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Os cristãos gozam dos benefícios decorrentes da propiciação: o perdão dos pecados (Romanos 8:1), no entanto, essa benesse é concedida a qualquer que invocar ao Senhor, ou seja, a todo mundo.


A propiciação pelos pecados de todo o mundo

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:2).

Introdução

O Dr. Arthur W. Pink fez um artigo intitulado ‘UMA EXPOSIÇÃO DE 1JOÃO 2.2’[1], onde há vazão a eterna disputa entre calvinistas e arminianistas sobre a redenção nos quesitos ‘eficácia’ e ‘extensão’.

Analisaremos de modo critico o posicionamento do Dr. Pink, entretanto, isto não significa que dizer que os arminianistas estão corretos, pois ambos os sistemas doutrinários defendem que Deus, pela soberania ou presciência, predestinou alguns à salvação e o restante da humanidade à danação eterna.

O objetivo da análise deste artigo do Dr, Pink é expor o esforço e a parcialidade dos calvinistas em interpretar as Escrituras de modo a apoiar o seu núcleo doutrinário determinista e fatalista.

 

O mundo

Quanta controvérsia sobre o significado do substantivo grego κόσμος (cosmos)! O apóstolo amado falou acerca do universo, do cosmo, do mundo, de uma extensão geográfica?

O evangelista Marcos também fez uso do termo κόσμος (cosmos) quando registrou a ordem de Cristo aos seus discípulos, que diz:

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.” (Marcos 16:15 -16).

Os evangelistas Mateus e Lucas não fizeram uso do termo κόσμος (cosmos) ao registrarem a mesma ordem:

“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mateus 28:18 -19).

“E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos, e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém.” (Lucas 24:46 -47).

Segundo o registrado pelo evangelista Marcos, Jesus estava preocupado com questões geográficas, como o novo continente que ainda não havia sido descoberto, extensão territorial das tribos aborígenes, de modo que, os discípulos, percorressem toda extensão do globo terrestre?

Quando o apóstolo Paulo registrou que o evangelho (a fé dos cristãos), estava sendo anunciada ‘em todo o mundo’, qual o significado do termo ‘mundo’? Extensão territorial? Globo terrestre?

“Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.” (Romanos 1:8).

Qual a definição de mundo na declaração do apóstolo Paulo aos cristãos de Colossos?

“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.” (Colossenses 1:23);

“Por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho, que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade;” (Colossenses 1:5 -6).

Quando o evangelista João registra a declaração mais conhecida de Jesus acerca do amor de Deus, qual o significado do termo ‘mundo’:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (João 3:16 -17).

Percebe-se através dos textos citados e do conhecimento que hoje dispomos acerca do planeta terra, que a abordagem de Jesus e dos discípulos à época, com o termo ‘mundo’, não visava o globo terrestre como extensão territorial, fauna, bioma, biodiversidade, etc.

O termo ‘mundo’ foi utilizado para evidenciar a universalidade da mensagem do evangelho, e que não há impedimento algum quanto a anuncia-lo a qualquer etnia, língua, povo, tribo ou nação: a todos os homens, sem exceção, deve-se anunciar a verdade do evangelho.

A ordem: ‘Ide por todo o mundo’ tem em vista excluir qualquer tipo de acepção de pessoas quando do anuncio do evangelho, ou seja, pregar o evangelho a toda criatura.

Quando o apóstolo Paulo diz aos cristãos em Roma que ‘em todo o mundo’ ou que ‘a toda criatura que há debaixo do céu’ a mensagem do evangelho era anunciada, a expressão ‘todo mundo’ e ‘toda criatura’ não se refere, respectivamente, à extensão territorial ou a todos os indivíduos que existiam à época, antes que, quanto ao anuncio do evangelho, não estava ocorrendo acepção de pessoas.

Quando é dito que ‘Deus amou o mundo’, certo é que Deus amou a todos os homens sem qualquer distinção de etnia, povo, nação, língua, etc.

O termo κόσμος (cosmos) nas mensagens da nova aliança serve para indicar que a mensagem do evangelho derruba as barreiras das divisões sociais, culturais, étnicas, línguas, povos, nações, etc.

Entretanto, a definição de ‘mundo’ adotado por Pink segue outra perspectiva:

“Em sexto lugar, nossa definição de “todo o mundo” está em perfeito acordo com outras passagens do Novo Testamento. Por exemplo: “da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho, que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade” (Colossenses 1:5-6). Será que “todo o mundo” aqui significa, absoluta e deliberadamente toda a humanidade? Havia toda a família humana ouvido o Evangelho? Não. O significado óbvio do apóstolo é que o Evangelho, em vez de ser estar confinado apenas à terra da Judéia, havia ido para o exterior, sem restrições, para as terras dos gentios. Assim como em Romanos 1:8: “Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. O apóstolo está aqui se referindo à fé daqueles santos Romanos sendo anunciada em uma forma de elogio. Mas certamente toda humanidade não havia falado da fé deles! Era todo o mundo dos crentes que ele estava se referindo! Em Apocalipse 12:9 lemos de Satanás “que engana todo o mundo”. Mas novamente esta expressão não pode ser entendida como sendo universal, porque Mateus 24:24 nos diz que Satanás não tem conseguido e não pode “enganar” os eleitos de Deus. Esta passagem de apocalipse refere-se a “todo o mundo” dos incrédulos.” (Idem).

Ao analisar Colossenses 1, versos 5 à 6, o Dr. Pink confere ao termo ‘mundo’ a conotação de extensão geográfica ao dizer ‘confinado à terra da Judeia’, ‘exterior’, ‘terras dos gentios’, enquanto o apóstolo demonstra que a palavra da verdade, que já havia chegou aos cristãos de Colossos, também estava entre outros povos, de outras línguas e etnias.

As restrições ao alcance do evangelho não está em questões geográficas, antes a barreira era cultural e religiosa. Está questão fica nítido no comportamento do apóstolo Pedro, que mesmo após pregar aos judeus fazendo uso de uma passagem do livro de Joel, que diz: “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne (Atos 2:17), teve que sofrer um arrebatamento de sentidos e ser instruído em uma visão.

Perto da hora sexta, o apóstolo Pedro sentiu fome, e, enquanto preparava o alimento, teve os seus sentidos arrebatado e viu o céu aberto, e um vaso que descia dos céus, como que amparado por um lençol atado pelas quaro pontas, repleto de animais quadrúpedes e répteis da terra, e aves do céu, quando lhe foi dada uma ordem: ‘Levanta-te, Pedro, mata e come’.

O apóstolo relutou, dizendo: “De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda.” (Atos 10:14), quando foi instruído que não deveria fazer comum o que Deus havia purificado.

Através desta passagem fica nítido que o apóstolo Pedro, apesar da ordem de Jesus para ir a todas as gentes anunciar o evangelho, nem mesmo havia entrado na casa de um gentio, e somente após esse evento compreendeu que Deus não faz acepção de pessoas.

“E disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo (…) E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo.” (Atos 10:28 e 34 -35).

Embora Jesus tenha ordenado que se anunciasse o evangelho a todos os povos, e o apóstolo ter citado o profeta Joel acerca do ‘espírito’ ser derramado sobre toda carne, tal verdade ainda não tinha sido ‘digerida’ pelo apóstolo. Para o apóstolo Pedro, até o evento do arrebatamento de sentidos, o evangelho deveria permanecer confinado aos judeus.

Quando Jesus disse ‘ide por todo mundo’, não estava enfatizando que seus discípulos deveriam percorrer territórios, antes que era imperativo anunciar o evangelho a todos os homens, sem qualquer distinção.

 

Em todo mundo é anunciada a vossa fé

Ao citar Romanos 1, verso 8, o Dr. Pink faz outra má leitura, mas que não se refere a questão ‘mundo’. Observe:

“Romanos 1:8: “Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. O apóstolo está aqui se referindo à fé daqueles santos Romanos sendo anunciada em uma forma de elogio. Mas certamente toda humanidade não havia falado da fé deles! Era todo o mundo dos crentes que ele estava se referindo!” (Idem).

A questão apresentada aos cristãos de Roma pelo apóstolo dos gentios não se refere à humanidade elogiando ou comentando acerca da fé dos cristãos, antes o motivo pelas graças apresentada pelo apóstolo se devia ao fato de a crença (fé) dos cristãos ser anunciada em todo o mundo.

Quando é dito ‘em todo mundo’, certo é que se refere a todas as gentes, povos. Mas, o motivo de ter sido dada graça a Deus pelos cristãos, é o fato de o evangelho (vossa fé) estar sendo anunciado aos povos.

 

Propiciação pecados de todo o mundo

A interpretação do Dr. Pink tem início com uma explanação do verso 1, do capítulo 2 de primeira João:

“Em primeiro lugar, o fato deste verso iniciar com “e” necessariamente liga-o com o que veio antes. Nós, portanto, apresentamos uma palavra literal para a tradução da palavra “mundo” de 1 João 2:1 da interlinear de Bagster: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar, um Paráclito temos com o Pai, Jesus Cristo (o) justo”. Assim, é visto que o apóstolo João está aqui escrevendo para e sobre os santos de Deus. Seu propósito imediato era duplo: primeiro, o de comunicar uma mensagem que iria distanciar os filhos de Deus da prática do pecado; segundo, fornecer conforto e segurança para aqueles que viessem a pecar, e, em consequência, serem abatidos e ficarem com medo de que isto fosse fatal. Ele, portanto, dá a conhecer a eles a disposição que Deus tem dado ao tipo de emergência desse tipo. Isto encontramos no final de v. 1 e ao longo do v. 2. O fundamento do conforto tem dois pontos: fazer com que o crente abatido e arrependido (1 João 1:9) tenha certeza de que, primeiro, ele tem um “Advogado junto ao Pai”; em segundo lugar, que este Advogado é “a propiciação pelos nossos pecados”. Agora, somente os crentes podem tomar conforto disto, porque somente eles têm um “Advogado”, porque somente para eles que Cristo é a propiciação, como é provado pelo elo de Propiciação (“e”) com “o Advogado”!” (Idem).

Como se está analisando uma carta, tudo o que está escrito tem vinculo com uma ideia anterior. Não é o fato de o verso iniciar com ‘e’ que o liga ao verso anterior, antes a ideia promovida pela epístola.

“MEUS filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” (1 João 2:1 -2).

A carta foi endereçada aos filhos na fé do apóstolo Amado. O motivo pela qual o apóstolo redigiu a carta é objetivo: para que não pequeis! Mas, quais coisas escritas são obstes a pratica do pecado? O que devem observar para não pecar? O que foi dito no capítulo 1.

Para não pecarem, o evangelista enfatiza que ele teve contato pessoal com Cristo, inclusive, não só de ver e ouvir, mas de tocar o Verbo da vida (1 João 1:1); ele dá testemunho abertamente de que Cristo estava junto ao Pai e é a vida manifesta (1 João 1:2); o que foi visto e ouvido foi retransmitido aos cristãos, ou seja, nada foi omitido ou acrescentado, de modo que a comunhão no corpo de Cristo (apóstolos, Pai e Filho) se tornar efetiva (1 João 1:3).

Só com essas questões destacadas nos três primeiros versos, os cristãos não podiam errar em questões como Cristo ter vindo em carne, ser o Verbo que estava junto ao Pai no princípio e que é imprescindível ter comunhão com os irmãos, para se ter comunhão com o Pai e o Filho.

Nestes três primeiros versos fica evidente que, para estar em Deus é imprescindível permanecer no ensino dos apóstolos sem se demover, de modo que quem diz que crê em Deus, também tem que crer em Cristo, pois qualquer que negar que Jesus é o Cristo ou, que Ele não veio em carne, é o anticristo (1 João 2:22 -24).

O evangelista João também destaca a essência da mensagem de Cristo anunciada aos homens: ‘que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas’ (1 João 1:5), de modo que alguém só pode estar em Deus e Deus nele se igualmente for luz, e não trevas.

Como saber se efetivamente é luz? Se efetivamente guarda o mandamento de Deus, que é crer que Jesus é o Cristo, já que quem guarda os seus mandamentos está em Deus e Deus nele.

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado.” (1 João 3:23 -24).

Devido a introdução de heresias no seio da comunidade cristã, alguns diziam ter comunhão com Deus, mas andavam em trevas, ou seja, não criam que Jesus é o Cristo ou que Ele veio em carne. Não crer em Cristo ou dizer que Ele não veio em carne é ser mentiroso, consequentemente, não pratica a verdade, não anda segundo o testemunho que o Pai deu acerca de seu Filho (1 João 1:6).

‘Andar na luz’ é praticar a verdade, crer que Jesus é o Cristo, pois Cristo é a verdade, o que promove comunhão uns com os outros, de modo que todo aquele que crê é purificado do pecado (1 João 1:7).

Mas, se alguém for recalcitrante contra a verdade de que é necessário a todos os homens andarem na luz para serem purificados do pecado sob o argumento de que ‘não tem pecado’, assim como os judeus que diziam que criam em Cristo alegaram que nunca foram escravos de ninguém (João 8:33), engana-se a si mesmo e não está na verdade (1 João 1:8).

A observação do verso 8: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós.”, não se aplica aos cristãos que o evangelista João escreveu, antes descreve o posicionamento dos judaizantes que, diante da verdade do evangelho, alegavam que tinham por Pai a Abraão, e que, portanto, julgavam que nunca serviram a ninguém (João 8:39; Mateus 3:9).

Os cristãos a quem o apóstolo amado havia enviado a carta, quando creram em Cristo como o Filho de Deus, tiveram que reconhecer que eram pecadores e foram purificados de seus pecados, conforme o verso 7. A condição do crente não é descrita no verso 8, e sim nos capítulos subsequentes: os que permanecem em Deus não peca (1 João 3:6 e 9).

Já quem se posiciona conforme o verso 8, é quem diz que crê somente em Deus, motivo pelo qual não reconhece que está no pecado, e rejeita o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho (1 João 5:9-10). Diz das mesmas pessoas descritas por Tiago, que diziam crer em Deus, mas que não executavam a sua obra: crer em Cristo (João 6:29; Tiago 1:25).

Daí o aviso:

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (João 14:1).

Por má leitura dos versos 7 e 8 é que surgiu o sacramento da confissão na Igreja Católica, onde o pecador faz confissão dos seus pecados perante um sacerdote. Na verdade, quando o evangelista diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”, instrui alguns dos seus leitores a deixarem de confiar na carne, ou seja, de que eram descendentes de Abraão e, que, portanto, não estavam sujeitos ao pecado.

Agora podemos compreender o motivo do alerta do verso 1 do capítulo dois da primeira epístola de João:

“MEUS filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.” (1 João 2:1).

O evangelista escreveu as orientações anteriores para que os seus filhinhos na fé não errassem questões essenciais ao evangelho. Ele utiliza o verbo ἁμαρτάνω[2] (hamartanó), termo descreve alguém em sujeição ao pecado, mas que também serve para descrever equívocos, erros de qualquer natureza, como os descritos pelo verbo πλα ναω[3] (planao).

As questões conceituais apresentadas pelo evangelista João tinha o condão de evitar que os cristãos errassem ou fossem induzidos ao erro, alerta semelhante aos emitidos por outros escritores do Novo Testamento.

“Não erreis, meus amados irmãos.” (Tiago 1:16);

“Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.” (Gálatas 6:7).

Mas, se alguém dentre os cristão pecasse seguindo alguma dissolução dos enganadores, que considerasse que Jesus é Advogado junto a Deus. Por exemplo: se alguém até a chegada da carta tivesse acreditado na mentira de que Jesus não veio em carne, evidentemente cometeu um equívoco, um erro, contra a verdade. No entanto, depois de advertido, se o ouvinte se demovesse do erro, podia confiar em Jesus, que é Advogado junto ao Pai.

O ‘e’ do verso 2, do capítulo 2 da primeira epístola de João, tem a função de evidenciar que a atribuição de Jesus junto ao Pai: advogado, decorrente do fato de Ele ser a propiciação pelos pecados dos que creem (nossos pecado).

No entanto, o apóstolo evidencia que Cristo não é propiciação somente para os cristãos, mas que é propiciação pelos pecados do mundo todo! O que João destaca com essa asserção é que essa benesse está ao alcance dos homens de qualquer tribo, nação, povo, língua, etc., tendo em vista que todo aquele que invocar o Senhor será salvo (Romanos 10:13).

Certo é que os cristãos gozam dos benefícios decorrentes da propiciação: o perdão dos pecados (Romanos 8:1), no entanto, essa benesse é concedida a qualquer que invocar ao Senhor, ou seja, a todo mundo.

Ao dizer: ‘porque somente para eles que Cristo é a propiciação’, o Dr. Pink flagrantemente contradiz o apóstolo João para tentar dar sustentabilidade à doutrina calvinista da predestinação, restringindo assim o alcance da propiciação:

“Em segundo lugar, se outras passagens no Novo Testamento que falam de “propiciação” forem comparadas com 1 João 2:2, será descoberto que ela é estritamente limitada em seu alcance. Por exemplo, em Romanos 3:25 lemos que Deus apresentou Cristo “como propiciação, mediante a fé em Seu sangue”. Se Cristo é a propiciação “pela fé”, então Ele não é uma “propiciação” para aqueles que não têm fé! Novamente, em Hebreus 2:17 lemos: “Para fazer propiciação pelos pecados do povo” (Hebreus 2:17).” (Idem).

Não há qualquer ideia de limitação na propiciação de Cristo no verso citado da epístola aos Hebreus, antes que se estende ao ‘povo’:

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hebreus 2:17).

Outro equivoco evidente há na leitura que o Dr. Pink faz do verso 25 de Romanos 3, por duas questões. Primeiro ele não destaca o conteúdo dos versículos anteriores, acerca da justiça de Deus manifesta (Romanos 3:21), que alcança a todos os que creem (Romanos 3:22), vez que todos os homem pecaram (Romanos 3:23), e todos indistintamente, quer sejam judeus ou gentios, são justificados pela redenção que há em Cristo.

Segundo, o texto propõe que a redenção não se limita as questões de povos, tribos e línguas (Romanos 3:29), vez que tem por alvo todos que pecaram e destituídos estão da gloria de Deus. Como a redenção se dá pela propiciação pela fé no sangue de Cristo, não há barreira quanto a povos, tribos ou línguas, diferente das questões imposta na Antiga Aliança, vez que os membros de outros povos tinham que se tornarem prosélitos.

A propiciação pela fé é garantia de que todos que estão no pecado, não importando se judeus ou gentios, têm acesso à graça de Deus. Pink, por sua vez, entende que se é ‘pela fé’, que a propiciação é limitada, isto em função da doutrina que professa acerca de uma graça irresistível.

A asserção: “Se Cristo é a propiciação “pela fé”, então Ele não é uma “propiciação” para aqueles que não têm fé!”, contraria a exposição do evangelista João, vez que o fato de a propiciação ser alcançada pela fé em Cristo, não depõe contra o fato de que Cristo é a propiciação pelos pecados de todo o mundo.

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:2).

É evidente que o apóstolo João, assim como o apóstolo Pedro e Tiago escreveram a cristãos convertidos dentre os judeus. E quando o evangelista João diz: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados”, se considerar o público alvo da carta, escreveu a judeus convertidos.

Mas, dizer que era impossível ao apóstolo Paulo começar uma carta aos moldes da carta do evangelista João é disparates sem proporção. Veja o que Pink diz:

“Na abertura do verso ele fala de Cristo, “o qual vimos com os nossos olhos…. e as nossas mãos apalparam”. Quão impossível seria para o Apóstolo Paulo ter iniciado qualquer uma de suas epístolas aos santos gentios com tal linguagem!” (Idem).

Em todas as epístolas o apóstolo Paulo faz confissão, como por exemplo:

“PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 1:1 -4).

Embora não tenha dito que tocou o Cristo, o apóstolo Paulo destaca o fato de que muitos conheceram a Cristo segundo a carne, mas que agora já não se conhece a Cristo deste modo:

“Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo.” (2 Coríntios 5:16).

Mas o ponto significativo da asserção: “… e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:2), é evidenciar que os cristãos judeus não eram privilegiados em relação aos demais homens de outros povos, tribos e línguas.

A conclusão do Dr. Pink resta equivocada:

“Os “muitos anticristos” sobre quem João declara “saíram de nós”, eram todos judeus, pois, durante o primeiro século ninguém senão um judeu apresentou-se como o Messias. Portanto, quando João diz: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados” ele só pode ter se referido aos pecados dos crentes judeus. (…) Em quarto lugar, quando João acrescentou: “E não somente pelos nossos, mas também pelo mundo inteiro”, ele anuncia que Cristo foi a propiciação pelos pecados dos crentes gentios também, pois, como demonstrado anteriormente, “o mundo” é um termo contrastado com Israel.” (Idem).

É tergiversar alegar que ‘E não somente pelos nossos, mas também pelo mundo inteiro’ diz dos cristãos convertidos dentre os gentios. Principalmente quando define o termo ‘mundo’ como contrastado com Israel ao apontar os versos 51 e 52, do capítulo 11, do evangelho de João, como ‘uma passagem estritamente paralela’. Comparemos:

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:2);

“E Caifás, um deles que era sumo sacerdote naquele ano, lhes disse: Vós nada sabeis, nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação. Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos.” (João 11:49 -52).

Enquanto o pronunciamento do evangelista João aos cristãos convertidos dentre os judeus evidencia que eles não eram melhores que os gentios, vez que Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo todo, a profecia de Caifás destaca que era melhor um homem só morrer em beneficio do povo[4], ou seja, dos judeus, evitando-se que a nação[5] toda fosse destruída.

O evangelista João demonstra, ao interpretar a profecia de Caifás, que a troca dos termos λαος (laos) por εθνος (ethnos) evidencia o sentido profético das palavras, vez que o termo grego εθνος (ethnos) correspondia ideia de povos, gentios.

O Dr. Pink parece desconhecer o ‘paralelismo’, recurso próprio às poesias hebraicas, na qual a segunda linha geralmente repete a ideia dum trecho da primeira linha, mas em palavras diferentes, quando rotula a forma de escrita do evangelista João de tautológica ociosa:

Em quinto lugar, a interpretação acima é confirmada pelo fato de que nenhuma outra é consistente ou inteligível. Se o “todo o mundo” significa toda a raça humana, então a primeira cláusula e o “também” na segunda cláusula são absolutamente sem sentido. Se Cristo é a propiciação por todos, seria uma tautologia (redundância) ociosa dizer, primeiro, “Ele é a propiciação pelos nossos pecados e também por todos”. Não deve haver “também” se Ele é a propiciação por toda a família humana. Tivesse o apóstolo o intuito de afirmar que Cristo é a propiciação universal, ele teria omitido a primeira cláusula do v. 2, e simplesmente dito: “Ele é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro”. Confirmando com “não pelos nossos (crentes judeus) somente, mas também pelo mundo inteiro — crentes gentios, também; compare João 10:16; 17:20.” (Idem).

‘Deus é luz’, portanto, dizer que ‘que nele não há trevas nenhuma’ poderia ser redundância, mas não é. Estamos diante de uma trava lógica, de modo que os elementos das proposições devem ser considerados em função do outro de modo a evitar qualquer tipo de desvirtuamento.

João não disse: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados”, antes disse: E ele é a propiciação pelos nossos pecados…”. Não podemos esquecer a importância do ‘e’ que introduz a asserção, como fez o Dr. Pink.

Ao dizer: “E ele é a propiciação dos nossos pecados”, destacando ‘e não somente pelos nossos’, além de consistente a exposição, torna plenamente inteligível a ideia de que os gentios não foram preteridos em relação à graça de Deus.

O Dr. Pink levanta questionamento em desfavor do texto como se os seus argumentos possuíssem peso, e não as Escrituras. O questionamento: ‘que segurança temos de que os crentes também não estejam perdidos’, se o termo κόσμος significa ‘toda a raça humana’, não leva em conta a fidelidade de Deus. Observe: 

“Em sétimo lugar, insistir que “todo o mundo” em 1 João 2:2 significa toda a raça humana é minar os próprios fundamentos da nossa fé. Se Cristo é a propiciação para aqueles que estão perdidos tanto quanto para aqueles que são salvos, então que segurança temos de que os crentes também não estejam perdidos? Se Cristo é a propiciação para aqueles que estão agora no inferno, que garantia há que eu mesmo não possa terminar no inferno? O derramamento de sangue do Filho de Deus encarnado é a única coisa que pode livrar qualquer um do inferno e se muitos pelos quais este precioso sangue fez propiciação estão agora no terrível lugar dos condenados, então pode ser que este sangue se prove ineficaz para mim! Fora com um pensamento tão desonroso para com Deus.” (Idem).

O que é desonroso para Deus é honrar aquele que não O honra, ou ter misericórdia de quem não O ama.

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados.” (1 Samuel 2:30).

A fidelidade de Deus é que garante salvação para toda a raça humana, ainda que muitos por quem Cristo morreu, se perdem por não crer no enviado de Deus.

Ao anunciar o evangelho do Dr. Pink, o evangelista deveria ter o cuidado de dizer: – “Cristo não morreu por você, mas se você aceitar o fato de que Ele não morreu por você e Deus o despertar para crer, aí Ele morreu por você”.

Se cremos em Cristo, morremos com Ele e ressurgimos com Ele para a gloria de Deus Pai (Colossenses 3:1). Se padecermos as aflições como bom soldado de Cristo, certo é que com Ele reinaremos. Mas, se demovermos da esperança proposta no evangelho, certo é que Cristo nos negará. Se formos infiéis, Ele permanece fiel!

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:11 -13).

A imutabilidade de Deus é firme consolação, de modo que se faz necessário reter a esperança proposta.

“Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta;” (Hebreus 6:18).

Por fim, as Escrituras ensina que Cristo morreu por toda a raça humana, vez que Deus amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito. Entretanto, se faz necessário destacar que, por mais que a passagem de primeira João 2, verso 2, pareça favorecer a visão Arminiana sobre a Expiação, segue-se que tanto as visões Calvinistas e Arminianistas estão equivocadas ao considerarem que Deus predestinou alguns homens à salvação, e o restante a danação eterna.

 

 

[1] Artigo disponível na Web: < http://oestandartedecristo.com/data/UmExposiC_Ceode1JoCeo2.2ApCondiceIVASoberaniadeDeusporA.W.Pink.pdf > Acessado em 19/02/2018. Fonte: The Sovereignty of God: Appendix IV – 1 John 2:2, tradução de Timóteo Werner.

[2] 264 αμα ρτ ανω hamartano talvez de 1 (como partícula negativa) e a raiz de 3313; TDNT – 1:267,44; v 1) não ter parte em 2) errar o alvo 3) errar, estar errado 4) errar ou desviar-se do caminho da retidão e honra, fazer ou andar no erro 5) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “4105 πλα ναω planao de 4106; TDNT – 6:228,857; v 1) fazer algo ou alguém se desviar, desviar do caminho reto 1a) perder-se, vagar, perambular 2) metáf. 2a) desencaminhar da verdade, conduzir ao erro, enganar 2b) ser induzido ao erro 2c) ser desviado do caminho de virtude, perder-se, pecar 2d) desviar-se ou afastar-se da verdade 2d1) de heréticos 2e) ser conduzido ao erro e pecado” Dicionário Bíblico Strong.

[4] “2992 λαο ς laos aparentemente, palavra primária; TDNT – 4:29,499; n m 1) povo, grupo de pessoas, tribo, nação, todos aqueles que são da mesma origem e língua 2) de uma grande parte da população reunida em algum lugar Sinônimos ver verbete 5832 e 5927” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “1484 εθν ος ethnos provavelmente de 1486; TDNT – 2:364,201; n n 1) multidão (seja de homens ou de animais) associados ou vivendo em conjunto 1a) companhia, tropa, multidão 2) multidão de indivíduos da mesma natureza ou gênero 2a) a família humana 3) tribo, nação, grupo de pessoas 4) no AT, nações estrangeiras que não adoravam o Deus verdadeiro, pagãos, gentis 5) Paulo usa o termo para cristãos gentis Sinônimos ver verbete 5927” Dicionário Bíblico Strong.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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