O reino dos céus, os ricos e os pobres

Devido às diversas leituras acerca do tema ‘riqueza’ versus ‘reinos dos céus’ surgiram propostas teológicas como o ‘evangelho social’ e a ‘teologia da libertação’…

 


“Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”  ( Lc 12:20 )

 

Como interpretar a parábola do rico insensato?

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 -21).

Após a leitura da parábola, podemos perguntar: o evangelho de Cristo é avesso aos ricos? Ser abastado financeiramente e ser salvo é impossível? Para ser um discípulo de Cristo é necessário ser desprovido de bens materiais? Deus não aceita os abastados de bens materiais? Ao homem que faz planos de angariar fortuna com o fito de viver abastado é negado acesso a graça de Deus?

Devido às diversas leituras acerca do tema ‘riqueza’ versus ‘reinos dos céus’ surgiram propostas teológicas como o ‘evangelho social’ – movimento protestante norte-americano (1880-1930) sob influência do liberalismo teológico que pretendia apresentar uma resposta ‘cristã’ à situação de miserabilidade dos trabalhadores e imigrantes – e a ‘teologia da libertação’ – movimento que surgiu na América Latina em meados do século 20, articulado por teólogos católicos e protestantes, que diante das injustiças e exclusão social fomentado por um quadro de grandes tensões políticas, econômicas e sociais, levantaram uma bandeira centrada na ideia de um Deus ‘libertador’.

Mas, qual é a proposta de Jesus ao propor a parábola do rico louco? Ele buscava uma transformação econômica e social das sociedades à época, ou uma revolução na mentalidade (metanoia) de seus ouvintes acerca de questões relativas ao reino dos céus?

 

A parábola

O primeiro passo para compreender a parábola do rico insensato é entender porque Jesus utilizava parábolas para falar ao povo de Israel. A resposta para esta pergunta é objetiva e foi apresentado pelo próprio Cristo: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” ( Mt 13:13 ; Is 6:9 ).

Ora, Jesus falava à multidão por parábola porque estava previsto que o Messias proporia aos seus ouvintes enigmas antigos “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ; Mt 13:35 ). Enquanto Jesus cumpria as Escrituras falando ao povo por parábolas, o povo, por ser de dura servis, viam, ouviam e não compreendiam.

O povo de Israel devia saber que Deus não falava abertamente (sem enigmas) com eles porque foi justamente isto que pediram quando não confiaram em Deus “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Êx 20:19 ); “Filho do homem, propõe um enigma, e profere uma parábola para com a casa de Israel” ( Ez 17:2 ). Ouvir a voz de Deus sem enigmas era um privilegio de Moisés “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ).

Uma característica fundamental da palavra de Deus são as parábolas e os seus enigmas. O fato de Jesus falar por parábolas era um sinal de que Jesus era o Cristo e que falava as palavras de Deus “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar” ( Jo 12:49 ).

Como o povo de Israel não prestou atenção na mensagem de Jesus como o enviado de Deus, antes se escandalizaram por pensarem que Ele era filho de José e Maria ( Mt 13:54 -57), a profecia de Isaias cumpriu-se neles: “E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis” ( Mt 13:14 ).

A exposição das parábolas ao povo era segundo a medida que podiam compreender, porém, os enigmas escapavam até mesmo aos discípulos, que em particular eram instruídos “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:33 -34); “E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” ( Mc 4:13 ).

Os filhos de Jacó não ouviam, não compreendiam e não percebiam, não em função de Deus querer turvar-lhes o entendimento, antes não ouviam, não compreendiam e não percebiam porque eram de dura servis, ou seja, não se sujeitavam a Deus para obedecê-Lo “Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” ( Mt 13:15 ).

Quando Jesus contava uma parábola utilizava relações humanas, eventos do dia a dia, questões materiais, etc., porém, o foco era apresentar ao povo questões espirituais e que já foram abordadas nas Escrituras “Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado” ( Mt 13:11 ).

Por exemplo: quando Jesus conversou com Nicodemos e lhe disse que o vento sopra onde quer e ouve-se a sua voz, aparentemente foi utilizado eventos do cotidiano para explicar o novo nascimento, porém, Jesus citava as Escrituras “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?” ( Jo 3:12 ; Ec 11:5 ).

O leitor das Escrituras precisa estar alerta, pois todas as parábolas contêm enigmas a serem desvendados. Interpretar uma parábola sem considerar os enigmas contidos nela é má conclusão na certa. Geralmente as parábolas apresentadas no Novo Testamento foram contadas para expor uma verdade defendida pelos profetas, salmos, provérbios e a lei.

 

Sombra, mentira, vaidade

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6 )

A parábola do rico ‘louco’ foi contada para evidenciar ao povo de Israel uma verdade contida no salmo 39, verso 6: ‘todo homem anda numa vã aparência’, ou seja, é como uma ‘sombra’, alienado de Deus que é a verdade o homem é ‘mentira’.

O salmo não exclui os judeus desta condição quando diz: todo homem anda numa vã aparência!

O verso 6 do Salmo 39 é inclusivo como o Salmo 53: “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:2 -3).

Todos os homens se desviaram e juntamente se fizeram imundo, quer sejam gentios quer judeus. Todos juntamente se desviaram, e andam numa ‘vã aparência’. Por causa da separação decorrente da ofensa no Éden, todos os homens são comparáveis a uma sombra.

O salmo 58 enfatiza a mesma ideia: “Desviam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nascem, proferindo mentiras” ( Sl 58:3 ). Todos os homens se desviaram de Deus, de modo que todos os que nascem da madre são ímpios, ou seja, proferem mentiras, quer sejam gentios ou judeus.

Como todos os homens vêm ao mundo proveniente da madre e os ímpios desviam-se na madre, certo é que todos os homens por serem gerados segundo a semente corruptível de Adão são ímpios.

Diante desta verdade evidenciada nas Escrituras, os judeus equivocadamente julgavam que a lei, os profetas e os salmos protestavam exclusivamente contra os gentios, e que somente os gentios se desviaram de Deus por não serem descendentes da carne de Abraão.

Por serem descendentes da carne de Abraão, quando os judeus liam que ‘todos se desviaram de Deus’, prevaricavam quanto à interpretação, pois entendiam que as Escrituras protestavam somente contra os gentios, uma vez que os judeus entendiam que estava em uma condição diferenciada frente aos gentios por ter recebido a lei por intermédio de Moisés.

Ao falar do tema, o apóstolo Paulo demonstrou que tudo o que a lei diz, dizia aos que estavam debaixo da lei, ou seja, aos judeus, de modo que, apesar de serem descendentes da carne de Abraão, os judeus também eram ímpios assim como os gentios, uma vez que todos se desviaram de Deus desde o ventre por serem filhos de Adão ( Rm 3:19 ).

Diante das Escrituras fica claro que os judeus não são melhores que os gentios, pois ambos estão debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), como se lê: ‘todo homem anda numa vã aparência’, ou seja, são mentirosos “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ).

Como o salmista sabia que Deus não fazia distinção alguma entre judeus e gentios, Davi admite (confessa) a sua condição quando clama: “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” ( Sl 51:4 ). Por que o salmista tinha certeza de que era pecador? Porque judeus e gentios igualmente são formados e concebidos em pecado “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Rm 51:4 -5).

O salmista Davi sabia que há somente duas gerações: uma é a geração dos ímpios e outra é a geração dos justos. Era de conhecimento do salmista que, não importam as ações dos homens, a recompensa deles é conforme a geração dos seus pais ( Sl 49:19 ). Temos duas sementes e duas gerações, sendo que a semente que permanecerá para sempre diz da semente do último Adão, e a semente que perece, a semente do primeiro pai da humanidade, Adão ( Sl 112:2 ; Sl 89:4 ; Sl 24:6 ; Sl 22:30 ).

É em função desta realidade que Davi roga a Deus para ser gerado de novo segundo a sua palavra (semente incorruptível), que cria um novo coração e concede ao homem um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:26 ).

Os termos riqueza e pobreza são utilizados nas Escrituras para esclarecer a situação do pecador diante de Deus e é justamente fazendo alusão ao pecado que o termo riqueza é citado nas Escrituras, e a análise dos termos ‘riqueza’ e ‘pobreza’ é imprescindível para responder às questões.

Como é possível ‘todo homem’ amontoar riquezas e não saber quem as levará, se na sua maioria os homens são desprovidos de bens materiais? Os bens de um homem, quer pobres ou ricos, não ficam sob o cuidado de seus herdeiros? Quando analisamos o verso 6 do Salmo 39, temos que nos perguntar: estamos diante de uma parábola e seus enigmas, ou há um equivoco na abordagem do salmista? Como é possível haver tantos homens desprovidos de bens materiais no mundo se o salmo diz que ‘todo’ homem amontoam riquezas? “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6 ).

Os judeus deviam ter o cuidado de, ao ler as Escrituras, se perguntarem por que elas dizem que ‘todos’ os homens ‘andam em vã aparência’, e porque elas não contem uma ressalva quanto aos judeus dizendo: todo homem, exceto os descendentes da carne de Abraão, andam numa vã aparência. Se tivessem o cuidado de observar que as Escrituras protestavam que todo homem amontoam riquezas e não sabem quem as levará, deveriam inquirir por que existiam tantos pobres.

O mesmo entrave ocorre com os termos ‘louco’, ‘néscio’ que consta na parábola em comento e em outras partes das Escrituras, termos que são utilizados depois da acusação feita por Moisés ao povo de Israel: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” ( Dt 32:6 ).

Após a abordagem de Moisés os termos ‘louco’, ‘néscio’, ‘ignorante’ tornaram-se uma ‘figura’ específica empregada ao longo das Escrituras para fazer referencia ao povo de Israel que eram de dura servil (rebeldes).

O salmo 53 é um exemplo: “DISSE o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniquidade; não há ninguém que faça o bem. Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:1 -4).

O ‘néscio’ que se comporta como se Deus não existisse diz dos lideres de Israel, homens que se alimentavam do povo de Deus como se comessem pão (compare verso 1 com o 4). Esta figura é utilizada diversas vezes pelos profetas: “Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade também haverá grande ódio” ( Os 9:7 ); “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” ( Ez 13:3 ); “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” ( Jr 4:22 ); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” ( Sl 94:8 ).

Observa-se nas Escrituras que o termo ‘louco’ não é utilizado para fazer alusão aos gentios, antes somente é empregado para censurar os filhos de Israel. Esta figura também foi utilizada por Cristo e os apóstolos: “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Quando lemos na parábola: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”, verifica-se que a reprimenda de Jesus tem por alvo os judeus, pois este era o público a quem foi anunciado a parábola do rico.

Outro elemento a se considerar na parábola é a condição financeira do ‘louco’ e o que ela representa. Devemos considerar a riqueza do homem louco como perniciosa, ou a riqueza é uma figura enigmática que demanda ser estudada e desvendada?

No sermão da montanha registrado por Lucas, temos o seguinte discurso: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas. Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” ( Lc 6:20 -26).

É significativo o fato de que os que creem em Cristo são descritos como pobres, e os que rejeitam a Cristo são designados ‘ricos’. Considerando o fato de que Jesus só falava ao povo utilizando parábolas, significa que Jesus não estava fazendo distinção entre os seus ouvintes quanto às questões de ordem financeira e sim quanto aqueles que realizavam a vontade de Deus “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ).

Significa que qualquer que confiar em Cristo, quer seja rico quer seja pobre financeiramente é bem-aventurado, portanto, pobre, manso, triste, etc. Qualquer que não confia em Cristo, quer seja rico ou pobre financeiramente é descrito como farto, rico, etc.

Quando Tiago diz: “EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente vivestes sobre a terra, e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” ( Tg 5:1 -6), os ‘ricos’ referem-se aos judeus (ricos) que não creram, condenaram e mataram o Cristo, de modo que, por rejeitarem a Cristo, o único que tem ouro e prata aprovados ( Ap 3:18 ), a riquezas deles estavam apodrecidas, as vestes destruídas e entesouraram ira para o dia do juízo.

Daí a palavra de ordem: “Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza” ( Tg 4:9 ), que é o mesmo que ‘arrependei-vos’ ( At 2:38 ). Por que deveriam sentir as suas misérias e lamentarem? Porque os judeus rejeitaram a Cristo por entenderem que possuíam recursos necessários para serem salvos, mas na verdade eram pobres, cegos e nus “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” ( Ap 3:17 ). ‘Sentir a miséria’ e ‘lamentar’ são figuras que rementem às pessoas que mudam de concepção (arrependimento) dando ouvidos ao anunciador de boas novas, que é Cristo. Se o contrito de espírito, o manso, o pobre, etc., ouve a mensagem do evangelho e crê, recebe de Deus glória, gozo, louvor, etc. ( Sl 61:1 -3).

Daí é possível entender a seguinte fala de Jesus: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” ( Mc 10:23 ). Os discípulos ficaram perplexos quando Jesus disse que os que ‘têm riquezas’ dificilmente entrarão no reino dos céus, pois pensaram que Jesus falava dos abastados financeiramente.

Porém, diante da admiração dos seus discípulos, Jesus explica: “Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” ( Mc 10:24 ). Quando Jesus disse ser ‘difícil’ os que têm ‘riquezas’, ou seja, que cofiam ‘nas riquezas’ entrar no reino dos céus é porque os que ‘confiam nas riquezas’ não nasceram de novo e nem possuem obras maiores que a dos escribas e fariseus ( Jo 3:3 ; Mt 5:20 ).

A vontade de Deus é que o homem creia em Cristo, porém, os judeus preferiam confiar em sua origem segundo a carne e nas prescrições da lei. Por serem recalcitrantes, de dura servis, confiavam em suas ‘riquezas’ e deixavam de confiar em Deus.

Se ‘nascer de novo’ e ter ‘obra superior a dos escribas e fariseus’ é condição essencial para entrar no reino dos céus, qual riqueza é empecilho à entrada no reino dos céus?

A ‘riqueza’ em tela não diz de questões materiais, antes é uma figura que remete aos que fazem da carne (descendência de Abraão) a sua força (salvação). Em lugar de confiarem em Deus para serem bem-aventurados ( Jr 17:7 ), os descendentes da carne de Abraão confiavam em si mesmos, pois constituíam a sua carne o seu próprio braço (salvação)( Jr 17:5 ).

Sobre os que confiavam na força do seu braço escreveu o apóstolo Paulo: “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7 -8).

A leitura da parábola do rico ‘louco’ deve ser compreendida em função do reino dos céus e não em vista das riquezas deste mundo. A percepção do leitor da parábola deve transcender o senso comum, haja vista que em uma parábola há enigmas a serem desvendados “E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” ( Mc 4:13 ).

Quando lemos: “Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade. Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” ( Sl 62:9 -10), Diante de Deus tanto ricos quanto pobres são vaidade. Deus não tem em preferência os desprovidos de bens materiais e nem pretere os nobres da face da terra.

Como Deus não faz acepção de pessoas, a mensagem: ‘Não confieis na opressão, no roubo, na violência’ abarca tanto ricos quanto pobres financeiramente.

Para entrar no reino dos céus o homem não deve se utilizar da força ou da violência, antes é pela palavra de Deus ( Zc 4:6 ). A força, a violência, a opressão, o roubo, etc., são figuras que ilustram aqueles que querem se salvar por intermédio das suas obras “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ).

O profeta Isaias estava anunciado a palavra do Senhor ao povo utilizando-se de parábolas e enigmas, de modo que, ao falar da justiça que decorre da lei, comparou-a a teias de aranha. A justiça decorrente das suas obras não servia para cobrir-se diante de Deus. As obras são comparáveis à iniquidade, o mesmo que obra de violência. Apesar do sacrifício continuo e das orações prolongadas, tudo era reprovado diante de Deus “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal” ( Is 1:13 -16).

Se há uma obra, a recompensa, o salário, o ganho é certo, de modo que as ‘obras de iniquidade’ são descritas como ganho de opressão, ganho de violência, atos de maldade. Qualquer que se lança às ofertas vãs, às orações prolongadas, aos sábados, as reuniões solenes, etc., multiplica suas obras de violência e entesoura para si o seu ganho. O ‘tesouro’, a ‘riqueza’ amealhada em função destas práticas é produto de opressão, porém, o povo de Israel aumentava as suas obras acreditando que as suas riquezas seriam suficientes para alcançar salvação, posto que o coração deles estavam fiados em suas obras ( Sl 62:9 -10).

Quando Jesus diz: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” ( Mc 10:25 ), interpôs uma impossibilidade natural (passar um camelo pelo fundo de uma agulha) para demonstrar que a impossibilidade de alguém que ‘confia’ nas ‘riquezas’ entrar no reino de Deus é maior.

O texto deve ser compreendido a partir do seguinte princípio: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ). Ora, o tesouro prende o coração do homem, o que o impede de amar (servir) a Deus de todo o seu coração “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ).

Tudo o que o homem adquire de Deus deve ser sem dinheiro e sem preço. Quando o homem adquire uma riqueza por meio da força do seu braço (obras da lei), passa a possuir um tesouro que assume a condição de um ídolo (Mamom), pois o homem deixa de confiar na graça de Deus para confiar na sua riqueza ( Sl 62:9 -10).

O homem passa a servir a Mamom quando não ouve a palavra do Senhor e, ao porfiar confiando na sua riqueza, torna a sua própria vontade um ídolo “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:23 ).

Ora, o maior tesouro do povo de Israel estava na sua origem e na lei, ou seja, no crente Abraão e em Moisés. Diante do evangelho e da pessoa de Cristo os filhos de Jacó relutavam em mudarem de concepção apontando para ambos: Moisés e Abraão “Então o injuriaram, e disseram: Discípulo dele sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés” ( Jo 9:28 ); “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão” ( Jo 8:39 ).

O apóstolo Paulo elenca quais os entes que compõe a riqueza dos judeus: a nacionalidade (israelitas), adoção de filhos por serem descendentes de Abraão, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os pais e Cristo segundo a carne.

Ora, se um judeu que recebeu todos os itens elencados acima não pode salvar-se, surge a pergunta: “Quem poderá, pois, salvar-se?” ( Mc 10:26 ). A resposta de Cristo demonstra que confiar na carne de Abraão é uma ‘riqueza’ que não conduz a Deus ( Mt 10:37 ), para alcançar a Cristo, pois com relação a salvação: “Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” ( Mc 10:27 ).

O salmista Davi apresentou profeticamente o enigma do homem rico no salmo 49 anunciado tanto aos ricos quanto aos pobres financeiramente que, quando viesse o dia em que ‘os homens que confiam em suas riquezas’ cercariam o Messias, o Cristo de Deus não temeria ( Sl 49:5 -6). Por quê? Porque confiar em suas riquezas era a loucura dos homens que estavam em honra em Israel, uma vez que rejeitaram a Cristo, a pedra eleita e preciosa ( Sl 49:13 ).

 

A parábola do homem rico

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 -21).

 

É seguro dizer que a parábola do rico louco não visava uma transformação socioeconômica, antes foi contada visando uma revolução na mentalidade (metanoia) do povo de Israel acerca de como alcançar a salvação.

A parábola do homem rico ilustra o pensamento do povo de Israel que, por ser descendente da carne de Abraão, entendiam que haviam herdado a bem-aventurança prometida por Deus a Abraão.

Quando liam nas Escrituras: “E a tua descendência será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 28:14 ), os filhos da carne de Abraão, Isaque e Jacó interpretavam que eram benditos por serem descendentes dos patriarcas e, qualquer que se tornasse prosélito seria bem-aventurado.

Mas, os lideres de Israel estavam equivocados, pois não são os filhos de Abraão que são salvos, antes os salvos são os filhos da promessa, que diz: “Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ). Para ser filho segundo a promessa era necessário crer como o crente Abraão, pois este é o único meio de ser declarado justo diante de Deus, porém, os filhos de Jacó repousavam na filiação segundo a carne. Quando Abraão ouviu a promessa, passou a crer no descendente prometido, de modo que viu o seu dia e alegrou-se na salvação de Deus “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se” ( Jo 8:56 ).

Sobre este posicionamento disse o apostolo Paulo: “Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti. De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” ( Gl 3:6 -9).

A leitura correta da promessa segue o seguinte termo: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ). Mas, como os filhos de Israel não atinaram para o fato de que as Escrituras encerrou todos os homens sob o pecado, de modo que a promessa é dada aos crentes e não aos filhos da carne de Abraão “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes” ( Gl 3:22 ).

Porém, antes que Cristo viesse ao mundo conforme a promessa feita a Abraão, Deus entregou a lei para fazer com que os descendentes da carne de Abraão vissem a sua real condição, deixassem de crer em sua origem e passassem a esperar n’Aquele que havia de se manifestar assim como fez o crente Abraão “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.  De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:23 -24).

Quando o descendente prometido a Abraão veio, os filhos da carne de Abraão se apegaram à lei de Moisés e continuaram alegando que eram salvos por serem descendentes de Abraão, e rejeitaram a bem-aventurança.

Ora, se tudo o que a lei diz, diz aos que estão sob a lei, isto significa que o que os salmos também dizem (referem-se) dos filhos de Jacó (observe que o apóstolo Paulo citou diversos versículos dos salmos), de modo que a parábola do rico louco é uma releitura do Salmo 49, que diz “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas, Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre), Para que viva para sempre, e não veja corrupção. Porque ele vê que os sábios morrem; perecem igualmente tanto o louco como o brutal, e deixam a outros os seus bens. O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes. Todavia o homem que está em honra não permanece; antes é como os animais, que perecem. Este caminho deles é a sua loucura; contudo a sua posteridade aprova as suas palavras. (Selá.) Como ovelhas são postos na sepultura; a morte se alimentará deles e os retos terão domínio sobre eles na manhã, e a sua formosura se consumirá na sepultura, a habitação deles. Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá. (Selá.) Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará” ( Sl 49:6 -17).

O homem rico cuja herdade produziu com abundância representa o povo de Israel, pois pensavam (arrazoavam) consigo mesmo que eram salvos, porém, o que pensavam não era condizente com a palavra de Deus.

O que pensa uma pessoa abastada com bens deste mundo? Diante de uma herdade que produz com abundancia resta edificar outros maiores em substituição ao que anteriormente possuía para recolher o que for produzido. Por fim, dirá: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga!

Assim era o pensamento dos filhos de Israel, pois arrazoavam consigo mesmo dizendo: Temos por pai Abraão, de modo que nunca fomos escravos de ninguém! “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

Ou seja, diante da pedra eleita e preciosa, os filhos de Israel resolveram seguir os seus próprios pensamentos e coração, tendo por real valor a filiação de Abraão e a lei mosaica, desprezando a benção que enriquece ( Pv 10:22 ; Ml 2:2 ; Jo 5:23 ).

Ao compreender a verdade do evangelho, o apóstolo Paulo abriu mão do que ele entendia de real valor para poder alcançar a Cristo “Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” ( Fl 3:4 -9).

O apóstolo elenca os motivos pelos quais poderia confiar na carne: ‘Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível’. Porém, o que para ele era ganho (de valor), por Cristo reputou como perda todas os elementos elencados anteriormente.

O homem que possuía por sobrenome a alcunha de judeu sentia-se abastado, enriquecido por confiar na lei (repousas na lei), pois entendiam que se gloriavam em Deus, que sabiam a vontade de Deus e que consentiam com o que é excelente em virtude da instrução que detinham segundo a lei ( Rm 2:17 -20). A confiança do povo judeu era a de que guiavam os cegos e que eram luz para os povos em trevas, instrutores dos néscios e das crianças, mas desconheciam que o verdadeiro judeu é o que recebe a circuncisão no coração e não na carne ( Rm 2:29 ).

Daí a parábola de Cristo, demonstrando que o povo judeu se sentia rico ( Ap 3:17 ). Sentiam-se tão abastados que arrazoavam onde armazenariam o produto do seu trabalho ( Lc 12:17 ). Daí a reprimenda de Jesus segundo o que as Escrituras de longa data protestavam: “Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” ( Lc 12:20 ); “Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade” ( Sl 52:7 ); “Aquele que confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem” ( Pv 11:28 ); “Há alguns que se fazem de ricos, e não têm coisa nenhuma, e outros que se fazem de pobres e têm muitas riquezas” ( Pv 13:7 ).

O povo judeu era o homem que não pôs em Deus a sua confiança, antes confiou na sua riqueza, fortalecendo-se na suas obras más. Eles mesmos se fizeram ricos gloriando-se na carne, mas a verdadeira riqueza, que é o louvor de Deus, não possuíam.

Mas, qualquer que ajunta tesouros para si é comparável ao rico louco, que possuindo muito não era rico para com Deus, certo que a vida de um homem não consiste nos bens que possui ( Lc 12:15 ).

Para ser rico para com Deus é necessário buscar a Cristo, a justiça segundo a fé, pois Ele é de cima ( Mt 6:33 ; Jo 8:23 ). Somente Jesus possui ouro aprovado, riqueza impar não sujeita a ferrugens, a traça ou ao roubo ( Mt 6:20 ; Ap 3:18 ). Mas, para adquirir ouro aprovado é necessário o homem reconhecer a sua miserabilidade ( Mt 5:3 ), que é um errado de espírito, quando Deus dará o conhecimento que satisfaz a alma faminta “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ; Is 61:1 -3; Is 55:1 -3).

Quando aparece nas Escrituras a figura do pobre, como no verso que se segue: “Compadecer-se-á do pobre e do aflito, e salvará as almas dos necessitados” ( Sl 72:13 ), o profeta Davi não tem em vista os desprovidos de bens materiais, antes diz daqueles que creem em Deus, quer seja pobre ou rico financeiramente.

Outra figura é a do órfão e a da viúva: “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo” ( Sl 68:5 ), pessoas que na antiguidade eram o símbolo, a figura dos necessitados e pobres. Quando o salmista diz que Deus é pai de órfãos, significa que, quem tem por pai Abraão por ser descendente da carne do patriarca não tem Deus por Pai. Mas, aquele que vê que o seu verdadeiro pai segundo a carne é Adão, e este vendeu todos os seus filhos ao pecado quando da ofensa no Éden, é órfão e reconhece que necessita de um justo juiz. Se o homem deixar pai e mãe, ou seja, deixar de confiar na sua origem segundo a carne dos patriarcas, tornar-se-á pobre e alvo da bem-aventurança divina pela fé em Cristo ( Mt 5:3 ).

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Como se humilhar diante de Deus?

Se o jovem rico houvesse se sujeitado ao mando de Cristo, seria aceito por servo. Na fala: – ‘Se queres ser perfeito’ estava implícita uma prova semelhante a que Deus deu a Abraão. Se o jovem rico se dispusesse a obedecer, o sacrifício não seria exigido, assim como se deu com o crente Abraão. A partir do momento em que o jovem se dispusesse a seguir a Cristo, estaria andando humildemente com o seu Deus, sendo justificado como o crente Abraão ( Gn 17:1 ; Gn 6:9 ; Dt 18:13 ; Mt 5:48 ). Jesus não está em busca de doadores de bens materiais, antes que o jovem rico se dispusesse a segui-Lo. Este foi o mando de Deus a Abraão e que ecoa por toda as Escrituras.


“E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 )

Jesus, o exemplo

O apóstolo Paulo recomenda aos cristãos que sejam imitadores de Deus como filhos amados “SEDE, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” ( Ef 5:1 ).

O que um pai espera de um filho? A resposta para esta pergunta não pode ser dada segundo a concepção do homem moderno e contemporâneo levado por todo vento de ensinos, antes deve ser respondida levando-se em conta o contexto cultural e social do homem da antiguidade.

Em todos os tempos os pais esperam o amor dos filhos, porém, se falarmos do homem do nosso tempo, o amor esperado diz de afetividade, carinho (sentimento), se falarmos conforme o pensamento do homem da antiguidade, o amor esperado vai além da afetividade, do sentimento e traduz-se em obediência (funcional) como a de um servo ao seu senhor.

Este era o pensamento do homem da antiguidade, o filho, ainda que senhor de tudo, em nada era diferente do servo, pois devia obediência ao pai “DIGO, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo” ( Gl 4:1 ).

O filho devia obediência, honra, ao pai, de modo que honrar é obedecer “Honra a teu pai e a tua mãe, como o SENHOR teu Deus te ordenou…” ( Dt 5:16 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ); “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

À época dos apóstolos, a essência do termo ‘agape’ traduzido por amor era funcional e objetivo, de modo que o termo evoca a ideia de obediência, honra, o que é muito diferente da concepção do homem do nosso tempo, que entende o amor como afetividade, sentimento subjetivo.

Jesus disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama” ( Jo 14:21 ). A exigência é objetiva: obedecer aos mandamentos de Cristo. Não há espaço para questões de ordem subjetiva, como sentimento, afetividade, emoção, etc. Quem obedece ama, quem não obedece odeia “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ) – Crispim, Claudio, A Obra que demonstra Amor a Deus, São Paulo: Newbook, 2012.

Para ser imitador de Cristo é necessário ser obediente como Ele, que achado na forma de homem se fez servo “Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve” ( Lc 22:26 ). Cristo é o maior, mas se fez como quem serve, de modo que Cristo, sendo maior que João Batista, se fez como o que serve “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele” ( Mt 11:11 ).

Daí a ênfase do apóstolo Paulo: “SEDE, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” ( Ef 5:1 -2). O cristão deve imitar a Cristo como filhos sob o cuidado (amado) do pai, ou seja, sendo obediente (andai em amor).

Cristo cuidou (amou) da sua igreja e entregou-se a si mesmo em cheiro suave a Deus. A relação do cristão e Cristo se dá através da submissão e do cuidado, de modo que a ideia do verso 2 do capítulo 5 de Efésios é ilustrado através da figura do esposo e da mulher: “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:24 -26, Ef 5:2 ).

O Verbo eterno quando na carne, despido de seu poder, em todo momento resignou-se a obedecer à vontade expressa de Deus: obediência quero e não sacrifício ( 1Sm 15:22 ). Cristo entregou-se a si mesmo em obediência ao Pai, pois a exigência divina é a obediência e não o sacrifício. A oferta de Cristo ao Pai foi agradável por ser ato de obediência, e não de voluntariedade em sacrificar-se.

Deus não exige sacrifício dos homens porque Ele mesmo proveu a vítima perfeita para o sacrifício “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” ( 1Jo 4:10 ; Jo 3:16 ). Foi o próprio Deus que apresentou a vítima a ser atada ao altar, formada especificamente para ser servo “E agora diz o SENHOR, que me formou desde o ventre para ser seu servo, para que torne a trazer Jacó; porém Israel não se deixará ajuntar; contudo aos olhos do SENHOR serei glorificado, e o meu Deus será a minha força. Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra” ( Is 49:5 -6); “Deus é o SENHOR que nos mostrou a luz; atai o sacrifício da festa com cordas, até às pontas do altar” ( Sl 118:27 ).

O escritor aos Hebreus explica o Salmo 40, versos 6 à 8 contrastando a obediência com o sacrifício: “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), Para fazer, ó Deus, a tua vontade.  Como acima diz: Sacrifício e oferta, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram (os quais se oferecem segundo a lei). Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:5 -10).

O escritor aos Hebreus demonstra que o verso 6 do Salmo 40 refere-se ao Cristo quando introduzido no mundo. Do Cristo não foi exigido sacrifício ou oferta, antes que, voluntariamente, se sujeitasse ao Pai (minha orelha furaste Ex 21:6 ; Dt 15:17 ).

Cristo foi formado por Deus para ser servo ( Is 49:5 ), e Deus não requereu do seu Filho holocaustos, sacrifícios, antes fazer a vontade de Deus. É por isso que o salmista em espírito demonstra que Cristo deleitar-se-ia em fazer a vontade de Deus ( Hb 10:8 ).

Em nossos dias há muitos que em datas comemorativas impõe a si mesmos o flagelo da cruz, mas diante de Deus tal ato cruento é sem valor, pois Deus não requer sacrifício, antes Deus exige a obediência.

Há uma diferença gritante entre o sofrimento de Jesus na cruz e o sofrimento das pessoas que aplicam a si castigos físicos semelhantes à crucificação de Jesus. Cristo não buscou o flagelo para agradar ao Pai, antes buscou obedecê-lo, pois isto é agradável a Deus.

Jesus orou ao Pai sobre a necessidade de beber o cálice, porém, na oração, apesar de expressar o desejo de que o Pai passasse dele o cálice, vê-se que não abre mão de obedecê-Lo, quando declarou: “Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ); “Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora” ( Jo 12:27 ).

Como as Escrituras demonstravam que Deus não exigia oblações pelo pecado, Jesus apresentou-se como servo para fazer a vontade de Deus. E é na vontade de Deus que o homem é santificado, pois Cristo foi posto por propiciação pelos pecados.

Ao falar da obediência de Cristo, o escritor aos hebreus disse: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” ( Hb 5:7 -8). Quando no Getsemani, Jesus clamou ao Pai, o único que podia livrá-Lo da morte, porém, diante do sofrimento que se seguiu, verifica-se que Jesus desprezou a sua própria vontade e acatou a vontade de Deus sendo obediente em tudo.

O apóstolo Paulo demonstra que Jesus foi obediente, e o escritor aos Hebreus apresenta o sofrimento como prova da obediência de Cristo, ou seja, a sujeição de Cristo aos vitupérios da cruz indica que em tudo Jesus foi obediente. Cristo, mesmo sendo o Filho de Deus, foi atendido porque obedeceu (temeu) e não porque era Filho, ou seja, quando Cristo rogou ao Pai, aquele que podia livrá-lo da morte, foi atendido porque era obediente (piedoso, temente) “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” ( Hb 5:7 -8).

Através das Escrituras Jesus compreendeu que Deus não está em busca de sacrifícios e holocaustos, antes que O obedeçam. Jesus tinha consciência de que sacrificar-se sem o mando do Pai não seria algo aprazível.

Antes de derramar a sua alma na morte, Jesus sabia através das Escrituras que podia orar ao Pai que seria socorrido por mais de 12 legiões de anjos ( Mt 26:53 ), mas resignou-se a apresentar-se a Deus como oferta e sacrifício, pois esta era a vontade de Deus.

Quando Jesus expressou o seu desejo de que o Pai passasse de si o cálice, estava cônscio de que somente Deus podia desobrigá-Lo de ser o cordeiro do sacrifício assim como livrou Isaque de ser imolado, porém, Jesus não impôs a sua vontade, antes se humilhou diante do Pai quando disse: ‘todavia seja feita a sua vontade’.

Quando Jesus entregou-se aos seus inimigos para ser crucificado, não estava apenas oferecendo um sacrifício, estava obedecendo ao Pai, pois foi para isto mesmo que Jesus foi enviado: para fazer a vontade de Deus ( Is 1:11 -14).

Neste mesmo sentido, quando Deus exigiu de Abraão o seu único filho, não buscava um sacrifício, antes a obediência (temor) do patriarca “Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12 ).

Sacrifício é um ato que decorre da voluntariedade do homem, não é uma exigência divina ( Lv 1:2 ; Sl 50:8 -13; Sl 51:16 ; Os 6:6 ). É essencial compreender que oferecer o seu único filho em sacrifício não foi um ato voluntarioso de Abraão, como muitos entendem. Conduzir Isaque até o altar do sacrifico não foi uma decisão que o patriarca Abraão deliberou realizar, o que caracterizaria um sacrifício, antes o patriarca estava obedecendo à ordem divina, o que caracteriza a sujeição, a humildade.

E por que Abraão obedeceu? Porque confiava que Deus era poderoso para trazer o seu filho dentre os mortos ( Hb 11:17 -19).

Sacrifício é produto de um ato voluntário, como o foi o voto de Jefté: “E Jefté fez um voto ao SENHOR, e disse: Se totalmente deres os filhos de Amom na minha mão, Aquilo que, saindo da porta de minha casa, me sair ao encontro, voltando eu dos filhos de Amom em paz, isso será do SENHOR, e o oferecerei em holocausto ( Jz 11:30 -31), o que não ocorreu com Abraão “E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” ( Gn 22:2 ).

O escritor aos Hebreus demonstra que Abraão temia (obediência) a Deus, e as Escrituras contém o testemunho que Deus dá de Abraão a Isaque “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia” ( Hb 11:8 ); “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” ( Gn 26:5 ).

A bíblia demonstra que Jesus ‘suportou’ a cruz. Suportar demonstra que a cruz não lhe era algo agradável, entretanto optou por fazer a vontade do Pai “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ), o que demonstra que Cristo não se apresentou para oferecer um sacrifício, antes quem ofereceu o Cristo como cordeiro foi o próprio Pai, pois foi do agrado de Deus moê-lo “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado…” ( Is 53:10 ); “Não morrerei, mas viverei; e contarei as obras do SENHOR. O SENHOR me castigou muito, mas não me entregou à morte” ( Sl 118:17 -18).

Se Cristo não acatasse a vontade do Pai que o colocou como cordeiro, não haveria sacrifício e nem resgate da humanidade. A vontade do Cristo não era uma morte de cruz quando pediu ao Pai que passasse d’Ele o cálice, porém, sendo servo, resignou-se a obedecer, pois obedecer é o único modo de agradar a Deus e ser recompensado “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice…” ( Mt 26:39 ); “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

Na cruz Jesus desempenhou dois papéis distintos: servo e cordeiro. Como servo agradou ao Pai obedecendo e, como cordeiro foi o sacrifício perfeito providenciado por Deus em resgate da humanidade. Quem apresentou o sacrifício perfeito foi o Pai, e quem obedeceu como servo, foi o Filho, que não abriu a sua boca, resignando-se como cordeiro ( Is 42:19 ).

Sem a obediência de Cristo não haveria justiça, pois a justiça de Deus é substituição de ato: obediência em lugar da desobediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Quando sem pecado Adão desobedeceu, de modo que somente um sem pecado e que obedecesse poderia substituir a ofensa de Adão. Através da obediência do servo do Senhor, tem-se o cordeiro perfeito entregue pelo Pai para a salvação de muitos “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ; At 2:23 ).

Diante da desobediência de Adão que trouxe a injustiça, somente a obediência de alguém sem pecado traria justiça. Qualquer sacrifício apresentado por um descendente de Adão é sem valor, visto que o ofertante é filho da ira e da desobediência. Somente um homem sem pecado poderia substituir a ofensa de Adão, porém, a substituição é a obediência, o que Cristo fez, por ser o último Adão.

Na obediência está a justiça, no sacrifício do corpo de Cristo a justificação. Todos quantos obedecem a Cristo conformam-se com Cristo na sua morte, e após ressurgem com Cristo, Deus os declara justos. Deus estabeleceu a sua justiça através da obediência de Cristo, mas era necessário o trigo morrer para produzir fruto ( Jo 12:24 ).

Na morte de Cristo foi plantado o Unigênito Filho de Deus, quando ressurgiu dentre os mortos, Cristo tornou-se o primogênito dentre os mortos, pois através da sua morte e ressurreição são conduzidos à glória muitos filhos de Deus ( Rm 8:29 ).

Deus não busca dos homens sacrifícios, ofertas, holocaustos ou oblações pelo pecado, antes a obediência. Quando preparou ao Cristo um corpo, o esperado era a obediência, consequentemente, o cordeiro para o holocausto era certo. Se o último Adão não se resignasse a obedecer, não haveria substituição de ato e a justiça não seria estabelecida.

Jesus, como homem, não foi voluntarioso em oferecer a si mesmo como sacrifício, antes se apresentou ao Pai para obedecê-Lo. Jesus humilhou-se a si mesmo ao se fazer servo, pois abriu mão de sua vontade e entregou-se em obediência à determinação do Pai.

Humilhar a si mesmo é posicionar-se na condição de servo, executando estritamente a ordem do seu Senhor. Humilhar a si mesmo é abrir mão da própria vontade para executar a vontade de Deus a exemplo do que Cristo fez. Quando na carne, o Verbo não se apresentou ao Pai com o argumento: – ‘Vou dar o meu melhor ao Pai’, ou ‘Vou me oferecer como sacrifício’, antes se resignou a acatar humildemente a vontade de Deus: – ‘Seja feita a sua vontade’.

Deixar a sua glória e se fezer homem, não foi o momento em que Jesus se humilhou, visto que a ação do Verbo eterno ao deixar a sua glória foi uma decisão soberana e voluntária. Ao deixar a Sua glória, o Verbo eterno submeteu-se à sua própria decisão, mas quando na carne, abriu mão de sua vontade para sujeitar-se a vontade do Pai, se fez servo, o que é humilhar a si mesmo  “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” ( Hb 10:9 ; Sl 40).

Quando deixou a sua glória, o Verbo Eterno voluntariamente despiu-se da sua glória, ou seja, esvaziou-se do seu poder para tornar-se homem, porém, a humilhação de si mesmo se deu quando Jesus, como homem, em obediência ao Pai, resignou-se a sofrer os vitupérios da cruz “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ).

Quando resignou-se a beber o cálice proposto pelo Pai, sujeitando-se como servo, Cristo humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz. Observe que o apóstolo Paulo demonstra que Cristo humilhou a si mesmo quando achado na forma de homem, e não quando esvaziou-se a si mesmo para se fazer semelhante aos homens: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

 

Instruções acerca da humilhação

Como um homem se humilha debaixo das potentes mãos de Deus? Qual o modo de ser exaltado por Deus? O único modo é obedecendo!

Através da história do rei Saul é possível compreendermos outro aspecto da obediência. Desde Abel e Caim, Deus nunca se opôs aos sacrifícios e votos dos homens, apesar de não exigi-los ( Gn 4:3 -4). Em função da voluntariedade do homem em sacrificar ( Lv 1:2 ), no livro de Levítico Deus disciplina a forma de como oferecê-los, o que demonstra que para agradar a Deus é necessário a obediência.

Através do livro de Levítico, caso o voluntarioso em sacrificar se resignasse a cumprir todos os rituais estabelecidos, paulatinamente estava aprendendo a importância da obediência, e o tal seria aceito por Deus, não em função do sacrifício, antes por obedecer.

Apesar de Deus nunca ter exigido sacrifícios, não os extinguiu, antes disciplinou como e onde oferecê-los, pois este era uma forma de os ofertantes aprenderem a obediência, e não o meio de serem aceitos por Deus. O homem só é aceito por Deus quando se converte dando ‘ouvidos’ a Deus, e não através de sacrifícios ( Dt 5:9 ; Dt 30:2 e 6).

Deus deu uma ordem direta ao rei Saul para que os amalequitas fossem completamente exterminados. Diante da ordem divina não era facultado ao rei sacrificar ou votar. Em qualquer outra ocasião o rei poderia apresentar quantos sacrifícios desejasse, mas diante da ordem expressa de Deus cabia-lhe somente a obediência.

Sob o argumento de que cumpriu completamente a ordem divina ( 1Sm 15:13 ), mesmo tendo poupado o rei Agage e o melhor do interdito, Saul persistiu na desobediência apresentando como justificativa o sacrifício.

A atitude voluntária de Saul em sacrificar não era o posicionamento de um servo, antes estava a serviço de si mesmo. Executar 99,9% de uma ordem não é obediência, é rebelião e feitiçaria. É estar a serviço de si mesmo.

Não submeter-se a vontade de Deus é o mesmo que feitiçaria, iniquidade e idolatria. É servir Mamom e não ao Senhor “Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:22 -23).

Diante da vontade expressa do Senhor não cabe sacrifício, só a submissão em obediência, visto que não submeter-se é rebelião “Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” ( Dt 31:27 ); “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” ( Is 59:13 ).

Acerca da submissão ao Senhor, temos a seguinte ordem no Novo Testamento:

“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” ( 1Pd 5:6 )

“Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará” ( Tg 4:10 )

Jesus orientou os escribas e fariseus acerca da auto-humilhação após curar um homem que sofria de uma doença que acumulava líquidos em seu corpo (hidrópico): “Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado” ( Lc 14:11 ).

Jesus recomenda aos seus ouvintes a não se assentarem nos primeiros lugares quando convidados a uma festa, pois se houvesse alguém mais digno, o dono da festa poderia requerer o lugar de destaque e dá-lo ao mais digno. Ao contar-lhes esta regra de etiqueta social, por parábola, Jesus estava demonstrando aos seus ouvintes que, apesar de se acharem dignos de um lugar de destaque no reino dos céus por serem descendentes da carne de Abraão, o noivo daria a outros convidados mais dignos que se assentassem em lugar de destaque.

Jesus apresenta a eles a regra do reino dos céus, visto que os convidados não são os judeus (sãos), antes os obedientes como o crente Abraão, pecadores dentre todos os povos (doentes) “Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes” ( Mt 9:12 ).

Na lição que Jesus passou estava implícita a ordem: “Misericórdia quero, e não sacrifício”, pois Jesus não veio ‘chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento’ ( Mt 9:13 ). Embora os religiosos judeus entendessem que tinham direito de entrar no reino dos céus por serem descendentes da carne do patriarca Abraão, não havia compreendido o enigma da misericórdia “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Quando Jesus contou a parábola do fariseu e do publicano, demonstrou aos seus ouvintes que se achavam justos aos seus próprios olhos que, para ter acesso ao reino dos céus é imprescindível reconhecer a sua condição miserável diante de Deus, humilhando-se a si mesmo.

E como humilhar-se? Diferente do que os interlocutores de Jesus pensavam que, para humilhar-se era necessário sacrifício como jejuns, sábados, dízimos, circuncisão, votos, holocaustos, etc., humilhar a si mesmo é quando o homem clama pela misericórdia de Deus “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado” ( Lc 18:14 ).

Humilhar-se a si mesmo é lançar fora todas as suas ‘riquezas’ como linhagem, circuncisão, tribo, nacionalidade, lei, religiosidade, etc., considerando a riqueza como escória, sujeitando-se a Cristo “Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu. Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:5 -8).

Humilhar-se a si mesmo é acatar a ordem divina, se fazendo servo de Cristo “Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 ).

Se o jovem rico houvesse se sujeitado ao mando de Cristo, seria aceito por servo. Na fala: – ‘Se queres ser perfeito’ estava implícita uma prova semelhante a que Deus deu a Abraão. Se o jovem rico se dispusesse a obedecer, o sacrifício não seria exigido, assim como se deu com o crente Abraão. A partir do momento em que o jovem se dispusesse a seguir a Cristo, estaria andando humildemente com o seu Deus, sendo justificado como o crente Abraão ( Gn 17:1 ; Gn 6:9 ; Dt 18:13 ; Mt 5:48 ). Jesus não está em busca de doadores de bens materiais, antes que o jovem rico se dispusesse a segui-Lo. Este foi o mando de Deus a Abraão, e o seu eco permeia todas as Escrituras: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” ( Mq 6:8 ); “Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” ( Gn 17:1 ).

O profeta Jeremias alertou os filhos de Jacó dizendo: “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR” ( Jr 9:23 -24). Quem são os sábios, os fortes e os ricos? São figuras utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel, pois tudo o que a lei diz, diz aos que estão sob a lei e se gloriam nela ( Rm 2:23 e Rm 3:19 ).

 

Distorções acerca da humilhação

Uma das distorções acerca da auto-humilhação surge da ideia de que é necessário ao homem se desprender dos bens deste mundo, como dinheiro, emprego, carro, casa, família, etc. Outra, é achar que se humilhar é o mesmo que ser pobre, desprovido de bens materiais. Nem de longe distribuir bens aos pobres é humilhar a si mesmo.

Quando a bíblia recomenda o desprendimento da glória e das riquezas que o mundo oferece, apresenta uma parábola, de modo que é necessário desvendar-lhe o enigma para compreende-la.

Quando lemos que Moisés recusou ser chamado filho da filha de Faraó, renegando o tesouro do Egito, ele tinha em vista o tesouro que permanece para a vida eterna. Se Moisés se apegasse aos bens do Egito, não teria como abraçar a fé e esperar a recompensa incorruptível ( Hb 11:24 -26).

Isto não quer dizer que o tesouro do Egito era amaldiçoado, antes que era impossível herdar o tesouro do Egito e obedecer à ordem de Deus para retirar o povo do Egito. Uma escolha se fez necessária, diferente de José, que desfrutou dos tesouros do Egito e protegeu a linhagem de Cristo.

Semelhantemente Abraão rejeitou o premio do rei de Sodoma, pois tinha em vista a promessa de Deus “Jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:23 ).

A determinação para os cristãos não é para abandonar os seus afazeres diários, nem mesmo renegar os seus bens materiais, antes seguir a seguinte recomendação paulina: “Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; E os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; E os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” ( 1Co 7:29 -31).

Fazer uso das coisas deste mundo não é o mesmo que exaltar-se, mas fazer uso de questões deste mundo como origem, religião, regras, nacionalidade, etc., como meio de se salvar é presunção, orgulho, soberba. Por exemplo: os escribas e fariseus eram ‘soberbos’ porque se apegavam ao fato de serem descendentes da carne de Abraão e à lei mosaica como meio de alcançar salvação.

Para os escribas e fariseus humilharem-se a si mesmos teriam que considerarem: descendência da carne de Abraão, a lei, a circuncisão, sábados, sacrifícios, etc. como escória, pois só assim é possível alcançar a Cristo “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:7 -8).

É salutar ser reconhecido entre seus pares, na família, na sociedade, e abrir mão disto não é o mesmo que se humilhar. Tornar-se monge, padre, pastor, sacerdote, andarilho, etc., não é o mesmo que humilhar-se. Deixar de conviver com a família, os amigos, não é humilhar-se. Fazer voto de pobreza, de silêncio, restrição alimentar, castidade, isolamento, não é humilhar-se a si mesmo. Sofrer humilhação de outras pessoas, como desprezo, ‘bullying’, ou ser uma pessoa resignada diante das vicissitudes, não é o mesmo que humilhar-se a si mesmo.

 

Como se humilhar?

‘Humilhar-se a si mesmo’ é tornar-se servo de Cristo, tomando sobre si o ‘jugo’ de Jesus ( Mt 11:29 ). O verdadeiro significado de ‘humilhar-se a si mesmo’ consiste em crer em Cristo, que tira o pecado do mundo.

Cristo humilhou a si mesmo quando obedeceu ao Pai como servo e entregou-se aos pecadores. O homem humilha-se a si mesmo quando obedece a seguinte ordem de Cristo: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” ( Mc 8:34 ).

Negar a si mesmo é o mesmo que humilhar a si mesmo, pois após sujeitar-se ao senhorio de Cristo, o homem deixa de fazer a vontade do seu antigo senhor para fazer a vontade de Cristo. Humilhar-se a si mesmo é resignar-se à condição de instrumento a serviço do seu senhor “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 ); “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

No momento em que o cristão torna-se discípulo de Cristo, conhecendo a verdade, significa que, como servo, o cristão renegou a sua vida herdada de Adão, que na verdade é morte, separação de Deus, e tomou a sua própria cruz, seguiu após Cristo, morreu com Ele e ressurgiu uma nova criatura pelo poder de Deus, tornando-se servo da justiça.

Para o homem humilhar a si mesmo basta crer em Cristo. Se faz servo ao obedecer a ordem de Deus, crendo no enviado de Deus “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

Para humilhar-se a si mesmo é imprescindível crer no enviado de Deus, pois este é o mandamento de Deus aos seus servos “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Antes de crer em Cristo, o homem é servo do pecado, após obedecer de coração a doutrina de Cristo conforme o modelo passado pelos apóstolos e profetas, o crente torna-se servo da justiça “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:17 -18).

A maior humilhação da antiguidade era alguém se fazer servo, deixando de lado a sua autodeterminação para submeter-se ao mando de outrem. Quando o homem atende ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo, se faz servo, ou seja, sai fora do arraial e sofre com Cristo o vitupério da cruz ( Hb 13:13 ).

O homem gerado segundo Adão, que estava sujeito à ira de Deus morre, é sepultado e ressurge dentre os mortos uma nova criatura. Como consequência, o novo homem é exaltado, pois ressurgiu com Cristo uma nova criatura. A gloria que Cristo recebeu é compartilhada com todos os cristãos “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ).

Quando lemos o seguinte salmo: “Ainda que o SENHOR é excelso, atenta todavia para o humilde; mas ao soberbo conhece-o de longe” ( Sl 138:6 ), devemos considerar que o ‘humilde’ é aquele que submete-se ao senhorio de Deus, obedecendo-O e o soberbo aquele que não se submete.

Um exemplo de soberba encontramos no rei Saul, que após receber um ordem de Deus para exterminar os amalequitas, resolveu por si mesmo preservar a vida do rei Agague e o melhor dos bois e das ovelhas ( 1Sm 15:8 -9). Esta deliberação de Saul e do povo foi soberba, mas se tivessem exterminado todos os amalequitas, seria humildade.

Nas Escrituras humildade está para obediência, assim como soberba está para a desobediência. Observe o seguinte verso: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” ( Mq 6:8 ). O que Deus exige do homem? Obediência, o que é o mesmo que andar ‘humildemente’ com Deus.

Quando o homem reconhece que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e que os homens pela fé em Cristo são justificados gratuitamente, a soberba é excluída, como se lê: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” ( Rm 3:23 -27).

No verso jactância é orgulho, ostentação, soberbia, ufania, vaidade, vanglória. O mandamento (lei) da fé, que é crer em Cristo exclui qualquer orgulho, vanglória, jactância, porque o homem é justificado por Deus gratuitamente segundo a redenção que há em Cristo.

Um cristão não pode sentir orgulho? Se for com relação às questões deste mundo, pode sim. Pode orgulhar-se de seus filhos, esposa, amigos, parentes, conquistas pessoais. O apóstolo Paulo ao escrever corintos demonstrou estar orgulhoso dos seus interlocutores, o que demonstra que o ‘orgulho’ não é uma questão capital, como preceitua a igreja católica: “Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações” ( 2Co 7:4 ).

Mas, na primeira carta aos corintos, o apóstolo Paulo destaca uma soberba que é capital. O apóstolo dos gentios havia anunciado o evangelho aos Corintos e, para que os cristãos permanecessem nas pisadas do apóstolo, foi enviado Timóteo para preservar a memória dos cristãos as questões do evangelho ( 1Co 4:16 -17). Porém, apesar do cuidado do apóstolo Paulo, havia alguns que andavam ‘ensoberbecidos’, ‘inchados’, ou seja, não eram imitadores do apóstolo dos gentios quanto ao evangelho.

Um exemplo proveniente da soberba estava em tolerarem um congregado que abusava da mulher do seu próprio pai ( 1Co 5:2 ). Ou seja, a soberba nestes versos não diz de orgulho, antes do desvio da palavra da verdade, visto que, após reprovar o desvio no verso 6, do capítulo 5 da carta aos Corintos, o apóstolo demonstra que era necessário remover o ‘fermento’ velho, para serem uma nova massa.

De modo que, fazer a festa com os ázimos da sinceridade e da verdade, que é o evangelho genuíno, é humildade, e soberba é permanecer com o fermento velho, o fermento da malicia e da maldade ( 1Co 5:6 -8).

Tiago ao recomendar aos seus interlocutores que se humilhassem, chama-os de adúlteros e adulteras. Ora, ele estava escrevendo aos judeus da dispersão, pessoas religiosas não dadas à promiscuidade sexual como os gentios. Quando Tiago nomeia os seus interlocutores de adúlteros e adulteras, estava enfatizando o desvio deles da verdade do evangelho, e não abordando questões de cunho sexual ( Tg 4:4 ; Ez 16:35 ).

Em seguida Tiago destaca que as Escrituras demonstram que Deus habita nos cristãos e que tem ciúmes ( Ez 16: 42 ). Novamente Tiago cita as Escrituras demonstrando que Deus resiste aos desobedientes, e da graça aos obedientes ( Tg 4:6 ).

Daí os imperativos seguintes: sujeitai-vos a Deus, ou seja, obedeçam, sejam servos de Deus, pois o diabo não pode tocar nos servos de Deus; chegai-vos a Deus, ou seja, tomai sobre si o jugo de Deus; limpem as mãos e os corações; quando deixassem a presunção de que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão veriam as suas misérias, tornando-se humildes, de modo que Deus em Cristo os exaltaria ( Tg 4:10 ).

Mas, como os interlocutores de Tiago continuavam seguindo os seus próprios mestres que possuíam uma sabedoria carnal e diabólica, Tiago destaca que eram soberbos e mentiam contra a verdade “Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna” ( Tg 4:16 ; Tg 3:14 ).

Em resumo: o soberbo é aquele que ensina outra doutrina que não a de Cristo, como se lê: Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas” ( 1Tm 6:3 -4).

A soberba é uma figura para fazer referencia aos homens que se desviam da palavra de Deus: “Tu repreendeste asperamente os soberbos que são amaldiçoados, que se desviam dos teus mandamentos”( Sl 119:21 ); “Tu repreendeste asperamente os soberbos, os malditos, que se desviam dos teus mandamentos” ( Sl 119:21 ). Semelhantemente, a viúva, o órfão, o pobre são figura que contrapõe a figura dos soberbos, de modo que os humildes, pobres, tristes são bem-aventurados e os soberbos não “O SENHOR desarraiga a casa dos soberbos, mas estabelece o termo da viúva” ( Pr 15:25 ); “Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações” ( Lc 1:51 ).

Qualquer que presume de si mesmo que tem por Pai Abraão por ser descendente da carne de Abraão é soberbo. Gloria na sua riqueza, porém, é um pobre, cego e nu “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” ( Ap 3:17 ). A humildade não está na pobreza material, e sim em adquirir de Deus vestes de justiça, ouro provado no fogo, ou seja, obediência à fé. Daí a fala de Tiago: “EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça” ( Tg 5:1 -2).

Qualquer que não segue os mandamentos de Deus está à mercê da própria vontade, portanto, é soberbo e nada sabe “A nossa alma está extremamente farta da zombaria daqueles que estão à sua vontade e do desprezo dos soberbos” ( Sl 123:4 ).

Para humilhar-se a si mesmo basta tomar sobre si o jugo de Cristo, ou seja, é necessário aprender com Ele, que é humilde e manso de coração: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

Por que Jesus era manso? Porque Jesus resignou-se a obedecer ao Pai.

Em tudo Ele cumpriu o que predisse a profecia. Jesus poderia deliberar ir atrás de uma montaria melhor para apresentar-se a Jerusalém, porém, resignou-se a cumprir a profecia “Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei aí te vem, Manso, e assentado sobre uma jumenta, E sobre um jumentinho, filho de animal de carga” ( Mt 21:5 ); “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta” ( Zc 9:9 ).

A melhor tradução é a que demonstra que Jesus veio humilde, e não pobre como a utilizada acima, pois o verso demonstra a obediência do servo do Senhor.

Quando a bíblia diz que Moisés era o homem mais manso que havia sobre a terra, não estava apontando virtudes psíquicas, antes destacando a obediência de Moisés, que era servo obediente na casa de Deus ( Nm 12:3 e 7; Hb 2:5 ).

Qualquer que executa a obra de Deus é manso, humilde. Qualquer que põe por obra o juízo de Deus é manso “Buscai ao SENHOR, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do SENHOR” ( Sf 2:3 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

A verdadeira humilhação pertinente ao cristão refere-se ao momento que se fez servo de Cristo, tomando sobre si o jugo de Cristo.

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Tiago 1 – Perseverança

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros. Qual o erro que o apóstolo Tiago repreende? Erros comportamentais ou conceituais? O apóstolo faz uma repreensão acerca de erros conceituais, visto que alguns destes erros já havia se instalado na compreensão de alguns. Pensar que as tentações são provenientes de Deus é um erro conceitual, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boas dádivas e todo dom perfeito.

Introdução

O apóstolo Tiago utiliza uma linguagem própria aos evangelistas. Ele não se fixa nos pormenores e nas argumentações teológicas.

A linguagem utilizada por Tiago é bem próxima a do apóstolo João, e faz uma abordagem prática do evangelho.

A abordagem de Tiago difere um pouco da abordagem de Paulo, porém, não há discrepância alguma entre os escritos deles.

Analisaremos os escrito de Tiago, comparando-os com as argumentações de Paulo, quando possível.

A Obra Perfeita da Fé

 

1 Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde.

O apóstolo Tiago dá inicio a sua carta com as mesmas considerações de Paulo. Eles se consideravam servo de Deus e do Senhor Jesus.

A apresentação de Tiago é sucinta, isto porque ele não enfrentava os mesmos problemas que o apóstolo Paulo, Paulo tinha o seu apostolado contestado por grupos judaizantes.

Os destinatários da carta são identificados como sendo as doze tribos da dispersão. O apóstolo Pedro também nomeia os destinatários de sua carta de forma semelhante.

Tal nomeação não se refere ao povo de Israel, antes aos cristãos, sejam eles judeus ou gentios que estavam ‘dispersos’ pelo mundo de então.

Quando Tiago identifica os destinatários como sendo os cristãos, isto nos dá um parâmetro quanto à interpretação: mesmo utilizando uma linguagem própria aos evangelistas, ele escreve a pessoas que já eram crentes e que conheciam o evangelho.

 

2 Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;

O apóstolo conclama os irmãos a alegria quando estivessem sendo provados. Neste versículo tentação é prova, e não uma oferta para a pratica de uma conduta pecaminosa.

As argumentações deste capítulo iniciam-se neste versículo e caminha para um clímax no capítulo dois.

O apóstolo centra a sua argumentação na tentação, e o tema segue por toda a carta.

 

3 Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.

A alegria é certa quando aquele que é provado conhece precisamente que a fé provada gera a paciência ( Rm 5:3 ).

A tentação é uma maneira de se por a fé em prova.

 

4 Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma.

O apóstolo Tiago solicita aos cristãos que sejam pacientes, visto que a obra perfeita da fé é a perseverança ( Hb 10:36 ; Tg 5:7 ). Quando o cristão é provado, ele possui elementos para examinar a si mesmo ( 2Co 13:5 ).

A paciência se evidencia com a prova da fé.

 

5 E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.

A sabedoria que Tiago faz alusão neste versículo está interligada a paciência do versículo anterior. Se o cristão tem paciência, ele é perfeito e completo, visto que nada lhe falta, aguardando a manifestação em glória de Cristo Jesus.

Se um cristão tem falta de sabedoria, deve pedir a Deus que a dará liberalmente. Mas, qual a sabedoria que os cristãos receberão de Deus? A resposta é dada pelo próprio apóstolo: “Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia” ( Tg 3:17 ). Ou seja, a sabedoria que será concedida possui vínculo com a paciência, a obra perfeita da fé.

Observe que o versículo anterior ressalta que devemos ser perfeitos sem ter falta de coisa alguma, mas que se tivéssemos falta da sabedoria que é pura, pacifica e moderada, era só pedir que será concedido liberalmente.

 

6 Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.

O cristão deve pedir a sabedoria de Deus com fé, ou seja, sem dúvida alguma quanto àquele que concede liberalmente.

O apóstolo faz a primeira comparação em sua carta: aquele que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e é lançada de uma a outra parte.

Aquele que duvida é inconstante em todos os seus caminhos, e não só quanto ao que pede a Deus. A comparação do apóstolo com a onda do mar está para o homem que é dobre de coração, e não para o que se pede a Deus.

O apóstolo deixa de enfatizar a provação e passa a concitar a fé dos ouvintes.

 

7 Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa.

Por que aquele que duvida não receberá de Deus coisa alguma? Deus estaria punindo o reticente? Não!

O homem sem fé não receberá de Deus coisa alguma, pois dele temos a promessa, e para alcançarmos o prometido devemos ser pacientes “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

8 O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos.

Como o apóstolo está aconselhando os cristão à pratica do evangelho, ele aponta os vários aspectos pertinentes a vida do homem. Pela fé alcançamos a salvação de Deus, mas isto não confere ao salvo tranqüilidade em todas as áreas de sua vida. O homem pela fé alcança salvação, mas tal salvação não confere riqueza, felicidade no casamento ou a mudança instantânea de comportamento.

O apóstolo Tiago precisava tratar de um assunto complexo entre os cristãos, e para isto ele utiliza o capítulo um de sua carta preparando os corações dos ouvintes para o tema principal: a acepção de pessoas!

Do versículo dois até aqui, o apóstolo Tiago está estruturando o irmão de condição humilde. Nos versículos dez e onze o apóstolo alerta os cristãos de boa condição financeira.

Observe que não há mudança na ideia no contexto geral tratado no primeiro capítulo. Compare o versículo dois com o doze.

O capítulo um da carta de Tiago é um exemplo claro de psicologia aplicada. Ele não apresenta o problema a ser tratado de inicio. Ele primeiro trata de estruturar os ouvintes evidenciando as provações, a fé, a condição pessoal, a conciliação, para depois trazer o problema à tona.

 

Posições: Alta e Insignificante

9 Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação,

O irmão de condição financeira humilde deveria gloriar-se na sua exaltação, ou seja, ter grande alegria, visto que, a sua condição humilde lhe concedia muitas provações, muitos motivos para se refugiar em Deus, desenvolvendo a perseverança, que resultará na exaltação futura ( Hb 10:36 ).

O irmão de condição humilde tem maior motivo para exercitar a sua fé em perseverança, isto é, para gloriar-se.

Sobre este aspecto Paulo demonstra que, caso fosse gloriar-se, gloriaria em suas fraquezas ( 2Co 12:5 ).

 

10 E o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva.

O rico deveria ANALISAR a sua condição de maneira diferente. Deveria ter em mente a sua fragilidade, visto que o homem nada é.

O homem tem grande tendência a confiar naquilo que pode ver, o que pode lhe ofuscar a visão de que ele é sustentado por Deus e para ilustra a condição dos homens, principalmente os ricos, Tiago lembra a fragilidade da flor.

 

11 Porque sai o sol com ardor, e a erva seca, e a sua flor cai, e a formosa aparência do seu aspecto perece; assim se murchará também o rico em seus caminhos.

Tudo que é exterior ao homem perece com o tempo. Os caminhos que os homens trilham neste mundo têm um fim, e para o rico não é diferente “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” ( 2Co 4:18 ).

 

12 Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Esta é uma declaração prática de elementos pertinentes ao evangelho de Cristo. Esta declaração é igual a do escritor aos Hebreus:

“Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

Aquele que suporta a provação demonstra que é paciente, e que receberá de Deus a vida eterna prometida a todos quantos creram em seu Filho.

A vontade de Deus é que todos os homens creiam naquele que ele enviou. A promessa é de vida, e vida eterna. Mas, para alcançá-la o homem precisa de perseverança na fé dada aos santos.

As discrepâncias de ordem socioeconômica no seio da igreja local estavam causando alguns problemas que será tratado no capítulo dois. Porém, Tiago estrutura os seus leitores a serem pacientes, suportando as tentações e provações.

 

13 Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.

O apóstolo passa a demonstrar que as provações da vida não são provenientes de Deus. Alguém pode considerar que Deus para aperfeiçoar a fé de seus filhos acaba por submetê-los a inúmeras provações. Mas, não é assim! Deus a ninguém tenta.

A fé não precisa ser aperfeiçoada. O que é passível de aperfeiçoamento é o comportamento humano e a sua compreensão da realidade a sua volta. A fé é dom de Deus, que é perfeita como perfeito é o Pai celeste que nos dá todas as garantias necessárias que estruturarmos a nossa crença.

Por isso o apóstolo Paulo diz: “Eu sei em quem tenho crido” ( 2Tm 1:12 ).

 

 

14 Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.

Após descartar que as tentações são provenientes de Deus, Tiago demonstra onde as tentações têm origem.

Neste versículo ele não aponta a origem do pecado, visto que o pecado teve origem em Adão, lá no jardim do Éden. Observe que ninguém tem a possibilidade de pecar a semelhança da transgressão de Adão. Não há como os descendentes de Adão dar origem ao pecado “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Cada ser humano possui um desejo em particular. Cada pessoa vê as coisas com valores diferenciados. Uns dão maior valor a bens materiais, outros a conduta, outros a dignidade, etc.

O apóstolo Tiago demonstra que o homem é tentado pelo seu próprio desejo. Ele cobiça, é atraído e seduzido pelos seus interesses.

Este desejo após tomar corpo, se for levado a efeito, resulta em uma conduta pecaminosa. Se o desejo for vetado pela consciência do homem, por leis, ou regras éticas, mas este homem leva a efeito este desejo, acaba por gerar a morte.

Por que o apóstolo toca neste assunto? Por causa de elementos apontados no versículo dezenove e vinte deste mesmo capítulo.

Note que Tiago está escrevendo a cristãos, pessoas que não estavam mais sujeitas ao pecado. Da mesma forma estavam livres do pecado de Adão, uma vez que já criam em Cristo. Como um desejo não contido poderia levar a morte?

Caso os ouvintes não suportassem a tentação; caso não fossem perseverantes na fé que receberam, e lançassem mão da ira, deixariam de se sujeitar a justiça de Deus que é pela fé, e estabeleceriam uma própria com base na vingança. Tal inversão, adotar uma justiça própria em lugar da divina, leva a morte espiritual.

 

15 Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.

O apóstolo está tratando de questões práticas. O irmão de condição humilde deveria ter em conta a sua dignidade. Já o de condição abastada, em quanto era insignificante a existência dos homens sobre a face da terra.

Se estas pessoas considerassem estes elementos, não seriam tentados a fazer acepção de pessoas ( Tg 2:2 ). Da mesma forma caso alguém fosse discriminado, sofreria a provação e não lançaria mão da ira, pois tal ação substitui a justiça de Deus que é pela fé, e se estabelece uma outra, a justiça própria.

Através da fé recebemos a justiça de Deus, pois é Deus quem nos justifica. Quando queremos embasar as nossas ações em um sentimento próprio de justiça e de vingança, estaremos vestidos de trapos de imundície. Só resta a morte diante de Deus.

A morte não é resultado da conduta errônea, e sim da falta de fé. Se não há fé, não se consegue sofrer as tentações com paciência. Se não há fé, o homem não espera na providência divina e passa a agir por conta própria.

 

16 Não erreis, meus amados irmãos.

A determinação é específica aos cristãos (meus amados irmãos). O apóstolo solicita aos cristãos que não errassem demonstrando que, mesmo os cristãos são passíveis de erros.

Qual o erro que o apóstolo faz referência? Erros comportamentais ou erros conceituais?

O apóstolo faz uma repreensão acerca do erro conceitual que havia se instalado em alguns. Alguns pensavam que a tentação era proveniente de Deus, porém, a verdadeira concepção acerca de Deus é que Ele concede boa dádiva e todo dom perfeito. Compare: ( Gl 6:7 e 1Co 6:10 ).

 

Erros Conceituais

17 Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.

 

Os leitores não deviam cometer o erro de considerar que as tentações eram provenientes de Deus. Antes deveriam considerar que de Deus é proveniente toda a boa dádiva e todo o dom perfeito.

As bênçãos são provenientes de Deus, que desce de Deus, ou antes, vem do alto.

Não é próprio de Deus a mudança e nem mesmo a ‘sombra’ de variação, fato que por si só demonstra que não deveriam errar quanto ao conceito de que Deus tenta alguém com o mal e que concede todo o dom perfeito.

 

18 Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fossemos como primícias das suas criaturas.

 

Esta carta utiliza uma linguagem eminentemente evangelística, porém, neste versículo fica demonstrado que o apóstolo possuía perfeita compreensão das nuances teológicas da mesma forma que Paulo e Pedro.

O apóstolo Tiago não se utilizou de conceitos teológicos ao escrever por questões próprias ao público alvo da carta. Não se deve considerar que o apóstolo Tiago não comungava ou que não possuía a mesma compreensão que o apóstolo Paulo demonstra em suas cartas.

Toda: Deus concedeu aos cristãos toda boa dádiva e todo o dom perfeito, de maneira que nada falta àqueles que aguardam a Jesus “De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” ( 1Co 1:7 );

Boa dádiva: Presente de Deus aos homens.

Dom perfeito: A graça de Deus por meio do evangelho “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 );

Pai das luzes:“Deus é luz, e nele não há trevas alguma” ( 1Jo 1:5 ); “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” ( Gl 3:26 );

Em quem não há mudança e nem sobra de variação: A imutabilidade de Deus é base para a nossa fé “Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” ( Hb 6:17 ), pois só pela fé em Deus somos filhos da Luz;

Segundo a sua vontade: Segundo o consentimento (beneplácito) de Deus que, por meio da fé, adquiríssemos a filiação divina “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:5 );

Ele nos gerou de novo: Aqueles que creem em Cristo são novamente criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Não é uma reformulação ou uma melhoria na velha natureza. Antes recebemos poder para sermos feitos (criados novamente) filhos de Deus “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 );

Palavra da verdade: A palavra da verdade é a mensagem do evangelho, pois o apóstolo Paulo demonstra que o evangelho é poder de Deus para todos quanto crerem ( Rm 1:16 );

Para que fossemos como primícias das suas criaturas: Aqueles que creem são gerados de novo e passam a ser uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Dentre todas as criaturas de Deus somos considerados como sendo as primícias, visto que ressurgimos com Cristo dentre os mortos “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem” ( 2Co 5:17 );

Com base neste versículo podemos verificar que não há divergência alguma entre o que Tiago e Paulo escreveram em suas cartas.

É característica própria a carta de Tiago utilizar uma linguagem evangelista, já que o público alvo da carta se constitui de leigos. Eram carentes de conhecimento ( Tg 1:3 ; 5; 16; 19), e uma linguagem teológica não seria de todo compreendida.

Por isso o apóstolo Tiago apresenta um evangelho aplicado e menos conceitual.

E Tiago prossegue: “Sabei isto, meus amados irmãos…” (v. 19).

 

19 Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.

O apóstolo reitera pela terceira vez: meus amados irmãos!

Ele não exclui quem quer que fosse da exortação: Todo o homem:

1º Deveriam ser prontos a ouvir;

2º Tardios a falar, e;

3º Tardios a irarem-se.

O apóstolo reitera alguns cuidados que os irmãos deveriam ter quanto a paciência. O homem paciente está pronto a ouvir! Esta recomendação tem dois aspectos dentro do contexto que Tiago procurou transmitir:

a) Eles ouviriam prontamente a mensagem que estava sendo transmitida por meio da carta, e;

b) Quanto fossem inteirados dos problemas existentes no seio da igreja ( Tg 2:1 -4), não partiriam para julgamentos precipitados, antes estariam prontos a ouvirem um pouco mais. Seriam pacientes.

As recomendações deste versículo soam como um freio à concupiscência de alguns, que eram atraídos a falarem precipitadamente ( Tg 1:13 -14).

Tiago utiliza o mesmo principio que Paulo ao exortar o homem a examinar a si mesmo. Este com poucas palavras, de maneira direita e incisiva, aquele utiliza o texto para evidenciar a cada indivíduo o seu erro, fazendo com que se esquecessem dos erros do próximo.

 

20 Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus.

Este versículo esclarece o versículo 15.

A abordagem de Tiago tem inicio com a declaração: “Bem-aventurado aquele que suporta a provação” (v. 12). Este homem receberá de Deus o prometido, a coroa da vida, o que é pertinente ao homem livre do pecado.

 

Os que amam a Deus são aqueles que foram chamados segundo o seu propósito de fazer convergir em Cristo todas as coisas; estes não estão sujeitos ao pecado e têm direito à coroa da vida; antes eram sujeitos ao pecado, e, portanto, alijados da vida que há quando se está em Deus”

Nestes versículos podemos observar que dois temas são desenvolvidos paralelamente:

a) Não deveriam errar nas questões conceituais. Se Deus não muda, como conciliar ‘boa dádiva’ com ‘o tentar com o mal’?

b) A maldição do pecado só recai sobre aqueles que não perseveram, e, portanto, não são bem-aventurados.

As questões relativas ao parágrafo (a) já foram comentadas anteriormente.

Sobre o parágrafo (b) resta descobrir qual o tipo de ‘pecado’ que leva o cristão a morte.

O cristão que for atraído e engodado pela sua própria concupiscência (um exemplo prático que o apóstolo Tiago utiliza é a precipitação em falar (v. 19), não suportando a tentação, teria em si mesmo os elementos necessários a concepção da concupiscência.

É questão de tempo para a concupiscência tomar corpo e dar à luz o pecado e do pecado advém à morte!

O pecado que dá luz à morte é o lançar mão da ira.

Deus diz: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” ( Rm 12:19 ); “Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo” ( Hb 10:30 ).

Quando Paulo diz: “…dai lugar a Ira…”, é uma referência clara ao Senhor! É o mesmo que dizer, daí lugar a Deus, pois a Ele pertence a Ira “Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” ( Cl 3:6 ).

Aquele que não suporta a tentação, que advém de uma cobiça e se põe a falar incontidamente, acabará se inflamando em sua própria ira. Este morrerá, visto que deixou de se sujeitar a justiça de Deus, que é pela fé.

Aquele que sai a vingar-se a si próprio está trilhando o mesmo caminho de Davi quando induzido por Nabal “Agora, pois, meu senhor, vive o SENHOR, e vive a tua alma, que o SENHOR te impediu de vires com sangue, e de que a tua mão te salvasse; e, agora, tais quais Nabal sejam os teus inimigos e os que procuram mal contra o meu senhor” ( 1Sm 25.26 ).

O apóstolo Tiago prevendo que alguém poderia ficar indignado frente aos problemas que seriam relacionados nos versículo 1 a 5 do capítulo 2, antecipa-se e demonstra que, se alguém não adotasse o comportamento do versículo 19, incorreria em não estar sujeito a justiça de Deus, que é por meio da fé em Cristo.

Quem se deixar levar pela própria cobiça não suporta a provação, e passa a agir por conta própria alimentando sentimentos facciosos e soberbos, ações pertinentes a ira do homem.

 

 

Recomendações

21 Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas.

 

Já que a justiça de Deus não coaduna com a ira do homem, o apóstolo concita os ouvintes a lançarem fora toda impureza e todo vestígio do mal. A imundície e superfluidade de malícia são descritas em Tiago três, treze a dezesseis.

A amarga inveja e o sentimento faccioso geralmente advêm da incontinência em falar e da pressa em vingar uma causa própria.

A prontidão em falar acintosamente e a ira não é próprio daqueles que são mansos, ou seja, a palavra do evangelho deve ser recebida em mansidão.

A palavra de Deus é poder de Deus para todo aquele que crê, ou seja, poder de Deus para salvação das vossas almas.

 

22 E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos.

Tiago solicita um compromisso com a palavra do evangelho. O compromisso com a palavra se estabelece quando o ouvinte resiste as tentações, é paciente, e manso. Este não esta se enganado a si mesmo.

 

23 Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural;

Esta é a segunda comparação que Tiago faz.

Ele estabelece uma hipótese: “Se…”. Aquele que duvida é comparado à onda do mar, e o ouvinte que não pratica é semelhante a quem contempla o próprio rosto através de um espelho. A comparação se firma no versículo seguinte:

 

24 Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era.

Através das comparações Tiago demonstra dois perigos:

a) O ouvinte esquecido ou relapso, e;

b) Ouvinte sem fé, que é levado de uma a outra parte “…porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte” (v. 6).

25 Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.

O apóstolo faz uma ressalva: “Aquele, porém…”.

O ouvinte que recebe a palavra com fé e a pratica, este é o que atenta bem para a mensagem do evangelho, a lei perfeita.

A lei que não deixa alternativa de escolha não é perfeita. A lei perfeita deixa alternativa entre cumprir e o não cumprir.

Tiago alerta novamente o ouvinte relapso e o sem fé:

a) e nisso persevera – a perseverança é resultado da fé em prática. A fé posta em prova produz a paciência, e o exercício da fé à perseverança “Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência” (v. 3); “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” II Jo 1. 9.

b) não sendo ouvinte esquecido – o ouvinte esquecidiço é aquele que não cumpre a palavra. Ele não é fazedor da obra e nem bem-aventurado.

Só é bem-aventurado o ouvinte que atenta para o evangelho com fé. Este será perfeito e sem falta de coisa alguma, visto que é paciente.

O que suporta a tentação é aquele que cumpre com a palavra, ou, aquele que faz a obra, sendo o resultado disso a paciência, a obra perfeita “Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” (v. 4).

 

26 Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã.

 

O apóstolo Tiago chega ao momento da prática. Ou seja, se o cristão não suportar a provação, não terá a obra perfeita, que é a paciência. Este passará a agir, não refreando a língua. Descumprirá cabalmente a determinação: “…todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar…” (v. 19), enganando a si mesmo (v. 22). Tal homem se apoiará na religiosidade, onde a justiça de Deus não opera.

Tal homem está enfatuado, pois se apóia em um discurso falso: sou religioso! “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (v. 22).

 

27 A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.

Uma demonstração clara de que alguns estavam apoiados em falsos discursos é que a verdadeira religião se resume em assistencialismo aos órfãos e viúvas, sem se contaminar com a corrupção do mundo.

As recomendações aos gentios no concílio de Jerusalém são claras: “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

Sobre este mister o apóstolo Paulo foi alertado: “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência” ( Gl 2:10 ).

Tais determinações foram necessárias, visto que alguns não estavam atentando para a perfeita lei da liberdade: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão” ( Gl 2:4 ).

A recomendação de Tiago era tão somente para que observasem o que era pertinente ao evangelho de Cristo “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes…”, porém, alguns estavam presos à religiosidade, que se firma em questões tais como o legalismo, o formalismo e a moralidade. Estes estavam se enganando quando se firmavam nos discursos da religiosidade: “…enganando-vos com falsos discursos”.

Vale salientar que o capítulo um da carta de Tiago visa preparar os cristãos para a exposição de questões que são abordadas no capítulo Dois.

O leitor desta carta deve ter o cuidado de observar e analisar o seu conteúdo sobre o prisma de um único contexto.

A carta de Tiago desenvolve uma idéia principal, porém, antes de especificá-la, ele teve o cuidado de preparar os seus destinatários diretos, os cristãos de sua época, com várias exortações, exemplos e comparações.

Não devemos nos ater as exortações, exemplos e comparações sem o prisma da idéia principal.

A linguagem que Tiago utiliza é evangelística, pois não se estrutura em citações do antigo testamento. A linguagem é baseada em comparações e exemplos pertinentes ao dia-a-dia dos leitores ( Tg 1:10 -11, e 23).

Quando se faz necessário a exposição de alguns conceitos de cunho teológico, o apóstolo Tiago se socorre de conceitos incontestes ( Tg 1:17 ), sem o auxílio da citação de trechos do antigo testamento.

A carta de Paulo aos Efésios segue quase a mesma estrutura de linguagem de Tiago por não utilizar citações do antigo testamento.

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