Três passos do verdadeiro arrependimento

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A mudança de concepção anunciada só ocorre quando o homem tem contato com a verdade do evangelho. Quando o homem ouve a mensagem do evangelho e abandona sua antiga concepção acerca de como servir a Deus, ocorre o arrependimento. O arrependimento verdadeiro se dá quando o homem deixa de lado as suas crenças ao receber a luz do evangelho e crê que Jesus é o Filho de Deus, que veio em carne, morreu, ressurgiu e está assentado à destra de Deus nas alturas.


Analisando a definição de arrependimento de João Calvino

 

Introdução

João Calvino dá ao arrependimento os seguintes termos:

“… a penitência poderia ser, assim, definida: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, a qual procede de um sincero e sério temor de Deus, que consiste na mortificação da nossa carne e do homem velho e na vivificação do Espírito”. [1] Calvino, João, 1509-1564, A Instituição da Religião Cristã – tomo 2, volume 2, tradutora Elaine C. Sartorelli, São Paulo – Editora UNESP, 2009, pág. 72.

Faz-se necessário analisar a definição de João Calvino, assim, como, de qualquer outro que se apresente como mestre, devido ao alerta do apóstolo João, que recomendou julgar as palavras dos homens, se é de Deus, ou não, visto a quantidade de falsos profetas que se levantam no mundo: “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4:1).

Analisaremos a definição de arrependimento, dada por Calvino, através de outra exposição dele, que consta no texto ‘Três Passos do Verdadeiro Arrependimento’, que pode ser visto no link: <http://www.ligacalvinista.com/2011/11/tres-passos-do-verdadeiro.html>, visto que, em nossos dias, há muitos que se dizem calvinistas, mas o que divulgam, às vezes, não reflete a ideia registrada por Calvino.

Penitência, arrependimento ou mudança de concepção?

Começaremos a análise da definição de arrependimento construída por João Calvino, primeiro analisando o termo grego traduzido por arrependimento.

Se analisarmos o termo grego ‘metanoia’, que comumente é traduzido por arrependimento, teremos o seguinte significado: mudança de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma ideia, mudar de concepção, mudança de mentalidade, mudança de visão, mudança de opinião, mudança de propósito, etc.

Mas, quando o termo ‘metanoia’ foi traduzido para a vulgata latina, em lugar de mudança de pensamento, traduziram-na em latim por ‘paenitentia’. Onde deveria constar: ‘Mudem de concepção’, passou-se a ler: “Façam penitência” – ‘Pœnitentiam agite: appropinquavit enim regnum cælorum’.

Ora, verifica-se que o termo ‘paenitentia’ foi utilizado para refletir a concepção católica de que a salvação era obtida através de atos de caridade, doações, indulgências, etc.

Com o advento da reforma protestante, houve um interesse de se voltar à ideia bíblica, e alguns tradutores ingleses passaram a utilizar os verbos correspondentes ‘repent’ e o substantivo ‘repentance’, em lugar do ‘paenitentia’.

A tradução portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida, sob influência, passou a traduzir o termo ‘metanoia’ por ‘arrependimento’, porém, a concepção bíblica de arrependimento continua sendo conduzida ao bel sabor da religiosidade e deixa de refletir o ideário das Escrituras.

O que significa arrepender-se? Arrepender-se é lamento por erros cometidos? É tristeza profunda por causa do pecado? Um sentimento de remorso? Adotar uma religião? Deixar certas condutas? Adotar novas práticas?

Na exposição de Calvino, que data do século XV, a palavra que ele utilizou para tratar do tema arrependimento, era ‘penitência’, termo utilizado na vulgata latina para traduzir o termo grego ‘metanóia’, que, estritamente, significava mudar de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma postura, mudar de ideia, o que implica em mudança de mentalidade, de visão, de opinião, de propósito.

Vê-se na exposição de João Calvino que ele conhecia o real significado do vocábulo grego ‘metanoia’, pois deixou registrado:

“O termo arrependimento foi, para os hebreus, derivado da palavra que significa expressamente conversão ou retorno; para os gregos, ele veio do vocábulo que quer dizer mudança da mente e de desígnio. À etimologia de um e outro desses dois termos não se enquadra mal o próprio fato, cuja síntese é que, emigrando de nós mesmos, nos voltemos para Deus; e, deposta a mente antiga, nos revistamos de uma nova.”  Idem, pág 74.

Agora, devemos analisar se ele compreendeu, de fato, o arrependimento bíblico ou, se reproduziu aspectos da ‘penitencia’, como se ‘penitencia’ fosse ‘arrependimento’.

“Por isso, usaram esses termos, indiscriminadamente, com o mesmo sentido: converter-se ou volver-se para o Senhor, arrepender-se e fazer penitência” Idem, pág. 74.

Jesus é o motivo da mudança de pensamento

Quando lemos: “Arrependi-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3:2), o que João Batista proclamava era uma mudança de concepção. A mudança de concepção ocorreu em função da chegada do Cristo, não em função dos erros e das condutas dos ouvintes de João Batista.

Abandonar erros, atitudes, comportamentos, pensamentos, sentimentos, emoções, etc., não é o arrependimento proposto por João Batista. João Batista propõe mudança radical de concepção, à vista do reino dos céus, em meio aos homens, não em função da percepção de erros.

João Batista foi o precursor anunciado pelo profeta Isaias: “Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas” (Mt 3:3), e a mensagem de João tinha o fito de preparar o coração do povo para a chegada do Messias.

Ora, a mudança de mentalidade não demandava remorso ou tristeza, por causa das ações de ordem moral e comportamental dos filhos de Israel. A mudança anunciada por João Batista, era em função da presença de Cristo, em meio aos homens.

A mudança de concepção anunciada só ocorre quando o homem tem contato com a verdade do evangelho. Quando o homem ouve a mensagem do evangelho e abandona sua antiga concepção acerca de como servir a Deus, ocorre o arrependimento. O arrependimento verdadeiro se dá quando o homem deixa de lado as suas crenças ao receber a luz do evangelho e crê que Jesus é o Filho de Deus, que veio em carne, morreu, ressurgiu e está assentado à destra de Deus nas alturas.

Se o homem mudar a sua concepção e abraçar qualquer outro evangelho que não for conforme o anunciado por Cristo e os apóstolos, não ocorreu o arrependimento de fato, pois o arrependimento para a salvação, é crer, especificamente, na doutrina de Cristo.

Ao ver que os escribas e fariseus vinham ao batismo e permaneciam de posse de suas convicções, acerca de como serem salvos (os escribas e fariseus após o batismo continuavam dizendo que tinham por pai Abraão), João Batista alertou, dizendo: “Não presumais de vós mesmos, dizendo: temos por pai a Abraão” (Mt 3:9).

O arrependimento não estava no batismo, mas na mudança de entendimento, diante da mensagem anunciada. A partir do momento em que os escribas e fariseus se dispuseram ao batismo, deviam deixar de considerar que eram salvos por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão, vez que a salvação de Deus foi manifesta em Cristo.

Observe o que o profeta Ezequiel, ao tratar do tema, diz:

“Pois que reconsidera, e se converte de todas as suas transgressões que cometeu; certamente viverá, não morrerá. Contudo, diz a casa de Israel: O caminho do Senhor não é direito. Porventura não são direitos os meus caminhos, ó casa de Israel? E não são tortuosos os vossos caminhos? Portanto, eu vos julgarei, cada um conforme os seus caminhos, ó casa de Israel, diz o Senhor DEUS. Tornai-vos e convertei-vos de todas as vossas transgressões, e a iniquidade não vos servirá de tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18:28-32).

O arrependimento tem inicio quando o homem ouve a mensagem de Deus e reconsidera o seu caminho. Após considerar a mensagem divina e mudar de concepção, dá-se o arrependimento (metanóia). O que é necessário ao desenvolvimento da vida cristã, após a mudança de concepção, não pode ser mais chamado de arrependimento, pois a mudança de mente (pensamento/concepção) encerra em si o arrependimento.

O povo de Israel não obedecia à palavra de Deus, antes, seguia preceitos de homens: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9). Por desobedecer a palavra de Deus, o povo de Israel estava dando a entender que os caminhos de Deus não são direitos e que os preceitos de homem que ele seguia, era o caminho direito.

O rei Saul encaixa-se nesse perfil, pois, quando lhe foi dito por Deus: “Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. Vai, pois, agora, e fere a Amaleque; destrói, totalmente, a tudo o que tiver e não lhe perdoes; porém, matarás desde o homem, até à mulher, desde os meninos, até aos de peito, desde os bois até às ovelhas e desde os camelos, até aos jumentos”. (1 Sm 15:2-3). Esse era o caminho direito.

Mas, quando Saul resolveu poupar a vida de Agague e o melhor do interdito, implicitamente, estava dizendo que o caminho do Senhor não era direito, mas que a sua própria decisão, era o caminho direito: “Antes, dei ouvidos à voz do SENHOR e caminhei no caminho pelo qual o SENHOR me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente; Mas, o povo tomou do despojo, ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao SENHOR, seu Deus, em Gilgal” (1 Sm 15:20-21).

Saul reconsiderou a sua atitude rebelde, displicente, idólatra e feiticeira? Não! Quem reconsiderou a atitude de Saul foi o profeta Samuel, que mandou trazer Agage e o despedaçou (2 Sm 15:33). Se Saul reconsiderasse a sua omissão, de pronto se arremeteria contra Agague, mas não o fez, pois visava somente o prestigio do povo (1 Sm 15:25).

Diferente de Saul, o rei Davi, quando viu que Uzias foi fulminado, de pronto reconsiderou a sua postura à luz das Escrituras. Qual foi o seu erro: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” (2 Sm 6:9). Deus estava mais preocupado que se obedecesse à sua palavra, que, com a arca, em si.  Deus não estava em busca de sacrifícios, mas de servos que obedecessem aos seus mandamentos.

O equívoco, com relação ao arrependimento, é entendê-lo como produto de afeto, medo ou cuidado para com Deus, apegando-se à ideia de que Deus necessita ser agradado, segundo a perspectiva e sentimentos humanos: “Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento” (Rm 10:2).

Pensamentos como: – ‘Há, se eu cuidar da arca de Deus, Ele se agradará de mim’!‘Há, se eu construir um templo para Deus, Ele se agradará de mim’! Grande engano, pois, Deus se agrada, única e exclusivamente, daquele que obedece à sua palavra.

Quando Moisés disse: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças e estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração” (Dt 6:4-6), o que está em voga não é um sentimento de afeto, devoção, medo ou cuidado, antes, que se ouça e se obedeça à palavra de Deus (Dt 6:5; 10:12; 30:2, 6 e 10).

Quem ama é o que obedece, ou seja, aquele que cumpre o mandamento, este é o que ama (Jo 14:21-24).

O que Deus pede ao homem é repetido, por diversas vezes, com as seguintes expressões: temor, andar, servir, guardar, obedecer, circuncidar, etc.: “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas ao SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, o ames e sirvas ao SENHOR teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt 30:16-17).

Quando o homem se converte ao Senhor, obedecendo ao seu mandamento, temos como consequência a “circuncisão do coração” (Dt 30:6). Quando o homem ouve a palavra de Deus e dá ouvido à sua voz, temos a obediência, que é o mesmo que conversão ou arrependimento, pois, antes de obedecer, teve de abandonar os seus conceitos (Dt 30:2 e 8).

O arrependimento é ordem mandamental: “Arrependei-vos!”. A mudança de concepção fica a cargo do homem, pois deve ouvir a verdade, considerar o seu caminho e mudar de concepção, crendo em Cristo.

Como consequência do amor, da obediência que o homem tem para com Deus, Deus circuncidará o coração do homem, para que viva (Dt 30:6). Se o objetivo da circuncisão é vida, isso significa que os filhos de Israel, assim como o restante da humanidade, estavam mortos em delitos e pecados, sendo necessário que Deus circuncidasse o coração deles, assim como um pai, quando circuncida o prepúcio de um filho, para que fosse participante da natureza divina, designados filhos e em comunhão com Deus.

Daí o clamor aos filhos de Jacó: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (Is 55:3). Deus sempre instou contra o povo de Israel de que estavam mortos e de que necessitavam da palavra de Deus para terem vida: “E te humilhou e te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

Para que o homem tenha vida, é necessário obedecer ao seu mandamento, pois Deus retirará (circuncisão) o coração de pedra herdado de Adão (velha natureza) e dará um novo coração de carne e um novo espírito (novo nascimento).

Quando o profeta Ezequiel ordena aos seus ouvintes para que façam para si um novo coração (Ez 18:31), significa que deveriam obedecer a palavra de Deus, pois é só Deus quem tem poder para dar um novo coração e um novo espírito: “E dar-vos-ei um coração novo, porei dentro de vós um espírito novo e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36:26-27).

O profeta Jeremias também faz alusão ao arrependimento, quando diz: “SE voltares, ó Israel, diz o SENHOR, volta para mim” (Jr 4:1). Como voltar-se para o Senhor? Obedecendo-O! Quando o homem obedece à palavra do Senhor, está declarando que Deus é verdadeiro, como se lê: “E jurarás: Vive o SENHOR na verdade, no juízo e na justiça; nele se bendirão as nações e nele se gloriarão” (Jr 4:2).

Davi obedece à palavra de Deus quando diz: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10). Como? Não é este o mandamento de Deus: “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Jl 2:32).

Quando Davi clama a Deus por um novo coração e por um novo espírito, está reconhecendo a sua condição herdada de Adão: pecador (Sl 51:5), e que somente quando Deus cria (bara) um novo coração e dá um novo espírito é que passa a existir verdade no seu intimo.

No Novo Testamento, o mandamento de Deus é crer em Cristo, o filho de Deus. Se alguém possuía qualquer concepção de como ser salvo, a exemplo dos judeus, que pensavam que, para serem salvos, era necessário serem descendentes da carne de Abraão, deveria mudar o seu conceito (arrepender-se) e obedecer ao mandamento de Deus.

A mensagem de João Batista era: “Mudem a concepção de vocês, porque é chegado o reino dos céus!”; “Quem ensinou vocês a se livrarem da ira futura, pois não basta dizer temos por pai a Abraão”. A palavra que define a mudança de concepção: – “Creio em Cristo para ser salvo”, em substituição à ideia; : – “Tenho por pai a Abraão”, é o termo grego ‘metanoia’.

Cristo é a fé que se manifestou na plenitude dos tempos, para obediência de todos os povos: “PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual, antes prometeu, pelos seus profetas, nas santas escrituras, Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor, Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Rm 1:1-6; Gl 3:23).

Através da obediência da fé (evangelho), Deus opera naqueles que creem na circuncisão de Cristo, ou seja, o despojar de toda a carne, conforme o prometido nos profetas: “No qual também estais circuncidados com a circuncisão, não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes, pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2:11-12).

Quando o homem crê, é crucificado com Cristo, morre e é sepultado. Entretanto, ressurge com Cristo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, pelo poder de Deus. Dessa forma, o crente passa a viver em verdadeira justiça e santidade, pois a impiedade que havia em seu coração, a que foi herdada de Adão, foi desarraigada (Sl 58:3).

 

O Fruto do arrependimento

O arrependido deixa de confessar o que professava, quando no pecado, como faziam os escribas e fariseus que, após serem batizados no batismo de João, continuavam dizendo que eram descendência de Abraão, ou que nunca foram escravos de ninguém (Mt 3:9; Jo 8:33).

O arrependido produz um novo fruto, o fruto dos lábios que confessam a Cristo (Hb 13:15). Um judeu arrependido produz uma nova confissão, um fruto diferente do fruto antigo que invocava Abraão por pai. O fruto digno de arrependimento é admitir que Cristo Jesus é o Verbo de Deus, que veio em carne como luz do mundo, viveu sem pecado, morreu por causa do pecado da humanidade e ressurgiu pelo poder de Deus, conforme as Escrituras.

O fruto digno de arrependimento é fruto dos lábios e não de ações. As ações e a aparência não são o ‘fruto’, que se identifica se a arvore é boa ou má, antes, o fruto é o dos lábios. Diz de um único fruto, pois há uma só fé, um só evangelho.

O fruto que a boca do arrependido produz demonstra que o seu coração não é dobre, maligno, mentiroso. Se o homem é gerado de novo em Cristo Jesus, nascido da semente incorruptível, que é o evangelho, o que sai da boca do arrependido será uma confissão segundo a mensagem do evangelho, pois a boca fala do que o coração está cheio.

Por exemplo: se alguém disser que é filho de Deus porque creu em Cristo, conforme a Escritura, confessa a verdade, não é maligno, mentiroso e dobre. Mas, se um judeu confessar que, por ser descendente de Abraão, é filho de Deus, é mentiroso, maligno e dobre (1 Jo 4:2).

É em função da falta do fruto dos lábios entre os judeus que o escritos aos Hebreus dizem que, sem fé, é impossível agradar a Deus, ou seja, sem a fé que se manifestou, que é Cristo, é impossível se aproximar ou agradar a Deus (Hb 11:6; Gl 3:23).

O fruto digno de mudança de concepção (fruto dos lábios), que o vinhateiro aguardou, por três anos, para que a figueira produzisse, mas não produziu, era crerem em Cristo e confessarem com a boca, que Ele é o Senhor: “E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, mas não o acho. Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente?” (Lc 13:7).

Nesses termos, Calvino tem razão, ao dizer que o arrependimento não precede a fé, antes, o arrependimento decorre da fé, porém, há um equivoco na ideia de que o homem precisa ‘aplicar-se retamente ao arrependimento’[2].

Quando entendemos ‘fé’, como a mensagem do evangelho, pela qual devemos batalhar (Jd 3), mas não como ‘acreditar’, verifica-se que a fé foi manifesta em Cristo e, ao crer em Cristo, o homem arrependeu-se, plenamente.

Um judeu que mudou a sua concepção, ou seja, que deixou de acreditar que era salvo por ser descendente da carne de Abraão, se arrependeu plenamente. Calvino faz  confusão entre arrependimento e penitência, pois a penitencia é doutrina católica e demanda do penitente uma vida de exercício de penitências. Percebe-se que a ideia de aplicar-se ao arrependimento decorre da ideia da penitencia, não da mudança de pensamento, que é próprio à ‘metanoia’.

Para Calvino, o arrependimento está mais para mudança comportamental e de caráter (se afaste dos erros da vida e tome a via reta), do que para a mudança de concepção frente à mensagem do evangelho. Para Ele, o arrependimento dá ‘frutos’ e não ‘fruto’, pois este diz da confissão de que Jesus é o Cristo, mas aquele, de ações comportamentais.

Observe:

“Quando até mesmo a História Sagrada diz que arrepender-se é ir após Deus, a saber, quando os homens, que não tinham a Deus em mínima conta, se esbaldavam em seus deleites, agora começam a obedecer-lhe à Palavra e se põem à disposição de seu Chefe para avançar, aonde quer que ele os haja de chamar. E João Batista e Paulo usaram da expressão produzir frutos dignos de arrependimento [Lc 3.8; At 26.20; Rm 6.4] em lugar de levar uma vida que demonstre e comprove, em todas as ações, arrependimento desta natureza”. Idem, pág. 74.

Enquanto Calvino entendeu que produzir ‘frutos’ dignos de arrependimento é levar uma vida que demonstre e comprove o arrependimento, o fruto do arrependimento proposto por João Batista e Cristo tinha em foco a confissão dos escribas e fariseus,  não as suas ações cotidianas.

Aos olhos dos homens, os escribas e fariseus pareciam justos, portanto, quem olhasse para eles tinha a impressão de que se arrependeram. Porém, quem olha para o fruto, o fruto dos lábios, não se deixa enganar pela aparência ou, pelo comportamento.

O fruto digno de arrependimento não provém dos homens, mas de Deus, que os criou:

“Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Is 57:19).

A salvação em Cristo não é mudança de hábitos cotidianos ou, de comportamentos de cunho moral, pois se assim fosse, os fariseus teriam sido aprovados por Cristo, visto que aos olhos dos homens eles pareciam justos. Devotos à vida monástica ou clausural, também, estariam aptos a entrarem no reino dos céus, por adotarem um estilo de vida de resignação que os diferencia dos demais homens: “Assim também vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mt 23:28).

Não se deve conceber o arrependimento como prática cotidiana ou, como conduta, que o cristão deve se amoldar e seguir, metodicamente, pelo resto da sua existência neste mundo. O arrependimento não é prática diária, como ditava a concepção católica, ao traduzir o termo grego ‘metanoia’, pelo latim ‘paenitentia’, que é prática diária que se concretiza em rezas, indulgências e penitências.

Quando critica os anabatistas, João Calvino sinaliza que a sua concepção de arrependimento, também, dizia de uma prática que deveria ser adotada e desenvolvida durante toda a existência do crente, posicionamento este, semelhante ao dos católicos, que, com relação ao arrependimento, cunharam o termo ‘paenitentia’.

Muitos equívocos de Calvino decorrem da má leitura de uma passagem bíblica, mesmo em tratados que ele repreende outros pela má leitura. Por exemplo: ao citar o que foi registrado pelo médico Amado: “testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” [At 20.21; cf. At 10.42][3], Calvino conclui que a fé é distinta do arrependimento e recrimina aqueles que entendem que arrependimento e fé são a mesma coisa.

Se entendermos a fé (substantivo) como mensagem do evangelho, claro está que se distingue do arrependimento, pois, este é consequência daquele. Porém, se entendermos ‘fé’ como ‘crer’ em Cristo, certo é que crer resulta da fé, portanto, crer e arrepender-se são a mesma coisa.

Calvino não está errado ao distinguir ‘arrependimento’ de ‘fé’, porém, equivoca-se  quanto à leitura do versículo, pois o apóstolo Paulo estava evidenciando o conteúdo do que era anunciado aos judeus e aos gentios. Enquanto aos judeus era anunciado o arrependimento para com Deus, aos gentios era anunciada somente a fé em Cristo Jesus.

Os judeus, por acreditarem que eram salvos, por serem descendentes de Abraão, precisavam mudar de concepção para crer em Cristo: “Arrependei-vos (mudem de concepção), pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados…” (At 3:19); “E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos (mudem de concepção) e crede no evangelho” (Mc 1:15). Já, os gentios, precisavam ter contato com o evangelho, para exercer fé em Cristo. Quando Filipe pregou ao eunuco, nada disse acerca do arrependimento, pois através das Escrituras expôs quem era o Cristo (At 8:35). O apóstolo Pedro, na casa de Cornélio, não anunciou o arrependimento, antes expôs quem era o Cristo (At 10:42).

O apóstolo Paulo, por sua vez, ao discursar no Areópago, após observar o quanto eram idólatras, enfatizou que Deus não leva em conta o tempo da ignorância e, que, portanto, agora era anunciado o arrependimento (At 17:30). Ora, os atenienses precisavam abandonar as suas crenças e crerem em Cristo, por isso concitou-os ao arrependimento.

 

A definição de arrependimento de João Calvino

João Calvino, ao esclarecer a sua definição de arrependimento, apresentou três pontos e no, segundo, declara que o verdadeiro arrependimento decorre de um ‘real temor’ de Deus e por ‘real temor’, ele entendia um ‘despertamento’, que seria uma inclinação ao arrependimento, provocada pelo ‘senso do juízo divino’, que seria medo ante a possibilidade de comparecer diante do tribunal de Deus para ser julgado. Observe:

“O segundo ponto era que ensinamos que o arrependimento procede do real temor de Deus. Pois, antes que a mente do pecador se incline ao arrependimento, importa seja ela despertada pelo senso do juízo divino. Quando, porém, este senso se tenha fixado, profundamente, de que Deus um dia haverá de subir ao seu tribunal, a fim de exigir a razão de todas as palavras e feitos, não permitirá que o mísero ser humano descanse, nem que respire um instante, sem que o aguilhoe constantemente a meditar em outro modo de vida, em que possa postar-se em segurança diante desse Juízo (…) Por vezes a Escritura declara que Deus é Juiz mediante castigos já infligidos, para que os pecadores ponderem consigo mesmos que, a menos que se arrependam em tempo, coisas piores os ameaçam. Os capítulos 20 e 29 de Deuteronômio são ricos em exemplos”. Idem, pág. 75.

Ora, o ‘temor do Senhor’ não se constitui ‘medo’ do juízo ou do fogo do inferno. O temor que promove o arrependimento diz da palavra de Deus, o conhecimento que é o princípio da sabedoria. Apesar de Deus ser Todo-poderoso, a ninguém oprime: “Ao Todo-Poderoso, não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” (Jó 37:23).

A palavra ‘temor’, quando empregada nas Escrituras, na maioria das vezes, refere-se ao mandamento de Deus, que, quando obedecido, é o mesmo que ‘temer’. Deus deve ser honrado, obedecido, temido, porque Ele é perdão, e não porque Ele se impõe através do medo ou do castigo: “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido (obedecido)” (Sl 130:4).

É em função da palavra de Deus que Moisés disse ao povo:

“Não temais (não tenham medo), Deus veio para vos provar e para que o seu temor (mandamento, sabedoria, instrução) esteja diante de vós, afim de que não pequeis” (Êx 20:20).

Não era para o povo de Israel ter tido medo e se afastar de Deus quando viram os relâmpagos e ouviram os trovões no monte Sinai, pois o objetivo de Deus era que o seu temor (palavra) estivesse com o povo.

Quando Deus se apresentou ao povo de Israel no monte Sinai foi para que ouvissem a palavra de Deus, enquanto Ele falava com Moisés. Os raios e os trovões eram somente uma prova, testando a confiança do povo em Deus, e, em seguida, Deus haveria de anunciar a sua palavra, o seu ensinamento, o seu temor.

Somente a palavra de Deus, escondida no coração, evita que o homem não peque contra Deus: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11) e, por isso mesmo, Deus se apresentou aos filhos de Israel, para que o Seu temor, ou seja, as Suas palavras, estivessem perante eles, para que não pecassem.

O convite expresso pelo Salmista não é para impor ao aprendiz medo, antes, a palavra de Deus: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11). Cristo veio ao mundo ensinar aos homens o temor do Senhor, de modo que, quem se posta a ouvi-lo, aprende o temor do Senhor, não a ter medo do juízo ou da condenação ao inferno: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lc 18:17); “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:28-29).

Cristo é o Verbo de Deus, o temor que permanece para sempre: “O temor do SENHOR é limpo e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” (Sl 19:9); “Porquanto, odiaram o conhecimento; e não preferiram o temor do SENHOR:” (Pv 1:29); “Então, entenderás o temor do SENHOR e acharás o conhecimento de Deus” (Pv 2:5).

Percebe-se que a compreensão de Calvino foi prejudicada por não saber distinguir o verdadeiro significado do termo ‘temor’, quando empregado em algumas passagens bíblicas da conotação que, comumente, é atribuído ao termo: medo.

O temor do Senhor não consiste em ameaças de que ‘coisas piores acontecerão com o pecador’[4]. A conversão não tem início com o ‘horror’ ou  o ‘ódio’ ao pecado, como pensam mas, através da pregação do evangelho. Ora, o pecador é nascido em pecado, ou seja, é escravo do pecado, de modo que ‘odiar’ o pecado é impossível ao pecador.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Na Bíblia, os termos ‘amor’ e ‘ódio’, não possuem conotação sentimental, antes, amor se refere a serviço, dedicação, obediência e ódio significa desprezo, desobediência, desserviço. O pecador pode sentir ‘raiva’ do seu senhor, o pecado, porém, a única coisa que o livra do seu senhor é a morte.

Como pecador, o homem ama (serve) ao pecado, independentemente das condutas diárias. O pecador é gerado segundo a desobediência, por isso é filho da ira, desagradável, reprovável e alienado de Deus.

Sob a alegação de ódio ao pecado, muitos levantaram a flâmula do puritanismo e execraram muitas pessoas que tinham uma conduta inconveniente na sociedade. Julgaram os outros segundo a aparência e se carregam de ordenanças segundo os preceitos e doutrinas dos homens (Cl 2:20-22).

Em razão da visão distorcida do que é o evangelho, nem de longe tais pseudo seguidores de Cristo lembram o Mestre, pois Cristo foi claro: “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15); “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15).

A ideia de que o arrependimento demanda a ‘mortificação da carne’ e ‘a vivificação do Espírito’, não é verdadeira. Observe:

“Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito (…) Pois, quando mandam o homem retroceder da maldade, em seguida exigem a mortificação de toda a carne, a qual está saturada de maldade e de perversidade. Coisa mui difícil e árdua é despir-nos de nós mesmos e apartar-nos de nossa disposição natural. Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem.

Na verdade, o arrependimento demanda, por parte do homem, tão somente a mudança de concepção, acerca de como ser salvo, ou seja, o ouvinte abandona os seus conceitos antigos e abraça um novo. Já a ‘mortificação da carne’ e a ‘vivificação do Espírito’ são obras exclusivas de Deus.

Há uma má leitura no artigo de João Calvino, com relação ao verso: “Desiste do mal e faz o bem” (Sl 34:14; Sl 37:27). O desistir do mal e fazer o bem diz do arrependimento em si. O verso não trata de boas ações ou de comportamento, mas do que aprenderam: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal?” (Jr 13:23).

Desistir do mal é deixar de fazer o mal que foi instruído a fazer, o mesmo mal expresso pelo profeta Isaías: “Deixe o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Is 55:7).

Como é possível ao homem guardar a língua do mal? Como guardar os lábios de não falar engano?

Falar engano é um problema de nascimento, pois desde que nascem os ímpios falam engano (Sl 58:3). Para resolvê-lo, é necessário fazer como o salmista Davi, que suplica a Deus um coração e um espírito novo. Quando a Bíblia apresenta um problema afeto aos lábios, a raiz do problema está no coração, não nas ações ou na moral humana: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34); “Mas, o que sai da boca, procede do coração e isso contamina o homem” (Mt 15:18).

Para reconhecer-se pecador, um judeu tinha que mudar a sua concepção de que era justo, por ter por pai a Abraão. Como enxergar que eram oprimidos e cansados e que necessitavam aprender de Jesus, se tinham em Abraão a ideia de salvação? “E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7:6 ); “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5:8).

O Pregador apresenta como o homem se aparta do mal:

“Filho meu, atenta para as minhas palavras; às minhas razões inclina o teu ouvido. Não as deixes apartar-se dos teus olhos; guarda-as no íntimo do teu coração. Porque são vida para os que as acham, e saúde para todo o seu corpo. Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Desvia de ti a falsidade da boca, e afasta de ti a perversidade dos lábios” (Pv 4:20-24).

Quando lemos: “Lavai-vos, sede limpos, removei de meus olhos o mal de vossas obras. Cessai de agir perversamente, aprendei a fazer o bem, buscai o juízo, vinde em socorro do oprimido” ( Is 1:16 -17), não podemos esquecer que os profetas falavam ao povo por parábola e que se utilizavam de enigmas, símiles, adágios (Os 12:10).

Uma única ordem está embutida nos verbos: ‘lavai-vos’, ‘sede’, ‘removei’, ‘cessai’, ‘aprendei’, ‘buscai’, ‘vinde’. Todos são paradigmáticos de Isaías 1, verso10:

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10).

Se dessem ouvidos à palavra do Senhor, os filhos de Jacó seriam lavados e limpos, tornando-se brancos como a neve. Removeriam o mal de suas obras de diante do Senhor. Deixariam de fazer o mal, etc. Jesus mesmo disse: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3). Como resultado, disse o apóstolo Paulo: “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10).

Para deixar de fazer o mal, é necessário aprender o bem, mas o povo de Israel estava acostumado a fazer o mal, como foram ensinados (Jr 13:23).

Quando o homem crê em Cristo, livra-se da maldade. A ação seguinte é pertinente a Deus, que circuncida o crente com a circuncisão de Cristo. Na circuncisão, é despojado todo o corpo do pecado da carne (Cl 2:11), de modo que, os que creem, não estão mais na carne (Rm 8:9); “E os que são de Cristo, crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

Só há duas posições em que o homem pode estar:

a) em Cristo, uma nova criatura, ou;

b) na carne, uma velha criatura.

Através da fé (evangelho), o crente tornou-se agradável a Deus, de modo que a carne foi extinta através da cruz de Cristo pois, se o homem estiver na carne, está em inimizade com Deus. Já que o crente foi crucificado com Cristo, sepultado e ressurgiu com Ele, isso significa que a carne já foi abolida.

A renovação do Espírito decorre da semente incorruptível, que é a palavra de Deus: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5; 1 Pe 1:3 e 23). A semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é o que promove o novo nascimento, não o fruto:

“Em seguida, os profetas assinalam a renovação do Espírito em termos dos frutos que daí se produz, a saber: da justiça, do juízo e da misericórdia”. Idem, pág. 77.

O fruto do Espírito é proveniente do Espírito, de modo que, basta estar ligado à videira verdadeira, que é Cristo, para produzi-lo (Jo 15:4-5).

Calvino fez confusão entre ‘fruto do Espírito’ e a ‘ação do Espírito’. A ação do Espírito Santo é convencer o homem de que todos pecaram, por terem sidos gerados de Adão. Só pelo espírito, a mensagem de Cristo, o homem é inteirado de que a humanidade foi julgada e está condenada à morte em Adão e, que o juízo de Deus já foi estabelecido lá no Éden: “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16:8); “Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” (Rm 5:18).

O fruto do Espírito é produzido pelas varas que estão em Cristo e possui as seguintes características: “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gl 5:22); “Porque o fruto do Espírito está em toda a bondade, justiça e verdade” (Ef 5:9).

O homem, por si só, não se despe do velho homem, pois o velho homem refere-se à sua condição herdada de Adão. Sem morrer com Cristo, quando o velho homem é crucificado, é impossível ao homem livrar-se do velho homem. O homem não se despe do velho homem, antes, o velho é crucificado e sepultado quando se crê em Cristo.

Quando a Bíblia faz referência ao despir, diz do que era pertinente ao velho homem e apresenta tal evento concluso (e no passado), como se lê: “Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3:9-10). Ora, os despidos do velho homem, já se revestiram de Cristo (Gl 3:27), de modo que o velho homem não mais vive, antes Cristo vive nos de novo gerados.

A ordem na Bíblia para que os crentes se desfaçam do que é pertinente ao velho homem, ou seja, despojar-se, é o despojar-se dos feitos, das ações, dos pensamentos, das emoções, etc., não do que foi realizado por Cristo nos que creem.

Ora, o velho homem morreu, porém, é necessário lançar fora as coisas que eram pertencentes ao velho homem e, dentre elas, o apóstolo Paulo destaca: “da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca” (Cl 3:8).

Há uma grande confusão entre ‘despir’ e ‘despojar’, visto que este verbo diz do comportamento do velho homem e aquele, da velha natureza herdada de Adão. Enquanto o ‘despir’ ocorre quando se crê em Cristo, o ‘despojar’ é gradual, contínuo, pois demanda a renovação do entendimento, quando o cristão vai aprendendo a se portar como filho de Deus (Rm 12:2).

Calvino, no terceiro ponto, confunde arrependimento, que é mudança de concepção, com a ação sobrenatural que Deus (regeneração) opera naqueles que mudaram a sua concepção (arrependeram), crendo em Cristo:

“Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito. (…) Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem, pág. 76.

“Portanto, interpreto o arrependimento com uma palavra: regeneração, cujo objetivo não é outro, senão que, em nós, seja restaurada a imagem de Deus, a qual fora empanada e quase apagada pela transgressão de Adão” Idem, pág. 77. Griffo nosso.

De tudo o que analisamos até agora, foi verificado que, primeiro é anunciado aos pecadores a fé, o dom de Deus, o evangelho de Cristo (Ef 2:8). Em seguida, os que creem na mensagem do evangelho, concomitantemente, mudaram de concepção, ou seja, se arrependeram. É através da mensagem do evangelho que o Espírito Santo convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8).

Depois que ouviu a palavra da verdade (fé), o evangelho que é o poder de Deus, para salvação, e crê (mudou de concepção e creu), o crente é selado com o Espírito Santo da promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. (Ef 1:13, Rm 1:16-17, Mc 1:15).

No instante em que se muda de concepção (arrepende), crendo em Cristo, o homem é crucificado e morto com Cristo, ou seja, conforma-se na morte com Cristo (Rm 6:5, Fl 3:10). Em seguida, é sepultado com Cristo na sua morte e ressurge uma nova criatura, criada, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24). Ao crer em Cristo, o arrependido conformou-se com Cristo na sua morte, e por isso, é participante da sua ressurreição.

Todos esses eventos ocorrem com o arrependido, sem que ele perceba, pois, se trata de ação sobrenatural de Deus.  O apóstolo Pedro fala desse evento, utilizando a palavra αναγενναω[5] (anagenao, corolário de gene, com o prefixo ana, que significa de novo, novamente, outra vez), que significa, especificamente, regenerar, nascer de novo, renascer (1 Pd 1:3). O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utilizou o termo παλιγγενεσία[6] (paliguenesia), para descrever o mesmo evento.

Os termos referem-se a um novo gerar, remetem a uma nova semente e apontam para a vontade de Deus: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. (Jo 1:12-13).

Os que mudam de concepção, crendo em Cristo, recebem poder de serem feitos filhos de Deus, nascidos da vontade de Deus,  não da vontade da carne, da vontade do varão ou do sangue. Não diz de uma vida implantada, que habilite ao arrependimento e à fé, antes, diz de uma nova vida, por ter se extinguido a antiga, decorrente da fé (evangelho), que leva o homem à mudança de concepção (arrependimento).

Na regeneração, não há transformação do coração, antes ocorre uma incisão: a circuncisão de Cristo, quando o coração de pedra é arrancado e lançado fora. Não somente o coração herdado de Adão é arrancado e lançado fora, como também todo o corpo do pecado (Cl 2:11). É um equivoco conceber que Deus transforma coração, antes, Ele dá um novo (Sl 51:10).

A circuncisão no prepúcio da carne era feita por mãos de homens, por pais segundo a carne. A circuncisão de Cristo é operada por Deus, o Pai espiritual, que arranca o coração enganoso, lança fora e dá um novo coração: “E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19).

O homem no pecado não está morto, inerte, insensível, etc., antes está morto para Deus e vivo para o pecado. Quando morre com Cristo, o homem morre para o pecado e passa a viver para Deus. É equivoco inominável achar que o homem no pecado está espiritualmente morto, antes ele vive no pecado, portanto, está separado (morto) de Deus.

Quando o apóstolo Paulo faz referência ao passado dos cristãos e diz que todos estavam mortos em delitos e pecados (Ef 2:1 e 2:5), ele estava evidenciando que estávamos todos vivos (unidos) para o pecado e separados (mortos) para Deus.

As seguintes declarações resultam de má leitura e má interpretação bíblica:

“Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem, pág. 76.

Como não se deve aceitar (julgar) que a carne está mortificada, quando se crê em Cristo? Se o velho homem foi com Cristo crucificado, como entender que a carne não foi mortificada?

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6:6).

O apóstolo Paulo, também, diz:

“Porque já estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3:3).

E mais:

“E os que são de Cristo, crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

Quem creu em Cristo, crucificou o velho homem que vivia segundo a carne e, ao crucificar o velho homem, a carne, as paixões e as concupiscências, também, foram crucificadas para o indivíduo que creu.

Como principio norteador da existência dos descrentes, a carne continua a subsistir, mas, para aquele que creu em Cristo, liberto está da lei do pecado e da morte (Rm 8:2). Livres da lei e do pecado, por ter morrido com Cristo (Rm 7:6), agora os cristãos servem a Deus, em novidade de espírito, ou seja, segundo o evangelho, o conhecimento de Deus manifesto em Cristo. Após arrepender-se, o cristão serve a Deus com o conhecimento revelado em Cristo, diferente dos judeus que tinham zelo de Deus, mas sem entendimento (Rm 10:2).

Qualquer que quiser servir a Deus com a carne, estará sujeito à lei do pecado (Rm 7:25) pois, não está debaixo da graça, mas debaixo da lei. O apóstolo Paulo, após declarar que o seu ‘eu’ reconheceu a sua miserabilidade e questionou quem poderia livrá-lo do corpo da morte, decorrente da lei do pecado, deu graças a Deus, por Cristo Jesus, que, em seu conhecimento, livrou o apóstolo da lei do pecado e da morte (Rm 8:2).

Mas, o seu “eu”, quando na carne, por ter sido vendido como escravo ao pecado, pela ofensa de Adão (Rm 7:14), apesar de ter prazer na lei de Deus, conforme profetizado por Isaias (Rm 7:22), está preso à lei do pecado, pelo corpo herdado de Adão, segundo a carne: “CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó, os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça e têm prazer em se chegarem a Deus” (Is 58:1 -2).

Não adianta buscar servir à lei de Deus, se a carne é escrava do pecado, pois esse era o entendimento dos judeus, que serviam a Deus por intermédio da lei, mas que estavam servindo à lei do pecado, por causa da carne herdada de seus pais: “Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas com a carne [sirvo] à lei do pecado” (Rm 7:25).

Quem creu em Cristo, além de ter sido com Ele crucificado, já ressurgiu com Cristo e está assentado com Ele nas regiões celestiais. Tanto a carne quanto as paixões e concupiscências foram crucificadas (Cl 3:1, Ef 1:3, Cl 2:12). A má leitura de Romano 8, verso 7, encobre o fato de que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8:1), ou seja, que são novas criaturas (2 Co 5:17).

Tudo do passado foi abolido, visto que nova se fizeram todas as coisas (2 Co 5:17). O escrito de dívida foi cravado na cruz: “Levando ele mesmo, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” (1 Pe 2:24; Cl 2:13-14).

Além de afirmar que a carne foi cravada na cruz e morta, o apóstolo Paulo enfatiza que, quem está em Cristo (nova criatura), não está mais na carne e nem anda segundo a carne: “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito (…) Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9).

‘Os que estão na carne’, refere-se aos que querem servir a Deus segundo a lei e, ‘os que estão no Espírito’, refere-se aos que estão em Cristo, por intermédio do evangelho. “Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gl 3:2-3). Não podemos esquecer que os cristãos são’ ministros do espírito’, ou seja, do evangelho (2Co 3:6).

‘Receber o Espírito’, é estar de posse da promessa e, pela promessa, poder dizer: – “Aba, Pai”! Os da carne foram gerados conforme Ismael, já os do Espirito, gerados segundo a promessa semelhante a Isaque, ou seja, segundo a palavra de Deus: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl 4:6, Gl 5:28-29); “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca, derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3); “E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19).

A natureza pecaminosa é renunciada quando o homem crê em Cristo e não mais é achado pecador, pois Cristo é ministro da justiça (1 Jo 3:8, Gl 2:17, Rm 6:14, 1 Jo 3:6, 9 e 5:18 e 1 Jo 4:17).

Quem busca preservar a sua própria concepção, por entender que nisto está a vida, perdê-la-á, mas quem se arrepende e crê no evangelho, salvar-se-á, pois ninguém pode servir (amar) a Deus e a si mesmo: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar a um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13); “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará” (Mc 8:35); “Quem ama a sua vida perdê-la-á e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” (Jo 12:25).

Assim como Ismael se opunha a Isaque, a carne se opõe ao Espírito. O apóstolo Paulo fala de dois senhores que querem ter o domínio sobre os homens, para que o homem não faça o que o seu próprio eu quer, antes se sujeite a eles: “Porque a carne cobiça contra o Espírito e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gl 5:17).

Se o homem se lançar às obras da lei, apresentou-se como servo para obedecer à carne, mas se o homem permanecer no evangelho, na liberdade em que Cristo o libertou, apresenta-se como servo obediente à justiça: “Não sabeis vós que, a quem vos apresentardes por servos, para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” (Rm 6:16).

Calvino equivoca-se ao ‘interpretar o arrependimento com uma palavra: regeneração’. A imagem que Deus concedeu a Adão, no Éden, não foi empanada e nem ‘quase’ apagada pois, quando Cristo veio ao mundo, veio, segundo a imagem que Ele mesmo havia dado a Adão, pois este foi criado à imagem daquele que havia de vir (Cristo), não pela expressa imagem do Deus invisível “… Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5:14).

No Éden, Adão perdeu a comunhão com Deus e, pela condenação decorrente da sua ofensa (morte), vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Mas, a imagem que recebeu, não perdeu e nem precisou ser restaurada, pois todos os seus descendentes, segundo a carne, se tornaram almas viventes e trouxeram a imagem do homem terreno, que era a figura dada a Adão, que o Cristo assumiria ao se fazer carne (1 Co 15:47-49).

Ao ser introduzido no mundo, em tudo, Cristo foi semelhante aos homens: carne, sangue e fraquezas (Hb 2:14 e 17) pois, como homem, herdou a imagem terrena que deu a Adão, mas através da pessoa de Maria, a semente da mulher.

Cristo, ao ser morto possuía a imagem da qual Adão foi feito figura mas, quando ressurgiu dentre os mortos, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível. O projeto anunciado por Deus, na primeira criação: – “Façamos o homem, conforme a nossa imagem e conforme a nossa semelhança”, foi levado a efeito quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, quando herdou a semelhança do Deus invisível: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” (Sl 17:15).

A semelhança do Altíssimo foi um projeto que Deus estabeleceu em Si mesmo, na pessoa de Cristo (Ef 3:11), projeto esse que Satanás tentou usurpar, ao querer estar acima das estrelas de Deus, sendo semelhante ao Altíssimo: “Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14).

Ninguém, nascido segundo a carne de Adão, será restaurado à expressa imagem de Deus, antes, somente os que creem, após mortos com Cristo, ressurgem uma nova criatura que, desde a eternidade, foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, para que Cristo seja alçado à posição de primogênito, entre muitos irmãos.

Se entendermos a fé (πίστις = pistis), como mensagem do evangelho, certo é que o arrependimento nasce da fé, no entanto, os que se arrependeram, seguem de posse da fé, o que é diferente da ideia de que o arrependimento segue em continuidade à fé.

“Entretanto, deve estar fora de controvérsia que o arrependimento não apenas segue, de contínuo, a fé, mas, inclusive, nasce dela”. Idem, pág 70.

O crente mudou de concepção, ao aceitar a fé, ou seja, arrependeu-se, portanto, abandonou sua crença e abraçou a fé. O apóstolo Paulo declarou que guardou a fé, sem fazer referência ao arrependimento (2 Tm 4:7). O apóstolo não guardou uma crença (πιστεύω), antes, guardou, inconspurcado, a mensagem do evangelho, a fé. Somente três coisas permanecem e dentre elas não está o arrependimento: a fé, a esperança e o amor (1 Co 13:13).

A ideia que Calvino teve, acerca da ‘metanoia’, não é a mudança de mente, mas, a ‘paenitentia’, da igreja católica. Observe:

“… para que se exercitem no arrependimento toda a sua vida e saibam que não há nenhum fim para esta luta, senão na morte (…) Para que os fiéis cheguem a este ponto, Deus lhes assinala o caminho do arrependimento, pelo qual percorram, pela vida inteira” Idem, pág. 78.

“O termo e o próprio conceito de penitência são bastante complexos. Se a relacionarmos com a metánoia, a que se referem os Sinópticos, a penitência significa, então, a íntima mudança do coração, sob o influxo da Palavra de Deus e na perspectiva do Reino. Mas, penitência quer dizer, também, mudar de vida, em coerência com a mudança do coração; e, neste sentido, o fazer penitência completa-se com o produzir frutos condignos de arrependimento: é a existência toda que se torna penitencial, aplicada numa contínua caminhada, em tensão para o que é melhor. Fazer penitência, no entanto, só será algo de autêntico e eficaz se se traduzir em actos e gestos de penitência. Neste sentido, penitência significa, no vocabulário cristão teológico e espiritual, a ascese, isto é, o esforço concreto e quotidiano do homem, amparado pela graça de Deus, por perder a própria vida, por Cristo, como único modo de a ganhar:  esforço por se despojar do homem velho e revestir-se do novo; por superar, em si mesmo, o que é carnal, para que prevaleça o que é espiritual; e esforço por se elevar continuamente das coisas de cá de baixo para as lá do alto, onde está Cristo. A penitência, portanto, é a conversão que passa do coração às obras e, por conseguinte, à vida toda do cristão” Paulo II, João. Exortação apostólica pós-sinodal – Reconciliatio et paenitentia – Sobre a reconciliação e a penitência na missão da igreja hoje.

Se ‘metanoia’ é mudança de concepção, por que na definição de arrependimento de João Calvino, ele diz que é ‘conversão de vida’? “… o arrependimento é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus” Idem, pág. 74. Nisto, concorda João Paulo II, com João Calvino: “Mas, penitência, quer dizer, também, mudar de vida”.

É desses pensamentos que surge a primeira colocação de Calvino, acerca do arrependimento:

“Primeiro, quando o chamamos a volta da vida para Deus, requeremos uma transformação, não apenas nas obras exteriores, mas, inclusive, na própria alma, a qual, quando é despojada de sua velha natureza, então, afinal, em si, produz os frutos de obras que correspondam à sua renovação” Idem, pág. 74.

É certo que, após se arrepender, crendo em Cristo, o cristão precisa ter um bom porte na sociedade que está inserido, ou seja, precisa portar-se de modo digno, não dando escândalo a judeus, gregos e nem à igreja de Deus (1 Pe 3:16; 1 Co 10:32).

Entretanto, o arrependimento não diz do bom porte do cristão em Cristo, mas da sua mudança de concepção, ao aceitar a mensagem da cruz. O bom porte em Cristo se adquire com a renovação do entendimento, que resulta em transformação comportamental, de modo que os que se alimentam de mantimento sólido, em razão do costume, exercitaram os sentidos, estando aptos para discernir o bem e o mal, não se conformando com o mundo: “Mas, o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” (Hb 5:14, Rm 12:2).

É o mesmo que ‘cingir os lombos do entendimento’, quando o crente são se conforma com as concupiscências que antes tinha quando na ignorância (1 Pe 1:13-14).

O crente precisa se renovar quanto ao espirito do seu entendimento, despojando-se (lançando fora) do que era pertinente ao velho homem (mentira, ira, roubo, furto, palavras torpes, etc.), e revestindo-se do que é pertinente ao novo homem (benigno, compassivo, etc.).

Arrepender-se não é o mesmo que ‘fazer um coração novo’, pois só Deus pode dar um coração novo. Calvino fez má leitura de Ezequiel 18, verso 31:

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” (Ez 18:31).

O lançar de si as transgressões é o mesmo que arrepender-se, mas fazer um coração novo e um espírito novo é ação sobrenatural de Deus que, assim, faz naqueles que se arrependem.

Ao arrepender-se, o homem se socorre de Deus que faz o que prometeu, portanto, ao se arrepender, considera-se que está fazendo um coração puro e um espírito novo:

“E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19, Ez 36:25-27).

Quando Deus ordena aos homens que circuncidem o coração, na verdade espera que os homens se socorram d’Ele, pois aos homens é impossível circuncidarem o coração, assim como é impossível salvarem-se a si mesmos.

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30:6).

Como o homem circuncida o seu coração? Fazendo o que Deus requer:

“Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas ao SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos e o ames,  sirvas ao SENHOR teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt 10:12 -13).

Se o homem temer a Deus, andar em seus caminhos, amar, servir, guardar os mandamentos e os estatutos, circuncidará o coração, pois Deus haverá de fazê-Lo.

Por fim, vale destacar que o apóstolo Paulo não trata dos frutos do arrependimento, quando escreve a sua segunda carta aos Coríntios.

“O Apóstolo, porém, na descrição do arrependimento [2 Co 7.11], enumera sete causas ou, efeitos ou, partes; isso ele o faz com mui excelente razão. Ora, são elas: diligência ou solicitude, exame, indignação, temor, anelo, zelo, vindicação” Idem, pág. 83.

Ao escrever a sua segunda carta aos Corintos, o apóstolo Paulo evidencia que eles estavam estreitados em seus próprios afetos, ou seja, não correspondiam ao afeto que o apóstolo lhes demonstrava (2 Co 6:11-12). Daí a recomendação: – “Recebei-nos em vossos corações”.

Após destacar que os cristãos de Corinto estavam presentes no coração do apóstolo para, juntamente, viverem ou morrerem (2 Co 7:3), deixou claro que não sentia remorso (μεταμέλομαι = metamelomai)[7] de tê-los contristados em outra carta (2 Co 7:8). Mas, mesmo que houvesse sentido remorso por um período de tempo, pela carta ter entristecido os cristãos de Corinto, agora, contudo, estava alegre.

Ele deixa claro que não estava alegre por tê-los deixado tristes, mas, porque foram contristados para arrependimento (μετάνοια = metanóia). Ora, o arrependimento da qual o apóstolo Paulo trata aqui, não se refere à mudança de mente (arrependimento) com relação ao evangelho, pois os cristãos eram a igreja de Deus em Corinto (2 Co 1:1, 2 Co 5:17), portanto, plenamente arrependidos por serem crentes em Cristo para a salvação.

Os cristãos foram contristados, para que alguns mudassem a concepção que tinham acerca do apóstolo Paulo, para que, em nada, sofressem dano, por causa do que pensavam acerca do apóstolo: “Esta é minha defesa para com os que me condenam” (1 Co 9:3).

O fato de terem sido contristados, segundo Deus, produziu nos cristãos solicitude (afã, diligência), mas, não somente isso, produziu, também, defesa, indignação, temor, saudade, zelo, vindita, em favor do apóstolo Paulo. Com isso, demonstraram que nada deviam quanto ao assunto em pauta, na carta anterior (2 Co 7:11).

O apóstolo Paulo demonstra que escreveu a carta anterior, não por ter sido ofendido e nem por causa de quem o ofendera, mas, antes, para tornar manifesta a solicitude dos cristãos de Corinto. (2 Co 7:12).

O arrependimento tratado no capítulo 7, da segunda epístola aos Coríntios, não diz do arrependimento anunciado por João Batista. O arrependimento de João Batista não decorre do sofrimento; mas, o arrependimento de que o apóstolo Paulo estava tratando, tinha em vista o sofrimento, decorrente dos abundantes sofrimentos de Cristo, para com os cristãos (2 Co 1:5).

O apóstolo tinha plena certeza de que, se era afligido, era para a consolação e salvação dos cristãos (2 Co 1:6), de modo que, a tristeza, segundo Deus, produz mudança de concepção, sem remorso (pesar) para a salvação. O apóstolo Paulo não sentia remorso por sofrer aflições, para que os cristãos fossem consolados, e os cristãos ao serem contristados, tampouco, ficaram com pesar, antes, saíram em defesa do apóstolo, o que produziu consolação e salvação.

As sete causas ou, efeitos ou, partes, que Calvino atribuiu ao arrependimento anunciado por João Batista e o Senhor Jesus Cristo: ‘diligência ou solicitude, exame, indignação, temor, anelo, zelo, vindicação’, na verdade se referem à resposta que os cristãos deram, em defesa do apóstolo Paulo, quando foram contristados com a carta que receberam.

Se há inúmeros equívocos e má interpretação de textos bíblicos na exposição de Calvino (alguém que se posicionou como mestre e crítico ferrenho de outras concepções), em um tema de relativa facilidade, que se dirá da exposição que Calvino fez de outras doutrinas bíblicas mais complexas e dos pontos de difícil interpretação, como asseverou o apóstolo Pedro?

 


[1] “Isto posto, pelo menos, em meu modo de julgar, não se poderá, assim, definir mal o arrependimento: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, procedente de um sincero e real terror de Deus, que consiste da mortificação de nossa carne e do velho homem e da vivificação do Espírito”. Calvino, João. As Institutas ou, Tratado da Religião Cristã, vol. 3, edição clássica (latim), pág 74.

[2] “Mas, os que pensam que o arrependimento precede à fé e não é produzida por ela, como o fruto de sua árvore, estes jamais souberam no que consiste sua propriedade e natureza, e, ao pensar assim, se apoiam num fundamento sem consistência”. Idem, pág. 70 “… por certo que ninguém pode abraçar a graça do evangelho a não ser que se afaste dos erros da vida e tome a via reta, e aplique todo seu esforço à prática do arrependimento”. Idem, pág 70. “… ao contrário, queremos pôr à mostra que o homem não pode aplicar-se seriamente ao arrependimento, a não ser que reconheça ser de Deus”. Idem, pág 71. “Mas, carece de toda evidência de razão o desvario daqueles que, para começar do arrependimento, prescrevem a seus neófitos, certos dias, durante os quais se exercitem em penitência; passados, afinal, os quais os admitem à comunhão da graça do evangelho. Falo da maior parte dos anabatistas, especialmente daqueles que exultam, sobremaneira, em ser tidos como os espirituais, e de seus confrades, os jesuítas, e gentalha afim. Tais frutos, evidentemente, são produzidos por esse espírito de torvelinho que limita, a uns poucos dias, a penitência que, ao homem cristão, deve prorrogar-se por toda a vida”. Idem, pág 72.

[3] “Se bem que estas coisas todas são verdadeiras, contudo o termo arrependimento, em si, até onde posso alcançar das Escrituras, deve ser tomado em acepção diferente. Visto que querem confundir a fé com arrependimento, se põem em conflito com o que Paulo diz em Atos [20.21]: “Testificando a judeus e gentios o arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo”, onde enumera arrependimento e fé como duas coisas diversas. E então? Porventura pode o verdadeiro arrependimento subsistir à parte da fé? Absolutamente, não. Mas, embora não possam ser separados, devem, no entanto, ser distinguidos entre si. Da mesma forma que a fé não subsiste sem a esperança e, todavia, fé e esperança são coisas diferentes, assim o arrependimento e a fé, embora sejam entre si ligados por um vínculo perpétuo, no entanto, demandam que permaneçam unidos, mas não confundidos.” Idem, pág. 73.

[4] “Não obstante, uma vez que a conversão começa do horror e ódio ao pecado, por isso o Apóstolo faz a “tristeza que é segundo Deus” [2Co 7.10] a causa do arrependimento” Idem, Pág. 76.

[5] “313 αναγενναω (anagennao), de 303 e 1080; TDNT – 1:673,114; v 1) regenerar, renascer, nascer de novo 2) metáfora – ter passado por uma transformação da mente, que leva a uma nova vida, que procura conformar-se à vontade de Deus”. Dicionário Bíblico Strong.

[6] “3824 παλιγγενεσια (paliggenesia), de 3825 e 1078; TDNT – 1:686,117; n f 1) novo nascimento, reprodução, renovação, recreação, regeneração 1a) por isso, renovação, regeneração, produção de uma nova vida consagrada a Deus, mudança radical de mente para melhor. A palavra é frequentemente usada para denotar a restauração de algo ao seu estado primitivo, sua renovação, como a renovação ou restauração da vida depois da morte 1b) a renovação da terra após o dilúvio 1c) renovação do mundo que terá lugar após sua destruição pelo fogo, como os estoicos ensinavam 1d) o sinal e gloriosa mudança de todas as coisas (no céu e na terra) para melhor, aquela restauração da condição primitiva e perfeita das coisas que existiam, antes da queda de nossos primeiros pais, que os judeus esperavam em conexão com o advento do Messias e que os cristãos esperam, em conexão com a volta visível de Jesus do céu. 1e) outros usos 1e1) da restauração, de Cícero, à sua posição e fortuna na sua volta do exílio 1e2) da restauração da nação judaica, após o exílio 1e3) da recuperação do conhecimento pela recordação”. Dicionário Bíblico Strong.

[7] “3338 μεταμελομαι (metamelomai) de 3326 e a voz média de 3199; TDNT – 4:626,589; v 1) estar, posteriormente, preocupado com alguém ou, algo 1a) estar arrependido, arrepender-se. Sinônimos, ver verbete 5862”. Dicionário Bíblico Strong.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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