O tesouro escondido e a pérola de grande valor

O apóstolo Paulo é um exemplo de judeu que abriu mão de tudo o que possuía para adquirir a Cristo: o tesouro escondido, a pérola de grande valor! O apóstolo Paulo buscava um tesouro nos céus e, para isso, abriu mão de tudo o que possuía: “Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).


“Também, o reino dos céus, é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem e compra aquele campo. Outrossim, o reino dos céus, é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas e, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha e comprou-a” (Mt 13:44-46)

 

Introdução

Qual o significado da parábola[1] do tesouro escondido num campo? Qual a aplicação prática da parábola do negociante que sai à procura de uma pérola de grande valor? Essas parábolas aplicam-se aos membros do corpo de Cristo?

Antes de narrar as parábolas do ‘tesouro escondido’ e da ‘pérola de grande valor’, o evangelista Mateus destaca que Jesus utilizava parábolas para ensinar à multidão, porque a eles não foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus (Mt 13:11).

Os discípulos estavam intrigados e perguntaram o motivo pelo qual Jesus utilizava parábolas para falar ao povo. Jesus explicou que falava por parábolas ao povo de Israel, para que ‘vendo’, não ‘vissem’ e, ‘ouvindo’, não ‘ouvissem’ e nem ‘compreendessem’, de modo que a profecia de Isaías se cumpriria neles (Mt 13:13-14).

Além da explicação de Jesus, acerca do predito por Isaías, o evangelista Mateus lembra o que foi anunciado pelo salmista, no Salmo 78, e explica que Jesus nunca falava à multidão, sem se utilizar de parábolas.

A explicação de Jesus:

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem e, ouvindo, não ouvem, nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis” (Mt 13:13 -14);

A explicação de Mateus:

“Tudo isto disse Jesus por parábolas à multidão e nada lhes falava sem parábolas; para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: abrirei em parábolas a minha boca, publicarei coisas ocultas, desde a fundação do mundo” (Mt 13:34-35; Sl 78:2).

O evangelista Marcos, também, destaca como se dava o ensinamento de Jesus à multidão:

“E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava, porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Mc 4:33-34).

Com base no exposto acima, verifica-se que o público alvo das parábolas de Jesus era o povo judeu. Jesus deixa claro que Ele foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, o que corrobora com a ideia de que a mensagem de Jesus foi direcionada aos filhos de Israel: “E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15:24; Jr 50:6).

 

As parábolas

Mas, por que Jesus compara o reino dos céus a um tesouro que um homem achou e escondeu em um campo? O que os judeus, que ouviram a parábola, tinham que aprender com o homem que vendeu tudo o que possuía, para adquirir o campo onde o tesouro estava escondido? O que aprender com o negociante que estava em busca de uma pérola de grande valor?

Ora, a abordagem de Jesus não visava bens materiais, pois Ele mesmo disse que a vida de qualquer um não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15). Jesus também não estava instando os judeus a adquirirem bens materiais ou serem empreendedores, pois Ele mesmo instruiu os seus ouvintes a ajuntarem tesouro nos céus (Mt 6:20).

Os ouvintes de Jesus, na sua grande maioria, eram desprovidos de bens materiais, o que nos faz perguntar: O que eles deveriam dispor (abrir mão, vender) para terem condições de adquirir algo de grande valor? O que seria esse algo de imensurável valor, que demandaria aos ouvintes de Jesus, abrir mão de tudo o que possuíam?

Jesus compara (é semelhante) o reino dos céus a um tesouro escondido num campo: “Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo…” (Mt 13:44). Com base nessa informação, Jesus estabeleceu que o reino dos céus é o ‘tesouro escondido’. De igual modo, a ‘pérola de grande valor’, que o negociante encontrou, refere-se ao reino dos céus.

Através do comparativo fixado por Jesus, identificamos o valor atribuído ao reino dos céus: um tesouro, uma pérola de valor inestimável.  Mas, o que seria esse reino dos céus a que Jesus se referiu?

 

O reino dos céus

João Batista apregoava, no deserto da Judeia, a seguinte mensagem:

 “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 3:2).

Após João Batista ter sido preso, Jesus também passou a pregar a mesma mensagem (Mt 4:17). Ao enviar os doze discípulos às ovelhas perdidas de Israel, Jesus mandou que anunciassem a chegada do reino dos céus (Mt 10:7).

Quando interrogado pelos fariseus, acerca do tempo em que o reino de Deus haveria de vir, Jesus esclareceu que o reino de Deus não viria com aparência exterior, de modo a possibilitar que os homens o identificassem. Ninguém estaria apto a apontar ou identificar o reino de Deus e o motivo era especifico: o reino de Deus estava entre eles!

“E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Ora, com base nessas passagens bíblicas, conclui-se que Cristo é o reino dos céus, portanto, Ele é o ‘tesouro escondido’ e a ‘pérola de grande valor’!

 

Vende tudo

Mas, o que os ouvintes de Jesus deveriam fazer para ter a Cristo?

Jesus mesmo informou o que os seus concidadãos teriam que dispor de tudo o que possuíam (abrir mão, vender) para tomar posse do ‘tesouro escondido’ ou, da ‘pérola de grande valor’:

“Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” (Mt 10:37-39);

“Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam, tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).

Considerando que ‘amar’, nas Escrituras, não diz de sentimento, mas, de honra, obediência, temor (Mt 6:24); considerando que aquele que ama a Jesus é o que cumpre os seus mandamentos: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” (Jo 14:15), segue-se que aquele que está disposto a seguir os ensinamentos de seus familiares (tradições, ritos, costumes, mandamentos, etc., como no caso dos fariseus, que invalidavam a palavra de Deus, preferindo as tradições dos anciãos) mais do que os ensinamentos de Cristo, não é digno do reino dos céus.

Ora, os profetas haviam previsto que os inimigos do Filho do homem seriam os seus próprios familiares (Mt 10:36; Mq 7:5-6; Jr 9:4; Jr 12:6). Qualquer que seguisse os ensinamentos de seus familiares (pai e mãe) seria um adversário de Cristo, pois o ensinamento dos líderes de Israel não passava de tradições, segundo o mandamento de homens: “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Mc 7:7-8; Tt 1:14; Is 29:13).

Como os inimigos de Cristo eram os seus concidadãos, temos a ordem aos filhos de Israel: concilia-te depressa com o teu adversário, ou seja, com o Cristo.

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão” (Mt 5:25).

Quando é dito: ‘quem ama o filho, ou a filha, mais do que a mim, não é digno de mim’, Jesus requer dos judeus honra e que deixassem de honrar o vínculo de sangue que possuíam com Abraão: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (Jo 5:23).

Além de abrir mão das suas tradições e de não se vangloriarem pelo vínculo de sangue que tinham com Abraão, os filhos de Israel tinham que tomar e levar sobre si a própria cruz e seguir após Cristo! Cristo, pelo seu próprio sangue, santificou o seu povo ao padecer fora do arraial e todos os seus seguidores devem sair fora do arraial, levando a sua própria cruz: “E por isso, também, Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13:12-13).

“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24);

“E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8:34);

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21);

“E qualquer que não levar a sua cruz e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14:27).

Jesus deixa claro que ‘quem perder a sua vida por obedecer a Ele, achá-la-á’ (Mt 10:39), pois, qualquer que for crucificado com Cristo, passa da morte para a vida: “Já estou crucificado com Cristo e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20; Jo 5:24).

O apóstolo Paulo é um exemplo de judeu que abriu mão de tudo o que possuía para adquirir a Cristo: o tesouro escondido, a pérola de grande valor! O apóstolo Paulo buscava um tesouro nos céus e, para isso, abriu mão de tudo o que possuía: “Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).

Observe:

“E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fl 3:8).

Quais foram as ‘coisas’ que o apóstolo Paulo se desfez (vendeu) para ganhar a Cristo? Temos uma lista:

“Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Fl 3:5-6).

As ‘coisas’ enumeradas pelo apóstolo Paulo era tidas por ‘vantagens’, ‘ganho’:

“Mas o que para mim era ganho, reputei-o perda por Cristo” (Fl 3:7).

O apóstolo Paulo não honrou pai e mãe mais que a Cristo, pois quando se converteu, não consultou os seus concidadãos (carne e nem sangue) se deveria anunciar o evangelho aos gentios, mas partiu para a Arábia: “Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue” (Gl 1:16).

Quem quiser seguir a Cristo, primeiro tem de abrir mão de tudo:

“E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores. E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E disse a outro: Segue-me. Mas, ele respondeu: SENHOR, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai. Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus. Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa. E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9:57-62).

Alguns discípulos, quando foram convocados por Cristo, haviam acabado de pescar muitíssimos peixes (encheram dois barcos que, quase foram a pique), uma riqueza de valor considerável para pescadores da época (Lc 5:7). Simão Pedro, Tiago e João deixaram tudo e seguiram a Jesus (Lc 5:11). O jovem rico, por sua vez, não quis abrir mão do que possuía! (Lc 18:22).

Por que era necessário aos ouvintes de Jesus, abrirem mão de tudo, para adquirirem um tesouro nos céus? A resposta é simples: “Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará, também, o vosso coração” (Lc 12:34; Mt 6:21).

Abraão é um exemplo de quem abriu mão de tudo, para alcançar a cidade que tem fundamento, cujo arquiteto e artífice é Deus (Hb 11:10). Primeiro, ele saiu de sua parentela, ou seja, abriu mão de pai e mãe. Quando apareceu a oportunidade de ficar com os bens do rei de Sodoma, Abraão abriu mão para que o rei de Sodoma não viesse a dizer que enriqueceu Abraão (Gn 14:23).

O profeta Moisés é outro exemplo, pois abriu mão de ser chamado filho da filha de Faraó, por ter em vista a recompensa: “Pela fé, Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo, antes, ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado; tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo, do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa” (Hb 11:24-26).

 

O ensinamento

Para interpretar a parábola do tesouro escondido, o leitor não tem que buscar um significado para a figura do homem, do campo ou do ato de esconder o tesouro. A parábola foi contada para que os ouvintes de Jesus refletissem se estavam dispostos a abrir mão de tudo, para poder alcançar o reino dos céus!

Em lugar de apresentar um mandamento: ‘Vai e vende tudo…’, Jesus apresentou uma parábola, que fizesse os seus ouvintes considerarem se estavam dispostos a abrir mão de tudo o que possuíam, para alcançar o reino dos céus.

Igualmente, ocorre com a parábola do negociante, que saiu em busca de boas pérolas. O leitor não tem que atribuir significado ao homem negociante ou, ao fato de ter encontrado uma pérola de grande valor. O objetivo da parábola é destacar se os ouvintes de Jesus estavam dispostos a cumprirem a ordem de Cristo: “Vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).

Muitos erros surgem quando se ignora o público alvo da parábola, porém, eles se avolumam quando o intérprete procura atribuir significado a cada elemento que compõe a parábola.

De nada adianta interpretar corretamente um elemento da parábola e se equivocar no restante. Observe:

“Mas, há dois conceitos errados, sobre essas parábolas, que devem ser considerados. O primeiro foi proposto por Orígenes e afirma que Cristo é o tesouro escondido ou a pérola de inestimável valor que o pecador tem de encontrar e comprar. Na outra parábola, os papéis são invertidos, fazendo uma alusão descabida a Cristo como aquele que encontra a Igreja e a compra. Ambos, contudo, são conceitos errados (Cristo não está à venda nem vendeu Israel para comprar a igreja) e lidam com questões que estão fora do contexto” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Rio de Janeiro, 2010.

Com base no apontado pelos editores do ‘O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento’, Orígenes estava corretíssimo quando aponta Cristo como o tesouro escondido ou a pérola de grande valor. Entretanto, cometeu o equívoco de não observar o público alvo das parábolas e de considerar que Cristo encontrou a igreja e a compra.

Os editores do ‘O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento’ erram quando afirmam que Orígenes errou ao dizer que Cristo é o tesouro escondido ou a pedra de grande valor. Ora, efetivamente Cristo é o tesouro escondido ou a pérola de inestimável valor.

A interpretação que Moody dá à parábola do tesouro escondido é equivocada, porque ele buscou dar significado a alguns elementos que compõem a parábola:

“44. O Tesouro Oculto. Embora o tesouro costume ser explicado como sendo Cristo, o Evangelho, a salvação, ou a Igreja, pelo que o pecador deveria estar pronto a sacrificar tudo, o uso consistente da palavra homem nesta série refere-se a Cristo e o ato de esconder, novamente, depois de encontrar, toma os quadros diferentes. Antes, o tesouro oculto num campo descreve o lugar ocupado pela nação de Israel durante o interregno (Êx. 19:5; Sl. 135:4). Cristo veio para essa nação obscura. A nação, entretanto, rejeitou-o, e assim, com propósito divino, foi privada de sua importância financeira; ainda hoje continua obscura no seu aspecto externo quanto ao seu relacionamento com o reino messiânico (Mt. 21:43). Mas, Cristo deu a sua própria vida (tudo quanto tem) para comprar todo o campo (o mundo, l Co. 5:19; I Jo. 2:2) e, assim, conseguiu plena posse de direito por descobrimento e redenção. Quando ele voltar, o tesouro será desenterrado e totalmente revelado (Zc. 12,13)” Comentário Bíblico Moody – Mateus.

Israel

As parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor são exigências aos filhos de Israel, para que se desfaçam de tudo, pois acerca deles, protestavam os profetas, de que eram possuidores de muitas ‘riquezas’, a ponto de serem chamados ‘ricos’.

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação” (Lc 6:24);

“Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais?” (Tg 2:6);

“Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir (…) Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1 a 6).

Essa era a condição dos filhos de Israel:

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas e não sabem quem as levará (Sl 39:6; Lc 12:20; Jr 17:11);

“Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” (Jr 9:23).

 

A igreja

Essas duas parábolas possuem algum elemento prático exigível dos membros do corpo de Cristo? Não, pois os que creem já ganharam a Cristo. O crente em Cristo não tem que dispor de nada para ganhar a Cristo, antes, já está de posse de Cristo, por crer na mensagem do evangelho.

O alerta para a igreja é diferente: “Sofre, pois, comigo, as aflições, como bom soldado de Jesus Cristo. Ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra” (2Tm 2:4), de modo que: “… os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que folgam, como se não folgassem;  os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” (1Co 7:29-31).

Das parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor, os cristãos retiram uma lição a ser utilizada no evangelismo, de modo a demonstrar ao pecador que, para ganhar a Cristo é necessário deixar tudo.

“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Que daria um homem em troca de sua alma?” (Mc 8:36-37).

 


[1] As parábolas da Bíblia, geralmente, são narrativas curtas, que transmitem um ensinamento proposto por Deus, através dos profetas da Antiga Aliança, composta por símiles, figuras, enigmas e adágios.

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O reino dos céus, os ricos e os pobres

Devido às diversas leituras acerca do tema ‘riqueza’ versus ‘reinos dos céus’ surgiram propostas teológicas como o ‘evangelho social’ e a ‘teologia da libertação’…

 


“Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”  ( Lc 12:20 )

 

Como interpretar a parábola do rico insensato?

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 -21).

Após a leitura da parábola, podemos perguntar: o evangelho de Cristo é avesso aos ricos? Ser abastado financeiramente e ser salvo é impossível? Para ser um discípulo de Cristo é necessário ser desprovido de bens materiais? Deus não aceita os abastados de bens materiais? Ao homem que faz planos de angariar fortuna com o fito de viver abastado é negado acesso a graça de Deus?

Devido às diversas leituras acerca do tema ‘riqueza’ versus ‘reinos dos céus’ surgiram propostas teológicas como o ‘evangelho social’ – movimento protestante norte-americano (1880-1930) sob influência do liberalismo teológico que pretendia apresentar uma resposta ‘cristã’ à situação de miserabilidade dos trabalhadores e imigrantes – e a ‘teologia da libertação’ – movimento que surgiu na América Latina em meados do século 20, articulado por teólogos católicos e protestantes, que diante das injustiças e exclusão social fomentado por um quadro de grandes tensões políticas, econômicas e sociais, levantaram uma bandeira centrada na ideia de um Deus ‘libertador’.

Mas, qual é a proposta de Jesus ao propor a parábola do rico louco? Ele buscava uma transformação econômica e social das sociedades à época, ou uma revolução na mentalidade (metanoia) de seus ouvintes acerca de questões relativas ao reino dos céus?

 

A parábola

O primeiro passo para compreender a parábola do rico insensato é entender porque Jesus utilizava parábolas para falar ao povo de Israel. A resposta para esta pergunta é objetiva e foi apresentado pelo próprio Cristo: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” ( Mt 13:13 ; Is 6:9 ).

Ora, Jesus falava à multidão por parábola porque estava previsto que o Messias proporia aos seus ouvintes enigmas antigos “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ; Mt 13:35 ). Enquanto Jesus cumpria as Escrituras falando ao povo por parábolas, o povo, por ser de dura servis, viam, ouviam e não compreendiam.

O povo de Israel devia saber que Deus não falava abertamente (sem enigmas) com eles porque foi justamente isto que pediram quando não confiaram em Deus “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Êx 20:19 ); “Filho do homem, propõe um enigma, e profere uma parábola para com a casa de Israel” ( Ez 17:2 ). Ouvir a voz de Deus sem enigmas era um privilegio de Moisés “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ).

Uma característica fundamental da palavra de Deus são as parábolas e os seus enigmas. O fato de Jesus falar por parábolas era um sinal de que Jesus era o Cristo e que falava as palavras de Deus “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar” ( Jo 12:49 ).

Como o povo de Israel não prestou atenção na mensagem de Jesus como o enviado de Deus, antes se escandalizaram por pensarem que Ele era filho de José e Maria ( Mt 13:54 -57), a profecia de Isaias cumpriu-se neles: “E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis” ( Mt 13:14 ).

A exposição das parábolas ao povo era segundo a medida que podiam compreender, porém, os enigmas escapavam até mesmo aos discípulos, que em particular eram instruídos “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:33 -34); “E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” ( Mc 4:13 ).

Os filhos de Jacó não ouviam, não compreendiam e não percebiam, não em função de Deus querer turvar-lhes o entendimento, antes não ouviam, não compreendiam e não percebiam porque eram de dura servis, ou seja, não se sujeitavam a Deus para obedecê-Lo “Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” ( Mt 13:15 ).

Quando Jesus contava uma parábola utilizava relações humanas, eventos do dia a dia, questões materiais, etc., porém, o foco era apresentar ao povo questões espirituais e que já foram abordadas nas Escrituras “Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado” ( Mt 13:11 ).

Por exemplo: quando Jesus conversou com Nicodemos e lhe disse que o vento sopra onde quer e ouve-se a sua voz, aparentemente foi utilizado eventos do cotidiano para explicar o novo nascimento, porém, Jesus citava as Escrituras “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?” ( Jo 3:12 ; Ec 11:5 ).

O leitor das Escrituras precisa estar alerta, pois todas as parábolas contêm enigmas a serem desvendados. Interpretar uma parábola sem considerar os enigmas contidos nela é má conclusão na certa. Geralmente as parábolas apresentadas no Novo Testamento foram contadas para expor uma verdade defendida pelos profetas, salmos, provérbios e a lei.

 

Sombra, mentira, vaidade

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6 )

A parábola do rico ‘louco’ foi contada para evidenciar ao povo de Israel uma verdade contida no salmo 39, verso 6: ‘todo homem anda numa vã aparência’, ou seja, é como uma ‘sombra’, alienado de Deus que é a verdade o homem é ‘mentira’.

O salmo não exclui os judeus desta condição quando diz: todo homem anda numa vã aparência!

O verso 6 do Salmo 39 é inclusivo como o Salmo 53: “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:2 -3).

Todos os homens se desviaram e juntamente se fizeram imundo, quer sejam gentios quer judeus. Todos juntamente se desviaram, e andam numa ‘vã aparência’. Por causa da separação decorrente da ofensa no Éden, todos os homens são comparáveis a uma sombra.

O salmo 58 enfatiza a mesma ideia: “Desviam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nascem, proferindo mentiras” ( Sl 58:3 ). Todos os homens se desviaram de Deus, de modo que todos os que nascem da madre são ímpios, ou seja, proferem mentiras, quer sejam gentios ou judeus.

Como todos os homens vêm ao mundo proveniente da madre e os ímpios desviam-se na madre, certo é que todos os homens por serem gerados segundo a semente corruptível de Adão são ímpios.

Diante desta verdade evidenciada nas Escrituras, os judeus equivocadamente julgavam que a lei, os profetas e os salmos protestavam exclusivamente contra os gentios, e que somente os gentios se desviaram de Deus por não serem descendentes da carne de Abraão.

Por serem descendentes da carne de Abraão, quando os judeus liam que ‘todos se desviaram de Deus’, prevaricavam quanto à interpretação, pois entendiam que as Escrituras protestavam somente contra os gentios, uma vez que os judeus entendiam que estava em uma condição diferenciada frente aos gentios por ter recebido a lei por intermédio de Moisés.

Ao falar do tema, o apóstolo Paulo demonstrou que tudo o que a lei diz, dizia aos que estavam debaixo da lei, ou seja, aos judeus, de modo que, apesar de serem descendentes da carne de Abraão, os judeus também eram ímpios assim como os gentios, uma vez que todos se desviaram de Deus desde o ventre por serem filhos de Adão ( Rm 3:19 ).

Diante das Escrituras fica claro que os judeus não são melhores que os gentios, pois ambos estão debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), como se lê: ‘todo homem anda numa vã aparência’, ou seja, são mentirosos “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ).

Como o salmista sabia que Deus não fazia distinção alguma entre judeus e gentios, Davi admite (confessa) a sua condição quando clama: “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” ( Sl 51:4 ). Por que o salmista tinha certeza de que era pecador? Porque judeus e gentios igualmente são formados e concebidos em pecado “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Rm 51:4 -5).

O salmista Davi sabia que há somente duas gerações: uma é a geração dos ímpios e outra é a geração dos justos. Era de conhecimento do salmista que, não importam as ações dos homens, a recompensa deles é conforme a geração dos seus pais ( Sl 49:19 ). Temos duas sementes e duas gerações, sendo que a semente que permanecerá para sempre diz da semente do último Adão, e a semente que perece, a semente do primeiro pai da humanidade, Adão ( Sl 112:2 ; Sl 89:4 ; Sl 24:6 ; Sl 22:30 ).

É em função desta realidade que Davi roga a Deus para ser gerado de novo segundo a sua palavra (semente incorruptível), que cria um novo coração e concede ao homem um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:26 ).

Os termos riqueza e pobreza são utilizados nas Escrituras para esclarecer a situação do pecador diante de Deus e é justamente fazendo alusão ao pecado que o termo riqueza é citado nas Escrituras, e a análise dos termos ‘riqueza’ e ‘pobreza’ é imprescindível para responder às questões.

Como é possível ‘todo homem’ amontoar riquezas e não saber quem as levará, se na sua maioria os homens são desprovidos de bens materiais? Os bens de um homem, quer pobres ou ricos, não ficam sob o cuidado de seus herdeiros? Quando analisamos o verso 6 do Salmo 39, temos que nos perguntar: estamos diante de uma parábola e seus enigmas, ou há um equivoco na abordagem do salmista? Como é possível haver tantos homens desprovidos de bens materiais no mundo se o salmo diz que ‘todo’ homem amontoam riquezas? “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6 ).

Os judeus deviam ter o cuidado de, ao ler as Escrituras, se perguntarem por que elas dizem que ‘todos’ os homens ‘andam em vã aparência’, e porque elas não contem uma ressalva quanto aos judeus dizendo: todo homem, exceto os descendentes da carne de Abraão, andam numa vã aparência. Se tivessem o cuidado de observar que as Escrituras protestavam que todo homem amontoam riquezas e não sabem quem as levará, deveriam inquirir por que existiam tantos pobres.

O mesmo entrave ocorre com os termos ‘louco’, ‘néscio’ que consta na parábola em comento e em outras partes das Escrituras, termos que são utilizados depois da acusação feita por Moisés ao povo de Israel: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” ( Dt 32:6 ).

Após a abordagem de Moisés os termos ‘louco’, ‘néscio’, ‘ignorante’ tornaram-se uma ‘figura’ específica empregada ao longo das Escrituras para fazer referencia ao povo de Israel que eram de dura servil (rebeldes).

O salmo 53 é um exemplo: “DISSE o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniquidade; não há ninguém que faça o bem. Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:1 -4).

O ‘néscio’ que se comporta como se Deus não existisse diz dos lideres de Israel, homens que se alimentavam do povo de Deus como se comessem pão (compare verso 1 com o 4). Esta figura é utilizada diversas vezes pelos profetas: “Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade também haverá grande ódio” ( Os 9:7 ); “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” ( Ez 13:3 ); “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” ( Jr 4:22 ); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” ( Sl 94:8 ).

Observa-se nas Escrituras que o termo ‘louco’ não é utilizado para fazer alusão aos gentios, antes somente é empregado para censurar os filhos de Israel. Esta figura também foi utilizada por Cristo e os apóstolos: “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Quando lemos na parábola: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”, verifica-se que a reprimenda de Jesus tem por alvo os judeus, pois este era o público a quem foi anunciado a parábola do rico.

Outro elemento a se considerar na parábola é a condição financeira do ‘louco’ e o que ela representa. Devemos considerar a riqueza do homem louco como perniciosa, ou a riqueza é uma figura enigmática que demanda ser estudada e desvendada?

No sermão da montanha registrado por Lucas, temos o seguinte discurso: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas. Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” ( Lc 6:20 -26).

É significativo o fato de que os que creem em Cristo são descritos como pobres, e os que rejeitam a Cristo são designados ‘ricos’. Considerando o fato de que Jesus só falava ao povo utilizando parábolas, significa que Jesus não estava fazendo distinção entre os seus ouvintes quanto às questões de ordem financeira e sim quanto aqueles que realizavam a vontade de Deus “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ).

Significa que qualquer que confiar em Cristo, quer seja rico quer seja pobre financeiramente é bem-aventurado, portanto, pobre, manso, triste, etc. Qualquer que não confia em Cristo, quer seja rico ou pobre financeiramente é descrito como farto, rico, etc.

Quando Tiago diz: “EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente vivestes sobre a terra, e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” ( Tg 5:1 -6), os ‘ricos’ referem-se aos judeus (ricos) que não creram, condenaram e mataram o Cristo, de modo que, por rejeitarem a Cristo, o único que tem ouro e prata aprovados ( Ap 3:18 ), a riquezas deles estavam apodrecidas, as vestes destruídas e entesouraram ira para o dia do juízo.

Daí a palavra de ordem: “Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza” ( Tg 4:9 ), que é o mesmo que ‘arrependei-vos’ ( At 2:38 ). Por que deveriam sentir as suas misérias e lamentarem? Porque os judeus rejeitaram a Cristo por entenderem que possuíam recursos necessários para serem salvos, mas na verdade eram pobres, cegos e nus “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” ( Ap 3:17 ). ‘Sentir a miséria’ e ‘lamentar’ são figuras que rementem às pessoas que mudam de concepção (arrependimento) dando ouvidos ao anunciador de boas novas, que é Cristo. Se o contrito de espírito, o manso, o pobre, etc., ouve a mensagem do evangelho e crê, recebe de Deus glória, gozo, louvor, etc. ( Sl 61:1 -3).

Daí é possível entender a seguinte fala de Jesus: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” ( Mc 10:23 ). Os discípulos ficaram perplexos quando Jesus disse que os que ‘têm riquezas’ dificilmente entrarão no reino dos céus, pois pensaram que Jesus falava dos abastados financeiramente.

Porém, diante da admiração dos seus discípulos, Jesus explica: “Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” ( Mc 10:24 ). Quando Jesus disse ser ‘difícil’ os que têm ‘riquezas’, ou seja, que cofiam ‘nas riquezas’ entrar no reino dos céus é porque os que ‘confiam nas riquezas’ não nasceram de novo e nem possuem obras maiores que a dos escribas e fariseus ( Jo 3:3 ; Mt 5:20 ).

A vontade de Deus é que o homem creia em Cristo, porém, os judeus preferiam confiar em sua origem segundo a carne e nas prescrições da lei. Por serem recalcitrantes, de dura servis, confiavam em suas ‘riquezas’ e deixavam de confiar em Deus.

Se ‘nascer de novo’ e ter ‘obra superior a dos escribas e fariseus’ é condição essencial para entrar no reino dos céus, qual riqueza é empecilho à entrada no reino dos céus?

A ‘riqueza’ em tela não diz de questões materiais, antes é uma figura que remete aos que fazem da carne (descendência de Abraão) a sua força (salvação). Em lugar de confiarem em Deus para serem bem-aventurados ( Jr 17:7 ), os descendentes da carne de Abraão confiavam em si mesmos, pois constituíam a sua carne o seu próprio braço (salvação)( Jr 17:5 ).

Sobre os que confiavam na força do seu braço escreveu o apóstolo Paulo: “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7 -8).

A leitura da parábola do rico ‘louco’ deve ser compreendida em função do reino dos céus e não em vista das riquezas deste mundo. A percepção do leitor da parábola deve transcender o senso comum, haja vista que em uma parábola há enigmas a serem desvendados “E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” ( Mc 4:13 ).

Quando lemos: “Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade. Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” ( Sl 62:9 -10), Diante de Deus tanto ricos quanto pobres são vaidade. Deus não tem em preferência os desprovidos de bens materiais e nem pretere os nobres da face da terra.

Como Deus não faz acepção de pessoas, a mensagem: ‘Não confieis na opressão, no roubo, na violência’ abarca tanto ricos quanto pobres financeiramente.

Para entrar no reino dos céus o homem não deve se utilizar da força ou da violência, antes é pela palavra de Deus ( Zc 4:6 ). A força, a violência, a opressão, o roubo, etc., são figuras que ilustram aqueles que querem se salvar por intermédio das suas obras “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ).

O profeta Isaias estava anunciado a palavra do Senhor ao povo utilizando-se de parábolas e enigmas, de modo que, ao falar da justiça que decorre da lei, comparou-a a teias de aranha. A justiça decorrente das suas obras não servia para cobrir-se diante de Deus. As obras são comparáveis à iniquidade, o mesmo que obra de violência. Apesar do sacrifício continuo e das orações prolongadas, tudo era reprovado diante de Deus “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal” ( Is 1:13 -16).

Se há uma obra, a recompensa, o salário, o ganho é certo, de modo que as ‘obras de iniquidade’ são descritas como ganho de opressão, ganho de violência, atos de maldade. Qualquer que se lança às ofertas vãs, às orações prolongadas, aos sábados, as reuniões solenes, etc., multiplica suas obras de violência e entesoura para si o seu ganho. O ‘tesouro’, a ‘riqueza’ amealhada em função destas práticas é produto de opressão, porém, o povo de Israel aumentava as suas obras acreditando que as suas riquezas seriam suficientes para alcançar salvação, posto que o coração deles estavam fiados em suas obras ( Sl 62:9 -10).

Quando Jesus diz: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” ( Mc 10:25 ), interpôs uma impossibilidade natural (passar um camelo pelo fundo de uma agulha) para demonstrar que a impossibilidade de alguém que ‘confia’ nas ‘riquezas’ entrar no reino de Deus é maior.

O texto deve ser compreendido a partir do seguinte princípio: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ). Ora, o tesouro prende o coração do homem, o que o impede de amar (servir) a Deus de todo o seu coração “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ).

Tudo o que o homem adquire de Deus deve ser sem dinheiro e sem preço. Quando o homem adquire uma riqueza por meio da força do seu braço (obras da lei), passa a possuir um tesouro que assume a condição de um ídolo (Mamom), pois o homem deixa de confiar na graça de Deus para confiar na sua riqueza ( Sl 62:9 -10).

O homem passa a servir a Mamom quando não ouve a palavra do Senhor e, ao porfiar confiando na sua riqueza, torna a sua própria vontade um ídolo “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:23 ).

Ora, o maior tesouro do povo de Israel estava na sua origem e na lei, ou seja, no crente Abraão e em Moisés. Diante do evangelho e da pessoa de Cristo os filhos de Jacó relutavam em mudarem de concepção apontando para ambos: Moisés e Abraão “Então o injuriaram, e disseram: Discípulo dele sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés” ( Jo 9:28 ); “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão” ( Jo 8:39 ).

O apóstolo Paulo elenca quais os entes que compõe a riqueza dos judeus: a nacionalidade (israelitas), adoção de filhos por serem descendentes de Abraão, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas, os pais e Cristo segundo a carne.

Ora, se um judeu que recebeu todos os itens elencados acima não pode salvar-se, surge a pergunta: “Quem poderá, pois, salvar-se?” ( Mc 10:26 ). A resposta de Cristo demonstra que confiar na carne de Abraão é uma ‘riqueza’ que não conduz a Deus ( Mt 10:37 ), para alcançar a Cristo, pois com relação a salvação: “Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” ( Mc 10:27 ).

O salmista Davi apresentou profeticamente o enigma do homem rico no salmo 49 anunciado tanto aos ricos quanto aos pobres financeiramente que, quando viesse o dia em que ‘os homens que confiam em suas riquezas’ cercariam o Messias, o Cristo de Deus não temeria ( Sl 49:5 -6). Por quê? Porque confiar em suas riquezas era a loucura dos homens que estavam em honra em Israel, uma vez que rejeitaram a Cristo, a pedra eleita e preciosa ( Sl 49:13 ).

 

A parábola do homem rico

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 -21).

 

É seguro dizer que a parábola do rico louco não visava uma transformação socioeconômica, antes foi contada visando uma revolução na mentalidade (metanoia) do povo de Israel acerca de como alcançar a salvação.

A parábola do homem rico ilustra o pensamento do povo de Israel que, por ser descendente da carne de Abraão, entendiam que haviam herdado a bem-aventurança prometida por Deus a Abraão.

Quando liam nas Escrituras: “E a tua descendência será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 28:14 ), os filhos da carne de Abraão, Isaque e Jacó interpretavam que eram benditos por serem descendentes dos patriarcas e, qualquer que se tornasse prosélito seria bem-aventurado.

Mas, os lideres de Israel estavam equivocados, pois não são os filhos de Abraão que são salvos, antes os salvos são os filhos da promessa, que diz: “Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ). Para ser filho segundo a promessa era necessário crer como o crente Abraão, pois este é o único meio de ser declarado justo diante de Deus, porém, os filhos de Jacó repousavam na filiação segundo a carne. Quando Abraão ouviu a promessa, passou a crer no descendente prometido, de modo que viu o seu dia e alegrou-se na salvação de Deus “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se” ( Jo 8:56 ).

Sobre este posicionamento disse o apostolo Paulo: “Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti. De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão” ( Gl 3:6 -9).

A leitura correta da promessa segue o seguinte termo: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ). Mas, como os filhos de Israel não atinaram para o fato de que as Escrituras encerrou todos os homens sob o pecado, de modo que a promessa é dada aos crentes e não aos filhos da carne de Abraão “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes” ( Gl 3:22 ).

Porém, antes que Cristo viesse ao mundo conforme a promessa feita a Abraão, Deus entregou a lei para fazer com que os descendentes da carne de Abraão vissem a sua real condição, deixassem de crer em sua origem e passassem a esperar n’Aquele que havia de se manifestar assim como fez o crente Abraão “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.  De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:23 -24).

Quando o descendente prometido a Abraão veio, os filhos da carne de Abraão se apegaram à lei de Moisés e continuaram alegando que eram salvos por serem descendentes de Abraão, e rejeitaram a bem-aventurança.

Ora, se tudo o que a lei diz, diz aos que estão sob a lei, isto significa que o que os salmos também dizem (referem-se) dos filhos de Jacó (observe que o apóstolo Paulo citou diversos versículos dos salmos), de modo que a parábola do rico louco é uma releitura do Salmo 49, que diz “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas, Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre), Para que viva para sempre, e não veja corrupção. Porque ele vê que os sábios morrem; perecem igualmente tanto o louco como o brutal, e deixam a outros os seus bens. O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes. Todavia o homem que está em honra não permanece; antes é como os animais, que perecem. Este caminho deles é a sua loucura; contudo a sua posteridade aprova as suas palavras. (Selá.) Como ovelhas são postos na sepultura; a morte se alimentará deles e os retos terão domínio sobre eles na manhã, e a sua formosura se consumirá na sepultura, a habitação deles. Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá. (Selá.) Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará” ( Sl 49:6 -17).

O homem rico cuja herdade produziu com abundância representa o povo de Israel, pois pensavam (arrazoavam) consigo mesmo que eram salvos, porém, o que pensavam não era condizente com a palavra de Deus.

O que pensa uma pessoa abastada com bens deste mundo? Diante de uma herdade que produz com abundancia resta edificar outros maiores em substituição ao que anteriormente possuía para recolher o que for produzido. Por fim, dirá: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga!

Assim era o pensamento dos filhos de Israel, pois arrazoavam consigo mesmo dizendo: Temos por pai Abraão, de modo que nunca fomos escravos de ninguém! “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

Ou seja, diante da pedra eleita e preciosa, os filhos de Israel resolveram seguir os seus próprios pensamentos e coração, tendo por real valor a filiação de Abraão e a lei mosaica, desprezando a benção que enriquece ( Pv 10:22 ; Ml 2:2 ; Jo 5:23 ).

Ao compreender a verdade do evangelho, o apóstolo Paulo abriu mão do que ele entendia de real valor para poder alcançar a Cristo “Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” ( Fl 3:4 -9).

O apóstolo elenca os motivos pelos quais poderia confiar na carne: ‘Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível’. Porém, o que para ele era ganho (de valor), por Cristo reputou como perda todas os elementos elencados anteriormente.

O homem que possuía por sobrenome a alcunha de judeu sentia-se abastado, enriquecido por confiar na lei (repousas na lei), pois entendiam que se gloriavam em Deus, que sabiam a vontade de Deus e que consentiam com o que é excelente em virtude da instrução que detinham segundo a lei ( Rm 2:17 -20). A confiança do povo judeu era a de que guiavam os cegos e que eram luz para os povos em trevas, instrutores dos néscios e das crianças, mas desconheciam que o verdadeiro judeu é o que recebe a circuncisão no coração e não na carne ( Rm 2:29 ).

Daí a parábola de Cristo, demonstrando que o povo judeu se sentia rico ( Ap 3:17 ). Sentiam-se tão abastados que arrazoavam onde armazenariam o produto do seu trabalho ( Lc 12:17 ). Daí a reprimenda de Jesus segundo o que as Escrituras de longa data protestavam: “Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” ( Lc 12:20 ); “Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade” ( Sl 52:7 ); “Aquele que confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem” ( Pv 11:28 ); “Há alguns que se fazem de ricos, e não têm coisa nenhuma, e outros que se fazem de pobres e têm muitas riquezas” ( Pv 13:7 ).

O povo judeu era o homem que não pôs em Deus a sua confiança, antes confiou na sua riqueza, fortalecendo-se na suas obras más. Eles mesmos se fizeram ricos gloriando-se na carne, mas a verdadeira riqueza, que é o louvor de Deus, não possuíam.

Mas, qualquer que ajunta tesouros para si é comparável ao rico louco, que possuindo muito não era rico para com Deus, certo que a vida de um homem não consiste nos bens que possui ( Lc 12:15 ).

Para ser rico para com Deus é necessário buscar a Cristo, a justiça segundo a fé, pois Ele é de cima ( Mt 6:33 ; Jo 8:23 ). Somente Jesus possui ouro aprovado, riqueza impar não sujeita a ferrugens, a traça ou ao roubo ( Mt 6:20 ; Ap 3:18 ). Mas, para adquirir ouro aprovado é necessário o homem reconhecer a sua miserabilidade ( Mt 5:3 ), que é um errado de espírito, quando Deus dará o conhecimento que satisfaz a alma faminta “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ; Is 61:1 -3; Is 55:1 -3).

Quando aparece nas Escrituras a figura do pobre, como no verso que se segue: “Compadecer-se-á do pobre e do aflito, e salvará as almas dos necessitados” ( Sl 72:13 ), o profeta Davi não tem em vista os desprovidos de bens materiais, antes diz daqueles que creem em Deus, quer seja pobre ou rico financeiramente.

Outra figura é a do órfão e a da viúva: “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo” ( Sl 68:5 ), pessoas que na antiguidade eram o símbolo, a figura dos necessitados e pobres. Quando o salmista diz que Deus é pai de órfãos, significa que, quem tem por pai Abraão por ser descendente da carne do patriarca não tem Deus por Pai. Mas, aquele que vê que o seu verdadeiro pai segundo a carne é Adão, e este vendeu todos os seus filhos ao pecado quando da ofensa no Éden, é órfão e reconhece que necessita de um justo juiz. Se o homem deixar pai e mãe, ou seja, deixar de confiar na sua origem segundo a carne dos patriarcas, tornar-se-á pobre e alvo da bem-aventurança divina pela fé em Cristo ( Mt 5:3 ).

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Vasos para desonra

O apóstolo Paulo é enfático em especificar quem são os vasos para honra: “Somos nós”, ou seja, os vasos para honra é a igreja (corpo) do Deus vivo! “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” ( 1Tm 3:15 ). Os vasos para honra também são designados “vasos de misericórdia”: “… nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem chamou, não só dentre os gentios?” ( Rm 9:22 -24).


“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro…?” ( Rm 9:21 )

Quem são os vasos para honra e quem são os vasos para a desonra? Quem é o barro e quem é o oleiro?

Muitas questões doutrinárias surgiram ao longo da história da igreja por causa da má interpretação deste versículo. Porém, estas questões são facilmente respondidas quando o leitor compreender o real significado de cada figura presente no versículo.

Deus é o Oleiro e Ele tem poder sobre o barro. Ou seja, não há como o homem questionar a soberania e o poder de Deus “Ai daquele que contende com o seu Criador! O caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?” ( Is 45:9 ).

Quem é o barro? Todos os homens são descritos como barro. O homem foi criado do pó da terra, e por isso, a figura do barro remete ao homem, uma das criaturas de Deus.

O profeta Isaias evidência as diferenças entre o homem e o Criador utilizando as figuras do oleiro e do barro: “Vós tudo perverteis, como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Não me fez; e o vaso formado dissesse do seu oleiro: Nada sabe” ( Is 29:16 ). É evidente que Deus é o oleiro, e o homem, o barro.

Estas figuras foram utilizadas várias vezes no Antigo Testamento: “Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos” ( Is 64:8 ).

A primeira parte do versículo é facilmente respondida: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro…?” ( Rm 9:21 ). Sim! Deus tem total poder sobre os homens (barro)! O oleiro representa a pessoa do Criador, que de uma mesma massa (barro) cria vasos para uso diverso (honra e desonra).

Deus tem poder sobre os homens, mas, quem são os vasos (homens) para honra e quem são os vasos (homens) para desonra?

A Bíblia apresenta algumas figuras em pares antagônicos. Observe:

  • Porta larga e porta estreita;
  • Caminho largo e caminho estreito;
  • Árvore má e árvore boa;
  • A planta não plantada pelo Pai e a planta que o Pai plantou;
  • Filhos das trevas e filhos da Luz;
  • Servos do pecado e servo da justiça;
  • Semente corruptível e semente incorruptível;
  • Carne e Espírito;
  • Vasos para desonra e vasos para honra.

As perguntas se avolumam diante do quadro acima: Quem é a porta larga? Quem é, ou o que é o caminho largo? Quem é a árvore boa; Quem são as plantas que o Pai não plantou? Quem são os filhos das trevas? Quem são os servos do pecado? Qual é a semente corruptível? Quem é carnal? Quem são os vasos para desonra?

É certo que Deus tem poder sobre o barro! Porém, o versículo demonstra que Deus pega de uma mesma massa (barro) e faz vasos para honra e vasos para desonra “… para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

Como é possível de uma mesma massa serem feitos vasos para honra e vasos para desonra? O que diferencia os vasos para honra e os vasos para desonra não é a massa (barro) que foram moldados. A diferença está na utilidade dos vasos (vasos para honra e vasos para desonra).

Através dos elementos apresentados no parágrafo anterior é possível esclarecer outro ponto: tanto os vasos para honra, quanto os vasos para desonra são moldados (feitos) de uma mesma massa (barro). Ou seja, a distinção entre vasos para honra e vasos para desonra não é proveniente da massa que os vasos são moldados. De uma mesma massa Deus faz vasos (homens) para honra e desonra.

Podemos dizer que há homens para honra e homens para desonra, sendo que, todos são provenientes de uma mesma massa (barro).

Quem são os homens (vasos) para honra, e quem são os homens (vasos) para desonra? Quando eles são feitos?

Os três versículos seguintes são esclarecedores:

“E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem chamou, não só dentre os gentios?” ( Rm 9:22 -24).

O apóstolo Paulo é enfático em especificar quem são os vasos para honra: “Somos nós”, ou seja, os vasos para honra é a igreja (corpo) do Deus vivo! “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” ( 1Tm 3:15 ).

Os vasos para honra também são designados “vasos de misericórdia”: “… nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem chamou, não só dentre os gentios?” ( Rm 9:22 -24).

Através do versículo anterior foi possível determinar quem são os vasos para honra! São os cristãos, homens (vasos) que Deus chamou dentre todos os povos.

Agora, quem são os vasos para desonra?

Eles representam uma seita? Uma organização? Uma igreja? É o anticristo? São os Falsos profetas?

Os vasos para desonra também foram designados por Paulo como “vasos da ira”, e eles foram preparados especificamente para a destruição. O apóstolo Paulo demonstra que Deus suportou os vasos criados para desonra com muita paciência!

A resposta sobre quem são os vasos para desonra está nos versículos seguintes:

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:23 -26).

Deus suportou com paciência os vasos da ira (desonra) ( Rm 9:22 ), e, concomitantemente, propôs através do sangue de Cristo, propiciação pela fé a todos (vasos para desonra) que cometiam pecado sob a paciência de Deus ( Rm 3:25 ).

Deus “… suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” ( Rm 9:22 ), para “… demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus” ( Rm 3:25 ).

Que entrave para a mente humana! Você, que hoje é vaso para honra por meio da fé em Cristo, outrora já foi um dos vasos para desonra.

Isto demonstra que, os vasos da ira, ou os vasos preparados para a perdição, são todos aqueles que pecaram e foram destituídos da glória de Deus. Por que vasos da ira? Porque são filhos da ira e da desobediência ( 1Co 15:22 ).

Isto leva a seguinte conclusão: todos pecaram em Adão, ou seja, os vasos para desonra (ira) são provenientes da semente corruptível de Adão.

É possível construir o seguinte paralelo entre Adão e Cristo:

Adão (O primeiro Adão) Cristo (O último Adão)
Porta larga Porta estreita
Caminho largo Caminho estreito
Árvore má Árvore boa
Planta não plantada pelo Pai Planta que o Pai plantou
Filhos das trevas Filhos da Luz
Servos do pecado Servos da justiça
Semente corruptível Semente incorruptível
Carne Espírito
Vasos para desonra Vasos para honra

 

O apóstolo Paulo demonstra que ‘todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus’ Rm 3: 23. Verifica-se que todos pecaram em Adão, e que em Adão os homens são feitos vasos para desonra “Pois assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição veio por um homem” ( 1Co 15:21 ).

De igual modo, os homens que creem são justificados pela redenção que há em Cristo ( Rm 3:24 ) “Pois assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem” ( 1Co 15:22 ).

Isto por si só demonstra que os vasos para desonra são feitos (criados) em Adão. Todos os nascidos segundo a vontade da carne, a vontade do varão e do sangue são vasos de desonra preparados para ira. São filhos da ira e da desobediência de Adão ( Jo 1:12 -13).

Deus utiliza a mesma massa que dá forma aos vasos para desonra para fazer vasos para honra. A ‘matéria prima’ (massa) que Deus utiliza para fazer a nova criatura (vaso para honra) é a mesma que foi utilizada para fazer os vasos para desonra.

O homem nascido de Adão é criado um novo homem por meio da fé em Cristo. Ou seja, a mesma massa utilizada para fazer os vasos para perdição (homens nascido de Adão), agora é utilizada para fazer vasos para honra (homens nascidos da água e do Espírito).

Não é possível apresentar qualquer outro tipo de interpretação às figuras apresentadas no quadro acima. O primeiro Adão é alma vivente, é da terra e é homem carnal.

Os vasos para honra são feitos (criados) em Cristo, o último Adão. Ele é Espírito vivificante ( 1Co 15:45 ). Ele é homem espiritual e é de cima (céu).

Todos que crêem em Cristo, conforme diz a Escritura, são feitos vasos para honra em Cristo Jesus. São vasos de misericórdia. Deixaram a condição de vaso para desonra, pois alcançaram misericórdia.

A mesma massa que foi utilizada para fazer vasos para desonra em Adão, agora é utilizada para fazer vasos para honra em Cristo. É da mesma massa (homens nascidos em Adão) que Deus faz vasos para honra (homens nascidos do último Adão).

Isto demonstra que Deus tem poder sobre a massa para fazer vasos para honra e vasos para desonra. É por isso que, aqueles que creem, recebem poder para serem feitos (cridos) filhos de Deus.

Os vasos preparados para a destruição que crerem Naquele que o Pai enviou serão feitos (criados) vasos para honra segundo o poder de Deus que operou em Cristo ressuscitando-o dentre os mortos ( Ef 1:19 ).

As figuras dos vasos para honra e vasos para desonra também são utilizadas pelo apóstolo dos gentios ao escrever a Timóteo:

“Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” ( 2Tm 2:20 -21).

Ao escrever a seu filho na fé ( 2Tm 2:1 ), Paulo estava tratando de questões relativas à igreja (local) que estava sob o cuidado de Timóteo.

A igreja (corpo) de Jesus Cristo é constituída somente de vasos para honra, porém, no ajuntamento solene de pessoas, há vasos para honra e vasos para desonra (crentes e descrentes).

Este versículo trata especificamente do ajuntamento solene de pessoas, onde várias pessoas reúnem-se (crentes e descrentes).

Quando o apóstolo estabeleceu o comparativo entre uma grande casa e o ajuntamento solene de pessoas crentes e descrentes, ele torna evidente que não há somente vasos de ouro e prata nestes ajuntamentos (reuniões), mas que também há vasos de pau e barro.

Ora, se em uma grande casa há vários tipos de vasos feitos de materiais diferentes (ouro, prata, pau e barro), da mesma forma o ajuntamento solene, que congrega varias pessoas, é um misto de pessoas com valores culturais diferenciados.

Sobre as qualidades e méritos de cada indivíduo que compõe a igreja local, Paulo é bem claro: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” ( 2Co 4:7 ). Paulo sabia qual o valor do conhecimento humano perante o evangelho de Cristo ( 1Co 3:15 ).

O apóstolo Paulo falava a sabedoria proveniente de Deus, para que a fé dos irmãos não estivesse alicerçada em valores provenientes da sabedoria humana ( 1Co 2:5 ).

Ou seja, o apóstolo Paulo pregava o evangelho de maneira dissociada de suas qualidades pessoais. Isto porque ele não pregava a si mesmo “Pois não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus…” ( 2Co 4:5 ). Ele tinha plena consciência de que era vaso de barro.

E quanto a nós? Você se considera que tipo de vaso?

Em Cristo Jesus o cristão é vaso para honra, mas há aqueles que ousam classificar ou medirem a si próprio “Porque não ousamos classificar-nos, ou comparar-nos com alguns, que se louvam a si mesmos; mas estes que se medem a si mesmos, e se comparam consigo mesmos, estão sem entendimento” ( 2Co 10:12 ).

Enquanto Paulo considerava ser um vaso de barro por causa da excelência de Deus, havia aqueles que consideravam ser vasos de ouro e prata, por considerarem a si mesmos como mestres, doutores, pastores, graduados, etc. O que Paulo considerou como escória para ganhar a Cristo, eles (maus obreiros) consideravam como forma de evidenciar uma posição de honra e destaque perante a igreja local ( Fl 3:8 ).

Não é o ser vaso de ouro e prata (qualidades pessoais) que torna o homem vaso para honra. E não é o ser vaso de pau e barro que torna alguém vaso para desonra.

É Deus que tem poder sobre o homem (barro), para constituí-los vasos para honra, e não importa as suas qualidades pessoais (ouro, prata, pau ou barro), pois, é Ele quem faz vasos para honra em Cristo.

Os vasos para desonra moldados em Adão não são provenientes da vontade de Deus, mas da vontade do homem, da carne e do sangue. Não importam quais são as qualidades dos homens nascidos em Adão, é preciso ser feito vaso para honra. Nicodemos é um exemplo claro de um vaso para desonra que possuía vários méritos e qualidades pessoais, etc.

De quais coisas é necessário ao homem purificar-se para ser um vaso para honra? Das contendas de palavras e dos falatórios inúteis que produzem maior impiedade ( 2Tm 2:14 e 16). Este era o caso de Himeneu e Fileto, que não conservaram o modelo das sãs palavras de Cristo e se desviaram da verdade do evangelho ( 2Tm 1:13 e 18).

Crer conforme o modelo das sãs palavras de Cristo, ou seja, crer conforme a Escritura torna um vaso preparado para desonra e que foi destinado à destruição em um vaso de honra e misericórdia.

Mas, se o homem não guardar o modelo das sãs palavras do evangelho, será vaso para desonra e sujeito a ira de Deus.

Quem não segue o caminho de Fileto e Himeneu é separado para uso exclusivo de Deus (santificado). É idôneo para uso, uma vez que é participante da herança dos santos na Luz ( Cl 1:12 ). Foi criado para toda a boa obra ( Ef 2:10 ).

Com base no que foi exposto, vem a pergunta: você é vaso para honra ou vaso para desonra?

Se você creu em Cristo conforme diz a Escrituras e guarda o modelo das sãs palavras do evangelho (persevera), você foi criado um novo homem (vaso) para honra e louvor ao nome de Deus ( Ef 1:11 -12).

Mas, aquele que não crê na mensagem do evangelho ou que transtorna a doutrina do evangelho, é vaso para desonra, preparado para a perdição, visto que, ‘não crê no nome do unigênito Filho de Deus’, e, por tanto, já está debaixo de condenação.

Isto demonstra que Deus não predestinou os homens nascidos em Adão à perdição (embora eles sejam preparados para a destruição), visto que, os cristãos eram filhos da ira e da desobediência, mas foram suportados por Deus com muita paciência ( Rm 9:22 ).

Aqueles que eram preparados para perdição, mas que ao ouvirem a palavra do evangelho e creram, foram remidos dos pecados dantes cometidos sob a paciência de Deus, e tornaram-se vasos para a honra ( Rm 3:25 ).

Agora, compreendendo esta verdade, não tenha um sentimento de soberba, achando que você é melhor que os demais (vaso de ouro, prata), antes guardem este tesouro, sabendo que é vaso de barro, criado em Cristo para toda boa obra ( 2Co 4:7 ).

Agora, ao analisar o contexto do capítulo 9 de Romanos, temos que os israelitas confiavam da carne que eram filhos de Deus. Não atinavam que os nascidos segundo a carne são carnais. Não era porque eram descendentes de Abraão que eram seus filhos (filho de Abraão é o mesmo que filho de Deus).

Para ser filho de Abraão é preciso a mesma fé que teve o crente Abraão, que creu na promessa de Deus. Os judeus cofiavam da carne que eram filhos de Deus, porém, segundo a carne eram filhos de Adão. Continuavam na condição de filhos da ira e da desobediência.

Eles (judeus) eram vasos de desonra como os demais gentios, pois todos os homens são gerados segundo a carne por causa de Adão. Tanto judeus quanto gentios precisam nascer de novo para serem feitos filhos de Deus, tornando-se vaso para honra.

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O Temor do Senhor e a loucura dos ímpios

O termo ‘louco’ nas Escrituras é utilizado para fazer referência ao povo de Israel que não acatavam o ‘conhecimento de Deus’. Quando Jesus nomeou os escribas e fariseus de ‘loucos’, assim o fez porque seus interlocutores não sabiam o caminho e o juízo de Deus, a quem diziam que serviam “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ).


 

“O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 )

Os seis primeiros versículos do livro de Provérbios deixam claro qual é o objetivo do livro: conceder aos seus leitores o conhecimento necessário para que se possa entender os adágios, as parábolas, os enigmas e as proposições que são empregadas nos livros da bíblia.

O verso sete do capítulo um contém a primeira proposição do pregador, que demanda uma análise detalhada.

O que significa ‘o temor do Senhor’? Deus quer que os homens tenham medo d’Ele? Quem são os loucos?

Para interpretar este provérbio, se faz necessário analisar os versos seguintes:

“Para fazeres o teu ouvido atento à sabedoria (…) se como a prata a buscares e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus” ( Pv 2:2 -5).

Com base no verso 5 do capítulo 2, verifica-se que o ‘temor’ não é um sentimento de inquietação, pavor, receio, antes refere-se a um conhecimento, um saber revelado por Deus que demanda compreensão (ouvido atento) por parte do homem.

Observe o seguinte verso: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 ). Não ter medo de Deus é uma ordem: não temais! Essa ordem deixa claro que ‘o temor do Senhor’ não é ter medo (receio), visto que Ele ordena a não ter medo d’Ele.

Qual o temor que deveria estar diante do povo de Israel? Qual temor é o princípio da sabedoria? Ora, o ‘temor’ é um modo enigmático de se fazer referência à palavra de Deus, pois esta é a ideia que se depreende dos versos seguintes:

  • “No temor do SENHOR há firme confiança e ele será um refúgio para seus filhos” ( Pv 14:26 );
  • “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 );
  • “… pelo temor do SENHOR os homens se desviam do pecado” ( Pv 16:6 ).

Estabelecer tais relações e comparações é essencial para que se possa compreender o provérbio. Comparando os dois versos a seguir, é fácil distinguir o significado dos termos e a relação entre eles:

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 );

“… e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 ).

O salmista deixa claro que, para não pecar contra Deus é necessário que se esteja de posse da palavra de Deus no coração e, esta mesma palavra que se estabelecerá no coração através da compreensão também é designada temor.

A introdução ao livro de Provérbios ( Pv 1:1 -6) é melhor compreendido a luz dos versos abaixo:

“Então entenderás o temor do SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus. Porque o SENHOR dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento. Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos. Escudo é para os que caminham na sinceridade…” ( Pv 2:5 -7).

Quem ouve a palavra de Deus (faz atento o ouvido) entenderá e achará o conhecimento, pois da boca de Deus procede o conhecimento e o entendimento.

O provérbio “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento…” ( Pv 1:6 ), é uma chave mestra que desvenda o mistério que havia em torno da pessoa do Filho de Deus. É uma referência implícita à pessoa de Cristo, pois em Cristo está escondido todos os tesouros da sabedoria e da ciência “Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento” ( 1Co 1:5 ).

Se o temor do Senhor procede da boca de Deus ( Pv 2:6 ), claro está que o temor do Senhor é uma referência implícita a pessoa de Cristo, pois ele é a Palavra, o Verbo de Deus encarnado “Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” ( Cl 2:2 -3).

Cristo é o Temor do Senhor, pois Ele mesmo disse: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Inequivocamente podemos considerar que Cristo é o ‘Temor de Deus’ pois ele é a sabedoria de Deus “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

A Sabedoria referenciada em Provérbios 8, verso 22 foi revelada no Novo Testamento, como se lê em João 1, versos 2 a 3. No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e era Deus, ou seja, os livros Provérbios e João utilizam terminologias diferentes para fazer referência a Cristo: verbo=palavra=sabedoria.

Todas as coisas foram feitas por Cristo ( Jo 1:2 -3), conclui-se que a Sabedoria personificada em Provérbios refere-se a Cristo “O SENHOR me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras. Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra” ( Pv 8:22 -23).

  • “Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa” ( 1Co 15:34 ) – Qual é o conhecimento de Deus? Cristo ( 2Co 4:6 );
  • “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:5 ) – Cristo é a verdade, o conhecimento de Deus “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 );
  • “Agora, pois, seja o temor do SENHOR convosco; guardai-o, e fazei-o; porque não há no SENHOR nosso Deus iniquidade nem acepção de pessoas, nem aceitação de suborno” ( 2Cr 19:7 ) – Este verso equipara o Temor do Senhor ao Senhor Deus, ou seja, o Temor é uma pessoa – “Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o temor de Isaque não fora comigo, por certo me despedirias agora vazio. Deus atendeu à minha aflição, e ao trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite” ( Gn 31:42 );
  • “E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência” ( Jó 28:28 ) – Cristo é a sabedoria de Deus, portanto, o Temor do Senhor e, somente através d’Ele o homem aparta-se do mal estabelecido em Adão;
  • “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” ( Sl 2:11 ) – Quando se lê que se serve ao Senhor com temor, isto implica servi-lo por intermédio de Cristo, o que os judeus não compreendiam ( Rm 9:2 );
  • “O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” ( Sl 19:9 ) – Sabemos que a palavra do Senhor permanece para sempre “Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pe 1:25 ).

Sendo Cristo a sabedoria de Deus, certo é que Ele é o ‘temor do Senhor’, porém, resta verificar quem são os ‘loucos’ que o verso 7 faz referência “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 ).

Quando lemos que: ‘… tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz…’ ( Rm 3:19 ), certo é que a lei, os salmos, os provérbios e os profetas tem por público alvo os judeus, portanto, os que desprezavam a sabedoria e a instrução são os que viviam sob a lei “Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” ( Jr 5:4 ).

Ou seja, o termo ‘louco’ nas Escrituras é utilizado para fazer referência ao povo de Israel que não acatavam o ‘conhecimento de Deus’. Quando Jesus nomeou os escribas e fariseus de ‘loucos’, assim o fez porque seus interlocutores não sabiam o caminho e o juízo de Deus, a quem diziam que serviam “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:40 ); “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ).

Esta abordagem: “loucos”, se dava em função do desvio do povo de Israel, um vocábulo comum aos profetas de Deus “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” ( Ez 13:3 ).

O profeta Jeremias ao falar em nome do Senhor, acrescentou “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” ( Jr 4:22 ). Por desprezarem a palavra de Deus, o conhecimento e a instrução, o povo de Israel estava desvairado. Não conhecer o seu próprio Deus é loucura.

Ser néscio é antônimo de ser entendido. Qualquer que despreza o temor do Senhor despreza o conhecimento “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” ( Pv 1:7 ).

O apóstolo Paulo ao fazer menção dos instrutores em Israel, assim os nomeou: instrutores dos néscios! De igual modo podiam ser considerados ‘mestres de crianças’, ou seja, de pessoas que não possuem uma mentalidade desenvolvida Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

A conclusão paulina: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios…” ( Ef 5:15 ), é um alerta para que seus leitores não sejam faltos de entendimento, insensatos, ou seja, que compreendam a vontade de Deus. Portanto, os cristãos por terem aceitado a Cristo, a Sabedoria de Deus, são sábios, o que se contrapõe a figura dos judeus, que são néscios, pois ‘serviam’ a Deus sem entendimento ( Rm 9:2 ).

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