Davi e o pecado

Davi não abordou as questões pertinentes ao pecado de Adão, mas, as consequências de tal ofensa.


Davi e o pecado

Introdução

Como é possível um filho herdar o pecado do seu pai? A Bíblia ensina que é possível herdar pecado?

Encontrei na internet um artigo de Dennis Allan, um norte-americano residente em São Paulo, com o título ‘Davi herdou o pecado?’, no qual ele toma por base o verso 5, do Salmo 51: “Eu nasci na iniquidade e em pecado me concebeu minha mãe”, onde faz várias afirmações equivocadas.

Na primeira abordagem, tenta contradizer a doutrina equivocada da ‘Depravação Total’, do Calvinismo, e incorre em mais equívocos. Observe:

“Salmo 51:5 diz: Este versículo é frequentemente arrancado de seu contexto para defender a doutrina da depravação herdada. São muitos os problemas com tal interpretação. Outros textos negam claramente a ideia do pecado herdado (Ezequiel 18:20, por exemplo). Jesus usou as crianças como exemplo da pureza inocente que todos nós precisamos adquirir (Mateus 19:13-15). 1 João 3:4 nos diz que o pecado é cometido (não herdado). Romanos 5:12 diz que todos nós participamos da morte que Adão sofreu, não porque herdamos seu pecado, mas porque cometemos nossos próprios pecados. Qualquer interpretação de Salmo 51:5 que sugira depravação herdada contradiz estas afirmações claras da Escritura”  Dennis Allan , Davi herdou o pecado? < https://www.estudosdabiblia.net/bd59.htm > Consulta realizada em 23/01/2018.

Ao longo da história, várias doutrinas foram formuladas, tendo por base o evento da ofensa de Adão, e a doutrina de Agostinho, que leva o nome ‘pecado original’, tornou-se a mais conhecida.

O Calvinismo, para firmar as suas bases doutrinárias, introduziu algumas questões à ideia do pecado original, enfatizando que o pecador, por estar morto, não pode ver e nem ouvir acerca das coisas de Deus.

O que a Bíblia diz? Davi herdou o pecado? Se pecado for uma referência à condição de separação de Deus, sim, Davi herdou o pecado. Mas, se considerar o contexto de Ezequiel 18, verso 20, Davi não herdou pecado de ninguém.

Como pode ser isso?

 

Certamente morrerás

Devemos considerar que, quando Deus deu um mandamento no Éden, no mandamento estava estabelecida uma penalidade: a morte (Gn 2:16-17). Após a ofensa de Adão, a morte, como penalidade, foi introduzida no mundo, de modo que pecado é estar sujeito à morte.

As considerações paulinas acerca da morte, do pecado e da lei são pertinentes ao evento do Éden:

“Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.” (1 Coríntios 15:56).

Pecado é estar sendo conduzido à morte, como por um aguilhão[1], e é da lei que o pecado se impõe com força invencível.

 

Concebido em pecado

Quando Davi, na condição de profeta, disse ‘Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe’, não só fez alusão à condição de todos os homens, antes evidenciou que os descendentes da carne de Abraão, os judeus, também, eram pecadores.

Ao dizer ‘em pecado me concebeu a minha mãe’, implicitamente, Davi estava dizendo que foi gerado de Jessé, seu pai, em pecado que, por sua vez, era da tribo de Judá e Judá de José, José de Jacó, Jacó de Isaque e Isaque de Abraão. Se Davi, da qual as Escrituras davam testemunho, de que era filho de Abraão, foi concebido em pecado, que se dirá dos demais descendentes de Abraão.

A questão que Davi aborda no Salmo 51 não possui relação com o adultério de Davi com Bate-Seba e nem com o homicídio de Urias, antes, o Salmista evidencia que, como a penalidade decorrente da ofensa de Adão passou a todos os homens, a morte, por isso é dito que todos pecaram.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12).

Davi não abordou as questões pertinentes à ofensa de Adão, mas, as consequências de tal ofensa. Davi não abordou as questões de foro íntimo e nem a feiura dos seus atos, mas, a condição pertinente a todos os homens.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;” (Romanos 3:23).

Como as consequências da ofensa de Adão passaram a todos os homens, é dito que todos pecaram, consequentemente, que estão destituídos da comunhão com Deus, o que incluía os ascendentes e descendentes de Davi.

 

O filho não levará a iniquidade do pai

Dennis Allan enfatizou que, frequentemente, o Salmo 51, verso 5, é arrancado do seu contexto e, ao trazer à baila o texto de Ezequiel 18, verso 20, comete o mesmo deslize.

O verso: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” (Ezequiel 18:20), deve ser considerado à luz da parábola que era divulgada entre os filhos de Israel:

“Que pensais, vós, os que usais esta parábola sobre a terra de Israel, dizendo: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram?” (Ezequiel 18:2);

“Naqueles dias nunca mais dirão: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram” (Jeremias 31:19).

Em razão do que, essa parábola passou a ser divulgada em Israel? Em função das consequências, decorrentes da ofensa de Adão? Não! Os filhos de Israel haviam transgredido a aliança de Deus e foram dispersos entre as nações, mas, em vez de reconhecerem que haviam invalidado a aliança, faziam uso desse provérbio para alegarem que estavam sofrendo as consequências dos erros dos pais.

Esta era uma questão recorrente em Israel, pois, à época de Jesus, os filhos de Israel edificavam os túmulos dos profetas e acusavam os pais de pecado.

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas, adornais os monumentos dos justos e dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas. Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.” (Mateus 23:29-32).

Os pais ao seu tempo pereceram no deserto pelos seus próprios erros e os filhos entraram na terra prometida. Os filhos que adentraram a terra prometida, também, se desviaram e foram desterrados. Os desterrados, por sua vez, em lugar de se arrependerem, alegavam que os pais haviam pecado e que eles estavam sofrendo os revezes.

 

Inocência

Dennis Allan enfatiza que Jesus utilizou as crianças como exemplo de pureza, mas, ao ler o texto indicado, não encontrei tal exemplo.

“Trouxeram-lhe, então, alguns meninos, para que sobre eles pusesse as mãos e orasse; mas, os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, disse: Deixai os meninos e não os impeçais de virem a mim; porque, dos tais, é o reino dos céus. E, tendo-lhes imposto as mãos, partiu dali.” (Mateus 19:13-15).

Os discípulos repreenderam algumas pessoas que trouxeram crianças para que Jesus colocasse as mãos sobre elas, mas, Jesus repreendeu os seus discípulos, para não atrapalharem as crianças de se achegarem a Ele.

Se o reino dos céus pertence às criancinhas por serem criancinhas, por que Jesus repreendeu os discípulos? Se elas eram exemplo de pureza, não precisavam de Jesus! Mas, Jesus exorta que as deixassem ir até Ele e aí está o segredo: o reino dos céus pertence a todos que se achegam a Cristo!

Esta é a proposta de Jesus:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28).

Criança pode ser um exemplo de inocência, mas, mesmo assim está sujeita à pena.

“O prudente prevê o mal e esconde-se; mas os simples passam e acabam pagando.” (Provérbios 22:3).

Criança pode ser um exemplo de inocência, mas, diante de Deus não é tida por justa, pois havia inúmeras crianças em Sodoma e Gomorra, mas não havia dez justos:

“Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez.” (Gênesis 18:32).

 

Vendidos ao pecado

Dennis Allan afirma que o pecado é cometido e não herdado, citando 1 João 3, verso 4: “Qualquer que comete pecado, também, comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade.”.

Diferentemente, do que pensa Allan, Jesus afirmou que todo que peca é escravo do pecado (João 8:34), uma condição herdada. Como? Respondo: Adão era livre e pela ofensa se tornou servo do pecado, consequentemente, todos os seus descendentes foram ‘vendidos’ ao pecado.

“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas, eu sou carnal, vendido sob o pecado.” (Romanos 7:14).

Os descendentes de Adão não pecam para se tornarem pecadores, antes, são pecadores (servos do pecado) e por isso, pecam.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado.” (João 8:34).

Embora o Salmo 51, verso 5, não apresente a doutrina da ‘Depravação herdada’, contudo, a abordagem de Allan destoa, completamente, das Escrituras, a ponto de dizer que Romanos 5, verso 12, enfatiza que o homem é participante da morte de Adão. por cometer os seus próprios pecados.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram.” (Romanos 5:12).

O verso é claro, ao enfatizar que todos pecaram porque a morte passou a todos os homens, ‘até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão’, demonstrando que o pecado é condição decorrente de berço.

 

Não pecou somente contra Deus?

Enquanto o Salmista confessa que pecou somente contra Deus, Dennis Allan contradiz o texto, abertamente: ‘O fato é que ele não pecou somente contra Deus.’

“Mas o que Davi está tentando dizer? Salmo 51 é o apelo agoniado de um coração ensanguentado. Davi tinha encarado a feiura de seu próprio pecado. Ele não está falando sobre o pecado de Adão ou, de sua própria mãe. Ele fala sobre “minha iniquidade”, “meu pecado” e “minhas transgressões” (51:2-3). O versículo 4 é uma declaração absoluta de culpa pessoal: “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar.” No versículo 4, encontramos as chaves que precisamos para entender o versículo 5: 1. Davi está usando uma hipérbole ou, figura de linguagem exagerada, para ressaltar a profundidade do seu pecado diante de Deus. O fato é que ele não pecou somente contra Deus. Pecou contra Bate-Seba quando cometeu adultério com ela, contra Urias quando roubou sua esposa e assassinou o esposo inocente, contra Joabe que foi o cúmplice involuntário no assassinato de Urias e de outros soldados (2 Samuel 11). 2. Davi está realçando a magnitude de seus pecados contra o Senhor. 3. Ele está reconhecendo a pureza e a justiça de Deus, em contraste com seu próprio estado pecaminoso.” (Idem), Grifo nosso.

Pelo fato de negar o que diz o verso 4 e declarar que o verso 4 é a chave para interpretar o verso 5, tudo o que é dito fica em suspeição. Se a base está eivada de equívocos, a conclusão, também, estará repleta de enganos.

A conclusão ignora o fato de Davi ser profeta e que o Salmo 51 não é uma poesia que retrata as mazelas pessoais do rei Davi, antes, é uma profecia que elucida a condição da humanidade diante de Deus, inclusive a condição dos filhos de Israel.

“É aqui que entra o versículo 5, Davi sente-se tão longe da intimidade com Deus, isto é, como se jamais tivesse estado em comunhão com ele. Quando Davi olha para seus próprios pecados desprezíveis, ele não pode imaginar jamais ter andado com Deus. Portanto, o Salmo 51 não é uma defesa da doutrina humana da depravação herdada e não empresta nenhum apoio a tais práticas não bíblicas, como o batismo dos recém-nascidos. Mas, este Salmo é um olhar angustiado para a feiura do pecado e a profundidade do verdadeiro arrependimento”. (Idem).

Após essa pequena análise, fica o alerta: não é porque alguém condena um sistema doutrinário equivocado, que tudo o que fala está em consonância com as Escrituras. Devemos provar os espíritos sempre!

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” (1 João 4:1).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

[1] “Aguilhão é a ponta afiada na extremidade de uma haste utilizada para estimular, principalmente os bovinos, a se movimentarem. Em Atos 26:14, na frase ‘Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões’, temos uma expressão proverbial própria do povo para demostrar que é inútil resistir a um poder imenso”.




Introdução à Hamartiologia – Doutrina do Pecado

Através deste artigo que trata da Doutrina do pecado, você compreenderá que, da mesma forma que é dito que um fruto pecou quando impróprio para consumo, assim os homens ‘pecaram’ porque são impróprios para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Neste sentido, a hamartia diz de uma mancha, um princípio, um poder, um senhor, um reino, etc., que afetou a natureza do homem. Esse significado do termo ἁμαρτία não possui condão ético ou moral, antes aponta para a condição do homem alienado de Deus.


Doutrina do Pecado

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12)

 

Entenda como todos os homens pecaram

Como foi possível todos os homens pecarem? Qual lei transgrediram? Onde, quando e como pecaram? Que ação, ou omissão, fez com que todos pecassem?

 

Introdução

Na frase: ‘… por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12), o termo ‘pecaram’ é tradução do verbo grego ἁμαρτάνω, transliterado ‘hamartano’[1].

Geralmente, os teólogos consideram o significado do termo grego ἁμαρτάνω (hamartano) somente como ‘errar o alvo’, ‘cometer um erro’, ‘cometer um pecado’ (contra Deus), relacionando o termo grego ἁμαρτάνω à transgressão de uma lei, porém, o apóstolo Paulo enfatiza que os gentios ‘pecaram’ (ἁμαρτάνω), mesmo sem lei (ἀνόμως).

Considerando que ‘onde não há lei também não há transgressão’ (Rm 4:15), como é possível os gentios pecarem sem uma lei para transgredirem? Na ausência de lei, o que se espera é que não haja transgressão, porém, o apóstolo Paulo afirma que, mesmo sem uma lei semelhante a lei de Moisés os gentios pecaram, o que nos compele a investigar se há distinção entre ‘transgressão’ e ‘pecado’ e qual a relação entre estes dois termos: “Porque todos os que sem lei (ἀνόμως) pecaram (ἁμαρτάνω), sem lei, também, perecerão; e todos os que, sob a lei, pecaram, pela lei serão julgados” (Rm 2:12).

Se é possível um indivíduo ‘pecar’ mesmo não tendo recebido uma lei semelhante a de Moisés, isso, por si só, demonstra que, o significado do termo grego ἁμαρτάνω quando empregado no Novo Testamento não decorre da transgressão da lei de Moisés, portanto, se faz necessário analisar os significados dos termos αμαρτια e ἁμαρτάνω para compreendermos as várias nuances destas palavras quando empregadas no Novo Testamento.

Neste estudo procuraremos demonstrar que os descendentes de Adão são contados como transgressores porque são filhos da desobediência (Cl 3:6), ou seja, nenhum dos descendentes de Adão teve que desobedecer um mandamento específico de Deus para ser pecador. Todos os homens nascidos de Adão são pecadores em função da morte, maldição que passou a todos, daí o qualificativo ‘filhos da desobediência’.

Também procuraremos demonstrar que o ‘pecado’ atribuído a Adão refere-se a perda da perfeição dada por Deus. A perfeição é o padrão que Deus estabeleceu ao criar o homem, uma espécie de marca dada por Deus ao homem,

 

Qual a definição bíblica de pecado?

Quando o apóstolo Paulo afirmou que, tanto gentios, quanto judeus, estavam debaixo do pecado, citou algumas passagens do Antigo Testamento que evidenciam que os judeus também eram pecadores, assim como os gentios.

Além de evidenciar a condição dos judeus, essas passagens do Antigo Testamento também servem para entendermos o significado do termo αμαρτια (pecado), transliterado ‘hamartia’ quando empregado no Novo Testamento.

“… pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado. Como está escrito:

‘Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus’ ” (Rm 3:9-11).

A preposição ὑφ’ (debaixo) da frase “ὑφ’ ἁμαρτίαν εἶναι” (estão debaixo do pecado) serve para dizer de ‘alguém que trabalha especificamente como servo’, de modo que, ‘estar debaixo do pecado’, significa ‘estar a serviço do pecado’, que, neste verso, é apresentado como senhor de escravos.

‘Estar debaixo do pecado’ (ὑφ’ ἁμαρτίαν εἶναι) ou ‘ser constituído pecador’ (ἀνθρώπου ἁμαρτωλοὶ κατεστάθησαν οἱ πολλοί) é o mesmo que estar ‘extraviado’, ser ‘inútil’.

O apóstolo Paulo demonstra que todos os homens sem Cristo estão a serviço do pecado, e cita as Escrituras para demonstrar o que é estar a serviço do pecado (Rm 3:10-11). Os servos do pecado são injustos e ignorantes (sem compreensão), daí o emprego do adjetivo ‘pecadores’ (ἁμαρτωλός)[2].

O termo hamartia serviu ao propósito de descrever o homem caído, apresentando a humanidade sob o domínio do pecado. Quando o apóstolo Paulo afirmou que ‘todos estão debaixo do pecado’ (Rm 3:9), sendo o termo grego ὑπό (hupo) traduzido por ‘debaixo’, ‘sob autoridade’, e o termo grego ἁμαρτία (hamartia) traduzido por pecado, utilizou as seguintes passagens bíblicas para demonstrar o que é o pecado:

“Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Rm 3:10-12; Sl 14:1-3; Sl 53:1-3);

“A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios” (Rm 3:13; Sl 5:9; Jr 5:16; Sl 141:3);

“Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm  3:14-18; Is 59:7-8; Sl 36:1; Pv 1:16).

O termo hamartia foi utilizado pelo apóstolo Paulo para descrever a humanidade como extraviada (desviada, afastada, perdida, errante) e sem valor (inútil, corrompida, assim como algo que azeda), conforme o que é apresentado pelas Escrituras.

Os versos elencados pelo apóstolo Paulo apresentam a condição da humanidade afetada pelo pecado decorrente da transgressão de um só homem, e o termo grego hamartia serviu ao propósito de revelar esta realidade aos cristãos.

Quando é dito que não há um justo (δίκαιος), significa que não há ninguém conforme o padrão de justiça de Deus (Mq 7:2), ou seja, todos perderam o padrão que Deus concedeu a Adão: a perfeição. Com a ofensa de Adão ocorreu a ‘perda da marca’, ou seja, a hamartia, concomitantemente o homem perdeu a comunhão com Deus.

Quando é dito que não há quem entenda (συνίημι), significa que não há compreensão, conhecimento de Deus, portanto, o homem, sob domínio do pecado, é um ignorante (Ef 4:18). Embora tenha zelo, falta o conhecimento; o conhecimento revelado em Cristo (Rm 10:2-3).

A descrição dos Salmos demonstra que o termo hamartia foi utilizado para descrever a natureza do homem, ressaltando que a humanidade está arruinada por completo.

A garganta do homem descrita no salmo como sepulcro evidencia que a boca do homem sem Deus é plena de maldição e amargura, o que remete ao próprio coração do homem, pois do que há no coração disto fala a boca (Mt 12:34; Jr 17:9). A condição de maldito o homem herda de berço ( Sl 58:3 ), e a bem-aventurança se alcança somente através do novo nascimento.

O profeta Jeremias dá um argumento notável, que se amolda ao significado do termo hamartia: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9), ou seja, a natureza caída do homem (raça de víboras), é incorrigível. Embora saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus o homem é mau (no sentido de sem valor, baixo, ralé), daí a descrição do salmista: inúteis.

A sujeição ao pecado impossibilita o homem de fazer o bem, mesmo que dê ‘boas dádivas’ aos seus semelhantes (Rm 3:12; Rm 7:21).

Portanto, dentre os muitos significados atribuídos ao termo αμαρτια[3] (hamartia) na literatura grega, devemos escolher aquele que melhor estampa a condição da humanidade, como descrita pelo apóstolo dos gentios, em Romanos 3, versos 10 a 18.

Durante a análise do termo, é imprescindível considerar que, na sociedade grega, todas as coisas se definiam pela função[4], de modo que questões éticas[5] ficavam em segundo plano, pois só, tardiamente, tais questões foram abordadas em tratados filosóficos.

Na Grécia Antiga, o verbo ἁμαρτάνω (harmatano), cognato do substantivo ἁμαρτία, era regularmente utilizado para fazer referência à ação de um lanceiro que errava o alvo, ou seja, não atingia a marca pretendida, significando ‘erro’, ‘perda da marca’, ‘errar o alvo’.

Entretanto, estudiosos entendem que o significado ‘perda da marca’ do termo ἁμαρτία não é empregado no Novo Testamento, por considerarem que o termo adquiriu nova significação, em função de questões como ética, moral, culpa, responsabilidade, etc.

Vale destacar que a falha, ou o erro, que o termo ἁμαρτία remete, não está somente no resultado de uma ação, antes permeia a execução da ação por completo, ou seja, engloba toda ação que resulta no erro. Desse modo, a partir do momento que uma lança era empunhada, calculado o ângulo e arremessada, visando a marca pretendida – um alvo – em não o atingindo, ocorria a ἁμαρτία.

No arremesso de uma lança, as intenções boas ou más, não eram preponderantes para a utilização do termo ἁμαρτία, pois, quando um atleta empunhava uma lança com o objetivo de acertar o alvo, tal ação não abrigava viés moral.

Mas, se voltarmos no tempo, veremos que a postura tradicional da Grécia homérica, era a culpa coletiva, pois se acreditava que a ἁμαρτία era ‘uma mancha que se espalhava’ e afetava o génos (família, clã, grupo familiar ou descendência), ou seja, a consequência da falta de um indivíduo recaia sobre todos os seus parentes e descendentes (pessoas ligadas por laços de sangue), tanto com relação ao parentesco sagrado (pais, filhos, netos ou irmãos) quanto ao parentesco profano (esposos, cunhados, sobrinhos e tios).

Como a ‘arte imita a vida’, nas tragédias gregas, o termo hamartia era utilizado para retratar a ação ou omissão do herói[6] não por falha de caráter ou por maldade. A hamartia, na verdade, apontava para uma maldição que envolvia o herói grego, por causa de um vínculo de sangue com um antepassado amaldiçoado.

As tragédias gregas refletiam o pensamento dos gregos antigos, de que a realidade existencial era perfeita e difícil de explicar ou de descobrir, tanto que a religião olímpica afirmava a existência de um equilíbrio e harmonia que regia a tudo e a todos, em uma espécie de estado universal em perfeição.

Quando havia alguma mudança ou desvio no ‘status quo’ da perfeição, o equilíbrio devia ser restaurado. É neste cenário que o termo hamartia era utilizado com relação ao herói trágico, pois o equilíbrio precisava ser restaurado, mas o herói, apesar de ser integro, de boa índole, invariavelmente, falhava ao tentar recompor a perfeição e o equilibro existencial perdido.

A falha do herói trágico não decorre de violações legais e nem por faltas de cunho moral. O resultado das ações do herói, na tentativa de recompor o equilíbrio, é sempre indesejável em função da hamartia, uma maldição que permeia a existência do herói, mas que ele desconhece (ignora).

Do ponto de vista teológico, os estudiosos não abordam a questão da hamartia como uma ‘mancha que se espalha’, ou do ponto de vista do ‘erro trágico’, e acabam por preferir o conceito de hamartia presente na obra aristotélica ‘Ética a Nicômaco’, em detrimento do conceito estético presente na ‘Poética’, obra do mesmo autor.

Daí a pergunta: Qual definição de ‘hamartia’ adotar ao ler o Novo Testamento?

 

Adão

Adão transgrediu a lei que Deus deu no Éden (Gn 2:16-17) e a ação dele, contrária àquele mandamento específico, é designada pelo apóstolo Paulo como transgressão (παράπτωμα). Em outras palavras, a ‘ofensa’ de Adão foi uma ação deliberada, em oposição ao mandamento de Deus, que envolve dolo e responsabilização.

De Adão é dito que ‘transgrediu’ (Rm 5:18), porque não deu ouvidos à palavra de Deus (desobedeceu- παρακοῆς, cf. Rm 5:19). Também é dito que, por Adão, entrou o pecado (ἁμαρτία) no mundo (Rm 5:12).

Daí surge a pergunta: a transgressão (παράπτωμα) de Adão em não dar ouvidos a palavra de Deus é ἁμαρτία, ou resultou na ἁμαρτία?

É comum confundirem a ‘transgressão’ com o ‘pecado’, porém a παράπτωμα precede a ἁμαρτία, e esta decorre daquela. Concomitantemente, Adão transgrediu e pecou, ou seja, desobedeceu e perdeu o padrão de perfeição que possuía.

O verbo grego ἁμαρτάνω traduzido por ‘pecou’, com relação a Adão, não encerra, em si, uma ação contrária ao mandamento de Deus (Rm 5:16), mas à perda da marca, à perda do padrão concedido por Deus. Adão errou ao desobedecer, daí a culpa e responsabilização e, agregado ao erro, tornou-se injusto, ou seja, perdeu o padrão de justiça concedido por Deus.

Se considerarmos que ‘hamartia’ diz de um ‘erro’, conforme a definição do dicionário VINE: ‘originalmente vinculado ao arremesso de lança (significando errar ou não atingir o alvo)’, certo é que, ao transgredir o mandamento de Deus, Adão errou, ou seja, neste sentido pode-se dizer que Adão ‘pecou’, ‘errou o alvo’.

Entretanto, a ideia contida no verso 16, de Romanos 5 ao afirmar que Adão pecou (ἁμαρτήσαντος) não remete ao erro de ter transgredido o mandamento, mas à condição de extraviado, de inútil.

Vale destacar que há termos gregos que servem para designar o erro, como o termo grego πλάνη (plané), que significa erro, desvio, errante, vaguear, coxear, etc., e que poderia ter sido utilizado pelo apóstolo para descrever o comportamento de Adão, contrário ao mandamento de Deus, assim como foi utilizado em Romanos 1, verso 27.

Se considerarmos o argumento de que a hamartia ‘entrou’ no mundo por um homem, o significado do termo traduzido por ‘erro’, apresentado pelo dicionário VINE, fica aquém da ideia apresentada pelo apóstolo Paulo, vez que após entrar no mundo a hamartia, a morte (aguilhão) também entrou, e por causa da morte é dito que todos pecaram.

Percebe-se que o significado da hamartia, no capítulo 5 de Romanos, possui mais relação com a postura tradicional da Grécia homérica ‘uma mancha que se espalha’[7] e afetava o génos[8] em função do vínculo de sangue que o clã tinha com o faltoso, do que com o erro em função de não ter atingido um alvo.

É só de Adão, que a Bíblia diz, especificamente, que transgrediu (παράπτωμα) um mandamento; transgressão que trouxe consequências para toda a humanidade, pois é dito que ‘por uma transgressão’ entrou o pecado no mundo.

Se entendermos a hamartia como ‘erro’ ou ‘transgressão’, cada indivíduo que viesse ao mundo, teria que transgredir um mandamento à semelhança de Adão. Entretanto, o significado do termo hamartia transcende a ideia de uma transgressão (παράπτωμα) ou de um erro (πλάνη), pois atinge, indistintamente, a todos os descendentes de Adão, por ‘personæ sanguine conjunctæ’ (pessoas ligadas por laços de sangue), vez que a morte passou a todos.

Os descendentes de Adão são contados como transgressores porque são filhos da desobediência (Cl 3:6), ou seja, nenhum dos descendentes de Adão teve que desobedecer um mandamento específico de Deus para ser pecador. Todos são pecadores em função da morte, maldição que passou a todos pelo vínculo de sangue com Adão, daí filhos da desobediência.

Vale salientar que, para os descendentes de Adão transgredirem à semelhança de Adão, seria necessário:

  • Não estarem sujeitos ao pecado e à morte, o que é impossível, visto que foram concebidos em pecado (Sl 51:5);
  • Receberem um mandamento que os alertasse das consequências da transgressão.

No entanto, os descendentes de Adão estão sob o domínio de um senhor – o pecado – que tem por aguilhão a morte, situação completamente diferente da de Adão, quando foi criado.

Após o mandamento no Éden, Deus deu mais dois mandamentos:

  • Através de Moisés, para conscientizar os judeus de que eles também eram pecadores como os gentios, e;
  • O evangelho, que livra do pecado e da morte a todos quantos creem, portanto, é impossível a qualquer descendente de Adão transgredir à semelhança de Adão.

A lei de Moisés serviu de ‘aio’ – guia, mestre – para conduzir os homens a Cristo e o mandamento de Deus no Evangelho, não envolve condenação, pois Cristo mesmo evidenciou que não veio julgar o mundo, mas salvá-lo (Jo 14:47). O mundo já foi julgado e condenado (Rm 5:18), portanto, a lei só evidencia a condição do homem perdido (Rm 3:20).

Adão desobedeceu ao mandamento de Deus e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, de modo que, pela transgressão (παραπτώματι), entrou o pecado (ἁμαρτία) no mundo, e pelo pecado a morte: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse…” (Rm 5:17); “Porque, assim como a morte veio por um homem (…) Porque, assim como todos morrem em Adão…” (1Co 15:21-22); “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16-17).

Por uma transgressão (παραπτώματι) entrou o pecado (ἁμαρτία), uma falha, um erro, ou seja, a humanidade perdeu a marca, ficou aquém do alvo. Neste sentido, a hamartia diz de uma mancha, um princípio, um poder, um senhor, um reino, etc., que afetou a natureza do homem.  Esse significado do termo ἁμαρτία não possui condão ético ou moral, antes aponta para a condição do homem alienado de Deus.

 

Hamartano (ἁμαρτάνω)

No capítulo 2, verso 12, o apóstolo Paulo diz que ‘todos que sem lei pecaram, sem lei também perecerão’. Observe que ele não utiliza o termo transgressão (παραπτώματι), mas o termo ἁμαρτάνω (hamartano), para ‘pecaram’.

Ele não diz que todos transgrediram, mas, sim, que todos pecaram, o que demonstra que o verbo hamartano, refere-se à perda da marca concedida por Deus, e não à transgressão de uma lei, ou a erros de cunho moral ou de caráter.

O apóstolo demonstra, no mesmo verso, que, mesmo os judeus, que estavam sob o domínio da lei, pecaram ἁμαρτάνω, ou seja, estavam fora do padrão de justiça estabelecido por Deus. O termo hamartano não foi utilizado para relatar que os judeus transgrediram a lei, mas, sim para descrevê-los em sujeição ao pecado.

Quando é dito que os judeus ‘pecaram’, devemos entender que eles estavam fora do padrão de justiça estabelecido por Deus, ou seja, que eram injustos, tanto que a lei foi entregue a eles: “Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas” (1Tm 1:9; Dt 9:4). Aqui vai um adendo, para esclarecer que essa é uma linguagem enigmática, pois o homicídio se refere à morte espiritual do indivíduo, perpetrada pelo engano, ou por uma indisposição de contrariar a palavra dada por Deus.

Os judeus, assim como os gentios, perderam a perfeição, perderam a marca (padrão), por isso é dito que pecaram. A lei foi dada para demonstrar que os judeus também eram contados entre os ‘transgressores’, um modo de revelar que eram injustos e obstinados, pois também são filhos da desobediência: “Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade, a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro” (Gl 3:19).

Das oito palavras base para falar das questões relativas ao pecado no Antigo Testamento, os termos hebraicos ןוֹועָ (avon) e אטְחֵ (chet) remetem à ideia de uma maldição, decorrente de um vínculo de sangue:

“Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5).

Os termos avon e chet – ambos significando perversidade, iniquidade, pecado – são intercambiáveis, considerando o paralelismo sintético construtivo ou formal, visto que a segunda parte do verso 5 do Salmo 51 amplia ou acrescenta nova ideia à asserção anterior.

Por intermédio de Moisés, Deus demonstra que não se esquece da condição do homem no pecado (visito), pois a condição do homem se perpetua, indefinidamente, através das gerações (terceira e quarta).

“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Êx 20:5).

Para o homem livrar-se do pecado de Adão, era necessária a circuncisão do coração, ou seja, morrer para o pecado e não a circuncisão do prepúcio, uma marca física.

Quando os judeus receberam a lei, já estavam sob o domínio do pecado, de modo que foi dito que, para obterem vida, era necessário observar o que estava sendo prescrito por Deus, o que demonstra que estavam presos ao pecado, por causa da morte: “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR” (Lv 18:5).

Mas, por intermédio da lei, era impossível ao homem obter vida, pois havia uma obrigação para os mortos alcançarem vida: “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” (Gl 3:12). Ora, se a lei não é da fé, segue-se que tudo o que não é proveniente da fé é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23).

Na definição do apóstolo, o termo ‘fé’ não se refere à crença (πιστεύω-pisteuó) do homem, antes diz de Cristo, que foi enviado por Deus. Tudo que não é proveniente de Cristo, a ‘fé’ manifesta na plenitude dos tempos, é pecado (ἁμαρτία): Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé, que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

Com lei ou sem lei, todos pecaram (Rm 3:23), o que demonstra que não se aplica ao termo hamartano a ação do verbo παραπτώματι (transgressão), antes a transgressão (παραπτώματι) de um homem resultou em uma queda, que comprometeu todos os homens, igualmente.

No verso 25 de Romanos 4, o apóstolo Paulo utiliza o termo παράπτωμα[9] (paraptóma), traduzido por ‘pecados’, demonstrando que Jesus morreu pelo παράπτωμα, ou seja, o termo aponta para um erro que não decorre de questões morais, comportamentais e nem de caráter.

Onde ocorreu o desvio, ou seja, a παραπτωμα (paraptóma)? No Éden, ou seja, na madre, como se lê: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3). É por esse desvio que Jesus morreu, vez que todos necessitam nascer de novo!

O pecado (ἁμαρτία), que entrou no mundo (κόσμος-kósmos), decorre da transgressão (παραπτώματι) de um só homem, portanto, nesse contexto, a hamartia não pode ser confundida com a ação de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, antes a hamartia resultou daquela ação.

A transgressão de lançar mão do fruto e comer, muitos rotulam como ‘pecar’, porém, quando é dito que ‘um só pecou’, a ideia do termo ‘pecou’, no texto, é ‘perda da marca’, ou seja, ‘ficar aquém do padrão’. Quando é dito que ‘um só pecou’, significa que um só perdeu a marca, por conseguinte, todos perderam; um se fez inútil, todos foram feitos inúteis. A marca ou o padrão que Adão perdeu, quando é dito que ‘pecou’, diz da perda da perfeição concedida por Deus.

Quando o apóstolo Paulo pergunta se o cristão há de ‘pecar’ por não estar sujeito à lei (Rm 6:15), o termo ‘pecar’ é tradução do verbo ἁμαρτάνω (hamartano). A discussão do apóstolo é existencial, e não comportamental, assim como a abordagem de Jesus:

“Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34).

A pergunta: ‘Havemos de pecar?’, é o mesmo que: ‘Permaneceremos no pecado’? (Rm 6:1). Quem está morto para a ἁμαρτία, já não vive para a ἁμαρτία, antes vive para Deus (Rm 6:2), de modo que, se o corpo que pertence ao pecado foi desfeito, é impossível servir ao pecado, portanto, é impossível pecar (Rm 6:6).

Ao ser crucificado com Cristo, o homem deixa de estar debaixo (ὑπό hupo, traduzido por ‘debaixo’, ‘sob autoridade’) do pecado, portanto, não peca (Jo 3:6). O verbo hamartano foi utilizado pelo apóstolo João para demonstrar que aquele que permanece sob autoridade de Cristo, não perde a marca, ou seja, o padrão de justiça imputado através de Cristo é conservado. Pecar é perder o padrão, o que é contraponto a conservar, manter inalterado, intacto.

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo e o maligno não lhe toca” (1Jo 5:18).

A discussão que o apóstolo Paulo introduz, no capítulo 5 de Romanos, não tem relação com a prática de ações inconvenientes reprováveis, segundo a moral e as leis dos homens (Rm 1:27), ou dos tropeços a que todos estão sujeitos (Tg 3:2), onde as questões de cunho comportamental devam ser consideradas.

A ideia discutida, tem relação com o senhorio da justiça ou do pecado (Rm 6:17), vez que aqueles que pecam pertencem ao diabo (1Jo 3:8) e os que não pecam pertencem a Deus (1Co 6:20). Por outro lado, os filhos de Deus não (impossibilidade) pecam (perder o padrão, a marca), pois a semente de Deus permanece em seus filhos (1Jo 3:9).

A questão é de domínio da justiça ou do pecado, portanto, não se trata de questões éticas, de moral, de culpa, de responsabilidade, etc.

Aquele que está morto com Cristo, está livre (δικαιόω)[10] do pecado (Rm 6:7), no sentido de estar em conformidade com o padrão de justiça que há em Cristo. Por que livre do pecado? Porque é livre do aguilhão (morte) (Rm 6:9), que prende o homem no pecado (Rm 6:14; Hb 2:15).

Quando se questiona: ‘Havemos de pecar por não estarmos debaixo da lei?’ (Rm 6:15), a pergunta não se refere a fazer coisas inconvenientes do ponto de vista moral, mas sim, se o crente em Cristo, por não estar debaixo da lei, mas da graça, se não teria o padrão de justiça tal como é exigido por Deus (Rm 6:18).

Esta mesma verdade verifica-se na seguinte premissa:

“Todo aquele que comete[11] pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34).

A ênfase do período está na sujeição do homem ao pecado como servo e não no comportamento inconveniente ou depravado, visto que Jesus estava tratando com religiosos.

O termo grego ποιεω (poieo), comumente traduzido por ‘comete’, dá ideia de ação contrária a um mandamento, porém, o termo grego possui diversos significados, dependendo do contexto.

O problema dos interlocutores de Jesus não eram as suas ações, mas, sim, o fato de que eram guiados, ou seja, ‘levados a fazer algo’, ou ‘fazer algo a partir de alguma coisa’, que, no texto em comento, é o pecado, o que nos remete à explicação do apóstolo Paulo:

“Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei do pecado, que está nos meus membros” (Rm 7:21-23).

Os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de Deus (Rm 8:14) e os filhos da desobediência, guiados pelo pecado. A carne milita contra o Espírito e o Espírito contra a carne, para terem domínio sobre o homem, ou seja, para que não realizem o seu próprio querer (Gl 5:17).

‘Pecar’ é consequência da sujeição ao pecado: – O homem é escravo do pecado e, por ser servo, ‘peca’. Tal afirmação não comporta o argumento como motivo, só como consequência, até porque, em função da transgressão de Adão: “… não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e nunca peque” (Ec 7:20).

É por isso que é dito: “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” (Jó 14:4). Embora saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus o homem é mal, vil, ralé, baixa estirpe (Mt 12:34). A árvore má só produz maus frutos, semelhantemente o pecador: todos os seus pensamentos e ações estão comprometidos, pois o homem está sob o domínio da ἁμαρτάνω. Tudo que o homem faz com os seus membros, quando sob domínio do pecado é o mal, até as boas dádivas aos semelhantes (Rm 7:19).

Por definição, os escravos do pecado praticam o pecado e os servos da justiça praticam a justiça (1Jo 3:4 e 7), vez que um servo não pode servir a dois senhores (Mt 6:24), de modo que, a expressão ‘aquele que comete pecado’, deve ser entendida como aquele que está sujeito (escravo) ao pecado – ὑφ’ ἁμαρτίαν -, ou seja, ὑφ’  significa ‘em poder de’, ou, ‘sob a autoridade’ do pecado (Rm 3:9).

Quando lemos: “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou” (Rm 5:16), o termo ἁμαρτήσαντος traduzido por ‘pecou’ não se refere a transgressão (παραπτώματι) da lei no Éden, mas, sim à perda da marca, que afetou todos os descendentes de Adão.

A hamartia que entrou no mundo, se assemelha à falha que afeta o herói trágico, à chamada ‘falha aristotélica’ ou ao ‘erro trágico’, que se dá pela ignorância do herói, e não por falha de caráter. Diante desta perspectiva, não importa o que o homem faça para livrar-se da sua condição desventurosa, sempre estará fadado ao erro.

Além do pecado e da morte, a transgressão também introduziu no mundo questões relativas ao bem e ao mal, pois o bem e o mal é conhecimento produzido pelo fruto da árvore que estava no meio do jardim. O conhecimento do bem e do mal, por sua vez, não é a hamartia, pois o próprio Deus é conhecedor do bem e do mal.

A hamartia que entrou no mundo não está vinculada ao conhecimento do bem e do mal, mas, sim à transgressão. Essa hamartia assemelha-se à mancha que se espalha em função do vínculo de sangue. Tem mais relação com o conceito estético da Poética do que com a abordagem filosófica da Ética a Nicômaco.

Quando foi dito pelo apóstolo Paulo que ‘todos pecaram’, é comum o entendimento de que ‘pecaram’ porque todos cometeram atos (ação ou omissão) contrários à lei de Deus.

Inúmeras concepções doutrinárias equivocadas, como a que diz que o homem aprende[12] a pecar, ou que o ensinamento de que o homem herda o pecado de Adão, remove do pecador a responsabilidade dos seus erros, surgem da má leitura do termo hamartia.

Há quem confunda inocência[13] com ‘não sujeição ao pecado’, que ser inocente é o mesmo que ser justo e se esquece do alerta que diz: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples (inocente) passam e sofrem a pena” (Pv 27:12).

Sabemos que Deus não destrói o justo com o ímpio (Gn 18:23-25). Quando Deus prometeu que não destruiria Sodoma e Gomorra se lá houvesse dez justos (Gn 18:32), apesar dos inúmeros inocentes que haviam na cidade, Deus não teve as crianças como justas, pois as duas cidades foram destruídas.

 

Todos pecaram

Assim como é dito que um fruto ‘pecou’ quando não ‘vinga’ e é impróprio para o consumo, devemos entender que o termo ‘todos pecaram’, como ‘todos perderam a marca’, o padrão de qualidade, ou seja, são inúteis, reprováveis, impróprios, etc.

O apóstolo Paulo utilizou o termo grego ἁμαρτάνω para enfatizar que a humanidade está aquém do padrão exigido por Deus, portanto, são inúteis:

“ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον” (Rm 5:12)

“em que todos pecaram” (Rm 5:12)

Quando o apóstolo Paulo diz: ‘… em que todos pecaram’ (Rm 5:12), fez uma releitura do Salmo 53, para demonstrar que, tanto judeus quanto gregos, estavam sob o pecado, portanto judeus e gentios são inúteis: “Porque em Jesus Cristo, nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (Gl 5:6); “A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” (1Co 7:19).

 “πάντες ἐξέκλιναν

ἅμα ἠχρεώθησαν[14](Rm 3:12; Sl 53:3);

‘Todos se desviaram, juntos se fizeram inúteis’ (Rm 3:12).

O termo grego ‘ἥμαρτον’ (pecaram), no contexto de Romanos 5, não se refere a nenhuma ação ou omissão, antes diz da condição da humanidade afetada pelo pecado e pela morte, que entram no mundo. Por causa de um motivo específico que é dito ‘todos pecaram’: porque a morte passou a todos os homens e não por terem transgredido um mandamento! “… e assim a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12)

Como a morte passou a todos os homens, é dito que todos pecaram, ou seja, estão em falta, são inúteis, de modo que são impróprios para o objetivo para o qual foram criados.

Quando disse que ‘todos pecaram’, o apóstolo Paulo demonstrou que o homem está aquém do exigido por Deus, no sentido de que “não atingiu a marca”, sem amalgamar à ideia questões de culpa, consciência, responsabilidade, etc.

A ‘marca’, neste caso, diz de um padrão de perfeição (τέλειος[15]-teleios), que deve ser entendido do ponto de vista funcional e não do ponto de vista moral.

O apóstolo Paulo não enfatizou que todos são pecadores, porque transgrediram um mandamento específico, antes, é dito que, como a morte passou a todos os homens, todos são imundos, inúteis, impróprios, ou seja, pecaram (ἥμαρτον), condição que independe de consciência, culpa, ação/omissão ou responsabilidade: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5:12).

A morte passou a todos os homens, de modo que: “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” (Mq 7:4). Daí a máxima: ‘Não há entre os homens um que seja justo’ (Mq 7:2; Sl 53:3).

Os espinhos são inúteis e só servem para serem queimados: “E os povos serão como as queimas de cal; como espinhos cortados arderão no fogo” (Is 33:12).

Da mesma forma que é dito que um fruto pecou quando impróprio para consumo, assim os homens ‘pecaram’ porque são impróprios para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Por causa da pena estabelecida no Éden: a morte, é dito que todos pecaram.

Qual o propósito de Deus para o homem?

O propósito de Deus é a preeminência de Cristo, pelo que Deus o fez primogênito entre muitos irmãos e o mais sublime dos reis da terra: “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27).

Em Israel cumpre-se o propósito de estabelecer Cristo como o mais sublime dos reis da terra, pois se assentará sobre o trono de Davi, e na Igreja cumpre-se o propósito da primogenitura de Cristo, pois são conduzidos a Deus muitos filhos que serão semelhantes a Ele (1Jo 3:2).

Os homens são pecadores no sentido de impróprios para o que foram criados, pois Deus é vida e o homem está morto. Daí a necessidade de nascerem de novo da semente incorruptível que é a palavra de Deus.

Por serem descendentes de Adão, também é dito nas Escrituras que todos os homens são ‘mentirosos’. Não significa que todos os homens são desonestos e faltam com a verdade com os seus semelhantes, antes são mentirosos, no sentido de serem impróprios para o que foram criados: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e venças quando fores julgado” (Rm 3:4); “Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos” (Sl 116:11).

Os filhos de Israel eram designados por Deus como mancha, mentirosos, corrompidos, perversos, etc., no sentido de não terem parte com Ele, no sentido de serem adversários: “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9); “Corromperam-se contra Ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5).

Todos os homens se fizeram inúteis em Adão, ou seja, ‘pecaram’ (Sl 58:3), pois, toda a humanidade estava unida no lombo de Adão, assim como Levi estava no lombo de Abraão, quando este deu dízimo a Melquisedeque: “Porque ainda ele estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hb 7:10).

Conclui-se, portanto, que, quando o apóstolo Paulo deixou registrado que todos pecaram, não fez referência à ação ou omissão de indivíduos, antes, estava indicando que, por serem descendentes de Adão, todos os homens estavam em pecado: mortos, separados de Deus, portanto, impróprios, inúteis, aquém da marca.

 


[1] “264 αμαρτανω hamartano talvez de 1 (como partícula negativa) e a raiz de 3313; TDNT – 1:267,44; v 1) não ter parte em 2) errar o alvo 3) errar, estar errado 4) errar ou desviar-se do caminho da retidão e honra, fazer ou andar no erro 5) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado” Dicionário Bíblico Strong; “hamartanô (desde Homero) significava originalmente, “errar”, “errar o alvo”, “perder”, “não participar de alguma coisa”, “enganar-se”. O conceito gr. do erro tem orientação intelectual. O subs. cognato é hamartia (desde Ésqu.), “erro”, “falta de alcançar um alvo” (mormente espiritual). O resultado desta ação é hamartêma, “fracasso”, “erro”, “ofensa” cometida contra os amigos, contra o próprio corpo, etc. Derivaram-se daí (no século V a.C.) o adj. e o subs. hamartólos, “coisa ou pessoa que falha” ; em Aristóf. ocorre como barbarismo que se emprega em tom depreciativo e irônico, hamartètikos (a forma melhor) também é raro, e de data posterior. A raiz hamart-, com seu significado de “fracassar”, produziu muitos compostos populares, e.g. hamartinoos, “louco”. 1. No mundo de língua grega, o subs. hamartèma prevaleceu sobre o vb. hamartano. Aristóteles o colocava entre adikèma, “injustiça”, e atychéma, “infortúnio”, como ofensa contra a ordem estabelecida, mas sem intenções malignas, i.é, sem kakia, “maldade”, “perversidade” (Eth. Nic. 5,8, 1135b 18)” Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000.

[2] “268 αμαρτωλος hamartolos de 264; TDNT – 1:317,51; adj 1) dedicado ao pecado, um pecador 1a) não livre de pecado 1b) pre-eminentemente pecador, especialmente mau 1b1) homens totalmente malvados 1b2) especificamente de homens marcados por determinados vícios ou crimes 1b2a) coletores de imposto, pagão, idólatra” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “266 αμαρτια hamartia de 264; TDNT – 1:267,44; n f 1) equivalente a 264 1a) não ter parte em 1b) errar o alvo 1c) errar, estar errado 1d) errar ou desviar-se do caminho de retidão e honra, fazer ou andar no erro 1e) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado 2) aquilo que é errado, pecado, uma ofensa, uma violação da lei divina em pensamento ou em ação 3) coletivamente, o conjunto de pecados cometidos seja por uma única pessoa ou várias Sinônimos ver verbete 5879” Dicionário Bíblico Strong; “I. hamartia (ἁμαρτία) é, literalmente, “perda da marca”, mas este significado etimológico quase que se perdeu por completo no Novo Testamento” Vine, W. E., e outros, Dicionário VINE, O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento, Tradução Luís Aronde Macedo, Ed. CPAD, 2002; “Hamartia significa ‘erro’, nem mais nem menos. Originalmente vinculado ao arremesso de lança (significando errar ou não atingir o alvo), passou a ser usado para qualquer tipo de engano, desde tropeçar em uma pedra até deixar escapar a palavra errada ou simplesmente criar um mal entendido. Na filosofia grega, imperfeição moral podia ser descrita como hamartia, significando ‘não alcançar’ o ideal em pensamento ou conduta” MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2000. Pág. 28.

[4] “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (ARISTÓTELES, 2011, p. 22).

[5] “A ideia de que moralidade e ética podiam ser codificadas era recente, mesmo nos dias de Aristóteles, e resultava menos de um impulso para prescrever ou pregar do que da incessante indagação de questões e proposição de soluções que caracterizavam o início da filosofia grega” MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2000, pág. 13.

[6] “Resta, portanto, a situação intermediária. É a do homem que não se distingue muito pela virtude e pela justiça; se cai no infortúnio, tal acontece, não porque seja vil e malvado, mas por força de um erro; e esse homem há de ser algum daqueles que gozam de grande reputação e fortuna, como Édipo, Tiestes ou outros insignes representantes de famílias ilustres. É, pois, necessário que um mito bem estruturado seja antes simples do que duplo, como alguns pretendem; que nele se não passe da infelicidade para a felicidade, mas, pelo contrário, da dita para a desdita; e não por malvadez, mas por algum erro de uma personagem, a qual, como dissemos, antes propenda para melhor do que para pior” Souza, Eudoro de. A Poética de Aristóteles: tradução e comentários. Porto Alegre: Editora Globo, 1966, cap. 13 – 1453ª, 7-22.

[7] “… um ato perigoso, cometido porque o agente não é conhecedor de alguma circunstância vital. A essência da hamartía é a ignorância combinada com a ausência de intenção criminosa” Hirata, Filomena Yoshie, Anais de Filosofia Clássica, vol. 2, nº 3, A hamartía aristotélica e a tragédia grega, 2008

[8] “Quanto à génos pode o vocábulo ser traduzido, em termos de religião grega, por “descendência, família, grupo familiar” e definido como personae sanguine coniunctae, quer dizer, pessoas ligadas por laços de sangue. Assim, qualquer falta, qualquer hamartía cometida por um génos contra o outro tem que ser religiosa e obrigatoriamente vingada. Se a hamartía é dentro do próprio génos, o parente mais próximo está igualmente obrigado a vingar o seu sanguine coniunctus. Afinal, no sangue derramado está uma parcela do sangue e, por conseguinte, da alma do génos inteiro. Foi assim que, historicamente falando, até a reforma jurídica de Drácon ou Sólon, famílias inteiras se exterminavam na Grécia. É mister, no entanto, distinguir dois tipos de vingança, quando a hamartía é cometida dentro de um mesmo génos: a ordinária, que se efetua entre os membros, cujo parentesco é apenas em profano, mas ligados entre si por vínculo de obediência ao gennétes, quer dizer, ao chefe gentílico, e a extraordinária, quando a falta cometida implica em parentesco sagrado, erínico, de fé — é a hamartía cometida entre pais, filhos, netos, por linha troncal e, entre irmãos, por linha colateral. Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens. No primeiro caso, a vingança é executada pelo parente mais próximo da vítima e, no segundo, pelas Erínias” Brandão, Junito de Souza, Mitologia Grega, Vol. 1, Editora Vozes, Petrópolis, 1986, pág. 77.

[9] “3900 παραπτωμα paraptoma de 3895; TDNT – 6:170,846; n n 1) cair ao lado ou próximo a algo 2) deslize ou desvio da verdade e justiça 2a) pecado, delito. Sinônimos ver verbete 51”, e; “51 αγνοημα agnoema de 50; TDNT 1:115,18; n n 1) um pecado cometido por ignorância ou descuido” Dicionário Bíblico Strong.

[10] “1344 δικαιοω dikaioo de 1342; TDNT – 2:211,168; v. 1) tornar justo ou com deve ser 2) mostrar, exibir, evidenciar alguém ser justo, tal como é e deseja ser considerado 3) declarar, pronunciar alguém justo, reto, ou tal como deve ser” Dicionário Bíblico Strong.

[11] “4160 ποιεω poieo aparentemente forma prolongada de uma palavra primária arcaica; TDNT – 6:458,895; v 1) fazer 1a) com os nomes de coisas feitas, produzir, construir, formar, modelar, etc. 1b) ser os autores de, a causa 1c) tornar pronto, preparar 1d) produzir, dar, brotar 1e) adquirir, prover algo para si mesmo 1f) fazer algo a partir de alguma coisa 1g) (fazer, i.e.) considerar alguém alguma coisa 1g1) (fazer, i.e.) constituir ou designar alguém alguma coisa, designar ou ordenar alguém que 1g2) (fazer, i.e.) declarar alguém alguma coisa 1h) tornar alguém manifesto, conduzi-lo 1i) levar alguém a fazer algo 1i1) fazer alguém 1j) ser o autor de algo (causar, realizar) 2) fazer 2a) agir corretamente, fazer bem 2a1) efetuar, executar” Dicionário Bíblico Strong.

[12] “É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente, onde ninguém cria objeção alguma” Shedd, Russell P., Lei, Graça e Santificação, São Paulo: Ed. Edições Vida Nova, 1990, pág. 99.

[13] “2. Jesus não herdou a mancha do pecado, porque nenhuma criança herda o pecado. A pureza de Jesus, quando nasceu, nada tinha a ver com qualquer Imaculada Conceição de sua mãe para quebrar a maldição herdada do pecado. A culpa não é herdada, nem por Jesus, nem por nossos filhos ou netos” Dennis Allan, artigo disponível na Web < http://www.estudosdabiblia.net/d34.htm > Consulta realizada em 23/08/15; “É claro que a referência não pode ser a pecados efetivos, mas somente a pecados potenciais, já que a criancinha ainda não desenvolveu sua consciência moral nem sua responsabilidade (…) Todos os seres humanos são “por natureza filhos da ira” (Ef 2:3), porque todos nascem com a tendência para o pecado, mas não nascem em pecado na realidade. A condenação que recai sobre cada um que vem à raça adâmica é uma culpa judicial, não uma culpa pessoal. Todos estão condenados diante de Deus porque “todos pecaram” em Adão, nosso representante (Rm 5:12)” Norman Geisler – Thomas Howe, Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia, Editora Mundo Cristão.

[14] “889 αχρειοω achreioo de 888; v 1) tornar inútil, corromper-se 1a) de caráter” Dicionário Bíblico Strong.

[15] “A ideia grega de perfeição é funcional. Uma coisa é perfeita quando se realiza plenamente o propósito para o qual foi planejado, projetado e feito. Na verdade, esse significado está envolvido na derivação da palavra. O adjetivo teleios é formado a partir do substantivo telos. Telos significa um fim, um propósito, um objetivo, uma meta. Uma coisa é teleios, se realiza a finalidade para a qual foi planejado, um homem é perfeito se ele percebe o propósito para o qual foi criado, e enviado ao mundo. Tomemos uma analogia muito simples. Suponha que na minha casa há um parafuso solto, e eu quero apertar e ajustar esse parafuso. Eu saio para comprar uma chave de fenda. Acho a chave de fenda que se encaixa exatamente no aperto da minha mão, não é nem muito grande nem muito pequena, muito áspero, nem muito suave. Eu coloco a chave de fenda na ranhura do parafuso, e eu vejo que se encaixa exatamente. Eu, então, giro o parafuso e o parafuso é fixado” Barclay, W: O Estudo Diário da Bíblia Series, Rev. ed Filadélfia: A imprensa de Westminster ou Logos.




A força do pecado

A força do pecado é proveniente da lei de Moisés? Deus permitiu que o homem pecasse? Como o homem alcançou liberdade? Em qual mandamento de Deus o pecado achou ocasião e matou o homem? Estas e outras perguntas serão respondidas neste artigo.


A força do pecado

“Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 )

A força do pecado reside na lei de Moisés?

Muito antes de Moisés entregar a lei ao povo de Israel o pecado já exercia o seu domínio no mundo “Pois antes da lei estava o pecado no mundo…” ( Rm 5:13 ), e a morte já reinava desde Adão ( Rm 5:14 ). Tais afirmações demonstram que não é a lei de Moisés que é a força do pecado, pois mesmo sem a lei mosaica o pecado prendia o homem à morte.

Se a lei de Moisés não é o que concede força ao pecado, de qual lei o apóstolo Paulo fez alusão? Qual lei constitui-se a força do pecado?

A resposta encontra-se no livro do Gênesis: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17).

Quando Deus concedeu a sua ordenança (mandamento) a Adão, assim o fez para preservar-lhe a vida, ou seja, a comunhão de Adão com Deus. O mandamento foi dado para vida, porém, o que era santo, justo e bom tornou-se morte, visto que o pecado achou ocasião na ordenança, e por ele matou o homem.

Qual a força da ordenança? A força da ordenança decorre da soberania de Deus, que a constituiu, e, por conseguinte, a ordenança é santa, justa e boa, pois é uma expressão da natureza de Deus.

Na ordenança havia uma pena (conseqüência) pré-estabelecida: ‘… certamente morrerás’, e na morte, que é um aguilhão, ou a pena prevista, o pecado prendeu todos os homens, sujeitando-os por toda existência a servi-lo ( Hb 2:15 ).

O pecado refere-se a uma condição pertinente a humanidade após a ofensa de Adão. Esta condição é resultado de uma pena imposta após uma condenação: alienação da glória de Deus, separados da vida que há em Deus, portanto, mortos ( Rm 5:18 ).

O que prende o homem à condição denominada pecado é a morte, a pena prevista pela ordenança de Deus, e através da ordenança que era para vida o pecado ‘achou’ ocasião (meio, modo) e matou o homem.

Qual o objetivo da ordenança dada por Deus no Éden?

  1. Preservar a relação que o homem possuía com Deus (vida, luz, verdade, justiça, santidade, etc.);
  2. Estabelecer e conscientizar o homem da total liberdade que possuía “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 );
  3. Não deixar o homem desavisado (inocente) do risco que o cercava “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pr 27:12 );
  4. O alerta ‘dela não comerás’ demonstra uma relação de confiança, que preservaria a condição do homem.

A ordenança dada por Deus era santa, justa e boa, porém, o pecado mostrou-se excessivamente maligno, pois encontrou ocasião na ordenança que era para vida, e através da ordenança matou o homem ( Rm 7:13 ).

A força do pecado é anterior a lei de Moisés, pois antes da lei mosaica a morte já reinava em decorrência da ofensa de Adão ( 1Co 15:22 ).

Adão não precisava realizar obra alguma para cumprir a ordenança, antes bastava confiar em Deus, porém Adão não confiou (descansou) e desobedeceu ao Criador.

Adão não tinha qualquer obrigação, e podia comer livremente de todas as árvores do jardim, inclusive das duas árvores plantadas no meio do jardim: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Mesmo com o alerta acerca da conseqüência quanto ao comer do fruto do conhecimento do bem e do mal, Adão não preferiu a ordenança que era para a vida e comeu do fruto do conhecimento do bem e do mal.

O aguilhão do pecado não é proveniente da lei de Moisés, antes é proveniente da lei que causou a alienação do homem de Deus lá n Éden. Por causa da lei santa justa e boa que diz: ‘… certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), o pecado encontrou ocasião na força da lei, e por ela aprisionou o homem ( 1Co 15:56 ).

Qual a força do pecado? A irrevogabilidade da lei tornou-se a força do pecado.

Através da ordenança que diz: ‘… certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), por causa da transgressão de Adão o pecado encontrou a força necessária para aprisionar o homem. Sem o mandamento não existiria para o homem a possibilidade de alienação de Deus, ou seja, o pecado estaria morto ( Rm 7:8 ).

O mandamento de Deus foi dado para preservar o homem em comunhão com a Vida, porém, após dar ‘ouvido’ à serpente, o homem ‘achou’ que o mandamento era para a morte, pois entendeu que ainda não estava pleno de Deus ( Rm 7:10 ; Gn 3:5 ).

O homem entendeu que não ter o conhecimento do bem e do mal era o mesmo que não ter a plenitude de Deus, porém, plenitude é estar em comunhão com Deus.

Pela lei santa justa e boa, que visava preservar a comunhão do homem com Deus, o pecado achou ocasião, mostrando-se excessivamente maligno, pois pelo bem (lei) encontrou a força necessária para alienar o homem de Deus, e, assim, enganou e matou o homem ( Rm 7:11 ).

O homem perdeu a comunhão, a glória, a vida e a liberdade! Por natureza o homem passou a ser filho da ira e da desobediência, alienado de Deus e escravo do pecado ( Ef 2:2 -3 ). A condição de Adão passou a todos os seus descendentes. A morte veio por um homem e todos os homens morreram em Adão ( 1Co 15:21 -22). Um pecou, todos os seus descendentes pecaram ( Rm 5:16 ).

Um cético pode perguntar: se Deus sabia que o pecado operaria a morte através do mandamento santo, justo e bom, porque concedeu indiretamente ocasião ao pecado ao estabelecer o mandamento? Porque somente através do mandamento se estabelece a liberdade. Se não houvesse o mandamento não haveria liberdade.

Quando Deus instituiu a perfeita ordenança, a da liberdade, dizendo: “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ), somente com a ressalva a liberdade se estabeleceu: “… mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 ).

Deus estabeleceu plena liberdade, e o diabo enfatizou proibição total: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ). Deus é o autor da liberdade ( 2Co 3:17 ), mas o diabo promoveu a alienação de Deus.

O apóstolo Paulo descreve a condição do homem destituído da gloria de Deus (pecado) como morto em delitos e pecados ( Ef 2:1 ; Cl 2:13 ). O homem não dispõe de meios para livrar-se por si mesmo da condição herdada de Adão, o que o torna comparável a um escravo.

Diante deste quadro horrendo, condição em pecado, apareceu a benignidade de Deus para com todos os homens ( Tt 3:4 ). Por ser riquíssimo em misericórdia, mesmo os homens estando mortos em delitos, anunciou: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá…” ( Is 55:3 ; Ef 2:5 ).

Adão morreu por não dar ouvidos (obedecer) à palavra do Senhor. Não deu crédito à palavra do Senhor, mas acatou as palavras do pai da mentira, pois desobedeceu ao mandamento que lhe era para vida.

São diferentes: o mandamento que Deus deu no Éden, onde o pecado obteve força, e a lei de Moisés, que somente serviu de ‘aio’ para conduzir o homem a Cristo. Enquanto a ordenança no Éden era para preservar a vida, a ordenança entregue por Moisés continha uma maldição para quem não a cumprisse “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las (…) O que fizer estas coisas, por elas viverá” ( Gl 3:10 -12).

Nas cartas do apóstolo Paulo há referencia as duas leis, sendo necessário fazer distinção entre elas para não ocorrer equívocos quando se interpreta a bíblica.

Por exemplo: considerar que a lei de Moisés é o que concede força ao pecado dá margem a entender que o pecado restringe-se às ações ou omissões equivocadas dos homens, o que nega ambos: a força e o aguilhão do pecado, provenientes da desobediência de Adão.

Daí surge o entendimento que a força do pecado está nas negativas da lei de Moisés, por exemplo: não matarás, não furtarás, não roubarás, não dirás falso testemunho, etc., o que promoverá um entendimento meramente legalista e formalista no combate ao pecado. Tal compreensão não exclui a força do pecado através da morte do pecador com Cristo, antes promoverá um evangelho pautado em questões comportamentais, tais como: formalismo, legalismo, moralismo, etc.

Quando se compreende de modo correto qual ‘lei’ concede força ao pecado, o interprete enfatizará a crença na mensagem do evangelho, uma vez que compreenderá porque é necessário ao homem nascer de novo.

Como o homem morreu porque não deu crédito a ordenança que era para vida, somente através da fé na palavra de Deus o homem viverá ( Mt 4:4 ). O aguilhão do pecado (morte) só é ‘quebrado’ quando o homem morre com Cristo, pois após morrer, e ser sepultado, ressurge em uma nova criatura, criada segundo o poder de Deus, em verdadeira justiça e santidade.

Vale destacar que, na primeira carta aos Coríntios, todas as vezes que o apóstolo Paulo fez referencia à lei de Moisés, o fez em um contexto que não é possível desvincular a palavra ‘lei’ do povo judeu, ou do seu preceptor, Moisés ( 1Co 9:8 ; 1Co 9:9 ; 1Co 9:20 ; 1Co 9:21 ; 1Co 14:21 ; 1Co 14:34 ).

Com relação ao verso em tela, não temos uma referência explicita à lei de Moisés, e aliado a isto, o capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios trata de questões próprias ao Éden, do primeiro Adão e do último Adão, que é Cristo, o que vincula a palavra ‘lei’ a questões próprias do Éden.

Portanto, o que prende o homem ao pecado é a morte, condição proveniente da ofensa de Adão e que estava prevista na ordenança de Deus. Já a força do pecado reside na ordenança irrevogável: “… certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Através da mesma lei que estabeleceu plena liberdade o pecado operou a morte, mostrando-se excessivamente maligno, pois através do bom operou a morte ( Rm 7:13 ). Ou seja, a ordenança concedida no Éden não estava permitindo que o homem pecasse, antes estava instituindo a liberdade.

 

Perguntas e respostas:

1) A força do pecado é proveniente da lei de Moisés? Não! É proveniente da ordenança que foi dada ao homem no Éden.

2) Deus permitiu que o homem pecasse? Não! Através da ordenança demonstrou quão plena era a liberdade que o homem possuía.

3) Como o homem alcançou liberdade? Através da ordenança, pois sem a ordenança não haveria liberdade.

4) Em qual mandamento de Deus o pecado achou ocasião e matou o homem? Na ordenança registrada em Gn 2:17 .

5) Através de qual elemento o pecado aprisiona o homem? Através da morte ( Hb 2:15 ).

6) Por que a ordenança de Deus constituiu-se na força do pecado? Porque a ordenança é irrevogável, e o pecado achou ocasião na irrevogabilidade da lei.