Introdução à Hamartiologia – Doutrina do Pecado

Por uma transgressão (παραπτώματι) entrou o pecado (ἁμαρτία), uma falha, um erro, ou seja, a humanidade perdeu a marca, ficou aquém do alvo. Neste sentido, a hamartia diz de uma mancha, um princípio, um poder, um senhor, um reino, etc., que afetou a natureza do homem. Esse significado do termo ἁμαρτία não possui condão ético ou moral, antes aponta para a condição do homem alienado de Deus.


“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12)

Entenda como todos os homens pecaram

Como foi possível todos os homens pecarem? Qual lei transgrediram? Onde, quando e como pecaram? Que ação, ou omissão, fez com que todos pecassem?

 

Introdução

Na frase: ‘… por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12), o termo ‘pecaram’ é tradução do verbo grego ἁμαρτάνω, transliterado ‘hamartano’[1].

Geralmente, os teólogos consideram o significado do termo grego ἁμαρτάνω (hamartano) somente como ‘errar o alvo’, ‘cometer um erro’, ‘cometer um pecado’ (contra Deus), relacionando o termo grego ἁμαρτάνω à transgressão de uma lei, porém, o apóstolo Paulo enfatiza que os gentios ‘pecaram’ (ἁμαρτάνω), mesmo sem lei (ἀνόμως).

Considerando que ‘onde não há lei também não há transgressão’ (Rm 4:15), como é possível os gentios pecarem sem uma lei para transgredirem? Na ausência de lei, o que se espera é que não haja transgressão, porém, o apóstolo Paulo afirma que, mesmo sem uma lei semelhante a lei de Moisés os gentios pecaram, o que nos compele a investigar se há distinção entre ‘transgressão’ e ‘pecado’ e qual a relação entre estes dois termos: “Porque todos os que sem lei (ἀνόμως) pecaram (ἁμαρτάνω), sem lei, também, perecerão; e todos os que, sob a lei, pecaram, pela lei serão julgados” (Rm 2:12).

Se é possível um indivíduo ‘pecar’ mesmo não tendo recebido uma lei semelhante a de Moisés, isso, por si só, demonstra que, o significado do termo grego ἁμαρτάνω quando empregado no Novo Testamento não decorre da transgressão da lei de Moisés, portanto, se faz necessário analisar os significados dos termos αμαρτια e ἁμαρτάνω para compreendermos as várias nuances destas palavras quando empregadas no Novo Testamento.

Neste estudo procuraremos demonstrar que os descendentes de Adão são contados como transgressores porque são filhos da desobediência (Cl 3:6), ou seja, nenhum dos descendentes de Adão teve que desobedecer um mandamento específico de Deus para ser pecador. Todos os homens nascidos de Adão são pecadores em função da morte, maldição que passou a todos, daí o qualificativo ‘filhos da desobediência’.

Também procuraremos demonstrar que o ‘pecado’ atribuído a Adão refere-se a perda da perfeição dada por Deus. A perfeição é o padrão que Deus estabeleceu ao criar o homem, uma espécie de marca dada por Deus ao homem,

 

Qual a definição bíblica de pecado?

Quando o apóstolo Paulo afirmou que, tanto gentios, quanto judeus, estavam debaixo do pecado, citou algumas passagens do Antigo Testamento que evidenciam que os judeus também eram pecadores, assim como os gentios.

Além de evidenciar a condição dos judeus, essas passagens do Antigo Testamento também servem para entendermos o significado do termo αμαρτια (pecado), transliterado ‘hamartia’ quando empregado no Novo Testamento.

“… pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado. Como está escrito:

‘Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus’ ” (Rm 3:9-11).

A preposição ὑφ’ (debaixo) da frase “ὑφ’ ἁμαρτίαν εἶναι” (estão debaixo do pecado) serve para dizer de ‘alguém que trabalha especificamente como servo’, de modo que, ‘estar debaixo do pecado’, significa ‘estar a serviço do pecado’, que, neste verso, é apresentado como senhor de escravos.

‘Estar debaixo do pecado’ (ὑφ’ ἁμαρτίαν εἶναι) ou ‘ser constituído pecador’ (ἀνθρώπου ἁμαρτωλοὶ κατεστάθησαν οἱ πολλοί) é o mesmo que estar ‘extraviado’, ser ‘inútil’.

O apóstolo Paulo demonstra que todos os homens sem Cristo estão a serviço do pecado, e cita as Escrituras para demonstrar o que é estar a serviço do pecado (Rm 3:10-11). Os servos do pecado são injustos e ignorantes (sem compreensão), daí o emprego do adjetivo ‘pecadores’ (ἁμαρτωλός)[2].

O termo hamartia serviu ao propósito de descrever o homem caído, apresentando a humanidade sob o domínio do pecado. Quando o apóstolo Paulo afirmou que ‘todos estão debaixo do pecado’ (Rm 3:9), sendo o termo grego ὑπό (hupo) traduzido por ‘debaixo’, ‘sob autoridade’, e o termo grego ἁμαρτία (hamartia) traduzido por pecado, utilizou as seguintes passagens bíblicas para demonstrar o que é o pecado:

“Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Rm 3:10-12; Sl 14:1-3; Sl 53:1-3);

“A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios” (Rm 3:13; Sl 5:9; Jr 5:16; Sl 141:3);

“Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm  3:14-18; Is 59:7-8; Sl 36:1; Pv 1:16).

O termo hamartia foi utilizado pelo apóstolo Paulo para descrever a humanidade como extraviada (desviada, afastada, perdida, errante) e sem valor (inútil, corrompida, assim como algo que azeda), conforme o que é apresentado pelas Escrituras.

Os versos elencados pelo apóstolo Paulo apresentam a condição da humanidade afetada pelo pecado decorrente da transgressão de um só homem, e o termo grego hamartia serviu ao propósito de revelar esta realidade aos cristãos.

Quando é dito que não há um justo (δίκαιος), significa que não há ninguém conforme o padrão de justiça de Deus (Mq 7:2), ou seja, todos perderam o padrão que Deus concedeu a Adão: a perfeição. Com a ofensa de Adão ocorreu a ‘perda da marca’, ou seja, a hamartia, concomitantemente o homem perdeu a comunhão com Deus.

Quando é dito que não há quem entenda (συνίημι), significa que não há compreensão, conhecimento de Deus, portanto, o homem, sob domínio do pecado, é um ignorante (Ef 4:18). Embora tenha zelo, falta o conhecimento; o conhecimento revelado em Cristo (Rm 10:2-3).

A descrição dos Salmos demonstra que o termo hamartia foi utilizado para descrever a natureza do homem, ressaltando que a humanidade está arruinada por completo.

A garganta do homem descrita no salmo como sepulcro evidencia que a boca do homem sem Deus é plena de maldição e amargura, o que remete ao próprio coração do homem, pois do que há no coração disto fala a boca (Mt 12:34; Jr 17:9). A condição de maldito o homem herda de berço ( Sl 58:3 ), e a bem-aventurança se alcança somente através do novo nascimento.

O profeta Jeremias dá um argumento notável, que se amolda ao significado do termo hamartia: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9), ou seja, a natureza caída do homem (raça de víboras), é incorrigível. Embora saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus o homem é mau (no sentido de sem valor, baixo, ralé), daí a descrição do salmista: inúteis.

A sujeição ao pecado impossibilita o homem de fazer o bem, mesmo que dê ‘boas dádivas’ aos seus semelhantes (Rm 3:12; Rm 7:21).

Portanto, dentre os muitos significados atribuídos ao termo αμαρτια[3] (hamartia) na literatura grega, devemos escolher aquele que melhor estampa a condição da humanidade, como descrita pelo apóstolo dos gentios, em Romanos 3, versos 10 a 18.

Durante a análise do termo, é imprescindível considerar que, na sociedade grega, todas as coisas se definiam pela função[4], de modo que questões éticas[5] ficavam em segundo plano, pois só, tardiamente, tais questões foram abordadas em tratados filosóficos.

Na Grécia Antiga, o verbo ἁμαρτάνω (harmatano), cognato do substantivo ἁμαρτία, era regularmente utilizado para fazer referência à ação de um lanceiro que errava o alvo, ou seja, não atingia a marca pretendida, significando ‘erro’, ‘perda da marca’, ‘errar o alvo’.

Entretanto, estudiosos entendem que o significado ‘perda da marca’ do termo ἁμαρτία não é empregado no Novo Testamento, por considerarem que o termo adquiriu nova significação, em função de questões como ética, moral, culpa, responsabilidade, etc.

Vale destacar que a falha, ou o erro, que o termo ἁμαρτία remete, não está somente no resultado de uma ação, antes permeia a execução da ação por completo, ou seja, engloba toda ação que resulta no erro. Desse modo, a partir do momento que uma lança era empunhada, calculado o ângulo e arremessada, visando a marca pretendida – um alvo – em não o atingindo, ocorria a ἁμαρτία.

No arremesso de uma lança, as intenções boas ou más, não eram preponderantes para a utilização do termo ἁμαρτία, pois, quando um atleta empunhava uma lança com o objetivo de acertar o alvo, tal ação não abrigava viés moral.

Mas, se voltarmos no tempo, veremos que a postura tradicional da Grécia homérica, era a culpa coletiva, pois se acreditava que a ἁμαρτία era ‘uma mancha que se espalhava’ e afetava o génos (família, clã, grupo familiar ou descendência), ou seja, a consequência da falta de um indivíduo recaia sobre todos os seus parentes e descendentes (pessoas ligadas por laços de sangue), tanto com relação ao parentesco sagrado (pais, filhos, netos ou irmãos) quanto ao parentesco profano (esposos, cunhados, sobrinhos e tios).

Como a ‘arte imita a vida’, nas tragédias gregas, o termo hamartia era utilizado para retratar a ação ou omissão do herói[6] não por falha de caráter ou por maldade. A hamartia, na verdade, apontava para uma maldição que envolvia o herói grego, por causa de um vínculo de sangue com um antepassado amaldiçoado.

As tragédias gregas refletiam o pensamento dos gregos antigos, de que a realidade existencial era perfeita e difícil de explicar ou de descobrir, tanto que a religião olímpica afirmava a existência de um equilíbrio e harmonia que regia a tudo e a todos, em uma espécie de estado universal em perfeição.

Quando havia alguma mudança ou desvio no ‘status quo’ da perfeição, o equilíbrio devia ser restaurado. É neste cenário que o termo hamartia era utilizado com relação ao herói trágico, pois o equilíbrio precisava ser restaurado, mas o herói, apesar de ser integro, de boa índole, invariavelmente, falhava ao tentar recompor a perfeição e o equilibro existencial perdido.

A falha do herói trágico não decorre de violações legais e nem por faltas de cunho moral. O resultado das ações do herói, na tentativa de recompor o equilíbrio, é sempre indesejável em função da hamartia, uma maldição que permeia a existência do herói, mas que ele desconhece (ignora).

Do ponto de vista teológico, os estudiosos não abordam a questão da hamartia como uma ‘mancha que se espalha’, ou do ponto de vista do ‘erro trágico’, e acabam por preferir o conceito de hamartia presente na obra aristotélica ‘Ética a Nicômaco’, em detrimento do conceito estético presente na ‘Poética’, obra do mesmo autor.

Daí a pergunta: Qual definição de ‘hamartia’ adotar ao ler o Novo Testamento?

 

Adão

Adão transgrediu a lei que Deus deu no Éden (Gn 2:16-17) e a ação dele, contrária àquele mandamento específico, é designada pelo apóstolo Paulo como transgressão (παράπτωμα). Em outras palavras, a ‘ofensa’ de Adão foi uma ação deliberada, em oposição ao mandamento de Deus, que envolve dolo e responsabilização.

De Adão é dito que ‘transgrediu’ (Rm 5:18), porque não deu ouvidos à palavra de Deus (desobedeceu- παρακοῆς, cf. Rm 5:19). Também é dito que, por Adão, entrou o pecado (ἁμαρτία) no mundo (Rm 5:12).

Daí surge a pergunta: a transgressão (παράπτωμα) de Adão em não dar ouvidos a palavra de Deus é ἁμαρτία, ou resultou na ἁμαρτία?

É comum confundirem a ‘transgressão’ com o ‘pecado’, porém a παράπτωμα precede a ἁμαρτία, e esta decorre daquela. Concomitantemente, Adão transgrediu e pecou, ou seja, desobedeceu e perdeu o padrão de perfeição que possuía.

O verbo grego ἁμαρτάνω traduzido por ‘pecou’, com relação a Adão, não encerra, em si, uma ação contrária ao mandamento de Deus (Rm 5:16), mas à perda da marca, à perda do padrão concedido por Deus. Adão errou ao desobedecer, daí a culpa e responsabilização e, agregado ao erro, tornou-se injusto, ou seja, perdeu o padrão de justiça concedido por Deus.

Se considerarmos que ‘hamartia’ diz de um ‘erro’, conforme a definição do dicionário VINE: ‘originalmente vinculado ao arremesso de lança (significando errar ou não atingir o alvo)’, certo é que, ao transgredir o mandamento de Deus, Adão errou, ou seja, neste sentido pode-se dizer que Adão ‘pecou’, ‘errou o alvo’.

Entretanto, a ideia contida no verso 16, de Romanos 5 ao afirmar que Adão pecou (ἁμαρτήσαντος) não remete ao erro de ter transgredido o mandamento, mas à condição de extraviado, de inútil.

Vale destacar que há termos gregos que servem para designar o erro, como o termo grego πλάνη (plané), que significa erro, desvio, errante, vaguear, coxear, etc., e que poderia ter sido utilizado pelo apóstolo para descrever o comportamento de Adão, contrário ao mandamento de Deus, assim como foi utilizado em Romanos 1, verso 27.

Se considerarmos o argumento de que a hamartia ‘entrou’ no mundo por um homem, o significado do termo traduzido por ‘erro’, apresentado pelo dicionário VINE, fica aquém da ideia apresentada pelo apóstolo Paulo, vez que após entrar no mundo a hamartia, a morte (aguilhão) também entrou, e por causa da morte é dito que todos pecaram.

Percebe-se que o significado da hamartia, no capítulo 5 de Romanos, possui mais relação com a postura tradicional da Grécia homérica ‘uma mancha que se espalha’[7] e afetava o génos[8] em função do vínculo de sangue que o clã tinha com o faltoso, do que com o erro em função de não ter atingido um alvo.

É só de Adão, que a Bíblia diz, especificamente, que transgrediu (παράπτωμα) um mandamento; transgressão que trouxe consequências para toda a humanidade, pois é dito que ‘por uma transgressão’ entrou o pecado no mundo.

Se entendermos a hamartia como ‘erro’ ou ‘transgressão’, cada indivíduo que viesse ao mundo, teria que transgredir um mandamento à semelhança de Adão. Entretanto, o significado do termo hamartia transcende a ideia de uma transgressão (παράπτωμα) ou de um erro (πλάνη), pois atinge, indistintamente, a todos os descendentes de Adão, por ‘personæ sanguine conjunctæ’ (pessoas ligadas por laços de sangue), vez que a morte passou a todos.

Os descendentes de Adão são contados como transgressores porque são filhos da desobediência (Cl 3:6), ou seja, nenhum dos descendentes de Adão teve que desobedecer um mandamento específico de Deus para ser pecador. Todos são pecadores em função da morte, maldição que passou a todos pelo vínculo de sangue com Adão, daí filhos da desobediência.

Vale salientar que, para os descendentes de Adão transgredirem à semelhança de Adão, seria necessário:

  • Não estarem sujeitos ao pecado e à morte, o que é impossível, visto que foram concebidos em pecado (Sl 51:5);
  • Receberem um mandamento que os alertasse das consequências da transgressão.

No entanto, os descendentes de Adão estão sob o domínio de um senhor – o pecado – que tem por aguilhão a morte, situação completamente diferente da de Adão, quando foi criado.

Após o mandamento no Éden, Deus deu mais dois mandamentos:

  • Através de Moisés, para conscientizar os judeus de que eles também eram pecadores como os gentios, e;
  • O evangelho, que livra do pecado e da morte a todos quantos creem, portanto, é impossível a qualquer descendente de Adão transgredir à semelhança de Adão.

A lei de Moisés serviu de ‘aio’ – guia, mestre – para conduzir os homens a Cristo e o mandamento de Deus no Evangelho, não envolve condenação, pois Cristo mesmo evidenciou que não veio julgar o mundo, mas salvá-lo (Jo 14:47). O mundo já foi julgado e condenado (Rm 5:18), portanto, a lei só evidencia a condição do homem perdido (Rm 3:20).

Adão desobedeceu ao mandamento de Deus e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, de modo que, pela transgressão (παραπτώματι), entrou o pecado (ἁμαρτία) no mundo, e pelo pecado a morte: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse…” (Rm 5:17); “Porque, assim como a morte veio por um homem (…) Porque, assim como todos morrem em Adão…” (1Co 15:21-22); “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16-17).

Por uma transgressão (παραπτώματι) entrou o pecado (ἁμαρτία), uma falha, um erro, ou seja, a humanidade perdeu a marca, ficou aquém do alvo. Neste sentido, a hamartia diz de uma mancha, um princípio, um poder, um senhor, um reino, etc., que afetou a natureza do homem.  Esse significado do termo ἁμαρτία não possui condão ético ou moral, antes aponta para a condição do homem alienado de Deus.

 

Hamartano (ἁμαρτάνω)

No capítulo 2, verso 12, o apóstolo Paulo diz que ‘todos que sem lei pecaram, sem lei também perecerão’. Observe que ele não utiliza o termo transgressão (παραπτώματι), mas o termo ἁμαρτάνω (hamartano), para ‘pecaram’.

Ele não diz que todos transgrediram, mas, sim, que todos pecaram, o que demonstra que o verbo hamartano, refere-se à perda da marca concedida por Deus, e não à transgressão de uma lei, ou a erros de cunho moral ou de caráter.

O apóstolo demonstra, no mesmo verso, que, mesmo os judeus, que estavam sob o domínio da lei, pecaram ἁμαρτάνω, ou seja, estavam fora do padrão de justiça estabelecido por Deus. O termo hamartano não foi utilizado para relatar que os judeus transgrediram a lei, mas, sim para descrevê-los em sujeição ao pecado.

Quando é dito que os judeus ‘pecaram’, devemos entender que eles estavam fora do padrão de justiça estabelecido por Deus, ou seja, que eram injustos, tanto que a lei foi entregue a eles: “Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas” (1Tm 1:9; Dt 9:4). Aqui vai um adendo, para esclarecer que essa é uma linguagem enigmática, pois o homicídio se refere à morte espiritual do indivíduo, perpetrada pelo engano, ou por uma indisposição de contrariar a palavra dada por Deus.

Os judeus, assim como os gentios, perderam a perfeição, perderam a marca (padrão), por isso é dito que pecaram. A lei foi dada para demonstrar que os judeus também eram contados entre os ‘transgressores’, um modo de revelar que eram injustos e obstinados, pois também são filhos da desobediência: “Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade, a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro” (Gl 3:19).

Das oito palavras base para falar das questões relativas ao pecado no Antigo Testamento, os termos hebraicos ןוֹועָ (avon) e אטְחֵ (chet) remetem à ideia de uma maldição, decorrente de um vínculo de sangue:

“Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5).

Os termos avon e chet – ambos significando perversidade, iniquidade, pecado – são intercambiáveis, considerando o paralelismo sintético construtivo ou formal, visto que a segunda parte do verso 5 do Salmo 51 amplia ou acrescenta nova ideia à asserção anterior.

Por intermédio de Moisés, Deus demonstra que não se esquece da condição do homem no pecado (visito), pois a condição do homem se perpetua, indefinidamente, através das gerações (terceira e quarta).

“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Êx 20:5).

Para o homem livrar-se do pecado de Adão, era necessária a circuncisão do coração, ou seja, morrer para o pecado e não a circuncisão do prepúcio, uma marca física.

Quando os judeus receberam a lei, já estavam sob o domínio do pecado, de modo que foi dito que, para obterem vida, era necessário observar o que estava sendo prescrito por Deus, o que demonstra que estavam presos ao pecado, por causa da morte: “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR” (Lv 18:5).

Mas, por intermédio da lei, era impossível ao homem obter vida, pois havia uma obrigação para os mortos alcançarem vida: “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” (Gl 3:12). Ora, se a lei não é da fé, segue-se que tudo o que não é proveniente da fé é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23).

Na definição do apóstolo, o termo ‘fé’ não se refere à crença (πιστεύω-pisteuó) do homem, antes diz de Cristo, que foi enviado por Deus. Tudo que não é proveniente de Cristo, a ‘fé’ manifesta na plenitude dos tempos, é pecado (ἁμαρτία): Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé, que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

Com lei ou sem lei, todos pecaram (Rm 3:23), o que demonstra que não se aplica ao termo hamartano a ação do verbo παραπτώματι (transgressão), antes a transgressão (παραπτώματι) de um homem resultou em uma queda, que comprometeu todos os homens, igualmente.

No verso 25 de Romanos 4, o apóstolo Paulo utiliza o termo παράπτωμα[9] (paraptóma), traduzido por ‘pecados’, demonstrando que Jesus morreu pelo παράπτωμα, ou seja, o termo aponta para um erro que não decorre de questões morais, comportamentais e nem de caráter.

Onde ocorreu o desvio, ou seja, a παραπτωμα (paraptóma)? No Éden, ou seja, na madre, como se lê: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3). É por esse desvio que Jesus morreu, vez que todos necessitam nascer de novo!

O pecado (ἁμαρτία), que entrou no mundo (κόσμος-kósmos), decorre da transgressão (παραπτώματι) de um só homem, portanto, nesse contexto, a hamartia não pode ser confundida com a ação de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, antes a hamartia resultou daquela ação.

A transgressão de lançar mão do fruto e comer, muitos rotulam como ‘pecar’, porém, quando é dito que ‘um só pecou’, a ideia do termo ‘pecou’, no texto, é ‘perda da marca’, ou seja, ‘ficar aquém do padrão’. Quando é dito que ‘um só pecou’, significa que um só perdeu a marca, por conseguinte, todos perderam; um se fez inútil, todos foram feitos inúteis. A marca ou o padrão que Adão perdeu, quando é dito que ‘pecou’, diz da perda da perfeição concedida por Deus.

Quando o apóstolo Paulo pergunta se o cristão há de ‘pecar’ por não estar sujeito à lei (Rm 6:15), o termo ‘pecar’ é tradução do verbo ἁμαρτάνω (hamartano). A discussão do apóstolo é existencial, e não comportamental, assim como a abordagem de Jesus:

“Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34).

A pergunta: ‘Havemos de pecar?’, é o mesmo que: ‘Permaneceremos no pecado’? (Rm 6:1). Quem está morto para a ἁμαρτία, já não vive para a ἁμαρτία, antes vive para Deus (Rm 6:2), de modo que, se o corpo que pertence ao pecado foi desfeito, é impossível servir ao pecado, portanto, é impossível pecar (Rm 6:6).

Ao ser crucificado com Cristo, o homem deixa de estar debaixo (ὑπό hupo, traduzido por ‘debaixo’, ‘sob autoridade’) do pecado, portanto, não peca (Jo 3:6). O verbo hamartano foi utilizado pelo apóstolo João para demonstrar que aquele que permanece sob autoridade de Cristo, não perde a marca, ou seja, o padrão de justiça imputado através de Cristo é conservado. Pecar é perder o padrão, o que é contraponto a conservar, manter inalterado, intacto.

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo e o maligno não lhe toca” (1Jo 5:18).

A discussão que o apóstolo Paulo introduz, no capítulo 5 de Romanos, não tem relação com a prática de ações inconvenientes reprováveis, segundo a moral e as leis dos homens (Rm 1:27), ou dos tropeços a que todos estão sujeitos (Tg 3:2), onde as questões de cunho comportamental devam ser consideradas.

A ideia discutida, tem relação com o senhorio da justiça ou do pecado (Rm 6:17), vez que aqueles que pecam pertencem ao diabo (1Jo 3:8) e os que não pecam pertencem a Deus (1Co 6:20). Por outro lado, os filhos de Deus não (impossibilidade) pecam (perder o padrão, a marca), pois a semente de Deus permanece em seus filhos (1Jo 3:9).

A questão é de domínio da justiça ou do pecado, portanto, não se trata de questões éticas, de moral, de culpa, de responsabilidade, etc.

Aquele que está morto com Cristo, está livre (δικαιόω)[10] do pecado (Rm 6:7), no sentido de estar em conformidade com o padrão de justiça que há em Cristo. Por que livre do pecado? Porque é livre do aguilhão (morte) (Rm 6:9), que prende o homem no pecado (Rm 6:14; Hb 2:15).

Quando se questiona: ‘Havemos de pecar por não estarmos debaixo da lei?’ (Rm 6:15), a pergunta não se refere a fazer coisas inconvenientes do ponto de vista moral, mas sim, se o crente em Cristo, por não estar debaixo da lei, mas da graça, se não teria o padrão de justiça tal como é exigido por Deus (Rm 6:18).

Esta mesma verdade verifica-se na seguinte premissa:

“Todo aquele que comete[11] pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34).

A ênfase do período está na sujeição do homem ao pecado como servo e não no comportamento inconveniente ou depravado, visto que Jesus estava tratando com religiosos.

O termo grego ποιεω (poieo), comumente traduzido por ‘comete’, dá ideia de ação contrária a um mandamento, porém, o termo grego possui diversos significados, dependendo do contexto.

O problema dos interlocutores de Jesus não eram as suas ações, mas, sim, o fato de que eram guiados, ou seja, ‘levados a fazer algo’, ou ‘fazer algo a partir de alguma coisa’, que, no texto em comento, é o pecado, o que nos remete à explicação do apóstolo Paulo:

“Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei do pecado, que está nos meus membros” (Rm 7:21-23).

Os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de Deus (Rm 8:14) e os filhos da desobediência, guiados pelo pecado. A carne milita contra o Espírito e o Espírito contra a carne, para terem domínio sobre o homem, ou seja, para que não realizem o seu próprio querer (Gl 5:17).

‘Pecar’ é consequência da sujeição ao pecado: – O homem é escravo do pecado e, por ser servo, ‘peca’. Tal afirmação não comporta o argumento como motivo, só como consequência, até porque, em função da transgressão de Adão: “… não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e nunca peque” (Ec 7:20).

É por isso que é dito: “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” (Jó 14:4). Embora saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus o homem é mal, vil, ralé, baixa estirpe (Mt 12:34). A árvore má só produz maus frutos, semelhantemente o pecador: todos os seus pensamentos e ações estão comprometidos, pois o homem está sob o domínio da ἁμαρτάνω. Tudo que o homem faz com os seus membros, quando sob domínio do pecado é o mal, até as boas dádivas aos semelhantes (Rm 7:19).

Por definição, os escravos do pecado praticam o pecado e os servos da justiça praticam a justiça (1Jo 3:4 e 7), vez que um servo não pode servir a dois senhores (Mt 6:24), de modo que, a expressão ‘aquele que comete pecado’, deve ser entendida como aquele que está sujeito (escravo) ao pecado – ὑφ’ ἁμαρτίαν -, ou seja, ὑφ’  significa ‘em poder de’, ou, ‘sob a autoridade’ do pecado (Rm 3:9).

Quando lemos: “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou” (Rm 5:16), o termo ἁμαρτήσαντος traduzido por ‘pecou’ não se refere a transgressão (παραπτώματι) da lei no Éden, mas, sim à perda da marca, que afetou todos os descendentes de Adão.

A hamartia que entrou no mundo, se assemelha à falha que afeta o herói trágico, à chamada ‘falha aristotélica’ ou ao ‘erro trágico’, que se dá pela ignorância do herói, e não por falha de caráter. Diante desta perspectiva, não importa o que o homem faça para livrar-se da sua condição desventurosa, sempre estará fadado ao erro.

Além do pecado e da morte, a transgressão também introduziu no mundo questões relativas ao bem e ao mal, pois o bem e o mal é conhecimento produzido pelo fruto da árvore que estava no meio do jardim. O conhecimento do bem e do mal, por sua vez, não é a hamartia, pois o próprio Deus é conhecedor do bem e do mal.

A hamartia que entrou no mundo não está vinculada ao conhecimento do bem e do mal, mas, sim à transgressão. Essa hamartia assemelha-se à mancha que se espalha em função do vínculo de sangue. Tem mais relação com o conceito estético da Poética do que com a abordagem filosófica da Ética a Nicômaco.

Quando foi dito pelo apóstolo Paulo que ‘todos pecaram’, é comum o entendimento de que ‘pecaram’ porque todos cometeram atos (ação ou omissão) contrários à lei de Deus.

Inúmeras concepções doutrinárias equivocadas, como a que diz que o homem aprende[12] a pecar, ou que o ensinamento de que o homem herda o pecado de Adão, remove do pecador a responsabilidade dos seus erros, surgem da má leitura do termo hamartia.

Há quem confunda inocência[13] com ‘não sujeição ao pecado’, que ser inocente é o mesmo que ser justo e se esquece do alerta que diz: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples (inocente) passam e sofrem a pena” (Pv 27:12).

Sabemos que Deus não destrói o justo com o ímpio (Gn 18:23-25). Quando Deus prometeu que não destruiria Sodoma e Gomorra se lá houvesse dez justos (Gn 18:32), apesar dos inúmeros inocentes que haviam na cidade, Deus não teve as crianças como justas, pois as duas cidades foram destruídas.

 

Todos pecaram

Assim como é dito que um fruto ‘pecou’ quando não ‘vinga’ e é impróprio para o consumo, devemos entender que o termo ‘todos pecaram’, como ‘todos perderam a marca’, o padrão de qualidade, ou seja, são inúteis, reprováveis, impróprios, etc.

O apóstolo Paulo utilizou o termo grego ἁμαρτάνω para enfatizar que a humanidade está aquém do padrão exigido por Deus, portanto, são inúteis:

“ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον” (Rm 5:12)

“em que todos pecaram” (Rm 5:12)

Quando o apóstolo Paulo diz: ‘… em que todos pecaram’ (Rm 5:12), fez uma releitura do Salmo 53, para demonstrar que, tanto judeus quanto gregos, estavam sob o pecado, portanto judeus e gentios são inúteis: “Porque em Jesus Cristo, nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (Gl 5:6); “A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” (1Co 7:19).

 “πάντες ἐξέκλιναν

ἅμα ἠχρεώθησαν[14](Rm 3:12; Sl 53:3);

‘Todos se desviaram, juntos se fizeram inúteis’ (Rm 3:12).

O termo grego ‘ἥμαρτον’ (pecaram), no contexto de Romanos 5, não se refere a nenhuma ação ou omissão, antes diz da condição da humanidade afetada pelo pecado e pela morte, que entram no mundo. Por causa de um motivo específico que é dito ‘todos pecaram’: porque a morte passou a todos os homens e não por terem transgredido um mandamento! “… e assim a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12)

Como a morte passou a todos os homens, é dito que todos pecaram, ou seja, estão em falta, são inúteis, de modo que são impróprios para o objetivo para o qual foram criados.

Quando disse que ‘todos pecaram’, o apóstolo Paulo demonstrou que o homem está aquém do exigido por Deus, no sentido de que “não atingiu a marca”, sem amalgamar à ideia questões de culpa, consciência, responsabilidade, etc.

A ‘marca’, neste caso, diz de um padrão de perfeição (τέλειος[15]-teleios), que deve ser entendido do ponto de vista funcional e não do ponto de vista moral.

O apóstolo Paulo não enfatizou que todos são pecadores, porque transgrediram um mandamento específico, antes, é dito que, como a morte passou a todos os homens, todos são imundos, inúteis, impróprios, ou seja, pecaram (ἥμαρτον), condição que independe de consciência, culpa, ação/omissão ou responsabilidade: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5:12).

A morte passou a todos os homens, de modo que: “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” (Mq 7:4). Daí a máxima: ‘Não há entre os homens um que seja justo’ (Mq 7:2; Sl 53:3).

Os espinhos são inúteis e só servem para serem queimados: “E os povos serão como as queimas de cal; como espinhos cortados arderão no fogo” (Is 33:12).

Da mesma forma que é dito que um fruto pecou, quando impróprio para consumo, assim os homens são impróprios para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Por causa da pena estabelecida no Éden: a morte, é dito que todos pecaram.

Qual o propósito de Deus para o homem?

O propósito de Deus é a preeminência de Cristo, pelo que Deus o fez primogênito entre muitos irmãos e o mais sublime dos reis da terra: “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27).

Em Israel cumpre-se o propósito de estabelecer Cristo como o mais sublime dos reis da terra, pois se assentará sobre o trono de Davi, e na Igreja cumpre-se o propósito da primogenitura de Cristo, pois são conduzidos a Deus muitos filhos que serão semelhantes a Ele (1Jo 3:2).

Os homens são pecadores no sentido de impróprios para o que foram criados, pois Deus é vida e o homem está morto. Daí a necessidade de nascerem de novo da semente incorruptível que é a palavra de Deus.

Por serem descendentes de Adão, também é dito nas Escrituras que todos os homens são ‘mentirosos’. Não significa que todos os homens são desonestos e faltam com a verdade com os seus semelhantes, antes são mentirosos, no sentido de serem impróprios para o que foram criados: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e venças quando fores julgado” (Rm 3:4); “Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos” (Sl 116:11).

Os filhos de Israel eram designados por Deus como mancha, mentirosos, corrompidos, perversos, etc., no sentido de não terem parte com Ele, no sentido de serem adversários: “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9); “Corromperam-se contra Ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5).

Todos os homens se fizeram inúteis em Adão, ou seja, ‘pecaram’ (Sl 58:3), pois, toda a humanidade estava unida no lombo de Adão, assim como Levi estava no lombo de Abraão, quando este deu dízimo a Melquisedeque: “Porque ainda ele estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hb 7:10).

Conclui-se, portanto, que, quando o apóstolo Paulo deixou registrado que todos pecaram, não fez referência à ação ou omissão de indivíduos, antes, estava indicando que, por serem descendentes de Adão, todos os homens estavam em pecado: mortos, separados de Deus, portanto, impróprios, inúteis, aquém da marca.

 


[1] “264 αμαρτανω hamartano talvez de 1 (como partícula negativa) e a raiz de 3313; TDNT – 1:267,44; v 1) não ter parte em 2) errar o alvo 3) errar, estar errado 4) errar ou desviar-se do caminho da retidão e honra, fazer ou andar no erro 5) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado” Dicionário Bíblico Strong; “hamartanô (desde Homero) significava originalmente, “errar”, “errar o alvo”, “perder”, “não participar de alguma coisa”, “enganar-se”. O conceito gr. do erro tem orientação intelectual. O subs. cognato é hamartia (desde Ésqu.), “erro”, “falta de alcançar um alvo” (mormente espiritual). O resultado desta ação é hamartêma, “fracasso”, “erro”, “ofensa” cometida contra os amigos, contra o próprio corpo, etc. Derivaram-se daí (no século V a.C.) o adj. e o subs. hamartólos, “coisa ou pessoa que falha” ; em Aristóf. ocorre como barbarismo que se emprega em tom depreciativo e irônico, hamartètikos (a forma melhor) também é raro, e de data posterior. A raiz hamart-, com seu significado de “fracassar”, produziu muitos compostos populares, e.g. hamartinoos, “louco”. 1. No mundo de língua grega, o subs. hamartèma prevaleceu sobre o vb. hamartano. Aristóteles o colocava entre adikèma, “injustiça”, e atychéma, “infortúnio”, como ofensa contra a ordem estabelecida, mas sem intenções malignas, i.é, sem kakia, “maldade”, “perversidade” (Eth. Nic. 5,8, 1135b 18)” Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000.

[2] “268 αμαρτωλος hamartolos de 264; TDNT – 1:317,51; adj 1) dedicado ao pecado, um pecador 1a) não livre de pecado 1b) pre-eminentemente pecador, especialmente mau 1b1) homens totalmente malvados 1b2) especificamente de homens marcados por determinados vícios ou crimes 1b2a) coletores de imposto, pagão, idólatra” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “266 αμαρτια hamartia de 264; TDNT – 1:267,44; n f 1) equivalente a 264 1a) não ter parte em 1b) errar o alvo 1c) errar, estar errado 1d) errar ou desviar-se do caminho de retidão e honra, fazer ou andar no erro 1e) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado 2) aquilo que é errado, pecado, uma ofensa, uma violação da lei divina em pensamento ou em ação 3) coletivamente, o conjunto de pecados cometidos seja por uma única pessoa ou várias Sinônimos ver verbete 5879” Dicionário Bíblico Strong; “I. hamartia (ἁμαρτία) é, literalmente, “perda da marca”, mas este significado etimológico quase que se perdeu por completo no Novo Testamento” Vine, W. E., e outros, Dicionário VINE, O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento, Tradução Luís Aronde Macedo, Ed. CPAD, 2002; “Hamartia significa ‘erro’, nem mais nem menos. Originalmente vinculado ao arremesso de lança (significando errar ou não atingir o alvo), passou a ser usado para qualquer tipo de engano, desde tropeçar em uma pedra até deixar escapar a palavra errada ou simplesmente criar um mal entendido. Na filosofia grega, imperfeição moral podia ser descrita como hamartia, significando ‘não alcançar’ o ideal em pensamento ou conduta” MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2000. Pág. 28.

[4] “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (ARISTÓTELES, 2011, p. 22).

[5] “A ideia de que moralidade e ética podiam ser codificadas era recente, mesmo nos dias de Aristóteles, e resultava menos de um impulso para prescrever ou pregar do que da incessante indagação de questões e proposição de soluções que caracterizavam o início da filosofia grega” MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2000, pág. 13.

[6] “Resta, portanto, a situação intermediária. É a do homem que não se distingue muito pela virtude e pela justiça; se cai no infortúnio, tal acontece, não porque seja vil e malvado, mas por força de um erro; e esse homem há de ser algum daqueles que gozam de grande reputação e fortuna, como Édipo, Tiestes ou outros insignes representantes de famílias ilustres. É, pois, necessário que um mito bem estruturado seja antes simples do que duplo, como alguns pretendem; que nele se não passe da infelicidade para a felicidade, mas, pelo contrário, da dita para a desdita; e não por malvadez, mas por algum erro de uma personagem, a qual, como dissemos, antes propenda para melhor do que para pior” Souza, Eudoro de. A Poética de Aristóteles: tradução e comentários. Porto Alegre: Editora Globo, 1966, cap. 13 – 1453ª, 7-22.

[7] “… um ato perigoso, cometido porque o agente não é conhecedor de alguma circunstância vital. A essência da hamartía é a ignorância combinada com a ausência de intenção criminosa” Hirata, Filomena Yoshie, Anais de Filosofia Clássica, vol. 2, nº 3, A hamartía aristotélica e a tragédia grega, 2008

[8] “Quanto à génos pode o vocábulo ser traduzido, em termos de religião grega, por “descendência, família, grupo familiar” e definido como personae sanguine coniunctae, quer dizer, pessoas ligadas por laços de sangue. Assim, qualquer falta, qualquer hamartía cometida por um génos contra o outro tem que ser religiosa e obrigatoriamente vingada. Se a hamartía é dentro do próprio génos, o parente mais próximo está igualmente obrigado a vingar o seu sanguine coniunctus. Afinal, no sangue derramado está uma parcela do sangue e, por conseguinte, da alma do génos inteiro. Foi assim que, historicamente falando, até a reforma jurídica de Drácon ou Sólon, famílias inteiras se exterminavam na Grécia. É mister, no entanto, distinguir dois tipos de vingança, quando a hamartía é cometida dentro de um mesmo génos: a ordinária, que se efetua entre os membros, cujo parentesco é apenas em profano, mas ligados entre si por vínculo de obediência ao gennétes, quer dizer, ao chefe gentílico, e a extraordinária, quando a falta cometida implica em parentesco sagrado, erínico, de fé — é a hamartía cometida entre pais, filhos, netos, por linha troncal e, entre irmãos, por linha colateral. Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens. No primeiro caso, a vingança é executada pelo parente mais próximo da vítima e, no segundo, pelas Erínias” Brandão, Junito de Souza, Mitologia Grega, Vol. 1, Editora Vozes, Petrópolis, 1986, pág. 77.

[9] “3900 παραπτωμα paraptoma de 3895; TDNT – 6:170,846; n n 1) cair ao lado ou próximo a algo 2) deslize ou desvio da verdade e justiça 2a) pecado, delito. Sinônimos ver verbete 51”, e; “51 αγνοημα agnoema de 50; TDNT 1:115,18; n n 1) um pecado cometido por ignorância ou descuido” Dicionário Bíblico Strong.

[10] “1344 δικαιοω dikaioo de 1342; TDNT – 2:211,168; v. 1) tornar justo ou com deve ser 2) mostrar, exibir, evidenciar alguém ser justo, tal como é e deseja ser considerado 3) declarar, pronunciar alguém justo, reto, ou tal como deve ser” Dicionário Bíblico Strong.

[11] “4160 ποιεω poieo aparentemente forma prolongada de uma palavra primária arcaica; TDNT – 6:458,895; v 1) fazer 1a) com os nomes de coisas feitas, produzir, construir, formar, modelar, etc. 1b) ser os autores de, a causa 1c) tornar pronto, preparar 1d) produzir, dar, brotar 1e) adquirir, prover algo para si mesmo 1f) fazer algo a partir de alguma coisa 1g) (fazer, i.e.) considerar alguém alguma coisa 1g1) (fazer, i.e.) constituir ou designar alguém alguma coisa, designar ou ordenar alguém que 1g2) (fazer, i.e.) declarar alguém alguma coisa 1h) tornar alguém manifesto, conduzi-lo 1i) levar alguém a fazer algo 1i1) fazer alguém 1j) ser o autor de algo (causar, realizar) 2) fazer 2a) agir corretamente, fazer bem 2a1) efetuar, executar” Dicionário Bíblico Strong.

[12] “É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente, onde ninguém cria objeção alguma” Shedd, Russell P., Lei, Graça e Santificação, São Paulo: Ed. Edições Vida Nova, 1990, pág. 99.

[13] “2. Jesus não herdou a mancha do pecado, porque nenhuma criança herda o pecado. A pureza de Jesus, quando nasceu, nada tinha a ver com qualquer Imaculada Conceição de sua mãe para quebrar a maldição herdada do pecado. A culpa não é herdada, nem por Jesus, nem por nossos filhos ou netos” Dennis Allan, artigo disponível na Web < http://www.estudosdabiblia.net/d34.htm > Consulta realizada em 23/08/15; “É claro que a referência não pode ser a pecados efetivos, mas somente a pecados potenciais, já que a criancinha ainda não desenvolveu sua consciência moral nem sua responsabilidade (…) Todos os seres humanos são “por natureza filhos da ira” (Ef 2:3), porque todos nascem com a tendência para o pecado, mas não nascem em pecado na realidade. A condenação que recai sobre cada um que vem à raça adâmica é uma culpa judicial, não uma culpa pessoal. Todos estão condenados diante de Deus porque “todos pecaram” em Adão, nosso representante (Rm 5:12)” Norman Geisler – Thomas Howe, Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia, Editora Mundo Cristão.

[14] “889 αχρειοω achreioo de 888; v 1) tornar inútil, corromper-se 1a) de caráter” Dicionário Bíblico Strong.

[15] “A ideia grega de perfeição é funcional. Uma coisa é perfeita quando se realiza plenamente o propósito para o qual foi planejado, projetado e feito. Na verdade, esse significado está envolvido na derivação da palavra. O adjetivo teleios é formado a partir do substantivo telos. Telos significa um fim, um propósito, um objetivo, uma meta. Uma coisa é teleios, se realiza a finalidade para a qual foi planejado, um homem é perfeito se ele percebe o propósito para o qual foi criado, e enviado ao mundo. Tomemos uma analogia muito simples. Suponha que na minha casa há um parafuso solto, e eu quero apertar e ajustar esse parafuso. Eu saio para comprar uma chave de fenda. Acho a chave de fenda que se encaixa exatamente no aperto da minha mão, não é nem muito grande nem muito pequena, muito áspero, nem muito suave. Eu coloco a chave de fenda na ranhura do parafuso, e eu vejo que se encaixa exatamente. Eu, então, giro o parafuso e o parafuso é fixado” Barclay, W: O Estudo Diário da Bíblia Series, Rev. ed Filadélfia: A imprensa de Westminster ou Logos.

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A soberania de Deus assusta?

Não foi Deus que estabeleceu o mal sobre o povo de Israel, antes Ele estabeleceu a sua lei para que, ao obedece-la, gozassem o bem, mas ao transgredirem ficaram a mercê das maldições. E qual a causa da maldição? A desobediência à palavra de Deus “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão” ( Dt 28:15 ).


 

Deparei-me com um texto sob o título ‘Quando a soberania de Deus lhe assusta’, escrito pela Sra. Keri Seavey*, e não pude me furtar a comentá-lo.

O artigo original na língua inglesa encontra-se no seguinte link: < http://thegospelcoalition.org/blogs/tgc/2014/04/28/when-gods-sovereignty-scares-you >, e publicando na língua portuguesa no Blog do Andrew: < http://oblogdoandrew.wordpress.com/2014/04/29/quando-a-soberania-de-deus-lhe-assusta > Consulta realizada em 30/04/14.

A Sra. Seavey conta em seu artigo que ao ouvir uma pregação do seu marido, foi necessário conter a enxurrada de emoções que tentava inundar o seu ser, conforme se lê:

Enquanto ouvia o meu marido pregar no Domingo, eu tentava frear a enxurrada de emoções mistas atravessando a represa interna que ergui. Eu estava espantada, cambaleante por conta da auto-reflexão. Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus” Seavey.

Surpreende-me o argumento:

“Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus”.

É temerário ter conclusões decorrente de uma ‘auto-reflexão’ em momento de forte emoção, mas a alegação de que ela afastou o ‘benefício da dúvida’ confiante de que foi ‘guiada pelo Espírito’ à conclusão de que ‘estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus’, deve ser analisado à luz das Escrituras.

O artigo da Sra. Seavey possui quatro subtítulos, e o último possui argumentação supostamente de cunho teológico que parece ser o fundamento da argumentação dos outros três subtítulos.

Analisaremos primeiro o último subtítulo “Sofrendo soberano”, onde a Sra. Seavey afirma que as Escrituras revelam ‘Deus como Rei amoroso que ordena e supervisiona todo sofrimento’ Idem. O pronome inclusivo ‘todo’ generaliza a assertiva, e em ‘generalizar’ é grande o risco de cometer um erro.

Se entendermos ‘supervisiona’ todo sofrimento como algo inerente a onisciência de Deus, que tudo vê e tudo sabe, poderíamos entender como verdadeira a segunda parte da assertiva “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” ( Hb 4:13 ).

Agora, dizer que Deus ‘ordena’ todo sofrimento é temerário, pois os infortúnios do homem decorrem dos seus próprios erros “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados” ( Lm 3:39 ).

É por isso que o apóstolo instrui dizendo: – “Não erreis’! E o motivo de o homem não errar é específico: tudo o que semeia, ceifará “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” ( Gl 6:7 ).

Deus estabeleceu a lei da semeadura, o que é completamente diferente de ter ‘ordenado todo sofrimento’. E como a colheita é abundante comparado ao que se planta, certo é o ditado: quem planta vento colhe tempestade “Porque semearam vento, e segarão tormenta, não haverá seara, a erva não dará farinha; se a der, tragá-la-ão os estrangeiros” ( Os 8:7 ).

Neste sentido, o sofrimento não é determinado por Deus, visto que não há maldição sem causa “Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá ( Pv 26:2 ). A morte só entrou no mundo por causa da desobediência de um homem que pecou, Adão ( Rm 5:12 ). O mandamento que foi dado no jardim alertava quanto à maldição que sobreviria sobre o homem, porém, a decisão do homem foi causa da maldição.

Deus é soberano, no entanto, apesar do seu eterno poder, Ele é fiel, justo e reto, ou seja, a ninguém oprime, de modo que jamais ordena o sofrimento de indivíduos em particular “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

A maldição que se abateu sobre a terra se deu em função de Adão ter dado ouvidos à mulher e comido da árvore que lhe foi vetada por Deus, e a maldição atingiu todos os homens. No Éden a dor foi posta como maldição decorrente do pecado, de modo que com dor o homem passou a comer do produto da terra até retornar ao pó da terra “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:17 -19).

Vemos a lei da semeadura aplicada a Israel, pois a rebelião deles trouxe consequência funestas ( Os 8:1 ), ou seja, fizeram um plantio de vento, e a tormenta se abateu sobre eles. Por terem transgredido a aliança é que sobreveio a guerra, a fome e a peste, conforme o testemunho contra os filhos de Israel que consta em Deuteronômio ( Dt 31:19 -21).

Em virtude da palavra de Deus que advertiu que viria um grande mal sobre Israel quando se desviassem do Senhor “Porque eu sei que depois da minha morte certamente vos corrompereis, e vos desviareis do caminho que vos ordenei; então este mal vos alcançará nos últimos dias, quando fizerdes mal aos olhos do SENHOR, para o provocar à ira com a obra das vossas mãos” ( Dt 31:29 ), é que o profeta Habacuque diante da calamidade que se instalava, permaneceu confiante em Deus, pois Ele sabia que a maldição que se abatia sobre o seu povo de Israel era em decorrência da apostasia, e não porque Deus é soberano “Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação” ( Hc 3:17 -18).

Não foi Deus que estabeleceu o mal sobre o povo de Israel, antes Ele estabeleceu a sua lei para que, ao obedece-la, gozassem o bem, mas ao transgredirem ficaram a mercê das maldições. E qual a causa da maldição? A desobediência à palavra de Deus “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão” ( Dt 28:15 ).

Deus não ordena sofrimento, antes que se obedeça a sua palavra. O que traz sofrimento é a desobediência à palavra de Deus. O medo sobressalta o homem quando se afasta de Deus: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do deus vivo” ( Hb 3:12 ).

Dizer que Deus ordena todo sofrimento não tem respaldo bíblico. Deus não é a causa do sofrimento, e nem mesmo o fato de deus corrigir é cauda de sofrimento. Deus corrige seus filhos para evitar que sofram. Deus corrige o que ama e açoita a quem recebe por filho, e após ser contristado pela correção, virá alegria pelo fruto pacífico de justiça “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ).

A quem Deus recebe por filho? Todos quantos creem em o nome do seu Filho, Jesus Cristo ( Jo 1:12 ). E quem Deus ama? Ora, Deus ama a todos quanto o amam “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pv 8:17 ).

Há uma confusão em torno do amor de Deus. Primeiro por não compreenderem o significado do termo ‘amor’. Em segundo lugar por não distinguirem passagens bíblicas que abordam o tema com uma linguagem teológica e outras passagens que abordam o tema com uma linguagem evangelística.

João 6, verso 16 expressa o amor de Deus em uma linguagem evangelística: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ). O que entender por mundo? O termo ‘mundo’ não se refere ao ‘cosmos’. O termo é utilizado no sentido de que Deus amou indistintamente todos os povos, nações e línguas, e daí a ordem: – “Ide por todo mundo” “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” ( Mc 16:15 ); “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim” ( Mt 24:14 ; Mt 28:19 ; “E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” ( Lc 24:47 ),

Mas, como foi dado o amor de Deus? Concedendo aos homens o Seu Filho unigênito (justiça de Deus) para que cressem n’Ele para não perecerem. Em uma linguagem teológica, Deus deu um mandamento pelo qual o homem deva ser salvo, que é: crer naquele que Ele enviou “Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” ( Sl 71:3 ); “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ); “Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador” ( 2Pd 3:2 ).

Ora, o mandamento de Deus é vida “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ), e em última instância, só desfruta do amor de Deus o indivíduo que acata o seu mandamento “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Em João 6, verso 16 temos Deus revelando o seu amor ao mundo, Cristo como esperança da glória. Mas, só desfruta do amor de Deus o indivíduo que ouve a mensagem da cruz e crê que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, pois só o que ama a Cristo é amado do Pai ( Jo 14:21 ).

Com relação à fala:

“Se Ele fosse retratado somente como soberano, seríamos tentados a nos afastar dele por medo” Idem, percebe-se que a Sra. Seavey não compreende a soberania. Soberania diz de quem detém domínio sem que haja quem lhe seja igual ou superior.

Deus como soberano (não está sujeito à condições ou encargos postos por outrem, não recebe ordens ou instruções de ninguém) possui poder e a faculdade de impor aos outros um mandamento que demanda obediência, entretanto, resigna-se somente a ensinar ao homem o caminho que deve escolher. Escolher o caminho é faculdade que o homem exerce, pois onde está o espírito do Senhor, ai há liberdade “Qual é o homem que teme ao SENHOR? Ele o ensinará no caminho que deve escolher” ( Sl 25:12 ; 2Co 3:17 ).

Um soberano que impõe medo é aquele que não respeita as suas próprias leis, mas Deus, mesmo possuindo eterno poder, submete-se a sua própria palavra ( Sl 138:2 ; Sl 110:4 ).

Deus é essencialmente bom, ou seja, superior, nobre, excelente “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13); “O SENHOR é bom, ele serve de fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele” ( Na 1:7 ).

Não há fundamentado na Bíblia para ter medo da soberania divina. Tal medo pode existir em se tratando de um sistema de governo humano em que o mais forte oprime o mais fraco. Ter medo de Deus é um sentimento derivado do desconhecimento, de uma impressão ou entendimento equivocado.

Quando não se entende que amor é obediência ao mandamento surge o medo da soberania de Deus “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ).

O evangelista João demonstra no verso acima que aquele que ‘obedece’ ao mandamento de Deus não tem medo, pois a obediência lança fora o medo. Por outro lado, o medo decorre da pena, e não de Deus ou do seu mandamento, pois aquele que tem medo é porque não obedece. Quem ama obedece a Deus e constata que Ele dá mandamentos para a vida. Quem é desobediente teme, pois ainda não percebeu que o mandamento de Deus é cuidado.

Ficar aterrorizado com a soberania de Deus é acreditar que Deus é punidor, enquanto a Bíblia diz que Ele é galardoador “… porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

O medo da Sra. Seavey é infundado por dois motivos:

a) Dá crédito às suas emoções e desconhece que o amor de Deus não é sentimento (subjetivo), e sim, um mandamento (objetivo); e,

b) Desconhece que, na Bíblia, o termo ‘temor’ possui mais de um significado: ‘obediência’ ou ‘medo’, dependendo do contexto.

‘Medo’ diz do sentimento do desobediente em vista da pena, já o ‘temor’ diz da reverencia a Deus por estar com Ele o perdão “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” ( Sl 130:4 ). Com Deus está o perdão para que Ele seja reverenciado, honra, obedecido, etc., já o medo é em vista da punição e não do perdão.

Bem asseverou Moisés ao povo de Israel que não temessem, ou seja, não ficassem amedrontado, antes Deus estava provando o povo para que o ‘temor’ (palavra) dele estivesse diante dos filhos de Israel “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis ( Êx 20:20 ).

Ora, aquele que esconde a palavra de Deus no coração não peca contra Deus “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ). A mesma mensagem foi dada por Moisés ao povo afim de não pecarem: para que o seu temor esteja diante de vós! Aquele que não peca, não tem medo. Adão só teve medo depois que pecou, desobedeceu.

A Bíblia revela que Deus já escolheu o seu Rei, ungindo o Seu Filho conforme o seu decreto: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:6 -7).

O Cristo é o Filho de Deus Ungido sobre Israel que exercerá domínio sobre todos os povos, línguas e nações. Quando Cristo se assentar no trono da sua glória a reger as nações ( Mt 19:28 ), aos que se sentirem tentados a se afastarem do Rei estabelecido por Deus fica o alerta: sedes prudentes e deixai-vos instruir, ou seja, operai a vossa salvação com temor e tremor “Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” ( Sl 2:9 -12; Fl 2:12 ).

O ‘temor’ do Senhor é a sua palavra, e o ‘tremor’ diz da obediência à sua palavra “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” ( Is 66:5 ).

Jesus revelou o Pai quando se fez carne ( Jo 1:18 ). No fato de Cristo ter sido encarnado segundo a descendência de Abraão, Isaque e Jacó, nascido na casa de Davi, demonstra a fidelidade de Deus à sua palavra e o seu eterno poder “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” ( Rm 1:2 -4).

O Filho, por sua vez, foi revelado aos homens através do testemunho do Pai contido nas Escrituras. As Escrituras descrevem o Cristo de Deus como Servo sofredor, o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele ( Is 53:4 -5). Quando a bíblia diz que o Senhor é sofredor: “Piedoso e benigno é o SENHOR, sofredor e de grande misericórdia” ( Sl 145:8); “Porém tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, sofredor, e grande em benignidade e em verdade” ( Sl 86:15 ), é uma referencia a Cristo, o Senhor que se assentou à destra de Deus nas alturas “DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

Quando a Bíblia assegura a bondade de Cristo, não podemos entender que Ele é condescendente com a desobediência do homem “Ele cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor, e os salvará. O SENHOR guarda a todos os que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos” ( Sl 145:19 -20). A bondade e a severidade de Cristo andam de mãos dadas, pois ele salva os que o temem, ou seja, amam, porém, os ímpios serão destruídos “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Dizer que:

“Na cruz, Jesus perdeu a sua intimidade tenra com o Pai em troca da fúria da sua ira feroz. Jesus foi afligido e abandonado pelo seu Pai para que nós nunca estivéssemos sozinhos e abandonados nas nossas aflições” Idem, é anti-bíblico, pois apesar de ser o aflito de Deus, Jesus nunca foi abandonado pelo Pai. Deus nunca escondeu de Cristo o seu rosto, nem mesmo quando Cristo estava pendurado na cruz “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ).

Foi do agrado de Deus fazer o Cristo enfermar ( Is 53:10 ), e o Cristo, por sua vez, resignou-se como Servo obedecer “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ). Cristo não escolheu sofrer “E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” ( Mt 26:39 ), mas sendo Sevo resignou-se a obedecer.

Ao que se conclui: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:7 -9). Quando na carne, Cristo com clamor e lágrimas rogou ao Pai que tinha poder de livra-lo da morte, e Ele foi ouvido por ser piedoso, temente a Deus, de modo que a sua alma não foi deixada na morte: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” ( Sl 16:10 ).

Cristo foi ouvido pelo Pai quanto a não ser deixado na morte, porém, Deus sempre esteve com Ele enquanto era afligido “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ).

A invocação do Cristo é bela, pois profeticamente por boca do Salmista disse: “Fira-me o justo, será isso uma benignidade; e repreenda-me, será um excelente óleo, que não me quebrará a cabeça; pois a minha oração também ainda continuará nas suas próprias calamidades” ( Sl 141:5 ).

A ‘teologia’ da Sra. Seavey não se sustem diante das Escrituras, de modo que é de se contestar o fato de ela dizer que as suas conclusões foram, sem dúvidas, conduzida pelo Espírito.

“Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus” Idem.

Ora, a função do Espírito Santo é guiar o cristão em toda verdade, de modo que, se a Sra. Seavey estivesse sendo guiada pelo Espírito, não poderia estar à mercê destes equívocos “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” ( Jo 16:13 ).

A função do Espírito Santo é ensinar em todas as coisas e lembrar-se de tudo o que Cristo disse: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” ( Jo 14:26 ), porém, ao encarar o seu coração, a Sra. Seavey não lembra das Escrituras, e sim das palavras de Aslan, um personagem das Crônicas de Nárnia, que ela cita ‘Ipsis litteris’:

“Seguro?” disse o Sr. Castor, “É claro que ele não é seguro. Mas ele é bom. Ele é o Rei, eu lhe digo.” As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis.

A Bíblia nos garante que Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, em quem não há mudança nem sombra de variação e vela sobre a sua palavra para a cumprir pois a elevou acima do seu próprio nome. Tem algo mais seguro que Cristo, o firme fundamento? “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” ( Hb 13:8 ); “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ; 2Tm 2:19 ).

O Sr. Castor da fábula de Clive Staples Lewis não tem um testemunho seguro sobre o Rei Jesus! O Rei Jesus é totalmente seguro, pois Ele é a Pedra de Esquina “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ); “Qualquer que cair sobre aquela pedra ficará em pedaços, e aquele sobre quem ela cair será feito em pó” ( Lc 20:18 ).

O apóstolo Pedro aponta como firme as palavras dos profetas, e na condição de apóstolo não ousou compor fábulas para expor o poder contido no Evangelho “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pd 1:19 ).

Ora, as Escrituras revelam que o Senhor é bom ( Lc 19:15 ), excelente, superior, distinto, nobre, excelso (diz da sua posição). O homem é concitado a louvá-lo porque Ele é bom e porque a sua benignidade dura para sempre “Louvai ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre” ( Sl 118:29 ). Além de ser bom, o Senhor é pronto a perdoar e a sua benignidade é abundante pra os que o invocam “Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam” ( Sl 86:5 ).

Sob o subtítulo ‘Encarando o meu coração’, a lembrança da Sra. Keri Seavey se socorre de uma fábula engenhosamente composta que não reflete a verdade das Escrituras.

A ordem do Senhor é meditar nas Escrituras continuamente, porém, a Sra. Seavey revela que os seus pensamentos sobre a bondade e o amor de Deus surgiu do ‘agitado rios de confusão do ‘seu’ coração’, o que a levou a ter dúvidas sobre o caráter de Deus.

A resposta do Senhor livra o homem dos seus temores e angustias “Busquei ao SENHOR, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores (…) Clamou este pobre, e o SENHOR o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias” ( Sl 34:4 e 6).

Cristo é segurança para os que n’Ele se refugiam, por isso é dito: “Ó! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia. Temei o Senhor, vos os seus santos” ( Sl 34:8 -9). Mas, só é possível ‘temer’ ao Senhor quando se aprende o temor (palavra) do Senhor “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

A palavra do Senhor é o que santifica, pois somos limpos por sua palavra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 ); “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ).

Entretanto, parece não ser esta a crença da Sra. Seavey quando pergunta:

“Mas sendo sincera, as coisas que Deus usa para trazer à tona este bem prometido às vezes me aterrorizam. Será que Ele vai me fazer passar por mais um ano escuro para me santificar?” Idem.

Jesus deixou claro que o homem é santificado pela fé n’Ele, e não em sofrimento “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Ao citar Romanos 5, verso 3, a Sra. Seavey confunde as vicissitudes da vida com as perseguições por causa do Evangelho. As perseguições promovem a perseverança e evidência à bem-aventurança do cristão que em decorrência das injurias terá grande galardão “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa” ( Mt 5:11 )

As vicissitudes da existência terrena decorrem da ofensa no Éden que trouxe maldição a terra até que o homem torne ao pó da terra, já as tribulações de Romanos 5, verso 3 é para quem já está santificado, pois é trata-se de privilégio o padecer por Cristo “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:17 -19); “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fl 1:29 ).

Observe que qualquer que quiser viver segundo a verdade do evangelho será perseguido: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” ( 2Tm 3:12 ), o que produz no crente perseverança, experiência e esperança.

O resistir firme na fé é o mesmo que perseverar, sabendo que as mesmas aflições assaltam todos os cristãos no mundo “Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo” ( 1Pd 5:9 ). Estas aflições referem-se à perseguição por causa da palavra, e não se configura em perda de ente queridos, desemprego, falta de pão, doenças, etc.

A perseguição por causa do evangelho causa aflição, porém, a aflição que sobrevêm aos que querem viver piamente não tem relação com o dia da adversidade estabelecido por Deus em oposição ao dia da bonança. O dia da adversidade possui objetivo definido: para que o homem não saiba o que há de vir depois. Já a aflição por causa do evangelho se dá por causa da palavra “Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro” ( Rm 8:36 ; El 7:14 ).

As Escrituras mostram que o mal veio sobre o povo de Israel somente para confirmar o que anteriormente Deus havia dito pelos seus santos profetas no caso de desobediência, ou seja, estavam colhendo o que plantaram “E ele confirmou a sua palavra, que falou contra nós, e contra os nossos juízes que nos julgavam, trazendo sobre nós um grande mal; porquanto debaixo de todo o céu nunca se fez como se tem feito em Jerusalém” ( Dn 9:12 ).

Entretanto, quanto mais eram corrigidos, mais o povo de Israel se distanciava de Deus. O mal que sobreveio sobre o povo de Israel era um sinal da parte de Deus de que precisavam se arrepender e se voltar para Deus “Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco” ( Is 1:5 ).

O que se observa através do mal decretado diante da desobediência do povo de Israel é a longanimidade de Deus através da correção apontando a felicidade do povo de Israel “Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem” ( Jr 7:23 ), entretanto, a consideração da Sra. Seavy sobre a soberania de Deus causar ‘medo’ retrata o Criador como um déspota.

Não sei onde nas Escrituras que a Sra. Seavy leu e abstraiu o pensamento de que ‘A Bíblia afirma com firmeza que na sabedoria soberana de Deus, Ele pode propositadamente ordenar aquilo que mais tememos’ Idem.

O subtítulo do artigo em comento ‘Dores passadas, medos futuros’ faz referencia a uma concepção de um místico, São João da Cruz, expressa em um poema de título “A noite escura da alma”. O que seria esta noite? Seria a ausência de Deus na vida daquele que nutre uma crença. O indivíduo sente como se Deus o tivesse abandonado ou como se sua vida de prece tivesse entrado em colapso pelo sobressalto das dúvidas.

O Pe. Elílio de Faria Matos Júnior, ao falar das Provações da Madre Teresa Calcutá, fez a seguinte análise:

“São João da Cruz (séc. XVI), um dos maiores místicos da Igreja, ensina que sem “noites escuras” não se pode aproximar de Deus como convém. “Noite escura” é o termo que o santo doutor achou para, metaforicamente, falar do processo de purificação da alma, que se dá na obscuridade da fé e que nos dispõe para o matrimônio místico com o Senhor.” Provações de Madre Teresa de Calcutá < http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/elilio/24.htm > Consultado em 02/05/14.

O poema de São João da Cruz aponta um caminho mítico até Deus, onde é abordadas questões como os vícios capitais, tais como a soberba, a avareza, a luxuria, a ira, a preguiça, etc.

“A cada passo tropeçava com mil imperfeições e ignorâncias, como já mostramos a propósito dos sete vícios capitais” São João da Cruz, A noite escura da alma, Capítulo XI, 3º parágrafo.

Para São João da Cruz a porta e o caminho estreito da qual Cristo fez referência no sermão do Monte seria a ‘noite escura’.

“… entrando por esta ‘porta apertada e este caminho estreito que conduz à vida’, conforme diz Nosso Senhor (Mt 7, 14). A ‘porta apertada’ é esta noite do sentido do qual a alma é despida e despojada para poder entrar firmando-se na fé, que é alheia a todo o sentido, a fim de caminhar depois pelo ‘caminho estreito’ que é a outra noite, a do espírito” Idem.

Há equívocos absurdos na abordagem de São João da Cruz, visto que Cristo é a porta estreita e o caminho apertado que conduz o homem a Deus ( Jo 10:9 ). Jesus se apresentou como a luz do mundo, e que n’Ele anda não estará em trevas ( Jo 12:46 ). O apóstolo Paulo enfatiza que os que creem pertencem ao dia, e não as trevas.

“Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ).

Mas, deixemos as mitificações de São João da Cruz de lado, e analisemos a atitude da Sra. Seavey quando enfrentou a chamada ‘noite escura da alma’. Ela enfatiza que ‘fez tudo o que sabia para mudar o seu coração’, e passou a sondar minunciosamente, ela mesma, o seu coração em busca de ‘pecados ocultos’.

Apóstolo Paulo alerta: “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” ( 1Co 8:2 ). Ela desconhece que só Deus sonda os corações dos homens ( Sl 139:23 ), e que só por meio da palavra de Deus é que se compreende os erros “Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos” ( Sl 19:12 ).

Quais os erros ocultos do homem? O fato de ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Que todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundo através da ofensa de Adão ( Sl 53:3 ). Que desde o ventre os homens se desviam de Deus e andam errados desde nascem e falam mentiras ( Sl 58:3 ).

Ora, a Bíblia nos informa que: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ), e que só Deus pode esquadrinhar o coração “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ).

Não há nada que o homem faça que possa mudar o seu coração, pois isto é impossível aos homens. Mas, quando o homem crê no enviado de Deus – Cristo – há a circuncisão de Cristo, que é o despojar de toda carne, momento em que Deus dá um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Cl 2:11 ).

Entendo a complexidade dos sentimentos e o torvelinho que move as emoções do homem em momentos de perda de um ente querido. Estas emoções podem se somar a outras questões físicas e psíquicas, como é o caso da tensão pré-menstrual, o nervosismo, as frustrações, etc.

Qualquer um fica assustado quando se deixa levar pelas emoções de reviver algumas das vicissitudes pertinentes a existência do homem na terra. A expectativa dos problemas que estão por vir provocam ansiedade, porém, a ansiedade nada resolve “E disse aos seus discípulos: Portanto vos digo: Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis (…) Pois, se nem ainda podeis as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras?” ( Lc 12:22 e 26).

Por causa da ofensa de Adão ficou estabelecido que todo homem há de retornar ao pó ( Gn 3:19 ), e a dor da separação não torna o homem melhor ou pior diante de Deus.

Jesus teve que enfrentar a tristeza e a angustia dos momentos que antecederam a sua morte “E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” ( Mt 26:37 -38).

Por causa da aflição e da angustia Cristo pediu ao Pai que passasse dele o cálice, porem, acatar a vontade do Pai era um prazer que suplantou a angustia a e a aflição “Aflição e angústia se apoderam de mim; contudo os teus mandamentos são o meu prazer” ( Sl 119:143 ).

A certeza da morte trazia aflição “Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura” ( Sl 88:3 ), porém, Ele não perdeu de vista a presença constante do Pai naqueles momentos cruentos “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ).

O medo de Deus em vista das vicissitudes da existência humana não se justifica, pois Deus deixa claro que Ele mesmo prova o coração e os rins, e dará a cada um segundo o fruto de suas ações “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ).

Passar desta existência para a eternidade não deve ser o mote da preocupação do Cristão, mas sim onde o homem passará a eternidade “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” ( Dn 12:2 ).

 

*Keri Seavey mora em Vancouver, Washington, com seu marido que é pastor na Living Water Community Church. Eles têm quatro filhos. Keri é líder do ministério feminino, conselheira bíblica, palestrante e escritora que posta com frequência no blog da Biblical Counseling Coalition.

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