Provérbios 23 – Comidas enganosas do ‘governador’

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O alerta deste Provérbio, para não se deixar levar pela aparência de quem está em eminência (governador), antes, que se deve atentar para a comida enganosa servida à mesa.


Provérbios 23 – Comidas enganosas do ‘governador’

“QUANDO te assentares a comer com um governador, atenta bem para o que é posto diante de ti (Pv 23:1).

Como ler

Para compreender a essência desse provérbio: “QUANDO te assentares a comer com um governador, atenta bem para o que é posto diante de ti” (Pv 23:1), é imprescindível ter em mente o objetivo do Livro dos Provérbios, que consta nos primeiros versos do livro:

“PROVÉRBIOS de Salomão, filho de Davi, rei de Israel; Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem, as palavras da prudência. Para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade; Para dar aos simples, prudência e aos moços, conhecimento e bom siso; O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento e o entendido adquirirá sábios conselhos; Para entender os provérbios e sua interpretação; as palavras dos sábios e as suas proposições” (Pv 1:1-6).

Esses versos demonstram que os provérbios de Salomão têm por objetivo capacitar seus leitores a:

  1. Conhecerem a sabedoria;
  2. Entenderem as palavras da prudência;
  3. Receberem a instrução e entenderem a justiça, o juízo e a equidade;
  4. Tornarem os simples prudentes e os de idade tenra, sábios e de bom siso;
  5. Crescerem em conhecimento e quem compreender, ter sábios conselhos e;
  6. Entenderem os provérbios, as parábolas e os enigmas (proposições) dos sábios.
  7. Através dos Provérbios, o leitor adquire o conhecimento necessário que possibilita entender as proposições e os enigmas anunciados pelos profetas no Antigo Testamento, bem como as parábolas inseridas nas exposições de Cristo no Novo Testamento, visto que, sem parábolas Cristo nunca falava ao povo (Mc 4:34).

No verso 6 do capítulo 1 do Livro de Provérbios, está consubstanciado que o Livro serve para se entender os provérbios e sua interpretação, as palavras dos sábios e seus enigmas.

Ora, é assente que Cristo Jesus era sábio e, na condição de mestre, propunha diversas parábolas ao povo, portanto, para compreender a doutrina de Jesus, é imprescindível conhecer o Livro dos Provérbios (Pv 1:6).

Jesus respondia com palavras de verdade todos os que se achegavam a Ele e Ele mesmo afirmou que tudo que aprendeu foi prescrito pelo Pai (Jo 8:28). Quando e como o Pai prescreveu tudo o que o Filho haveria de falar? Resposta: na Bíblia, através da Lei, dos Profetas, dos Salmos e dos Provérbios.

O Provérbio, a seguir, ilustra bem essa verdade:

“Porventura não te escrevi excelentes coisas, acerca de todo conselho e conhecimento, para fazer-te saber a certeza das palavras da verdade e, assim, possas responder palavras de verdade aos que te consultarem?” (Pv 22:20-21).

O Livro de Provérbios contém instruções de Deus para seu Filho, Jesus Cristo.

Qual o objetivo de se utilizar parábolas em uma comunicação? A comunicação tem o objetivo de fazer compreender uma ideia, e uma parábola permite que os ouvintes se apossem de um conhecimento de modo gradual, conforme a sua capacidade de compreensão.

“E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender (Mc 4:33).

Quando os escribas e fariseus faziam perguntas para Jesus, geralmente queriam pegá-lo em alguma contradição (Lc 11:54) e Jesus respondia com parábolas. Por quê? Porque Jesus foi instruído pelas Escrituras que:

“O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração” (Pv 18:2).

Certa feita, um moço perguntou a Jesus: – “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Mc 10:17). E Jesus respondeu: “Tu sabes os mandamentos: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não defraudarás alguém; honra a teu pai e a tua mãe” (Mc 10:19). Em seguida, o jovem evidenciou o que agradava o seu coração: – “Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade” (Mc 10:20). Ora, Jesus nada ensinou àquele jovem, antes, perguntou se ele sabia os mandamentos e a resposta do jovem tornou evidente o que estava no seu coração.

Por que Cristo não se apresentou ao moço como a salvação enviada por Deus, da mesma forma que fez com a mulher samaritana? Por causa da seguinte instrução de Deus para o seu Filho:

“Não fales ao ouvido do tolo, porque desprezará a sabedoria das tuas palavras” (Pv 23:9).

As respostas de Cristo eram segundo o entendimento de cada indivíduo: “Não respondas ao tolo, segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele. Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos” (Pv 26:4-5).

A mulher samaritana não tinha o perfil do tolo, de modo que Cristo apresentou-se, abertamente, a ela: “Jesus disse-lhe: Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4:26). O jovem rico, por sua vez, estava seguro de que as suas ações eram dignas de louvor e aprovação. Ao ser exigido que deixasse tudo o que possuía e seguisse a Cristo como Senhor, retirou-se triste.

Ora, Deus deixou registrado para o Cristo instruções específicas nos Provérbios, Salmos, Profetas e na Lei e uma delas era: não aceitar as pessoas pela aparência ou, pela sua posição. Nos Salmos há uma instrução que descreve a condição dos homens: “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas e não sabem quem as levará” (Sl 39:6).

O verso 6, do Salmo 39, descreve a realidade espiritual da humanidade, através de figuras e enigmas que são utilizadas, várias e várias vezes, por toda as Escrituras, o que demanda o conhecimento contido no Livro dos Provérbios para compreende-las.

É em função da instrução das Escrituras, que Jesus não julgava os homens segundo a aparência e não aceitava ninguém segundo a aparência, nem mesmo os filhos de Israel, visto que os Salmos não excetuavam o homem judeu da vã aparência, quer sejam homens judeus da plebe ou, um líder político ou, o chefe da religião.

“E enviaram-lhe os seus discípulos, com os herodianos, dizendo: Mestre, bem sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade e de ninguém se te dá, porque não olhas a aparência dos homens” (Mt 22:16);

“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24).

 

As coisas que se veem

As pessoas, na sua grande maioria, entendem os Provérbios de Salomão, como o conjunto de ditos populares que contém regras e normas de civilidade deduzida da experiência que o povo tem da vida, com o objetivo de nortear o convívio entre os membros duma sociedade organizada.

O Livro de Provérbio em análise é classificado como um dos livros sapienciais da Bíblia e muitos o veem como compêndio de regras de etiquetas que o sábio rei Salomão estabeleceu para seus súditos.

O Livro de Provérbios dita regras de etiqueta? Seria o Livro de Provérbio um conjunto de regra moral de como se comportar? Qual comportamento adotar, quando alguém se assenta diante de uma pessoa importante para comer?

O Pregador bem conhecia quais as sensações e impressões que invadem e afloram as emoções das pessoas, quando se põe diante de autoridades, além da amplitude dos palácios funcionarem como uma moldura de um quadro, evidenciando a pessoa importante. O luxo, a exuberância, a beleza, o requinte, etc., arrebatam as emoções do convidado, deixando-o em suspense, diante de alguém importante.

A rainha de Sabá era acostumada com a fineza da realeza, porém, quando visitou o rei Salomão e viu a comida que foi posta à mesa, o assentar dos servos, o comportamento e as vestes dos criados, os copeiros e os holocaustos oferecidos na casa do SENHOR, etc., ficou fora de si (1 Rs 10:4-5).

Se uma rainha ficou fascinada diante da exuberância do rei de Israel, imagine quando alguém do povo tem acesso às instalações de um palácio e se assenta na mesa de um governador? São tantos utensílios nos palácios: lustres, cortinas, janelas, pisos, vidraças, cadeiras, mesas, toalhas, etc., e todos remetem o convidado a atentar para a grandeza do govenador.

A preocupação maior de alguém que recebe um convite para comparecer em uma reunião que alguém importante estará presente é com a vestimenta, se será adequada para o evento ou não. Na reunião, o convidado observa a aparência da pessoa importante, o que dará elementos para fazer um juízo de valor se está ou não dentro do padrão próprio àquela reunião.

Até mesmo pessoas ilustres se preocupam, quando são convidadas a participarem de um evento importante.

Ao se assentar à mesa diante de alguém importante, o pensamento se fixa na posição do anfitrião. Pode haver certo acanhamento, receio, porém, o visitante sente-se prestigiado quando está na presença de um ilustre.

Se o convidado tem um posicionamento acerca de um determinado tema que destoa do ponto de vista da pessoa importante, em vista do prestigio decorrente de estar à mesa com o ilustre, o convidado se cala ou, até consente com a opinião dessa autoridade, em vista do prestígio recebido.

Ora, por dar importância à posição do anfitrião, o convidado acaba prevaricando e abre mão de declinar o seu posicionamento, por entender que é descortês contrariar alguém que está lhe prestigiando:

Dar importância à aparência das pessoas não é bom, porque até por um bocado de pão um homem prevaricará” (Pv 28:21).

Certa feita, Jesus foi convidado por um fariseu para jantar e, quando se assentou para comer, o anfitrião admirou-se por Jesus não ter lavado as mãos e o recriminou. Diante da apreensão do fariseu, Jesus, de imediato, recriminou a classe de pessoas da qual o seu anfitrião fazia parte, bem como os doutores da lei, não dando importância à aparência. (Lc 11:37-54)

Como os filhos de Israel atribuíam importância à aparência, trocando honras entre si, não alcançaram o louvor de Deus, sendo nomeados ‘prevaricadores’.

“Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros e não buscando a honra que vem só de Deus?” (Jo 5:44; Is 46:8).

A importância que a pessoa dá à aparência é diretamente proporcional à atração pelo prestígio que o ilustre proporciona. O ‘prestigio’, a ‘honra’, o ‘louvor’ que os fariseus, reciprocamente, se concediam uns aos outros, era o ‘bocado de pão’ com que os ‘prevaricadores’ se vendiam.

“Do fruto da boca cada um comerá o bem, mas a alma dos prevaricadores comerá a violência” (Pv 13:2).

Todos esses versos possuem um significado oculto, com aplicação prática para o povo de Deus. Ora, todos os versos citados apontam para questões celestiais, pois as questões desta vida são efêmeras. A Bíblia trata das coisas que não se veem por intermédio de ‘sombras’, que são figuras criadas a partir das coisas que se veem, para que possamos compreender os bens eternos, que não se veem.

“Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais e as que se não veem, são eternas” (2 Co 4:18; Cl 2:17).

 

O cuidado de Deus

Qual adágio ou enigma consta nesse provérbio?:

“QUANDO te assentares a comer com um governador, atenta bem para o que é posto diante de ti” (Pv 23:1).

O apóstolo Paulo, ao citar um provérbio que consta na lei de Moisés, fez a seguinte observação: – ‘É de bois que Deus tem cuidado’?

“Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura, tem Deus cuidado dos bois?” (1 Co 9:9).

Em seguida, o apóstolo dá a resposta: – ‘Ou não o diz, certamente, de nós’? Quando dizemos: “É necessário dar nome aos bois”, percebe-se de imediato que a fala não está tratando de animais, mas de homens.

O apóstolo Paulo, ao ler na lei mosaica, um Provérbio, visualizou o cuidado que Deus dispensa para com o homem. A lei expressa o cuidado de Deus, sem dar as consequências nefastas para quem desobedecê-lo. Já, os Provérbios, apresentam o motivo de ter sido estabelecida à determinação divina e as consequências para quem não se sujeita à determinação divina.

O Provérbio na Lei, utiliza a figura do boi, para destacar o direito de alguém, quando fosse preso por um crime e sujeito à pena de chibatadas, mas, não era de bois que Deus estava cuidando, ou seja, o Provérbio foi utilizado para ilustrar e auxiliar a compreensão da lei.

Na lei estava estabelecido o direito de um condenado não ser chicoteado, além do máximo instituído, que era quarenta açoites. Ultrapassar o limite imposto era aviltar o apenado (Dt 25:2-4). O provérbio foi utilizado para evidenciar o direito de um condenado e o apóstolo Paulo citou o provérbio em defesa do seu apostolado.

Um direito não deve ser lesado, não importando de quem fosse o direito, mesmo que o de um ladrão! Foi Deus que instituiu a pena, para cuidar de uns e disciplinar outros e o provérbio evidenciava o cuidado de Deus para com os homens.

 

O homem de posição

“QUANDO te assentares a comer com um governador, atenta bem para o que é posto diante de ti” (Pv 23:1).

O termo hebraico traduzido por governador[1] é מָשַׁל (mashal) e significa reger, reinar, governar, dominar, etc.

O Pregador era rei em Israel e o alerta parece estar direcionado para os filhos de Jacó.

No entanto, o Livro dos Provérbios possui caráter instrutivo ao Filho de Deus (Pv 23:15), que viria dos judeus. O alerta estampado no Capítulo 23 não é diferente, pois é um alerta de Deus para o Cristo e o tema abordado iniciou no verso 19 do capítulo 22 de Provérbios:

“Para que a tua confiança esteja no SENHOR, faço-te sabê-las hoje, a ti mesmo” (Pv 22:19).

Como o povo de Israel estava acostumado a prestigiar suas autoridades religiosas, segundo os seus próprios interesses, esse Provérbio constitui um alerta ao Filho de Deus, para não atentar para a aparência dos que estivessem em eminência.

Devemos ter em mente que os líderes politicos em Israel, também, exerciam a função de guias espirituais. É o que hoje se denomina governo teocrático, em que os governantes, juízes e demais autoridades são líderes religiosos e aceitos como se fossem embaixadores de Deus, uma vez que ‘se assentam na cadeira de Moisés’ (Mt 23:2).

Jesus foi instruído por Deus através das Escrituras e por meio das Escrituras era possível ao povo de Israel mensurar se o que Jesus falava era a doutrina de Deus ou, não.

“Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus ou, se eu falo de mim mesmo” (Jo 7:17).

Várias vezes Jesus demonstrou que foi instruído por Deus com um conhecimento específico que depreendeu das Escrituras:

“Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar” (Jo 12:49);

“E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” (Jo 12:50);

“Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou” (Jo 8:28).

É dito daquele que se deixa instruir na palavra da verdade e que é diligente em sua obra, que não permanecerá entre os inferiores, antes será conduzido à presença dos que governam (Pv 22:29).

“Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4:34);

“Viste o homem diligente na sua obra? Perante reis será posto; não permanecerá entre os de posição inferior” (Pv 22:29).

O capítulo 23 apresenta instruções especificas para o Cristo, quando conduzido à presença dos governantes dos seus compatriotas e da religião.

 

A liderança do povo

Só é possível compreender a essência dos enigmas e adágios que compõem as instruções do Proverbio 23, verso 1, quando se consegue dimensionar, através das denúncias dos profetas, a incredulidade e a rebeldia dos líderes de Israel:

“Os teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão e não chega perante eles a causa da viúva” (Is 1:23);

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados e gostam do sono. E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte” (Is 56:10-11);

“Os opressores do meu povo são crianças e mulheres dominam sobre ele; ah, povo meu! Os que te guiam, te enganam e destroem o caminho das tuas veredas” (Is 3:12).

O profeta Jeremias foi levantado por Deus para opor-se aos líderes de Israel:

“Porque, eis que hoje te ponho por cidade forte, por coluna de ferro e por muros de bronze, contra toda a terra, contra os reis de Judá, contra os seus príncipes, contra os seus sacerdotes e contra o povo da terra” (Jr 1:18);

“Como fica confundido o ladrão quando o apanham, assim se confundem os da casa de Israel; eles, os seus reis, os seus príncipes, os seus sacerdotes e os seus profetas” (Jr 2:26).

Os líderes de Israel deixaram de anunciar ao povo o temor do Senhor e impunham mandamento de homens, ou seja, deixaram de praticar o ‘juízo’ e a ‘justiça’, para impor a ‘violência’ e a ‘assolação’.

“Assim diz o Senhor DEUS: Basta já, ó príncipes de Israel; afastai a violência e a assolação e praticai juízo e justiça; tirai as vossas imposições do meu povo, diz o Senhor DEUS” (Ez 45:9).

Jeremias e Miquéias, em nome do Senhor, protestaram contra os líderes de Israel pelo que eles fizeram com a palavra do Senhor:

“Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8);

“Porque os seus ricos estão cheios de violência, os seus habitantes falam mentiras e a sua língua é enganosa na sua boca” (Mq 6:12).

Jeremias e Miqueias não denunciaram injustiças sociais ou, a violência urbana, como assassinatos, roubos, furtos, etc. A denúncia era contra a ‘violência’ dos líderes de Israel, que deixaram de confiar em Deus e passaram a confiar na carne, se apegando ao fato de serem descendência de Abraão.

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

A denúncia de Deus contra os governadores de Israel era grave, pois causavam a destruição do povo:

“Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados, são destruídos” (Is 9:16);

“Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto, diz o SENHOR” (Jr 23:1).

Quando observamos a condição dos líderes religiosos de Israel, conseguimos entender o motivo do alerta do Pregador e o motivo da crítica de Cristo contra os chefes da religião:

“Guardai-vos dos escribas, que querem andar com vestes compridas; que amam as saudações nas praças, as principais cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes” (Lc 20:46).

 

A comida do governador

“QUANDO te assentares a comer com um governador, atenta bem para o que é posto diante de ti, e se és homem de grande apetite, põe uma faca à tua garganta. Não cobices as suas iguarias, porque são comidas enganosas (…) Não comas o pão daquele que tem o olhar maligno, nem cobices as suas iguarias gostosas” (Pv 23:3 e 6).

O alerta deste Provérbio para não se deixar levar pela aparência de quem está em eminência, antes que se deve atentar para o que é posto à mesa. O alerta não se refere ao alimento natural, antes se refere à doutrina ensinada pelos líderes de Israel, pois o que ensinavam não era o mandamento de Deus, mas, mandamento de homens.

“Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição” (Mc 7:7-9).

A profecia do Salmo 141 retrata a preocupação de Cristo em não comer das ‘delícias’ dos que (obreiros) praticam a iniquidade, homens que se alimentam do povo de Deus, como se fosse pão (Sl 53:4).

“Põe, ó SENHOR, uma guarda à minha boca; guarda a porta dos meus lábios. Não inclines o meu coração a coisas más, a praticar obras más, com aqueles que praticam a iniquidade; e não coma das suas delícias (Sl 141:3-4).

A oração é para que Deus livrasse a sua boca, os seus lábios do engano, ou seja, das delícias dos iníquos. Por não atentar para os manjares de quem estava em eminência, nunca houve na boca de Cristo o engano (Is 53:9).

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20).

Antes de destacar que os fariseus ensinavam doutrinas de homens, Jesus faz referência à palavra de Isaias:

“E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7:6).

Ora, há muito o profeta Moisés disse: “… o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3), evidenciando a importância de não desprezarem a palavra de Deus, o verdadeiro pão que dá vida.

A instrução, segundo a doutrina de Deus era para ser repetida constantemente ao povo, algo perene, no entanto, muitos líderes que sucederam o profeta Moisés, além de prevaricarem como intérpretes, se assenhoraram do povo, impondo mandamentos de homens.

“Goteje a minha doutrina como a chuva, destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como gotas de água sobre a relva” (Dt 32:2);

“Não terão conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo, como se comessem pão e não invocam ao SENHOR?” (Sl 14:4);

“Assim diz o Senhor DEUS: Basta já, ó príncipes de Israel; afastai a violência e a assolação e praticai juízo e justiça; tirai as vossas imposições do meu povo, diz o Senhor DEUS” (Ez 45:9).

Antes de morrer, o profeta Moisés prevendo a apostasia do povo, chamou os anciãos das tribos e os oficiais para anunciar a palavra do Senhor (Dt 31:29). Nesse dia, Moisés, através de um cântico, comparou os filhos de Israel à erva e à relva do campo (Dt 32:2; 1 Pe 1:24), em que a doutrina de Deus é apresentada como chuva, orvalho e chuvisco.

A erva do campo e a chuva são figuras utilizadas para demonstrar a total dependência do homem da palavra de Deus, para ter vida (Dt 32:46-47).

Moisés apresenta Deus como Rocha e verdade (Dt 32:4) e o povo de Israel como corrompido, geração perversa e distorcida, portanto, eles não eram filhos de Deus.

“Corromperam-se contra Ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5).

Essa mesma descrição foi feita pelo profeta Isaías:

“Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR. Que dizem aos videntes: Não vejais; e aos profetas: Não profetizeis para nós o que é reto; dizei-nos coisas aprazíveis e vede para nós enganos. Desviai-vos do caminho, apartai-vos da vereda; fazei que o Santo de Israel cesse de estar perante nós. Por isso, assim diz o Santo de Israel: porquanto rejeitais esta palavra e confiais na opressão e perversidade e sobre isso vos estribais” (Is 30:9-12).

Os líderes deveriam guiar o povo, segundo a palavra de Deus, e o povo, por sua vez, deveria sujeitar-se à sua palavra. No entanto, tanto os líderes. quanto o povo. seguiam os seus próprios pensamentos, e não se sujeitavam a Deus.

“Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2).

Saul foi um líder que queria angariar o prestígio do povo, mas, não se sujeitava à ordem de Deus (1 Sm 13:12). Saul perdeu o reino, porque preferiu agradar ao povo, a seguir o mandamento de Deus (1 Sm 15:24). Os líderes de Israel deviam confiar no Senhor e não na quantidade de pessoas que comandavam.

Observar a Palavra de Deus era obrigação, tanto do líder, quanto do povo. Por não observar a palavra de Deus, Uzá foi fulminado (2 Sm 6:7 ) e o rei Davi aprendeu uma lição:

“E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” (2 Sm 6:9).

Jesus foi confrontado, diversas vezes, pelos fariseus e escribas, por não cumprir a tradição dos anciões e Jesus replicava, demonstrando que eles invalidavam a palavra de Deus, para preservar a tradição que receberam dos pais: “Invalidando, assim, a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7:13).

Ritualismo, formalismo, sacrifícios, jejuns, prolongadas orações, etc., como elementos de adoração ou, meio de alcançar o favor de Deus, é a essência da mentira, que dava suporte às imposições dos escribas e fariseus.

A comida enganosa de que trata o livro de Provérbio não diz de frutas de isopor ou parafina, confeccionadas para enfeitar os palácios, nem as comidas cinematográficas, utilizadas em teatros e filmes.

‘Comida enganosa’, diz do ‘pão da mentira’, do ‘engano’ de homens fraudulentos, que faz o povo se desviar da verdade.

“Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tt 1:14).

O homem de aparência (governador) ‘serve’ palavras de engano, ou seja, coloca à mesa comida enganadora, pão de mentira:

“Não cobices as suas iguarias porque são comidas enganosas (…) Não comas o pão daquele que tem o olhar maligno, nem cobices as suas iguarias gostosas (Pv 23:3 e 6).

A comida enganadora que o homem poderoso serve como manjar (Pv 23:1-2), é o pão daquele que tem os olhos malignos, homens que meditam a violência e os lábios falam enganos (Pv 23:6-7 e Pv 24:1-2).

O fermento (doutrina) do pão dos fariseus é um exemplo de palavras de mentiras, manjares postos à mesa por quem estava em posição de liderança, assentados na cadeira de Moisés: “Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” (Mt 16:12).

Na sua doutrina, Jesus não se ocupou em prescrever quais alimentos o homem pode ou não comer, pois, o alimento cotidiano, que entra pela boca, desce para o ventre e depois é lançado fora, portanto, não contamina o homem. Observe que Jesus incluiu todos os alimentos, quando disse: – ‘… tudo o que entra pela boca desce para o ventre’.

“E Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: Explica-nos essa parábola. Jesus, porém, disse: Até vós mesmos estais ainda sem entender? Ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre e é lançado fora? Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem” (Mt 15:15-20).

Já, as doutrinas dos homens, repousam sobre comer, beber, festas, sábados, luas, casamento, etc. Da doutrina dos homens surgem os julgamentos, as comparações, as dissensões, o controle, etc., sob o pretexto de estarem rendendo graças a Deus.

“Proibindo o casamento e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças” (1 Tm 4:3);

“Portanto, ninguém vos julgue pelo comer ou, pelo beber ou, por causa dos dias de festa ou, da lua nova ou, dos sábados (…) As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade e em disciplina do corpo, mas, não são de valor algum, senão para a satisfação da carne” (Cl 2:16 e 23).

Jesus disse aos discípulos para se guardarem do fermento dos fariseus, pois, o fermento do pão dos fariseus é a comida enganosa da mesa do governador.

É com essa visão que Jesus evidencia que o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas, o que sai da boca. Jesus estava apresentando uma análise, além da perspectiva natural do homem. Jesus não estava tratando de intoxicação alimentar ou, de problemas de ordem sanitária. As considerações de Cristo não eram de ordem natural, mas, de questões espirituais.

Jesus estava considerando que o homem fala do que o coração está cheio e se o coração do homem é enganoso, só sairá da boca do homem mentiras e a mentira (engano) é o que contamina o homem.

Até mesmo os discípulos ficaram sem entender que o que contamina o homem não está no alimento, ou, em não lavar as mãos. Jesus esclarece que o alimento entra pela boca e é lançado fora, ou seja, não tem relação com o coração. Já, a palavra de engano é o que contamina o homem, pois ela entra no coração e o contamina.

O cuidado do homem deve centrar-se no alimento que entra no coração e não no alimento cotidiano:

“Depois, quando deixou a multidão e entrou em casa, os seus discípulos o interrogavam acerca desta parábola. E ele disse-lhes: Assim, também, vós estais sem entendimento? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não entra no seu coração, mas no ventre, e é lançado fora, ficando puras todas as comidas?” (Mc 7:17-19).

A instrução do Provérbio era para que o povo de Israel analisasse as palavras dos seus líderes. Não é porque alguém está em posição de destaque no templo ou, exercendo o sacerdócio ou, se diz profeta, que as suas palavras devem ser tidas como verdadeiras.

Toda e qualquer palavra deve ser julgada, por isso é imprescindível atentar para o que é ensinado, quando se assentar com alguém de destaque e não atentar para a pessoa, pela sua importância.

O que aconteceu com Israel, ocorre em nossos dias, pois os apóstolos alertaram, acerca de homens que são manchas nas festas de amor. Eles se assentam e participam da mesa, juntamente com os cristãos e posavam como líderes, mas apascentam a si mesmos, sem temor.

“Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco e apascentando-se a si mesmos, sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas” (Jd 1:12).

O alerta chega à Igreja, pois há líderes que se deleitam em seus manjares enganosos e se banqueteiam com os cristãos.

“Recebendo o galardão da injustiça; pois que, tais homens, têm prazer nos deleites quotidianos; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em seus enganos, quando se banqueteiam convosco” (2 Pd 2:13).

Se a comida do ilustre é comida enganosa, certo é que diante de alguém ilustre, a atenção deve focar-se no que ele fala, em outras palavras, é necessário provar os espíritos.

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4:1).

Por que a necessidade de se provar os espíritos? Porque muitos homens que alegam professar a Cristo, na verdade são inimigos da cruz de Cristo. Acerca desses homens, asseverou o apóstolo Paulo: o fim deles é a perdição e o Deus deles é o ventre (Fp 3:18).

Como se prova os espíritos? Assim como o paladar prova a comida e o ouvido prova as palavras!

“Porventura, o ouvido não provará as palavras, como o paladar prova as comidas?” (Jó 12:11).

Por que o ventre é o Deus deles? A resposta está no seguinte verso:

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios, ficará satisfeito. A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto” (Pv 18:20).

As palavras destes homens cujo Deus é o ventre, procura satisfazer os seus próprios anseios, só falam de coisas terrenas.

‘Comida’, na Bíblia, quando utilizada como figura, refere-se a ensino, a mandamento, como se lê: “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4:34). Quando Jesus utilizou a comida para fazer referência à vontade de Deus, os seus discípulos não compreenderam a mensagem (Jo 4:33).

O apóstolo Paulo utiliza a figura da comida para lembrar aos cristãos que todos os filhos de Israel ouviram a palavra de Deus, que estabeleceu a Sua Aliança e um Testamento.

“E todos comeram de uma mesma comida espiritual. E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1 Co 10:3-4).

A comida espiritual diz da aliança de Deus com Israel: “E tomou o livro da aliança e o leu aos ouvidos do povo e eles disseram: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos e obedeceremos” (Êx 24:7).

Quando os filhos de Israel disseram: – ‘Tudo o que o Senhor tem falado, faremos e obedeceremos’, todos comeram da mesma comida espiritual, pois, quando ouviram o mandamento de Deus, se tornaram participantes da mesma aliança.

Em seguida, Moisés consagrou a aliança, aspergindo sobre o povo e sobre o livro da lei, o sangue de bezerros e dos bodes: “Por isso, também, o primeiro não foi consagrado sem sangue; Porque, havendo Moisés anunciado a todo o povo, todos os mandamentos, segundo a lei, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã purpúrea e hissopo, e aspergiu, tanto o mesmo livro, como todo o povo, Dizendo: Este é o sangue do testamento que Deus vos tem mandado” (Hb 9:19-20), de sorte que todos foram participantes da mesma ordenança.

Por fim, os filhos de Israel celebraram a aliança, comendo e bebendo: “E subiram Moisés e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel e debaixo de seus pés havia como que uma pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu, na sua claridade. Porém, não estendeu a sua mão sobre os escolhidos dos filhos de Israel, mas viram a Deus, comeram e beberam” (Êx 24:9-11).

Tudo o que foi feito, através de Moisés, foi estabelecido com a pedra que os seguia, e a pedra era Cristo, o Senhor que escondeu, completamente, a sua face da casa de Israel, quando anularam a aliança: “E disse o SENHOR a Moisés: Eis que dormirás com teus pais; e este povo se levantará e prostituir-se-á, indo após os deuses estranhos na terra, para cujo meio vai, me deixará e anulará a minha aliança que tenho feito com ele. Assim, se acenderá a minha ira, naquele dia, contra ele, e desampará-lo-ei, esconderei o meu rosto dele, para que seja devorado; e tantos males e angústias o alcançarão, que dirá naquele dia: Não me alcançaram estes males, porque o meu Deus não está no meio de mim? Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:16-18).

A abordagem que consta dos Provérbios, é instrução de Deus o Seu Filho, Jesus Cristo, pois, Cristo, sendo diligente na obra do Pai, foi conduzido a assentar-se com os líderes de Israel.

A atenção de Cristo sempre esteve focada nas palavras dos escribas, fariseus e doutores da lei:

“Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (Jo 5:30).

Ao ser diligente em realizar a obra do Pai, Jesus não fez coisa alguma de Si mesmo. A ordem do Pai era para que Ele atentasse para o que era posto diante dele, de modo que Ele só julgava segundo o ouvir dos seus ouvidos e não segundo a vista.

“E deleitar-se-á no temor do SENHOR; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos” (Is 11:3).

Se Ele julgasse, segundo a aparência, estaria contrariando a vontade do Pai, de modo que Ele mesmo disse: “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15); “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24).

Os ouvidos possuem uma função importante, pois são eles que provam as palavras, assim como o paladar prova a comida: “Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida” (Jó 34:3).

Jesus não julgou a aparência, antes julgava segundo o que ouvia. No julgamento de Jesus, não estava inclusa a posição social dos seus interlocutores, antes, julgava o que eles falavam.

O apóstolo Paulo protestou contra os cristãos de Corinto, nos seguintes termos:

“Olhais para as coisas segundo a aparência? Se alguém confia de si mesmo que é de Cristo, pense outra vez isto consigo, que, assim como ele é de Cristo, também nós de Cristo somos” (2 Co 10:7).

Qual é a aparência que alguns olhavam? Ou, o que eles julgavam?

Verifica-se qual era a aparência que julgavam e muitos eram aceitos e se gloriavam dela, através desta colocação paulina:

“O que digo, não o digo segundo o SENHOR, mas como por loucura, nesta confiança de gloriar-me. Pois que, muitos se gloriam segundo a carne, eu, também, me gloriarei” (2 Co 11:17-18).

O gloriar-se segundo a carne ou, na aparência, é o mesmo que afirmar: sou hebreu, um israelita descendente de Abraão:

“São hebreus? também eu. São israelitas? também eu. São descendência de Abraão? também eu” (2 Co 11:22).

O Salmo 52 descreve a condição dos líderes de Israel:

“POR que te glorias na malícia, ó homem poderoso? Pois, a bondade de Deus permanece continuamente. A tua língua intenta o mal, como uma navalha amolada, traçando enganos. Tu amas mais o mal do que o bem e a mentira mais do que o falar a retidão. (Selá.) Amas todas as palavras devoradoras, ó língua fraudulenta. Também, Deus te destruirá, para sempre; arrebatar-te-á e arrancar-te-á da tua habitação e desarraigar-te-á da terra dos viventes. (Selá.) E os justos o verão e temerão: e se rirão dele, dizendo: Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes, confiou na abundância das suas riquezas e se fortaleceu na sua maldade” (Sl 52:1-7).

A pergunta do Salmista é para os filhos de Israel, como asseverou o apóstolo Paulo:

“Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19).

O termo hebraico traduzido por ‘gloriar’ é:

“01984 halal uma raiz primitiva, grego 239 αλληλουια; DITAT – 499,500; v 1) brilhar 1a) (Qal) brilhar (fig. do favor de Deus) 1b) (Hifil) luzir 2) louvar, vangloriar, ser vaidoso 2a) (Qal) 2a1) ser vaidoso 2a2) vaidosos, arrogantes (participle) 2b) (Piel) 2b1) louvar 2b2) gabar-se, jactar-se 2c) (Pual) 2c1) ser louvado, ser considerado louvável, ser elogiado, ser digno de louvor 2d) (Hitpael) gabar-se, gloriar, vangloriar 2e) (Poel) fazer de bobo, zombar 2f) (Hitpoel) agir loucamente, comportar-se como louco”. Dicionário Strong.

E o termo hebraico traduzido por ‘malícia’ é:

07451 ra procedente de 7489; DITAT – 2191a,2191c adj. 1) ruim, mau 1a) ruim, desagradável, maligno 1b) ruim, desagradável, maligno (que causa dor, infelicidade, miséria) 1c) mau, desagradável 1d) ruim (referindo-se à qualidade – terra, água, etc) 1e) ruim (referindo-se ao valor) 1f) pior que, o pior (comparação) 1g) triste, infeliz 1h) mau (muito dolorido) 1i) mau, grosseiro (de mau caráter) 1j) ruim, mau, ímpio (eticamente) 1j1) referindo-se de forma geral, de pessoas, de pensamentos 1j2) atos, ações n. m. 2) mal, aflição, miséria, ferida, calamidade 2a) mal, aflição, adversidade 2b) mal, ferida, dano 2c) mal (sentido ético) n. f. 3) mal, miséria, aflição, ferida 3a) mal, miséria, aflição 3b) mal, ferida, dano”.  Dicionário Strong.

O Salmo questiona o homem mau, ou seja, de condição inferior, ruim (geração de Adão), plebe, etc., sobre o motivo de estar se gloriando. É comportar-se como louco aquele que se gaba, que se jactancia ou, que se vangloria, sendo mau, no sentido de vil, de classe inferior (pecador).

“Os ímpios andam por toda parte, quando os mais vis dos filhos dos homens são exaltados” (Sl 12:8).

Somente os filhos de Deus são bons, nobres, bem nascidos, em oposição aos maus. Os filhos de Israel eram maus, porque eram uma mancha, filhos corruptores, geração perversa (Dt 32:5).

E quem faz esta loucura de se gloriar? O homem poderoso, ou seja, o forte, o valente.

01368 gibbowr ou (forma contrata) גבר gibbor forma intensiva procedente de 1396; DITAT – 310b adj 1) forte, valente n m 2) homem forte, homem corajoso, homem valente” Dicionário Strong.

A orientação de Deus era para que os filhos de Israel se gloriassem em entender e em conhecer a Deus, mas os filhos de Israel se gloriavam em uma sabedoria própria, na sua própria força e em suas riquezas.

“Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque, destas coisas, me agrado, diz o SENHOR” (Jr 9:24).

“Assim, diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força e não se glorie o rico nas suas riquezas” (Jr 9:23).

O Salmo 10 descreve os filhos de Israel como ímpios, pois eles renunciaram ao Senhor:

“Porque o ímpio gloria-se do desejo da sua alma; bendiz ao avarento e renuncia ao SENHOR” (Sl 10:3).

Provérbios 23, versos 1 a 6, Salmos 52, versos 1 a 7 e Jeremias 9, versos 23 a 24, abordam as mesmas figuras e elas nos remetem aos filhos de Israel:

“Até quando sucederá isso no coração dos profetas, que profetizam mentiras e que só profetizam do engano do seu coração?” (Jr 23:26).

Quando lemos a passagem paulina: “E fiz-me como judeu, para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei, para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (1 Co 9:20-22), o termo ‘fraco’ contrapõe a condição do ‘judeu’, de modo que, nesse contexto, o fraco são os que estão sem lei (gentios) e os que estavam debaixo da lei (judeus), os que fazem da carne o seu braço: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Ora, dos gentios é dito que eram sem Deus no mundo (Ef 2:12), portanto, não havia como apartarem-se de Deus. Dos judeus é dito que confiam na carne (Fp 3:4), ou seja, fazem da carne o seu braço. ‘Carne’ fala da descendência de Abraão e ‘braço’ é figura que remete à ‘força’, de modo que os que se estribam na carne são os fortes que gloriam na sua força: “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” (Jr 9:23).

O homem poderoso é aquele que não se gloria em Deus, o Senhor cuja bondade é para sempre (Sl 52:1). Em lugar de confiar no Senhor, confia na abundância das suas riquezas e busca prevalecer em seu mal intento.

O homem valente do Salmo 52 é o mesmo homem ímpio do Salmo 10:

“A tua língua intenta o mal, como uma navalha amolada, traçando enganos. Tu amas mais o mal do que o bem e a mentira, mais do que o falar a retidão. (Selá.) Amas todas as palavras devoradoras, ó língua fraudulenta” (Sl 52:2-4);

“A sua boca está cheia de imprecações, de enganos e de astúcia; debaixo da sua língua há malícia e maldade” (Sl 10:7).

Os homens de posição em Israel haviam se desviado, pelos seus próprios caminhos. Sacerdotes, profetas, mestres, levitas, chefes das sinagogas, etc., violavam os mandamentos de Deus: “Os seus profetas são levianos, homens aleivosos; os seus sacerdotes profanaram o santuário e fizeram violência à lei” (Sf 3:4).

São descritos como homens ímpios, que fazem o povo tropeçar, pois, comem o pão da impiedade e bebem o vinho da violência: “Porque comem o pão da impiedade e bebem o vinho da violência” (Pv 4:17).

Amós já havia demonstrado que os filhos de Israel rejeitaram a palavra de Deus e deixaram se enganar com as suas mentiras, as mesmas que os seus pais seguiram.

“Assim, diz o SENHOR: Por três transgressões de Judá e por quatro, não retirarei o castigo, porque rejeitaram a lei do SENHOR e não guardaram os seus estatutos, antes, se deixaram enganar por suas próprias mentiras, após as mesmas mentiras que andaram seus pais” (Am 2:4).

Bastava inclinarem os ouvidos à palavra de Deus, que comeriam o que é bom (Is 55:3), mas, o povo gastava o produto do seu trabalho no que não podia satisfazer: comida enganosa.

Jesus deixa claro que os escribas e fariseus eram homens maus. Eles eram maus, não em função de fazer maldade, visto que eles sabiam dar boas dádivas aos seus semelhantes, antes, eles eram maus, porque a geração deles era má, ou seja, eram filhos da ira e da desobediência de Adão: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34).

Eles eram maus porque eram descendentes de uma geração má e corrupta, conforme foram denunciados pelos profetas: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás” (Is 1:4); “Todos eles são os mais rebeldes, andam murmurando; são duros como bronze e ferro; todos eles são corruptores” (Jr 6:28).

Os escribas e fariseus foram nomeados raça de víboras, por Jesus, em função do veneno que produziam. O Salmo 58 faz uma descrição dos filhos corruptores: “Antes, no coração forjais iniquidades; sobre a terra pesais a violência das vossas mãos. Alienam-se os ímpios, desde a madre; andam errados, desde que nasceram, falando mentiras. O seu veneno é semelhante ao veneno da serpente; são como a víbora surda, que tapa os ouvidos” (Sl 58:2-4).

O que contamina o homem? O que sai da boca, pois o que sai da boca, procede do coração. Como o coração do homem é enganoso, certamente, que tudo o que disser, será segundo o seu coração: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9).

A Bíblia deixa claro que a boca apresenta o que há no coração, pois, a boca fala do que o coração está cheio, e o homem sente-se satisfeito com o que procedo dos seus próprios lábios: “Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20).

 

Põe uma faca à tua garganta

“E se és homem de grande apetite, põe uma faca à tua garganta” (Pv 23:2).

Como contextualizar o seguinte ensinamento de Cristo:

“E DISSE aos discípulos: É impossível que não venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma pedra de  moinho e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequenos” (Lc 17:1-2).

Jesus deixa claro que o suicídio é melhor do que o destino reservado para alguém que faz um discípulo de Cristo tropeçar. Ele deixa claro que não é impossível que não haja escândalo, mas ai daquele por quem vier.

Jesus estava falando de questões comportamentais? Não!

O escândalo deriva da mensagem, da doutrina, como se lê:

“E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria e na sua casa” (Mt 13:57).

Jesus fez algo contra os bons costumes, a moral ou contra a lei? Não! Eles se escandalizaram quando ouviam a doutrina de Cristo. Rotulavam o seu discurso como duro.

“Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Sabendo, pois, Jesus em si mesmo que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto vos escandaliza?” (Jo 6:60-61).

O alerta de Cristo, com relação àqueles que escandalizarem um pequenino, é com relação aos que servem à mesa (ministram), pois a doutrina deles faz muitos dos discípulos de Cristo tropeçar.

O provérbio dá a mesma recomendação àqueles que se assentam à mesa do governador e possuem um apetite desordenado: põe uma faca à garganta. Além de observar bem o que é posto à mesa, se a pessoa possui um apetite desordenado, que ponha uma faca à sua garganta.

É melhor o suicídio, que ser participante dos manjares enganosos do governador, do pão daqueles que tem os olhos malignos (Pv 23:6).

“Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mt 6:23).

Ambos estão perdidos: quem põe a mesa e quem se serve dela. É por isso que Jesus recomenda aos seus discípulos:

“Como não compreendestes que não vos falei a respeito do pão, mas que vos guardásseis do fermento dos fariseus e saduceus? Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” (Mt 16:11-12).

Os ímpios são aqueles que comem o pão da impiedade e bebem o vinho da violência: “Porque comem o pão da impiedade e bebem o vinho da violência” (Pv 4:17).

E quem são os ímpios, a quem os Provérbios fazem referência? O Salmo 58 responde:

“ACASO falais vós, deveras, ó congregação, a justiça? Julgais retamente, ó filhos dos homens? Antes, no coração forjais iniquidades; sobre a terra pesais a violência das vossas mãos. Alienam-se os ímpios, desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras. O seu veneno é semelhante ao veneno da serpente; são como a víbora surda, que tapa os ouvidos” (Sl 58:1-4).

A congregação de Israel não falava a justiça, em verdade, antes, no coração forjava a iniquidade. Desde a madre se desviam e andam errados e proferem mentiras mortais, como o veneno de serpentes (Pv 24:1-2).

Para deixar de falar mentira, é necessário circuncidar o prepúcio do coração enganoso, como Deus recomendava ao povo:

“Circuncidai-vos ao SENHOR e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” (Jr 4:4).

O coração que o povo de Israel tinha, também, foi herdado de Adão, assim como todos os povos: um coração maligno. Desde o ventre, alienaram de Deus e desde que nascem andam errantes e falando mentiras, de modo que era necessário circuncidar o coração. Mas, os filhos de Israel buscavam somente a circuncisão do prepúcio da carne.

Não há solução para o coração herdado de Adão, pois, ninguém pode purificar a si mesmo, de modo que Deus instrui os homens a circuncidarem os corações. O que é a circuncisão do coração? Significa morte. Diferente da circuncisão do prepúcio, a circuncisão do coração é o lançar fora toda a carne, não é feita por intermédio de mãos humanas e só é possível em Cristo (Cl 2:11).

Os escribas e fariseus eram maus, por serem descendentes de Adão, e como todos os homens herdaram um coração maligno.

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34).

Os filhos de Jacó não falavam a verdade, pois esta era a determinação divina:

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” (Zc 8:16).

O que cada membro da nação de Israel falava com o seu companheiro era mandamentos de homens, e não a sabedoria de Deus (temor) que é segundo as Escrituras: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Os Salmos descrevem o que procedia do coração dos filhos de Israel:

“Cada um fala com falsidade ao seu próximo; falam com lábios lisonjeiros e coração dobrado” (Sl 12:2);

“E, se algum deles vem ver-me, fala coisas vãs; no seu coração amontoa a maldade; saindo para fora, é disso que fala” (Sl 41:6).

O ímpio desvia-se de Deus, desde que nasce e anda por um caminho que o conduz a perdição. Mas os filhos de Israel se achavam diferentes dos filhos dos outros povos, pois, achavam que eram descendência de Abraão e que, por isso, estavam salvos. Mas, tudo o que a lei diz, diz aos filhos de Israel: “Deixe o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Is 55:7).

Que pensamento o homem maligno deve deixar? Que judeus e gregos estão em condição diferente diante de Deus (Rm 3:9). É nesta mudança de pensamento que está o arrependimento (metanoia). Não basta ao judeu pensar que tem por pai a Abraão: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3:9).

Os lábios são qualificados como ardentes por causa do coração maligno, pois, do que o coração está cheio, disso fala a boca:

“Como o caco de vaso coberto de escórias de prata, assim são os lábios ardentes, com o coração maligno” (Pv 26:23 ).

 

Abra mão de uma sabedoria própria

Muitos se sentem motivados a enriquecer, para ter as mesmas iguarias do ilustre à sua mesa: “Não te fatigues para enriqueceres e não apliques nisso a tua sabedoria. Porventura, fixarás os teus olhos naquilo que não é nada? Porque, certamente, criarás asas e voarás ao céu como a águia” (Pv 23:4-5).

Por causa do que comeu à mesa da pessoa em eminência, muitos cobiçam os seus manjares (Pv 23:1-3). Enganados pelo que comeram à mesa do governador, se põem a trabalhar para galgar posição semelhante (Pv 23:4), agarram-se a uma sabedoria própria (Pv 23:4), e põem por objetivo algo vão, que, no final dos seus dias, o deixará (Pv 23:5).

Essa mesma questão é abordada pelo profeta Jeremias, através de figuras semelhantes:

“Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” (Jr 9:23);

“Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará e no seu fim será um insensato” (Jr 17:11).

O Salmista, também, descreve aqueles que se inquietam para amontoar riquezas para si:

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas e não sabem quem as levará” (Sl 39:6).

Quando o Salmo diz: ‘todo homem’, isso inclui os judeus. Em vão trabalham e amontoam riquezas, mas, no fim dos seus dias, quando for requisitado, será declarado louco como o Rico da parábola:

“Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma e o que tens preparado, para quem será?” (Lc 12:20).

É por isso que Jesus instruiu os seus seguidores que estavam à busca de pão:

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” (Jo 6:27).

Basta ao homem dar ouvidos à Palavra de Deus para comer o que é bom e obter vida, porém, não se sujeitam a Deus, antes servem a si mesmos, pois o deus deles é o seu próprio ventre.

“Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me, atentamente, e comei o que é bom e a vossa alma se deleite com a gordura” (Is 55:2);

“Dos homens, com a tua mão, SENHOR, dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida e cujo ventre enches do teu tesouro oculto. Estão fartos de filhos e dão os seus sobejos às suas crianças” (Sl 17:14).

O alerta de Provérbios é para o homem não buscar a Deus para as questões desta vida e abrir mão do seu conhecimento (Pv 23:4). Essa é a essência do arrependimento bíblico: lance fora o seu conhecimento, pois o conhecimento que salva é o anunciado por Cristo (Is 53:11).

O apóstolo Paulo, para ganhar a Cristo, em quem está escondido todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2:3), considerou tudo o que possuía como esterco.

“E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fp 3:8).

A qualquer que ainda se agarra ao seu conhecimento, segundo os preceitos e rudimentos do mundo (Pv 26:5 e 12), ainda não sabe como convém, pois o verdadeiro conhecimento é manifesto somente em Cristo Jesus, nosso Senhor.

“E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” (1 Co 8:2).

Resta ao homem escolher o que deseja, pois a Sabedoria já edificou a sua casa, apoiada sobre sete colunas e convida a todos: desde os nobres aos simples:

“A SABEDORIA já edificou a sua casa, já lavrou as suas sete colunas. Já abateu os seus animais e misturou o seu vinho e já preparou a sua mesa. Já ordenou às suas criadas e está convidando, desde as alturas da cidade, dizendo: Quem é simples, volte-se para cá. Aos faltos de senso, diz: Vinde, comei do meu pão e bebei do vinho que tenho misturado. Deixai os insensatos e vivei; e andai pelo caminho do entendimento” (Pv 9:1-6);

“Deixe o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamento, e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Is 55:7).

Porém, a mulher tola e alvoroçadora (uma figura de Israel), também põe a sua mesa aos faltos de entendimento e serve águas roubadas e pão vil, e quem se assenta à sua mesa desconhece que ali é o lugar dos que não tem vida.

“Mas não sabem que ali estão os mortos; os seus convidados estão nas profundezas do inferno” (Pv 9:13-18).

 

A aparência dos homens

“Dar importância à aparência das pessoas não é bom, porque, até por um bocado de pão, um homem prevaricará” (Pv 28:21).

É comum, em nossos dias, nas comunidades cristãs, as pessoas se encantarem com a posição dos preletores, ministros, líderes, pastores, etc. Muitos se ocupam em perguntar: – “Ele fez teologia?”; – “Nossa, ele fez teologia naquela instituição”; – “Ele é doutor, P.h.D., com especialização em divindades”, etc.

As pessoas observam os anéis (diplomas), as vestimentas, os sapatos, os carros, etc., mas não julgam os espíritos, comparando com as Escrituras, para identificarem se é proveniente de Deus ou não.

À época de Cristo e, hoje, não é diferente, as pessoas levavam em conta a aparência. Iam ao batismo de João Batista, porque ele era filho de um escolhido para ser sumo sacerdote, Zacarias, e se vestia de peles de animais e comia gafanhotos. A aparência era a de um profeta despojado, no entanto, os escribas e fariseus não iam ao batismo de João para mudarem as suas concepções (metanoia), acerca de como alcançar o reino dos céus: “E João andava vestido de pelos de camelo, com um cinto de couro em redor de seus lombos e comia gafanhotos e mel silvestre” (Mc 1:6).

Os homens olharam para a aparência de Jesus e não creram que Ele era o Filho de Deus. A aparência engloba a família, a profissão, as posses, a cidade onde nasceu e cresceu, etc.

“E diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu?” (Jo 6:42);

“Todavia, bem sabemos de onde este é; mas, quando vier o Cristo, ninguém saberá de onde ele é (…) Outros diziam: Este é o Cristo; mas diziam outros: Vem, pois, o Cristo da Galileia?” (Jo 7:27 e 41).

Jesus os alertou acerca de aceitarem e julgarem as pessoas pela aparência:

“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24).

Muitos não professavam a Cristo, com medo de serem expulsos das sinagogas, ou seja, por medo de ‘deixar pai e mãe’. “Apesar de tudo, até muitos dos principais creram nele; mas não o confessavam, por causa dos fariseus, para não serem expulsos da sinagoga” (Jo 12:42).

Muitos se dizem cristãos, mas são companheiros de cães, ladrões, lobos, mercenários, etc., porque se deixam subornar pelo cargo que possuem na instituição que frequentam. Querem estar ao lado de pessoas eminentes, em destaque, pois sobrevivem das migalhas que grandes sobejam.

Muitos esquecem que, se o justo cede a um ímpio, tornou-se como fonte turvada. Não passa de um manancial poluído, ou seja, não jorra água limpa.

“Como fonte turvada e manancial poluído, assim é o justo que cede diante do ímpio” (Pv 25:26).

Os homens em destaque, em nossos dias, se assenhoram das tribunas, leem alguma passagem bíblica no início do discurso e depois passam às considerações, segundo os seus corações enganosos. Contam anedotas, fábulas, testemunhos, etc., mas não anunciam a mensagem da cruz.

As suas pregações deixam a desejar no quesito poder de Deus (evangelho), mas estão repletas de questões sociais, considerações filosóficas, citações teológicas, alegorias, etc.

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1 Co 1:18).

Já não falam da morte de Cristo. As mensagens não abordam a ressurreição. Não apresentam Cristo como o Filho de Deus que tira o pecado do mundo. Tem vergonha de falar dos céus. As pregações de muitos só abordam questões terrenas!

Você está atento para o que estes pregadores de congresso põem à mesa? Ou está atento para a posição de deputado do pregador? Será que o que prende a atenção não é um anel de doutorado em teologia?

O apóstolo Paulo, ao regressar a Jerusalém, depois de anunciar Cristo aos gentios, por três anos, permaneceu, por quinze dias, com o apostolo Pedro (Gl 1:18). Depois de quatorze anos, regressou a Jerusalém, acompanhado de Barnabé e Tito (Gl 2:1). Ao rever aqueles que no judaísmo pareciam ser alguma coisa (Gl 2:6), o apóstolo Paulo verificou que aqueles homens nada tinham que devesse ser considerado quando expusessem o evangelho (Gl 2:7-8).

Se o apóstolo Paulo fosse um incauto, não observaria que aqueles que, antes, pareciam ser alguma coisa no judaísmo, agora em Cristo, nada lhe comunicaram, e poderia ficar impressionado com a posição que antes eles possuíam: – “Nossa! Aquele era o chefe da sinagoga em Jerusalém”!; – “Puxa! Aquele foi escolhido para ser sumo sacerdote”!

Em nossos dias, são muitas as impressões. Se um judeu se ‘converte’ ao cristianismo, logo é entronizado nas comunidades cristãs, em posição de destaque. Esquecem que, quanto ao judaísmo, tal pessoa parecia ser alguma coisa, mas diante de Deus a aparência não é aceita, antes, é necessário verificar o que tal pessoa comunica.

Muitos judeus, à época de Cristo, confessavam que criam n’Ele, porém, quando eram postos a prova, verificava-se que a crença deles não era conforme as Escrituras (Jo 8:31). Muitos judeus, recém-convertidos, são postos nas tribunas e, sem serem ensinados e aprovados como obreiros do evangelho, passam a ensinar nas igrejas.

Quando Jesus anunciou a sua doutrina na festa dos tabernáculos, muitos creram n’Ele, porém, creram à sua maneira, segundo seus paradigmas, pois, ainda, continuavam a aguardar o Cristo, apesar dos sinais: “E muitos da multidão creram nele e diziam: Quando o Cristo vier, fará ainda mais sinais do que os que este tem feito?” (Jo 7:31).

Muitos artistas dizem ter crido em Cristo e, de imediato, os líderes das comunidades cristãs os ‘entronizam’ em posição de destaque e os mantém como troféu. Ora, onde está o cuidado em observar o exposto pelo apóstolo Paulo:

“ESTA é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar (…) Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém, também, que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta e no laço do diabo” (1 Tm 3:1-7).

Por causa da posição social que um artista possuía, antes de ser cristão, mesmo sem estar apto a ensinar (pois é um neófito [iniciante] na fé), pastores, bispos, padres, etc., celebram a ‘conversão’ do artista, prestigiando-o com palestras, testemunhos, cânticos, etc.

Desses artistas que se converteram e são postos em posição de destaque sem serem ensinados, ocorrerão duas coisas: a) tal pessoa ensoberbece e cai na condenação do diabo, ou; b) cairá pela afronta dos que não são cristãos.

É por isso que o crente não pode atentar para a posição daqueles que estão em destaque, mas, sim, para o que tais pessoas anunciam. Jesus não atentava para a aparência dos principais dos sacerdotes e escribas, antes, considerava o que punham em palavras diante d’Ele.

Sabedores de que Jesus não ligava para a posição que ocupavam, os sacerdotes e escribas mandaram espias que fingissem ser pessoas justas para tentarem a Cristo:

“E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente e que não consideras a aparência da pessoa, mas, ensinas com verdade o caminho de Deus” (Lc 20:21).

Jesus ensinou que a única forma para se identificar um falso profeta é pelo fruto, ou seja, o fruto dos lábios, aquilo que a pessoa professa, acerca de Cristo. Pela aparência é impossível identificar um falso profeta, pois se transvestem de ovelhas.

Ora, João Batista não veio com aparência exterior, de modo que não aceitaram o testemunho que João Batista deu acerca de Cristo (Lc 7:33). Cristo veio sem parecer ou formosura e o rejeitaram (Lc 7:34). Por quê? Porque o homem atenta para a aparência!

Os filhos de Jacó admitiam que Jesus era profeta, por causa dos milagres, mas, por se guiarem pela aparência, não creram que Ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo.

Ao ouvir a doutrina de Cristo, o povo se admirava da sua doutrina, porque, em tudo, era diferente da exposição dos escribas, porém, não atentavam para a doutrina, mas, sim, para a aparência: “E aconteceu que, concluindo Jesus este discurso, a multidão se admirou da sua doutrina; Porquanto, os ensinava como tendo autoridade e não como os escribas” (Mt 7:28-29).

Os filhos de Israel estavam acostumados com palavras aprazíveis, mas, quando Jesus protestou contra eles, apontando os profetas Elias e Eliseu, em como ambos socorreram estrangeiros: a viúva de Sarepta de Sidom e o Sírio Namã, quiseram matá-Lo: “E todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira. E, levantando-se, o expulsaram da cidade e o levaram até ao cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem” (Lc 4:28-29).

Jesus não angariou prestígio do povo para expor a palavra de Deus. Quando diziam crer, Jesus não confiava neles: “Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia; E não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2:24-25).

Mas, por que Jesus não confiava neles? Porque estava escrito acerca dos homens:

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas e não sabem quem as levará” (Sl 39:6).

A doutrina de Cristo fazia com que os homens deixassem de segui-lo (Jo 6:60 e 66), pois é próprio do homem buscarem doutores, segundo as suas próprias concepções, pois o tolo só tem prazer em que se anuncie o que agrada o seu coração enganoso.

“O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração” (Pv 18:2).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

[1] “04910 משל mashal uma raiz primitiva; DITAT – 1259; v 1) governar, ter domínio, reinar 1a) (Qal) governar, ter domínio 1b) (Hifil) 1b1) levar a governar 1b2) exercer domínio”. Dicionário Bíblico Strong.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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