O Livro de Jó – A artimanha do acusador

Ao tirar os bens, a família e a saúde de Jó, a estratégia de Satanás era fazer com que Jó, em defesa da sua integridade, substituísse a genuína justificação de Deus, que se alcança pela confiança na palavra de Deus, por uma justiça humana, baseada na moral e no comportamento ilibado do patriarca.


A artimanha do acusador

Parte V

Jó havia alcançado de Deus a condição de justo, pela confiança que depositava em Deus, não pela sua integridade moral.

Através do exarado nas Escrituras, sabemos que Deus só justifica o homem quando este confia na sua palavra. Por isso, é dito que Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça (Gn 15:6).

A justificação de Jó se deu, assim, como a justificação de Abraão, pois, este cria em Deus, que prometeu que o patriarca de Ur dos Caldeus seria pai de muitas nações e, aquele, por crer que o Seu Redentor vivia.

Por causa da confiança que Jó nutria em Deus, Satanás nada podia contra Jó, mesmo quando tirou todos os seus bens. Observe a maneira como o escritor do Livro de Jó narra o seu comportamento, quando ele perdeu tudo:

“Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma!”

Quando Jó perdeu a sua saúde, o autor também deixou consignado:

“Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios!”

Satanás sabia que Jó não pecaria com os seus lábios, mesmo com a perda repentina dos seus bens, filhos e saúde, pois este era o testemunho do próprio Criador.

Os eventos que sucederam, repentinamente, na vida de Jó, foram fomentados por Satanás, com a única finalidade de reunir os amigos de Jó para uma visita, quando, efetivamente, iniciaria o principal ataque do adversário.

Todo o sofrimento imposto sobre Jó tinha, por objetivo, estabelecer um equivoco, quanto à verdadeira condição de Jó, diante de Deus.  Com base no julgamento que os amigos de Jó fariam, sobre a condição dele diante de Deus, atacariam, deliberadamente, a integridade que, por sua vez, se defenderia a si mesmo.

A integridade, a retidão, a honra e a reputação eram o maior patrimônio de Jó, tanto que ele compara a sua justiça com um manto e um diadema (Jo 29:14). Atingir os bens, a família e a saúde de Jó, só foi um meio de Satanás alcançar um fim: atacar o que era mais caro a Jó!

Sem se aperceberem, os amigos de Jó estavam a serviço de Satanás, lançando setas e armando laços, que levariam Jó a justificar-se a si mesmo. A finalidade de Satanás era fazer com que Jó lançasse mão de uma justiça própria, agarrando-se à sua integridade, em detrimento da justiça de Deus.

Ao tirar os bens, a família e a saúde de Jó, a estratégia de Satanás era fazer com que Jó, em defesa da sua integridade, substituísse a genuína justificação de Deus, que se alcança pela confiança na palavra de Deus, por uma justiça humana, baseada na moral e no comportamento ilibado do patriarca.

Acima da integridade e da retidão de Jó, está a justiça de Deus, que o homem só alcança, por meio da palavra de Deus. A confiança de Jó, expressa nas seguintes palavras: – “Porque eu sei que o meu Redentor vive e que, por fim, se levantará sobre a terra” (Jó 19:25), que nos remete à pessoa de Cristo – o autor e consumador da fé – demonstra que, assim como o crente Abraão (Gl 3:6), a sua crença é que era imputada por justiça, não a sua integridade e retidão.

Assim como Deus revelou a Abraão que, no Seu Descendente, seriam benditas todas as famílias da terra (Gl 3:16), Deus havia revelado a Jó que o Seu Redentor haveria de andar na terra dos viventes e, por ele, confessar: – “…eu sei …”, foi declarado justo por Deus, ou seja, justificado (Jo 1:1 e 2:3).

Satanás não atribuiu, diante de Deus, nenhum erro a Jó! E por que não o fez? Porque Satanás não podia fazê-lo, pois Deus mesmo declarou Jó justo. Sendo, pois, justificado por Deus, nenhuma condenação pesava contra Jó (Rm 8:1). Assim como os crentes em Cristo estão livres de toda condenação, por andarem segundo o espírito (evangelho), também, não pesava nenhuma condenação sobre Jó, por ele andar segundo a premissa de que o seu Redentor vivia.

Satanás alegou que a devoção de Jó era em função dos bens e da família que possuía, logo, ele não tinha opção, a não ser reverenciar a Deus. Satanás não acusa Jó e nem ataca o Criador, antes, faz alegações de que havia certa ‘cumplicidade’ entre Deus e Jó.

Esse argumento de Satanás, visava reunir os elementos necessários para um ataque ardiloso e não somente retirar os bens e a saúde de Jó. Satanás sabia que a vida de um homem não consiste na abundancia de bens e que o homem vive da palavra que sai da boca de Deus: “E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lc 12:15); “…para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

As ciladas de Satanás são engendradas, a partir da ignorância do homem, acerca das coisas de Deus. Um dos elementos essenciais ao ataque de Satanás estava na repentina retirada dos bens, família e saúde de Jó, criando uma falsa aparência acerca da condição de Jó diante de Deus: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24; Jo 8:15).

Satanás atuou em cima da ignorância dos amigos de Jó, que acreditavam que a justiça de Deus era retributiva, tendo por base a moral e o comportamento humano e, por isso, julgaram, falaram e acusaram, segundo os padrões humanos, não segundo a reta justiça.

“Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam mal, segam o mesmo” (Jó 4:7-8).

Satanás não deixou de atuar e nem desapareceu, logo após tirar os bens, a família e a saúde de Jó, como se satisfizesse em infligir sofrimento atroz a Jó. Restava algo de maior importância para Satanás roubar: a salvação:

“Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3:11).

Além de armar a cilada, Satanás animou a discussão dos quatro amigos, ao, em sonho, fazer algumas perguntas despretensiosas acerca da justiça de Deus, que Elifaz contou logo no início da discussão (Jó 4:15-17). Em certo ponto da discussão, Jó desconfia da irritabilidade dos seus amigos ao acusá-lo (Jó 16:3).

Trazer os amigos foi uma tática, pois Satanás esperava que Jó se defendesse das acusações e das provocações de seus amigos. Durante o debate, Jó percebe que havia algo de errado na animosidade de seus amigos, no entanto, só no último discurso ele questionou:

“E de quem é o espírito que saiu de ti?” (Jó 26.4)

Satanás só deixou de atuar quando viu que Jó está prestes a lançar mão do pecado de rejeitar a justiça de Deus, agarrando-se à sua integridade. Quando faz o seu discurso, evidenciando o seu ‘eu’: Eu livrava os pobres, eu fazia rejubilar o coração das viúvas, eu era o olho do cego, etc., Jó esteve próximo da ruina (Jó 29:12-17). Quando propôs que Deus o pesasse em uma balança fiel, e assim, aferisse a sua integridade, quase os pés do patriarca se resvalaram (Jó 31:6).

Como nem a morte, nem os anjos ou, alguma outra criatura, podem separar o homem do amor de Deus (Rm 8:38 -39), a cilada de Satanás consiste em fazer com que o homem rejeite a justiça de Deus. Como? Naqueles que tem moral elevado, Satanás busca meios de evidenciá-lo, em detrimento da justiça de Deus. Já os de comportamento reprovável, Satanás fomenta o sentimento de que não são merecedores da misericórdia divina.

Evidenciar no coração do homem uma justiça própria, através de um sentimento de que é merecedor de boas dádivas, é uma das artimanhas que Satanás se utiliza para fazer com que o homem se afaste de Deus. Estabelecer no coração do homem um sentimento de comiseração pelas falhas, é outra estratégia de Satanás para fazer com que o homem rejeite o perdão de Deus.

Satanás nada tem, portanto, nada pode oferecer ao homem, entretanto, ele utiliza a tática de fazer o homem lançar mão, antecipadamente, do que lhe foi reservado. Foi dessa maneira com Eva. Deus havia reservado o conhecimento do bem e do mal para o homem, para quando alcançasse a semelhança do Altíssimo, mas Satanás enganou Eva que, antecipou-se e comeu do fruto. Eva, juntamente com Adão, alcançou o conhecimento do bem e do mal, mas perdeu, junto com o seu marido, a comunhão com o Criador.

Satanás usou essa mesma tática com Jesus, a quem Deus prometeu as nações por herança e os fins da terra por possessão (Sl 2:8), quando prometeu dar os reinos do mundo, se prostrado o adorasse (Mt 4:8). Os reinos do mundo pertencem ao Pai e ao seu Filho, portanto, Satanás ofereceu o que não tinha:

“E o reino, o domínio e a majestade dos reinos, debaixo de todo o céu, serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão” (Dn 7:27).

Outra artimanha de Satanás engendrada, em função da falta de conhecimento do homem, está em fomentar a busca por algo que já possui. Ao crer em Cristo, o crente é circuncidado com a circuncisão de Cristo, que consiste em lançar fora toda a carne,  não somente o prepúcio do corpo (Cl 2:11). Satanás, por sua vez, oferece a circuncisão do prepúcio da carne, como meio de se alcançar a salvação (At 15:1).

Em nossos dias, uma das artimanhas de Satanás consiste em negar a eficácia do evangelho, através de um evangelho de aparências, firmado em preceitos de homens:

“Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” (2 Tm 3:5; Cl 2:22-23).

O homem de sã consciência não rejeita a justiça de Deus, simplesmente, dizendo ‘não’. Na verdade, Satanás utiliza-se de homens que não estão ligados à cabeça, que é Cristo (Cl 2:19), engana os incautos com palavras persuasivas, segundo os rudimentos do mundo e as suas vãs filosofias.

As acusações ferrenhas dos amigos de Jó evidenciaram, no coração, a sua integridade, o que levou Jó a se comparar aos demais homens, a ponto de achar que era merecedor de uma sorte melhor, em função da sua integridade (Jó 30:26).

Se Jó continuasse só e na cinza, sem a visita de seus amigos, não teria a sua própria justiça evidenciada. Vieram os seus amigos, julgando segundo a aparência, o que despertou em Jó a necessidade de provar a sua integridade.

“À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprovará o meu coração, em toda a minha vida” (Jó 27:6).

Se tivesse desprezado a afronta de ser taxado de pecador, Jó não se agarraria à sua integridade e nem acusaria a Deus, de ter negado justiça a ele (Jó 27:1). Cristo, sendo justo, deu-nos exemplo, ao desprezar a afronta:

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

 

Não podemos ignorar os ardis de Satanás

Além de conhecer a pessoa de Jó, por observá-lo, constantemente, Satanás conhece os atributos de Deus. O conhecimento que detém, decorrente da sua constante observação, é a fonte do poder que dá força à atuação de Satanás.

Satanás desejava separar Jó da comunhão com Deus, por isso, escolheu um ponto vulnerável, a fim de desferir o seu ataque. Sabedor de que Jó prezava mais a sua integridade do que a sua própria vida e bens, e que tanto Jó quanto os seus amigos não conheciam plenamente, como se dá a justificação, Satanás estava de posse dos ingredientes necessários para fomentar a queda de Jó.

No ataque, Satanás, geralmente, se utiliza daquilo que o homem mais preza nesta vida, para fazer o homem demover da sua esperança e de Deus e, por conseguinte, abrir mão da salvação.

  • Era de conhecimento de Satanás que Jó amava a Deus e que a sua integridade ocupava uma posição de destaque em seu coração;
  • Ele, também, sabia que o conhecimento que Jó detinha, a respeito da justiça de Deus, era distorcido;
  • Satanás sabia da religiosidade dos amigos de Jó, que eram propensos a julgar pela aparência.

Através do conhecimento que possuía, simplesmente, por observar continuamente a Jó, Satanás reuniu os elementos necessários para montar uma estratégia, a fim de tentar derrubar a Jó. A brecha para a ação de Satanás estava na falta de conhecimento dos quatro amigos, acerca das coisas de Deus!

Todos os elementos que Satanás utilizou contra Jó, também foram utilizados contra Adão e Eva.

Eva detinha plena liberdade, por ter pleno acesso à árvore do conhecimento do bem e do mal. A liberdade plena foi dada pelo Espírito de Deus, que disse: “De toda árvore do jardim poderás comer livremente…” (Gn 2:16).

O livre arbítrio é um dom irrevogável que Deus deu aos homens, pela liberdade de decidir-se por obedecer a Deus ou, não.

Através de uma pergunta, aparentemente, inocente, Satanás apresentou-se a Eva, evidenciando, astutamente, uma dura restrição: “É assim que Deus disse: ‘Não comereis de toda a árvore do Jardim?’” (Gn 3:1).

Deus falou ao homem, dando-lhe plena liberdade, e Satanás, através de uma pergunta,  evidencia uma proibição total. O aparente desconhecimento de Satanás, acerca do que Deus disse, deu confiança à mulher, de modo que ela passou a ensiná-lo.

Satanás introduz a troca, a negar o que Deus disse. O homem tinha plena liberdade e Satanás evidenciou a possibilidade ser como Deus, conhecendo o bem e o mal. A comunhão com Deus é a essência da liberdade e o homem abriu mão da liberdade, para ter conhecimento do bem e do mal.

Após comer o fruto, o homem adquiriu conhecimento do bem e do mal, tornando-se como Deus, mas perdeu a comunhão, por conseguinte, a liberdade. Satanás enganou o homem, tirando a vida decorrente da comunhão com o Criador, substituindo pelo conhecimento, que nada agrega, se não tiver comunhão com Deus.

O homem deixou de confiar no aviso de Deus: “… porque no dia em que comeres do fruto, certamente morrerás”. Rejeitar a palavra de Deus é o maior erro que o homem pode incorrer. Deixar de crer em seu Senhor, para acreditar em seus próprios sentimentos e percepções.

A mulher viu que a árvore era boa para comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento e deixou de confiar em Deus, para confiar em seus sentidos, sentimentos e desejos.

Na história de Jó são demonstrados todos os elementos das artimanhas satânicas, que é fazer o homem substituir o que é concedido por Deus, por algo que o homem tem em alta conta.

O apóstolo Paulo alerta, ao argumentar que, para os cristãos não serem vencidos, que não podiam ignorar os seus ardis. Quem ignora, desconhece ou não compreende a ação de Satanás, estará fadado à derrota.

A intenção de Satanás, era fazer Jó atribuir a Deus uma falta (Jó 1:22), tanto que uma das notícias das calamidades chegou a Jó como sendo fogo de Deus, que havia atingido os seus servos e gados.

Não seria injustiça da parte de Deus deixar uma pessoa correta sofrer? Satanás sabia que Jó não se deixaria levar por um argumento tão simplório, mas ele também sabia que o ataque dos amigos de Jó poderia minar a sua confiança em Deus, pois, para defender-se, teria que lançar mão de uma justiça própria:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” (Rm 12:19).

Satanás procurou minar a confiança que Jó nutria em Deus, através das considerações implacáveis dos seus amigos.

“As tuas palavras firmaram os que tropeçavam e os joelhos desfalecentes tens fortalecido. Mas agora, que se trata de ti, te enfadas; e tocando-te a ti, te perturbas” (Jó 4:4-5)

Satanás arquitetou uma armadilha para fazer Jó se sentir desamparado por Deus, e assim, em sua defesa, recorreria à sua integridade, negligenciando a justiça de Deus.

Após compreender do que trata o Livro de Jó, analisaremos, detalhadamente, as queixas de Jó e as recriminações dos seus amigos.

 

Continua….

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O Livro de Jó – A cilada de Satanás

Fazer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.


 

Considerações sobre o sofrimento de Jó

Parte III

As riquezas, a família e a saúde foram arrancadas abruptamente de Jó sem um motivo aparente. E o que relata a Bíblia? Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

O sofrimento afetou o equilíbrio emocional de Jó, mas não tirou a sua confiança em Deus.

A compreensão que Jó tinha a respeito da existência do homem neste mundo e das dádivas que Deus concede pelo fruto do trabalho, era firme. Para Jó, tudo pertence a Deus e, se alguém tem alguma coisa, é porque recebeu de Deus.

“O Senhor o deu e o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1. 21).

Jó se posiciona como servo diante do senhorio de Deus, quando diz que o Senhor deu e o Senhor tomou, e o louva por tudo.

O sofrimento e a perda de bens materiais não afetou a confiança de Jó em Deus, porém, o mal que sobreveio sobre ele, afetou sobremaneira os seus amigos. Quando avistaram a condição de Jó, lamentaram e choraram, em alta voz, e permaneceram sete dias, sem dizer uma palavra sequer, sentados em cinzas e com os mantos rasgados (Jó 2:12). Era evidente a má sorte de Jó, entretanto, os consoladores não conseguiram segurar a emoção que a tristeza provocou.

Satanás vive observando, diuturnamente, os homens e identificou o bem mais precioso na vida de Jó. O sofrimento foi somente uma distração, enquanto o ponto principal seria atacado com todas as forças pelo adversário.

O sofrimento impressionou muito mais os amigos de Jó, do que o próprio Jó. Por quê? Porque o sofrimento de Jó foi um quadro meticulosamente arranjado por Satanás, para a contemplação e a estupefação dos amigos de Jó. Eles avistaram Jó, de longe, e não o reconheceram. Eles viram que a dor de Jó era muito grande e isso os tocou, profundamente.

O quadro aflitivo de Jó foi delineado para estabelecer uma cilada, que tragou primeiro os amigos de Jó pela estupefação e, posteriormente, se voltaram contra Jó para justificar a Deus. O sofrimento foi uma cilada que enlaçou, sentimentalmente, os amigos de Jó e, assim, guiados pelos sentimentos e emoções, foram conduzidos a fazer julgamentos segundo padrões humanos.

Satanás já aguardava um julgamento precipitado dos três amigos, ao exibir um justo sofrendo. Diante daquele quadro aflitivo, os amigos de Jó só tinham duas opções viáveis a considerar:

a) Deus é justo e Jó está em pecado;

b) Jó não está em pecado e Deus não estava sendo justo.

Ora, sem mais delongas, os amigos de Jó se posicionaram em defesa de Deus e emitiram um juízo, segundo o que era aparente. Eles julgaram, precipitadamente, a condição de Jó e foram unânimes ao concluir que Jó estava em pecado.

A conclusão equivocada dos amigos de Jó era o elemento que Satanás precisava para iniciar um ataque à integridade de Jó. Após Jó manifestar a intensidade da sua dor, o primeiro amigo dele deixa de considerar a aflição de Jó e passa a fazer considerações acerca da justiça de Deus.

É admirável como a grande maioria dos leitores do Livro de Jó se identifica com os sofrimentos desse homem, mesmo não tendo passado por nada parecido. Muitos questionam: – Como um homem pode suportar tanto sofrimento e continuar integro diante de seu Deus?

É próprio dos homens se identificarem com os problemas alheios, principalmente diante de alguém que mantém um comportamento altruísta. O sentimento de empatia leva os homens a analisarem e se compararem com o outro, imaginando qual seria o seu comportamento, frente aos mesmos sofrimentos.

O sofrimento toca profundamente os homens e causa uma espécie de fixação. O homem se detém, geralmente, no que pode ver, ouvir e sentir pela empatia e deixa de considerar a questão segundo a revelação das Escrituras.

O sofrimento de Cristo na cruz comove multidões, entretanto, as pessoas, na sua grande maioria, não conseguem visualizar o amor de Deus e a justiça que Deus proporcionou para a humanidade.

O elemento mais importante para a humanidade na cruz é a obediência de Cristo e o sofrimento, a maior provação para o Cristo, que teve que desprezar a afronta, pelo prémio que lhe estava proposto.

A visão humana só alcança o que é temporal, passageiro e efêmero, e o sofrimento é uma das principais impressões que fixa, privilegiadamente, uma ideia na mente do homem. Uma má leitura do livro de Jó deixa a impressão de que o livro trata do sofrimento de um homem que, em última análise, não era merecedor.

Entretanto, no Livro de Jó Deus revela algo grandioso, que diz respeito às coisas eternas, às quais o pensamento do homem não poderia alcançar, se Deus não o revelasse, pela sua palavra. O sofrimento de Jó serve a um propósito infinitamente superior!

Por mais que o homem seja diligente em suas realizações, Deus nada deve ao homem. A única exigência de Deus para com o homem é que confie, ou seja, descanse n’Ele.

A exigência de Deus para se alcançar a sua justiça está bem ilustrada em Abraão, que creu em Deus e isso foi lhe imputado por justiça.

Vale destacar, aqui, algumas considerações acerca do sofrimento, em vista do que contém o livro ‘Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito’[1], do Pr. Claudionor de Andrade, que cita outros autores.

  1. O sofrimento que Satanás impingiu sobre Jó não pode ser considerado uma forma de Deus se ‘justificar’ frente às acuações de Satanás. Deus não se justifica com ninguém, pois todas as suas obras são, juntamente, justas e boas. Deus permitiu o sofrimento na vida de Jó para deixar uma lição valiosa para a humanidade, que é muito superior ao sofrimento de um homem. Jó estava à disposição de Deus na condição de servo.
  2. O sofrimento na vida de Jó é detalhe, portanto, jamais o leitor do Livro de Jó pode se deixar levar pelo pensamento de que o sofrimento serve para purificar o homem. É uma ideia equivocada entender que a mente humana finita, frente ao propósito de Deus, torna impossível saber o motivo de um justo sofrer. O sofrimento não transforma e nem aperfeiçoa ninguém. Não há poder transformador ou regenerador no sofrimento, como alguns alegam. A redenção e purificação do homem estão no evangelho de Cristo, que é poder para salvação do que crê.
  3. A grandeza do evangelho é infinitamente vasta, se comparado este com o sofrimento de um justo. Ora, se o homem está apto a compreender o evangelho, não estaria apto a entender o sofrimento de um justo? O sofrimento é plenamente compreensível!
  4. Há quem diga que Deus confiou em Jó e que, por isso, submeteu Jó a uma prova. Sabemos que Deus requer dos homens, que confiem em sua palavra, que é fiel e justa, jamais o contrário. Porém, como alguém onisciente pode confiar num homem, se é sabedor de todas as coisas?
  5. Deus não usou o sofrimento de Jó para derrotar Satanás, antes para deixar uma lição para a humanidade. O sofrimento que sobreveio sobre Jó não é resultado de um duelo entre Deus e Satanás. O Criador jamais se opõe às suas criaturas, mesmo contra Satanás. Em Cristo, a vitória da Igreja já estava estabelecida, pois Ele é o cordeiro de Deus morto, desde a fundação do mundo, antes da fundação do mundo.

 

A história de Jó e outros textos do Oriente Antigo

Para alguns estudiosos, o tema do Livro de Jó não é genuinamente israelita, mas uma reprodução de uma ideia comum a todo o Oriente.[2] [3] Esses eruditos partem da premissa de que outros textos antigos trabalharam, a seu modo, o problema do sofrimento humano, vez que Jó poderia ser um não israelita oriundo de Us.

Ora, Abrão não era israelita quando foi chamado por Deus, pois era um caldeu da cidade de Ur e tal fato não pode ser tomado como evidência de que as instruções que o gentio Abrão recebeu de Deus tem raízes ou paralelo com qualquer pensamento produzido na caldeia.

Atribuir ao Livro de Jó semelhanças, até mesmo com as tragédias gregas,[4] por entenderem que o tema do Livro de Jó é o sofrimento humano, só evidencia a gana dos estudiosos em estabelecer um paralelo entre o personagem bíblico Jó e alguns personagens das tragédias gregas, como exemplo: Prometeu, Ésquilo e Édipo rei, de Sófocles.

Considerando que as tragédias gregas não possuem finalidade didática e que, apesar de poder causar a ‘catarse’[5] das emoções dos espectadores, este não era o seu objetivo; portanto, já temos um contra ponto à tentativa de se estabelecer semelhanças entre a história de Jó e as tragédias gregas.

A história de Jó possui viés didático, ou seja, introduz questionamentos acerca da justiça de Deus, para apresentar ao leitor um conhecimento impar, que somente Deus pode revelar, pois, o conhecimento que há no Livro de Jó, não tem paralelo com qualquer elucubração da mente humana.

Analisando a história de Jó, apesar do caráter irretocável do personagem, a mensagem do livro não é de cunho moralizante ou prescritivo de comportamento, como se observa na arte renascentista, pela má leitura que fizeram das tragédias gregas, malogro que se repete nas ‘tragédias’ shakespearianas[6].

Enquanto os artistas literários[7] da Grécia produziam as suas obras trágicas centradas na imitação, ou mímēsis[8], séria, completa e de certa magnitude, tendo a forma da composição artística a ação e não a narração, de modo a evocar emoções, como a piedade e o terror dos espectadores, os artistas Renascentistas, com destaque para os trabalhos de Shakespeare, tinham o viés de apresentar o protagonista da estória, confrontado com sua própria culpa.

Colocar Jó e Édipo, lado a lado, é um despautério, pois, apesar de, nas tragédias gregas, os heróis serem homens de elevada reputação ou, posição social, Jó é descrito como inigualável, pelo testemunho dado por Deus:

“Porque ninguém há na terra semelhante a ele” (Jó 1:8).

Enquanto o personagem e a história de Édipo são fruto da imaginação do homem, Jó é um personagem histórico que habitou na terra de Uz. Este é um personagem histórico, aquele um personagem literário fictício que idealiza homens da vida real.

A prosa no Livro de Jó, que introduz o diálogo entre Jó e seus amigos, redigido em forma de poesia, não depõe contra a literalidade da história – embora há quem lance mão dessa peculiaridade, para dizer que sim – antes reveste de importância a história de Jó.

Os discursos em forma de poema são uma ferramenta de proteção e preservação das ideias que são apresentadas pois, as poesias hebraicas, através dos seus paralelismos, estabelecem travas lógicas que favorecem a preservação do texto.

O Livro de Jó tem, como pano de fundo, o sofrimento, assim como muitas outras estórias oriundas do imaginário humano. As estórias trazem no seu bojo o sofrimento, pelas emoções que evocam aos espectadores.

Já, o sofrimento de Jó, foi utilizado para fins didáticos e não para impingir o terror ou a piedade pois, tudo que as Escrituras contêm, para o nosso ensino foi escrito:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Romanos 15:4).

Estabelecer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.

No entanto, diferente de Édipo, a história de Jó não foi engendrada, tendo as Moiras como pano de fundo, e nem evoca os meandros do fatalismo. O Deus do Livro de Jó não se sujeita ao Destino, um dos deuses da mitologia grega que sobrepuja todos os outros deuses e perante o qual os outros se curvam. Diferentemente, dos deuses da mitologia Grega, o Deus de Jó não se compraz em fazer a humanidade sofrer.

Édipo, ao descobrir a trama que estava envolto, rende-se[9] diante da sua impotência e miserabilidade traçada pelo Destino[10]. Diferentemente, ao contemplar a grandeza de Deus e ser instruído, Jó se arrepende de ter tecido comentário desairoso sem o conhecimento necessário (Jó 42:3-4).

Deus, no Livro de Jó, é o mesmo Deus que se revela por todas as Escrituras, e nada tem a ver com os deuses da mitologia grega e o fatalismo, concepção tão cara àquela sociedade.

O Livro de Jó deve ser visto a partir da seguinte premissa:

“Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam. Ninguém, sendo tentado, diga: de Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas, cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1:12-14).

 

Continua…


[1] “William W. Orr resume, assim, o assunto central de Jó: “Satanás acusou Deus de não ser correto na sua maneira de tratar o homem. Para justificar-se, Deus permitiu que Satanás afligisse esse abastado homem do Oriente”. Gleason L. Archer, Jr. faz uma interessante análise do tema de Jó: “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Esta resposta chega de forma tríplice; I) Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do Onipotente. Mesmo assim, Deus realmente sabe o que é o melhor para sua própria glória e para nosso bem final. Esta resposta é dada em contraste aos conceitos limitados dos três consoladores de Jó: Elifaz, Bildade e Zofar”. Escreve Henry Hampton Hailey: “Ao lermos o livro de Jó, do começo ao fim, devemos nos lembrar de que Jó nunca soube por que sofria —nem qual seria o desfecho. Os dois primeiros capítulos de Jó nos explicam por que isso aconteceu e deixam claro que a causa de seus sofrimentos não era algum castigo por pecados, mas, sim, a provação de sua fé —Deus tinha plena confiança dê que Jó seria aprovado”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito, Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª edição, 2003, pág. 14. (Grifo nosso).

[2] “De uma série de textos paralelos do antigo Oriente se depreende que o livro de Jó não trata de um tema genuinamente israelita, mas comum ao Oriente. Há, hoje documentos, textos do 3º milênio ao séc. V a. C. que abordam o ‘problema de Jó’, de formas diferentes e com ênfases temáticas distintas (…) De maneira similar ao procedimento dos trágicos gregos ou dos poetas modernos (p. ex., Goethe, Fausto), o autor da forma mais antiga da narrativa de Jó deve ter recolhido uma lenda popular para trabalhar seu tema”. Zenger, Erich e outros, Introdução ao Antigo Testamento, Edições Loyola, São Paulo, 2003, págs. 296 e 297.

[3] “O presente artigo analisa o Livro de Jó, enquanto expressão do conjunto maior da tradição sapiencial do antigo oriente próximo. Pretendemos demonstrar a sua intimidade com fontes literárias egípcias e mesopotâmicas”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, n. 10, Maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html >.

[4] “Se alguma novidade existe neste meu trabalho, é a tentativa de esboçar, na presente introdução, um pouco mais extensivamente, certa semelhança que existe entre o Livro de Jó e a Tragédia Grega, sublinhado, de modo especial, um impressionante paralelismo entre Jó e o Prometeu de Ésquilo, fazendo também algumas referências ao Édipo Rei de Sófocles (…) Não se trata de uma obra histórica: Jó é o nome fictício do personagem central de uma parábola, este gênero literário oriental tão ao gosto de Jesus, que o empregou no episódio do Filho Pródigo e em outras narrativas suas”. Lima, Héber S., Jó… quando o espinho floresce, Edições Loyola: São Paulo, 1995, pág. 10.

[5] “É fundamentalmente não-grego, atribuir qualquer impulso específico, didático ou terapêutico à criação artística, em geral ou, a algum artista em particular. A Poética pode falar da catarse de emoções, mas este é o (possível) efeito da tragédia e não seu propósito intrínseco” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 12.

[6] “Os conceitos de Aristóteles de anagnorisis (‘reconhecimento’) e peripeteia (‘reversão’) foram tão mal compreendidos na época do Renascimento, quanto sua concepção de hamartia – de fato, numa sequência partindo e se desenvolvendo da má compreensão anterior”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo: Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[7] “A tragédia é a imitação de uma ação importante e completa, de certa extensão; deve ser composta num estilo tornado agradável pelo emprego separado de cada uma de suas formas; na tragédia, a ação é apresentada, não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores. Suscitando a compaixão e o terror, a tragédia tem por efeito obter a purgação dessas emoções” Aristóteles, A arte Poética, capítulo VI.

[8] “A mimesis, o processo principal das artes, era uma questão menos de doutrinação moral que de imitação (seletiva) da realidade (…) As ‘lições’ de literatura, na época de Aristóteles, não menos do que hoje, são oblíquas em vez de diretas e não prescritivas; não há mais obrigação de alguém tentar, na vida diária, viver à altura das excelências ou, evitar os excessos ali descritos, do que há a emular as qualidades ‘ideais’ representadas por (digamos) escultores como Fídias ou Canova. Esta é a luz sob a qual todas as afirmações de Aristóteles, na Poética, devem ser tomadas. A tragédia não é dogmática; a saúde moral da audiência não é sua preocupação primeira”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 13.

[9] “A anagnorisis, na tragédia antiga, assume duas formas. A primeira é uma simples admissão de que os personagens na peça reconhecem a verdade quando ela lhes é mostrada, revelando uma compreensão do padrão universal que eles nunca tiveram antes. As peças são salpicadas com expressões como ‘Finalmente, compreendo’ ou ‘Eu que estava cego, agora vejo’ ou ‘Ouvimos e obedecemos’ …” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[10] “Édipo, em Édipo, Rei de Sófocles, frequentemente tomando como o arquétipo de um herói, cuja hamartia moral deriva da hybris (‘ele deliberadamente zomba do Destino’) é, na verdade, inocente: ele é cego para quem ele é, e a harmonia pode ser restaurada, apenas quando ele finalmente compreende”, McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 30.

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O Livro de Jó – Um homem sincero, reto, temente e que se desviava do mal

O caráter e o comportamento de Jó eram superiores ao dos seus semelhantes, mas não foi este quesito que o fez aceitável diante de Deus. Com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6), de modo que, mesmo na aflição, Jó mantinha a sua esperança firme: que o seu Redentor vivia e que haveria de estar sobre a terra!


Quem conduz a trama no Livro de Jó?

Parte IV

Para compreendermos o Livro de Jó é imprescindível responder, com segurança, à pergunta: É Deus ou, Satanás, quem conduz a trama do Livro de Jó?

Várias releituras da história de Jó têm início, descrevendo-o como um próspero fazendeiro, possuidor de diversos rebanhos, de variados animais, com muitos escravos e uma grande família. Em seguida, em algumas dessas releituras, o termo ‘repentinamente’[1] surge focando Satanás, um inimigo que, sem ser convidado, comparece diante de Deus acusando Jó de ser submisso a Deus, somente por estar cercado de bens.

Não foi obra do acaso[2] ou, em decorrência de uma intromissão do acusador, que Jó passou à condição de protagonista da história, cujo livro leva o seu nome.

Quem estabelece Jó como protagonista é o próprio Criador que introduz Jó no drama, ao notificar o acusador de que não havia ninguém sobre a terra que fosse semelhante a ele, quanto à sinceridade, à retidão e ao temor a Deus.

Como personagem da história, Deus está presente, muito antes, da narrativa do escritor. Deus se faz presente na narrativa, muito antes dos filhos de Deus se apresentarem perante Ele (Jó 1:8).

O leitor deve visualizar que Deus permeia o enredo da história de Jó, antes mesmo da fundação do mundo (Jó 38:4) ou, até mesmo, antes da criação dos anjos (Jó 38:7), sendo certo que todas as coisas estão nuas e patentes aos Seus olhos (Hebreus 4:13).

Deus é o primeiro personagem em cena, quando questiona uma de suas criaturas: – “De onde vens?” Diante d’Aquele que todas as coisas estão nuas e patentes, Satanás respondeu: – “De rodear a terra e passear por ela”.

De tudo o que Satanás observou ao rodear e passear pela terra, Deus destaca um homem ímpar: Jó.  Deus convocou o seu servo Jó para evidenciar a sua Justiça, quando perguntou: – “Viste o meu servo Jó?”. Quando Deus introduziu o nome de Jó na conversa, o Seu servo foi escolhido para evidenciar uma verdade que não se compara com o seu sofrimento.

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”. (Romanos 8:18)

A resposta evasiva dada pelo inimigo à pergunta ‘De onde vens’, complementada pela pergunta: ‘Observaste a meu servo Jó?’, revela o quanto Satanás estava à espreita de Jó. Deus, que tudo sabe, demonstrou, através da segunda pergunta, que Satanás estava observando os passos de Jó.

Quando Deus faz uma pergunta às suas criaturas, não é porque desconhece algo, antes a pergunta tem por objetivo evidenciar as intenções do coração. Satanás estava ao derredor de Jó, mas a pergunta de Deus deixa claro que nada escapa aos seus olhos e que estava velando pelo seu servo: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8).

Os eventos na narrativa do Livro de Jó são conduzidos com maestria por Deus e, em momento algum, Satanás tem o controle. O propósito de Deus em conduzir todos os eventos que afetaram a vida e trouxe sofrimento ao patriarca Jó, teve o condão de deixar uma lição para que a humanidade compreendesse a Sua justiça.

Um homem sincero e reto

Quem era Jó, o personagem principal dessa história maravilhosa?

Geralmente, os estudiosos definem Jó com duas palavras: rico e justo e enfatizam o fato de ele ter perdido tudo, repentinamente. A preocupação maior de muitos eruditos se fixa em estabelecer a localização da cidade de Uz, onde Jó viveu e, em seguida, mensurar sua riqueza.[3]

Mas, se considerarmos a exortação de Cristo, de que a vida do homem não consiste na abundância de bens que ele possui (Lucas 12:15), percebe-se que a sinceridade, retidão, integridade e temor a Deus era a verdadeira riqueza de Jó.

Deus deu testemunho de Jó:

  1. Sincero e reto: os termos hebraicos רשיו םת traduzidos por ‘sincero’ e ‘reto’ identificam Jó como ‘perfeitamente correto’, ou seja, reto, honesto, direito;
  2. Temente: o termo hebraico ארֵיָ , transliterado ‘yare’, significa reverente, respeitoso, obediente;
  3. Desvia-se do mal: o termo hebraico רסוּ, transliterado ‘sur’ é o mesmo que afastar e, nesse caso especifico, do mal.

Deus deu testemunho do caráter de Jó, o que envolve a condição moral, comportamento correto para com os seus semelhantes, ou seja, reto e sincero.

O quesito ‘temente’, refere-se à submissão de Jó a Deus, na qualidade de servo e no que implica ser temente a Deus? Implica na imputação da justiça divina sobre Jó, ou seja, Jó era justo diante de Deus!

Jó era um homem perfeitamente correto nas relações com os seus semelhantes e justo diante de Deus. A condição ‘justo’, pertinente a Jó, depreende-se de outras passagens bíblicas. Por exemplo, os Salmos:

“O SENHOR se agrada dos que o temem e

dos que esperam na sua misericórdia”.  (Salmos 147:11)

O homem que teme ao Senhor lhe é agradável, ou seja, é aceito por Deus. Através do paralelismo ‘sintético’, no qual o verso do Salmo em comento foi construído, verifica-se que ‘temer’ ao Senhor é o mesmo que aguardar pela Sua misericórdia.

“Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem,

sobre os que esperam na sua misericórdia”. (Salmos 33:18)

‘Temer’ a Deus é o mesmo que ‘esperar’ n’Ele. ‘Temor’ a Deus não é sentimento, é ensinamento, doutrina que demanda obediência. É equivoco entender que ‘temer’ a Deus é decorrente de ‘medo santo’ e ‘respeitoso’. Entender o termo ‘temor’, tradução do termo hebraico yará, como medo é má leitura de uma composição literária repleta de figuras, paralelismos e metáforas.

“Vinde, filhos, e escutai-me;

eu vos ensinarei o temor do Senhor”. (Salmos 34:11)

“Companheiro sou de todos os que te temem e

dos que guardam os teus preceitos”. (Salmos 119:63);

“BEM-AVENTURADO aquele que teme ao SENHOR e

anda nos seus caminhos” (Salmos 128:1).

Deus deve ser temido (obedecido) porque, com Ele, está o perdão, não porque devemos ficar aterrorizados com a Sua majestade e infinito poder:

“Mas, contigo está o perdão, para que sejas temido” (Salmos 130:4);

“Por isso, o SENHOR esperará, para ter misericórdia de vós; e por isso se levantará, para se compadecer de vós, porque o SENHOR é um Deus de equidade; bem-aventurados todos os que nele esperam” (Isaías 30:18);

“Seja a tua misericórdia, SENHOR, sobre nós, como em ti esperamos” (Salmos 33:22).

Através dessa análise, podemos afirmar, categoricamente, que Jó era justo diante de Deus, mas não pelo seu correto e perfeito comportamento para com os seus semelhantes, mas, porque esperava em Deus.

Jó era justo porque confiava em Deus, assim como Abraão confiava, não porque o seu comportamento era irrepreensível. Foi através de ‘esperar’ em Deus, o mesmo que ‘temer’, que a justiça de Deus foi atribuída a Jó (Romanos 4:2-3), não por causa de suas ações ‘irrepreensíveis’.

Sabemos que Deus ‘justifica’, tanto o que trabalha, quanto o que não trabalha ou, que Deus justifica tanto a judeus, quanto a gregos, pois, a justiça de Deus é creditada a qualquer que crê em Deus, já que Ele justifica a todo e qualquer que O obedece (Romanos 4:5).

Abraão creu em Deus quando lhe foi anunciado o evangelho, que diz: “Em ti serão benditas todas as nações” (Gálatas 3:8) e Jó demonstrou crer em Deus, quando confessou:

“Porque eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo, ainda, em minha carne verei a Deus” (Jó 19:25-26).

Jó possuía um comportamento inigualável perante os homens, mas o bom testemunho que ele alcançou é decorrente da confiança que nutria em Deus, assim como muitos outros antigos alcançaram bom testemunho (Hebreus 11:2).

Apesar de o comportamento de Jó ser superior até mesmo às exigências que constam da lei de Moisés, o testemunho que Deus lhe dera não tinha por base o seu comportamento, mas, a promessa de Deus.

Percebe-se que a promessa de que Jó tinha conhecimento é anterior aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. A promessa que Jó conhecia não foi posterior ao reinado de Davi, se não a confissão dele seria: – “Eu sei que o meu redentor vive e que por fim se levantará na casa de Davi”.

A confiança que Jó nutria em Deus, decorre de uma promessa, antiquíssima, feita lá no Éden, quando Deus deu um veredicto à serpente: – “E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15).

Abraão creu em Deus que teria um filho de suas entranhas e isso lhe foi justo (Gênesis 15:6) e quando Deus pediu Isaque, em holocausto, Deus reitera a promessa a Abraão, por ele ter obedecido ao mandado de Deus (Gênesis 22:18). De modo que as Escrituras dão testemunho de que Abraão obedeceu às leis de Deus, muito antes de ter sido dada a lei de Moisés (Gênesis 26:5).

O caráter e o comportamento de Jó eram superiores ao dos seus semelhantes, mas não foi este quesito que o fez aceitável diante de Deus. Com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6), de modo que, mesmo na aflição, Jó mantinha a sua esperança firme: que o seu Redentor vivia e que haveria de estar sobre a terra!

Quando Jó expressa a sua confiança em Deus, temos reunido os elementos pelo qual Deus declara Jó justo: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS” (Ezequiel 14:14).

O termo justo aplicado a Jó não se refere ao seu comportamento ou, ao seu caráter, antes remete a sua condição diante de Deus. E essa condição não se alcança por meio de boas ações ou, por bom comportamento, mas, somente sendo obediente a Deus.

A obediência a Deus dava a condição de justo, mas a palavra do Senhor era a causa de Jó desviar-se do mal. Diante de Deus, Jó era inculpável. Nenhuma condenação pesava sobre Jó, porque Deus é misericórdia e verdade, de modo que Jó teve expiado o seu pecado: “Pela misericórdia e pela verdade se expia a culpa e pelo temor do SENHOR os homens evitam o mal” (Provérbios 16:6).

‘Desviar-se do mal’ era o objetivo de Jó, visto que Ele era obediente. Mas, como ser temente, se não haver o mando de Deus? Sem o temor do Senhor, é impossível ao homem desviar-se do mal, pois a palavra de Deus é água que lava o pecador e o orienta na difícil tarefa de rejeitar o mal e apegar-se ao bem.

 

Satanás é posto em cena

A narrativa introduz Satanás na história de Jó como um ente pessoal, que se apresenta diante de Deus, quando os ‘filhos de Deus’ vieram adorá-Lo. Satanás é, assim, chamado, não por ser um título ou um nome específico, mas, pela função que desempenha na história: adversário.

Satanás é um ente pessoal que, ao comparecer, juntamente, com os filhos de Deus, é interpelado, diretamente, por Deus: – “De onde vens?” A resposta do adversário não é fruto de uma composição folclórica de um personagem irreal, inventada pelo narrador.

Quando o Livro de Jó introduz a figura do ‘acusador’, não estamos falando de um emissário de Satanás como o foi Hamã, em que as Escrituras nomeiam como ‘adversário’ (Ester 7:4). O adversário de Jó não é um homem, pois, além de estar à espreita de Jó, era capaz de mensurar e comparar a integridade de Jó com a dos demais homens.

O adversário de Jó não pertence à corte de Deus, como o anjo da matança dos primogênitos do Egito.

Enquanto os anjos são mensageiros que cumprem o mando de Deus, o acusador do Livro de Jó se insurge contra Jó, o que demonstra claramente que se trata de um ser que se opõe aos homens: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8).

O diálogo entre Deus e Satanás tem, de um lado, o Criador e, do outro, uma criatura, ou seja, não há que se dar vazão à ideia de que Satanás é o arqui-inimigo de Deus ou, ao pensamento dualista, do bem versus o mal, pois a criatura jamais pode se igualar ao Criador, para que possa fazer frente a Ele, como seu arqui-inimigo.

Mas, onde e quando Satanás apresentou-se diante de Deus?

A Bíblia é clara ao nos informar que Deus habita a eternidade, ou seja, diz de uma singularidade que não se mensura, através de unidades de medida como tempo e espaço.

Deus é o ‘Já’, o ‘agora’, pois todas as coisas que hão de ser, são como se já fossem: “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” (Eclesiastes 3:15); “Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem, que passou, e como a vigília da noite” (Salmos 90:4).

Satanás apresentou-se diante de Deus um em certo dia, especificamente, quando os ‘filhos de Deus’ vieram apresentar-se diante d’Ele, ou seja, ‘certo dia’ não diz da eternidade, o que se conclui que tal evento não se deu nos céus, pois os céus são o trono de Deus e Deus abriga a própria eternidade. Nos céus não há elementos como dia e noite, pois, lá o que está estabelecido é a própria eternidade: “Porque, assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como, também, com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15).

O evento descrito no Livro de Jó foi plotado no espaço/tempo, através de um evento que é próprio ao nosso espaço/tempo: certo dia. O local foi, especificamente, a cidade de Uz, cidade próxima o bastante dos povos caldeus e sabeus, pois, foi gente desses povos vizinhos, os que atacaram os filhos de Jó. O tempo aponta para um dia em que os filhos de Deus apresentaram-se diante de Deus.

Ir à presença do Senhor não significa que Satanás subiu aos céus, mas, que ele estava no evento em que os ‘filhos de Deus’ compareceram diante de um representante de Deus. Sabemos que os sacerdotes são representantes de Deus e que as Escrituras fazem referência a quem se apresenta diante do sacerdote, como se apresentado diante do Senhor (Deuteronômio 19:17).

Caim, também, foi descrito como alguém que esteve em contato com Deus, mas, que fugiu de diante do Senhor, ou seja, Caim não subiu aos céus para Deus conversar ou estar perante Ele (Gênesis 4:16).

Quem eram os ‘filhos de Deus’, que vieram perante Deus?

Os ‘filhos de Deus’, que vieram perante o Senhor, faziam tal prática com regularidade, ou seja, de tempos em tempos, compareciam, em determinado lugar, em função de um representante de Deus, o que indica uma cerimônia, algo que é próprio aos homens,  não aos seres celestes.

Um ser celestial sabe que não há lugar de adoração e nem tempo propício à adoração, antes, que Deus é adorado em espírito e, nem mesmo, estão sujeitos à limitação humana de espaço/tempo.

Quando Satanás se apresenta em meio aos filhos de Deus, homens que foram prestar o seu culto, foi interpelado: – “Donde vens?”

Do diálogo entre Deus e Satanás, é possível extrairmos alguns elementos que nos permitem uma melhor compreensão, de como o adversário é ardiloso, como tem as suas artimanhas e como ele constrói as suas ciladas.

Jesus afirmou que Satanás nunca se firmou na verdade e que, quando fala, fala do que lhe é próprio, proferindo mentiras, pois é mentiroso e pai da mentira. Esta é a natureza do adversário (João 8:44).

Deus não precisava perguntar a Satanás e nem de sua resposta, pois todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos. Não podemos ignorar a onipresença e a onisciência de Deus nessa passagem bíblica, o que nos leva a concluir que Deus não estava interessado em nos revelar onde o opositor estava, mas, sim, a natureza de Satanás: astuto e mentiroso.

Satanás mentiu: “De rodear a terra e passear por ela”! Para quem o tempo urge, a resposta foi evasiva, pois rodear e passear pela terra não são atribuições de Satanás. Na verdade Satanás observava os filhos de Deus e respondeu de forma evasiva. O inimigo sempre está atento aos filhos dos homens, porém, espreita os fiéis para tentar dissuadi-los de sua fé.

Para quem somente passeava e rodeava a terra, não sendo onisciente ou, onipresente, Satanás sabia de tudo, a respeito de Jó. Satanás sabia que Jó era temente, protegido de Deus por todos os lados, abençoado e os seus bens se multiplicavam sobremaneira na face da terra.

É evidente que Satanás tinha interesse na vida de Jó, vez que, sempre espera um momento oportuno para atacar. Satanás sabia de tudo a respeito de Jó: medos, fé, conhecimento, comportamento, moral, integridade, etc.

Satanás só não tinha acesso aos pensamentos de Jó, pois os pensamentos só são conhecidos por Deus, mas, através do seu comportamento e integridade, o maligno fazia uma leitura do que ocupava a mente de Jó.

Somente Deus conhece o pensamento de suas criaturas, muito antes de pronunciarem qualquer palavra.

Conhecer a vida e os sentimentos de um oponente em uma guerra, é poder e Satanás se vale desse conhecimento, através da observação constante da vida do homem. É, a partir do conhecimento que o homem detém sobre a natureza de Deus, que o nosso inimigo, ardilosamente, monta as suas ciladas.

Satanás monta as suas teias com astúcia e Ele é conhecedor desta verdade: qualquer ser que lutar contra Deus sairá derrotado, pois Deus é todo poder e conhecimento.

Conhecedor dessa verdade, Satanás sabia que era impossível lutar e vencer Jó, pois era Deus quem o justificava e pelejava por Jó. Lutar contra Deus, diretamente, ou lutar contra os seus servos é perder.

“Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica (…) Mas, em todas estas coisas, somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8:33 e 37-39).

Como é impossível Satanás vencer aqueles que são declarados justos por Deus, a tática ardilosa dele, é tentar jogar o próprio homem contra Deus, pois, somente o homem, pode se lançar da presença de Deus.

Satanás possui pleno conhecimento sobre a natureza de Deus e seus atributos. Ele também conhece a natureza humana e os seus sentimentos. Satanás também conhece a verdade de Deus contida nas Escrituras.

Deus interpela o acusador se este havia observado Jó durante as suas andanças pela terra, se havia constatado a integridade de Jó. Satanás não contesta o fato de que Jó era temente a Deus, pois como poderia acusá-lo, se o próprio Deus é quem deu testemunho de Jó?[4]

Satanás se mostra habilidoso no seu argumento, quando responde: – “Teme Jó a Deus em vão?”. Satanás não acusa Jó de pecado e a pergunta sugere, ainda, que Jó é verdadeiramente temente, porém, o acusador aponta o cuidado de Deus, como motivo da sujeição de Jó a Deus.

O acusador pode constatar durante as suas andanças que Jó estava sob a proteção de Deus, assim como, os seus descendentes e os seus bens materiais. Para alguém que desconhece a promessa de Deus para os que O temem, talvez pareça que Deus favorecia Jó, no entanto, a promessa de Deus é especifica e imutável para os que obedecem a Deus:

“O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra.

Provai e vede que o SENHOR é bom;

Bem-aventurado o homem que nele confia. 

Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem”. (Salmos 34:7-9)

Depreende-se da fala do acusador, que Jó era trabalhador, visto que, o que as mãos de Jó produziam, Deus abençoava, de modo que os seus bens se multiplicavam.

“Então, respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, à sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra”. (Jó 1:9-10)

Satanás sugere, em sua argumentação, que, caso Deus retirasse todos os bens de Jó, seria o suficiente para Jó blasfemar. Mas, seria este o principal objetivo de Satanás? A adversidade seria capaz de afastar Jó de Deus?

Segundo o exposto pelo apóstolo Paulo, ao propor aos cristãos de Corinto que perdoassem um dos irmãos em Cristo, nós, como imitadores do apóstolo Paulo, não podemos ignorar os ardis de Satanás.

O que é um ardil? Respondo: uma estratégia, meticulosamente elaborada, para se atingir um objetivo.

Trazer adversidade faria com que Jó se demovesse do seu temor a Deus? Não! A adversidade não possui força suficiente sobre um servo de Deus, principalmente, com as qualidades de Jó, para demovê-lo da sua fé, porém, a adversidade fazia parte da estratégia elaborada por Satanás. Como?

A ação de Satanás foi, estrategicamente, coordenada para dar a entender, a qualquer que conhecesse a vida de Jó, que todos os eventos adversos que sobre ele se abateram, foram impingidos por Deus.

Os ataques dos sabeus e dos caldeus, cada qual, por sua vez, ao matarem os escravos de Jó e saquearem os camelos, os bois e as jumentas, dá a entender que os bens de Jó estavam desamparados.

Somente um ataque poderia dar a entender ser obra do acaso, mas, dois eventos semelhantes, em locais distintos, no mesmo dia, deixam de ser acaso e passam a ser coincidentes, portanto, o evento, em si, evoca que se considere a causa.

As mortes dos servos de Jó e o saque dos bens, foram decorrentes da ação humana, o que poderia levar quem investigasse os eventos à conclusão de que não houve nada de sobrenatural. Entretanto, outros mensageiros, no mesmo dia, trouxeram notícia de que fogo caiu do céu e consumiu parte do rebanho e os escravos e que, um vento vindo da banda do deserto, derrubou a casa do filho primogênito de Jó e matou a todos os filhos do patriarca, que ali estavam reunidos.

Quando as péssimas notícias terminaram, Jó levantou-se, rasgou o seu manto, raspou a cabeça, jogou na terra e adorou a Deus!

Satanás ficou surpreso com a atitude de Jó? Não! Tal atitude já era esperada, porém, o ardil de Satanás, ainda estava em curso.

Após o inimigo tirar todos os bens e exterminar todos os filhos de Jó, em outra ocasião, novamente, o diabo se fez presente, no meio dos filhos de Deus. Ao ser interpelado, como da primeira vez, deu prosseguimento na sua estratégia.

O adversário argumenta que a atitude de Jó, ao adorar a Deus, era uma questão de troca (pele por pele), sobre o pretexto de que o homem abre mão de tudo o que possui para preservar a sua própria vida (Jo 2:5).

A argumentação sugere que Jó não havia sido demovido das suas convicções pelo medo de, ao blasfemar, ser punido com a perda da própria vida.

Vale destacar que, apesar de Deus conhecer o ardil de Satanás, tal empreitada estava dentro do propósito de Deus. Como era necessário à humanidade compreender a justiça de Deus, o Senhor chamou a Jó, segundo o seu propósito, e permitiu que Satanás tirasse todos os bens do patriarca, para que, hoje, pudéssemos aprender, além da lição da perseverança e consolação, como se dá a justificação do homem (Romanos 15:4).

Em função do propósito de evidenciar como se dá a justificação, é que Deus permite que Satanás toque em Jó. Imediatamente, Satanás saiu da presença de Deus e feriu o corpo de Jó com chagas malignas, o que obrigava Jó a raspar as feridas com cacos de telhas, enquanto que, o único tratamento medicinal, era permanecer assentado nas cinzas.

Diante do quadro aflitivo, a mulher de Jó esbravejou: – “Ainda retém a tua sinceridade? Amaldiçoe a Deus e morra”.  Argumento que acrescentou dor ao coração aflito do servo de Deus.

Jó contra argumenta com sua mulher e deixa claro que a fala dela equipara-se a de qualquer desvairada. Perseverante, Jó não transgrediu com os seus lábios!

Depois dessas investidas ardilosas, os elementos necessários para o ataque principal do maligno estavam prontos. O quadro necessário para a investida de Satanás estava emoldurado, bastando ao acusador permanecer, aguardando, até que a notícia, sobre as adversidades que se abateram sobre Jó, se espalhasse pelo oriente.

Após Satanás tocar na pele de Jó, a ideia que se tem, é que o acusador sai de cena, porém, mesmo não atuando, diretamente, a visita dos amigos de Jó era o evento, meticulosamente preparado, para o verdadeiro embate entre Jó e o acusador.

A cilada preparada para fazer com que Jó se insurgisse contra o Seu Criador é o elemento principal das batalhas que Satanás trava com os homens.

Tirar os bens, a família e a saúde de Jó não era o principal objetivo de Satanás. O diabo sabia que a ação de retirar tudo, até mesmo a saúde de Jó, não faria com que ele pecasse contra Deus. Tirar tudo o que Jó possuía, era somente uma estratégia, para,  com astucia, fazer com que Jó se insurgisse contra Deus.

Continua…


[1] “Jó era um próspero fazendeiro, que vivia na terra de Uz. Possuía milhares de ovelhas, camelos e outros rebanhos, uma grande família e muitos servos. De repente, Satanás, o acusador, compareceu diante de Deus alegando que Jó só confiava nEle porque era rico e tudo lhe corria bem. E, assim, teve início o teste de fé daquele homem”. Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, versão Almeida Revista e Corrigida, Edição de 1995 – Ed. CPAD, pág. 699; “Como se sabe, é ele (Satanás) o mentor da trama que conduz Jó ao encontro com Deus. A partir da proposta do “adversário”, Jó tem sua estabilidade de vida destruída e, na sua desgraça, dialoga com amigos que buscam explicar as razões da tragédia da condição humana”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, ano IV, n. 10, maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html >.

[2] Acaso (do latim a casu, sem causa) é algo que surge ou acontece a esmo, sem motivo ou, sem explicação aparente. Wikipédia < http://pt.wikipedia.org/wiki/Acaso > Consulta realizada em 06/06/15.

[3] Riqueza e posição social jamais podem ser vistas como sinal de aprovação divina. Não podemos consentir com pensamentos que seguem essa linha de raciocínio: “Se levarmos em conta a sua riqueza; se lhe considerarmos a posição social; e se lhe pesarmos a influência política, concluiremos ter sido Jó um perfeito reflexo da santidade de Deus”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 32.

[4] O testemunho de Deus isentou Jó de qualquer injustiça, de modo que se Deus declarou Jó integro, reto e temente a Deus, o acusador jamais poderia intentar acusá-lo.

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O Livro de Jó – Prefácio

Em função da verdade incrustada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!


Livro de Jó: Objetivo

Parte I

Prefácio

O Livro de Jó compõe o Cânon sagrado, juntamente com os Livros de Provérbios e de Eclesiastes, conjunto que se nomeia Livros de Sabedoria.

Do ponto de vista literário muitos autores classificam o Livro de Jó como drama e, em função dos diálogos, monólogos, provérbios e ditados que contém, interpretam o livro do ponto de vista das experiências humanas.

Não se pode negar que o Livro de Jó é de riqueza incalculável do ponto de vista literário, mas, também, pelo seu valor como poesia, sem falar do seu conteúdo histórico. Entretanto, o tesouro que há no Livro de Jó não é de ordem literária, filosófica, histórica, sociológica e nem psicológica.

A finalidade deste ensaio é trazer a lume uma questão que passa despercebida por muitos leitores do Livro de Jó:

– “Como o pecador pode ser justo diante de Deus?”

Na sua grande maioria, os livros e estudos acerca do Livro de Jó, destaca o sofrimento do patriarca, o que fomenta inúmeras discussões de viés filosófico, antropológico e, até mesmo, ontológico.

Poucos se apercebem de que a temática do Livro de Jó não é o sofrimento. Poucos conseguem visualizar, que o conteúdo do Livro de Jó dá corpo a uma parábola, através de uma história enigmática e que demanda interpretação.

O Livro de Jó funciona como um espelho, ao refletir que a justiça do homem mais íntegro que já viveu, está aquém da justiça de Deus. A integridade de Jó estabelece um contraste que evidencia a justiça de Deus, de modo que o sofrimento torna-se mero pano de fundo para revelar uma verdade imprescindível ao homem.

A finalidade deste ensaio, não necessariamente nesta ordem, é:

  • Evidenciar a justiça de Deus, em contraste com as qualidades de Jó;
  • Identificar o motivo pelo qual Jó foi escolhido como protagonista dessa história;
  • Trazer a lume o papel desempenhado pelos amigos de Jó e a visão superficial que tinham da justiça de Deus;
  • Extrair alguns elementos pertinentes à atuação de Satanás e como se dá a sua investida contra os servos de Deus;
  • Demonstrar a superioridade do conhecimento de Eliú, em relação aos outros amigos de Jó;
  • Explicar a diferença entre a Justiça Divina e a “justiça” humana;
  • Esclarecer os motivos pelos quais Jó foi repreendido por Deus e qual a lição que precisamos aprender, através da vida do seu servo!

Em função da verdade incrustrada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!

 

Notas do autor.

 

Qual o objetivo do livro de Jó?

 

O livro

O Livro de Jó é classificado como poético, assim como, os cinco Livros dos Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações. Os eruditos classificam, também, o Livro de Jó como Livro de Sabedoria, assim como o Livro de Provérbios e de Eclesiastes.

Por que classificam o Livro de Jó como poético e de sabedoria? Por causa da estrutura dos diálogos entre Jó e seus amigos, construída através de muitos ‘paralelismos’.

Por paralelismo, o que dá sustentabilidade à poesia hebraica, temos a valoração do pensamento, através da ênfase, da repetição, do contraste e da elaboração de ideias, sem levar em conta elementos como ritmos, rimas e métricas, elementos essenciais às poesias ocidentais.

Como a estrutura da poesia hebraica repousa no desenvolvimento de ideias, a tradução do texto para outras línguas permite que se tenha maior precisão e preservação da ideia do texto, o que não ocorre nas poesias ocidentais pela impossibilidade de se transpor ritmo, rima e métrica para qualquer tradução.

O poema ‘Canção do exílio’, de Gonçalves Dias, por exemplo, é primoroso pelo ritmo, rima e métrica, de modo que a melodia, pelo encadeamento do ritmo, como a rima, permite descrever a beleza da terra do autor com leveza ímpar, do ponto de vista patriótico e nacionalista.

Observe:

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá”.

Dias, Gonçalves, Canção do exílio, De Primeiros cantos (1847).

A versão em Inglês, fica assim:

“My land has palm trees
Where the thrush sings.
The birds that sing here
Do not sing as they do there”

O ritmo e a rima que dá graciosidade ao texto se perdem na tradução e somente as expressões figurativas permanecem intocadas.

Já, o paralelismo, a base da poesia hebraica, trabalha analogias através de comparações, de modo a fazer com que o leitor conclua uma ideia por deduções simples, induzidas por figuras de linguagem, como personificações, hipérboles, metáforas, símiles e aliterações.

Destacamos alguns tipos de paralelismos importantes para exemplificar:

O paralelismo sintético (ou, formal, construtivo) trabalha um pensamento na primeira linha do poema e a segunda linha desenvolve e enriquece a ideia que está na primeira linha, que compõe a estrofe, através de uma relação de causa e efeito. Observe:

“Os céus declaram a glória de Deus e

o firmamento anuncia a obra das suas mãos”  (Salmo 19:1)

O paralelismo sintético divide-se em outros três, a saber:

  1. Conclusão: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião” (Salmos 2:6);
  2. Comparação: “É melhor confiar no SENHOR, do que confiar nos príncipes” (Salmos 118:9) e;
  3. Razão: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Salmos 2:12).

Por outro lado, o paralelismo antitético trabalha um pensamento em duas linhas, através da oposição de ideias, onde a segunda linha do poema expressa uma ideia oposta à ideia da primeira linha:

“Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos;

porém o caminho dos ímpios perecerá” (Salmos 1:6)

Já, o paralelismo sinonímico trabalha uma ideia expressa duas vezes, com termos diferentes, em duas linhas:

“Levanta o pobre do pó e

do monturo levanta o necessitado” (Salmos 113:7)

Ter domínio das peculiaridades do paralelismo, na composição da poesia hebraica, muito auxilia na leitura e na análise do Livro de Jó.

O Livro de Jó, também, é classificado como Livro de Sabedoria, porque os eruditos entendem que o livro trata de questões práticas, pertinentes à existência humana, tais como fatalismo, materialismo, espiritualidade, sofrimento, moralidade, etc.

Outra questão acadêmica que orbita o Livro de Jó, é acerca da sua autoria e possível data em que foi escrito. Não há uma resposta segura para ambos e quando se parte para o campo das especulações, sobram opiniões! Aqui não opinaremos.

O significado do nome ‘Jó’, do hebraico בוֹיּאּ, transliterado “Iyyõb”, provavelmente, deriva de uma raiz que significa ‘voltar’ ou, ‘arrepender-se’ ou, o ‘perseguido’, do hebraico ‘ãyeb’.

Podemos traçar o seguinte esboço do Livro de Jó:

  1. Jó é provado e o sofrimento passa a ser o pano de fundo da história: (Jó 1:1 a 2:13);
  2. Três amigos de Jó procuram confortá-lo, porém, diante da reclamação de Jó, inicia-se um ciclo de discursos, em defesa de Deus, apontando a condição de Jó como resultado dos seus erros (Jó 3:1 a 31:40);
    1. Lamentação de Jó (Jó 3:1-26);
    2. Posicionamento de Elifaz (Jó 4:1 a 5:27) e réplica de Jó (Jó 6:1 a 7:21);
    3. Posicionamento de Bildade (Jó 8:1-22) e réplica de Jó (Jó 9:1 a 10:22);
    4. Posicionamento de Zofar (Jó 11:1-20) e réplica de Jó (Jó 12:1 a 14:22).
    5. Posicionamento de Elifaz (Jó 15:1-35) e réplica de Jó (Jó 16:1 a 17:16);
    6. Posicionamento de Bildade (Jó 18:1-21) e réplica de Jó (Jó 19:1-29);
    7. Posicionamento de Zofar (Jó 20:1-29) e réplica de Jó (Jó 21:1-34).
    8. Posicionamento de Elifaz (Jó 22:1-30)  e  réplica de Jó (Jó 23:1 a 24:25);
    9. Posicionamento de Bildade (Jó 25:1-6) e réplica de Jó (Jó 26:1 a 31:40).
  3. Exposição de Eliú (Jó 32:1 a 37:24);
  4. Perguntas de Deus (Jó 38:1 a 42:6);
  5. Epílogo (Jó 42:7-17).

Por que o justo sofre?

Ao pesquisar vários livros e comentários sobre o livro de Jó, as considerações sempre orbitam o sofrimento e, quase unanimemente, dão como tema do livro o sofrimento do justo[1].

Os comentaristas, geralmente, destacam, em letras garrafais, a seguinte pergunta:

“Por que o justo sofre?”

As considerações dos eruditos, que giram sobre o sofrimento, são diversas e, dentre elas, destacamos as principais:

  • Deus permitiu o sofrimento de Jó para justificar-se diante da acusação de Satanás;
  • A providência e o governo ético de Deus frente ao problema do sofrimento de um homem justo;
  • Deus permite o sofrimento do justo como meio de purifica-lo[2];
  • A mente do homem é muito ínfima, para que possa entender os motivos de Deus no sofrimento do justo;
  • Deus tinha plena confiança de que Jó sairia da provação, plenamente aprovado;
  • Deus derrotou Satanás, através do sofrimento de Jó;
  • Jó foi o homem mais integro que atendeu aos altos reclames da justiça divina, etc.

Se o tema do Livro de Jó é o sofrimento do justo[3], por inferência, se faz necessário concluir que o sofrimento do ímpio é plenamente aceitável. Através da leitura do Livro de Jó, somos levados a entender que o ímpio deve sofrer?

Ao estudar o Livro de Jó, desconsiderei as abordagens teóricas que constam das Bíblias de Estudos e dos livros de teologia. Li e reli diversas vezes o Livro de Jó, para chegar à seguinte conclusão: é impossível achar no Livro de Jó uma resposta para o sofrimento do justo, vez que o sofrimento ou, a problemática dos infortúnios que acometem o justo, não é o tema do livro.

Apesar do consenso de que o sofrimento do justo é o tema do Livro de Jó, não há entre os acadêmicos, uma resposta plausível que apresente um motivo[4], que dê resposta à pergunta: – ‘Por que o justo sofre?’[5].

Na verdade, o Livro de Jó não busca dar uma resposta à questão do sofrimento dos justos e nem foi escrito com o fito de apresentar uma teoria geral do sofrimento da humanidade[6].

O mote do Livro de Jó é pedagógico e o sofrimento é somente o pano de fundo, pois o tema do livro decorre de uma verdade imprescindível ao homem: a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O propósito do livro é revelar uma verdade superior à ideia da problemática do sofrimento: como se dá a justificação do homem. O sofrimento é um dos elementos que fomentou os questionamentos, acerca da justiça de Deus e de que modo o homem poderia ser justo diante d’Ele.

Caro leitor, não quero desestimular a leitura do Livro de Jó, como um geólogo que desencoraja um visionário a não procurar petróleo em um terreno onde se suspeita que não haja o precioso ouro negro, mas deixa de avisar que há diamantes de grande valor naquela terra.

O nosso objetivo é que o leitor encontre a essência do Livro de Jó e, para isso, é necessário que o objeto seja substituído, para que o leitor tenha como encontrar o grande tesouro incrustado nessa história.

O leitor da Bíblia já observou que a história de Jó descreve alguém que sobrepuja qualquer ideário humano de justiça? Que a conduta, o caráter, a honradez e as práticas de Jó, estão muito além das nossas práticas cotidianas de justiça?

Ora, se Jó, de posse de um caráter que, a nosso ver, beira a perfeição; se as ações cotidianas do patriarca testemunhavam a favor da sua retidão e integridade[7] e; se Jó, ao ver o Criador, sentiu-se abominável e arrependido, imagine se eu ou você contemplássemos a Deus?

“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

Após abrir mão de considerar o sofrimento dos justos como tema do Livro de Jó, fiquei sem um norte. Fez-se necessário fincar uma estaca, marcando um ponto ‘zero’, e voltar às minhas considerações e à releitura do livro, considerando os demais livros da Bíblia. Foi quando me deparei com o seguinte verso:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança”. (Romanos 15:4)

Se tudo o que foi escrito, anteriormente, tem o objetivo de nos ensinar, o que Deus quer ensinar, através do Livro de Jó? O que há no livro de Jó, que nos concede esperança? Há ‘paciência’ e ‘consolação’ na história de Jó?

Tive que retornar aos evangelhos, às epístolas, aos profetas e à lei e, se o leitor deseja desvendar o objetivo do Livro de Jó, venha comigo. É essencial uma digressão[8] para compreender o ensinamento que está incrustado na trama de Jó, da mesma forma que é necessário garimpar o ouro oculto nas rochas, no seio da terra.

 

O mal debaixo do Sol

Não encontraremos, na Bíblia, uma resposta à pergunta: – ‘Porque o justo sofre?’, no entanto, ela nos informa que há um mal, em relação a tudo o que se faz debaixo do sol: tudo sucede, de igual forma, a todos!

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo (Eclesiastes 9:2-3).

O Pregador aponta que há um mal em tudo o que se faz neste mundo: tudo sucede, igualmente, a todos. Os eventos neste mundo, quer sejam bons, quer sejam maus, não tem preferência em atingir a justos ou ímpios!

Se, somente, os justos sofressem, haveria motivo para indagar acerca do sofrimento dos justos. Semelhantemente, se tão somente os ímpios sofressem[9], poderíamos dissertar a respeito. Mas, como tudo sucede, igualmente, a todos, um mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol, torna-se evidente que não há motivo para questionar o sofrimento, quando acomete os justos.

Mesmo os justos, tropeçam em muitas coisas (Tg 3:2) e se queixam dos seus próprios erros (Lm 3:39). O trabalho e a dor são pertinentes ao mundo dos homens, para exercitá-los, portanto, não há motivo para questionar acerca do sofrimento dos justos. “Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar” (Ec 3:10;  Gn 3:17).

O Pregador dá um conselho aos homens, quer sejam justos, quer ímpios, e apresenta o motivo pelo qual há o dia da adversidade: para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas, no dia da adversidade, considera; porque, também, Deus fez a este, em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

Continua…

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Essa resposta chega de forma tríplice: Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do onipotente”. Archer, Gleason L., Merece confiança o Antigo Testamento? Traduzido por Gordon Chown. – São Paulo: Edições Vida Nova, Reimpressões 1998. Pág. 407.

[2] “Deus, por meio do sofrimento, pode levar o pecador à conversão e à salvação”. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000. Pág. 549.

[3] “O livro de Jó é uma obra-prima da literatura sapiencial. É uma dramática ficção histórica sobre o homem justo, sempre fiel às leis e tradições. O autor ou, autores, entrelaçam prosas e poemas, com os mais variados temas teológicos e sociais, como o sofrimento humano, a transformação  humana e social, o  bem e  o mal, a doutrina da retribuição, entre outros”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014 (Nota de rodapé), pg. 628.

[4] “O assunto do livro tem sido dado como ‘O problema do sofrimento, A relação entre o sofrimento e o pecado, ou Quais são as leis governo moral de Deus no mundo?’ Tudo isso é discutido de vários pontos de vista; e, mediante a discussão, somos levados a uma compreensão mais sábia destes perpétuos mistérios; mas, o livro termina sem que o problema tenha sido resolvido”. McNair, S. E. A Bíblia explicada, 4ª Edição, RJ: CPAD, 1983. Pág. 167 (Citação de Scroggie).

[5] “Existe apenas uma questão que realmente importa: Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? (…) Trata-se de um livro de difícil compreensão, um livro profundo e belo sobre o mais profundo dos temas, o problema do sofrimento dos bons”. Kushner, Harold S. “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, tradução Francisco de Castro Azevedo. – São Paulo: Nobel, 1988.  Págs. 15 e 38.

[6] “O assunto do livro é a providência e o governo ético de Deus à luz do muito antigo problema do sofrimento de um homem justo. Para esse problema, nem Jó se justificando, nem os seus três amigos acusando-o de pecado, encontraram a solução”. Scofield, C. I., Bíblia de Scofield, com referências (Nota de rodapé).

[7] Integridade – significa que Jó era honrado; integro no sentido de ‘completo’, resignado a não violar o que era de direito do outro.

[8] Em Literatura, digressão é um recurso utilizado pelo narrador, a fim de afastar a atenção sobre alguma ação da história principal. Dessa forma, o narrador pode iniciar um tema secundário pouco importante para a trama ou, refletir sobre um assunto que foge da narrativa principal.

[9] “Transcendendo o drama humano, centra-se o Livro de Jó nesta pergunta: ‘Por que sofre o justo?’ Que o pecador sofra, todos entendemos! Mas o justo? Aquele que tudo faz por agradar a Deus?” Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 14.

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Por que Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do Jardim?

“Se Ele não queria que isso acontecesse, por que colocou a tal árvore no meio do jardim – e não fora dos muros do Paraíso?*” Veronika decide morrer, Paulo Coelho. Para Mari, personagem do romance ‘Veronika decide morrer’, do escritor Paulo Coelho, a expulsão do casal do jardim do Éden foi arbitrária e sem fundamento jurídico “… apenas por transgredir uma lei arbitrária, sem nenhum fundamento jurídico: não comer o fruto do bem e do mal” Idem. Ora, a pergunta acima pode ser formulada sem receio de qualquer castigo, ou que se esteja cometendo um sacrilégio ou uma blasfêmia. Almeje saber por que Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim sem qualquer barreira que impedisse o homem de acessá-la, porém, é de bom alvitre observar que, o ato de formular uma pergunta, e dependendo de quem faz a pergunta, pode abrigar no seu bojo as mais variadas intenções.

 

Por que Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do Jardim?

Esta pergunta não deve ser feita somente por ateus, céticos, magos, espiritualistas, e outras correntes de pensadores seculares, mas deve ser feita principalmente por cristãos. Não me refiro aos ‘cristãos’ com fulcro na religiosidade, na moralidade, ou na formalidade, mas àqueles que efetivamente creem na doutrina de Cristo.

A pergunta pode ser formulada sem receio de qualquer castigo, ou que se esteja cometendo um sacrilégio ou uma blasfêmia. Almeje saber por que Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim sem qualquer barreira que impedisse o homem de acessá-la.

Porém, é de bom alvitre observar que, o ato de formular uma pergunta, e dependendo de quem faz a pergunta, pode abrigar no seu bojo as mais variadas intenções.

Para compreender esta peculiaridade própria as perguntas, voltemos ao evento no Éden:

A ‘serpente’ fez uma pergunta à mulher: “É assim que Deus disse: não comerás de toda árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ). A ‘serpente’ desejava saber, ou questionar a ordenança divina? Qual perspectiva motivava o inquiridor?

Observe o que a astuta ‘serpente’ conseguiu com a pergunta formulada à mulher:

  • Chamou a atenção de Eva para o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal;
  • Enfatizou a ideia de uma proibição exacerbada, descabida e que nunca existiu;
  • Fez a mulher sentir-se segura de si por demonstrar à ‘serpente’ conhecimento superior;
  • Conseqüentemente, fez a mulher deixar de se refugiar na palavra de Deus, e;
  • Conseguiu a oportunidade de expor a mentira que produziu o engano.

A pergunta: ‘Por que Deus colocou a árvore no meio do jardim?’ é pertinente e deve ser formulada quando se tem o desejo de saber, porém, dependendo do contexto, ou do momento que ela é feita, pode ser utilizada para infamar. Observe:

“Se Ele não queria que isso acontecesse, por que colocou a tal árvore no meio do jardim – e não fora dos muros do Paraíso?*” Veronika decide morrer, Paulo Coelho, São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2006, Pág. 108.

Ao se deparar com perguntas semelhantes a esta é de bom alvitre verificar qual a motivação por trás dela:

a) desejo de saber, ou;

b) anseio de criticar, infamar, etc.?

Outro ponto a se considerar refere-se ao estado emocional de quem faz a pergunta.

A pergunta em tela deve ser feita, porém, não se deve renegá-la somente a momentos de desequilíbrio emocional. Por que questionar os motivos da divindade somente quando não se está bem financeiramente, quando se perde um parente, quando se sai de um relacionamento frustrante, quando em depressão, quando em fatalidades, catástrofes, etc.?

Se quem pergunta deseja chegar à verdade não pode estar comprometida emocionalmente.

É de conhecimento que, um dos problemas da ciência moderna reside na ferramenta, ou seja, no instrumento de análise de certos eventos científicos. Como analisar um átomo sem que o instrumento de análise interfira na dinâmica do átomo? Se analisado por um microscópio, a própria luz que se lança sobre o átomo não interferirá no que se está observando, interferindo na mensuração e no diagnóstico? Ao introduzir certos corantes nas células para observá-la, não se interferiu na dinâmica dos seus compostos?

Que se dirá de uma análise que depende única e exclusivamente de relações lógicas, se a pessoa que busca uma resposta está comprometida emocionalmente? Se as perguntas, a base para qualquer busca de conhecimento, já surgirem eivadas de elementos tendenciosos?

Segue-se que, se uma pessoa estiver comprometida emocionalmente, ouvirá somente o que quer ouvir, e verá somente o que deseja ver. Deste modo, temos por verdadeiro o enunciado do provérbio popular: “O pior cego é aquele que não quer ver!”.

Desde que o diabo fez a pergunta à mulher: “É assim que Deus disse: Não comerás de toda a árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ), enfatizando uma proibição que efetivamente não existiu, muitos pensadores só ouvem e veem na ordenança que Deus deu ao homem uma proibição. Até mesmo acusam Deus de induzir o homem à desobediência, ou que Deus inventou o castigo.

Mas, o que Deus disse ao homem? Será que os ateus já leram o que Deus disse? Será que os críticos abriram e leram efetivamente o livro que contém os registros do que Deus disse?

Observe o que Deus disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ). O que Deus enfatizou? Deus enfatizou que o homem era livre, e que poderia agir segundo a sua vontade. Adão podia comer livremente de todas as árvores do jardim, porém, a ‘serpente’ enfatizou à mulher somente uma proibição.

É de se estranhar que em nenhuma acusação contra Deus citem as suas palavras conforme consta no Gênesis, principalmente: “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ). Geralmente rotulam o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal somente de ‘fruto proibido’. Ora, o fruto nunca foi ‘proibido’, pois de todas as árvores o homem poderia comer ‘livremente’.

A indução da ‘serpente’ ofusca a verdade para aqueles que se agradam em manifestar aquilo que lhes agrada seus corações. Erram ao amalgamar a pergunta tendenciosa da ‘serpente’ a ordenança divina, e interpretam-na apenas como proibição. Bem disse o pregador: “O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração” ( Pv 18:2 ).

O que se manifesta na ordenança divina? Deus concedendo a Adão o exercício do livre arbítrio!

Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim, sem qualquer barreira que impedisse o homem de comer do seu fruto para conceder-lhe liberdade.

Se a árvore do conhecimento do bem e do mal não fosse colocada entre as demais árvores do Éden, Adão seria efetivamente livre? Existe liberdade quando não há limites? Como delinear a liberdade sem um referencial estabelecido?

Não há limites para Deus? É assente que Deus é livre, mas Ele não pode mentir. Deus não pode voltar atrás com a sua palavra. Ele não pode prometer e deixar de cumprir! Embora Deus seja Deus, submete-se à sua palavra! No entanto, Ele é a máxima expressão da liberdade!

A liberdade não está em fazer o que é vetado, antes reside na capacidade de rejeitar ou não o proibido.

Sem a árvore e sem o alerta divino não haveria o exercício da liberdade, e o homem estaria ligado a Deus mesmo contra sua vontade. A regra (livremente) e a exceção (mas) andam juntas para ser factível o exercício da liberdade ( Gn 2:16 -17). Todas as árvores do jardim poderiam ser degustadas livremente, mas, o homem deveria considerar que, caso comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, arcaria com as conseqüências (separação de Deus).

Embora criado livre, não haveria razão de ser tal liberdade se Adão não possuísse a possibilidade real de exercê-la. Que é a liberdade sem a possibilidade de ser escravizado? Escolher o proibido não é propriamente a liberdade, pois ela não reside no proibido, antes, na possibilidade de rejeitar algo factível: a servidão.

Do mesmo modo que a comunhão com Deus (vida) é antagônica a condição de alienação da glória de Deus (morte), estar com Deus é liberdade, e alienado d’Ele escravidão ao pecado.

Somente onde o Espírito de Deus está, ai há liberdade, portanto, somente em Deus o homem é livre e vive ( 2Co 3:17 ).

Adão não precisava experimentar o fruto para ser livre, pois ao experimentá-lo, passou a condição de preso, submetendo-se à sua própria decisão.

Em algum momento Adão foi pressionado a tomar uma decisão?

A liberdade é patente, clara, pois Adão não foi coagido a tomar qualquer decisão. Ele era livre, pois não havia qualquer tipo de opressão que o obrigasse a tomar uma decisão.

Adão não soube das conseqüências dos seus atos? Ele não possuía o conhecimento necessário para tomar uma decisão? Seria a ignorância uma bênção?

A luta pela informação, rechaçando qualquer regime político que viole o direito à informação é uma constante para a humanidade ao longo dos séculos. Porém, por que acusam Deus de indução à desobediência por ter concedido um direito tão caro a Adão quando informou das conseqüências dos seus atos?

O homem somente é livre quando sabe das conseqüências dos seus atos. O homem é livre quando lhe é permitido tomar decisões. O homem é livre quando possui o conhecimento necessário para tomar suas próprias decisões.

A ordenança divina de modo algum foi arbitrária, antes, superior a qualquer ordenamento jurídico que o homem já inventou. A ordenança divina é a expressão mais sublime do espírito das leis: visava preservar os bens mais importantes do homem – a vida e a liberdade.

Enquanto não comesse do fruto da árvore, Adão permaneceria vivo (unido a Deus), pois a conseqüência era clara: certamente morrerás (alienação de Deus). Enquanto se abstivesse do fruto do conhecimento do bem e do mal Adão permaneceria livre, mas após comer, tornar-se-ia prisioneiro de sua própria decisão.

Para Mari, personagem do romance ‘Veronika decide morrer’, do escritor Paulo Coelho, a expulsão do casal do jardim do Éden foi arbitrária e sem fundamento jurídico “… apenas por transgredir uma lei arbitrária, sem nenhum fundamento jurídico: não comer o fruto do bem e do mal” Idem.

É inconcebível que alguém, e utilizamos como exemplo as argumentações da personagem Mari, ligado a um sistema jurídico que é redigido de modo que as pessoas comuns não entendam o prescrito, sendo que este regime se sustem no princípio de que ninguém pode alegar ignorância da lei, questione que houve arbitrariedade na ordenança do Éden.

Haveria arbitrariedade se Deus legislasse em benefício próprio, porém, a ordenança concedida a Adão visava tão somente tutelar o que pertencia ao homem. Tornar alguém passível de punição, mesmo quando desconhece a lei, é legislar em beneficio da lei, e não do tutelado pela lei.

Não há qualquer elemento que de margem para se acusar Deus de arbitrariedade, mas os acusadores querem colocar a ordenança divina em suspensão, mesmo vivendo sob um sistema jurídico que navega por princípios inferiores ao da ordenança divina. Enquanto a ordenança divina visava preservar os dois bens mais preciosos que foi concedido ao homem, os ordenamentos jurídicos da atualidade se propõem mediar conflitos de interesses, sendo eminentemente punitivos. Por exemplo: matar alguém se resume a uma pena de reclusão.

A acusação de que Deus inventou o castigo através da ordenança dada a Adão é basear-se numa lógica simplista sem ao menos investigar os fatos descritos na bíblia “Mas Deus (…) Pelo contrário, escreveu a lei e achou um jeito de convencer alguém a transgredi-la, só para poder inventar o Castigo” idem.

“E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás ( Gn 2:16 -17).

Qual a conseqüência da decisão do homem em comer do fruto do conhecimento do bem e do mal? Morte. A morte da qual Deus fez referência não era o termino das funções vitais do corpo, pois ao se referir à morte física do homem Ele utiliza a expressão ‘voltar ao pó’.

Se só havia Adão e Eva no Éden, eles morreriam para quem? A decisão de comer do fruto teria como conseqüência alienação, uma barreira entre Deus e os homens. Somente o termo ‘morte’ para descrever a ‘nova’ condição pertinente ao homem após a queda.

Quando Deus alertou: ‘dela não comerás’, estava sinalizando que, caso o homem não mais desejasse relacionar e depender do Criador (vida), que lançasse mão do fruto do conhecimento do bem e do mal. Como o homem era livre, caso não mais desejasse viver na dependência do cuidado e do conhecimento do Senhor, poderia ‘existir’ à parte d’Ele (morte).

Após comer do fruto do conhecimento do bem e do mal, o homem tornou-se como Deus, conhecedor do bem e do mal. A barreira de inimizade foi erguida (morte, separação, alienação…), e o homem passou a guiar-se segundo o conhecimento que adquiriu.

Deus a ninguém oprime ( Jó 37:23 ), e a ninguém tenta com o mal ( Tg 1:13 ), portanto, a queda do homem não partiu do Criador. Foi o homem que se lançou da presença do Criador.

Após comer do fruto e morrer (alienação), o homem passou a existir escravo de sua própria decisão. Apesar de ser como Deus, conhecedor do bem e do mal, estava alienado Deus, portanto, foi incumbido de se suster por conta própria. Quando compartilhava da glória de Deus, o homem não era como Deus, conhecedor do bem e do mal, mas Deus o provia de todas as coisas. De todas as árvores do jardim que foi plantado pelo Senhor o homem podia comer livremente, com a queda, o homem estava de posse do conhecimento necessário e precisava manter-se do suor do seu rosto ( Gn 3:19 ).

A condição de Adão equipara-se a do filho que consegue a emancipação do pai: subsistirá pelos seus próprios meios. Quando estava em comunhão bastava lavrar e cuidar do jardim de Deus, agora, fora do jardim, a terra foi posta a produzir espinhos e cardos, para que o homem provesse o seu sustento através do suor do seu rosto ( Gn 3:18 ). O trabalho não foi punição, pois o homem trabalhava desde que foi posto no jardim.

O homem tornou-se ‘independente’ após a queda, e foi lançado fora do jardim do Éden para que iniciasse a sua labuta: lavrar uma terra “difícil” que produziria suor segundo a medida do trabalho do homem ( Gn 3:23 ). Observe que há uma grande diferença entre ‘liberdade’ (vida) e ‘independência’ (morte). Quando se é livre, há uma relação estabelecida entre as partes, mas quando se estabelece a independência, as relações estão cortadas.

Antes da queda o homem era livre para decidir se permanecia ou se apartava do Criador. Após a queda, tornou-se escravo da sua própria decisão, pois não dispõe de meios para voltar ao Criador. Embora muitos busquem voltar ao Criador por seus próprios meios, estão fadados ao fracasso.

Voltar a viver é possível somente através do próprio Criador, que sinaliza amorosamente através da sua palavra. Como o homem não deu crédito (creu) na palavra que lhe era para vida, o único meio de o homem voltar a ter vida é crer na palavra do Verbo encarnado – Cristo, que no Éden relacionou-se ‘teofanicamente’ com Adão.

É por isso que Cristo diz: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” ( Jo 7:38 ). Basta crer nas Escrituras! Não é necessário fazer como fez Eva, que em vez de crer na palavra da expressa imagem de Deus, buscou reforçar a sua palavra “E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” ( Gn 3:2 -3).

Bastava crer na palavra do Senhor que lhes disse que ‘certamente morreriam’, caso utilizassem da liberdade que possuíam, e comessem da árvore do conhecimento do bem e do mal. Induzida pela serpente, Eva transtornou a ordenança, que enfatizava liberdade, alerta e cuidado, tornando-a uma ‘lei’ estritamente proibitiva: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” ( Gn 3:3 ).

Onde há somente uma ‘lei’ proibitiva em lugar da ordenança que promove à liberdade, a concupiscência opera no homem, pois ao entender a liberdade da ordenança como estritamente um mandamento (lei), o pecado opera toda concupiscência. Por exemplo: Eva olhou e viu que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento (Como ela considerou a ordenança como sendo estritamente um mandamento, o pecado por meio do mandamento operou toda concupiscência), ela lançou mão do fruto e comeu.

Mesmo que a proibição (lei) não é pecado, o homem só conhece a concupiscência ao se deparar com a proibição (lei). Na liberdade ‘de todas as árvores comerás livremente’ o pecado estava morto, o mesmo que viver sem lei, pois a lei (proibição) só tem razão de ser para os transgressores ( 1Tm 1:9 ), enquanto a ordenança cerca de cuidado os livres. Somente na proibição ‘não comereis dele’, o pecado acha ocasião, pois acaba operando toda concupiscência.

Enquanto havia liberdade o homem vivia, mas na proibição ‘Não comereis dele’, a concupiscência deu lugar ao pecado que trouxe a morte. Observe que, o mandamento que era para vida, tornou-se morte. O mandamento (ordenança) é santo, justo e bom, e a lei (proibição) santa, porém, o pecado achou ocasião na ordenança é matou o homem. O pecado só achou ocasião porque, induzida pela pergunta da serpente, Eva entendeu que a ordenança resumia-se estritamente numa lei proibitiva, e através do mandamento ‘dela não comerás’, o pecado enganou-a e a matou.

Portanto, qualquer que lê as escrituras precisa compreender que onde o Espírito do Senhor está há liberdade, mas a lei, por si só opera a ira, pois o pecado sempre achará ocasião na lei através da concupiscência.

A lei só é imposta aos transgressores ( 1Tm 1:9 ), e por causa dos transgressores ( Gl 3:19 ). Tanto a lei: “Comeste da árvore de que te ordenei que não comesse?” ( Gn 3:11 ), quanto a lei de Moisés, foram acrescentada por causa da transgressão, pois nela opera a ira de Deus, em lugar do cuidado da ordenança, que tem razão de ser para os justos ( 1Tm 1:9 ).

Para vencer a ‘serpente’, bastava Eva ater-se a ordenança divina assim como Cristo fez, ao dizer: “Está escrito: não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:4 ). Há uma grande diferença entre:

  • O que Deus disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17);
  • O que Eva disse: “Do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” ( Gn 3:2 -3).

Ela esqueceu que de todas as árvores poderia comer livremente, o que ensejou uma conclusão equivocada: “Não comereis dele, nem nele tocareis…”.

Enquanto o ordenamento jurídico da atualidade persegue o transgressor até impor a punição prescrita, a ordenança do Éden somente colocou o homem a par das conseqüências dos seus atos. Deus não perseguiu o homem para puni-lo, antes o homem sofreu as conseqüências da sua decisão assim que comeu do fruto.

Enquanto a serpente apontou o conhecimento do bem e do mal como atrativo para o homem comer o fruto, Deus somente alertou que, caso comesse do fruto, o homem estabeleceria uma barreira entre os homens e Deus (morte, pecado, alienação, escravidão).

Se Deus colocasse uma barreira entre o homem e a árvore do conhecimento do bem e do mal, estabeleceria uma relação de desconfiança entre Criador e criatura. Hoje os céticos acusariam Deus de não dar um ‘voto’ de confiança ao homem. Se houvesse uma barreira entre o homem e o fruto do conhecimento do bem e do mal, questionariam se em algum momento o homem foi livre.

O que queremos ver? Qual o objetivo dos questionamentos que se avolumam em nossos dias? Buscam informação ou querem infamar Deus?

Há indução ao crime, à desobediência, à rebelião na seguinte ordenança?

“Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás ( Gn 2:16 -17).

  • Deus enfatiza plena liberdade – “De toda a árvore do jardim comerás livremente…”;
  • Aviso solene sem indução a uma decisão: “… mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás…”;
  • Motivação do alerta, conhecimento necessário a uma decisão: “… pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás”;
  • Conseqüência da decisão: “… certamente morrerás”;
  • Bem ‘jurídico’ a ser ‘tutelado’: vida e liberdade.

Caso a bíblia relatasse que Deus deixou a árvore sem qualquer aviso no jardim, e plantada entre outras árvores semelhantes, e desavisadamente o homem comesse do fruto e morresse, acusariam Deus de ser omisso, injusto e sem amor por suas criaturas.

Mari, após questionar a motivação de Deus por colocar a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim, satiriza a narrativa dos eventos após a queda do homem e sugere que Deus estava sendo sádico:

“Quando a lei foi violada, Deus – o Juiz Todo-Poderoso – ainda simulara uma perseguição, como se não conhecesse todos os esconderijos possíveis. Com os anjos olhando e divertindo-se com a brincadeira (a vida pra eles também devia se muito aborrecida, desde que Lúcifer deixara o Céu), Ele começou a caminhar. Mari imaginava como aquele trecho da Bíblia daria uma bela cena num filme de suspense: os passos de Deus, os olhares assustados que o casal trocava entre si, os pés que subitamente paravam ao lado do esconderijo” Idem.

O que a advogada Mari do romance faz, muitos fazem no dia-a-dia. Utilizam o seu conhecimento profissional, ou a sua formação acadêmica para infamar aquilo que não compreendem.

Os passos de Deus no Éden dariam uma cena em um filme de suspense? Deus tem pés? Deus simulou uma perseguição? Deus foi sádico?

Conhecimentos jurídicos, históricos e até mesmo científicos não permitem avaliar as indagações acima. Mas, se tiver conhecimento bíblico, não há entrave algum na passagem bíblica.

Geralmente os incautos visualizam neste trecho da bíblia Deus em sua glória e majestade, porém, esquecem que na bíblia há inúmeros eventos de teofania. Teofania é um conceito de cunho teológico que significa a manifestação de Deus em algum lugar, coisa ou pessoa. Os eventos tidos por mais marcantes refere-se às pessoas de Abraão ( Gn 18:1 -2) e Moisés ( Ex 3:2 -6).

Mas, a teofania mais importante ocorreu no Éden, pois Adão foi criado do pó da terra e se relacionava diretamente com a expressa imagem de Deus – Cristo. Quem é a expressa imagem de Deus? O escritor aos Hebreus responde: Cristo, o Filho de Deus ( Hb 1:2 -3). Jesus é a expressa imagem de Deus, herdeiro de tudo, e por Ele o mundo foi feito, inclusive a criação de Adão ( Pv 30:4 ).

Quando Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ), a expressa imagem de Deus se encarregou desta tarefa. Como Deus criou o homem à sua imagem? A expressa imagem do Deus invisível, o Verbo eterno que havia de encarnar, responsável também por toda criação, criou o homem como sua figura ( Gn 1:27 ; Rm 5:14 ).

Lembrando que a figura não é a imagem exata das coisas, temos que, somente Cristo glorificado é a imagem e semelhança de Deus, e somente os homens que ressurgem com Ele alcança o propósito eterno estabelecido no Éden que é fazer o homem conforme a imagem de Cristo, conforme a semelhança de Cristo, que é a expressa imagem de Deus ( Gn 1:27 ).

Deus criou o homem à imagem de Cristo, conforme Aquele que é semelhante a Ele, ou seja, conforme o seu Filho. E como o homem foi feito a imagem do Filho de Deus? O Filho de Deus (a imagem de Deus) o criou. Ou seja, assim criou Deus o homem a imagem do seu Filho: o seu Filho o criou ( Gn 1:27 ).

É por isso que Deus formou (mãos) o homem do pó da terra e soprou-lhe (fôlego) nas narinas (boca) ( Gn 2:7 ). Além do mais, plantou um jardim no Éden, e ali colocou o homem, que não é a imagem exata (expressa), antes uma figura de Cristo, que é a expressa (exata) imagem de Deus.

O Senhor Jesus utilizou as mãos ao fazer uma adjutora para Adão ( Gn 2:21 ), falou com o casal ( Gn 3:8 ), e fez roupas para ambos ( Gn 3:21 ). Ou seja, Adão não se escondeu porque ouviu passos, antes porque ouviu a voz da expressa imagem de Deus. Eles se esconderam porque não queria que Deus (teofania= expressa imagem de Deus) os vissem sem trajes.

Assim como Cristo apareceu a Abraão, também apareceu e relacionou-se com Adão, que era a sua figura “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se” ( Jo 8:56 ; Rm 5:14 ).

Para quem não compreende estes eventos, parece cômico um Deus todo-poderoso procurar um casal no jardim do Éden, porém, Adão relacionou-se com a expressa imagem de Deus, pois recebeu d’Ele a ordenança. Às vezes que o Senhor visitou o casal no jardim, assim o fez em teofania, e não em glória imarcescível.

A visitação do Senhor não era com voz de trovão, como ocorreu em outras aparições, antes Adão falava com alguém que era seu igual, semelhante a ele. Após a queda, Deus voltou a falar com Adão como sempre fizera, e não com fogo, raios, trovões e densas trevas para aterrorizá-lo.

Ora, quando Deus os chamou ao termino do dia, o casal resolveu esconder-se. Nem de longe Deus simulou uma perseguição, antes o casal é que se propôs a esconder. Por fim, ao solicitá-los novamente: “Onde estás?”, Adão declarou os seus desatinos e a vergonha por estar nu.

O homem tornou-se como Deus: conhecedor do bem e do mal ( Gn 3:22 ). Adão e Eva alcançou o que a ‘serpente’ lhes disse ( Gn 3:5 ), porém, lançaram mão da alienação de Deus.

Não foi Deus que impôs aos homens os milhares de regras e leis que possuem. A necessidade de regras e leis é algo próprio a natureza do homem.

Antes mesmo de pecar, quando inquirida pela serpente, Eva exacerbou a ordenança divina: “Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais” ( Gn 3:3 ). Os homens para si mesmo são leis, pois criam leis, regras e se deleitam em questões morais. Pune qualquer que não se encaixam em suas regras.

Deus criou o homem nu e não lhes deu nenhuma lei proibindo a nudez, porém, o homem sentiu vergonha de si mesmo, e resolveu de moto próprio cobrir-se ( Gn 3:7 ).

Por que infamar Deus, se tudo que Ele criou era bom? “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” ( Rm 9:20 -21 ).

Os infamadores somente vêem na ordenança divina um meio inventado por Deus para castigar o homem, porém, qual modelo de ordenamento jurídico fica a espreita para punir o homem: os ordenamentos jurídicos atuais, ou a ordenança do Éden? Há algo de preventivo no ordenamento jurídico da atualidade?

Por fim, enfatizamos a necessidade de ser fazer perguntas, por mais absurdas que possam parecer num primeiro momento se estivermos interessados em conhecimento, porém, quando for bombardeado por uma pergunta, analise a intenção do inquiridor.

Após esclarecer a intenção do inquiridor, caso não saiba, procure a resposta na bíblia, pois o apóstolo Tiago foi claro ao dizer: “Ora se alguém de vós tem falta de sabedoria, peça a Deus, que a todos dá liberalmente, e não censura, e ser-lhe-á dada” ( Tg 1:5 ).

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A mulher e o dragão

A visão da mulher e do dragão no Livro das Revelações destaca o papel da nação de Israel, e não o papel de um indivíduo. A promessa do Cristo foi feita a Abraão para cumprir-se nos seus descendentes, na nação de Israel, ou seja, não foi feita uma promessa a Maria. Embora o Cristo foi gerado no ventre de Maria, a visão não se refere a ela. Eva também não é a mulher vestida de sol, apesar de Deus ter dito ao dragão, a antiga serpente que haveria inimizade entre a serpente e a mulher, e entre a descendência do dragão e o descendente da mulher ( Gn 3:15 ).


As várias visões que o evangelista João teve na ilha de Patmos foram registradas no Livro das Revelações, também conhecido como o Livro do Apocalipse. 

O livro do Apocalipse geralmente é rotulado como o livro que fala do ‘fim’ – das últimas coisas – entretanto, o livro do Apocalipse também aborda questões e eventos da origem (Gênesis), ou até mesmo evento antes da criação do mundo. 

Iniciaremos a análise e estudo do Livro do Apocalipse no capítulo 12, visto que as figuras deste capítulo servem de chave para compreendermos as demais visões contidas no Livro das Revelações. 

As referências bíblicas citadas são essenciais à análise das figuras, visto que o livro é riquíssimo em figuras, uma peculiaridade que não se restringe ao livro das Revelações, pois várias figuras permeiam toda a bíblia, portanto as referências devem ser lidas e comparadas. 

Quem se propõe a interpretar o livro do Apocalipse, ao menos dever ler os livros de Deuteronômio, Salmos, Provérbios, Isaias, Jeremias, Ezequiel, Malaquias, Miqueias, Sofonias, Daniel, Mateus e Tessalonicenses, etc., para não inserir na interpretação opinião distanciada da mensagem que Deus revelou ao apóstolo João. 

Diferente de outras visões que descrevem a condição do povo de Israel (pecado) e eventos futuros (redenção), as visões contidas no capítulo 12 apresentam passado, presente e o futuro dos israelitas.

 Apocalipse 12, versos 1 à 17 

1  E VIU-SE um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. 2  E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. 

Após a visão dos sete selos e das sete trombetas, o evangelista vê um grande sinal nos céus. Os sinais que ele vê quando em espírito apresenta uma ‘visão’ panorâmica da história de Israel.

O apóstolo viu:

  • Uma mulher;
  • Vestida do sol;
  • A lua estava sob os seus pés;
  • Havia uma coroa sobre a sua cabeça;
  • A coroa possuía doze estrelas;
  • A mulher estava grávida;
  • Com dores de parto.

Estes dois versos não oferecem elementos suficientes para compor uma ideia ou correlação, pois ainda não foi apresentado um contexto que dê para correlacionar as figuras que compõe o ‘quadro’.

 

3  E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. 4  E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; 

Após ver uma mulher ‘vestida’ do sol, o evangelista viu outra imagem: um dragão: “E viu-se outro sinal no céu…”. Nesta visão é destacada as características do dragão: grande, vermelho, com sete cabeças e dez chifres e sete diademas.

A visão destaca um elemento curioso: a cauda do dragão. A cauda do dragão (cor de fogo) fez com que a terça parte das estrelas a seguisse, e a terça parte das estrelas do céu foram lançadas sobre a terra.

As estrelas vistas neste sinal não são às incontáveis estrelas celestes, até porque o evangelista está narrando uma visão composta de figuras.

 

4 e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho. 5  E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono.

As duas figuras apresentadas compõe um quadro único, e o verso quatro une os dois, demonstrando que as visões da mulher e do dragão estão interligadas.

O dragão, ao parar diante da mulher, tinha o interesse de destruir a criança que estava no ventre da mulher que gritava com ânsias de dar a luz. O dragão estava pronto para tragar a criança quando ela nascesse (v. 4).

O verso 5 trás um elemento chave que possibilita fazer afirmações sobre as visões.

A mulher vestida de sol diz da nação de Israel, pois o Cristo segundo a carne veio dos pais Abraão, Isaque e Jacó. As doze estrelas na cabeça da mulher simbolizam as doze tribos de Israel conforme a aliança que Deus estabelecera com os pais (Abraão, Isaque e Jacó) “Dos quais são os pais, e dos quais é Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente” ( Rm 9:5 ).

A mulher trouxe à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro! Quem seria este menino? O salmo segundo responde: “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão. Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro” ( Sl 2:7 -9; Is 66:7 ;  Ap 19:15 ).

O salmo 2 é messiânico, como atesta o escritor aos Hebreus ( Hb 1:5 ), e, como há somente uma pessoa destinada a reger todas as nações com vara de ferro – Jesus Cristo – podemos afirmar com confiança que o filho da mulher que estava grávida diz da pessoa de Jesus. Somente Cristo há de reger todas as nações de modo firme. A Cristo Deus prometeu as nações por herança e a terra por possessão ( Sl 2:8 ; Is 11:4 ; 1Co 15:24 -25).

O verso 5 contém dois tempos verbais distintos: ‘deu à luz’ e ‘há de reger’, o que demonstra que o filho que havia de nascer da mulher é evento passado (deu à luz), mas o tempo em que o filho da mulher vestida de sol regerá as nações ainda está por vir (há de reger) “E fala-lhe, dizendo: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é RENOVO; ele brotará do seu lugar, e edificará o templo do SENHOR. Ele mesmo edificará o templo do SENHOR, e ele levará a glória; assentar-se-á no seu trono e dominará, e será sacerdote no seu trono, e conselho de paz haverá entre ambos os ofícios” ( Zc 6:12 -13).

Através da profecia de Zacarias temos dois elementos a destacar: Cristo é o renovo do Senhor ( Is 53:2 ). Quando é dito que o renovo brotará do seu lugar, demonstra que o Cristo descenderá da linhagem de Davi e, que é Ele que edifica o templo do Senhor.

Ora, o templo do Senhor é a Igreja, o seu corpo, de modo que a Igreja leva sobre si a glória de Deus. Esta profecia tem relação direta com a Igreja, pois Cristo e a pedra angular do templo construído por Deus e não por mãos humanas ( Ef 2:21 ; At 17:24 ).

Após o templo do Senhor ser erguido, Cristo se assentará no trono do seu Pai, Davi, e regerá as nações com vara de ferro e dominará. Neste tempo não haverá distinção entres os ofícios de rei e sacerdote, pois em Cristo haverá a união de ambos os ofícios “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra” ( Jr 23:5 ).

A visão também demonstra que, embora o dragão estivesse posicionado para destruir o Cristo, não teria êxito na sua empreitada, pois o Cristo é tirado deste mundo para estar com Deus, assentando-se a destra do trono de Deus ( Mt 19:28 ; Is 53:8 ; Dn 9:26 ).

A visão destaca o papel da nação de Israel, e não o papel de um indivíduo. A promessa do Cristo foi feita a Abraão para cumprir-se nos seus descendentes, na nação de Israel, ou seja, não foi feita uma promessa a Maria. Embora o Cristo foi gerado no ventre de Maria, a visão não se refere a ela.

Eva também não é a mulher vestida de sol, apesar de Deus ter dito ao dragão, a antiga serpente que haveria inimizade entre a serpente e a mulher, e entre a descendência do dragão e o descendente da mulher ( Gn 3:15 ).

A Sétima trombeta do capítulo 11, versos 15 à 19 diz respeito ao menino que foi gerado pela mulher e arrebatado para o seu trono. Enquanto o capítulo 12 aponta para o Cristo que há de reger as nações, a Sétima trombeta noticia que o reino do Cristo é inaugurado ( Sl 110:1 -7), a revolta das nações ( Sl 2:1 -12), e o julgamento final.

Em suma, a visão da mulher e do dragão é uma descrição da história de Israel feito com figuras ( Is 54:5 ; Jr 3:6 -10; Os 2:19 -20). Israel é a nação (mulher), escolhida por Deus para trazer o Cristo ao mundo (gravida). Apesar de Satanás, a antiga serpente (dragão) querer devorar o menino que a mulher estava para dar a luz (Jesus), não conseguiu o seu intento, pois o menino que veio ao mundo foi arrebatado por Deus para o seu trono.

A serpente somente feriu o calcanhar do descendente da mulher, mas o descendente da mulher feriu a cabeça da serpente quando foi tomado para Deus ( Gn 3:15 ).

 

6  E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias. 

A mulher que foge para o deserto não pode ser a igreja, pois a igreja é o corpo de Cristo, e Cristo a cabeça (Mt 16:18 ). A igreja é o corpo de Cristo, e não há registro bíblico de que a igreja tenha gerado um filho.

Não há tempo estabelecido na bíblia para a igreja (judeus e gentios), de modo que o período de tempo de mil duzentos e sessenta dias (três anos e meio=metade de uma semana de anos=1 semana equivale a sete anos) aplica-se exclusivamente à nação de Israel, como se lê no livro de Daniel ( Dn 9:27 ; Ap 12:14 ).

A visão apresenta os eventos de Israel em ordem cronológica.

  • A mulher gravida;
  • O intento do dragão;
  • O dragão é frustrado;
  • O filho é tirado para assentar-se no seu trono;
  • A mulher foge para o deserto;
  • A mulher fica por um período de tempo sob os cuidados de Deus.

Após Cristo ter sido arrebatado para o seu trono, abriu-se a plenitude dos gentios e a contagem de tempo para mulher foi suspenso ( Rm 11:25 ). Quando for encerrada a plenitude dos gentios, a mulher (Israel) fugirá para o deserto.

‘Deserto’ não diz de um lugar árido, sem água e sem vegetação, antes é uma figura das aflições e provações pertinentes ao período de grande tribulação previsto, quando Deus tratará com o seu povo em particular e, em seguida dar-se-á a conversão de Israel “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração” ( Os 2:14 ).

Observe que Deus tirou Israel de uma terra pagã (Egito) e os atraiu ao deserto, mas não deram credito ao Senhor. Foram provados e reprovados, pois os seus corações permaneciam desejosos das coisas dos Egito ( Nm 11:5 -6; Dt 8:3). Cristo foi levado ao deserto pelo Espírito para ser provado, e venceu ( Mt 4:1 ). A mulher (Israel) ao seu tempo também será levada ao deserto (aflição), onde se converterá ao Senhor.

O que o apóstolo João relata nas suas visões não foi engenhosamente composto por ele, antes ele resignou-se a relatar o que efetivamente viu, pois ao final do Livro do apocalipse a exortação é clara: “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:18 ).

“Mas ele acrescentou de sua própria colheita algo que todos os pagãos da Ásia Menor eram capazes de reconhecer como parte da antiga representação babilônica da divindade. Muito frequentemente representavam a seus deuses com uma coroa na qual eram representados os doze signos do zodíaco. É como se João tivesse tomado todos os símbolos da divindade e da beleza que conhecia e os tivesse reunido nesta descrição” Barclay, William, Apocalipse, Pág. 298.

A acusação de Barclay é gravíssima e leviana, pois ele aduz que o apóstolo acresceu de si mesmo algo à Revelação. A afirmação de Barclay sugere que a visão de Deus não foi efetiva e que o apóstolo precisou compor de si mesmo a mensagem, lançando mão de símbolos do paganismo.

Se o apóstolo João acresceu de si mesmo algo à visão, elas não são dignas de aceitação, pois não haveria como separar o que é dá ‘colheita’ do apóstolo, e o que seria a visão de Deus.

Tanto Barclay quanto Moody classificam o dragão como arqui-inimigo de Deus, porém, Deus não possui arqui-inimigo. Satanás não está em pé de igualdade com Deus. Satanás é criatura de Deus, nomeia Deus de Altíssimo.

Satanás é inimigo dos homens, e não de Deus. Cogitar que Satanás é inimigo de Deus não passa do imaginário popular e das lendas dos povos. Deste imaginário surgiu o dualismo (bem versus mal), pensamento que não reflete a verdade bíblica.

 

7  E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; 8  Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. 9  E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. 

A batalha deste versículo (v. 7) é a explicação da visão da cauda do dragão do verso 4. A batalha se deu antes da mulher dar à luz ao menino, pois a descrição da cauda remete a eventos passados. A cauda aponta para eventos do passado do dragão.

Verso 4: “E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho”. Primeiro a cauda arrasta após si terça parte das estrelas e, posteriormente o dragão para diante da mulher quando ela ainda não havia dado a luz.

Cronologicamente, primeiro se deu a batalha nos céus (cauda do dragão), evento descrito pela cauda do dragão. O dragão é visto aguardando o nascimento daquele que há de reger as nações, mas o Cristo foi tomando para Deus. A batalha no céu não se deu quando Cristo ressurgiu e foi assunto aos céus e nem se dará na grande tribulação, quando a mulher fugir para o deserto (v. 14).

Enquanto as outras narrativas inicia-se com ‘Viu-se um sinal no céu…’, o verso 7 somente noticia que houve um batalha no céu. Este não é um evento histórico que a humanidade possa comprovar, como é o caso do evento da ‘mulher’ quando ficou frente ao ‘dragão’ que queria devorar o seu ‘filho’.

A visão do dragão e a referência a cauda (v. 4) representa uma ‘batalha’ no céu (vv. 7 -9), porém, foge do exposto na bíblia a ideia de que uma horda de demônio intentou invadir os céus para lutar contra Cristo.

Quando Cristo ascendeu aos céus, foi lhe dado todo poder. A glória que Jesus Cristo homem possuía antes de haver mundo, voltou a pertencer-Lhe, o que torna descabido uma tentativa de invasão da glória celeste por anjos caídos ( Jo 17:5 ).

Nada há o que ou quem se possa comparar com o poder de Deus. Quando o apóstolo Paulo fala da ação de Deus ao aniquilar o iniquo que virá sobre a eficácia de Satanás, demonstra que o sopro de Deus será suficiente.

A cauda do dragão aponta um evento passado: a rebelião de Satanás e a queda dos anjos, pois não guardaram os seus principados.

Quando nos deparamos com a narrativa de uma batalha no céu, não podemos considerar que houve um embate corpo a corpo, com lanças, espadas e vara paus entre anjos, pois estes seres não estão sujeitos às leis da física. O embate que houve nos céus não se deu à semelhança dos embates que há entre os homens quando em guerra.

A batalha nos céus se deu com palavras, exposição de ideias, assim como foi a disputa a respeito do corpo de Moises e da condição do sumo sacerdote Josué “Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda” ( Jd 1:9 ); “Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreenda, ó Satanás, sim, o SENHOR, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?” ( Zc 3:2 ).

Miguel e os anjos debateram com Satanás e seus anjos ( Ap 12:7 ), porém, Satanás (dragão) não prevaleceu e o seu lugar deixou de ser os céus. A única arma poderosa que há em uma batalha espiritual é a autoridade da palavra da justiça e da verdade: a palavra de Deus.

No verso 9 o apóstolo João descreve a queda de Satanás e dos seus anjos.

O dragão é apontado como a antiga serpente (Diabo, Satanás, Enganador), a mesma que abordou e enganou Eva no jardim do Éden.

Quando o dragão foi precipitado, a sua cauda arrastou após si terça parte das estrelas (anjos) “E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra” (v. 4). O que o apóstolo João viu em visão, Jesus presenciou acontecer: “E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu” ( Lc 10:18 ).

O dragão foi o querubim que Deus criou e o empossou como guarda no monte santo que ficava no Éden antes da criação e queda do homem. O lugar deste querubim não era os céus junto as outras estrelas de Deus, antes ficava no Éden ( Ez 28:13 ).

Este querubim nunca regeu corais de anjos, como sugere o imaginário popular, antes ele era guarda. Como guarda, possuía indumentária que o distinguia dos demais anjos e o tornava investido de autoridade sobre os demais ( Ez 28:13 -14).

Satanás, quando foi criado, era perfeito, tanto em formosura quanto em sabedoria ( Ez 28:12 ), mas certa ocasião achou-se iniquidade nele, pois quis lucrar (comércio) com a sua posição. Aquilo que ele foi comissionado para guardar, seu coração desejou e seu interior encheu-se de violência (injustiça), pois passou a dizer em seu coração “Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte. Subirei acima das mais altas nuvens, serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:13 -14).

Ele não guardou a sua posição (principado), a de guarda, pois ficou interessado na posição que seria dada a Cristo e os seus descendentes: a semelhança do Altíssimo. Enquanto Satanás acreditou que subir acima dos outros anjos (estrelas de Deus) o tornaria ‘semelhante’ ao Altíssimo, Deus desceu para fazer o homem a sua imagem e semelhança.

Satanás não buscou ser igual a Deus ou ser maior que o próprio Deus, pois não é factível que a criatura tome o lugar do Criador. Satanás, quando estabelece o seu plano, nomeia o Criador de Altíssimo em seu coração ( Is 14:14 ), pois Deus é o inatingível. Satanás buscou a semelhança, o que Deus propôs conceder aos homens.

“Há nas Escrituras o eco de uma antiga tradição sobre uma guerra que se teria travado no céu. Segundo esta história Satanás teria sido um anjo tão ambicioso para querer ser maior que Deus. Concebeu, assim, a ideia impossível de colocar seu trono mais alto que o trono divino (2 Enoque 29:4-5)” Barcley Pág. 304.

Outra colocação descabida de Barcley, é a de que há eco da tradição nas Escrituras. As estórias, fábulas e impressões narradas pela tradição não foram recepcionadas nas Escrituras, pois a tradição não é a infalível revelação de Deus.

Quando o dragão subiu do Éden e chegou aos céus, tentou convencer os anjos de que o seu intento era plausível. Nesta empreitada a terça parte dos anjos o seguiu e foram precipitados da sua posição (Jd 1:6 ). Por causa do seu resplendor, sabedoria e formosura, Satanás achou-se digno de lançar mão da semelhança do Altíssimo, porém, esta glória estava reservada para o Verbo encarnado quando retornasse à glória do Pai “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ); “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” ( Hb 1:3 ).

Embora fosse guarda no Éden e vislumbrasse a nova posição na hierarquia celestial que estava para surgir, a de semelhante ao Altíssimo, o dragão não compreendia o mistério da multiforme sabedoria de Deus, que só foi revelado aos anjos através da Igreja: que Cristo é a expressa imagem de Deus, a cabeça da igreja, e que todos os que ressurgem com Ele serão semelhantes a Ele “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 e 18; 1Jo 3:2 ; Ef 3:10 ).

Enquanto o apóstolo João narra os eventos pertinentes à cauda do dragão nos versos 7 à 9, Barcley sugere que Satanás perseguiu o Cristo quando foi tomado para assentar-se no seu trono “A ideia é que a fúria do dragão era tal que seguiu ao Messias até o próprio céu, onde lhe saíram ao encontro Miguel e suas legiões, os quais conseguiram lançá-lo de volta ao abismo” Idem, Pág. 304.

Quem é Satanás (criatura) para se opor ao Senhor Jesus Cristo (Criador) glorificado? Como a criatura pode opor-se ao Criador? O Criador não pode defender-se a Si mesmo que dependa de seus ministros mensageiros (anjos)?

 

10  E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. 11  E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte. 12  Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo. 

O apóstolo João ouviu uma grande voz que anuncia um novo tempo. ‘Agora’, o dia sobremodo oportuno, o dia de salvação está vinculado ao nascimento do menino que a ‘mulher’ deu a luz. O menino que nasceu é o Filho que Deus prometeu através do profeta Isaias: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” ( Is 9:6 -7).

Com o nascimento de Cristo veio salvação a todos os homens. Por intermédio de Cristo foi concedido salvação, o poder de serem feitos filhos de Deus. Cristo estabelece o reino de Deus, pois o evangelho é poder de Deus para salvação dos que creem.

Através da morte de Cristo, que se deu em obediência ao Pai, o dragão que se opunha dia e noite aos servos de Deus – Satanás – é vencido (derrubado) “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono” ( Ap 3:21 ); “Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus” ( Lc 22:69 ).

A descrição de que o filho que a mulher dera a luz foi arrebatado para Deus e para o seu trono apresenta o Cristo como vencedor “E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro…” ( v. 5; Mt 25:31 -32 ; Mt 19:28 ; Ap 19:15 ; Ap 3:21 ).

Os versos 10 à 12 de Apocalipse 12 demonstram que os que creem em Cristo são vencedores por causa da morte do Cordeiro de Deus e da palavra do seu testemunho (evangelho). Quem crê em Cristo não ama a sua própria vida, antes abriram mão dela “Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará” ( Lc 9:24 ).

“E não amaram as suas vidas até à morte” (v. 9), não é o mesmo que ser martirizado, antes a entrega total a Cristo, crendo no evangelho, pois ao crer no enviado de Deus, o homem morre com Cristo e deixa de viver, e a vida que passa a viver, vive-a na fé no Filho de Deus “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ).

O pensamento: “O martírio é, por si mesmo, uma vitória sobre Satanás. O mártir, esse homem que preferiu sofrer antes que negar sua fé ou claudicar só uma milésima parte de sua lealdade, é alguém que demonstrou ser superior a qualquer tentação de Satanás, a suas ameaças e até a sua violência” Barcley, Pág. 309., não reflete a verdade do evangelho, pois o que vence o mundo é a personificação da fé, ou seja, a fé manifesta, e não a disposição em ser mártir “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” ( 1Jo 5:4 ); “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Diante das boas novas anunciadas – de que Cristo assentou-se no seu trono vencedor e que os que creem também são vencedores – é proclamado aos céus que exultem “Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais” (v. 12).

Enquanto os que habitam os céus exultam, é lançado um ‘Ai’ sobre os moradores do mundo (terra e mar). Em seguida a voz que o apóstolo João ouve apresenta o motivo: “… porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo” (v. 12).

 

13  E, quando o dragão viu que fora lançado na terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho homem. 14  E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente. 

O evangelista João vê quando o dragão (Satanás) se dá conta que perdera o seu principado ao ser lançado na terra (cauda do dragão), e passou a perseguir a mulher (Israel).

As Escrituras mostra que Israel, como nação, sofreu e sofre perseguição, porém, o evangelista descreve um período específico estabelecido para a mulher (mil duzentos e sessenta dias), quando é concedidas asas de grande águia (providência semelhante à concedida a Israel quando tirado com mão forte do Egito), para que a mulher voasse (deslocasse) para o deserto ( Ex 19:4 ).

O deserto é lugar de juízo, prova, onde a mulher (Israel) permanecerá por um período estabelecido: um tempo, e tempos, e metade de um tempo “E o juízo habitará no deserto, e a justiça morará no campo fértil” ( Is 32:16 ; Os 2:14 ; Ez 34:25 ; Jr 31:2 ; Mq 7:15 ).

O ‘deserto’ é frequente na história de Israel, assim como os ‘períodos de tempos’ estabelecidos. É no deserto que Deus fala ao coração do seu povo “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração” ( Os 2:14 ).

Inicialmente foi profetizado a Abraão a aflição dos seus descendentes em terra alheia e o tempo de permanência do povo de Israel no Egito: “Então disse a Abrão: Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos” ( Gn 15:13 ).

Quando o povo de Israel foi tirado do Egito, foi Deus quem os guiou ao deserto por um caminho mais extenso, um cuidado para que não voltassem ao Egito ( Ex 13:17 ), de modo que Faraó chegou à conclusão que o povo estava embaraçado e presos no deserto ( Ex 14:3 ).

Os espias passaram quarenta dias observando a terra prometida ( Nm 13:25 ), e quando não confiaram no Senhor e não quiseram entrar na terra prometida, foi estabelecido um ano para cada dia que espiaram a terra, de modo que foram afligidos por quarenta anos no deserto ( Nm 14:34 ).

Moisés deixou claro que a aflição por quarenta anos no deserto era para dar entender ao povo que não é de pão que o homem vive, antes que vive pela palavra que sai da boca de Deus ( Dt 8:3 ). Ora, o deserto é lugar de humilhação, prova e instrução. É o lugar em que o povo de Israel tem um encontro com Deus.

Assim como Israel foi conduzido por Deus ao deserto para ser provado, Jesus foi conduzido ao deserto para ser provado ( Mt 4:1 ). No deserto há um embate entre a verdade e a mentira, entre o engano do diabo e a verdade da palavra de Deus.

A mulher da visão do apóstolo João será conduzida ao deserto e será posta a prova. De um lado haverá um rio para traga-la, e do outro a terra para absorver o rio.

Assim como Israel foi tirado do Egito e conduzido ao deserto para lançarem de si os seus ídolos, a ‘mulher’ (Israel) será conduzida ao deserto onde Deus entrará em juízo com a nação de Israel “O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante dos olhos dos gentios, no meio dos quais estavam, a cujos olhos eu me dei a conhecer a eles, para os tirar da terra do Egito. E os tirei da terra do Egito, e os levei ao deserto (…) E vos levarei ao deserto dos povos; e ali face a face entrarei em juízo convosco; Como entrei em juízo com vossos pais, no deserto da terra do Egito, assim entrarei em juízo convosco, diz o Senhor DEUS. Também vos farei passar debaixo da vara, e vos farei entrar no vínculo da aliança” ( Ez 20:9 -10 e 35 -37).

Assim como Israel saiu do Egito e passou quarenta anos no deserto sendo sustentado e provado por Deus por causa da incredulidade, de igual modo está estabelecido que a mulher ficará um tempo, e tempos, e metade de um tempo sustentada e cuidada por Deus em tempos de aflição qual nunca houve, de modo que os filhos de Israel lançarão de si os seus ídolos e passarão a confiar em Deus “E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não. E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem. Nunca se envelheceu a tua roupa sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Sabes, pois, no teu coração que, como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o SENHOR teu Deus” ( Dt 8:2 -5).

No período de grande tribulação, a mulher será levada ao deserto porque somente os que ‘habitam’ no deserto inclinarão perante o Cristo glorificado “Aqueles que habitam no deserto se inclinarão ante ele, e os seus inimigos lamberão o pó” ( Sl 72:9 ). Quando os que sobrarem de Israel naquele dia inclinar-se perante o renovo do Senhor, e chorarem amargamente ao verem aquele que trespassaram, os seus inimigos serão derrotados “Naquele dia o renovo do SENHOR será cheio de beleza e de glória; e o fruto da terra excelente e formoso para os que escaparem de Israel” ( Is 4:2 ); “Mas sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram; e pranteá-lo-ão sobre ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito” ( Zc 12:10 ).

Cumprir-se-á a promessa: “E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado” ( Is 60:21 ). 

Após a provação e as aflições daqueles dias se cumprirá a promessa: “Dize-lhes pois: Assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu tomarei os filhos de Israel dentre os gentios, para onde eles foram, e os congregarei de todas as partes, e os levarei à sua terra.  E deles farei uma nação na terra, nos montes de Israel, e um rei será rei de todos eles, e nunca mais serão duas nações; nunca mais para o futuro se dividirão em dois reinos.  E nunca mais se contaminarão com os seus ídolos, nem com as suas abominações, nem com as suas transgressões, e os livrarei de todas as suas habitações, em que pecaram, e os purificarei. Assim eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus. E meu servo Davi será rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor; e andarão nos meus juízos e guardarão os meus estatutos, e os observarão. E habitarão na terra que dei a meu servo Jacó, em que habitaram vossos pais; e habitarão nela, eles e seus filhos, e os filhos de seus filhos, para sempre, e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente. E farei com eles uma aliança de paz; e será uma aliança perpétua. E os estabelecerei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre. E o meu tabernáculo estará com eles, e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” ( Ez 37:21 -27).

 

15  E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar. 16  E a terra ajudou a mulher; e a terra abriu a sua boca, e tragou o rio que o dragão lançara da sua boca. 

A serpente é Satanás, o dragão que perseguiu a mulher ( Ap 12:9 ; Ap 20:2 ). Satanás arremessa de sua boca atrás da mulher ‘água como um rio’. Ora, o que sai da boca de Satanás é engano (lançou) ( Jo 8:44 ).

Mas, o engano, a mentira que é lançada da boca da Serpente compara-se a águas torrenciais de um rio. ‘Água’ representa doutrina, mensagem, palavra, que na figura, diz da palavra do engano, da mentira.

O salmista – ao falar da vaidade e da falsidade – demonstra que o engano é comparável as muitas águas de um rio “Estende as tuas mãos desde o alto; livra-me, e arrebata-me das muitas águas e das mãos dos filhos estranhos, Cuja boca fala vaidade, e a sua mão direita é a destra de falsidade” ( Sl 144:7 -8; Sl 72:14 ).

Somente Deus pode livrar o homem da boca daqueles que proferem vaidade (mentira) cuja força (destra) é a falsidade.

Quando o salmista faz a seguinte declaração: “Por isso, todo aquele que é santo orará a ti, a tempo de te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas não lhe chegarão. Tu és o lugar em que me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento” (Selá.) ( Sl 32:6 -7), o ‘transbordar das muitas águas’ refere-se ao espírito de engano, à mentira.

Somente os que confiam na palavra de Deus estão protegidos (abrigados, escondidos) dos lábios mentirosos ( Sl 32:2 ; Sl 31:18 e 20), mesmo que o engano ‘transborde’, não arrebatará o que crê.

A ação de Satanás sempre se processou através do engano, da mentira, mas, as ações da serpente descritas nos versos 15 à 17 dar-se-á em um período específico e de dois modos.

No verso 15 e 16 é exposto qual será o primeiro modo de atuação da serpente ao perseguir a ‘mulher’, e no verso 17 vê-se que a tática da Serpente mudará, conforme se depreende da mudança que há na visão, pois inicialmente o verso aponta para a Serpente e após utiliza a figura da Serpente, o dragão. Em decorrência da sua ira, o dragão porá em aperto a mulher através da guerra utilizando-se dos reis e reinos da terra.

No início da última semana de anos (sete anos) que terá início após o termino da plenitude dos gentios ( Rm 11:25 ), a ação da serpente será ‘destilar’ o seu veneno por três anos e meio. Será um período de engano, a mentira agirá de modo torrencial. O engado terá o seu curso através de falsos profetas e falsos cristos ( Mt 24:5 e 11; Mt 24:24 -26).

A mentira proveniente da boca da serpente, que é comparável a um rio, se dará em decorrência da manifestação do iníquo que virá sobre a eficácia de Satanás “E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem” ( 2Ts 2:9 -10).

No verso 15 a ‘água’ simboliza doutrina, que por ser proveniente da boca da serpente refere-se ao engano, portanto, diz da doutrina de engano “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ).

As mentiras serão torrenciais e pelos sinais e prodígios de mentira operados pelo homem do pecado, o filho da perdição, angariará a credibilidade de modo que fará uma aliança com muitos em Israel ( 2Ts 2:4 ; Dn 9:27 ).

O iníquo é apresentado no capítulo 12 como a besta que subiu da terra e que possui dois chifres semelhantes aos de carneiros, mas que fala como o dragão ( Ap 13:11 ). Além do engano proveniente dos ‘chifres’ que tem aparência de carneiro (falsos profetas), farão grandes sinais e até fogo farão descer dos céus enganando a muitos ( Ap 13:13 -14).

Este período é descrito por Cristo como princípio das dores ( Mt 24:8 ), um período de grande apostasia, visto que os falsos profetas enganarão a muitos e a besta que subiu da terra fará aliança com muitos “E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador” ( Dn 9:27 ).

Neste período a ‘terra’ ajudará a mulher, tragando o rio que o dragão lançara. A terra diz da providencia divina em dar as duas testemunhas que profetizará vestidas de saco por um tempo, dois tempos e metade de um tempo, opondo-se a besta que subiu da terra ( Ap 11:3 ).

Da mesma forma que a vara de Moisés engoliu as serpentes dos encantadores do Egito, a ação das ‘duas oliveiras e dos dois candeeiros’ que estão diante do Senhor de toda a terra (as duas testemunhas) será profetizar e realizar sinais assim como fizera Moisés ( Ap 11:3 -8; Zc 4:11 -14).

Mas como a inundação proveniente da boca de Satanás não subverterá a mulher, pois ela permanecerá no deserto cercada dos cuidados de Deus “Então temerão o nome do SENHOR desde o poente, e a sua glória desde o nascente do sol; vindo o inimigo como uma corrente de águas, o Espírito do SENHOR arvorará contra ele a sua bandeira” ( Is 59:19 ). Enquanto a mulher (Israel) permanecerá no deserto, haverá israelitas que farão aliança com a besta que subiu do mar, pois Satanás enganará a muitos ( Mt 24:11 ).

Satanás na sua ira (agora representado na visão como dragão), fará guerra ao ‘remanescente’ da ‘semente’ da mulher. Será um período de aflição, perseguição e de guerra jamais visto ( Mt 24:22 ), e o alerta de Cristo será o terreno firme (terra) que tragará a mentira (água) dos falsos cristos e profetas que impelirá os remanescentes a deixarem o deserto ou seus esconderijos: “Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito; Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que eu vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais. Eis que ele está no interior da casa; não acrediteis” ( Mt 24:23 -26).

É em função do volume de engano daqueles dias que é asseverado: “Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca” ( Mq 7:5 ). Se os próprios da nação disserem: – ‘Olha, o Cristo está ali’, não é para crerem, pois naqueles dias por causa do engano torrencial os inimigos serão os da própria nação “E então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo; ou: Ei-lo ali; não acrediteis” ( Mc 13:21 ); “Guardai-vos cada um do seu próximo, e de irmão nenhum vos fieis; porque todo o irmão não faz mais do que enganar, e todo o próximo anda caluniando” ( Jr 9:4 ).

O capítulo 7 de Miquéias demonstra qual será a confusão que se abaterá sobre os filhos de Israel e quando se dará a manifestação do Cristo: em um período de aflição qual nunca houve e nem haverá “E os entendidos entre o povo ensinarão a muitos; todavia cairão pela espada, e pelo fogo, e pelo cativeiro, e pelo roubo, por muitos dias” ( Dn 11:35 ; Jr 9:7 ; Is 48:10 ).

 

17  E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao remanescente da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo. 

Além de lançar da sua boca ‘água com um rio’, na sua ira a Serpente (dragão) através de dez reinos (dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas) fará guerra ao ‘remanescente’ da sua ‘semente’.

O dragão, através dos reinos e reis da terra porá em aperto o ‘remanescente da semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo’. Este aperto virá em decorrência da ‘inundação’ de engano. Neste tempo há uma nítida diferença entre os que restarem da semente da mulher e a mulher, visto que o remanescente conhece o Cristo e guarda o seu testemunho, enquanto a mulher ainda não conhece o Cristo, apesar de estar ao abrigo de Deus no deserto.

Quando o salmista diz: “Ainda que as águas rujam e se perturbem…” ( Sl 46:3 ), ele faz referência as nações enfurecidas: “As nações se embravecem…” ( Sl 46:6 ); “Rugirão as nações, como rugem as muitas águas, mas Deus as repreenderá e elas fugirão para longe; e serão afugentadas como a pragana dos montes diante do vento, e como o que rola levado pelo tufão” ( Is 17:13 ; Sl 124 ; Sl 93 ).

Mas, para falarmos do ‘remanescente’ da sua semente, ou seja, dos que guardam os mandamentos de Deus, é necessário destacar que, no Antigo Testamento os povos da face da terra subdividiam-se em judeus e gentios. Havia uma grande separação, como atesta o apóstolo Paulo: “… naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” ( Ef 2:12 ).

Com o advento de Cristo e a rejeição de Israel, inaugurou-se a chamada ‘plenitude dos gentios’, de modo que de dois povos (judeus e gentios) foi feito um. Foi desfeita a inimizade, foi destruída a barreira de separação, e a igreja foi formada de ambos os povos ( Ef 2:14 ; Rm 11:12 e Rm 11:25 ).

Por Deus ter chamado Abraão dentre os gentios e feito a promessa, os filhos de Jacó estabeleceram um distinção entre os gentios e os descendentes da carne de Abraão, embora as Escrituras protestasse contra eles dizendo: “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

O verdadeiro judeu seria o circuncidado no coração, porém, os filhos de Israel acreditavam que eram diferentes dos demais povos por praticarem a circuncisão do prepúcio (trocaram a realidade pela figura). Sabedor desta verdade ( Rm 2:29 ), de que não há distinção entre os povos quanto a salvação, o apóstolo Paulo desenvolveu o seu ministério entre os gentios “Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério” ( Rm 11:13 ), e o apóstolo Pedro entre os judeus.

Independente de ministério, a igreja de Cristo é a união de todos os povos em um só corpo, e Cristo a cabeça ( Ef 5:23 ).

Neste tempo presente (plenitude dos gentios), há judeus que são salvos, porém, são salvos pela graça que há em Cristo quando creem n’Ele como o Cristo de Deus. Como são poucos os judeus que reconhecem o senhorio de Cristo, o apóstolo Paulo os chama de ‘remanescente’ “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” ( Rm 11:5 ).

O apóstolo Paulo lembra o seguinte a respeito do povo de Israel: “Assim que, quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais” ( Rm 11:28 ). Vale destacar que, o remanescente de Romanos 11, verso 5 não é o mesmo remanescente de Apocalipse 12, verso 17.

A Igreja de Cristo inaugurou um reino celestial, de modo que Jesus disse: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” ( Jo 18:36 ), mas quando da sua segunda vinda, Deus entregará os reinos deste mundo ao Filho, e Ele há de reger as nações e se assentará sobre o trono de Davi “Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai” ( Lc 1:32 ).

Após o arrebatamento da igreja terá início a contagem da última semana de anos prevista a Daniel (um tempo, dois tempos e metade de um tempo), quando se dará a plenitude do povo de Israel ( Rm 11:12 ). Neste ‘tempo’ a Igreja estará reunida com Cristo nos céus participando das bodas do Cordeiro.

Lembrando que, quando o evangelho de Cristo foi anunciado, foi anunciado aos homens de boa vontade “Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens” ( Lc 2:14 ), e, quando iniciar o princípio de dores do qual Jesus falou, será necessário que o evangelho do reino em todo o mundo seja pregado para testemunho de todas as nações: “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim” ( Mt 24:14 ; Ap 14:6 -7).

O objetivo fim do evangelho de Cristo é a salvação do crente, que passa a compor o corpo de Cristo e que será arrebatado quando da vinda de Cristo. Já o evangelho do reino tem por objetivo as nações que, antes do reino milenar de Cristo iniciar, serão julgadas.

O fim não está relacionado com o arrebatamento da igreja, portanto, o arrebatamento não depende de que o ‘evangelho do reino’ seja apregoado ‘a todo o mundo e a todas as nações’. Mas, como evangelho do reino precede o fim, deve ser anunciado ‘a todo o mundo e a todas as nações’.

O capítulo 12 de Apocalipse trata tão somente da mulher, ou seja, de Israel como a nação escolhida por Deus para trazer ao mundo o Cristo. Daí vale salientar que a visão da mulher vestida do sol não se refere à Igreja de Cristo, e em momento algum faz alusão a ela.

O verso destaca que o dragão irou-se contra a mulher, e saiu resoluto a fazer guerra contra os demais, ou seja, aos que restaram da descendência. Outras traduções rezam: ‘… e foi fazer guerra ao remanescente da sua semente’.

‘Os que restaram’ é o mesmo que ‘remanescente’, e a ‘descendência’ o mesmo que ‘semente’, ou do grego ‘sperma’ (esperma, semente, filho). No verso ‘descendência’ ou ‘semente’ está no singular, como se apontasse para uma única semente, e não para muitos ‘filhos’, como algumas traduções sugerem.

Na visão a mulher é apresentada tendo um único filho, de modo que a nação de Israel embora sendo muitos é apresentada por uma única figura: a mulher, e a mulher dá a luz a um único filho.

Vale frisar que, assim como o apóstolo Paulo destacou que a promessa foi feita ao pai Abraão e a seu descendente, de modo que a promessa não era para os seus ‘descendentes’ (como falando de muitos, mas como falando de um só), vale destacar que o descendente é Cristo, ou seja, a semente.

Apesar de o dragão irar-se contra a mulher, o dragão é visto fazendo guerra contra o remanescente da semente da mulher, e não contra o remanescente da mulher. Na visão não é representado o remanescente da mulher, antes é apontado o remanescente da ‘semente’ da mulher – Cristo – que são os que guardam os mandamentos de Deus e que possuem o testemunho de Jesus.

Vale distinguir dois grupos de remanescente. O ‘remanescente’ da semente, ou seja, o remanescente de Cristo, aqueles que se converterem a Cristo no período de tribulação após o arrebatamento da Igreja, e o remanescente de Israel, que são os judeus que aguardam a manifestação do Messias.

O remanescente da semente refere-se aos mártires que serão mortos na grande tribulação e que são provenientes de todos os povos, línguas e nações, e que ressurgirão e reinarão com Cristo por mil anos ( Ap 20:5 ). Estes homens serão mortos no período de tribulação e grande tribulação, mas voltarão a vida (ressurgirão) como homens e serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com Cristo sobre todos os reinos da terra ( Ap 20:6 ).

O ‘remanescente’ de Israel refere-se aos judeus que permanecerão vivos no período de grande tribulação e entrarão no reino milenar de Cristo “E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado” ( Is 60:21 ). Este ‘remanescente’ será os judeus que verão o Cristo (Aquele que trespassaram) quando Ele colocar os seus pés sobre o Monte das Oliveiras, desfazendo com o sopro da sua boca o iniquo ( Zc 12:10 e Zc 14:4 ).

Ambos remanescentes entrarão no reino milenar de Cristo, a distinção está em que o ‘remanescente’ da semente é proveniente de todos os povos, línguas e nações e que durante o período de grande tribulação serão mortos por causa do testemunho de Cristo, pois não adoraram a besta, nem a sua imagem, e o remanescente de Israel serão os que permanecerão vivos durante o período de grande tribulação e entrarão no reino com Cristo “… e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” ( Ap 20:4 ); “E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram” ( Ap 6:9 ).

O remanescente da semente é proveniente de todas as tribos, línguas e nações, que serão apresentados diante do trono de Deus com vestes brancas e palmas nas mãos, pois foram cortados da terra no período de grande tribulação por não se dobrarem perante a besta. No fim da grande tribulação serão ressuscitados, e reinarão com Cristo por mil anos juntamente com os filhos de Israel que escaparem com vida do aperto das nações “…e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” ( Ap 20:4 ).

Sobre a guerra que se fará ao remanescente de Israel escreveu o profeta Zacarias: “Porque eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada, e as casas serão saqueadas, e as mulheres forçadas; e metade da cidade sairá para o cativeiro, mas o restante do povo não será extirpado da cidade” ( Zc 14:2 ). E é este o diagnostico de Isaias: “Também Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo” ( Rm 9:27 ); “Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, só um remanescente dele se converterá; uma destruição está determinada, transbordando em justiça” ( Is 10:22 ).

Há uma guerra descrita pelo profeta Zacarias que antecede o período de mil anos que não possui registro nos anais da história, visto que o seu desfecho envolverá uma intervenção maravilhosa jamais imaginada anteriormente por homem algum segundo o que foi descrito pelo profeta: apodrecimento repentino das carnes dos cavaleiros e de suas montarias “E esta será a praga com que o SENHOR ferirá a todos os povos que guerrearam contra Jerusalém: a sua carne apodrecerá, estando eles em pé, e lhes apodrecerão os olhos nas suas órbitas, e a língua lhes apodrecerá na sua boca. Naquele dia também acontecerá que haverá da parte do SENHOR uma grande perturbação entre eles; porque cada um pegará na mão do seu próximo, e cada um levantará a mão contra o seu próximo” ( Zc 14:12 -13 e 15), então Deus fará o remanescente herdarem o reino ( Dn 7:14 e 18).

Esta guerra será um embate de exércitos e de reinos sob o comando do dragão (que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas) que colocará a cidade de Israel em aperto por um tempo, dois tempos e metade de um tempo ( Dn 7:25 ), restando nela os que aguardam o socorro do Messias e que naquele dia dirão: – ‘Bendito o que vem em nome do Senhor’ “Porque eu vos digo que desde agora me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor” ( Mt 23:39 ); “Eu, porém, olharei para o SENHOR; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá” ( Mq 7: 7 ).

Este aperto se dará em função de Deus utilizar as aflições decorrentes da guerra perpetrada pelo dragão como crisol para ‘provar’ e ‘purificar’ a nação, de modo que 2/3 serão mortos ( Zc 13:8 ) e 1/3 do que sobrar sofrerá provações comparáveis ao ouro e a prata quando purificados no fogo ( Zc 13:9 ; Ml 3:3 ; Sf 3:13 ).

O que sobrar deste 1/3 passará pelo ‘fogo’, e o que restar será o remanescente de Israel que será salvo “Também Isaías clama acerca de Israel: ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo” ( Rm 9:27 ).

O remanescente da semente são os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo. O remanescente da semente não são os remanescentes de Israel, pois em vários textos bíblicos há um protesto de que eles não guardam a aliança.

Guardar o testemunho é crer no Cristo, o que Israel como nação não fará até que vejam o Cristo trespassado. Os remanescentes da semente são descritos como ‘bem-aventurados’, pois eles creram ( Ap 20:6 ), já o remanescente de Israel terá que ver o Cristo para se render a Ele, quando serão salvos ( Zc 12:14 ). Quando estiverem em aperto invocarão ao Senhor ( Ml 3:16 ; Mt 23:39 ), e Cristo virá: “E da sua boca tirarei o seu sangue, e dentre os seus dentes as suas abominações; e ele também ficará como um remanescente para o nosso Deus; e será como governador em Judá, e Ecrom como um jebuseu” ( Zc 9:7 ); “O remanescente de Israel não cometerá iniquidade, nem proferirá mentira, e na sua boca não se achará língua enganosa; mas serão apascentados, e deitar-se-ão, e não haverá quem os espante. Canta alegremente, ó filha de Sião; rejubila, ó Israel; regozija-te, e exulta de todo o coração, ó filha de Jerusalém” ( Sf 3:13 -14); “Por isso levantou a sua mão contra eles, para os derrubar no deserto; Para derrubar também a sua semente entre as nações, e espalhá-los pelas terras” ( Sl 106:26 -27 ; Ap 13:1 ; Dn 7:25 ).

Durante a perseguição da serpente (grande tribulação) muitos filhos de Israel terão a mão amiga de alguns povos e nações, que serão favoráveis aos ‘pequeninos irmãos’ de Jesus (judeus dispersos), dando a eles o que comer quanto tiverem fome, ou água quando estiverem com sede ( Mt 25:35 -40), e serão estas nações e povos que, quando julgados ouvirão: – “Vinde, benditos de meu pai, possui por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” ( Mt 25:34 ).

Já com relação ao remanescente de todas as tribos, línguas e nações, são os que “não adorarem a besta e a sua imagem e nem aceitarem o ‘sinal’ da besta”, antes esperarão no Senhor, ou seja, são os que “guardam o mandamento e tem a promessa de Jesus”  “E seguiu-os o terceiro anjo, dizendo com grande voz: Se alguém adorar a besta, e a sua imagem, e receber o sinal na sua testa, ou na sua mão, Também este beberá do vinho da ira de Deus, que se deitou, não misturado, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro. E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite os que adoram a besta e a sua imagem, e aquele que receber o sinal do seu nome. Aqui está a paciência dos santos; aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” ( Ap 14:9 -12; 19:10 e 19:19; Mq 7:7 ).

Na plenitude dos tempos Cristo foi gerado por Deus, lançado no ventre de Maria pelo Espírito Santo. Ele é o Verbo de Deus, a semente incorruptível ( Sl 22:10 ; 1Pe 1:23 ). Na visão do apóstolo João, Cristo é visto sendo gerado no ventre da mulher (Israel), de modo que há uma clara oposição entre a mulher e a Serpente, a semente da mulher e da Serpente, que representa a oposição entre a verdade e a mentira.

Como no Éden foi posto inimizade entre a Serpente e a mulhe, significando que haveria inimizade entre a semente (descendência) da mulher e a semente da Serpente, a visão expõe a inimizade que há entre as duas sementes “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” ( Gn 3:15 ).

A mulher da visão é vista dando a luz a um único Filho homem, portanto os ‘remanescentes’ da ‘semente’ são os que descendem de Cristo, visto que guardam os mandamentos de Deus, obedecendo ao testemunho de Cristo ( Ap 12:17 -18).

A benevolência do Senhor repousa sobre a semente do Cristo, pois somente a semente de Cristo serve a Deus “Pois engrandece a salvação do seu rei, e usa de benignidade com o seu ungido, com Davi, e com a sua semente para sempre” ( Sl 18:50 ); “Uma semente o servirá; será declarada ao Senhor a cada geração” ( Sl 22:30 ).

Os que amam o nome do Senhor são os que guardam os mandamentos de Deus, portanto herdará e habitarão em Sião “E herdá-la-á a semente de seus servos, e os que amam o seu nome habitarão nela” ( Sl 69:36 ).

A promessa de Deus repousa sobre o seu Ungido, sendo estabelecida a sua semente e edificado o seu trono para sempre “A tua semente estabelecerei para sempre, e edificarei o teu trono de geração em geração. (Selá.)” ( Sl 89:4 ); “E conservarei para sempre a sua semente, e o seu trono como os dias do céu” ( Sl 89:29 ); “A sua semente durará para sempre, e o seu trono, como o sol diante de mim” ( Sl 89:36 ).

Ora, a Igreja de Cristo é a geração do Senhor, a semente que durará para sempre. Assim como Cristo reinará, a sua Igreja se assentará a reinar e a julgar as nações. Assim como Cristo é os que creram serão semelhantes a Ele. Cristo ressurgiu e é as primícias dentre os mortos, os que creram ressurgiram com Ele e são primícias “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem” ( 1Co 15:20 ); “Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda” ( 1Co 15:23 ); “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ; 1Jo 3:2 ).

O arrebatamento da Igreja será a grande colheita das primícias, porém, os que se converterem no período da grande tribulação, ou seja, que guardarem os mandamentos de Deus, obedecendo ao testemunho de Cristo ( Ap 12:17 -18), serão tidos como os que restaram (remanescentes) da semente.

O remanescente será salvo em um período de grande tribulação jamais visto. Sobre este tempo indagou Isaias: “Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada. E o SENHOR afaste dela os homens, e no meio da terra seja grande o desamparo. Porém ainda a décima parte ficará nela, e tornará a ser pastada; e como o carvalho, e como a azinheira, que depois de se desfolharem, ainda ficam firmes, assim a santa semente será a firmeza dela” ( Is 6:11 -13), e Jesus alertou os seus discípulos quanto a estes eventos ( Mt 24:9 -10).

Será esta a condição de Israel antes que Cristo se assente a julgar as nações e o seu reino na terra estabelecido: “E naquele dia será diminuída a glória de Jacó, e a gordura da sua carne ficará emagrecida. Porque será como o segador que colhe a cana do trigo e com o seu braço sega as espigas; e será também como o que colhe espigas no vale de Refaim. Porém ainda ficarão nele alguns rabiscos, como no sacudir da oliveira: duas ou três azeitonas na mais alta ponta dos ramos, e quatro ou cinco nos seus ramos mais frutíferos, diz o SENHOR Deus de Israel. Naquele dia atentará o homem para o seu Criador, e os seus olhos olharão para o Santo de Israel. E não atentará para os altares, obra das suas mãos, nem olhará para o que fizeram seus dedos, nem para os bosques, nem para as imagens. Naquele dia as suas cidades fortificadas serão como lugares abandonados, no bosque ou sobre o cume das montanhas, os quais foram abandonados ante os filhos de Israel; e haverá assolação porque te esqueceste do Deus da tua salvação, e não te lembraste da rocha da tua fortaleza, portanto farás plantações formosas, e assentarás nelas sarmentos estranhos. E no dia em que as plantares as farás crescer, e pela manhã farás que a tua semente brote; mas a colheita voará no dia da angústia e das dores insofríveis” ( Is 17:4 -11).

As aflições daqueles dias são descritas desta forma por Cristo: “Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver. E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias” ( Mt 24:21 -22).

Ora, quando Jesus disse estas coisas, o povo de Israel já havia sofrido os revezes de Antíoco Epifânio (171 a. C), e Jesus deixa claro que as aflições daquele dia nunca houve desde o princípio do mundo até agora, e após elas, não haverá mais. Epifânio não é o iniquo que virá e que será desfeio pelo sopro de Deus ( 2Ts 2:8 ).

Nem mesmo a invasão de Jerusalém nos anos 70 d. C. pode ser considerado como as aflições daqueles dias, pois recentemente os filhos de Israel sofreram os horrores do Holocausto perpetrado por Hitler.

As aflições daqueles dias será o tempo do assolador que as abominações dos filhos de Jacó trouxeram sobre si, por terem se desviado da palavra do Senhor quando rejeitaram o Cristo ( Dn 9:27 ; Is 17:11 ), bem como as aflições que acometerá os que não creram no evangelho e não foram arrebatados.

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Fábulas – O menino e os três passarinhos

Jesus nunca negociou a liberdade da humanidade com Satanás, visto que Satanás não possuía o domínio sobre os homens, sendo Satanás filho do pecado e pai da mentira. Satanás é filho do pecado, diferente dos homens que são servos do pecado, portanto, possuem esperança no Filho de Deus ( Jo 8: 34 -35). A bíblia não apresenta Satanás como senhor dos homens, antes quem exerce domínio é o pecado.


George Tomas, um pregador Inglês, apareceu um dia em sua pregação carregando uma gaiola e, após coloca-la no púlpito, começou a falar:

“Estava andando pela rua ontem, e vi um menino levando essa gaiola com 3 pequenos passarinhos dentro com frio e com medo. Eu perguntei: – ‘Menino o que você vai fazer com esses passarinhos’? Ele respondeu: – ‘Leva-los para casa tirar as penas e queima-los, vou me divertir com eles’. – ‘Quanto você quer por esses passarinhos menino’?  O menino respondeu: – ‘O senhor não vai querê-los, eles não servem para nada. São feios’! O pregador os comprou por 10 dólares! E os soltou em uma árvore!”.

 

O menino e os três passarinhos

Após ler a fábula dos ‘Três Passarinhos’ tive que questionar até que ponto é válido este tipo de subterfúgios empregado pelos pregadores evangélicos em suas preleções.

“Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” ( 2Pe 1:16 )

Após contar a fábula dos três passarinhos, o pregador inglês fez a seguinte exposição:

“Um dia Jesus e Satanás estavam conversando e Jesus perguntou a satanás o que ele estava fazendo para as pessoas aqui na terra. Ele respondeu: – ‘Estou me divertindo com elas, ensino a fazer bombas e a matar, a usar revolver, a odiar umas a outras, a casar e a divorciar, ensino a abusar de criancinhas, ensino os jovens a usar drogas, a beber e fazer tudo o que não se deve e que os conduzirá a maldição futura! Estou me divertindo muito com eles’! Jesus perguntou: – ‘E depois o que você vai fazer com eles’? E recebeu a seguinte resposta: – ‘Vou mata-los e acabar com eles’! Jesus perguntou: – ‘Quanto você quer por eles’? Satanás respondeu: – ‘Você não vai querer essas pessoas, elas são traiçoeiras, mentirosas, falsas, egoístas e avarentas! Elas não vão te amar de verdade, vão bater e cuspir no Teu rosto, vão te desprezar e nem vão levar em consideração o que você fizer’! Novamente foi perguntado: – ‘Quanto você quer por elas Satanás’? Em seguida veio a resposta: – ‘Quero toda a tua lágrima e todo o teu sangue’! E satanás respondeu: – ‘Trato feito’! E Jesus pagou o preço da nossa liberdade!”.

Este conto reflete a ideia do evangelho? Jesus fez um trato com Satanás? Satanás exigiu algo de Cristo? O diabo está se divertindo? Que relação há entre a experiência do Pr. George Tomas com a criança e os passarinhos e as verdades bíblicas?

Vamos fazer uma análise desta preleção comparando-a com as Escrituras? É dever do cristão comparar as mensagens que ouve com aquilo que consta das Escrituras, ou seja, devemos comparar coisas espirituais com as espirituais, ou seja, comparando entre si as palavras dos Profetas, de Cristo e dos apóstolos.

A bíblia não faz referência a Jesus tendo uma conversa com Satanás nos termos apresentados pela estória dos três passarinhos. A bíblia também não apresenta Satanás como alguém que está se divertindo com a humanidade ( Ap 12:12 ), antes ela demonstra que Satanás tem grande ira e pouco tempo.

É improvável que um ser com grande ira e pouco tempo possa estar se ‘divertindo’. Satanás é apresentado como inimigo ferrenho dos homens, portanto, ele não está se divertindo “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” ( 1Pe 5:8 ).

A estória induz os ouvintes a pensarem que ação de Satanás consiste em ensinar às pessoas a confeccionarem materiais explosivos, a cometerem assassinatos, a odiar uns aos outros, a divorciar, a abusar de crianças, a usar drogas, etc. Seria esta a verdade das Escrituras?

A bíblia demonstra que a ação de Satanás é cegar os incrédulos para que não lhes resplandeça a luz do evangelho “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” ( 2Co 4:4 ). A ação de Satanás é fazer com que os homens incrédulos permaneçam entenebrecidos no entendimento, pois se os homens compreenderem a verdade do evangelho, serão trasportados por Deus para o reino do Filho do seu amor “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

Além de entenebrecer o entendimento dos incrédulos, a ação de Satanás consiste em enganar com astucia os que creram, para que se apartem da simplicidade que há em Cristo abraçando vento de doutrina “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo” ( 2Co 11:3 ); “Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” ( Ef 4:14 )

Enquanto a bíblia afirma que uma só ofensa matou todos os homens, a fábula do Pr. Tomas diz implicitamente que as pessoas são condenáveis porque aprendem lições de Satanás que os leva a construir bombas e a matar, a usar revolveres, a odiar umas a outras, a casarem-se e a divorciar, a abusar de criancinhas, os jovens a usarem drogas e a beber’.

Enquanto as Escrituras ensinam que Deus entregou os homens que se diziam sábios mas que se tornaram loucos aos seus próprios sentimentos para fazerem coisas inconvenientes ( Rm 1:25 ), a preleção do pastor afirma que o diabo é responsável pelos enganos dos homens.

Enquanto o Pr. diz que Satanás, depois de maltratar os homens, irá matá-los, a Bíblia afirma que os homens sem Deus já estão mortos em delitos e pecado.

Enquanto a fábula diz que a morte física é o grande trunfo de Satanás, a Bíblia demonstra que a morte (separação entre o homem e Deus), é consequência da ofensa de Adão.

A fábula mostra que Satanás é senhor (dono) dos homens, a Bíblia mostra que o senhor (dono) dos pecadores é o pecado e que Satanás, por sua vez, é filho do pecado.

O pastor ensina que Satanás exigiu que Cristo se sacrificasse, enquanto as Escrituras mostram que Deus exigiu a obediência de Cristo e que Ele foi obediente, portanto, resignou-se a morrer em uma cruz.

A fábula dos passarinhos é aparentemente inocente, inofensiva, porém, leva a uma compreensão distorcida de que a condenação futura se dá porque as pessoas aprenderam a ‘fazer bombas e a matar, a usar revolveres, a odiar umas a outras, a casarem-se e a divorciar, a abusar de criancinhas, os jovens a usarem drogas e a beber’.

A explanação do Pr. Tomas não é bíblica, pois o que conduz o homem à ‘condenação futura’ não são os vícios, antes o fato de terem entrado pela porta larga que dá acesso a um caminho largo que os conduz à perdição “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 ).

A fábula leva o leitor ao equivoco de considerar que a condenação é futura, o que contraria as Escrituras que demonstra que a condenação se deu no Éden, quando a humanidade foi julgada e está condenada ( Rm 5:16 ; Jo 3:18 ). Os homens não estão condenado por suas práticas desregradas da mesma forma que não serão salvos por suas práticas regradas, antes estão sob condenação em função da ofensa de Adão no Éden.

O que faz o homem permanecer sob condenação é o fato de não crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ).

A condenação não é decorrente das ações dos homens que fazem ‘tudo o que não se deve’, antes a condenação decorre da desobediência de um só homem que pecou e trouxe a condenação sobre toda a humanidade “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” ( Rm 5:16 ).

Enquanto o apóstolo Paulo apresenta uma só ofensa como causa determinante da condenação, o Pr. Tomas apresenta algumas condutas de homens desregrados. Ele se esquece que, por mais que o homem seja regrado, como era o caso do religioso Nicodemos, está sob condenação!

Mas, os equívocos não param por aqui, pois quando é dito que Satanás disse a Jesus que irá ‘matar e acabar com eles’, o Pr. Tomas se esqueceu de observar que é impossível a Satanás matar a humanidade uma vez que todos desde a queda de Adão já estão mortos em delitos e pecados, pois a morte é resultado da ofensa de um só homem pecou “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem” ( 1Co 15:21 ).

A morte não é ação de Satanás, antes veio por um homem, Adão. Desde a queda no Éden, todos se extraviaram e juntamente se tornaram imundos ( Sl 14:3 ; Sl 53:3 ). Por causa de Adão não há, se que um, que faça o bem e busque a Deus. Como a morte veio por um só homem e todos estavam mortos em delitos e pecados ( Rm 3:23 ; Rm 5:12 ; Ef 2:1 ), ninguém possuía entendimento ( Sl 14:2 ). Foi necessário Cristo vir ao mundo trazer o conhecimento de Deus para que por meio d’Ele os homens fossem salvos.

É impossível Satanás matar e acabar com os homens se eles são gerados em iniquidade e concebidos em pecado, ou seja, não há como Satanás matar aqueles que são gerados mortos em delitos e pecados. Desde a madre os homens alienam-se de Deus, andam errados e proferem mentiras desde que nascem ( Sl 58:3 ).

Jesus nunca negociou a liberdade da humanidade com Satanás, visto que Satanás não possuía o domínio sobre os homens, sendo Satanás filho do pecado e pai da mentira. Satanás é filho do pecado, diferente dos homens que são servos do pecado, portanto, possuem esperança no Filho de Deus ( Jo 8: 34 -35). A bíblia não apresenta Satanás como senhor dos homens, antes quem exerce domínio é o pecado.

O preço que o Pr. Tomas descreve como sendo estabelecido por Satanás: – ‘Quero toda a tua lágrima e todo o teu sangue’!, é juntamente engodo e blasfêmia, pois atribui a Satanás a exigência de Deus para estabelecer a justiça. O que Jesus sofreu no calvário não foi um desejo de Satanás, antes foi o Senhor Deus que determinou a morte de Cristo conforme o seu conselho ( At 2:23 ).

Foi Deus que deu o Seu Filho como Servo e Cordeiro ( Jo 3:16 ). Foi Deus que deixou registrado no rolo do livro que o Cristo deveria realizar a vontade do Pai e, é através desta vontade, a oferta do corpo de Cristo, que os que creem são sanificados “Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:7 -8; Hb 10:10 ).

Antes de ir ao calvário Jesus perguntou ao Pai se era possível passar d’Ele o cálice e, em seguida, Jesus foi crucificado cumprindo a vontade do Pai, pois colocou a sua alma por expiação do pecado “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” ( Is 53:10 ).

Enquanto Adão desobedeceu e vendeu todos os homens ao pecado como escravos, Jesus foi obediente ao Pai em tudo, morrendo morte de cruz. Foi do agrado do Pai enfermá-lo, portanto, as agruras da cruz não foi um desejo ou uma exigência de Satanás “Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:10 ).

O que Jesus realizou na cruz foi em obediência ao Pai, e não porque cedeu às exigências do inimigo das nossas almas. Na tentação do deserto Jesus não se sujeito a nenhuma das exigências de Satanás, antes Ele se rendeu as exigências do Pai!

Ora, com que base o Pr. Tomas transformou a fala da criança que mantinha os três passarinhos presos na fala de Satanás? Com que autoridade ele transforma a negociação que fez com aquela criança em particular em uma negociação entre Jesus e Satanás?

É para evitar tais erros que devemos seguir o exemplo do apóstolo Pedro, que disse: “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” ( 2Pe 1:16 ).

O apóstolo Pedro não compôs nenhuma fábula, nenhuma estória, para tornar compreensível o poder e a vinda de Cristo. Tudo o que foi apregoado aos cristãos, ou fora presenciado pelo apóstolo ( 1Pe 1:18 ; 1Jo 1:3 ), ou tinha por base as Escrituras produzidas pelos profetas “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 1Pe 1:19 ).

A igreja de Cristo deve ter por firme a palavra dos profetas e dos apóstolos, pois a palavra deles é como ‘luz que alumia em lugar escuro’, e tão somente por meio das palavras deles quando anunciadas pela igreja é que o conhecimento de Cristo, a glória de Deus, resplandece nos corações dos homens “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ).

Hoje há inúmeras fábulas ditas cristãs que ganharam até versões cinematográficas, porém, se analisadas à luz das Escrituras, encontraremos diversas heresias de perdição.

É crescente o número de estórias sob o rótulo de cristãs, como ‘As crônicas de Nárnia’, ‘A Cabana’, ‘O Senhor dos anéis’, etc.

Fábulas como ‘Os três passarinhos’, ‘A águia e a galinha’, ‘O escorpião e o peixinho’, não devem ser utilizadas em pregações, pois não refletem a verdade do evangelho.

O apóstolo Paulo deixa claro que em Cristo está escondido todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, portanto, basta expor aos homens o Cristo crucificado para que os homens vejam e creiam no amor que Deus tem por eles “Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo. Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” ( Cl 2:2 -3); “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ).

O evangelho de Cristo basta, pois o evangelho é o poder de Deus e a sabedoria de Deus! O apóstolo Paulo ao instruir os pastores Tito e Timóteo alertou-os quanto às fábulas e as genealogias judaicas ( 1Tm 1:4 -7). O obreiro deve manejar bem a palavra da verdade, ou seja, os profetas, a lei, os salmos, os provérbios. Se manejar bem tais livros das Santas Escrituras, é um obreiro que não tem do que se envergonhar e não necessita de fábulas e filosofias humanas “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” ( 2Tm 2:15 ).

Os cristãos não deviam aderir às práticas judaicas, que criavam alegorias para explicar o que não entendiam, pois, os cristãos já tinham a realidade: Cristo! Portanto, assim como receberam a Cristo, deviam prosseguir n’Ele, ou seja, sem dar ouvidos a fábulas, vãs sutilezas, filosofias de homens “Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele, arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças. Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” ( Cl 2:6 -8).

Os judeus criavam alegorias, parábolas e fábulas para interpretar as alegorias, ou seja, as figuras que a lei apresentava, porém, perdiam-se em sua carnal compreensão, pois a lei era sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas. Ora, se estamos de posse da imagem exata das coisas hoje, já não precisamos de alegorias e nem de fábulas, antes basta expormos a Cristo e este crucificado “PORQUE tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam” ( Hb 10:1 ).

Quem entra pelo caminho das fábulas produzirá questões loucas e sem instrução (conhecimento) alguma “E rejeita as questões loucas, e sem instrução, sabendo que produzem contendas” ( 2Tm 2:23 ), mas aquele que permanece nas palavras dos apóstolos e dos profetas torna-se sábio. Não precisa de fábulas, pois é perfeitamente instruído para a boa obra, perfeito, pois sabe redarguir, corrigir e instruir segundo as Escrituras “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura divinamente inspirada, é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” ( 2Tm 3:14 -17).

 

O aviso

O apóstolo Pedro alerta os cristãos dizendo que não anunciara o evangelho através de ‘fábulas artificialmente compostas’, apontando a sua inutilidade para o propósito de propagar a mensagem de Cristo. Ou seja, com esta colocação, o apóstolo Pedro enfatiza que o que foi anunciado aos cristãos possuía veracidade comprovada com o crivo das Escrituras e de testemunhos oculares, pois todos puderam presenciar a majestade de Cristo “… mas nós vimos a sua majestade” ( 2Pe 1:16).

Ele trás à lembrança o evento em que uma voz foi ouvida dos céus: “Porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido. E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo” ( 2Pe 1:17 ).

Além de anunciar o que viu e ouviu de Cristo, como fez os outros apóstolos, o apóstolo Pedro tinha por firme a palavra dos profetas, da mesma forma os cristãos devem imitá-los, de modo que Pedro instrui a rejeitar as fábulas e se voltar para as palavras dos profetas ‘… á qual bem fazeis em estar atentos’ “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pe 1:18 ).

O protesto do apóstolo Pedro não é contra o gênero literário que surgiu no Oriente, e que foi desenvolvido por Esopo, autor que viveu no século VI a.C., na Grécia antiga, a quem foi atribuído um conjunto de pequenas histórias, de caráter moral e alegórico, cujos papéis principais eram desenvolvidos por animais.

Ao observar a abordagem do apóstolo Pedro, vê-se que a crítica dele é contra aqueles que quererem apresentar Cristo ao mundo utilizando-se de mitos, contos falsos, como se fosse comparável à verdade das Escrituras, e deixam de lado o testemunho firme dos profetas.

O termo grego utilizado pelo apóstolo Pedro é muthos (μῦθος – mýthos), uma estória fabricada (fábula) que subverte (substitui) o que é realmente verdade, por isso mesmo é dito: fábulas artificialmente construídas.

A estória dos três passarinhos não passa de um mýthos, pois além de ter sido engendrada a partir da concepção do Pr. Tomas, ela subverte a verdade contida nas Escrituras.

O mýthos geralmente é construído a partir de sombras, e tem o escopo de estabelecer domínio sobre aqueles que por ele são enlaçados. Tem por base a ideia de humildade, mas deriva de uma carnal compreensão, pois não retrata o que os profetas e apóstolos disseram de Cristo. As fábulas geralmente são engendradas carregadas de ordenanças e preceitos morais segundo os princípios do mundo, e passam a impressão de sabedoria, devoção, humildade, severidade para com o corpo, mas não tem valor algum diante de Deus “Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo. Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, E não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus. Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” ( C l 2:17 -23).

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O ardil de Satanás

– Nosso Deus! Isso é muito ardiloso! – Comentei com os olhos arregalados, como se estivesse falando para mim mesma – Claro! Se acreditarmos que o Diabo teve a oportunidade de se insurgir contra Deus, o vemos muito mais poderoso do que ele é. Isso explica o medo e a luta de muitos crentes. Claro! Ao contrário de trabalhar para nos aproximarmos de Deus, lutamos para nos afastarmos de Satanás! Com isso ele ganha muito terreno.

 


Certa feita, meu marido e eu nos deparamos com um livro que fazia uma intrigante pergunta: “Porque o justo sofre?”

Para quem lê a Bíblia esta pergunta é fácil de responder, no entanto, como se tratava de um livro inteiro com a proposta de responder esta pergunta, consideramos que seria interessante conhecer seu conteúdo.

Não desejo falar de sofrimento, mas da pessoa que acreditamos causar o sofrimento dos justos. Isto porque o livro apresenta Satanás como causador do sofrimento dos justos quando aponta que este se apresentou diante de Deus para acusar o patriarca Jó.

Como é nosso costume verificar se as afirmações estão em conformidade com as Escrituras, obtivemos um deleitoso conhecimento quando compreendemos o modo de trabalhar do Diabo.

Essa atitude nos deu mais segurança em Deus e algumas razões para discordar do livro, além de descobrimos que, muito do que se ouve acerca de Satanás é MENTIRA.

– É certo que uma mentira dita muitas vezes vira consenso. E uma mentira que virou consenso entre os cristãos, foi que Satanás quis ser igual a Deus, – disse-me meu marido.

Parei o que estava fazendo, olhei para ele um tanto preocupada, e disse: – Como você pode dizer que isto é mentira?! Está escrito na Bíblia!

-Venha ler o que está escrito na Bíblia, disse ele com o dedo no trecho bíblico de Isaias ( Is 14:14 ). Então li em voz alta: -Subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.

– Ser igual e ser semelhante NÃO são a mesma coisa, minha Linda. O próprio versículo demonstra isto. Veja que o próprio Satanás, no seu coração, chama Deus de Altíssimo. Entre Criador e criatura existe um abismo intransponível. Ao nomear Deus de Altíssimo, Satanás o reconhece como inatingível e inigualável. Explicou-me ele com os olhos arregalados, como se tivesse descoberto um diamante enorme. E continuou: – O salmo 89 confirma esta verdade.

Folheou a Bíblia, ainda com entusiasmo e mostrou-me o verso 6 deste salmo: “Pois quem no céu se pode igualar ao SENHOR? Quem entre os filhos dos poderosos pode ser semelhante ao SENHOR?”

– Satanás foi criado por Deus como todos os outros seres do Universo. Ele foi criado e posto na posição mais elevada na ordem celestial, ele era querubim da guarda ungido, perfeito em seus caminhos e sábio. Na ordem celestial, ele estava no topo da hierarquia, mas ainda assim, uma criatura de Deus, é o que está escrito em Ezequiel ( Ez 28:12 ). A distância entre homens e Deus é a mesma que anjos e Deus!

Querida, o homem mais simples sabe que é impossível à criatura tomar ou alçar o lugar do Criador. Se é estranho ao homem, que possui conhecimento limitado, afirmar que é possível alguém tornar-se o Criador, imagine se não é absurdo que um ser criado cheio de sabedoria tenha intentado ser o próprio Criador. – Disparou ele a me explicar.

– Nosso Deus Querido! Tem toda razão, – eu lhe disse ainda atônita com tanta explicação. Mas você não considera a ousadia de Satanás? Vir à presença de Deus acusar Jó?

Ele diminuiu o ritmo e disse-me mais calmamente: – Você deve se esvaziar das idéias pré- concebidas quando lê a Bíblia… Escute isto, porque faz toda a diferença… ”Viste o meu servo Jó?”, e mostrou-me o trecho bíblico “E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” ( Jó 1:8 ), enquanto falava: – Quem faz esta pergunta é Deus… Deus é quem evoca Jó na conversa. NÃO FOI SATANÁS… Isso porque, neste livro, o livro de Jó, Deus evidencia a diferença entre a justiça do homem e a Justiça de Deus. Qualquer outro personagem que não fosse íntegro e reto como Jó, somente evidenciaria a misericórdia de Deus.

Olhei para ele um tanto extasiada, ainda pela afirmação de que foi Deus quem trouxe Jó para a conversa. Sem poder e nem querer negar tal explicação, mas a impressão que ele teve foi que eu não aceitava esse entendimento.

Ora, para mim é muito bom saber que Deus está no controle da vida dos justos. Quanto menos poder Satanás tem, mais alegria e segurança sinto em meu Deus. Isso é ótimo para os justos.

Na tentativa de passar toda informação necessária a um bom entendimento, ele continuou: – A quem tal mentira favorece? ‘que Satanás quis ser igual a Deus’. Essa mentira deu à luz a dualidade: bem versus mal, Deus versus Satanás, ou seja, equivalência entre Deus, o Criador e o Diabo, a criatura.

– Nosso Deus! Isso é muito ardiloso! –Comentei com os olhos arregalados, como se estivesse falando para mim mesma – Claro! Se acreditarmos que o Diabo teve a oportunidade de se insurgir contra Deus, o vemos muito mais poderoso do que ele é. Isso explica o medo e a luta de muitos crentes. Claro! Ao contrário de trabalhar para nos aproximarmos de Deus, lutamos para nos afastarmos de Satanás! Com isso ele ganha muito terreno.

Voltei-me para meu marido dizendo-lhe: – Querido, isso deve ser esclarecido para o povo de Deus. Seremos muito mais produtivos de posse desse conhecimento.

Ao ouvir estas palavras seu semblante iluminou-se, e disse: – Depois quero falar pra você de Satanás, antes e depois da queda. CONFORME A BÍBLIA, tá?

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Satanás antes e depois da queda

Quando Deus criou os seres celestiais, ao querubim ungido disse: “Tu és o selo da perfeição, cheio de sabedoria, e perfeito em formosura” ( Ez 28:13 ). A descrição do querubim se prende na veste dele, (indumentária), sendo ela criada no dia em que ele foi trazido à existência “Cobrias-te de toda pedra preciosa (…) no dia em que foste criado foram eles preparados” ( Ez 28:13 ). Até ser achado iniquidade no querubim ungido, ele é descrito como: “Perfeito eras no teu caminho, desde o dia em que foste criado…” Ez 28:15 … Falava ele lendo a Bíblia após cada explicação.

 


Quer aprender mais como interpretar a Bíblia? Perguntou meu marido, como menino que pergunta se o coleguinha quer pirulito, na certeza de que é a coisa que o outro mais deseja.

Entrei no clima e respondi: Eu quero, eu quero! Me escolhe, me escolhe!

Esse ar de brincadeira chamou a atenção de nossa filha, que disse: – O que está acontecendo aí gente? Também quero.

– O pai vai me ensinar sobre Satanás. Respondi.

– Credo! Não quero nada disso não. Disse ela.

– Oh filha, – disse-lhe com a voz consternada – por quê?…

Depois da alegria que senti em saber que Satanás não era tão poderoso quanto eu acreditava, achei que todos deviam ter o mesmo sentimento quanto a conhecer a verdade que a Bíblia ensina.

Mami, eu já sei quem é Satanás! Respondeu ela toda confiante.

– Você sabe como Satanás era antes da queda? Perguntei-lhe.

Ela balançou a cabeça devagar, em sinal de negação e um tanto constrangida, afinal de contas, tinha falado que já sabia quem era Satanás, no entanto, ainda faltavam informações.

Aham! Então?… Insisti: Senta aqui com a gente, vai ser bom pra nós.

Ela sentou-se, não muito interessada. Aquele desprezo típico de adolescente na expressão do rosto.

Meu marido, em silêncio, já havia marcado dois trechos bíblicos enquanto eu tentava convencer nossa filha a aprender um pouco de interpretação.

Ao sentarmos, ele perguntou: Onde Satanás estava antes da queda?

Respondemos em coro: No céu.

– Na nani nãnão! Falou ele com ar de sabichão.

Com a decepção estampada no rosto, ela disse: Pai, pai, desde que me entendo por gente, que não faz muito tempo, -rsrsrs-, Satanás foi precipitado do céu.

Eu, que não queria passar vexame na frente de minha ex- aluna da escola dominical, nem abri a boca. Percebi que ele já havia investigado na Bíblia e iria dar sua cartada triunfal: revelar um conhecimento pouco percebido pelos leitores da Bíblia. Até abri um pouco mais os olhos.

Ele leu em voz alta, um pouco mais que o normal: “Estavas no Éden, Jardim de Deus” ( Ez 28:13 ).

A menina com olhos e boca abertos, estendeu a mão e arrastou a Bíblia vagarosamente até ela e leu em silêncio e a devolveu ao pai, pronta pra ouvir o comentário que sabia que seguiria aquela leitura. Claro que, a essa altura a expressão do rosto não era mais de desprezo, até alinhara-se na cadeira.

Muito motivado, afinal sua platéia aumentara cem por cento, ele começou a explanação: Quando Deus criou os seres celestiais, ao querubim ungido disse: “Tu és o selo da perfeição, cheio de sabedoria, e perfeito em formosura” ( Ez 28:13 ). A descrição do querubim se prende na veste dele, (indumentária), sendo ela criada no dia em que ele foi trazido à existência “Cobrias-te de toda pedra preciosa (…) no dia em que foste criado foram eles preparados” ( Ez 28:13 ). Até ser achado iniquidade no querubim ungido, ele é descrito como: “Perfeito eras no teu caminho, desde o dia em que foste criado…” Ez 28:15 … Falava ele lendo a Bíblia após cada explicação.

-Amor… o interrompi.

-Que foi?

– Dá pra você ser menos erudito? Ezequiel vinte oito, quinze. Parece que tá dando aula de teologia. A menina tem 14 anos, daqui a pouco ela vai ter sono. Observei.

Ah… Tá. Me empolguei um pouco. Disse ele com semblante risonho. E continuou.

-Certo… Satanás era BONITÃO. Ao meu entender, o mais lindo, “Perfeito em formosura” a roupa dela era de pedras preciosas. Ele foi criado especial entre os anjos.

-Pai, Deus não ama todos os anjos iguais? Perguntou nossa filha, um tanto decepcionada. Por que ele criou Satanás mais especial que os outros?

– Porque ele teria uma MISSÃO especial… Respondeu ele com satisfação, pois despertara questionamentos naquela cabecinha. – Leia aqui, o verso quatorze. Deslizou a Bíblia até a garota.

-“Tu eras querubim da guarda ungido…” leu ela, enquanto a Bíblia deslizava novamente para o pai, puxada por ele. Então levantou os olhos para ele para ouvir o que seguiria.

– Deus o estabeleceu como guardador do Monte Santo. Vocês não podem esquecer que o Monte Santo era o Éden. Ouça o que diz o versículo treze: “Estavas no Éden, jardim de Deus”.

-É mesmo. Dissemos em coro. Ela continuou: Ele não estava no céu, mas porque ele tinha que guardar o Éden, Monte Santo? De quem ele Tinha que guardar? Nem ele era Diabo ainda?

Olhei para a menina perplexa. Como podia surgir tanta pergunta de uma vez. Diga-se de passagem: E que perguntas!

– Essa é minha garota! Disse meu marido com satisfação. Nós três soltamos um riso, quase em uníssono. Nisso, meu filho que estava jogando vídeo game, parou o jogo e se juntou a nós.

-Eitáá! Expressou-se meu marido. –Minha platéia já aumentou mais cem por cento. Um aumento de duzentos por cento em um dia. Isso é fenomenal.

Dessa vez todos riram gostosamente.

-Ai pai! São três aluninhos, e todos… sua família. Disse o menino com deboche.

Mais risadas.

Que isso menino? Você sabe quem é o homem que pode ensinar a palavra de Deus para toda a família? Perguntou com ar de brincadeira, parecendo austero.

Quem? Perguntou o garoto, rindo um tanto desafiador.

EU! Respondeu o pai.

Mais risadas rechonchudas.

-Tá, tá. Muito bom a descontração, mas desejo ouvir minhas respostas. Interrompeu a menina.

– São perguntas excelentes, filha, mas deixarei para responder em outra ocasião. Neste mesmo local e talvez, não nesta mesma hora. Quero terminar de falar sobre Satanás, suas perguntas evocam a igreja, os anjos, o propósito eterno, e por aí a fora. Disse o pai com desejo de não desviar do assunto.

Sua preocupação era que esta aprendizagem fosse sedimentada na cabecinha da filha, pois em nenhum momento antes ela mostrara tanto interesse. Mas se falasse tudo de uma vez, as informações ficariam soltas e não seria muito útil.

-Satanás era um anjo da ordem dos querubins. Ou seja, Satanás era um anjo de posição elevada perante os seus semelhantes. Ele era nomeado como o portador de luz. A Bíblia descreve Satanás antes da queda como sendo o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Ele estava no jardim do Éden, Jardim de Deus, e quando da sua criação, também foi preparado os seus ornamentos (veste).

Ele devia ficar no monte santo de Deus, exercendo a função para a qual foi comissionado: guarda ungido. Ele havia assumido a MAIOR POSIÇÃO DA HIERARQUIA CELESTIAL, porque Deus o estabeleceu nesta posição.

-Amor, explica o que é hierarquia, talvez nosso filho não saiba. Disse eu preocupada com o entendimento do garoto.

Respondeu ele: Este menino é inteligente, e se ele não souber, tenho certeza de que vai olhar no dicionário.

Pareceu-me que o garoto estava flutuando na cadeira com o elogio do pai. O qual continuou a explicação sem nem notar o que acabara de fazer.

-Porém… porém… – Deslizou a Bíblia para o garoto e disse: leia aqui menino. Estava aberto no livro de Ezequiel, capítulo vinte oito verso quinze

O menino leu sem demora: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti”

Ele puxou a Bíblia de volta para ele e disse com voz de locutor de rádio: E-ELE PE-E-COU.

-É neste “momento” que ele diz em seu coração: “Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:13 e 14).

– Notaram aqui o que ele diz?

Todos quiseram responder ao mesmo tempo, mas foi observado pelo pai: -Um de cada vez, primeiro minha esposa.

-Que Satanás quis subir acima das estrelas de Deus, que são os anjos. Falei toda confiante, pois estava até dando o significado da figura ‘estrelas de Deus.

-Você, minha primogênita. Continuou ele sem nem me dar parabéns.

– Concordo com a mãe, pai. Asseverou a menina.

-Agora você, meu varãozinho.

– O problema estava em Satanás querer ser semelhante a Deus? Respondeu o garoto, fazendo pergunta.

-O fato de ele querer ser semelhante a Deus, foi mesmo o problema, mas quero lhes mostrar uma coisa interessante, uma coisa que reafirma que Satanás não estava no céu. Respondeu o pai olhando para mim.

Olhamos uns para os outros e saiu quase um grito de guerra: “EU SUBIREI AO CÉU”!

– Se ele quis subir é porque ele não estava lá, né pai? Disse nossa menina com os olhos estatelados.

-Isso é que é família. Disse ele orgulhoso. – Continuando e concluindo. Chamou-nos a atenção por causa da euforia que nos causou o elogio dele.

Voltamo-nos para ele mais atenciosos do que nunca.

-Por se achar o pecado no querubim ungido, Deus o destituiu da sua posição, lançando-o profanado para fora do monte e Satanás recebeu a penalidade: A MORTE!

– Como vocês sabem, estar separado de Deus é… MORTE! Concluiu o pai, satisfeito.

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A inveja de Satanás

Quando Satanás viu todos aqueles preparativos para a chegada do novo ser que iria ocupar tão excelente posição, desejou tal posição para si. Fez cálculos e achou que para adquirir a semelhança do Altíssimo, pois é um posição superior a de anjos, deveria subir. Ele se enganou RE-DON-DA-MEN TE. Deixou seu principado, a posição para qual foi estabelecido, ou seja, a sua função de segurança, e lançou-se na empreitada de se assentar no monte da congregação nas extremidades do norte.

 


– Quem quer pão? Ouvimos meu marido perguntar com entusiasmo.

Esta oferta se apresentou um tanto estranha. Houve até uma hesitação em atendermos à oferta.

Ele tem prazer em nos ver comer algo que ele mesmo tenha preparado. Vez por outra vai para a cozinha e prepara uma ‘mistureba’, até muita gostosa, que chamamos de “gororobinha” do pai. Mas, era algo inteiramente inusitado nos oferecer pão.

Passado o momento de desconfiança, saímos da sala onde estávamos e fomos ao seu encontro. Nossa desconfiança se revelou autêntica.

Cadê o pão pai? Perguntou meu filho.

– Gostaria de continuar aquele assunto que começamos sobre Satanás. Falou ele com os olhos bem abertos, um sorriso maroto na face e a Bíblia aberta na mão. – A Palavra de Deus é pão, e está bem aqui na minha mão. Quem quiser se servir é só tomar assento numa destas cadeiras. Ensinei a vocês que Satanás quis a semelhança do Altíssimo, e agora quero que vocês saibam POR QUE SATANÁS INTENTOU ALCANÇAR A SEMELHANÇA DO ALTÍSSIMO.

Fui a primeira a sentar.

Minha filha com os olhinhos cerrados e o canto da boca puxado para a direita disse: – Muito esperto isso, pai. Vou tomar assento.

Parecia estar zombando do termo: tomar assento.

– Ouvi um pregador dizendo que o orgulho o fez cometer este erro, pai. Disse nosso menino se assentando também.

– Isso pode até ser verdade, filho, veja o que a Bíblia diz sobre ele, falou meu marido mostrando a passagem bíblica de Ezequiel 28:12 e 13 “Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônia, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados” ( Ez 28:12 -13 ). O próprio Deus diz que Satanás era perfeito em formosura! Tais adjetivos, possivelmente despertou o orgulho de Satanás, a Bíblia também demonstra que Satanás morreu de INVEJA!

O QUE? Perguntamos em coro.

– A inveja matou Satanás, ou seja, o separou de Deus.

Fez-se o silêncio.

– Vou explicar para vocês passo a passo. Falou ele abrindo a Bíblia bem no começo. Dava para perceber que era o livro de Gênesis.

– Leia aqui filha, em alto e bom som. Disse ele para a menina que atendeu com satisfação.

– E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;…

– Somente até aí, filha, -disse meu marido interrompendo a leitura. – Vocês perceberam neste versículo alguma coisa que Satanás desejou? Perguntou, levantando e abaixando as sobrancelhas rapidamente.

– A semelhança, – respondi. – Tá começando a fazer sentido.

– Pois é. Quando Deus disse: -Façamos o homem, os anjos já existiam e ouviram O GRANDIOSO PROJETO de Deus. Imaginem vocês… Justamente o anjo perfeito em formosura, sábio e coisa e tal, que foi designado para guardar o Éden. Quão grande seria este projeto! Digam-me: de quem ele iria guardar o Monte Santo se nem o diabo existia ainda?

– Só podia ser de anjos, né pai? Respondeu nosso filho sob forma de pergunta.

– Isso mesmo filho! – Concluiu ele. A semelhança do Altíssimo era algo que estava oculto até que Cristo inaugurou a igreja. Nem mesmo os anjos sabiam direito desse assunto. Veja o que diz Romanos 16:25 “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto“. – O mistério foi estabelecido antes mesmo de ser criado o homem. Se o mistério decorria do projeto de Deus, segue-se que tal projeto estava oculto dos anjos.

– O que muita gente precisa perceber é que esta profecia de Gênesis tem dois tempos distintos: Façamos o homem à nossa imagem. Olhem o que diz no versículo 27: E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou”, cadê a semelhança?”

– O Senhor quer dizer que Deus não criou o homem imagem e semelhança? Perguntou a menina.

– A Bíblia está dizendo que primeiro Ele criou o homem à sua imagem, e que no segundo tempo lhe daria a sua semelhança. Respondeu o pai com segurança.

– Quem inventou o futebol deve ter entendido isso pai! -Disse o menino dando risadinhas – Primeiro e segundo tempo.

Rimos gostosamente.

– Que isso menino? Brincou o pai continuando o ensino, pois os alunos estavam bem atentos.

– Mas no primeiro tempo houve uma falta grave, e a semelhança chegou bem mais tarde! Houve uma prorrogação do primeiro tempo. Disse ele querendo manter o clima alegre. – Para Adão receber a semelhança do Altíssimo, tinha que crer na Palavra de Deus, mas ele não creu. Então ele foi substituído no segundo tempo pelo segundo Adão, que é Cristo Jesus.

Ah amor, fala direito! Observei. – Só sei que quando a bola toca a rede é gol, é tudo o que entendo de futebol.

– Quando Satanás viu todos aqueles preparativos para a chegada do novo ser que iria ocupar tão excelente posição, desejou tal posição para si. Fez cálculos e achou que para adquirir a semelhança do Altíssimo, pois é um posição superior a de anjos, deveria subir. Ele se enganou RE-DON-DA-MEN TE. Deixou seu principado, a posição para qual foi estabelecido, ou seja, a sua função de segurança, e lançou-se na empreitada de se assentar no monte da congregação nas extremidades do norte. O plano parecia possível ao querubim da guarda e a uma terça parte dos anjos que ele conseguiu atrair. Abra a Bíblia no último livro, filho. Apocalipse 12:4 e leia para nós. Mandou ele.

O que alegra este homem é poder mostrar as verdades na Bíblia. Pensei comigo. Toda vez que ele tem a oportunidade de nos mostrar passagens bíblicas, dá para perceber seu semblante iluminar.

– E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra… Leu o menino em voz alta.

– Diferentemente do que Satanás pensava que tinha que subir acima dos seus companheiros para alcançar a SEMELHANÇA de Deus, foi necessário que Deus descesse para dar ao homem sua SEMELHANÇA. – Este grande engano causou a morte de Satanás. E, mesmo depois de separado de Deus, ele se esforçou para que o homem também não alcançasse a semelhança, sabendo que o homem foi criado para este propósito. Isso não se parece com inveja? Não parece inveja a atitude, até hoje, dele ficar em derredor dos salvos, rugindo, buscando a quem possa tragar? Perguntou o pai já em tom de discurso.

– Parece, pai, parece. Disse o menino e a menina juntos.

– Vamos verificar no dicionário o que é inveja? Perguntei com os olhos mais abertos que o normal.

– Eu busco, mãe. Meu filho se prontificou.

Em poucos minutos, estávamos focados no dicionário, procurando a palavra inveja na letra i.

inveja
in.ve.ja
sf (lat invidia) 1 Desgosto, ódio ou pesar por prosperidade ou alegria de outrem. 2 Desejo de possuir ou gozar algum bem que outrem possui ou desfruta. 3 O objeto que provoca esse desejo. Var: invídia.

– Nosso Deus! Satanás se enquadra mesmo no termo inveja! Observei um tanto impressionada. – Quão grandes coisas preparou Deus para nós.

– Pai, se um anjo especial, e bota especial nisso, teve inveja do que Deus preparou para nós, então… Disse nossa filha não encontrando palavras para terminar o raciocínio.

– Lúcifer rejeitou seu principado para lançar mão de uma posição que ele desconhecia e não sabia como alcançar. Lembram-se que era um mistério oculto? Mas, ele sabia que era a posição mais elevada entre as criaturas de Deus. E vocês sabiam que esta posição é tão elevada que é o ponto central do propósito eterno?!

– Eu não sabia, nem sei o que é propósito eterno. Mas se o próprio Deus teve que descer até esta Terra para nos trazer sua semelhança, então eu creio sim, que é a posição mais elevada e mais maravilhosa das criaturas de Deus! Quase bradou a menina com grande alegria.

– Pensava que seríamos anjos, – disse o menino com olhar parado e as mãos postas como se estivesse orando – Mas seremos mais do que anjos!

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1 Jo 3:2 ) – Declamou nosso ilustre professor – Seremos semelhantes a Cristo!

Após um breve silêncio, o meu marido continuou: -Agora acompanhem o meu raciocínio: se Cristo é mais sublime que os céus, como diz a bíblia “Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus” ( Hb 7:26 ), nós seremos…

– Mais sublimes que o céu, pai? Concluiu e perguntou a minha filha.

-E é esta semelhança que Deus quis dar a nós, os que cremos em Cristo Jesus como diz as escrituras… Mais sublime que os céus!… Mas isto é assunto para outra aula. Concluiu o pai.

Depois de ter ouvido uma palavra tão maravilhosa, só nos restou cantar diversas vezes…

‘Então minh’alma canta a ti Senhor

Grandioso és Tu, grandioso és Tu’.

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