Pecado

“A morte reinou desde Adão até Moisés”: o reino que evidencia o senhorio do pecado


“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” (Romanos 5:14).


Introdução

A explicação mais difundida de Romanos 5:14 diz, em resumo, o seguinte: entre Adão e Moisés não havia lei escrita, mas as pessoas morriam; logo, o pecado já estava presente, e a morte era a penalidade aplicada a todos. A razão última estaria na natureza pecaminosa herdada de Adão: “a morte reinou porque o pecado estava em nossa natureza”.

Essa leitura acerta em dois pontos. Reconhece que o reinado da morte não depende da lei de Moisés, e reconhece que ninguém precisou repetir o ato de Adão para morrer. Mas, ao explicar por que a morte reina, ela recoloca o pecado de cada homem antes da morte de cada homem, agora sob o nome de “natureza”. A morte volta a ser a pena daquilo que cada um traz em si.

O versículo foi escrito para dizer outra coisa. Paulo não afirma que a morte reinou porque havia pecado em cada um; afirma que ela reinou até sobre os que não pecaram como Adão. E, três versículos adiante, dá a causa: “pela ofensa de um só, a morte reinou por esse” (Romanos 5:17).

Para compreender por que a morte reinou desde Adão até Moisés, é necessário compreender o seu reinado como a extensão do domínio em que o pecado exerce senhorio. A morte decorrente da ofensa passou a todos; desde Adão ela tem o seu império; e é por meio dela que o pecado domina. Por isso, onde a morte alcança, ali se vê até onde vai o senhorio do pecado.

“Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.” (1 Coríntios 15:56)

O que Romanos 5:14 afirma

Para compreender a passagem, três dados precisam ser lidos em conjunto.

A morte reinou – O verbo é de realeza (ἐβασίλευσεν). Paulo não diz simplesmente que as pessoas morriam, mas descreve a morte exercendo governo. Todo reinado possui uma extensão: alcança determinados sujeitos e perdura dentro de determinados limites. Paulo fornece justamente essas duas medidas: temporalmente, “desde Adão até Moisés”; quanto aos alcançados por esse governo, “até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão”.

Desde Adão até Moisés – O versículo anterior explica o recorte: “até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei” (Romanos 5:13). O período escolhido é justamente aquele anterior à Lei mosaica, no qual a humanidade, incluindo os judeus, não se encontrava sob o regime legal posteriormente dado a Israel. Ainda assim, a morte já reinava, inclusive sobre aqueles cuja situação não reproduzia a transgressão de Adão, que recebera diretamente o mandamento ao qual estava vinculada a morte.

Até sobre os que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão – Adão recebeu uma palavra direta, com consequência anunciada, e a transgrediu. Seus descendentes não estavam nessa situação, e mesmo assim a morte exercia domínio sobre eles.

Somados, os três dados formam um argumento: onde o pecado não podia ser lançado em conta, visto não haver uma lei à semelhança da introduzida por intermédio de Moisés, a morte já governava. O reinado da morte não repousa, portanto, sobre a contabilidade dos pecados de cada um.

É o que Jesus afirma: “todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34). A condição de pecador deriva do fato de ser servo do pecado, e não o contrário; e essa servidão deriva do domínio da morte, não das ações cotidianas contrárias à moral ou à lei.

Como os autores consagrados leram

Agostinho – Lendo Romanos 5:12 pela versão latina (in quo omnes peccaverunt, “em quem todos pecaram”), entendeu que todos pecaram em Adão. Os que “não pecaram à semelhança” seriam sobretudo as crianças, que morrem sem pecado pessoal por causa da culpa herdada. A morte é pena de uma culpa transmitida.

Calvino – Registra que o versículo costuma ser aplicado às crianças, mas prefere estendê-lo a todos os que pecaram sem lei: não pecaram como Adão porque ele tinha um mandamento expresso e eles apenas o testemunho da consciência. Sustenta que Deus imputou pecados antes da lei, e cita Caim, o dilúvio e Sodoma. A lei, para ele, não cria a causa da morte; apenas a torna conhecida. E a causa é a corrupção que cada um traz do ventre, que já é pecado diante de Deus.

John Murray – Em The Imputation of Adam’s Sin, toma “o pecado não é imputado, não havendo lei” como princípio geral e raciocina: se a sentença de morte foi executada entre Adão e Moisés, algum pecado foi imputado; como não podiam ser os pecados pessoais, foi o de Adão. É a imputação imediata: a culpa do primeiro homem lançada diretamente na conta de todos.

Crisóstomo – Na Homilia 10 sobre Romanos, pergunta como alguém poderia tornar-se pecador pela desobediência de outro e responde que “pecadores”, ali, significa sujeitos à punição e condenados à morte. O que passa de Adão é a mortalidade, não a culpa.

A tradição grega – John Meyendorff sustenta que a maioria dos Pais gregos ligou a cláusula final de Romanos 5:12 à morte: a morte passou a todos e, por causa dela, todos pecaram. Herdou-se a mortalidade, e a pecaminosidade decorre dela. Há quem conteste que esse consenso fosse tão uniforme, mas a leitura existe e é antiga.

A leitura apocalíptica – Martinus de Boer e Beverly Gaventa chamam a atenção para os verbos de Paulo: o pecado entra, reina, domina, escraviza, habita. Pecado e Morte são tratados como poderes sob os quais a humanidade está, vencidos na morte e ressurreição de Cristo.

Vale registrar que Douglas Moo, um dos comentaristas mais citados de Romanos, admite em aula que ainda não tem certeza sobre o sentido dos versículos 13 e 14. A dificuldade é reconhecida.

O contraponto

Contra a morte como pena do que cada um traz em si

Agostinho, Calvino e a explicação corrente têm a mesma estrutura: para que a morte seja justa, é preciso encontrar em cada homem algo que a mereça, seja culpa herdada, seja corrupção natural. O versículo 14 caminha no sentido oposto. Ele destaca justamente os que não tinham transgressão como a de Adão, e o faz para mostrar que a morte reinou assim mesmo. Se Paulo quisesse dizer que todos tinham em si a causa da própria morte, a ressalva “até sobre aqueles” não teria função dentro do texto.

Os exemplos de Calvino (Caim, o dilúvio, Sodoma) são juízos sobre atos determinados. Eles não explicam o que o versículo descreve, que é um reinado contínuo e universal, incluindo as crianças que o próprio Calvino admite estarem ali. Para dar conta delas, ele precisa abandonar os atos e recorrer à corrupção herdada, ou seja, a uma condição.

Contra a imputação da culpa de Adão

O raciocínio de Murray é rigoroso, mas depende de uma premissa que Paulo não enuncia: a de que, se a morte alcança alguém, deve existir antes uma culpa lançada juridicamente na conta desse indivíduo. Paulo diz que o pecado não é imputado sem lei e, na frase seguinte, que a morte reinou. A relação necessária entre morte e imputação é o que Murray precisaria demonstrar a partir do texto, e ele a pressupõe.

O texto diz o que passou a todos: a morte (Romanos 5:12). Não diz que a culpa passou. Isso não significa ignorar a cláusula porque todos pecaram de Romanos 5:12; ao compreendê-la como condição, “todos pecaram” remete aos descendentes de Adão que vêm ao mundo sob o domínio da morte e, nesse domínio, são escravizados pelo pecado; além do que, quando Paulo identifica expressamente aquilo que entrou por um homem e passou a todos, o substantivo empregado é morte, não culpa. E, quando fala dos muitos, diz que foram feitos, isto é, constituídos pecadores pela desobediência de um (Romanos 5:19). O verbo descreve uma condição em que foram postos; não emprega, por si só, linguagem contábil de transferência de culpa. A leitura em termos de débito imputado precisa, portanto, ser demonstrada a partir do contexto, não simplesmente pressuposta a partir do verbo. A “culpa” decorre da condição; não é transferida; não é da moral, é condição de berço.

A morte, por sua vez, tem fundamento próprio e anterior: a palavra dada no Éden, “certamente morrerás”. Adão não possuía em si poder para criar a morte. A relação entre a transgressão e a morte havia sido estabelecida pela própria palavra divina: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Por isso, quando a ofensa ocorre, Paulo pode atribuir à ofensa de um a entrada e o reinado da morte sem precisar atribuir aos descendentes o ato que a inaugurou.

Com a tradição grega, mas além dela

A ordem defendida aqui coincide em parte com a de Crisóstomo e dos Pais gregos: nos descendentes de Adão, a morte vem primeiro, diferentemente de Adão, que da ofensa derivou a morte. A diferença está no que se entende por morte e no modo como ela se liga ao pecado.

Em Adão:
transgressão → morte.

Nos descendentes:
morte → domínio do pecado → transgressões.

Em Cristo:
morte com Cristo → libertação do pecado → vida.

Na versão mais comum dessa leitura, a morte é a mortalidade física, e o pecado nasce do medo de morrer e da luta pela sobrevivência. É uma explicação psicológica. Paulo, porém, usa linguagem de governo, não de motivação. A morte que reina é a condição de quem foi destituído da glória de Deus e perdeu a comunhão com o autor da vida; a morte do corpo é sua face visível. E o pecado não é apenas o que o homem faz por medo dela: é o senhor a quem ele serve dentro dela.

Com a leitura apocalíptica, mas com uma precisão

De Boer e Gaventa têm razão em ler pecado e morte como poderes que reinam. Falta determinar a relação entre os dois. Não são dois soberanos lado a lado. Paulo escreve que “o pecado reinou na morte” (Romanos 5:21): a morte é o domínio em que o pecado reina. E escreve que “o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” (1 Coríntios 15:56): a força desse reinado não vem de uma potência autônoma, mas de uma consequência que a palavra de Deus antecipou: certamente morrerás.

O reino da morte: a extensão do senhorio do pecado

Romanos 5 emprega reiteradamente linguagem de realeza. A morte reinou (vv. 14 e 17); o pecado reinou na morte (v. 21). Essas afirmações não precisam ser convertidas em dois reinos independentes. A própria morte é apresentada como poder que reina sobre os homens, mas é “na morte” que o pecado exerce seu reinado. A relação é, portanto, assimétrica: a extensão do reinado da morte torna visível a extensão do senhorio do pecado.

Essa perspectiva muda a pergunta feita ao texto. Se a morte fosse simplesmente uma pena aplicada individualmente em razão de uma culpa previamente imputada a cada pessoa, seria necessário determinar que culpa antecedeu a morte de cada um. Paulo, porém, escolhe justamente o período em que “o pecado não é imputado, não havendo lei” e acrescenta que, não obstante, “a morte reinou”, inclusive “sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão”. Em seguida, atribui esse reinado não às transgressões dos muitos, mas “à ofensa de um só”.

A ofensa de um inaugurou o reinado; os muitos nasceram sob ele. Eles não precisaram repetir a transgressão de Adão para ingressar nesse domínio, porque já vieram à existência dentro de sua extensão. Quem nasce dentro de determinada jurisdição não ingressa nela por um ato pessoal praticado depois de nascer. Quem descende de escravos não se torna escravo em razão de alguma transgressão própria; ele já nasce na condição determinada pelo domínio ao qual seus genitores pertencem. Do mesmo modo, os descendentes de Adão não praticam primeiro uma transgressão equivalente à de Adão para somente então serem alcançados pela morte; Paulo afirma que a morte já reina sobre eles.

Entre Adão e Moisés não havia lei que tornasse o pecado visível como transgressão. O que se via era a morte, alcançando a todos, sem exceção. É nesse sentido que o reinado da morte evidencia o senhorio do pecado: onde ele se estende, ali o pecado é senhor. Como a morte passou a todos os homens, ninguém nasce naturalmente fora desse domínio.

“Até Moisés” não marca o fim desse domínio. A morte não deixou de reinar quando a lei foi dada. O que mudou foi a forma pela qual o senhorio do pecado se tornou manifesto. Antes da lei, sua extensão podia ser constatada pelo reinado universal da morte; sob a lei, a transgressão tornou-se também uma evidência explícita, pois “pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:20) e “veio a lei para que a ofensa abundasse” (Romanos 5:20).

É por meio da morte que o pecado domina. Hebreus 2:14–15 também associa a morte a uma condição de sujeição: fala daquele que detinha “o império da morte” e daqueles que, pelo medo da morte, permaneciam sujeitos à servidão durante toda a vida. A morte aparece, portanto, ligada a poder, sujeição e escravidão, embora o texto atribua o “império da morte” ao diabo. Romanos 6 usa o mesmo verbo para os dois, κυριεύω (exercer senhorio, dominar): de Cristo ressuscitado se diz que “a morte não mais tem domínio sobre ele” (Romanos 6:9), e dos que estão nele, que “o pecado não terá domínio sobre vós” (Romanos 6:14).

Em Cristo rompe-se a relação de senhorio que morte e pecado exerciam: a morte já não domina Cristo ressuscitado, e o pecado não domina aqueles que, unidos a ele, morreram e ressurgiram para novidade de vida.

Rm 5:14 — a morte reina.
Rm 5:21 — o pecado reina na morte.
Rm 6:9 — a morte já não domina Cristo.
Rm 6:14 — o pecado não dominará os que estão em Cristo.

Por isso a saída é mudar de domínio. Paulo não manda o servo do pecado melhorar de conduta dentro do mesmo território, e sim morrer: “aquele que está morto está justificado do pecado” (Romanos 6:7). A imagem de mudança de domínio não é estranha a Paulo. Em Colossenses 1:13, a salvação é descrita precisamente como libertação de uma autoridade e transferência para outro reino: Deus “nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor”.

A figura daquele que havia de vir

O versículo termina dizendo que Adão é figura daquele que havia de vir. A correspondência está em que, nos dois casos, o ato de um alcança os muitos sem depender dos atos deles. Os descendentes de Adão não inauguraram o reino da morte; os que estão em Cristo não inauguram o reino da vida.

Em Adão: a morte reina sobre os homens.
Em Cristo: os homens reinam em vida.

Por isso o reinado muda de sujeito no versículo 17: “se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo”.

Conclusão

A leitura corrente vê na morte entre Adão e Moisés a prova de que havia pecado em cada homem e a pena que lhe correspondia. Agostinho e Murray buscam essa base na culpa de Adão posta sobre todos; Calvino, na corrupção que cada um traz consigo. Em todos, a morte é consequência de algo que se encontra primeiro no indivíduo.

Romanos 5:14 inverte a direção. A morte reinou sobre quem não transgrediu como Adão, num tempo em que o pecado não era imputado, e reinou pela ofensa de um só. Ela não é o resultado do pecado de cada descendente: é a extensão dos domínios em que o pecado é senhor, e todos os homens nascem dentro deles. Por isso o reino da morte serve de evidência do senhorio do pecado onde não havia lei que o denunciasse: basta ver até onde a morte chega.

Romanos 5 não apresenta a morte dos descendentes de Adão como consequência de uma transgressão que cada um previamente praticou, nem afirma expressamente que a culpa pessoal de Adão tenha sido lançada na conta de cada homem. Paulo afirma que, pela ofensa de um só, a morte entrou e passou a todos, chegando a reinar inclusive sobre aqueles que não transgrediram à semelhança de Adão. Esse reinado constitui a condição na qual a humanidade se encontra. É dentro desse domínio que o pecado exerce senhorio — “o pecado reinou na morte” —, de modo que a universalidade da morte evidencia a universalidade desse senhorio mesmo antes de a Lei tornar a transgressão manifesta. Em Adão, a ofensa introduz a morte; nos seus descendentes, a morte é a condição dentro da qual o pecado os domina; em Cristo, a morte é atravessada e vencida, e, por isso, pecado e morte deixam de exercer senhorio sobre aqueles que com ele morreram e ressuscitaram.

A tradição grega percebeu a ordem, e a leitura apocalíptica percebeu os poderes. O que o texto acrescenta é a relação entre eles: o pecado reina na morte, tem nela o seu aguilhão, e recebe sua força da palavra transgredida. Por isso a resposta não é um homem mais bem comportado sob o mesmo reino, mas outro reino: o da graça, que reina pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.

Referências

AGOSTINHO. De peccatorum meritis et remissione, livro I.

CALVINO, João. Commentarius in Epistolam Pauli ad Romanos, 5:12–14.

CRISÓSTOMO, João. Homilias sobre a Epístola aos Romanos, Homilia 10.

DE BOER, Martinus C. The Defeat of Death: Apocalyptic Eschatology in 1 Corinthians 15 and Romans 5. Sheffield: JSOT Press, 1988.

GAVENTA, Beverly Roberts. “The Cosmic Power of Sin in Paul’s Letter to the Romans”. In: Our Mother Saint Paul. Louisville: Westminster John Knox, 2007.

MEYENDORFF, John. Byzantine Theology: Historical Trends and Doctrinal Themes. New York: Fordham University Press, 1974.

MOO, Douglas J. “Class Discussion on Romans 5:12–21”. Aula 24 do curso Romans (NT620). BiblicalTraining.org. Disponível em: biblicaltraining.org/learn/institute/nt620-romans/nt620-24-class-discussion-on-romans-5-12-21. Acesso em: 8 out. 2026.

MURRAY, John. The Imputation of Adam’s Sin. Grand Rapids: Eerdmans, 1959.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *