A presciência é ato e atributo de Deus?

O substantivo προγνωσις (prognosis) traduzido por ‘presciência’ quando utilizado pelo apóstolo Pedro não está associado à ideia de predestinação ou pré-ordenação.


A presciência é ato e atributo de Deus?

O pastor batista Claude Duvall Cole, no artigo ‘A Presciência de Deus’, afirma que a presciência é atributo e um ato divino. Para chegar a essa conclusão, ele cita sete versículos na Bíblia que contém o termo ‘presciência’.

O Pr. Arthur W. Pink, no livro ‘Atributos de Deus’[1], ao falar da onisciência, apresenta Deus conhecedor de todas as coisas, do passado, do presente e do futuro, mas, também, faz alusão à presciência de Deus.

Analisaremos o artigo do Pr. C. D. Cole e faremos algumas alusões à exposição do Pr. Pink.

Vejamos:

“Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8:29);

“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu” (Romanos 11:2);

“Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão” (2 Pedro 3:17);

“Sabendo de mim desde o princípio” (Atos 26:5);

“O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda, antes da fundação do mundo” (1 Pedro l:20).

“A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2:23);

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1 Pedro 1:2).

Vale destacar que, dos sete versículos acima, cinco vezes o termo presciência aparece na forma verbal e duas vezes, na forma substantivada. O verbo προγινώσκω (proginóskó) aparece em Romanos 8:29, Romanos 11:2, Atos 26:5, 2 Pedro 3:17, 1 Pedro 1:20 e a forma substantivada πρόγνωσις, εως, ἡ (prognósis em) aparece em Atos 2:23 e 1 Pedro 1:2.

O comentário que o Pr. Cole faz acerca do uso de certos termos na Bíblia é válido, porém, a aplicação prática que faz do seu argumento, com relação ao ter ‘presciência’ é falha.

“É bom que lembremos que o significado de certos termos bíblicos não é determinado pelo uso popular de nossos dias, nem pela referência de dicionários modernos, mas, pelos seus usos nas Escrituras. Somos aptos a pensar que conhecemos certa palavra e deixamos de verificar tal palavra pelo uso de uma concordância.”  C. D. Cole, Capítulo 11: A presciência de Deus. Artigo disponível em: < http://palavraprudente.com.br/biblia/definicao-de-doutrina-volume-1/capitulo-11-a-presciencia-de-deus/ >, consulta realizada em 13/02/18.

O que determina o significado de um termo, quando utilizado pelos apóstolos é o contexto no qual foi utilizado e nessa tarefa de descobrir o significado de um termo, uma concordância bíblica não traz uma ajuda confiável.

 

Presciência como atributo

“Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? diz o SENHOR. Porventura não encho eu os céus e a terra? diz o SENHOR” (Jeremias 23:24).

O Pr. Cole afirma que, após muito estudo, concluiu que a presciência é, tanto atributo, quanto um ato de Deus. Seria muito bom se este estudo fosse inserido aqui, pois poderíamos analisar passo a passo como ele chegou a essa conclusão.

Quando dizemos que Deus é onisciente, significa dizer que Ele é conhecedor, em profundidade, de tudo o que é pertinente ao mundo dos homens, tais como os eventos reais, fenômenos, leis, pensamentos, imaginações, sonhos, possibilidades, probabilidades, etc., quer sejam do passado, do presente ou, do futuro.

Esse saber é, igualmente, pleno, com relação aos seres celestiais e os eventos que ocorrem na eternidade. Deus conhece plenamente todas as nuances de todos os seres, quer sejam humanos ou, celestiais, anjos ou, demônios. Nada escapa ao conhecimento de Deus, quer sejam as ações e omissões, intenções e desejos, sentimento e emoções, erros e acertos, etc.

Esse conhecimento não advém de pesquisa, intuição, raciocínio, pensamento, etc., antes, decorre de constatação presencial, pois Ele é igualmente onipresente e nada escapa à sua observação.

O conhecimento de Deus alcança tanto o macro, quanto o micro. Não há nada tão elevado ou, tão profundo que Ele não conheça igualmente e profundamente e, em ambos os aspectos, com a mesma facilidade e plenitude (Atos 17:28).

É em função da onisciência de Deus, que o escritor aos Hebreus disse:

“E não há criatura alguma encoberta diante dele: antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hebreus 4:13)

No Salmo 139, em espírito, Davi descreve a onisciência de Deus, através da perspectiva do Cristo:

“SENHOR, tu me sondaste e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo, ainda, palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó SENHOR, tudo conheces. Tu me cercaste por detrás e por diante e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é, para mim, maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito ou, para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás, também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá” (Salmo 139:1-10).

No Salmo 110, temos o Senhor (Pai) dizendo ao Cristo, Senhor (Filho) do Salmista: “Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Salmo 110:1) e no Salmo 139, temos o Senhor, Filho do salmista, orando ao Senhor (Pai).

Como nada há que escape à atenção de Deus, há quem fique perplexo por ter que, um dia, prestar contas a Deus, por causa de todas as ações e omissões praticadas neste mundo. Entretanto, tal qual a plenitude do conhecimento que Deus detém de todas as coisas, Ele é, igualmente, justo e reto.

“Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também, tu serás cortado” (Romanos 11:22).

Arthur W. Pink, ao falar da onisciência de Deus, acredita que, se o homem compreendesse o glorioso atributo da onisciência divina, consequentemente, se renderia a Deus em adoração. No entanto, não é a compreensão dos atributos de Deus que faz com que o homem se torne um adorador, porque somente através da palavra de Deus, revelada no Evangelho, é possível ao homem honrá-lo e adorá-lo.

O homem só honra a Deus quando obedece à sua palavra: crendo em Cristo e não quando reconhece os seus atributos. O homem só adora a Deus, em espírito e em verdade, ou seja, segundo a palavra de Deus revelada em Cristo, que é espírito e verdade. À parte da palavra de Deus, que se constitui mandamento de Deus aos homens, não há como o homem honrá-Lo, adorá-Lo ou amá-Lo.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êxodo 20:6).

Se fosse possível render-se em adoração somente compreendendo a onisciência de Deus, não seria necessário anunciar o evangelho, mas, sim, convencer as pessoas, acerca dos atributos de Deus. Ou melhor, bastaria convencer as pessoas da existência de Deus, enquanto que Cristo demonstra a inutilidade da crença em Deus, se não crer que Jesus é o Cristo.

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (João 14:1);

“Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre.” (João 7:38);

“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6:29);

“Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito (…) Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem e estremecem.” (Tiago 1:25 e 2:19).

Os judeus criam em Deus, mas não quiseram realizar a sua obra, observar o mandamento que Deus deu acerca de seu Filho: crer no enviado de Deus e perseverar para ser bem-aventurado.

Muitos ficam maravilhados pelo fato de ser, igualmente, impossível a todos os seres criados por Deus se esconderem ou esconderem algo de Deus, até mesmo os pensamentos: “… quanto às coisas que vos sobem ao espírito, eu as conheço” (Ezequiel 11:5). Altura e profundidade, dia e noite, claridade e trevas, pensamento e sentimentos, etc., é o mesmo diante de Deus.

Deus viu o pecado de Adão e Eva. Também, contemplou Caim matar Abel. Deus viu quando Sara riu, ao ouvir do anjo, que geraria um filho, sendo que já estava em avançada idade. Acã não conseguiu esconder de Deus, que furtou uma cunha de ouro e escondeu na terra. Os segredos de Davi, que se deitou com Bate-Seba e assassinou Urias, não passaram despercebidos aos olhos de Deus. Em razão desses eventos não terem passado despercebidos por Deus, alguém pode presumir que, em função desse atributo divino, os homens deveriam temê-Lo.

Na verdade, os homens devem temer a Deus, porque com Ele está o perdão e não porque Ele pode punir: “Mas, contigo está o perdão, para que sejas temido” (Salmo 130:4). O sentido do termo ‘temor’, no versículo, é honrar, obedecer e não medo, como muitos interpretam. Os homens devem obedecer a Deus, ou seja, honrá-Lo, obedecê-Lo e não ficarem receosos, ao considerarem os seus atributos, pois a obediência lança fora o medo (1 João 4:18).

Essas considerações foram feitas por causa do que escreveu Arthur W. Pink, no Livro ‘Atributos de Deus’, ao afirmar que, se fosse possível, os homens alijariam Deus da sua onisciência, para não ser possível Deus testemunhar os pecados dos homens[2].

O pensamento de Pink decorre da ideia de que o julgamento da humanidade se dará em função dos erros de condutas diários e, por isso, a necessidade de Deus testemunhar todos os erros dos homens. Entretanto, em Adão a humanidade pecou, ou seja, ficou aquém da glória de Deus e todos já estão julgados e apenados com a morte, portanto, o juízo de Deus já foi estabelecido, independentemente das ações diárias dos homens. Os homens são pecadores pelo fato de um só homem ofender a Deus e não porque cometem erros de condutas.

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim, também, por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens, para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Romanos 5:18-19).

A onisciência de Deus, quanto às boas e más ações dos homens, não é o que sujeita o homem à condenação, mas, sim, a ofensa de Adão. Por ser onisciente, Deus ‘vê’ até as intenções dos corações de todos os homens e esse conhecimento somente será utilizado em dois eventos:

  1. a) no julgamento do Tribunal de Cristo, quando os salvos serão julgados, com relação às obras (2 Coríntios 5:10; 1 Coríntios 3:11-15), e;
  2. b) no Tribunal do Grande Trono Branco, quando os homens perdidos serão julgados quanto às obras, mas, esses erros não são a causa da condenação (Apocalipse 20:12).

Os pressupostos do Dr. Pink: de que os homens odeiam a onisciência divina, bem como a prova que ele utiliza: ‘… a inclinação da carne é inimizade contra Deus…’[3], ambas são equivocadas. Primeiro, porque as Escrituras não dependem dos anseios ou, do sentimento de ódio dos homens, para se revelar verdadeira. Segundo, porque o sentimento de ódio dos ímpios não é prova de que a inclinação da carne é inimizade contra Deus.

Ele não considerou que o termo ‘carne’, quando utilizado pelos apóstolos no Novo Testamento, dependendo do contexto, se refere à doutrina de homens, que impediu os filhos de Israel de se sujeitarem ao mandamento de Deus. Qualquer que segue mandamentos de homens está na carne e não no espírito (evangelho), por isso não pode agradar a Deus.

“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou, pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gálatas 3:2-3).

A pregação da fé refere-se ao espírito, enquanto que, retornar às obras da lei, é acabar na carne. Quem anda segundo o espírito, ou seja, segundo o evangelho, não está debaixo de nenhuma condenação, mas, para quem anda segundo a carne, a condenação permanece.

“Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8:4).

O apóstolo Paulo, por ser judeu, poderia andar segundo a carne, mas considerou tudo o que herdou de seus pais, segundo a carne, como esterco:

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne. Ainda que, também, podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu:  Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu;  segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível.  Mas o que para mim era ganho, reputei-o perda por Cristo.” (Filipenses 3:3-7).

Ao citar Oséias 7, verso 2[4], o Dr. Pink o faz sem considerar o contexto. O texto não sugere que os ímpios querem banir Deus de seus pensamentos, antes que os religiosos judeus não consideram que Deus jamais se esqueceria das suas maldades. Na sequência, o erro se repete ao citar o Salmo 90, verso 8, pois, os que rejeitam a Cristo nem mesmo possuem condições de considerar o teor do verso em destaque e a abordagem de Moisés não trás a lume a onisciência de Deus, mas, sim, o fato de Deus retribuir como ira e furor os desvios dos filhos de Israel.

O Pr. Cole faz uma definição dos atributos de Deus, que, em essência, são aspectos da sua natureza e, por fim, conclui, após muito estudo, que a presciência é, tanto atributo, quanto ato de Deus[5]. Nesse sentido, o Pr. Cole afirma que, quando o termo ‘presciência’ é utilizado no sentido popular, significa o conhecimento de Deus de coisas antes de acontecerem.

Se esse sentido popular atribuído ao termo ‘presciência’ corresponde à verdade, ou seja, ‘o conhecimento de Deus de coisas antes de acontecerem’, tal concepção nada mais é do que um reducionismo da ideia contida no termo ‘onisciência’[6]. Se há um nome especifico para o conhecimento que Deus detém acerca de coisas futuras, teríamos que ter um termo popular para o conhecimento de Deus das coisas do presente e do passado.

Presciência é um ramo da ‘onisciência’?[7]

Mas, deste estudo, surgem algumas perguntas: qual foi o uso que os apóstolos fizeram do termo ‘presciência’? Popular ou acadêmico? O apóstolo Paulo, ao fazer uso do grego koine, fez uso acadêmico ou popular? O apóstolo Pedro, auxiliado por Silvano, que fez uso do grego a dar inveja aos acadêmicos, fez uso do termo, considerando o seu sentido popular ou acadêmico?

 

Conhecer e propriedade

O Pr. Cole, ao falar da presciência, somente repete argumentos apresentados por outros calvinistas. Geralmente, apresentam algum outro doutor como autoridade, para validar ou dar autenticidade aos argumentos. Por exemplo:

“Quando presciência é usada como um ato divino, ela significa quase a mesma coisa que pré-ordenação. Deixamos novamente o Dr. Hodge falar: “Embora, a presciência de Deus, no sentido de pré-conhecimento seja assegurada no N. T., este não é o mesmo significado, quando usada para traduzir as palavras gregas “proginoskein” e “prognosis”. Estas palavras que, às vezes são traduzidas como pré-ordenação, significam muito mais que a mera presciência ou previsão intelectual. Ambas as formas, verbal e substantiva, aproximam-se da ideia de pré-ordenação e são intimamente ligadas às passagens onde se encontram”.” (Idem).

De tudo que foi dito acima pelo Pr. Cole e o Dr, Hodge, e que é aproveitável, é que os termos “proginoskein” e “prognosis” estão ‘intimamente ligadas às passagens onde se encontram’Agora, dizer que ‘as formas, verbal e substantiva, aproximam-se da ideia de pré-ordenação’, decorre somente de má leitura.

Quando o Pr. Cole diz que, embora o termo ‘presciência’ não ocorra no Antigo Testamento, o termo ‘conhecer’ é encontrado diversas vezes. Ele afirma que o termo ‘conhecer’, no Antigo Testamento, significa, muitas vezes, amar ou escolher.

“Quando presciência se aplica aos acontecimentos, inclusive ‘à livre ação do homem, ela indica a previsão divina ou, o conhecimento de antemão. Quando referente às pessoas, ela tem sentido de favor, denotando não só uma mera ação da mente, mas uma afeição para com a pessoa em vista. A palavra presciência não se encontra no V. T., mas a palavra conhecer é encontrada, muitas vezes, e significa, muitas vezes, amar ou, escolher.” (Idem).

É bem verdade que o termo ‘conhecer’ quando utilizado no Antigo Testamento ganha novos contornos, e, dependendo do contexto, ocorre uma ressignificação.

O que o Pr. Cole não observa é que o termo ‘conhecer’ ganha novos significados quando aplicado à relação marido e mulher ou, quando Deus recrimina a nação de Israel ou, em razão de uma missão especifica atribuída a alguém, etc.

O termo ‘conhecer’ foi utilizado para descrever a relação sexual do casal Adão e Eva, especificamente, pelo fato de se tornarem um só corpo e uma só carne.

“E conheceu Caim à sua mulher e ela concebeu e deu à luz a Enoque; e ele edificou uma cidade e chamou o nome da cidade, conforme o nome de seu filho Enoque;” (Gênesis 4:17).

Porém, o mesmo termo foi utilizado para fazer referência ao momento que ambos descobriram que estavam nus.

“Então foram abertos os olhos de ambos e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira e fizeram para si aventais.” (Gênesis 3:7).

Através da estrutura que é própria às poesias hebraicas, o paralelismo, é possível compreender o sentido que o termo ‘conhecer’ é empregado. Observe:

“Um coração perverso se apartará de mim; não conhecerei o homem mau.” (Salmos 101:4).

O homem mau é aquele que possui um coração perverso, de modo que ‘estar apartado’ do Senhor é o mesmo que não ser conhecido d’Ele e o termo ‘conhecer’ não assume o valor de amar ou escolher, como afirma o Pr. Cole.

O termo ‘conhecer’, geralmente, é utilizado para descrever a relação de Deus com o povo de Israel e não a relação com indivíduos, em particular.

“OUVI esta palavra que o SENHOR fala contra vós, filhos de Israelcontra toda a família que fiz subir da terra do Egito, dizendo: De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniquidades.” (Amos 3:1 -2).

Deus ‘conheceu’ o povo de Israel pelo fato de ser propriedade peculiar dentre todos os povos!

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha.” (Êxodo 19:5).

Em função dos pais: Abraão, Isaque e Jacó, que os filhos de Israel, como povo, foi amado, no entanto, individualmente, Deus não se agradou da maioria deles, e, por isso, pereceram no deserto (1 Coríntios 10:5).

“Tão-somente o SENHOR se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos como neste dia se vê.” (Deuteronômio 10:15).

Deus não se agradou da maioria dos filhos de Israel, antes se agradou dos pais (Abraão, Isaque e Jacó), e escolheu a descendência dos pais. Isto não significa que Deus amou alguém, em particular ou, que escolheu alguém, em particular.

A relação de Deus com alguém, em particular, sempre será condicional. Deus ama os que o amam, honra os que o honram e terá misericórdia dos que o obedecem:

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados.” (1 Samuel 2:30);

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.” (Êxodo 20:6).

Com Abraão não foi diferente, pois, ele obedeceu a todos os mandamentos de Deus e, por isso, foi honrado, de modo que Deus prometeu que, em Abraão, seriam benditas todas as famílias da terra.

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis.” (Gênesis 26:5).

Quando lemos a passagem de Jeremias, que diz:

“Antes que te formasse no ventre te conheci e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta” (Jeremias 1:54).

O termo ‘conhecer’ denota ‘propriedade’, pois, foi para servir a Deus, como profeta, que Deus santificou a Jeremias, ou seja, o separou. ‘Conhecer’ tem relação com a missão que o profeta foi comissionado a desempenhar: ‘às nações te dei por profeta’, portanto, não denota afeição ou, escolha para a salvação.

“Porque todo o primogênito é meu; desde o dia em que tenho ferido a todo o primogênito na terra do Egito, santifiquei para mim todo o primogênito em Israel, desde o homem até ao animal: meus serão; Eu sou o SENHOR.” (Números 3:13).

Um homem pode ser comissionado para uma missão ‘conhecendo’ a Deus ou, não ou, somente Deus pode ‘conhecê-lo’, ao empenhá-lo em uma missão, mas isso não significa que o comissionado para a missão específica está ou, será salvo. Um exemplo encontra-se na pessoa de Ciro, que desempenhou uma missão, mesmo ele não ‘conhecendo’ a Deus.

“Por amor de meu servo Jacó e de Israel, meu eleito, eu te chamei pelo teu nome, pus o teu sobrenome, ainda que não me conhecesses. Eu sou o SENHOR e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças;” (Isaías 45:4-5).

É obvio que, nos versos abaixo, ‘conhecer’ não tem o sentido de saber, de ter ciência, mas, também, não significa ‘afeição’ ou, ‘escolha’.

“OUVI esta palavra que o SENHOR fala contra vós, filhos de Israel, contra toda a família que fiz subir da terra do Egito, dizendo: De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniquidades.” (Amos 3:1-2).

Observe que Deus não está afeiçoado aos filhos de Israel, antes, os está repreendendo pelas iniquidades do povo. O termo ‘conhecer’ não é aplicado a um indivíduo, mas à nação como um todo. A nação Deus ‘conhece’ porque é sua propriedade peculiar, mas, os indivíduos não eram ‘conhecidos’ do Senhor, antes, alvos da punição divina. É dito que Deus ‘conheceu’ o povo, porém, esse ‘conhecer’ decorre do fato de Deus se afeiçoar aos pais, porque foram obedientes, de modo que Deus os preservou, por amor ao Seu nome: Deus fiel, em vista do juramento feito aos patriarcas.

“E sabereis que eu sou o SENHOR, quando eu proceder para convosco, por amor do meu nome; não conforme os vossos maus caminhos, nem conforme os vossos atos corruptos, ó casa de Israel, disse o Senhor DEUS.” (Ezequiel 20:44);

“Porque povo santo és ao SENHOR teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra. O SENHOR não tomou prazer em vósnem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito.” (Deuteronômio 7:6-8);

“Tão-somente o SENHOR se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos como neste dia se vê.” (Deuteronômio 10:15).

A citação que o Pr. Cole faz de Oséias pede uma explicação:

“PÕE a trombeta à tua boca. Ele virá como a águia contra a casa do SENHOR, porque transgrediram a minha aliança e se rebelaram contra a minha lei. E a mim clamarão: Deus meu! Nós, Israel, te conhecemos. Israel rejeitou o bem; o inimigo persegui-lo-á. Eles fizeram reis, mas não por mim; constituíram príncipes, mas eu não o soube; da sua prata e do seu ouro fizeram ídolos para si, para serem destruídos” (Oseias 8:1-4).

Deus declara que os filhos de Israel constituíram reis, mas não a mando de Deus. Constituíram príncipes, mas Deus não o soube! É possível Deus desconhecer algum evento, sendo onisciente? Não! O termo ‘saber’ foi utilizado para demonstrar que Deus não havia ordenado que constituíssem príncipes. Se clamavam: ‘Deus meu!’ e diziam que ‘conheciam’ ao Senhor, os filhos de Israel deveriam se sujeitar, como servos obedientes, porém, transgrediram a aliança e se rebelaram contra a lei.

Quando é dito que Deus ‘conhece’ o caminho dos justos, o termo não tem a conotação de amor e escolha, antes aponta para a instrução que Deus dá aos homens.

“Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém, o caminho dos ímpios perecerá.” (Salmos 1:6);

“Faze-me saber os teus caminhos, SENHOR; ensina-me as tuas veredas.” (Salmos 25:4).

O Pr. Cole afirma que, no Novo Testamento, o termo ‘conhecer’ ganha o mesmo sentido que no Antigo Testamento, que é ‘amor’ e ‘afeição’:

“E a palavra conhecer é também muitas vezes usada no N. T. no mesmo sentido. “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci”. Mateus 7:23. Isto significa que Ele não os conheceu para a salvação. “Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas e das minhas sou conhecido”. João 10:l4. “Mas, se alguém ama a Deus, este é conhecido dele”. 1 Coríntios 8:3. E novamente, “O Senhor conhece os que são seus”. 2 Timóteo 2:19. Nestes versículos o conhecimento de Cristo é limitado aos salvos, e, portanto não pode significar uma mera associação, mas uma afeição. Deus conhece a todos, mas nem todos têm Sua afeição.” (Idem).

Quando for dito abertamente por Jesus: – “Nunca vos conheci” (Mateus 7:23), somente significa que Ele não os conheceu para a salvação? Os versículos seguintes citados pelo Pr. Cole responde a questão e lança luz ao significado do termo ‘conhecer’ no Novo Testamento.

Jesus, como o Bom Pastor, afirma que ‘conhece’ as suas ovelhas e das suas é ‘conhecido’, portanto, as pessoas que um dia ouvirão: ‘Nunca vos conheci’, significa que nunca pertenceram a Cristo como ovelhas (João 10:14).

Mas, como alguém passa a ser propriedade de Cristo como ovelha? Basta amar a Deus, pois quem ama a Deus é conhecido d’Ele, mas quem não ama, não é conhecido de Deus.

“Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.” (1 João 4:8; 1 Coríntios 8:3)

O termo ‘conhecer’ tem o significado de ‘pertencer’, ‘ser propriedade’, portanto, diferente da ideia de ‘escolha’ ou ‘amor’. Isso porque, em momento algum o Pr. Cole observou que o termo ‘amor’ também sofre ressignificação no Novo Testamento, dependendo do contexto empregado  e pode significar ‘mandamento’ ou ‘obediência’, quase nunca ‘afeição’ ou ‘escolha’.

“O Senhor conhece os que são seus.” (2 Timóteo 2:19).

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 João 5:3).

O amor que Deus requer dos homens que guardem os seus mandamentos, para que o homem possa ‘conhecer’ a Deus ou, antes, ser conhecido d’Ele. Qualquer que ama a Deus alcança misericórdia, de modo que o amor de Deus não está na tal ‘presciência’.

Diferentemente do que afirma o Pr. Cole, nesses versículos é dito que Cristo ‘conhece’ os salvos pelo fato de terem obedecido ao mandamento de Deus, portanto, se fizeram servos, tornando-se propriedade de Deus. O termo ‘conhecer’ não possuía a conotação de afeição quando em referência aos salvos, antes indica comunhão íntima, pois em obediência ao evangelho o homem se torna um só corpo com Cristo.

“Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado;” (2 Pedro 2:21);

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gálatas 4:9).

Deus não se afeiçoou dos salvos, antes lhes deu mandamento para que, obedecendo, se façam servos:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” (Mateus 6:24).

“Nestes versículos o conhecimento de Cristo é limitado aos salvos, e, portanto não pode significar uma mera associação, mas uma afeição. Deus conhece a todos, mas nem todos têm Sua afeição.” (Idem).

Presciência e pré-ordenação

Após abordar o termo ‘conhecer’, torna-se estranha a colocação do Pr. Cole, pois ele afirma que o termo ‘presciência’ significa ‘conhecer com o intento de abençoar’, isto com relação às pessoas:

“Agora, a “presciência das pessoas” significa pré-conhecer com propósito benigno. Significa conhecer com o intento de abençoar. A presciência de Deus de uma pessoa indica Seu favor a tal pessoa e Sua intenção de salvá-la. No fim, os pré-conhecidos serão glorificados, pois, Deus os salvou com tal propósito. O primeiro ato da benevolência de Deus para com os pecadores foi o de pré-conhecê-los. E tal presciência (historicamente) foi a base para todas as outras bênçãos subsequentes. “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”. Romanos 8:29.” (Idem).

Ora, os termos ‘conhecer’, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, podem indicar o favor de Deus para com um povo que Ele tomou por propriedade peculiar ou, para com um indivíduo que O obedece. Agora, ele enfatiza que a presciência de pessoas significa pré-conhecer com propósito benigno?

A abordagem seguinte faz menos sentido ainda, principalmente pelos versículos citados:

“Deus olhou para alguns pobres pecadores com favor gracioso e determinou fazê-los semelhantes a Seu Filho glorioso. E Ele não lança fora aos que predestinou. Romanos 11:2. Sobre este versículo Dr. A. T. Robertson fez estes comentários: “Deus escolheu um povo, o povo de Israel, por este motivo é que Ele não os lançava fora”.” (Idem).

Em vez de comentar o verso 2 de Romanos 11, o Pr. Cole se socorre da explicação de outra pessoa. O que diz Romanos 11, verso 2?

“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou, não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” (Romanos 11:2).

Deus não lançou fora o povo de Israel pelo fato de tê-los escolhido? Esse motivo dado pelo Dr. A. T. Robertson é o que diz as Escrituras? Não! Deus não os rejeitou por amor do Seu próprio nome e para guardar a promessa que foi feita aos patriarcas.

“Porque povo santo és ao SENHOR teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra. O SENHOR não tomou prazer em vósnem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito.” (Deuteronômio 7:6 -8);

“Tão-somente o SENHOR se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos como neste dia se vê.” (Deuteronômio 10:15).

O verbo προγινώσκω (proginóskó) traduzido por ‘que antes conheceu’ em Romanos 11, verso 2, não tem o significado de ‘conhecer’ com um propósito benigno e nem com intento de abençoar indivíduos.  O texto fala que Deus ‘conheceu’ o povo de Israel, não indivíduos em Israel.

O povo não foi rejeitado por causa do amor que Deus tem pelo Seu nome e por causa do juramento feito aos pais, no entanto, a maioria dos indivíduos em Israel foi prostrada no deserto, pois, mesmo sendo descendência de Abraão, não eram os seus filhos (Romanos 9:7; 1 Coríntios 10:5).

Vários indivíduos em Israel foram lançados fora, mesmo Deus tendo ‘pré-conhecido’ o seu povo. O verbo προγινώσκω (proginóskó) tem o sentido no verso de Deus ter tomado como propriedade peculiar um povo, não que o termo implica em um favor por uma pessoa ou a sua intenção de salvá-la.

Relacionar o uso do verbo προγινώσκω (proginóskó) no verso 2 de Romanos 11, com o verso 29, de Romanos 8, é desconsiderar os contextos em que os termos foram empregados, pois este trata de indivíduos que amam a Deus, e aquele de um povo em que os patriarcas amaram a Deus.

O segredo para ser ‘pré-conhecido’ está no verso 28: “Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus…”, isto em função do que diz o Salmo:

“Todas os caminhos do SENHOR são amorosos e fiéis para aqueles que guardam a sua aliança e os seus testemunhos.” (Salmo 25:10).

Amar é obedecer, honrar, guardar a aliança, seguir os testemunhos, etc., de modo que quem ama conhece a Deus, ou antes, é conhecido d’Ele:

“Mas, quando não conhecíeis a Deusservíeis aos que por natureza não são deuses. Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gálatas 4:8-9).

“Aquele que não ama, não conhece a Deus; porque Deus é amor.” (1 João 4:8; 1 Coríntios 8:3)

Em Romanos 8, verso 29, o verbo προγινώσκω (proginóskó) não significa pré-conhecer pessoas com propósito benigno, antes indica que os predestinados são aqueles que amam a Deus, tornando-se então, conhecidos d’Ele. Sem conhecer a Deus ou, antes, sem ser conhecido d’Ele, jamais o indivíduo estará predestinado a ter a imagem de Cristo, portanto, não será um dos participantes do propósito que Deus estabeleceu em Seu Filho: a preeminência de Cristo em todas as coisas, a posição de primogênito entre muitos irmãos.

A ideia de que a benevolência de Deus para com os pecadores foi a de “pré-conhecê-los” destoa da verdade bíblica, vez que a benevolência do Senhor é demonstrada em seu mandamento:

“Tu, pois, converte-te a teu Deus; guarda a benevolência e o juízo e em teu Deus espera sempre.” (Oseias 12:6).

O relacionamento de Deus para com o homem é condicional sempre, pois Ele só faz misericórdia aos que o amam:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.” (Êxodo 20:6);

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão.” (Provérbios 8:17).

Moisés intercedeu pelo povo de Israel, querendo que Deus demonstrasse misericórdia quando pecaram, fazendo um bezerro de ouro. Mas, Deus reiterou que riscaria o nome do livro da vida somente de quem pecasse contra Ele, demonstrando que jamais riscaria o nome de Moisés ou, que perdoaria a transgressão do povo, de modo que essa verdade foi expressa em um trocadilho:

“Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êxodo 33:19).

O que Deus reiterou a Moisés? Que, mesmo fazendo passar toda a Sua bondade diante de Moisés, uma coisa era certa: Deus terá misericórdia de quem o ama e se compadece de quem O obedece. A base para a bênção do Senhor está em sua benevolência, mas para alcançá-la, o homem tem que se sujeitar ao mandamento de Deus.

Até agora estávamos considerando o verbo grego προγινώσκω (proginóskó) e demonstramos que, para ser ‘conhecido’ de Deus, se faz necessário servi-lo em amor, ou seja, em obediência.

Mas, o Pr. Cole parece ter se esquecido da observação que fez no início do texto, que também há o substantivo πρόγνωσις (prognósis), traduzido por ‘presciência’ ou ‘pré-conhecer’, quando faz referência ao verso 2, da primeira carta de Pedro, capítulo 1:

“Aqueles a quem Deus escolheu antes da fundação do mundo, não serão abandonados no presente, nem no futuro. Estes são os “eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”. 1 Pedro 1:2. Nesse versículo, notamos que eleição é baseada na presciência de Deus Pai. Aqueles a quem o Pai olhou com favor gracioso foram eleitos à obediência da fé e para a aspersão do sangue de Cristo. E esta obediência resulta do poder santificador do Espírito Santo. O leitor deve notar que enquanto a eleição é para salvação, esta salvação não é sem a fé em Jesus Cristo. Os eleitos são justificados, mas a justificação é pela fé no sangue de Cristo. Romanos 5:1; 3:28; 4:5; etc.” (Idem).

O substantivo πρόγνωσις (prognósis), quando utilizado por Pedro não tem o mesmo sentido do verbo προγινώσκω (proginóskó), quando utilizado pelo apóstolo Paulo, visto que esse depende do homem amar a Deus para Deus conhecê-lo e aquele tem o sentido de ‘dar a conhecer de antemão’, ‘profecia’.

O apóstolo Pedro faz uso do substantivo πρόγνωσις (prognósis), com o mesmo sentido que fez em seu primeiro sermão diante dos judeus.

“Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;” (Atos 2:22-23).

O substantivo πρόγνωσις (prognósis), quando utilizado pelo apóstolo Pedro, tem em vista o que foi predito pelos profetas nas Escrituras, como se lê:

“Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador.” (2 Pedro 3:2).

No texto de Atos, o substantivo προγνωσις (prognosis) tem o sentido de profecia, um conhecimento anunciado de antemão por Deus aos homens, conforme o próximo discurso do apóstolo Pedro:

“Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado; que o Cristo havia de padecer (…) E envie ele a Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado (…) Sim, e todos os profetas, desde Samuel, todos quantos depois falaram, também predisseram estes dias.” (Atos 3:18, 20 e 24);

“Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer” (At 4:28).

Cristo Jesus foi entregue aos judeus, conforme a vontade de Deus (conselho) e essa vontade foi anunciada aos homens de antemão pelos profetas (Efésios 1:11; Hebreus 10:10).

O substantivo προγνωσις (prognosis), quando utilizado pelo apóstolo Pedro, em momento algum está associado à ideia de predestinação ou, de pré-ordenação, antes, ele faz referência ao conhecimento dado de antemão pelos profetas. É por intermédio do conhecimento anunciado de antemão por Deus, o espírito (palavra) de santificação, concedido para obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, que os cristãos são eleitos.

O apóstolo Pedro evidencia que os cristãos são eleitos segundo o que Deus havia anunciado, através dos seus santos profetas, pois estava previsto que, com o seu ‘conhecimento’, o Cristo justificaria a muitos (Isaías 53:11). É através do espírito que estava sobre o Cristo (Isaías 11:1-2; Isaías 61:1; Isaías 42:1 e 7; Joel 2:28; Deuteronômio 32:2), a palavra de santificação (santificação do espírito), que os homens são limpos (João 6:63; João 15:3).

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.” (1 Pedro 1:1-2).

Para ser agraciado com a santificação proporcionada pelo espírito, o homem precisa obedecer e só então alcançará a aspersão (purificação) do sangue de Cristo.

Ao fazer a leitura dos eventos relacionados à salvação, o Pr. Cole volta a analisar Romanos 8, verso 29, como se o apóstolo Pedro estivesse tratando dos mesmos conceitos:

“Para ser exato e crítico o autor crê que, ainda que presciência seja intimamente associada com a predestinação e pré-ordenação, ela tem um significado especial todo seu. A ordem divina em Romanos 8:29-30, é presciência, predestinação, chamado, justificação e glorificação. A ordem em 1 Pedro 1:2, é presciência, eleição e santificação. Portanto, os pré-conhecidos são eleitos, predestinados, chamados, justificados, santificados e glorificados. Desde que cada aspecto da salvação é pela graça, a presciência de Deus de pessoas é Seu interesse e amor tão gracioso pelos pecadores. E por causa deste Seu favor a eles, Deus os escolheu para a salvação, predestinou-os para adoção como filhos, chamou-os pela graça, justificou-os pela graça por meio da fé no sangue de Cristo, santificou-os pelo Espírito e os glorificará quando o Senhor vier. Que cada leitor, com toda diligência, certifique-se de seu chamado e eleição. 2 Pedro 1:10.” (Idem).

O Pr. Cole afirma que, para o homem ser salvo, esses eventos ocorrem na seguinte ordem: presciência, predestinação, chamado, justificação e glorificação. Mas, na verdade, a predestinação, na qual o homem que crê em Cristo se torna conforme a imagem de Cristo, é o último evento da salvação.

O homem é salvo porque amou a Deus, obedecendo ao seu mandamento de crer em Cristo, e, assim, conheceu a Deus ou, antes, foi conhecido d’Ele. Para se tornar conhecido de Deus, se fez necessário o homem morrer com Cristo e ser ressuscitado com Ele, o que o apóstolo Paulo deu o nome de glorificação.

“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros, também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.” (Romanos 8:17).

O Pr. Cole posiciona a santificação como último evento na salvação, porque pensa na redenção do corpo físico (Romanos 8:23), mas, se esquece de que o apóstolo Paulo estava tratando da glorificação quando o homem ressurge com Cristo (Colossenses 3:1).

Somente os que ressurgem com Cristo são justificados, de modo que, primeiro ocorre a glorificação, para depois ocorrer a justificação “O qual por nossos pecados foi entregue e ressuscitou para nossa justificação.” (Romanos 4:25). Ao morrer com Cristo, o homem é justificado do pecado, ao ressurgir com Cristo é declarado justo.

Os justificados em Cristo Jesus são chamados ao propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo, que é fazê-lo proeminente, convergindo n’Ele todas as coisas. Na condição de chamado ao propósito, o crente em Cristo está predestinado a ter a imagem de Cristo, para que o propósito de Deus se efetive: a primogenitura de Cristo entre muitos irmãos.

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes, também, chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.” (Romanos 8:28 -30).

Os que amam a Deus são conhecidos d’Ele e chamados segundo o seu propósito, de modo que aqueles que amam a Deus serão conforme a imagem de Cristo, pois o propósito de Deus é que o Cristo seja primogênito entre muitos irmãos. De modo que, os que foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, primeiro foram chamados ao propósito, isto quando amaram a Deus e foram conhecidos d’Ele.

Mas os chamados, os que amam a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele, primeiro Deus os justificou, e antes de justificá-los fez com que ressuscitassem com Cristo, glorificando-os.

Já, a abordagem do apóstolo Pedro somente nomeia os cristãos de eleitos, condição que alcançaram segundo o anunciado de antemão pelos profetas (presciência), por isso foi anunciada a palavra que santifica, que se faz imprescindível obedecê-la para alcançar a aspersão do sangue de Cristo.

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.” (1 Pedro 1:1-2).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 

[1] “Cada um dos Seus gloriosos atributos deveria torná-lo honorável à nossa apreciação. A compreensão da Sua onisciência deveria inclinar-nos diante d’Ele em adoração.” A. W. Pink, Os Atributos de Deus, A onisciência de Deus, editora PES, reimpressão 1990.

[2] “Os homens despojariam a Deidade da Sua onisciência, se pudessem — prova de que ‘… a inclinação da carne é inimizade contra Deus… ‘ (Romanos 8:7). Os ímpios odeiam esta perfeição divina com a mesma naturalidade com que são compelidos a reconhecê-la. Gostariam que não houvesse nenhuma Testemunha dos seus pecados, nenhum Examinador dos seus corações, nenhum Juiz dos seus feitos” (Idem).

[3] “Os homens despojariam a Deidade da Sua onisciência, se pudessem — prova de que “… a inclinação da carne é inimizade contra Deus… (Romanos 8:7).” (Idem)

[4] “Gostariam que não houvesse nenhuma Testemunha dos seus pecados, nenhum examinador dos seus corações, nenhum Juiz dos seus feitos. Procuram banir tal Deus dos seus pensamentos: “E não dizem no seu coração que eu me lembro de toda a sua maldade…” (Oséias 7:2).” (Idem).

[5] “O estudo do assunto em foco levantou a questão se a presciência deveria ou não ser classificada como um dos atributos divinos. Um atributo divino é uma qualidade pertencente à natureza de Deus, uma de Suas perfeições pessoais, algo que pertence intrinsecamente a Seu caráter ou natureza. Por exemplo, amor, misericórdia, graça, e sabedoria são qualidades de Deus e, portanto, são atributos. Nossa conclusão, após muito estudo, é que “presciência” é tanto um atributo quanto um ato de Deus. Quando a palavra é usada no sentido popular, ela se refere ao conhecimento de Deus de acontecimentos antes de acontecerem. Neste sentido, presciência é um dos atributos de Deus como é também o amor, a misericórdia, a graça, a sabedoria e etc.” C. D. Cole, Capítulo 11: A presciência de Deus.

[6] “A palavra presciência tem dois significados. É um termo usado na teologia para expressar a ideia da previsão de Deus, isto é, Seu conhecimento do curso integral de acontecimentos que são futuros do ponto de vista humano. Ela também é usada com o sentido de pré-ordenação. No sentido de pré- conhecimento, ela é um aspecto da onisciência divina. O saber de Deus, de acordo com as Escrituras, é perfeito, isto é, Ele é onisciente”. C. W. Hodge.

[7] “A presciência, quando considerada atributo, é um ramo da onisciência divina; e quando considerada ato, é um ramo da doutrina dos decretos de Deus.” C. D. Cole, Capítulo 11: A presciência de Deus.

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Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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