada eficaz) e a perseverança dos santos.

Arminianismo: Outro posicionamento teológico afirma que a vontade humana e o Espírito de Deus são dois agentes na Regeneração. Esta teoria sustenta que a alma não perdeu na queda o livre-arbítrio, e é responsável perante Deus em aceitar e rejeitar a oferta de salvação. Para os arminianistas Deus elege ou reprova as pessoas com base na fé ou na incredulidade prevista. Para defenderem este posicionamento alegam que Cristo morreu por todos os homens, mesmo que seja necessário crer para serem salvos. Por intermédio da graça divina o homem alcança fé, mas tal graça é plenamente resistível.

 

Desde o século XV criou-se uma dicotomia entre os protestantes: os calvinistas e os arminianistas. As discussões sobre a salvação centram-se sobre a soberania divina e a responsabilidade humana.

Porém, sobre uma questão ‘doutrinária’ os calvinistas e os arminianistas concordam: Deus escolhe dentre os perdidos aqueles que haverão de ser salvos. A divergência entre estes dois posicionamentos teológicos surge quando apresentam as teorias para sustentar a argumentação de que Deus escolhe dentre a humanidade quem haverá de ser salvo.

Tanto os calvinistas quanto os arminianistas defende que Deus escolhe dentre os homens aqueles que haverão de ser salvos. Estes apontam a presciência como base para a escolha e aqueles a soberania divina.

 

 

Um problema de linguagem

É correto dizermos que Jesus veio ao mundo salvar os pecadores? Sim! A linguagem evangelística admite esta colocação “Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” ( 1Tm 1:15 ). Quando Paulo prefaciou a primeira carta a Timóteo, ele se ocupou em fazer uma defesa do evangelho de Cristo ( 1Tm 1:3 e 11). Logo após afirmar que a palavra do evangelho é fiel e digna de toda aceitação, Paulo descreve em linhas gerais os elementos principais do evangelho: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores.

Esta é uma linguagem exclusivamente evangelística, e está em conformidade com que Cristo proclamou aos seus ouvintes: “Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento” ( Mc 2:17 ). A mensagem do evangelho é um convite universal: Jesus oferece a todos os pecadores os seus cuidados.

Porém, a linguagem evangelística difere da linguagem teológica.

Ao falar da obra redentora de Cristo, que é promovida através da mensagem do evangelho ( Rm 1:16 ), Paulo ao escrever aos Romanos registrou: “Pois sabemos isso, que o nosso velho homem foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de não servirmos mais o pecado” ( Rm 6:6 ). De acordo com a linguagem teológica utilizada por Paulo, Jesus veio ao mundo salvar o ‘velho homem’ ou salvar a ‘nova criatura’?

Se Jesus veio ao mundo salvar o ‘velho homem’ (pecador), por que a necessidade do novo nascimento? Por que é necessário que a velha criatura seja crucificada com Cristo? Por que é importante ser uma nova criatura?

Linguagem evangelística: “Jesus veio ao mundo salvar os pecadores” – Plenamente aceitável.
Linguagem teológica: “Jesus veio ao mundo salvar a velha criatura” – É inaceitável.

Aceitamos que Jesus veio salvar os pecadores, mas não é aceitável a ideia de que ele veio salvar o velho homem. É possível perceber a diferença gritante entre estas duas colocações.

Por questões que envolvem a compreensão de quem não conhece a Cristo e precisa ouvir a mensagem do evangelho (fé), é plenamente aceitável anunciarmos que Jesus veio ao mundo salvar os pecadores. Mas, se quisermos falar de temas como a Regeneração é necessário utilizarmos uma linguagem específica.

Quando falou a Nicodemos sobre a Regeneração, Jesus utilizou uma linguagem específica. Na Regeneração ocorre o nascer da água e do Espírito, ou o novo nascimento. A vida eterna, ou a salvação só é alcançada por aqueles que de novo nascem da água e do Espírito ( Jo 3:5 e 16).

Quando unimos a linguagem evangelista com a teológica temos o seguinte: A posse da vida eterna só será alcançada pelo pecador quando este crer no Filho unigênito de Deus, por meio do evangelho, que é poder de Deus ( Rm 1:16 ). O pecador que Jesus veio ao mundo salvar recebe poder para ser feito (criado) filho de Deus, ou seja, torna-se uma nova criatura ( Jo 1:12 -13).

É certo que Jesus veio ao mundo salvar os pecadores, porém, para que esta salvação aconteça, é necessário ao pecador (velha criatura) morrer com Cristo ( Rm 6:3 -8 ), e só então, ressurgirá com Cristo ( Ef 2:5 ), passando a ser uma nova criatura.

Enquanto pecador, o homem é filho da ira, filho da desobediência e está morto em delitos e pecados. Somente após a Regeneração, onde o velho homem dá lugar à nova criatura, podemos dizer que ‘o pecador’ está salvo.

Como o nosso estudo depende da linguagem especifica à teologia, para prosseguirmos em nosso estudo, devemos ter em mente que Deus não salva o homem quando no pecado (na condição de pecador), antes Ele é salva a nova criatura, que deixa de ser pecador (stricto senso).

Neste sentido Paulo disse: “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ). Quando ele diz que éramos AINDA pecadores, isto demonstra qual é a nova condição em Cristo. Podemos ser achados pecadores mesmo após sermos justificados em Cristo? ( Gl 2:17 ). Se admitirmos que somos pecadores, temos que admitir também que Cristo é ministro do pecado. Cristo não é ministro do pecado!

 

Um abismo chama outro

É de conhecimento geral que João Calvino cometeu vários erros na sua vida política, mas isto não será alvo de nossa análise.

A nossa análise recai sobre um equívoco de interpretação bíblica do teólogo Calvino, que acabou por influenciar o seu discípulo, o teólogo holandês Armínio, induzindo-o também ao erro. Este erro persiste na história, e tem causado inúmeras discussões.

O erro não está em afirma a soberania de Deus, tampouco está em afirmar a onisciência de Deus. Deus é onisciente e soberano, diferente do que querem afirmar, de que Deus é ‘presciente’! O termo teológico ‘presciência’ utilizado para dizer que Deus antevê eventos futuros é um equivoco, pois Deus sabe todas as coisas igualmente bem, quer seja do passado, do presente, ou do futuro. A presciência jamais deve ser vista como um aspecto da onisciência.

O equívoco de Calvino, e que o seu discípulo Armínio seguiu, está em afirmar que Deus escolhe dentre os pecadores aqueles que serão salvos. Para justificar a afirmativa anterior, Calvino criou uma concepção acerca do que é predestinação e eleição no afã de enfatizar a salvação pela graça.

Afirmar que Deus escolhe aqueles que serão salvos demonstra que Calvino não entendeu a eleição e tão pouco a predestinação, e a tese defendida por ele acaba por ofuscar a verdade da salvação pela graça ( Ef 2:8 ).

 

 

O que a Bíblia diz?

Da mesma forma que a salvação é algo pertinente a nova criatura, a eleição e a predestinação também são.

A salvação só é alcançada por aqueles que nasceram da semente incorruptível, a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ). Estes são gerados de novo através da ressurreição em Cristo, sendo certo que estes possuem uma herança incorruptível guardada nos céus. O homem regenerado é guardado pelo poder de Deus para a salvação ( 1Pe 1:3 -5), pois é Deus quem os conserva irrepreensíveis “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” ( 1Ts 5:23 e 24).

O evangelho é poder de Deus, e nele temos as garantias da fidelidade de Deus em conceder a salvação. Conclui-se que a salvação é daqueles que foram ‘gerados de novo’ ( Jo 3:3 ).

Em momento algum a Bíblia afirma que a salvação é concedida a quem não é nascido de novo. Os que permanecem ou permanecerem no pecado jamais verão a Deus. Jesus veio salvar a humanidade que se encontra no pecado, mas aqueles que não aceitarem a luz de Deus enviada ao mundo, estes permanecem no pecado ( Jo 3:19 ), compare com ( Jo 3:16 e 17).

Sobre a salvação a Bíblia é específica: o evangelho é para a salvação. O evangelho é descrito como sendo poder de Deus para salvação “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:12 ).

O apóstolo Paulo demonstra de maneira enfática que o evangelho é poder de Deus, que faz o homem ressurgir ‘uma nova criatura’. Mas a regeneração não se dá, sem antes o homem tornar-se participante da morte de Cristo “Sepultados com ele no batismo…”. Primeiro o pecador tem um encontro com a cruz de Cristo, através do convite do evangelho, e após morrer, será sepultado com Cristo ( Rm 1:16 ; 1Co 1:18 ; 1Co 1:24 ; 1Co 2:5 ). Não há como ressurgir, sem antes tornar-se participante da carne e do sangue, por meio da fé “Pois morrestes…” ( Cl 3:3 ).

A ordenança da ceia representa o que de fato ocorre com o velho homem ao ter um encontro com Cristo. Este deve ser crucificado com Cristo. A morte da velha natureza é o principal motivo do convite de Jesus: “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” ( Mt 10:38 ).

O novo homem (a nova criatura) só ressurgirá (virá à existência) após a velha criatura ter sido crucificada e sepultada com Cristo.

Não há como alcançar uma nova vida sem antes não morrer para o mundo, para lei e para o pecado. Um dos erros do calvinismo está em alegar que a regeneração promove a fé, mas estes esquecem que a necessidade do homem é dupla: primeiro é preciso morrer, para depois ocorrer a Regeneração (renascer). Se a fé só ocorre depois da Regeneração, de que maneira o homem toma a sua cruz e segue após Cristo? Como o homem torna-se digno de Cristo sem a fé necessária para tomar a cruz, e seguir após Jesus? Como comer da carne e beber do sangue de Jesus sem antes crer nele, uma vez que argumentam que a fé só é possível após a regeneração.

Antes de alcançar a regeneração, primeiro é preciso tornar participante da carne e do sangue de Cristo ( Jo 6:53 -58).

Só terá nova vida aqueles que comerem da carne e beberem do sangue. Se a fé só é possível aos regenerados, como o homem participará da oferta de Jesus: “Se alguém comer deste pão, viverá para sempre…” ( Jo 6:51 ). Muitos se perguntaram: “Como nos pode dar este homem a sua carne a comer?” Eles não sabiam como Jesus podia dar a sua carne a comer, mas mesmo a quem não é regenerado, Jesus diz: “Se creres, verá a glória de Deus”. Tudo o que Jesus disse foi por causa da humanidade, para que cressem. Em momento algum Jesus controlou a vontade dos seus ouvintes ( Jo 11:40 -42). Em momento algum na história Deus mostrou uma graça ‘especial’, ou favoreceu um grupo em particular (vide a serpente erguida na haste de metal).

Nota: alguns alegam que Deus escolheu Israel para a salvação. Ledo engano. Deus escolheu Israel para uma missão: tornar conhecido o nome de Deus aos homens. Mas, aos israelitas em particular, todos precisavam circuncidar o coração para alcançar a salvação ( Rm 9:7 -8). Nascer judeu nunca salvou ninguém, pois para ser filho de Deus é preciso morrer (circuncidar o coração), para nascer de novo ( Ez 36:25 ). Deus escolhe homens para missões, mas isto não lhes garantiu a salvação. Ex: Faraó, Ciro, Gideão, Jeroboão, etc. Missão, ou ser comissionado difere de salvação. Para a salvação sempre houve uma mensagem: “Ouve, ó Israel…”, ou “Circuncidai os vossos corações…”.

Sabemos que: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus (ora, quem passou a ouvir, está vivo)! Ou seja, primeiro o homem tem contato com a mensagem do evangelho (fé), e diante das garantias divinas, o homem descansa (adquire fé). Somente após ter fé na mensagem do evangelho é que o homem passa a ter vida através do poder de Deus contido no evangelho “Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” ( Rm 1:17 ).

Uma das evidências clara de que o homem passou a viver através da palavra de Deus é a audição. Primeiro o homem ouve o evangelho e adquire fé concedida pelo ‘autor e consumador da fé’. Como o evangelho é poder de Deus, ele produz nova vida no homem, e Paulo faz referência a vida que o evangelho produz através do sentido da audição.

Se alguém procura alcançar a salvação, basta ter um encontro com o evangelho, que nele contém o poder necessário para uma nova vida.

A graça de Deus é a presenteada por meio do evangelho. É dom gratuito de Deus as abundantes riquezas da graça. A benignidade de Deus é revelada em Cristo, tema central do evangelho, que para os cristãos é poder de Deus e sabedoria de Deus ( 1Co 1:24 ). Ou seja, ao anunciar a Cristo, anuncia-se o evangelho.

 

A Fé

A regeneração se dá por intermédio do poder de Deus, porém se alcança pela fé “…nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus…” ( Cl 2:12 ). As questões que envolvem a fé são cheias de misticismo, mas Jesus apresentou um argumento a Nicodemos que bem ilustra as nuances da verdadeira fé.

“Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, da mesma forma importa que o Filho do homem seja levantado” ( Jo 3:14 ). Jesus estabeleceu um comparativo entre o ato de Moisés e a sua morte. O comparativo que Jesus estabeleceu foi quanto a forma e a importância. Com relação a forma Cristo foi crucificado e erguido da terra. Quanto a importância, o que Cristo representa para o mundo, a serpente de metal representava para os picados pelas serpentes ‘mortos’ em Israel.

Para os picados pelas serpentes ardentes não havia o que ser feito. Não havia meios naquela época para se salvarem. Não havia obra realizável que os livrasse da morte. Porém, Deus anunciou por intermédio de Moisés que se alguém olhasse para a serpente de metal, este ficaria livre da morte. Todos quantos olhassem para a serpente de metal (mensagem universal e graciosa) haveriam de ser salvos.

Deus foi o autor da mensagem ordenada a Moisés. Moisés tornou-se o mensageiro. A mensagem determinada a se anunciar era universal e graciosa. A condição dos destinatários da mensagem era morte. O que restava aos picados pelas serpentes? Como repercutiu a mensagem de Moisés? As pessoas já tinham por certo a morte, e bastava apenas olhar na direção de uma haste?

Eles precisavam confiar na mensagem apregoada, e depois, bastava tão somente olhar na direção da haste de metal erguida. A confiança que Deus exigiu do povo que estava ‘morto’ no deserto é a mesma que Deus exige dos homens hoje com relação a salvação: Fé na salvação que Deus providenciou.

Aos pecadores perdidos alcançados pela mensagem do evangelho resta somente crer na salvação poderosa o bastante que Deus providenciou. A confiança demonstrada na promessa divina não é e nem será contada como mérito humano. Se assim fosse, seria o mesmo que considerar que um simples olhar dos ‘mortos’ no deserto para a haste de metal erguida por Moisés, foi o que os livrou da morte certa, e não Deus. Seria o mesmo que dizer que ao olhar para a haste erguida, eles auxiliaram Deus na nova oportunidade de vida alcançada.

Ao considerar que a fé é uma obra, ou que há algum mérito em crer na salvação providenciada por Deus, por que a necessidade de se anunciar o evangelho? Antes a fé significa descansar, estar plenamente seguro que Deus é fiel para cumprir com o prometido. Se Deus diz: “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra…” ( Is 45:22 ), por confiar em Deus é que o homem direcionará os olhos ao seu Criador. Esta ação de ‘direcionar os olhos para Deus’ não é a de auxiliar Deus na salvação do homem. Antes demonstra a total incapacidade do homem e promover a sua própria salvação.

Deus é o autor da salvação. Para este propósito Cristo é o Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo. Cristo é o tema do evangelho, a graça de Deus. Resta àqueles que ouvem a mensagem do evangelho crer e descansar. Nada é exigido por Deus, basta olhar na direção da cruz de Cristo.

A Bíblia nos apresenta o autor da salvação, o autor da fé e quem é o alvo da salvação. Os pecadores na condição de velha criatura são alvos da graça de Deus por meio do evangelho, porém, a salvação só é efetivada sobre aqueles que crêem na mensagem anunciada, após serem gerados de novo.

 

 

A Graça de Deus

Qual o contato que o pecador (enquanto velha criatura), tem com Deus? Desde a queda de Adão Deus sempre demonstrou a sua maravilhosa graça a humanidade.

Quando Adão percebeu que estava nu, a primeira ação de Adão foi tentar cobrir-se. Na viração do dia, ao ouvirem a voz de Deus, esconderam-se Gn 3: 8. Deus providenciou as vestes adequadas para o homem se cobrir desde Adão. Isto demonstra que Deus não abandonou a sua criação à própria sorte. Somente Deus pode cobrir o homem de retidão e justiça, uma vez que Ele é justo e justificador daqueles que tem fé nele. Deus continuou anunciando por intermédio de seus profetas que a sua mão estava encolhida, para que não pudesse salvar, etc.

O que é oferecido ao pecador enquanto filho da ira, filho da desobediência, e na condição de velha criatura? É ofertado ao pecador salvação, ou seja, será anulado o escrito de dívida, e não pesará sobre o pecador a condenação de Adão.

Deus misericordioso, santo, justo e bom oferece ao pecador (ao homem perdido) salvação graciosa. Na salvação contém livramento do presente século, livramento do pecado, livramento da condenação e adquire-se uma nova vida.

Todos os homens estão encerados debaixo do pecado para que Deus soberanamente use de misericórdia para com todos. O homem enquanto na condição de velha criatura somente tem contato com a graça de Deus. A velha criatura é vetada a comunhão com Deus, a filiação divina, a paz com Deus, a herança dos santos, etc. Para que o homem seja participante das bênçãos do mundo vindouro, primeiro precisa nascer de novo, e então terá direito a inúmeras bênçãos ( Cl 1:12 -13).

 

Agradecendo a Deus

Para entendermos a eleição é necessário um exercício de interpretação das cartas do Novo Testamento. Há três aspectos essenciais a ser observado no texto abaixo:

“…dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz, e que nos tirou do poder das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, em quem temos a redenção pelo seu sangue…” ( Cl 1:12 -14).

a) agradecimento – O contexto é de agradecimento a Deus pelo que foi concedido: a nova criatura foi criada idônea para participar da herança pertencente aos santos.

b) pronome – Ao agradecer, percebemos que Paulo se inclui no rol de pessoas agraciadas pela idoneidade;

c) verbo – Tudo que foi concedido refere-se ao passado: Deus fez os cristãos idôneos; Deus tirou do poder das trevas; Deus transportou para um novo reino.

Qual a real condição dos Cristãos enquanto liam a carta de Paulo? Já eram idôneos! Ou seja, foram criados em plena condição de serem participantes da herança dos santos na luz. Livres do poder das trevas e em um novo reino. Efetivamente os cristãos estavam de posse da redenção e da remissão.

Verifica-se que ter a redenção, estar em um novo reino, estar livre das trevas e ser idôneo é uma característica própria da nova criatura. Em momento algum o pecador, enquanto velha criatura, pode estar de posse destas bênçãos. Estas bênçãos refere-se a nova criatura, que foi feita, criada, idônea para participar da herança dos santos.

Esta abordagem do apóstolo Paulo aos Colossenses, em nada difere da carta aos Efésios:

O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos, pessoas que já eram participantes das bênçãos divina. Ou seja,a carta não foi escrita aos incrédulos, aos pecadores, antes os destinatários da carta são identificados com sendo santos e fiéis em Cristo ( Ef 1:1 ). Ao escrever a Cristãos, o objetivo principal da carta não era o de evangelizar, antes era alertar quanto a possíveis erros e relembrar o que foi ensinado anteriormente.

O apóstolo Paulo continua a carta bendizendo a Deus por bênçãos recebidas “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor…” ( EF 1:3 ). A quem Deus abençoou? Aos pecadores (incrédulos), ou os cristãos? Vemos que Deus abençoou os cristãos, uma vez que Paulo se inclui no rol dos abençoados através do pronome na primeira pessoa do plural: NOS abençoou”.

Por Deus ter abençoado os Cristãos com todas as bênçãos espirituais (passado), agora, eles (Paulo e os cristãos) estavam de posse das bênçãos (presente).

Observe quão similar é a ideia do apóstolo Paulo transmitida aos Colossenses da que foi transmitida aos cristãos de Efésios.

Quais foram as bênçãos auferidas por Deus aos cristãos e que o apóstolo Paulo procura enumerar? Eleição, Predestinação, Redenção e Herança. Estas bênçãos enumeradas foram concedidas aqueles que foram regenerados ou aos pecadores? Descobriremos a seguir.

 

 

A redenção

Quem tem a Redenção? A velha ou a nova criatura?

“Nele temos a redenção pelo seu sangue…” ( Ef 1:7 ). Para estar de posse da redenção primeiro é preciso estar em Cristo (Nele temos…). Estar n’Ele, estar em Cristo é o mesmo que ser uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ). Ou seja, a redenção é algo pertinente a nova criatura, uma vez que é preciso estar em Cristo para estar de posse da redenção.

Quem é liberto do pecado? Somente a nova criatura é remida do pecado. Observe que somos redimidos e remidos, ou seja, comprados por bom preço, e livres do senhor que nos prendia ( Cl 1:14 ). Passamos a estar em Cristo e pertencemos ao Senhor.

Em uma linguagem evangelística dizemos que o pecador é redimido e remido. Mas, se observarmos melhor as escrituras, e utilizarmos a linguagem de Paulo, somente àquele que nasceu de novo, que foi tirado do poder das trevas e transportado para o reino de Cristo é redimido e remido.

Sem estar em Cristo o homem não tem a redenção, visto que permanece no pecado, e continua sendo uma velha criatura sob o domínio das trevas ( Cl 1:13 ).

Segue-se que a redenção é pertinente a nova criatura e não ao velho homem. Deus nos redimiu (passado), hoje temos a redenção. Deus nos remiu, hoje somos remidos. Livres no reino do Filho do seu amor. Podemos agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas “Bendito seja o Deus…” ( Ef 1:3 ; Cl 1:2 ).

Observe que Paulo agradece pelas bênçãos recebidas ( Ef 1:3 -12), e ora para que Deus concedesse o que os irmãos ainda não haviam alcançado ( Ef 1:17 -18 ; Cl 1:9 ).

 

A Herança

Por estar em Cristo, sendo uma nova criatura, os cristãos também foram feitos herança, propriedades exclusiva de Deus Compare ( Ef 1:11 com Cl 1:12 ). Em Colossenses os Cristãos têm direito a uma herança, e em Efésios, o Cristãos são a herança.

Somente aqueles que esperam em Cristo são propriedades de Deus. Não há como a velha criatura ser propriedade de Deus, uma vez que os pecadores não são servos de Deus, mas do pecado. Somos propriedade de Deus (herança) por termos nos tornados servos da justiça. Se ‘somos’ servos de Deus somos propriedade dele, e por tanto, somos feitos herança.

Ser herança (propriedade) é uma das bênçãos para os que estão em Cristo. Paulo diz que ele e os cristãos também foram feitos herança. A carta foi escrita a cristãos, e, portanto, esta bênção não é destinada aos pecadores sem Cristo, e sim, para os nascidos de novo.

 

A Eleição

“Pois nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele” ( Ef 1:4 ).

O que é a eleição?

A primeira idéia que vem a cabeça do leitor é a de uma escolha. Ora, Deus escolheu dentre os pecadores aqueles que serão salvos? Esta foi a leitura que Calvino e Armínio fizeram há pelos menos 500 anos.

Para uma leitura correta precisamos observar os elementos que traçamos anteriormente: os verbos no passado (elegeu), o pronome na primeira pessoa do plural (nos), agradecimento por algo recebido e a nova condição dos destinatários da carta: santos e fiéis em Cristo (nele).

Qual a finalidade da eleição: a ‘salvação’ ou a ‘santidade e irrepreensibilidade diante de Deus’?

O que Deus destina ao pecador é a mensagem graciosa do evangelho. No evangelho está presente o poder de Deus que cria filhos para Si ( Jo 1:12 -13). Para salvação somente o evangelho ( Rm 1:16 ).

Após crer no evangelho o pecador morre com Cristo e é agraciado com uma nova vida (regeneração), passando a estar em Cristo. O novo homem em Cristo passa a ser santo e irrepreensível ( Ef 4:24 ). Ou seja, a eleição não é para a salvação, e sim, a benção de ser santo e irrepreensível diante de Deus.

Somente é possível alcançar a santidade e a irrepreensibilidade depois de ser uma nova criatura. O velho homem (o pecador) jamais será santo e irrepreensível diante de Deus. Antes o pecador precisa crer no evangelho seguindo Jesus na sua morte e ressurreição. Somente a nova criatura é santa e irrepreensível.

Qual o sentido da palavra ‘eleição’ que o contexto nos revela? Não é o de escolha de pecadores dentre pecadores para a salvação. Paulo estava simplesmente demonstrando que todos os cristãos na condição de nova criatura em Cristo tornaram-se santos e irrepreensíveis diante de Deus. Isto porque antes da fundação do mundo, aprouve Deus que as pessoas que cressem em Cristo haveriam de ser santas e irrepreensíveis. Isto porque a geração de Cristo é tal qual Ele é: filhos de Deus, santos, inculpáveis ( 1Jo 3:1 -2).

A salvação é por meio do evangelho, mas a santidade e a irrepreensibilidade diante de Deus decorrem da nova condição em Cristo. Na eternidade Deus elegeu ‘escolheu’ em Cristo, mas no presente os cristãos são os eleitos de Deus por terem sido de novo gerados em Cristo. Por serem novas criaturas geradas em Deus, os Cristãos foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, e estão de posse de uma nova condição: a santidade e a irrepreensibilidade, pois para isso foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo

O propósito de Deus ao trazer muitos filhos à glória foi estabelecido em Cristo, e todos que n’Ele estão, são os eleitos de Deus. Estão de posse de uma nova condição em contraste com aquele que antes tinha no pecado: santidade e irrepreensibilidade ( 1Co 6:11 ).

Ao colocarmos o verbo do versículo seguinte no presente teremos: “Pois somos os eleitos em Cristo antes da fundação do mundo”. Ou seja, Paulo estava demonstrando que desde a eternidade Deus reuniu as condições necessárias para os homens em Cristo estivessem de posse de uma nova condição diante d’Ele. Estes são santos e irrepreensíveis.

A eleição não se refere a um processo de escolha, e sim, da posse de uma nova condição. Todos aqueles que estão em Cristo são os eleitos de Deus. Sobre este aspecto Jesus disse: “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” ( Mt 22:14 ). Através do evangelho muitos são chamados à nova vida, porém, os escolhidos, aqueles de posse da nova condição em Cristo são poucos. Observe que Jesus não disse: poucos são os que ‘escolhi’, antes poucos são os escolhidos.

Neste sentido Paulo escreveu: “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (…) Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” ( 1Co 1:24 e 26).

Aqueles que estão na condição de chamados são os pecadores, alvos da mensagem do evangelho. Por que os pecadores estão na condição de chamados? Por que a mensagem do evangelho destina-se aos pecadores.

Quando Paulo pede aos irmãos que observassem a vocação, ele refere-se a algo que os cristãos tinham posse (vossa vocação). Todos que aceitam a mensagem do evangelho este são os escolhidos, os que possuem a vocação. Se Deus escolhesse dentre os pecadores aqueles quem haveria de ser salvo, Paulo teria escrito que não são muitos os sábios segundo a carne que são ESCOLHIDOS para a salvação. Antes, o apóstolo Paulo diz que são poucos os poderosos e nobres que são CHAMADOS ( 1Co 1:26 ).

Por que são poucos os chamados dentre os poderosos? Os sábios, poderosos e nobres estão sendo protelado quanto à salvação? É certo que não. O que se observa é que para ‘OS CHAMADOS’ a mensagem do evangelho é poder de Deus e sabedoria de Deus ( 1Co 1:24 ). Porém os sábios, entendidos e nobres consideram a palavra do evangelho como sendo loucura I Co 1: 18. Desta maneira, conclui-se que são poucos os chamados dentre os sábios e entendidos deste mundo.

O diferencial entre os doutores e os não doutos não é quanto ao evangelho, pois a mensagem é a mesma, tanto para judeu quanto para grego, mas o diferencial está no comportamento de quem houve. Para os que perecem, a mensagem é loucura, para os que são salvos, a mensagem é poder de Deus e sabedoria de Deus.

 

 

A Predestinação

“Em amor nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito da sua vontade” ( Ef 1:5 ).

Predestinação: “Deus estabeleceu de antemão na eternidade que as novas criaturas (aquele que está em Cristo) seriam conforme a imagem do Seu Filho Jesus Cristo para que Cristo fosse primogênito entre muitos irmãos”

É impossível o velho homem, ou a velha criatura alcançar a posição de filho de Deus. A velha natureza primeiro deve morrer com Cristo para depois ressurgir uma nova criatura. Esta nova criatura será designada um dos filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

A velha criatura jamais pode ser contada com um dos filhos de Deus, ou seja, jamais a velha criatura, o pecador sem Cristo será contado entre os filhos de Deus.

Neste contexto, como entender a predestinação? Paulo diz que os cristãos (nós) é que foram predestinados. Os que estão em Cristo (as novas criaturas) são os predestinados por Deus a serem filhos por adoção, e não alguns pecadores dentre outros. Paulo não escreveu a pecadores, e sim, a santos e fiéis em Cristo ( Ef 1:1 ). Estes santos e fiéis é que são os agraciados com a bênção de ser eleito e predestinado.

A salvação é ação de Deus por meio do evangelho, e tão somente através do evangelho. Através do evangelho Deus chama os pecadores ao arrependimento e a filiação divina só ocorre após a regeneração, quando é criada a nova criatura em Cristo.

Observe que o apóstolo Paulo continua argumentando com o verbo no passado (predestinou), utilizando a primeira pessoa do pronome no plural (nos) e apresenta um objetivo bem definido: predestinados para serem filhos por adoção.

Em linhas gerais Paulo escreveu aos cristãos que, por eles estarem em Cristo não deviam esperar outro destino a não ser, ser um dos filhos de Deus. Não há outro destino designado para quem está em Cristo: este já é um dos filhos de Deus. Os cristãos já alcançaram a condição de filhos, e já podem clamar: “Aba, Pai” ( Gl 3:26 ). Este era um dos motivos pela qual Paulo estava agradecendo a Deus.

A predestinação diz de uma bênção alcançada em Cristo. Todos aqueles que estão em Cristo tornaram-se filhos de Deus, uma vez que Cristo conduz muitos filhos à glória ( Hb 2:10 ). Em outras palavras, caso alguém não tenha o desejo de ser contado entre os filhos de Deus, não deve aceitar o que é proposto no evangelho. Isto porque, todos aqueles que aceitarem o convite do evangelho e passaram a estar em Cristo, estes são filhos de Deus por adoção, pois para este fim a nova criatura é destinada.

A vontade de Deus é que Cristo tenha a preeminência em tudo, sendo Cristo o primogênito de toda a criação e o primogênito dentre os mortos. Na condição de segundo Adão, Cristo é o primeiro gerado de Deus, diferente do primeiro Adão, que foi criado do pó da terra.

Mas, para que Cristo alcançasse a posição de primogênito dentre os mortos ( Rm 8:29 ), houve a necessidade de que Deus gerasse mais filhos para si. Deus, em sua multiforme sabedoria, predestinou, estipulou um destino para aqueles que fossem gerados de novo em Cristo: seriam Filhos por Adoção.

Após Deus gerar filhos para si, Cristo tornou-se o primogênito dentre os mortos, uma vez que não há o que se falar em primogenitura, se não houver dois ou mais irmãos “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ; Hb 2:10 ).

 

Conscientização

Qual foi o objetivo de Paulo ao descrever as bênçãos recebidas por Deus em meio a um momento de louvor? Conscientizar os cristãos do prêmio que haviam recebido. Paulo é enfático ao demonstrar que todos eles também estavam em Cristo, e se estavam em Cristo, estavam de posse das mesmas bênçãos enumeradas “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” ( Ef 1:13 ).

Tudo foi alcançado através do evangelho “…depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação” ( Ef 1:13 ). A salvação não é alcançada através da ‘eleição’ ou da ‘predestinação’, uma vez que a salvação só é alcançada por meio da mensagem do evangelho.

“Tendo nele crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança…” ( Ef 1:13 ). Paulo precisava conscientizar os cristãos porque sabia que haveria de surgir alguém com a intenção de privar os cristãos do premio ( Cl 2:18 ).

 

“O prêmio da soberana vocação de Deus só é possível em Cristo”

 

Não há como ser participante desta vocação soberana quando se está no pecado ou quando se é uma velha criatura. A vocação de Deus é premio destinados a quem encontra em Cristo “…pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo” ( Fl 3:14 ).

‘Em Cristo’ é um recurso linguístico utilizado por Paulo para resumir o conceito de ‘nova criatura’. Ou seja, “…se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ). Para não repetir inúmeras vezes a palavra nova criatura, a contração “em Cristo” é utilizada por Paulo.

  • Os cristãos precisavam saber que eles eram verdadeiramente filhos de Deus ( Gl 3:26 ).
  • Precisavam saber que foram criados idôneos para participar da herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ).
  • Precisavam saber que estavam em Deus e Deus neles ( 1Jo 4:15 ).
  • Da mesma forma que Cristo é, os cristãos também são neste mundo ( 1Jo 4:17 ).
  • Precisavam estar cônscios de que haviam recebido a plenitude de Cristo ( Cl 2:10 ).

O apóstolo Paulo teve uma tarefa árdua ao tentar conscientizar os cristãos das características da nova criatura. Para isso ele procurou demonstrar que todos os cristãos, os que creram, receberam as mesmas dádivas de Deus: uma nova natureza, uma nova vida, tornando-se uma nova criatura, criada segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

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Definição bíblica de justificação

A Justificação bíblica não é um ato judicial. Não há paralelo entre a justiça dos tribunais humanos e a justiça de Deus. A Justificação de Deus é proveniente de um ato criativo de Deus, mediante o qual é criado um novo homem segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). A justificação bíblica não se assemelha a um ato judicial, pois nem mesmo em um tribunal humano o culpado é declarado inocente.


JUSTIFICAÇÃO bíblica refere-se a nova condição pertinente àqueles que creem (descansam) em Cristo mediante a verdade do evangelho (fé), como resultado de um ato criativo de DEUS, sendo que o homem gerado em Adão, culpável diante de Deus, após morrer com Cristo é novamente criado (feito) um novo homem justo, livre de culpa e de castigo.

É de conhecimento que as palavras ‘justificado’ e ‘justiça’ são traduções de palavras gregas semelhantes (verbo dikaioo, tornar, declarar justo, justificar; substantivo, dikaiosune, justiça; adjetivo, dikaios, justo). Quando Deus justifica o homem, Ele cria um novo homem justo, ou seja, o homem é tornado justo, declarado justo e reto.

Um ato judicial ou ato de clemência nunca estabeleceria a condição de justo (inocência) que é pertinente a nova criatura. O novo homem gerado em Cristo é declarado justo por ser inocente, ou seja, o novo homem é filho da Obediência, o que contrasta com a sua antiga condição: culpável, conden ável, filho da ira e da desobediência.

Para muitos teólogos, e dentre eles destacamos E. H. Bancroft, a justificação é ‘o ato judicial de Deus, mediante o qual aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo a Seus olhos, e livre de toda culpa e punição’ Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, 3º Ed, 1960, Décima Impressão, 2001, Editora Batista Regular, Pág 255.

Para Scofield, embora justificado, o crente ainda é pecador. Deus o trata como sendo justo, porém, isto não significa que Deus torne alguém justo “A Justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa” Scofield, C. I., Bíblia Scofield com Referências, Romanos 3: 28.

Verifica-se que a Justificação não é um ato judicial. Não há paralelo entre a justiça dos tribunais humanos e a justiça de Deus. A Justificação é proveniente de um ato criativo de Deus, mediante o qual é gerado o novo homem, segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). A justificação não é ato judicial, pois mesmo em um tribunal humano o culpado não pode ser declarado inocente.

A justificação é mediante a verdade do evangelho, ou seja, por meio da fé (evangelho) que uma vez foi dada aos santos. Não é a ‘fé’ que o homem deposita em Deus que o justifica, antes, a justificação é proveniente da ‘mensagem do evangelho’ (fé) que contém o poder que concede vida ao novo homem ( Rm 1:16 -17).

Tal poder é concedido aos que creem (fé), ou seja, que descansam em Cristo, Aquele que tem poder para fazer dos filhos de Adão, filhos para Si ( Jo 1:12 -13). É por isso que Paulo diz que a justiça de Deus é de ‘fé em fé’.

Para Scofield, Deus não torna uma pessoa justa, antes só a reconhece e trata como sendo justa. Ora, a palavra traduzida por justificação é fazer, tornar, declarar justo, e ao criar o novo homem em Cristo, Deus faz nova todas as coisas. Em Cristo surge um novo homem, com uma nova condição e para um novo tempo!

O novo homem é criado em verdadeira justiça e santidade, e, portanto, a declaração que Deus faz recai sobre a nova criatura, nunca sobre o velho homem gerado em Adão. Deus não é o homem para que minta. Ele não declara falsidades. Somente os justos são declarados justos. Caso Deus reconhecesse e declarasse uma pessoa justa, embora não fosse, não seria verdadeiro.

Porém, sabemos que Deus é verdadeiro: “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

Louis Berkhof em sua Teologia Sistemática define a justificação como sendo ato judicial, o que difere das considerações acima: “A justificação é um ato judicial de Deus, no qual Ele declara, com base na justiça de Jesus Cristo, que todas as reivindicações da lei [tanto em termos daquilo que a Lei exige de nós na forma da obediência positiva quanto do julgamento do pecador quanto à condenação e morte] são satisfeitas com vistas ao pecador”.

Assim como em um tribunal humano o culpado não pode ser inocentado ou livre da pena, Deus também não justifica o ímpio, pois tal ato seria injustiça “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Êx 23:7 ).

É por isso que ao crer em Cristo o homem morre com Cristo, pois a pena estabelecida não pode passar da pessoa do transgressor ( Rm 7:4 ). Somente aquele que está morto está justificado do pecado “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ). Isto significa que Deus jamais declara o ímpio justo, ou seja, os homens nascidos segundo a semente de Adão são os impios.

Deus só declara justo os que ressurgem com Cristo dentre os mortos, pois o novo homem é plantado segundo a semente incorruptível, a semente do último Adão: Cristo ( Is 61:3 ).

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João 3 – Necessário vos é nascer de novo

É Deus quem faz todas as coisas! Se o homem desconhece como se dá as maravilhas da natureza (coisas naturais), como o caminho dos ventos, como entenderá o novo nascimento, se o nascer de novo é obra de Deus? “… assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas” ( Ec 11:5 ), ou seja: “Assim é todo aquele que é nascido de Deus” ( Jo 3:8 ).


A Função dos Milagres

“Havia entre os fariseus um homem chamados Nicodemos, um dos principais dos Judeus. Este foi ter com Jesus de noite, e disse: Rabi, sabemos que és Mestre, vindo de Deus. Pois ninguém poderia fazer estes sinais miraculosos que tu fazes, se Deus não fosse com ele” ( Jo 1:1 -2)

Entre os Judeus havia um mestre do judaísmo de nome Nicodemos. Ele era fariseu e foi encontrar-se com Jesus à noite. Neste encontro, surpreendentemente Nicodemos chamou Jesus de ‘Rabi’, ou seja, Mestre. Tal reconhecimento vindo da parte de um juiz, ou de um mestre em Israel era para deixar qualquer um dentre os homens lisonjeado.

Mas, por que Nicodemos chamou Jesus de Mestre? Em sua abordagem inicial Nicodemos fez a seguinte afirmação: “Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele” ( Jo 3:2 ).

Nicodemos entendeu que Jesus era mestre por causa dos milagres que estavam sendo realizados. Nicodemos ao ter noticia dos milagres realizados por Jesus entendeu que Ele era Mestre, porém, um mestre enviado por Deus, o que tornava Jesus distinto de todos os outros mestre em Israel.

Quem poderia realizar os milagres que Jesus estava realizando sem o auxilio do dedo de Deus? O próprio Nicodemos responde: Ninguém poderia realizar estes sinais que Tu fazes! A análise de Nicodemos é totalmente válida, e a conclusão também ( Jo 5:36 ).

Nicodemos venceu uma grande barreira ao concluir que Jesus era Mestre vindo de Deus, e esta conclusão impulsionou Nicodemos a ter um encontro com Cristo à noite. Outros fariseus tiveram encontro com Cristo à luz do dia, porém, movidos de hipocrisia, querendo pegar Jesus nalguma contradição.

Após analisar a pessoa de Jesus através dos milagres que Ele operava, Nicodemos foi até Jesus e expôs a sua conclusão:

  • Jesus era Mestre;
  • Enviados por Deus, visto que:;
  • Ninguém poderia realizar tal milagres, se Deus não estiver com ele.

Nicodemos não foi atrás de um milagre, antes queria saber mais sobre Aquele que operava milagres.

Sabemos que Deus possui todo poder, e que milagres não são maravilhas superior a própria obra da criação. Não há milagres que supere a obra criativa de Deus, tais como: a vida, o universo, etc. Tudo é um milagre, pois todas as coisa foram operadas maravilhosamente através do poder de Deus.

A função precípua de um milagre é despertar o homem a conhecer o seu Criador. Qualquer uso ou discurso que se faz fora desta tônica desvirtua o ‘testemunho’ que Deus dá acerta d’Ele, para que o homem procure se aproximar de Deus ( Hb 2:4 ).

Milagres não é o primordial na vida do homem, antes é preciso ter em mente que os milagres são a confirmação de Deus do que foi anunciado pelos profetas e por Cristo. É preciso crer em Deus que opera maravilhosamente, e não nas maravilhas operadas. O homem precisa estar focado na mensagem de Deus, e não nas maravilhas que Dele procedem.

 

A Doutrina de Cristo

“Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” ( Jo 3:3 )

Embora reconhecesse Jesus como sendo Mestre da parte de Deus, Nicodemos desconhecia a doutrina de Cristo. O milagre foi à causa primária da conclusão de Nicodemos de que Cristo havia sido enviado por Deus, porém, Nicodemos precisava ouvir a doutrina do Mestre enviado .

Nicodemos estava focado na qualidade de Mestre daqueles que era enviado de Deus e operava milagres que ninguém poderia operar, se Deus não fosse com Ele “… porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele”.

Qual não foi a surpresa de Nicodemos quando Cristo lhe respondeu: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

A estratégia de evangelismo de Jesus é a mesma adotada por João: os milagres tinham a função de demonstrar aos homens que Jesus era o enviado de Deus. Uma vez que Nicodemos já havia reconhecido que Cristo era Mestre enviado por Deus “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus…”, Jesus chama a atenção de Nicodemos para o primordial, o novo nascimento “… e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ).

Os milagres deixam de ter importância quando a verdade vem à tona e Nicodemos pergunta: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?” ( Jo 3:4 ). Nicodemos não contesta a informação dada pelo Mestre enviado por Deus, antes se preocupou em entender a dinâmica do ‘novo nascimento’, ou da doutrina de Cristo.

Por estar vetado o reino dos céus àqueles que não nasceram de novo, Nicodemos ficou preocupado, uma vez que ele já era velho. Haveria um milagre extraordinário que tornaria possível Nicodemos voltar ao ventre materno para que ele pudesse nascer de novo, mesmo sendo velho?

O fariseu Nicodemos, seguidor de um seguimento mais severo da religião judaica, ao ser informado que não tinha direito de ver o Reino de Deus, deveria soar no mínimo como absurdo. Nicodemos poderia ter rejeitado de pronto a doutrina de Jesus, já que ele, além de ser fariseu, era um representante do melhor da nação e da religião judaica.

Fica claro que ser judeu ou gentil, ser fariseu ou de qualquer outro seguimento religioso, ser mestre ou leigo, ser juiz ou réu, não habilita ninguém a ter acesso ao Reino de Deus. Antes, todos, indistintamente precisam nascer de novo.

Em nossos dias há muitas pessoas que quem conhecer Cristo através de milagres e maravilhas, mas que não busca a sua palavra “Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” ( Jo 5:47 ).

Nicodemos foi além dos milagres operados por Cristo “porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele”, e suportou a doutrina de Cristo, mesmo ela demonstrando que a sua condição não lhe dava direito ao reino dos céus.

Ao falar da necessidade do novo nascimento Cristo demonstrou que ser judeu, fariseu, mestre ou religioso, não habilita ninguém a ter acesso ao reino de Deus. É sobre estes aspectos que comentaremos o novo nascimento: Por que devemos passar pelo novo nascimento? O que é esse novo nascimento? O homem consegue nascer de novo sem a participação de Deus?

 

A Universalidade da Mensagem

“Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 )

A resposta de Jesus a abordagem de Nicodemos é taxativa e universal.

É taxativa porque se não for satisfeita a exigência, não há como o homem ver o Reino de Deus. É universal por englobar toda humanidade.

Visto que o novo nascimento é uma necessidade que abrange todos os homens, podemos inferir que a salvação não diz de uma restauração moral, nem tão pouco de uma restauração física. Se assim fosse, os homens de moral mais elevada não necessitariam do novo nascimento.

Através da declaração de Jesus vemos que, tanto aqueles que possuem, quanto os que não possuem qualidades e méritos, precisam do novo nascimento. Nicodemos é um exemplo claro desta verdade.

Nicodemos era membro do Sinédrio, supremo tribunal dos Judeus ( Jo 3:1 ). Ele era um dos mestres em Israel ( Jo 3:10 ). Era membro também de uma das mais severas seitas do judaísmo, o farisaísmo ( Jo 3:1 ). Perante a sociedade, os da seita do farisaísmo eram tidos por justos, pelo comportamento distinto que apresentavam ( Mt 5:20 ).

Mas, apesar de todas as suas qualidades pessoais (moral, caráter e comportamental), Nicodemos precisava nascer de novo, assim como qualquer outro homem desprovido de qualidades e méritos.

A abordagem de Jesus deixa evidente que os valores que os homens tanto primam (prezam) seguir não operam e nem mesmo promovem o novo nascimento.

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Jesus demonstrou que todos os homens precisam do novo nascimento, ou seja, é imprescindível o novo nascimento para se ver e ter acesso ao Reino de Deus.

Desta forma, verifica-se que o novo nascimento não está vinculado aos princípios em que as relações humanas se firmam.

O homem procura aprovação na religião, na sua origem, no comportamento, na moral, no caráter, na justiça própria, na justiça humana e até mesmo através dos sacrifícios, mas estas coisas também não promovem o novo nascimento.

Geralmente as religiões propõem uma melhora ou uma mudança no caráter e no comportamento do homem, o que é proveitoso para as relações humanas, porém, tal proposta não possui valor algum na obtenção da salvação.

Nicodemos era o melhor que a sociedade da época podia apresentar, mas a resposta de Jesus deixa implícito que o Reino de Deus não é conquistado por questões pertinentes a este mundo.

 

Como Nascer Novamente?

“Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Poderá voltar ao ventre da sua mãe e nascer?” ( Jo 3:4 )

A resposta de Jesus mudou as convicções de Nicodemos sobre como alcançar a salvação, visto que, até aquele momento ele acreditava que tinha direito ao reino de Deus por ser descendente (filho) de Abraão ( Mt 3:9 ; Jo 8:33 ).

Quando ele soube que era necessário um novo nascimento para ter acesso ao o reino de Deus, questionou: Como pode um homem velho nascer novamente? É possível que ele volte ao ventre materno para novamente nascer?

Ao preocupar-se em como um velho poderia nascer novamente, vemos que Nicodemos despiu-se de seus méritos e posições. Ele poderia ter perguntado como era possível alguém na posição de juiz, ou de mestre nascer de novo, mas diante de Jesus, Nicodemos viu a sua real posição: um homem já velho, que carecia de salvação (novo nascimento)!

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A conjectura de Nicodemos é descartada: ‘Poderá voltar ao ventre materno, e nascer?’, uma vez que o novo nascimento não tem relação com a descendência humana (maternidade ou paternidade).

Mesmo após ser descartada a conjectura de Nicodemos, ela nos auxilia na compreensão do sentido exato da palavra ‘nascer’ quando empregada por Jesus neste capítulo.

Quando Jesus falou da necessidade do novo nascimento, a idéia primária da palavra ‘nascer’ permaneceu a mesma (foi preservada).

Nascer ou nascimento refere-se à chegada de um novo ser ao mundo. Diz do início de uma nova vida neste mundo pleno da mesma vida que há em seus pais (natureza).

Se Nicodemos entendeu que, para ocorrer o novo nascimento era preciso voltar ao ventre materno, podemos inferir que o sentido exato da palavra ‘nascer’ utilizado por Jesus não diz de uma reforma na natureza do homem. Ela também não diz de uma possível recuperação moral e comportamental do homem. Não diz de uma conformidade. Não diz de uma reversão de atitude. Não é uma revitalização de uma vida que se extingue, etc.

Quando Jesus disse que é preciso nascer de novo, ele falou da vinda de um novo ser a existência pleno da vida que há em Deus, e de posse da natureza divina.

Jesus falou de uma ‘nova geração’, ou seja, de uma nova criação. Da mesma maneira que a palavra nascimento diz da vinda de um ser ao mundo pleno da vida que há em seus pais, o novo nascimento diz da criação de um novo ser pleno da vida que há em Deus.

 

Água e Espírito

“Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” ( Jo 3:5 )

 

A resposta de Jesus satisfaz a seguinte pergunta: “Como pode nascer um homem, sendo velho?” A resposta é precisa: o novo nascimento é por meio da água e do Espírito!

Para entendermos a resposta de Jesus é preciso saber que a doutrina apregoada por Ele em nada difere da mensagem apregoada na lei e pelos profetas.

Sabemos que a lei nunca pode aperfeiçoar ninguém por conter somente a sombra dos bens futuros ( Hb 10:1 ). Porém, ela sempre apontou a necessidade da circuncisão do coração.

O que a lei propunha era impossível o homem alcançar por meio dela, visto que, a própria lei estava enferma pela carne ( Rm 8:3 ). A lei somente serviu de ‘tutor’ para conduzir o homem a Cristo ( Gl 3:24 ), ou seja, ao apontar a necessidade da circuncisão do coração, a lei conduz o homem a Cristo, pois somente nele é possível alcançar circuncisão através do despojar do corpo da carne: a circuncisão de Cristo ( Cl 2:11 ).

Podemos extrair uma grande lição da lei: ela foi escrita em tábuas de pedras e entregue ao povo, mas, não pode aperfeiçoar ninguém, visto que, mesmo após a entrega da lei, Moisés continuou apregoando a necessidade da circuncisão do coração ( Dt 10:16 ; 30:6 ; 2Co 3:3 e 7).

Caso a lei fosse essencial para a salvação do homem não haveria a necessidade de Moisés apregoar a circuncisão do coração. Conclui-se que, a lei entregue em tábuas de pedra não operou a transformação necessária no coração do povo, visto que, eles ainda precisavam da circuncisão do coração.

A ação divina nunca foi por intermédio da lei, visto que, a mensagem de Deus sempre foi: “Ouve, ó Israel…”, pois a fé é o único meio de se achegar a Deus ( Rm 10:17 ). Caso ouvissem a voz de Deus, haveria uma mudança radical neles: deixariam de ter um coração de pedra e passariam a ter um coração de carne ( Dt 11:18 ; Jr 4:4 ).

A intervenção divina na vida do povo só ocorreria no momento em que eles ouvissem e gravassem a lei em seus corações. A circuncisão é uma ação divina por meio da sua palavra ( Dt 30:6 -8).

 

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O profeta Ezequiel sobre este assunto disse o seguinte: “Então espargirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27).

O mestre Nicodemos já conhecia esta passagem bíblica. Há muito que ele lia acerca da promessa de uma nova vida (um novo coração e um novo espírito), porém, não conseguia abstrair a essência do que Deus propôs.

Para alcançar a nova vida é necessário que o próprio Deus venha a espargir água pura sobre o homem (“EU” espargirei água pura sobre vós).

A doutrina de Jesus somente tornou evidente o que estava registrado nos profetas: nascer da água e do Espírito é o mesmo que Deus espargindo água pura sobre o homem. Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito, ou seja, uma nova vida ao homem!

Nascer da água é o mesmo que nascer da palavra: Jesus é o Verbo de Deus, ou seja, a Palavra encarnada ( Jo 1:14 ). Sobre este aspecto Paulo escreveu: “Para santificá-la, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra…” ( Ef 5:26 ); “Se alguém tem sede, vem a mim e beba” ( Jo 7:37 ). Jesus é a água que produz vida naqueles que são purificados por Ele, ou seja, naqueles que crêem.

Nascer do Espírito é o mesmo que nascer de Deus, visto que, Deus é Espírito e aqueles que d’Ele são nascidos recebem um novo espírito e um novo coração. Portanto, “…o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ), e os que crêem recebem poder para serem feitos filhos de Deus! Ora, se o homem crê, da plenitude de Deus já recebeu ( Jo 1:16 ; Cl 2:7 -8). Passa a ser participante da natureza natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Quem crê na Palavra encarnada como diz as Escrituras, do seu interior terá rios de água viva fluindo, ou seja, isto foi dito: “… do Espírito que haviam de receber os que nele cressem” ( Jo 7:37 -39), o nascer do Espírito.

Há uma ordem específica para se nascer de novo? Sim! Primeiro o homem nasce da água, depois do Espírito! Como?

Primeiro o homem precisa da Palavra de Deus para que possa crer, ou seja, para crer, primeiro é preciso ouvir (ser espargido por Deus com água limpa), e então, virá a fé que faz o homem receber poder para ser feitos (criados) filhos de Deus “Porque não me envergonho do Evangelho de Cristo, pois é Poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crê” ( Rm 1:16 ).

O homem só tem acesso ao poder de Deus depois que ouve a palavra da verdade, conforme Paulo escreveu a Tito: “… Ele nos salvou mediante a lavagem da regeneração e da renovação pelo Espírito Santo” ( Tt 3:5 ).

Paulo ao escrever a Tito demonstra que Deus lava e renova o homem por meio da palavra e do seu Espírito, ou seja, ele reafirma o que foi dito por Ezequiel: (“EU” “espargirei água pura sobre vós…”).

Através da Palavra de Deus, que é água pura espargida sobre o pecador, ocorre a lavagem da regeneração. Os que de Deus são nascidos, são renovados pelo Espírito Eterno, recebendo um coração de carne em lugar do coração de pedra e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

 

O Primeiro e o Último Adão

“Ele porém respondeu: Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 )

Há distinções claras entre nascimento e o Novo Nascimento. Enquanto este é por meio de Jesus Cristo, àquele decorre de Adão. Através do Novo Nascimento o homem adquire a natureza divina, enquanto através do nascimento, o homem adquire a natureza decaída de Adão.

O nascimento do homem natural está vinculado à natureza Adâmica e o novo nascimento à natureza de Cristo, o último Adão ( 1Co 15:45 ).

O nascimento do homem decorre da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue e o novo nascimento se dá por meio da Palavra de Deus (água) e pelo Espírito de Deus.

O ‘novo’ nascimento dá origem ao novo homem, ou ao homem espiritual, e o nascimento dá origem ao velho homem, ou ao homem carnal “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual” ( 1Co 15:46 ).

A vontade do homem e a vontade de Deus dão origem a nascimentos distintos.

Os homens quando vêm ao mundo, nascem da vontade do homem, do sangue e da carne: este é o primeiro nascimento. É o nascimento do homem natural, segundo Adão.

O novo homem ao nascer, nasce da vontade de Deus por meio da água e do Espírito: este é o novo nascimento, o nascimento do homem espiritual.

Só é possível nascer da vontade de Deus aqueles que creem em Cristo, pois estes recebem poder para serem feitos filhos de Deus e tornam-se participantes da natureza divina. Estes recebem da plenitude que há em Cristo ( Cl 2:10 ; Ef 4:19 e Jo 1:16 ).

O novo nascimento só ocorre por meio da fé no Filho de Deus; não há outra maneira de se alcançar a filiação divina.

Todos os homens nascidos de Adão são plantas que Deus não plantou, visto que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. As plantas que o Pai ‘planta’ são aqueles que crêem em Cristo. Estes não serão arrancados, e permanecem para sempre.

Outra figura que ilustra o nascimento e o novo nascimento é a parábola dos dois caminhos. O nascimento é porta de entrada tanto para o caminho largo, quanto para o caminho estreito. Quando nascido de Adão, o homem entra pelo caminho largo, quando nascido de novo em Cristo, o homem entra pelo caminho estreito.

Da mesma forma, os vasos para honra são feitos em Cristo, e os vasos para desonra feitos em Adão. Tanto os vasos para honra, quanto os para desonra são feitos da mesma massa.

Se o homem quiser nascer de novo, é preciso entrar pela porta estreita, e será feito vaso para honra.

 

 

O Que é Nascido…

“O que é nascido da carne, é carne, mas o que é nascido do Espírito, é espírito” ( Jo 3:6 )

Nicodemos fez duas perguntas: ‘Como pode um homem nascer, sendo velho?’, e ‘Poderá este homem voltar ao ventre materno?’.

A resposta à primeira pergunta foi: um homem poderá nascer de novo da água e do Espírito. Já a segunda pergunta é esclarecida através da seguinte afirmação: “O que é nascido da carne, é carne, mas o que é nascido do Espírito, é espírito” ( Jo 3:6 ).

Após esclarecer que o novo nascimento é por meio da palavra (água) e do Espírito (Deus), Jesus desfaz a confusão de Nicodemos que pensou ser o novo nascimento decorrente de filiação terrena.

O nascimento proveniente do ventre materno só produz homens carnais, ou seja, a carne só pode produzir carne. Em contra partida, aqueles que são nascidos de Deus (Espírito), estes são espirituais.

Enquanto o mundo vive a procura de uma espiritualidade através de sacrifícios, meditações, orações, promessas, oferendas, esmolas, etc, Jesus demonstra que estas coisas são inócuas na tentativa de se alcançar a nova vida.

Ao estabelecer que os nascidos da carne, são carnais, e os nascidos de Deus, são espirituais, é fácil distinguir quem é carnal e quem é espiritual: todos os homens ao nascerem são carnais. Todos os homens nascem de uma semente corruptível, a semente de Adão, e portanto, são carnais.

Todos os homens que recebem a Cristo por meio da fé, estes recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus. São os nascido segundo a vontade de Deus, e portanto, espirituais ( Jo 1:12 -13).

Ao falar com a mulher samaritana, Jesus deixa bem claro que somente os nascidos de novo, os espirituais, é que prestam uma verdadeira adoração a Deus ( Jo 4:23 -24).

 

Eclesiastes

“Não te maravilhes de eu te dizer: necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito” ( Jo 3:7 – 8)

Após afirmar que os nascidos da carne são carnais, e os nascidos do Espírito são espirituais, Jesus recomenda a Nicodemos que não ficasse maravilhado com o fato de ter-lhe sido recomendado o novo nascimento.

Todos os homens precisam nascer de novo, e não importa a sua origem (descendência de Abraão), religião (a ‘melhor’), posição (social), condição moral (caráter e comportamento). Até mesmo o velho Nicodemos, sendo juiz, fariseu, hebreu de hebreu e mestre em Israel precisava nascer de novo.

Porque Nicodemos haveria de ficar maravilhado com a necessidade de nascer de novo, se ele passou a vida estudando a lei e os profetas? A citação que Jesus faz de Eclesiastes esclarece o motivo: “Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas” ( Ec 11:5 ).

Nicodemos desconhecia como Deus opera o novo nascimento da mesma forma que ele desconhecia como ocorrem todas as outras maravilhas do universo. Dois exemplos de maravilhas operadas por Deus, e que o homem desconhece são: o caminho do vento e a formação dos ossos de uma criança no ventre materno.

Todo aquele que é gerado de novo é uma obra de Deus, ou seja, todo aquele que é nascido do Espírito é uma obra criativa de Deus.

Observe que não há uma mudança no tema da conversa. Além de demonstrar a necessidade do novo nascimento, Jesus passou a explicar um novo aspecto: a impossibilidade dos homens em compreender como Deus opera as suas obras!

Jesus não estava falando da imprevisibilidade da rota dos ventos! Também não estava falando do que os cristãos haveriam de receber no dia de pentecostes! Jesus não fez referência ao batismo com Espírito Santo ao citar Eclesiastes!

Ao estabelecer uma relação entre o vento e os que são nascidos de Deus, Jesus estava demonstrando que tanto os ventos quanto os nascidos de novo são obras de Deus, e que o homem natural não entende.

Ou seja, assim como o vento, assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Tanto o vento quanto os nascidos do Espírito não depende das ações e concepções humanas. Tanto os caminhos dos ventos quanto os nascidos do Espírito os homens naturais desconhecem.

É Deus quem faz todas as coisas! Se o homem desconhece como se dá as maravilhas da natureza (coisas naturais), como o caminho dos ventos, como entenderá o novo nascimento, se o nascer de novo é obra de Deus? “… assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas” ( Ec 11:5 ), ou seja: “Assim é todo aquele que é nascido de Deus” ( Jo 3:8 ).

 

“Como pode ser isso?”

“Nicodemos perguntou: Como pode ser isso?” ( Jo 3:9 )

Nascer do Espírito é uma obra essencialmente divina! Mas, como saber de que maneira ocorre o novo nascimento, se nem mesmo os caminhos dos ventos o homem natural consegue precisar?

Este foi o único momento em que Jesus censura Nicodemos: “Tu és mestre de Israel, e não sabes isto?” ( Jo 3:10 ). Como é possível alguém ocupar a posição de mestre e desconhecer de que maneira ocorre o novo nascimento? Muitos em nossos dias se dizem mestres, porém, desconhecem como se dá o novo nascimento, condição indispensável à salvação do homem.

A censura de Jesus não foi por causa da falta de conhecimento de Nicodemos, antes, por Nicodemos ocupar a posição de Mestre e desconhecer algo essencial para condução do povo a Deus.

Alguém que tinha a missão instruir o povo na lei e nos profetas, que estudava as escrituras e que havia assumido a condição de mestre não saber como Deus concede uma nova vida ao homem (cria um coração puro e renova um espírito reto) Sl 51:10, restava ser censurado.

Nicodemos leu inúmeras vezes o livro de Isaias, mas não sabia como Deus haveria de vivificar o espírito e o coração do povo “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito, e também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

O espírito e o coração dos homens haveriam de ser vivificados a partir do momento em que Deus passasse a habitar neles (nos contritos e abatidos de espírito) Mt 5:3.

Como pode ser isso? Jesus demonstrou que a compreensão de Nicodemos estava muito a quem do proposto pela Escritura. Nicodemos estava completamente enfatuado na sua carnal compreensão.

 

 

Um dos Preceitos em Israel

“Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos, e testificamos do que vimos; contudo, não aceitais o nosso testemunho” ( Jo 3:11 )

Nicodemos foi informado por Jesus da necessidade do novo nascimento. Também sabia que o novo nascimento é o nascer da água e do Espírito. Mas, de que maneira o homem torna-se um novo homem? O que é exigido? Depende de alguma atitude por parte do homem? Depende da moral, do caráter, de regras, da lei, da religião, etc? Como pode ser isso?

Segundo a lei de Moisés o testemunho de duas pessoas era tido como verdadeiro a ponto de condenar alguém à morte “Por boca de duas testemunhas, ou três testemunhas, será morto o que houver de morrer; por boca de uma só testemunha não morrerá” ( Dt 17:6 ).

A lei estipulava que o testemunho de duas pessoas em Israel era equivalente à verdade, e Nicodemos como membro do Sinédrio sabia muito bem disto e de como aplicar a lei.

Da lei surgiram inúmeros preceitos em Israel e Jesus cita um destes preceitos: “Na verdade, na verdade te digo que nós dizemos o que sabemos, e testificamos o que vimos…” ( Jo 3:11 ). Ou seja, dizer somente o que se sabe e testificar somente o que se viu deveria ser uma característica própria aos judeus. Ou seja, da lei decorre o preceito de testemunhar somente o que é verdadeiro.

Outro preceito foi citado à mulher samaritana: “… nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus” ( Jo 4:22 ), ou seja, os judeus consideravam que somente eles conheciam o Deus que adoravam, uma vez que a salvação viria dos judeus.

Alguns estudiosos entendem que João 3, verso 11 diz das três pessoas na divindade, e que Jesus estava falando do Pai e do Espírito Santo. Porém, este não era o tema da conversa. Jesus não estava apresentando as pessoas da divindade a Nicodemos, e sim, estava abordando a necessidade do novo nascimento.

No versículo 8 o novo nascimento e apresentado como sendo uma obra de Deus, e no versículo 11, Jesus passa a demonstra como o novo nascimento ocorre: é preciso aceitar o testemunho de Cristo e o testemunho da Escritura (Pai).

Os judeus enfatizavam os seus preceitos e se gabavam de suas leis, porém, diante do testemunho de Cristo e da Escritura que era verdadeiro, contudo, não aceitavam o testemunho de Cristo.

 

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“Contudo, não aceitais o nosso testemunho” ( Jo 3:11 )

 

“Contudo…”, ou seja, apesar de haverem criado um preceito a partir da lei, as pessoas não aceitavam o testemunho de Jesus e o testemunho da Escritura (Pai).

Os ouvintes de Jesus tinham dois motivos bem fortes para aceitarem o testemunho de Jesus: primeiro, ele dizia e testificava o que tinha visto junto ao Pai, e a Escritura confirmava o testemunho de Jesus.

Com a relação estabelecida através do preceito existente em Israel, Jesus protesta a Nicodemos o fato de não aceitarem a sua palavra e o testemunho da Escritura “E o Pai, que me enviou, ele mesmo testificou de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu parecer. E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós” ( Jo 5:36 -38).

Era dever de um Judeu dizer somente o que sabia e testificar somente o que viu, e Jesus como filho de Davi e Filho de Deus somente estava dizendo do que viu (nem vistes o seu parecer) e ouviu (nunca ouvistes a sua vos) do Pai.

Uma vez que a Escritura é o testemunho do Pai a respeito do Filho “São estas mesmas Escrituras que testificam de mim” ( Jo 5:39 ). Os milagres era uma das confirmações de Deus acerca da obra realizada pelo Filho. O que Jesus estava anunciando, Ele havia ouvido e visto junto ao Pai. ‘Contudo…’, ou seja, apesar de falarem conforme a lei, rejeitaram o testemunho do Filho.

Eles estavam rejeitando a Escritura que tanto cultuavam, e que até transformaram em preceitos! Eles estavam rejeitando o Messias esperado. Eles estavam rejeitando o pão vivo enviado por Deus que concede vida aos homens.

 

Como Crereis?

“Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais” ( Jo 3:12 )

O testemunho de Jesus sempre foi acerca de elementos presentes na lei e nos profetas (coisas terrestres), e mesmo sendo Ele o tema central da lei os homens não haviam crido nele ( Jo 5:46 -47). Dai vem a pergunta: como haveriam de crer em Jesus se Ele passasse a falar do evangelho (coisas celestiais)?

Jesus apresenta outro aspecto importante do novo nascimento: a fé!

O profeta Isaías há muito tempo apresentou este tema ao povo de Israel: “Quem deu crédito à nossa pregação?” ( Is 53:1 ).

A pregação é clara: ‘falei de coisas terrestres’! Qual seria o comportamento dos homens quando fosse anunciado ‘as coisas celestiais’?

Cristo é o pregador nato! Mas, quem haveria de dar credito? Como crereis? Esta é a pergunta mais importante do diálogo.

 

 

Provérbios

“Ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu – o Filho do homem [que está no céu]” ( Jo 3:13 )

Em Deuteronômio Moisés apresentou ao povo várias promessas de redenção. Ele demonstra que a circuncisão do coração é uma obra divina ( Dt 30:6 ), e que bastava o povo dar ouvido ao anunciado por Deus.

Porém, alguns dentre o povo alegariam que tal ordenança era difícil, e Moisés complementa: “Ora, este mandamento, que hoje te ordeno, não é difícil de mais (…) Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos?” ( Dt 30:11 ).

Ao falar que “Ninguém subiu ao céu”, Nicodemos possivelmente tenha se lembrado desta passagem!

Mas, há outra passagem com abordagem semelhante em Provérbios: “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos em Seus Punhos? Quem..? Qual é o Seu Nome, e qual é o Nome de Seu Filho, se é que o sabes? Toda Palavra de Deus é perfeita; escudo Ele é para os que nEle confiam. Há uma geração que amaldiçoa a seu pai, e que não bendiz a sua mãe. Há uma geração que é pura aos seus olhos, e que nunca foi lavada da sua imundícia” ( Pv 30:4 -5 e 12).

Observe que Agur, filho de Jaqué de Massa escreveu um provérbio onde foi feita várias perguntas. Dentre elas destacamos: Qual é o Seu Nome, e qual é o nome de seu Filho, se é que o sabes?

Não havia como Nicodemos negar que não conhecia este provérbio em Israel. Qualquer referência ou citação semelhante a um provérbio traz de imediato a memória do ouvinte àquela citação em específico. Era de se esperar que um mestre estabelecesse esta relação.

Jesus, através da pequena afirmação “Ninguém subiu ao céu…”, trouxe à memória de Nicodemos um provérbio corrente em Israel e passa a demonstrar o seu significado:

1. ‘Ora ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu’ – Ninguém pode subir ao céu! Se for possível a alguém subir ao céu, é porque de lá este alguém desceu;

2. Jesus identificou-se como o Filho do homem ao povo de Israel por várias vezes. Muitos já tinham ouvido que Jesus andava apregoando ser o Filho do homem, e aquele era o momento em que Nicodemos precisava perceber que Jesus é o Filho do homem. Quem desceu e posteriormente haveria de subir aos céus era Jesus, o Filho do homem;

3. Todas as perguntas feitas por Agur no livro de Provérbios apontam para Deus. O ponto de maior importância da citação de provérbios está em que o texto demonstra que Deus tem um Filho: “Qual é o Seu Nome, e qual é o Nome de Seu Filho, se é que o sabes?” ( Pv 30:4 ). Jesus, na conversa com Nicodemos, demonstrou que Ele é o Filho Unigênito enviado ao mundo ( Jo 3:16 -17), e caso Nicodemos questionasse a possibilidade de Deus ter um Filho, nas escrituras estava registrado de maneira explicita que Deus tem um Filho;

4. Nicodemos deveria crer na Palavra que é perfeita, e que revela a vontade de Deus aos homens ( Sl 19) “Toda a Palavra de Deus é pura; escudo é para os que confiam n’Ele” ( Pv 30:5 ), e não somente nos sinais. Os sinais era uma confirmação de Deus, mas o que verdadeiramente salva o homem é a doutrina de Jesus. Nicodemos precisava aceitar o testemunho de Jesus e a escritura ( Jo 3:11 );

5. Nicodemos deveria se conscientizar da sua atual condição como fariseu. A referência: “Há uma geração que amaldiçoa a seu pai, e que não bendiz a sua mãe. Há uma geração que é pura aos seus olhos, e que nunca foi lavada da sua imundícia” ( Pv 30:11 -12), demonstra de maneira clara e precisa a condição dos fariseus, religiosos da qual Nicodemos fazia parte ( Mt 15:5 ) e ( Lc 15:7 ).

A mensagem apresentada a Nicodemos foi completa: Jesus demonstrou que não era só por causa dos milagres que Nicodemos deveria afirmar que Cristo era “Mestre vindo da parte de Deus”, antes, deveria verificar que a Palavra de Deus é perfeita. Que nela está demonstrado que Cristo é o Filho de Deus. Que Jesus desceu dos céus e que para lá haveria de subir. Que a geração da qual Nicodemos fazia parte não estava executando a verdadeira vontade de Deus ( Jo 6:29 ).

 

A Serpente no Deserto

“Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, da mesma forma importa que o Filho do homem seja levantado…” ( Jo 3:14 )

Jesus estabelece um comparativo sem parar a explicação que vinha desenvolvendo. Complementando a idéia do versículo anterior, Jesus introduziu uma comparação: “Assim como…”.

Nicodemos conhecia a passagem bíblica das serpentes ardentes e Jesus passa a demonstrar a importância de sua morte e a forma (maneira) como haveria de ser morto através desta passagem.

O mestre da lei estava sendo esclarecido naquele instante, em linhas gerais, sobre o que haveria de ocorrer com o Filho do Homem.

Quanto à forma, Jesus haveria de ser levantado da terra dando da sua morte da mesma maneira que a serpente de metal foi erguida por Moisés no deserto.

Quanto à importância, a serpente de metal ‘trouxe’ vida àqueles que foram picados pelas serpentes (aos condenados à morte), e Cristo, trouxe vida ao mundo que “jaz”, ou seja, que está morto no pecado.

O contexto é delineado através de todos os elementos apresentados no texto. Não é só analisar as frases isoladamente da seguinte forma: “Moisés levantou a serpente no deserto”. Se analisarmos esta frase isoladamente teremos uma afirmação, mas quando analisamos a frase dentro do contexto, temos uma comparação.

Jesus fez uma comparação e passa a Nicodemos uma idéia que só entenderemos quando considerarmos todos os elementos presentes no texto: “E assim como Moisés levantou a serpente no deserto…”.

Para melhor entender a comparação que Cristo fez, faz-se necessário analisar a referida passagem do Antigo Testamento.

A passagem de Números 21: 4- 9 relata que o povo de Israel ficou impaciente enquanto caminhavam pelo deserto e passaram a maldizer: “Por que nos fizestes subir do Egito, para que morrêssemos neste deserto? Pois aqui nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil” ( Nm 21:5 ).

Diante da murmuração, Deus enviou serpentes ardentes e estas mordiam o povo, e ao sentirem que estavam amaldiçoados, foram até Moisés e disseram: “Havemos pecado, porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti”..

Então disse o Senhor a Moisés: “Faze uma serpente ardente, e põe na sobre uma haste, e será que viverá todo o mordido que olhar para ela”. Foi quando Moisés fez a serpente de metal, e colocou em uma haste, e “mordendo alguma serpente a alguém, olhava para a serpente de metal, e ficava vivo”.

a) a praga das serpentes foi conseqüência direta do pecado do povo;

b) a salvação para os picados pelas serpentes estava na palavra de Deus anunciada por Moisés;

c) a serpente de metal foi erguida por ordem divina;

d) bastava um olhar para que o favor de Deus fosse alcançado.

A palavra de Deus foi: “E será que viverá todo o mordido que olhar para ela”, e Moisés anunciou ao povo o que Deus disse. Observe a universalidade da mensagem (todo o mordido) e a necessidade dos ouvintes de Israel (não morrerá). Da mesma forma que os picados pelas serpentes estavam condenados à morte, toda a humanidade também está condenada à morte em Adão.

A mensagem, a que Moisés foi comissionado a transmitir, não excluía nenhum dos picados pelas serpentes. Todos sem exceção que olhassem para a serpente de metal haveriam de alcançar uma nova oportunidade de vida. A oferta de salvação a humanidade também não é diferente: todos, sem exceção, são alvos da graça de Deus.

Os ouvintes de Moisés necessitavam da cura e nada lhes foi exigido. Bastava um simples olhar em direção à serpente de metal e haveria de ter uma ‘nova’ vida. Esta mesma oferta é feita a humanidade: precisam olhar para quem prometeu a nova vida, pois a garantia de nova vida esta em quem é Fiel, se qualquer exigência ou obras a serem realizadas por parte dos agraciados.

 

 

Quem Crer

“…da mesma forma importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna” ( Jo 3:15 )

Jesus não estava evidenciando a Nicodemos o evento da sua morte. Ele anunciou a sua morte de maneira implícita ao destacar que o Filho do homem haveria de ser levantado. Mas, o que Jesus procurou destacar?

Jesus simplesmente estava destacando que, em importância, o que a serpente de metal representava para o povo de Israel, o Filho do homem representa para a humanidade.

A mesma importância que a serpente de metal erguida teve para o povo de Israel, Jesus Cristo crucificado representa para a humanidade: Cristo é vida para aqueles que estão mortos em delitos e pecados.

Deus não exigiu dos picados pelas serpentes que se fizesse algo em troca do livramento da morte iminente. Deus providenciou salvação poderosa ao povo de Israel e para serem participantes de tal salvação bastava simplesmente crer na palavra anunciada por Moisés: precisavam olhar para a serpente erguida na haste de metal.

O ponto principal da declaração de Jesus centra em uma única questão: da mesma forma que os picados pelas serpentes tiveram que crer na mensagem apregoada por Moisés, a humanidade precisa crer em Cristo para ter acesso à nova vida.

Deus não escolheu dentre o povo de Israel aqueles que seriam salvos, antes todo o mordido que olhasse para a haste haveria de viver, conforme a palavra de Deus. Da mesma forma Deus não escolhe dentre os homens perdidos aqueles que serão alvos de sua graça. Todos quantos crerem em Cristo terão vida eterna.

O novo nascimento dá acesso a vida eterna livrando o homem da morte eterna. Através do novo nascimento o homem entra pela porta estreita que é Cristo, visto que através do nascimento natural o homem teve acesso a porta estreita.

Quem não crer perecerá, e aquele que crer terá vida eterna. Não é uma escolha entre duas alternativas. É uma decisão: o homem já está condenado e deve decidir-se em aceitar a salvação proposta (v. 18).

Não há como o homem desconsiderar o convite de salvação, visto que, não é uma escolha, e sim uma decisão!

Aos picados pela serpentes não restava alternativa a não ser olhar para a haste de metal, uma vez que já estavam condenados ( Hb 2:3 ).

Da mesma forma que Adão decidiu de moto próprio comer do fruto da árvore do bem e do mal, é preciso o homem decidir-se de moto próprio comer o Pão vivo que desceu do céu que dá vida eterna aos homens.

 

O Amor de Deus

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 )

A base de tudo que Jesus disse a Nicodemos é o amor de Deus.

Deus amou todos os homens e Jesus é a prova evidente deste amor.

O ato de ter entregue o seu único Filho em resgate da humanidade concede-nos o parâmetro necessário para mensurarmos a dimensão deste amor.

Deus entregou o seu Filho em resgate da humanidade, e não de alguns. Da mesma maneira que a serpente de metal sinalizava vida a todos quantos olhassem para ela, Cristo é salvação a todos os homens, sem distinção alguma.

A salvação é para todo aquele que N’ele crê, da mesma maneira que foi dito “… viverá todo o mordido que olhar para ela”.

Em momento algum Jesus demonstra que Deus selecionou algumas pessoas para serem agraciadas em particular. Antes convida a todos que creiam na providência, para que tenham vida eterna.

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O amor de Deus não é demonstrado em conivência ao pecado, ou seja, ele não aceita o culpado como sendo inocente!

Deus é amor, mas também é justiça. O amor de Deus não é um sentimento, onde Ele tem preferência entre A e B. Deus comporta-se segundo o seu amor que é demonstrado em justiça.

Por Deus amar os homens a justiça de Deus foi manifesta em Cristo. Desta maneira verifica-se que Ele não pode aceitar o culpado como sendo inocente. Ele não pode estar (unir-se) com o impuro.

Os culpados estão sob condenação e não serão aceitos por Ele. Os culpados devem receber a pena estipulada: morte. Quando o homem morre com Cristo é justificado do pecado ( Rm 6:7 ), e ao ressurgir com Cristo (nascerem de novo) é declarado livre de culpa ( Rm 4:25 ).

A ação divina não é reconciliação com a criatura perdida (velho homem). Ele não toma o velho homem e o aceita na condição de justo. Antes o velho homem (o pecador) precisa ter um encontro com a cruz de Cristo. Este homem é crucificado, morre e é sepultado, tudo por meio da fé em Cristo.

Em seguida um novo homem é criado (ressurge) e Deus o declara justo diante d’Ele. Este novo homem é criado através da semente incorruptível (água), e segundo Deus (Espírito), em verdadeira Justiça e Santidade.

Estas são as bases para as doutrinas da Justificação e Santificação.

A justificação do homem é por meio da nova vida que se adquiri em Deus. Justiça esta que não é conforme a justiça que se estabelece nos tribunais humanos. A justificação é de vida, da mesma forma que a condenação foi de morte ( Rm 4:18 ).

 

 

Salvação

“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” ( Jo 3:17 )

A primeira ideia que as pessoas têm em mente é a de que Jesus trouxe um padrão de conduta tão alto que homem algum pode cumpri-lo. Pensa-se mais na condenação do que na oferta de salvação.

Em primeiro lugar a salvação não se dá através de um padrão de conduta.

Muitas pessoas se assuntam com o Sermão do Monte, onde Jesus parece apresentar um padrão de conduta inatingível. Este não era o intuito de Jesus ao dar o Sermão do Monte, estabelecer mais um padrão de conduta, ou o melhor padrão ético.

Jesus estava falando a um povo que detinha um dos padrões de condutas mais alto à época. Eles eram cumpridores de alguns aspectos da lei e tinham um padrão de conduta superior aos outros povos. Mas, o que Jesus pretendia com o Sermão do Monte?

O intento de Jesus é demonstrar que o espírito da lei é inatingível. Por mais que o homem procure seguir a lei ou qualquer outro padrão de conduta, sempre ficará aquém da lei. Ex: A lei dizia: “Não adulterarás”, mas se for perseguir o espírito da lei, qualquer que ao menos olhar para uma mulher com intenção impura, já é transgressor da lei ( Mt 5:27 -30).

Desta forma, antes de apresentar o espírito da lei aos seus ouvintes, Jesus deixa o alerta: quem quisesse entrar no reino dos céus deveria ter uma justiça maior do que a justiça dos fariseus ( Mt 5:20 ).

A conduta dos fariseus era irrepreensível perante a sociedade da época. Como, então, alcançar justiça maior dos que a dos fariseus? Não tendo pensamento impuro? Nunca fazer um xingamento? Jamais pensar no divorcio? Não! A justiça maior é pela fé! Se o homem aceitar a Cristo como Senhor, estará de posse da justiça que vem de Deus, pois é somente Ele quem justifica.

Desta maneira podemos compreender a missão de Jesus no mundo: Ele veio salvar o que estava perdido. Ele não veio apontar os erros dos homens. Não veio estabelecer outro padrão de conduta. Também não apresentou um código de Ética. Ele veio trazer salvação a todos os homens.

Deus enviou o seu Filho com a missão específica de salvar o mundo. A salvação do mundo está na vida que Deus oferece por meio da fé em Seu Filho. Ter Jesus é ter a vida eterna.

 

Condenação

“Quem crê nele não é condenado, mas quem não crê já está condenado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 )

Cristo foi enviado ao mundo para salvar e não para condenar os homens.

Quem crê em Cristo não é condenado com o mundo, mas quem não crê permanece sob uma condenação anterior.

A condenação do homem deu-se em Adão conforme Paulo demonstrou na carta aos Romanos: “Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” ( Rm 4:18 ).

Em Adão se deu a ofensa, e nele foi estabelecido o juízo.

O juízo e a condenação de Deus foram estabelecidos apartir do momento em que Adão pecou! ( 1Co 15:22 ).

Jesus demonstrou a Nicodemos que o mundo precisava de salvação “…para que o mundo fosse salvo por ele” ( Jo 3:17 ), visto que sobre a humanidade pesa uma condenação. Sem crer em Cristo o homem perece!

Quem não crê no filho de Deus já está condenado, pois só a crença na providência (salvação) de Deus poderá salvar o homem (João 3: 18).

Se o Sermão do Monte fosse um novo padrão de conduta que Cristo veio estabelecer, jamais o homem seria salvo, antes permaneceria debaixo do pecado. Ao apresentar o espírito inatingível da lei, a única coisa que restaria a seus ouvintes era atentar para a grande salvação: crer naquele que o Pai enviou!

 

 

Princípios Gerais

“A condenação é esta: A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz porque as obras deles eram más. Todo aquele que pratica o mal aborrece a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem vive de acordo com a verdade vem para a luz, a fim de que se veja claramente que as suas obras são feitas em Deus” ( Jo 3:19 -21)

Deus enviou salvação poderosa a todos os homens, mas eles confiam mais em suas próprias ações. A condenação dos homens está em permanecer de posse de suas obras e concepções.

Porque Jesus disse que as obras dos homens são más?

Sabemos que os homens amaram mais as trevas porque as suas obras eram más. Mas, o que determina a qualidade das obras dos homens (boas e más)?

Se as ‘boas’ obras são feitas em Deus, as ‘más’ obras ganham este qualificativo por não serem feitas em Deus.

Como entender esta colocação de Jesus? Que princípio Jesus procurou evidenciar?

Todos os homens quem rejeitaram a Luz que veio ao mundo só praticam obras más. Eles são plantas que Deus não plantou ( Mt 15:13 0. Estão no caminho largo que conduz à perdição. São vasos de desonra. Eles praticam obras más por que são escravos do pecado, pois todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus.

Quando a Bíblia diz que o homem é escravo do pecado ela aponta estes três aspectos:

  • Um escravo não pode libertar a si mesmo;
  • Um escravo não pode servir a dois senhores, e;
  • Um escravo não pode produzir nada para si mesmo.

Os homens que rejeitam a Luz que Deus enviou permanecem escravos do pecado. Eles tem o pecado como senhor. Não podem libertar-se por meio de esforço próprios. E tudo o que produzem, produzem para o seu senhor, o pecado.

Com base nestes princípios verifica-se que o homem sem Cristo não pode praticar obras ‘boas’, pois eles não estão em Deus. Somente aqueles que estão em Deus é que praticam boas obras ( Ef 2:10 ).

Isto não quer dizer que os homens sem Cristo não consigam praticar boas ações. O que esta figura demonstra é que tudo o que o homem enquanto escravo do pecado produz, seja bem ou mal, pertence por direito ao seu senhor.

Nada que um escravo produz é para si mesmo. Por conseguinte, nada que um escravo do pecado produz é para si mesmo. O escravo do pecado só produz obras más, pois tudo o que faz é de propriedade de seu senhor.

Por isso é necessário o homem nascer de novo, visto que, o homem segundo Adão vive à mercê do pecado, e tudo o que produz (boas ou más ações) pertence ao seu senhor, o pecado!

Os fariseus tinham as melhores obras aos seus olhos, mas as obras deles não eram produzidas em Deus, antes em pecado, pois não receberam a Luz de Deus. Ex: O jovem rico cumpria a lei rigorosamente, mas o seu senhor era o pecado, e não Deus.

“todo aquele que faz o mal” refere-se aos homens sem Deus, pois, segundo os Salmos, temos que: “Não há um justo, nem um sequer (…) Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Sl 14:1 -3).

Se não há quem faça o bem, e como ressalva o salmista complementa ‘nem um homem sequer’, não havia como os que rejeitaram a luz de Deus fazer o bem. Perceba que Jesus não ordena aos homens que faça o bem, visto que não há quem faça o bem. Antes, Jesus ordenava aos seus ouvintes que viessem para Ele (para Luz), e então as suas obras seriam boas.

Seria um contra senso Jesus solicitar aos homens fazer o bem se não há um sequer que faça o bem. Somente aqueles que são participantes da nova vida é que podem fazer o bem, pois a semente de Deus permanece nele.

Jesus está falando de uma condição pertinente à velha criatura quando afirma que aqueles que fazem o ‘mal’ aborrecem a Deus. Se não há quem faça o bem, isto demonstra que, por mais que o homem que não nasceu de novo pratique ações que, segundo a sua concepção é o ‘bem’, para Deus as suas obras são o ‘mal’.

O homem precisa estar em Deus, ou seja, em Cristo, para que possa fazer o bem:

  • “Todo aquele que faz o mal aborrece a Luz” ( Jo 3:20 );
  • “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Sl14:1-3; Rm 3:9 -17);
  • “…todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” ( Jo 8:34 ).

Todos os homens sem Cristo fazem o mal por terem nascido escravos do pecado. Por isso é necessário que todos nasçam novamente, da semente incorruptível, da palavra de DEUS, que é viva e permanente.

Os fariseus e escribas possuíam uma conduta invejável frente a seus concidadãos! Mas, assim mesmo, Jesus disse a um dos seus mestres: Você tem que nascer de novo!

Estes tinham receio de ir a Jesus (Luz do mundo) por medo de terem as suas obras reprovadas, como ocorreu com o jovem rico ( Mt 19:20 ).

Mas quem pratica a Verdade, ou seja, que vive a Verdade, estes vem para a Luz. Observe que aqueles que estão sem Cristo praticam o mal, e aqueles que estão em Cristo, praticam a verdade.

A finalidade de ir a Jesus é para que se manifeste que as obras do novo homem são feitas em Deus. Aqueles que nasceram de novo passam a viver uma nova vida, sujeito à justiça, e todas as suas obras são segundo a verdade, mesmo quando o cristão acaba errando.

A nova criatura é por natureza sujeita a lei de Deus, e ‘em verdade é’, visto que tudo o que o novo homem produzir pertence ao seu Senhor, que no tribunal de Cristo haverá de recompensar as obras dos seus filhos ( 2Co 5:10 ).

Por outro lado, o profeta Isaías, citado por Paulo, demonstra que a nova criatura foi criada por Deus em Cristo para as boas obras “…as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ; Is 26:12 ).

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