Há mérito em crer em Cristo?

‘Crer’ decorre da ‘fé’, não o contrario. Arrependimento decorre da ‘fé’ (evangelho) e nunca a ‘fé’ do arrependimento. Sem a fé manifesta, que é Cristo, é impossível o homem arrepender-se e crer para a salvação. Sem o conhecimento de Deus, a mensagem do evangelho, não há no que o homem possa crer, que o livre da condenação. O homem pode crer em Deus, crer em anjos, crer em milagres, crer no impossível, etc., mas se não crer em Cristo, o dom de Deus, não será salvo (Jo 14:1).


“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé” (Fl 3:9)

A fé

Após ler o livro ‘Tudo de Graça’, do pregador Charles H. Spurgeon, no capítulo ‘Pela graça, mediante a fé’, deparei-me com o seguinte posicionamento:

“Que imensa é a graça de Deus! Quem poderá medir sua extensão? Quem poderá imaginar sua profundidade? Como os demais atributos divinos, ela é infinita. Deus é cheio de amor, pois “Deus é amor”! [1João 4.8]. Bondade e amor fazem parte da real essência do Deus triuno. Ele é todo bondade. Exatamente, porque Deus é misericordioso, que não somos todos destruídos. Lembre-se disso, ou você poderá cair em erro, fixando tanto a sua mente na fé, que é o meio da salvação e esquecendo-se da graça, fonte da própria fé.  Fé é obra da graça de Deus, em nós. Ninguém poderá dizer que Jesus é o Cristo, senão por obra do Espírito Santo. “Ninguém poderá vir a mim,” disse Jesus, “se, pelo Pai, não lhe for concedido” [João 6.65]. De maneira que a fé, que é o ato de ir a Cristo e concessão divina da graça. A graça é a primeira e última causa movedora da salvação; e a fé, por mais essencial que seja, é apenas parte importante do mecanismo utilizado pela graça. Somos salvos “mediante a fé”, mas “pela graça”. Soam essas palavras como que, proferidas pela voz do arcanjo: “Pela graça sois salvos”. Que boas novas para quem não merece (…) Ainda assim, quero lembrar que a fé é apenas um canal ou aqueduto, não a própria fonte. Não deveríamos considerá-la, além da fonte de todas as bênçãos, a graça de Deus. Jamais figure Cristo, a partir de sua fé, nem pense nela como fonte independente para a sua salvação. Nossa vida é achada quando olhamos para Jesus, não quando olhamos para a nossa fé” Spurgeon, C. H. Tudo de Graça, Titulo Original, All of Grace (1894), Tradução Wadislau Martins Gomes, 2010, pág. 25.

De que ‘fé’ Spurgeon está tratando?

Como no início do capítulo 7, do livreto ‘Tudo de graça’, Spurgeon cita o versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8). Eu esperava que ele fizesse referência à ‘fé’ como ‘evangelho’, por meio da qual o homem é salvo, mas fui frustrado.

Apesar de ter dito boas coisas, acerca da graça de Deus, o texto de Spurgeon não passa de tergiversações, acerca da graça e da fé, pois, a sua exposição, decorre de má leitura do texto bíblico, o que o tornou doutrinariamente tendencioso.

Quando o apóstolo Paulo diz: “Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8), acerca de qual ‘fé’ o apóstolo está escrevendo? Da ‘fé’ que é anunciada aos gentios e que deve ser obedecida (Rm 1:5 e 8), ou, da que significa ‘crer’, ‘acreditar’ em Cristo, disposição decorrente da verdade do evangelho que, também, é nomeada ‘fé’ (Rm 4:3)? Spurgeon fez a sua exposição, apontando para a ‘fé’ que é anunciada (pregada) ou, para a necessidade de ‘crer’ no evangelho? Neste sentido, a ‘fé’ é objetiva (doutrina, crença) ou, diz de uma ‘fé’ subjetiva (acreditar, crer, questão de foro íntimo)?

Ora, o apóstolo Paulo, ao afirmar que os cristãos de Éfeso eram salvos, por meio da fé, na verdade, estava abordando a própria fonte da salvação: Cristo. Cristo Jesus é a ‘fé’ que se manifestou na plenitude dos tempos e que faz os homens agradáveis a Deus:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6).

Enquanto, o que está sendo apresentado pelo apóstolo dos gentios aos cristãos de Éfeso, diz da fé[1] como verdade, fidelidade, etc., Spurgeon leu o termo ‘fé’, no sentido de crer[2], de acreditar. Spurgeon fez má leitura do termo ‘fé’, tradução do termo grego πίστις (pistis), conforme empregado no versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Ef 2:8), o que afetou a sua compreensão.

Enquanto o apóstolo Paulo apresenta a ‘fé’ que salva e é ‘firme fundamento’ (Hb 11:1), Spurgeon faz referência à disposição do indivíduo de ‘crer’, ‘acreditar’. Enquanto o apóstolo Paulo trata da fé, como o dom de Deus – Cristo – Spurgeon faz elucubrações equivocadas, tanto da fé, como  doutrina (πίστις), quanto do ato de crer, acreditar (πιστεύω).

Por definição, a ‘fé’, da qual o escritor aos Hebreus faz referência, diz do ‘firme fundamento’, que é Cristo, o fundamento dos apóstolos e dos profetas (Ef 2:20; 1Co 3:11). O escritor aos Hebreus não fez referência à certeza de alguém que espera um evento, pois, o homem, mesmo equivocado, pode nutrir uma certeza e esperança que jamais se concretizarão. O escritor aos Hebreus fez referência ao firme fundamento, à prova, que, apesar de não estar ao alcance dos olhos, torna o que se espera confiável.

O termo hebraico אֱמוּנָה (emunáh), traduzido por ‘fé’, decorre, etimologicamente, de diversos significados, quais sejam: veracidade, sinceridade, honradez, retidão, fidelidade, lealdade, seguridade, crédito, firmeza e verdade. A ‘fé’, como ‘firme fundamento’ e ‘prova’, diz da palavra de Deus, que é fiel e digna de toda aceitação: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus, veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1:15).

O apóstolo Paulo, no capítulo 2 de Efésios, verso 8, disse que o homem é salvo, gratuitamente, pela misericórdia de Deus (graça), por meio de Cristo (fé), pois Cristo é o dom de Deus (Jo 4:10). Equivocadamente, Spurgeon trata a fé (πίστις), que o apóstolo Paulo aborda no verso 8 de Efésios 2, como crença (πιστεύω). Ele não considerou que o termo grego πίστις, transliterado pistis, comumente, traduzido por ‘fé’, na verdade, foi empregado pelo apóstolo Paulo, na qualidade de figura de linguagem: metonímia ou transnominação[3].

Metonímia é recurso de estilo linguístico e um desses recursos, consiste em substituir o autor, pela obra. Assim, como é possível dizer: gosto de ler Jorge Amado, em lugar de dizer: gosto de ler os livros de Jorge Amado, sabendo que Cristo é o autor e consumador da ‘fé’, é possível dizer: guardei a fé (πίστις), em vez de dizer: guardei o mandamento ou, o evangelho (1Tm 3:9; 1Tm 6:14; 2Tm 4:7; 1Jo 2:4 -5).

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

Sabemos que o homem é salvo por intermédio do evangelho (Ef 1:13), que é o poder de Deus (Rm 1:16). Sabemos, também, que, por diversas vezes, o termo εὐαγγέλιον (evangelho) é substituído pelo termo πίστις (fé). É possível dizer: ‘batalhar pelo evangelho’, ou: ‘batalhar pela fé’ (Jd 3).  Neste sentido, desviar-se da ‘fé’, é o mesmo que desviar-se de Cristo, um exemplo de metonímia “A qual, professando-a alguns, se desviaram da fé. A graça seja contigo. Amém” (1Tm 6:21). Esse mesmo recurso permite dizer: ‘mistério da fé’, ‘mistério do evangelho’, ‘mistério da piedade’, ‘mistério de Cristo’, etc. (1Tm 3:9 e 16; Cl 4:3; Ef 6:19).

Quando nos deparamos com o seguinte verso: “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23), devemos considerar que ‘permanecer fundado e firme na fé’, é o mesmo que permanecer em Cristo, o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2:20).

Cristo, a nossa ‘fé’, também é nomeado ‘conhecimento’ e ‘sabedoria’: “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Co 1:24); “Destruindo os conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Co 10:5); “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fl 3:8); “E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (Rm 13:11).

Ao iniciar o capítulo 7 do seu livreto, sob o título “Pela graça mediante a Fé”, Spurgeon cita Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé”. Em seguida, Spurgeon fez algumas considerações acerca da extensão da misericórdia de Deus, onde afirma que: ‘… você poderá cair em erro, fixando tanto a sua mente na fé…’, e conclui: ‘… que é o meio da salvação e esquecendo-se da graça, fonte da própria fé’.

Ora, o homem é salvo pela misericórdia de Deus, demonstrada em Cristo, ou seja, por meio da fé (verdade, evangelho). Por isso, é dito pelo apóstolo Paulo a Tito que ‘a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens’ (Tt 2:11), assim como foi dito aos cristãos da Galácia que, quando estavam debaixo da lei, estavam encerrados para ‘aquela fé que se havia de manifestar’ (Gl 3:23). A graça de Deus se manifesta em Cristo e Cristo manifesta a graça de Deus. Quando Cristo foi manifesto em carne, manifestou-se a graça de Deus a todos os homens, ou seja, manifestou-se a fé, manifestou-se a palavra: “TU, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (2Tm 2:1).

No que consiste o argumento de Spurgeon: ‘fixando tanto a sua mente na fé’? Ora, se a fé da qual Spurgeon está tratando, diz de crer, com relação a quem crê em Cristo, não se pode dizer que está fixando a sua mente no ‘crer’. Mas, se ele estivesse falando da ‘fé manifesta’, que é Cristo, não há erro em fixar a mente na ‘fé’, pois o apóstolo Paulo afirma que é necessário ao cristão ter firmeza na fé (Cl 2:5; 2Pd 3:17).

É necessário ‘reter a palavra da vida’, ou seja, ‘guardar a fé’ (Fl 2:16). E como fazê-lo, sem fixar a mente na ‘fé’? Fixar a mente no ‘evangelho’, na ‘fé’ é segurança, tanto que o apóstolo Paulo não se cansava de escrever acerca das mesmas coisas (Fl 3:1). Reter a palavra da vida é a obra perfeita da fé: perseverança (Tg 1:2). Aquele que persevera na doutrina, não se deixa envolver por doutrinas várias e estranhas, vez que se fortificou na graça, ou seja, na fé. “Não vos deixeis levar em redor por doutrinas várias e estranhas, porque bom é que o coração se fortifique com graça e não com alimentos que de nada aproveitaram aos que a eles se entregaram” (Hb 13:9).

Os termos ‘fé’, ‘graça’ e ‘evangelho’, são intercambiáveis, por causa da pessoa de Cristo, de modo que podemos dizer que o homem é justificado pela fé, ou pelo evangelho, ou pela graça, ou por Cristo: “Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3:7); “Porque se introduziram alguns, que já, antes, estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Jd 1:4); “Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada(1Pd 1:10); “Por isso, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade” (Hb 12:28).

Infelizmente, Spurgeon não soube ler a mensagem que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Éfeso, concernente à ‘fé’ e a ‘graça’, vez que o apóstolo, ao escrever, trouxe à memória dos cristãos que, antes de crerem em Cristo (Ef 1:13), todos eram por natureza filhos da ira (Ef 2:3). Em seguida, o apóstolo aponta para a infinita misericórdia de Deus, pois, apesar da condição deles no passado (mortos em delitos e pecados), Deus os vivificou juntamente com Cristo.

Nos versos que se seguem (vv. 5 à 10), o apóstolo continua a descrever o que Deus fez pelos cristãos, sem abordar nenhuma questão pertinente aos homens, nem mesmo a necessidade de crer. Tudo o que o apóstolo aborda, restringe-se ao que Deus faz pelo homem (Ef 2:10; Is 26:12).

Quando o homem morre com Cristo, Deus é justo, pois ‘a alma que pecar essa mesma morrerá’ (Ez  18:4). Mas, apesar de não ter dívida alguma para com aqueles que morrem com Cristo, ao satisfazer o que a lei exige, pela sua misericórdia e graça, Deus faz ressurgir um novo homem, uma nova criatura, criada em verdadeira justiça e santidade (somos feitura Sua).

Deus é misericordioso por salvar o homem, porém, jamais poderia passar por sobre a sua justiça, por isso, a sua misericórdia é demonstrada em Cristo, para que Ele seja justo e justificador “… pela sua benignidade para conosco em Cristo” (Ef 2:7). A misericórdia de Deus é demonstrada em Cristo, porque é necessário aos descendentes de Adão serem participantes da morte de Cristo, para serem justificados do pecado (Rm 6:7), e, em seguida, Deus age, poderosamente, ressuscitando-os, segundo a sua maravilhosa graça (Ef 1:19; Cl 3:1).

É Deus justo e justificador, que salva segundo a Sua misericórdia e graça, mas, por meio da fé, ou seja, por meio do evangelho, que é poder de Deus para todo aquele que crê (Rm 1:16 -17).

 

Crer

Spurgeon dá testemunho de que ficou confuso, diante dos diversos conceitos de ‘fé’:

“Que fé é essa da qual é dito: “Pela graça sois salvos, mediante a fé”? Certamente, há muitas descrições de fé, mas quase todas as definições que tenho encontrado, levam-me a entender menos do que entendia antes. É possível que, ao tentar explicar muito alguma coisa, ela se torne ainda mais confusa. Podemos explicá-la tanto, até que ninguém mais entenda. Espero não ser culpado dessa falta. A fé é a mais simples de todas as coisas e, talvez, por causa de tal simplicidade, ela seja de mais difícil explicação”. Spurgeon, C. H. Tudo de Graça, Titulo Original, All of Grace (1894), Tradução Wadislau Martins Gomes, 2010, pág. 27.

Parece que Spurgeon se deixou levar pelas definições que encontrou, pela má leitura que fez de Efésios 2, verso 8 (“Pela graça sois salvos, mediante a fé”), demonstrando que ele nada entendeu acerca do assunto ‘fé’ e ‘graça’, e que o medo que nutria da possibilidade de se fazer culpado, ao abordar o tema, se concretizou.

Vamos à definição de ‘fé’, apresentada por Spurgeon:

“O que é fé? Resumidamente, a fé é feita de três coisas: conhecimento, crença e confiança. Conhecimento vem primeiro. “como crerão naquele de quem nada ouviram?”. É preciso que eu seja informado de um fato antes que possa crer nele (…) A confiança é a corrente sanguínea da fé; sem ela, não haverá fé salvadora. Os puritanos estavam acostumados a explicar a fé, utilizando o termo recumbência (do verbo recumbir). A palavra significa recostar, inclinar; repousar em Jesus Cristo. Haveria melhor ilustração do que dizer: Lance todo o seu peso sobre a Rocha eterna? Entregue-se a Jesus; descanse nele; confie nele” Idem, págs. 27 e 28.

No grego, temos o substantivo πιστις (pistis), comumente traduzido por ‘fé’ e o verbo πιστευω (pisteuo), traduzido por ‘crer’. Nas línguas de origem latina o radical do substantivo ‘fé’ não se flexiona para traduzir a ideia do verbo grego πιστευω (pisteuo – crer), o que obrigou os tradutores a utilizarem o radical da palavra “credere”, vertendo o verbo πιστευω (pisteuo) para ‘crer’.

Crer em Cristo é, simplesmente, acreditar no que as Escrituras dizem acerca d’Ele: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7:38). Não há qualquer outra exigência nas Escrituras, além de crer, para ser salvo (Is 28:16). O poder para a salvação não está no ato de crer, mas no poder da ‘fé’, ou seja, no poder do evangelho (Jo 1:12; Rm 1:16; 1Co 1:18 e 24).

É pelo poder contido no evangelho que o homem é concitado a crer, acreditar, confiar, descansar, repousar, etc. A segurança está na pedra bem fundada e firme, provada e preciosa que Deus assentou em Sião, de modo que quem crer não perece (Is 28:16).

A fé salvadora é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. A fé, que é poder de Deus, não possui ‘corrente sanguínea’ e nem depende da confiança do homem. O homem, confiando[4] ou não, a fé (evangelho) é salvadora, pois se o homem for infiel, Ele permanece fiel: “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2:13).

“A confiança é a corrente sanguínea da fé; sem ela, não haverá fé salvadora” Idem.

A fada Sininho, da estória do Peter Pan, necessita de crianças que acreditem que fadas existem para sobreviver. Não é assim o evangelho de Cristo, pois Ele é salvador, quer o homem creia ou não. A ‘fé’ é firme, indissolúvel, fidedigna, portanto, não depende da confiança do homem, antes, a confiança e a esperança decorrem da ‘fé’. A confiança do homem não salva e nem garante a salvação, antes, é Deus que se interpôs como garantia: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hb 10:23; Tt 1:2; Rm 1:2; Hb 10:23). A segurança de quem crê, está em Deus, que é poderoso e fiel.

Antes que o homem fosse criado, já na fundação do mundo, Deus providenciou salvação a todos os homens, pois o cordeiro de Deus foi morto desde a fundação o mundo (1Pd 1:20; Ap 13:8). Não é a confiança do homem que estabeleceu a salvação em Cristo, mas a verdade de que Cristo foi morto, desde a fundação do mundo, que promove a confiança do homem.

Crer em Cristo é suficiente para ser salvo da condenação, portanto, a ideia de que, além de crer, é necessário se entregar, totalmente, à misericórdia de Deus, é redundância. Crer em Cristo é o mesmo que se entregar à misericórdia de Deus. Considerar que crer é distinto de se entregar à misericórdia de Deus, é uma brecha criada pelos enganadores que, privarão os incautos de desfrutarem da graça de Deus. Quando alguém crê, na verdade, entregou-se ‘completamente’ à misericórdia de Deus.

Outra aberração, é desvincular o ‘arrependimento’, do ato de ‘crer’ e de ‘arrepender-se’. Crer é consequência do arrependimento. Só se arrepende de fato quem, após ouvir o evangelho, crê em Cristo. Quem crê que Jesus é o Cristo de fato mudou de concepção (metanoia), acerca de como ser salvo. Primeiro é anunciada a fé, em seguida o homem se arrepende (metanoia), e, por fim, crê.

‘Crer’ decorre da ‘fé’, não o contrario. Arrependimento decorre da ‘fé’ (evangelho) e nunca a ‘fé’ do arrependimento. Sem a fé manifesta, que é Cristo, é impossível o homem arrepender-se e crer para a salvação. Sem o conhecimento de Deus, a mensagem do evangelho, não há no que o homem possa crer, que o livre da condenação. O homem pode crer em Deus, crer em anjos, crer em milagres, crer no impossível, etc., mas se não crer em Cristo, o dom de Deus, não será salvo (Jo 14:1).

A palavra ‘fé’, quando é empregada nas Escrituras, no sentido de ‘crer’, não é ‘conhecimento’ e nem ‘crença’. Spurgeon equivocou-se ao conceituar quea fé é feita de três coisas: conhecimento, crença e confiança’. ‘Crer’ em Cristo é somente confiança n’Ele, por causa do testemunho que o Pai deu acerca do Filho nas Escrituras. A ‘fé’ (evangelho) é conhecimento, doutrina, crença e a ‘fé’ (crer) é somente confiança. Para que o homem possa crer, primeiro é necessário o ‘conhecimento’, que, em relação ao evangelho, é informação, mensagem, doutrina, espírito, etc., revelado por Deus em Cristo, assim com profetizado pelo profeta Isaias:

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is 53:11)

É impossível a quem crê em Cristo, se gloriar de ter crido. É impossível reputar que há mérito em confiar em Cristo. Quem crê em Cristo, conforme as Escrituras, na verdade gloria-se em Cristo (Fl 3:3). Quem crê em Cristo, na verdade rendeu-se diante da fidelidade de Deus, expressa na sua palavra. O mérito, a glória e a virtude estão no evangelho, mensagem de boas novas de que Cristo veio ao mundo salvar os pecadores: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1:15).

Aquele que crê no evangelho, não necessita preocupar-se com o erro de se gloriar diante de Deus, pois o próprio evangelho exclui a jactância: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27).

Não há como alguém se gloriar de ter amado a Cristo, pois quem ama, não se envaidece e não se vangloria (1Co 13:4). Quem crê, não tem como se vangloriar de ter crido, pois crer em Cristo é obra de Deus (Jo 6:29), que Ele opera, por meio do evangelho. Crer em Cristo é o mandamento de Deus, e quem crê se fez servo. Como gloriar-se de tomar sobre si o jugo de Jesus? Onde está a jactância, no ato de levar sobre si o fardo de Jesus?

Quando Jesus concitou os seus interlocutores, cansados e sobrecarregados, a tomarem sobre si o seu jugo, na verdade, estava requerendo que eles se sujeitassem como servos (Mt 11:28-30).

Por não se sujeitarem a esse ‘conhecimento’ especifico, é que os judeus, sem entendimento, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeita à justiça que vem de Deus – Cristo (Rm 10:1-3). Se compreendessem que o justo vive da fé, ou seja, que o homem só vive através da palavra que sai da boca de Deus (Dt 8:3; Hc 2:4), os judeus saberiam que o homem só é justificado pela pregação da fé (Gl 3:2 e 5).

A lei exige realizações (Rm 10:5), a fé (evangelho) exige que se creia (Rm 9:33). A justiça, que vem por intermédio da ‘fé’, se dá quando o homem morre e ressurge com Cristo e o que permite ao homem morrer e ressurgir, é crer na palavra da fé, que foi anunciada pelos apóstolos e profetas (Rm 10:8). Os judeus ouviam e acreditavam que seriam justificados pela lei, mas como a lei estava enferma pela carne, ela era inócua para o que os judeus pretendiam alcançar (Rm 2:17; Gl 3:11).

A fé (crer) que os judeus depositavam na lei, é a mesma fé (crer) que o arrependido deposita no evangelho. O diferencial está em que, a lei não tem o poder que o evangelho possui. O propósito da lei é conduzir o homem a Cristo e o propósito do evangelho. é conduzir o homem a Deus. por intermédio de Cristo.

Spurgeon parece exalar sabedoria e humidade nas palavras:

De maneira que a fé, que é o ato de ir a Cristo é concessão divina, da graça. A graça é a primeira e última causa movedora da salvação; e a fé, por mais essencial que seja, é apenas parte importante do mecanismo utilizado pela graça” Idem.

Mas, quando se questiona: que ‘fé’ é essa que é o ato de ir a Cristo? A concessão divina da graça está em que, Deus deu o Seu Filho, como mediador entre Deus e os homens. A fé, como concessão divina, não diz do ato do homem ir a Cristo, mas do ato de Deus vir até os homens. Em Deus revelar-se aos homens na pessoa de Cristo, está a primeira e última causa movedora da salvação (Jo 1:18).

A graça de Deus veio sobre todos os homens, através de um ato de justiça, realizado por Cristo Jesus (Rm 5:18). Como Cristo foi entregue pelos pecados da humanidade e ressuscitou para a justificação dos que creem (Rm 4:25), os crentes são justificados por Cristo, ou seja, pela fé (Rm 5:1). É por Cristo que o homem alcança a graça de ter paz com Deus, mediante o evangelho (fé) (Rm 5:2). É no evangelho (fé) que o cristão permanece firme e gloria-se na esperança da gloria de Deus (Rm 5:2).

Crer é o ato de receber a Cristo, para ir a Deus (Jo 1:12). Portanto, crer, não é o ato de ir a Cristo, mas de receber a Cristo. Não há como o homem ir a Deus, por isso Deus veio aos homens, concedendo Cristo como mediador (graça), para que os homens pudessem ir a Deus (Jo 14:6). A ‘fé’ não é o ato de o homem ir a Cristo, antes, a ‘fé’ está no ato de Deus conceder Cristo aos homens (Gl 3:23).

Observe:

“Fé é uma palavra muito significativa. Implica fidelidade a Deus (Mt 24:45) e confiança absoluta n’Ele, como aquela demonstrada pelas pessoas que iam a Jesus à procura de cura (Lc 7:2-10). Fé pode ser definida, positivamente, como uma esperança segura, inabalável (Hb 11:1), ou, negativamente, como uma crença infecunda que não redunda em boas obras (Tg 2:14-26). Mas o que Paulo quis dizer, quando falou de ‘fé salvadora’,em Romanos? O apóstolo relacionou a fé à salvação. Não é necessário praticar boas obras para alcançar a salvação; se fosse, esta seria mais um feito humano, e Paulo deixou bem claro que as obras não nos podem salvar (Gl 2:16). Embora, a fé seja uma dádiva concedida por Deus, porque Ele deseja nos salvar (Ef 2:8), é a graça de Deus e não a nossa fé, que nos salva. Em sua misericórdia, ao nos salvar, Deus nos concede a fé, a fim de que tenhamos um relacionamento com o seu Filho, que nos ajuda a ser como ele. Por meio dessa fé, que recebemos do próprio Deus, passamos da morte para a vida (Jo 5:24 ) (…) Como seria trágico se transformássemos a fé em uma obra e tentássemos desenvolvê-la por nossa conta! Nunca poderíamos chegar a Deus por meio de uma fé humana, assim como o povo do Antigo Testamento não o poderia,, por meio dos seus sacrifícios. Assim, devemos aceitar a bondosa oferta de Deus com ações de graça e permitir que Ele plante a semente da fé dentro de nós” Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, Versão Almeida Revista e Corrigida Edição 1995, pág. 1552.

Percebe-se que os editores da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal compartilham da mesma concepção de Spurgeon, de que é a graça de Deus e não a fé, que salva. A Bíblia afirma que quem crer será salvo e os editores da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal afirmam que, ao salvar o homem, Deus concede fé para que possa relacionar-se com Cristo. É esse o posicionamento das Escrituras?

Na verdade, os que creem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos filhos de Deus e não fé. Na verdade, Deus concedeu o seu Filho, Jesus Cristo, para que, por Ele, o homem tenha comunhão com Deus. Cristo é mediador entre Deus e os homens, portanto, a ideia de que a fé é para ter um relacionamento com o Filho é descabida, qualquer que seja a ideia que nutrem acerca do termo ‘fé’.

A ‘fé’ (crer) do homem não é uma semente que Deus planta em seu coração, antes a fé, no sentido de crer, surge da fidelidade de Deus, expressa em sua palavra. A palavra de Deus é fiel, verdadeira, firme, imutável, etc., portanto, digna de ser aceita (1Tm 1:15). A palavra de Deus que é descrita como ‘semente incorruptível’, porque o homem é gerado de novo, por meio dela (1Pd 1:23). Essa semente é a palavra da fé, a boa doutrina (1Tm 4:6), que, quando aceita pelo homem (crê), Deus faz surgir a nova criatura.

Somente a palavra de Deus é descrita como semente (Lc 8:11), pois, dela resulta a nova criatura (1Jo 3:9). ‘Crer’ na palavra de Deus, nunca é descrito como semente, pois o poder de conceder nova vida está na palavra de Deus e não na crença do homem. Deus salva o homem por meio da fé (evangelho), o que é diferente da ideia de que Deus salva e concede a fé (crer).

Se o leitor não souber diferenciar os versos que utilizam o termo ‘fé’ no sentido de ‘evangelho’, ‘verdade’, ‘Cristo’, etc., dos textos que utilizam o termo ‘fé’ no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, etc., chegará à mesma conclusão equivocada a seguir:

“Fé é obra da graça de Deus em nós. Ninguém poderá dizer que Jesus é o Cristo, senão por obra do Espírito Santo. “Ninguém poderá vir a mim,” disse Jesus, “se, pelo Pai, não lhe for concedido” [João 6.65]” Idem.

Cristo é a graça de Deus manifesta, que trouxe salvação a todos os homens (Tt 2:11), portanto, a ‘fé’ é a própria graça de Deus manifesta: “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17; Gl 3:23). Deus deu o Cristo para realizar a sua obra: crede naquele que Ele enviou (Jo 6:29).

A ‘fé’, a ‘verdade’, é o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo, para que todos honrem o Filho, da mesma forma que honram o Pai. Aquele que ouve as palavras de Cristo e crê, na verdade, crê em Deus, pois crê no testemunho de Deus, ou seja, nas Escrituras (Jo 5:23-24; Jo 5:39; 1Jo 5:10). O ensino de Jesus não era d’Ele, mas, de Deus, de modo que, quem crê em Cristo, faz a vontade de Deus (Jo 7:16-17).

Jesus disse: “… ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido” (Jo 6:65), porque alguns dos seus discípulos não criam em suas palavras, que eram espirito e vida (Jo 6:63-64). Embora Jesus anunciasse: – “Eu sou o pão da vida”, contudo não criam (Jo 6:35-36). Embora anunciasse: – “Eu sou o pão que desceu do céu” (Jo 6:41), murmuravam (Jo 6:42-43).

Foi predito pelos profetas que ‘todos seriam ensinados por Deus’ (Jo 6:45; Is 54:13), de modo que ‘todo aquele que o Pai me dá virá a mim’, ou ‘ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer’, ou ‘ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido’, são modos distintos de dizer que as Escrituras dão testemunho de Cristo, de modo que todos os que se ouvem o Pai e se deixam instruir (aprende dele), creem em Cristo (Jo 6:45).

Quem o Pai deu a Cristo? Conforme o previsto nas Escrituras, aqueles que esperam no Senhor, que escondeu o seu roso da casa de Israel, ou seja, Cristo, que apesar de ser santuário, tornou-se pedra de tropeço para Israel (Is 8:17-18). Quando é dito: – “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o Senhor” (Is 8:18), é porque ‘todos os teus filhos serão ensinados do Senhor’ (IS 54:13), de modo que, aquele que ouve o ensino de Cristo, aprende de Deus, que O enviou (Jo 7:16).

 

Salvação

“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” (Fl 3:9)

O que é ser ‘achado n’Ele’? É estar em Cristo, ou seja, ser uma nova criatura (2Co 5:17). Por definição, quem ‘está em Cristo’ é ‘nova criatura’! A nova criatura alcança a justiça que vem de Deus, por intermédio de Cristo, que é sabedoria, justiça, santificação e redenção (1Co 1:30).

Nestas duas orações: “… mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé”, o termo ‘fé’ foi empregado com dois significados distintos, a saber:

a) ‘mas a que vem pela fé em Cristo’ – nesta oração o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’. O apóstolo está enfatizando que a justiça de Deus é concedida aos que creem em Cristo;

b) ‘a justiça que vem de Deus pela fé’ – nesta oração, o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de ‘evangelho’, ‘Cristo’.

Como a justiça de Deus é imputada ao homem?

Quando discursou aos cristãos de Antioquia da Pisídia, o apóstolo Paulo deixou claro que o homem é justificado por Cristo ao crer n’Ele. O homem precisa crer em Cristo, não porque a sua crença será causa de justificação, antes, porque, por Cristo, o homem é justificado: “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Os profetas deram testemunho de que, por Jesus Cristo, os que creem, recebem o perdão dos pecados (At 10:43). Há alguma virtude em acreditar em Cristo? Não! Na crença do indivíduo não há poder, antes, a virtude está em Cristo, pois, por Ele, é que o homem confia em Deus (2 Co 3:4). Sem Cristo, por quem vem a fé (crer), não há justificação (At 3:16).

Pelo fato de Cristo ter morrido por todos os homens, e todos os que creem morrem com Ele, o crente desfruta de uma nova vida (At 5:20), pois, vivem para Aquele que morreu e ressurgiu dentre os mortos (2 Co 5:14-15). Ser uma nova criatura provém de Deus, que reconciliou os que creem consigo mesmo  por Jesus Cristo (2 Co 5:18), ou seja, a reconciliação por meio da fé não vem dos homens (Ef 2:8).

Não é a crença do homem que promove a reconciliação com Deus, antes, a fé (Cristo) é o meio pelo qual o homem tem acesso a Deus. Cristo veio ao mundo sem pecado, mas por Deus foi feito pecado, para quem estiver n’Ele (os que creem), sejam declarados justos (2 Co 5:21). Agora, sendo justificados por sua graça, os cristãos são embaixadores da parte de Deus anunciando a graça de Deus aos homens, em tempo oportuno (2 Co 6:1).

O ato de crer resulta em confissão (admitir o que é), conforme dispõe o salmista: ‘Cri, por isso falei’ (2 Co 4:13; Sl 116:10). A evidência exterior de quem crê em Cristo está na doutrina que professa, ou seja, na confissão, que o escritor aos Hebreus denomina ‘fruto dos lábios’ (Hb 13:15). Confissão que João Batista observou que faltava aos escribas e fariseus: ‘frutos dignos de arrependimento’ (Mt 3:8).

Ao acreditar que Cristo ressurgiu dentre os mortos (Rm 10:9-10), isto conforme a palavra da fé, apregoada pelos apóstolos e profetas, o homem é salvo. É salvo todo aquele que confessa a Jesus como Senhor e crê que Deus O ressuscitou dos mortos, pois, com a boca se faz confissão para a salvação[5] e com o coração, se crê para justiça. Ao crente é imprescindível o mesmo espírito de fé anunciado pelo salmista: crer e professar, pois a boca fala do que o coração está pleno (Mt 12:34).

Por meio do evangelho, a graça de Deus é derramada, pois Cristo trouxe salvação sobre todos os homens. A graça (bondade e benignidade de Deus para com os homens) e o evangelho (verdade) decorrem de Cristo, pois por Ele é concedido aos homens redenção e remissão dos pecados: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8); “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17).

Deus criou a humanidade em função do beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir n’Ele todas as coisas, para que em tudo Ele fosse preeminente (Ef 1:9-10). Mas, para fazer parte deste propósito, a humanidade teria que ser participante da glória de Deus, semelhante a Ele, pois só entre semelhantes é possível ser preeminente. Cristo é espírito vivificante, o último Adão, pois por Ele muitos são conduzidos à glória de Deus e feitos semelhantes a Ele (1Jo 3:2; 1Co 15:48 -49).

Como é impossível aos homens serem semelhantes a Deus, em poder e glória, o Verbo se fez carne e em tudo se fez semelhante aos homens (Hb 2:14 e 17), para fazer propiciação pelos pecados do povo. Os que ressurgissem dentre os mortos com Cristo são santos, irrepreensíveis e semelhantes a Ele. Como Cristo se fez servo em tudo, Deus o exaltou soberanamente, constituindo-o como a cabeça da igreja, que é o seu corpo, posição de primogênito entre muitos irmãos, o que lhe confere a preeminência em tudo.

Jesus despiu-se da sua glória e se fez homem, porém, sem pecado. Em tudo foi provado como homem, tendo que confiar nas Escrituras e ser obediente ao Pai. A missão de Jesus era reparar a ofensa de Adão: obediência pela desobediência, para estabelecer a justiça: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Rm 5:19).

A humanidade entrou em condenação eterna pela ofensa de Adão (desobediência). Os homens entram na vida eterna pela obediência de Cristo (justiça). Quando o homem crê que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, morreu pelas ofensas e pecados da humanidade e, que ressuscitou dentre os mortos será salvo, conforme as profecias. A encarnação, morte e ressureição do Filho de Davi são eventos históricos que tornam os homens justos aos olhos de Deus, isso, porque, esses eventos se deram, segundo a palavra de Deus.

Ao crer nos eventos históricos do nascimento, morte e ressurreição e, na doutrina de Cristo, efetivamente, o crente está crendo na palavra de Deus: a verdade (Sl 119:160; Sl 138:2). Os apóstolos viram e testificaram que Deus enviou o seu Filho como salvador do mundo, pois, crer nesta verdade, para salvação, é imprescindível: “E aquele que o viu, testificou e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que também vós o creiais” (Jo 19:35; 1 Jo 4:13-15; At 10:39-43). Ao crer nessa verdade, o homem confirma que Deus é verdadeiro: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e venças quando fores julgado” (Rm 3:4).

Crer em Cristo é crer em Deus, declarando-O verdadeiro, fiel e justo. “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho” (1Jo 5:10-11); “Na verdade, na verdade, vos digo que, quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24); “Porque, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida” (Jo 3:34); “Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste” (Jo 17:8); “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Ao escrever ao irmão Tito, o apóstolo Paulo faz alusão a três aspectos do evangelho: a) manifestou a sua palavra; b) pela pregação confiada; e, c) segundo o mandamento de Deus: “Mas, a seu tempo, manifestou a sua palavra, pela pregação que me foi confiada, segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3). O primeiro aspecto diz da palavra de Deus manifesta, que se refere a Cristo, o Verbo que se fez carne, na plenitude dos tempos e, por quem o homem é justificado. O segundo aspecto refere-se à pregação, que tem por tema Cristo e deve ser anunciado a todos os povos, pois, ‘como crerão naquele de quem não ouviram’? (Rm 10:4) O terceiro aspecto do evangelho é o mandamento: crer (1 Jo 3:24).

Um erro do calvinismo, está em reputar que, no ato de crer, alguém possa jactar-se de se salvar por seus próprios méritos, pois, com relação ao evangelho, ter mérito por crer é impossível. Crer é mandamento, de modo que, quem crê, se faz servo, sujeitando-se ao senhorio de Cristo. Crer é obedecer ao evangelho, de modo que o crente não tem como se vangloriar e nem como se ensoberbecer.

Com relação ao evangelho, não podemos pecar pelo preciosismo ou pela omissão, pois, em ambos os casos, é prevaricar contra o evangelho. Há quem contrarie as Escrituras, ao dizer que ‘não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para ser salvo’, para encontrar ocasião de impor obrigações sobre os incautos e há quem diga que ‘a fé é apenas um canal ou aqueduto e não a própria fonte da salvação’, invocando o medo de um risco de o crente gloriar-se de ter crido em Cristo, pervertendo a fé de alguns.

O crente não pode perder de vista, que a salvação que alcançou em Cristo é graça de Deus; que é graça ter recebido poder de ser feito filho de Deus; que ter uma herança no céu é graça de Deus; desfrutar do cuidado de Deus, no dia a dia, é graça; que ser coerdeiro de Cristo e reinar com Ele é graça. A obra de Cristo nos homens é graça de Deus, de modo que se pode afirmar, categoricamente, que Cristo é a graça de Deus, pois todas essas benesses decorrem de Cristo (2 Co 1:20).

O ápice da graça se encontra na ressurreição que Deus concede aos homens, pois o salário do pecado é a morte. Como todos pecaram, todos são merecedores de morte. Quem morre sem Cristo segue-se ao juízo, sob condenação, mas quem crê em Cristo, passou da morte para a vida, pois de fato morre para o pecado, conformando-se com Cristo, na sua morte e através da ressurreição de Jesus Cristo, ressurge para a vida eterna: maravilhosa graça!

O crente não pode demover-se da fé, ou seja, da graça de Deus. Estar firme na graça (1 Pe 5:12), é estar firme na fé (1Pe 5:9). A graça de Deus tornou-se notória a todos os homens, pelo fato de Cristo Jesus, sendo rico (Tt 2:11; Tt 3:7), por amor dos que creem, se fez pobre, para que, pela sua pobreza fossem, feitos ricos (2 Co 8:9).

 


[1] “4102 πιστις (pistis) de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença, que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo, nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[2] “4100 πιστευω (pisteuo) de 4102; TDNT – 6:174, 849; v 1) pensar que é verdade, estar persuadido de, acreditar, depositar confiança em 1a) de algo que se crê 1a1) acreditar, ter confiança 1b) numa relação moral ou religiosa 1b1), usado no NT para convicção e verdade, para a qual um homem é impelido por uma certa prerrogativa interna e superior e lei da alma 1b2) confiar em Jesus ou Deus, como capaz de ajudar, seja para obter ou para fazer algo: fé Salvadora 1bc) mero conhecimento de algum fato ou evento: fé intelectual 2) confiar algo a alguém, i.e., sua fidelidade 2a) ser incumbido com algo” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança entre o segundo e o termo entre as orações ou a possibilidade de associação entre cinco ou mais figuras de linguagem destes. Por exemplo: “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser esse o nome do edifício do governo federal”, Wikipédia.

[4] “A ideia de Deus (…) nasce da reflexão sobre as operações do nosso próprio espírito…” Hume – Vida e Obra, Coleção Os pensadores, 1999, pág. 37.

[5] “Podemos sentir no próprio espírito que desta qualidade de caráter depende até mesmo a nossa própria salvação eterna. Sim, porque não basta apenas confessar com a boca que Jesus Cristo é o Senhor para que sejamos salvos, porque isso qualquer um pode fazer”. Macedo, Edir. O poder sobrenatural da fé. 1º Ed. Atualizada. Rio de janeiro: Unipro Editora, 2011 pág. 120. Grifo nosso.

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Salmo 4 – Perturbai-vos e não pequeis

Qualquer que obedece à palavra do Filho não peca, pois a semente de Deus permanece nele ( 1Jo 3:9 ). Neste sentido disse Moisés: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis” (Êx 20:20).


Salmo 4 – Perturbai-vos e não pequeis

1 OUVE-ME quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angústia me deste largueza; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.
2 Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? (Selá.)
3 Sabei, pois, que o SENHOR separou para si aquele que é piedoso; o SENHOR ouvirá quando eu clamar a ele.
4 Perturbai-vos e não pequeis; falai com o vosso coração sobre a vossa cama e calai-vos. (Selá.)
5 Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no SENHOR.
6 Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? SENHOR, exalta sobre nós a luz do teu rosto.
7 Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se lhes multiplicaram o trigo e o vinho.
8 Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança.

 

Introdução

Esse é mais um Salmo messiânico que descreve a confiança do Cristo em Deus, mesmo em meio às adversidades que teria que enfrentar, desde o jardim do Getsêmani até o Calvário.

Como é possível na angústia[1] ter largueza[2]? Parece contraditório passar por aflição, dificuldade, aperto e ter toda suficiência, toda largueza. O clamor registrado no Salmo 4: ‘Ouve-me, quando clamo…’ (v. 1) está em consonância com a vontade do Pai que, em outros Salmos, promete estar com Cristo na angústia (Sl 91:15).

Os registros nos livros das Crônicas dos reis de Israel não apontam para um momento específico em que o Rei Davi tenha passando por uma aflição como a exarada neste Salmo.

O único homem que foi afligido de modo a exclamar que estava angustiado até a morte foi o Filho de Davi e isso porque foi do agrado de Deus fazê-Lo enfermar.

“E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angústiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” (Mt 26:37-38);

“Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” (Is 53:10).

A análise do Salmo 4 terá como ponto de partida a ‘angústia’, não do ponto de vista da psicologia ou da psicanálise, de alguém inseguro, rancoroso ou ressentido, mas da perspectiva dos eventos que antecederam a morte de Cristo: “Não te alongues de mim, pois a angústia está perto e não há quem ajude” (Sl 22:11); “Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22:42).

É notório que o Salmo 22 é messiânico e descreve o sofrimento de Cristo nos momentos que antecederam a sua morte, tanto que Cristo recitou o primeiro verso do Salmo 22 em aramaico para que os que ali estavam entendessem que o Salmo 22 se cumpria aos ouvidos dos que ali estavam: – ‘Elohim, Elohim, lamá sabactâni’, ou seja,  “DEUS meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Sl 22:1); “DEUS meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27:46).

Apesar da angústia, temos de compreender a largueza que o Pai proporcionou ao Filho, pela segurança que o Pai transmitiu, com as garantias contidas nas Escrituras, visto que estava registrado que Deus não viraria as costas para o seu Filho, quando cravado na cruz, e nem esconderia d’Ele o Seu rosto, antes, quando clamou, Deus ouviu o Seu Filho: “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” (Sl 22:24).

 

1 OUVE-ME quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angústia me deste largueza; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.

O salmista Davi faz um pronunciamento profético: “Ouve-me quando eu clamo, ó Deus da minha justiça…” (v. 1). Nesta previsão, o salmista registra a confiança do Cristo, de que seria prontamente ouvido pelo Pai, quando na angústia.

Alguém pode questionar: Como ter certeza de que essa é a interpretação correta desse verso? Essa dúvida é importantíssima, pois era dessa forma que se comportavam os bereanos, quando eram instruídos pelo apóstolo Paulo (At 17:11).

Para verificar o que foi afirmado acerca do verso 1, do Salmo 4, basta examinar o Salmo 31:

“Eu me alegrarei e regozijarei na tua benignidade, pois consideraste a minha aflição; conheceste a minha alma nas angústias. E não me entregaste nas mãos do inimigo; puseste os meus pés num lugar espaçoso. Tem misericórdia de mim, ó SENHOR, porque estou angustiado. Consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma e o meu ventre” (Sl 31:7-9).

O Salmo 31 torna claro o quanto o Cristo esteve angustiado, antes de ser crucificado, e no que consiste a ‘largueza’ que o Pai lhe concedeu. Para aqueles que ainda têm dúvidas se o Salmo 31 é messiânico e que retrata as agruras que antecedem a morte de Cristo, basta ler o verso 5:

“Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus da verdade” (Sl 31:5; Lc 23:46).

Como já foi dito, os Salmos são escritos proféticos, o que indica que os salmistas não falam de si mesmos, antes, inspirados por Deus, davam testemunho do Cristo. Todas as vezes que lemos as Escrituras, devemos ter em mente a lição de Filipe: “Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” (At 8:34).

A largueza concedida por Deus ao Cristo, na angústia, decorre da benignidade de Deus, que considerou a aflição do Aflito. Embora o povo tenha desprezado o Cristo, pela sua ignomínia e aflição, na verdade Ele estava alegre e regozijado, por se sujeitar à vontade do Pai, que era fazê-Lo enfermar: “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido” (Is 53:4); “Mas eu sou verme e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me veem zombam de mim, estendem os lábios e meneiam a cabeça, dizendo: Confiou no SENHOR, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer” (Sl 22:6-8).

A aflição que se abateu sobre o Cristo era em decorrência da morte do seu corpo físico, porém, caminhou para o calvário regozijado por estar cumprindo a vontade do Pai, que foi benigno para com Ele, quando O elegeu para expiação do povo: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então, disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” (Sl 40:6-8); “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” (Is 53:10).

Apesar de angustiado e consumido de tristeza, em função das agruras da cruz, que acometeram o seu corpo (Sl 22:11), o Cristo não foi entregue nas mãos dos seus inimigos, antes, entregou a sua alma nas mãos do Pai, que o colocou a salvo (lugar espaçoso) dos seus inimigos (Sl 40:2). A sua alma não foi deixada na morte, pois o Pai O livrou e O pôs em um alto retiro: à destra da Majestade nas alturas (Sl 91:14).

Cristo invocou o Pai, dizendo: – “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste”? (Sl 22:1), pois essa era a perspectiva dos seus opositores, ao pé da cruz. No entanto, os opositores de Jesus, ao pé da cruz, não sabiam que, quando Jesus clamou, Deus lhe respondeu, pois permaneceu com Ele na angústia: “Porque não desprezou, nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” (Sl 22:24).

Quem, na angústia, teve total segurança (largueza)? Quem Deus haveria de livrar e glorificar? A resposta é: Cristo, conforme se lê:

“Não te alongues de mim, pois a angústia está perto e não há quem ajude” (Sl 22:11);

“E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” (Sl 50:15);

“E tomou consigo a Pedro, a Tiago e a João e começou a ter pavor e a angustiar-se” (Mc 14:33).

Largueza na angústia é afirmar, em oração, com um coração regozijado que ‘a sua carne repousará segura’. Saber que desceria às partes mais baixas da terra (sepultura) não trouxe insegurança, antes trouxe regozijo e segurança, pois estava seguro de que Deus haveria de trazê-Lo à vida novamente, fiado na promessa de que não seria deixado na morte e nem veria corrupção: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16:10).

Na angústia, Deus concedeu a Cristo a liberalidade de decidir cumprir ou não a vontade do Pai. Embora, tivesse à sua disposição doze legiões de anjos e ninguém tivesse o poder de tirar a sua vida, Jesus exerceu o poder de dar a sua vida e, assim, conquistou o poder de tornar a tomá-la: “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” (Jo 10:18).

Os Salmos não retratam os sentimentos e as emoções de Davi, pois Ele ainda está na sepultura e não subiu aos céus (At 2:29; At 2:34). Mas, Cristo, apesar dos sofrimentos e da morte, foi livre da morte, glorificado, e alcançou abundância de dias: “Ao qual, Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela; Porque dele disse Davi: Sempre via diante de mim o Senhor, Porque está à minha direita, para que eu não seja comovido; Por isso, se alegrou o meu coração e a minha língua exultou; E, ainda, a minha carne há de repousar em esperança; Pois não deixarás a minha alma no inferno, Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção; Fizeste-me conhecidos os caminhos da vida; Com a tua face me encherás de júbilo. Homens, irmãos, seja-me lícito dizer-vos livremente acerca do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e entre nós está, até hoje, a sua sepultura” (At 2:24-29; Sl 91:15).

 

2 Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? (Selá.)

Após direcionar a sua palavra ao Pai, em espírito, através do salmista, o Filho reprova a atitude dos homens: até quando amariam a vaidade e buscariam a mentira? Até quando transtornariam a glória do Cristo em infâmia?

A glória do Cristo estava em fazer a vontade do Pai, que era enfermá-Lo, porém, os opositores de Cristo interpretaram que aquela ignomínia era sinal de infâmia. A glória de Cristo estava em ser Servo obediente, mas os homens reputaram que Cristo era maldito ao contemplá-Lo na cruz: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2:8).

Jesus humilhou-se a si mesmo, ou seja, se fez servo, ao ser obediente até a morte, pois, nesse ato, estava a sua glória, de modo que Deus o exaltou soberanamente: “Por isso, também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2:9).

O Aflito do Senhor era a luz do mundo, porém, os seus concidadãos (judeus), O rejeitaram, a Palavra da Verdade, se refugiaram na mentira e na vaidade de seus corações mentirosos. Seguindo os seus próprios caminhos, converteram em infâmia a glória do Filho de Deus. Cristo, a Rocha eleita e preciosa, tornou-se rocha de escândalo para os filhos de Israel: “Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento” (Pr 3:5; Is 8:14).

As Escrituras não fazem referência ao rei Davi como possuidor de glória, nem que se dirigisse aos filhos dos homens, exigindo tal reconhecimento, i.e.,  de alguma glória que lhe fosse devida; portanto, da mesma forma que o apóstolo Pedro concluiu que Davi, ao profetizar, fez uma previsão específica da morte e ressurreição de Cristo no Salmo 16 (At 2:31), podemos inferir que o salmista registrou no Salmo 4 uma previsão do Messias reclamando aos homens, que não tivesse por infâmia a sua glória, de realizar a vontade do Pai.

3 Sabei, pois, que o SENHOR separou para si aquele que é piedoso; o SENHOR ouvirá quando eu clamar a ele.

O profeta Miquéias relata que ‘pereceu o homem piedoso’ e, que ‘não havia entre os homens quem fosse reto’ (Mq 7:2). Entretanto, o salmista aponta para alguém que foi separado para Deus por ser ‘piedoso’. Vale destacar que a frase está no singular, falando de um só, não de muitos piedosos (… o Senhor separou para si aquele que é piedoso).

Ora, o homem piedoso que Malaquias diz que pereceu, refere-se a Adão. Depois da queda de Adão, todos os seus descendentes se desviaram e todos juntamente se fizeram imundos, ou seja, em um único evento (a queda), todos se fizeram impróprios para o propósito de Deus, ninguém mais era piedoso (Sl 14:3).

Cristo, o último Adão, é o homem piedoso escolhido por Deus para ser mediador entre Deus e os homens. Cristo é o homem piedoso, reto, íntegro, que Deus separou para si. O Cristo teve plena certeza de que Deus sempre haveria de ouvi-lo, pois esse é um firme fundamento, sob a garantia de Deus (selo): “O Senhor conhece os que são seus” (2 Tm 2:19; Jo 11:14).

Em reconhecer a Cristo como o homem piedoso que Deus escolheu (ungido) e que Deus O ouvia, estaria a salvação dos filhos de Israel, mas desprezaram-No por causa da aparência: nenhuma beleza havia para que os homens o desejassem.

4 Perturbai-vos[3] e não pequeis; falai com o vosso coração sobre a vossa cama e calai-vos. (Selá.) 5 Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no SENHOR.

Na condição de eleito, Cristo – o Mediador – alerta aos filhos da desobediência e da ira para obedecerem a Deus, consequentemente, não pecariam: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11).

“Tremei e não pequeis” (v. 4) Tradução Brasileira.

A ordem é clara: tremei e não pequeis, ou seja, obedecei e não pecareis. ‘Tremer’ é o mesmo que ‘tremor’. Qualquer que treme da palavra do Filho de Deus não peca: “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra. Vossos irmãos, que vos odeiam e que para longe vos lançam, por amor do meu nome, dizem: Seja glorificado o SENHOR, para que vejamos a vossa alegria; mas eles serão confundidos” (Is 66:5).

Qualquer que obedece à palavra do Filho não peca, pois a semente de Deus permanece nele ( 1Jo 3:9 ). Neste sentido disse Moisés: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis” (Êx 20:20).

A recomendação do Salmo 2, para os reis da terra: “Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos com tremor” (Sl 2:11), é o mesmo que dizer: Obedecei (tremor) a palavra (temor) do Senhor.

O apóstolo Paulo cita o verso 4, do Salmo 4, na epístola que escreveu aos cristãos de Éfeso:

“Por isso deixai a mentira e falai a verdade, cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros. Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4:25-26).

Geralmente, fazem conexão entre a citação do verso 4, do Salmo 4, com a recomendação aos cristãos para não deixar o sol se pôr sobre a ira. Entretanto, a citação do Salmo tem conexão com o fato de os cristãos serem membros, uns dos outros, e com a citação de Zacarias:

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” (Zc 8:16).

A ordem para deixar a mentira e falar a verdade cada um com o seu próximo demanda obediência (deveis fazer), daí, a necessidade de ‘tremer’ (obedecer), para não pecar contra o Senhor.

Sacrifício para Deus é um espírito quebrantado, submisso, ou seja, diz daquele que treme da sua palavra (Sl 51:17). Só é possível oferecer sacrifício de justiça, quando se confia em Deus, crendo em Cristo. Sacrifício de justiça só é possível através de Cristo, o Senhor que é a nossa justiça (Sl 51:19).

São sinônimas as ideias: ‘oferecei sacrifícios de justiça’ e ‘confiai no Senhor’, pois quem confia em Cristo, a palavra que concede vida, além e crer com o coração, oferece sacrifício de justiça, pois professa o Seu nome, que é o fruto dos lábios. Todos os que confiam, invocam a Deus e vice-versa: “Visto que, com o coração, se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10:10; Hb 13:15; Os 14:2 e Pv 18:20).

O mandamento de Deus na Nova Aliança é crer em Cristo e todos quantos confiam em Deus creem em Cristo. Quem crê em Cristo, na verdade crê no testemunho que Deus deu do seu Filho: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu” (1Jo 5:10); “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

 

6 Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? SENHOR, exalta sobre nós a luz do teu rosto.

Muitos, dentre os homens, questionam: Quem nos mostrará o bem? Ora, a resposta é o Mediador estabelecido por Deus: Jesus Cristo-homem. Ele é a luz. Ele é o resplendor da glória de Deus!

Observe o que diz o Salmo 67:

“DEUS tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós (Selá.) Para que se conheça na terra o teu caminho e entre todas as nações a tua salvação” (Sl 67:1-2).

O caminho do Senhor, conhecido na terra, é o bem de Deus revelado aos homens, pois o caminho do Senhor, diz de Cristo, a luz que resplandeceu nas trevas (Jo 1:5 ).

A luz do Senhor é a resposta. Somente a luz do Senhor mostrará o bem: “Nele (Verbo) estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1:4). Deus mostrou a sua luz (exaltou) quando nos revelou Jesus: “Deus é o SENHOR, que nos mostrou a luz; atai o sacrifício da festa com cordas, até às pontas do altar” (Sl 118:2).

A luz do rosto do Senhor foi revelada em Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo (2Co 4:6).

Cristo é a pedra que seguia os filhos de Israel pelo deserto. A Rocha que rejeitaram. O Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel: Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:18).

Porém, Isaias profetizou, apontando a sua esperança no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Israel. O Senhor que esconde o seu rosto da casa de Israel tornou-se pedra de tropeço às duas casas de Israel, a quem devemos o temor e o assombro: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17; Is 8:13-14; Sl 4:4).

 

7 Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se lhes multiplicaram o trigo e o vinho. 8 Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança.

O Salmista descreve a alegria no coração do Messias, como maior que a alegria que ocorre no coração dos homens, quando se multiplica a colheita de trigo e vinho. A alegria do Messias como último Adão está na sua descendência espiritual, por isso Isaias diz: “Eis me aqui, com os filhos que me deu o Senhor” (Is 8:18); “Mas aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer” (Sl 16:3).

O verso 8 retrata o momento da morte do Messias, que em paz deitaria e dormiria, pela segurança que o Pai lhe proporcionou: “Portanto, está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também, a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16:9-10; Sl 30:3; Sl 31:5).

Ora, Cristo é aquele que habitava no esconderijo do Altíssimo e, após ser introduzido no mundo dos homens, passou a descansar à sombra do Onipotente (Sl 91:1). Jesus Cristo, homem, alcançou ‘largueza’, por confiar plenamente na proteção do Pai (Sl 4:1).

 


[1] “06862 tsar ou צר tsar procedente de 6887; DITAT – 1973a,1973b,1974a,1975a; adj. 1) estreito, apertado 2) dificuldades, aflição 3) adversário, inimigo, opressor 4) pedra dura, pederneira” Dicionário Bíblico Strong;

[2] “07337 rachab uma raiz primitiva; DITAT – 2143; v. 1) ser ou ficar amplo, ser ou ficar grande 1a) (Qal) ser largo, ser aumentado 1b) (Nifal) pastagem ampla ou espaçosa (particípio) 1c) (Hifil) 1c1) tornar amplo 1c2) alargar” Dicionário Bíblico Strong;

[3] “07264 ragaz uma raiz primitiva; DITAT – 2112; v. 1) tremer, estremecer, enfurecer-se, tiritar, estar agitado, estar perturbado 1a) (Qal) tremer, estar inquieto, estar agitado, estar perturbado 1b) (Hifil) fazer estremecer, inquietar, enraivecer, incomodar 1c) (Hitpael) agitar-se” Dicionário Bíblico Strong

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A cruz serrada

A estória da cruz serrada foi tão difundida que, se fosse possível, enxertariam a narrativa no Canon sagrado. Muitos consideram a estória da cruz serrada uma ilustração do convite registrado nos evangelhos: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ).

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O significado bíblico de ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’

O significado bíblico de ‘misericórdia quero, e não sacrifício’ encontra-se no evento em que Samuel repreende o rei Saul, portanto, se faz necessário rever todas as nuances da história que narra o extermínio dos amalequitas. 

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O templo do descendente prometido a Davi e o templo de Salomão

O templo de Deus prometido a Davi está sendo construído com pedras vivas, homens chamados dentre todos os povos e línguas que, após crerem em Cristo, são de novo gerados “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).


 

“Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre” ( 2Sm 7:13 )

Deus prometeu que o descendente da carne de Davi teria o seu reino estabelecido ( 2Sm 7:12 ), e que edificaria um templo a Deus ( 2Sm 7:14 ).

Quando Davi morreu, Salomão reinou em seu lugar. O rei Salomão ao escrever ao rei Hirão, considerou ser o descendente prometido ao rei Davi “E eis que eu intento edificar uma casa ao nome do SENHOR meu Deus, como falou o SENHOR a Davi, meu pai, dizendo: Teu filho, que porei em teu lugar no teu trono, ele edificará uma casa ao meu nome” ( 1Rs 5:5 ).

Porém, o templo magnífico que Salomão construiu foi destruído pelo rei de Babilônia ( Jr 52:13 ), o que significa que o templo de Salomão não era a casa que Deus prometeu a Davi que o seu descendente construiria ( 1Rs 9:3 -9), e o reino de Salomão não foi estabelecido para sempre por Deus, pois o reino foi dividido em dois ( 1Rs 12:16 ).

Quando o rei Ciro deu ordem a Esdras para reedificar o templo em Jerusalém ( Ed 1:1 ), não havia nenhum rei constituído em Israel, portanto, apesar da glória do segundo templo ser maior que a do primeiro ( Ag 2:2 e 9), não era o templo que Deus prometeu a Davi ( Lc 21:6 ).

Se Salomão não foi o descendente prometido a Davi que construiria o templo que Deus prometera, quem seria o filho de Davi?

As Escrituras comprovam que Jesus de Nazaré é o descendente prometido por Deus a Davi. Ele é o renovo justo, a poderosa salvação levantada na casa de Davi ( Mt 1:1 ; Lc 1:69 -70; Jr 23:5 ; Jr 33:15 ). Cristo é o desejado de todos os povos, o príncipe da paz, que por Ele foi estabelecida a paz entre Deus e os homens.

Cristo é o descendente de Davi que adentrou no segundo templo e tornou a glória da segunda casa maior do que a glória do templo de Salomão, apesar de ser um templo modesto se comparado a exuberância do primeiro templo ( Ag 2:9 ).

Como é possível através de uma boa exegese demonstrar que Cristo é o descendente prometido a Davi? Onde está o templo prometido que o Filho de Davi construiria? Como e quando seria construído?

O templo a ser construído pelo descendente conforme a promessa feita a Davi é eterno, assim como o seu reino. Por ser eterno, o templo tem que ser invisível, pois o que vemos é efêmero, e as coisas que não vemos são eternas, assim como o reino do Messias “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” ( 2Co 4:18 ); “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” ( Jo 18:36 ).

Cristo é o descendente prometido a Davi. O Jesus de Nazaré é o filho de Davi com direito a se assentar no trono de Davi ( Rm 1:3 -4), o que é defendido no evangelho de Mateus ( Mt 1:1 ). Concomitantemente, o descendente prometido a Davi é Filho do Deus vivo “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ), que foi morto e após ressurgir dentre os mortos, assentou-se a destra de Deus nas alturas ( At 7:56 -57; Mc 12:37 ; Mt 22:42 ; Sl 110:1 ; Rm 15:25 ).

Mas, onde está o templo que Deus prometeu que o Cristo, o descendente de Davi, ergueria?

Leia atentamente a promessa: “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:12 -14).

Deus prometeu que, quando Davi morresse, levantaria um homem da sua descendência que teria o reino estabelecido para sempre, e este descendente edificaria uma casa a Deus. Salomão foi levantado como rei em Israel e Judá enquanto Davi ainda era vivo, portanto, a promessa de Deus não se refere a Salomão ( 1Rs 1:32 -35).

Como Salomão não edificou uma casa permanente a Davi, certo é que o descendente que a profecia aponta diz de Cristo.

Considerando que Deus não habita em casa feita por mãos humanas, como o Messias edificaria uma casa a Deus? “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas” ( At 17:24 ).

Deus prometeu e Ele mesmo estabeleceu a pedra fundamental do templo, uma pedra preciosa: “Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido” ( 1Pd 2:6 ).

Acerca do templo prometido a Davi, profetizou Isaías, dizendo:

“Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” ( Is 8:14 ).

Isaias instruiu os habitantes de Israel para santificarem em seus corações o Senhor dos Exércitos e que deviam servi-Lo com temor e tremor, sendo Ele o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel ( Is 8:13 e 17; Dt 32:20 ).

Por desconhecerem que o Senhor do salmista que está a mão direita do Senhor é a pedra que guiou o povo e os fez atravessar o mar vermelho, rejeitaram a Cristo, a comida e a bebida espiritual “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” ( 1Co 10:4 ; Sl 110:1 ; Jo 6:55 ).

Caso santificassem a Cristo como o Senhor que na plenitude dos tempos resplandece o seu rosto sobre todas as nações, o mesmo Senhor seria santuário, templo, casa, tabernáculo, etc., exclusivamente para os seus filhos. Mas, os filhos de Jacó não eram filhos de Deus, como se lê: “Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” ( Dt 32:5 ).

Daí o alerta: se não o santificassem em seus corações Cristo como Senhor, o mesmo Senhor tornar-se-ia uma rocha de escândalo, uma pedra de tropeço para as duas casas de Israel “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ).

A rejeição de Cristo por Israel demonstra que a pedra fundamental do templo prometido a Davi já foi lançada, mas como está sendo edificado o templo?

O salmista Davi anunciou que a pedra estabelecida por Deus, eleita e preciosa, seria rejeitada pelos construtores de Israel, porém, ela tornou-se a pedra angular do templo do Senhor “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” ( Sl 118:22 ).

O templo é edificado durante o tempo sobremodo oportuno, que é ‘hoje’, através do evangelho anunciado por Cristo, que estabelece a paz entre Deus e os homens, de modo que, Cristo é o fundamento, e os que creem são juntamente edificados para morada de Deus em espírito “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” ( Ef 2:20 ; Ef 2:17 -22; Hb 3:13 ; 2Co 6:2 ).

É em virtude desta verdade que o apóstolo Pedro alerta os cristãos: “Antes, santificai a Cristo, como SENHOR, em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” ( 1Pd 3:15 ).

Os edificadores tropeçaram na rocha eleita porque deixaram de considerar que o Messias prometido, o filho de Davi, era o filho de Deus. Eles não creram que o Jesus de Nazaré era o Filho de Deus.

Ao questionar os escribas e fariseus acerca do Cristo ( Mt 22:42 ), eles responderam que Cristo é filho de Davi, mas diante da pergunta: “Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, Até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” ( Mt 22:43 -45), nada souberam responder.

Se houvessem analisado a profecia que diz: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:12 -14), os escribas e fariseus saberiam que Davi chamou o seu filho de Senhor por Ele ser o filho de Deus ( Sl 110:1 ; Pv 30:3 e Sl 127:4 combinado com Is 49:2).

Os filhos de Israel aguardavam somente que o Messias prometido fosse um libertador nacional. Para eles a pedra prometida dizia tão somente do reino Messiânico “Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre, da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro; o grande Deus fez saber ao rei o que há de ser depois disto. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação” ( Dn 2:44 -45), e esqueceram do templo prometido a Davi por terem um templo construído por mão humanas.

Está é uma promessa segura: o reino do seu Cristo jamais será destruído, não passará a outros povos e dominará todos os reinos, pois foi isto que Deus prometeu ao seu Ungido ( Sl 2:8 ).

Mas, a promessa também dizia do pecado do povo, pois Zacarias profetizou, dizendo: “Ouve, pois, Josué, sumo sacerdote, tu e os teus companheiros que se assentam diante de ti, porque são homens portentosos; eis que eu farei vir o meu servo, o RENOVO. Porque eis aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu esculpirei a sua escultura, diz o SENHOR dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra num só dia” ( Zc 3:8 -9).

É em função desta missão específica, tirar a iniquidade, que do renovo do Senhor disse o profeta João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” ( Jo 1:29 ). Deus prometeu um rebento na casa de Davi, o Cristo, e Ele foi posto por pedra preparada (esculpida) por Deus para arrancar o pecado do mundo.

Ao falar ao povo de Israel, o apóstolo Pedro destaca a função de Cristo, o Nazareno: a pedra posta por cabeça de esquina “Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:10 -12).

Ao falar em uma sinagoga em um sábado, o apóstolo Paulo destaca que Jesus era o descendente prometido a Davi para salvação do povo de Israel ( At 13:23 e 38), e que os seus interlocutores deveriam cuidar para identificar e crer na obra realizada por Deus “Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” ( Hc 1:5 ; At 13:41 ).

Cristo é a pedra escolhida como sustentáculo do templo de Deus, e quando Jesus disse a Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ), o templo prometido por Deus a Davi começou a ser edificado com pedras vivas.

Não é ouvido nenhum som de martelo ou de ferramentas, entretanto o templo prometido a Davi começou a ser erguido pelo Filho de Davi, a semelhança do templo construído por Salomão “E edificava-se a casa com pedras preparadas, como as traziam se edificava; de maneira que nem martelo, nem machado, nem nenhum outro instrumento de ferro se ouviu na casa quando a edificavam” ( 1Re 6:7).

Para edificar o templo, a semelhança da construção de Salomão, pedras são trazidas dentre os gentios para compor a estrutura do templo “E mandou o rei que trouxessem pedras grandes, e pedras valiosas, pedras lavradas, para fundarem a casa. E as lavraram os edificadores de Hirão, e os giblitas; e preparavam a madeira e as pedras para edificar a casa” ( 1Re 5:17 -18).

Ao longo da história da cristandade, inúmeros templos são erguidos, mas todos são frutos da engenhosidade humana. Mas, o salmista é direito: “SE o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” ( Sl 127:1 ). Em vão trabalham os que edificam os seus templos, catedrais, basílicas, sinagogas, mesquita, pagode, etc. Engana-se quem entende que o templo de Deus diz de uma estrutura arquitetônica.

Muitos não atentam para as seguintes perguntas: “O céu é o meu trono, E a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor, Ou qual é o lugar do meu repouso?” ( At 7:49 ; Is 66:1 ).

O templo de Deus prometido a Davi está sendo construído com pedras vivas, homens chamados dentre todos os povos e línguas que, após crerem em Cristo, são de novo gerados “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

As pedras para o templo do Senhor são obras de suas mãos, visto que, aos que creem na palavra (água limpa aspergida) é arrancado o coração de pedra e é dado um novo coração de carne e um novo espírito ( Ez 36:25 -27; Sl 51:10 ; Is 57:15 ). Quando a nova criatura é criada segundo Deus, tornou-se habitação do Espírito, pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo faz do novo homem morada ( Rm 8:11 ; 1Co 3:16 -17; Jo 14:23 ).

O templo prometido é a igreja, o corpo de Cristo. É sobre Cristo, a pedra fundamental, que os homens são edificados casa espiritual para habitação do Espírito “Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças” ( Cl 2:7 ); “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina (…) No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

Quando Jesus propôs: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei” ( Jo 2:19 ), os judeus não compreenderam que ele falava do seu corpo, e responderam: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?” ( Jo 2:20 ); “Mas ele falava do templo do seu corpo” ( Jo 2:21 ).

As falsas testemunhas, quando citaram a fala de Jesus, não compreenderam a grandeza do que repetiram “Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens” ( Mc 14:58 ).

O templo em questão era o corpo físico de Cristo, que após ser entregue na morte (derribado), foi ressurreto (edificado) pelo poder de Deus. Após ressurreto, Cristo foi constituído cabeça de um corpo, e todos que morrem com Cristo ressurgem com Ele e são constituídos membros do corpo de Cristo ( Ef 1:22 -23).

Individualmente cada cristão é membro um dos outros, porém, todos os que estão em Cristo formam um só corpo “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ; Ef 4:25 ).

Através de Cristo, que é a cabeça, a igreja, que é o seu corpo, aumenta pela justa operação de cada membro ( Ef 4:16 ; Ef 2:21 ). Para ser membro deste corpo é imprescindível crer no evangelho de Cristo (uma só fé), para que o velho homem morra (um só batismo), e ressurja uma nova criatura “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” ( Rm 6:4 ); “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:12 ).

Para demonstrar a unidade do Seu corpo, o templo do Deus vivo, Cristo utilizou o pão como figura para representá-Lo. Antes de ser entregue aos pecadores, Jesus disse ao partir o pão: “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim” ( 1Co 11:24 ). Daí a fala do apóstolo Paulo: “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 ).

Quando o homem é batizado na morte de Cristo, ressurge uma nova criatura na condição de pedra viva, edificado sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos e passa a compor o templo de Deus prometido a Davi. É um templo invisível aos olhos dos homens, e por isso mesmo, eterno “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” ( 2Co 4:18 ).

Se o fundamento do templo é o próprio Deus, certo é que os poderes do inferno como a lei, o pecado e a morte jamais subsistem diante da igreja “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ).

Assim como a morte não tem poder sobre o Cristo ressurreto ( Rm 6:9 ), ela não tem poder sobre os que creem, pois foram circuncidados com a circuncisão de Cristo, sepultado e ressurgiram pelo poder de Deus “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:11 -12; Cl 3:1 ).

Como o fundamento do templo prometido a Davi foi esculpido por Deus na pedra que possui sete olhos, as pedras que compõe o templo também são vivas. Ao morrer e ressurgir com Cristo, o cristão passa a compartilhar da natureza divina, é pedra viva, um só pão um só corpo ( 2Pe 1:4 ; Cl 2:10 ).

No crente está contido os elementos essenciais à adoração, pois o crente é sacerdote real, templo e sacrifício vivo ( 1Pe 2:9 ; 1Co 3:16 ; Rm 12:1 ; Hb 13:15 ). Na condição de casa do Senhor, o cristão não precisa de intermediário para estar na presença de Deus, e em todo momento e lugar oferecer o fruto dos seus lábios como novilhos ( 1Tm 2:5 ; Os 14:2 ; Hb 13:15 ).

Somente quando o homem se torna templo de Deus é possível adorar a Deus em espírito e em verdade. A adoração não se vincula a lugar, templo, monte, sacrifícios, ofertas, nação, povo, língua, etc., antes se vincula a verdade do evangelho, pois todos que creem recebem poder de serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ; Jo 4:20 -21).

Quem crê nas palavras de Cristo, que é espírito e vida, é nascido do espírito, portanto, adora em espírito e verdade ( Jo 4:24 ; Jo 3:6 ; Jo 6:63 ). Quem crê em Cristo é plantação do Senhor, para que Ele seja glorificado ( Is 61:3 ; Is 60:21 ; Jo 15:8 ). Quem crê em Cristo passa a compor o corpo de Cristo. É uma pedra viva adquirida por Deus dentre todos os povos e que agora compõe o templo santo erguido pelo descendente que Deus prometeu a Davi: Jesus Cristo, nosso Senhor.

Da nova Jerusalém, a cidade que Abraão aguardava ( Hb 11:10 ), temos o seguinte testemunho do evangelista João: “E nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”( Jo 21:22 ). Isto indica que o templo erguido por Cristo jamais será substituido “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ).

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Como se humilhar diante de Deus?

Se o jovem rico houvesse se sujeitado ao mando de Cristo, seria aceito por servo. Na fala: – ‘Se queres ser perfeito’ estava implícita uma prova semelhante a que Deus deu a Abraão. Se o jovem rico se dispusesse a obedecer, o sacrifício não seria exigido, assim como se deu com o crente Abraão. A partir do momento em que o jovem se dispusesse a seguir a Cristo, estaria andando humildemente com o seu Deus, sendo justificado como o crente Abraão ( Gn 17:1 ; Gn 6:9 ; Dt 18:13 ; Mt 5:48 ). Jesus não está em busca de doadores de bens materiais, antes que o jovem rico se dispusesse a segui-Lo. Este foi o mando de Deus a Abraão e que ecoa por toda as Escrituras.


“E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 )

Jesus, o exemplo

O apóstolo Paulo recomenda aos cristãos que sejam imitadores de Deus como filhos amados “SEDE, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” ( Ef 5:1 ).

O que um pai espera de um filho? A resposta para esta pergunta não pode ser dada segundo a concepção do homem moderno e contemporâneo levado por todo vento de ensinos, antes deve ser respondida levando-se em conta o contexto cultural e social do homem da antiguidade.

Em todos os tempos os pais esperam o amor dos filhos, porém, se falarmos do homem do nosso tempo, o amor esperado diz de afetividade, carinho (sentimento), se falarmos conforme o pensamento do homem da antiguidade, o amor esperado vai além da afetividade, do sentimento e traduz-se em obediência (funcional) como a de um servo ao seu senhor.

Este era o pensamento do homem da antiguidade, o filho, ainda que senhor de tudo, em nada era diferente do servo, pois devia obediência ao pai “DIGO, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo” ( Gl 4:1 ).

O filho devia obediência, honra, ao pai, de modo que honrar é obedecer “Honra a teu pai e a tua mãe, como o SENHOR teu Deus te ordenou…” ( Dt 5:16 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ); “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

À época dos apóstolos, a essência do termo ‘agape’ traduzido por amor era funcional e objetivo, de modo que o termo evoca a ideia de obediência, honra, o que é muito diferente da concepção do homem do nosso tempo, que entende o amor como afetividade, sentimento subjetivo.

Jesus disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama” ( Jo 14:21 ). A exigência é objetiva: obedecer aos mandamentos de Cristo. Não há espaço para questões de ordem subjetiva, como sentimento, afetividade, emoção, etc. Quem obedece ama, quem não obedece odeia “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ) – Crispim, Claudio, A Obra que demonstra Amor a Deus, São Paulo: Newbook, 2012.

Para ser imitador de Cristo é necessário ser obediente como Ele, que achado na forma de homem se fez servo “Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve” ( Lc 22:26 ). Cristo é o maior, mas se fez como quem serve, de modo que Cristo, sendo maior que João Batista, se fez como o que serve “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele” ( Mt 11:11 ).

Daí a ênfase do apóstolo Paulo: “SEDE, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” ( Ef 5:1 -2). O cristão deve imitar a Cristo como filhos sob o cuidado (amado) do pai, ou seja, sendo obediente (andai em amor).

Cristo cuidou (amou) da sua igreja e entregou-se a si mesmo em cheiro suave a Deus. A relação do cristão e Cristo se dá através da submissão e do cuidado, de modo que a ideia do verso 2 do capítulo 5 de Efésios é ilustrado através da figura do esposo e da mulher: “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:24 -26, Ef 5:2 ).

O Verbo eterno quando na carne, despido de seu poder, em todo momento resignou-se a obedecer à vontade expressa de Deus: obediência quero e não sacrifício ( 1Sm 15:22 ). Cristo entregou-se a si mesmo em obediência ao Pai, pois a exigência divina é a obediência e não o sacrifício. A oferta de Cristo ao Pai foi agradável por ser ato de obediência, e não de voluntariedade em sacrificar-se.

Deus não exige sacrifício dos homens porque Ele mesmo proveu a vítima perfeita para o sacrifício “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” ( 1Jo 4:10 ; Jo 3:16 ). Foi o próprio Deus que apresentou a vítima a ser atada ao altar, formada especificamente para ser servo “E agora diz o SENHOR, que me formou desde o ventre para ser seu servo, para que torne a trazer Jacó; porém Israel não se deixará ajuntar; contudo aos olhos do SENHOR serei glorificado, e o meu Deus será a minha força. Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra” ( Is 49:5 -6); “Deus é o SENHOR que nos mostrou a luz; atai o sacrifício da festa com cordas, até às pontas do altar” ( Sl 118:27 ).

O escritor aos Hebreus explica o Salmo 40, versos 6 à 8 contrastando a obediência com o sacrifício: “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), Para fazer, ó Deus, a tua vontade.  Como acima diz: Sacrifício e oferta, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram (os quais se oferecem segundo a lei). Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:5 -10).

O escritor aos Hebreus demonstra que o verso 6 do Salmo 40 refere-se ao Cristo quando introduzido no mundo. Do Cristo não foi exigido sacrifício ou oferta, antes que, voluntariamente, se sujeitasse ao Pai (minha orelha furaste Ex 21:6 ; Dt 15:17 ).

Cristo foi formado por Deus para ser servo ( Is 49:5 ), e Deus não requereu do seu Filho holocaustos, sacrifícios, antes fazer a vontade de Deus. É por isso que o salmista em espírito demonstra que Cristo deleitar-se-ia em fazer a vontade de Deus ( Hb 10:8 ).

Em nossos dias há muitos que em datas comemorativas impõe a si mesmos o flagelo da cruz, mas diante de Deus tal ato cruento é sem valor, pois Deus não requer sacrifício, antes Deus exige a obediência.

Há uma diferença gritante entre o sofrimento de Jesus na cruz e o sofrimento das pessoas que aplicam a si castigos físicos semelhantes à crucificação de Jesus. Cristo não buscou o flagelo para agradar ao Pai, antes buscou obedecê-lo, pois isto é agradável a Deus.

Jesus orou ao Pai sobre a necessidade de beber o cálice, porém, na oração, apesar de expressar o desejo de que o Pai passasse dele o cálice, vê-se que não abre mão de obedecê-Lo, quando declarou: “Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ); “Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora” ( Jo 12:27 ).

Como as Escrituras demonstravam que Deus não exigia oblações pelo pecado, Jesus apresentou-se como servo para fazer a vontade de Deus. E é na vontade de Deus que o homem é santificado, pois Cristo foi posto por propiciação pelos pecados.

Ao falar da obediência de Cristo, o escritor aos hebreus disse: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” ( Hb 5:7 -8). Quando no Getsemani, Jesus clamou ao Pai, o único que podia livrá-Lo da morte, porém, diante do sofrimento que se seguiu, verifica-se que Jesus desprezou a sua própria vontade e acatou a vontade de Deus sendo obediente em tudo.

O apóstolo Paulo demonstra que Jesus foi obediente, e o escritor aos Hebreus apresenta o sofrimento como prova da obediência de Cristo, ou seja, a sujeição de Cristo aos vitupérios da cruz indica que em tudo Jesus foi obediente. Cristo, mesmo sendo o Filho de Deus, foi atendido porque obedeceu (temeu) e não porque era Filho, ou seja, quando Cristo rogou ao Pai, aquele que podia livrá-lo da morte, foi atendido porque era obediente (piedoso, temente) “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” ( Hb 5:7 -8).

Através das Escrituras Jesus compreendeu que Deus não está em busca de sacrifícios e holocaustos, antes que O obedeçam. Jesus tinha consciência de que sacrificar-se sem o mando do Pai não seria algo aprazível.

Antes de derramar a sua alma na morte, Jesus sabia através das Escrituras que podia orar ao Pai que seria socorrido por mais de 12 legiões de anjos ( Mt 26:53 ), mas resignou-se a apresentar-se a Deus como oferta e sacrifício, pois esta era a vontade de Deus.

Quando Jesus expressou o seu desejo de que o Pai passasse de si o cálice, estava cônscio de que somente Deus podia desobrigá-Lo de ser o cordeiro do sacrifício assim como livrou Isaque de ser imolado, porém, Jesus não impôs a sua vontade, antes se humilhou diante do Pai quando disse: ‘todavia seja feita a sua vontade’.

Quando Jesus entregou-se aos seus inimigos para ser crucificado, não estava apenas oferecendo um sacrifício, estava obedecendo ao Pai, pois foi para isto mesmo que Jesus foi enviado: para fazer a vontade de Deus ( Is 1:11 -14).

Neste mesmo sentido, quando Deus exigiu de Abraão o seu único filho, não buscava um sacrifício, antes a obediência (temor) do patriarca “Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12 ).

Sacrifício é um ato que decorre da voluntariedade do homem, não é uma exigência divina ( Lv 1:2 ; Sl 50:8 -13; Sl 51:16 ; Os 6:6 ). É essencial compreender que oferecer o seu único filho em sacrifício não foi um ato voluntarioso de Abraão, como muitos entendem. Conduzir Isaque até o altar do sacrifico não foi uma decisão que o patriarca Abraão deliberou realizar, o que caracterizaria um sacrifício, antes o patriarca estava obedecendo à ordem divina, o que caracteriza a sujeição, a humildade.

E por que Abraão obedeceu? Porque confiava que Deus era poderoso para trazer o seu filho dentre os mortos ( Hb 11:17 -19).

Sacrifício é produto de um ato voluntário, como o foi o voto de Jefté: “E Jefté fez um voto ao SENHOR, e disse: Se totalmente deres os filhos de Amom na minha mão, Aquilo que, saindo da porta de minha casa, me sair ao encontro, voltando eu dos filhos de Amom em paz, isso será do SENHOR, e o oferecerei em holocausto ( Jz 11:30 -31), o que não ocorreu com Abraão “E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” ( Gn 22:2 ).

O escritor aos Hebreus demonstra que Abraão temia (obediência) a Deus, e as Escrituras contém o testemunho que Deus dá de Abraão a Isaque “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia” ( Hb 11:8 ); “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” ( Gn 26:5 ).

A bíblia demonstra que Jesus ‘suportou’ a cruz. Suportar demonstra que a cruz não lhe era algo agradável, entretanto optou por fazer a vontade do Pai “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ), o que demonstra que Cristo não se apresentou para oferecer um sacrifício, antes quem ofereceu o Cristo como cordeiro foi o próprio Pai, pois foi do agrado de Deus moê-lo “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado…” ( Is 53:10 ); “Não morrerei, mas viverei; e contarei as obras do SENHOR. O SENHOR me castigou muito, mas não me entregou à morte” ( Sl 118:17 -18).

Se Cristo não acatasse a vontade do Pai que o colocou como cordeiro, não haveria sacrifício e nem resgate da humanidade. A vontade do Cristo não era uma morte de cruz quando pediu ao Pai que passasse d’Ele o cálice, porém, sendo servo, resignou-se a obedecer, pois obedecer é o único modo de agradar a Deus e ser recompensado “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice…” ( Mt 26:39 ); “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

Na cruz Jesus desempenhou dois papéis distintos: servo e cordeiro. Como servo agradou ao Pai obedecendo e, como cordeiro foi o sacrifício perfeito providenciado por Deus em resgate da humanidade. Quem apresentou o sacrifício perfeito foi o Pai, e quem obedeceu como servo, foi o Filho, que não abriu a sua boca, resignando-se como cordeiro ( Is 42:19 ).

Sem a obediência de Cristo não haveria justiça, pois a justiça de Deus é substituição de ato: obediência em lugar da desobediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Quando sem pecado Adão desobedeceu, de modo que somente um sem pecado e que obedecesse poderia substituir a ofensa de Adão. Através da obediência do servo do Senhor, tem-se o cordeiro perfeito entregue pelo Pai para a salvação de muitos “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ; At 2:23 ).

Diante da desobediência de Adão que trouxe a injustiça, somente a obediência de alguém sem pecado traria justiça. Qualquer sacrifício apresentado por um descendente de Adão é sem valor, visto que o ofertante é filho da ira e da desobediência. Somente um homem sem pecado poderia substituir a ofensa de Adão, porém, a substituição é a obediência, o que Cristo fez, por ser o último Adão.

Na obediência está a justiça, no sacrifício do corpo de Cristo a justificação. Todos quantos obedecem a Cristo conformam-se com Cristo na sua morte, e após ressurgem com Cristo, Deus os declara justos. Deus estabeleceu a sua justiça através da obediência de Cristo, mas era necessário o trigo morrer para produzir fruto ( Jo 12:24 ).

Na morte de Cristo foi plantado o Unigênito Filho de Deus, quando ressurgiu dentre os mortos, Cristo tornou-se o primogênito dentre os mortos, pois através da sua morte e ressurreição são conduzidos à glória muitos filhos de Deus ( Rm 8:29 ).

Deus não busca dos homens sacrifícios, ofertas, holocaustos ou oblações pelo pecado, antes a obediência. Quando preparou ao Cristo um corpo, o esperado era a obediência, consequentemente, o cordeiro para o holocausto era certo. Se o último Adão não se resignasse a obedecer, não haveria substituição de ato e a justiça não seria estabelecida.

Jesus, como homem, não foi voluntarioso em oferecer a si mesmo como sacrifício, antes se apresentou ao Pai para obedecê-Lo. Jesus humilhou-se a si mesmo ao se fazer servo, pois abriu mão de sua vontade e entregou-se em obediência à determinação do Pai.

Humilhar a si mesmo é posicionar-se na condição de servo, executando estritamente a ordem do seu Senhor. Humilhar a si mesmo é abrir mão da própria vontade para executar a vontade de Deus a exemplo do que Cristo fez. Quando na carne, o Verbo não se apresentou ao Pai com o argumento: – ‘Vou dar o meu melhor ao Pai’, ou ‘Vou me oferecer como sacrifício’, antes se resignou a acatar humildemente a vontade de Deus: – ‘Seja feita a sua vontade’.

Deixar a sua glória e se fezer homem, não foi o momento em que Jesus se humilhou, visto que a ação do Verbo eterno ao deixar a sua glória foi uma decisão soberana e voluntária. Ao deixar a Sua glória, o Verbo eterno submeteu-se à sua própria decisão, mas quando na carne, abriu mão de sua vontade para sujeitar-se a vontade do Pai, se fez servo, o que é humilhar a si mesmo  “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” ( Hb 10:9 ; Sl 40).

Quando deixou a sua glória, o Verbo Eterno voluntariamente despiu-se da sua glória, ou seja, esvaziou-se do seu poder para tornar-se homem, porém, a humilhação de si mesmo se deu quando Jesus, como homem, em obediência ao Pai, resignou-se a sofrer os vitupérios da cruz “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ).

Quando resignou-se a beber o cálice proposto pelo Pai, sujeitando-se como servo, Cristo humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz. Observe que o apóstolo Paulo demonstra que Cristo humilhou a si mesmo quando achado na forma de homem, e não quando esvaziou-se a si mesmo para se fazer semelhante aos homens: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

 

Instruções acerca da humilhação

Como um homem se humilha debaixo das potentes mãos de Deus? Qual o modo de ser exaltado por Deus? O único modo é obedecendo!

Através da história do rei Saul é possível compreendermos outro aspecto da obediência. Desde Abel e Caim, Deus nunca se opôs aos sacrifícios e votos dos homens, apesar de não exigi-los ( Gn 4:3 -4). Em função da voluntariedade do homem em sacrificar ( Lv 1:2 ), no livro de Levítico Deus disciplina a forma de como oferecê-los, o que demonstra que para agradar a Deus é necessário a obediência.

Através do livro de Levítico, caso o voluntarioso em sacrificar se resignasse a cumprir todos os rituais estabelecidos, paulatinamente estava aprendendo a importância da obediência, e o tal seria aceito por Deus, não em função do sacrifício, antes por obedecer.

Apesar de Deus nunca ter exigido sacrifícios, não os extinguiu, antes disciplinou como e onde oferecê-los, pois este era uma forma de os ofertantes aprenderem a obediência, e não o meio de serem aceitos por Deus. O homem só é aceito por Deus quando se converte dando ‘ouvidos’ a Deus, e não através de sacrifícios ( Dt 5:9 ; Dt 30:2 e 6).

Deus deu uma ordem direta ao rei Saul para que os amalequitas fossem completamente exterminados. Diante da ordem divina não era facultado ao rei sacrificar ou votar. Em qualquer outra ocasião o rei poderia apresentar quantos sacrifícios desejasse, mas diante da ordem expressa de Deus cabia-lhe somente a obediência.

Sob o argumento de que cumpriu completamente a ordem divina ( 1Sm 15:13 ), mesmo tendo poupado o rei Agage e o melhor do interdito, Saul persistiu na desobediência apresentando como justificativa o sacrifício.

A atitude voluntária de Saul em sacrificar não era o posicionamento de um servo, antes estava a serviço de si mesmo. Executar 99,9% de uma ordem não é obediência, é rebelião e feitiçaria. É estar a serviço de si mesmo.

Não submeter-se a vontade de Deus é o mesmo que feitiçaria, iniquidade e idolatria. É servir Mamom e não ao Senhor “Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:22 -23).

Diante da vontade expressa do Senhor não cabe sacrifício, só a submissão em obediência, visto que não submeter-se é rebelião “Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” ( Dt 31:27 ); “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” ( Is 59:13 ).

Acerca da submissão ao Senhor, temos a seguinte ordem no Novo Testamento:

“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” ( 1Pd 5:6 )

“Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará” ( Tg 4:10 )

Jesus orientou os escribas e fariseus acerca da auto-humilhação após curar um homem que sofria de uma doença que acumulava líquidos em seu corpo (hidrópico): “Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado” ( Lc 14:11 ).

Jesus recomenda aos seus ouvintes a não se assentarem nos primeiros lugares quando convidados a uma festa, pois se houvesse alguém mais digno, o dono da festa poderia requerer o lugar de destaque e dá-lo ao mais digno. Ao contar-lhes esta regra de etiqueta social, por parábola, Jesus estava demonstrando aos seus ouvintes que, apesar de se acharem dignos de um lugar de destaque no reino dos céus por serem descendentes da carne de Abraão, o noivo daria a outros convidados mais dignos que se assentassem em lugar de destaque.

Jesus apresenta a eles a regra do reino dos céus, visto que os convidados não são os judeus (sãos), antes os obedientes como o crente Abraão, pecadores dentre todos os povos (doentes) “Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes” ( Mt 9:12 ).

Na lição que Jesus passou estava implícita a ordem: “Misericórdia quero, e não sacrifício”, pois Jesus não veio ‘chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento’ ( Mt 9:13 ). Embora os religiosos judeus entendessem que tinham direito de entrar no reino dos céus por serem descendentes da carne do patriarca Abraão, não havia compreendido o enigma da misericórdia “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Quando Jesus contou a parábola do fariseu e do publicano, demonstrou aos seus ouvintes que se achavam justos aos seus próprios olhos que, para ter acesso ao reino dos céus é imprescindível reconhecer a sua condição miserável diante de Deus, humilhando-se a si mesmo.

E como humilhar-se? Diferente do que os interlocutores de Jesus pensavam que, para humilhar-se era necessário sacrifício como jejuns, sábados, dízimos, circuncisão, votos, holocaustos, etc., humilhar a si mesmo é quando o homem clama pela misericórdia de Deus “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado” ( Lc 18:14 ).

Humilhar-se a si mesmo é lançar fora todas as suas ‘riquezas’ como linhagem, circuncisão, tribo, nacionalidade, lei, religiosidade, etc., considerando a riqueza como escória, sujeitando-se a Cristo “Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu. Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:5 -8).

Humilhar-se a si mesmo é acatar a ordem divina, se fazendo servo de Cristo “Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 ).

Se o jovem rico houvesse se sujeitado ao mando de Cristo, seria aceito por servo. Na fala: – ‘Se queres ser perfeito’ estava implícita uma prova semelhante a que Deus deu a Abraão. Se o jovem rico se dispusesse a obedecer, o sacrifício não seria exigido, assim como se deu com o crente Abraão. A partir do momento em que o jovem se dispusesse a seguir a Cristo, estaria andando humildemente com o seu Deus, sendo justificado como o crente Abraão ( Gn 17:1 ; Gn 6:9 ; Dt 18:13 ; Mt 5:48 ). Jesus não está em busca de doadores de bens materiais, antes que o jovem rico se dispusesse a segui-Lo. Este foi o mando de Deus a Abraão, e o seu eco permeia todas as Escrituras: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” ( Mq 6:8 ); “Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” ( Gn 17:1 ).

O profeta Jeremias alertou os filhos de Jacó dizendo: “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR” ( Jr 9:23 -24). Quem são os sábios, os fortes e os ricos? São figuras utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel, pois tudo o que a lei diz, diz aos que estão sob a lei e se gloriam nela ( Rm 2:23 e Rm 3:19 ).

 

Distorções acerca da humilhação

Uma das distorções acerca da auto-humilhação surge da ideia de que é necessário ao homem se desprender dos bens deste mundo, como dinheiro, emprego, carro, casa, família, etc. Outra, é achar que se humilhar é o mesmo que ser pobre, desprovido de bens materiais. Nem de longe distribuir bens aos pobres é humilhar a si mesmo.

Quando a bíblia recomenda o desprendimento da glória e das riquezas que o mundo oferece, apresenta uma parábola, de modo que é necessário desvendar-lhe o enigma para compreende-la.

Quando lemos que Moisés recusou ser chamado filho da filha de Faraó, renegando o tesouro do Egito, ele tinha em vista o tesouro que permanece para a vida eterna. Se Moisés se apegasse aos bens do Egito, não teria como abraçar a fé e esperar a recompensa incorruptível ( Hb 11:24 -26).

Isto não quer dizer que o tesouro do Egito era amaldiçoado, antes que era impossível herdar o tesouro do Egito e obedecer à ordem de Deus para retirar o povo do Egito. Uma escolha se fez necessária, diferente de José, que desfrutou dos tesouros do Egito e protegeu a linhagem de Cristo.

Semelhantemente Abraão rejeitou o premio do rei de Sodoma, pois tinha em vista a promessa de Deus “Jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:23 ).

A determinação para os cristãos não é para abandonar os seus afazeres diários, nem mesmo renegar os seus bens materiais, antes seguir a seguinte recomendação paulina: “Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; E os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; E os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” ( 1Co 7:29 -31).

Fazer uso das coisas deste mundo não é o mesmo que exaltar-se, mas fazer uso de questões deste mundo como origem, religião, regras, nacionalidade, etc., como meio de se salvar é presunção, orgulho, soberba. Por exemplo: os escribas e fariseus eram ‘soberbos’ porque se apegavam ao fato de serem descendentes da carne de Abraão e à lei mosaica como meio de alcançar salvação.

Para os escribas e fariseus humilharem-se a si mesmos teriam que considerarem: descendência da carne de Abraão, a lei, a circuncisão, sábados, sacrifícios, etc. como escória, pois só assim é possível alcançar a Cristo “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:7 -8).

É salutar ser reconhecido entre seus pares, na família, na sociedade, e abrir mão disto não é o mesmo que se humilhar. Tornar-se monge, padre, pastor, sacerdote, andarilho, etc., não é o mesmo que humilhar-se. Deixar de conviver com a família, os amigos, não é humilhar-se. Fazer voto de pobreza, de silêncio, restrição alimentar, castidade, isolamento, não é humilhar-se a si mesmo. Sofrer humilhação de outras pessoas, como desprezo, ‘bullying’, ou ser uma pessoa resignada diante das vicissitudes, não é o mesmo que humilhar-se a si mesmo.

 

Como se humilhar?

‘Humilhar-se a si mesmo’ é tornar-se servo de Cristo, tomando sobre si o ‘jugo’ de Jesus ( Mt 11:29 ). O verdadeiro significado de ‘humilhar-se a si mesmo’ consiste em crer em Cristo, que tira o pecado do mundo.

Cristo humilhou a si mesmo quando obedeceu ao Pai como servo e entregou-se aos pecadores. O homem humilha-se a si mesmo quando obedece a seguinte ordem de Cristo: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” ( Mc 8:34 ).

Negar a si mesmo é o mesmo que humilhar a si mesmo, pois após sujeitar-se ao senhorio de Cristo, o homem deixa de fazer a vontade do seu antigo senhor para fazer a vontade de Cristo. Humilhar-se a si mesmo é resignar-se à condição de instrumento a serviço do seu senhor “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 ); “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

No momento em que o cristão torna-se discípulo de Cristo, conhecendo a verdade, significa que, como servo, o cristão renegou a sua vida herdada de Adão, que na verdade é morte, separação de Deus, e tomou a sua própria cruz, seguiu após Cristo, morreu com Ele e ressurgiu uma nova criatura pelo poder de Deus, tornando-se servo da justiça.

Para o homem humilhar a si mesmo basta crer em Cristo. Se faz servo ao obedecer a ordem de Deus, crendo no enviado de Deus “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

Para humilhar-se a si mesmo é imprescindível crer no enviado de Deus, pois este é o mandamento de Deus aos seus servos “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Antes de crer em Cristo, o homem é servo do pecado, após obedecer de coração a doutrina de Cristo conforme o modelo passado pelos apóstolos e profetas, o crente torna-se servo da justiça “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:17 -18).

A maior humilhação da antiguidade era alguém se fazer servo, deixando de lado a sua autodeterminação para submeter-se ao mando de outrem. Quando o homem atende ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo, se faz servo, ou seja, sai fora do arraial e sofre com Cristo o vitupério da cruz ( Hb 13:13 ).

O homem gerado segundo Adão, que estava sujeito à ira de Deus morre, é sepultado e ressurge dentre os mortos uma nova criatura. Como consequência, o novo homem é exaltado, pois ressurgiu com Cristo uma nova criatura. A gloria que Cristo recebeu é compartilhada com todos os cristãos “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ).

Quando lemos o seguinte salmo: “Ainda que o SENHOR é excelso, atenta todavia para o humilde; mas ao soberbo conhece-o de longe” ( Sl 138:6 ), devemos considerar que o ‘humilde’ é aquele que submete-se ao senhorio de Deus, obedecendo-O e o soberbo aquele que não se submete.

Um exemplo de soberba encontramos no rei Saul, que após receber um ordem de Deus para exterminar os amalequitas, resolveu por si mesmo preservar a vida do rei Agague e o melhor dos bois e das ovelhas ( 1Sm 15:8 -9). Esta deliberação de Saul e do povo foi soberba, mas se tivessem exterminado todos os amalequitas, seria humildade.

Nas Escrituras humildade está para obediência, assim como soberba está para a desobediência. Observe o seguinte verso: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” ( Mq 6:8 ). O que Deus exige do homem? Obediência, o que é o mesmo que andar ‘humildemente’ com Deus.

Quando o homem reconhece que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e que os homens pela fé em Cristo são justificados gratuitamente, a soberba é excluída, como se lê: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” ( Rm 3:23 -27).

No verso jactância é orgulho, ostentação, soberbia, ufania, vaidade, vanglória. O mandamento (lei) da fé, que é crer em Cristo exclui qualquer orgulho, vanglória, jactância, porque o homem é justificado por Deus gratuitamente segundo a redenção que há em Cristo.

Um cristão não pode sentir orgulho? Se for com relação às questões deste mundo, pode sim. Pode orgulhar-se de seus filhos, esposa, amigos, parentes, conquistas pessoais. O apóstolo Paulo ao escrever corintos demonstrou estar orgulhoso dos seus interlocutores, o que demonstra que o ‘orgulho’ não é uma questão capital, como preceitua a igreja católica: “Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações” ( 2Co 7:4 ).

Mas, na primeira carta aos corintos, o apóstolo Paulo destaca uma soberba que é capital. O apóstolo dos gentios havia anunciado o evangelho aos Corintos e, para que os cristãos permanecessem nas pisadas do apóstolo, foi enviado Timóteo para preservar a memória dos cristãos as questões do evangelho ( 1Co 4:16 -17). Porém, apesar do cuidado do apóstolo Paulo, havia alguns que andavam ‘ensoberbecidos’, ‘inchados’, ou seja, não eram imitadores do apóstolo dos gentios quanto ao evangelho.

Um exemplo proveniente da soberba estava em tolerarem um congregado que abusava da mulher do seu próprio pai ( 1Co 5:2 ). Ou seja, a soberba nestes versos não diz de orgulho, antes do desvio da palavra da verdade, visto que, após reprovar o desvio no verso 6, do capítulo 5 da carta aos Corintos, o apóstolo demonstra que era necessário remover o ‘fermento’ velho, para serem uma nova massa.

De modo que, fazer a festa com os ázimos da sinceridade e da verdade, que é o evangelho genuíno, é humildade, e soberba é permanecer com o fermento velho, o fermento da malicia e da maldade ( 1Co 5:6 -8).

Tiago ao recomendar aos seus interlocutores que se humilhassem, chama-os de adúlteros e adulteras. Ora, ele estava escrevendo aos judeus da dispersão, pessoas religiosas não dadas à promiscuidade sexual como os gentios. Quando Tiago nomeia os seus interlocutores de adúlteros e adulteras, estava enfatizando o desvio deles da verdade do evangelho, e não abordando questões de cunho sexual ( Tg 4:4 ; Ez 16:35 ).

Em seguida Tiago destaca que as Escrituras demonstram que Deus habita nos cristãos e que tem ciúmes ( Ez 16: 42 ). Novamente Tiago cita as Escrituras demonstrando que Deus resiste aos desobedientes, e da graça aos obedientes ( Tg 4:6 ).

Daí os imperativos seguintes: sujeitai-vos a Deus, ou seja, obedeçam, sejam servos de Deus, pois o diabo não pode tocar nos servos de Deus; chegai-vos a Deus, ou seja, tomai sobre si o jugo de Deus; limpem as mãos e os corações; quando deixassem a presunção de que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão veriam as suas misérias, tornando-se humildes, de modo que Deus em Cristo os exaltaria ( Tg 4:10 ).

Mas, como os interlocutores de Tiago continuavam seguindo os seus próprios mestres que possuíam uma sabedoria carnal e diabólica, Tiago destaca que eram soberbos e mentiam contra a verdade “Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna” ( Tg 4:16 ; Tg 3:14 ).

Em resumo: o soberbo é aquele que ensina outra doutrina que não a de Cristo, como se lê: Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas” ( 1Tm 6:3 -4).

A soberba é uma figura para fazer referencia aos homens que se desviam da palavra de Deus: “Tu repreendeste asperamente os soberbos que são amaldiçoados, que se desviam dos teus mandamentos”( Sl 119:21 ); “Tu repreendeste asperamente os soberbos, os malditos, que se desviam dos teus mandamentos” ( Sl 119:21 ). Semelhantemente, a viúva, o órfão, o pobre são figura que contrapõe a figura dos soberbos, de modo que os humildes, pobres, tristes são bem-aventurados e os soberbos não “O SENHOR desarraiga a casa dos soberbos, mas estabelece o termo da viúva” ( Pr 15:25 ); “Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações” ( Lc 1:51 ).

Qualquer que presume de si mesmo que tem por Pai Abraão por ser descendente da carne de Abraão é soberbo. Gloria na sua riqueza, porém, é um pobre, cego e nu “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” ( Ap 3:17 ). A humildade não está na pobreza material, e sim em adquirir de Deus vestes de justiça, ouro provado no fogo, ou seja, obediência à fé. Daí a fala de Tiago: “EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça” ( Tg 5:1 -2).

Qualquer que não segue os mandamentos de Deus está à mercê da própria vontade, portanto, é soberbo e nada sabe “A nossa alma está extremamente farta da zombaria daqueles que estão à sua vontade e do desprezo dos soberbos” ( Sl 123:4 ).

Para humilhar-se a si mesmo basta tomar sobre si o jugo de Cristo, ou seja, é necessário aprender com Ele, que é humilde e manso de coração: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

Por que Jesus era manso? Porque Jesus resignou-se a obedecer ao Pai.

Em tudo Ele cumpriu o que predisse a profecia. Jesus poderia deliberar ir atrás de uma montaria melhor para apresentar-se a Jerusalém, porém, resignou-se a cumprir a profecia “Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei aí te vem, Manso, e assentado sobre uma jumenta, E sobre um jumentinho, filho de animal de carga” ( Mt 21:5 ); “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta” ( Zc 9:9 ).

A melhor tradução é a que demonstra que Jesus veio humilde, e não pobre como a utilizada acima, pois o verso demonstra a obediência do servo do Senhor.

Quando a bíblia diz que Moisés era o homem mais manso que havia sobre a terra, não estava apontando virtudes psíquicas, antes destacando a obediência de Moisés, que era servo obediente na casa de Deus ( Nm 12:3 e 7; Hb 2:5 ).

Qualquer que executa a obra de Deus é manso, humilde. Qualquer que põe por obra o juízo de Deus é manso “Buscai ao SENHOR, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do SENHOR” ( Sf 2:3 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

A verdadeira humilhação pertinente ao cristão refere-se ao momento que se fez servo de Cristo, tomando sobre si o jugo de Cristo.

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Isaías 58 – O jejum e o sábado verdadeiro

O apóstolo Paulo viu algumas pessoas cumprindo essas proibições que se baseiam em não toques, não proves e não manuseies sendo empregas como meio de se achegar a Deus e avisou que tais práticas eram princípios próprios ao mundo, preceitos de homem, visto que consistia somente em aparência de sabedoria, culto voluntário, humildade fingida, severidade com o corpo, mas não tinha valor algum para extirpar a natureza pecaminosa herdada de Adão ( Cl 2:20 -23).


 

O jejum e o sábado verdadeiro

por

Claudio F. Crispim

SMASHWORDS EDITION

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PUBLISHED BY:

Claudio F. Crispim on Smashwords

O jejum e o sábado verdadeiro

Copyright © 2010 by Claudio F. Crispim

 

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Esta obra constitui-se um comentário ao capítulo 58 do Livro do profeta Isaias, e aborda dois temas que merecem a consideração de qualquer estudante aplicado das Escrituras: o jejum e o sábado.

Pela abundancia de informações que contém, a presente obra pode ser considerada de importância impar aos cristãos, pois visa conscientizá-los a deixar para trás tudo o que é pertinente a ‘sombra dos bens futuros’, pois os sacrifícios que continuamente se ofereciam segundo a compreensão distorcida que os judeus possuíam da lei, jamais podem aperfeiçoar os que cultuam a Deus.

Que todos os cristãos possam prosseguir em conhecer o Senhor, pois Ele é a realidade dos bem futuros, e somente por intermédio d’Ele é possível ao homem oferecer em sacrifício o fruto dos lábios.

Claudio Crispim

Articulista do Portal Estudo Bíblico

 

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DEDICATÓRIA

À minha esposa Jussara Crispim, companheira fiel e amiga em todos os momentos, e o seu valor excede ao de muitos rubis.

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O JEJUM E O SÁBADO VERDADEIRO

 

Introdução

“E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

Há uma determinação divina ao povo de Israel que se refere às práticas que denominamos jejum: um dia pré-determinado para que o povo afligisse (jejum) as suas almas e não podiam exercer nenhum ofício (trabalho).

Deus instituiu que o povo de Israel jejuaria (afligiria as suas almas) no dia dez do sétimo mês, e que este dia também deveria ser um dia reservado para descanso ( Lv 16:31 ; Nm 29:7 ).

Mas, como jejuar, ou melhor, como afligir a alma? Qual o verdadeiro jejum?

O povo de Israel sempre buscou cumprir a determinação divina, porém, juntamente com os seus interpretes entenderam que, para afligir a alma (jejuar) bastava ficar cabisbaixo, com o semblante triste, sem comer, sem beber, sem lavar o rosto, sem utilizar perfumes, utilizando sacos em lugar de vestes, e até mesmo deitar cinzas sobre a cabeça.

Por entenderem que Deus se agradava de quem afligia o corpo, as práticas acima elencadas tornaram-se freqüentes. Dentre elas, a abstinência de alimentos tornou-se uma das práticas mais utilizadas como meio de se achegar a Deus.

O apóstolo Paulo viu algumas pessoas cumprindo essas proibições que se baseiam em não toques, não proves e não manuseies sendo empregas como meio de se achegar a Deus e avisou que tais práticas eram princípios próprios ao mundo, preceitos de homem, visto que consistia somente em aparência de sabedoria, culto voluntário, humildade fingida, severidade com o corpo, mas não tinha valor algum para extirpar a natureza pecaminosa herdada de Adão ( Cl 2:20 -23).

A análise do capítulo 58 de Isaias esclarece qual é o verdadeiro jejum estabelecido e porque o jejum praticado pelo povo de Israel não era aceito por Deus.

 

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O pecado de Israel

 

“Clama em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão, e à casa de Jacó os seus pecados” ( Is 58:1 ).

O profeta Isaias foi comissionado por Deus a anunciar e demonstrar qual era a transgressão de Israel.

Isaias precisava anunciar em alta voz, a plenos pulmões, ou seja, como uma trombeta, quais eram os pecados da casa de Jacó. Os pecados de Israel precisavam ser anunciados como que por uma trombeta, pois apesar de escutarem não davam ouvidos.

Neste verso há um trocadilho aos moldes do verso 1 do capítulo 48 de Isaias: “Ouvi isto, casa de Jacó, que vos chamais do nome de Israel, e saístes das águas de Judá, que jurais pelo nome do SENHOR, e fazeis menção do Deus de Israel, mas não em verdade nem em justiça” ( Is 48:1 ).

O significado do nome Jacó é ‘suplantador’, porém, foi tido por ‘enganador’ pelo seu irmão Esaú ( Gn 27:36 ), ou seja, o povo se autonomeava o Israel de Deus, mas não passavam de casa do ‘engano’, isto porque faziam ‘…menção do nome do Deus de Israel, mas não em verdade nem em justiça’ ( Is 48:1 ).

Qual a transgressão do povo de Israel? Qual o pecado dos filhos de Jacó?

O pecado do povo de Israel decorre do pecado de Adão, o primeiro pai da humanidade, e os interpretes de Israel não compreenderam esta verdade “… porque eu sabia que procederias muito perfidamente, e que eras chamado transgressor desde o ventre” ( Is 48:8 compare com Sl 58:3 ).

Por serem descendentes da carne de Abraão, o povo de Israel entendia que eram filhos de Deus e, que, portanto, estavam livres da condenação de Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

Não atinaram que todos os homens, inclusive os filhos de Jacó, desviaram-se e juntamente se fizeram imundos por causa da transgressão de Adão “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

Para se livrar do pecado de Adão não basta ao homem ser descendente da carne de Abraão, antes é necessário ter a mesma fé que o crente Abraão para alcançar a justificação divina “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7- 8).

A tarefa do profeta Isaias foi semelhante à de João Batista, uma vez que ambos precisavam dissuadir o seu povo de presumir por si mesmo que era salvo por ser descendente de Abraão “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

 

* * * * *

Coração distante

 

“Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus” ( Is 58:2 ).

Apesar da necessidade de se apontar o pecado do povo de Israel, Deus chama a atenção do profeta para uma questão importante “Todavia…” (v. 2).

Apesar de continuarem sendo transgressores, todos os dias, os filhos de Jacó (filhos da desobediência, filhos da ira, ou filho do enganador) pareciam procurar a Deus. Apesar de serem pecadores, os filhos de Jacó pareciam sentir prazer em perscrutar qual seria o caminho do Senhor ( Is 48:1 ).

É de se estranhar, mas apesar de Deus anunciar os pecados dos filhos de Jacó, eles se portavam ‘como’ se praticassem a justiça exigida por Deus. Portavam-se ‘como’ se praticassem a lei de Deus, porém, eram pecadores e transgressores!

O povo de Israel se ocupava em perguntar pelas questões pertinentes à lei e demonstrava estar feliz por ir ao templo como se estivesse em plena comunhão com Deus. Eles possuíam zelo de Deus, porém, como disse o apóstolo Paulo, sem entendimento ( Rm 10:2 ).

Honravam a Deus somente com a boca, obedeciam somente aos homens, no entanto, permaneciam longe de Deus “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

 

* * * * *

Por que não responde?

 

“Dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes? Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento, e requereis todo o vosso trabalho.

Quando questionavam por que Deus não atentava para eles quando afligiam as suas almas (jejuavam), isto demonstra que buscavam saber os caminhos de Deus “Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça (…) Dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes?” (v. 2 -3)

Pelo fato de:

a)  Entenderem que procuravam a Deus continuamente;

b) Entenderem que tinham prazer em saber os caminhos de Deus;

c)  Por portarem-se como um povo que praticava a justiça;

d) Por não deixarem o direito (lei) de Deus;

e)  Por quererem saber pelos direitos da justiça, e;

f)  Por entenderem que tinham prazer em se achegarem a Deus.

O povo de Israel ficava apreensivo e questionavam porque Deus não os atendia. As perguntas deste verso surgiram porque o povo de Israel entendia que era fiel a Deus em tudo que foi prescrito na lei, mas que Deus não os atendia por capricho.

Estas eram as perguntas formuladas pelo povo:

a)  Por que Deus não atendia o jejum que faziam? e;

b) Por que Deus parecia desconhecer que jejuavam?

 

* * * * *

Não jejuem como hoje

 

“Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” ( Is 58:4 ).

Esta é a resposta de Deus às perguntas formuladas pelo povo de Israel: “Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento ( Mt 6:16 ), e requereis todo o vosso trabalho. Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” (v. 3 e 4).

Por se absterem de comer, de beber, de trabalhar, etc., o povo de Israel entendiam que estavam realizando uma obra que Deus lhes havia comissionado, porém, tal obra pertencia somente a eles (vosso trabalho). Por jejuarem, entendiam que Deus lhes devia alguma coisas (v. 3).

Deus observa que eles jejuavam para satisfazer uma disposição interna que lhes era próprio: a voluntariedade, porém buscavam cumprir a lei segundo um entendimento carnal (buscavam um contentamento próprio), e queriam que Deus lhes retribuísse pelos jejuns realizados “As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” ( Cl 2:23 ).

Além do mais, eles jejuavam para contenderem entre si, com o fito de dar sustentação aos seus argumentos quando em debates, e com tais práticas obtinham armas com que ‘ferirem’ o próximo e ganhar a discussão, porém, Deus os alerta para que não procedessem desta forma.

Não deviam jejuar somente para tornar público a sua religiosidade, como continuaram fazendo os escribas e os fariseus à época de Cristo.

 

* * * * *

O jejum escolhido

 5  “Seria este o jejum que eu escolheria, que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o junco, e estenda debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aprazível ao SENHOR?” ( Is 58:5 ).

Neste verso Deus questiona seus interlocutores acerca do jejum que ‘praticavam’ “Seria este o jejum que eu escolheria..?” (v. 5).

Deus demonstra através de perguntas que o jejum que ordenou ao seu povo não consistia em ficarem contristados e cabisbaixos. Jejuar não consistia em não utilizar perfumes, em não lavar o rosto, ou cobrir-se com saco e deitar-se sobre cinzas. Rasgar as vestimentas não era jejum e nem significava que o homem tinha se tornado agradável a Deus ( Jr 14:10 ). Tais práticas não promovem a aflição na alma que é exigida por Deus ( Lv 29:7 ).

O Senhor rejeitou os jejuns do povo de Israel, pois eles eram de duras servis, ou seja, eram insubordinados, gostavam de andar errantes, pois seguiam seus próprios pensamentos, e não a lei de Deus “Assim diz o SENHOR, acerca deste povo: Pois que tanto gostaram de andar errantes, e não retiveram os seus pés, por isso o SENHOR não se agrada deles, mas agora se lembrará da iniqüidade deles, e visitará os seus pecados. Disse-me mais o SENHOR: Não rogues por este povo para seu bem. Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor, e quando oferecerem holocaustos e ofertas de alimentos, não me agradarei deles; antes eu os consumirei pela espada, e pela fome e pela peste” ( Jr 14:10 -12).

Observe que o profeta Jeremias também apregoou que o povo de Israel era iníquo. Por quê? Porque eram de ‘dura servis’, ou seja, não obedeciam ao Senhor, não deixavam ser guiados pelo Senhor ( Is 66:3 ).

Deus não se agradava dos filhos de Jacó e haveria de puni-los. Por quê? Por que ‘gostavam’ de andar errantes, ou seja, continuavam errantes uma vez que se extraviaram em Adão e permaneciam escolhendo os seus próprios caminhos ( Sl 53:3 ).

Desde a concepção se desviaram, e não retiraram os seus pés do caminho largo de perdição, e por isso, Deus não se agradava deles ( Sl 58:3 ). Eles não eram filhos de Abraão, ou seja, filhos de Deus, pois ainda permaneciam sendo filhos do primeiro pai da humanidade, Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

Através deste verso fica claro que Deus não se agradava do que entendiam ser um jejum agradável a Deus. Deus aponta para o jejum que realizavam, e recrimina todos os filhos de Jacó, dizendo: “Seria este o jejum que Eu escolheria…?”. A resposta é: Não! (v. 5).

 

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Ligaduras da impiedade

 

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( Is 58:6 ).

Neste verso Deus apresenta o jejum que havia estipulado para o seu povo, e que haviam distorcido. Somente do modo descrito neste verso verdadeiramente afligiriam a alma! Somente deste modo ‘afligiriam’ a alma a ponto de serem vivificados pelo Senhor ( Is 57:15 ).

O verdadeiro jejum (que Deus estipulou para o seu povo) consiste em ‘soltar as ligaduras da impiedade’, o mesmo que ‘desfazer as ataduras do jugo’, o mesmo que ‘libertar os oprimidos’, o mesmo que ‘soltar os presos de suas prisões’ (v. 6).

O que seria as ‘ligaduras da impiedade’? À época do profeta Isaias havia muitos doentes que necessitavam que as suas feridas fossem tratadas. Seria esta a recomendação divina? Que o povo de Israel fosse caridoso e tratasse dos ferimentos dos necessitados? Deus estava estabelecendo uma sociedade mais justa e igualitária? Não!

Observe que a ligadura que se devia soltar é específica: a ligadura da ‘impiedade’. Todos em Israel deviam livrar-se deste ‘trapo’ de imundície posto sobre as chagas do pecado. Precisavam livrar-se dos curativos que cobriam as chagas do pecado, pois as chagas os tornavam imundos diante de Deus.

Qual é a ‘atadura do jugo’, ou ‘atadura da servidão’? De que jugo Deus estava protestando? Do jugo do pecado, da servidão ao pecado, conforme o exposto no verso 1. A ‘atadura’ diz do domínio que o pecado exerce sobre os filhos de Jacó e sobre todos os homens que não crêem em Deus.

É certo que à época de Isaias havia escravos que serviam aos seus senhores em Israel. Seria o caso de Deus estar requerendo dos israelitas que tratassem melhor os seus servos, ou que fossem mais humanitários com aqueles que estavam presos em masmorras? Não!

Ao ler este verso, não se deve ignorar que os termos: jugo e ligadura estão relacionados com a palavra ‘impiedade’, ou seja, de acordo com as escrituras, ímpio é aquele que está distante de Deus.

Como podiam jejuar segundo a palavra do Senhor se o povo de Israel permanecia preso ao pecado e sobrecarregado de iniqüidades? Como soltar as ligaduras da impiedade se o povo de Israel permanecia sendo transgressores diante de Deus?

Como soltar as ligaduras da impiedade? Como desfazer as ataduras do pecado? Como deixar os oprimidos (quebrantados) livres? Como ‘jejuar’ segundo o jejum estipulado pelo Senhor?

Soltar as ligaduras da ‘impiedade’ é algo possível somente a Deus ( Jr 2:20 ). Tornar os oprimidos livres não é obra de homens, é obra de Deus “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ). As ataduras do jugo do pecado somente Deus pode removê-las “Ó SENHOR, deveras sou teu servo; sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras” ( Sl 116:16 compare com v. 6).

Por que o verdadeiro jejum refere-se a algo que somente Deus pode realizar? Por que Deus determinou ao povo que afligisse a alma?

Ora, Deus estabeleceu o afligir da alma como estatuto para que o povo de Israel compreendesse que necessitavam confiar n’Ele. O afligir da alma exigido no dia dez do sétimo mês era para demonstrar que, mesmo após terem sido resgatados do Egito, ainda continuavam presos ao pecado.

Eles precisavam compreender que quando foram resgatados do Egito somente ocorreu uma libertação nacional, o que não poderia ser confundido com libertação do pecado.

Observe que Deus deixou o povo de Israel vagando pelo deserto, até mesmo deixou o povo ter fome, e depois o alimentou com o pão dos anjos, para dar-lhes a entender que não é de pão que o homem adquire vida, antes das palavras provenientes da boca de Deus “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Isto quer dizer que, mesmo após terem sido resgatados do Egito os filhos de Jacó ainda permaneciam mortos em delitos e pecados, e que necessitavam da palavra de Deus para adquirirem vida “Entre os quais todos nós (Judeus e gentios) também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” ( Ef 2:3 ); “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados” ( Ef 2:1 ); “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” ( 2Co 5:19 ).

Quando estavam sendo resgatados do Egito, Deus instituiu ao povo de Israel que deveriam comer ‘ervas amargas’ juntamente com o cordeiro sem mácula e mancha ( Ex 12:8 ).

E como deveriam comer o cordeiro juntamente com as ervas amargas? Com: “Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a páscoa do SENHOR” ( Ex 12:11 ), o que se tornou um memorial da condição aflita que o povo estava antes de ser resgatado do Egito, e de como Deus trabalhou poderosamente para resgatá-los ( Ex 12:12 ; Ex 12:14 ).

Os filhos de Jacó estavam aflitos, cansados e sobrecarregados por causa da opressão do Egito, e Deus obrou poderosamente, provendo ao povo de Israel libertação das mãos dos egípcios.

Ao instituir que deviam afligir a alma, Deus estava dando a entender ao povo de Israel que só foram libertos da escravidão do Egito, porém, estavam sob a servidão do pecado.

E para serem livres do pecado precisavam confiar em Deus que haveria de libertá-los de modo semelhante quando estavam sob a servidão no Egito.

Do mesmo modo que as ervas amargas constituíram-se um tipo da aflição de quando o povo de Israel estava para ser resgatado do Egito, ao instituir o jejum, que é o afligir da alma (afligir a alma é figura do jugo da servidão), Deus estabeleceu elementos para dar a entender ao povo que permaneciam sob domínio do pecado e que necessitavam de Deus para resgatá-los.

As ‘ervas amargas’ foi Deus que instituiu, assim como o ‘afligir da alma’, dois tipos que representam a aflição física e espiritual do povo de Israel.

Ao instituir o jejum Deus estava demonstrando que os filhos de Jacó eram prisioneiros do pecado e que somente na presença do Senhor seriam purificados “Diante do Senhor sereis purificados… “ ( Lv 16:30 ), assim como o foi Abraão “… ande na minha presença, e sê perfeito” ( Gn 17:1 ; Dt 18:13 e Mt 5:48 ).

Para se tornarem filhos de Abraão o povo de Israel precisava da presença do Senhor, porém, entediam de modo equivocado que eram filhos por serem descendentes da carne de Abraão.

Mas, como o homem entra na presença do Senhor? Somente descansando na sua presença, ou seja, crendo na sua palavra “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11).

Qualquer que ouve ‘toda a palavra de Deus’ Deus fará com que veja a vereda da vida ( Dt 8:3 compare com Sl 16:11 ). Na presença do Senhor há fartura de alegria, pois todos que entram na sua presença são bem-aventurados como o crente Abraão ( Dt 18:13 ). Cristo está à mão direita do Pai, sendo Ele o pão que da vida perpétua.

Ao instituir o jejum Deus estava dando a entender que somente Ele pode fazer justiça e juízo aos oprimidos. O salmista Davi compreendia o que era afligir a alma quando disse: “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ).

Somente Deus pode dar pão aos famintos e liberdade aos encarcerados, ou seja, aos verdadeiramente aflitos, aos contritos de espírito “Ó SENHOR, deveras sou teu servo; sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras” ( Sl 116:16 ; Sl 103:6 ; Sl 146:7 ; Is 57:15 ).

Com Deus instituiu que o homem deveria afligir a sua alma, Jesus faz um convite aos cansados e oprimidos, ou seja, aos que jejuavam verdadeiramente “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ). Somente os que afligem a alma segundo o exigido por Deus (v. 6), têm um encontro com Cristo, que alivia os cansados e sobrecarregados.

Quando se desfizessem das ligaduras da impiedade os filhos de Israel teriam jejuando de fato. Quando se desfizessem das ataduras do jugo do pecado, verdadeiramente teriam afligido a alma.

‘Ligadura’ é o mesmo que ligamento, atadura. ‘Atadura’, por sua vez, é o que serve para atar, amarrar (laço, correia etc.), que também pode ser uma tira comprida de gaze própria para curativos. Para compreender quando Deus diz que o jejum verdadeiro é soltar as ‘ligaduras da impiedade’, é necessário visualizar o pecado como uma chaga maligna.

Na antiguidade, por falta de remédios que curasse os enfermos de chaga maligna acabavam tornando-se verdadeiros escravos da doença, pois gastavam todo o fruto do trabalho com a doença. As ligaduras, espécie de atadura, utilizada para cobrir as chagas não resolvia o problema do enfermo.

O pecado é uma chaga e todas as ações dos homens para se livrar dele não passa de uma ligadura, um curativo feito com trapo de imundície “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( v. 6).

Sem soltar as ligaduras da impiedade é impossível oferecer sacrifício ao Senhor, pois o sacrifício dos ímpios é abominação “O sacrifício dos ímpios já é abominação…” ( Pr 21:27 ).

Mas, o afligir da alma (jejum) não termina quando se está livre do pecado, mas também que se dê (reparta) aos famintos o pão que os torna livres “Porventura não é também…” (v. 7). Somente quando se reparte o pão enviado dos céus (evangelho) com os famintos é que o cristão cumpre o prescrito pelo apóstolo Paulo: “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram” ( Rm 12:15 ).

 

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O Pão verdadeiro

 

“Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” ( Is 58:7 ).

O verdadeiro jejum também é repartir o pão que possuíam com o faminto. Que pão? Quem são os famintos?

Deus estava promovendo um movimento de resgate social? Deus estava instituindo um programa de distribuição de pão para os famintos em Israel? Buscava-se uma sociedade igualitária com uma melhor distribuição de renda?

Não! Este não é o verdadeiro jejum, pois o alerta de Deus é: “… o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ). Como só é possível ao homem viver da palavra de Deus, o verso em tela não trata de questões sociais e econômicas.

“… e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” (v. 7). O nu é alguém sem as vestimentas? Quando o povo de Israel se depararia com alguém nu? Como cobrir a nudez de quem vissem nu? Como vestir o nu sem se contaminar, ou seja, ficar imundo?

Ora, os versos 6 e 7 contém enigmas que não abarcam questões sociais ou econômicas. O pão que Deus requer que o povo de Israel repartisse com o faminto refere-se à palavra de Deus.

Aquele que ainda não se cobriu com a justiça proveniente de Deus é o nu que necessita de vestimenta. O faminto é aquele que não bebeu vinho e leite, ou seja, não saciou a fome com o que é bom, ou seja, com a palavra da vida. O oprimido é aquele que reconhece que não há como se salvar com seus próprios recursos (dinheiro) ( Is 55:1 ; Sl 49:7 -8 ).

Deus utiliza as questões referentes ao jejum que o povo utilizava em seus debates (v. 4), para demonstrar que o povo de Israel estava equivocado quanto ao modo de se achegar a Deus. O jejum foi utilizado como figura para demonstrar como o povo de Israel permanecia em pecado, pois nem mesmo compreendiam qual a natureza do jejum, que dirá compreender o caminho do Senhor.

Analisando a palavra do Senhor expressa nos versos 1 e 2, é certo que o povo de Israel eram transgressores, ou seja, pecadores. Apesar de irem continuamente ao templo, de demonstrar que tinham prazer no caminho do Senhor, como se efetivamente praticassem a justiça, permaneciam pecadores ( Is 1:1 -4).

Desde o capítulo 1 de Isaias a nação de Israel é descrita como sendo ‘… pecadora, povo carregado de iniqüidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás’ ( Is 1:4 ).

Eles eram pecadores porque não deram ouvidos a palavra de Deus ( Is 1:10 ). Os sacrifícios que ofereciam não eram aceitos por Deus ( Is 1:11 ). Deus não havia exigido que fossem ao templo, porém, compareciam sempre, mas não ouviam a palavra do Senhor ( Is 1:12 ).

Deus ordenou ao povo que se lavasse, que se purificasse, porém, como seriam purificados se não davam ouvidos a palavra do Senhor? ( Is 1:16 ; Jo 15:3 ) Cumpriam inúmeros rituais, porém, não ouviam a palavra de Deus, que é vida.

Neste capítulo Deus expõe a condição do povo de Israel: eram pecadores. Ao mesmo tempo demonstrou que o povo sempre ia ao templo na intenção de se tornar agradável a Deus, porém, não ouvia a sua palavra.

Ao mesmo tempo em que rejeitava a palavra de Deus, o povo de Israel questionava porque jejuava e não era atendido. Daí é que surge a resposta divina: é este o jejum que Eu escolhi?

Qual o verdadeiro jejum? Para descobrir qual é o verdadeiro jejum, temos que fazer o mesmo exercício que fizeram os discípulos quando ouviram Jesus falar acerca do fermento dos fariseus “Como não compreendestes que não vos falei a respeito do pão, mas que vos guardásseis do fermento dos fariseus e saduceus? Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” ( Mt 16:11 ).

Do mesmo modo, quando ouvimos acerca do jejum, devemos compreender que Deus não estava orientado o seu povo a abstinência de alimento, contristados, cabisbaixos e deitados em cinzas.

O verdadeiro jejum é abstinência dos seus próprios conceitos acerca de como servir a Deus. É abster-se do fermento (doutrina) que tornava levedado o pão oferecido pelos fariseus.

O povo de Israel deveria alimentar-se única e exclusivamente da palavra anunciada por Deus “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

 

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Luz como a alva

 

“Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda” ( Is 58:8 ).

Quando soltassem as ligaduras da impiedade deixando o jugo do pecado através da palavra de Deus, a luz deles haveria de surgir como surge a luz do sol. Haveriam de ser curados de todas as suas feridas, viveriam sem ataduras ( Is 1:6 ).

Este verso demonstra que a luz que romperá é comparável a alva. A cura seria repentina. Deus haveria de justificá-los, e seriam protegidos pelo Senhor.

O Senhor é a nossa justiça, e Ele garante que haveria de ir à frente deles. Caso não mais estivessem sob o jugo do pecado, o Senhor haveria de ser a sua retaguarda.

 

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Eis-me aqui!

 

“Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente” ( is 58:9 ).

Eles reclamavam que jejuavam e não eram atendidos, mas o Senhor garante que, caso jejuassem o jejum estipulado por Ele, quando clamassem haveriam de ser respondidos. Em momento de desespero Deus lhes diria: Eis-me aqui!

Ou seja, a promessa do Senhor haveria de ser cumprida se realmente ‘afligissem a alma’ do seguinte modo: “Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente” (v. 9). Este é o verdadeiro jejum.

O Senhor condiciona a sua resposta ao jejum do povo.

‘O jugo’ refere-se ao ‘domínio’ do pecado. Para tirar o jugo do pecado basta dar ouvidos à palavra de Deus que o homem passará da morte para a vida ( Is 55:3 ).

O ‘estender o dedo’ refere-se ao fato de apontarem somente os outros como sendo pecadores ( Is 65:5 ). Falar iniquamente é divulgar uma doutrina que não é conforme as palavras de Deus, é o mesmo que prevaricar na atribuição de interpretar a palavra de Deus, como os fariseus faziam.

O salmista Davi denunciou que os ímpios estão alienados de Deus desde a madre, ou seja, são concebidos em pecado. Por causa desta ‘alienação’ andam errantes e tudo que anunciam não corresponde à verdade “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ).

 

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Abrindo a alma

 

10  “E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia” ( Is 58:10 ).

O que foi estipulado no verso 7 é repetido neste verso, porém, lança luz ao que é necessário para alimentar o faminto: abrir a tua alma. Como se abre a alma? Abrindo a boca! Expondo a palavra do Senhor.

Quando se anuncia a palavra do Senhor, que livra o homem das ataduras do pecado, se esta ‘fartando’ a alma aflita, concedendo pão ao faminto.  É isto que Jesus fez, e espera que todos que o ouçam, façam: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ).

Observe que os saciados pelo Senhor podem ‘abrir a alma’ ao faminto para alimentá-los, e o faminto, ou a alma aflita refere-se àqueles que afligem a alma (jejuam), que desejam a palavra da verdade conforme Deus ordenou “E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita…” (v. 10).

Para aqueles (aflitos) que tirarem o jugo do pecado Deus anuncia que das trevas nascerá luz, ou seja, sem Deus o homem é trevas, mas através da sua palavra, que é poder de Deus, será criado tudo novo: haverá luz! ( Ef 5:8 ; Is 55:3 )

Do mesmo modo que o poder criativo contido na palavra de Deus fez luz quando somente havia trevas no Gênesis ( Gn 1:2 ), a mesma palavra que foi encarnada e habitou entre os homens cria (Bara) a nova criatura trazendo muitos filhos à glória de Deus ( Hb 2:10 ).

Qualquer homem, antes de ter um encontro com Deus é treva, mas após crer, agora é luz, porque Deus fez tudo novo. Das trevas do velho homem, Deus faz através de Cristo o novo homem, que é luz no Senhor ( 2Co 5:17 ; Gl 6:15 ).

Todos que ouvem a palavra de Deus, se crer, terão a sua escuridão transformada por Deus como se fosse a luz do meio-dia. Das trevas surgirá a luz!

O homem gerado segundo o primeiro Adão é treva, vaso para desonra, entrou pela porta larga e segue por um caminho que o conduz à perdição. Após o novo nascimento, que se dá através do último Adão, que é Cristo, o novo homem é luz, vaso para honra, plantação do Senhor, árvore de justiça, entrou pela porta estreita e segue por um caminho que o conduz a Deus.

 

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Fonte de água viva

 

11  “E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam” ( Is 58:11 ).

O verso 11 demonstra que, os que verdadeiramente afligem as suas almas (jejuam) serão bem-aventurados, conforme o exposto no salmo primeiro.

O Senhor os guiará as águas tranqüilas. Terá pastos verdejantes. O salmo 1 e 23 lançam luz (esclarece) a este verso.

Este mesmo aspecto é anunciado pelo profeta Jeremias: “Bendito o homem que confia no SENHOR, e cuja confiança é o SENHOR. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto” ( Jr 17:8 ).

Bem-aventurados são aqueles que confiam em Deus ( Sl 2:12 ), ou seja, serão como árvores plantadas junto a ribeiros de águas, dará o seu fruto no seu tempo, as folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará ( Sl 1:3 ).

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Edificação do Senhor

 

12 .”E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar” ( Is 58:12 ).

Qual a idéia contida na frase: ‘os que de ti procederem’? Ora, refere-se àqueles que foram gerados pelo Senhor, ou seja, que nasceram de novo por terem fartado a alma aflita na fonte que faz jorrar água para a vida eterna (v. 10).

Há os que procedem da carne e os que procedem do Espírito, assim como Jesus anunciou a Nicodemos ( Jo 3:6 ). Através da carne de Adão ‘procedem’ os carnais, e através do Espírito vivificante, que é Cristo, o último Adão, ‘procedem’ os homens espirituais ( 1Co 15:45 ).

Somente os que são gerados de Deus podem edificar as antigas ruínas. Que ruínas? O homem foi criado para que Deus habitasse neles, porém, com a queda de Adão, o homem tornou-se ruínas.

É Deus que ergue o seu santo templo de geração a geração. Os que procedem de Deus são constituídos pedras vivas, a ‘matéria prima’ empregada na casa espiritual edificada por Deus “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

“E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar”

Por edificar as ‘antigas ruínas’ através daqueles que d’Ele procederem, Deus será nomeado como o ‘Reparados de roturas’, ou ‘Restaurador de veredas’, por torná-los local de sua habitação ( Is 57:15 ).

 

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O ‘descanso’ do Senhor

 

13  “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras” ( Is 58:13 ).

Deus protesta contra a atitude dos seus interlocutores: desprezavam o dia de descanso instituído para afligirem a alma “E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

Devemos ter em mente dois tipos de dias de descanso:

a)  O descanso semanal, que se dava no sétimo dia da semana ( Mc 2:23 ; Mc 3:2 ), e;

b) O dia dez do sétimo mês, que poderia ser qualquer dia da semana, porém, seria um dia de descanso (sábado) do Senhor ( Lv 16:29 ; Nm 29:7 ).

Para os judeus qualquer dia da semana poderia um sábado desde que fosse um dia festivo instituído pelo Senhor. Qualquer dia da semana poderia ser sábado, ou véspera de sábado. Observe: “E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado” ( Mc 15:42 ).

O médico Lucas apresenta dois eventos que se dá em dias distintos, porém, ambos são nomeados sábados “E era o dia da preparação, e amanhecia o sábado. E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galiléia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e ungüentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento” ( Lc 23:54 -56 ).

Com relação ao dia do descanso do sétimo dia da semana, Deus o instituiu como estatuto perpétuo ao povo de Israel com um objetivo bem definido:

a)  Seria um sinal entre Deus e o povo;

b) Deveriam lembrar e entender que somente Deus santifica, e;

c)  Memorial de que foram servos no Egito e que Deus os resgatou com mão poderosa ( Dt 5:15 ; Ex 31:13 ).

Por que precisavam deste sinal como memorial perpetuo? Porque apesar de terem sido resgatados da servidão no Egito, não significava que eram justos diante de Deus “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o SENHOR teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” ( Dt 9:6 ).

Pelo fato de não terem sido resgatados do pecado, o santo dia deveria ser nomeado pelo povo de deleitoso e digno de honra. Por quê? Jesus responde: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” ( Mc 2:27 ), ou seja, o sábado foi instituído para que o homem possa compreender que só Deus pode libertá-lo das ligaduras do pecado.

Os escribas e fariseus entendiam que eram cumpridores do sábado e recriminaram a atitude de Cristo e dos seus discípulos “Os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que não é lícito?” ( Mc 2:24 ).

Isto porque Jesus e os seus discípulos estavam caminhando e colhendo espigas de milho, e apesar dos escribas e fariseus dizerem que estavam descumprindo o sábado, Jesus demonstra que Ele e os discípulos não estavam descumprindo o sábado pelo fato de andarem e satisfazerem as suas necessidades pessoais ( Mc 2:25 -28).

Jesus demonstrou que o sábado não estava relacionado com o que o homem faz ou deixa de fazer, antes é um memorial daquilo que Deus pode fazer pelo homem “E, olhando para eles em redor com indignação, condoendo-se da dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu, e foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra” ( Mc 3:5 ).

Embora o povo de Israel fosse composto de homens ímpios ( Dt 9:6 ), Deus estabeleceu um memorial, o sétimo dia da semana como descanso, para lembrá-los que foram resgatados do Egito e que só Deus santifica ( Dt 5:15 ; Ex 31:13 ). Ou seja, o sábado foi instituído por causa do homem, para lembrá-lo que é Deus que santifica, e não suas próprias ações “… para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica” ( Ex 31:13 ).

Como o povo de Israel era de dura cerviz ( Dt 10:16 ), além de instituir os sábados ( Lv 23:3 ), a páscoa ( Lv 23:5 ), a festa dos pães asmos ( Lv 23:6 ), as primícias ( Lv 23:10 ), a festa dos pentecostes ( Lv 23:16 ), a festa das trombetas ( Lv 23:24 ), a festa dos tabernáculos ( Lv 23:34 ), todas instituídas sem revogar o descanso do sétimo dia ( Lv 23:38 ), foi instituído também o dia da expiação.

Dentre estas festas instituídas como santa convocação a única que não faz referência a idéia de festa é o dia da expiação, pois a santa convocação da expiação não era festiva, antes deveriam afligir a alma desde o dia nove à tarde, de uma tarde a outra tarde, no sétimo mês ( Lv 23:32 ). Seria um dia de descanso (sábado), porém, sem festividades, ou seja, deveriam afligir a alma.

Porém, apesar de não trabalharem nos dias estabelecidos, não comerem, não beberem, não utilizarem perfumes, não lavarem o rosto e muitas vezes cobrirem-se de saco e cinzas, os filhos de Jacó não tiravam os pés do sábado do Senhor (v. 13). Apesar de os fariseus não matarem, não roubarem, darem o dízimo de tudo e jejuarem muitas vezes, faziam somente a própria vontade.

Diferente das outras convocações, o dia da expiação não era festivo, o que fazia com que muitos em Israel reclamassem por ‘afligirem’ as suas almas, levando-os a formular as perguntas do verso 3.

Mas, Deus diz: “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR…” (v. 13 -14).

O sétimo dia da semana instituído pelo Senhor como dia do descanso, era um sinal para o homem de que na palavra de Deus há descanso. E o dia da expiação, além de demonstrar que na palavra de Deus há descanso por causa do sábado e do afligir da alma, demonstrava também qual era a condição do homem: escravo do pecado.

Mas os profetas e sacerdotes de Israel não compreendiam a palavra do Senhor, e vagavam pelos seus próprios caminhos ( Is 28:7 ), e a lei do Senhor não passava para eles de “… mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali” ( Is 28:10 ).

Enquanto Deus dizia através das festas solenes que N’Ele há descanso, os interpretes de Israel não dava ouvidos “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:13 ), o que tornava os dias festivos ‘penosos’ mandamentos “Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem e se enlacem, e sejam presos” ( Is 28:13 ).

Quando Jesus veio, novamente o Senhor falou aos homens escarnecedores “Ouvi, pois, a palavra do SENHOR, homens escarnecedores, que dominais este povo que está em Jerusalém” ( Is 28:14 ).

Como Cristo cumpriu o sábado? Cumpriu segundo a palavra de Deus, e não segundo os mandamentos e as regras dos homens, pois a palavra de Deus diz: “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras…” (v. 13).

Jesus efetivamente cumpriu o sábado e todas as festas instituídas na lei, pois:

a)  Jesus não falou as suas próprias palavras “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:49 -50);

b) Jesus não fez a sua própria vontade “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ; Jo 4:34 ; Jo 7:17 ), e;

c)  Jesus não seguiu outro caminho, pois ele foi gerado de Deus “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ; Sl 1:6 ).

Jesus verdadeiramente jejuou, pois se absteve do pão fermentado dos homens ( Mt 16:6 ), uma vez que se alimentava do Pai “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Jesus verdadeiramente jejuou, pois abriu a sua alma aos famintos “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ); “… se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita” ( Is 58:10 ).

Este foi o jejum estipulado pelo Senhor, e Jesus veio fazer a vontade do Pai “O SENHOR será também um alto refúgio para o oprimido; um alto refúgio em tempos de angústia” ( Sl 9:9 ); “Oh, não volte envergonhado o oprimido; louvem o teu nome o aflito e o necessitado” ( Sl 74:21 ); “O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O SENHOR solta os encarcerados” ( Sl 146:7 ); “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( Is 58:6 ); “Cri, por isso falei. Estive muito aflito” ( Sl 116:10 ); “Os aflitos e necessitados buscam águas, e não há, e a sua língua se seca de sede; eu o SENHOR os ouvirei, eu, o Deus de Israel não os desampararei” ( Is 41:17 ); “O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama os justos” ( Sl 146:8 ); “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ); “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” ( Is 61:1 ), etc.

Ora, se os filhos de Jacó verdadeiramente jejuassem e honrassem o sábado como Jesus o fez, seriam dignos de honra, e seriam honrados pelo Senhor (v. 13).

Neste verso o Senhor trata especificamente do dia separado para que afligissem a alma (dia da expiação), dia em que cada um não deveria executar obra alguma “E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

O dia separado para o Senhor consiste em honrar ao Senhor, ou seja, em obedecer a sua palavra (temor) “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

Cristo é o Filho e o Servo do Senhor porque honrou o Pai, porém, os filhos de Jacó não honravam e nem temiam ao Senhor!

O caminho do homem é de perdição, pois ao entrar pela porta larga, que é Adão, segue um caminho que o conduz à perdição ( Mt 7:13 ). Somente honrando o sábado que é tremer da palavra do Senhor é que o homem deixa os seus caminhos ( Is 55:7 ).

Somente aquele que ouve a palavra de Deus deixa de fazer a sua própria vontade. Somente os que ouvem e compreendem deixam de falar segundo o seu conhecimento, e passa a falar as palavras do Senhor ( Mt 3:9 ).

 

 

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A alegria do Senhor

 

14  “Então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse” ( Is 58:14 ).

Jesus cumpriu cabalmente o estipulado nos versos 12 e 13 do capítulo 58 de Isaias, e por isso o Salmo 16 contém uma profecia acerca do Messias: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11 ; Sl 91:14 ).

Após o jejum exigido por Deus, o homem será bem-aventurado, ditoso, deleitará no Senhor. Deus garante que fará com que os que afligiram a sua alma sejam estabelecidos em posição de honra.

Ou melhor, Deus há de sustentá-los como a herança de Jacó. Tudo o que o Senhor prometeu a Jacó será, por direito, concedido aos que descansam (crêem) no Senhor.

Tudo o que foi anunciado segue garantido por aquele que prometeu: “Porque a boca do Senhor o disse”!

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Conclusão

 

Abstinências físicas (jejuar) em lugar de ‘afligir a alma’ tornou-se uma prática comum em Israel, tanto que várias datas específicas foram instituídas para jejuarem “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: O jejum do quarto, e o jejum do quinto, e o jejum do sétimo, e o jejum do décimo mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes; amai, pois, a verdade e a paz” ( Zc 8:19 ).

Diante do mandamento, os judeus se apegavam as práticas e aos dias estipulados, porém, o mais importante, que é o amor à verdade e a paz, não compreenderam o que seria. O povo pensava somente em cumprir regras sociais, tal qual não brigar com o próximo e não mentir.

Ao lerem na lei a seguinte determinação: “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ; Ef 4:25 ), entenderam somente que era para estabelecer ou manter a paz com o próximo, e  não se aperceberam que lhes era necessário ter paz com Deus.

O profeta Zacarias demonstra que os dias de jejuns deveriam ser de festividade, gozo e alegria. Que contraditório! Há aqueles que nomeiam esta aparente contradição de paradoxo. O dia estipulado para afligir a alma devia ser um dia de alegria, gozo e festividades solenes. Mas, para que o dia do jejum se tornasse dia de alegria, precisavam amar a verdade e a paz ( Zc 8:19 ).

O apóstolo Paulo, ao fazer alusão à mensagem do profeta Zacarias, demonstra que ‘falar a verdade’ com o próximo possui uma conotação mais ampla do que não mentir, pois ao escrever aos cristãos em Éfeso faz a seguinte abordagem: “Mas vós não aprendestes assim a Cristo, se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus; Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; E vos renoveis no espírito da vossa mente; E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade. Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros” ( Ef 4:20 -25 ).

O apóstolo Paulo demonstra que a verdade anunciada por Zacarias está em Cristo, segundo o que ouviram e foram ensinados, ou seja, conforme o evangelho ( Ef 4:21 ). O que ouviram e lhes foi ensinado com relação à verdade (Cristo)?

a)  Que deveriam se despojar de tudo que era pertinente ao velho homem;

b) Que renovassem a compreensão, e;

c)  Que revestissem do que é pertinente ao novo homem.

Por isso deveriam ‘deixar a mentira’ (lançar fora a compreensão pertinente ao velho homem de como se adquire a salvação), e ‘falar a verdade’ com o companheiro, ou seja, deviam falar de Cristo (como está à verdade em Cristo), conforme o anunciado pelo profeta Zacarias.

O evangelho deve ser a temática da conversa dos cristãos porque é o evangelho que os torna membros uns dos outros, ou seja, o ‘juízo de verdade e de paz’ (mandamento) anunciado por Zacarias refere-se a Cristo, pois Cristo é a verdade e é a paz. Somente Ele faz juízo ao oprimido ( Sl 103:6 ; Ef 4:21; Ef 2:14 ; Zc 8:16 ).

Qualquer que ama a verdade e a paz, cumpre o mandamento do Senhor ( Zc 8:19 ), e será amado de Deus “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Por todos os homens serem gerados de Adão, o apóstolo Paulo afirma que todos são mentirosos ( Rm 3:4 ), isto conforme anunciou o salmista Davi, pois todos são concebidos em pecado e falam mentiras desde que nascem ( Sl 51:5 ; Sl 58:3 ). Ou seja, todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, pois se extraviaram juntamente e se fizeram imundos em Adão ( Rm 3:23 ; Sl 53:3 ).

O coração do homem é enganoso ( Jr 17:9 ), e a boca fala do que o coração está cheio ( Lc 6:45 ), portanto, todo homem é mentiroso e só fala engano. Para falar a verdade é necessário ao homem falar segundo a palavra de Deus, pois a palavra d’Ele é a verdade ( Jo 17:17 ).

Para falar a verdade cada um com o seu companheiro é necessário ao homem falar as ‘palavras de Deus’, e não as suas próprias palavras, como recomendou o profeta Isaias ( Is 58:13 ; Zc 8:16 ; Ef 4:20 ). O Senhor Jesus, assim como o apóstolo Paulo, o profeta Isaias e o profeta Zacarias abordaram o mesmo tema quando ordenaram: falai a verdade!

Para falar a verdade é necessário ao homem ouvir (alimentar-se) a palavra de Deus que concede vida ( Dt 8:3 ), ou seja, é necessário ao  homem nascer de novo, sendo gerado em verdadeira justiça e santidade da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Somente os gerados da palavra de Deus são amados de Deus, pois se tornaram um com a verdade (conhecer) no íntimo “Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria” ( Sl 51:6 ; Ef 4:24 ).

Jesus alertou aos seus ouvintes que o jejuar dos fariseus era hipócrita, pois se apresentavam aos homens com o rosto triste, e até desfiguravam o rosto para demonstrar que afligiam a alma (jejuavam).

O verdadeiro jejum não se produz com estômago vazio e aspectos físicos desfigurados, pois assim agiam os fariseus para parecer que jejuavam e Jesus os censurou “E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão” ( Mt 6:16 ).

Ora, se desfigurar o rosto não é o mesmo que o jejum exigido por Deus, como jejuar? Como já vimos, o verdadeiro jejum não se refere a aspectos físicos (rosto desfigurado) ou sensações físicas (fome), pois mesmo lavando e ungindo a cabeça era possível ao homem jejuar, pois o jejum é para Deus, e não para os homens ( Mt 6:18 ).

Por que Jesus recomenda não agirem como os hipócritas? Porque aquele era o modo pelo qual escribas e fariseus ajuntavam tesouro na terra “Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” ( Is 58:4 ; Mt 6:18 ).

Por entenderem que jejuavam segundo o estipulado na lei, os escribas e os fariseus buscaram contender com Jesus, buscando feri-lo com punho iníquo “Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes, e fazem orações, como também os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?” ( Lc 5:33 ).

A bíblia demonstra que Jesus veio especificamente para cumprir a lei ( Mt 5:17 ), mas os fariseus e os escribas julgavam-no como alguém que queria acabar com a lei e com os profetas.

A Bíblia também demonstra que Jesus falava ao povo somente por parábolas, e o sermão do monte deve se analisado como sendo um conjunto de várias parábolas conexas entre si “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ).

A maioria dos leitores do sermão do monte entende que Jesus estava ordenando aos seus ouvintes o modo correto de como absterem-se do alimento quando recomendou que não deviam fazer como os hipócritas ( Mt 6:16 ). O que Jesus estava recomendando? Ora, Jesus estava apresentado aos seus ouvintes o suposto paradoxo apresentado pelo profeta Zacarias. O jejum não devia ser um dia de tristeza, antes um dia de alegria, de festa solene e gozo, pois o afligir da alma não possui relação com aspectos exteriores do corpo “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: O jejum do quarto, e o jejum do quinto, e o jejum do sétimo, e o jejum do décimo mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes; amai, pois, a verdade e a paz” ( Zc 8:19 ).

Jesus estava ordenando os ouvintes do sermão do monte a afligirem a alma diante de Deus e não diante dos homens, de modo que a tristeza proveniente do verdadeiro jejum se tornasse em alegria, como Deus havia determinado ( Sl 30:11 ; Zc 8:19 ). Ao ordenar que lavassem o rosto e não se mostrassem contristados quando ‘jejuavam’, Jesus queria que o povo compreendesse o verdadeiro significado da ordenança de se afligir a alma.

Ao alertar que não deveriam se mostrar contristados, que podiam lavar o rosto e ungir a cabeça ( Mt 6:17 ), Jesus queria dar a  entender à multidão qual era o verdadeiro jejum. Eles precisavam compreender que o verdadeiro jejum se dá quando o homem deixa de seguir os seus próprios conceitos “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” ( Is 65:2 compare com Is 58:13 ); “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR…” ( Is 58:13-14).

Qualquer que anda segundo os seus próprios pensamentos segue um caminho que não é bom, e não se deleitará no Senhor conforme o profeta Zacarias recomenda que se faça.

Tudo que Jesus falava ao povo de Israel foi dito por parábolas, o que dá ao sermão do monte o título de uma grande parábola. Interpretar o capítulo 58 de Isaias também é resolver um grande enigma da antiguidade, pois este é o modo de o povo ouvir e ver, mas não compreender ( Sl 78:2 ; Mt 13:15 ; Jo 12:40 ; Lc 12:41 ).

Deus ordenou ao povo que ‘afligissem a alma’. Eles ouviram, mas não compreenderam o enigma, e neles se cumpriu a profecia ( Lc 8:10 ; Is 6:9 ). Deus ordenou que afligissem a alma, eles entenderam que afligir a alma seria o mesmo que afligir o corpo com abstinências diversas.

Davi foi um homem segundo o coração de Deus porque compreendeu que afligir a alma é o mesmo que um coração contrito, quebrantado. Ele compreendeu que o verdadeiro sacrifício é um espírito quebrantado ( Sl 51:17 ). Davi compreendeu que somente o abatido, o contrito de espírito alcança as benesses que ele havia rogado ao Senhor: um coração e um espírito vivificado e habitado pelo Senhor ( Sl 51:10 -11; Is 57:15 ).

Os escribas e fariseus não compreenderam o que é ‘afligir a alma’ do mesmo modo que desconheciam o significado da ordenança ‘misericórdia quero, e não sacrifício “Misericórdia quero, e não sacrifício” ( Mt 9:13 ; Os 6:6 ).

Antes de questionarem porque os discípulos não jejuavam, Jesus orientou-os a irem aprender o que significava ‘misericórdia quero’ “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Os escribas e os fariseus rebateram em pensamento a ordem de Cristo, uma vez que sabiam que a frase ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’ tratava-se de citações atribuídas aos profetas Oséias e Samuel. Não atinaram que tais passagens contêm um enigma que eles ainda não haviam decifrado.

O que eram as abstinências que os escribas e fariseus praticavam no intento de afligir a alma? Tais abstinências não se resumiam em meros sacrifícios?

O que significa ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’?

Para aprender o que significa ‘misericórdia quero’ se faz necessário compreender o que Deus exige do homem. Para compreender o significado de ‘misericórdia quero’ se faz necessário analisar a passagem bíblica de Oséias.

Certa feita o profeta Oséias anunciou ao povo o protesto de Deus, pois o amor que os filhos de Jacó demonstravam era volátil como o orvalho da madrugada “Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque o vosso amor é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” ( Os 6:4 ).

O tema principal da passagem de Oséias, quando se lê ‘misericórdia quero’ é destacar o que Deus espera do homem: amor. Deus está demonstrando que não se interessa por sacrifícios, antes demonstra que deseja o amor do homem.

A exigência divina demonstra que o homem nada pode fazer para agradá-Lo, antes é Deus quem pode fazer algo em prol da humanidade. Quando Deus diz: ‘misericórdia quero’, significa que Ele quer exercer misericórdia para com os homens, e para tanto, basta ao homem amá-Lo de todo coração “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ); “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” ( Dt 7:9 ).

Deus quer misericórdia, porque Ele é misericordioso. A qualquer que o ama Deus exerce misericórdia, o que não depende e nem demanda sacrifício. Sacrifício não é de valor algum diante de Deus ( Is 1:1 ).

Deus não exigiu do povo de Israel sacrifícios, antes exigiu que O amasse de todo coração “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas o SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao SENHOR teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma…” ( Dt 10:12 ); “E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus” ( Gl 6:16 ).

Apesar de demonstrar que não desejava sacrifícios, por conhecer a disposição interna dos homens em sacrificar, Deus regulamentou como os voluntariosos em Israel deveriam sacrificar, o que não significa que Deus exigiu sacrifícios dos homens “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá a sua oferta de gado, isto é, de gado vacum e de ovelha” ( Lv 1:2 compare Sl 50:7 -23 ).

O profeta Samuel demonstra que Deus não se interessa em sacrifícios “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:21 -22).

Deus determinou o afligir da alma como sendo juízo de verdade porque este é o sacrifício aceitável “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ); “Fazer justiça e juízo é mais aceitável ao SENHOR do que sacrifício” ( Pv 21:3 ).

Abster-se de entrar na casa de ‘pecadores’, ou de comer com eles era um tipo de sacrifício que os escribas e fariseus praticavam, mas que Deus não aceitava, pois Ele quer misericórdia, e não sacrifícios ( Mt 9:13 ).

Como os jejuns era uma prática dos judeus, em especial dos fariseus, os discípulos de João Batista questionaram Jesus por que os seus discípulos não jejuavam, o que demonstra que os jejuns não passam de meros sacrifícios ( Mt 9:14 ).

Observe que os ímpios oferecem sacrifício, e nem por isso deixam de ser ímpios. Mesmo que tenha a mais nobre das intenções ao sacrificar, o ímpio oferecerá abominação. O que torna o sacrifício dos ímpios uma abominação é o fato de serem ímpios “O sacrifício dos ímpios já é abominação; quanto mais oferecendo-o com má intenção!” ( Pv 21:27 ).

Como os filhos de Jacó não buscavam a palavra do Senhor, conclui-se que eram ímpios “A salvação está longe dos ímpios, pois não buscam os teus estatutos” ( Sl 119:155 ), condição pertinente a todos os homens por causa de Adão ( Sl 53:2 -3 ; Sl 58:3 ).

Como as abstenções de qualquer natureza é um tipo de sacrifício, segue-se que, por não se apartarem da impiedade ( Is 58:1 e 6), quando os filhos de Jacó se aplicavam as abstenções (sacrifícios) ofereciam abominações, por mais nobre que fossem as suas intenções.

O salmista compreendeu que Deus não desejava sacrifícios, antes que se satisfazia com o coração contrito, com a alma afligida “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ).

Por intermédio do profeta e salmista Davi, Deus protesta ao povo de Israel, dizendo: “Ouve, povo meu, e eu falarei; ó Israel, e eu protestarei contra ti: Sou Deus, sou o teu Deus. Não te repreenderei pelos teus sacrifícios, ou holocaustos, que estão continuamente perante mim. Da tua casa não tirarei bezerro, nem bodes dos teus currais. Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas. Conheço todas as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo. Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude. Comerei eu carne de touros? ou beberei sangue de bodes? Oferece a Deus sacrifício de louvor, e paga ao Altíssimo os teus votos. E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” ( Sl 50:7 -15).

Deus demonstra que o problema de Israel não era os sacrifícios que de contínuo traziam ao templo. Antes, Deus queria que eles O invocasse no dia da angústia, e não que se aplicassem aos sacrifícios. Qual é o dia da angustia? É o dia em que o homem verdadeiramente afligisse a sua alma, o dia que compreendesse que necessita da salvação de Deus.

Do mesmo modo que os filhos de Israel não compreenderam o que é ‘executar juízo de verdade’, ‘falar a verdade com o próximo’ e ‘misericórdia quero’, não compreenderam a determinação divina de afligir a alma “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ); “Fazer justiça e juízo é mais aceitável ao SENHOR do que sacrifício” ( Pv 21:3 ), e; “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos. Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:6 -7).

O maior erro dos judeus estava em não conhecerem as escrituras “Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” ( Mt 22:29 ). Os interpretes de Israel prevaricam quanto as suas atribuições ( Is 43:27 ). Eles se consideravam filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ), mas por não fazerem justiça e juízo, por sacrificarem em lugar de amarem a Deus, ou seja, por não falarem a verdade (palavra de Deus), etc., continuavam transgressores por causa do primeiro pai da humanidade, Adão.

Por não conhecerem as escrituras aplicavam-se as abstinências, e esqueciam que ainda eram transgressores por serem descendentes da carne de Adão, portanto, não eram filhos de Abraão “Eu quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus e não holocaustos. Em Adam eles quebraram a minha aliança, aí eles me traíram” ( Os 6:6 -7 – Bíblia da CNBB).

A tradução católica da bíblia do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil expressa melhor as duas idéias analisadas acima: a) Deus quer amor, e; b) Em Adão os filhos de Jacó quebraram a aliança.

A tradução que reza que os judeus transgrediram a aliança como Adão não coaduna com o que o apóstolo Paulo diz aos cristãos em Roma: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Ou seja, Adão é o único homem por quem a morte entrou no mundo, separando toda a humanidade de Deus. Como todos estão mortos, separados de Deus, logo ninguém mais dentre os homens pode pecar como (semelhança) Adão.

A morte reinou sobre todos os homens, até mesmo sobre aqueles que não transgrediram à semelhança (como) da transgressão de Adão, pois em Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Desviaram-se e juntamente todos os homens tornaram se imundos, ou seja, em Adão se deu o evento em que a humanidade juntamente se extraviou de Deus ( Sl 14:3 ; Sl 53:3 ).

Os escribas e fariseus que foram ao batismo de João Batista, mesmo após serem batizados continuavam professando que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão ( Mt 3:9 ), o que indicava que não estavam produzindo frutos dignos de arrependimento. A mensagem de João Batista era: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” ( Mt 3:2 ), ou seja, arrepender-se é mudança de concepção acerca de alguma matéria, é mudança de pensamento.

Em função da chegada do reino dos céus, que é Cristo, os escribas e fariseus deviam abandonar os seus conceitos (arrependimento) para poder abraçar a Cristo, ou seja, precisavam deixar de presumir que eram filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão para serem filhos de Deus por intermédio do Descendente prometido a Abraão ( Rm 9:7 -8).

O que professavam quando vinham ao batismo, denunciava os escribas e fariseus, pois o fruto dos lábios deveria ser de mudança de conceito, mas continuavam professando que eram filhos de Abraão, o que os impedia de ter comunhão com a verdade, o caminho e a vida ( Jo 8:33 e 39).

O fariseu que subia ao templo para orar é exemplo de alguém que ajuntava tesouro na terra, pois era descendente da carne de Abraão, que em última instância era o mesmo que ser descendente de Adão.

Em decorrência da sua filiação e da sua religiosidade, se sentia abastado, rico, por não se comportar como os demais homens: não era roubador, promiscuo, injusto, etc., e além do mais, jejuava, dava o dizimo, orava, ia ao templo, etc. ( Lc 18:11 ). Tudo que o fariseu fazia na sua religiosidade é descrito pela bíblia como sendo um modo de ajuntar ‘tesouro na terra’, ou seja, buscava o seu próprio contentamento pelo ‘trabalho’ realizado ( Is 58:3 ).

É importante que o leitor perceba que “ajuntar tesouro na terra” é uma figura, e esta figura complementa a ideia do jejum, sendo que a ordem para não ajuntar tesouro na terra remete a ideia de que, através das suas práticas para agradar a Deus, os homens somente adquirem e ajuntam o tesouro da impiedade.

Observe que tanto o trabalho (ajuntar tesouro na terra) quanto os sacrifícios dos ímpios não são aceitos por Deus. Do mesmo modo que os sacrifícios dos ímpios são abominação, o trabalho deles é o mesmo que violência “Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 ; Pv 21:27 ).

Observe que o profeta Isaias dá no verso 3 do capítulo 66 a interpretação das figuras empregadas nas escrituras quando estabelece a comparação. Violência diante de Deus é tudo que o homem faz para se salvar, ou seja, o sacrifício deles é como tirar a vida de um homem.

As ações dos judeus, na intenção de se salvarem, eram comparáveis a tudo que mais abominavam. Os constantes trabalhos e sacrifícios que realizavam era o que Deus nomeia de seguir seus próprios caminhos. Não eram o afligir da alma exigido por Deus ( Is 66:3 compare com Is 58:3 ). Quando praticavam suas abstinências, não jejuavam de fato, antes era o mesmo que se deleitar nas suas abominações.

Se eles afligissem a alma conforme o exigido no verso 13 do capítulo 58 de Isaias, deixariam as abstinências e os sacrifícios e se deleitariam no Senhor, em quem há paz e descanso para a alma.

“… quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 );

“Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR” ( Is 58:13 ).

Quando o profeta Jeremias clama: “Violência, violência!”, está protestando contra os homens que intentam se salvar através de suas próprias forças, ou seja, com o fruto do seu trabalho, o tesouro da impiedade “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” ( Jr 20:8 ); “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniqüidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ).

Do mesmo que Isaias aborda em primeiro lugar o jejum e depois as obras de violência, no sermão do monte Jesus adota a mesma sequência: o jejum e o guardar tesouro na terra. Ambos demonstraram que a retidão e as obras do povo não se aproveitam para salvação ( Is 57:12). Ambos, o Senhor Jesus e Isaías, buscavam tirar o tropeço de diante do povo, aplainando o caminho do Senhor ( Is 57:14 ).

Por não afligirem a alma segundo o estipulado no capítulo 58 de Isaias, retirando as ataduras da impiedade, continuavam falando mentiras “Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue, e os vossos dedos de iniqüidade; os vossos lábios falam falsidade, a vossa língua pronuncia perversidade” ( Is 59:3 ), pois a boca fala o que o coração está cheio, ou seja, neste verso está descrito porque Jesus chama os fariseus de raça de víboras ( Mt 12:34 ; Is 59:4 -5 ).

O que Deus determinou por intermédio do profeta Zacarias e o apóstolo Paulo interpretou ao escrever aos cristãos em Êfeso “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ; Ef 4:25 ), Isaias anuncia demonstrando que ninguém obedecia a palavra de Deus “Ninguém há que clame pela justiça, nem ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam na vaidade, e falam mentiras; concebem o mal, e dão à luz a iniqüidade” ( Is 59:4 compare com Zc 8:16 ).

Melhor é obedecer do que o sacrifício: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” ( Is 1:11 -18).

As abstinências eram um tipo de sacrifício oferecido pelos filhos de Jacó, e por não se apartarem da impiedade ( Is 58:1 e 6), elas eram abominações, por mais nobre que fossem as suas intenções “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer” ( Is 1:13 -14).

Quando não se busca a palavra (temor) do Senhor, o verdadeiro tesouro ( Is 33:6 ), o homem com todas as suas práticas religiosas e morais não passa de um pobre, cego e nu ( Is 33:6 ).

A determinação de Jesus no sermão do monte não é para que os seus ouvintes deixassem os seus ofícios diários e também não era para deixar de adquirirem bens materiais, antes que deixassem de se apegar a qualquer prática como se ela fosse o que promove salvação ( Pv 10:2 ).

A determinação de Cristo para que os seus ouvintes não ‘ajuntassem tesouro na terra’ é uma explanação, por meio de uma parábola repleta de enigmas, da figura do dia do descanso instituído com o fito de o homem afligir a alma.

Após demonstrar qual o sentido de afligir a alma ( Mt 6:17 ), Jesus passou a demonstrar através da ordem de não ajuntar tesouro na terra o sentido do verdadeiro descanso, pois através de Cristo e seus ensinamentos, cumpre-se o que diz as escrituras, de que se dê descanso ao cansado, mas ouviram e não compreenderam, pois tudo lhes era dito por parábolas “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ).

Desde a antiguidade não se estipulou preço para a salvação, pois quem não tem dinheiro (pobre, necessitado, aflito, viúva, órfão), quer seja judeu ou gentil, pode comer o que é bom. Basta que inclinem os seus ouvidos ( Is 55:2 ), ou seja, creia na palavra de Deus, que comerá o que é bom ( Is 1:17 ).

O afligir da alma aparece associado à tristeza por causa das figuras que representam o conceito do pobre de espírito, do necessitado de espírito e do aflito de espírito, ou seja, daqueles que necessitam e se socorrem de Deus. Observe: “E disse-lhes Jesus: Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão” ( Mt 9:15 ).

Os escribas e fariseus questionavam porque os discípulos de Jesus não se aplicavam as abstinências, ou às práticas que eles compreendiam ser o jejum. Em resposta Jesus demonstra que os seus discípulos não podiam andar tristes, apontando o verdadeiro significado do jejum.

Os filhos das bodas jamais poderiam ficar tristes, pois o noivo estava presente. Enquanto Cristo, o esposo, estava com os discípulos, não havia motivo para ficarem contristados, mas, quando o esposo fosse tirado, automaticamente ficariam tristes, ou seja, ficariam com a alma aflita.

Lucas é específico ao dizer que os discípulos jejuariam (tristeza) apontando especificamente para os dias em que Cristo permaneceria no seio da terra. Somente naqueles dias os discípulos jejuariam, o que indica que depois daqueles dias não mais jejuariam “Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então, naqueles dias, jejuarão” ( Mt 26:31 ; Lc 5:35 ).

Por que Jesus disse que os pobres e os tristes eram bem-aventurados? ( Mt 5:3 -4) Porque os pobres, tristes, aflitos, oprimidos são figuras bíblicas utilizadas para representar todos os homens que necessitam de Deus.

O profeta Isaias anunciou que o povo trabalhava em vão e gastava o fruto do seu trabalho naquilo que não satisfazia o exigido por Deus ( Is 55:2 ). Por trabalharem ofertando sacrifícios, jejuns, ritos, etc., não esperavam a salvação providenciada por Deus.

Se os pobres e os oprimidos são bem-aventurados, segue-se que são filhos de Abraão, crentes como o crente Abraão, pois ele foi bem-aventurado porque creu na palavra de Deus. O povo de Israel não era filho de Abraão, pois em lugar de descansarem, trabalhavam.

Deus não havia prometido que os pobres, abatidos, tristes, aflitos e oprimidos seriam vivificados pelo Senhor? ( Is 57:15 ) Deus já não havia dito que os aflitos e necessitado são os que buscam a Deus? “Os aflitos e necessitados buscam águas, e não há, e a sua língua se seca de sede; eu o SENHOR os ouvirei, eu, o Deus de Israel não os desampararei” ( Is 41:17 ; Sl 146:7 ).

Qualquer que ouve e aceita o convite de Cristo que diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ), é porque verdadeiramente afligiu a alma. Somente os aflitos e necessitados ouvem a palavra de Deus, ou seja, não diz de quem pratica abstinências de alimento, roupas, perfumes, banho, etc., pois o alimento ofertado por Deus é espiritual ( Jo 6:63 ).

Sendo o alimento de Deus espiritual, o verdadeiro jejum não se dá no estômago. O verdadeiro jejum é promovido por alguém que tem a alma aflita porque sente que necessita de água e de pão espiritual após abster-se dos conceitos humanos. Este, verdadeiramente entra no descanso prometido por Deus, pois vê em Cristo o descanso preparado por Deus “O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O SENHOR solta os encarcerados” ( Sl 146:7 );

O que satisfaz o sedento, o oprimido, o aflito, o cansado, o faminto? O pão que Deus oferta a todos os homens, bastando para isso que o ouçam ( Is 55:3 ).

Quando se fala em comida e bebida é comum ao homem esquecer que a palavra de Deus é ‘comida’ espiritual que concede vida aos mortos espirituais “Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” ( Jo 4:32 ; Dt 8:3 ).

Mas, para comer da comida que os homens não conhecem faz-se necessário abster-se (jejum) do fermento dos fariseus. Quando se deixa de comer do pão fermentado com a doutrina dos fariseus, o homem jejua verdadeiramente, momento que verá, por causa da aflição que lhe acometerá a alma, que necessita da água e do pão que somente Deus pode dar ( Mt 16:6 ; 1Co 5:6 -8).

Jesus ordenou aos seus ouvintes que ‘trabalhassem’ pela comida que permanece para a vida eterna, ou seja, pela comida que Cristo estava dando gratuitamente “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:27 ).

Os ouvintes de Jesus deviam buscar a palavra de Deus, que Cristo gratuitamente ofertava, porque a obra de Deus é que o homem creia no enviado de Deus. Há um desejo incessante nos homens em fazer a obra de Deus, mas a única obra que Deus tem a realizar é que creiam no enviado de Deus “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 26:28 -29).

Os ensinos do Senhor Jesus mostram que os cristãos devem estar cônscios de que a comida não torna ninguém agradável a Deus, isto porque, se o cristão comer nada terá a mais que seu irmão, e se não come, nada tem falta “Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta” ( 1Co 8:8 ).

Ao observar que o reino dos céus não é comida nem bebida “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” ( Rm 14:17 ), tem-se a seguinte conclusão: “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados” ( Cl 2:16 ).

Ora, ninguém deve ser julgado por dias de festas ou sábados, sendo que alguns sábados eram específicos para o jejum. Neste ponto temos que: “O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu” ( Rm 14:3 ); “Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o SENHOR não come, e dá graças a Deus” ( Rm 14:6 ).

Deus já concedeu aos cristãos tudo que é concernente a vida e a piedade ( 2Pe 1:3 ), pois os abençoou com todas as benção espirituais nas regiões celestiais em Cristo ( Ef 1:3 ), ou seja, de nada têm falta “Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem” ( Sl 34:9 ).

Se os que temem ao Senhor de nada tem falta, segue-se que não podem, ou que não há como afligir a alma. Caso deixe de comer ou beber, terá fome, mas não acrescentará nada a sua vida espiritual.

Após verificar que o verdadeiro jejum é: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13), e; e) Que Jesus e os seus discípulos não jejuavam e nem cumpriam o sábado aos moldes dos escribas e fariseus ( Mc 2:18 e Mc 2:24 ; Lc 5:33 ), temos elementos para concluir que um cristão pode até se abster da comida, pois tudo que é proveniente de fé não é pecado (desde que não se pretenda costurar remendo novo em vestido velho, e nem deitar vinho novo em odres velhos, ou seja, amalgamar questões legalistas ao evangelho de Cristo) ( Mc 2:21 -22), mas é um erro o cristão utilizar o jejum como ascetismo pessoal, uma vez que é Deus quem santifica “E guardai os meus estatutos, e cumpri-os. Eu sou o SENHOR que vos santifica” ( Lv 20:8 ).

Antes de ‘abster-se da comida e da bebida’ ou de guardar ‘dias’ o cristão deve ter em mente que, enquanto tiver consigo o esposo, não pode jejuar (afligir sua alma) “E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar” ( Mc 2:19 ).

O cristão pode até abster-se do alimento, porém, o jejum de afligir a sua alma é impossível fazer. Cristo disse que sempre está com os que crêem, portanto não podem afligir a alma (jejuar) “… eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” ( Mt 28:20 ; Jo 14:23 ).

Se o crente crê que Cristo se faz presente todos os dias da sua vida, não pode jejuar! “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11 ).

A aflição da alma e o sábado são figuras estabelecidas especificamente para os homens que necessitam de descanso, o que não é o caso de quem já bebeu da água que Cristo oferece, pois nunca voltará a ter sede “E Jesus, respondendo, disse: Ó geração incrédula e perversa! até quando estarei ainda convosco e vos sofrerei? Traze-me aqui o teu filho” ( Lc 9:41 ), pois os que crêem já foram consolados e entraram para o descanso do Senhor ( Jo 14:16 e 18 ; Jo 15:26 e Jo 16:7 ; Hb 4:3 ).

Deixar de comer e beber não pode ser confundido com a ordenança de Deus para que o povo afligisse a alma. Do mesmo modo que os interpretes de Israel não compreenderam o que é ‘misericórdia quero’, ‘falai a verdade’, ‘executai juízo’, etc., não compreenderam a ordenança de ‘afligirem a alma’ sem fazerem obra alguma.

Deviam abster-se de realizar obras na intenção de salvarem-se, o que os tornariam pobres, necessitados, aflitos na alma, e se refugiariam em Deus. Após absterem-se de seus conceitos, ficariam famintos e sequiosos por beberem e alimentarem-se de Deus, a água e o pão que concede vida.

O povo de Israel e os seus sacerdotes eram contumazes em jejuar. Continuamente compareciam ao templo para prantear e jejuar ( Zc 7:2 ). Sarezer, Regem-Meleque e seus homens foram enviados de Betel à casa do Senhor para suplicarem o favor de Deus, e demonstraram o quanto estavam enfadados com aqueles ritos: “Chorarei eu no quinto mês, fazendo abstinência, como tenho feito por tantos anos?” ( Zc 7:3 ).

Qual foi a resposta de Deus através de Zacarias? “Fala a todo o povo desta terra, e aos sacerdotes, dizendo: Quando jejuastes, e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, porventura, foi mesmo para mim que jejuastes? Ou quando comestes, e quando bebestes, não foi para vós mesmos que comestes e bebestes?” ( Zc 7:5 -6).

Quando choravam, lamentavam e abstinham-se da comida e da bebida, somente estavam se deleitando em suas abominações. Em nada eram diferente os seus dias de abstinências dos dias festivos em que comiam e bebiam, pois ambos eram abominações “… quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 ).

O que se observa neste verso? Que há pelo menos setenta anos o povo de Israel se lançava às abstinências, às comidas e às bebidas, porém, tudo foi realizado para eles mesmos. Através deste verso fica nítido que o jejuar estipulado no dia da expiação ( Lv 23:27 ), em nada diferia das determinações de festejarem pertinente as outras santas convocações, como o sábado, a páscoa, as primícias, o pentecostes, etc. ( Lv 23:6 ).

Perante a lei, aquele que comia e bebia para o Senhor festejava, e aquele que se lançavam as abstinências, para o Senhor jejuava ( Zc 7:5 -6 ; Rm 14:3 ). Porém, festejar e jejuar aos moldes dos israelitas não era conforme o que Deus estipulou.

Qual era o verdadeiro jejum a realizar? Deus responde novamente: “Assim falou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Executai juízo verdadeiro, mostrai piedade e misericórdia cada um para com seu irmão…” ( Zc 7:9 ). O juízo verdadeiro refere-se àquele ministrado pelos juízes e sacerdotes nos tribunais? Deus estava tratando de questões sociais? Não!

O juízo verdadeiro que deveriam executar refere-se à palavra de Deus que dá vida eterna aos homens ( Dt 8:11 compare com Dt 8:3 ). Somente sendo misericordioso, como é o Pai celeste, é possível ao homem mostrar piedade e misericórdia aos seus semelhantes “Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” ( Lc 6:36 ).

Quando Jesus se apresentou ao povo de Israel como pão vivo que desceu dos céus “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ), estava sendo misericordioso como o Pai celeste ( Lc 6:36 ).

Ele estava executando juízo verdadeiro! “Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o SENHOR” ( Jr 22:16 ); “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ; Jo 8:16 ).

Quando se conhece a Verdade, ou antes, se é conhecido de Deus ( Jo 8:32 compare com Gl 4:9 e 1Co 8:9 ), é porque se executou o juízo verdadeiro, julgando a causa do aflito e necessitado, a causa dos que jejuam de fato! ( Jr 22:16 compare com Zc 7:9 ).

Os quarenta dias e quarenta noites sem comer não foram previstos nas escrituras como sendo o jejum do Messias, mas a humilhação e as afrontas que ele sofreu foram previstas como jejum: “Pois o zelo da tua casa me devorou, e as afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim. Quando chorei, e castiguei (afligir) com jejum a minha alma, isto se me tornou em afrontas. Pus por vestido um saco, e me fiz um provérbio para eles. Aqueles que se assentam à porta falam contra mim; e fui o cântico dos bebedores de bebida forte” ( Sl 69:9 -12 compare com Sl 36:13 ).

Observe que o salmo 69 é messiânico, sendo que os versos 9 e 10 são citados respectivamente pelo apóstolo Paulo e pelo apóstolo João como referindo-se a Cristo ( Rm 15:3 ; Jo 2:17 ).

O salmo antevê que Cristo haveria de ser o aflito do Senhor (chorei), pois afligiria (castigar com jejum) a sua alma ( Is 53:4 ), tal ação tornar-se-ia em afronta. A afronta seria como usar como vestido uma saco, tornando-se um provérbio para aqueles que exerciam o domínio (as portas) entre o povo.

Por que Jesus foi escarnecido? Como ele tornou-se o aflito do Senhor? Como ele afligiu a sua alma? Porventura não foi porque afligiu a sua alma conforme o verso 13 do capítulo 58 de Isaias? Por Jesus não fazer a sua própria vontade, antes falou segundo as palavras do Pai, sofreu o escárnio dos homens ( Mt 27:43 ; Is 58:13 compare com Jo 6:38 e Jo 8:59 ) “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ; Jo 8:16 ); “Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o SENHOR” ( Jr 22:16 ).

Como Jesus ‘julgou’ a causa dos ‘aflitos’, a ressurreição dentre os mortos foi o bem que Deus lhe proporcionou. O bem prometido para aquele que esteve muito aflito, porém, creu e falou as ‘palavras’ do Pai “Volta, minha alma, para o teu repouso, pois o SENHOR te fez bem. Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda. Andarei perante a face do SENHOR na terra dos viventes. Cri, por isso falei. Estive muito aflito” ( Sl 116:7 -10).

Pergunta: Quando o profeta Joel proclama um jejum ao povo de Israel, recomendando que se vestissem de saco, estava recomendando que se abstivesse da comida e da bebida? “Cingi-vos (de saco) e lamentai-vos (afligir), sacerdotes (…) Santificai um jejum, convocai uma assembléia solene, congregai os anciãos, e todos os moradores desta terra, na casa do SENHOR vosso Deus, e clamai ao SENHOR” ( Jl 1:13 -14 ). Não!

O verdadeiro jejum é ‘rasgar’ o coração, e não as vestes. O verdadeiro jejum é converte-se ao Senhor, e não somente vestir-se de pano de saco e abster-se de comida e bebida “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” ( Jl 2:13 ).

Converte-se ao Senhor de todo o coração somente é possível quando o homem rasga o coração, ou seja, quando é circuncidado pelo Senhor “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Jl 2:32 ); “Então dali buscarás ao SENHOR teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma”  ( Dt 4:29 ); “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ); “Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto” ( Jl 2:12 compare com Dt 30:6 ).

Quando o povo de Israel estava em grande aflição no Egito por causa de questões socioeconômicas, clamava ao Senhor ( Ex 2:23 ), e era atendido, porém, nas questões espirituais, ou seja, com relação à servidão ao pecado, não clamava ao Senhor. Não tomaram o cálice da salvação ( Sl 116:13 ; Jl 2:32 ).

Todas as vezes que se viam em aperto os filhos de Jacó convocavam um jejum nacional que se resumia em lançar cinzas sobre a cabeça, rasgar as vestes, abster da comida e não ungir a cabeça ( Jz 20:26 ; Ed  8:21 ; Et 4:3 ; Jr 36:9 ), e muitas vezes foram atendidos, como foram atendidos ao serem arrancados do Egito.

Neemias resume a história de Israel demonstrando que Deus sempre via a aflição do povo de Jacó e sempre os livrou ( Ne 9:9 ). Demonstrou também que os filhos de Israel, como nação, sempre eram atendidos, pois quando estavam em aperto se aplicavam as abstinências, aflição física semelhante a impingida pelas ervas amargas antes de serem resgatados do Egito.

Quando comeram ervas amargas e o cordeiro pascal, os filhos de Jacó foram libertos do Egito, agora necessitavam afligir a alma para serem libertos do pecado por serem descendentes de Adão. Mas, o povo não compreendeu a diferença entre ‘afligir a alma’ e ‘afligir o corpo’ com ervas amargas ou jejuns.

Após a nação se ver em descanso, novamente era posta em aperto e se voltavam com jejuns e pano de saco ao Senhor, e muitas vezes foram atendidos como nação ( Ne 9:28 ), mas não aprendiam a lição de que lhes era necessário se voltarem para Deus ( Is 59:1 -4). Não atinavam que Deus também queria libertá-los do pecado, o que demandava o afligir da alma, o que é diferente de afligir o corpo com abstinências de alimentos.

Foi por causa destas questões que Deus instituiu o dia da expiação, ordenando a cada indivíduo em Israel que afligisse a alma em um dia de descanso, para que compreendessem que, além da libertação nacional, Deus queria livrá-los do pecado.

Quando Jesus veio, o povo continuou buscando uma libertação nacional ( Jo 6:15 ), no entanto, Jesus demonstrou que veio libertar os cativos, os contritos, os aflitos de coração, pois o seu reino não é deste mundo ( Is 61:1 ; Jo 18:36 ; Mt 11:28 ).

Os contritos, aflitos, pobres, tristes, cativos são todos os que se convertem a Deus de todo o seu coração, que afligem a alma, o jejum, o clamor e o pranto ( Jl 2:12 ).

Observe o alerta do apóstolo Paulo: “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças” ( 1Tm 4:1 -3).

Para os cristãos resta o alerta paulino, pois qualquer que proíbe o casamento e que ordena abstinências, o que devem ser recebidos pelos homens com ação de graças, fala mentira, não fala segundo a verdade do evangelho.

Não se pode perder de vista que “… os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos”, e que Deus aniquilará tanto um como o outro ( 1Co 6:13; 1Tm 4:4 ).

Daniel ficou por três semanas sem comer manjar desejável, nem carne e nem vinho, e não ungiu a cabeça com óleo, pois a compreensão da visão o entristeceu muito ( Dn 10:2 -3). A tristeza de Daniel o fez abster-se de alimento, mas tal abstinência não diz do jejum estipulado por Deus, antes foi em conseqüência de ter entendido a visão de Deus.

Moisés não comeu pão e nem bebeu água por quarenta dias e quarenta noites ( Ex 34:28 ). Elias após comer o pão que o corvo lhe trouxe caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe com a força daquela comida ( 1Rs 19:8 ), e o Senhor Jesus foi guiado pelo Espírito até o deserto, e ficou quarenta dias e quarenta noites sem comer, e após, teve fome ( Lc 4:1 -2).

Moisés, Elias e Cristo jejuaram? Se tomarmos a palavra jejuar como sendo ficar sem comer e beber, pode-se ‘dizer’ que eles jejuaram.

Mas, como estavam na presença de Deus, e na presença de Deus há abundância de alegria, somente não comeram, pois lhes era impossível ‘afligir a alma’ diante da alegria verdadeira ( Sl 16:11 ).

Segundo a concepção humana de que jejuar é abster-se de alimento, Moisés e Cristo não jejuaram, mas se considerarmos o verdadeiro jejum descrito em Isaias 58, verso 13, segue-se que jejuaram. Jejuaram, mas não em decorrência de não terem comido ou bebido. Jejuaram por que: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade, e; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13).

Moisés ficou sem comer porque estava na presença de Deus. Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto e, somente após o período de quarenta dias e quarenta noites, teve fome.

O caso de Elias é peculiar, pois ficou sem comer porque o alimento entregue pelo corvo o susteve. A tristeza que Elias sentiu não pode ser confundida com a ordenança de se ‘afligir a alma’, pois a tristeza de Elias era decorrente de um sentimento humano de desilusão, enquanto o ‘afligir da alma’ decorre das questões elencadas acima.

Por não compreenderem o enigma na ordem divina de afligirem a alma em um dia de descanso os judeus faziam propósito de se absterem de alimentos, porém, os três personagens em tela foram atraídos e conduzidos por Deus por um motivo especial.

Os três personagens referenciados acima em momento algum se propuseram ficar sem se alimentar durante quarenta dias e quarenta noites contrariando ou testando as suas estruturas físicas. Nenhum deles tentou a Deus, ou seja, fez um propósito específico de ficar sem comer e beber por um período longo o bastante com o intuito de verificar se Deus estava com eles ou não.

Qualquer propósito no sentido de ficar sem se alimentar por quarenta dias e quarenta noites é o mesmo que tentar a Deus. Qualquer desafio neste sentido é contrário ao mandamento divino, pois o homem não vive de sacrifícios, mas da palavra que sai da boca de Deus “Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ; Dt 6:16 ; Ex 17:7 ).

Saulo, após ficar cego, ficou três dias sem comer e beber ( At 9:9 ), mas ficar sem se alimentar não foi o jejum exigido por Deus no capítulo 58 de Isaias. Após ser contatado pelo Senhor Jesus, Saulo se propôs a obedecê-lo “E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça?” ( At 9:6 ), e aguardou as instruções por três dias sem comer e beber “E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer” ( At 9:6 ).

Enquanto aguardava ser instruído, Saulo passou sem comer por três dias, mas o verdadeiro jejum estava ocorrendo na sua mente, pois o verdadeiro jejum é: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade, e; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13).

Quando lemos citações de jejuns na bíblia, como o caso de Ana, que apesar de ter oitenta e quatro anos, não deixava o templo e fazia jejuns e orações, deve-se ter em mente as questões culturais própria ao povo de Israel.

Apesar das questões culturais, havia em Israel alguns homens que afligiam a alma, pois aguardavam a consolação de Israel “Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele” ( Lc 2:25 ).

Quando se crê no que profetizou o profeta Simeão encontra-se paz e descanso para a alma aflita “Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, e para glória de teu povo Israel” ( Lc 2:29 -32).

Como era comum a prática de abstenções de alimentos, votos, sacrifícios, etc., em Israel, e a influencia dos judeus convertidos sobre os demais cristãos foi grande, e tais costumes continuaram sendo aplicados em meio aos primeiros cristãos ( At 13:2 -3 ; At 18:18 ).

Embora tenha orientado os gentios no transcorrer do tempo que não lhes era necessário guardar os costumes dos judeus ( At 21:25 ), muitas práticas foram disseminadas por questões culturais, principalmente àqueles relacionadas a comida e aos dias de festas ( Gl 2:12 ).

Um exemplo claro encontra-se no comportamento do apóstolo Pedro, que apesar de estar comendo com os gentios, quando chegaram os da circuncisão, acabou se deixando envolver em questões culturais, e até Barnabé se deixou levar ( Gl 2:12 ). Tal dissimulação ocorreu quando comiam, que se dirá das abstenções impostas pelos judaizantes em seus dias de festas e jejuns ( Cl 2:11 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo alerta quanto aqueles que proíbem o casamento e que ordenam a abstinência de alimentos ( 1Tm 4:3 ), pois discursam que é possível ao homem render graças a Deus por intermédio destas privações.

O cristão não pode perder de vista que o sacrifício aceito por Deus é o de louvor, ofertado por intermédio de Cristo ( Hb 13:15 ; Rm 12:1 ; Sl 51:15 -17 ; Os 14:2 ).

A melhor recomendação aos que seguem a Cristo foi feita por Ele mesmo: “E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar” ( Mc 2:19 ), pois é certo que o cristão já entrou no descanso proposto, pois Cristo está com ele para todo o sempre. Amém! ( Hb 4:3 ; Mt 28:20 ).

 

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BIBLIOGRAFIA

 

ALMEIDA, João Ferreira de, Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, 4ª impressão, 1996, Editora Vida.

Novo Testamento interlinear grego-português. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004.

 

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Por que Deus exigiu de Abraão o sacrifício de Isaque?

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ). Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!

 


A ordem direta de Deus a Abraão para imolar Isaque fomenta várias discussões, distorções e interpretações errôneas acerca do objetivo de tal ordem.

A despeito da onisciência de Deus, muitos questionam qual o propósito de Deus em mandar Abraão imolar o seu filho. Deus queria saber até onde Abraão era obediente? Deus queria mensurar a fé de Abraão?

A resposta é simples, porém, demanda conhecimento bíblico e raciocínio. Para responder tal indagação é necessário relembrar alguns eventos específicos concernentes a vida de Abraão. Analisemos estes três pontos principais:

 

  • O chamado de Abraão

Abraão era gentil, morava na cidade de Ur, terra dos Caldeus. Seu pai saiu da cidade de Ur com destino a terra de Canaã, porém, quando chegou a Harã, passou a habitar naquele lugar.

Abraão foi orientado por Deus a sair do meio de seus parentes seguindo para uma terra que ainda seria mostrada. Abraão saiu confiado em Deus tendo em vista uma promessa ( Gn 12:2 ). Obedeceu à voz divina, porém, levou consigo o seu sobrinho Ló até a terra de Canaã ( Gn 12:5 ).

Após passar pela terra de Canaã, novamente Deus apareceu a Abraão e prometeu aquela terra à sua descendência. Abraão, que à época chamava-se Abrão, ali edificou um altar ao Senhor, e seguiu em direção ao sul.

Abraão desceu ao Egito por causa da escassez de alimento e quando se estabeleceu no Egito adquirindo riquezas. Após ter alcançado bens o patriarca foi compelido a deixar o Egito, pois Deus feriu o rei do Egito por causa de Sara, mulher de Abraão. Em seguida, Abraão subiu do Egito para as regiões do Nequebe juntamente com Ló.

Perceba que Abraão poderia continuar morando no Egito, porém, a grande praga que sobreveio ao rei do Egito fez com que Abraão saísse de lá.

Abraão seguiu do Egito para a região do Neguebe e retornou ao local que fez o primeiro altar ao Senhor, Betel, ou seja, voltou ao ponto inicial de sua peregrinação. Após uma contenda entre os servos de Ló e os servos de Abraão, eles se separaram. Ló foi levado cativo e Abraão teve que lutar contra quatro reis para libertá-lo.

Após a guerra, saiu ao encontro de Abraão o rei de Sodoma e o rei de Salém. O rei de Salém abençoou Abraão, e o rei de Sodoma fez uma proposta a Abraão, que foi rejeitada de pronto: “Levantei a minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio nem uma correia de sapato, para que não digas: eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:22 -23).

De tudo que relembramos até aqui, surgem algumas considerações: Por que Abraão precisou sair do Egito, se ele não alcançou a promessa e viveu como peregrino na terra? Por que Abraão não aceitou a proposta do rei de Sodoma se era legitimo ele aceitar tal prêmio?

Diante da proposta do rei de Sodoma Abraão entendeu que, caso aceitasse, no futuro alguém poderia interpretar que Abraão foi enriquecido através dos bens da cidade que foi subvertida por Deus. Se Abraão ficasse com os bens do rei de Sodoma, ficaria ‘constado na história’ que, o rei de Sodoma, e não Deus havia abençoado Abraão.

Abraão foi tentado a lançar mão de bens, que no futuro poderia dar a entender a Abraão que a promessa de Deus efetivou-se por uma conquista própria. Como bem sabemos posteriormente a cidade de Sodoma foi subvertida devido a sua promiscuidade excessiva.

Porém, fica uma questão sem resposta: onde e quando Abraão alcançou o discernimento para não fazer aliança com o rei de Sodoma, rejeitando o que lhe era de direito? A saída do Egito motivada pela praga na casa do rei proporcionou a Abraão uma lição de vida que o capacitou a rejeitar a aliança com o rei de Sodoma.

Com relação às questões materiais Abraão estava consciente de que deveria esperar em Deus.

 

  • A promessa de um descendente

Deus prometeu a Abraão que a sua descendência herdaria a terra que os seus olhos estavam enxergando no momento da reiteração da promessa ( Gn 13:14 ), porém, Deus ainda não havia prometido um filho a Abraão gerado por Sara.

Em face da promessa à sua ‘descendência’ ( Gn 15:1 ), Abraão ficou incomodado por não ter filho, e pretendia fazer o damasceno Elieser, o seu servo, o seu herdeiro.

Foi quando Deus prometeu a Abraão um filho de suas entranhas, sem qualquer referência a Sara, e creu Abraão e isto lhe foi imputado por justiça ( Gn 15:4 ).

Para Abraão Deus prometeu o impossível, visto que a época da promessa era de conhecimento que Sara era estéril, porém ele creu firmado no poder e na fidelidade de Deus, sendo declarado justo diante de Deus.

Apesar de Abraão crer em Deus e ser justificado, o tempo passava e ele continuava sem filho. Diante deste quadro, a mulher de Abraão resolveu providenciar filho a Abraão, e ele aceitou dar a Sara um filho através da escrava ( Gn 16:2 ).

É bem provável que Abraão tenha interpretado a atitude de sua mulher como sendo a providência divina: 1) Ismael foi gerado segundo a carne de Abraão, e; 2) o nascimento de Ismael encaixou ‘perfeitamente’ no que Deus lhe falara (um filho de suas entranhas).

Este entendimento decorre do fato de Abraão ter feito menção do nome de Ismael quando Deus reiterou a promessa: “Oxalá viva Ismael diante de ti!” ( Gn 17:18 ). Abraão já estava compreendendo que Ismael era o filho da promessa, o seu ‘primogênito’ e herdeiro.

Algum tempo depois, Abraão foi interpelado por sua mulher, que exigiu que Ismael não herdasse juntamente com Isaque. Abraão ficou temeroso, visto que Ismael seria o seu ‘primogênito’, porém, descansou em Deus quando foi orientado a esperar na providência divina e que ele não estaria fazendo nenhum mal ( Gn 21:12 ).

 

  • O milagre

A despeito do riso de Abraão no coração, a promessa de Deus continuou de pé ( Gn 17:17 ), e no tempo determinado nasceu Isaque.

Isto demonstra que a fidelidade de Deus é a causa de Abraão ter sido justificado e abençoado segundo a promessa, visto que Abraão riu da promessa.

Em nossos dias a fé é tida como agente catalisador que desencadeia milagres, porém, o que a palavra de Deus demonstra é que a fidelidade e o poder de Deus devem ser à base da fé cristã.

Mesmo após Abraão apresentar seu servo damasceno e seu filho Ismael como opção diante de Deus, mesmo após rir da promessa, Deus permaneceu fiel à sua palavra.

Sara era estéril, de avançada idade (mais de 90 anos) e segundo a promessa de Deus concebeu Isaque. A bíblia demonstra que Abraão estava ciente das impossibilidades para se alcançar um filho com Sara:

  • Um homem de cem anos;
  • Sará com noventa anos;
  • Sará estéril ( Gn 17:17 ).

Diante das impossibilidades, o homem ri, pois não tem ideia da dimensão do poder de Deus. Diante do mar vermelho o homem fica temeroso, pois a impossibilidade do homem fica em evidência. Diante da necessidade de salvação o homem descobre que está à mercê do pecado e da morte, porém, o que é impossível aos homens, para Deus é possível.

 

Por que Deus exigiu o sacrifício de Isaque?

Através da análise anterior, fica demonstrado que certos eventos relatados na história de Abraão são difíceis de captar. O relato da história do patriarca Abraão não se prende a explicar certos porquês, antes se fixa somente nos fatos.

Como é possível a bíblia apontar Abraão como sendo um exemplo de fé, sendo que em determinado momento da sua vida ele riu da promessa, e apresentou uma alternativa diante de Deus? Não era para ele ter perdido a bênção neste evento?

Por que Abraão tentou ‘ajudar’ Deus cumprir a promessa através de Ismael? Uma leitura superficial da história de Abraão faz com que o leitor não perceba este detalhes de suma importância ao contexto geral das escrituras.

Outro ponto a se destacar é concernente a aliança proposta pelo rei de Sodoma. Abraão foi tentado a ajudar Deus com riquezas provenientes do fruto de suas conquistas pessoais, porém, rejeitou-a, pois entendeu que a sua prosperidade deveria ser fruto da promessa divina.

Isto é maravilhoso, porém, onde Abraão aprendeu esta lição? Se levarmos em conta o fato de Abraão ter sido expulso do Egito por causa de uma praga que sobreveio ao Faraó, veremos que neste evento ele aprendeu que rei algum seria o pivô da riqueza pertinente a sua descendência.

Se Abraão não aprendesse a lição no Egito, certamente sucumbiria diante da aliança e oferta do rei de Sodoma. Observe que o perigo rondava Abraão de perto. Se Abraão fizesse uma aliança com Sodoma, certamente diriam que:

  • Sodoma foi responsável pela prosperidade de Abraão, ou;
  • Abraão poderia reputar que as suas riquezas era fruto de suas conquistas pessoais.

Surge outra pergunta: havia algum risco para Abraão acerca do nascimento de Isaque, caso Deus não tivesse posto Abraão a prova. Como? Isto mesmo! Analisemos se havia algum risco para Abraão, caso ele não fosse submetido à provação.

Observe como é fácil o homem confundir-se:

É notório para nós que Isaque foi quem nasceu segundo a promessa de Deus, porém, Abraão fez menção de Ismael perante Deus, pois estava esperançoso que o filho da escrava fosse o seu herdeiro;

Embora Isaque tenha nascido segundo a promessa, Abraão ainda podia e continuou a gerar filhos, mesmo após os cem anos ( Gn 25:1 -2).

Neste ponto em específico (b) havia um grande perigo rondando o patriarca. Havia um risco para Abraão decorrente do fato de ele gerar filhos segundo a sua carne, mesmo em avançada idade. Havia o risco de Abraão se gloria da sua carne, pois mesmo em avançada idade ainda gerava filhos.

Hoje seria tema de discussão cientifica se Isaque era mesmo filho segundo a promessa, ou se Sara nunca foi estéril de fato. O cuidado que Abraão teve com relação ao rei de Sodoma, para que ninguém dissesse no futuro: “O rei de Sodoma foi quem enriqueceu a Abraão”, seria sem valia, visto que questionariam se Isaque foi realmente fruto da providência divina.

Quando nasceu Isaque, Abraão reputava com base na fé, que a promessa estava sendo cumprida. Mas, após Sara morrer e Abraão casar-se com Quetura, obtendo outros filhos, havia o risco de Abraão ser dissuadido da fé, e voltar a rir da promessa, visto que ele ainda podia gerar filhos, mesmo após considerar impossível obtê-los por causa da idade avançada ( Gn 17:17 ).

Quando Deus mandou Abraão imolar Isaque, Isaque era o seu ‘único’ filho, e não era cogitado Abraão ter mais filhos ( Gn 17:17 ). O evento demonstra que Deus não estava ‘testando’ e nem ‘mensurando’ a fé de Abrão. Deus não estava pondo à fé de Abraão a prova, uma vez que ele já havia sido justificado por Deus.

Deus não estava em dúvidas quanto à fé de Abraão quando o submeteu a prova!

O que Deus pretendia com a ‘provação’?

Com a provação Deus estava cuidando de Abraão! Como?

Pedro nos diz: “Essas provações são para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 e 1Pe 4:12 -14).

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ).

Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!

Como Abraão riu-se da promessa quando vislumbrou as impossibilidades ( Gn 17:17 ), ele poderia novamente rir-se da providência divina após gerar filhos de Quetura ( Gn 25:1 -52).

As seguintes questões poderiam sobressaltar Abraão: Será que Sara era estéril mesmo? Ismael, Isaque, Zinrá, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Sua não foram filhos da minha carne? Será que a falta do “costume das mulheres” em Sara era mesmo uma impossibilidade de ter filhos? A idade de Sara era um real impedimento para ela conceber? Visto que pude ter filhos com mais de cem anos com Quetura, o filho de Sara não poderia ser produto da minha ‘virilidade’?

Todas estas questões não poderiam levar Abraão a gloriar-se da sua carne?

Ao ser exigido o sacrifício de Isaque, Abraão teve que recobrar o seu filho dentre os mortos, confiado no poder de Deus “Abraão julgou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar, e daí também em figura o recobrou” ( Hb 11:19 ).

Ou seja, quando Abraão se predispôs obedecer à ordem divina para oferecem em holocausto o seu filho, ele deixou de ter um filho segundo a sua carne (embora o filho segundo a promessa de Deus fosse proveniente das ‘entranhas’ de Abraão e Sara), para receber o seu filho dentre os mortos.

Daquele momento em diante, Abraão estava desprovido de qualquer elemento que o levasse a considerar posteriormente que Isaque era fruto de sua carne, ou que a sua própria carne havia lhe concedido Isaque. Após o evento da oferta de Isaque, Abraão, segundo a providencia divina, teve a confirmação de que nada alcançou segundo a carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” ( Rm 4: 1).

Ao recobrar o seu filho dentre os mortos, o que Deus proporcionou a Abraão além do seu filho Isaque? Uma âncora que penetrou até o interior do que estava oculto. Ele foi ensinado a lançar mão da esperança proposta, e não do que era aparente e que desvanece ( Hb 6:18 -19).

Isaque não era a segurança de Abraão, antes a segurança estava na esperança proposta. A consolação esta em Deus que não mente e é imutável, o que faz o homem peregrinar em busca da pátria celestial! ( Hb 6:14 -18).

Para alcançar Isaque, Abraão teve que recobrá-lo dentre os mortos, agindo de modo a dar cabo da própria promessa. Naquele momento em que Abraão ofereceu o seu único filho, a palavra de Deus foi posta acima de evidências físicas da promessa.

Abraão descansou na providência divina, pois o descendente sobre quem a promessa repousaria ainda estava por vir!

Abraão alcançou esta graça em Deus, porém, o povo de Israel, os seus descendentes não compreenderam e nem fizeram como o crente Abraão. Apesar do exemplo concedido por Abraão, o povo não foi aprovado na prova do maná concedido no deserto. As pessoas estavam confiadas no maná que aparecia no deserto, porém, não confiavam na palavra de Deus, que deu origem ao maná. Não consideravam que ‘nem só de pão viverá o homem’ ( Dt 8:3 ).

A prova da fé do homem não é porque Deus quer saber ou mensurar algo a respeito do homem. Antes, a prova da fé tem em vista a preservação da confiança do homem, o que redunda em louvor, glória e honra a Deus ( 1Pe 1:7 ).

 

Outra questão

Com relação ao versículo que diz: “Agora sei que temes a Deus, pois não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12 ), temos uma caso típico de antropomorfismo, ou melhor, é um dos ‘modos’ de Deus se manifestar ou comunicar-se utilizando a forma, o modo, a características ou a linguagem humana.

O homem geralmente compara o desconhecido ou compreende algo desconhecido através de elementos e fatos conhecido. Por exemplo, ao descrever algum animal desconhecido, o homem utiliza-se do que conhece para descrevê-lo: tinha pés como o de homem; cabeça como a de cavalo, rabo como o de peru, etc ( Ez 1:10 ).

Do mesmo modo, ao fazer referência a Deus, diz-se que Deus descansou, uma vez que o homem descansa. Porém, surgem as questões: sendo Deus onisciente, onipresente e onipotente Ele pensa? Faz considerações? Chega a conclusões? Precisa descansar segundo a concepção humana? ( Is 40:8 -31).

Por certo que os ‘caminhos de Deus’ são muito elevados, e os seus ‘pensamentos’ inatingíveis! “Mas não sabem os pensamentos do SENHOR, nem entendem o seu conselho; porque as ajuntou como gavelas numa eira” ( Mq 4:12 ). Como expressar o que nunca se viu ou ouviu? O que nunca subiu ao pensamento do homem? “Mas, como está escrito: As coisas que os olhos não viram, e os ouvidos não ouviram, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” ( 1Co 2:9 ).

Além das questões antropomorfista, é preciso considerar que a linguagem humana é dinâmica e transforma-se constantemente. Como alcançar o pensamento original de uma única palavra ou de uma frase escrita a milhares de anos? Por mais que muitos escribas procuraram ser fiéis à transcrição de textos, impressões pessoais podem afetar a idéia do texto.

É por isso que o estudo da bíblia deve ser sistemático, seguindo regras e princípios pertinentes a hermenêutica e a exegese. Não é o que um texto expressa que fará surgir ou que extirpará uma doutrina bíblica, antes o contexto geral das escrituras é observado para fazermos um juízo de valores e idéias.

Hoje já é difícil para um interprete ou tradutor secular transmitir a idéia contida em uma expressão idiomática, porém, esta é uma limitação humana.

A bíblia diz que Deus descansou no sétimo dia, porém, através da carta aos Hebreus fica demonstrado que a idéia de descanso que a bíblia imprime não tem relação com a necessidade de repouso. Através da palavra ‘descansar’ a bíblia quer evidenciar que não mais havia obras a serem realizadas.

Após o dia sexto nenhuma outra obra concernente a criação do universo foi realizada, pois tudo foi criado e estabelecido com perfeição.

‘Descansar’ no Gênesis significa não ter obrar a realizar, diferente da idéia que muitos querem dar: repouso por causa de cansaço “Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” ( Hb 4:10 ). Ora, quando a bíblia diz que Cristo entrou no seu repouso, ela quer dar a entender que a obra de Cristo é perfeita como a do Pai.

Com relação ao registro: ‘agora sei que temes a Deus’, verifica-se que o temor (confiança) de Abraão foi levado em conta quanto da justificação por Deus ( Gn 15:6 ), ou seja, ao provar Abraão, Deus não tinha como objetivo mensurar a fé do patriarca.

Se considerarmos um dos recursos lingüístico próprio à retórica, percebe-se que o texto tem por objetivo transmitir (noticiar) a Abraão que ele foi provado e aprovado para louvor e glória de Deus, segundo a fé. Este verso não enfatiza falta de conhecimento em Deus, antes, a ênfase da frase está em tornar Abraão ciente de que estava aprovado.

Quando o Anjo do Senhor disse: ‘agora sei que temes a Deus’, o objetivo era louvar o homem que foi provado e aprovado com base na fé “Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva” ( 2Co 10:18 ).

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