Por teus pecados

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

 


Li um trecho do Sermão nº 350, do Dr. Charles Haddon Spurgeon, sob o título “Um tiro certeiro na justiça própria”, e não consegui deixar de tecer um comentário acerca de uma afirmação contida no sermão.

Chamou-me a atenção a última frase do sermão, que diz:

“Cristo foi castigado por teus pecados antes que fossem cometidos” Charles Haddon Spurgeon, trecho do sermão nº 350 “Um tiro certeiro na justiça própria”, extraído da web.

Ora, se o Dr. Spurgeon considerou o texto bíblico que diz que Jesus é ‘o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo’, na verdade ele devwria destacar que Cristo morreu antes que o pecado fosse introduzido no mundo ( Ap 13:8 ; Rm 5:12 ). Porém, como ele afirma que Jesus foi castigado antes que cada pecado dos cristãos fossem cometidos individualmente, entendo que o Dr. Spurgeon não fez referência ao verso 8, capítulo 13 do Livro de Apocalipse.

Cristo foi castigado pelo pecado de toda a humanidade, porém, quem cometeu a ofensa que levou toda a humanidade a estar debaixo do pecado? Ora, pelas Escrituras entendemos que o pecado é proveniente da ofensa (desobediência) de Adão, e não pelos erros de condutas que os homens cometem.

O castigo que trouxe a paz não se deu por causa de erros de conduta cometidos individualmente’, visto que todos os homens são gerados na condição de alienados de Deus (pecadores). Cristo é cordeiro de Deus morto antes da fundação do mundo, ou seja, o cordeiro foi ofertado antes que a ofensa de Adão ocorresse.

O castigo que recaiu sobre Cristo não decorre da conduta dos homens (pecados cometidos), antes decorre da ofensa de Adão. Em Adão os homens foram feitos pecadores, visto que, por uma ofensa veio o juízo e a condenação sobre todos os homens, sem exceção ( Rm 5:18 ).

Se o pecado (condição do homem sem Deus) decorre da conduta dos homens, para que a justiça fosse estabelecida, necessariamente a salvação somente seria possível através da conduta dos homens. Seria exigível que os homens praticassem algo bom para amenizar a sua conduta ruim, porém, jamais seria ‘justificado’.

Mas, a mensagem do evangelho demonstra que pela ofensa de um homem (Adão) todos foram condenados à morte, e somente por um homem (Cristo, o último Adão) o dom da graça de Deus abundou sobre muitos ( Rm 5:15 ). Quando Jesus morreu pelos nossos pecados, ocorreu uma substituição de ato: como Adão desobedeceu, o último Adão foi obediente até o calvário.

A última frase do trecho do sermão do Dr. Spurgeon demonstra que não foi considerado que:

  • Todos os homens são pecadores porque o primeiro pai da humanidade (Adão) pecou ( Is 43:27 );
  • Que todos os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 );
  • Que toda a humanidade desviou-se de Deus desde a madre ( Sl 58:3 );
  • Que todos os homens andam errados desde que nascem ( Sl 58:3 ), porque entraram por uma porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);
  • Que por terem sido vendidos como escravo ao pecado, ninguém transgride conforme a transgressão de Adão ( Rm 5:14 );
  • Que o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto pior que uma sebe de espinhos ( Mq 7:4 );
  • Que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa da condenação estabelecida em Adão;
  • Que não há nenhum justo, nenhum sequer, entre os descendentes de Adão ( Rm 3:10 ), etc.

Que bem ou mal comete uma criança no ventre materno para ser concebido em pecado? Que pecado uma criança comete para andar ‘errada’ desde que nasce? Quando e onde todos os homens desviaram e juntamente se fizeram imundos? ( Rm 3:12 ) Acaso o extravio da humanidade não se deu através da ofensa de Adão?

Em Adão todos os homens juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ), isto porque Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer. O nascimento segundo a carne, o sangue e a vontade do varão é a porta larga por onde todos os homens entram, se desviam e juntamente se fazem imundos ( Jo 1:13 ).

Que evento fez com que todos os homens ‘juntamente’ se tornassem imundos? Somente a ofensa de Adão explica o fato de todos os homens, em um mesmo evento, tornarem-se imundos (juntamente), visto que é impossível a todos homens de inúmeras épocas praticarem um mesmo ato juntos.

Considere: Cristo morreu porque Caim matou Abel, ou Cristo morreu por causa da ofensa de Adão? Qual dos eventos comprometeu a natureza de toda humanidade? O ato de Caim ou a ofensa de Adão?

Observe que a condenação de Caim não é proveniente do seu ato criminoso, antes decorre da condenação em Adão. Jesus demonstrou que não veio condenar o mundo, antes salvá-lo, pois seria contraproducente julgar o que já está condenado ( Jo 3:18 ).

Cristo foi castigado por causa do pecado da humanidade, porém, o pecado não se refere àquilo que os homens cometem, antes diz da ofensa que trouxe juízo e condenação sobre todos os homens, sem distinção.

As ações dos homens sob o jugo do pecado também é denominado pecado, visto que, qualquer que peca, peca porque é escravo do pecado. A barreira de separação entre Deus e os homens se deu através da ofensa de Adão, e por causa da ofensa no Éden não há entre os filhos dos homens quem faça o bem. Por que não há quem faça o bem? Porque se extraviaram todos e juntamente se fizeram imundos. Portanto, por causa da ofensa de Adão, tudo que o homem sem Cristo faz é imundo.

Quem do imundo tirará o que é puro? Ninguém! ( Jó 14:4 ) Ou seja, não há quem faça o bem porque todos são escravos do pecado.

Ora, o escravo do pecado comete pecado, visto que, tudo que realiza pertence por direito ao seu senhor. As ações dos servos do pecado são pecaminosas porque são feitas por escravos do pecado. É por isso que Deus libertou os que creem para que sejam servos da justiça ( Rm 6:18 ).

Já os filhos de Deus não podem pecar porque são nascidos de Deus e a semente de Deus permanece neles ( 1Jo 3:6 e 1Jo 3:9 ). Qualquer que comente pecado é do diabo, mas os que creem em Cristo pertencem a Deus ( 1Co 1:30 ; 1Jo 3:24 ; 1Jo 4:13 ), visto que são templo e morada do Espírito ( 1Jo 3:8 ).

Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo ( 1Jo 3:5 e 1Jo 3:8 ), e todos que são gerados de Deus permanecem n’Ele ( 1Jo 3:24 ) e em Deus não há pecado ( 1Jo 3:5 ). Ora se em Deus não há pecado, segue-se que todos que estão em Deus não pecam, visto que foram gerados de Deus e a semente de Deus permanece neles.

Uma árvore não pode dar dois tipos de frutos. Assim, aqueles que são nascidos da semente de Deus não podem produzir frutos para Deus e para o diabo, da mesma forma que é impossível um servo servir dois senhores ( Lc 16:13 ). Toda planta plantada pelo Pai dá muito fruto, porém, frutifica somente para Deus ( Is 61:3 ; Jo 15:5 ).

Após morrer para o pecado, o antigo senhor, resta ao homem ressurreto apresentar-se a Deus como vivo dentre os mortos, e os membros do seu corpo como instrumento de justiça ( Rm 6:13 ). A condição ‘vivo’ dentre os mortos é adquirida pela fé em Cristo, através da regeneração (novo nascimento). Através do novo nascimento o homem torna-se vivo dentre os mortos, e resta, portanto, voluntariamente apresentar a Deus os membros do seu corpo como instrumento de justiça.

O pecado não mais reina, pois não tem mais domínio sobre os que creem ( Rm 6:14 ). O cristão deve oferecer os seus membros para servirem a justiça, ou seja, para servirem Aquele que os santificou, visto que Cristo é a justificação e a santificação dos cristãos ( Rm 6:19 ; 1Co 1:30 ).

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

Os homens sem Deus, por sua vez, existem sem esperança neste mundo, pois são como o imundo e tudo que produzem, é imundo. Não há como o homem sem Deus fazer o bem, pois a natureza má só produz o mau “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” ( Is 64:6 ).

O profeta Isaias ao descrever a condição do seu povo, comparou-os com:

  • O imundo – Quando o povo de Israel tornou-se imundo? Quando todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos, ou seja, em Adão, o primeiro Pai da humanidade ( Sl 14:3 ; Is 43:27 );
  • Justiça como trapos de imundície – Todas as obras de justiça dos imundos são comparáveis a trapos de imundície, que não servem para vestes. Embora fossem religiosos, as obras do povo de Israel eram obras de iniquidade, obras de violência ( Is 59:6 );
  • Murcham como a folha – Não havia esperança para o povo de Israel, visto que como a folha estavam mortos ( Is 59:10 );
  • As iniquidades são como vento – Nada que Israel fazia podia livrá-los desta horrenda condição, visto que a iniquidade é comparável ao vento que arrebata a folha, ou seja, o homem não pode livrar-se do senhoril do pecado.

Cristo, a seu tempo, morreu pelos ímpios. O Cordeiro de Deus foi imolado desde a fundação do mundo pelos pecadores “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” ( Rm 5:6 ); “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

Ora, Cristo morreu pelos escravos do pecado, e não pelos ‘pecados’ que os escravos do pecado praticam, como entendeu o Dr. Spurgeon.

Cristo morreu pelos pecadores, logo os que creem morrem juntamente com Ele. Cristo morreu por todos para que os que são vivificados não mais vivam para si, antes vivam para Aquele que morreu e ressurgiu ( 2Co 5:14 ).

Os que ressurgiram com cristo estão em segurança, visto que:

  • Estão em Cristo;
  • São novas Criaturas;
  • As coisas velhas passaram;
  • Tudo se fez novo ( 2Co 5:17 ).

Deus reconciliou consigo mesmo os que creem por intermédio de Cristo e deu aos vivos dentre os mortos o ministério da reconciliação ( 2Co 15:18 ).

Aos vivos dentre os mortos resta a exortação: não recebais a graça de Deus em vão ( 2Co 6:1 ). Deus te ouviu em tempo aceitável, por tanto, como instrumento de justiça os cristãos são recomendados a:

  • Não dar escândalo em coisa alguma – Por que os cristãos não devem dar escândalos? Para serem salvos? Não! Para que o ministério da reconciliação não seja censurado;
  • Sendo recomendáveis em tudo – Na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, etc ( 2Co 6:3 -6).

Cristo foi morto desde a fundação do mundo, antes mesmo que toda a humanidade se tornar-se escrava da injustiça em função da desobediência de um só homem que pecou: Adão.

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Romanos 6 – O homem velho foi crucificado com Cristo

Há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus. Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).


Introdução ao Capítulo 6

“Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante” ( 1Co 15:45 )

 

Para compreendermos a exposição de Paulo nos capítulos 6 e 7 é preciso entendermos as comparações que Paulo faz entre Cristo e Adão.

No capítulo 5 Paulo demonstrou que Adão e Cristo constituem-se ‘os cabeças’ de duas famílias distintas. Este trouxe à vida (existência) os filhos de Deus, e àquele traz à existência na condição de mortos e em inimizade com Deus os filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, ou filhos de Adão.

Comparando Adão e Cristo, os contrastes são evidentes:

  • Em Adão a transgressão e em Cristo o dom gratuito ( Rm 5:15 );
  • Em Adão a condenação e em Cristo a justificação ( Rm 5:16 );
  • Em Adão morte e inimizade, e em Cristo vida e paz ( Rm 5:17 );
  • Em Adão ofensa e em Cristo justiça ( Rm 5:18 );
  • Adão desobedeceu e Cristo obedeceu ( Rm 5:19 );

Em Adão todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e são justificados em Cristo (o último Adão), gratuitamente pela sua graça por meio da fé ( Rm 3:23 -24).

Paulo iniciou a exposição do livro de Romanos demonstrando o comportamento dos homens destituídos de Deus, e que, todos sem exceção serão trazidos a juízo por causa de suas obras no dia da retribuição de Deus (dia da ira), quando também será manifesto o juízo de Deus que se deu em Adão a todos os homens ( Rm 2:5 -11).

Paulo aponta questões futuras, demonstrando que Deus recompensará a cada um segundo as suas obras ( Rm 2:7 -8), quando forem estabelecidos o Tribunal do Trono Branco para os ímpios ( Rm 2:6 ), e o Tribunal de Cristo para os justos ( 2Co 5:10 ).

Depois, Paulo passou a demonstrar qual a condição dos homens que hoje estão sem Cristo: todos pecaram e juntamente se extraviaram, sem que houvesse um único homem que fizesse o bem ( Rm 3:10 -20). Concomitantemente, ele demonstra a condição daqueles que estão em Cristo: justificados gratuitamente pela graça de Deus por meio da fé em Cristo!

Desta forma, há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus.

Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).

A exposição que Paulo faz aos cristãos Romanos é argumentativa e principalmente teológica, diferente da exposição de Cristo, que é por parábolas e ilustrativa.

Desta forma temos que as parábolas como os dois caminhos, as duas portas, as árvores boas e as árvores más, as plantas que o Pai não plantou, etc, fazem referência a Adão e a Cristo.

Depois de fazer uma exposição teológica, Paulo também apresenta uma figura para ilustrar as considerações teológicas: os vasos para honra e os vasos para desonra ( Rm 9:21 ).

Isto posto, verifica-se que, para estudarmos o capítulo 6 e 7 e chegarmos a uma conclusão plausível, é preciso analisados segundo a ótica do primeiro e do último Adão.

 

1 QUE diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?

A pergunta deste versículo decorre do versículo 20 do capítulo anterior.

“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse. Mas onde o pecado abundou, superabundou a graça (…) Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente?” ( Rm 5:20 e Rm 6:1 ).

Após demonstrar que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, Paulo antecipa-se àqueles que poderiam argumentar que permaneceriam no pecado visando aumentar a graça.

‘Que diremos…’, ou seja, qual deve ser o entendimento do cristão? Permanecer no pecado (em Adão), para que a graça aumente? Não! Este não deve ser o entendimento do cristão.

Não é porque a graça superabundou onde o pecado abundou que o comportamento do cristão deva ser de devassidão.

O pecado reinou pela morte (pena decorrente da transgressão de Adão), e a lei somente fomentou a ofensa ( Rm 5:20 ). Mas, a graça de Deus se há manifestado para que, da mesma forma que o pecado reinou por meio da natureza decaída do homem (carne) e em obediência as suas concupiscências (conduta aquém da lei de Deus), a graça também reine pela justiça através da nova natureza (espiritual) e em obediência à justiça (conduta segundo a lei da liberdade).

 

2 De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

De modo nenhum! Os cristãos em Roma e o próprio escritor da carta não permanecem no pecado.

Paulo espera que os cristãos raciocinem e cheguem a uma conclusão sobre o ‘permanecer no pecado’ através do parâmetro estabelecido neste verso: Se os cristãos ‘Estão mortos para o pecado’, como é possível permanecer nele? Para os que estão mortos para o pecado não há como viver ou permanecer no pecado.

Da mesma forma que Cristo, quanto a ter morrido, ‘de uma vez morreu para o pecado’ ( Rm 6:10 ), os que morreram com Cristo também de uma vez estão mortos para o pecado ( Rm 6:8 e 10).

 

3 Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?

Para os leitores da carta que argumentassem que permaneceriam no pecado para que a graça aumentasse, Paulo demonstra que quem assim pensa desconhece o real significado do batismo.

Tanto Paulo quanto os leitores da sua carta havia sido batizados na morte de Cristo por meio da fé “…fomos batizados em Jesus…”, ou seja, todos os que creem são batizado na morte de Cristo Jesus “…um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Se todos morreram porque Cristo morreu, isto demonstra que ‘de uma vez morreram para o pecado’ conforme Paulo demonstra no verso 10.

 

4 De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.

É pela fé que o cristão torna-se participante da morte e da ressurreição de Cristo. O batismo nas águas somente simboliza o que o cristão já alcançou pela fé em Cristo: o verdadeiro batismo do homem efetivasse na morte com Cristo.

O cristão é batizado na morte de Cristo e sepultado juntamente com ele. Isto porque, da mesma forma que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória e poder de Deus, os que com ele ressurgem obtenham nova vida (espírito) e andem conforme ele andou (comportamento).

Neste ponto está o grande mistério revelado: Da mesma maneira que através do primeiro Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo que não há nenhum deles que pratique o bem (embora pratiquem boas ações) ( Rm 3:10 -18 e 23), por meio de Cristo, o último Adão, os homens são justificados e conduzidos à glória dos filhos de Deus, e estes por sua vez não praticam o mau (embora sejam suscetíveis de praticar más ações).

Como isto é possível? Este versículo é uma explicação teológica da figura da árvore que Cristo apresentou aos seus discípulos: “Do mesmo modo, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:17 -18).

Ou seja, os homens nascidos segundo a semente corruptível de Adão não fazem o bem, e jamais poderão fazer o bem. Eles são plantas que o Pai não plantou ( Mt 15:13 ), nascidos da semente corruptível, e portanto, árvores más, e só podem produzir frutos maus.

Da mesma forma, os homens nascidos da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, estes fazem o bem, visto que as suas obras foram preparadas por Deus de ante mão para que andassem nelas. Estes são plantas que o Pai plantou, árvores boas, e que só produzem frutos bons.

Como Deus fez (plantou) os cristãos novas criaturas para as boas obras (bons frutos), resta que não há como andar segundo o pecado, pois Deus já preparou para as suas criaturas para que andassem em boas obras ( Ef 2:10 ).

Resta que, é impossível àqueles que creem em Cristo, e que, portanto, são boas árvores (participantes da videira verdadeira), pratiquem más obras ou dêem maus frutos ( Tg 3:11 -12).

Com base no princípio demonstrado anteriormente é que Paulo demonstra que é impossível aos que foram agraciados com nova vida por meio a fé em Cristo permanecer (v. 1), viver (v. 2) ou andar segundo a velha natureza que foi crucificada com Cristo (v. 4).

 

5 Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;

Este versículo apresentada a mesma ideia que o apóstolo João apresenta em uma de suas carta: “Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no da do juízo tenhamos confiança, porque, qual ele é, somos nós também neste mundo ( 1Jo 4:17 ).

A exposição de João é declarativa, enquanto a de Paulo argumentativa. João afirma categoricamente que os cristãos são como Cristo é, e aqui e agora, neste mundo. João não aponta o mundo vindouro, quando os cristãos serão revestidos da imortalidade, mas que, neste sistema de coisas (mundo) o Cristão já alcançou a mesma posição do Filho de Deus.

É a maneira de João dizer que os cristãos já estão assentados nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 2:6 ).

Como a exposição de Paulo é argumentativa, ele conduz o leitor para chegar a uma conclusão. ‘Se fomos…’ é o mesmo que ‘fomos’ plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte, uma vez que com ele morremos.

Por terem sido plantados na semelhança da sua morte, os cristãos também ressurgem dentre os mortos à semelhança de Cristo. Desta maneira, da mesma forma que Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo. Estão assentados nas regiões celestiais em Cristo.

 

6 Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.

Não há como um cristão dizer que permanecerá no pecado com a ideia de que aumentará a graça de Deus, visto que:

  • O velho homem (nosso) foi crucificado com Cristo;
  • O corpo do pecado (carne) é desfeito, e;
  • Não serve mais ao pecado.

Como seria possível a alguém que crê em Cristo permanecer no pecado, visto que os que creem são crucificado com Cristo e tiveram o corpo do pecado desfeito? Se o corpo do pecado foi desfeito, como viver ou andar no pecado?

O crente é crucificado e sepultado com Cristo para que não mais sirva ao pecado, e segundo este saber, as possíveis argumentações do verso 1 são inconsistentes.

 

7 Porque aquele que está morto está justificado do pecado.

Ou seja, aquele que morreu com Cristo (que está morto) justificado está do pecado. Por assim dizer, também cessou do pecado.

Aquele que está morto para o pecado, não permanece inerte, antes ressurge dentre os mortos para a glória de Deus Pai. O novo homem que ressurge com Cristo, este é declarado justo diante de Deus (justificado).

Aquele que está morto para o pecado é o mesmo que vive para Deus. Por viver para Deus é que o homem recebe a declaração de que é justo.

Os que vivem para o pecado jamais serão justificados por Deus, uma vez que os vivos para o pecado estão mortos para Deus. Paulo disse que, quem está morto para o pecado está justificado, isto por causa do versículo seguinte, onde ele demonstra que quem morre com Cristo, vivem para Deus (v. 8).

A declaração de justo (justificação) é concernente a nova vida adquirida de Deus. Para receber a nova vida é preciso morrer (ter um encontro com a cruz de Cristo). Segue-se que a graça de Deus veio sobre todos os homens, “… para justificação e vida” ( Rm 5:18 ).

 

 

Abordagem Histórica das Transformações Lingüística

Antes de prosseguirmos o estudo da Carta de Paulo aos Romanos, faz-se necessário nos deter em observar as transformações que ocorreram ao longo da história recente sobre o modo de exposição e argumentação do pensamento humano.

A abrangência interlocutiva da linguagem é um fenômeno de todos os tempos e de todas as sociedades, porém, o estudo cientifico deste fenômeno (Pragmática) é recente.

A tendência da metafísica ocidental a partir de Platão (428 – 427 a.c), salvo exceções, tendeu privilegiar a dimensão apofântica (lógica do verdadeiro e falso), declarativa e locutória da linguagem. Perseguiam um ideal de linguagem (lógico-matemático).

O que a metafísica não alcançou, a ciência moderna se declarou herdeira. Para os da ciência moderna (Kepler, Galileu, Descartes e Newton), fazer ciência consiste em matematizar e formalizar, eliminando da linguagem as considerações implícitas, tendo estes elementos da linguagem natural como equívocos ou inadequadas ao discurso científico.

Veja o que Perelman diz da metafísica e da ciência moderna sobre o discurso declarativo como única forma de descrição da linguagem: “Negar as outras formas de discurso, ou a desvalorizá-las como fazia Platão, acusando de sofístico todo o uso linguístico não apoiado na essência, na definição, na clareza a priori” (Perelman, citado em Meyer, 1992: 120).

Apesar do ostracismo imposto pelas regras da metafísica quando realçadas pela ‘linguagem’ adotada pela ciência moderna, temos na história um outro tipo de abordagem linguística do discurso: a retórica.

A primeira referência a retórica remonta ao século V a.C, tendo em dois sicilianos (Corax e Tisia) os seus idealizadores, por causa de Hiéron, um certo tirano de Siracusa, que, segundo a lenda, teria proibido os seus súdito de utilizar a fala.

A Retórica cresceu em importância na democracia ateniense, visto que, saber falar para persuadir e convencer nas assembleias, tribunais, praças públicas, etc transformou-se em necessidade.

Era preciso a quem fizesse o uso da fala saber convencer o interlocutor da pertinência de sua abordagem. Por fim, os Sofistas, que se auto intitulavam ‘mestres de Retórica’ os seus principais representantes.

Aristóteles ao abordar a Retórica, transforma a ‘técnica de persuasão’ em ciência quando dedica três livros a Retórica, ao compor um conjunto de conhecimentos, categorias e regras.

Essencialmente, Aristóteles demonstrou que a Retórica visa criar meios de persuadir um auditório acerca de uma determinada matéria. Sem fixar-se naquilo que é demonstrável ou analítico, a Retórica tem o que é verossímil ou provável como seu objeto, através de uma natureza puramente discursal (dialética).

O declínio da Retórica teve início no final do século XVI num processo que estendeu-se até o século XIX, que marca o seu desaparecimento. Ela perdeu a influência e sofreu modificações: perdeu o seu objetivo pragmático, deixando de aplicar-se ao persuadir para aplicar-se ao ensino de ‘belos’ discursos.

Tal declínio deve-se a ascensão do pensamento burguês através da evidência pessoal do protestantismo, racional do cartesianismo ou sensível do empirismo (Perelman 1993: 26). Este processo é marcado pelo racionalismo de Descartes, quando erigiu a evidência em critério de verdade. Ele excluiu a argumentação do campo do saber geral e da filosofia em particular. Para ele evidência só através da demonstração, e nunca através da discussão (Perelman 1987: 264).

Mas, qual a relação entre a Retórica, a Metafísica e a linguagem da ciência moderna com a abordagem a Carta de Paulo aos Romanos? A Retórica como uma ‘ciência’ da argumentação de modo a persuadir e convencer o interlocutor teve o seu ápice entre os Gregos e Romanos, sociedade que Paulo, como cidadão Romano fazia parte, e que acabou por influenciar o estilo de composição de suas cartas.

Para uma melhor compreensão dos escritos de Paulo, é preciso utilizar como ferramenta de interpretação de texto e contexto elementos da Retórica. É plenamente verificável que o método de ensino de Paulo é segundo a arte do bem falar, de modo que ele procurava persuadir e convencer os seus interlocutores

As várias condições que Perelman enumera como sendo necessárias a argumentação (Retórica) são plenamente observáveis nas Cartas de Paulo. Paulo sempre:

  • Situa e insere- o seu discurso em um contexto determinado e dirige-se a um auditório determinado;
  • Paulo como orador, através do seu discurso procurava exercer uma ação (de persuasão ou convicção) sobre o auditório;
  • Os interlocutores precisam estar dispostos a escutar, ou seja, a sofrer (aceitar)a ação do orador;
  • Querer persuadir implica renúncia por parte do orador em dar ordens ao auditório, procurando antes, a sua adesão intelectual;
  • Paulo, além do estilo argumentativo, que nada tem a ver com a verdade do evangelho, aponta e defende a verdade do evangelho desvinculado do seu conhecimento humano ou do próprio uso da Retórica;
  • Ao argumentar, Paulo demonstra que é tão possível defender uma tese como a sua contrária. Aplicação prática do exposto por: (Perelman, 1987: 234).

 

A argumentação (Retórica) de Paulo é distinta da demonstração (lógica), visto que, a concepção da argumentação insere a noção de auditório “O conjunto daqueles que o orador quer influenciar mediante o seu discurso” (Perelman, 1987: 237). O ‘auditório’ de Paulo é os cristãos, e ele conhecia os valores e as teses do seu auditório em especial.

Paulo era versado na Retórica, uma vez que ele não apresenta erros como orador, que é a petição de princípio, que segundo Perelman é: “Supor admitida uma tese que se desejaria fazer admitir pelo auditório” (Perelman, 1987: 239-240). Durante as suas exposições, Paulo trabalha as teses e valores do seu auditório (cristãos), mesmo quando constituído de apenas uma ou algumas pessoas (cartas pastorais e cartas as igrejas), através do questionamento, técnica muito utilizada por Sócrates em seus diálogos platônicos. (Perelman, 1987: 240).

O Capítulo 6 é composto por frases argumentativas, e, portanto, elas não devem ser consideradas ou confundidas com frases conclusivas ou afirmativas.

Quais as diferenças entre frases argumentativas, conclusivas e afirmativas? Como interpretá-las?

Um exemplo claro de frase afirmativa é: “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ). O apóstolo João é quem trabalha muito com frase afirmativas, ou por vezes declarativas.

Ao relembrar a mensagem anunciada por Cristo, João faz menção de uma frase declarativa e afirmativa: Deus é luz! Tais frases são utilizadas para evidenciar uma verdade inconteste, ou para declarar algo acerca de alguém.

Por exemplo: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje e eternamente” ( Hb 13:8 ). Temos uma verdade e uma declaração acerca de Cristo Jesus. Estas frases podem ser tomadas de maneira isolada do texto e contexto que não trarão grande prejuízo ao leitor.

Ao citar Hb 13:8 é quase impossível alguém intentar negar a imutabilidade de Cristo, embora há quem intente.

As frases afirmativas, declarativas constituem-se premissas que dão sustentabilidade às frases argumentativas e conclusivas.

O apóstolo Paulo é dado a linguagem argumentativa, visto que, o seu discurso visa convencer ou persuadir, seja qual for os seus interlocutores (judeus ou gentios). Argumentar é fornecer argumentos e razões a favor ou contra uma determinada tese ou matéria.

A linguagem de Paulo é segundo a retórica dos Gregos e dos Romanos, que foi concebida como a arte do bem falar, embora a doutrina apregoada por Paulo não tenha se firmado em sublimidade de palavras ou de sabedoria ( 1Co 2:1 ). A arte do bem falar é o falar de modo a persuadir e a convencer através da dialética e tópica, ou seja, uma arte no conduzir o diálogo e a exposição de temas controversos.

A arte do bem falar trabalha com operadores argumentativos que a língua dispõe. Estes dispositivos são designados operadores e conectivos argumentativos. Por causa destes operadores argumentativos, os enunciados de uma frase ou oração, embora tenha uma significação própria do ponto de vista lógico, acaba por divergir quando analisadas do ponto de vista argumentativo.

Vejamos o seguinte exemplo:

a) “Ora, a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés?”;

B) “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:13 -14).

Temos dois enunciados que se analisados do ponto de vista lógico e argumentativo, somente o ponto de vista argumentativo faz com que o segundo enunciado complemente o primeiro. Observe: a pergunta ‘b’ quando tida como um enunciado de cunho lógico somente carece de respostas: Os anjos são ou não ministros enviados a servir em favor dos santos?

Porém, quando analisadas argumentativamente, os operadores argumentativos transformam simples premissas que conduzem a uma única conclusão, diferente do que é próprio a abordagem lógica (verdadeiro – falso).

Desta forma, verifica-se que o enunciado ‘b’ exerce somente a função de enfatizar a divindade de Cristo, sem a pretensão de especificar qual o ‘serviço’ desenvolvido pelos anjos.

Os operadores argumentativos aplicados aos enunciados transforma-os em premissas que conduzem a uma única conclusão, posicionando o enunciado numa certa direção que implicam em conclusões específicas.

Já os conectores argumentativos são dispositivos (advérbios, conjunções e locuções de subordinação ou de conjunção, etc.) que permitem a conexão ou a ligação recíproca de dois ou mais enunciados. Numa argumentação, os conectores podem ligar as premissas entre si, as premissas com a conclusão e a conclusão com as premissas.

Bibliografia: Retórica e Argumentação, Paulo Cesar, Universidade da Beira Interior, 95/96.

 

 

As argumentações deste capítulo devem ser analisadas segundo o que Paulo demonstrou nos versos 12 à 19 do capítulo 5, da mesma forma que o capítulo 3, versos 23 ao capítulo 5, verso 11, deveriam ser analisados com base no exposto nos versos 21 à 22 do capítulo 3.

Ao declarar que a justiça de Deus é pela fé em Cristo ( Rm 3:21 -22), Paulo apresenta um vasto repertório de argumentos no intuito de demonstrar e convencer alguns dos cristãos da validade do exposto, e, para demonstrar que os seus argumentos não comportam mais que uma conclusão, ele apresenta a seguinte conclusão: “Sendo, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), e no que ela implica: “… temos paz com Deus…” ( Rm 5:1 ).

A exposição do verso 1 do capítulo 6 segue o mesmo molde do exposto acima. Neste verso o apóstolo simplesmente antecipa-se a possíveis ‘contradizentes’, demonstrando que, qualquer argumento contrário ao que ele haveria de expor, não chegaria a uma conclusão válida segundo a verdade do evangelho, que é conforme o exposto acerca de Adão e Cristo ( Rm 5:12 -19).

O verso 1 deste capítulo fundamenta-se no verso 20 do capítulo 5, onde fica claro que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, ou seja, a graça já foi demonstrada abundante (passado) em Cristo (na sua morte), não sendo mais necessário que alguém procurasse ‘promover’ a graça (para que a graça aumente).

O pecado abundou sobre os nascidos em Adão, porém, a graça de Deus demonstrou-se superabundante por intermédio de Cristo, nosso Senhor. Qualquer tentativa humana em promover a graça, é inócua, visto que, ela já foi demonstrada em plenitude (superabundou), quando Cristo morreu pelos homens, sendo eles ainda pecadores ( Rm 5:8 -10).

 

8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos;

Os versos 1 à 6 traz o leitor a seguinte conclusão: o cristão já morreu com Cristo (juntamente). Observe que Paulo inclui-se na narrativa ao demonstrar que, ele e os destinatários da carta, morreram com Cristo.

Até o verso 2 deste capítulo o apóstolo tão somente fez referência à morte de Cristo, demonstrando que, Ele foi entregue e morto por causa dos pecados dos homens que foram gerados em Adão ( Rm 4:25 ). As questões acerca da morte de Cristo, que reconciliou os que crêem com Deus, são plenamente respondidas ( Rm 5:10 ), porém, como se deu a justificação dos que crêem, está questão é respondida através dos versículos que demonstram que os cristãos também morreram com Cristo.

O verso 8 é um enunciado argumentativo por causa dos conectores argumentativos (ora, se e que), porém, o enunciado apresenta o seguinte pressuposto: Já morremos (os cristãos) com Cristo.

Em primeiro lugar, o apóstolo demonstrou que Cristo morreu ( Rm 5:8 ) (argumentação segundo valores intrínsecos a ele e seus interlocutores: a fé no evangelho). Todos os cristãos sabiam que Cristo havia morrido na cruz do calvário! Temos na argumentação uma premissa: Cristo morreu.

Logo em seguida, Paulo apresenta outro enunciado argumentativo, do qual podemos extrair a seguinte premissa: todos os cristãos estão mortos para o pecado ( Rm 6:2 ). Após apresentar um novo enunciado argumentativo, Paulo procura certificar-se de que todos possuíam o mesmo conhecimento: “Ou não sabeis que…” ( Rm 6:3 ), de que o batismo do cristão representa a sua morte com Cristo.

Dai segue-se o seguinte raciocínio:

a) Cristo morreu (premissa 1);

b) Os que crêem morreram com ele para o pecado (premissa 2 – é o que o batismo representa);

c) surge a conclusão ao relacionar a premissa 1 com a premissa 2: Como Cristo morreu e os cristãos também morreram, logo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, os cristãos também ressurgiram com Ele ( Cl 3:1 ).

Mas, por que o versículo aponta que com Cristo viveremos (futuro), e não que com ele vivemos (presente)? Por causa do exposto no verso 5, onde o apóstolo destaca a semelhança com Cristo. Ou seja, os cristãos foram plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte para que os cristãos alcancem a semelhança do Cristo ressurreto, o que ocorrerá quando o que é mortal se revestir da imortalidade (futuro).

Hoje o cristão vive e anda em Espírito, pois o corpo do pecado foi desfeito na cruz do calvário, porém, só alcançará a semelhança da ressurreição de Cristo, quando da manifestação dos filhos de Deus ( Rm 8:19 ), que serão semelhantes a Cristo.

Desde o momento em que o homem crê, ele passa a viver e andar segundo a vida concedida por Deus, porém, este versículo destaca que a vida com Deus é sempiterna (viveremos = habitaremos para sempre). “Ora se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos”, ou seja, o viveremos indica a eficácia da salvação poderosa providenciada por Deus e manifesta na morte de Cristo (graça superabundante).

 

9 Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele.

No verso três Paulo, lembra os cristãos que todos foram batizados na morte de Cristo “Ou não sabeis que…” (v. 3), e nos versos 6 e 9, ele demonstra que todos tinham um conhecimento em comum “Pois sabemos isso (…) Pois sabemos que…” (vs. 6 e 9).

Os cristãos sabiam que Cristo morreu (v. 3), e que havia ressuscitado dentre os mortos, e que Ele jamais voltaria a morrer novamente. Cristo jamais voltará a se sujeitar a passar pela paixão da morte, uma vez que ela foi vencida na cruz do calvário.

 

10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.

O verso 10 complementa o verso anterior. Paulo reafirma que, quanto a ter morrido, Cristo morreu uma só vez por causa do pecado da humanidade decorrente de Adão. Porém, com relação a vida decorrente da ressurreição, Ele vive para sempre à destra de Deus.

Este verso demonstra que, se os cristãos realmente criam que efetivamente morreram à semelhança de Cristo, isto significava que eles também morreram de uma vez (não é preciso morrer outra vez) e para sempre para o pecado. Da mesma forma, quanto a viver, viverão para sempre com Deus à semelhança de Cristo “…cremos que também com ele viveremos” (v. 9).

 

11 Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.

Paulo procura conscientizar os seus leitores a considerarem (Retórica perfeita) que estavam mortos para o pecado e vivos para Deus. “Assim também…” remete as considerações apresentadas anteriormente.

Ou seja, da mesma maneira que ‘conheciam’ que Cristo morreu uma única vez por causa do pecado e foi sepultado, os cristãos deveriam considerar estarem mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus.

Esta relação entre a morte de Cristo e a morte dos cristãos, e a vida de Cristo e a nova vida dos cristãos Paulo Já havia estabelecido no verso 8, porém, discorre de forma a não deixar dúvidas quando a morte dos cristãos para o pecado, e ressurreição deles para vida, por meio de Cristo Jesus.

Considerar é ter em conta, ou seja, é andar conforme a nova vida alcançada “…assim andemos nós também em novidade de vida” (v. 4). Paulo não recomenda um faz de conta ao pedir que os cristãos considerassem estarem mortos para o pecado e vivos para Deus. Eles deviam contar com a nova vida e descansar por estarem de posse dela (regeneração), porém, andarem de modo digno da nova condição alcançada graciosamente (comportamento).

 

 

12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências;

Os versos 12 e 13 não devem ser considerados como uma determinação (ordem), pois é próprio à retórica a renúncia, pelo orador, a dar ordens ao auditório.

A conjunção coordenativa conclusiva (portanto) demonstra que todo o enunciado (vs 12 e 13) depende das considerações expostas anteriormente (vs 9- 12), ou seja, o verso 12 não é uma ordem direta e inflexível (Não reine.), como se o homem possuísse domínio sobre o pecado (isto considerando o pecado quanto a figura de senhor).

A partir do momento que o cristão considera que está morto para o pecado (v. 11), automaticamente estará cônscio de que o pecado não exerce domínio sobre ele (reinado), e que já não cumpre com as obrigações do pecado.

O pecado não exerce domínio (reine) sobre o corpo mortal dos que crêem, de maneira que o cristão ‘deva’ se submeter as suas concupiscências (do pecado).

Este verso apresenta a mesma idéia do verso 14: a partir do momento que o homem passa a estar debaixo da graça, é porque o corpo do pecado foi desfeito (v. 6) e a lei não exerce qualquer influência sobre ele. O pecado deixa de ter domínio, e portanto, já não reina o pecado sobre o corpo mortal dos que crêem.

Este versículo apresenta uma nova realidade aos cristãos, e não uma determinação do apóstolo aos cristãos.

 

13 Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.

A nova condição em Cristo permite aos cristãos não apresentar os seus membros (corpo mortal) ao pecado (antigo senhor) por instrumento de iniqüidade. Diante da nova realidade decorrente da morte com Cristo que é a do pecado não exercer domínio (não reine) sobre os seus ouvintes, Paulo apresenta argumentos que demonstram ser possível também andar em novidade de vida.

Os que morreram com Cristo passaram à condição de vivos para Deus, uma vez que rejeitaram o pecado através da fé em Cristo, e podiam apresentarem-se a Deus, visto que estavam de posse da nova condição: vivos dentre mortos.

Apresentar-se a Deus refere-se ao serviço voluntário do servo ao seu novo Senhor, ou seja, é estar consciente de que os seus membros (corpo) deve estar a serviço do seu Senhor como instrumento de justiça.

Observe que a função de instrumento é estabelecida através de um comparativo: ‘como’ instrumento. Os homens não são instrumentos, porém, podem entregar-se ‘como’ instrumento de iniqüidade ou de justiça. Um instrumento não tem iniciativa própria, ficando na dependência de quem o usa. Este comparativo nos remete à carta de Paulo aos Gálatas: “Estes se opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

Um instrumento não possui vontade própria, e por isso carne, e Espírito se põem, para terem os homens como instrumentos. Desta forma os homens como instrumento não fazem o que desejam, antes, são utilizados como instrumento, ou da carne para a iniqüidade, ou do Espírito para a justiça.

Um instrumento não possui vontade própria, da mesma forma se estabelecermos este comparativo a pessoa de um escravo. Apesar de um escravo possuir ‘vontade’ por ser um ser humano reduzido a servidão, a condição de servidão faz com que o escravo não passe da condição de um objeto.

Um escravo era tido como um instrumento de produção (máquina), e a sua vontade não era levado em conta, visto que:

a) um escravo não podia possuir propriedades (bens);

b) tudo quanto produz pertence por direito ao seu Senhor, e;

c) em última instância, o escravo não passa da condição de propriedade do seu senhor.

A única certeza de um escravo quanto a receber alguma coisa desta vida era a morte, que o tornaria livre do seu senhor. Desta forma, a morte seria o único salário (recompensa) que um escravo teria direito, pois, como ‘coisa’ que era, um escravo não podia ter posses ou herdades.

 

14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.

Após saber ou conhecer que Cristo ressurgiu dentre os mortos e que a morte não tem domínio sobre Ele, resta que o pecado não tem domínio sobre os cristãos, uma vez que ressurgiram com Cristo (v. 9) “Portanto, se fostes ressuscitados com Cristo…” ( Cl 3:1 ).

O fato de os cristãos terem sido batizados com Cristo na sua morte, e ressurgido dentre mos mortos para a glória do Pai (v. 4), tirou-os da condição de sujeição a lei, para estabelecê-los debaixo da graça de Deus.

A premissa é: o pecado não tem domínio sobre o cristão. Mas, tal premissa é introduzida por um operador e conectivo argumentativo: porque – conjunção coordenativa explicativa. Ou seja, a premissa (o pecado não terá domínio sobre vós) do verso 14 é introduzida como uma explicação sobre porque o cristão deve considerar-se morto para o pecado e vivo para Deus.

 

 

Jesus Cristo Crucificado

Paulo foi instruído (versado) na arte do bem falar, porém, as suas mensagens não estavam apoiadas e nem consistiam em conhecimento humano (retórica). O tema das suas mensagens era e é a cruz de Cristo “E EU, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado ( 1Co 2:1 -2).

Demonstramos anteriormente que (pág. 17), através da arte do bem falar, Paulo trabalhava a concepção dos ouvintes através da persuasão, porém, em momento algum ele esteve apoiado em elementos provenientes da sabedoria humana (retórica) “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana…” ( 1Co 2:4 ).

Ao expor o evangelho de Cristo, Paulo não estava confiado na Retórica (sublimidade de palavras ou palavras persuasivas de sabedoria humana), antes estava cônscio de que a mensagem do evangelho é poder de Deus ( 1Co 2:5 ; Rm 1:16 ).

Paulo demonstrava efusivamente que a mensagem do evangelho é Espírito e poder (vida), para que os cristãos não depositassem confiança em meras palavras de conhecimento humano “O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são Espírito e vida ( Jo 6:63 ) compare: “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder ( 1Co 2:5 ).

Observe a relação entre ‘poder’ e ‘vida’: a vida eterna decorre do poder que emana de Deus por meio da fé em Cristo, o Verbo de Deus, que é a vida de Deus concedida graciosamente aos homens ( Jo 1:4 ).

Jesus, ao falar de si mesmo, apresentou-se como a vida de Deus concedida aos homens ( Jo 14:6 ), e Paulo ao testificar d’Ele, apresenta-O como ‘poder de Deus’, visto que, somente através do poder de Deus (evangelho) os homens alcançam a vida eterna.

Observe a primeira carta aos Coríntios, onde é possível inferir que as divisões entre os cristãos em vários partidos eram provenientes do entendimento de alguns que estabeleciam aqueles que detinham maior conhecimento humano em uma posição de preeminência sobre os demais ( 1Co 1:13 ).

O que percebemos através dos textos bíblicos é que Paulo não promovia estas desavenças. Paulo procurava demonstrar que todos os cristãos foram agraciados e enriquecidos em Cristo, em toda palavra e conhecimento, de modo que, nenhum dom faltava aos cristãos ( 1Co 1:5 ). Se todos foram de igual modo enriquecido em conhecimento e sabedoria, porque estavam se gloriando nos homens se tudo pertencia a eles? ( 1Co 3:21 ).

Se todos os cristãos foram enriquecidos em Cristo em tudo, para quê focar elementos provenientes do conhecimento humano “…os quais são vãos” ( 1Co 3:20 ), se a maior riqueza está na cruz de Cristo?

Paulo demonstra que nada propôs saber aos cristãos, a não ser a Cristo, e Este crucificado “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ), ou seja, o apóstolo não apresentou aos cristãos elementos de sabedoria humana, visto que, tal sabedoria é vã e não vem do alto, conforme também atesta o apóstolo Tiago ( Tg 3:14 -15).

As dissensões nas igrejas eram provenientes daqueles que estavam equivocados em sua carnal compreensão. Tinham a si mesmos por sábios, mas esqueciam que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus ( 1Co 3:18 -19).

Além daqueles que consideravam a si mesmos por sábios segundo a sabedoria deste mundo, havia outros que se gloriavam naqueles que se diziam sábios, o que potencializava as contendas entre os cristãos “…portanto, ninguém se glorie nos homens!” ( 1Co 3:21 ).

Através do exposto por Paulo aos cristãos de Coríntios, verifica-se que a mensagem do evangelho não se mescla à sabedoria humana. Enquanto esta é vã, aquela promove a vida eterna.

Quando Paulo escreveu que a sabedoria deste mundo é vã, ele não estava descartando de todo o conhecimento humano. É salutar que os cristãos sejam instruídos no conhecimento secular, porém, é preciso compreender que o homem jamais se achegará a Deus por meio deste conhecimento.

Enquanto na condição de ‘peregrinos’ nesta vida, o cristão precisa instrui-se para melhor relacionar-se com os concidadãos deste mundo, mas deve estar ciente de que a instrução deste mundo não o torna apto a compreender as coisas do reino de Deus.

Alguém pode perguntar: por quê? A bíblia apresenta vários motivos:

  • Ter um diploma ou ser versado em ciências humanas não habilita homem algum a compreender a mensagem do evangelho “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14 );
  • A mensagem do evangelho é loucura para os sábios deste mundo “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem…” ( 1Co 1:18 );
  • A sabedoria deste mundo não promove o conhecimento de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria…” ( 1Co 1:21 );
  • O evangelho apresenta Deus se revelando aos homens por intermédio do seu Espírito, mas nenhum dos ‘príncipes’ deste mundo conheceu a Cristo, embora fossem sábios e entendidos “A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu (…) Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito…” ( 1Co 2:8 -10).

O que observamos em Paulo é que, apesar de ele ter sido instruído nas questões seculares, ele não usou desta sabedoria para se impor sobre os demais cristãos. Porém, não podemos negar que, ao expor o evangelho em suas cartas, Paulo utiliza elementos da retórica para melhor expor a verdade do evangelho.

Mas, quando comparamos as cartas de Paulo e Pedro, verificamos que, com relação à mensagem apregoada, as cartas de Pedro não ficam aquém do exposto pelas cartas Paulinas.

O problema quanto à sabedoria deste mundo surge quando alguém se arroga na posição de sábio e mestre, porém, firma-se na sabedoria deste mundo, e não na sabedoria que é do alto, proveniente da revelação de Deus por intermédio do evangelho ( 1Co 3:18 -20).

O homem movido pelo conhecimento deste mundo se vangloria em suas conquistas pessoais e apresentam os seus títulos como troféus. Acaba ensoberbecendo-se contra o seu irmão, e esquece que, as conquistas pessoais deste mundo não tornam ninguém diferente perante Deus “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ).

Um exemplo claro de como o conhecimento humano interfere na compreensão da palavra do evangelho encontramos na doutrina da justificação.

Muitos estudiosos ao examinar a bíblia compreendem que a justiça divina é semelhante a apresentada nos tribunais humanos, e estabelecem esta relação pura e simplesmente por causa da palavra ‘justificação’.

Scofield e Bancroft comungam da mesma opinião quando fazem referência à justificação: “A justificação é o ato judicial de Deus, mediante o qual aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo a Seus olhos…” Teologia Elementar, Bancroft, Emery H., Editora EBR, 3º Ed., pág. 255 (grifo nosso), e nota explicativa do rodapé da Bíblia de Scofield com Referências à Rm 3: 28.

Na mesma página, Bancroft dá uma definição ‘bíblica’ para a palavra justificação: “A palavra ‘justificação’, tanto na terminologia religiosa como na linguagem comum, é um termo ligado à lei (…) É termo técnico e forense…”. Destas colocações surge a pergunta: Onde está definido que a palavra justificação é termo técnico e forense? O que se percebe, é que homens versados em ciências jurídicas passaram a adotar o termo ‘justificação’ como sendo um termo jurídico por entenderem que a justiça divina assemelhasse a justiça humana, ou seja, que Deus também trabalha com ‘ato judicial’.

Ledo engano! Isto quando não apresenta contradições em suas definições. Se considerarmos as notas de Scofield, o que é justificação? É um ato judicial ou um ato de reconhecimento divino?

Se considerarmos a bíblia, verificaremos que os dois conceitos não condizem com a verdade. A bíblia não trás uma definição, porém, ela apresenta elementos que apontam para a seguinte definição: Justificação resulta de um ato criativo de Deus!

Por que um ato criativo? Por que envolve o poder de Deus. O homem só é justificado (tornar justo, declarar justo, declarar reto ou livre de culpa e merecimento de castigo) quando crê no evangelho e recebe poder para ser feito (criado) novamente (regeneração) um novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

A necessidade da justificação do homem não é por causa de seus atos, antes por causa da natureza herdada em Adão. Por isso a justificação é de vida, através da ressurreição com Cristo, onde o poder manifesto em Cristo, também se manifesta sobre os que creem “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida ( Rm 5:18 ; Ef 1:19 -20).

Desta maneira, verifica-se que o conhecimento humano não alcança a magnitude da revelação de Deus por meio do evangelho. A sabedoria de Deus não surpreende somente os homens uma vez que a multiforme sabedoria de Deus é revelada aos principados e potestades por intermédio da igreja.

Enquanto o mundo procura sabedoria, o cristão deve fixar-se na mensagem da cruz de Cristo, que é escândalo para os sábios deste mundo, porém, a sabedoria de Deus confunde a sabedoria dos sábios deste mundo, pois o que é anunciado por meio do evangelho constitui-se poder de Deus.

 

 

15 Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.

A argumentação apresentada no verso 2 é complementada através deste verso e apresenta a mesma colocação de João e uma de suas cartas: “Qualquer que permanece nele não peca (…) Qualquer que é nascido de Deus não comente pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:6 -9).

Sem esquecer que os argumentos deste capítulo fundamenta-se no capítulo 5, do verso 12 ao 21, João apresenta uma figura que ilustra a condição daquele que á nascido de Deus, ou seja, é uma planta plantada por Deus “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

João apresenta o motivo pelo qual o homem nascido de Deus não peca: porque a semente de Deus permanece nele, ou seja, o que determina o tipo de uma planta é a semente.

A bíblia apresenta dois tipos de sementes: a corruptível e a incorruptível. Está é a palavra de Deus e aquela refere-se a semente corruptível de Adão, por quem todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus por causa da semente de Adão.

Sabemos que uma planta não pode produzir dois tipos de frutos, e nesta ilustração, verifica-se que a planta plantada pelo Pai só pode produzir segundo a semente planta. É um contra senso considerar que a planta que o Pai plantou possa produzir dois tipos de frutos: o bem e o mau.

Segundo o que Paulo apresentou temos:

  • Os mortos para o pecado não podem viver para o pecado ( Rm 6:2 );
  • Ao ser plantado na semelhança da morte de Cristo, o homem é semelhante a Cristo na ressurreição ( Rm 6:5 ). Uma vez que os cristãos já ressuscitaram com Cristo ( Rm 6:8 ; Cl 3:1 ), segue-se que, qual Ele é, os cristãos o são neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 );
  • A única referência às questões comportamentais no capítulo 6 refere-se a “andar em novidade de vida” ( Rm 6:4 ), visto que ‘viver em Espírito’ diz da nova vida proveniente de Deus;
  • Uma vez que os cristãos não estão debaixo da lei, mas da graça, segue-se que o pecado perdeu o seu domínio ( Rm 6:14 ). Como um servo só pode servir a um senhor, conclui-se que é impossível aos que tem a Cristo como Senhor em suas vidas produzir para Deus e para o pecado.

Neste versículo (v. 15) Paulo retoma a abordagem do verso 2, e demonstra que não há como o cristão pecar (De modo nenhum). Paulo demonstra que este saber era comum aos cristãos, visto que eles sabiam que haviam morrido com Cristo (v. 6). Também sabiam que Cristo havia ressuscitado dentre os mortos (v. 9). Mas, no que implica a morte e a ressurreição de Cristo?

Uma vez que o velho homem foi crucificado com Cristo (v. 6), segue-se que, com a ‘morte’ do velho homem, o cristão é declarado justo (v. 7), conforme demonstra o verso 5: “Porque, uma vez que temos sido plantados juntamente com Ele na semelhança da Sua morte…” assim é o cristão, justo e santo ‘na semelhança da Sua ressurreição’ ( 1Jo 4:17 ).

Uma vez que os cristãos já morreram com Cristo e a ressurreição é na semelhança da ressurreição de Cristo, segue-se que aqueles que morrem juntamente com Cristo, de uma vez por todas morrem para o pecado, já que tanto Cristo como os cristãos passaram a viver para Deus por intermédio da ressurreição. Desta forma os cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo, por causa da nova condição do homem espiritual gerado em Cristo (v. 10).

Muitos entendem que neste versículo (v. 15) Paulo está perguntado aos seus leitores se é pertinente aos cristãos permanecerem em uma vida de devassidão simplesmente por não terem o freio da lei, uma vez que agora estão na graça.

Mas, não é esta a colocação do apóstolo. É preciso considerar a primeira pergunta: “Pois que?”, que introduz os elementos necessário à compreensão do leitor, quando ler a conclusão: “De modo nenhum”.

Paulo através da pergunta: “Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?” procurou introduzir uma nova figura que ilustrasse e trouxesse conhecimento aos Cristãos: “Não sabeis vós que…” (v. 16), contrastando com o conhecimento que era comum: “Sabendo isto…” (v. 6 e 9).

Após apresentar Adão e Cristo, o pecado e a graça no capítulo anterior ( Rm 5:12 -21), neste capítulo, a primeira referência à lei encontra-se no verso 15. Através deste versículo Paulo demonstra que a ausência da lei não determina a condição de submissão ao pecado, e sim o fato de o homem ter herdado de Adão tal condição. Antes mesmo de ser instituída a lei, já estava o pecado no mundo ( Rm 5:13 ), o que demonstra que a abundante graça de Deus promove a justificação de vida ( Rm 5:18 ), em contraste à condenação herdada de Adão.

Na justificação, Deus declara o homem livre de pecado e culpa, ou seja, o homem é justo perante Ele. Para receber tal declaração de Deus é preciso que o homem não esteja na condição de sujeição ao pecado, e, para isso, não pode pecar, uma vez que somente os escravos do pecado pecam “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

Somente cometem pecado os servos do pecado, ou seja, àqueles nascido da semente corruptível de Adão. Isto porque, segundo o apóstolo João, os que tem em si a semente de Deus, nascidos da vontade de Deus ( Jo 1:12 ), estes não pecam ( 1Jo 3:6 -9).

A frase ‘De modo nenhum (…) Pecaremos…” não é uma determinação divina que o homem deva cumprir como uma lei, antes diz da impossibilidade da nova natureza criada na regeneração através da semente incorruptível pecar.

Por não estarmos debaixo da lei (tutelados) pecaremos? De modo nenhum! Pois que os que morreram e ressurgiram com Cristo, de uma vez morreram para o pecado.

 

16 Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?

A frase ‘De nenhum modo’ pede uma explicação da parte do apóstolo sobre a impossibilidade de o homem pecar quando alcançado pela graça. Tal explicação advém de elementos pertinente à figura do escavo, que é introduzida através da argumentação seguinte “Não sabeis vós…?”.

Não sabeis vós que é impossível servir a dois senhores? Não sabeis vós que a árvore só produz fruto segundo a sua espécie? Ou não sabeis que um fonte não pode jorrar água doce e salgada? ( Tg 3:12 ). Todas estas figuras complementam-se e apontam para os elementos apresentados por Cristo acerca das duas portas e dos dois caminhos.

Como o homem apresenta-se como servo para obedecer ao seu senhor (…a quem vos apresentardes por servos…)? Ou seja, como o homem passa a condição de servo daquele a quem ele obedece (pecado ou obediência)?

A bíblia é clara sobre este aspecto. Todos os homens quando vem ao mundo através do nascimento natural, segundo Adão, apresentam-se ao pecado para o servir e obedecer. Ou seja, o nascimento natural é a porta larga que dá acesso a um caminho espaçoso que conduz a perdição “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 ).

O nascimento segundo a semente corruptível de Adão (natural) é a maneira como o homem se apresenta como servo ao pecado. É o nascimento segundo a vontade da carne, segundo a vontade do varão e do sangue que coloca o homem em sujeição e em obediência ao pecado ( Jo 1:13 ).

Como o homem se apresenta a Deus como servo? Através da obediência a palavra da verdade (evangelho) “…obedecestes de coração a forma de doutrina a que fostes entregues” (v. 17).

 

17 Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.

Paulo agradece a Deus por de modo nenhum ser possível àqueles que morreram e ressurgiram com Cristo pecarem. Graças a Deus, pois outrora os cristãos foram escravos do pecado, mas, agora, em Cristo, por terem obedecido de coração à forma de doutrina a que foram entregue, foram feitos servos da justiça.

 

18 E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.

Esta é a condição daqueles que obedeceram a verdade do evangelho: libertos do pecado e servos da justiça.

É Deus que, por intermédio de Cristo, faz (feitos= criados) os que creem servos da justiça ( Jo 1:12 ).

 

 

19 Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.

(Falo como homem) – Observe o comentário ao capítulo 3, verso 5. Por causa da fraqueza da carne ou para evidenciar a condição da carne é que Paulo ilustra o tema como se os cristãos judeus ainda estivessem na carne.

Observe que ao falar aos Judeus Paulo se inclui na explicação “Qual é a vantagem do Judeus? (…) E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus? … (Falo como homem)” ( Rm 3:1 -5).

Da mesma forma, ao escrever aos cristãos da Galácia, Paulo assim diz: “Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito. Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta” ( Gl 3:14 -15).

‘Nós’ quem? Paulo fala acerca da bênção de Abraão aos gentios e da promessa do Espírito aos judeus, e que, tanto Paulo e os cristãos judeus receberam (nós).

Por ter feito referência a sua condição como judeu, ou seja, quando Paulo ainda estava na carne, é que ele introduz a ressalva: falo como homem. Isto demonstra que Paulo jamais quis se valer da sua condição de judeu para anunciar a verdade do evangelho.

Neste versículo Paulo registrou que falava como homem porque no verso 1 do capítulo 4 ele fez referência a seu irmãos na carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne” ( Rm 4:1 ), sendo que, as escrituras foram deixadas aos descendentes de Abraão segundo a carne “Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta, mas também por nós, a quem será tomado em conta…” ( Rm 4:23 -24).

Em seguida Paulo demonstra que ser descendente de Abraão é ser fraco, visto que, ser descendente de Abraão não é ser filho de Abraão “Porque Cristo, estando nós ainda fracos…” ( Rm 5:6 ). Ser filho de Abraão só é possível por meio da fé.

Desta maneira, ao chegar no capítulo 6, verso 19, Paulo reitera que, falou como homem, por causa da fraqueza da carne dos judeus, que não aproxima homem algum de Deus “Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne…” (v. 19).

Compare: ‘nós ainda fracos’ diz de Paulo e dos judeus quando ainda estavam sem Cristo, e ‘pela fraqueza da vossa carne’ diz da condição dos judeus que confiavam da carne (descendência de Abraão) para a salvação, condição que Paulo não mais estava.

Após evidenciar a nova condição daqueles que estão em Cristo (v. 18), Paulo procurou tratar do comportamento dos cristãos judeus, visto que, por ter sido evidenciado que eles não estavam mais tutelados pela lei (v. 14), consideravam Paulo um libertino “Façamos males para que venham bens?” ( Rm 3:8 ).

Ora (pois que), se os cristãos judeus haviam apresentado os seus corpos para servirem à imundície e a maldade através da sujeição à lei, embora as suas ações fossem alvo de louvor por parte dos homens por causa da moral e ética que seguiam, por que não continuar a fazer boas ações e receber de Deus o louvor?

Paulo estabelece um comparativo entre o antes e o depois de aceitarem a verdade do evangelho: “…assim como apresentastes os vossos membros (…) assim apresentai agora os vossos membros …” ( Rm 6:19 ).

Compare:

Na fraqueza da carne, ou seja, na submissão à lei, por acreditar que eram filhos de Abraão (de Deus) por serem descendentes de Abraão, permaneciam filhos da ira e da desobediência, permaneciam carnais. No poder do Espírito, ou seja, na submissão à graça por meio da fé em Cristo, os judeus cristãos tornaram-se filhos de Abraão, livrando-se da fraqueza da carne e foram criados homens espirituais ( Jo 1:12 e Jo 3:6 ).
Por quererem servir a Deus por intermédio da lei, os judeus possuíam uma conduta ilibada se comparado aos outros povos de sua época, porém, esta devoção à lei somente era um serviço à maldade e a imundície. Assim como possuíam uma conduta ilibada diante dos homens por pensarem que era possível servir a Deus por intermédio da lei, agora, libertos da lei e servos da jus
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Romanos 3 – A justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo

Muitos consideram que a justificação é semelhante a um ato de juiz, onde Deus trata o pecador injusto como se fosse justo, porém, a pessoa não é realmente justa. Neste diapasão Scofield diz: “O pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo por causa de Cristo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa C. I. Scofield, A bíblia de Scofield com referências, nota à ( Rm 3:28 ). (grifo nosso)???


Introdução

Alguns dos argumentos do apóstolo Paulo são construídos com elementos da lógica quando ele sai em defesa do evangelho. Ex: “Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão. Se, pois, a incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão não será reputada como circuncisão?” ( Rm 2:25 -26).

A frase: “A circuncisão é proveitosa se o circuncidado guardar a lei”, é uma proposição composta em decorrência do conectivo ‘se’. O conectivo ‘se’ combina idéias simples e confere valores lógico à proposição, podendo este valor ser verdadeiro ou falso, dependendo da operação introduzida pelo conectivo.

Paulo demonstra aos cristãos em Roma que os judeus precisariam cumprir cabalmente a lei para que a circuncisão fosse válida diante de Deus. Como é impossível ao homem cumprir a lei, segue-se que a circuncisão dos judeus é inócua, ou melhor, sem valor algum. O ensino de Paulo está vinculado à duas considerações seguintes:

a) tropeçar em um único quesito da lei é o mesmo que não cumprir a lei ( Tg 2:10 ), e;
b) a natureza da lei é incompatível com a natureza do homem: ela é espiritual e o homem carnal ( Rm 7:14 ).

Ao considerarmos que a proposição: ‘a circuncisão é proveitosa se o circuncidado guardar a lei’, é verdadeira, segue-se que, se um ‘incircunciso’ guardar a lei, ele será reputado pelos judeus como ‘circunciso’. A argumentação de Paulo estabelece uma equivalência lógica entre as proposições.

Paulo apresenta uma equivalência lógica na sua argumentação para demonstrar que judeus e gentios são iguais diante de Deus.

Em qualquer interpretação não podemos contrariar ou adaptar a ideia presente nas proposições segundo perspectivas humanas.

Quando Jesus disse: “Entrai pela porta estreita…”, não podemos contrariar a ideia dizendo que ‘a porta não é estreita’. Alegar que ‘a porta não é estreita’ não é correto, principalmente quando se introduz elementos que não são citados no texto. “A soberba do homem faz com que o caminho fique estreito” não é uma ideia presente no texto.

Jesus não apresentou elementos humanos em suas declarações. Ele falou acerca do caminho (é estreito), sem qualquer referência ao comportamento dos seus ouvintes, o que demonstra que não podemos considerar este elemento na hora de interpretarmos as suas declarações.

Se considerarmos que é o homem que faz ‘o caminho estreito’, como podemos entender a declaração de Cristo: “Eu sou o caminho…”? Observe que não há equivalência lógica entre as declarações de Cristo (Eu sou o caminho…, e; o caminho é estreito)e a interpretação de que é o homem quem faz o caminho estreito.

Observe que entre as declarações de Cristo (Eu sou o caminho…) e a interpretação de que o homem é quem faz o caminho estreito não há equivalência.

Jesus apresentou várias definições acerca da sua pessoa: Eu sou o bom pastor; Eu sou a porta; Eu sou o caminho; Eu sou a verdade e a vida, etc. Qualquer explicação que contrarie o que Jesus disse, deve ser considerado anátema, visto que os falsos profetas introduzem heresias encobertamente heresias que negam a pessoa de Cristo.

Do capítulo três em diante, a carta de Paulo aos Romanos apresenta inúmeras proposições, e muitas serão introduzidas pelo conectivo ‘se’, estabelecendo uma equivalência lógica. Ao utilizar o conectivo ‘se’, Paulo não introduz uma dúvida ou uma ‘possibilidade de’, antes estabelece uma equivalência lógica entre a argumentação e uma proposição simples.

A argumentação: “Mas se a nossa injustiça faz surgir a justiça de Deus, que diremos?” ( Rm 3:5 ), tem por base a proposição: ‘Deus não é injusto’ ( Rm 3:6 ).

Com base na proposição: “Deus é justo”, Paulo estabeleceu uma nova proposição: “Deus não é injusto”, e dá sustentação à sua argumentação: “a nossa injustiça faz surgir a justiça de Deus”.

Agora, se quisermos estabelecer uma argumentação semelhante a de Paulo (a nossa injustiça faz surgir a justiça de Deus), não podemos estabelecer uma proposição ‘Deus não é justo’, da mesma maneira que contrariaram o que Jesus disse ‘o caminho não é estreito’.

 

1 QUAL é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?

Após demonstrar que não há diferença entre judeu e gentil, pois ambos são homens e culpáveis diante de Deus, Paulo responde uma das questões que poderia ser levantada por seus destinatários: Qual é a vantagem de ser judeu, se não há diferença alguma quanto ao quesito salvação?

2 Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas.

Há uma grande vantagem em ser judeu: a palavra de Deus foi confiada primeiramente a eles. Deus escolheu o povo de Israel para uma missão: tornar conhecido o nome de Deus sobre a face da terra, e em contra partida foi confiado a eles as Escrituras. Deus escolheu para o povo para uma missão, mas a salvação é individualizada.

Cada indivíduo pertencente à comunidade de Israel deveria circuncidar o coração conforme a determinação de Moisés, pois Deus não escolhe dentre os homens quem será salvo, mas escolhe quem haverá de desempenhar uma missão.

3 Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?

Alguém poderia questionar ainda: Qual a vantagem de ter recebido da palavra de Deus e não ser salvo? Paulo conclui: “Ora, não ser salvo é uma questão de incredulidade, e não de infidelidade da parte de Deus”. A incredulidade do homem não influencia os atributos de Deus: ele permanece fiel, mesmo quando o homem não crê em sua palavra.

4 De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado.

Deus é verdadeiro em essência. Naturalmente Deus é verdadeiro e todos os homens mentirosos.

Paulo não fez referência a um comportamento reprovável dos homens: a mentira. Ele simplesmente contrapõe a natureza divina com a natureza humana decaída. Ou seja, nem todos os homens vivem contando mentiras, mas todos os homens são mentirosos em sua essência, pois deixaram de ser participantes da natureza divina, que é a verdade. O pecado de Adão causou esta separação entre Deus e os homens.

Paulo demonstra que a declaração: “Deus é verdadeiro sempre, e todo homem mentiroso”, é conforme as Escrituras. Ele cita o Salmo cinqüenta e um, versículo quatro para demonstrar que Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso ( Sl 51:4 ).

Observe que o Salmo 51 demonstra um salmista que conhece as suas transgressões; ele reconhece que foi formado em iniquidade; que precisa de Deus para ser limpo no íntimo, visto que ele ama a verdade no íntimo. Quando há uma citação das Escrituras no N. T., devemos observar todo o texto, e não somente o versículo citado.

Reconhecer que Deus é verdadeiro e que os homens são mentirosos é um louvor que não podemos nos furtar a conceder ao nosso Criador.

 

5 E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus, que diremos? Porventura será Deus injusto, trazendo ira sobre nós? (Falo como homem.)

Quando consideramos que ‘toda ação tem uma reação’, chegamos à questão acima: a nossa injustiça é causa da justiça de Deus. Que argumentos utilizaremos quando ficar demonstrado que as injustiças DOS HOMENS são causa da justiça divina? Deus é injusto? A resposta é taxativa: De maneira nenhuma!

Desde o primeiro capítulo da carta aos Romanos Paulo fala dos homens que detém a verdade em injustiça, ou seja, os homens que rejeitam a verdade do evangelho. Paulo demonstra que o argumento que ele estava utilizando é semelhante ao homem descrito anteriormente (Falo como homem).

Paulo demonstra que o argumento utilizado é pertinente ao homem objeto de seu discurso: o homem natural. Paulo, apesar de ter sido justificado em Cristo (livre da ira), quando da argumentação utiliza o pronome na primeira pessoa do plural “nós” para falar da ira de Deus. Mas, como ele e os cristãos já não eram objetos da ira de Deus, Paulo destaca que está falando como homem, ou seja, ele estava falando como se ainda estivesse na sua condição de homem carnal e sujeito da ira de Deus.

6 De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?

Deus não é injusto ao trazer ira sobre os injusto. Se alguém pensa diferente que o apóstolo, que apresente outro modo que Deus pudesse exercer a sua justiça. Qualquer tese apresentada deve estar em conformidade com as Escrituras.

7 Mas, se pela minha mentira abundou mais a verdade de Deus para glória sua, por que sou eu ainda julgado também como pecador?

Este versículo é um contra ponto ao versículo cinco. Naquele, a injustiça do homem que rejeita a verdade faz surgir a ira de Deus, e neste, o homem que reconhece o seu estado precário em mentira, recebe em abundância a graça de Deus em verdade.

No versículo cinco, Paulo fala de uma condição pertinente aos homens sem Cristo, e neste versículo, há uma condição pertinente à quem está em Cristo.

Se pela (minha) mentira, ou seja, condição de pecado que separou o homem da verdade que há em Deus, a verdade de Deus abundou mais em verdade para glória de Deus, Paulo questiona o motivo de ele ainda ser julgado como se fosse pecador.

É possível continuar sendo pecador após tornar-se participante da verdade abundante concedida por Deus? Se no versículo cinco questionavam a justiça de Deus por ela ser exercida sobre a injustiça dos homens, porque julgavam o apóstolo, e não Deus, quando sabiam que sobre ele a graça de Deus era abundante?

8 E por que não dizemos (como somos blasfemados, e como alguns dizem que dizemos): Façamos males, para que venham bens? A condenação desses é justa.

Paulo questiona os seus possíveis interlocutores: ‘Vocês me julgam como se eu fosse pecador pelo fato de eu não dizer: façamos males, para que venham bens?’. Ora, quem diz ‘façamos males, para que venham bens’, receberá a condenação merecida.

Observe o exercício de interpretação bíblica utilizado nos versículos quatro e sete.

No versículo quatro Paulo enfatiza que todo homem é mentiroso. Ora, todos sabemos que nem todos os homens vivem da mentira. Paulo estaria falando do comportamento pernicioso, que é a mentira, ou da natureza do homem que não é conforme a natureza divina? Perceba que o salmo 51 demonstra que Deus se agrada da verdade no intimo do homem, ou seja, para que o homem seja verdadeiro há a necessidade de que seja limpo por Deus.

Após estabelecermos que a mentira do versículo quatro, não diz da mentira que os homens contam aos seus semelhantes, temos elementos para afirmar que a referência que Paulo faz à mentira no versículo sete, diz da sua antiga natureza segundo o pecado (por não ser participante da natureza divina que é a verdade, o homem é mentiroso).

Após demonstrar que onde havia pecado (mentira), abundou a graça (a verdade de Deus para a sua glória), Paulo coloca em xeque o julgamento que estavam fazendo de sua pessoa.

 

Condenação

Antes de prosseguirmos, faz-se necessário esclarecermos dois assuntos acerca de alguns temas que iremos estudar no decorrer do capítulo três da carta aos Romanos.

Em certa publicação brasileira, ao falar da justificação pela fé, o escritor recomenda um cuidadoso estudo dos versos 21 ao 31, arrematando que, nestes versículos estão contidos toda a doutrina fundamental do evangelho. Não me oponho a esta argumentação, mas não posso concordar com a argumentação seguinte: “Quando o mundo está com a boca fechada, condenável (mas não condenado) perante Deus, então é que Deus revela uma justiça divina para os homens…” McNair, S. E., A Bíblia explicada – 4ª Ed. – Rj: CPAD, 1983, Pág 407, Cap 3, § 4º.

Segue-se a pergunta: O mundo é ‘condenável’ ou ‘está condenado’ perante Deus?

A bíblia é clara ao demonstrar que o mundo já está condenado perante Deus, mas quanto às obras, o mundo é condenável, visto que as ações dos homens ainda serão submetida à juízo.

Quando não se estabelece distinção entre a condenação em Adão (passado) e a retribuição decorrente das obras (condenável – futuro), não conseguiremos entender as argumentações paulinas.

Jesus demonstrou que o mundo está condenado, conforme se lê: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do unigênito Filho de Deus” Jo 3: 18.

Onde o mundo foi condenado? O mundo foi condenado em Adão, conforme Paulo descreve: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ). Por causa da ofensa de Adão, Deus estabeleceu o seu juízo e todos os homens tornaram-se condenados diante de Deus.

Esta condenação deu-se lá no Éden, e toda a humanidade esta debaixo desta condenação (passado). A condenação em Adão comprometeu a natureza humana: o homem deixou de ser participante da natureza divina , que é vida, e passou a condição de morto, que é a separação da vida que há e é proveniente de Deus.

Agora, se o mundo está condenado, porque o mundo é condenável diante de Deus? De qual julgamento o apóstolo faz referência? O que será julgado?

Os versículos dezenove e vinte do capítulo três demonstra que o mundo é condenável (futuro) diante de Deus, visto que ninguém será justificado diante dele pelas obras da lei. Ou seja, quando se fala de obras o mundo é condenável, porém todos já estão condenados em Adão “…toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Pois isso ninguém será justificado diante dele pelas obras da lei” ( Rm 3:19 -20).

Observe que o apóstolo Paulo desde o versículo dezoito do capítulo um, aponta as obras reprováveis dos homens que detém a verdade em injustiça, demonstrando que Deus recompensará a cada ser humano segundo as suas obras ( Rm 2:6 ), e neste juízo não haverá acepção de pessoas ( Rm 2:11 ).

Paulo aponta um juízo futuro, demonstrando que os gentios serão julgados, mesmo não tendo recebido um código de lei e perecerão, e os judeus, por terem um código, pela lei serão julgados, e como pecaram, também perecerão ( Rm 2:12 ).

Este julgamento que será estabelecido quanto às obras, também trará ao conhecimento de todos os homens o juízo estabelecido em Adão, conhecerão que estão condenados diante de Deus “…entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” ( Rm 2:5 ).

O julgamento, quanto às obras, será realizado no tribunal do Trono Branco, conforme lemos em Apocalipse: “Os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia, e foram julgados cada um segundo as suas obras” ( Ap 20:12 -13).

Quando do Tribunal do Grande Trono Branco, os homens conhecerão que estão condenados em Adão, ou seja, será manifesto a eles o juízo de Deus que se deu no Éden, e quanto ao julgamento das obras, receberão o que entesouraram para si: ira e indignação ( Rm 2:5 e 8).

Os salvos em Cristo também serão julgados quanto às obras no tribunal de Cristo, onde receberemos o que houvermos feito por meio do corpo… ( 2Co 5:10 ). Por isso o apóstolo Paulo fala que cada um será recompensado segundo as suas obras, tantos salvos, quanto perdidos ( Rm 2:6 ).

Jesus disse que o mundo está condenado, e jamais podemos contrariar a sua afirmação conforme McNair o fez, ao dizer: “..mas não condenado”. O mundo está condenado, e ainda é condenável por causa de suas obras más, visto que as suas obras irão a julgamento, e será aquilatado a recompensa de cada um.

Ao falar como homem, Paulo faz a seguinte pergunta: “Será Deus injusto, trazendo ira sobre nós?” ( Rm 3:5 ). Esta pergunta feita pelos homens demonstra que desconhecem o juízo estabelecido em Adão, e que todos estão condenados. A pergunta também demonstra que estes esperam um julgamento da parte de Deus, e que terão uma retribuição favorável quanto as suas “boas” ações.

Somente no dia da ira (manifestação do juízo de Deus) os homens conhecerão que estão condenados. Ao apresentarem as suas obras diante do tribunal, descobrirão que elas não servem para justificá-los, pois são trapos de imundícia ( Rm 2:5 ; Rm 3:20 ).

Outro teólogo afirmou que: “Os tempos futuros de Rm 3: 20 (porque ninguém será justificado com base nas obras da lei); 3:20 (Deus que irá justificar) talvez não sejam futuros autênticos, e sim gnômicos (lógicos). O (muitos serão colocados como justos), de Rm 5: 19 naturalmente é dito do ponto de vista da virada dos tempos e, portanto, já vale a respeito do presente (cf. v. 17, 21). Por outro lado também o tempo presente nos enunciados em tempo presente de Gl 2: 16; 3: 11; 5: 4 não é um tempo presente autêntico, e sim presente atemporal do dogma, podendo, portanto, quanto ao assunto em questão, referir-se à sentença de Deus no juízo vindouro” Rudolf, Bultmann, Teologia do Novo Testamento, tradução Ilson Kayser, SP: Ed. Editora Teológica, 2004. (Foi suprimido os versos em grego).

Bultmann não negou o que Cristo disse, como fez McNair, porém, ao ler Rm 3:20, percebe-se que ele fez uma leitura equivocada, e criou dois tempos para a justificação: presente autêntico e presente lógico.

Para Bultmann, a justificação não é efetiva na vida do crente hoje, mas refere-se a uma sentença de Deus em um juízo vindouro. Percebe-se que ele ignorou o juízo estabelecido em Adão, e passou a considerar somente o julgamento vindouro, que será quanto as obras.

Observe que Bultmann não tem certeza quanto ao que expõe, e expressa ‘talvez, podendo’, etc.

Ao utilizar o verbo ‘será’ (futuro), o apóstolo Paulo procurou demonstrar o motivo da ineficácia das obras da lei “Por isso ninguém…” (v. 20).

Considerando que Paulo estava falando das obras reprováveis dos homens (judeus e gregos); considerando que todo o mundo é condenável (julgamento das obras – futuro); considerando o julgamento em Adão (juízo de Deus – passado), e que Paulo não está fazendo referência a tal juízo nestes dois versos; segue-se que ninguém SERÁ justificado por realizar o estipulado pela lei.

Como o julgamento da obras será no futuro, aquele que está condenado, não será justificado quando do julgamento de suas obras (condenável) ( Rm 3:19 -20). Porém, quanto ao juízo em Adão, os cristãos, por intermédio da fé em Cristo, já estão justificados (são declarados justos e livres da condenação), conforme Jesus disse: “Quem nele crê não é condenado…” ( Jo 3:18 ).

Utilizando o vocabulário criado por Bultmann, podemos assim dizer que a justificação se dá num presente autêntico “…pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, e são justificados gratuitamente…” ( Rm 3:23 -24). A justificação não se dará em um presente atemporal, e nem mesmo refere-se ao ‘juízo vindouro’ (julgamento das obras).

 

9 Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado;

Paulo volta a sua argumentação ao primeiro versículo do capítulo três.

Para aqueles (judeus) que julgavam serem melhores que os gentios na questões relativos à salvação, Paulo faz a mesma pergunta do verso três: “pois quê?”. Somos mais excelentes que os gentios que adquirimos uma vantagem na conquista da salvação?

De maneira alguma os gentios foram protelados quanto à graça de Deus! Paulo enfatiza já ter demonstrado esta verdade “…pois já demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado”, compare com Rm 2:12 .

 

10 Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.

Caso houvesse dúvidas quanto às declarações do apóstolo, ele invoca a autoridade das Escrituras.

Se as Escrituras dizem que ‘não há um justo, nem um sequer’, é porque não há exceção entre os homens, até mesmo por causa de nacionalidade. Não há um justo, e as Escrituras complementam: NEM UM SEQUER!

Mas, de onde, de que parte das Escrituras Paulo faz a afirmação categórica: “Não há um justo, nem um sequer”?

“Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para derramar sangue; cada um caça a seu irmão com a rede…” ( Mq 7:2 );

“E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” ( Sl 143:2 ).

A união das proposições presente em Miquéias e nos Salmos leva a conclusão de que não há ‘entre os homens um que seja justo’, pois diante de Deus ‘não se achará justo nenhum’.

 

11 Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. 12 Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.

Leia o Salmo quatorze e o cinqüenta e três antes de prosseguir na análise da carta aos Romanos.

Todas as citações feitas por Paulo estão diretamente vinculadas à idéia: ‘Não há um justo, nem um sequer’. O versículo dez é uma conclusão de Paulo, que resume a idéia base que contém as Escrituras, diferente dos versículos que se seguem, que são citações ‘ipsis literis’ das Escrituras.

As Escrituras é categórica: apesar de inúmeras religiões, não há quem busque a Deus. Dentre os homens não há quem entenda como buscar a Deus! Isto porque, todos se extraviaram (se perderam), e se fizeram inúteis.

Para entendermos este versículo, devemos nos lembrar que o único evento da história da humanidade que a bíblia relata, na qual alguém se perdeu, foi lá em Adão. Através da queda de Adão, todos os homens, a uma só se fizeram inúteis.

Desde a queda não há entre os filhos dos homens quem faça o bem, sem qualquer exceção, o que demonstra que os judeus também se fizeram inúteis diante de Deus.

Não podemos confundir ‘fazer o bem’ e fazer ‘boas ações’. Esta condição é possível a todos os homens e depende da vontade humana, enquanto aquela somente é possível quando se está em Deus, e está vinculada à natureza do homem.

Um comentário que consta da Bíblia Vida Nova aos versículos 10 a 18, na nota de roda pé, diz que: “É uma prova da universalidade do pecado. 1) O pecado no caráter humano (vv 10- 12. 2) O pecado na conduta humana (vv 13- 17): a) em palavra (vv 13, 14); b) em ação (vv 15- 17). A Fonte do Pecado (v 18)”.

A prova da universalidade do pecado não esta no caráter e na na conduta dos homens. Tal prova encontra-se na morte que é comum a todos os homens “Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” ( Rm 5:12 ). A fonte do pecado não está descrito no versículo dezoito, antes a origem do pecado é o diabo, e o pecado foi introduzido no mundo dos homens quando da queda em Adão.

O caráter e a conduta (palavra e ação) perniciosa do homem no pecado apenas decorre do fato de terem ‘conhecido a Deus’, e contudo, não se ‘importaram de ter conhecimento d’Ele’, e foram entregues ao sentimento pervertido, as paixões infames, e a concupiscência de seus corações ( Rm 1:21 -32).

 

13 A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; 14 Cuja boca está cheia de maldição e amargura.

Leia o salmo cinco e o salmo cento e quarenta antes de prosseguir no estudo.

O apóstolo mescla várias citações das Escrituras, observe:

“A sua garganta é um sepulcro aberto” ( Sl 5:9 b);
“Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios” ( Sl 140:3 ).

O versículo quatorze é igual ao versículo dez, constitui-se em uma conclusão de Paulo com base nas Escrituras, e não é uma citação ‘ipsis literis’ como o versículos treze “Cuja boca está cheia de maldição e amargura”.

Por que a garganta dos homens é um sepulcro aberto? Porque, quando falam, expõe a podridão do pecado que compromete os seus corações. É por isso que precisam da circuncisão de Cristo, onde o coração enganoso é substituído por um novo coração.

Paulo não está tratando de questões morais ou comportamentais, como a mentira e o engano. Estes versículos não se referem aos comportamentos descritos em Romanos 1, versos 29 a 31. Estes versículos fazem referencia à natureza perniciosa do homem separado de Deus.

15 Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. 16 Em seus caminhos há destruição e miséria; 17 E não conheceram o caminho da paz. 18 Não há temor de Deus diante de seus olhos.

Leia Isaias cinqüenta e nove, antes de prosseguir no estudo.

Isaias não estava a protestar aqui os crimes de sangue, embora eles são reprováveis diante de Deus.

O texto de Isaias fala da natureza decaída do homem e o que ela pode produzir. Só é possível entender na plenitude o texto de Isaias quando se está de posse da compreensão da figura da árvore: “Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má o seus fruto mau, pois pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 ).

Como todos os homens estão debaixo do pecado (v. 9), ao citar Isaias, Paulo demonstra que todos os homens estão em igual condição quando não estão em Cristo: possuem pés ligeiros para derramar sangue inocente; os caminhos de todos levam a destruição e miséria.

Como os homens percorrem o caminho da destruição, eles não conhecem caminho da paz, ou seja, o caminho que estabelece a reconciliação entre Deus e os homens, que é a graça de Deus por intermédio de Cristo. O homem segue o que há diante dos seus olhos, por isso não seguem o princípio da sabedoria que é Cristo (v. 18).

 

Justificação

“… aquele que está morto está justificado do pecado” Rm 6: 7.

O Dr. Bancroft ao escrever sobre a justificação, registrou o seguinte: “O método é divino e não humano. O homem só pode justificar o inocente; Deus justifica o culpado; o homem justifica à base do mérito; Deus justifica à base da misericórdia (…) Se o homem tivesse de ser justificado nesta base, seu caráter moral teria de ser perfeito; mas ninguém é perfeito. ‘Não há homem que não peque.’ ‘Não há salvação por meio do caráter. O que os homens necessitam e ser salvos de seu caráter.’ “ Emery H. Bancroft, Teologia Elementar, Ed. EBR, ed. 2001, Pág. 256, III. (grifo nosso).

A bíblia é clara ao dizer que Deus não tem o culpado por inocente “Que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniqüidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração” ( Ex 34:7 ). Daí surge a pergunta: É possível Deus justificar o culpado sem contrariar a sua própria palavra? É pertinente a colocação de Bancroft? “… não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

Jesus disse que é necessário ao homem nascer de novo e não fez qualquer referência a elementos humanos como caráter, moral e comportamento. O homem é salvo (resgatado) do pecado (vã maneira de viver), ou de seu caráter? Ao termino desta introdução você será capaz de determinar qual a base da justificação em Cristo.

Como se dá a justificação em Cristo?

Para desfazerem a aparente contradição que há em um Deus justo que justifica o homem pecador, alguns pensadores pensam a justificação como um ato de clemência de Deus, no qual Ele inocenta um culpado (pecador).

Outros, tem na justificação um ato de juiz, onde Deus trata o pecador injusto como se fosse justo, porém, a pessoa não é realmente justa. Neste diapasão Scofield diz: “O pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo por causa de Cristo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa” C. I. Scofield, A bíblia de Scofield com referências, nota à ( Rm 3:28 ). (grifo nosso).

Outros apresentam o amor de Deus como base à justificação. Outros, tem na justificação um ato de Pai, que não leva em conta os erros dos filhos. Para outros, a justificação é um ato de anistia. Outros, que a justificação decorre da soberania de Deus.

Afinal, qual é a base para a justificação para que não haja uma contradição em Deus ser Justo e Justificador daqueles que crêem em Cristo?

O humanidade foi declarada culpada em Adão ( Rm 5:19 ). Em Adão todos os homem tornaram-se pecadores e foram destituídos da glória de Deus ( Rm 3:23 ). A salvação de Deus por intermédio de Cristo visa salvar (resgatar) o homem desta condenação ( Rm 5:18 b), e conduzi-los para o reino do Filho do seu amor ( Cl 1:13 ).

Jesus ao falar da salvação disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” Jo 3: 3. Este versículo demonstra que o empecilho à entrada do homem no reino dos céus encontra-se no seu nascimento. Se é necessário um novo nascimento, o antigo nascimento é a causa da impossibilidade do homem ter acesso a Deus. Todos os homens tornaram-se filhos da ira e da desobediência por serem descendentes de Adão.

A parábola das duas portas e dos dois caminho ( Mt 7:13 -14), e a figura dos vasos para honra e desonra ilustram esta realidade ( Rm 9:21 ). O acesso à porta larga e ao caminho que conduz a perdição decorre do nascimento em Adão, e o acesso à porta estreita, e ao caminho que conduz a vida, é o novo nascimento. Da mesma forma, os vasos para desonra são criados em Adão Rm 9: 22, e os vasos para honra são criados em Cristo ( Rm 9:23 ).

Para reverter esta impossibilidade aos filhos de Adão, Jesus demonstra por meio do evangelho a necessidade do novo nascimento, onde aqueles que crêem em Cristo são de novo gerados, de semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:3 e 23).

A condenação se deu em Adão, e a salvação se dá em Cristo, por intermédio do lavar regenerador. Aqueles que crêem são gerados de novo, para uma viva esperança pela ressurreição de Cristo.

Os nascido de Adão foram declarados culpados e pesa sobre eles a condenação. Os nascidos de novo são justificados, ou seja, após serem criados em verdadeira justiça e santidade, a nova criatura, ou o novo homem por ser JUSTO é declarado justo por Deus.

É certo que o homem é declarado culpado por Deus por causa de uma condição adquirida em Adão. Por que Deus declararia o homem justo, se esta não é a sua real condição? Se a condenação do passado afetou toda a humanidade, por que a justiça de Cristo não é efetiva hoje?

Desta análise decorre que a justificação não é um ato de juiz, não é um ato de Pai e também não é uma ato judicial. Ou seja, a justificação decorre de um ato criativo da parte de Deus.

  • Deus jamais declarará o ímpio inocente ( Ex 23:7 ).
  • O pecador jamais será tido por inocente ( Nm 14:18 ), visto que, ‘a alma que pecar esta mesmo morrerá ( Ez 18:4 ).
  • A pena não pode passar da pessoa do transgressor ( Dt 25:1 ).
  • Outra pessoa não pode sofrer a pena no lugar do transgressor ( Ez 18:4 ).

Os princípios que constam da lei são todos levados em conta quando da justificação do homem, sem contradição alguma. Ao justificar o homem que crê em Cristo, Deus é justo e a sua declaração de justo não é direcionada a um ímpio tido por inocente.

O homem sem Cristo está morto em delitos e em pecados ( Ef 2:1 ). A condição de morto decorre da queda em Adão, porém, aquele que está morto para Deus vive para o mundo.

A bíblia nos informa que Cristo, enviado ao mundo, é o único acesso dos homens a Deus. Ele é o novo e vivo caminho consagrado em sua carne ( Hb 10:20 ). Cristo morreu pelos injustos, ou seja, a morte dele foi a favor dos injustos. Todos quantos crêem no sacrifício de Cristo tornam-se participantes de sua morte, e efetivamente morrem juntamente com Ele ( Rm 6:6 -7), e passaram a viver para Deus ( Ef 2:5 ).

Quando o velho homem, a velha natureza é crucificada com Cristo, cumpre-se o que determina a lei: o pecador não será tido por inocente; a alma que pecar, esta mesma morrerá, e; a pena não passa do transgressor. Ao unir-se com Cristo na sua morte, o homem deixa de viver para o mundo, e é justificado do pecado Rm 6: 6, e declarado justo por Deus ( Rm 5:1 ).

Sabemos que o nosso velho homem, a velha natureza herdada em Adão, foi crucificada em Cristo Rm 6: 6. O corpo do pecado foi desfeito por meio da nossa união à morte de Cristo, e não mais servimos ao pecado ( Rm 6:18 ). Fomos plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte ( Rm 6:5 ). Através da comunhão com Cristo tornamos participante da sua morte, e de fato morremos com Cristo ( Cl 3:3 ). Recebemos a circuncisão de Cristo, que é o despojar (desfazer) do corpo da carne herdada em Adão ( Cl 2:11 ).

Quando o homem aceita a Cristo, ele é convidado a tomar a sua própria cruz, e seguir após Cristo ( Mt 16:24 ). Ao seguir após Cristo, a lei de Deus é estabelecida: o ímpio, o pecador, o injusto recebe a pena determinada: a morte. Há o despojar do corpo da carne. A natureza condenada de Adão juntamente com o corpo que pertencia ao pecado é sepultada.

Após a união com Cristo na sua morte, dá-se o milagre da regeneração e justificação. Este é conseqüência daquele, e após a regeneração, se dá a justificação. Como?

Após tornar-se participante do corpo e do sangue de Cristo ( Jo 6:54 -56), o velho homem é sepultado a semelhança de Cristo (o batismo representa esta verdade), e ressurge um novo homem, criado segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Este novo homem vem a existência por intermédio de Cristo. É uma nova criatura em Cristo. Quando o homem regenerado surge dentre os mortos ( Ef 2:1 ), ele é declarado justo, pois esta é a sua nova condição perante Deus.

Deus é luz, e nele não há trevas nenhuma. Deus é a verdade, e jamais haveria de declarar como sendo justo, alguém que não é efetivamente justo. Deus não representaria uma farsa diante dos homens, tratando os injustos como justos, sem que tais homens sejam de fato justos.

A declaração de Deus é taxativa: “Eis que faço nova todas as coisas” ( Ap 21:5 ). Como Cristo morreu por todos os homens, logo, todos os que aceitam o seu sacrifício morreram ( 2Co 5:14 ). Deixamos de viver para o mundo e passamos a viver para Deus ( 2Co 5:15 ). A nova vida em Cristo dá ao homem uma nova condição diante de Deus e dos homens: passamos a condição de nova criatura. Somos criados à imagem daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Deixamos a condição de filhos das trevas, e passamos a condição de filhos de Deus.

As coisas do velho homem, como a condenação, a ira, a carne, o pecado, todas elas já passaram, e em Cristo, eis que tudo se fez novo. Cristo se fez pecado para que sejamos feitos, ou seja, criados justiça de Deus “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ) (grifo nosso). A justificação tem a sua base em um ato criativo de Deus, onde ele faz surgir um novo homem, que é declarado justo por ser verdadeiramente justo.

As palavras traduzidas por ‘justificar’ e justificação’ significam, segundo a idéia bíblia ‘declarar justo’, ‘declarar reto’ ou ‘isento de culpa ou castigo’, condição esta possível após o homem ser gerado de novo, por intermédio de semente incorruptível ( 1Pe 1:3 e 23).

Deus declara justo somente aquele que é efetivamente justo, condição esta que se dá por meio da filiação divina ( Jo 1:12 ). Todos quantos creem em Cristo, recebem poder para serem feitos, ou seja, criados filhos de Deus. Estes são de novo criados, não segundo a semente de Adão, mas através da palavra e do Espírito ( Jo 3:5 ), conforme o prometido nas Escrituras “Então espargirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27 ).

A justificação se dá por intermédio da Palavra de Deus, uma vez que é Ele quem fez espargir água pura sobre os homens. Através da palavra, o homem fica limpo e purificado. Por que? Como?

Ao homem é dado um coração novo e um espírito novo (Regeneração), conforme Jesus disse a Nicodemos, necessário vos é nascer da água e do Espírito. Após o homem nascer de Deus (Espírito) e da sua Palavra, será declarado justo, conforme predisse o salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

Como apagar as transgressões dos homens? Como torná-los puros e limpos? Como resgatá-los da condenação de Adão? ( Sl 51:5 e 7 e 10). Somente após a morte da velha natureza e por intermédio de uma nova Criação. Esta condição só é possível após a circuncisão do coração!

Sabemos que qualquer incisão no coração é morte. Após a circuncisão não realizada por mãos humanas, o homem é agraciado com um novo coração e um espírito reto.

Após entendermos como se dá a justificação em Cristo, percebe-se que não há contradição alguma em Deus ser Justo e Justificador. Percebe-se que a justificação não é um ato judicial ou forense. Percebe-se que Deus não tem o culpado por inocente. Estamos alegres em saber que Deus cria (torna) o homem justo e o declara justo. O crente é declarado justo, porque é justo em Cristo Jesus.

O homem precisa ser salvo da condenação do pecado para que possa receber a declaração de justo da parte de Deus. Deus exerce misericórdia, mas isto não que dizer que ele receba o culpado como se fosse inocente. Deus só justifica o inocente, aquele que de novo é nascido, sem levar em conta méritos, caráter, moral, conduta, etc. Amém.

 

Capítulo III

19 Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.

Paulo demonstra que os destinatários detinham um conhecimento comum “Ora, nós sabemos que…”. Os cristãos sabiam que a lei só teria serventia àqueles que tem um vinculo com ela. Tudo que há expresso na lei, foi dito aos judeus (aos que estão debaixo da lei), e isto os destinatários de Paulo sabiam. Porém, o restante da declaração de Paulo provavelmente não era de conhecimento de todos, uma vez que o apóstolo aponta a finalidade da lei: fechar a boca dos judeus.

A lei fecha a boca aos judeus por ser impossível justificar-se por intermédio das obras da lei. Isto por dois motivos:

a) a lei é espiritual, e o homem é carnal, e;
b) se o homem guardar a lei e tropeçar em um único quesito, tornou-se culpável. Não há como gloriar-se com a boca fechada.

A lei, que muitos entendiam que elevava os judeus a uma condição superior, somente deixou todos os homens em igual condição: condenáveis diante de Deus.

20 Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.

Se a lei deixa todos os homens condenáveis diante de Deus, resta concluir que as obras decorrente da lei não justificará o homem. Se alguém ainda fazia distinção entre os homens, Paulo enfatiza que todos são carne, e nenhuma carne será justificada pelas obras da lei.

Todos que se deparam com a lei, somente chegam a conclusão de que são pecadores. Por ela vem o conhecimento do pecado, ou seja, o homem toma ciência de uma condição que desconhecia.

21 Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas;

A exposição do apóstolo Paulo retorna a idéia demonstrada nos versículos dezesseis e dezessete do capítulo um.

A justiça de Deus é manifesta sem qualquer dos elementos pertinentes à lei. Paulo especifica o tempo em que a justiça de Deus se manifestou aos homens: agora. A autenticidade do que foi manifesto é demonstrado por intermédio da lei que os judeus não conseguiram cumprir, e dos profetas que eles perseguiram ( At 7:52 ).

22 Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença.

A justiça que os judeus reputavam ter alcançado por intermédio da lei, Paulo demonstra que ela é alcançada pela fé em Cristo; a justiça de Deus é destinada (para) a todos quantos crerem. Todos quantos creem já foram agraciados com a justiça, visto que ela é ‘sobre’ quem crê.

Como a justiça de Deus é para todos, e sobre todos os que creem, isto demonstra que a justiça de Deus é efetiva na vida do cristão hoje (agora).

Observe a diferença no tempo verbal da palavra ‘manifestar’ nos versículos 21 deste capítulo, e os versículo 18 e 19 do capítulo um. O versículo 21 demonstra que agora se ‘manifestou’ a justiça de Deus para os que creem, e esta justiça manifesta livra o homem do juízo que se deu em Adão. Já os versículos 18 e 19 do capítulo um, fazem referência à manifestação da ira, e esta contempla a impiedade e injustiça dos homens (que detém a verdade em injustiça) que foram condenados em Adão.

Quando Paulo reitera que ‘não há diferença’, demonstra que a palavra ‘todo’ da frase anterior engloba a idéia de que tanto judeus quanto gregos são justificados por meio da fé.

23 Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;

Como todos pecaram, a justificação é destinada a todos quantos creem. Judeus e gentios pecaram, e ambos foram destituídos da glória de Deus. Este versículo reforça a idéia de que a justificação por meio da fé contempla todos os homens, ‘porque não há diferença’.

Ao apresentar o motivo pelo qual a graça de Deus destina-se a todos os homens que creem, o apóstolo Paulo acaba por deixar um alerta implícito: todos os homens pecaram, e todos os homens estão destituídos (privado, demitido) da glória de Deus.

Quando, onde, como e por quê todos os homens pecaram? Observe que Paulo não apresentou nenhuma conduta específica dos homens que os deixou na condição de pecadores. Esta declaração de Paulo (todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus) é muito importante e auxilia na definição do que é pecado e como se dá a justificação.

 

24 Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.

Todos os homens que pecaram e que foram destituídos da glória de Deus, através da redenção que há em Cristo, são justificados (declarados justos) pela graça de Deus (sem qualquer ônus).

Quando justificado pela graça que há em Deus pela redenção que há em Cristo, a condição do homem que foi apresentado no versículo vinte e três é plenamente desfeita.

Todos os homens foram declarados culpados por nascerem de Adão “o que é nascido da carne, é carne…” ( Jo 3:6 ), ou seja, todos são pecadores e destituídos estão da glória de Deus (v. 24).

Agora, quando os declarados culpados em Adão, creem em Cristo, estes nascem de novo, e esta nova criatura, criada em Deus é declarada justa diante d’Ele. Este novo homem passa a ser participante da glória de Deus (por ser participante da natureza divina decorrente da filiação), e deixa a condição de pecado (condenado).

Em linhas gerais, redenção é valor pago que concede uma nova condição ao homem agraciado.

25 Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus;

O ‘valor pago’ por Cristo (a medida exata do que é exigido por Deus Justo e Santo), é o que expia, ou propicia a extinção do pecado que pesa sobre o homem. Ou seja, Cristo, a redenção, foi proposto por ser ‘a oferta que visa a expiação’ dos pecados daqueles que pela fé torna-se participantes de Cristo.

A redenção e a propiciação estão intimamente ligadas. Enquanto esta diz do que é suficiente para a expiação, ou abolição dos pecados, aquela diz do valor estipulado para o homem ser livre da condenação em Adão.

Cristo foi proposto por Deus para:

a) demonstrar a sua justiça, e;
b) demonstrar a sua justiça neste tempo presente.

Demonstrar: ‘provar mediante raciocínio concludente; comprovar; mostrar; evidenciar; dar a conhecer; revelar-se, etc’.

A remissão (liberdade) dos pecados é uma mostra, uma evidência, da justiça de Deus. Somente a justiça de Deus em Cristo pode dar liberdade ao homem ao expiar os seus pecados.

A justiça de Deus livra o homem da condenação em Adão e do julgamento de obras no tribunal do Trono Branco, ou seja, pecados. É por isso que Paulo diz que ‘nenhuma’ condenação há para os que estão em Cristo. A palavra ‘nenhuma’ deixa subtendido que pesa mais que uma condenação sobre os homens sem Cristo.

26 Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

Cristo é uma evidência da justiça de Deus neste ‘tempo presente’. Para o agora ( Rm 8:1 )!

A justiça evidenciada em Cristo ao libertar o homem do pecado é porque Deus é justo e justificador dos que crêem em Cristo. Como conciliar os atributos justo e justificador? Deus não pode tomar o culpado por inocente ( Ex 34:7 ).

27 Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. 28 Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.

A atitude presunçosa dos judeus acaba por ser excluída diante da regra da fé, pois todos os homens somente são justificados pela fé em Cristo. Todos são pecadores; todos são culpáveis, mas a justiça mediante a fé é sobre todos, sem exceção.

A conclusão de Paulo para os cristãos em Roma é: o homem, não importa quem ele seja, é justificado pela fé, sem as obras estipuladas pela lei.

29 É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente,

Sem esquecermos da pergunta: “Qual é pois a vantagem do judeu?” ( Rm 3:1 ), Paulo reitera: “É porventura Deus somente dos judeus?” (v. 29). Embora a palavra de Deus tenha sido confiada aos judeus, quanto à questão da salvação, eles não obtiveram vantagem alguma. Primeiro, porque Deus não faz acepção de pessoas, e segundo, a salvação sempre foi por meio da fé em todos os tempos.

Mesmo após a entrega da lei, Moisés anunciava: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração…” ( Dt 10:16 ), circuncisão esta, que somente é obtida por meio da fé em Deus.

Qualquer presunção de superioridade é desfeita ao analisar a pergunta: “É porventura Deus somente dos Judeus?”. Qualquer resposta em contrário, seria o mesmo que desmentir a lei e os profetas: “DO SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” ( Sl 24:1 ).

30 Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão.

Quando Deus estabeleceu a fé como único elemento de se ter acesso à sua justiça, a lei é cumprida. Deus é um só que justifica a todos (judeus e gentios) que creem em Cristo.

É neste diapasão que Cristo afirmou: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ).

O que Deus disse? “…em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

O que os profetas anunciaram? “Assim diz o Senhor DEUS: Eis que levantarei a minha mão para os gentios, e ante os povos arvorarei a minha bandeira…” ( Is 49:22 ).

O que a lei instituiu? “Regozijai-vos, ó gentios, com o seu povo…” ( Dt 22:43 ).

Por meio da fé cumpre-se o que foi dito por intermédio da lei e dos profetas. É Deus quem justifica gregos e judeus pela fé em Cristo!

Os lideres religiosos e muitos do povo à época de Cristo pensavam na lei e nos profetas como sendo ‘regras sobre regras’, e muitos ainda hoje pensam que Cristo, ao ter anunciado que veio cumprir a lei e os profetas, estava fazendo referência aos ritos e cerimoniais presentes na lei mosaica. É certo que Cristo, como judeu, cumpriu com os cerimoniais da lei, porém, vale salientar que: ele não revogou (anulou) a lei ou os profetas, antes os cumpriu (estabeleceu), ao destruir a parede de separação, a barreira de inimizade, ao reconciliar ambos (judeus e gentios) em um só corpo ( Ef 2:13 -18).

Cristo cumpriu a lei e o profetas ao evangelizar a paz “a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto”, e por Cristo ambos (judeus e gentios) obtiveram acesso ao Pai em um mesmo Espírito, por meio da fé.

“Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” ( At 2:39 ).

31 Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei.

Como o evangelho de Cristo confirma a lei? Um dos princípios da lei é a não acepção de pessoas, e a fé é o elemento que viabiliza a gregos e judeus o acesso à justiça de Deus.

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Efésios 1 – Todas bênçãos espirituais

O próprio Consolador enviado se interpõe como garantia da herança que recebemos. O penhor deve ter valor equivalente à dívida contraída, e nós que estamos em Cristo já recebemos o que é superior a própria herança: o Espírito Santo de Deus! Que garantia! Que segurança! Os cristãos foram selados com o Espírito Santo da promessa, o que é superior a própria herança. Mas, por que fomos selados? A resposta é: Para redenção da possessão adquirida por Deus. Descanse em Cristo!


Introdução

Este comentário à carta de Efésios constitui-se um exercício de leitura e interpretação bíblica.

Este estudo não é focado em questões como: qual a data de escrita desta carta, ou se a palavra ‘aos efésios’ não se encontra nos melhores manuscritos, etc. Tais questões tem a sua importância, porém não influência diretamente na leitura e interpretação da carta.

As divisões que adotamos para o estudo do texto decorre dos principais contexto, nos quais os temas estão inseridos. Por exemplo: quando Paulo nomeia os cristãos de santos e fiéis, destacamos que o contexto é apresentação e identificação dos destinatários da carta.

Se os destinatários da carta residiam em Éfeso, ou não, é um ponto de menor importância. O que propomos aqui é explicar a condição do estar em Cristo e responder questões como: Eles eram santos, ou somente eram tidos por santos? E muitas outras.

Boa leitura!

Apresentação Pessoal

1 Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:

Paulo, o escritor da carta, identifica-se aos seus destinatários e não deixa dúvidas quanto à sua autoria.

Esta carta possui uma característica diferente das outras. Nela o apóstolo Paulo não precisa defender o seu apostolado. Ele simplesmente demonstra que, pela vontade de Deus, tornou-se apóstolo de Cristo.

Geralmente o apóstolo Paulo se apresenta como servo de Cristo em outras cartas, mas nesta ele se apresenta somente como apóstolo ( Fl 1:1 ; Rm 1:1 ).

Cabe salientar que a carta aos efésios é auto-explicativa, principalmente quanto aos elementos apresentados na introdução. Observe:

Sobre o seu apostolado Paulo esclarece que foi feito ministro do evangelho segundo a operação do poder de Deus ( Ef 1:1 compare com Ef 3:7 ). Paulo demonstra que tal poder foi manifesto em Cristo quando Deus o ressuscitou dentre os mortos ( Ef 1:19 -20).

Compare ( Gl 1:1 com Ef 1:1 ):

“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus…” ( Ef 1:1 );

“Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos)” ( Gl 1:1 ).

Paulo identifica os destinatários da carta chamando-os de santos e fiéis ‘em’ Cristo, os cristãos que estavam em Éfeso.

Santidade e fidelidade advêm do ‘estar’ em Cristo. ‘Em Cristo’ é a condição de existência da nova criatura, conforme Paulo escreveu aos cristãos em Coríntios: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

‘Em Cristo’ os cristãos são santos e fiéis, ou seja, santos e fiéis são as características pertinentes à nova criatura “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). ‘Em Cristo’ é um recurso se estilo, onde a idéia completa ‘estar em Cristo’ para ser uma ‘nova criatura’ passa a ser resumida assim:

“…aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:” ( Ef 1:1 e 4).

Quando o apóstolo Paulo diz ‘em Cristo’, ele está apontando a nova condição do cristão por serem uma nova criatura. A nova criatura, por ter sido criada seundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), é santa e fiel. ‘Em Cristo’ é um tipo de ‘contração’ linguistica para apontar de modo resumido a condição da nova criatura diante de Deus.

A fidelidade expressa neste versículo não possui relação com a fidelidade descrita em ( Ef 6:21 ). Quanto ao exercício de um ministério ou serviço, o cristão demonstra a sua fidelidade através de esforço próprio, condição pertinente a poucos cristãos. Já a condição de ‘santidade’ e ‘fidelidade’ somente é possível em Cristo, e esta condição é pertinente a todos cristão.

 

Saudações

2 A vós graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo!

Aos cristãos Paulo deseja graça e paz da parte de Deus.

Graça remete ao favor imerecido de Deus. Paz, é aquela que excede a todo entendimento, pela qual os cristãos foram reconciliados com Deus.

Com relação a escrita, verifica-se que em sua apresentação e saudação Paulo utiliza a primeira pessoa do singular do caso reto “Eu”.

Ao passar a louvar a Deus por bênçãos recebidas, Paulo utilizar a primeira pessoa do plural, fato que inclui todos os cristãos como alvos das bênçãos divina “Nós”.

Observe que o prefácio e a saudação possuem um contexto diferente do versículo três em diante. Nos versículo um e dois, temos: a apresentação do remetente da carta, os destinatários da carta e a saudação. Do versículo três em diante, Paulo passa a louvar a Deus por bênçãos recebidas.

 

Louvor e Adoração

3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo;

Os versículos três em diante devem ser analisados do ponto de vista de quem faz uma adoração a Deus “Bendito o Deus e Pai…” (v. 3).

Quem adora, adora por aquilo que recebeu das mãos de Deus ou por reconhecer a sua grandeza. Do versículo três até o versículo doze, o contexto é de agradecimento por bênçãos recebidas.

A estrutura do texto da carta é semelhante ao Salmo 103. Da mesma forma que Davi bendiz ao Senhor, Paulo também bendiz. O salmista bendiz ao Senhor pelos benefícios recebidos, e a partir do versículo três passa a enumerar as bênçãos recebidas.

O apóstolo Paulo também bendiz ao Senhor e passa a enumerar as bênçãos recebidas nos versículos quatro a doze.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” ( Ef 1:3 -5).

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” ( Sl 103:1 -4).

O contexto é de adoração, e toda e qualquer declaração de Paulo deve ser analisada com base na adoração.

Sobre a adoração é necessário observarmos que só há duas maneiras pelas quais se adora a Deus.

A primeira maneira é agradecer, fazendo referência aos benefícios recebidos. A segunda maneira é fazendo referência aos atributos de Deus. Não há outras maneiras de adoração além destas duas, ou seja, que o homem possa render adoração ao Senhor.

O salmista Davi utiliza estas duas maneiras de adoração:

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” ( Sl 103:1 -4).

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR Deus meu, tu és magnificentíssimo; estás vestido de glória e de majestade. Ele se cobre de luz como de um vestido, estende os céus como uma cortina. Põe nas águas as vigas das suas câmaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as asas do vento. Faz dos seus anjos espíritos, dos seus ministros um fogo abrasador” ( Sl 104:1 -4).

O salmo 103 faz referência aos benefícios concedidos por Deus, e o salmo 104 faz referência aos atributos de Deus.

O apóstolo Paulo adota a linha de adoração demonstrada no salmo 103: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” ( Ef 1:3 ). Adoração ou reconhecimento pelos benefícios recebidos.

Após verificarmos o contexto na qual estão inseridas as declarações de Paulo, analisaremos dois elementos presentes neste versículo:

a) bênçãos espirituais, e;

b) regiões celestiais.

Há um contraste significativo entre o que é espiritual e o que é material. O apóstolo Paulo descreveu as nuances destes dois ambientes aos cristãos em Coríntios.

a) Primeiro se estabelece o que é natural, e depois o que é espiritual ( 1Co 15:46 );

b) Tudo que é concernente a Cristo é espiritual, e tudo o que é concernente a este mundo é material ( 1Co 10:4 );

c) Aqueles que nascem de Deus são espirituais, e passam a ser casas espirituais ( 1Pe 2:5 ).

 

Jesus ao falar a Nicodemos demonstrou que o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito, é espírito. Analisando ( Jo 3:6 com Jo 1:12 -13), percebe-se que somente após a regeneração o homem passa a ser espiritual.

  • A relação entre benção e graça.

“Um santo, no N.T., não é uma pessoa sem pecado, mas um pecador salvo” Scofield, C. I., Bíblia de Scofield com Referências, nota de roda pé Ef 1. 1.

Em uma mensagem de cunho evangelístico é plenamente aceitável a colocação: ‘Deus salva o pecador’. Isto é fato, Deus veio resgatar o que estava perdido “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” ( 1Tm 1:15 ).

Agora, em uma mensagem de ensinamento se utiliza a mesma linguagem? Não! Jesus ao falar a Nicodemos apregoa o seguinte: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

 

Adoração

Observe que a abordagem teológica é diferente da abordagem evangelística: A oferta da salvação é para todos os pecadores, mas só os regenerados (nascidos de novo), o novo homem, são salvos. Por que é preciso fazer esta distinção?

a) Cristo não é ministro do pecado; ser salvo significa que estar livre do pecado em todos os seus aspectos “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl 2:17 );

b) Vale salientar que somente o ‘novo homem’ em Cristo é salvo, e não o ‘velho homem’, pois este deve morrer através da cruz de Cristo. Dependendo da abordagem a respeito da salvação, por um lado Deus resgata o pecador, por outro, só o novo homem é salvo por Deus.

Podemos ilustrar esta verdade desta forma: Se uma embarcação encontra um naufrago em uma ilha deserta, após resgatá-lo, os tripulantes da embarcação continuarão a designar o novo tripulante da embarcação de ‘náufrago’. O ‘naufrago’ passa a fazer parte da tripulação do navio, e mesmo assim, continuará sendo designado como náufrago. O pecador salvo não é mais ‘pecador’, mas continuará sendo designado pecador, porém, agora em Cristo é um dos filhos de Deus.

 

O velho homem não é salvo, mas através do evangelho a graça de Deus o alcança.
Desta maneira Deus salva o pecador!
Morre com Cristo.
O novo homem o novo homem é salvo. Regenerado torna-se santo e justo diante de Deus.
O novo homem não é mais pecador
Ressurge com Cristo

 

Visualizamos aqui dois momentos na existência do homem quando alcançado pela graça de Deus: o antes, pertence ao velho homem, e o depois, ao novo homem, isto quando referimos à natureza herdada em Adão, e à natureza herdada do último Adão, que é Cristo “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45 ).

Jesus mesmo declarou: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ). A planta que o Pai não plantou não será salva, antes será arrancada, ou seja, todos quantos nascerem em Adão, necessariamente precisam morrer para em seguida nascer de novo. Somente aqueles que de novo são nascidos, da semente incorruptível que é a palavra de Deus, permanecerão para sempre.

Para entendermos as questões pertinentes à bênção e graça faz-se necessário divisarmos bem o ‘antes’ e o ‘depois’ do novo nascimento conforme o ensinamento de Cristo a Nicodemos: “…aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).

A graça de Deus é destinada ao velho homem, e as bênçãos de Deus são concedidas ao novo homem. Como? Observe:

a) a graça de Deus manifestou-se a todos os homens “…por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 );

b) a graça de Deus é oferta de redenção a todos os homens “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ), ou seja;

c) a graça de Deus tem como alvo o velho homem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ).

 

O que se manifestou? A graça de Deus, ou seja, Cristo manifesto trouxe salvação a toda humanidade. A graça de Deus revelou-se e trouxe salvação aos homens que habitavam nas regiões das trevas “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Antes de o homem ter um encontro com Cristo por meio da fé, a salvação de Deus é manifesta por graça, favor imerecido de Deus concedido ao homem perdido.

Ou seja, Cristo morreu por causa de nossos pecados e ao crermos nele nos tornamos participantes de sua morte. Cristo ressurgiu para a nossa justificação, ou seja, após ressurgirmos com Cristo, somos declarados justos diante de Deus.

A graça de Deus tem justificado o homem por meio da morte de Cristo, e após a justificação, somos feitos herdeiros.

Conclui-se que, a graça de Deus é destinada à velha criatura, que por estar morta em delitos e pecados, vendida como escravo ao pecado, e que por natureza é filho da ira, necessita de tão precioso resgate gracioso (remissão e redenção).

“Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” ( Tt 2:11 ).

“Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:14 ).

 

Por outro lado, as bênçãos de Deus são pertinente ao novo homem. O novo homem surge na Regeneração, onde é criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade. Estes são por natureza filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” ( Gl 3:26 -27).

O versículo três é a chave para entendermos o capítulo um de Efésios.

Primeiro temos que considerar o contexto: adoração, agradecimento pelas bênçãos concedidas.

Não podemos esquecer que a carta foi escrita aos cristãos, e que, portanto, Paulo não se ocupa em pregar ou explicar o evangelho novamente. A carta se ocupa em apresentar aspectos e pontos específicos do evangelho.

Ao escrever este capítulo, Paulo não se ocupa em descrever as questões pertinentes a graça de Deus que se destina ao velho homem. Antes ele se ocupa de questões pertinentes ao novo homem, e por isso, Paulo se ocupa em agradecer e falar das bênçãos de Deus.

Paulo não se mantém isolado dos destinatários ao falar das bênçãos recebidas. Ele se inclui entre aqueles que foram abençoados, o que demonstra duas coisas:

a) Ele estava falando de questões pertinentes ao novo homem, e;

b) da nova condição daqueles que estão em Cristo.

Paulo está falando do que é pertinente ao novo homem por ele bendizer a Deus por bênçãos já recebidas. Principalmente por ele enfatizar que todos estavam em Cristo. ‘Estar em’ Cristo remete a condição necessária para ser uma nova criatura.

No capítulo dois, versículo seis, Paulo volta a falar da condição alcançada após a ressurreição com Cristo.

 

Bendizendo pelas Bênçãos Recebidas

Eleição

4 Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

Paulo passa a bendizer a Deus pelas benção, que o faz descrevê-las.

(nos abençoou com todas as bênçãos espirituais) Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

a) Como também: a ação de abençoar através da eleição é exclusivamente de Deus. Foi Deus quem abençoou os cristãos com todas as bênçãos espirituais, e dentre elas temos a eleição.

b) nos elegeu nele:

a) Considerando que Paulo estava escrevendo sobre as bênçãos recebidas;

b) Considerando que Paulo estava adorando a Deus pelo que já tinha recebido;

c) Considerando que Paulo estava escrevendo sobre aspectos pertinentes a todos cristãos (nós);

d) Considerando que méritos e qualidades são pertinentes a pessoa de Cristo;

e) Considerando que a estrutura de texto é semelhante ao Salmo 103, e;

f) Considerando que a carta foi escrita a cristãos.

Conclui-se que Paulo escreveu sobre o que é pertinente ao novo homem, sobre aqueles que já estavam em Cristo (nele = em + Cristo).

Quando o apóstolo Paulo diz que Deus nos elegeu, ele utiliza o verbo no pretérito perfeito, o que indica algo concluído, ou que os cristãos estão de posse da bênção. Isto demonstra que os cristão estão de posse da nova condição: eleitos, ou seja, os cristãos já usufruem da condição para qual foram eleitos: santos e irrepreensíveis.

Paulo não quis demonstrar um processo de escolha, onde alguns são escolhidos e outros não. Paulo queria enfatizar as garantias decorrentes do evangelho. Para demonstrar as garantias decorrentes do evangelho, ele demonstra que os cristãos são os eleitos de Deus (santos e fiéis). Aqueles que nascem da vontade de Deus, já nascem santos e irrepreensíveis, ou seja, de posse da bênção divina.

Se Paulo estivesse fazendo referência neste versículo a uma possível escolha dentre aqueles que ainda estão vendidos ao pecado (velho homem), ele faria referência a graça de Deus, que foi direcionada a todos os homens “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Mas não, ele fala de bênçãos recebidas, o que é pertinente àqueles que estão em Cristo, e que, portanto, já são regenerados e são filhos de Deus.

É pela graça que o pecador alcança a salvação, e não por meio das bênçãos concedidas “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça…” ( Ef 1:7 ).

A graça é para a salvação, mas a eleição não é para a salvação; a eleição é para aqueles que se encontram em Cristo (nos elegeu em + ele = em Cristo).

Antes da fundação do mundo: Paulo apresenta a data em que se deu a eleição: antes que o mundo fosse fundado. Esta declaração do apóstolo Paulo não pode ser interpretada extensivamente. Observe que em momento algum ele fala da onisciência de Deus. Não é porque a eleição foi realizada antes da fundação do mundo que podemos arrematar que a eleição decorre da onisciência de Deus, ou da ideia equivocada de presciência que há na teologia. Os atributos de Deus não podem ser considerados isoladamente, mas a informação que Paulo nos deixou nesta parte do versículo restringe-se ao tempo em que Deus realizou a eleição.

Para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele: A eleição foi realizada com um objetivo pré-definido: a santidade e irrepreensibilidade dos cristãos! Ou seja, a escolha de Deus repousa sobre o Cristo e a Sua descendência, o que confere aos cristãos semelhança com o Filho de Deus, pois recebemos em Cristo plenitude de Deus ( Cl 2: 9 -10). Santidade e irrepreensibilidade são características pertinentes à nova criatura, conforme o que atesta o apóstolo Paulo: “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). O velho homem não pode ser eleito para ser ‘santo e irrepreensível’ pelos seguintes motivos:

  • Somente a graça de Deus através da mensagem do evangelho destina-se aos homens sem Cristo. A luz de Deus enviada ao mundo tem o objetivo de alcançar aqueles que ‘habitavam as regiões das trevas’;
  • Não há como ser santo e irrepreensível sem antes ter um encontro com Cristo. Todos os homens necessitam nascer de novo, e isto somente é possível após morrer com Cristo.
  • O velho homem é culpável, nasceu sob a égide do pecado, é inimigo de Deus, planta que o Pai não plantou, vaso destinado a ira, filho da desobediência, filho da ira. Como este homem pode ser escolhido para ser santo e irrepreensível? A bíblia demonstra que este homem e a sua natureza devem morrer e ser sepultado, para que nova criatura possa ressurgir dentre os mortos.
  • O velho homem é nascido da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue, ou seja, é nascido de semente corruptível, é árvore não plantada por Deus, e a árvore não plantada por Deus precisa ser arrancada.
  • Santidade e irrepreensibilidade é condição do novo homem criado em Cristo, o que demonstra que o homem, enquanto pecador, não é escolhido para a santidade. Somente após aceitar a graça de Deus por meio do evangelho, ser gerado de novo da semente incorruptível, ser uma planta plantada pelo Pai, ele assume a posição de eleito em Cristo. Somente após a regeneração é que o homem alcança a bênção de ser santo e irrepreensível.

A bênção de Deus destina-se aos cristãos (nova criatura) que foram gerados em Cristo. Estes são de novo gerados da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, por crerem no evangelho, que é poder de Deus, receberam poder para serem feitos filhos de Deus. São vasos para honra. São plantas nascidas da semente incorruptível e plantados por Deus.

Deus não escolhe para a salvação, antes, os que aceitam a graça de Deus que se revela no evangelho são eleitos para serem santos e irrepreensíveis. A eleição dos que agora são cristãos, segundo Paulo, foi realizada em Cristo ( Is 42:1 ), e todos aqueles que estão em Cristo recebem a condição de eleitos: santos!, ou seja, foram eleitos para serem santos, e não eleitos para serem salvos.


Ressurgir com Cristo dentre os mortos (mortos em delitos e pecados) uma nova criatura com a condição de filho de Deus é bênção, pois somente os filhos são participante da natureza divina “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 )!

Somente após escapar da corrupção que há no mundo (condenação em Adão) pelo seu glorioso convite e amor demonstrado em Cristo, é que Deus concede ao homem tudo o que diz respeito à vida e piedade (todas as bênção espirituais), nos tornando participantes da natureza divina (filiação, santidade e irrepreensibilidade).

Este é o motivo de Paulo estar louvando a Deus: Ele e os destinatários da carta haviam recebido todas as bênçãos espirituais, e alcançaram uma nova condição: a de serem santos e irrepreensíveis.

Estamos falando de dois momentos na vida do homem que teve um encontro com Cristo: o velho e o novo homem.

Como vimos até agora, há o velho e o novo homem; há a velha e a nova natureza; só é possível ver o reino de Deus após nascer de novo, e; que o novo homem é criado segundo Deus.

Resta analisarmos também os termos: eleição e eleitos.

A palavra eleição nos remete aos seguintes aspectos:

  • A palavra escolha ou eleição aponta um processo para algum fim;
  • Está é a idéia presente neste termo: alguém só é escolhido para um objetivo pré-definido.

Se retirarmos qualquer elemento pertinente ao processo de escolha, não existe escolha. Observe:

  • se não houver um objetivo pré-definido a executar não existe escolha;
  • se não houver alguém a ser escolhido, não haverá escolha;
  • se não houver um critério para a escolha, não haverá escolha, e;
  • se houver a escolha surgirá o antes e o depois da escolha.

 

Já a palavra eleito nos remete ao seguinte aspecto:

Eleito é a condição (posição, cargo) que alguém adquire após o processo de eleição.

Antes da eleição não há pessoas na posição de eleitas, só há candidatos. Após a eleição haverá os eleitos.

Quando se faz referência a condição de eleito, está se evidenciando aspectos como: exercício da posição alcançada e conciência das garantias que envolve a condição.

Quando Paulo escreveu que Deus nos elegeu, ele quer demonstrar que em Cristo estamos na condição de eleitos, e que já estamos gozando da irrepreensibilidade e da santidade. Já estamos de posse da bênção, e por isso mesmo ele bendiz a Deus que nós abençoou.

Por Paulo estar louvando a Deus pelas bênçãos recebidas, isto demonstra que ele quer evidenciar os aspectos que envolvem o conjunto daqueles que foram eleitos, ou seja, os eleitos. A existência dos eleitos (aqueles que creram em Cristo e foram recebidos por filhos) é o que motivou Paulo a bendizer a Deus “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…” ( Ef 1:3 ).

Ao procurar demonstrar que Deus elegeu alguns para serem salvos estaremos preso as seguintes questões: Por que eu sou escolhido e fulano não?; Quais as garantias de que eu sou um eleito? Qual o critério que Deus utilizou para escolher? Qual o objetivo de Deus escolher só alguns, e o restante não?

Analisando os atributos de Deus surgem mais estes questionamentos: Qual o critério utilizado para que Deus para escolher alguns que devem ser santos e irrepreensíveis se ele ama a todos? O que faz diferente os pecadores diante de Deus, se para Ele não há acepção de pessoas? “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” ( Rm 2:11 ).

A bíblia nos informa que Deus ama a humanidade como um todo “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ).

Como conciliar os dois versículos acima com a idéia que Deus escolhe dentre os perdidos as pessoas que serão salvas?

Observe que é diferente afirmar que Deus elegeu ‘algumas pessoas para serem salvas’, do que Paulo escreveu: Deus nos elegeu ‘para sermos santos e irrepreensíveis’, e não para sermos salvos. É pela graça que o homem é salvo, e não pela eleição.

A afirmação do apóstolo de que os cristãos foram eleitos refere-se especificamente a condição que eles alcançaram após a Regeneração: foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

A visão dos Reformadores é que Deus escolhe dentre a humanidade perdida (escolha entre ‘a’ e ‘b’), pessoas para serem salvas, o que contraria a idéia presente na graça de Deus: “Pois é pela graça que sois salvos, por meio da fé”, e não por eleição. A Eleição é para ser santo e irrepreensível, condição que é pertinente àqueles que já estão diante de Deus.

E como se deu a eleição dos salvos? “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

Cristo é o eleito de Deus segundo o seu propósito eterno de fazer convergir n’Ele todas as coisas.

  • O propósito eterno de Deus;
  • O Filho é escolhido, e;
  • O Filho possui os méritos: O santo de Deus ( Is 42:1 ).

Os cristãos não existiam quando ocorreu a eleição, mas ao nascerem de Deus, passaram a eleitos. Foram criados em verdadeira justiça e santidade (salvação) e acolhidos como filhos.

“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ).

“…nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” ( Ef 1:4 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo demonstra que primeiramente Deus nos salvou por sua maravilhosa graça. A salvação é por meio do evangelho, que é poder de Deus, e não por meio da eleição, que é para filiação ( 2Tm 1:8 ). Somente após a salvação ocorre a eleição. A condição de santos e irrepreensíveis é pertinente aos salvos.

Ao falar que Deus nos salvou, é o mesmo que dizer: estamos salvos, da mesma maneira ao falar ‘nos elegeu, significa que somos eleitos, ou seja, que estamos de posse das bênçãos concedidas. Bendito seja Deus!

Isto demonstra que ao escrever aos cristãos em Éfeso Paulo procurou enfatizar a condição de eleitos de Deus, na qual eles passaram a ser santos e irrepreensíveis. Por isso ele inicia o tópico adorando a Deus pelas bênçãos recebidas.

Paulo demonstra que antes mesmo de existirmos, Deus já havia providenciado por meio de Cristo bênçãos espirituais, e que agora eles estavam de posse destas bênçãos.

Deus não faz acepção de pessoas, o que demonstra que todos aqueles que são recebidos por filhos passam a ter as mesmas condições que o Filho amado. Também são eleitos.

Por fim, verifica-se que os salvos é que são eleitos. Não há como os perdidos serem eleitos. Só os salvos é que são santos e irrepreensíveis diante de Deus.

Observe as análises:

  • Quem são os eleitos? Paulo responde: nós! Como Paulo fala de algo que ocorreu no passado (elegeu), segue-se que hoje os cristãos estão na condição de eleitos: são santos e irrepreensíveis, pois para isso foram eleitos. Quando Paulo fala que ‘nos elegeu’, ele demonstra que os cristãos (os salvos, aqueles que nasceram de novo), é que são os eleitos, e não aquele que ainda se encontra no pecado. Temos definido aqui quem foi eleito: os cristãos por estarem em Cristo;
  • Qual o objetivo pelo qual Deus ‘nos elegeu’? Paulo responde: para que fossemos santos e irrepreensíveis. Os perdidos não foram escolhidos para este mister, mas os cristãos é que foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus (nos elegeu! ‘Nos’ quem? …nós, os que primeiro esperamos em Cristo). Aqueles que não esperam em Cristo não são os eleitos de Deus “…nós os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12);
  • Qual o critério da escolha dos que estão em Cristo? A pessoa de Cristo. Os cristãos foram escolhidos com base em Cristo. Cristo é o eleito de Deus antes mesmo da fundação do mundo “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ). Cristo é o santo de Deus; Ele é o justo. O cristão, por ser participante de Cristo, passa a ser santo e irrepreensível diante de Deus. Cristo é a base da nossa eleição, e por ele ser a base, não havia a necessidade de existirmos, mas a escolha já estava definida: todos os que nascerem de Deus passam a ser santos e irrepreensíveis. O cristão nem mesmo existia quando se definiu quem haveria de receber a condição de eleito, e agora, após serem conhecidos por Deus os ‘novos homens’ passam a ser santos e irrepreensíveis;
  • Antes da fundação do mundo já estava definida a eleição; não há mérito por parte dos eleitos, visto que nem mesmo existiam. Com relação a quando ocorreu a eleição só a pessoa de Cristo participou, os méritos estavam nele; após nascermos de Deus, nós nos tornamos participantes das bênçãos restritas aos filhos de Deus: somos santos e irrepreensíveis.

 

O apóstolo Paulo, em momento algum aponta uma escolha entre os perdidos para a salvação. Antes ele aponta que os cristãos são escolhidos para a condição de santos e justos diante de Deus.

Se Deus nos elegeu no passado em Cristo, hoje somos eleitos, estamos de posse das prerrogativas para qual fomos eleitos.

Basta nascer de novo por meio de Cristo que o homem estará na condição de eleito de Deus.

Sobre o propósito eterno de Deus ao escolher a Cristo, veremos nos próximos versículos.

 

Predestinação

5 E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,

Os parâmetros de interpretação utilizados no versículos anteriores são totalmente válidos neste versículo:

“E nos elegeu nele (…) para que fossemos santos e irrepreensíveis…”

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo…”

Observe:

  • O contexto demonstra que Paulo estava adorando a Deus por bênçãos recebidas;
  • A carta foi remetida a cristãos, ou seja, pessoas que conheciam e professavam o evangelho;
  • Os dois versículos utilizam o verbo no pretérito perfeito;
  • Os dois versículos demonstram que eles haviam adquiridos as bênçãos em Cristo.

Mas, para que o entendimento do texto seja pleno, utilizaremos uma outra abordagem para melhor elucidar o texto, sendo que ela também poderá ser aplicada ao versículo anterior.

O apóstolo aponta neste verso uma outra bênção adquirida por aqueles que estão em Cristo: a predestinação.

Paulo continua demonstrando que ele e os cristãos de Éfeso eram alvos das bênçãos de Deus. Se houver dúvidas sobre quem são os predestinados, basta perguntar: Quem são os predestinados? E Paulo arremata: nós! Nós quem? Paulo e os santos que estavam em Éfeso.

Segue-se que a predestinação é bênção da parte de Deus para aqueles que foram Regenerados ou por estarem em Cristo.

Mas, como ter certeza de que a predestinação não é direcionada aos perdidos? Como ter certeza que a predestinação é exclusiva daqueles que estão em Cristo?

  1. Devemos observar atentamente a relação que Paulo estabelece entre a primeira pessoa do plural do caso reto “nós” e a segunda pessoa do plural do caso reto “vós”;
  2. Não podemos nos esquecer que Paulo era um Judeu que se tornou cristão, e os cristãos de Éfeso eram gentios que se converteram ao evangelho; JUDEUS E GENTIOS são povos distintos, mas em Cristo são um (passaram pelo novo nascimento), o que explica também porque Paulo ao se referir à sua condição anterior, não se une aos efésios na narrativa.
  3. De posse destas duas informações iniciais, verifica-se que Paulo ao falar das bênçãos divinas concedidas aos cristãos, ele se inclui na narrativa “E nos elegeu (…) E nos predestinou…” ( Ef 1:4 e 5). Mas, ao falar da condição dos cristãos gentios quando eles ainda estavam no pecado, Paulo utiliza o “vós”: “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ).
  4. Observe o que Paulo escreveu aos Gálatas: “Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios” ( Gl 2:15 ). Paulo evidência uma diferença sutil entre ser pecador dentre os gentios e pecador dentre os judeus para expor uma verdade crucial do evangelho: Nós os Judeus não somos justificados pelas obras da lei.
  5. Na carta aos Efésios esta diferença é ainda mais sutil, mas contrasta com o resultado após o encontro com Cristo: A paz entre ambos os povos! Por isso, ao falar dos cristãos gentios quando no pecado, Paulo utiliza o vós; ao fazer referência a TODOS os filhos da desobediência, Paulo se inclui, demonstrando que no passado, sem Cristo, tanto Judeus quanto gentios eram filhos da ira “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” ( Ef 2:3 ).
  6. Ao falar da salvação, Paulo em nenhum momento faz referência à eleição e predestinação, mas sim ao amor e graça de Deus. Todos eram filhos da ira (judeus e gentios), mas o amor de Deus alcançou a todos através de sua maravilhosa graça.

 

Toda a análise demonstra que Deus predestinou os salvos, aqueles que eram cristãos e que Paulo se incluiu na narrativa: “E nos predestinou…”, ou seja, nós, os cristãos, somos predestinados por Deus para sermos filhos por adoção.

Haveria como os perdidos serem filhos de Deus por meio da predestinação? Não! Se não houver a regeneração por meio da graça do evangelho, homem algum será recebido por filho de Deus. O homem só é recebido por filho de Deus quando encontra-se em Cristo.

Estar em Cristo é a condição necessária para ser predestinado a filho por adoção.

Mas, o que é ser predestinado? Qual a idéia que a palavra ‘predestinado’ introduz?

Predestinar significa determinar previamente ou antecipadamente e decorre do sentido da palavra grega prooriso.

A idéia secular a respeito da predestinação aponta para destino, carma, sem opção de futuro, etc. Para o entendimento natural, todas as pessoas possuem um destino pré-definido.

Porém a bíblia demonstra que só os que estão em Cristo é que são predestinados. O restante da humanidade, diante do que expõe a bíblia, não nascem predestinados.

Todos os homens ao nascerem, nascem na condição de filhos da ira, mas em momento algum a bíblia os designa como sendo predestinados a perdição. Por que? Porque a todos os homens é dada a opção de decidirem-se pela graça de Deus. Ninguém nasce predestinado à perdição. Todos possuem uma opção: a graça de Deus!

Agora, por que Paulo diz que os cristãos foram predestinados por Deus? Porque para aqueles que estão em Cristo não existe opção de escolha quanto ao que serão: todos serão filhos por adoção, sem exceção. Como? Em momento algum Paulo diz que Deus predestinou alguém à salvação. Paulo diz que Deus predestinou os cristãos a serem filhos por adoção.

Se Deus houvesse predestinado alguém à salvação, seria o mesmo que dizer que ele predestinou o restante da humanidade à perdição, o que não é verdade. Mas é fato: Aqueles que aceitarem a graça de Deus oferecida por meio do evangelho, serão filhos de Deus, sem exceção.

Alguns alegam que a eleição é um ato de escolha e que a predestinação diz respeito ao fim para essa escolha. Mas o texto não diz isto. Paulo diz que o fim para eleição é a santidade e irrepreensibilidade. da mesma forma a predestinação tem um objetivo bem claro: a filiação divina, e não a salvação.

A eleição e a predestinação devem ser vistas como bênçãos garantidas por Deus. Paulo procurou evidenciar a segurança da salvação em Cristo por meio de termos que demonstrassem a posse das bênçãos espirituais.

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”

Predestinados por Deus para serem filhos por adoção em Cristo. Tanto judeus quanto gentios eram filhos da ira, e por meio da graça do evangelho, são recebidos por filhos.

Observe que Deus, segundo a sua vontade quer filhos para si. Paulo demonstra que a vontade de Deus não é outra, senão que, por meio de Cristo, sejamos seus filhos.

 

Louvor e Glória

6 Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado,

Paulo demonstrou que Deus nos elegeu para sermos santos e irrepreensíveis e nos predestinou para filhos por adoção, segundo a sua vontade. Este versículo aponta o motivo pelo qual Deus abençoou os cristãos com as bênçãos da eleição e predestinação.

Por que Deus elegeu? Por que Deus predestinou? Para louvor e glória da sua graça!

Sobre o que este versículo trata? Sobre a salvação de Deus “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ).

Não foi a eleição e a predestinação que nos fez agradáveis a Deus, e sim a sua graça.

A graça de Deus que se manifestou por meio do evangelho foi direcionada aos pecadores e os fez agradáveis a Deus, tornando-nos agradáveis a si, Deus nos abençoa com eleição e predestinação. Se a graça de Deus é que nos fez agradáveis (que nos salvou), não há como afirmar que a salvação depende da eleição e da predestinação.

Em Cristo, Deus nos fez seus filhos por meio do evangelho, e a predestinação e eleição são referências à garantia divina.

A salvação foi realizada por meio de Cristo (Amado), conduzindo muitos filhos a Deus (para si mesmo).

Conclui-se que a salvação é por meio da graça, e não o resultado de uma escolha. Deus trouxe salvação a todos os homens de maneira graciosa, sem qualquer referência a uma ‘predestinação’ de alguns ‘privilegiados’ à salvação.

 

7 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça,

Paulo retroage quanto à exposição das verdades contidas no evangelho: Primeiro ele bendiz a Deus pelas bênçãos recebidas para depois falar da graça recebida por meio do evangelho.

A ordem correta é:

  1. A riqueza da graça por meio do evangelho (salvação) (v. 7);
  2. A redenção pelo sangue (v. 7);
  3. Ser feito agradável a Deus em Cristo (Regeneração) (v. 6);
  4. Adquirir a filiação por adoção (Predestinação) (v. 5);
  5. Ser santo e irrepreensível perante Deus (Eleição) (v. 4).

Em Cristo o cristão teve a redenção por meio do seu sangue. É difícil aparecer nas cartas de Paulo frases que expliquem a idéia presente na frase anterior de forma direta. Este versículo foge à regra. A redenção por meio do sangue de Cristo é o mesmo que remissão das ofensas “…no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ). Comprados e libertos por Cristo.

Todas as bênçãos recebidas é por meio, ou segundo as riquezas da graça de Deus.

Como a redenção e a remissão é segundo as riquezas da graça de Deus ( Ef 1:7 ), a eleição e a predestinação também o é: “… para louvor e glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” ( Ef 1:6 ).

A Eleição, a Predestinação, a Redenção e a Remissão são bênçãos de Deus dadas gratuitamente segundo as riquezas da graça de Deus. Elas são dadas, ou seja, concedidas a todos quantos crêem. Não é uma escolha.

 

8 Que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência;

A graça de Deus abundou por meio de Cristo, ou seja, tal graça foi derramada profundamente sobre os cristãos em sabedoria e prudência. Como em sabedoria e prudência (entendimento)?

 

9 Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo,

Além da riqueza da salvação, concedida gratuitamente, Deus revelou o mistério da sua vontade, o que nos concede sabedoria e entendimento das coisas celestiais.

A riqueza da salvação faz parte do propósito eterno de Deus, e após nos inteirarmos do propósito divino revelado em sabedoria e entendimento, verifica-se que a salvação não é um fim em si mesmo.

Há no propósito eterno de Deus (que propusera em si mesmo) um objetivo maior do que simplesmente salvar. Ou seja, Deus salva o homem para levá-lo a cumprir um propósito revelado, o que torna este propósito plenamente compreensível pelo homem.

Beneplácito é consentimento, ou seja, aprovação! “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade (…) Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo” ( Ef 1:5 e 9).

Se é segundo o que Deus aprovou (consentiu), está demonstrada a garantia de Deus quanto aquilo que ele nos revelou. Deus aprovou e consentiu fazer todas as coisas em Cristo.

 

10 De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;

Deus nos ‘fez’ agradáveis por meio de Cristo com o objetivo maior de reunir em Cristo todas as coisas. Deus reunirá em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra ( Ef 3:9 ).

‘nos fez herança’ ou ‘nos fez agradáveis’ refere-se a nova criação, onde Deus concede poder àqueles que crêem para serem feitos (criados) filhos de Deus.

 

11 Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;

Em Cristo fomos feitos herança! E Paulo demonstra de que maneira os cristãos foram feitos herança: por meio da Predestinação. Os cristãos foram predestinados conforme o propósito de Deus e segundo a vontade de Deus feitos herança. Como?

Além dos filhos de Deus terem direito à herança, também fomos feitos herança, fomos feitos propriedade de Deus conforme esclarece o versículo quatorze “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:9 ); Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens” ( 1Co 7:23 ).

O salmista diz que os filhos são herança do Senhor que o homem recebe, porém, ao gerar em Cristo filhos para si, Deus nos constituí ‘herança’ para si “Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão” ( Sl 127:3 ).

 

12 Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo;

Qual a diferença entre o versículo seis e doze?

“Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6);

“Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” (v. 12).

O versículo seis mostra que as bênçãos que acompanham a salvação em Cristo constituem-se de per si louvor e gloria à graça de Deus.

Já o versículo doze demonstra que Deus levou a efeito a sua vontade com o objetivo de sermos para louvor da sua glória.

Observe que o louvor difere da adoração. Paulo adora, ou bendiz ao Senhor pelas bênçãos recebidas, porém estas mesma bênçãos constituem-se em louvor à graça e glória de Deus. Este é Deus quem promove, e aquele refere-se ao reconhecimento do homem. Adoração e louvor diferem quanto à essência.

A obra de Deus (que faz do pecador homens criados em verdadeira justiça e santidade), é que enaltece (verdadeiro louvor) a glória do Senhor! Mas, o ato misericordioso de arrancar o pecador das garras do pecado, concedendo-lhe bênçãos espirituais, promove louvor à sua tão maravilhosa graça proposta no evangelho.

Sobre quem o apóstolo estava falando? Incrédulos ou crentes? A resposta é clara: nós os que primeiro esperamos em Cristo! Só aquele que espera na graça revelada em Cristo serve de louvor à glória e graça de Deus. O descrente não serve a este propósito.


Há uma mudança de contexto do versículo treze em diante.

O apóstolo Paulo passa da adoração a Deus à conscientização dos cristãos.

Observe o recurso utilizado por ele para continuar a carta quando muda de contexto.

Até o versículo doze Paulo utiliza a primeira pessoa do plural (nós) demonstrando a unidade dos cristãos; ao passar a conscientização, Paulo utiliza a segunda pessoa do plural (vós).

Paulo tinha convicção do que ele havia recebido em Cristo (salvação e bênçãos), e queria que os cristãos de Éfeso também possuíssem esta certeza. Daí o fato de ele utilizar a segunda pessoa do plural na narrativa.

 

Conscientização sobre a Nova Condição

13 Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.

“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança…” (v. 11); Primeira pessoa do plural.

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” (v. 13). Segunda pessoa do plural.

Paulo passa a conscientizar os cristãos sobre a nova condição adquirida por meio de Cristo.

O que ocorre é simples: após ouvir a palavra do evangelho, e crer em Cristo, a palavra da verdade torna-se o evangelho da salvação. Todos que ouvem e crêem são salvos em Cristo.

Paulo dá veracidade às suas argumentações: fostes selados, ou seja, tudo que ocorre com os Cristãos é autentico, conforme o Espírito Santo prometido atesta “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” ( Rm 8:16 ).

 

14 O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória.

Penhor: garantia, segurança, ou a coisa que constitui essa garantia. Penhor fala de direito real sobre algo vinculado a uma dívida, surgindo como garantia do pagamento de tal dívida.

O Espírito Santo é garantia da nossa herança, ou seja, Ele é garantia, Ele se constitui a nossa garantia do direito real que possuímos ao sermos recebidos por filhos.

“…fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida…” (v. 13- 14).

O próprio Consolador enviado se interpõe como garantia da herança que recebemos. O penhor deve ter valor equivalente à dívida contraída, e nós que estamos em Cristo já recebemos o que é superior a própria herança: o Espírito Santo de Deus! Que garantia! Que segurança!

Os cristãos foram selados com o Espírito Santo da promessa, o que é superior a própria herança. Mas, por que fomos selados? A resposta é: Para redenção da possessão adquirida por Deus.

Aqui, redenção significa libertação futura! Os cristãos foram selados para uma libertação futura, conforme o versículo seguinte: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” ( Ef 4:30 ).

A redenção deste versículo ( Ef 4:30 ) difere da redenção apontada no verso 7. Enquanto a Redenção do versículo sete é bênção alcançada, a deste versículo refere-se ao grande dia da Redenção.

 

Pedidos em Oração

15 Por isso, ouvindo eu também a fé que entre vós há no Senhor Jesus, e o vosso amor para com todos os santos, 16 Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações:

Depois das garantias apresentadas até o versículo quatorze para aqueles que estão em Cristo, Paulo comunica aos cristãos que não cessava de agradecer a Deus por ouvir da fé que havia nos cristãos em Éfeso e que eles amavam os santos de Deus ( Ef 1:3 ).

Este versículo demonstra o quanto os cristãos foram tocados pela mensagem do evangelho. Observe que, através da oração de Paulo fica demonstrado que eles estavam cumprindo o mandamento de Deus, conforme atesta o apóstolo João: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

A fé dos cristãos era conforme o mandamento ‘que nos ordenou’, ou seja, ‘a fé que entre vós há no Senhor Jesus’. O amor deles era ‘para com todos os santos’, ou seja, eles amavam segundo o mandamento ordenado: ‘amemos uns aos outros’.

Há um paralelo sem igual entre o que João expõe, e o que Paulo observa entre os cristãos de Éfeso.

Paulo não só agradecia, mas também lembrava constantemente dos cristãos quando em oração. Por que Paulo não se esquecia de orar a Deus pelos cristãos? A resposta está no versículo seguinte:

 

17 Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação;

Do versículo três ao versículo quatorze Paulo agradece e conscientiza os cristãos das bênçãos já recebidas. Deste versículo em diante Paulo pede a Deus algumas coisas que os cristãos em Éfeso ainda não possuíam. Se Paulo ora fazendo esta petição, é porque ele considera uma necessidade premente a ser satisfeita. Apesar de já serem idôneos e participantes das bênçãos eternas pela união com Cristo, havia a necessidade de sabedoria e revelação (espiritual).

Paulo não pede para si, mas pelos os cristãos de Éfeso, que lhes fossem dado sabedoria e revelação. Por meio de Cristo os cristãos conheciam a Deus, ou antes, foram conhecidos por Ele Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Paulo, ao falar ‘espírito’ de sabedoria e revelação, estabelece aí distinção entre a sabedoria humana e a sabedoria que só é alcançada quando revelada pelo Espírito Santo de Deus.

 

18 Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos;

A sabedoria e a revelação vinda de Deus dá luz ao entendimento do novo homem gerado em Cristo.

Por mais que Paulo procurasse conscientizar os cristãos das bênçãos recebidas, o pleno esclarecimento só é alcançado em plenitude através do conhecimento de Deus “…em seu conhecimento…” (v. 17). Conhecimento aqui não é ‘saber’, ou estar ‘ciente de’.

O ‘conhecimento’ que Paulo faz referência diz de união intima, assim como quando o homem e a mulher tornam-se um (conheceu o homem a mulher). Ou seja, quando a bíblia diz que um homem conheceu uma mulher, é porque os dois se tornaram um. Diz de conhecimento íntimo e inviolável.

Paulo demonstra qu

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1 Pedro – Regenerados pela palavra da verdade

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho: a salvação da perdição do pecado. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).


1 PEDRO, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; 2 Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

Pedro não teve o mesmo problema que o apóstolo Paulo quanto a ter que defender o seu apostolado. Por ter sido escolhido por Cristo para ser discípulo, e visto o Mestre ainda em carne, não teve dificuldades no exercício do seu ministério.

Paulo demonstra em suas cartas que Pedro possuía uma posição de destaque entre os primeiros cristãos, tanto que foi significativo para Paulo passar quinze dias com Pedro e ser recebido entre os discípulos pelo evangelho que anunciava aos gentios ( Gl 1:18 ; Gl 2:9 ).

No decorrer da carta Pedro também se apresenta como o ‘Ancião’ ( 1Pe 5:1 ), e que Silvano foi quem escreveu (escriba) a carta, e que eles estavam na companhia de Marcos ( 1Pe 5:12 -13). A maestria na escrita da carta deve-se a Silvano, mas o conteúdo da carta ao apóstolo Pedro.

Muitos questionam a autoria da carta de Pedro por ele ter sido um simples pescador da Galileia e ter escrito uma carta tão bela em grego semelhante à literatura ática. Estudiosos questionam a autoria da carta por ele citar a Septuaginta, por usar o ‘artigo’ de modo elegante como nenhuma outra carta do Novo Testamento e por ter um vocabulário próprio e numeroso.

Ora, Pedro mesmo demonstra que não foi ele quem escreveu a carta, e sim Silvano. Percebe-se que Pedro apresentou os argumentos e Silvano, na condição de hábil escriba usou o seu conhecimento para imprimir à carta o estilo próprio as frases da literatura ática.

Quando escreveu, Pedro estava em uma cidade que ele nomeou de Babilônia ( 1Pe 5:13 ). Os destinatários da carta estavam em cinco províncias Romanas: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia.

Após identificar-se, o apóstolo aponta quem são os destinatários da sua epístola: os estrangeiros dispersos. ‘Estrangeiros dispersos’ diz dos cristãos que foram perseguidos por causa da mensagem do evangelho ( At 8:1 ; At 11:19 ). Ora, é certo que os dispersos eram na maioria judeus, porém, ao escrever, Pedro tem como foco os cristãos, sem qualquer referência a origem carnal dos cristãos.

Pedro escreveu aos eleitos, ou seja, aos santos e irrepreensíveis em Cristo ( Ef 1:4 ). Os arminianista utilizam-se deste verso para afirmar que a eleição é segundo a presciência de Deus, porém, é necessária uma análise mais rigorosa.

Uma tradução bíblica datada de 1681 diz o seguinte:

Pedro Apoftolo de Jefu Chirifto a os eftrangeiros efpalhados em Ponto, em Galacia, em Cappadocia, em Afia, e em Bythynia. Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae, em fanctificaçaõ de Efpirito…”

Novo testamento, Companhia das Indias Oriental, cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.

Observe o verso em questão: “Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae…” (v. I). Ora, a eleição é segundo a presciência ou providência?

Como já demonstramos no artigo O Evangelho Anunciado, a eleição não é o modo pelo qual Deus salva o homem. Deus não escolheu antes dos tempos eternos quem seria salvo ou não, com base na sua presciência ou na sua soberania. As concepções calvinista e arminianistas não são bíblicas.

Para compreender a ideia que o apóstolo Pedro procurou evidenciar, não se pode interpretar um verso fora do contexto, ou isolá-lo do restante da bíblia.

A estrutura da primeira carta de Pedro comparada à carta de Paulo aos Efésios é equivalente na estrutura do texto e na ideia que procuraram demonstrar. Observe:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:1 -2).

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus: a vós outros graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” ( Ef 1:1 -2).

Tanto Pedro quanto Paulo se apresentam, identificam os destinatários, saúdam com graça e paz, apresentam o local onde os cristãos se reuniam, porém, enquanto Pedro fala da nova condição pertinente aos salvos, ‘eleitos’ (presente), Paulo faz referência ao evento da eleição (passado).

Ora, Deus elegeu os cristãos em Cristo ( Ef 1:3 ), e os cristãos são eleitos (condição atual) por estarem em Cristo ( 1Pe 1:2 ).

Para os arminianistas a eleição é segundo a presciência de Deus, e os calvinistas apontam a soberania de Deus. Como a maioria dos tradutores segue uma tendência teológica, não sabemos o quanto estes posicionamentos doutrinários influenciam os tradutores.

Porém, é possível extrair do texto uma resposta: a eleição não é segundo a presciência e nem segundo a providência de Deus Pai, antes é na (em, ou através) Santificação do Espírito. Observe:

segundo a presciência de Deus Pai

Eleitos (condição atual) na santificação do Espírito

para a obediência e aspersão do sangue

Se considerarmos que a frase ‘segundo a presciência de Deus Pai’ é um aposto explicativo, veremos que não imposta à posição que ela é inserida no texto. Ora, têm-se várias cominações possíveis:

“… segundo a presciência de Deus Pai, eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito, segundo a presciência de Deus Pai, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, segundo a presciência de Deus Pai…”.

Alguém que segue uma visão arminianista prefere agrupar as várias frases que compõe o versículo segundo a sua concepção: eleitos segundo a presciência. Outro, que não prefere a concepção arminianista, mas a calvinista, preferem a providência divina.

Porém, de acordo com o restante das escrituras, a eleição não é segundo a presciência, antes a eleição é segundo o propósito eterno de Deus. Ora, se é segundo o propósito eterno não pode ser segundo a presciência!

Por tanto, para interpretar ( 1Pe 1:2 ), é necessário considerar que:

  • Nenhum ponto das Escrituras deve ser considerado isoladamente do restante das escrituras “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” ( 2Pe 1:20 );
  • Algumas frases contidas nos textos são um tipo de aposto explicativo;
  • É necessário observar a forma do discurso do interlocutor, que neste caso específico é o apóstolo Pedro;
  • Não deixar ser influenciado por tendências doutrinárias, que são muitas;
  • Comparar o versículo com o texto de outros escritores da bíblia;
  • Por ser um versículo complexo deve ser analisado segundo a ideia geral da bíblia.

Segundo o que Paulo demonstra, os cristãos foram eleitos em Cristo “Pois nos elegeu nele…” ( Ef 1:4 ), e Pedro do mesmo modo demonstra que os eleitos alcançaram está condição ‘… em santificação do Espírito…’ ( 1Pe 1:2 ).

Perceba que tanto Pedro quanto Paulo utiliza o dativo de forma especial (en Cristo = em Cristo) ao escreverem acerca da eleição. É um uso específico do dativo preposicionado, característica própria à sintaxe cristã ao utilizarem o grego.

Ora, Paulo disse que os cristãos foram eleitos em Cristo, portanto, não podemos interpretar que a eleição é segundo a presciência, e sim, em santificação do Espírito.

Como? Ora, as palavras de Cristo são Espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). É através da Palavra que Cristo santificou a sua igreja “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

A santificação do Espírito é pela palavra do evangelho e a eleição se deu em Cristo, ou seja, ‘em santificação do Espírito’ (santificação pela palavra), pois Cristo é o Verbo de Deus, a palavra da vida encarnada.

Ora, dizer que os cristãos foram eleitos ‘em Cristo’, ou que são eleitos ‘em santificação do Espírito’ evidencia a mesma ideia: a nova criatura (os cristãos) é eleita por estar em Cristo ( 2Co 5:17 ).

Segundo Paulo, os cristãos foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, é para santificação que os cristãos foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo. Temos aqui dois eventos distintos:

  • antes dos tempos eternos, segundo o seu propósito eterno, Deus escolheu a Cristo para ser preeminente sobre todas as coisas;
  • para que Cristo fosse preeminente em tudo, Deus o constituiu como cabeça da igreja, que são os santificados pela palavra, as novas criaturas, homens nascidos segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Em Cristo Deus escolheu os cristãos para que hoje sejam santos e irrepreensíveis. Paulo apresentou o tempo da eleição para demonstrar que os cristãos agora estavam em Cristo na condição de eleitos de Deus ( Ef 1:13 ), e Pedro apresenta a condição dos cristãos hoje (eleitos), e como alcançaram tal condição: em santificação pelo Espírito.

Percebe-se que através da santificação se dá a eleição dos homens, pois para a santificação é necessário ser anunciada a palavra aos homens, estes por sua vez creiam na pregação, e Deus opera a sua maravilhosa obra: a regeneração. Através da regeneração ocorre a justificação e santificação simultaneamente.

Paulo demonstra que os cristãos foram eleitos para santificação (objetivo), e Pedro demonstra que pela santificação do Espírito os Cristãos são eleitos (condição). A condição de eleitos decorre da santificação, mas quando Deus escolheu antes dos tempos eternos aqueles que estariam em Cristo, foi para serem santos e irreprimíveis.

Cristo demonstrou que a santificação é proveniente da sua palavra, que é espírito e vida para todos os que creem. A regeneração só é operada através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Compare: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 ), e “Tendo purificado as vossas almas na obediência a verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

A ‘santificação’ ou ‘purificação’ só ocorre através da obediência.

Mas, o que é obediência? Obediência é crer na mensagem do evangelho do mesmo modo que cumprir os mandamentos de Deus é crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Qual a verdade que os cristãos da Galácia não estavam obedecendo? À verdade do evangelho “Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” ( Gl 3:1 ).

Como se obedece a verdade do evangelho? Crendo, como está escrito: “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” ( Rm 10:11 ).

Pedro procurou demonstra em sua saudação inicial que os cristãos são os eleitos de Deus, pois todos são santos por estarem em Cristo ( Ef 1:2 ). Eles tornaram-se santos (separados) após serem lavados pela palavra da verdade, a palavra do evangelho que obedeceram.

É através da obediência ao evangelho e aspersão do sangue de Jesus que os cristãos foram purificados, tornaram-se eleitos.

Tudo o que ocorreu com os cristãos após ouvirem e obedecerem à palavra do evangelho (aspersão do sangue, santificação e eleição) já era de conhecido de Deus (onisciência) antes dos tempos eternos “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ).

Quando os apóstolos falaram da eleição, eles tinham em mente a geração que foi escolhida por Deus e a condição dessa geração. A geração dos eleitos ocorre em Cristo, e a geração dos não eleitos, em Adão ( 1Pe 2:9 ). A geração dos eleitos (justos) se dá em Cristo e a geração dos não eleitos (ímpios) em Adão porque uma é a geração dos justos e outra é a geração dos ímpios.

Nenhum descendente da carne de Adão foi eleito por Deus para ser santo e irrepreensível, antes só os homens que creem em Cristo, ou seja, que obedeceram a verdade do evangelho e são de novo gerados segundo Deus, são eleitos para serem santos (separados). É por isso que apóstolo Pedro fala que é por meio da santificação do Espírito que os cristãos são conhecidos d’Ele.

A ideia que Pedro procurou evidenciar é a mesma que Paulo demonstrou no verso seguinte: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Através da onisciência Deus é conhecedor de todas as coisas, ou seja, nada se exclui do seu saber, conhecimento. Porém, quando os cristãos eram incrédulos, eles não eram conhecidos de Deus. O que isto quer dizer, que Deus não é conhecedor de todas as coisas? ( Gl 4:8 ).

Não! Quando os cristãos não conheciam a Deus, Deus também não os conhecia. Porém, agora que conheceram a Deus, ou antes, tornaram-se um com Ele, conhecidos por Ele através da aspersão do sangue de Cristo que se da através da obediência à sua palavra, tornaram se filhos, eleitos (escolhidos) conforme o propósito eterno, que é a preeminência de Cristo como cabeça da igreja.

Conhecer a Deus vai além de um simples saber. Fala de união, ou seja, de tornar-se um só corpo com Cristo, conhecendo um ao outro em amor. Quando o cristão torna-se um só corpo com Cristo é o mesmo que Deus ter conhecido os cristãos, tornam-se um só corpo, pois o homem passa a compartilhar da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

A palavra ‘presciência’ não deve ser utilizada para fazer referência a ideia de que Deus antevê eventos futuros, pois Deus sabe de todas as coisas e eventos através dos séculos igualmente bem, o que se dá o nome de onisciência. O termo ‘presciência’, ou melhor, pré-conhecimento ou pré-ciência refere-se á mensagem acerca do Cristo que os profetas anunciaram de antemão (previamente). Que por intermédio do conhecimento de Deus em Cristo os homens tornar-se-iam um com Deus, conhecendo-O ( Dt 9:24 ; Am 3:2 ; Mt 7:23 ; Jo 10:14 -15).

Ora, o sangue da aspersão foi conhecido ainda antes da fundação do mundo do mesmo modo que os eleitos são conhecidos d’Ele através da aspersão deste mesmo sangue ( 1Pe 2:20 ).

Isto não coaduna com a ideia arminianista de que Deus determinou quem seria salvo através da ‘presciência’. O que Pedro demonstra não é o atributo da onisciência, antes que Deus determinou tudo o que é relativo à salvação do homem: o cordeiro, a palavra e a fé.

 

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,4 Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, 5 Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo

Após o prefácio e a saudação, Pedro passou a bendizer a Deus pela sua misericórdia.

A estrutura inicial desta carta é similar a carta de Paulo aos Efésios e aos Salmos 103 e 104.

Pedro passa a bendizer, ou seja, a adorar a Deus reconhecendo os atributos de Deus (Salmos 104) e os benefícios concedidos aos homens (Salmos 103).

O fato de Pedro bendizer ou adorar a Deus nada acrescenta ao Criador, pois Deus não depende da adoração de suas criaturas para existir. Diferente são as imagens esculpidas, que são ícones idolatrados que surgem e são mantidos somente por serem venerados pelos homens, e que dependem desta veneração para continuarem sendo ídolos.

No entanto, os ídolos nada são ( 1Co 8:4 ), pois mesmo quando venerados, a adoração dos seus adeptos nada acrescenta ou omite as imagens de escultura. Somente são ídolos por causa de seus veneradores, mas afastando os seus adeptos, nada representam.

Como o homem adora a Deus?

Em primeiro lugar, só é possível adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, somente aqueles que creram em Cristo e foram de novo criados é que o adoram segundo o que Ele estipulou: em espírito e em verdade;

Após o novo nascimento, cabe ao cristão reconhecer a grandeza de Deus e todos os seus atributos, e cantar todos os benefícios concedidos.

Pedro bendiz a Deus pela sua misericórdia, do mesmo modo que Davi e Paulo bendisseram ( Ef 1:3 ; Sl 103:10 ).

Ele aponta a misericórdia de Deus como sendo a causa de uma nova esperança, ou seja, em primeira instância a fé e a esperança do crente estão em Deus ( 1Pe 1:21 ).

Pedro é bem claro ao falar da regeneração em Cristo: gerar de novo. Ora, nascer de novo é o mesmo que ser participante de uma nova geração. Em Adão os homens são gerados segundo a carne, em Cristo, o último Adão, os homens são gerados de novo. Esta é a geração dos justos e aquela é a geração dos ímpios.

Mas, como ocorre o novo nascimento?

O ‘gerar de novo’ é um ato criativo de Deus (bara), onde Ele concede um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Deus não reformula ou melhora o velho homem gerado em Adão, antes, Ele faz tudo novo.

Quando Pedro falou ‘nos gerou de novo’, ele se incluiu na narrativa para demonstrar que, tanto ele quanto os cristãos foram de novo gerados. Este não é um privilégio restrito, antes todos os que creem são novamente criados.

É através da ressurreição de Cristo que Deus concede nova vida aos que crêem. Pela ressurreição de Cristo, o primogênito dentre os mortos, os homens nascidos sob a condenação de Adão também ressurgem para a glória de Deus e passam a condição de filhos de Deus, e Cristo assume a posição sublime de primogênito entre muitos irmãos.

Assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos e ascendeu aos céus, os cristãos ressurgem com Cristo e assentam se nas regiões celestiais em Cristo. O mesmo poder que agiu em Cristo ressuscitando-O dentre os mortos é que opera a ressurreição dos que são alcançados pela misericórdia de Deus ( Ef 1:19 -20).

A viva esperança do crente é uma herança incorruptível e incontaminável, que não está guardada neste mundo, antes está guardada nos céus. A herança diz de bênçãos, do mesmo modo que Paulo agradece a Deus por todas as bênçãos concedidas por Deus ( 1Pe 3:9 ; Ef 1:3 ).

Ora, o que guarda o cristão para salvação é o poder de Deus, da qual o homem torna-se participante pela fé. Não é a confiança do homem que o salva ou que o sustem (guarda), antes é o poder de Deus que preserva o homem na salvação recebida.

Qual a virtude ou, qual o poder de Deus para salvação?

O poder de Deus para salvação é o evangelho de Cristo, como lemos em Romanos “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ; 1Co 1:18 ).

Basta descansar (crer) em Deus que os cristãos são escondidos (guardado) através do seu poder para salvação que será manifesta muito em breve a todos. Revelar, tornar conhecido a todos os homens o retorno de Cristo (V. 5).

O poder de Deus que preserva os que creem da contaminação deste mundo é o evangelho da graça.

 

6 Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, 7 Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo; 8 Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso; 9 Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

A alegria do cristão é proveniente das coisas pertinentes à salvação. Este deve ser o contentamento e a exultação do cristão, a salvação.

Há quem exulte por expulsar demônios ou quando opera algum milagre, porém, o alerta solene de Jesus é: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Lc 10:20 ).

Esta recomendação de Jesus e do apóstolo Pedro é para que os cristãos não caiam no engodo do diabo e sejam levados pelos falsos profetas que fazem inúmeros milagres ( Mt 7:22 ).

A alegria pela salvação também se faz acompanhar de aflições. As aflições e as tentações contristam os seguidores de Cristo, mas estas coisas não são para comparar com a glória futura “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” ( Mt 5:12 ).

No verso sete, Pedro aborda a questão da perseverança e compara a fé com o processo de purificação do ouro.

A fé comparada com o ouro é muito mais preciosa. O ouro que segundo a concepção dos homens é um material nobre e que resiste ao tempo, porém, mesmo após ter sido provado pelo fogo continua sendo perecível.

A fé dos cristãos, quanto mais provada, redundará em louvor, honra e glória quando da volta de Cristo. Quanto maior as provações, ficará demonstrado quão grande é o valor da nossa fé, a fé que uma vez foi entregue aos santos (Judas 3).

Pedro demonstra quão maravilhoso é o evangelho, visto que ele apresenta aos cristãos Cristo crucificado, mas, mesmo não tendo visto a Cristo em carne, ou ressurreto, foram conquistados pelo seu amor.

Embora os cristãos não vejam a Cristo agora, o amam crendo, e sentem as suas vidas inundadas por uma alegria inefável e gloriosa. A alegria de Deus é proveniente da paz estabelecida entre Deus e os homens.

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho, a fé que foi entregue aos cristãos. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

10 Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, 11 Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. 12 Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 13 Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo;

Pedro apresenta um fato curioso acerca dos profetas do Antigo Testamento. Eles inquiriram diligentemente acerca de Cristo, a salvação que seria manifesta aos homens.

Os profetas perguntavam sobre a salvação que haveria de ser relevada, e eram diligentes quando profetizavam acerca de Cristo. Eles queriam saber os tempos que Deus estabeleceu pelo seu poder.

O Espírito de Cristo concediam aos profetas mensagens acerca da vinda do Messias e dos seus sofrimentos, porém, a época em que estes eventos se dariam não lhes era revelado.

Ora, segundo a onisciência de Deus Pai os eventos futuros eram revelados aos profetas, mas o fato de Deus conceder de antemão a revelação de eventos futuros (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) não interfere nas decisões dos homens (v. 11). Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas  “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

É pela onisciência que Deus antecipou aos seus profetas os eventos futuros, porém, a salvação não é determinada com base na ideia equivocada de ‘presciência’ como ‘saber de antemão’, antes a salvação é na santificação através da obediência ao evangelho, que é a fé entregue aos santos ( Jd 1:3).

Os profetas tinham conhecimento que falavam de coisas grandiosas para outros, e que as suas mensagens não diziam respeito a eles. Pedro quer que os cristãos tenham na memória que os profetas não profetizam acerca de bens para eles mesmos, antes, que eles (profetas) conheciam plenamente que outros seriam favorecidos pela graça de Deus.

Os profetas testificavam acerca de Cristo, e os apóstolos agora, pelo Espírito Santo anunciavam o evangelho. Ou seja, a mensagem anunciada aos cristãos era a mesma anunciada pelos profetas e que lhes aguçava a curiosidade para saber a respeito da salvação que hoje é revelada.

Muitos entendem que os anjos desejaram pregar o evangelho aos homens, porém, Pedro estava demonstrando que a mesma curiosidade pertinente aos profetas, também era pertinente aos cristãos. Do mesmo modo que os profetas inquiriram diligentemente, os anjos também desejaram compreender (v. 12b).

As coisas que os anjos desejaram atentar não foi desejo de anunciar as boas novas do evangelho, antes desejaram compreender a multiforme sabedoria de Deus, que até antes do advento da igreja era um mistério aos principados e potestades celestiais ( Ef 3:10 ).

Ora, se os anjos desejaram compreender as grandezas do evangelho, e os profetas inquirira diligentemente acerca da salvação, coisa que não estava reservada a eles, chega-se a seguinte conclusão: “Portanto,…” ( 1Pe 1:13 ).

Se os anjos desejaram compreender e os profetas inquiriram acerca dos tempos, o que resta aos que estão sendo beneficiados pela salvação revelada é cingir os lombos do entendimento. A recomendação de Pedro é para que os cristãos tenham uma compreensão apurada acerca das riquezas de Deus apresentada no evangelho.

Quando os cristãos ajustam bem a sua compreensão acerca do evangelho, deixando de lado as dúvidas e especulações, ele passa a esperar inteiramente na graça oferecida. Sobre a compreensão dos cristãos o apóstolo Paulo orou a Deus pelos cristãos em Éfeso: “Oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

A compreensão acerca das verdades eternas deve ser a temática da vida cristã, pois o cristão só consegue crescer na graça e conhecimento de Cristo. Não há crescimento espiritual, pois o homem espiritual é perfeito diante de Deus. Muitos apregoam crescimento espiritual, mas os cristãos já são criados idôneos, ou seja, já pode participar da herança dos santos em Deus ( Cl 1:12 ).

O que é preciso àqueles que creram na mensagem do evangelho? Falta somente transformarem-se através da renovação do entendimento. O que era pertinente a velha natureza, o cristãos deve lançar fora, para viver segundo o conhecimento de Cristo ( Rm 12:2 ).

Do mesmo modo que Paulo agradece a Deus pelas bênçãos alcançadas do verso 3 ao 14 da carta aos Efésios, e ora a Deus para conceder aos cristãos o que lhes faltava (conhecimento) ( Ef 1:18 ), Pedro recomenda os cristãos a ajustar a compreensão acerca do conhecimento revelado.

Jesus alertou na parábola da semente que a compreensão é essencial a salvação, pois a ação nefasta do inimigo do homem é arrancar a semente dos corações que não compreendem “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no coração” ( Mt 13:19 ).

É por isso que o escritor aos Hebreus recomenda os cristãos atentarem diligentemente para as coisas que já ouviram, para que em tempo algum (bonança ou perseguição) se desviem ( Hb 2:1 ).

Pedro recomenda a sobriedade, pois ela é essencial à vigilância, principalmente àqueles que aguardam a revelação de Cristo Jesus, o Senhor ( 1Ts 5:6 ).

 

14 Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; 15 Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 16 Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. 17 E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, 18 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, 19 Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,

O comportamento dos cristãos deve ser conforme o comportamento de filhos obedientes. Quando obedeceram a fora de doutrina que foi entregue no evangelho, crendo, os cristãos receberam poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Agora, de posse desta nova condição: filhos do Deus vivo, também devem viver como filhos obedientes. Ora, não é o comportamento dos cristãos que os faz filhos de Deus, e nem o comportamento diário que os mantém na condição de filhos.

Antes, os cristãos são filhos porque obedeceram ao mandamento que diz: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do eu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 2:23 ). Crer é o mesmo que obedecer a Deus!

Porém, apesar de não ser o comportamento que faz o homem filho de Deus, antes o ser de novo gerado segundo o poder do evangelho, agora que se é filho, os cristãos não devem se conformar com as concupiscências que antes tinham na ignorância.

Os desejos são pertinentes ao homem. Desde o Éden a concupiscência acompanhava o homem ( Gn 3:6 ). Percebe-se que a concupiscência não é o pecado, porém, os desejos do novo homem não devem ser conforme os desejos dos homens que ainda vivem na ignorância.

Se o homem foi alcançado pelo conhecimento do evangelho, que o liberta das trevas da ignorância, deve agora pensar nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado a destra de Deus. Deve aguardar inteiramente na graça que a revelação de Cristo oferece (v. 13).

Os desejos são pertinentes a esta vida, e todos que se deixam levar pelas concupiscências da carne, dos olhos e pela soberba da vida é por que não são sóbrios (vigilantes). Pedro quer demonstrar que a concupiscência gera tentação “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência, depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Os cristãos devem pautar os seus desejos segundo o amor não fingido, pois os desejos segundo a concupiscência dos homens não é pertinente àqueles que foram iluminados pela luz do evangelho “Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus” ( 1Pe 4:2 ).

Mas, como é Santo Àquele que chamou os cristãos à sua misericórdia, os cristãos também deveriam ser santos em todo o procedimento.

Observe que o comportamento dos cristãos é uma recomendação do apóstolo, e não uma imposição de Deus. Deus é santo porque a ninguém oprime, ou seja, ele não obriga nenhuma de suas criaturas a servi-lo “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

Ele é santo e por isso chama, convida, oferece aos homens salvação. A santidade de Deus não impõe aos homens a sua vontade. Ele não predestina ninguém à salvação ou à perdição.

O cristão é santo porque foi criado de novo participante da natureza de Deus. Não é o comportamento do cristão que o mantém separado dos pecadores, pois há muitos pecadores que tem uma vida regrada, e não são santos (separado para uso exclusivo de Deus).

Mas, como Deus é santo e chamou o homem à santidade, é de bom alvitre que os cristãos mantenham-se separados também do comportamento dos ímpios pecadores ( 1Pe 1:15 ).

Ora, Pedro não faz esta recomendação por acaso, visto que está escrito: “Sede santos, porque eu sou santo” ( 1Pe 1:16 ). Ora, o versículo não recomenda aos homens que se santifiquem, pois isto é impossível aos homens. Antes o versículo expressa a vontade de Deus, pois é através da oferta do corpo de Cristo que o homem é santificado ( Hb 10:10 ).

Ora, quando Deus diz: ‘Sede santo’, temos a sua vontade (querer), e o seu efetuar através da sua palavra (Sede) “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” ( Fl 2:13 ). ‘Sede’ não é uma ordem, antes expressa a vontade de um Deus que trabalha para aqueles que nele esperam.

Este verso apresenta a mesma vontade de Deus a Abraão, ‘anda na minha presença e sê perfeito’ ( Gn 17:1 ). Ora, ser perfeito não é a condição para se andar na presença de Deus, mas ao andar na presença de Deus, o homem é perfeito, visto que ele justifica todos os que nele esperam como foi justificado Abraão pela fé.

Deus não exige perfeição do homem, antes é na sua vontade que o homem é aperfeiçoado “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ). O homem só é santo porque Deus o separou dos demais para ser santos ( Lv 20:26 ).

Pedro chama os seus interlocutores ao raciocínio. Se os cristãos invocam por Pai um Deus que não faz acepção de pessoas, ou seja, um Deus que julgará e retribuirá a cada um segundo as suas obras, deve entender que, se Deus punirá os ímpios pelas suas más ações, também será censurando pelo mal ou bem que houver feito ( 2Co 5:10 ).

Ora, os seus filhos precisam compreender que, o comportamento não é para salvação, visto que a salvação é em Cristo, porém, assim como os ímpios serão julgados segundo as suas obras, os justos também serão.

Quem cinge os lombos do entendimento compreendem que Deus não faz acepção de pessoas; que não foi com coisas corruptíveis que foram salvos; que o sangue de Cristo é precioso, o cordeiro de Deus sem mácula.

Pedro convoca os cristãos à sobriedade, para que não andassem segundo a vaidade dos pensamentos, entenebrecidos no entendimento ( Ef 4:17 -18), mas que servissem ao Senhor não fazendo uso do que é pertinente ao velho homem, que já foi crucificado e sepultado co Cristo ( Cl 3:8 -10).

 

20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; 21 E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;

Pedro compara o sangue de Cristo como sendo o de um cordeiro sem mancha ou mácula, ou seja, perfeito ( 1Pe 1:19 ).

Ora, Cristo foi ‘conhecido’ do Pai antes da fundação do mundo (na eternidade). Em ‘outro tempo’, ou seja, um tempo específico que não é conforme o tempo dos homens.

Mas, o que é ter sido ‘conhecido’ antes da fundação do mundo? Que tipo de ‘conhecer’ é este apontado pelo apóstolo Pedro?

É ‘conhecido’ de Deus aquele que o ama “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ). Jesus também falou acerca de ter sido conhecido do Pai, pois o Pai O amou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 ).

Compare:

a) “… porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 );
b) “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo…” ( 1Pe 1:20 ).

Antes de haver mundo, Cristo e o Pai estavam unidos em amor, que é o vínculo da perfeição, ou seja, Cristo é conhecido do Pai antes mesmo de ser introduzido no mundo como Filho amado.

Ser conhecido de Deus é estar em Deus e Deus em nós. O homem em Deus é surpreendente, porém, Deus nos homens é maravilhoso!

Ser ‘conhecido’ de Deus é uma forma específica de fazer referência a divindade de Cristo. É fazer dos homens e as pessoas da divindade um só “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), e “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade…” ( Jo 17:21 -23).

Ora, o mundo não conheceu a Cristo porque não amou a Deus, mas Cristo conheceu a Deus, pois sempre estiveram unidos em amor. O ‘conhecer’ de Deus é compartilhar da mesma natureza, e os anjos, apesar de maior em poder e glória, jamais serão conhecidos do mesmo modo que os que creem conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos dele ( Gl 4:8 -9).

Observe que Cristo foi conhecido de Deus e revelado aos homens. Os anjos não conheceram a Cristo como o Verbo encarnado na eternidade, mas viram o Unigênito de Deus que foi revelado aos homens “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ).

Os anjos ficaram maravilhados quando viram que Deus se manifestou aos homens em carne, o Verbo Eterno encarnado. Foi lhes revelado a multiforme sabedoria quando viram que todos que creem tornam-se semelhantes a Cristo, pois são novamente criados em verdadeira justiça e santidade segundo o poder contido no evangelho.

A palavra grega ‘proginosko’ (conhecer) usada em At 26:5 ; Rm 8:29 ; Rm 11:2 ; 1Pe 1:20 e 2Pe 3:17 não é idêntica à palavra grega ‘prognosis’, usada em At 2:23 e 1Pe 1:2 , mesmo sendo correlatas. ‘Presciência’ não é um dos aspectos da ‘onisciência’, atributo de Deus relacionado ao conhecimento que ele tem de todas as coisas em todos os tempos (eternidade e o tempo dos homens: passado, presente e futuro).

Ao unirem-se (conhecer) o homem e a mulher, tornam-se uma só carne, mas o mistério eterno revela-se na igreja, quando o cristãos torna-se membro do corpo de Cristo ( Ef 5:30 -32).

Cristo foi manifesto aos homens para que eles pudessem crer em Deus. Como? Ora, a mensagem do evangelho demonstra que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pelo poder de Deus, e que ele recebeu glória e poder, fato que dá garantias, àqueles que com medo da morte eram servos do pecado, de que basta confiar em Deus que será livre do medo e da servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

Cristo foi manifesto porque Deus amou o mundo de tal maneira (v. 20), e deu o seu Filho (que foi morto e ressurgiu), para que, por intermédio de Cristo, exemplo de fé (autor e consumador), os homens também passem a crer em Deus (v. 21).

Ora, a fé está em Deus, que zela pela sua palavra para cumpri-la, e a esperança do homem também, pois espera inteiramente na salvação que a revelação de Cristo oferece gratuitamente.

Ora, mediante a fé os cristãos estão guardados na virtude (fidelidade) de Deus. A palavra do evangelho é a fé que um dia foi dada aos santos (Judas 3), e por meio dela o cristãos é preservado, esperando inteiramente na graça oferecida.

Esperar em Deus é fé, porém, a palavra do evangelho também é designada fé. A fé que o homem deposita em Deus equivale a esperança, e a fé que foi entregue aos santos (evangelho) é o mesmo que ‘esperança proposta’ ( 1Pe 1:5 ; 13 e 21). Deste modo temos uma esperança proposta, que é designada evangelho ou fé, e quem tem esta esperança em Deus, exerce ‘fé’ (esperança) em Deus.

Os calvinistas e arminisnistas causam um grande prejuízo à compreensão da verdade do evangelho porque não conseguem distinguir que o evangelho é o mesmo que a esperança proposta. Que o evangelho é a fé que uma vez foi dada aos santos.

Caso conseguissem distinguir que o evangelho, a esperança proposta e a fé dada aos santos são coisas provenientes de Deus, veriam também que crer na mensagem do evangelho, ter fé em Deus é o mesmo que esperar inteiramente na esperança proposta.

 

22 Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; 23 Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. 24 Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; 25 Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.

Os versos 22 e 23 são equivalentes, ou seja, expressam dois eventos provenientes da mensagem do evangelho.

Somente Deus gera de novo e purifica o homem. Somente Deus podia realizar o pedido do salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Somente Deus (Espírito) pode espargir água limpa (palavra) sobre os homens, concedendo-lhes um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 -27). O novo Nascimento somente ocorre por intermédio da água (semente incorruptível) e do Espírito (Deus) ( Jo 3:5 ).

Pedro demonstra que efetivamente os cristãos foram purificados quando creram na mensagem do evangelho (v. 22). ‘Obedecer à verdade’ é o mesmo que ‘cumprir o mandamento de Deus’ que é: “… que creiamos no nome do seu Filho…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente quando se crê (obedece) na mensagem do evangelho o Espírito Eterno digna-se em realizar a sua obra “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Deus purifica o homem completamente (livra do jugo) e o fardo que agora deve carregar por estar em Cristo é amar uns aos outros, segundo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ).

Antes, por ser descendente de Adão, o coração do homem era ‘enganoso’ e ‘incorrigível’, agora, por estar em Cristo, foi concedido um novo coração puro, sendo possível amar uns aos outros ardentemente com um coração puro ( Jr 17:9 ; Sl 51:10 ; 1Pe 1:22 ).

Observe a semelhança entre o verso 22 e o verso 2:

“…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus …” (v. 1);
“Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade…” (v. 22).

Pedro apresenta a doutrina da regeneração ou do novo nascimento.

Por que os cristãos foram de novo gerados? Porque todos os homens são gerados em Adão, de uma semente corruptível ( Jo 1:13 ). Após crer na mensagem do evangelho, os homens que foram gerados em Adão, agora são de novo gerados pela palavra de Deus.

A palavra de Deus é viva e permanece para sempre, e todos que são de novo gerados passam a viver para sempre com Deus.

Para demonstrar que todos os homens nascidos em Adão são perecíveis, Pedro cita uma passagem de Isaias: “Diz uma vos: Clama. E eu disse: Que hei de clamar? Todos os homens são como a erva, e toda a sua beleza como as flores co campo. Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra do nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 -8).

Observe que a citação de Pedro não é “ips literis”. Ele somente evidência a ideia do texto de Isaias, demonstrando que todos os homens nascidos da carne (toda carne) são comparados a erva. Toda a glória que o homem possui é comparável a flor da erva.

Para demonstra quão fugaz é a existência dos homens, Pedro somente arremata: “Secou-se a erva, e caiu a sua flor”. Ele não se ateve ao processo de degradação pertinente a existência do homem que culmina com os eu retorno ao pó da terra.

Já a palavra de Deus é completamente diferente: ela permanece para sempre, e os que por ela são de novo gerados subsistem eternamente.

Sobre esta verdade Jesus disse: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Ora, a planta que o Pai não plantou são os homens nascido em Adão e todos serão arrancados. Porém, aqueles que nascem da palavra de Deus, são plantação do Senhor, árvores de justiça “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

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É possível santificar a si mesmo?

Num primeiro momento os cristãos haviam sido santificados através da vontade de Deus, por meio da oferta do corpo de Cristo ( Hb 10:10 ). Levando em conta este primeiro momento, o apóstolo Paulo, juntamente com Timóteo e Silvano, falam da vontade de Deus para aqueles que já alcançaram a Santificação. Ou seja, a vontade de Deus para os cristãos que já haviam alcançado uma nova condição através da oferta do corpo de Cristo (santos), é que se abstenham da prostituição.


“Esta é a vontade de Deus para a vossa santificação; que vos abstenhais da prostituição”
( 1Ts 4:3 ).

É possível ao homem santificar-se a si mesmo?

Este versículo é muito utilizado por aqueles que defendem a santificação progressiva. Dentre eles temos o Dr. Bancroft:

“A justificação difere da santificação no seguinte: aquela é um ato instantâneo e que não comporta progressão; esta, é uma crise que visa a um processo – um ato que é instantâneo, mas que ao mesmo tempo traz em si a ideia de desenvolvimento até a consumação” Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, 3º Ed. Editora EBR, pág. 262.

Por causa destas afirmações surgem muitas dúvidas: o homem consegue santifica-se? O homem consegue, segundo uma disposição interna, separar-se para Deus? Esta idéia é válida?

Como já visto anteriormente, é a vontade de Deus que santifica o homem: Nesta vontade é que temos sido santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas” ( Hb 10:10 ), mas o que dizer do versículo que diz: “Esta é a vontade de Deus para a vossa santificação; que vos abstenhais da prostituição” ( 1Ts 4:3 ).

Basta abster-se da prostituição que o homem alcançará a Santificação? É por meio da abstenção de certas condutas que o homem se santifica, ou é a vontade de Deus que executa esta obra?

Observando o contexto no qual foi inserido este versículo, verifica-se que Paulo, Timóteo e Silvano passam as considerações finais quando da escrita da carta aos Tessalonicenses “Finalmente, irmãos…” ( 1Ts 4:1 ).

Em seguida, eles passam a demonstrar uma verdade que não podemos nos furtar em observar: “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como recebestes de nós, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, assim andai, para que abundais cada vez mais” ( 1Ts 4:1 ).

Sobre a maneira que o homem deve ‘viver’ e ‘agradar a Deus’ tratar-se da nova vida em Cristo proveniente do evangelho da graça, e não de questões comportamentais. O que os cristãos haviam recebido do apóstolo quanto ao viver e agradar a Deus? O evangelho de Cristo, que é poder de Deus (semente incorruptível) para todo aquele que crê ( Jo 1:12 ; 1Pe 1:23 ).

O evangelho foi entregue, “…recebestes de nós…” para que pudessem viver e agradar a Deus. Só é possível agradar a Deus após receber vida por meio da semente incorruptível, quando o homem é feito filho de Deus

Como agradar a Deus, ou ser agradável a Deus? A resposta encontra na nova vida concedida aos que creem. Somente os nascidos do Espírito podem agradar a Deus “Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” ( Rm 8:8 ). Se os que estão na carne (os nascidos segundo a carne, filhos da ira, filhos da desobediência, descendentes de Adão) não podem agradar a Deus, somente os nascidos de semente incorruptível, que é a palavra de Deus, recebem poder para serem de novo criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Os cristãos já viviam em Espírito e agradavam a Deus, uma vez que já haviam crido em Cristo. Isto pode ser confirmado quando Paulo agradece a Deus pelos Tessalonicenses “… e da vossa firmeza de esperança em nosso Senhor Jesus Cristo…” ( 1Ts 1:3 ). Eles haviam assumido a condição de eleitos de Deus: “…reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição” ( 1Ts 1:4 ).

Em resumo, o verso 1 do capítulo 4 de Tessalonicenses apresenta o mesmo conceito presente na carta aos Gálatas e Efésios:

“Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz ( Ef 5:8 );
“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito ( Gl 5:25 );
“…quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, assim andai…” ( Ts 4:1 ).

A maneira que o homem deve viver e agradar a Deus decorre do evangelho, o mandamento emitido pelo Senhor Jesus, conforme lemos no verso 2, do capítulo 4, da carta aos tessalonicenses: “Pois vós bem sabeis que mandamento vos temos dado pelo Senhor Jesus” ( 1Ts 4:2 ). Qual o mandamento de Deus? “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente através deste mandamento torna-se possível ao homem viver segundo o Espírito e tornar-se agradável a Deus. É neste evento, quando o homem passa a viver em Cristo, ao receber a condição de filho da Luz, que o homem torna-se santo em Cristo.

O abster-se da prostituição não concede vida no Espírito, e nem torna os homens agradáveis a Deus. Abster-se da prostituição diz do andar no Espírito, que só é possível através da verdade do evangelho. Abster-se da prostituição refere-se ao andar do cristão na condição de filho da Luz.

Abster-se da prostituição não concede santificação, e nem mesmo concede a tal santificação progressiva, que não é contemplada pela doutrina bíblica.

Num primeiro momento os cristãos haviam sido santificados através da vontade de Deus, por meio da oferta do corpo de Cristo ( Hb 10:10 ). Levando em conta este primeiro, o apóstolo Paulo, juntamente com Timóteo e Silvano, falam da vontade de Deus para aqueles que já alcançaram a Santificação.

“Ou seja, a vontade de Deus para os cristãos que já haviam alcançado uma nova condição através da oferta do corpo de Cristo (santos), é que se abstenham da prostituição”

Abster-se da prostituição não proporciona Salvação e nem mesmo a Santificação, pois Salvação, Justificação e Santificação somente são possíveis em Cristo. Porém, após alcançar a nova condição em Cristo, a vontade de Deus para os Santificados é que se abstenham da prostituição. É o mesmo que dizer: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” ( Gl 5:25 ).

A santificação torna-se efetiva na nova vida que o homem adquire em Cristo através da fé (viver no Espírito), e agora, deve saber possuir o seu próprio corpo separado da concupiscência e corrupção que há no mundo (andar no Espírito) ( 1Ts 4:4 ).

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A Palavra que santifica

O ‘santificar a mim mesmo’ de Cristo está vinculado em Ele cumprir a vontade de Deus “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” ( Jo 15:10 ); “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ). Só Jesus pôde cumprir a vontade do Pai, ou seja, santificar-se a si mesmo, pois ele é nascido de Deus, o verdadeiro homem espiritual. Jesus como servo procurou cumprir a vontade de Deus com um único objetivo: que os cristãos fossem santificados na verdade! Ou, santificados através da palavra de Deus.


“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 )

 

A Palavra que Santifica

O versículo: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ) é esclarecedor sobre o tema Santificação.

É a mais ilustre oração de Jesus em favor de seus discípulos, e nela fica claro a extensão do amor e cuidado de Deus para com os homens que creem em seu Filho.

Jesus, num primeiro momento levanta os olhos aos céus e declara: “Pai é chegada a hora” ( Jo 17:1 ). Com estas palavras Cristo estava dando por encerrado o seu ministério como servo, na condição de Filho do homem para ser declarado Filho de Deus em poder, pela ressurreição dentre os mortos! ( Rm 1:4 ).

A glória de Deus é proveniente de suas obras, e não decorre da boca ou de atos humanos. Os homens entoam cânticos em reconhecimento do que Ele fez e faz, porém, a glória de Deus se manifesta naquilo que Ele mesmo realiza.

O cântico que se rende a Deus constitui somente reconhecimento as obras por Ele realizadas “Os céus manifestam a glória de Deus; o firmamento proclama a obra de suas mãos” ( Sl 19:1 ).

O salmo 19 é um exemplo claro desta verdade. Ele é um cântico onde o salmista reconhece a glória de Deus através do firmamento, porém, o verdadeiro louvor à glória de Deus decorre daquilo que Ele criou.

Não é o entoar cânticos (‘louvor’ dos lábios), que constitui, ou que dá forma à glória de Deus, antes são as suas obras que revelam a dimensão da Sua glória. Os céus, obras das mãos de Deus, é uma das manifestações de Sua glória, e louvamos (entoamos cânticos) a Ele por reconhecimento.

Neste diapasão é que se dá a declaração de Jesus: “Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois o Pai procura os tais que assim o adorem” ( Jo 4:23 ). Se alguém quer realmente adorar a Deus, é necessário aceitar a Cristo, para ser gerado de novo em espírito e em verdade. Esta nova criação é que se constitui em louvor à glória de Deus ( Ef 1:12 ).

Neste capítulo Jesus orou ao Pai da seguinte maneira: “Pai, é chegada a hora. Glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti” ( Jo 17:1 ). O primeiro ‘glorifica’ refere-se à posição que Cristo abdicou antes de vir ao mundo. Ele não poderia, por si mesmo, lançar mão da glória decorrente da posição anterior a sua vinda ao mundo, antes deveria aguardar pela ‘coroação’ do Pai ( Jo 17:5 ).

O segundo ‘glorifica’ refere-se à conclusão da obra magnífica de Cristo: a obra que o Pai O comissionou a cumprir. Concluída a obra de redenção da humanidade, e após ser restabelecido à sua posição inicial, o Pai é glorificado através do Filho por causa da obra que o Pai comissionou o Filho ( Jo 17:4 ). O versículo um é resumo do que se segue nos quatro versículos seguintes.

Jesus continua a oração em prol dos discípulos e nela descreve alguns aspectos de seu ministério:

a) manifestar o nome de Deus aos homens ( Jo 17:6 );
b) dar a conhecer aos homens que tudo que pertence ao Pai, também pertence ao Filho ( Jo 17:10 );
c) o nome que pertence a Deus também pertence a Cristo “…guarda-os em teu nome, o nome que me deste…” ( Jo 17:11 ); Ele demonstrou nesta oração que, embora sejam distintos quanto pessoas, o Pai e o Filho são um em essência ( Jo 17:11 -12);
d) em Cristo os cristãos são guardados “guarda-os em teu nome, o nome que me deste” ( Jo 17:11 ), para que os cristãos sejam perfeitos em unidade com o Pai e o Filho. O cristão é prefeito por causa do vínculo que tem com Cristo. A união com Cristo não está atrelada a essência da divindade em poder e glória (em Cristo o homem não se torna deus), e sim, torna-se participante da natureza de Cristo (semelhantes a Cristo);
e) é santificado por Deus: Cristo orou: “Santifica-os na verdade” ( Jo 17:17 ). O crente é santificado através da verdade, e não através de seus próprios esforços! A verdade é a palavra de Deus, e todos os que creem na palavra de Deus são santificado.

O único homem que pôde santificar-se a si mesmo foi Cristo “Por eles me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade” ( Jo 17:19 ).

O ‘santificar a mim mesmo’ de Cristo está vinculado em Ele cumprir a vontade de Deus “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” ( Jo 15:10 ); “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Só Jesus pôde cumprir a vontade do Pai, ou seja, santificar-se a si mesmo, pois ele é nascido de Deus, o verdadeiro homem espiritual. Jesus como servo procurou cumprir a vontade de Deus com um único objetivo: que os cristãos fossem santificados na verdade! Ou, santificados através da palavra de Deus.

Como ser santificados através da palavra de Deus? A resposta encontra-se na carta de Pedro: “Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade…” ( 1Pe 1:22 ), ou seja, a Santificação decorre da Regeneração, que advém da semente incorruptível, a palavra de Deus.

Somente o nascido da semente incorruptível é Santificado. A palavra de Deus é poder para fazer os que creem filhos Seus. São nascidos do Espírito, e, portanto, espirituais.

Através da Regeneração em Cristo, o homem é criado em verdadeira justiça e santidade, pois a sua palavra é poder e/ou semente incorruptível. A Palavra de Deus é a verdade, e por ela o homem é Santificado, pela fé em Cristo, o Verbo encarnado ( At 26:18 ).

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Como obter a Santificação?

Ser santo não implica em ser distinto. A santidade de Deus não é pertinente àquilo que difere, e sim, à Sua natureza. Como a santidade procede da natureza de Deus, jamais ela pode ser atribuída ou imputada, antes decorre da Regeneração (gerar de novo), onde o homem passa a ser participante da natureza divina ( 1Pe 1:3 ).

 


 

“E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 )

Como obter a Santificação?

O Dr. Russell Shedd, em seu livro Lei, Graça e Santificação deixou a seguinte nota:

“Deus quer filhos à Sua imagem, que imitem a Sua santidade” Shedd, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2º ed, 1998, ed. Edições Vida Nova, Pág. 55, o que nos leva à pergunta: a santidade dos filhos de Deus provem da capacidade deles em ‘imitar’ a santidade do Pai, ou por terem sido gerado d’Ele?

A Bíblia é muito clara ao demonstrar que a regeneração, a justificação e a santificação são provenientes de Deus por meio da fé em Cristo quando o homem recebe poder de ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 -13).

  • Através da fé em Cristo o homem é Santificado: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim( At 26:18 );
  • De igual forma, o homem é Justificado pela fé em Cristo: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada” ( Gl 2:16 );
  • A Regeneração é por meio da fé: “Necessário vos é nascer de novo (…) para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna” ( Jo 3:7 e 15).

Através dos versículos acima, verifica-se que a fé é o elemento comum e essencial à regeneração, à santificação e à justificação.

Por meio do evangelho, Deus oferece Salvação graciosa a todos os homens que estão perdidos, sendo que a Salvação é adquirida pela fé em Cristo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ).

O chamado de Salvação é para todos os homens, sem distinção alguma. Porém, somente quando o homem crê em Cristo, ou seja, descansa na promessa proposta, entra em ação o poder de Deus, que é concedido àqueles que creem para Salvação ( Jo 1:12 ).

A oferta de salvação é proposta ao homem na condição de pecador, porém, o homem não pode ser salvo enquanto pecador. É neste ponto que Deus realiza uma obra maravilhosa, segundo a sua vontade e poder: a Regeneração.

O homem que recebe a proposta de salvação e crê, tem que morrer, e verdadeiramente morre com Cristo, sendo sepultado com Ele. Isto porque Deus não salva a planta que não foi plantada por Ele, antes ela é arrancada ( Mt 15:13 ).

A semente incorruptível que foi plantada no coração do homem, somente germina quando este morre e é sepultado com Cristo “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” ( Jo 12:24 ). Neste sentido, Cristo não veio trazer conciliação com a velha natureza presente no homem, mas sim, trazer espada ( Mt 10:34 ).

Na Regeneração Deus cria um novo homem. Este é gerado de Deus “Segundo a sua vontade, Ele nos gerou de novo…” ( Tg 1:18 ; Ef 2:10 ). O homem passa a ser a planta plantada pelo Pai. Esta nova criatura, e somente esta, recebe a Salvação de Deus. A oferta de Salvação foi feita ao homem na condição de pecador, mas a Salvação se efetiva naqueles que são de novo criados, segundo Deus ( Jo 1:12 -13).

Na Regeneração o homem ressurge com Cristo uma nova criatura, e somente este homem pode receber o prêmio da salvação, por não permanecer no pecado. Pois para isso Cristo ressurgiu “E, se Cristo não foi ressuscitado, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” ( 1Co 15:17 ).

Da Regeneração decorre a Justificação e a Santificação. A Justificação refere-se à declaração de Deus à nova criatura, visto que ela foi criada segundo a natureza divina: justa. Deus declara justo o justo que ressurgiu com Cristo dentre os mortos. Isto, porque não haveria como o velho homem que recebeu a proposta de salvação ser declarado justo. Na justificação entende-se também que o homem está livre da condição anterior, quando vivia no pecado.

Já, a Santificação refere-se à nova natureza recebida na Regeneração. Quando o homem é sepultado com Cristo, ele se reveste das condições pertinentes a Cristo ( Gl 3:27 ). Deus não tem o culpado por inocente, mas por sermos vivificados com Cristo, alcançamos o perdão de todos os delitos ( Cl 2:13 ).

O cristão não vive mais à ‘sombra das coisas futuras’, a Santificação é uma realidade na sua vida, pois a realidade é Cristo ( Cl 2:17 ). Não depende de esforço da parte do homem, visto que, ao ser de novo gerado, temos nos tornados participante de Cristo ( Hb 3:14 ; 1Jo 4:17 ).

A Salvação em Cristo é adquirida por meio da fé, sendo que, aqueles que creem recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ). A filiação divina é adquirida por meio da fé na mensagem do evangelho (a semente incorruptível). Por meio da semente incorruptível o homem recebe poder para ser feito, criado, ou gerado de novo “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade…” ( Tg 1:18 ).

O Novo Nascimento é condição indispensável à salvação, conforme Jesus disse a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ). Somente pela fé é possível alcançar a Regeneração, pois apenas os gerados de novo podem herdar a salvação ( Jo 3:16 ). O pecador não poder ser salvo, somente o novo homem é salvo.

Não podemos esquecer que o velho homem originou-se da queda de Adão, e que a condição de culpável, condenável, inimigo de Deus e destituído da glória de Deus passou a todos os homens. Por natureza o homem nascido segundo a semente corruptível de Adão é filho da desobediência e da ira. Todos os homens que vêem ao mundo estão em igual condição diante de Deus ( Rm 5:18 ). A argumentação de Paulo de que todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus se fundamenta na natureza decaída que a semente de Adão produz ( Rm 3:23 ).

Após crer em Cristo, o homem recebe de Deus poder para ser feito (criado), filho de Deus. Este homem criado ou gerado segundo a vontade e poder de Deus é declarado justo. É o que denominamos justificação. A justificação divina não guarda semelhança com a justiça emanada dos tribunais humanos. Somente o novo homem gerado segundo a palavra da verdade pode ser declarado justo por Deus, visto que este novo homem é participante da natureza divina, por ter sido de novo criada em verdadeira justiça.

O homem que estava morto em delitos e pecados, após ouvir o convite e crer no evangelho (que é poder de Deus para que o homem seja criado segundo Deus), ressurge com Cristo dentre os mortos, nova criatura. Esta nova criatura é declarada justa por Deus. Para que fossemos declarados justos, Jesus ressuscitou, e, ao ressurgimos juntamente com Ele, somos declarados justo em decorrência da nova vida ( Rm 4:25 ).

Da mesma maneira que a Justificação, a Santificação vem por meio da filiação divina. O homem nascido segundo a vontade de Deus é participante da natureza divina ( 2Pe 1:4 ). Segundo o poder de Deus, o homem que crê, é criado novamente em verdadeira justiça e santidade.

Observe que a vontade eterna de Deus é que Cristo seja primogênito dentre os mortos e de toda a criação, para que em tudo tenha a preeminência ( Cl 1:15 e 18). Em Cristo, o homem é uma nova criatura ( 2Co 5:17 ), sendo gerado de novo e tido por Deus como filhos por adoção ( Rm 8:15 ). Por meio de Cristo é conduzido à glória de Deus muitos filhos ( Hb 2:10 ), onde a condição de preeminência de Cristo diante de toda criação se torna efetiva.

Quando os homens que creem são recebidos por filhos de Deus, irmãos de Cristo e herdeiros com Ele de todas as coisas, é conferido a Jesus a condição de primogênito de toda criação e dos mortos. Pois só é possível alguém reclamar o direito de primogenitura quando se tem irmãos. O unigênito que nos fez conhecer o Pai, agora, após conduzir muitos filhos a Deus, torna-se o primogênito de toda criação.

Desta forma, Deus quis e gerou pelo Espírito Eterno filhos para si. Filhos à sua imagem e semelhança, que receberam d’Ele a plenitude ( Cl 2:10 ). Estes não precisam imitar o Pai em sua santidade, antes são gerados de novo e detém a natureza do Pai: santos. Não há como imitar a santidade de Deus, visto que ela decorre da própria natureza divina. Deus é santo do mesmo modo que é justo, onipresente, reto, verdadeiro, etc.

Sobre este aspecto Jesus alertou: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ). Quais são as plantas que o Pai não Plantou? Aqueles nascidos da semente corruptível de Adão! Já os nascidos de semente incorruptível, que é a Palavra de Deus, são ‘plantas’ plantadas pelo Pai ( Jo 3:9 ; 1Pe 1:23 ).

A santidade daqueles que creem não pode ser uma mera imitação. Ela deve ser autentica, ou seja, em verdade. A santificação não fica a cargo do homem, e sim, de Deus.

É Deus que tem o poder de dar nova vida ao homem. Vida que procede d’Ele e que faz o homem ser participantes da sua natureza. Deus é luz, e aqueles que creem em seu Filho tornam-se filhos da luz “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ; 1Ts 5:5 ).

Da mesma forma que a justificação é de vida, a santificação também o é ( Rm 5:18 ).

O Dr. Shedd ao falar da santificação e justificação, argumentou que:

“Enquanto a justificação (grego dikaiosune) foi uma declaração de absolvição, da parte de Deus, que nos deu o status de santos, sem nenhuma condenação (Rm 8. 1) não entendemos a santificação da mesma maneira. Paulo chama a igreja de Corinto, aquela singularmente mundana e carnal, como composta dos que são ‘santificados em Cristo Jesus’ (I Co 1. 2). Obviamente os que recebem o Espírito de Deus, incorporados em Cristo, são posicionalmente santos. Por isso um dos títulos mais comuns atribuídos à Igreja no Novo Testamento é ‘santos’. Neste sentido os dois vocábulos, ‘justo’ e ‘santos’, são sinônimos” Shedd, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2º ed, 1998, ed. Edições Vida Nova, Pág. 56.

A Justificação não é uma declaração de absolvição. O termo justificação significa declarar justo. Justificação é uma declaração de que é justo aquele que verdadeiramente é justo. Deus não absolve o culpado, pois o culpado não pode ser tido por inocente ( Na 1:3 ).

Na justificação o homem não adquire ‘status’ de justo, antes adquire a justiça que é proveniente de Deus. Qual é a justiça proveniente de Deus? Uma nova vida “… justificação de vida” ( Rm 5:18 ), onde tudo se fez novo. Até o tempo é novo: tempo de paz, gozo e alegria no Espírito Santo de Deus. Deus declara justa a nova criatura que é criada através do seu poder regenerador. A velha criatura recebe o que preconiza a lei quando o homem é crucificado com Cristo: a alma que pecar, essa morrerá!

A Santificação e a Justificação não são posicionais e por isso, não são sinônimas. A Justificação refere-se à declaração que o Cristão recebe de Deus, e a Santificação à nova natureza do Cristão.

Estes equívocos na abordagem do Dr. Shedd ocorrem por ele entender que a pecaminosidade da humanidade reside na vontade própria, sendo que a bíblia demonstra que a pecaminosidade decorre da natureza herdada em Adão.

Ser santo não implica em ser distinto. A santidade de Deus não é pertinente àquilo que difere, e sim, à Sua natureza. Como a santidade procede da natureza de Deus, jamais ela pode ser atribuída ou imputada, antes decorre da Regeneração (gerar de novo), onde o homem passa a ser participante da natureza divina ( 1Pe 1:3 ).

Sobre este aspecto o apóstolo Pedro escreveu: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 1Pe 1:3 -4).

Deus chamou os que creem pela sua glória e virtude, ou seja, os cristãos foram chamados para louvor de sua glória e em amor, que é virtude de Deus ( Ef 1:4 -6). Para participar da natureza divina, os cristãos foram abençoados com a predestinação, ou seja, aqueles que creem em Cristo não possuem outro destino, se não, serem filhos de Deus.

Só é possível escapar da corrupção que há no mundo (natureza pecaminosa herdada em Adão), quando se torna participante da natureza divina (filiação). Tudo isto é dado aos cristãos através do poder de Deus, que concede vida, contrastando com a condição antes de se ter a Cristo: morte.

Esta nova vida deve ser desfrutada em piedade, ou seja, o cristão deve andar segundo as boas obras que Deus preparou ( Ef 2:10 ).

Como Deus desejou ter filhos para que o seu Filho obtivesse a preeminência em tudo, os cristãos são feitura Sua, criados em Cristo e à Sua imagem, em verdadeira Justiça e Santidade ( Ef 2:10 e Ef 4:24 ).

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A doutrina da santificação

Foi especificamente esta palavra grega, desprovida da ideia de moralidade e caráter, que os escritores do N. T. escolheram para falar da santificação em Cristo, da mesma forma que a palavra hebraica ‘qodesh’ significa separar no A. T. No entanto, observa-se que, muito tempo depois, a palavra que se traduz para ‘santificação’ passou a apresenta um novo sentido conforme a concepção dos religiosos. Este novo sentido da palavra passou a predominar gradualmente, passando a estar vinculada à moral e ao que é religioso.

 


“Que dizem: Fica onde estás, e não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu. Estes são fumaça no meu nariz, um fogo que arde todo o dia” ( Is 65:5 )

Introdução

Por ser um tema controverso, surgem inúmeras questões sobre o lado prático da Santificação, por exemplo: O que promove a santificação? A oração? O jejum? A leitura bíblica? A adoração? A obediência? Manter-se separado de outros pecadores? Depende de tempo?

Os teóricos procuram dar uma estrutura à doutrina da santificação: O que é ser santo? O que a palavra santo designa ou descreve? É por graça somente, sem qualquer vinculo com a lei?

Ciente da problemática em torno do tema Santificação e das dificuldades decorrentes das variadas correntes de interpretação bíblica, resta uma pergunta que motivou este trabalho: é possível ser mais santo do que outro irmão em Cristo?

Há quem diga que o crente precisa ‘entrar pra valer na corrida para a santificação’.

Como este tema é de extrema relevância para os cristãos, não poderíamos nos furtar em apresentar um trabalho que abordasse este tema, do qual, as várias correntes de interpretação acabaram por tornar controverso.

Nós cristãos precisamos compreender como ocorre a santificação, e por que somos designados santos, para que não incorramos nos mesmos erros do povo de Israel, e de muitos seguimentos religiosos da atualidade: legalismo, formalismo e tradicionalismo.

 

A Palavra ‘santo’ e ‘santificação’

Para o nosso estudo faz-se necessário que o leitor considere as palavras do Dr. Bancroft, extraída do seu livro Teologia Elementar:

“A raiz da qual se originam esta e outras palavras correlatas, é o vocábulo grego ‘hagios’. O pensamento mais próximo da santidade de que era capaz o grego secular era “o sublime, o consagrado, o venerável”. O elemento moral está totalmente ausente. Ao ser adotada esta palavra nas Escrituras, entretanto, foi necessário proporcionar-lhe novosentido. Empregando a palavra ‘santo’ em seu sentido mais elevado, quando aplicada a Deus, os melhores lexicógrafos definem-na como ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa'” BANCROFT, Emery. H., Teologia Elementar – 3º Edição 2001, Ed. EBR, Pg. 261. (grifo nosso).

A palavra grega ‘hagios’ possui variadas formas, porém, é traduzida para ‘santo’, ‘santificação’, ‘santificar’, ‘santidade’ e ‘santificado’. Esta palavra grega trazia a idéia do sublime, do consagrado e do venerável sem qualquer referência à moral ou ao caráter.

Foi especificamente esta palavra grega, desprovida da idéia de moralidade e caráter, que os escritores do N. T. escolheram para falar da santificação, da mesma forma que a palavra hebraica ‘qodesh’ significa separar no A. T.

No entanto, observa-se que, muito tempo depois, a palavra que se traduz para santificação passou a apresenta um novo sentido. Este novo sentido da palavra passou a predominar gradualmente, passando a estar vinculada à moral e ao que é religioso.

Observe o que Bancroft disse:

“Os melhores lexicógrafos definem-na como ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa”.

Neste sentido, Erickson também diz:

Esse sentido passou gradualmente a predominar. Ele designa não apenas o fato de os crentes serem formalmente separados, ou pertencerem a Cristo, mas que devem, portanto agir de acordo com isso. Eles devem viver em pureza e bondade” Introdução à Teologia Sistemática, por Millard J. Erickson, 1 ª ed. Vida Nova, Pg 418.

Era mesmo necessário proporcionar um novo sentido às palavras gregas e hebraicas que foram traduzidas pelas palavras ‘santidade’ e ‘santo’? Os apóstolos não tinham bem definido em suas mentes qual o sentido exato da palavra que utilizaram para escrever sobre a santificação?

O significado das palavras ‘hagios’ e ‘qodesh’ é separado para Deus, e em ambos os testamentos foram utilizada para designar pessoas e coisas. Quando tais palavras são utilizadas para coisas, não há qualquer referência à qualidade moral. Porém, quando se refere à pessoas, este deveria ser o mesmo tratamento, visto que, por mais que uma pessoa procure separa-se para ser santa, jamais alcançará tal intento, se Deus não o fizer.

Por que a palavra traduzida por santificação deixou de designar o fato dos crentes serem separados, ou pertencentes a Deus, para apontar um dever de se agir conforme um padrão de moral rotulado ‘santo’, ou que se deva agir de acordo com o certo e errado?

O trabalho de um lexicógrafo se resume em estudar as origens e evolução das palavras. O sentido que os dicionários empregam para cada palavra decorrem da sua origem, e conclui-se com a sua evolução ao longo do tempo, o que deve ser feito sem qualquer influência do estudioso em questão.

Resta nos a pergunta: quem foram os responsáveis por influenciar e fazer evoluir o sentido da palavra traduzida por santificação? Os religiosos ao longo dos anos. Sobre quais princípios as religiões se fundamentam? Não é sobre comportamento, moral, ética, caráter, e outros elementos humanos?

Quando os escritores bíblicos empregaram as palavras ‘hagios’ e ‘qodesh’ para falar sobre a santificação em Cristo, nem de longe fizeram qualquer referência a merecimento, exigência, moral e religiosidade, como hoje os lexicógrafos definem.

 

Como definir o significado de uma Palavra?

Se quisermos saber o significado de uma palavra, a melhor maneira de saber o seu significado é através de um bom dicionário. Neste aspecto, é de suma importância o trabalho de um lexicógrafo. Você terá em mãos o significado atual da palavra, e a sua evolução ao longo dos anos.

Mas, se você extraiu a palavra de um texto, a melhor maneira de se entender aquela palavra em específico, é estudando o contexto no qual ela esta inserida.

Um dicionário poderá auxiliar, mas o sentido exato da palavra é determinado pelo contexto geral do texto.

Esta regra de interpretação de uma palavra não é diferente quando se trata de textos bíblicos.

Em se tratando de uma palavra bíblica, o que é mais apropriado para a interpretação do texto: o sentido atual da palavra, ou o sentido original?

Claro está que o mais importante para a leitura de um texto bíblico é o sentido original da palavra, e não o seu sentido atual. Se queremos abstrair um entendimento acerca de uma única palavra de um texto, o melhor a se fazer é estudar o contexto, fixando a análise no sentido original da palavra.

Para o nosso estudo, estaremos utilizando o sentido secular das palavras gregas e hebraicas ‘hagios’ e ‘qodesh’, que significam respectivamente ‘o sublime, o venerável, o consagrado’ e ‘separar’.

Sem antes analisar os textos em que as palavras são empregadas, não as empregaremos no sentido que gradualmente passou a predominar.

 

Como obter a Santificação?

O Dr. Russell Shedd, em seu livro Lei, Graça e Santificação deixou a seguinte nota:

“Deus quer filhos à Sua imagem, que imitem a Sua santidade” Shedd, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2º ed, 1998, ed. Edições Vida Nova, Pág. 55.

Daí surge a seguinte pergunta: a santidade dos filhos de Deus provem da capacidade deles em ‘imitar’ a santidade do Pai, ou por serem gerados d’Ele?

A Bíblia é muito clara ao demonstrar que a regeneração, a justificação e a santificação são provenientes de Deus por meio da fé em Cristo. É condição adquirida por terem sido gerados de novo segundo Deus, e não segundo a semente corruptível de Adão.

Através da fé em Cristo o homem é Santificado: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

De igual forma, o homem é Justificado pela fé em Cristo: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada” ( Gl 2:16 ).

A Regeneração é por meio da fé: “Necessário vos e nascer de novo (…) para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna” ( Jo 3:7 e 15).

Através dos versículos acima, verifica-se que a fé é o elemento comum e essencial à regeneração, à santificação e à justificação.

Por meio do evangelho, Deus oferece Salvação graciosa a todos os homens que encontram-se perdidos, sendo que a Salvação é adquirida pela fé em Cristo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ).

O chamado de Salvação é para todos os homens, sem distinção alguma. Porém, somente quando o homem crê em Cristo, ou seja, descansa na promessa proposta, entra em ação o poder de Deus, que é concedido àqueles que creem para Salvação ( Jo 1:12 ).

A oferta de salvação é proposta ao homem na condição de pecador, porém, o homem não pode ser salvo enquanto pecador. É neste ponto que Deus realiza uma obra maravilhosa, segundo a sua vontade e poder: a Regeneração. O homem que recebe a proposta de salvação e crê, tem que morrer, e verdadeiramente morre com Cristo, sendo sepultado com Ele. Isto porque Deus não salva a planta que não foi plantada por Ele, antes ela é arrancada ( Mt 15:13 ).

A semente incorruptível que foi plantada no coração do homem, somente germina quando este morre e é sepultado com Cristo “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (João 12: 24). Neste sentido, Cristo não veio trazer conciliação com a velha natureza presente no homem, mas sim, trazer espada Mt 10: 34.

Na Regeneração Deus cria um novo homem. Este é gerado de Deus “Segundo a sua vontade, Ele nos gerou de novo…” ( Tg 1:18 ; Ef 2:10 ). O homem passa a ser a planta plantada pelo Pai. Esta nova criatura, e somente esta, recebe a Salvação de Deus. A oferta de Salvação foi feita ao homem na condição de pecador, mas a Salvação se efetiva naqueles que são de novo criados, segundo Deus ( Jo 1:12 -13).

Na Regeneração o homem ressurge com Cristo uma nova criatura, e somente este homem pode receber o prêmio da salvação, por não permanecer no pecado. Pois para isso Cristo ressurgiu “E, se Cristo não foi ressuscitado, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” ( 1Co 15:17 ).

Da Regeneração decorre a Justificação e a Santificação. A Justificação refere-se a declaração de Deus à nova criatura, visto que ela foi criada segundo a natureza divina: justa. Deus declara justo o justo que ressurgiu com Cristo dentre os mortos. Isto, porque não haveria como o velho homem que recebeu a proposta de salvação ser declarado justo. Na justificação entende-se também que o homem está livre da condição anterior, quando vivia no pecado.

Já, a Santificação refere-se à nova natureza recebida na Regeneração. Quando o homem é sepultado com Cristo, ele se reveste das condições pertinentes a Cristo ( Gl 3:27 ). Deus não tem o culpado por inocente, mas por sermos vivificados com Cristo, alcançamos o perdão de todos os delitos ( Cl 2:13 ).

O cristão não vive mais à ‘sombra das coisas futuras’, a Santificação é uma realidade na sua vida, pois a realidade é Cristo ( Cl 2:17 ). Não depende de esforço da parte do homem, visto que, ao ser de novo gerado, temos nos tornados participantes de Cristo ( Hb 3:14 ).

A Salvação em Cristo é adquirida por meio da fé, sendo que, aqueles que creem recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ). A filiação divina é adquirida por meio da fé na mensagem do evangelho (a semente incorruptível). Por meio da semente incorruptível o homem recebe poder para ser feito, criado, ou gerado de novo “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade…” ( Tg 1:18 ).

O Novo Nascimento é condição indispensável à salvação, conforme Jesus disse a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ). Somente pela fé é possível alcançar a Regeneração, pois apenas os gerados de novo podem herdar a salvação ( Jo 3:16 ). O pecador não poder ser salvo, somente o homem redimido e remido é salvo.

Não podemos esquecer que o velho homem originou-se da queda de Adão, e que a condição de culpável, condenável, inimigo de Deus e destituído da glória de Deus passou a todos os homens. Por natureza o homem nascido segundo a semente corruptível de Adão é filho da desobediência e da ira. Todos os homens que vêem ao mundo estão em igual condição diante de Deus Rm 5: 18. A argumentação de Paulo de que todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus se fundamenta na natureza decaída que a semente de Adão produz ( Rm 3:23 ).

Após crer em Cristo, o homem recebe de Deus poder para ser feito (criado), filho de Deus. Este homem criado ou gerado segundo a vontade e poder de Deus é declarado justo. É o que denominamos justificação. A justificação divina não guarda semelhança com a justiça emanada dos tribunais humanos. Somente o novo homem gerado segundo a palavra da verdade pode ser declarado justo por Deus, visto que este novo homem é participante da natureza divina, por ter sido de novo criada em verdadeira justiça.

O homem que estava morto em delitos e pecados, após ouvir o convite e crer no evangelho (que é poder de Deus para que o homem seja criado segundo Deus), ressurge com Cristo dentre os mortos, nova criatura. Esta nova criatura é declarada justa por Deus. Para que fossemos declarados justos, Jesus ressuscitou, e, ao ressurgimos juntamente com Ele, somos declarados justo em decorrência da nova vida ( Rm 4:25 ).

Da mesma maneira que a Justificação, a Santificação vem por meio da filiação divina. O homem nascido segundo a vontade de Deus é participante da natureza divina ( 2Pe 1:4 ). Segundo o poder de Deus, o homem que crê, é criado novamente em verdadeira justiça e santidade.

Observe que a vontade eterna de Deus é que Cristo seja primogênito dentre os mortos e primogênito de toda a criação, para que em tudo tenha a preeminência ( Cl 1:15 e 18). Em Cristo, o homem é uma nova criatura ( 2Co 5:17 ), sendo gerado de novo e tido por Deus como filhos por adoção ( Rm 8:15 ). Por meio de Cristo é conduzido à glória de Deus muitos filhos ( Hb 2:10 ), onde a condição de preeminência de Cristo diante de toda criação se torna efetiva.

Quando os homens que creem são recebidos por filhos de Deus, irmãos de Cristo e herdeiros com Ele de todas as coisas, é conferido a Jesus a condição de primogênito de toda criação e dos mortos. Pois só é possível alguém reclamar o direito de primogenitura quando se tem irmãos. O unigênito que nos fez conhecer o Pai, agora, após conduzir muitos filhos a Deus, torna-se o primogênito de toda criação.

Desta forma, Deus quis e gerou pelo Espírito Eterno filhos para si. Filhos à sua imagem e semelhança, que receberam d’Ele a plenitude ( Cl 2:10 ). Estes não precisam imitar o Pai em sua santidade, antes são gerados de novo e detém a natureza do Pai: santos. Não há como imitar a santidade de Deus, visto que ela decorre da própria natureza divina.

Sobre este aspecto Jesus alertou: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ). Quais são as plantas que o Pai não Plantou? Aqueles nascidos da semente corruptível de Adão! Já os nascidos de semente incorruptível, que é a Palavra de Deus, este são ‘plantas’ plantadas pelo Pai ( Jo 3:9 ; 1Pe 1:23 ).

A santidade daqueles que creem não pode ser uma mera imitação. Ela deve ser autentica, ou seja, em verdade. A santificação não fica a cargo do homem, e sim, de Deus.

É Deus que tem o poder de dar nova vida ao homem. Vida que procede d’Ele e que faz o homem ser participantes da sua natureza. Deus é luz, e aqueles que creem em seu Filho tornam-se filhos da luz “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ; 1Ts 5:5 ).

Da mesma forma que a justificação é de vida, a santificação também o é ( Rm 5:18 ).

O Dr. Shedd ao falar da santificação e justificação, argumentou que:

“Enquanto a justificação (grego dikaiosune) foi uma declaração de absolvição, da parte de Deus, que nos deu o status de santos, sem nenhuma condenação (Rm 8. 1) não entendemos a santificação da mesma maneira. Paulo chama a igreja de Corinto, aquela singularmente mundana e carnal, como composta dos que são ‘santificados em Cristo Jesus’ (I Co 1. 2). Obviamente os que recebem o Espírito de Deus, incorporados em Cristo, são posicionalmente santos. Por isso um dos títulos mais comuns atribuídos à Igreja no Novo Testamento é ‘santos’. Neste sentido os dois vocábulos, ‘justo’ e ‘santos’, são sinônimos” Shedd, Russell P., Lei, Graça e Santificação, 2º ed, 1998, ed. Edições Vida Nova, Pág. 56.

A Justificação não é uma declaração de absolvição. O termo justificação significa declarar justo, ou seja, justificação é uma declaração de justo a quem verdadeiramente é justo. Deus não absolve o culpado, pois o culpado não pode ser tido por inocente ( Na 1:3 ).

Na justificação o homem não adquire ‘status’ de justo, antes adquire a justiça que é proveniente de Deus. Qual é a justiça proveniente de Deus? Uma nova vida “…justificação de vida” ( Rm 5:18 ), onde tudo se fez novo. Até o tempo é novo: tempo de paz, gozo e alegria no Espírito Santo de Deus. Deus declara justo a nova criatura que é criada através do seu poder regenerador. A velha criatura recebe o que preconiza a lei quando o homem é crucificado com Cristo: a alma que pecar, essa morrerá!

A Santificação e a Justificação não é posicional e por isso, não são sinônimas. A Justificação refere-se à declaração que o Cristão recebe de Deus, e a Santificação à nova natureza do Cristão.

Estes equívocos na abordagem do Dr. Shedd ocorrem por ele entender que a pecaminosidade da humanidade reside na vontade própria, sendo que a bíblia demonstra que a pecaminosidade decorre da natureza herdada em Adão.

Ser santo não implica em ser distinto. A santidade de Deus não é pertinente àquilo que é difere, e sim, à Sua natureza. Como a santidade procede da natureza de Deus, jamais ela pode ser atribuída ou imputada, antes decorre da Regeneração (gerar de novo), onde o homem passa a ser participante da natureza divina ( 1Pe 1:3 ).

Sobre este aspecto o apóstolo Pedro escreveu: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 1Pe 1:3 -4).

Deus chamou os que crêem pela sua glória e virtude, ou seja, os cristãos foram chamados para louvor de sua glória e em amor, a virtude de Deus ( Ef 1:4 -6). Para ser participante da natureza divina, os cristãos foram abençoados com a predestinação, ou seja, aqueles que crêem em Cristo não possuem outro destino, se não, serem filhos de Deus.

Só é possível escapar da corrupção que há no mundo (natureza pecaminosa herdada em Adão), quando se torna participante da natureza divina (filiação). Tudo isto é dado aos cristãos através do poder de Deus, que concede vida, o que contrasta com a condição antes de se ter a Cristo: morte. Esta nova vida deve ser desfrutada em piedade, ou seja, o cristão deve andar segundo as boas obras que Deus preparou ( Ef 2:10 ).

Como Deus desejou ter filhos para que o seu Filho obtivesse a preeminência em tudo, os cristãos são feitura Sua, criados em Cristo e à Sua imagem, em verdadeira Justiça e Santidade ( Ef 2:10 e Ef 4:24 ).

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