Salmo 51 – Em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe

Com base na profecia do Salmo 51, alegar que se tem por pai Jessé, Abraão, Isaque e Jacó é inócuo para se alcançar filiação divina.


Salmo 51 – Em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe

“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmo 51:5).

Introdução ao Salmo 51

Esta análise do Salmo 51 visa lançar luz ao verso 5, do Salmo 51, devido aos diversos posicionamentos doutrinários equivocados, acerca deste Salmo de Davi.

Há um número crescente de pregadores, apóstolos, bispos, reverendos, etc., apregoando que Davi era filho bastardo de Jessé, que a mãe de Davi era prostituta e até que a linhagem de Davi era perseguida por espíritos familiares, etc.

Antes de nos lançarmos à interpretação dos versículos do Salmo 51, é imprescindível destacar que Davi era profeta e nessa posição de profeta, não se ocupava de questões particulares, antes, anunciava a verdade de Deus.

“Homens irmãos, seja-me lícito dizer-vos, livremente, acerca do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e entre nós está até hoje a sua sepultura. Sendo, pois, ele profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido, com juramento, que, do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono” (Atos 2:29-30).

Considerando que os Salmistas profetizavam a comando de Davi e dos capitães dos Exércitos, conclui-se que os Salmos são profecias, cada qual com um objetivo: vaticinar acontecimentos, instruir, exortar e redarguir.

“E DAVI, juntamente, com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, de Hemã e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério: Dos filhos de Asafe: Zacur, José, Netanias e Asarela, filhos de Asafe; a cargo de Asafe, que profetizava debaixo das ordens do rei Davi. Quanto a Jedutum, os filhos: Gedalias, Zeri, Jesaías, Hasabias e Matitias, seis, a cargo de seu pai, Jedutum, o qual profetizava com a harpa, louvando e dando graças ao SENHOR” (1 Crônicas 25:1-3).

Jesus, ao fazer referência aos Salmos, aponta para a sua essência profética:

“E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse, estando, ainda, convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lucas 24:44).

Desse modo, ao analisar os Salmos, não se pode partir do pressuposto de que Davi, em seus Salmos, estava tratando de questões pessoais. Os cânticos que compõem os Salmos, não são expressões de sentimentos, de emoções, de conquistas, de frustrações, etc.

Nos Salmos, encontraremos profecias acerca do Cristo, aos que se dão o nome de Salmos Messiânicos, pois apresentam o nascimento, ministério, morte e ressurreição de Cristo.

Há outros Salmos que apontam para a condição dos filhos de Israel no exílio, para a pujança da nação, sob o domínio de Cristo, para o reino milenar ou, para a condição do homem sob o pecado, etc.

Alguns Salmos têm por objetivo descrever a condição do homem alienado de Deus, que só pode ser revertida, em razão da misericórdia de Deus, dentre os quais, destacamos o Salmo 51.

Na essência, o Salmo 51 é oração com conteúdo didático, que instrui todo e qualquer homem, acerca do que fazer para ser salvo, pois somente Deus tem poder para livrar o homem do pecado.

 

Salmo 51

  1. TEM misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias.
  2. Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado.
  3. Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.
  4. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares.
  5. Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.
  6. Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria.
  7. Purifica-me com hissope, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve.
  8. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste.
  9. Esconde a tua face dos meus pecados, e apaga todas as minhas iniquidades.
  10. Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.
  11. Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo.
  12. Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário.
  13. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão.
  14. Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça.
  15. Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor.
  16. Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos.
  17. Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.
  18. Faze o bem a Sião, segundo a tua boa vontade; edifica os muros de Jerusalém.
  19. Então te agradarás dos sacrifícios de justiça, dos holocaustos e das ofertas queimadas; então se oferecerão novilhos sobre o teu altar.

 

Deus misericordioso

“TEM misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado” (Salmo 51:1 -2).

Essa oração didática de Davi revela, tanto a condição miserável do homem, quanto a natureza pura de Deus.

Como todos os homens, indepentemente de linhagem, nacionalidade, língua, tempo, etc., diante de Deus são pecadores e carecem da glória de Deus (Romanos 3:23); através da lição que emerge da oração do Salmo 51, todos os homens, judeus e gentios, podem e devem se dirigir a Deus, reconhecendo a natureza benigna de Deus e a condição miserável do homem.

A oração de Davi repousa na revelação firme de Deus, conforme consta das Escrituras, de que Deus é misericordioso, segundo a sua benignidade:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.” (Êxodo 20:6).

Deus se revelou aos filhos de Israel como, abundantemente, misericordioso para com todos os que se sujeitam a Ele, na condição de servos, sendo obedientes à sua palavra. Obediência é o que Deus requer do homem, para que Ele possa agraciá-lo com misericórdia, pois, no mandamento de Deus, está expressa a sua boa vontade.

Maria, a mãe de Jesus, compreendia como se dá a misericórdia de Deus:

“E a sua misericórdia é de geração em geração, sobre os que o temem.” (Lucas 1:50).

‘Temer’[1] é honrar, obedecer e amar. Estes termos devem ser considerados, no sentido aristocrático, considerando o serviço de um servo dedicado a um senhor, conforme se lê:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou, há de odiar a um e amar ao outro ou, se dedicará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mateus 6:24; João 5:23; João 12:26; Lucas 6:46).

Por isso, Davi tomou consigo palavras (o que pode ser feito por todos os homens):

  1. a) apelando para a misericórdia divina e;
  2. b) reconhecendo a sua real condição.

O Profeta Davi expressa o mesmo evidenciado pelo profeta Oséias:

Tomai convosco palavras e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Tira toda a iniquidade e aceita o que é bom; e ofereceremos, como novilhos, os sacrifícios dos nossos lábios” (Oseias 14:2).

Tudo o que Davi roga a Deus tem por base a essência de Deus, que é amor, compaixão, misericórdia, etc.

Diferentemente do fariseu, que subiu ao templo para orar, e que orou, confiado em suas práticas religiosas, Davi expressa sua confiança, única e exclusivamente em Deus.

“O fariseu, estando em pé, orava consigo dessa maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem, ainda, como esse publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo” (Lucas 18:11-12).

A oração do publicano, por sua vez, é a essência do Salmo 51, pois Ele reconhece a sua real condição: pecador, mas invoca a Deus confiando que Ele é misericordioso.

“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas, batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lucas 18:13).

Semelhantemente aos cegos, junto ao caminho, qualquer que clamar a Cristo, reconhecendo-O como Senhor, será agraciado com misericórdia:

“E eis que dois cegos, assentados junto do caminho, ouvindo que Jesus passava, clamaram, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!” (Mateus 20:30).

Considerando a estrutura da poesia hebraica, o paralelismo, e justapondo as duas asserções do verso 1, temos:

“TEM misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade”;

“apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias”.

Davi clama pela misericórdia de Deus que, de acordo com a segunda parte do verso, é abundante (multidão). Conforme a ‘misericórdia abundante’, Deus apaga (exclui, limpa, destrói, extermina) as transgressões de quem clama, confiado na misericórdia de Deus.

Diferentemente dos seus compatriotas, que alegavam que tinham por pai a Abraão e, assim, faziam da sua carne o seu braço (Mateus 3:9; João 8:33; Jeremias 17:5), Davi reconheceu a sua condição diante de Deus: pecador.

“E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mateus 3:9).

Para não haver dúvidas quanto ao que o Salmista pleiteia junto a Deus, tendo por base a misericórdia divina, a ideia da parte ‘b’ do verso 1 é complementada, através do verso 2:

“Lava-me, completamente, da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado” (Salmo 51:2).

Ter as transgressões ‘apagadas’ é o mesmo que ser submetido ao trabalho de um lavandeiro (lavar), de modo a ser purificado da condição que lhe era própria: meu pecado.

Para o homem ser purificado por Deus, é imprescindível reconhecer a sua condição miserável. Sem reconhecer a condição de sujeição ao pecado, ou seja, de pecador, o homem jamais se refugiará naquele que é misericordioso.

Essa falta de reconhecimento, de que eram pecadores, era própria aos judeus. Diante da mensagem de Cristo, de que, se permanecessem em seus ensinos, verdadeiramente, seriam discípulos e, então, tornar-se-iam um com Cristo (conhecereis) e seriam libertos.

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente, sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade, vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:31-34).

Os judeus se enganavam a si mesmos, sob o falso argumento de que eram descendência de Abraão. Ao dizer que não tinham pecado, faziam Deus mentiroso, consequentemente, a palavra de Deus não estava neles (1 Jo 1:8-10).

É por isso que Aquele que anunciou que Deus é luz (1 João 1:5), ordenou aos escribas e fariseus que fossem e aprendessem o que significa: misericórdia quero e não sacrifício.

“Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas, os pecadores ao arrependimento.” (Mateus 9:13);

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.” (Oseias 6:6).

 

Pecado, iniquidade e transgressões

“Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares. Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:3 -5).

O salmista utiliza a primeira pessoa do singular ‘eu’, para dar ênfase à sua condição, e não às suas ações. Davi se reconhece como transgressor, rebelde, e isso não de uma perspectiva humana, moral, comportamental, em razão do que estava estabelecido nas Escrituras.

A tradição aponta que Davi compôs o Salmo 51, após ser interpelado pelo profeta Natã, acerca do homicídio de Urias e do adultério com Bate-Seba, no entanto, o que faz com que o homem compreenda os seus erros é tão somente as Escrituras, conforme exposto no Salmo 19:

“Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos.” (Salmos 19:12).

As Escrituras depunham contra os filhos de Israel e é em função desta verdade que Davi confessa que era conhecedor das suas transgressões. Por causa da reprimenda de Deus, por intermédio do seu servo Moisés, a condição de Davi era patente:

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas, a sua mancha; geração perversa e distorcida é.” (Deuteronômio 32:5).

  1. Davi se reconhece como transgressor;
  2. A condição (pecado) estava patente aos olhos de Davi;
  3. Ele compreendia que havia ofendido somente a Deus e;
  4. Que fez o que é mal à vista de Deus.

Davi admitiu a sua condição para não fazer Deus mentiroso (1 João 1:10), visto que Deus já havia dado a sua palavra, anunciando o pecado dos filhos de Israel, portanto, admitir a verdade estabelecida por Deus é honrá-Lo, para que Deus ‘seja justificado quando falar e puro quando julgar’.

Davi, sendo rei diante de Deus, se declara vil, mal, ralé, por ser pecador. Segundo o que se depreende do ensinamento de Jesus, qualquer que peca é escravo do pecado, de modo que, ao declarar que pecou contra Deus, efusivamente, declara que, ante os olhos de Deus, era mal, mentiroso, vil (Salmo 51:4).

O apóstolo Paulo faz uso desse raciocínio de Davi, demonstrando que, se alguns judeus foram incrédulos, tal incredulidade jamais aniquilaria a fidelidade de Deus, de modo que devemos admitir, sempre, ser Deus verdadeiro e todo homem mentiroso, como disse o salmista:

“Porque eu conheço as minhas transgressões e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares e puro quando julgares” (Salmo 51:3-4).

Mas, de onde o apóstolo Paulo tirou a ideia de que todo homem é mentiroso? Do Salmo 116, verso 11:

“Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos.” (Salmo 116:11).

Da mesma forma que o apóstolo Paulo afirmou que todos são mentirosos, tendo por base o testemunho das Escrituras, o salmista reconhecia a sua condição, tendo por base a palavra dos profetas.

O profeta Isaías denunciou o povo de Israel, dizendo:

“Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás.” (Isaías 1:4).

O profeta Daniel, por sua vez, também confessou os seus pecados, quando lembrou o predito por Moisés:

“E orei ao SENHOR meu Deus, confessei e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentosPecamos e cometemos iniquidades, procedemos impiamente e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos e dos teus juízos; E não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que, em teu nome, falaram aos nossos reis, aos nossos príncipes e a nossos pais, como também a todo o povo da terra. A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós a confusão de rosto, como hoje se vê; aos homens de Judá e aos moradores de Jerusalém e a todo o Israel, aos de perto e aos de longe, em todas as terras por onde os tens lançado, por causa das suas rebeliões, que cometeram contra ti. Ao Senhor, nosso Deus, pertencem a misericórdia e o perdão; pois nos rebelamos contra ele e não obedecemos à voz do SENHOR, nosso Deus, para andarmos nas suas leis, que nos deu por intermédio de seus servos, os profetas. Sim, todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se para não obedecer à tua voz; por isso, a maldição e o juramento que estão escritos na lei de Moisés, servo de Deus, se derramaram sobre nós; porque pecamos contra ele” (Daniel 9:4-11).

Observe que, na oração de Daniel, Ele admite que:

  1. Deus é misericordioso para com os que O obedecem;
  2. Que todos pecaram e foram rebeldes e;
  3. Ao estabelecido por Deus pelos seus profetas.

Ao dizer: “Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5), Davi não tinha em mente questões de conduta, moral e/ou social, antes, a acusação incrustada nas Escrituras:

“Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é. Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas, a sua mancha; geração perversa e distorcida é (Deuteronômio 32:4-5).

Se os filhos de Israel não eram filhos de Deus, mas uma mancha, geração perversa e distorcida, certamente, que o Salmista, assim como os demais homens, foi formado em iniquidade e concebido em pecado.

No Salmo 51, Davi reconhece a sua condição diante de Deus e se resigna a declará-la abertamente, para que outros o façam também. Os judeus precisavam aprender essa lição, mas, quando se deparavam com essa passagem bíblica, reputavam que somente os gentios precisavam reconhecer a sua condição.

Através das Escrituras, o apóstolo Paulo compreendeu que os judeus (e ele se inclui no rol de judeus), não são melhores que os gentios (Romanos 3:9).

O apóstolo cita diversos salmos e, em nenhum deles, Deus afirma que os judeus são exceção:

“Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; Como está escrito:

‘Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e, juntamente, se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só (Salmo 53:1-3; Salmo 14:1-3).

A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura (Salmo 5:9; Jeremias 5:16; Salmo 140:3).

Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. (Provérbios 1:16; Isaías 57:7 -8).

Não há temor de Deus diante de seus olhos (Salmo 36:1)’” (Romanos 3:9-17).

Após citar os versículos acima, o apóstolo Paulo conclui: tudo o que a lei (considere a lei como: Salmos, Profetas e Lei) diz, aos que estão debaixo da lei o diz, ou seja, aos judeus, de modo que ninguém é escusável diante de Deus.

Considerar que a mãe de Davi era uma prostituta e que, por isso, ele foi concebido em pecado, é má leitura do texto. Não há na Bíblia evidência alguma de que a mãe de Davi era prostituta. Não há, nem mesmo, como saber quem era a mãe de Davi, pois as Escrituras não fazem alusão a ela.

O que se sabe, através das Escrituras, é que Jessé era efrateu, de Belém de Judá, e a época que Davi foi ungido por Samuel, seu pai já estava em adiantada idade (1 Samuel 17:12), o que nos faz especular, pela idade de Jessé, que a mãe de Davi já era falecida, à época.

Davi não foi concebido em pecado, em razão de ter nascido de uma relação sexual. A relação sexual não é pecado e nem o ato sexual trouxe o pecado ao mundo, a não ser a ofensa de Adão.

Davi não foi concebido em pecado, pelo fato de ter duas antepassadas: Tamar e Raabe, esta de moral reprovável e aquela, por um comportamento questionável. Na verdade, ambas são dignas de nota, pela confiança que depositaram em Deus, tanto que essas duas estrangeiras passaram a compor a linguagem de Cristo.

Para falsos mestres, especular que Davi “confessou” que foi gerado através de um relacionamento extraconjugal de Jessé, seu pai, é um modo de introduzir encobertamente heresias.

A condenação da humanidade é decorrente da ofensa de Adão, cuja semente corruptível fez com que toda a descendência de Adão esteja separada de Deus. O pecado está atrelado à semente do homem, tanto que os gerados do sangue, da vontade da carne e do varão não são filhos de Deus (João 1:13).

Davi foi formado em iniquidade e concebido em pecado, em razão de a morte ter passado a todos os descendentes de Adão, por isso, é dito que todos pecaram, ou seja, ficaram aquém do padrão estabelecido por Deus.

Assim como é dito que um fruto de uma árvore ‘pecou’, quando impróprio para o consumo, em função de a morte ter passado a todos os homens, é dito que todos pecaram.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram (Romanos 5:12).

Da mesma forma que a salvação não está atrelada à semente de Abraão, vez que a semente de Abraão também decorre da semente de Adão, todos os homens são pecadores, em função do primeiro pai: Adão.

“Teu primeiro pai pecou e os teus intérpretes prevaricaram contra mim.” (Isaías 43:27).

O que vincula a humanidade ao pecado é a condenação à morte, decorrente da ofensa de Adão, e como todos estão debaixo de igual condenação, é que se diz que todos pecaram.

Mas, os intérpretes de Israel foram infiéis, pois, deixaram de considerar que eram descendentes de Adão e passaram a ensinar que os descendentes de Abraão eram a descendência bem-aventurada de Abraão, portanto, salvos.

Como poderiam ser a descendência que Deus prometeu a Abraão, se a promessa de Deus é que ‘em Isaque seria chamada a descendência de Abraão’? Os interpretes de Israel se esqueceram de Adão, como pai de todos os homens, e reputaram que eram descendentes de Abraão, através de uma profecia que dizia quem, em Isaque, a descendência de Abraão seria chamada!

“Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.” (Romanos 9:7).

“Porém, Deus disse a Abraão: Não te pareça mal aos teus olhos acerca do moço e acerca da tua serva; em tudo o que Sara te diz, ouve a sua voz; porque em Isaque será chamada a tua descendência.” (Gênesis 21:12).

A descendência prometida a Abraão não era o servo damasceno, nem Ismael e nem Isaque, antes, o descendente prometido, que é Cristo, que veio da linhagem de Isaque.

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.” (Gálatas 3:16).

Se a mãe de Davi, cujo nome e genealogia não é de conhecimento público, ou, as suas antepassadas, fossem as responsáveis pelo fato de Davi ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado, essencialmente, Davi teria que fazer alusão ao seu pai, Jessé.

Aí teríamos a seguinte fala:

“Eis que, em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe, quando me gerou de meu pai.

Isso porque, podemos dizer, com verdade, que todos os gerados de homem são pecadores, mas, não podemos dizer, com verdade, que todos os concebidos de mulher são pecadores, visto que, neste último caso, excetua-se o Cristo.

José não foi o pai biológico de Jesus, pois se assim fosse, o Cristo não seria isento de pecado. Todos os descendentes de Adão são servos do pecado e José não era exceção, de modo que a semente de José, assim, como os demais descendentes de Adão, geram filhos segundo a carne e o sangue, portanto, filhos em sujeição ao pecado.

Quando os evangelhos fazem alusão a José, apresentam-no como marido de Maria e não como o pai de Jesus. Maria é apresentada como a mãe de Jesus, o que demonstra que Jesus só teve vínculo com o sangue de Maria, daí a sua humanidade, mas como não foi gerado de homem, Jesus nasceu sem vínculo com o pecado.

Vale destacar, nas Escrituras, que os homens geram e as mulheres concebem, em função das questões genealógicas:

“E Adão viveu cento e trinta anos e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e pôs-lhe o nome de Sete. E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos e gerou filhos e filhas” (Gênesis 5:3-4);

“E conheceu Caim a sua mulher e ela concebeu e deu à luz a Enoque; e ele edificou uma cidade e chamou o nome da cidade, conforme o nome de seu filho Enoque;” (Gênesis 4:17).

Como, profeticamente, Davi não fez alusão ao seu pai no Salmo 51, enfatizando de quem Ele foi gerado, antes destaca que foi concebido pela sua mãe, temos neste Salmo algo muito significativo.

Lembrando que, para conhecer a sabedoria e a instrução, e entender as palavras da prudência e para entender os provérbios e a sua interpretação, devido aos enigmas, parábolas e símiles, se faz necessário conhecer os ensinamentos de Salomão, no Livro dos Provérbios (Provérbios 1:1-6).

Deus sempre falou ao povo utilizando-se de parábolas, enigmas e símiles, ao que se conclui que, no Salmo 51, temos um enigma a desvendar: se a mãe de Davi o concebeu em pecado, de quem Ele foi gerado? Excluindo a resposta óbvia: de Jessé, por ter sido concebido no pecado, Davi poderia invocar a Deus por Pai, como fizeram os judeus, que ‘criam’ em Cristo?

“Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.” (João 8:41).

Quando Davi diz que foi concebido em pecado por sua mãe, implicitamente, estava dizendo que, de nada adiantava ser gerado segundo a carne de Jessé, tampouco, segundo a carne de Judá, José, Jacó, Isaque e Abraão, vez que, ser descendente da carne dos pais não concedia a filiação divina. Com base na profecia do Salmo 51, alegar que se tem por pai Jessé ou, Abraão, é inócuo para se alcançar filiação divina.

“Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão.” (João 8:39).

Se os ouvintes de Jesus conhecessem a essência do Salmo 51, principalmente do verso 5, jamais lançariam mão do argumento ‘Nosso pai é Abraão’, quando confrontados por Jesus, como sendo escravos do pecado.

Se Davi, filho de Jessé, foi concebido em pecado, segundo o testemunho das Escrituras, que se dirá da nação de Israel?

O que se ouviu, acerca da nação de Israel, foi a seguinte pecha:

“Contendei com vossa mãe, contendei, porque ela não é minha mulher e eu não sou seu marido; e desvie ela as suas prostituições, da sua vista e os seus adultérios, de entre os seus seios.” (Oseias 2:2);

Foste como a mulher adúltera que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos.” (Ezequiel 16:32);

A confissão de Davi, no Salmo 51, é pertinente à nação de Israel, de modo que a ‘mãe’ que Davi faz referência vai além da mãe biológica de Davi, antes, remonta à nação de Israel, que não produz filhos para Deus.

“Porque sua mãe se prostituiu; aquela que os concebeu houve-se torpemente, porque diz: Irei atrás de meus amantes, que me dão o meu pão e a minha água, a minha lã e o meu linho, o meu óleo e as minhas bebidas.” (Oseias 2:5);

“Mas, chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina e de prostituição.” (Isaías 57:3).

Se o profeta Davi, da tribo de Judá, da qual descende o Cristo, confessou que foi concebido em pecado, quando foi introduzido no mundo, através do nascimento natural, efetivamente Davi não foi gerado de Deus.

“Eis que amas a verdade no íntimo e no oculto me fazes conhecer a sabedoria.” (Salmo 51:6).

As confissões dos versos 5 e 6 começam com um ‘certamente’, como que, introduzindo forte evidência: ‘eis’, ‘veja’.

Davi afirma que Deus se compraz com a verdade no intimo[2], ou seja, com referência à natureza do homem.

Se todo homem é mentiroso, por causa da condição herdada de Adão, Deus somente se agrada do que é verdadeiro na essência. Se Deus é a verdade e n’Ele não há mentira alguma, somente os que d’Ele são gerados são verdadeiros e justos.

“Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é.” (Deuteronômio 32:4);

Os que clamam por misericórdia, são gerados de novo por Deus, e só alcançam misericórdia porque são criados de novo bons (nobres), por terem alcançado um coração novo e íntegro.

“Sê misericordioso, SENHOR, com os bons, com todas as pessoas de coração íntegro!” (Salmo 125:4).

Enquanto Deus olhou dos céus para os filhos dos homens e não achou ninguém que tivesse entendimento e que buscasse a Deus, sendo todos imundos (Salmo 53:2), para o homem tornar-se agradável a Deus, com a verdade no íntimo, é imprescindível a revelação da sabedoria de Deus.

“Eis que desejas que a verdade esteja no íntimo; faze-me, pois, conhecer a sabedoria no secreto da minha alma.” (Salmo 51:6).

Sem a sabedoria, o conhecimento de Deus, os homens podem ter zelo, mas sem entendimento (Romanos 10:2).

 

Mais alvo que a neve

“Purifica-me com hissope, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste. Esconde a tua face dos meus pecados, e apaga todas as minhas iniquidades.” (Salmo 51:7 -9).

Davi, novamente, roga a Deus para ser purificado; se Deus se encarregar se purificar, lavar, por certo o homem ficará completamente limpo, mais alvo que a própria neve (Salmo 51:2).

“Vinde, então, e argui-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda, que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Isaías 1:18).

Enquanto no pecado, Davi era continuamente repreendido por Deus, assim como todo o povo de Israel. Deus deixou na lei de Moisés o castigo como sinal de que os filhos de Israel haviam se desviado, mas quanto mais eram castigados, mais se distanciavam (Deuteronômio 28:45-46).

“Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça, não há nele coisa sã, senão feridas,  inchaços e chagas podres, não espremidas, nem ligadas, nem amolecidas com óleo” (Isaías 1:5-6).

Ao pedir por júbilo e alegria, Davi quer esquecer da repreensão que trouxe ossos quebrados, de modo que Deus troque a tristeza por alegria, fartando-o de benignidade.

“Farta-nos de madrugada com a tua benignidade, para que nos regozijemos e nos alegremos todos os nossos dias.” (Salmos 90:14; Isaías 61:3).

O resplendor do rosto de Deus, quando manifesto ao homem, é misericórdia e benignidade (Números 6:25), mas Davi roga para que Deus esconda o seu rosto dos seus pecados, ou seja, que lance no mar do esquecimento.

 

Novo Nascimento

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto. Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão.” (Salmo 51:10 -13).

Davi expõe a essência da doutrina da salvação, de modo maravilhoso, pois Ele roga a Deus, que tem poder de trazer a existência do nada, o que ainda não existe, que crie um coração puro, em substituição ao coração de pedra, enganoso, que é descartado, com a circuncisão do coração.

O verbo hebraico para ‘criar’ é בָּרָא  (bara), e só Deus é o sujeito desse verbo. Como Deus ordenou para que os filhos de Israel criassem um novo coração, Davi clama a Deus, que tem o poder de realizar o que é impossível aos homens.

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” (Ezequiel 18:31).

Fazer um coração novo é deixar se circuncidar por Deus, que tirará o coração de pedra e dará um novo coração de carne.

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus, com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas.” (Deuteronômio 30:6);

“E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.” (Ezequiel 36:26).

Davi clama por um novo espírito, de modo que seja um espírito reto. E como isso é possível? Tornando-se templo de Deus:

“Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como, também, com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos.” (Isaías 57:15).

Como a lição do novo nascimento estava patente na Antiga Aliança, Jesus questionou Nicodemos, que sendo mestre em Israel, não compreendia essas coisas (João 3:10).

Em sua oração, Davi não se ocupa de mulheres, palácios, carros, exércitos, riquezas, etc., antes, em que o Senhor seja o seu sustento, a sua maior alegria. Estar na presença de Deus, vivificado pelo espírito do Senhor, é motivo de alegria.

“Mas alegrem-se os justos, se regozijem na presença de Deus e folguem de alegria.” (Salmos 68:3).

Davi roga para que a alegria da salvação seja restaurada e que seja sustentado com bom ânimo, o motivo para que Ele retransmita aos transgressores o conhecimento de Deus e eles se convertam.

O que Davi roga a Deus e confessa diante dos homens, Eliú apresenta como doutrina a Jó e aos seus amigos:

“E a sua alma se vai chegando à cova e a sua vida aos que trazem a morte. Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão, Então terá misericórdia dele e lhe dirá: Livra-o, para que não desça à cova; já achei resgate. Sua carne se reverdecerá mais do que era na mocidade e tornará aos dias da sua juventude. Deveras orará a Deus, o qual se agradará dele e verá a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça. Olhará para os homens e dirá: Pequei e perverti o direito, o que de nada me aproveitou. Porém, Deus livrou a minha alma de ir para a cova e a minha vida verá a luz. Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem, Para desviar a sua alma da perdição e o iluminar com a luz dos viventes” (Jó 33:22-30).

 

Sacrifícios e holocaustos

“Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça. Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor. Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos. Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus. Faze o bem a Sião, segundo a tua boa vontade; edifica os muros de Jerusalém. Então te agradarás dos sacrifícios de justiça, dos holocaustos e das ofertas queimadas; então se oferecerão novilhos sobre o teu altar” (Salmo 51:14 -19).

Por causa da tradição judaica em colocar uma estória no inicio dos capítulos dos Salmos, a ideia que se tem, acerca dos ‘crimes de sangue’, refere-se ao homicídio de Urias.

No entanto, os ‘crimes de sangue’ a que Davi faz referência diz de uma figura bíblica que remete a sacrifícios. Como Deus não se apraz em sacrifícios e nem se deleita em holocaustos, Davi se antecipa rogando a Deus que o livre de oferecê-los.

Como para Deus, quem sacrifica um boi é como quem mata um homem ou, quem sacrifica um cordeiro, como quem degola um cão (Isaías 66:3), em razão dos muitos sacrifícios em Israel, Deus os descreve com mãos manchadas de sangue ou, como homens de violência.

“Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.” (Isaías 1:15);

Ao propor que louvará a Deus, continuamente com a língua, rejeitando os sacrifícios, Davi faz o apresentado por Oséias:

“Tomai convosco palavras e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Tira toda a iniquidade e aceita o que é bom; e ofereceremos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios.” (Oseias 14:2);

“Aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará; e aquele que bem ordena o seu caminho, eu mostrarei a salvação de Deus.” (Salmo 50:23).

Um coração quebrantado e contrito são sacrifícios aceitáveis a Deus, diferente dos sacrifícios de animais, que Deus odeia. O coração contrito e quebrantado refere-se ao homem que reconhece o seu pecado e que recorre a Deus para ser salvo.

Basta invocar ao Senhor para o homem ser salvo (Joel 2:32) e Deus é glorificado:

“E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei e tu me glorificarás.” (Salmo 50:15);

“Oferecer-te-ei sacrifícios de louvor e invocarei o nome do SENHOR.” (Salmos 116:17).

Por fim, Davi roga a Deus que faça bem ao povo de Israel, segundo a sua boa vontade, protegendo-os (Salmo 51:18).

Quando a bênção de Deus sobre Sião é perene, segundo a sua boa vontade, Deus aceitará os seus moradores e, consequentemente, os seus sacrifícios e holocaustos.

Deus atenta, primeiramente, para o homem que se aproxima d’Ele, crendo que Ele é galardoador dos que O buscam e depois aceita a sua oferta. Mas, quando o homem tenta se aproximar de Deus, através da sua oferta, é rejeitado por Deus e a sua oferta, também.

“E Abel, também, trouxe dos primogênitos das suas ovelhas e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas, para Caim e para a sua oferta, não atentou. E irou-se Caim fortemente e descaiu-lhe o semblante.” (Gênesis 4:4-5).

Enfim, o Salmo 51 contém verdades maravilhosas, acerca de como se dá a salvação, mas, o homem natural, geralmente, se ocupará de questões de somenos importância, como genealogias, descendência, filiação, etc.

Conforme a exposição acima, o Salmo 51 não contém elementos para afirmar que Davi era um filho bastardo, ou, que era filho de uma prostituta. Qualquer assertiva acerca de quem foi a mãe de Davi, ficará preso em especulações.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 

[1] “A obediência exigida por Deus, que aceita em todas as nossas ações a vontade pelos atos, é um esforço sério de lhe obedecer e é, também, denominada com todos aqueles nomes que significam esse esforço. E, portanto, a obediência é umas vezes denominada com os nomes de caridade e amor, porque implicam a vontade de obedecer e, mesmo nosso Salvador, faz de nosso amor a Deus e ao próximo um cumprimento de toda a lei”. Hobbes de Malmesbury, Thomas, Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil, Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva.

“Obedecer é honrar, porque ninguém obedece a quem não julga capaz de ajudá-lo ou prejudicá-lo. Consequentemente, desobedecer é desonrar (…) Louvar, exaltar ou felicitar é honrar, pois nada é mais prezado do que a bondade, o poder e a felicidade. Depreciar, troçar ou compadecer-se é desonrar” (Idem), pág. 78.

[2] טוחה 02910 tuwchah ou (plural) טחות procedente de 2909 (ou 2902) no sentido de revestir; DITAT – 795b; n f pl 1) regiões interiores, recantos secretos, partes internas” Dicionário bíblico Strong.

 




Salmo 18 – A angustia do Servo do Senhor

O Salmo 18 nem de longe trata de questões relacionadas ao salmista Davi ou de suas conquistas pessoais, antes, inspirado pelo Espírito Eterno ele profetizou cerca do Messias ( 2Sm 22). O Salmo 18 fala de como Deus retribuiria o Cristo segundo a pureza de suas mãos, visto que, Cristo é o único homem a não cometer pecado “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pe 2:22 ).


A angustia do Servo do Senhor

Salmo 18

1 EU te amarei, ó SENHOR, fortaleza minha. 2 O SENHOR é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio. 3 Invocarei o nome do SENHOR, que é digno de louvor, e ficarei livre dos meus inimigos.

4 Tristezas de morte me cercaram, e torrentes de impiedade me assombraram. 5 Tristezas do inferno me cingiram, laços de morte me surpreenderam. 6 Na angústia invoquei ao SENHOR, e clamei ao meu Deus; desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face.

7 Então a terra se abalou e tremeu; e os fundamentos dos montes também se moveram e se abalaram, porquanto se indignou. 8 Das suas narinas subiu fumaça, e da sua boca saiu fogo que consumia; carvões se acenderam dele. 9 Abaixou os céus, e desceu, e a escuridão estava debaixo de seus pés. 10 E montou num querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento. 11 Fez das trevas o seu lugar oculto; o pavilhão que o cercava era a escuridão das águas e as nuvens dos céus.
12 Ao resplendor da sua presença as nuvens se espalharam, e a saraiva e as brasas de fogo. 13 E o SENHOR trovejou nos céus, o Altíssimo levantou a sua voz; e houve saraiva e brasas de fogo. 14 Mandou as suas setas, e as espalhou; multiplicou raios, e os desbaratou. 15 Então foram vistas as profundezas das águas, e foram descobertos os fundamentos do mundo, pela tua repreensão, SENHOR, ao sopro das tuas narinas. 16 Enviou desde o alto, e me tomou; tirou-me das muitas águas. 17 Livrou-me do meu inimigo forte e dos que me odiavam, pois eram mais poderosos do que eu. 18 Surpreenderam-me no dia da minha calamidade; mas o SENHOR foi o meu amparo. 19 Trouxe-me para um lugar espaçoso; livrou-me, porque tinha prazer em mim.

20 Recompensou-me o SENHOR conforme a minha justiça, retribuiu-me conforme a pureza das minhas mãos.
21 Porque guardei os caminhos do SENHOR, e não me apartei impiamente do meu Deus.
22 Porque todos os seus juízos estavam diante de mim, e não rejeitei os seus estatutos.
23 Também fui sincero perante ele, e me guardei da minha iniquidade.
24 Assim que retribuiu-me o SENHOR conforme a minha justiça, conforme a pureza de minhas mãos perante os seus olhos.
25 Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero;
26 Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável.

27 Porque tu livrarás o povo aflito, e abaterás os olhos altivos.
28 Porque tu acenderás a minha candeia; o SENHOR meu Deus iluminará as minhas trevas.
29 Porque contigo entrei pelo meio duma tropa, com o meu Deus saltei uma muralha.

30 O caminho de Deus é perfeito; a palavra do SENHOR é provada; é um escudo para todos os que nele confiam.
31 Porque quem é Deus senão o SENHOR? E quem é rochedo senão o nosso Deus?
32 Deus é o que me cinge de força e aperfeiçoa o meu caminho.
33 Faz os meus pés como os das cervas, e põe-me nas minhas alturas.
34 Ensina as minhas mãos para a guerra, de sorte que os meus braços quebraram um arco de cobre.
35 Também me deste o escudo da tua salvação; a tua mão direita me susteve, e a tua mansidão me engrandeceu.
36 Alargaste os meus passos debaixo de mim, de maneira que os meus artelhos não vacilaram.
37 Persegui os meus inimigos, e os alcancei; não voltei senão depois de os ter consumido.
38 Atravessei-os de sorte que não se puderam levantar; caíram debaixo dos meus pés.
39 Pois me cingiste de força para a peleja; fizeste abater debaixo de mim aqueles que contra mim se levantaram.
40 Deste-me também o pescoço dos meus inimigos para que eu pudesse destruir os que me odeiam.
41 Clamaram, mas não houve quem os livrasse; até ao SENHOR, mas ele não lhes respondeu.
42 Então os esmiucei como o pó diante do vento; deitei-os fora como a lama das ruas.
43 Livraste-me das contendas do povo, e me fizeste cabeça dos gentios; um povo que não conheci me servirá.
44 Em ouvindo a minha voz, me obedecerão; os estranhos se submeterão a mim.
45 Os estranhos descairão, e terão medo nos seus esconderijos.
46 O SENHOR vive; e bendito seja o meu rochedo, e exaltado seja o Deus da minha salvação.
47 É Deus que me vinga inteiramente, e sujeita os povos debaixo de mim;
48 O que me livra de meus inimigos; sim, tu me exaltas sobre os que se levantam contra mim, tu me livras do homem violento.
49 Assim que, ó SENHOR, te louvarei entre os gentios, e cantarei louvores ao teu nome,
50 Pois engrandece a salvação do seu rei, e usa de benignidade com o seu ungido, com Davi, e com a sua semente para sempre.

 

Este salmo seria um louvor de Davi pelas súplicas respondidas? Seria um agradecimento pelas ‘graças alcançadas’?

Não! Este salmo não foi composto para tratar das mazelas do dia a dia de um rei, antes é uma previsão que retrata o Cristo na condição de Servo do Senhor.

 

O amor

O salmista previu que a relação do Cristo com o Pai seria equivalente a de um senhor com um filho obediente ou com o seu servo, uma relação de amor (sujeição)! “EU te amarei, ó SENHOR, fortaleza minha” (v. 1).

Quando lemos: “Eu te amarei, ó Senhor”, não podemos pensar com a mente do homem moderno. O verso não apresenta uma relação baseada em sentimento, antes uma relação estabelecida em obediência, submissão. O ‘amor’ do Servo do Senhor revela-se em obediência. Não diz de um sentimento, mas da disposição em cumprir tudo o que lhe foi determinado.

O amor do verso 1 diz da obediência descrita por Samuel a Saul: “Porém Samuel disse: Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer  é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1Sm 15:22); “Porque eu quero o amor mais que os sacrifícios; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

Jesus disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama” ( Jo 14:21 ), e, de igual modo Jesus guardou os mandamentos do Pai (amou), pois Ele mesmo disse: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

O servo perfeito é aquele que obedece, e o servo que obedece é o que verdadeiramente ama. Cristo cumpriu a vontade do Pai, de modo que Ele foi o Servo perfeito “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ).

Cristo foi formado no ventre de Maria para ser o perfeito servo do Senhor “E agora diz o SENHOR, que me formou desde o ventre para ser seu servo, para que torne a trazer Jacó; porém Israel não se deixará ajuntar; contudo aos olhos do SENHOR serei glorificado, e o meu Deus será a minha força” ( Is 49:5 ).

Na condição de servo, Jesus se socorreu da palavra de Deus, ou seja, fortaleceu-se na força do Pai (v. 30 -31). A força de Cristo é o próprio Deus por intermédio da sua palavra que não volta vazia! ( Is 55:11 ).

O Salmista como profeta do Senhor evidencia: “O SENHOR é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio” (v. 2 compare com Is 49:5 ). O profeta Isaías evidencia as mesmas características pertinentes ao Servo do Senhor.

Invocar é o mesmo que confiar. O que confia invoca, e o que invoca é porque confia. O Senhor Jesus glorificava o Pai quando O invocava. Por confiar em Deus, ficou livre de seus inimigos “Invocarei o nome do SENHOR, que é digno de louvor, e ficarei livre dos meus inimigos” (v. 3).

 

Uma profecia acerca de Cristo

Há quem diga que o salmista adorou a Deus através deste salmo quando venceu Saul e os seus inimigos, porém, tal composição poética é profética e aponta para a vida, condição e os sentimentos de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus.

Quando lemos: “Tristezas de morte me cercaram, e torrentes de impiedade me assombraram. Tristezas do inferno me cingiram, laços de morte me surpreenderam” ( v. 4 e 5), não podemos pensar que o rei Davi estava compondo um ode às suas batalhas.

As ‘tristezas de morte’ que cercaram o Cristo diz da angustia que antecedeu a sua prisão no Getsêmani “Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” ( Mt 26:38 ). O salmo 94 descreve os opositores de Cristo como sendo homens que, com intrépido se arremetem contra a vida do Justo, e condenam o sangue inocente a pretexto de uma lei ( Sl 94:21 -22).

Nas palavras dos escribas e fariseus havia verdadeiros laços de morte. As palavras deles eram comparáveis ao laço do passarinheiro, pois buscavam acusar o Cristo de qualquer modo, porém, Jesus não foi enlaçado por eles.

Estes versos do Salmo 18 retratam o momento que antecede a crucificação, e o triunfo de Cristo estabelecido na cruz, pois confiou continuamente no Pai “Na angústia invoquei ao SENHOR, e clamei ao meu Deus; desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face” (v. 6). É este quadro que o Salmo 22 apresenta no verso 24: “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ).

Como homem Jesus estava fraco, emitia gemido de dores e o coração aterrorizado pelas agruras que haveria de passar ( Sl 38:8 -11; Mc 14:33 ; Lc 22:44 ), mas a sua confiança no Pai permaneceu firme conforme o descrito no verso 2.

A promessa de Deus para o Cristo foi específica: “Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:14 – 15).

No salmo 18 o Filho promete honrar (obedecer, amar) o Pai, já no salmo 91, o Pai promete livrá-lo, pois encarecidamente o obedeceu ( Sl 18:1 compare com Sl 91:14 ). Jesus confiou no Pai e entregou-se à morte, não fazendo caso da grande angustia ( Jo 10:17 -18). Ele enfrentou a paixão da morte, porém, a certeza da proteção do Pai foi consolo bem presente na angustia.

Quando o Filho em obediência ao Pai cumpriu o seu mandamento “… eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” ( Jo 10:18 ), ocorreu o descrito nos versos 7 à 13: “Então a terra se abalou e tremeu; e os fundamentos dos montes também se moveram e se abalaram, porquanto se indignou. Das suas narinas subiu fumaça, e da sua boca saiu fogo que consumia; carvões se acenderam dele. Abaixou os céus, e desceu, e a escuridão estava debaixo de seus pés. E montou num querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento. Fez das trevas o seu lugar oculto; o pavilhão que o cercava era a escuridão das águas e as nuvens dos céus. Ao resplendor da sua presença as nuvens se espalharam, e a saraiva e as brasas de fogo. E o SENHOR trovejou nos céus, o Altíssimo levantou a sua voz; e houve saraiva e brasas de fogo”.

Estes versos descrevem a ação sobrenatural de Deus vindo em socorro do seu Filho. Diante da indignação do Todo-poderoso, a criação não resiste. O verso 8 descreve a divindade na sua ira, indignação, pronto a tomar vingança.

O socorro é instantâneo segundo o poder contido no ecoar da voz do Pai.

Quando Jesus rendeu o seu espírito, muitos viram os seguintes eventos: “E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; E abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados” ( Mt 28:51 – 52).

O salmo 144 dá elementos para compreendermos a visão magnifica que o salmista teve. Após questionar quem era o Filho do homem e o motivo pelo qual o tem em alta estima, o salmista no Salmo 144, verso 4, demonstra que os dias do Messias na terra seriam curtos ( Is 53:8 ).

Em seguida, temos a palavra profética do Cristo de Deus clamando para que Deus abaixe os céus e venha em seu socorro ( Sl 144:5 ). Que Deus estenda as suas mãos e o retire das muitas águas, das mãos dos que não conhecem ao Senhor ( Sl 144:6 ; Ap 13:1 ).

Já o salmo 97 apresenta o Cristo glorificado e assentado no trono da sua majestade. Os mesmos elementos que há no salmo 18 e 144 aplicam-se ao Senhor que retornou à sua glória e está entronizado. O Senhor Jesus é descrito como possuindo um fogo que vai adiante transformando os seus inimigos em carvão ( Sl 97:3 ). A sua glória é descrita como a luz dos relâmpagos, o que faz os moradores da terra tremerem. Os montes se derreteram, ou seja, as nações se derretem na presença do Senhor, a quem pertence a terra e toda a sua plenitude ( Sl 97:5 ).

 

Salmo 104 e Salmo 18

A mesma descrição do salmo 18 que se refere a Deus é aplicada ao Cristo glorificado no salmo 104, o que indica a divindade de Cristo “Ele se cobre de luz como de um vestido, estende os céus como uma cortina. Põe nas águas as vigas das suas câmaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as asas do vento. Faz dos seus anjos espíritos, dos seus ministros um fogo abrasador” ( Sl 104:2 -4).

Enquanto os algozes de Cristo pensavam que eram vitoriosos pela empreitada que deu cabo da existência do Filho do homem neste mundo, Deus estabeleceu a vitória do seu Ungindo e dos seus servos ( Is 53:8 ). Oculto dos olhos dos homens, enquanto os montes se moviam e se abalavam, Deus tomou vingança contra os inimigos do seu Ungido.

Nos versos 16 e 17, a previsão do salmista descreve como Cristo foi socorrido. Deus enviou socorro do alto e tirou-o da turba que se insurgiu contra Ele (águas). Quando Cristo morreu na cruz, ficou livre dos seus opositores, que naquele momento eram mais fortes e descritos como touros de Basã “Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam” ( Sl 22:12 ; Sl 18:16 e 17; At 4:27). Neste verso, ‘águas’ refere-se aos homens, conforme se depreende do paralelismo existente na seguinte citação: “Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza (…) Os gentios se embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a terra se derreteu” ( Sl 46: 3 e 6; Sl 124:2 e 3; Sl 144:7 ; Ap 17:15 ).

Apesar da calamidade que se abateu sobre Cristo, o Senhor foi o seu amparo ( Sl 18:18 ). Apesar da morte de cruz, Cristo foi arrancado do lamaçal e os seus pés posto em lugar firme e espaçoso “… livrou-me, porque tinha prazer em mim” (v. 19; Sl 40:2 ). O livramento que o Pai lhe proporcional se deu porque Cristo era aprazível ( Mc 1:11 ).

Deus retribuiu o seu Filho amado segundo a sua retidão. Segundo a pureza de suas mão, o Cristo de Deus foi recompensado ( Sl 18:20 ; Sl 15 ; Sl 24:4 ). Cristo deleitou-se em fazer a vontade do Pai ( Sl 40:8 -10), ou seja, cumpriu tudo o que estava predito nas Escrituras.

Cristo foi o único homem que se apresentou diante de Deus com mãos puras, pois permaneceu no caminho do Senhor, não rejeitou os seus decretos, foi sincero e guardou-se da iniquidade ( Sl 18:24 ). O salmo 26 descreve a condição do Messias, o único que pode clamar ao Senhor para ser provado e examinado, pois foi integro e justo em todos os seus caminhos “Lavo as minhas mãos na inocência (…) Mas eu ando na minha sinceridade; livra-me e tem piedade de mim” ( Sl 26:6 e 11 ).

Somente o Cristo-homem foi bom, sincero e puro diante de Deus. Estas qualidades não são próprias dos homens gerados de Adão, pois com relação aos nascidos segundo a carne não há quem faça o bem (v. 25- 26).

Se todos os homens juntamente se desviaram e não há se quer um que faça o bem, como Davi poderia considerar que era puro de mãos e merecedor da benignidade de Deus conforme a sua própria bondade? ( Sl 14:3 ; Sl 51:5 ; Sl 58:3 ).

O salmista apresenta um princípio inviolável: “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” ( Sl 18:25 -26), o mesmo que foi dito a Moisés: “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Êx 33:19 ).

Estes versos são mal compreendidos, pois utilizam para enfatizar a soberania de Deus, mas, o que eles evidenciam é a justiça de Deus. Tais versos foram interpretados pelo apóstolo Paulo: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Deus se mostra benigno para os que O obedecem, mas para os que se apartam de Deus, não há compaixão. Deus só tem misericórdia dos misericordiosos, de modo que Ele se compadece dos que O obedecem.

O salmo enfatiza que Deus salva os humildes, os aflitos, porém, abate os soberbos, os altivos. Ora, os humildes são aqueles que reconhecem a sua miséria e invocam o Senhor em busca de salvação. Já os altivos, são aqueles que confiam na força dos seus braços, que faz da carne a sua salvação. Estes são aqueles que confiam que são salvos por serem descendentes da carne de Abraão (v. 27).

Em nossos dias também há muitos ‘altivos’. São pessoas que não confiam em Deus que salva, antes depositam a sua confiança em prática tais como jejuns, orações, sacrifícios, votos, etc.

O verso 28 demonstra que Cristo não confiaria da carne como os seus compatriotas, antes repousaria em Deus, que é Luz. É Deus que manteve a candeia do Cristo e o guiaria em meio às trevas. Como homem Jesus dependeu inteiramente do Pai, sendo luz para o seu povo e para os gentios “Ali farei brotar a força de Davi; preparei uma lâmpada para o meu ungido” ( Sl 132:17 ). Certo é que a palavra de Deus é lâmpada para os pés ( Pv 6:23 ; Sl 119:130 ).

Neste verso, ‘luz’ deve ser interpretada como entendimento, compreensão, e ‘trevas’ deve ser interpretado como ‘ignorância’, ‘simplicidade’, ‘inocência’ (v. 28); “Aos justos nasce luz nas trevas; ele é piedoso, misericordioso e justo” ( Sl 112:4 ).

Com o auxilio do Pai, Jesus esteve no meio de um exército de inimigos. Em meios aos seus inimigos Jesus não voltou atrás na missão de cumprir a vontade de Deus. Fazer a vontade do Pai era a comida de Cristo “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

É por isso que o profeta Davi predisse: “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda” ( Sl 23:5 ). Ir ao calvário diz da mesa preparada na frente dos inimigos do Cristo, pois ali Jesus estava fazendo a vontade de Deus. Como fazer a vontade do Pai era a comida de Jesus, e o calvário era da vontade do Pai, morrer na cruz era uma mesa posta na presença dos inimigos de Cristo.

O sacrifício do cordeiro de Deus que tira ao pecado do mundo era uma mesa farta preparada aos olhos dos inimigos. Ele foi o escolhido de Deus para beber do cálice que o Pai apresentou “E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” ( Mt 26:39 ).

Todos que aceitarem a Cristo tornam-se participantes da mesa posta, ou seja, da obediência de Cristo e fazem a vontade de Deus “E eles lhe disseram: Podemos. Jesus, porém, disse-lhes: Em verdade, vós bebereis o cálice que eu beber, e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado” ( Mc 10:39 ). Como a morte de Cristo foi em obediência ao Pai, houve substituição de ato, obediência pela desobediência, e tragada foi a morte na vitória: o último Adão obedeceu, todos que dele são gerados herdam a benesse de viver eternamente, contrapondo ao primeiro Adão, que desobedeceu, e todos que dele são gerados estão mortos em delitos e pecados ( Rm 5:18 ).

A oposição da multidão não impediu que Cristo realizasse a vontade de Deus ( Lc 4:29 -30). O que Deus estabeleceu é perfeito, pois a sua palavra é pura e serve de escudo para os que confiam em Deus ( Sl 91:4 ).

 

O Servo obediente

Por submeter-se ao Pai, Cristo é o perfeito caminho. A palavra provada e fiel. Ele é escudo para os que n’Ele confiam. Cristo é a rocha para os n’Ele confiam. Ele é a fé pela qual o justo viverá. Ele é o firme fundamento, e prova das coisas que se esperam.

Daí o testemunho das escrituras da divindade de Cristo: “Porque quem é Deus senão o Senhor?”. É o Pai que ordena ao Filho que se assente à sua direita nas alturas ( Sl 110:1 ).

As possibilidades atinentes ao Messias advinham de Deus, em quem Ele confiava, de modo que estava revestido da armadura de Deus (v. 32 ; Ef 6:10 ). Assim como o caminho dos justos é comparável à luz da aurora, que vai brilhando até a perfeição, em Deus está a plenitude (v. 32).

É Deus que protege os pés, adestra as mãos e alça o seu Filho à vitória por intermédio da sua palavra ( Sl 18:33 -35 ; Is 59:17 ). A descrição deste salmo demonstra que Jesus foi participante de todas as fraquezas pertinente aos homens e em tudo foi tentado, porém, sem pecado ( Hb 4:15 e Hb 5:7 ).

Após descrever a força que Deus lhe proporcionou, de modo que submeteu debaixo dos seus pés os seus inimigos (v. 36 -40 ), no verso 41 fica claro que os inimigos do Messias são os filhos de Jacó, pois eles clamaram a Deus, porém, não foram atendidos “Clamaram ao Senhor, mas ele não lhes respondeu” ( Sl 18:41 ).

Cristo os esmiuçou ( Mt 21:44 ). Cristo foi livre dos ataques do povo e foi feito cabeça das nações ( Is 42:6 ; Is 49:6 e At 13:47 ). Um povo que Ele não conhecia, passaram a servi-lo. Esta profecia tem duplo cumprimento: a) através da igreja, e; b) no milênio, como rei das nações ( Sl 2 ).

Cristo é a cabeça da igreja, que é o seu corpo. A igreja é o povo escolhido dentre gentios e judeus, formado para louvor e glória de Deus.

O salmo deixa claro que a vingança pertence ao Cristo glorificado, que após perseguir velozmente os seus inimigos, abateu a todos (v. 37 -38). Este feito foi profetizado no Salmo 110, verso 1. É Deus quem sujeita os povos a Cristo. É Deus que livrou o Cristo do levante dos homens violentos, ou seja, daqueles que fazem da sua carne o seu braço, a sua força (violento).

O apóstolo Paulo aplica o Salmo 18 à pessoa de Cristo quando cita o verso 49: “Digo, pois, que Jesus Cristo foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos pais; E para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: Portanto eu te louvarei entre os gentios, E cantarei ao teu nome. E outra vez diz: Alegrai-vos, gentios, com o seu povo. E outra vez: Louvai ao Senhor, todos os gentios, E celebrai-o todos os povos. Outra vez diz Isaías: Uma raiz em Jessé haverá, E naquele que se levantar para reger os gentios, Os gentios esperarão” ( Rm 15:8 -12; Sl 18:49 ).

Deus dá vitórias ao rei que Ele elegeu “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião” ( Sl 2:6 ). Deus usou de benignidade para com o seu Ungido, que é Cristo. Também usou de benignidade para cm Davi, pois da casa de Davi veio o Cristo. Deus usa de benignidade para com os descendentes do seu Ungido, pois é esta a promessa que Ele fez “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ; Sl 18:50 ).

Todos que ouvem e aprendem de Cristo, que é humilde e manso de coração, tornam-se participantes das firmes beneficências prometidas a Davi. Cristo é o servo do Senhor que produz descendência a Abraão. Cristo é a semente que produz filhos a Deus “Porém tu, ó Israel, servo meu, tu Jacó, a quem elegi descendência de Abraão, meu amigo” ( Is 41:8 ).

Para compreendermos esta colocação de Isaías, temos que nos socorrer do apóstolo Paulo, que disse: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” ( Gl 3:16 ).

O Israel servo do Senhor, ou o Jacó eleito, diz de Cristo, o descendente de Abraão. É por Isso que o evangelista Mateus diz que a profecia de Oséias fez referencia a Cristo “E esteve lá, até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho” ( Mt 2:15 ); “QUANDO Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho” ( Os 11:1 ).

Muitos entendem que Deus amou especificamente o povo de Israel, porém, esquecem que dos que saíram do Egito, somente dois não pereceram no deserto. Quando o verso diz que Deus amou Israel, significa que Deus cuidou, preservou a Israel, visto que Deus fez aliança com os patriarcas “O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito (…) e para confirmar a palavra que o SENHOR jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó” ( Dt 7:7 -8 e Dt 9:5 ).

O sentido da profecia é: Deus cuidou (amou) de Israel para que fosse possível trazer o seu Filho a existência, pois esta foi a promessa feita a Abraão. Deus não prometeu salvar os filhos da carne de Abraão, antes que traria a existência, por meio da carne de Abraão, o seu Filho Jesus Cristo.

Em outras palavras, quando Israel foi formado, Deus cuidou (amou) deles resgatando-os do Egito, de modo que o ato de resgatar o povo de Israel é o que proporcionou trazer o seu Filho Jesus Cristo a existência, confirmando a promessa feita aos pais.

Após analisar o Salmo 18, lembremos-nos das palavras de Cristo: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ). O que me leva a concluir que, assim como muitos outros salmos, o Salmo 18 é um testemunho vivo de quem é o Cristo de Deus.




Salmo 38 – O Servo cego e mudo

Nesta previsão o salmista descreve o Cristo, o Servo do Senhor como cego e mudo, pois não julgava segundo o olhar de suas vistas.


Salmo 38 – O Servo cego e mudo

1  Ó SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor.
2  Porque as tuas flechas se cravaram em mim, e a tua mão sobre mim desceu.
3  Não há coisa sã na minha carne, por causa da tua cólera; nem há paz em meus ossos, por causa do meu pecado.
4  Pois já as minhas iniquidades sobrepassam a minha cabeça; como carga pesada são demais para as minhas forças.

5  As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas, por causa da minha loucura.
6  Estou encurvado, estou muito abatido, ando lamentando todo o dia.
7  Porque as minhas ilhargas estão cheias de ardor, e não há coisa sã na minha carne.
8  Estou fraco e mui quebrantado; tenho rugido pela inquietação do meu coração.
9  Senhor, diante de ti está todo o meu desejo, e o meu gemido não te é oculto.
10  O meu coração dá voltas, a minha força me falta; quanto à luz dos meus olhos, ela me deixou.
11  Os meus amigos e os meus companheiros estão ao longe da minha chaga; e os meus parentes se põem à distância.
12  Também os que buscam a minha vida me armam laços e os que procuram o meu mal falam coisas que danificam, e imaginam astúcias todo o dia.
13  Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca.
14  Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação.
15  Porque em ti, SENHOR, espero; tu, Senhor meu Deus, me ouvirás.

16  Porque dizia eu: Ouve-me, para que não se alegrem de mim. Quando escorrega o meu pé, eles se engrandecem contra mim.
17  Porque estou prestes a coxear; a minha dor está constantemente perante mim.
18  Porque eu declararei a minha iniquidade; afligir-me-ei por causa do meu pecado.
19  Mas os meus inimigos estão vivos e são fortes, e os que sem causa me odeiam se multiplicam.
20  Os que dão mal pelo bem são meus adversários, porquanto eu sigo o que é bom.
21  Não me desampares, SENHOR, meu Deus, não te alongues de mim.
22  Apressa-te em meu auxílio, Senhor, minha salvação.

 

Introdução

As escrituras apontam inequivocamente que os salmos são profecias e que tais profecias aplicam-se à pessoa de Cristo ( 1Cr 25:1 ; Lc 24:44 ; Jo 5:39 ; Sl 40:7 ; At 8:34 ; At 2:30 -31).

Muitos salmos apontam para a deidade de Cristo ( Sl 45:6 -7 ; Hb 1:8 -9 ), outros abordam a filiação divina ( Sl 2:7 ), o seu sofrimento ( Sl 22), o seu reino ( Sl 132:11 ), sua obra ( Sl 118:16 -26), etc.

Alguns salmos apresentam o Messias na condição de Servo do Senhor ( Sl 40:6 -8 ; Hb 10:5 -7), porém, nestas previsões há alusão à iniquidades, erros, pecados, falhas, etc., o que geralmente impede de os interpretes aplicarem o salmo à pessoa de Cristo e aplicam-no ao rei Davi.

Cristo viveu entre os homens e, apesar de se sujeitar às mesmas fraquezas pertinentes aos homens, foi isento de pecado “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” ( Hb 4:15 ).

Porém, não podemos deixar de demonstrar que os salmos 31, 38, 39, 40, 41, etc., são messiânicos e aplicam-se integralmente à pessoa de Cristo, porém, a pessoa de quem o salmo trata, a exemplo do salmo 38, verso 18, temos o sujeito principal declarando sua iniquidade e que estava aflito por seu pecado: “Porque eu declararei a minha iniquidade; afligir-me-ei por causa do meu pecado” ( Sl 38:18 ).

Tais declarações ‘minha iniquidade’ ou ‘meu pecado’ levam os interpretes a recusarem sua aplicação à pessoa do Messias, mas resta a pergunta: o salmo aplica-se a Cristo ou não? Como poderia as Escrituras fazer alusão ao Messias, o Cordeiro de Deus inocente, declarando iniquidade e pecado? A previsão do salmista aplica-se a Cristo ou não?

Para levarmos adiante esta questão, se faz necessário lembrar que Cristo é o Servo do Senhor e, que na condição de servo é descrito como cego e surdo “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ).

Também devemos lembrar a figura dos dois bodes: o da expiação e o emissário ( Lv 16:8 ), sendo que este último permanecia vivo e levava sobre si o pecado do povo ao deserto e aquele era oferecido a Deus para expiação do pecado.

O que chama a atenção nesta passagem de Levítico é que, o bode emissário, sobre o qual recaía o pecado de todo o povo, era conduzido ao deserto, ou seja, levado, guiado “E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso” ( Lv 16:21 ).

Ora, o bode levava sobre a sua cabeça todas as iniquidades, transgressões e pecados dos filhos de Israel, porém, era enviado ao deserto pela mão de um homem. O que isto significa? Que o bode necessitava de um condutor. Tomando o bode como figura, ele necessitava de um condutor do mesmo modo que um cego necessita. Portanto, daí advém a figura do Servo do Senhor sendo caracterizado como cego e surdo.

O texto mostra que Cristo é o Servo do Senhor cego e mudo e, que o bode da expiação e o bode emissário são figuras representativas da sua obra redentora e, portanto, quando da leitura dos salmos onde se tem um verso semelhante a este: “Porque eu declararei a minha iniquidade; afligir-me-ei por causa do meu pecado” ( Sl 38:18 ), se fez necessário verificar se há alguma alusão à cegueira ou surdez, como se lê no mesmo salmo: “Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca. Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação” ( Sl 38:13 -14), porque esta característica é um dos elementos que confirma a aplicabilidade integral à pessoa do Messias.

Deste modo, o leitor criará um paralelo entre as ideias seguintes:

  • Que o castigo que traz a paz foi aplicado a Cristo ( Is 52:5 );
  • Que ele foi contado entre os transgressores;
  • Levou sobre si o pecado de muitos;
  • Intercedeu pelos transgressores ( Is 52:12 ; Hb 2:17 ; Hb 4:15 ).

O interprete precisa ser perspicaz e perceber que, geralmente quando o salmo faz referencia ao Servo do Senhor através das figuras surdo e mudo, também fará alusão ao Messias declarando a sua iniquidade e o seu pecado “Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca. Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação (…) Porque eu declararei a minha iniquidade; afligir-me-ei por causa do meu pecado” ( Sl 38:13 -14 e 18).

Em algumas previsões dos salmistas teremos no mesmo verso alusão à transgressão e à característica própria exclusiva do Servo do Senhor “Livra-me de todas as minhas transgressões; não me faças o opróbrio dos loucos. Emudeci; não abro a minha boca, porquanto tu o fizeste” ( Sl 39:8 -9).

Tais previsões apresenta a fala do Servo do Senhor na primeira pessoa apontando as iniquidades e a impossibilidade de enxergar “Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniquidades me prenderam, e não posso ver. São mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; assim desfalece o meu coração” ( Sl 40:12 ).

Ou, quando na previsão o Servo do Senhor clama porque ‘pecou’, invariavelmente o texto aplica-se a pessoa de Cristo, conforme Ele mesmo atestou aos seus discípulos “Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido; mas para que se cumpra a Escritura: O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar” ( Jo 13:18 ); “Dizia eu: SENHOR, tem piedade de mim; sara a minha alma, porque pequei contra ti (…) Até o meu próprio amigo íntimo, em quem eu tanto confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar” ( Sl 41:4 e 9 ).

Portanto, os leitores dos salmos precisam dar atenção especial a esta peculiaridade das previsões, pois fazem referencia ao Servo do Senhor que, sendo cego e mudo, levaria sobre si o pecado de muitos e que tais salmos, na essência, apresentam a intercessão d’Ele pelos transgressores.

Também é recomendável considerar que os tradutores da Bíblia, geralmente a traduziram da língua original para a nossa língua considerando, em muitos casos, que o salmista falava acerca de si mesmo, ou seja, que era somente um poema como expressão da alma do salmista, sem considerar que eram previsões segundo o Espírito de profecia ( 2Pe 1:21 ; Ap 19:10 ).

O cordeiro de Deus

1 Ó SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor. 2 Porque as tuas flechas se cravaram em mim, e a tua mão sobre mim desceu. 3 Não há coisa sã na minha carne, por causa da tua cólera; nem há paz em meus ossos, por causa do meu pecado. 4 Pois já as minhas iniquidades sobrepassam a minha cabeça; como carga pesada são demais para as minhas forças.

Esta é uma previsão de Davi acerca de Cristo, porém, esta profecia retrata o Messias na condição de Servo do Senhor como cego e mudo.

Nesta previsão temos o Servo do Senhor rogando para não ser repreendido e castigado segundo a cólera e furor de Deus. Por que ele faz esta intercessão? Porque a previsão apontava o Servo do Senhor como alvo das flechas da ira e furor de Deus seriam direcionadas (v. 2).

Em decorrência do castigo divino a previsão descreve em minúcias a condição física e psicológica do Servo do Senhor (v. 3), sendo que, a previsão é narrada na perspectiva do Messias, embora a pena utilizada fosse a do salmista Davi, porém, na previsão o Servo do Senhor certifica que o seu estado era em decorrência do pecado.

A Bíblia nos informa que Cristo jamais pecou ou se achou engano na sua boca, porém, na condição de Servo do Senhor, Ele tomou sobre si o pecado da humanidade ( Is 53:4 ) e intercede pelos transgressores ( Is 53:12 ), portanto, quando lemos o verso 3 e 4 do Salmo 38, temos o Servo do Senhor fazendo a intercessão sacerdotal em prol da humanidade.

Um sacerdote, quando intercede, não utiliza a frase: “Ó Senhor, perdoa-os, pois eles transgrediram”, antes o sacerdote inclui-se na intercessão em favor dos transgressores, principalmente quando o sacerdote é servo, cordeiro, bode expiatório e bode emissário “E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso” ( Lv 16:21 ; Is 53:7 ).

Os pecados da humanidade fê-lo enfermar e Ele descreve as culpas que lhe foram postas sobre a sua cabeça como sendo um fardo pesado em demasia. O Servo e mensageiro do Senhor foi enviado para abrir os olhos dos cegos e abrir os ouvidos dos surdos ( Is 42:7 e 18 ); “Quem é cego, senão meu servo, e surdo como o mensageiro que envio? (Quem é cego como o meu mensageiro e surdo como o servo do Senhor?)” ( Is 42:19 ), pois Ele levou sobre si o pecado da humanidade.

 

Agruras da cruz

5 As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas, por causa da minha loucura. 6 Estou encurvado, estou muito abatido, ando lamentando todo o dia. 7 Porque as minhas ilhargas estão cheias de ardor, e não há coisa sã na minha carne. 8 Estou fraco e mui quebrantado; tenho rugido pela inquietação do meu coração. 9 Senhor, diante de ti está todo o meu desejo, e o meu gemido não te é oculto.

A transgressão da humanidade que o Servo do Senhor se encarregou de conduzir sobre si são descritas como chagas fétidas e purulentas (v.5 ; Is 53:4 ).

O sofrimento físico é descrito nos versos 6 a 8, pois fazem referência ao seu corpo no dia do seu julgamento e crucificação, vez que suas ilhargas ardiam porque foi chicoteado e entregue aos soldados, coroaram-no de espinhos, deram-lhe bofetadas e bateram em sua cabeça com uma cana, por isso não há cousa sã na sua carne (v. 7) e quanto ao seu coração diz do sua aflição psíquica, pois em outro salmo diz que este se derreteu em suas entranhas devido ao sofrimento (v. 8 ; Sl 22:14 ).

O desejo de fazer a vontade do Pai acarretou gemido, porém, o desejo de fazer a vontade do Pai triunfou sobre o gemido (v. 9), pois lhe foi dado o cálice a beber, expressão da vontade do Pai “E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ).

 

Abandono

10 O meu coração dá voltas, a minha força me falta; quanto à luz dos meus olhos, ela me deixou. 11 Os meus amigos e os meus companheiros estão ao longe da minha chaga; e os meus parentes se põem à distância. 12 Também os que buscam a minha vida me armam laços e os que procuram o meu mal falam coisas que danificam, e imaginam astúcias todo o dia.

O verso 10 demonstra que o sofrimento do Messias o levaria a exaustão ( Sl 22:15 ), momento em que tornou-se cego, pois a luz dos seus olhos o deixou (v. 10 ; Mc 15:21 -22).

Nesta previsão o salmista faz referência aos familiares e aos amigos de Jesus, que na hora amarga se puseram ao longe (v. 11; Mc 14:50 ).

O verso 12 faz referência aos principais dos judeus, fariseus, escribas, etc., que além de quererem matá-lo, estavam sempre procurando uma maneira astuciosa de tentá-lo para ver se Ele caía em alguma contradição “E, entendendo ele a sua astúcia, disse-lhes: Por que me tentais?” ( Lc 20:23 ); “Mas agora procurais matar-me, a mim, homem que vos tem dito a verdade que de Deus tem ouvido; Abraão não fez isto” ( Jo 8:40 ); “Ó espada, desperta-te contra o meu pastor, e contra o homem que é o meu companheiro, diz o SENHOR dos Exércitos. Fere ao pastor, e espalhar-se-ão as ovelhas; mas volverei a minha mão sobre os pequenos” ( Zc 13:7 ).

 

O servo cego e mudo

13 Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca. 14 Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação.

Após descrever o cenário a sua volta, o salmista profeticamente passa a descrever o Servo do Senhor na perspectiva da sua missão.

Diante dos malfeitores que procuravam enlaçar e matar o Cristo, Ele diz de si mesmo que, como surdo não ouvia e, como mudo nada dizia. O que isto quer dizer, além de ser uma característica profética do Servo do Senhor?

O profeta Isaías faz a mesma abordagem profética: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” ( Is 42:19 -20).

Em primeiro lugar esta profecia deixou claro ao Messias que Ele de si mesmo nada podia fazer, pois como Servo enviado de Deus tinha que buscar a vontade do Pai “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ).

Em segundo lugar, Jesus não podia julgar ninguém, pois toda a humanidade já estava sob condenação “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo ( Jo 8:15 ; Jo 5:45 ).

Portanto, o Servo do Senhor julgava tudo que ouvia dos homens e emitia um juízo segundo a vontade do Pai, e o seu juízo era justo “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ).

No verso 14 o Messias é descrito como aquele que não condenaria ninguém, pois seria um contra censo julgar e condenar aqueles que já estão apenados com a alienação de Deus em decorrência da queda de Adão, antes a sua missão era resgatar o mundo ( Rm 5:16 ; “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” ( Jo 12:47 ).

 

O sofrimento do Messias

15 Porque em ti, SENHOR, espero; tu, Senhor meu Deus, me ouvirás. 16 Porque dizia eu: Ouve-me, para que não se alegrem de mim. Quando escorrega o meu pé, eles se engrandecem contra mim. 17 Porque estou prestes a coxear; a minha dor está constantemente perante mim. 18 Porque eu declararei a minha iniquidade; afligir-me-ei por causa do meu pecado.

Novamente o salmista descreve a confiança do Messias em Deus ( Sl 40:1 ).

Segundo a vontade do Pai, o Messias roga que não se permita que os seus opressores se alegrem e se engrandeçam quando vissem a sua queda (sofrimento e morte).

Nesta previsão temos descrito um momento em que o Messias, segundo a perspectiva dos seus inimigos, esteve prestes a cair e, a certeza dele frente a pena, a ignomínia que sofreria nas mãos dos pecadores (v. 17).

Diante da ignomínia, do sofrimento que lhe seria impingido, o Servo do Senhor declara a sua culpa em lugar dos transgressores, e afligia sua alma por causa do pecado (v. 18).

 

19 Mas os meus inimigos estão vivos e são fortes, e os que sem causa me odeiam se multiplicam. 20 Os que dão mal pelo bem são meus adversários, porquanto eu sigo o que é bom. 21 Não me desampares, SENHOR, meu Deus, não te alongues de mim. 22 Apressa-te em meu auxílio, Senhor, minha salvação.

O salmista descreve os inimigos do Messias como sendo fortes ( Sl 22:12 ), e enfatiza o sentimento destrutivo deles ( Sl 35:19 e Sl 69:4 ).

Uma das características dos opositores do Messias é retribuir com o mal o bem que Ele promoveu. Como? Caluniando, acusando, difamado, etc. ( Mc 3:22 ; Jo 10:20 ).

A previsão do salmista termina com o Servo do Senhor clamando por auxílio, requerendo do Senhor proximidade (v. 22).




Salmo 23 – O Senhor é o meu pastor, nada me faltará

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará! O ‘cálice transbordante’ é símbolo de alegria ou de ignominia? A ‘mesa preparada’ propõe reconciliação com o inimigo, ou aponta para a vítima da festa? O Salmo 23 é uma parábola que faz referência a um rebanho, ou é uma profecia acerca de uma ovelha específica? O Salmo 23 só ganha sentido quando analisado sob o prisma da vítima perfeita escolhida e preservada por Deus: o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo: “Mas Jesus disse a Pedro: Põe a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” ( Jo 18:11 ).


Salmo 23 – O Senhor é o meu pastor, nada me faltará

Salmo 23

  1. O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.
  2. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.
  3. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.
  4. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
  5. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.
  6. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias.

 

Leia também: Salmo 91

 

Introdução

À época de Jesus, os judeus liam diariamente as Escrituras porque entendiam que elas contêm vida eterna, porém, quando a vida eterna que estava junto ao Pai se manifestou, rejeitaram o Verbo da vida ( 1Jo 1:1 -2; Rm 2:20 ). É neste contexto que Jesus disse: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Para analisar o Salmo 23, seguiremos a orientação de Jesus: “São elas (as Escrituras) que de mim testificam”, ou seja, os salmos, os profetas e a lei apresentam o testemunho de Cristo “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” ( Lc 24:44 ).

O salmista Davi era profeta e os seus cânticos são profecias acerca de Cristo em forma de poesia ( Mc 12:36 ; At 2:30 e 1Cr 25:1 ).

O Salmo 23 nos faz lembrar que todos os que creem em Cristo são ovelhas do Seu rebanho, porém, diferente do que muitos foram condicionados a pensar, o Salmo 23 não apresenta a expressão de um rebanho de ovelhas, antes é a expressão de confiança de uma ovelha específica: ‘O Senhor é o meu pastor…’, e não o Senhor é o ‘nosso’ pastor.

O segredo para interpretar as figuras e os enigmas do Salmo 23 está em descobrir quem é a pessoa que expressa tamanha confiança em Deus. Como o salmo 23 não foi composto da perspectiva de um rebanho, antes apresenta a perspectiva de uma única ovelha, devemos responder a pergunta feita pelo eunuco da rainha de Candace: “E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” ( At 8:34 ).

Através da exposição de Filipe fica claro que um profeta não profetiza acerca de si mesmo. Como profeta, Davi não foi diferente de Isaías, ambos profetizavam acerca do Messias. Para descobrir quem é a pessoa que assume a condição de ovelha confiante em Deus é essencial visualizar os salmos como profecias que apresentam aspectos da vida, morte e ressurreição de Cristo.

Há um aspecto essencialmente importante a se considerar antes de interpretar o Salmo 23: a vítima da festa. Para um cordeiro ser oferecido em holocausto, segundo a lei, devia ter um ano de idade e sem defeito algum, portanto, para a oferta ser agradável a Deus, o pastor devia dispensar um cuidado especial para com a vítima.

O cuidado do pastor era indispensável para que a ovelha chegasse à idade estabelecida sem qualquer defeito como cegueira, quebradura, aleijamento, verrugas, sarnas, impigens, etc. “O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras” ( Êx 12:5 ).

Diante da necessidade e do volume de oferendas pela expiação, as ovelhas para o sacrifício tinham que receber cuidados especiais para não faltar vítimas de um ano e sem defeito. O cuidado do pastor era indispensável para que a ovelha estivesse à altura da sua missão: posta como vítima da festa para expiação ( Nm 6:14 ).

Deus escolheu Cristo como a vítima da festa a ser atada sobre o altar ( Sl 118:27 ), concomitantemente, o Cordeiro de Deus recebeu um cuidado específico e efetivo para cumprir a missão do Sumo Pastor, que colocou a alma de Cristo por expiação dos pecados da humanidade ( Is 53:10 ).

O Salmo 23 apresenta o Cordeiro de Deus sob cuidado do Sumo Pastor, pois Ele foi enviado como a vítima para o sacrifício perfeito ( Is 53:7 ). Muitos, equivocadamente, buscam e pedem a proteção exarada no Salmo 23, porém, não atinam que a proteção nele descrita tem em vista um cálice “Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos” ( Mt 20:22 ).

O salmo 23 é uma parábola, e como parábola contém várias figuras que compõe um enigma. Primeiro desvendaremos as figuras que compõe o enigma e, ao final da releitura do Salmo 23, apresentaremos o significado da parábola.

 

O Senhor é Deus fiel

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará” (v. 1)

Temos neste verso uma expressão de confiança: O Senhor é o meu pastor, e, em seguida, uma conclusão: nada me faltará. Como poesia, há nesta frase do Salmo um paralelismo sintético construtivo ou formal, em que a segunda parte da frase amplia ou acrescenta nova ideia a asserção anterior.

Vale destacar algumas nuances linguísticas pertinentes à segunda assertiva da frase ‘… nada me faltará’.  Segundo os linguistas que trabalham o hebraico, o verso 1 do Salmo 23 pode ser traduzido por: “O Senhor é pastagem”, isto porque o termo ‘pastagem’ no hebraico assemelha-se ao possessivo ‘meu pastor’ por possuírem radicais idênticos com sutil diferença quanto aos pequenos sufixos e pontuações.

Para uma interpretação segura, vale lançar mão de outro salmo. O Salmo 16, verso 2 e 5, assim reza: “A minha alma disse ao SENHOR: Tu és o meu Senhor. Não tenho outro bem além de ti (…) O SENHOR é a porção da minha herança e do meu cálice” ( Sl 16:2 e 5; Sl 142:5 ). A ênfase dos versos está em Deus, que é ‘bem’, ‘herança’ e ‘cálice’, figuras que não têm conotação de bens materiais.

Neste diapasão, concordo com alguns linguistas que entendem que o termo traduzido por ‘nada’ é uma adaptação linguística dos tradutores, e quando sugerem ser mais conveniente traduzir o verso por: “O Senhor é o meu pastor, não faltará a mim” (v. 1 ; Sl 23:4 ). Deste modo o verso enfatiza o cuidado perene de Deus, e não o patrocínio de bens materiais ou status deste mundo.

 

Verdes pastos e águas tranquilas

“Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas” (v. 2)

Após declarar que o Senhor é pastor, o salmo 23 apresenta algumas figuras que representam o cuidado provedor de Deus para o homem que se posiciona confiante diante de Deus, como uma ovelha se sujeita ao cuidado de um pastor.

‘Pastos verdejantes’ e ‘águas tranquilas’ é tudo o que uma ovelha necessita, de modo que são figuras para retratar o cuidado de Deus.

A nação de Israel foi preparada para trazer o Cristo ao mundo, de modo que foi concedido a Israel a adoção de filhos, a glória, as alianças, a lei, o culto e as promessas ( Rm 9:4 ; Dt 4:8 ). Um retrato perfeito da missão dada a Israel vê-se na visão de João que consta no livro de Apocalipse, capítulo 12, onde é narrado através de um parábola o resumo da história do povo de Israel, demonstrando que uma mulher (Israel) prestes a dar a luz um varão que irá reger as nações com vara de ferro (o Filho do homem), é perseguida pelo dragão (Satanás) “E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono” ( Ap 12:1 -17 ).

Apesar da apostasia dos lideres e do povo de Israel, ao outorgar a lei e o testemunho dos profetas, Deus estabeleceu um pasto verdejante para o Cristo. A linhagem de Cristo recebeu proteção especial, sendo necessário a inclusão de duas mulheres gentílicas, Rute e Raabe, para que o Cristo viesse ao mundo. Por sua vez, a nação de Israel quase é exterminada, mas Deus a protegeu ( Et 3:13 ; Sl 22:9 -10).

O apóstolo Paulo ensinou que Deus não tem cuidado de bois, quando disse: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ), de modo que o Salmo 23 não faz referencia a animais de rebanho, como bois e ovelhas, antes diz de um homem que confia no cuidado que Deus dispensa a Ele.

A ênfase do Salmo 23 está no cuidado de Deus como Sumo Pastor, o homem que figura como ovelha é parte coadjuvante!

‘Pastos verdejantes’ e ‘águas tranquilas’ são figuras que rementem à vontade de Deus revelada na sua palavra, que é alimento, água e vida “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Alimentar-se de maná (pão) não trouxe vida ao povo de Israel, antes é o comer da palavra de Deus que dá vida ao homem “Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre” ( Jo 6:58 ).

Apesar de Israel abrigar a vinda do Messias ao mundo, estava como ovelha sem pastor, o que contrasta com a condição do homem do salmo 23, que tem Deus como pastor em função da sua total confiança na fidelidade de Deus.

O povo de Israel foi levado cativo por falta de entendimento, ou seja, não gozaram do cuidado de Deus, antes estavam famintos e sedentos. A falta de conhecimento de Deus resulta em sede e fome, o que demonstra que ter o Senhor como pastor é o mesmo que ser farto do conhecimento de Deus.

Estar em pastos verdejantes e com águas tranquilas é estar pleno de entendimento “Portanto o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; e os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede” ( Is 5:13 ); “Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR” ( Am 8:11 ; Ez 34:1 -15).

Enquanto era dito às ovelhas desgarradas que andavam sem pastor: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ), a ovelha sob cuidado do Senhor tinha a certeza de que a sua alma seria restaurada ( Sl 62:1 ).

A ovelha sob cuidado do Senhor de nada tem falta, pois se alimenta da palavra de Deus, o que contrasta com a condição dos filhos dos leões (lideres de Israel que devoravam o povo como se fosse pão) que necessitam e passam fome “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ;  Sl 34:10 ; Sl 53:4 ; Is 28:14 ).

Os lideres de Israel são nomeados ‘loucos’, ‘néscios’, ‘faltos de entendimento’ por rejeitarem a palavra de Deus, a comida que livra da destruição “Os loucos, por causa da sua transgressão, e por causa das suas iniquidades, são aflitos. A sua alma aborreceu toda a comida, e chegaram até às portas da morte. Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e ele os livrou das suas dificuldades. Enviou a sua palavra, e os sarou; e os livrou da sua destruição” ( Sl 107:17 -20).

O corpo depende de alimento cotidiano, e a alma da palavra de Deus, de sorte que quem ouve a palavra de Deus come o que é bom ( Is 55:2 ); “Pois fartou a alma sedenta, e encheu de bens a alma faminta” ( Sl 107:9 ).

No salmo 57 temos uma profecia acerca de Cristo quando abrigado sob a sombra das asas do Pai ( Sl 57:1 ; Sl 91:1 ). O salmo descreve que Deus envia a sua misericórdia e a sua verdade para livrar o Messias daqueles que procuravam matá-lo ( Sl 57:3 -4); “Ó Deus, quebra-lhes os dentes nas suas bocas; arranca, SENHOR, os queixais aos filhos dos leões” ( Sl 58:6 ; Sl 23:6 ).

Como Deus é apresentado como pastor, e a ovelha uma figura que representa um homem sob o cuidado de Deus, ‘pastagem’ e ‘águas tranquilas’ não diz de roupas, casas, carros, casamentos, alimento, antes diz da justiça de Deus proveniente da Sua palavra.

O pasto e as águas que Deus providencia tem por alvo os que têm sede e fome de justiça, ou seja, de ouvir a palavra de Deus “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” ( Mt 5:6 ); “Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR” ( Am 8:11 ); “Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura” ( Is 55:2 ).

O descanso e o refrigério só são possíveis quando se dá ouvido à palavra de Deus, que é doutrina e conhecimento “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ; Is 28:9 ).

Os mestres de Israel tropeçaram quando interpretavam os profetas e a lei considerando-se filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão. Não consideraram que só os crentes que detém a mesma fé que crente Abraão são filhos de Abraão, pois a Abraão foi anunciado o Cristo e ele creu. Quando Cristo veio esses mestres tropeçaram na pedra que Deus estabeleceu e a mesa (doutrina) deles se tornou em laço, de modo que perseguiram o aflito de Deus “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha. Escureçam-se-lhes os seus olhos, para que não vejam, e faze com que os seus lombos tremam constantemente. Derrama sobre eles a tua indignação, e prenda-os o ardor da tua ira. Fique desolado o seu palácio; e não haja quem habite nas suas tendas. Pois perseguem àquele a quem feriste, e conversam sobre a dor daqueles a quem chagaste. Acrescenta iniquidade à iniquidade deles, e não entrem na tua justiça” ( Sl 69:22 -27 ; Is 28:8 ; Is 43:27 ).

É por isso que Jesus disse: “Adverti, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus” ( Mt 16:6 ), pois a mesa deles era um laço: “Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” ( Mt 16:12 ).

Israel não se alimentou do pasto e das águas tranquilas providenciadas por Deus, antes se assentavam em uma mesa plenas de vômitos e imundícias, uma mesa que não continha o conhecimento de Deus “Porque todas as suas mesas estão cheias de vômitos e imundícia, e não há lugar limpo” ( Is 28:8 ; Is 65:11 ).

Embora os filhos de Jacó fossem os guardiões da lei e do testemunho dos profetas, eles não davam ouvidos à palavra de Deus “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ).

 

Refrigério

“Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome” (v. 3)

O verso 3 complementa a ideia do verso 2:

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas” (v. 2)

Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome” (v. 3)

O alimento providenciado por Deus proporciona descanso, refrigério e restaura a alma aflita, pois é Ele quem guia as águas tranquilas, ou seja, pelas veredas da justiça A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do SENHOR é fiel, e dá sabedoria aos símplices” ( Sl 19:7 ).

O cuidado do Senhor está atrelado ao zelo do Seu nome, pois Ele é fiel “Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; assim, por amor do teu nome, guia-me e encaminha-me” ( Sl 31:3 ).

As vicissitudes do mundo fazem parte da existência do homem, quer seja salvo ou não ( Jo 16:33 ; Ec 7:14 ), pois foi Deus quem estabeleceu como consequência da ofensa de Adão que o homem se sustentaria (comerá) do suor do seu rosto até retornar ao pó ( Gn 3:19 ). É um erro pensar que os salmos possuem poderes místicos para livrar o homem dos problemas diários.

 

A sombra da morte

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam” (v. 4)

A confiança da ‘ovelha’ no Sumo Pastor pode ser dimensionada através da circunstância que o cerca: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum…”. O motivo de tamanha confiança vem expresso no Salmo 138: “Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos, e a tua destra me salvará” ( Sl 138:7 ).

A penalidade decorrente da ofensa de Adão impôs medo a todos os homens, mas a ‘ovelha’ em comento não teme mal algum ao percorrer as ‘regiões da morte’, pela certeza de que Deus, como Pastor, jamais faltará (v. 1; Hb 2:15 ). Deus é o Pastor da ‘ovelha’ porque ela não pertence ao pecado como os demais homens.

A ‘sombra da morte’ é uma figura para fazer referencia ao mundo dos homens que jazem separados de Deus, ou seja, estão mortos, alienados de Deus “Alguns se assentam nas trevas e nas sombras da morte, presos de aflição e em ferro, por se haverem rebelado contra as palavras de Deus, e desprezado o conselho do Altíssimo (…) Tirou-os das trevas e das sombras da morte e quebrou as suas cadeias” ( Sl 107:10 -11 e 14; Is 9:2 ).

Esta mesma figura é utilizada pelo profeta Isaías quando faz referencia a Cristo como a luz dos povos “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

A humanidade alienada de Deus habita na região da sombra da morte e estão presos por causa da lei que diz: ‘certamente morreras’ ( 1Co 15:56 ). Mas Cristo foi dado como luz dos que jazem em trevas, tirando-os da prisão “Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:7 ); “Para dizeres aos presos: Saí; e aos que estão em trevas: Aparecei. Eles pastarão nos caminhos, e em todos os lugares altos haverá o seu pasto” ( Is 49:9 ); “Venha perante a tua face o gemido dos presos; segundo a grandeza do teu braço preserva aqueles que estão sentenciados à morte” ( Sl 79:11 ); “Para ouvir o gemido dos presos, para soltar os sentenciados à morte” ( Sl 102:20 ).

‘Sombra’ é uma figura que pode representar proteção, abrigo, ou o que é efêmero, passageiro, ou uma imagem desfocada ( Gn 19:8 : Jz 9:15 ; Sl 17:8 ; Jó 8:9 ; Jó 14:2 ; Sl 102:11 ; Hb 10:1 ). O versículo 4 do Salmo 23 faz referencia à condição do homem que está no mundo apenado com a morte em decorrência da ofensa de Adão.

Por causa da ofensa de Adão toda a humanidade passou à condição de mortos para Deus, a retribuição decorrente da ofensa ( Rm 5:15 ).

Deus é vida, e o homem alienado de Deus está morto. Deus é luz, e o homem separado de Deus é trevas. Como a humanidade está morta em delitos e pecados (jaz no maligno), todos os homens residem à sombra da morte, visto estarem alienados de Deus.

Para resgatar a humanidade que estava em trevas, Cristo foi introduzido no mundo, à sombra da morte, de modo que Ele é o Sol nascente das alturas que brilhou sobre a humanidade “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” ( Jo 1:5 ) “Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:79 ).

Quando o homem crê em Cristo é arrancado do reino da morte e transportado para o reino do Filho do amor de Deus ( Cl 1:13 ); “Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e os livrou das suas dificuldades. Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões. Louvem ao SENHOR pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens. Pois quebrou as portas de bronze, e despedaçou os ferrolhos de ferro” ( Sl 107:13 -16).

Mas a profecia é mais especifica: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte…” (v. 4). A sombra da morte refere-se à humanidade alienada de Deus, o vale refere-se aos filhos de Jacó que não se deixam alcançar pela luz.

O profeta Jeremias nomeia os filhos de Jacó como a ‘moradora do vale’, ‘pedra da campina’ “Eis que eu sou contra ti, ó moradora do vale, ó rocha da campina, diz o SENHOR; contra vós que dizeis: Quem descerá contra nós? Ou quem entrará nas nossas moradas?” ( Jr 21:13 ); “Por isso farei de Samaria um montão de pedras do campo, uma terra de plantar vinhas, e farei rolar as suas pedras no vale, e descobrirei os seus fundamentos” ( Mq 1:6 ).

Quando João Batista passou a clamar no deserto da Judeia dizendo: – “Arrependei-vos”, buscava cumprir a sua missão: aplainar o caminho do Senhor. Era imprescindível uma mudança de concepção acerca de como ser salvos, abandonando as veredas não aplainadas por Deus ( Is 40:2 -3 ; Is Lc 1:76 ; “Contudo o meu povo se tem esquecido de mim, queimando incenso à vaidade, que os fez tropeçar nos seus caminhos, e nas veredas antigas, para que andassem por veredas afastadas, não aplainadas” ( Jr 18:15 ).

O ‘vale’ diz dos filhos de Jacó que se opuseram a Cristo, conforme descrevem os Salmos 69, 22, 64, etc. Por que o Cordeiro de Deus não haveria de temer quando no vale entre os leões? “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ). Porque estaria abrigado à sombra das asas de Deus ( Sl 57:1 ; Sl 91:1 ).

Enquanto os que habitavam nas regiões da sombra da morte viram uma grande luz, os que estavam no vale da sombra da morte se opuseram à luz verdadeira, tornando-se opositores da luz “Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo” ( Jo 1:9 ; Jo 10:36 ).

Fazer a vontade de Deus é ser guiado em terra aplainada, o caminho preparado por Deus “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ). Cristo foi guiado por terra plana “Ensina-me a fazer a tua vontade, pois és o meu Deus. O teu Espírito é bom; guie-me por terra plana” ( Sl 143:10 ).

 

Uma mesa na presença dos inimigos

“Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda” (v. 5).

Do verso 4 para o verso 5 ocorre uma transição de cenário, onde havia pasto e águas, agora há uma mesa posta.

Enquanto os versos 1 a 4 enfatizam o cuidado do Senhor e a confiança do Servo, nos versos que se seguem, a ênfase está missão do Servo.

Os versos de 1 a 4 destacam que o Servo do Senhor estava sob o cuidado de Deus em virtude da missão que lhe foi confiada. Já os versos 5 a 6 destacam a finalidade do cuidado dispensado ao homem que se posiciona como ovelha.

O cenário do campo e das águas tranquilas é desfeito abruptamente e se volta para uma mesa posta em um ambiente de hostilidade. A parábola do Salmo 23 e as suas figuras ganham novo contorno: o cuidado de Deus tem em vista preservar a vítima da festa.

O quadro bucólico dos versos 1 a 4 (ovelha, campo, água) é substituído no verso 5 por uma ‘mesa preparada’ que representa tanto a vontade do Sumo Pastor quanto a satisfação do Servo eleito em realizar a vontade do seu Senhor. Através da mesa preparada demonstra-se o prazer do Servo do Senhor em atender a vontade de Deus.

O Servo do Senhor destaca que Deus (o Sumo Pastor) preparou uma mesa em uma ocasião nada favorável: na presença dos seus inimigos. Há uma mesa preparada, mas qual é o seu significado? “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos…” (v. 5).

A figura da ‘mesa preparada’ tem a conotação de proporcionar prazer a alguém. Como o prazer do Servo fiel é fazer a vontade de seu Senhor, a mesa preparada representa a vontade de Deus. A mesa posta na presença dos inimigos não guarda relação com o sustento cotidiano, antes reúne em uma mesma figura a vontade expressa de Deus e o prazer do seu Servo.

Quando lemos a declaração de Jesus, que diz: “… convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” ( Lc 24:44 ), e que a ‘comida’ de Cristo era fazer a vontade de Deus Pai, é possível saber o que foi posto sobre a mesa “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

O testemunho do Salmo 23 não diz do salmista Davi, ou de qualquer outra pessoa. O Salmo 23 é um testemunho específico acerca do Cristo, que se apresentou para fazer a vontade de Deus “Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:7 -8; Hb 10:9 ).

Tudo o que está escrito no rolo das Escrituras testificam de Cristo, pois Ele teve prazer em fazer a vontade de Deus. O deleite, o alimento de Cristo, era fazer o prescrito por Deus, pois a lei de Deus é refrigério “A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma” ( Sl 19:7 ; Sl 23:2 ).

Para identificarmos que tipo de alimento foi servido à mesa que o Senhor preparou para o Messias não podemos ter a mesma visão dos discípulos quando pediram ao Senhor Jesus que comesse: “E entretanto os seus discípulos lhe rogaram, dizendo: Rabi, come. Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. Então os discípulos diziam uns aos outros: Trouxe-lhe, porventura, alguém algo de comer?” ( Jo 4:31 -33).

É necessário ver além! A comida de Cristo que os discípulos não conheciam refere-se a realizar a vontade de Deus. Quando lemos: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou ( Jo 5:30 ); “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ), percebe-se que a vida de Cristo era realizar a vontade Deus “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ), vemos que a vida do Messias foi alimentar-se à mesa de Deus.

Como Cristo veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai, a lei, os salmos e os profetas era o alimento colocado à mesa. As escrituras é a mesa preparada que, para o Cristo teve peso de glória porque fez a vontade do Pai, enquanto para os filhos de Jacó a mesma mesa tornou-se ‘laço’ e ‘tropeço’ “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha”( Sl 69:22 ). A mesa de Deus que estava diante dos filhos de Jacó diz da mesa mesa preparada perante o Cristo “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos…” ( Sl 23:5 ).

Enquanto a descrição da vida e ministério de Cristo nas Escrituras, ou o cumprimento das Escrituras na vida e no ministério de Cristo era a mesa preparada perante os opressores de Cristo, o cálice diz das agruras da cruz. Quando Jesus estava no Getsemani, começou a entristecer-se e a angustiar-se, foi quando Jesus por três vezes fez a seguinte oração ao Pai, dizendo: “E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ); “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” ( Mt 26:38 ).

O Messias saiu do Getsemani resoluto e certo de uma coisa: “Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores” ( Mt 26:45 ). Ele tinha plena certeza do que Deus havia reservado “Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora” ( Jo 12:27 ).

Quando Cristo se entregou aos homens segundo a vontade do Pai, ali estava fazendo a vontade de Deus na presença dos seus inimigos. Enquanto os homens contemplavam o Cristo ser crucificado, na verdade, Cristo estava à mesa, realizando (comendo) a vontade do Pai. Além de fazer a vontade de Deus, ao final da ‘refeição’, Jesus bebeu o cálice que Deus lhe deu “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Enquanto os inimigos injuriavam e se arremetiam contra o Ungido do Senhor, Cristo estava bebendo o cálice dado por Deus, pois era do agrado de Deus enfermá-Lo e moê-Lo “Mas Jesus disse a Pedro: Põe a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” ( Jo 18:11 ); “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” ( Jo 10:18 ); “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” ( Is 53:10 ).

Cristo sabia que, após comer à mesa posta pelo Pai (fazendo a vontade de Deus), e, bebendo o cálice (sujeitando-se à ignomínia da cruz), receberia a recompensa “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

Na cruz o Filho estava pagando o seu voto diante dos filhos do seu povo ( Sl 116:14 e 18). Dele estava escrito: “Eis aqui venho (…) Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu” ( Sl 40:7 -8). É por isso que Jesus declarava abertamente: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ).

 

A bondade e a misericórdia

“Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias” (v. 6)

Apesar de saber que Deus haveria de lhe dar um cálice a beber, a confiança do Cristo em Deus é imutável, pois confessa: a bondade e a misericórdia certamente me seguirão, por fim, após ser participante da mesa e do cálice tinha plena confiança que habitará eternamente junto ao Pai.

A certeza de que a bondade e a misericórdia de Deus e abundancia de dias decorre da obediência de Cristo “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:10 ). Deus havia estabelecido que teria misericórdia dos que O obedecem, e como a comida, o prazer de Cristo era executar a vontade de Deus, a bondade e a misericórdia de Deus era certa, de modo que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos ( Sl 56:13 ; Is 53:12 ; Pv 14:32 ; Sl 30:3 ; Sl 49:15 ; Sl 88:3 ).

 

O Servo do Senhor é cordeiro morto desde a fundação do mundo

Como homem, Jesus confiou inteiramente no Pai, de modo que nesta previsão escrita por Davi ( At 2:30 ; At 4:25 ), temos o Verbo encarnado expressando a sua confiança em Deus assim como uma ovelha entrega-se ao cuidado do Pastor.

O salmo apresenta uma figura própria ao servo do Senhor: o cordeiro de Deus “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” ( Is 53:7 ). Neste salmo as figuras ‘servo’ e ‘cordeiro’ fundem-se “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ); “Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca. Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação” ( Sl 38:13 -14).

Na condição de ovelha o Cristo teve o Pai como pastor. O que isto significa? Que o descendente prometido a Davi assumiria a condição de servo ( Is 42:1 ; Is 49:5 ), e que os servos não fazem a sua própria vontade, antes esperam inteiramente em seu senhor “Assim como os olhos dos servos atentam para as mãos dos seus senhores, e os olhos da serva para as mãos de sua senhora, assim os nossos olhos atentam para o SENHOR nosso Deus, até que tenha piedade de nós” ( Sl 123:2 ).

No Salmo 23 a relação ‘Senhor’ e ‘servo’, ‘Pai’ e ‘Filho’ é apresentada através de uma nova figura: ‘pastor’ e ‘ovelha’. Lembremos que Deus veio em carne e habitou entre os homens “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ). Ao assumir um corpo à semelhança da carne do pecado ( Rm 8:3 ; HB 10:5 ), Cristo se sujeitou às mesmas paixões que os homens ( Lc 22:28 ; Hb 4:15 ; Hb 2:17 ).

Para cumprir a missão dada pelo Pai, o Verbo que habitava o esconderijo do Altíssimo foi introduzido no mundo e, quando no mundo dos homens (região da sombra da morte) esteve abrigado sob as asas do Onipotente porque em tudo foi obediente “AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará” ( Sl 91:1 ; Is 9:2 ).

A promessa do Pai ao Filho enquanto na região da sombra da morte era de que o Cristo não seria deixado na morte e que nem um dos seus ossos seria quebrado ( Sl 16:10 ; Sl 49:9 ; Sl 34:20 ). As promessas de Deus são firmes, pois Ele zela do Seu nome ( Sl 138:2 ).

É em função do cordeiro que seria morto na plenitude dos tempos, mas que foi morto desde a fundação do mundo, que destacamos que o Salmo 23 não foi escrito na perspectiva de um rebanho de ovelhas, antes foi redigido na perspectiva de uma ovelha que necessitava de proteção para ser oferecida como vitima segundo a vontade de Deus.

 

Cristo – O Bom Pastor

O salmo 23 foi analisado na perspectiva da Ovelha escolhida por Deus para beber o cálice da ignomínia – Cristo – o Servo do Senhor ( Jo 8:15 ; Jo 12:47 ) “PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. E deleitar-se-á no temor do SENHOR; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos. Mas julgará com justiça aos pobres, e repreenderá com equidade aos mansos da terra; e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio, E a justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade o cinto dos seus rins” ( Is 11:1 -5; Is 4:2 ).

Cristo, o rebento do tronco de Jessé prometido por Deus é fonte de água que jorra para a vida eterna ( Jo 4:14 ). Ele é o pão vivo que desceu dos céus ( Jo 6:51 ). Quem crê em Cristo, o Verbo que se fez carne, passa a viver especificamente da palavra que sai da boca de Deus ( Jo 6:58 ).

O tronco de Jessé é Deus feito homem habitando com os homens (Deus conosco), e neste quesito, Ele é o Bom Pastor que deu a sua vida pelas ovelhas ( Jo 10:11 e 14; Is 9:6 ). Para as ovelhas, os verdes pastos e a água perene são os ensinos de Cristo ( Ef 1:3 ; 1Co 1:5 ; 2Pe 1:3 ; Mt 28:20 ).

Jesus é o Bom Pastor e por isso disse aos seus discípulos: “NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” ( Jo 14:1 ); “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

No Salmo 110, Davi ‘em espírito’ chamou o Filho de Deus de ‘meu Senhor’, já no Salmo 23, em espírito temos o Filho de Deus, na condição de Cordeiro escolhido, chamando o Pai de pastor.

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará” ( Sl 23:1 );

“DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

Mas, na plenitude dos tempos, o Senhor Jesus Cristo anunciou ser o Bom Pastor: “Eu sou o bom Pastor… “ ( Jo 10:11 e Jo 10:14 ; Ef 1:10 ; Gl 4:4 ). Por quê? Porque o Jesus de Nazaré, que foi reputado por aflito de Deus, antes de ser introduzido no mundo, era o Verbo eterno que estava com Deus. Devemos enxergar o rebento de Jessé de dois modos: a) em ignomínia; b) glorioso.

Da mesma forma que os homens ficaram pasmos diante do Cristo crucificado, hão de ficar pasmos diante da sua glória ( Is 52:13 -15). Num primeiro momento o renovo justo não tinha parecer e nem formosura ( Is 53:2 ), em um tempo vindouro se apresentará cheio de beleza ( Is 4:2 ).

Por que Jesus utilizou o predicativo ‘bom’ ao identificar-se como Pastor? Porque Ele é o Verbo de Deus encarnado ( Jo 1:14 ), o Deus Altíssimo ( Is 57:15 ), o Senhor entronizado conforme prediz o Salmo 45: “O Teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a retidão e odeias a impiedade; portanto Deus, o teu Deus te ungiu com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7).

Compare:

“DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

“O Teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo (…); portanto Deus, o teu Deus te ungiu com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7).

No salmo 45 Jesus é apresentado pelo salmista no reino da sua glória, o Senhor Deus que reina com justiça e equidade, do mesmo modo que foi apresentado no salmo 110 em igualdade com o Pai. O escritor aos Hebreus destaca este fato: “Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino” ( Hb 1:8 ).

Sem sombras de dúvidas Jesus Cristo é o Bom Pastor, visto que, Ele e o Pai são um: “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ).

A relação ‘Pai’ e ‘Filho’ não existia na eternidade, pois as pessoas da divindade na eternidade são co-iguais e co-eternas. Somente quando o Verbo foi introduzido no mundo, passou a ter eficácia o acordo estabelecido na eternidade, como se lê: “Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho?” ( Hb 1:5 ).

Na eternidade não havia a relação Pai e Filho, mas ao ser introduzido o Unigênito no mundo, ficou estabelecido: ‘Eu lhe serei por pai, e tu me será por Filho’. O termo ‘hoje’ utilizado em algumas profecias refere-se a eventos pertinentes ao mundo dos homens.

Os que recebem a Cristo estão sob a proteção do Bom Pastor, de modo que em tudo os que creem em Cristo têm toda suficiência, ou seja, de ‘… nada têm falta’! “Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem” ( Sl 34:9 ; 2Co 9:8 ).

Há os que pensam que a promessa de que ‘nada faltará’ àqueles que têm a Cristo como Senhor lhes proporcionará farturas de bens materiais aqui neste mundo, porém, estão equivocados em suas mentes carnais. O apóstolo Paulo explica que Deus é poderoso para fazer abundar toda graça com o objetivo de que os cristãos tenham sempre, em tudo, toda suficiência.

Os cristãos terão fartura (abundeis) em toda boa obra, e não em riquezas materiais. Com relação aos bens materiais, será agraciado com suficiência em tudo. Mesmo no pouco, o cristão possui suficiência, contentamento ( 1Tm 6:6 ).

Aquele que tem Cristo como Pastor (meu), é ovelha do seu aprisco “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” ( Jo 10:27 ). Entram no aprisco do Senhor e encontraram paz e descanso para a suas almas ( Mt 11:29 ), porém, as aflições deste mundo persistem ( Jo 16:33 ).

Jesus anunciou ser:

  • A Porta – ‘Eu sou a porta’ ( Jo 10:9 ) – Ou seja, Cristo é a porta das ovelhas, pela qual os homens que ouvirem a sua voz necessitam entrar para serem salvos ( Mt 7:13 );
  • O Bom Pastor ( Sl 10:11 ) – ‘Eu sou o bom Pastor’ ( Jo 10:11 ) – Aquele que dá a sua vida em prol das ovelhas.

Aqueles que entram por Cristo, a porta estreita, são comparados a ovelhas, visto que o Pastor é quem guia pelas veredas eternas. Ora, qualquer que entra pela porta estreita que é Cristo, está num caminho estreito que o conduz a vida eterna “Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida…” ( Mt 7:14 ), e encontra descanso para a alma ( Mt 11:29 ; Sl 118:20 ).

A figura do ‘caminho apertado’ quanto a o ‘Bom Pastor’ é Cristo, visto que:

  • ‘o caminho apertado’ conduz o homem a Vida, e;
  • O Bom Pastor conduz ‘as ovelhas’ as águas tranquilas.

Qualquer que crê em Cristo de nada tem falta e alcança o descanso prometido. Aquele que confia em Cristo encontra descanso, conforme o escritor aos Hebreus escreveu: “Ora, nós que temos crido, entramos no descanso…” ( Hb 4:3 ). Após crer no Bom Pastor, que é Cristo Jesus, as suas ‘ovelhas’ descansam, pois é Ele quem guia as ‘ovelhas’ em segurança à vida eterna “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

A confiança em Cristo como pastor proporciona aos seus seguidores descanso, segurança e refrigério. Tal condição é descrita pelo apóstolo Paulo como ‘estar assentado’ em Cristo Jesus nas regiões celestiais ( Ef 1:3 ).

Jesus, o Bom Pastor, é o caminho de Justiça que conduz os homens a Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ). Somente trilham o novo e vivo caminho aqueles que são nascidos da água (palavra) e do Espírito (Deus) ( Hb 10:20 ).

Todos quantos tem o Senhor Jesus como Pastor são crucificados, morrem e são sepultados com Cristo “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será nosso guia até à morte” ( Sl 48:14 ; Rm 6:6 ), porém, ressurgem vitoriosos em Cristo, sendo criados de novo em verdadeira justiça e santidade ( Cl 3:1 ).

As palavras do Pastor, a verdade do evangelho, desempenham a função da vara e do cajado: guia, correção e consolo ( Jo 10:4 ; Jo 5:24 ). É o Senhor quem peleja em favor daqueles que creem no bom Pastor ( Ex 14:14 ). Quantos inimigos o Senhor Jesus derrotou na sua morte? O mundo, a carne, o pecado, satanás e as potestades, de modo que, os seus seguidores são mais que vendedores!

Por desconhecer que os salmos são profecias em forma de cânticos e poesias, e que tais profecias têm por tema o Cristo e a sua obra, muitos buscam proteção nas promessas contidas nos salmos. Se as pessoas buscassem nos salmos o conhecimento do Santo, encontrariam proteção e descanso para a alma, pois encontrariam a salvação de Deus em Cristo “E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos, e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério” ( 1Cr 25:1 ).

Se os leitores dos salmos compreenderem que as promessas dos salmos dizem do Messias, e que por Ele ser o ungido do Senhor, que Deus reservou para o Cristo um cálice a beber, não teriam uma visão superficial dos salmos.

Na sua maioria, os leitores dos salmos querem ‘se assentar à direita e a esquerda do Cristo em seu reino’, porém, desconhecem, como os filhos de Zebedeu, que o cálice que Cristo ia beber era derramar a sua alma na morte “Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos” ( Mt 20:22 ).

Para alcançar as promessas de Deus é essencial que o homem beba o cálice dado pelo Pai: crer em Cristo. Quando o homem crê em Cristo, significa que pegou a sua própria cruz e seguiu após Cristo até o calvário, foi morto, sepultado e ressurgiu segundo o poder de Deus. Aquele que crê que Cristo, o Jesus de Nazaré, é o Bom Pastor, bebeu o cálice de Cristo “E diz-lhes ele: Na verdade bebereis o meu cálice e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado” ( Mt 20:23 ).




Romanos 4 – Promessa firme à posteridade

Os versículos 21 à 31 do capítulo 3, retoma a abordagem que teve início nos versículos 16 e 17 do capítulo 1. Observe que a ideia é una nos versículos seguintes: “Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: O Justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos {e sobre todos} os que creem. Não há distinção” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).


Romanos 4 – Promessa firme à posteridade

Introdução

Das análises feita à carta de Paulo aos Romanos, verificou-se que, dos capítulos 1, 2 e 3, até o verso 20, o escritor tratou de desfazer a pretensa vantagem dos judeus quanto à salvação. Paulo demonstra argumentativamente, invocando a autoridade das Escrituras Rm 3: 10, que todos os homens estão reféns da condição herdada em Adão “Todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão, e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Este versículo demonstra que todos os homens, judeus e gentios estão condenados. Os gentios perecerão, e os judeus serão julgados quanto às suas obras segundo a lei. Nenhum homem será justificado, pois ninguém consegue viver para Deus por intermédio da lei ( Rm 2:13 ).

Os versículos 21 à 31 do capítulo 3, retoma a abordagem que teve início nos versículos 16 e 17 do capítulo 1. Observe que a ideia é una nos versículos seguintes: “Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: O Justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos {e sobre todos} os que creem. Não há distinção” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).

No capítulo 4, o apóstolo demonstra por meio de exemplos o que foi exposto anteriormente sobre a justificação pela fé, que consta no capítulo 3, dos versos 21 à 31.

Em linhas gerais, Paulo demonstrou que:

  • Jesus é a justiça de Deus manifesta aos homens ( Rm 3:21 );
  • A justiça de Deus é alcançada pela fé em Jesus ( Rm 3:22 );
  • A salvação de Deus é para todos os homens, visto que todos pecaram ( Rm 3:22 -23);
  • A salvação de Deus livra o homem da condenação (pecado) herdada de Adão, pois em Adão todos pecaram;
  • Os que foram declarados condenados em Adão, por intermédio da redenção em Cristo é declarado justo por graça ( Rm 3:24 );
  • Para que Deus seja Justo e Justificador, Cristo manifesto é a propiciação do pecado (pela fé no seu sangue), remindo os pecadores. Está é a base da justificação em Cristo;
  • Por intermédio da fé, a lei é estabelecida: não há acepção ou distinção entre os homens diante de Deus.

Após a conclusão ( Rm 3:28 ), Paulo passa a demonstrar evidência da justificação pela fé nos pais da nação judaica.

Antes de prosseguirmos, é preciso esclarecermos duas passagens bíblicas:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

É sabido que os fariseus eram uma das mais severas seitas do judaísmo e lideravam um movimento para trazer o povo a submeter-se à lei de Deus. Eles eram extremamente legalistas, formalistas e tradicionalistas. Hoje estes termos são utilizados de maneira pejorativa, mas à época de Cristo, era tida por justa a maneira de viver dos fariseus.

Os fariseus eram uma referência moral, de caráter, de ética e comportamento. Aos olhos dos homens eles eram justos “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:28 ).

Qual justiça Jesus estava recomendando aos seus ouvintes? Qual justiça excede a dos fariseus?

Sabemos que Cristo é a justiça de Deus manifesta aos homens. É Ele a Justiça que excede a justiça dos escribas e fariseus.

Esta justiça é imputada por meio da fé em Cristo, e vem do alto ( Rm 10:6 ).

A justiça divina não se vincula a elementos humanos como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, religiosidade, etc.

Da mesma forma que para se ter acesso ao reino de Deus é preciso nascer de novo, a justiça que ultrapassa a dos escribas e fariseus também decorre do novo nascimento. Enquanto os fariseus e saduceus não conseguiram ser justificados por intermédio das obras da lei, aqueles que creem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos (criados) filhos de Deus: estes, que são nascidos de semente incorruptível, que é a palavra de Deus, são declarados justo por Deus.

Os fariseus e saduceus jamais seriam justificados por Deus, visto que em Adão já estavam condenados, e as suas obras reprováveis por não serem feitas em Deus ( Jo 3:18 -19). Já a nova criatura, é livre da condenação em Adão, e as suas obras são aceitáveis, pois são feitas em Deus ( Jo 3:21 ).

Livre da condenação em Adão, o homem será julgado no tribunal de Cristo. Já os condenados em Adão, ao comparecerem ante o grande Tribunal do Trono Branco, não será justificado, pois as suas obras são trapos de imundície, e não servem para vestes.

Só a justiça providenciada por Deus, por intermédio de Cristo, excede a dos escribas e fariseus. As obras dos escribas e fariseus eram segundo as suas naturezas herdadas de Adão: obras mortas.

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” ( Mt 10:32 -39).

Myer Pearlman ao comentar os versículos acima disse:

“Esta é a ideia contida nestes versículos: A comunhão com Cristo pode significar separação daqueles que nos são queridos na terra, mas a recompensa será grande (…) É doloroso o repúdio dos familiares, talvez a mais severa tentação que o convertido possa enfrentar” Pearlman, Myer, Mateus, O evangelho do Grande Rei, Ed. CPAD, 1. ed. Rj, 1995, Pág. 75, V.

Jesus realmente recomendou aos seus ouvintes, e a nós, que abandonássemos os nossos familiares? Como entender estes versículos e conciliá-los com o primeiro mandamento com promessa? “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” ( Ef 6:2 ).

Como entender que o príncipe da paz não veio trazer paz à terra? O príncipe da paz empunha uma espada? Por que Jesus veio semear dissensão entre o homem e o seu pai? Como interpretar essa passagem?

O apóstolo Paulo é categórico quanto à interpretação “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 ).

A interpretação bíblica não pode ser pautada em sabedoria humana. Ela deve ser estudada através do que o Espírito Santo ensina. Como o Espírito nos ensina? Quando comparamos as coisas espirituais com as espirituais!

Para comparar as coisas espirituais com as espirituais, e ser ensinado pelo Espírito de Deus, devemos nos socorrer da citação bíblica que Cristo faz: “Os inimigos dos homens são os da sua própria casa” ( Mt 10:36 e Mq 7:6 b).

O profeta Miqueias sente pena de si mesmo. Miqueias sente-se faminto pela justiça ( Mq 7:1 ). Por que esta fome e sede? Porque não há homem piedoso sobre a face da terra. Ninguém é reto, pois todos se desviaram em Adão, o homem piedoso que pereceu ( Mq 7:2 ).

As obras dos ímpios e o mal, ou seja, a árvore produz frutos segundo a sua espécie ( Mq 7:3 ). O melhor dos homens é comparado a um espinho, que se dirá do mais reto? ( Mq 7:4 ). Porém, Miqueias visualiza algo maravilhoso: veio do dia dos seus vigias, ou seja, o dia daqueles que esperavam a visitação de Deus! Mas, o dia da visitação do Messias, também é dia de confusão! Quem haveria de entender as parábolas de Cristo? ( Mq 7:4 ).

Na visitação seria semeada a desconfiança ( Mq 7:5 ). O motivo é evidenciado: o filho despreza o pai; a filha é contra a mãe; a nora e a sogra não têm acordo. Por fim, tudo se resume na frase: “Os inimigos do homem são os da sua própria casa”.

Após lermos e interpretarmos estes versículos de Miqueias, passemos ao Novo Testamento.

Quando Jesus cita o pequeno trecho de Miqueias, ele estava anunciando ao povo que a profecia estava se cumprindo ao seus ouvidos. Jesus estava anunciando que ele era o Messias esperado por muitos, e que havia chegado o dia da visitação.

O texto de Miqueias é claro: O Messias não haveria de trazer paz, mas confusão e dissensão ( Mq 7:5 -6). Por quê? A mensagem do evangelho demonstra que os injustos vivem para si, e não para Deus. A condição de injustiça dos homens teve origem em Adão, e não em suas ações, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.

Jesus veio por causa dos injustos, ou melhor, daqueles que tem fome e sede de justiça ( Mq 7:1 ). Destes elementos decorre que: Deus jamais haveria de estabelecer comunhão com os filhos da ira, por isso, Cristo não trouxe paz aos homens que habitam a terra. Ele trouxe a espada, que representa morte e justiça. Os ímpios só podem ter contato com a espada, e não com a paz de Cristo.

Ao trazer a espada (justiça e morte) àqueles que têm sede e fome de justiça, Cristo estabelece a dissensão entre os seus familiares. Como? O homem está condenado diante de Deus por causa da filiação de Adão. Os judeus consideravam salvos por serem descendentes de Abraão. Jesus propõe aos seus ouvintes que se desvinculem de seus familiares, ou seja, das suas origens em Adão e da ideia de que eram descendência de Abraão para que se tornasse possível receberem a Cristo.

Da mesma forma que Abraão saiu do meio de sua parentela por fé, só é possível o homem abandonar pai, mãe, irmão e irmã por meio da mesma fé que teve o pai Abraão. Somente desta forma é possível adquirir a filiação divina.

Para ir após Cristo, somente tomando a cruz. Não há como seguir após Cristo até Deus, sem antes o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Na cruz de Cristo o homem corta toda e qualquer relação que tinha antes com o pecado de Adão, ou com a ideia de que é filho de Deus por intermédio da descendência de Adão.

A cruz de Cristo é a espada que traspassa o velho homem que teve origem em Adão. Somente após ter um encontro com Cristo, o homem terá a sua fome e sede de justiça saciadas. Este perde a sua vida terrena, e adquire de Deus uma nova vida, achando-a. É vida abundante!

Aqueles que encontram a nova vida que há em Deus, são aceitos por filhos de Deus e declarados justos.

Isto posto, fica demonstrado que em momento algum Jesus disse para abandonarmos os nossos genitores ou parentes à própria sorte. Antes, Jesus recomenda aos seus ouvintes a honrar pai e mãe, e este é um dos mandamentos de Deus “E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus” ( Mt 15:6).

 

1 QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?

Esta pergunta de Paulo é totalmente pertinente às questões da salvação em Deus. Os judaizantes alegavam ser salvos por descenderem de Abraão, e isto implicaria em dizer que, Abraão também recebeu algo decorrente de seus pais. O que Abraão alcançou segundo a sua descendência? Nada. Além do mais, ele era descendente de gentios, que por sua vez não tinham o sinal da circuncisão na carne.

Se Abraão tivesse alcançado a justificação segundo a carne (descendência), seria correto afirmar que era possível receber a salvação por ser descendência de Abraão.

 

2 Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus.

Da mesma forma, caso Abraão pudesse produzir algo (obras) que o justificasse, teria elementos para gloriar-se (jactância), o que era feito pelos judeus ( Rm 3:10 e 27). Abraão poderia considerar ser melhor, ou que tinha alguma vantagem quanto à salvação.

Estas considerações decorrente das obras não permite que homem algum se glorie perante Deus. Todos eles somente se gloriam diante de seus semelhantes, e este era o caso dos judeus.

 

3 Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.

Paulo deixa a sua argumentação de lado e se apóia na autoridade das Escrituras “Creu Abrão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” ( Gn 15:6 ). Paulo demonstra através dos textos sagrados que a fé sempre esteve em pauta, quando se faz referência a salvação que procede de Deus.

 

4 Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida.

Paulo constrói uma nova argumentação: o salário é uma dívida do empregador para com quem trabalha. Não é uma relação segundo a graça, e sim, decorre de dívida. Se a justificação fosse segundo o que os judaizantes anunciavam, Deus teria uma dívida para com Abraão, e não o contrário. Abraão seria credor na relação acima.

 

5 Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.

Em contra partida, qualquer um que não pratica as coisas da lei (este foi o caso de Abraão), mas crê em Deus que pode justificar ‘o ímpio’, a fé do crente é imputada por Deus como justiça. Observe que Paulo faz referência a justificação em uma abordagem evangelística, e não teológica.

Na linguagem evangelística é válido argumentos tais como: Deus salva o pecador; Deus justifica o ímpio; Deus perdoa os pecados; etc. Por que é válida esta argumentação? Porque na evangelização é quase impossível utilizar a linguagem teológica acerca da salvação em Cristo.

Observe a frase segundo a visão teológica: “…mas crê naquele que justifica o ímpio…”. Ao analisá-la seguindo a ideia do verso seguinte: “Que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração” ( Ex 34:7 ), percebe-se que Deus é justificador, visto que é ele quem perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado. Porém, de modo algum, ele terá o culpado por inocente, ou seja, ele não justifica o ímpio.

De modo que, quando Paulo diz que ‘mas crê naquele que justifica’, aquele que crê já deixou a condição de ímpio, segundo uma consideração teológica. Quem crê, deixa a condição de ímpio, e passa a condição de justo. Da mesma forma, o pecador que crê, deixa a condição de escravo e passa a condição de servo da justiça. Ou seja, se transformamos estas abordagem em uma linguagem teológica, temos o pecador como sendo ‘velho homem’. Falamos evangelisticamente que Deus salva o pecador, porém, teologicamente, é impossível dizer que Deus salva o velho homem ou a velha criatura (o pecador em seu estado original).

Evangelisticamente diremos que Deus justifica o ímpio, teologicamente sabemos que jamais Deus justificará o ímpio “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ). Para conciliar estas duas linguagens, percebe-se que aquele que é pecador, e crê naquele que justifica, nasce de novo (nova criatura) deixando a condição de ímpio na sepultura, e consequentemente, Deus o declarará justo diante dele.

Quando Paulo disse que Deus justifica o ímpio, perceba que este ‘ímpio’ primeiramente creu naquele que não justifica o ímpio, e a sua fé é imputada como justiça. O ex-ímpio passa a condição de justo por meio da fé, sendo portanto, declarado justo, por ter sido de novo criado, em verdadeira justiça e santidade.

“Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Qual é a planta que o Pai não plantou? Sobre o que Jesus estava falando? A planta que o Pai não plantou refere-se ao homem nascido de Adão! Mas, como chegar a esta conclusão?

Observe que os escribas e fariseus questionaram Jesus sobre os motivos que levava seus discípulos transgredirem as tradições dos anciões ( Mt 15:1 ). Jesus demonstra que o que seus discípulos estavam deixando de fazer (lavar as mãos antes das refeições), não era nada comparado às transgressões deles ao seguirem as tradições dos anciões: invalidavam a lei de Deus (v. 3).

Deus deu a eles uma ordem clara: “Honra teu pai e a tua mãe, e quem maldisser a seu pai ou a sua mãe certamente será morto” (v. 4), porém, invalidavam a lei de Deus ao instituírem o Corbã ( Mc 7:11 ).

Jesus expõe a hipocrisia dos seus interlocutores ao fazer referência ao que foi profetizado por Isaías: “Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” ( Is 29:13 ). Os escribas e fariseus adoravam a Deus em vão!

E após convocar a multidão, disse-lhes: “Ouvi, e entendei: o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai da boca, isto sim é o que contamina o homem” ( Mt 15:10 -11).

Enquanto os escribas e fariseus estavam preocupados com o lavar de mãos, Jesus demonstra que a verdadeira contaminação do homem procede do coração. Por que? Como?

A Bíblia demonstra que a queda de Adão deixou o homem debaixo de condenação. A humanidade em Adão passou à condição de culpáveis e condenáveis diante de Deus. Todos os homens quando vem ao mundo são formados em iniquidade, e em pecado são concebidos.A humanidade nasce de uma semente corruptível e em inimizade com Deus, por causa da natureza que possuem.

A Bíblia classifica a natureza decaída do homem de filhos das trevas, mentira, filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, etc.

Enquanto os homens se preocupam com comportamento, moral e caráter, o mal reside em sua própria natureza, procede do coração.

Os discípulos não entenderam a abordagem de Jesus, e ele lhes disse: “Toda planta que o Pai não plantou, será arrancada”, ou seja, todos quantos não nasceram da semente incorruptível que é a palavra de Deus, estes não permanecerão.

A planta plantada pelo Pai germina de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Os homens que vêm ao mundo nascem de uma semente corruptível, pois nascem da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue ( Jo 1:13 ). Aqueles que creem são de novo gerados, da semente incorruptível, pela vontade e palavra de Deus ( Jo 1:12 ; 1Pe 1:3 e 23).

Desde a entrega da lei ao povo de Israel, Moisés insistia: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ), pois era lá que estava o que contamina o homem: a natureza condenada e herdada em Adão.

Os escribas e fariseus nunca circuncidaram os corações, e por isso, não eram plantas que o Pai plantou. Eram cegos, ou seja, permaneciam na escuridão apesar de estar presente a luz de Deus que ilumina os homens.

Honravam a Deus com os lábios, mas os corações não foram circuncidados. Continuavam de posse da natureza (morte) herdada de Adão. A adoração dos escribas e fariseus era em vão, e a doutrina deles resumia-se em preceitos de homens.

A doutrina dos escribas e fariseus não operava a circuncisão do coração, onde o homem se desfaz da velha natureza herdada em Adão. Continuavam de posse de um coração que procede todo tipo de mau.

Cristo é a semente de Deus dada aos homens que promove o novo nascimento. É dele que o homem precisa se alimentar para ter a vida que procede de Deus. Aquele que nasce segundo a vontade de Deus e por meio da palavra de Deus, que é Cristo, é a planta que o Pai plantou.

 

6 Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo:

O apóstolo demonstra que o salmista Davi também profetizou a bem-aventurança decorrente da fé. Deus justifica o homem sem as obras da lei, ou seja, Ele galardoa o homem segundo a graça.

7 Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. 8 Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.

Sobre a bem-aventurança, leia o comentário ao “Salmo Primeiro” e o texto “A Bem-aventurança“.

As maldades são perdoadas por Deus, ou seja, não serão levadas em conta. Já os pecados, precisam ser cobertos, enterrados. O homem que teve os pecados cobertos e as maldades perdoadas, não terá imputado o pecado, e sim a justiça divina.

Observe que Davi demonstra o favor de Deus aos homens, e não o serviço dos homens a Deus. Pelas obras da lei, ou serviço, jamais os homens serão justificados.

A maldade faz referência ao fruto da árvore má, ou seja, aquilo que a árvore não plantada por Deus produz ( Mt 15:13 ). Esta maldade é perdoada, ou seja, lançada no mar do esquecimento.

Quanto ao pecado, refere-se a natureza pecaminosa do homem herdada em Adão. Por ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ), todos os homens quando nascidos segundo à carne, são árvores não plantadas por Deus. Estas árvores devem ser arrancadas, a sua natureza pecaminosa precisa ser ‘coberta’ ( Rm 4:7 ).

Somente após ter um encontro com a cruz de Cristo, e ser sepultado com Ele, é que o homem tem o seu pecado, ou seja, a sua herança em Adão ‘coberta’.

 

9 Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão? Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão.

A bem-aventurança de ter os pecados encobertos e as maldades perdoadas somente é possível aos judeus? Os gentios não podem ser participantes desta bem-aventurança em Deus? Se os leitores declarassem que sim, estariam dizendo que Deus faz acepção de pessoas.

Se alguém dentre os cristãos romanos declarassem que a bem-aventurança é restrita aos judeus, Paulo contra argumenta: “Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão”, ou seja, por que dizemos que Abrão foi justificado por meio da fé, se para os judaizantes a justificação decorre de laços consanguíneos?

Dizer o que as Escrituras expõe é uma coisa, vivenciar é outra. Os judaizantes citavam as escrituras, porém, não viviam as Escrituras por causa de suas tradições. Liam na Escritura que Abraão foi justificado pela fé, porém, sustentavam que eram justos por descenderem de Abraão.

 

10 Como lhe foi, pois, imputada? Estando na circuncisão ou na incircuncisão? Não na circuncisão, mas na incircuncisão.

Qual a condição de Abraão quando lhe foi imputada a justiça que decorre da fé? Abraão era incircunciso, ou melhor, um gentio. Paulo faz a pergunta e responde em seguida: Abraão estava na incircuncisão!

 

11 E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada;

Paulo demonstra que Abraão recebeu o sinal da circuncisão como um selo da justiça recebida por meio da fé. Ele recebeu este sinal quando incircunciso, demonstrando que ele se tornaria pai de todos aqueles que pela fé creem em Deus.

Abraão é pai tanto dos gentios quanto dos judeus que tiverem a mesma fé que ele teve em Deus. Os judeus tinham Abraão por pai, e pensavam que a filiação divina decorria do fato de eles serem descendentes de Abraão. Paulo demonstra que a fé é o elo de ligação entre Deus e os seus filhos.

Deus não faz acepção de pessoas. Ele justificou a Abraão por meio da fé, e justifica todos quantos se achegarem a Ele por meio da fé.

 

12 E fosse pai da circuncisão, daqueles que não somente são da circuncisão, mas que também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, que tivera na incircuncisão.

O que Abraão recebeu na incircuncisão por meio da fé o torna pai dos incircuncisos que creem, e dos circuncisos que também creem. Observe que Abraão não é pai daqueles que foram circuncidados, e sim, pai dos que seguirem as suas pisadas: a fé!

 

13 Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé.

Quando Abraão recebeu a promessa de Deus, a lei não existia. A promessa de Deus exigiu dele um exercício de fé, e não obras decorrente de uma lei.

Outro aspecto que Paulo destaca é que a promessa de que Abraão haveria de ser herdeiro do mundo, não diz especificamente da pessoa de Abraão, e sim, de sua posteridade, que é Cristo.

 

14 Porque, se os que são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é aniquilada. 15 Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão.

Paulo apresenta três argumentos em defesa da abordagem anterior:

1º – Se os judeus são os herdeiros segundo o que estipula a lei, segue-se que crer em Deus não é o que justifica, e que o que foi prometido a Abraão nunca existiu, pois a promessa foi feita quando ele ainda estava na incircuncisão. Ora, se Deus prometeu, e jurou sobre a sua palavra, resta a quem recebeu a proposta crer (descansar).

2º – A lei opera a ira, pois ela somente apresenta punição aos transgressores, sem qualquer promessa. Quem não praticar a lei é considerado transgressor e réu de juízo ( Mt 5:21 ).

3º – Enquanto os judaizantes se escudavam na ideia de que seriam declarados justos por Deus por que tinham uma lei, Paulo demonstra que a função da lei é somente demonstrar que os homens são reprováveis.

Os versículos seguintes demonstram a conclusão de Paulo sobre as obras da lei e a graça.

 

A Teologia da Libertação

A abordagem teológica da ‘Teologia da Libertação’ é uma variante do pensamento da Igreja Católica Romana. Vejamos o que um dos seus teólogos diz:

“A religião verdadeira, portanto, nasce dos pobres e dos fracos. São eles que podem, a partir da sua experiência, ensinar quem é Deus e o que ele quer. São eles que penetram a sua sabedoria e o seu projeto (Mt 11, 25- 26). Foi da experiência dos pobres que nasceu a religião de Javé, o Deus que liberta da exploração e da opressão e dá a liberdade e a vida” Storniolo, Ivo, Como ler o Livro de Jó, Série como ler a Bíblia, ed. Edições Paulinas.

Por isso é espantoso a abordagem seguinte de um Pr. evangélico:

“Encontramos o Senhor nos necessitados, solitários, frustrados, oprimidos, enfermos e perturbados. Paulo nos ensina estas grandes verdades em Colossenses 3. 23, 24” Pr. Valdinei Fernandes Gomes da Silva, comentarista da revista Jovens e Adultos, revista dominical para Professor, Epístola de Judas, ed. Betel – 3º Trimestre de 2007, ano 18, nº 64, Pág 07.

É no mínimo estranho que seguimentos do meio evangélico esteja entrando pelo mesmo caminho que até pouco tempo protestavam ser errôneo.

O que disse Paulo aos Colossenses? “E, tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens…” ( Cl 3:23 ), ou seja, este versículo não apóia a argumentação de que encontramos o Senhor nos desprovidos de bens materiais desta vida.

Paulo estava instruindo os servos (escravos) que se converteram a Cristo a permanecerem desempenhando o seu serviço aos seus senhores, embora fossem livres em Cristo ( Cl 3:22 ). A mensagem de Paulo demonstra aos seus ouvintes que, em Cristo não há diferenças sociais, ou seja, todos são filhos de Deus pela fé em Cristo “Desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho ou fêmea, pois todos vós sois um em Cristo” ( Gl 3:28 ).

Porém, a mensagem do evangelho poderia ser mal interpretada, e Paulo alerta aos cristãos que eram escravos a submeterem-se aos seus senhores. Embora não haja distinção entre os homens na igreja de Deus, na sociedade existem diferenças. À época de Paulo havia uma distinção nítida entre servos e livres, gregos e judeus, e enquanto os cristãos estivessem convivendo em sociedade, estas diferenças deveriam e devem ser observadas.

Todos cristãos devem se portar de forma que não deem escândalos nem a gregos, nem a judeus e nem a igreja de Deus ( 1Co 10:32 ). O evangelho não é causa de revoltas ou transformações sociais, embora tenha influenciado as relações sociais no transcorrer dos séculos. A abordagem de Paulo aos Colossenses deve ser vista sob a ótica do versículo seguinte: “Assim cada um ande como Deus lhe repartiu, cada um como o Senhor o chamou. É o que ordeno em todas a igreja (…) Cada um permaneça na situação em que estava quando foi chamado” ( 1Co 7:17 -24).

A citações de Mateus 25: 31- 46 também não dá sustentação à ideia de que encontramos o Senhor nos perturbados e frustrados.

O que Jesus ensinou em particular aos discípulos sobre o monte das Oliveiras tem a ver com o julgamento das nações, e não com os pobres deste mundo.

Observe que Jesus virá em glória com os seus santos anjos para se assentar sobre um trono de glória. Ele reunirá todas as nações diante dele, e fará uma seleção como o pastor faz entre bodes e ovelhas ( Mt 25:31-32).

Jesus, na sua vinda em glória assumirá a posição de Rei, pois esta será a palavra do Rei: “Vinde, benditos de meu Pai, possui por herança o reino que vos esta preparado desde a fundação do mundo” ( Mt 25:34 ).

A base do julgamento das nações que serão reunidas diante do Rei será o tratamento que dispensaram aos Seus pequeninos irmãos ( Mt 25:40 ). O julgamento daqueles que não entrarão no reino eterno se dará pela omissão “Em verdade vos digo que, todas as vezes que deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” ( Mt 25:45 ).

Resta a pergunta: encontramos o Senhor nos pobres deste mundo, ou através da revelação do evangelho?

O alerta de Paulo permanece:

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” ( Gl 1:8 )

 

16 Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós,

Os argumentos apresentados por Paulo em defesa da justificação pela fé, desde o verso 1 ao verso 15 deste capítulo, é concluído a partir deste versículo: “Portanto, é pela fé…” (v. 16).

Na conclusão Paulo apresenta o propósito de a justificação ser somente alcançada pela fé, e não pelas obras da lei:

1º) A justificação é pela fé, para que seja segundo a graça, ou seja, se fosse possível aos homens executar as obras da lei, a justificação seria:

A) uma dívida de Deus para com os homens ( Rm 4:4 ), o que é inadmissível, e;
B) impossível de ser alcançada, visto que a natureza da lei difere da natureza dos homens ( Rm 7:14 );

2º) A justificação é pela fé para que a promessa seja firme a toda posteridade de Abraão. Quando a Escritura (V. T.) diz que a promessa é para a posteridade, ela estava incluindo todos os que cressem. A promessa é para todos que tenham a mesma fé que teve o pai Abraão, que é pai daqueles que tem fé em Deus.

3º) A justificação é pela fé por causa da fidelidade de Deus que não faz acepção de pessoas. Todos quantos têm a mesma fé que teve o crente Abraão (judeus e gentios), são justificados. Como a Bíblia dá testemunho de que Deus justificou Abraão pela fé, todos quantos tem fé em Deus por meio de Jesus, também são justificados.

A promessa de Deus é firme, pois centra-se em seu poder e fidelidade. Ela foi firme a Abraão, visto que Abraão nada fez, e Deus lhe concedeu a promessa. Abraão nem mesmo havia saído do meio de sua parentela, e a promessa já tinha sido estabelecida ( Gn 12:2 -3).

Primeiro veio a promessa de Deus, e logo após, Abraão saiu de sua parentela. Observe que não há como ter fé, sem antes ter uma promessa. Deus prometeu uma descendência a Abraão impossível de contar, como é o caso das estrelas no céu, e mesmo sendo a sua mulher estéril, ele creu. A fé só é possível após a promessa ( Gn 15:6 )!

A justificação é pela fé, pois se fundamenta no poder de Deus (Evangelho), unicamente Deus é poderoso para justificar o homem ( Mc 2:10 ). Muitos consideram que a justificação é mediante um ato judicial de Deus, porém, a Bíblia nos demonstra que ela é uma ato de poder “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem poder para perdoar pecados (disse ao paralítico): A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para a tua casa” ( Mc 2:10 -11).

 

17 (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem.

Paulo demonstra que a colocação de que Abraão é ‘pai de todos nós’ é segundo o que foi predito na Escritura (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí).

Como Abraão é pai de muitas nações, e foi Deus que o constituiu por pai, a promessa feita a Abraão é firme a toda à sua descendência. A Promessa é firme, e foi em Deus que Abraão creu, ou seja, ele creu naquele que dá vida aos mortos; Deus chama a existência as coisas que não são como se já existissem, ou seja, quando se crê em Deus que prometeu, se crê em Deus, e não naquilo que foi prometido. Pois muitas das vezes, o que foi prometido ainda não existe, mas Deus é poderoso para trazer a existência o que prometeu. Isto é crer contra a esperança!

 

18 O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência.

A fé de Abraão estava em Deus que prometeu (em esperança), que a sua crença não levou em conta o fato de ter que sacrificar o seu único filho, de onde seria proveniente a sua descendência (creu contra a esperança). A primeira esperança refere-se a confiança na promessa de Deus, e a segunda esperança diz de Isaque, a esperança de descendência.

Não há como negar a fé de Abraão, visto que ele se tornou pai de muitas nações. A fé de Abraão é evidente, pois Deus fez a ele conforme foi dito: Assim será a tua descendência!

 

19 E não enfraquecendo na fé, não atentou para o seu próprio corpo já amortecido, pois era já de quase cem anos, nem tampouco para o amortecimento do ventre de Sara.

Haviam alguns elementos na vida de Abraão que poderia levá-lo a fraquejar na fé.

Abraão não se fixou em seu corpo, já amortecido, e tampouco no amortecimento do ventre de sua mulher. Abraão e sua mulher constituíam de per si impedimentos por demais à esperança do patriarca, o que poderia influenciar a sua fé.

 

20 E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus,

A incredulidade surge depois que o homem tomou conhecimento da promessa e a rejeita. Não há como ser incrédulo antes de ser cientificado da promessa.

Abraão não duvidou, antes foi fortificado na fé! O que quer dizer ser fortificado na fé? Não olhar para as impossibilidades humanas, e sim, para o poder de Deus “No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” ( Ef 6:10 ).

Um exemplo claro do que é ser fortificado na fé é descrito nos versos seguintes: “Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” ( Ef 1:18 -20).

Após os cristãos serem inteirados sobre a esperança da vocação, quais as riquezas da herança de Deus nos santos e a grandeza do poder que operou sobre os cristãos, tudo por ter crido em Cristo. Se restar alguma dúvida, o cristão deve olhar para o Cristo ressurreto, pois o mesmo poder que foi manifesto em Cristo para ressurreição, opera agora sobre o cristão para a salvação.

Quando o cristão crê em Deus, Deus opera o prometido. O resultado daquilo que Deus realiza se constituí em glória ao seu poder e glória “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo” ( Ef 1:11 -12). Aquele que espera em Cristo, permite que Deus faça todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade em sua vida e passa a se constituir em louvor de sua glória.

 

21 E estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer.

Estar certíssimo de que Deus é poderoso para realizar é o estar fortalecido na fé.

 

22 Assim isso lhe foi também imputado como justiça.

A fé que Abraão exerceu em Deus tinha em vista o prometido: ser pai de muitas nações. Porém, diante da certeza de Abraão (fortificado na fé), a fé que era para ser pai das nações também serviu-lhe para justificação, ou seja, lhe foi também imputado como justiça.

Se a fé de Abraão alcançou a condição de pai de muitas nações, esta mesma fé é base para a salvação. Caso Deus houvesse somente prometido salvação, a fé de Abraão em alcançar ser pai de muitas nações era suficiente para Deus salvá-lo.

Observe que, quando o homem crê em Jesus, Ele concede o que a fé alcançou e o perdão dos pecados ( Mt 8:1 -9).

 

23 Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta,

O versículo que consta do livro de Gênesis: “Creu Abrão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” ( Gn 15:6 ), não está registrado simplesmente para relatar o que aconteceu com Abrão, visto que, o fato de ele ter crido em Deus é algo pessoal. Antes, foi registrado que a justificação de Abrão foi pela fé, por causa de todos que creem em Deus que ressuscitou a Cristo.

 

24 Mas também por nós, a quem será tomado em conta, os que cremos naquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus nosso Senhor;

Os cristão creem em Deus que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, e são justificados pela fé tal qual foi o pai Abraão. O que a Escritura diz acerca de Abraão, foi registrado para que os cristãos se informassem deste importante evento com os patriarcas, e que agora, em Cristo, o descendente, tornaram-se participantes.

 

25 O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação.

Por causa do pecado da humanidade Jesus foi entregue, para que todos os que creem n’Ele se conformem com Ele na morte. A sentença que diz: “A alma que pecar, esta mesmo morrerá”, ou “O culpado não será tido por inocente” é cumprida quando os que creem tomam cada uma a sua cruz, e seguem após Cristo.

Estes são mortos e sepultados a semelhança de Cristo ( Rm 6:3 e 8).

Porém, Jesus ressurgiu para a justificação daqueles que creem. Como o cristão morre com Cristo, ele também ressurge com Cristo dentre os mortos, para glória de Deus Pai. Este novo homem criado em Cristo é declarado justo pelo poder de Deus ( Cl 3:1 ). Esta é a base da justificação: o poder de Deus manifesto em Cristo e naqueles que creem ( Ef 1:19 -20).




O conselho dos ímpios

O que é necessário para que os homens deixem de ‘andar segundo o conselho dos ímpios’, ou de ‘se deter no caminho dos pecadores’ e ‘se assentar na roda dos escarnecedores’? Somente o novo nascimento é o que torna o homem bem-aventurado e sem qualquer vinculo com o conselho, o caminho e a roda dos escarnecedores ( Sl 1:1 ). Não é necessário aos cristãos deixarem de conviver com os ímpios para serem bem-aventurado.


O conselho dos ímpios

“E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador” ( Lc 19:7 ).

Para os escribas, fariseus e saduceus havia uma grande discrepância entre as Escrituras (o Antigo Testamento) e o comportamento de Jesus.

Certa feita, após convidar Mateus para segui-lo em seu ministério, Jesus assentou-se para comer, e vieram muitos publicanos e pecadores e assentaram-se com Ele e com os seus discípulos.

Os fariseus vendo que Jesus havia se assentado com os pecadores para comer, passaram a indagar: “Por que come o vosso mestre com os publicanos e pecadores?” ( Mt 9:10 -11).

Em outra ocasião uma grande multidão veio a Jesus para ouvi-lo, e os fariseus teceram um comentário semelhante: “Este recebe pecadores e come com eles” ( Lc 15:2 ).

Quando Jesus resolveu ser hospede de Zaqueu, o chefe dos publicanos ficou preocupado com o que os fariseus e os escribas estavam dizendo. A preocupação foi tamanha que ele propôs dar metade de seus bens aos pobres “E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador” ( Lc 19:7 ).

Os fariseus e escribas estavam intrigados com o comportamento de Jesus. Para eles, um judeu deveria ao menos conhecer o que diz os salmos e a lei, e muito mais alguém que se propôs ensinar o povo. Como seria possível Jesus se assentar e comer com os pecadores (gentios) e ainda exercer o ofício de mestre?

Para os religiosos judeus era inadmissível a ‘miscigenação’ cultural entre judeus e outros povos. Eles não admitiam a mistura do que pensavam ser santo com o que consideravam profano.

Os lideres do povo de Israel consideravam serem santo por descender da carne de Abraão, e, portanto, não podiam conviver num mesmo recinto com pessoas de outras nações. Por outro lado, Jesus entrava e se assentava na casa de pecadores para comer com eles sem se importar com o prescrito no Salmo primeiro.

Na visão dos religiosos era inadmissível alguém que se dizia mestre contrariar o que diz o Salmo primeiro: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores” ( Sl 1:1 ).

Entrar na casa dos pecadores e assentar-se à mesa para comer, configura que Jesus assentou-se na roda dos escarnecedores? Ao andar com eles pelo caminho, Jesus se deteve no caminho dos pecadores? Ao conversar com os pecadores, Jesus andou segundo o conselho dos ímpios?

Como conciliar o Salmo primeiro e o fato de Jesus entrar, assentar, comer e se hospedar na casa de pecadores?

“BEM-AVENTURADO aquele que teme ao SENHOR e anda no seu caminho” ( Sl 128:1 )

O salmo 128 é claro: “Bem aventurado aquele que teme ao Senhor…”. É certo que há os que temem ao Senhor e são bem-aventurados, e os que não temem e estão sob maldição. Neste mesmo diapasão, há homens que andam no caminho que pertence ao Senhor, e os que não andam.

Qual é o caminho do Senhor? Qual o temor do Senhor?

Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14: 6).

Os fariseus e escribas estavam diante do Caminho que conduz os homens a Deus, mas seguiam somente os intentos dos seus corações. Mesmo não se aproximando de pessoas tidas por eles como sendo pecadoras, trilhavam o caminho de perdição. Por outro lado, embora Jesus estivesse assentando na mesma mesa e comendo com os pecadores, Ele não estava assentado na roda dos escarnecedores. Embora Jesus andasse com os pecadores, Ele não andava segundo o conselho dos ímpios.

Andar, falar, conviver e comer com os pecadores não muda o fato de que Cristo é o caminho que conduz a Deus. Mesmo assentado e comendo com os pecadores, Jesus, o ‘Caminho’, e o caminho dos pecadores nem mesmo se cruzaram.

Mesmo que um cristão esteja assentado em uma mesma mesa comendo com um grupo de pessoas ímpias, o caminho dos ímpios é o caminho de perdição e o caminho do cristão é o caminho de salvação.

Se os escribas e fariseus entendessem que Adão é a porta larga que dá acesso ao caminho largo que conduz à perdição, e Cristo, o último Adão, a porta estreita e o caminho estreito que conduz à salvação, jamais estranhariam o fato de Jesus comer na mesma mesa com os pecadores, pois comer, assentar e andar com os ímpios não é o mesmo que trilhar o caminho dos pecadores.

O que é necessário para que um homem deixe de andar segundo o conselho dos ímpios, ou de se deter no caminho dos pecadores e se assentar na roda dos escarnecedores? Um novo nascimento é o que torna o homem bem-aventurado e sem qualquer vinculo com o conselho, o caminho e a roda dos escarnecedores ( Sl 1:1 ). Não é necessário aos cristãos deixarem de conviver com os ímpios para serem bem-aventurado.

Desde a madre os ímpios se alienam de Deus e andam por um caminho de perdição “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ). Somente após o novo nascimento o homem volta a compartilhar da glória de Deus ( Jo 17:22 ), e a andar no seu caminho ( Sl 128:1 ).

O que diferencia os justos dos ímpios é a porta por onde entraram, e não as interações e relações que que travam neste mundo. O nascimento natural é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer, e o novo nascimento segundo o último Adão a porta estreita por onde poucos entram ao crer em Cristo ( Mt 7:13 ).

O conselho, o caminho e a roda dos ímpios teve origem na queda de Adão. O caminho do Senhor é Cristo, pois Ele é o temor do Senhor e o último Adão. Ele é a porta estreita por quem ou onde os homens devem entrar para seguir pelo caminho de salvação.

Ao nascer de novo, ou seja, ao entrar pela porta estreita, jamais será possível andar no caminho dos ímpios, mesmo se compartilhar os mesmos talheres, mesas, lugares, etc.




Parede branqueada

Estes elementos reunidos demonstram que a fala do apóstolo Paulo não foi fruto de um destempero. O apóstolo Paulo não ‘entrou’ na carne, como alguns pensam. Ele não abordou o sacerdote daquela forma por causa de um problema de visão. Como estava no exercício de sua defesa não havia a necessidade do apóstolo submeter-se a qualquer tipo de injúria real (aviltamento). Por fazer referência a Escritura, socorrendo-se dela, não havia necessidade do apóstolo Paulo desculpar-se, principalmente porque não procurou atingir o sumo sacerdote Ananias em seu caráter e moral. O apóstolo Paulo somente questionou a conduta do sacerdote no exercício de sua atribuição: julgamento.

 


“Então Paulo lhe disse: Deus te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir?” ( At 23:3 )

 

Qual foi a intenção do apóstolo Paulo ao supostamente ‘injuriar’ o sumo sacerdote de ‘parede branqueada’?

Foi um ‘destempero’ do apóstolo (falta de temperança)? Temporariamente Paulo tornou-se ‘carnal’? Problema de visão? Ele reconheceu o seu erro, o que minimiza a sua conduta? Paulo fez ressurgir temporariamente das cinzas a sua ira temperamental?

Paulo ao supostamente ‘injuriar’ o sumo sacerdote Ananias utilizou um substantivo, ‘parede’, e um adjetivo, ‘branqueada’. O que este qualificativo unido ao substantivo quer dizer?

Para entendermos a colocação do apóstolo dos gentios diante do Sinédrio (assembléia de juízes judeus que constituía a corte e legislativo supremos de Israel) não podemos esquecer que o incidente deu-se durante o exercício de defesa de Paulo.

Paulo estava exercendo a sua defesa perante pessoas ‘versadas’ na lei, e, para compreendê-lo melhor, é preciso ler os Salmos e os profetas (escritura).

Paulo também sabia que a assembléia era constituída de dois partidos da religião judaica: fariseus e saduceus.

Concluímos que: Paulo conhecia a Escritura (a lei), o Tribunal, e as pessoas que estavam assistindo o julgamento. Por compreender e conhecer todos estes elementos, Paulo tinha plena condição de exercer a sua própria defesa. Porém, quem devia fazer valer a lei no Sinédrio, o sumo sacerdote Ananias, estava burlando a lei, e ninguém parecia importar.

 

“Até quando maquinareis o mal contra um homem? Sereis mortos todos vós, sereis como uma parede encurvada, e uma sebe pouco segura” ( Sl 62:3 )

O que é possível verificar neste salmo?

Nos versos 1 e 2 o salmista expressa a sua confiança em Deus. O salmista demonstra que Deus é descanso, salvação, rocha e DEFESA “A MINHA alma espera somente em Deus; dele vem a minha salvação. Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defesa; não serei grandemente abalado” ( Sl 62:1 -2).

O que Paulo estava fazendo perante o Sinédrio? A sua própria defesa. Observe que este salmo salienta a fé em Deus, que é a defesa daqueles que nele confiam.

No verso 3 o salmista questiona: “Até quando maquinareis o mal contra um homem?”. Que tipo de mal estas pessoas descritas pelo salmista estava maquinando? Elas estavam burlando o direito do salmista!

Como? Através da falsidade, da mentira, do suborno, da extorsão e do roubo eles estavam sonegando o que era de direito do salmista. Não estavam seguindo os princípios que a justiça dita Sl 62: 4 e 9-10.

O salmista expressa a sua confiança em Deus em contraste com aqueles que exercem o juízo no meio do povo: estes estavam confiados na mentira (v. 4).

Ao supostamente injuriar o sumo sacerdote, Paulo fez referência a este salmo e a outros trechos da escritura.

Quem perverte o direito do próximo será julgado por Deus ‘Sereis mortos todos vos…’ (v. 3). Quem perverte o direito do próximo é comparado a uma parede encurvada ‘…sereis COMO uma parede encurvada…’ (v. 3). Quem perverte o direito é comparado a uma sebe que não oferece segurança ‘…e uma sebe pouco segura’ (v. 3).

O que relaciona este salmo com a defesa de Paulo perante o Sinédrio?

  • A relação entre ‘parede branqueada’ e ‘parede encurvada’;
  • O exercício de defesa de Paulo;
  • O tema do salmo: ‘…é Ele a minha defesa, jamais serei abalado’ (v. 2).

 

 

“Pelo que assim diz o Santo de Israel: visto que rejeitais esta palavra, e confiais na opressão e na perversidade, e sobre isso vos estribais, esta maldade vos será como a brecha de um muro alto, que, formando uma barriga, está prestes a cair, e cuja queda vem de súbito, num instante”
( Is 30:12 -13 )

 

Este texto demonstra que parede, muro, sebe geralmente refere-se a justiça. Ou seja, a justiça, ou o justo juízo e a retidão deveriam ser a proteção, o lugar seguro, onde as pessoas encontrariam descanso para as suas causas.

Porém, a prática demonstra que aqueles que exerciam o juízo nos tribunais de Israel rejeitam os princípios de Deus (a lei). Confiavam na opressão, na perversidade, no suborno e pervertiam o direito.

Havia os que confiavam na opressão: estes eram os amorais. Mas, havia também aqueles que confiavam em suas ações, e eram reprovados por Deus, pois ambos, morais e amorais rejeitavam a palavra de Deus.

A justiça humana é comparada a uma parede: “Apalpamos as paredes como cegos; como os que não têm olhos, andamos apalpando” ( Is 59:10 ). Ou seja, um muro, uma parede ou uma ‘sebe’ indica os limites de uma propriedade, o que remete as garantias decorrentes da lei.

Quando se demarca uma propriedade com um muro, o homem esta fazendo uso da lei. O homem procura guia-se (como cego) através da justiça humana. Quando conseguem viver a ‘altura’ das leis, regras e moral humana (embora não consiga), agarram-se a uma justiça própria, que somente consiste em direitos e deveres decorrentes de um sistema normas.

Quando procura guiar-se através destes sistemas de códigos e normas o homem tropeça como se estivesse nas trevas mesmo quando há luz (meio-dia).

A escritura (lei) é a luz pela qual o povo devia guiar-se, porém, ao trilharem os seus próprios caminhos, ou seja, guiando-se somente na letra da lei, tropeçavam.

Confiavam na lei, porém, quando fossem reunidos nos lugares escuros (regiões da morte), a condição deles seria de mortos perante Deus (destituídos da vida que há em Deus) “Tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros somos como mortos” ( Is 59:10 ).

O profeta Isaías demonstra que aqueles que estão confiados em suas maldades (e aqui entenda que não há quem faça o bem), estão abrigando-se a beira de uma parede encurvada (com uma barriga) que está prestes a ruir.

Estes não estão sob a proteção ou fundados na rocha inabalável. Pensam estar seguros, mas o verdadeiro descanso é proveniente de Deus que promove a salvação do homem que nele confia ( Sl 62:1 ).

 

“Pois na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que debulha. É de bois que Deus tem cuidado?” ( 1Co 9:9 )

 

Observe que ao citar a lei aos cristãos em Corinto, Paulo o faz em defesa de um direito seu.

Paulo estava defendendo o seu direito de apóstolo, e utiliza uma citação da lei que versava sobre a obrigatoriedade dos juízes observarem os direitos dos transgressores da lei.

É comum as pessoas utilizarem a citação “não atarás a boca ao boi que debulha” como forma de motivar as pessoas a contribuírem. Porém, o apóstolo não estava interessado em contribuição “Mas eu de nenhuma destas coisas usei. E não escrevi isto para que assim faça comigo. Melhor me fora morrer, do que alguém fazer vã esta minha glória” ( 1Co 9:15 ).

Paulo utiliza a lei para fazer uma defesa e pleitear o seu direito “Está é a minha defesa para com os que me condenam” ( 1Co 9:3 ). Pelo menos para os cristãos de Corinto Paulo era apóstolo! (v. 2).

Da mesma forma, ao ser espancado (defraudado em seu direito), Paulo invoca a lei em sua defesa quando diz: “Deus te ferirá, parede branqueada…”.

Por que Deus haveria de ferir ao sumo sacerdote Ananias? Porque é isto que expressa o Salmo: “Sereis mortos todos vós…”. O juízo de Deus sobre aqueles que pervertem o direito é morte.

Através desta suposta injuria, Paulo lembra Ananias do seu dever, e que ele seria réu de juízo perante Deus, e não dos homens ( Dt 25:1 ).

Paulo não faz uma injuria, visto que o ato de injuriar é falar algo que denigra a moral do ofendido. Qual era a moral de Ananias, homem réprobo que não observava a lei e o direito em seu tribunal?

Quando Paulo disse ‘parede branqueada’, ele procurou enfatizar a condição daquele que estava pervertendo o seu direito.

1) A lei mandava chicotear, e Paulo foi ferido no rosto;

2) Paulo ainda não havia sido condenado, e estava sofrendo uma punição não prescrita na lei ( At 23:2 ).

O que Ananias fez foi aviltar o apóstolo perante os seus olhos Dt 25:3 .

Paulo sabia que Ananias era o sumo sacerdote, pois ele estava assentado na condição de juiz “…Tu estais aqui assentado para julgar-me…”. Da mesma forma, Paulo sabia que fora açoitado por ter dito que, até àquela presente data, tinha andado diante de Deus com toda a boa consciência ( At 23:1 ).

Observe também que ‘branqueado’ é um qualificativo que denota um processo, e não algo intrínseco. A parede não era branca, antes foi tornada branca por algum processo.

Á época de Paulo utilizavam a cal no processo de branqueamento de uma parede. Parede branqueada é o mesmo que parede caiada.

Por que parede branqueada? Porque aos olhos dos espectadores presentes no Sinédrio Ananias parecia um homem justo. O processo de caiar, ou branquear era para esconder a sujidade da parede.

Mesmo agindo contra a lei, os espectadores do tribunal e o povo tinham Ananias por justo. Isto porque ele era sumo sacerdote, juiz, mestre, etc, em Israel.

“Entonces Paulo lhe diffe: Ferir teha Deus, parede caiada…” Novo Testamento das India Oriental, Amsterdam, 1681.

Sobre este aspecto Jesus protestou aos fariseus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:27 -28).

A aparência dos escribas e fariseus era semelhante a dos sepulcros bem cuidados. Por fora, formosos, cuidados, caiados, mas por dentro, guardam toda sorte de imundície.

É neste aspecto que Paulo protesta a Ananias com os dizeres: “Parede caiada”. Por estar assentado na cadeira reservada aos juízes, Ananias tinha o dever de julgar conforme a lei, porém, ele estava transgredindo a lei. Ele estava em pior condição que Paulo perante a lei ( Tg 2:10 ).

Agora, falta verificar por que Paulo desculpou-se por ter falado daquela forma ao sumo sacerdote.

Ao fazer menção da lei, Paulo esperava que os espectadores lhe apoiassem, tomando partido da lei. Porém, o que se observa é que estes estavam cegos, e voltaram-se contra Paulo ao dizerem: “Ousas insultar o sumo sacerdote de Deus?” ( At 23:4 ).

Eles eram partidários de Ananias, e deixaram de observar a própria lei. Através da colocação “parede branqueada” Paulo experimentou o tribunal, e percebeu que todos eram parciais e tendenciosos.

Por mais que exercesse a sua defesa com maestria, Paulo percebeu que seria condenado.

A alternativa de Paulo foi apelar para a clara divisão da platéia, ao utilizar um argumento que jogasse os presentes uns contra os outros At 23: 6.

Diante da oposição do tribunal e dos que assistiam ao seu julgamento, Paulo fala com ironia: “Não sabia, irmão, que ele é sumo sacerdote…” ( At 23:5 ).

Paulo sabia tratar-se do sumo sacerdote, principalmente por distinguir sobre qual cadeira Ananias estava assentado (juiz).

Paulo também percebeu que fora esbofeteado a mando de quem devia cumprir a lei, visto que, ele não ‘injuriou’ quem bateu nele, antes falou a quem havia mandado esbofeteá-lo: o sumo sacerdote Ananias.

Desta forma excluímos a ideia de que Paulo não tenha percebido tratar-se do sumo sacerdote pela possível deficiência visual.

 

Concluímos que:

Quando o apóstolo Paulo falou ao sacerdote Ananias: “Deus há de ferir-te, parede branqueada…”, ele tinha a nítida intenção de defender-se frente a clara violação da lei e dos seus direitos.

Em sua defesa o apóstolo utilizou de forma implícita a colocação do salmista que diz: “Sereis mortos todos vós, sereis como uma parede encurvada…”, da mesma forma que foi utilizada a citação: “Não atarás a boca ao boi que debulha” quando ele defendeu o seu direito de apóstolo na carta aos Coríntios.

Associado a ideia do salmo 62, que é a confiança na defesa de Deus, temos a condição dos sepulcros caiados, que externamente são cercados de cuidados, porém, continuam na condição de sepulcros ( Mt 23:27 -28).

O rei Belsazar teve a sua sentença escrita em uma parede do palácio real, e o local estava devidamente pintado de branco (caiado) Dn 5:5 .

Estes elementos reunidos demonstram que a fala de Paulo não foi fruto de um destempero. Paulo não ‘entrou’ na carne, como alguns pensam. Ele não abordou o sacerdote daquela forma por causa de um problema de visão.

A lei não trata de bois e nem os salmos de paredes “É de bois que Deus tem cuidado? Ou não o diz certamente por nós?” ( 1Co 9:9 -10). Como estava no exercício de sua defesa não havia a necessidade de Paulo submeter-se a qualquer tipo de injúria real (aviltamento).

Por fazer referência a escritura, socorrendo-se dela, não havia a necessidade de Paulo desculpar-se, principalmente por ele não procurou atingir o sumo sacerdote Ananias em seu caráter e moral. Paulo somente questionou a conduta do sacerdote no exercício de sua atribuição.

Paulo percebeu que a platéia desprezava a lei, ou que não se importariam com a distorção da lei, quando após aviltado, ninguém considerou que a sua autodefesa tinha como parâmetro a lei ( At 23:3 ).

Os espectadores do julgamento não se importaram com uma clara violação da lei, o que tornou evidente ao apóstolo que ele precisaria ser mais incisivo quando exercesse a sua defesa com base na lei ( At 23:5 ).

Observe que Paulo não amaldiçoou o sumo sacerdote Ananias em nome de Deus, antes o salmo traz em seu escopo uma sentença, que Paulo a proferiu de modo apropriado: “Deus há de ferir-te…”.

Ananias foi avisado das conseqüências dos seus atos “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pv 27:12 ), mas o ferir compete a Deus.

A colocação de Paulo é apropriada, e o apóstolo Judas assim demonstra: “Mas, o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar contra ele juízo de maldição, mas disse: O Senhor te repreenda” ( Jd 1:9 ).

O alerta de Paulo foi pertinente (Deus te ferirá), e as bases do julgamento previsto na escritura (parede branqueada), que esta prestes a cair. Qual era a atribuição de Ananias? A atribuição de Ananias era a de Juiz, prerrogativa concedida pela lei, a mesma lei que ele estava transgredindo.

Diante do comportamento abusivo de Ananias, a resposta de Paulo é irônica: Como saber que, alguém que agiu daquele modo, contrariando acintosamente a lei, pudesse ser sumo sacerdote?

Embora Paulo não ‘reconhecesse’ o juiz pela sua conduta, ele demonstra que em momento algum havia esquecido o que a lei prescrevia: “Não falarás mal de uma autoridade do teu povo” ( At 23:5 ).




Salmo 28 – Uma Oração

Se tivessem observado a lei de Deus e atentado para as obras de Suas mãos, entenderiam que as boas ações dos homens na tentativa de alcançar a salvação são obras de violência diante d’Ele. Fariam como o salmista: confiariam (pediriam) no Senhor, que lhes perdoaria as transgressões e a culpa do pecado “Confessei-te o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a culpa do meu pecado” (Sl 32:5).


 

1 A TI clamarei, ó SENHOR, Rocha minha; não emudeças para comigo; não aconteça, calando-te tu para comigo, que eu fique semelhante aos que descem ao abismo.
2 Ouve a voz das minhas súplicas, quando a ti clamar, quando levantar as minhas mãos para o teu santo oráculo.
3 Não me arrastes com os ímpios e com os que praticam a iniquidade; que falam de paz ao seu próximo, mas têm mal nos seus corações.
4 Dá-lhes segundo as suas obras e segundo a malícia dos seus esforços; dá-lhes conforme a obra das suas mãos; torna-lhes a sua recompensa.
5 Porquanto não atentam às obras do SENHOR, nem à obra das suas mãos; pois que ele os derrubará e não os reedificará.
6 Bendito seja o SENHOR, porque ouviu a voz das minhas súplicas.
7 O SENHOR é a minha força e o meu escudo; nele confiou o meu coração, e fui socorrido; assim o meu coração salta de prazer, e com o meu canto o louvarei.
8 O SENHOR é a força do seu povo; também é a força salvadora do seu ungido.
9 Salva o teu povo, e abençoa a tua herança; e apascenta-os e exalta-os para sempre.

 

Este Salmo de Davi divide-se em clamor (v. 1-5), adoração (v. 6) e testemunho (v. 7- 9).

O salmista roga ao Senhor porque confia n’Ele. A confiança do salmista deriva do amor e da fidelidade de Deus, atributos inabaláveis. O amor e a fidelidade de Deus fazem com que o salmista O compare a uma rocha, a um rochedo.

Davi roga a Deus que o ouça, que não ignore as suas súplicas para que a sua sorte não se equipare a dos que descem à cova. Embora Davi tenha explicitado que se não fosse atendido por Deus haveria de ser semelhante aos que descem à cova, ele não apresenta seus problemas pessoais.

O salmista reitera o seu pedido: que o Senhor simplesmente o atendesse, quando clamasse, ou quando levantasse as suas mãos na direção do templo ( Sl 28:2 ).

Do verso 3 ao 5 o salmista passa a enumerar as suas petições.

“Não me arrastes com os ímpios e com os que praticam a iniquidade” – O salmista não pede carros, cavalos, guerreiros, riquezas, mulheres, reinos ou vitórias sobre os seus inimigos em redor, antes que o Senhor o justifique. Como? Ora, como sabemos, Deus é santo e justo. Para Deus não deixar o salmista perecer com os pecadores é necessário que Deus o justifique. Quando o salmista diz: “Não me arrastes com os ímpios”, é um modo de o salmista pedir a Deus que não lhe impute pecado ( Sl 32:2 ).

Quem são os ímpios e os que praticam a iniquidade? Seriam os filisteus? Seriam os gentios? Não! O salmista aponta quem são os ímpios e os que praticam a iniquidade: são aqueles “…que falam de paz ao seu próximo, mas têm mal nos seus corações” ( Sl 28:3 b).

Havia muitos compatriotas do salmista que utilizavam o nome do Senhor, o Deus de paz, para falarem e relacionarem-se com o próximo. – Shalom! Shalom! Porém, para eles não havia paz “Não conhecem o caminho da paz, nem há justiça nos seus passos; fizeram para si veredas tortuosas; todo aquele que anda por elas não tem conhecimento da paz” ( Is 59:8 ). É por isso que Jesus alerta: “Nem todo o que me diz: Senhor! Senhor! Entrará no reino dos céus…” ( Mt 7:21 ). Embora muitos falem de paz, o problema deles esta no coração “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” ( Mt 15:8 ).

Observe que é próprio aos ímpios falarem de paz, porém, através do profeta Isaías Deus dá o alerta: “Não há paz para os ímpios, diz o meu Deus” ( Is 57:21 ). Jesus demonstra esta mesma verdade ao declarar: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ); “…que maquinam maldades no coração e vivem projetando guerras. Aguçam a língua como a serpente; o veneno das víboras está debaixo dos seus lábios” ( Sl 140:2 -3). Falam de paz, mas para ele não há paz. Clamam: Senhor, Senhor, porém, o coração está longe de Deus. Os ímpios, ou os que praticam a iniquidade, embora falem em paz, para eles não há paz, visto que a boca fala do que há em abundância no coração.

“Dá-lhes segundo as suas obras e segundo a malícia dos seus esforços” – É estranho quando lemos o salmista pedindo ao Senhor que recompense os ímpios segundo as suas obras. Este comportamento não é um tipo de maldade da parte do salmista? Não!

Porque a oração do salmista é segundo a vontade de Deus e será plenamente atendida “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve” ( 1Jo 5:14 ). Como a petição de Davi é segundo a vontade de Deus?

A palavra de Deus é clara e expressa a sua vontade: “Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, e provo a mente, e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos, e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ). O que é que o salmista pede? Que Deus realize o seu propósito, a sua vontade ( Mt 6:10 ). A petição do salmista será atendida, visto que ele nada pediu para gastar em seu próprio deleite ( Tg 4:3 ).

No Grande Tribunal do Trono Branco todos os homens ímpios receberão de Deus conforme as suas obras ( Ap 20:12 ), e não haverá acepção de pessoas ( Rm 2:6 e Rm 2:11 ).

Mas, o que será concedido àqueles que agem segundo a ‘malícia dos seus esforços’? O que isto quer dizer? A malícia diz do intento dos homens que buscam salvar-se por meio de suas boas ações, porém, estas ‘boas’ ações não passam de obra de violência diante de Deus “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há em suas mãos” ( Is 59:6 ).

A mensagem de Deus é clara: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ). Porém, os homens querem tomar o reino de Deus através da malícia das suas forças “A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele” ( Lc 16:16 ).

Aos homens ímpios, Deus lhes enviará ‘a sua recompensa’! O que será concedido àqueles que agem segundo a ‘malícia dos seus esforços’? A eles será dado ‘conforme a obra das suas mãos’, pois são obras de violência, obras segundo a malícia dos seus esforços, que não foram feitas em Deus! ( Jo 3:21 ).

Por que o salmista tem certeza que será atendido? Porque a retidão e a justiça de Deus serão estabelecidas “Ele mesmo julgará o mundo com justiça; exercerá juízo sobre povos com retidão” ( Sl 9:8 ).

“Porquanto não atentam às obras do SENHOR, nem à obra das suas mãos” – Os ímpios serão ‘derribados’, ‘destruídos’ porque Não observaram como o Senhor Deus procede. Se analisassem a lei de Deus saberiam como Ele procede para com os filhos dos homens “Muita paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” ( Sl 119:165 ).

 

“Pois não observaram como Javé procede, nem atendem às obras de Suas mãos”

Se tivessem observado a lei de Deus e atentado para as obras de Suas mãos, entenderiam que as boas ações dos homens na tentativa de alcançar a salvação são obras de violência diante d’Ele. Fariam como o salmista: confiariam (pediriam) no Senhor, que lhes perdoaria as transgressões e a culpa do pecado ( Sl 32:5 ).

Se observassem como o Senhor procede, rogariam conforme o salmista: Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). No salmo 51 o salmista Davi roga ao Senhor aquilo que somente Ele pode fazer: ‘Cria’ por meio da sua palavra! Somente Deus é sujeito do verbo ‘Bara’ (cria) no hebraico. Somente Deus pode criar um novo homem com um novo coração e um novo espírito!

Somente após criar o novo homem com um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25- 27 ; Ef 4:24 ; 1Pe 1:3 e 1Pe 1:23 ), é que Deus o declara justo, justificado. A palavra grega traduzida é o verbo ‘dikaioo’, que significa fazer justo, tornar justo e/ou declarar justo. Quando Deus cria o novo homem, a nova criatura é declarada justa, isto porque ela de fato é justa, pois Deus a criou em verdadeira justiça e santidade, dando um novo coração e um novo espírito.

Quem foi de novo gerado segundo a palavra da verdade não perecerá com os ímpios ( Sl 28:3 ; Jo 1:12 ).

O brado pela salvação do Senhor ecoa: “Bendito seja o SENHOR, porque ouviu a voz das minhas súplicas” ( Sl 28:6 ). Muito tempo depois o apóstolo Pedro também bendiz pela salvação alcançada: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos…” ( 1Pe 1:3 ).

Quem suplica, clama e invoca é porque crê que Deus é galardoador. Quem invoca ao Senhor o achará, visto que está perto, e será atendido “Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto” ( Is 55:6 ).

O salmista bendiz ao Senhor porque foi atendido. Ele tinha certeza que não seria arrastado com os ímpios e com os que praticam a iniquidade, por causa da misericórdia e da fidelidade de Deus. O Senhor se revelou como força e escudo e o salmista confiou e foi atendido ( Sl 28:7 ).

Na presença do Senhor o salmista se farta de alegria por causa da graça alcançada, pois ele recebeu um novo coração e um novo espírito passando a estar em comunhão com Deus ( Sl 51:11 -12). A alegria que o salmista faz referência diz do regozijo da salvação ( Sl 51:12 ), pois não será arrastado com os ímpios ( Sl 51:11 ).

A obra realizada por Deus, a salvação dos homens, é o motivo do cântico do salmista Davi “…e com o meu canto o louvarei” ( Sl 28:7). Ver, temer e confiar no Senhor é o novo cântico posto na boca dos que são agraciados com a salvação de Deus “E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão, e temerão, e confiarão no SENHOR” ( Sl 40:3 ).

A mesma força salvadora destinada ao Ungido de Deus também é utilizada para com o povo que pertence ao Senhor (v. 8). O apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos em Éfeso demonstrou que, a suprema grandeza do poder de Deus manifesto em Cristo, ressuscitando-O dentre os mortos, também foi utilizado para com os cristãos “…e qual a suprema grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-O dentre os mortos, e fazendo-O sentar-se à sua mão direita nos céus…” ( Ef 1:19 – 20).

O Senhor salva o povo que lhe pertence, e abençoa os seus filhos (v. 9). O senhor abençoa os seus filhos com toda a sorte de bênçãos espirituais, fazendo-os assentar nas regiões celestiais em Cristo, conforme Cristo se assentou à mão direita de Deus ( Ef 1:3 ; Ef 1:20 e Ef 2:6 ).




Salmo 133 – A união verdadeira

‘Viver em união’ transcende a ideia do convívio social amistoso, pois o apóstolo Paulo contendeu com Barnabé, mas ambos estavam unidos em Cristo.


Salmo 133 – A união verdadeira

1 OH! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.
2 É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes.
3 Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o SENHOR ordena a bênção e a vida para sempre.

Leia também: Salmo 91 – Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo

Parte I

O Salmista Davi faz referência à união fraterna. O verso 1 expressa o desejo do salmista para com o seu povo.

Ele faz referência a um ‘viver em união’, diferente de estar unidos ou reunidos. Ele qualifica esta ‘vida’ em união de boa e suave.

No verso 2 o salmista compara a união ao óleo precioso “É Com o óleo precioso…”. A qual óleo precioso o salmista faz referência?

É sabido que os orientais costumeiramente se perfumavam, ungindo-se, em tempos de festas e alegria. Não estar ‘ungido’ representava tristeza profunda “Enviou Joabe a Tecoa, e tomou de lá uma mulher e disse-lhe: Ora, finge que estás de luto; veste roupas de luto, e não te unjas com óleo, e sê como uma mulher que há já muitos dias está de luto por algum morto” ( 2Sm 14:2 ).

O ‘óleo de alegria’ era um bem precioso no passado “E, estando ele em Betânia, assentado à mesa, em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher, que trazia um vaso de alabastro, com ungüento de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso, lho derramou sobre a cabeça” ( Mc 14:3 ), com um significado especial “Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com ungüento” ( Lc 7:46 ).

A comparação que o salmista estabelece não é com o ‘óleo da alegria’, antes ele compara a união ao óleo da unção que era de uso exclusivo dos sacerdotes É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes” (v. 2).

O óleo da unção após ser derramado sobre a fronte do sacerdote, escorria sobre a barba até atingir a orla do manto sacerdotal.

A união fraternal é comparável ao óleo ‘sagrado da unção’ que era utilizado na unção dos sacerdotes e dos utensílios da tenda da congregação ( Ex 30:31). O óleo era composto das principais especiarias da época ( Ex 30:23), feito por um artista perfumista ( Ex 30:25 ).

Enquanto o óleo da unção era proibido ao povo ( Ex 30:33 ), a união fraternal não é vetada. Embora a união tenha o mesmo valor que o óleo da unção, dela todos deviam e podiam utilizarem sem restrição alguma.

O salmista compara a união ao orvalho do monte Hermon, que descia sobre os montes da preciosa Sião ( Dt 3:8 ; Js 12:1 ). O monte Hermon atinge uma altitude de 2.814 metros, tendo o cume coberto de neve, enquanto as terras ao redor são causticantes em decorrência do sol de verão, nomeado também de monte sagrado ou monte nevado.

O orvalho proveneiente do monte Hermon acabava por contemplar todos os montes em redor, caracteristica que tornou possível o salmista utilizá-lo como comparativo a união.

Temos dois elementos: o óleo da unção que, após derramado sobre o sacerdote, abrangia o seu corpo e vestes, e o orvalho do monte Hermon, que se expandia sobre os montes em redor (v. 2 e 3 a).

 

Parte II

“… porque ali o SENHOR ordena a bênção e a vida para sempre”

A chave para interpretação deste salmo encontra-se na última afirmação do salmista. Somente após respondermos: ‘onde o Senhor ordena a bênção? De qual bênção o salmista trata? O que é bênção e vida para sempre? Que tipo de união é preciosa?’, compreenderemos a proposta deste salmo.

 

Bênção

Após a queda Deus determinou que a mulher tivesse filhos com dores, e o homem, por sua vez, obtivesse o seu sustento com dores “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida ( Gn 3:17 ).

A determinação divina vinculou o trabalho como meio de obtenção de seu sustento diário e bens deste mundo “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ). O homem precisamente comerá e viverá daquilo que trabalhar a terra, pois a terra por si só produzirá cardos e espinhos. O sustento do homem é a retribuição pelo seu trabalho.

Enquanto que o sustento diário e os bens materiais que o homem adquire nesta vida são concedidos como retribuição pelo seu labor, a bênção de Deus é de graça e concedida a todos que O busca “A bênção do SENHOR é que enriquece; e não traz consigo dores( Pv 10:22 ).

Somente a bênção do Senhor torna o homem pleno. As riquezas deste mundo são adquiridas pelo homem através do labor e dores, no entanto, a riqueza que o homem adquire de Deus não resulta do seu trabalho, antes graciosamente Deus lhe concede.

Deus estipulou que o homem haveria de comer do fruto do seu trabalho. O apóstolo Paulo alertou que, aqueles que buscam riquezas deste mundo traspassariam suas almas com muitas dores “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores( 1Tm 6:10 ).

Diante do exposto, é certo que a bênção que o Senhor ordena não diz do sustento diário ou bens materiais, pois se assim fosse Deus invalidaria a Sua própria palavra. Até mesmo o Cristo não se furtou à determinação divina, pois ao ser encarnado, o Verbo de Deus se sujeito as mesmas fraquezas e obrigações “Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum” ( Is 53:3 ).

Digo isto porque em nossos dias é comum propagarem a ideia de que tudo é bênção de Deus. Muitos prometem e profetizam bênçãos como emprego, casa, carro, casamento, etc. É comum apresentarem um veículo como ‘bênção’ de Deus, mas esquecem que a bênção de Deus não acrescenta dores tais como um carnê, impostos, combustível, pedágios, assaltos, etc. Esquecem que o vizinho, que não serve a Deus, também adquire casa, carro, emprego, etc., e nem por isso é participante da bênção que verdadeiramente enriquece.

Observe o que diz o apóstolo Paulo: “O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus” ( Fp 4:19 ). Todas as necessidades dos cristãos serão supridas por Deus, segundo as suas riquezas, EM GLÓRIA, por intermédio de Cristo Jesus. Ele não prometeu riquezas, antes suprirá as necessidades, em glória, por Cristo Jesus. Por quê? Porque Ele não invalidará a sua palavra, visto que o homem comerá todos os dias da sua vida o que a terra produzir segundo o trabalho de quem a lavrar com dores.

De qual bênção trata o salmista Davi?

 

Ali? Onde?

Porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre! Ali, onde? O “ali” do salmista aponta especificamente para Sião!

O salmista faz referência à cidade de Sião, Jerusalém, a cidade do grande Deus “GRANDE é o SENHOR e mui digno de louvor, na cidade do nosso Deus, no seu monte santo” ( Sl 48:1 ). Sião pertence ao grande Senhor. Ela é a cidade de Deus, estabelecida sobre um dos montes que recebem do orvalho que vem do monte Hermon.

Por que Sião é o lugar que o Senhor ordena a bênção? Por que de Sião haveria de vir o salvador “E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades” ( Rm 11:26 ).

Quando apontou para Sião como sendo o lugar que o Senhor ordena a bênção, o salmista não tinha em mente carros, cavaleiros, mulheres e reinos, antes visava a bênção da salvação. De Sião viria o Libertador. De lá viria redenção que desviará de Jacó as impiedades. De Sião veio o Senhor Jesus que tira o pecado do mundo!

Carros, cavaleiros, reinos e mulheres são conquistados através da força do seu trabalho, porém, a salvação somente através d’Aquele que viria de Sião.

O homem se sustém de pão adquirido com dores, porém, a bênção da vida eterna só é possível através das palavras que saem da boca de Deus ( Mt 4:4 ). Somente em tais palavras se adquire a bênção e a vida para sempre ( Jo 4:14 ). É o Senhor que concede a bênção e a vida eterna. A salvação do Senhor é a verdadeira riqueza, pois diz de bens eternos que não acrescenta dores.

O Senhor ordena a sua bênção somente sobre os que obedecem a sua palavra. E, qual bênção o homem espera alcançar de Deus? A bênção da salvação “A salvação vem do SENHOR; sobre o teu povo seja a tua bênção” ( Sl 3:8 ).

Basta esperar em Deus porque é Ele quem trabalha para prover o homem de bênçãos eternas “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera” ( Is 64:4 ). Com relação ao labor diário é da alçada do homem prover o seu próprio sustento, mas com relação à salvação o homem deve esperar n’Aquele que trabalha em seu favor.

Em nossos dias muitos querem inverter os papéis. Com relação ao sustento diário querem que Deus lhes dê o sustento, o que contraria a determinação divina dada no Éden ( Gn 3:19 ), e dizem ‘viver da fé’. Quanto à salvação, querem fazer a ‘obra do Senhor’, sendo que expressamente Deus diz: “Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura” ( Is 55:2 ).

Aquele que ouve atentamente a voz do Senhor, que diz: “Crede naquele que Ele enviou” ( Jo 5:38), se deleitará com alegria com a obra que o Senhor realizará. Muitos desejam e outros dizem que realizam a ‘obra de Deus’. Fazem como os ouvintes de Jesus, ficam se perguntando como realizar a obra de Deus “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

A obra que Deus é fazer com que os homens creiam no enviado por ele “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Ora, é impossível o homem realizar a obra de Deus, visto que a sua obra consiste em convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo.

A multidão que foi atrás de Jesus queria saber como realizar a obra de Deus, porém, esperavam Deus realizasse o que foi determinado a todos os homens fazerem “Jesus respondeu-lhes, e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” ( Jo 6:26 ).

Jesus demonstra saber qual a intenção da multidão que o seguia: buscavam ser saciados com pão, e não porque creram em sua palavra. Jesus alerta para que qualquer que queira segui-lo, que o buscasse (trabalho) pela comida que permanece para a vida eterna, e não pelo pão diário “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:27 ).

 

O que o Senhor ordena como bênção?

Que bênção o Senhor prometeu a Davi, seu servo? Prometeu abençoar a casa de Davi dando um Filho proveniente das suas entranhas, e o reinado do Seu Filho será para sempre “Sê, pois, agora servido de abençoar a casa de teu servo, para permanecer para sempre diante de ti, pois tu, ó Senhor DEUS, o disseste; e com a tua bênção será para sempre bendita a casa de teu servo” ( 2Sm 7:29 ).

Por que a casa do salmista seria bendita? Porque a salvação do Senhor, que viria de Sião, surgiria como um renovo através de sua descendência “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens. Mas a minha benignidade não se apartará dele; como a tirei de Saul, a quem tirei de diante de ti. Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre” ( 2Sm 7:12 -16).

Do mesmo modo que o orvalho do monte Hermon alcança os montes em redor, a mesma bênção ( Gn 22:18 ), estabelecida no monte denominado de ‘O Senhor proverá’ ( Gn 22:14 ), propagou-se até chegar ao monte Sião na linhagem de Davi ( Rm 11:26 ), e dali a bem-aventurança alcançou os confins da terra através do Descendente prometido.

Abraão alcançou a bênção do Senhor porque obedeceu “E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz” ( Gn 22:18 ); “A bênção, quando cumprirdes os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que hoje vos mando” ( Dt 11:27 ). Qualquer que queira ser participante da bênção que Abraão alcançou necessita obedecer a voz do Senhor, pois é dela que advém a bênção a todas as nações da terra, ou seja, através do Descendente, que é Cristo, o Filho de Davi.

A palavra que ordena a bênção é clara: “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura. Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:1 -3).

Basta ‘obedecer’ como fez o crente Abraão que todos os homens será participantes da mesma bênção prometida a Davi, proveniente do Descendente, que é Cristo. Basta ouvir atentamente que receberá vida eterna. Fará parte de uma aliança perpétua, pois adquirirá da mesma firme bênção concedida a Davi: co-herdeiro com o Descendente.

 

União fraternal

De qual união o salmista fez referência?

É comum à maioria das religiões apregoarem união na família, na nação, na igreja (como instituição) e no mundo. Para tanto apontam o altruísmo, a tolerância, a simpatia e o acordo. Sabemos que a harmonia é imprescindível para o convívio em qualquer seguimento social, porém, a união que o salmista fez referência neste salmo diz de bons relacionamentos humanos?

Antes de responder, observe o que o apóstolo Paulo destaca: “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas” ( Rm 9:6 ). Ou seja, nem todos os que pertenciam ao povo de Israel eram de fato irmãos. Todos de Israel eram descendentes de Abraão, porém, nem todos eram de fato filhos de Abraão “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência” ( Rm 9:7 ).

De que união o salmo 133 trata: da união dos descendentes da carne de Abraão, ou da união pertinente aos filhos de Deus? O que é bom e suave? Bom e suave é ter fardo e jugo de filho!

O Cristo recomendou que aprendessem d’Ele, porque Ele era manso e humilde de coração “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:29 -30). Todos aqueles que tomam o jugo de Cristo e aprendem d’Ele, recebem de Deus poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 -13). O salmo 133 fala especificamente da união pertinente aos filhos de Deus!

‘Quão bom’ levar o fardo de filho! Quão ‘suave’ é ter o jugo de filho! Tudo isto é proporcionado aos que receberam a bênção e a vida eterna do Senhor (v. 3b), todos quantos se unem ao Descendente.

Ora, o salmista nos informa através do verso 3, parte ‘b’ que ‘em Sião’ o Senhor ordena a bênção, concedendo-lhes vida para sempre. Ora, a bênção de Sião é concedida aos filhos, e os filhos são aqueles que compartilham da vida para sempre, ou seja, que ‘vivem em união’, que ‘vivem em Deus’.

O apóstolo João fala desta união: “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo” ( 1Jo 1:3 ).

O apóstolo Paulo contendeu com Barnabé “E tal contenda houve entre eles, que se apartaram um do outro. Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre” ( At 15:39 ), e, apesar de se apartarem um do outro, contudo ‘viviam’ em união. Como pode ser isto? ‘Viver em união’ transcende a ideia do convívio social amistoso. Quando Paulo e Barnabé aceitaram a Cristo, tornaram-se nova criatura, por estarem em Cristo ( 2Co 5:17 ).

O fato de estarem ‘em Cristo’ é o que determina o ‘viver em união’. Ambos, Paulo e Barnabé, eram filhos de Deus pela fé em Cristo, e a contenda que houve entre eles não desfez a união perfeita em Cristo.

A Paz que Cristo concede não é conforme a paz do mundo ( Jo 16:33 ), pois a paz de Cristo só é possível n’Ele ( Jo 16:33 ). Cristo não veio resolver a falta de paz que há no mundo, antes veio estabelecer a paz entre Deus e os homens. Quanto ao mundo é pertinente a aflição, e, portanto, resta aos que tem paz com Deus não se atemorizar.

Do mesmo modo, a união que Cristo promove não é conforme a união que o mundo busca estabelecer. Enquanto o mundo busca promover um bom convívio social através de valores tais como: religiosidade, altruísmo, tolerância, simpatia e o acordo, a mensagem de Cristo é: “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” ( Mt 10:34 ).

Como o cristão sabe que não possui neste mundo possessão permanente ( Hb 10:34 ), no que depender dele, se possível, que tenha paz com todos os homens ( Rm 12:18 ). Tendo a certeza que Deus cerca os seus filhos de todos os bens “Ora, o mesmo SENHOR da paz vos dê sempre paz de toda a maneira. O Senhor seja com todos vós” ( 2Ts 3:16 ), àqueles que temem o Senhor têm possessão permanente “Para que faça herdar bens permanentes aos que me amam, e eu encha os seus tesouros” ( Pv 8:21).

A Sabedoria que vem do alto é que enriquece! ( Pv 8:20 ; Pv 10:22 ).

Após compreender a que se refere o Salmo 133, fica o aviso da Sabedoria: “Agora, pois, filhos, ouvi-me, porque bem-aventurados serão os que guardarem os meus caminhos. Ouvi a instrução, e sede sábios, não a rejeiteis. Bem-aventurado o homem que me dá ouvidos, velando às minhas portas cada dia, esperando às ombreiras da minha entrada. Porque o que me achar, achará a vida, e alcançará o favor do SENHOR. Mas o que pecar contra mim violentará a sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte” ( Pv 8:32 -36).

Aqueles que receberam a bênção e a vida para sempre do Senhor que veio de Sião são os que vivem em união ( Sl 133:1 e 3).




Salmo 67 – Como contemplar a glória de Deus

Como contemplar o rosto do Senhor na sua formosura? Descubra como ver a face de Deus após estudar este Salmo aparentemente singelo “Uma coisa pedi ao SENHOR, e a buscarei: que possa morar na casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do SENHOR, e inquirir no seu templo” ( Sl 27:4 )


  1. DEUS tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós (Selá.)
  2. Para que se conheça na terra o teu caminho, e entre todas as nações a tua salvação.
  3. Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos.
  4. Alegrem-se e regozijem-se as nações, pois julgarás os povos com equidade, e governarás as nações sobre a terra. (Selá.)
  5. Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos. 6 Então a terra dará o seu fruto; e Deus, o nosso Deus, nos abençoará.
  6. Deus nos abençoará, e todas as extremidades da terra o temerão.

 

Lucas, o médico amado, registrou as palavra do apóstolo Pedro que informou ao povo que Davi era profeta ( At 2:30 ).

No livro das Crônicas temos o rei Davi comissionando alguns dos filhos de Asafe, Hemã e de Jedutum para profetizarem com harpas, alaúdes e saltérios ( 1Cr 25:1 ).

Jesus, por sua vez, disse que as Escrituras testificavam acerca d’Ele ( Jo 5:39 ), e que na Lei de Moisés, nos Profetas e Salmos tem-se profecias acerca da sua vida, morte e ressurreição ( Lc 24:44 ), portanto, conclui-se que os Salmos são profecias em forma de poesias acerca da pessoa de Cristo.

Quando lemos o pedido do salmista para que Deus tenha misericórdia e abençoe, temos que analisar o texto do pedido sem se esquecer do contexto profético.

 

1 DEUS tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós (Selá.)

Qual é a benção que o salmista espera? No que consiste a misericórdia de Deus para o salmista?

O salmista responde na própria poesia, pois este é um recurso pertinente à poesia hebraica, que é apresentar a resposta logo a seguir: faça resplandecer o seu rosto sobre nós!

Para o salmista, Deus revelar o seu rosto ao homem é sinônimo de misericórdia e de bênção!

Mas, por que era necessário Deus revelar (resplandecer) o seu rosto? Quem disse que Deus escondeu o Seu rosto de Israel?

Temos a resposta desta questão no livro do profeta Isaías: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ).

Enquanto o salmista roga ao Senhor que mostre o seu rosto, temos o profeta Isaías esperando no Senhor que escondia o seu rosto. Ora, se o povo de Israel conhecia o Deus único, como é possível Deus ter escondido o seu rosto? De quem era o rosto que ambos profetizaram? Do Pai ou do Filho?

Se o próprio Jesus afirmou que a Lei, os Profetas e os Salmos testificavam d’Ele, concluímos que tanto o salmista quanto o profeta Isaías falavam acerca do Filho, pois o eunuco de Candace, quando lia Isaías ficou na dúvida se o profeta falava de si mesmo ou se anunciava outra pessoa ( At 8:34 ), mas Filipe mostrou que as Escrituras falavam acerca do Cristo ( At 8:35 ).

O Salmo 110, verso 1, faz uma desambiguação entre o Pai e o Filho, pois ambos são chamados de Senhor. O salmista ouviu quando o Senhor disse ao Senhor do salmista para que se assentasse a sua direita ( Sl 110:1 ), o que torna claro que o Filho de Deus também é Senhor do salmista, embora saibamos que o Cristo é o seu filho segundo a carne ( At 2:34 ; Mt 22:45 ).

O profeta Isaías também esclarece que o homem deve santificar o Senhor dos Exércitos, pois é o temor e o assombro. Considerando a terminologia bíblica, percebe-se que ‘temor’ é sinônimo de ‘palavra de Deus’ e, que ‘assombro’, ‘tremor’ é o mesmo que ‘obediência’, portanto, para santificar o Senhor dos Exércitos é necessário obedecer a sua palavra.

É por isso que o apóstolo Pedro recomenda aos cristãos que santifiquem a Cristo como o Senhor no coração ( 1Pe 3:15 ), e o apóstolo Paulo diz: operai a vossa salvação em obediência a palavra, ou seja, com temor e tremor ( Fl 2:12 ), sendo certo que o amor lança fora o medo ( 1Jo 4:18 ).

O profeta Isaías demonstra que, caso o Senhor seja santificado com temor e tremor, será santuário para aquele que O ‘santificar’ em seu coração, porém, o profeta apresenta uma realidade sombria: para as duas casas de Israel, o Senhor que deviam santificar em seus corações seria pedra de tropeço ( Is 8:14 ).

Diferente das duas casas de Israel, o profeta prefere esperar no Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel, ou seja, em Cristo. Aquele em que o profeta esperava tornar-se-ia pedra de tropeço à casa de Israel ( 2Pe 2:8 ).

Os judeus tropeçaram em Cristo porque não foram obedientes à palavra de Deus, ou seja, faltou-lhes temor e tremor.

A quem se refere os seguintes versos?

“O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti” ( Nm 6:25 );

“Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo; salva-me por tuas misericórdias” ( Sl 31:16 );

“Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” ( Sl 80:3 );

“Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo, e ensina-me os teus estatutos” ( Sl 119:135 );

“Agora, pois, ó Deus nosso, ouve a oração do teu servo, e as suas súplicas, e sobre o teu santuário assolado faze resplandecer o teu rosto, por amor do Senhor” ( Dn 9:17 );

Amados, nesta sequência de versículos é notório o quanto a Bíblia se auto explica. Nestes versos nota-se porque Jesus rebateu o tentador quando disse: “Mas, também está escrito…” ( Mt 4:7 ), apresentando o método correto de análise das Escrituras que é combinar e abstrair a ideia proveniente da Lei, dos Salmos, e dos Profetas referentes a um mesmo tema.

Para se entender as Escrituras vale destacar algumas questões e, é isto que faremos para entendimento do salmo 67.

Quem escondeu o seu rosto de Israel? “E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade” ( Dt 32:20 ).

A resposta é Cristo, o Filho do Deus vivo “E já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte, e te detenhas; porque escondes de nós o teu rosto, e nos fazes derreter, por causa das nossas iniquidades” ( Is 64:7 ).

 

2 Para que se conheça na terra o teu caminho, e entre todas as nações a tua salvação.

O Verbo feito carne foi a maneira que Deus fez conhecido o seu rosto. Mas, Ele resplandeceu o seu rosto não só à casa de Israel, antes manifestou a todas às famílias da terra, pois Cristo é a Estrela da manhã, o Sol da justiça que alumia toda as famílias da terra.

Somente quando o Senhor se revela, ou seja, torna conhecido o seu rosto aos homens, foi possível conhecer na terra o caminho que conduz a Deus. Observe que a misericórdia e a benção que o salmista roga não se restringe a Israel, que tropeçou e caiu, antes abrange toda a terra, ou seja, à humanidade é mostrado o caminho e às nações é ofertado salvação.

Enquanto Adão alienou-se de Deus e conduziu todos os seus descendentes à morte, Cristo é o caminho estreito que conduz o homem a Deus, diferente do primeiro Adão, que é o caminho largo por onde toda a humanidade entrou e segue por um caminho que os conduz à perdição ( Mt 7:13 -14 ; 1Co 15:21 -22).

Cristo é o Descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas ( Gl 3:8 e Gl 3:16 ), e quando resplandeceu o rosto do Deus de Jacó, as famílias da terra foram abençoados “Para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías, que diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” ( Jo 12:38 ); “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” ( Is 52:10 ).

Cristo é o Sol nascente das alturas que iluminou aqueles que jaziam nas trevas “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ; Lc 1:78 -79).

 

3 Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos. 4 Alegrem-se e regozijem-se as nações, pois julgarás os povos com equidade, e governarás as nações sobre a terra. (Selá.)

Diferente do que apregoavam os fariseus e saduceus, que somente os descendentes da carne de Abraão podiam louvar a Deus, o salmista espera em Deus que todos os povos O louvem.

O salmista conclama os povos que louvem a Deus, pois não fará distinção entre os povos, julgará todos os povos em equidade e governará as naçõesno seu reino milenial .

Este é o pedido do salmista conforme a vontade de Deus, pois é isto mesmo que Deus propôs fazer através do seu Filho ( Sl 2:7 -9).

 

5 Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos. 6 Então a terra dará o seu fruto; e Deus, o nosso Deus, nos abençoará. 7 Deus nos abençoará, e todas as extremidades da terra o temerão.

O salmista previu neste salmo que, quando os povos, todos os povos louvassem ao Senhor que escondia o seu rosto da casa de Israel, a casa de Israel estaria recebendo a benção solicitada no salmo 67: resplandeça o seu rosto sobre nós. Previu também que a terra produzirá o seu fruto, ou seja, o louvor, que é o fruto dos lábios. Os povos produzem louvor quando professam o nome de Cristo ( Hb 13:15 ).

É sobre este mesmo louvor que profetizou Oseias quando disse: “Efraim dirá: Que mais tenho eu com os ídolos? Eu o tenho ouvido, e cuidarei dele; eu sou como a faia verde; de mim é achado o teu fruto. Quem é sábio, para que entenda estas coisas? Quem é prudente, para que as saiba? Porque os caminhos do SENHOR são retos, e os justos andarão neles, mas os transgressores neles cairão” ( Os 14:8 -9).

Só pode produzir louvor a Deus aqueles que estão ligados à Oliveira verdadeira, pois só em Deus o louvor é achado. Somente os que andam em Cristo, o caminho do Senhor, produzem o verdadeiro louvor “Para que se conheça na terra o teu caminho, e entre todas as nações a tua salvação” ( Sl 67:2 ).

O salmista faz uma previsão de que haverá um dia em que Deus abençoaria todos os povos, pois todos na terra o temerão.

Ouvir a palavra de Deus é o mesmo que vê-lo face a face “Falava o SENHOR a Moisés face a face, como qualquer fala a seu amigo” ( Ex 33:11 ); “Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo, e ensina-me os teus estatutos” ( Sl 119:135 ).

Muitos têm o desejo de ver a Deus em sua glória e esplendor, assim como Filipe, mas basta ao homem crer no enviado de Deus que verá a glória de Deus “Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” ( Jo 14:9 ); “Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?” ( Jo 11:40 ); creia no evangelho e lhes resplandecerá a glória de Deus “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” ( 2Co 4:4 ).

Cristo é o Senhor que escondeu a sua face do povo de Israel. Embora Deus nunca tenha sido visto na sua glória por alguém, Cristo O revelou aos homens “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” ( Jo 1:18 ); “Buscai o Senhor e o seu poder, buscai perpetuamente a sua face” ( 2Cr 16:11 ).