A parábola do credor incompassivo

Através da parábola do Credor incompassivo é possível compreender a importância da comunhão dos membros do corpo de Cristo, que é a igreja.


A parábola do credor incompassivo

“Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves. Então o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Ele, porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Vendo, pois, os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passara. Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti? E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas.” (Mateus 18.23-35).

 

Introdução

A interpretação da parábola do ‘credor incompassivo’ é completamente distinta da parábola do ‘Samaritano compassivo. Enquanto a parábola do credor incompassivo tinha por objetivo conscientizar os discípulos sobre o dever de perdoar os irmãos, a parábola do Samaritano compassivo tinha por objetivo corrigir a má leitura que certo mestre da lei fazia da Escritura.

“Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete. Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos;” (Mateus 18.21-23);

“E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? (…) Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.” (Lucas 10.25 e 29-30).

A parábola do ‘Credor incompassivo’ é prescritiva de comportamento aos discípulos de Jesus, diferentemente da parábola do ‘Samaritano compassivo’, cujo objetivo era corrigir o doutor da lei, que ao tentar se justificar, perguntou quem seria o próximo.

A má compreensão da parábola do ‘Samaritano compassivo’ fez surgir uma grande massa de cristãos preocupados e socorrer pobres, desvalidos, sem tetos, famintos, etc., mas a parábola prescritiva de comportamento, a do ‘Credor incompassivo’ não surte o mesmo efeito, visto a gama de cristãos que não perdoam os seus irmãos em Cristo.

 

Devemos perdoar quantas vezes?

É interessante notar que em Mateus 18, versículo 17, Jesus utilizou pela segunda vez o termo grego ἐκκλησία (ekklésia). A primeira vez que o termo ekklésia foi utilizado por Jesus, foi quando Ele declarou que edificaria a sua igreja.

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;” (Mateus 16.18).

O que seria a igreja de Cristo?

O apóstolo Paulo define a igreja como o corpo de Cristo, e Cristo é apresentado como a cabeça da igreja.

“E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja,” (Efésios 1.22; Colossenses 1.18).

Os cristãos são o corpo de Cristo, entretanto, individualmente são membros uns dos outros.

“Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros.” (Romanos 12.5).

Isto significa dizer que, a igreja é uma assembleia constituída de iguais, assim como eram as assembleias dos gregos. É por isso que o apóstolo Paulo destacou em suas cartas que, em Cristo, todos os cristãos eram filhos de Deus por causa do evangelho, de modo que no corpo de Cristo não havia grego, judeu, circuncisão, incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre.

“Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.” (Colossenses 3.11);

“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.” (1 Coríntios 12.13);

“Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3.28).

Após instruir os discípulos acerca de como repreender um irmão que cometeu um erro (Mateus 18.15), Jesus deixa claro que se trata de um erro que surgiu dentre os membros da sua igreja, ao recomendar que, caso o repreendido na presença de duas testemunhas não acatar a instrução, que o considere como um gentio e publicano (Mateus 18.17).

“Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lucas 17.3).

Após essa instrução, Simão Pedro fez a seguinte pergunta:

“Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?”

O discípulo Pedro queria saber qual o limite de perdões a ser dispensado para o irmão que comete vários erros. Na concepção de Simão, sete seria um limite razoável a se perdoar.

A resposta de Jesus extrapolou a medida razoável de Pedro!

“Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete.” (Mateus 18.22).

Através do ensinamento de Jesus, Pedro tinha que olhar para si mesmo e, sem se preocupar com a disposição do irmão, obedecer. Simão Pedro, por sua vez, considerou a displicência do irmão, e assim, queria um limite palpável de vezes para perdoar.

Se houver arrependimento por parte do irmão quando repreendido, perdoe.

“Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lucas 17.3).

 

A parábola do Credor incompassivo

O Senhor Jesus estabelece um comparativo entre o reino dos céus e um certo rei que cobra a dívida de seus servos. Ao começar a cobrança, foi lhe apresentado um dos servos que devia dez mil talentos (Mateus 18.24). Como esse servo não dispunha de meios para quitar a dívida, o rei de determinou que aquele servo, bem como esposa, filhos e tudo que dispunha, fossem vendidos para que a dívida fosse paga (Mateus 18.25).

O servo, por sua vez, ajoelhou-se perante o rei, e reverenciando, clamou: – ‘Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei’ (Mateus 18.26). O rei, movido de compaixão, soltou o servo e perdoou-lhe a dívida.

O servo que foi solto e que estava livre da dívida, ao encontrar um dos seus conservos que devia cem talentos, lançou mão do devedor e, sufocando-o, exigiu que a dívida fosse paga (Mateus 18.28). O devedor do servo que teve a dívida perdoada, prostrou-se ao pé do companheiro, e implorou: – ‘Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei.’ (Mateus 18.29).

O Servo incompassivo não se condoeu da condição do seu companheiro, e o encerrou na prisão até que pagasse a dívida (Mateus 18.30). Os outros conservos ao ver o que acontecerá, se entristeceram, e anunciaram ao rei o que o servo incompassivo fizera (Mateus 18.31).

O rei mandou chamar o Credor incompassivo, e disse:

‘Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti?’ (Mateus 18.32-33).

O rei, indignado com o servo malvado, o entregou aos atormentadores, até que tudo o que devia fosse pago.

 

Aplicação prática da parábola do Credor incompassivo

Da parábola narrada por Jesus aos seus discípulos, a suma é:

“Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas.” (Mateus 18.35).

Considerando que cada cristão individualmente é membro um dos outros, e que a igreja é o corpo de Cristo (Efésios 1.22; Colossenses 1.18; Romanos 12.5), para preservação e crescimento da igreja é imprescindível aos cristãos que perdoem cada qual a seu irmão as ofensas.

Esse ensinamento de Jesus é direcionado a todos os seus discípulos! As ofensas que devem ser perdoadas não dizem de questões financeiras, como apresentado na parábola, e sim, de todas as questões possíveis e imagináveis que pode tolher a comunhão entre os membros do corpo de Cristo.

É importante frisar que a salvação se dá por meio do evangelho de Cristo (Efésios 1.13), e que o perdão dos pecados se dá somente pela pregação da fé. Isso significa que a salvação não se dá quando perdoamos as ofensas dos irmãos. É antibíblico afirmar que o perdão é a chave que abre as portas do reino dos céus, visto que Cristo é a porta pela qual os homens devem entrar e o único caminho que conduz o homem a Deus.

“Filhinhos, escrevo-vos, porque pelo seu nome vos são perdoados os pecados.” (1 João 2.12).

A certeza de salvação está no espírito que Deus nos concedeu, ou seja, o evangelho de Cristo.

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado.” (1 João 3.23-24);

“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.” (1 Coríntios 12.13);

Nos dois versos acima, o termo ‘espírito’ tem o significado de evangelho, mensagem, querigma, como se verifica nos versos a seguir:

“Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis.” (2 Coríntios 11.4);

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo.” (1 João 4.1-3);

“Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro.” (I João 4.6).

Há quem diga que a parábola do Credor incompassivo ensina que só é possível experimentar a certeza do perdão dos pecados por Deus, se o cristão estiver disposto a perdoar as ofensas dos outros. Tal posicionamento é um engodo, pois não é o que diz a parábola.

Se a salvação se dá por intermédio de Cristo, por que será punido o cristão que não perdoar de coração o seu irmão?

A parábola do Credor incompassível visa a comunhão dos membros da igreja de Cristo. A salvação é por meio da pregação da fé, mas a comunhão entre os irmãos só é possível quando o crente discerne o corpo de Cristo.

Essa temática é abordada pelo apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos de Corintos, quando ele destaca os elementos da ceia do Senhor. O cálice de vinho quando servido na ceia após ser abençoado pelos cristãos, representa a comunhão do sangue de Cristo. E o pão que é partido após ser abençoado pelos cristãos, representa a comunhão do corpo de Cristo (1 Coríntios 10.16).

O cálice representa o sangue do Novo Testamento que foi derramado por muitos para remissão dos pecados (Mateus 26.28), o pão, por sua vez, representa o corpo de Cristo (Mateus 26.26). Com base no ensinamento de Jesus (1 Coríntios 11.23-25), o apóstolo Paulo destaca que, apesar de os cristãos serem muitos, são um só pão e um só corpo, visto que todos participam do mesmo pão.

“Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão.” (1 Coríntios 10.17).

Ora, quem não compreende (discerne) no que consiste o corpo de Cristo, come do pão e bebe do cálice indignamente, e por esse motivo será culpado do corpo e do sangue de Cristo. Deste modo, cada qual deve examinar a si mesmo, e verificar se compreende que todos que creem em Cristo são membros do corpo de Cristo, e assim coma do pão e beba do cálice.

“Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do SENHOR.” (1 Coríntios 11.27-29).

Ser digno ou indigno de ser participante do cálice e do pão tem relação com a compreensão do corpo de Cristo. Se o cristão não compreender que o corpo de Cristo é uma assembleia de iguais, ou seja, que ser judeu, grego, servo, livre, rico, pobre, homem, mulher, etc., são diferenças que não são levadas em conta quando se tem bebido do espírito de Cristo (1 Coríntios 12.13).

O crente tem que reverenciar o seu irmão em Cristo, e não o pão, que o representa. Ao ter o irmão em alta conta, honramos o sangue da Nova Aliança.

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.” (Filipenses 2.3).

Em benefício da igreja, o corpo de Cristo, o amor e o perdão deve ser a base da relação entre os cristãos:

“Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.” (Efésios 4.32);

“Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.” (Colossenses 3.13).

Jesus ensinou que, caso o teu irmão te ofender, repreende-o em particular. Se ele aquiescer a repreensão, conquistou o teu irmão. Se o teu irmão não ouvir, por precaução, leve consigo duas testemunhas e o repreenda novamente, e se não te atender, notifica o ocorrido à igreja.

Por que notificar o ocorrido à igreja? Porque a proposta da reconciliação entre os membros do corpo é a comunhão. A proposta é sempre ganhar o irmão, e não o rechaçar. Ao final, a solução da questão é da igreja, pois se não escutar a igreja, que todos o considerem como um gentio e publicano.

“Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano.” (Mateus 18.15-17).

Sobre as demandas que surgem entre os cristãos, ensinou o apóstolo Paulo:

“OUSA algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida? Então, se tiverdes negócios em juízo, pertencentes a esta vida, pondes para julgá-los os que são de menos estima na igreja? Para vos envergonhar o digo. Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos? Mas o irmão vai a juízo com o irmão, e isto perante infiéis. Na verdade é já realmente uma falta entre vós, terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano? Mas vós mesmos fazeis a injustiça e fazeis o dano, e isto aos irmãos.” (1 Coríntios 6.1-8).

O apóstolo Paulo assevera que já é uma falta um cristão ter demandas contra o seu irmão em Cristo, e ele sugere que, melhor é sofrer o dano ou a injustiça. Mas, o que se via na igreja de Coríntios eram demandas uns contra os outros, e faziam injustiça e causavam dano aos irmãos.

A essência da parábola do Credor incompassivo pouco é apregoada nas igrejas, tanto que o que mais se vê nos dias atuais é o aumento de demandas na justiça pleiteadas por cristãos contra cristãos.

Em nossos dias pouco se anuncia acerca do cuidado para com a igreja de Deus.

“Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus.” (1 Coríntios 10.32).

O que Jesus ordenou à sua igreja é posto de lado, mas o que foi ensinado a um mestre da lei, o que não falta é pregações, parábolas, teatro, representação, danças, etc., sobre o Samaritano compassivo.

A parábola do Samaritano compassivo foi contada para alguém que perguntou: – ‘Quem é o meu próximo’, tentando se justificar diante de Cristo. Mas, muitos a leem como se, através da parábola, Jesus ordenou expressamente aos cristãos saírem às ruas das cidades recolhendo mendigos, bêbados, famintos, marginalizados, dementes, etc., mas, quando se deparam com a parábola do Credor incompassivo, veem somente um símile de menor importância, visto que perdoar o irmão em Cristo tornou-se um peso a muitos cristãos.

 

A parábola do Credor incompassivo e a parábola do Sermão do monte

No Sermão da montanha Jesus apresenta aos seus interlocutores, os judeus, o espírito inatingível da lei para que aceitasse a Cristo como o enviado de Deus.

Da mesma forma que Nicodemos, um rabino e fariseu, precisava nascer de novo para poder entrar no reino dos céus, à multidão precisava de uma justiça que fosse superior à dos seus mestres, os escribas e fariseus, pois também estava vetado à multidão o reino dos céus.

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Mateus 5.20).

Para demonstrar que a multidão estava perdida, Jesus cita vários pontos da lei, como o homicídio, adultério, perjúrio, etc., evidenciado que, por mais que procurassem a justiça decorrente da lei, jamais estariam à altura da exigência divina.

Para a multidão compreender que o objetivo da lei era conduzir o homem a Cristo, vez que os seus mestres não se utilizavam da lei de modo legítimo (Romanos 10.4; 1 Timóteo 1.7-10), Jesus destacou trechos da lei, como: ‘Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.’ (Mateus 5.43), e em seguida, determinou:

“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos (Mateus 5.44-45).

Por que Jesus dá essa ordem à multidão? Para destacar que tudo o que a multidão fazia em conformidade com a lei não tornava a tornava melhores que os publicanos e pecadores, pois tudo os ouvintes de Jesus fazia, que era amar os que os amavam e saudar os seus irmãos segundo a carne, os publicanos e pecadores faziam igualmente.

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?” (Mateus 5.46-47).

Se a multidão queria entrar no reino dos céus, que fizessem ações meritórias superior à dos escribas e fariseus, de modo que, se estava escrito ‘olho por olho, dente por dente’, quem não resistissem os seus opositores, sendo que quando ferido em uma face, que dessem a outra (Mateus 5.38-39).

Se a multidão queria seguir a lei e os profetas, que fizessem aos outros tudo o desejassem que os outros lhes fizesse (Mateus 7.12), mas se queriam justiça maior que a dos escribas e fariseus (Mateus 5.20), precisavam entrar pela porta estreita.

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.” (Mateus 7.13-14).

A grande parábola do Sermão da montanha tinha por objetivo causa uma mudança de pensamento (arrependimento) na multidão, de modo que deixassem de acreditar que eram salvos por descenderem da carne de Abraão, e que por isso lhes fora dada a lei.

“Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado;” (Romanos 3.9).

Sabemos por meio do evangelho que só são feitos filhos de Deus aqueles que creem que Jesus é o Cristo, e que nada alcança quem dá ambas as faces a ser esbofeteada. Deus exalta os que se humilham debaixo das potentes mãos de Deus, ou seja, que é humilhado com bofetadas em ambas as faces não será exaltado.

“E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado.” (Mateus 23.12).

Essa introdução se faz necessário por causa do que Jesus disse logo após a oração do Pai nosso:

“Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mateus 6.14-15).

A parábola do Credor incompassivo, que tem por alvo a igreja, Jesus ordena que os cristãos perdoem as ofensas dos irmãos. Diferentemente, a observação que Jesus faz logo após a oração do Pai nosso, tem por alvo a multidão constituída de judeus, que por terem sido conquistados pelos gentios, jamais perdoariam os romanos, gregos, medos, persas, babilônios, etc.

Se queriam ser salvos, os judeus tinham que fazer algo diferente dos demais homens, que eram considerados por eles como pecadores, e, por isso mesmo, deveriam perdoá-los. Mas, há uma porta e um caminho – Cristo – cuja justiça é proveniente de Deus, portanto, uma justiça superior à dos escribas e fariseus.

“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus.” (Romanos 10.3).

Para os cristãos, a recomendação paulina é:

“Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.” (Romanos 12.18).

 Mas, com relação aos irmãos, membros do corpo de Cristo, a ordem é:

“Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lucas 17.3);

“Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Efésios 4.32).




O Sermão da Montanha e o tesouro no céu

Só terá tesouro nos céus aqueles que sofrem perseguição por causa do evangelho de Cristo (Mateus 5:11 -12).


O Sermão da Montanha e o tesouro no céu

Após compreender a natureza das práticas religiosas dos judeus, como orações, esmolas e jejuns, quando já tinham em si mesmos a recompensa (Mateus 6:16), agora analisaremos como ajuntar tesouro no céu.

 

Tesouro no céu

“19 Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam;

20 Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.

21 Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Mateus 6:19-21)

 

Jesus orienta os seus ouvintes, que na sua grande maioria eram judeus, a não ajuntarem tesouros na terra. Jesus estava falando de bens materiais? Da usura? Das relações comerciais? Não!

Por que a ordem para não ajuntarem tesouros na terra? Porque as práticas religiosas dos judeus tinham por objetivo tão somente o serem vistos por seus semelhantes, e não por Deus.

Jesus orientou os seus ouvintes a ajuntarem tesouros nos céus logo após alertá-los de que os hipócritas, os líderes da religião judaica, já haviam recebido a recompensa deles quando se mostram contristados diante dos homens, ou quando oram nas esquinas das ruas e praças, e em pé nas sinagogas, ou quando davam esmolas para serem louvados pelos homens (Mateus 6:2; 6:5 e 6:16).

“E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.” (Mateus 6:16).

Como a justiça dos ouvintes de Jesus tinha que ser superior a dos escribas e fariseus para poderem entrar no reino dos céus, caso os ouvintes de Jesus fizessem como os escribas e fariseus, praticarem as suas justiças a fim de serem vistos pelos homens, não teriam recompensa diante de Deus (Mateus 6:1), daí a ordem de Jesus aos seus ouvintes: “Mas, ajuntai tesouros no céu…” (Mateus 6:20).

A ordem do verso vinte, do capítulo seis de Mateus à multidão é um contraponto às práticas religiosas dos fariseus, escribas, sacerdotes, etc.

“Não ajunteis tesouro na terra…” (Mateus 6:19);

“Mas, ajuntai tesouro no céu…” (Mateus 6:20).

Como é possível alguém ajuntar tesouros no céu? Para terem recompensa no céu era necessário aos ouvintes de Jesus ser bem-aventurados, e o único modo era sofrendo perseguição por causa da justiça, como bem foi destacado por Jesus, é o que confere grande galardão nos céus (Mateus 5:10 -11).

Compare:

“Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.” (Mateus 5:12);

“GUARDAI-VOS de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.” (Mateus 6:1-2);

A questão acerca do ajuntar tesouro nos céus já havia sido abordada por Cristo no inicio do Sermão do Monte, evidência que demonstra que o discurso de Jesus é coeso e uno, e que as questões abordadas estão entrelaçadas para evidenciar o quão falto de conhecimento acerca das coisas de Deus eram os ouvintes de Cristo (Deuteronômio 32:28).

‘Tesouros’, ‘riquezas’ são figuras utilizadas pelos profetas para fazerem referência ao que o homem herdará: a) ou por andar segundo os juízos de Deus; b) ou na vaidade dos seus próprios pensamentos. São figuras utilizadas nos Profetas, Salmos e na Lei para fazer referência à justa paga de Deus aos homens pela justiça ou pela injustiça!

Todos os homens sem Deus são descritos como ‘amontoadores’ de riquezas, ou seja, os judeus não são exceção à regra:

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará.” (Salmo 39:6).

O que não faltava nos judeus era a aparência, no entanto, Deus olhou dos céus à terra e não havia entre os homens um se que fosse justo (nem mesmo os judeus), pois desde que nascem andam errados, pois seguem um caminho que não é bom, falando mentiras (Salmos 53:3; Salmos 58:3).

As Escrituras depunham contra os filhos de Israel evidenciando que não eram justos, ou seja, eles que estavam em igual condição aos gentios, porém, não deram ouvidos aos Profetas, aos Salmos e a Lei (Romanos 3:9). Em nenhuma passagem bíblica os judeus são descritos como exceção aos que se desviaram, antes quando a Bíblia aponta a condição da humanidade, ela enfatiza que ‘todos’ se extraviaram!

Nas inúmeras advertências que constam das Escrituras, os filhos de Israel são rotulados através de várias figuras como: loucos, dura cerviz, adúlteros, infiéis, etc., pois não davam ouvidos à palavra de Deus.

“Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus.” (Jeremias 5:4);

“Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” (Salmo 94:8);

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.” (Romanos 1:22).

Na verdade, os filhos de Israel tornaram-se mestres na arte do ganho da opressão, da violência, da maldade, da transgressão. Apesar de terem a lei de Deus chegada à boca, Deus estava longe do coração deles, pois eram dados a obedecerem a mandamento de homens, mas não obedeciam a Deus.

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Isaías 29:13).

Por isso Deus protesta contra Israel, dizendo:

“Ouve, povo meu, e eu falarei; ó Israel, e eu protestarei contra ti: Sou Deus, sou o teu Deus (…) Mas ao ímpio diz Deus: Que fazes tu em recitar os meus estatutos, e em tomar a minha aliança na tua boca?” (Salmo 50:7 e 16).

Quando Jesus anunciou: “Não ajunteis tesouro na terra…”, Ele compreendia exatamente o que foi dito por Jeremias e outros profetas:

“Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” (Jeremias 9:23).

‘Sábio’, ‘forte’ e ‘rico’ são figuras que rementem especificamente aos judeus, pois todas as suas práticas religiosas, como jejuns, orações, esmolas, etc., os tornava abastados, ricos, fartos, mas na verdade não passavam de loucos, pobres, cegos e nus, homens que não confiavam em Deus, e sim, na abundância de suas riquezas:

“Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará, e no seu fim será um insensato.” (Jeremias 17:11);

“Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade.” (Salmo 52:7).

Qualquer que não anda segundo a palavra de Deus é opressor, violento, homicida, soberbo, ímpio, rico, por isso é dito:

“E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos.” (Zacarias 4:6);

“Eis que estes são ímpios, e prosperam no mundo; aumentam em riquezas.” (Salmo 73:12);

“Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” (Salmo 62:10).

Na sua epístola, o irmão Tiago deixa bem claro quem eram os ricos:

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir (…) Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tiago 5:1 e 6).

Mas, as riquezas deles estavam apodrecidas:

“As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias.” (Tiago 5:2 -3).

Os judeus faziam as suas práticas religiosas objetivando serem reconhecidos pelos homens como bons seguidores da religião e serem aceitos por eles, mas ter o louvor dos homens não dá direito a ter recompensa junto ao Pai celeste.

“GUARDAI-VOS de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 6:1).

Muitos judeus ficaram receosos de crerem em Cristo com medo de serem expulsos das sinagogas, pois davam mais valor a gloria de homens do que a gloria que é proveniente de Deus (João 12:42 -43).

A obra de Deus era crer em Cristo (João 6:29), mas como gostavam de receber honras uns dos outros, rejeitaram crer em Cristo.

“Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?” (João 5:44).

 

A candeia do corpo

“22 A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;

23 Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mateus 6:22 -23).

Estes dois versos resumem o que foi dito acerca dos hipócritas (aqueles que praticam as suas justiças a fim de serem vistos pelos homens), e visa proporcionar uma mudança de concepção nos ouvintes do Sermão da Montanha, ou seja, proporcionar a ‘metanoia’ (arrependimento, mudança de entendimento), de modo a tornar possível ajuntarem tesouro no céu.

Jesus nomeia os escribas e fariseus de ‘hipócritas’, assim como os nomeou ‘raça de víboras’, ‘loucos’, etc. Sabemos que tais nomes não são xingamentos, antes identificam os fariseus e escribas com as mesmas figuras utilizadas pelos profetas (Deuteronômio 32:33; Salmo 140:3; Jeremias 5:4 e 21).

Jesus nomeou os escribas e fariseus de hipócritas, visto que tudo o que procedia da boca deles destruía o próximo, ou seja, acerca de Deus eles não diziam boas coisas.

“O hipócrita com a boca destrói o seu próximo, mas os justos se libertam pelo conhecimento.” (Provérbios 11:9);

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.” (Mateus 12:34).

Quando afirmou que os escribas e fariseus eram maus, raça de víbora e hipócritas, Jesus tinha em mente a palavra de Deus que diz:

“Porque o vil fala obscenidade, e o seu coração pratica a iniquidade, para usar hipocrisia, e para proferir mentiras contra o SENHOR, para deixar vazia a alma do faminto, e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida.” (Isaías 32:6).

Como a ‘candeia’ do corpo são os olhos, e os fariseus e escribas eram como que os ‘olhos’ do povo, todos em Israel estavam em trevas, pois os fariseus e escribas eram condutores cegos, consequentemente, o povo estava à caminho da cova.

“Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova.” (Mateus 15:14);

“Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos.” (Isaías 59:10).

O ensinamento dos condutores cegos e maus (vil) fazia com que o povo adotasse as mesmas práticas que eles: a) orações nas sinagogas e nas praças; b) esmolar a fim de serem vistos, e; c) jejuarem desfigurando os rostos.

Com suas práticas, exteriormente os fariseus e escribas pareciam justos aos homens, mas por dentro, nunca haviam se lavado da imundície.

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.” (Mateus 23:27-28);

“Há uma geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia.” (Provérbios 30:12).

Há muito profetizou Isaías:

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.” (Isaías 8:20).

Como os escribas e fariseus invalidavam a lei de Deus por causa da tradição de homens, certo é que neles não havia luz.

“E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus. Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.” (Isaías 15:6-9).

Por intermédio de Moisés, Deus já havia alertado os filhos de Israel de que eles não entendiam e nem conseguiam contemplar as coisas concernentes a Deus.

“Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” (Deuteronômio 29:4);

“Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jeremias 5:4);

“Ouvi agora isto, ó povo insensato, e sem coração, que tendes olhos e não vedes, que tendes ouvidos e não ouvis” (Jeremias 5:21).

Cristo instou a ajuntarem tesouro no céu, portanto, deveriam deixar o caminho dos hipócritas, ou seja, dos seus líderes religiosos.

“Assim será para a tua alma o conhecimento da sabedoria; se a achares, haverá galardão para ti e não será cortada a tua esperança” (Provérbios 24:14);

“Porque o homem maligno não terá galardão, e a lâmpada dos ímpios se apagará” (Provérbios 24:20).

 

Dois senhores

“24 Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24)

Embora estejamos abordando os versos em tópicos, o leitor precisa considerar a coesão dos argumentos apresentados por Cristo no Sermão da Montanha, pois a abordagem acerca da impossibilidade de servir a dois senhores ainda tem em vista a temática de como ajuntar tesouros no céu.

O argumento de Jesus quanto à impossibilidade de servir a dois senhores era incontestável, porém, o ensino dos escribas e fariseus, guias dos filhos de Israel contrariava essa verdade, pois é impossível ser ‘avarento’ e ajuntar tesouro no céu!

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza.” (Ezequiel 33:31).

O povo de Israel gostava de ouvir a palavra de Deus, mas não obedeciam (Mateus 21:28 -32). Não atinavam que somente os que praticam a lei hão de ser justificados (Romanos 2:13; Tiago 1:22).

A máxima: ‘Não podeis servir a dois senhores’, decorre da seguinte motivo: Ou há de odiar a um e amar o outro, ou se devotará um e desprezará o outro’. Por fim, Jesus dá aplicação prática da máxima: ‘Não podeis servir a Deus e as riquezas’.

Algumas traduções vertem ‘riquezas’ por ‘Mamon’, como se Jesus se referisse a um deus pagão, porém, não se trata de uma divindade pagã, e sim, do próprio individuo, ou do seu próprio ventre.

“Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas.” (Filipenses 3:19).

Saul é um exemplo claro de alguém que coxeava entre dois senhores: Deus e a si mesmo. Quando Deus ordenou que destruísse completamente os amalequitas, Saul convocou o povo e os reuniu em Telaim e contou o povo: duzentos mil homens de infantaria e dez mil homens de Judá.

Saul e o povo feriram os amalequias desde Havilá até Sur, que ficava defronte para o Egito, porém, em dado momento, Saul e o povo tomaram vivo a Agague, rei dos amalequitas, bem como o melhor das ovelhas e dos bois. Ora, enquanto destruíam os amalequitas e toda coisa que acharam vis e desprezíveis, estavam a serviço do Senhor, mas quando pouparam a Agague e o melhor do interdito, seguiram a avareza, servindo ao próprio ventre (2 Samuel 15:7-9).

Tanto Saul quanto o povo eram homens cujo deus era o ventre, pois ao se lançarem sobre os despojos, contrariando a ordem de Deus, tomaram posse de uma porção terrena, riquezas que são pertinentes ao mundo: bois e ovelhas.

A glória que Saul desejou ao lançar mão de Agague não passava de sua própria perdição. O rei Saul estava mais interessado em ser honrado diante do povo e dos anciões, do que ser aprovado por Deus (2 Samuel 15:30).

Do mesmo modo, quando os filhos de Israel jejuavam, não eram para o Senhor, e sim, para si mesmos. Quando festejavam e comiam e bebiam, não era para o Senhor, e sim, para eles mesmos.

“E para dizerem aos sacerdotes, que estavam na casa do SENHOR dos Exércitos, e aos profetas: Chorarei eu no quinto mês, fazendo abstinência, como tenho feito por tantos anos? Então a palavra do SENHOR dos Exércitos veio a mim, dizendo: Fala a todo o povo desta terra, e aos sacerdotes, dizendo: Quando jejuastes, e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, porventura, foi mesmo para mim que jejuastes? Ou quando comestes, e quando bebestes, não foi para vós mesmos que comestes e bebestes?” (Zacarias 7:3-6).

Os escribas e fariseus não serviam ao Senhor, antes a si mesmos, pois quando jejuavam tinham o fito de fazer ecoar as suas vozes no alto.

“Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” (Isaías 58:4).

Amar ao Senhor é obedecer (1 João 5:3). Se alguém crê em Cristo, obedece a Deus, portanto, se fez servo. Mas, como buscavam glória uns dos outros, não mudavam de concepção (metanoia) para crer, e seguiam a sua avareza, pois onde está o coração, aí está o seu tesouro (Mateus 6:21).

“Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?” (João 5:44);

“Apesar de tudo, até muitos dos principais creram nele; mas não o confessavam por causa dos fariseus, para não serem expulsos da sinagoga. Porque amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (João 12:42-43).

 

Solicitude pelas coisas do dia a dia

“25 Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?

26 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?

27 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?

28 E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;

29 E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.

30 Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?

31 Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?

32 (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas” (Mateus 6:25-32).

 

Diante da impossibilidade de servir a Deus e servir a si mesmo, Jesus exorta:

“Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber…” (v. 25).

Vale destacar a pergunta que foi feita no início do estudo do Sermão da Montanha: As instruções de Jesus no sermão do Monte são prescrições de comportamento, moral, ou diz de uma nova lei? Nenhuma destas opções!

A abordagem de Jesus tinha por objetivo confrontar o pensamento dos seus ouvintes, judeus, que se julgavam melhores que os gentios por serem descendentes da carne de Abraão, evidenciando que não havia nenhuma diferença significativa entre o pensamento judaico e o pensamento gentílico.

Tanto judeus quanto gentios andavam ocupados com o que haveriam de comer, beber ou vestir. Os ouvintes de Jesus, na sua maioria, eram judeus que se comportavam como se desconhecessem a verdade de que o corpo possui valor maior que o mantimento e a vestimenta! Eles pareciam desconsiderar que, se Deus cuida dos pássaros, quanto mais dos homens! (Mateus 6:25 -26).

Jesus deixa claro que, por mais que o homem se preocupe, esteja ansioso, etc., nem mesmo pode alterar a sua própria estatura, ou acrescer uma hora a mais ao curso da vida. Se Deus cuida dos lírios do campo, que não trabalham e nem costuram, por mais fugazes que eles sejam, não cuidaria muito mais dos homens? (Mateus 6:26 -30).

A suma da exposição de Jesus se depreende dos versos 31 e 32, vez que os versos 25 à 30 são argumentativos, portanto, não prescritivos de comportamento. A exposição tinha por objetivo fazer os ouvintes de Jesus fazer a seguinte consideração:

‘Todas essas coisas os gentios procuram!’ (Mateus 6:32).

Os judeus se achavam superiores aos gentios, mas não consideravam que igualmente aos demais homens andavam ansiosos, perseguindo a ideia: que comeremos? Que beberemos? Ou, com que nos vestiremos? Se andavam ansiosos da mesma forma que os gentios, em que os judeus eram diferentes dos demais homens?

“(Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas” (Mateus 6:32).

A preocupação dos judeus deveria ser outra: o reino de Deus e a sua justiça, no entanto, se inquietavam por questões do dia a dia! A ordem dada a Moisés não havia sido alterada:

“A justiça, somente a justiça seguirás; para que vivas, e possuas em herança a terra que te dará o SENHOR teu Deus” (Deuteronômio 16:20).

De tudo que Jesus ensinou, a suma é:

 

“33 Mas, buscai[1] primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.

34 Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mateus 6:33 -34).

 

O Reino de Deus

Os ouvintes do Sermão da Montanha deveriam buscar o reino de Deus e a sua justiça (Mateus 5:33), pois somente através do reino de Deus alcançariam a justiça superior à dos escribas e fariseus que dá direito ao homem entrar no céu (Mateus 5:20), e por causa dessa justiça seriam perseguidos e bem-aventurados, ajuntando assim tesouros no céu (Mateus 5:10-12).

Através da temática: ‘o reino de Deus e a sua justiça’, percebe-se a coesão do discurso, e que a temática, desde o anuncio das bem-aventuranças, é proporcionar aos ouvintes a ‘metanóia’, ou seja, a mudança de concepção de como serem salvos.

No que consiste ‘buscar o reino dos céus’? A ‘busca’ é o mesmo que inquirir, investigar, perscrutar, etc., ou seja, os ouvintes de Jesus deveriam estar ocupados em descobrir (identificar) o reino de Deus, pois somente assim teriam a justiça que vem de Deus.

“E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” (Filipenses 3:9).

Ora, os judeus à época de Cristo deveriam estar atentos as Escrituras, pois João Batista estava apregoando no deserto da Judeia que era necessidade uma mudança de pensamento (metanoia), e o motivo era claro: o reino de Deus está próximo (Mateus 3:2). Neste mesmo diapasão, Jesus veio anunciando a necessidade de mudança de concepção, e apresentou o mesmo motivo: a proximidade do reino de Deus (Mateus 4:17).

Os judeus deveriam inquirir, investigar, buscar, etc., para compreenderem como se daria a vinda do reino de Deus, pois o reino de Deus não vinha com aparência exterior, e nem os homens diriam: – ‘Ei-lo aqui ou ali’ (Lucas 17:20-21), de modo a possibilitar identifica-lo.

Como ‘investigar’, ou como ‘buscar’ o reino de Deus? Perguntando aos amigos, irmãos e familiares? Não! Pois os inimigos do homem seriam os seus próprios familiares (Miqueias 7:6; Mateus 10:36). Como confiar nos amigos, irmãos e familiares, se as Escrituras diziam para não confiar?

“Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca.” (Miqueias 7:5).

Para os filhos de Israel identificar o reino de Deus era necessário analisar única e exclusivamente o testemunho que Deus deu acerca do seu reino nas Escrituras.

Embora o reino de Deus estivesse em meio aos homens, ninguém o apontou, dizendo: ‘Ei-lo aqui’, a não ser João Batista, em quem os filhos de Israel não creram.

“Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós.” (Lucas 17:21);

“Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer.” (Mateus 21:32);

“Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio.” (Lucas 7:33).

A ordem de Deus para os filhos de Israel era para não confiarem no amigo, pai, mãe, irmãos, filhos, etc., quando ‘buscassem’ o reino de Deus, antes deveriam se firmar na palavra de Deus anunciada pelos santos profetas. Acerca do Messias cada qual tinha uma opinião: uns achavam que era Elias, outros João Batista, outros Jeremias, ou um dos profetas, etc., mas a revelação de Deus é o diferencial, pois somente através da revelação Pedro confessou: – ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’!

Carne e sangue (familiares) não trouxe aos homens o conhecimento de que Cristo é o Filho de Deus, e sim, o Pai, por intermédio das Escrituras! Sem a revelação de Deus em Cristo jamais Pedro confessaria a filiação divina do Jesus de Nazaré.

Cristo é a justiça de Deus manifesta a todos os povos, e no evangelho se descobre a justiça de Deus (Romanos 1:17). Deus havia prometido salvação a todas famílias da terra, quando disse a Abraão: “… em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3).

É em função do que foi dito a Abraão que Deus anunciou, por intermédio de Isaías, que o Messias seria salvação para todos os povos:

“Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.” (Isaías 49:6);

“O SENHOR fez notória a sua salvação, manifestou a sua justiça perante os olhos dos gentios.” (Salmos 98:2).

O Messias veio conforme a profecia, e adentrou a cidade santa aclamado como rei e assentado sobre um jumento, mas foi rejeitado e morto por seus irmãos segundo a carne.

“Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta.” (Zacarias 9:9).

Os filhos de Israel não entenderam a missão do Messias, pois queriam o reino, porém, o rei escolhido por Deus por decreto (Salmo 2:6), primeiro veio como pedra angular com a missão de edificar um templo santo ao Senhor, pois só após construir o templo, que é a igreja, o Reino de Cristo lhe será dado e firmado para sempre, conforme Deus havia prometido a Davi.

“Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre.” (2 Samuel 7:13).

A pedra angular tornou-se pedra de tropeço, uma rocha de escândalo para os descrentes.

“E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados.” (1 Pedro 2:8);

“Como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; E todo aquele que crer nela não será confundido.” (Romanos 9:33).

Enquanto Deus preparou um santuário para todos os povos, as duas casas de Israel (Judá e Israel) foram enlaçadas e presas.

“Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Isaías 8:14).

Os filhos de Israel deveriam buscar primeiro o Cristo e a sua justiça, mas a preocupação deles era com a manifestação do reino.

“E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu, e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus.” (Lucas 19:11).

 

 

[1] “2212 ζητεω zeteo de afinidade incerta; TDNT – 2:892,300; v 1) procurar a fim de encontrar 1a) procurar algo 1b) procurar [para descobrir] pelo pensamento, meditação, raciocínio; investigar 1c) procurar, procurar por, visar, empenhar-se em 2) procurar, i.e., requerer, exigir 2a) pedir enfaticamente, exigir algo de alguém” Dicionário Bíblico Strong




Sal da terra e luz do mundo

A parábola do sal da terra e da luz do mundo tem por objetivo demonstrar que, assim como o sal insípido perde o seu valor e função, tal é a condição daqueles que deixam de ser discípulos…


Sal da terra e luz do mundo

“Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” (Mateus 5:13 -14).

 

Introdução

Invariavelmente, os comentários acerca dessa passagem bíblica, procuram mensurar o valor do sal, quer seja à época de Jesus, como um produto de valor considerável, quer nos dias de hoje, que o sal, pela oferta do produto do mercado, parece ter um valor irrisório.

No decurso da análise, os comentaristas, geralmente, enfatizam que o sal e a luz referem-se ao caráter, à moral dos discípulos de Jesus ou, que os seguidores de Jesus têm de praticar boas ações, fazer ações caridosas, ajudar as pessoas carentes, influenciar a sociedade, etc.

Há aqueles que, a partir das funções essenciais do sal (dar gosto e conservação aos alimentos), enfatizam que os verdadeiros seguidores de Cristo devem lutar por questões humanitárias, envolver-se na luta por direitos iguais, abraçar a causa dos direitos sociais e garantias legais, etc.

Foram questões semelhantes a essas que Jesus buscou evidenciar no seu discurso? Qual a essência de um verdadeiro seguidor de Cristo?

 

O público da mensagem

Logo após escolher os doze apóstolos, dentre os seus discípulos (Lucas 6:13), Jesus desceu para um ponto plano na montanha, onde todos passaram a noite e grande número de seguidores e uma multidão de pessoas das cidades circunvizinhas se reuniram para ouvi-Lo (Lucas 6:17).

É nesse cenário que Jesus proferiu aos seus discípulos as bem-aventuranças:

“E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lucas 6:20).

Quando Jesus fitou os seus discípulos, identificou o público alvo das bem-aventuranças: os seus seguidores. Os seguidores de Jesus eram os ‘pobres’, os ‘famintos’, os ‘pranteadores’, etc. (Lucas 6:20-21; Mateus 5:3-9).

Aos discípulos temos uma mensagem de bem-aventurança, à multidão das cidades circunvizinhas, uma mensagem de arrependimento, pois estes necessitavam de justiça superior a dos escribas e fariseus, para ter direito ao reino dos céus (Mateus 5:20), enquanto aqueles já estavam de posse do reino dos céus (Mateus 5:3).

 

Os discípulos de Cristo

Jesus tinha muitos discípulos e dentre estes, tinha os apóstolos. Muitos discípulos se desviaram durante o ministério de Jesus, pois estavam tão somente interessados em pão e milagres, mas não aceitavam o seu discurso (João 6:60 e 66; 8:31; Mateus). Dentre os apóstolos, um se perdeu, conforme as Escrituras predisseram (Salmo 69:25).

Mas, antes de partir, Jesus deixou consignada a principal característica de um discípulo:

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35).

O que Jesus evidenciou ao dizer ‘se vos amardes uns aos outros’? Resposta: que seriam discípulos, se realmente obedecessem a Ele. A essência do discipulado está na obediência e em ser obediente ao seu Senhor e Mestre, o discípulo revela de quem é discípulo.

Por isso Jesus disse:

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós que, também, vós, uns aos outros, vos ameis” (João 13:34).

Só é possível conhecerem que alguém é discípulo de Cristo, quando esse alguém obedece a Cristo, amando uns aos outros. E esse ‘amor’ não deve ser conforme o entendimento do discípulo mas, sim, conforme o mandamento do seu Senhor. Observe:

“Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão. TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido. Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (João 4:20-21 e 5:1-3).

Quem são os irmãos, de quem é discípulo de Cristo? Aqueles que fazem a vontade de Deus, conforme se lê: “Porquanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Marcos 3:35).

Se qualquer que fizer a vontade de Deus é irmão de Jesus, um nascido de Deus, o verdadeiro discípulo que verdadeiramente ama a Deus, não pode fazer acepção de pessoas, escolhendo amar segundo preferências pessoas, tais como: nação, língua, sexo, nacionalidade, tribo, etc.

Se todo que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, segue-se que fazer a vontade de Deus é crer que Jesus é o Cristo (Marcos 3:35 com João 5:1). Um cristão de nacionalidade judaica não pode ‘odiar’ um gentio que fez a vontade de Deus e que, portanto, é irmão de Cristo.

Se o amor de Deus constitui em guardar os seus mandamentos, só ama a Deus quem crê que Jesus é o Cristo e ama a qualquer que fizer a vontade de Deus, sem se importar com qualquer outra questão circunstancial pois, todos, pela fé em Cristo, são filhos de Abraão.

A abordagem do Senhor Jesus e do evangelista João, que evidencia quem são os discípulos de Cristo, tem o seguinte escopo:

“Porque todos sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e herdeiros, conforme a promessa” (Gálatas 3:26-29).

A abordagem do apóstolo Paulo, acerca do mandamento de Jesus, é muito prática, pois ele evidencia que, no corpo de Cristo, não há diferença entre os membros.

“Porventura, o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Coríntios 10:16-17).

Se um crente em Cristo compreende a essência do corpo de Cristo e anda segundo essa verdade, é um discípulo verdadeiro, e nisto todos saberão que tal crente é um discípulo de Cristo.

 

Perseguidos

Uma das evidências dos verdadeiros discípulos de Cristo, está nas perseguições.

“Os quais, também, mataram o SENHOR Jesus e os seus próprios profetas e nos têm perseguido; não agradam a Deus e são contrários a todos os homens” (1 Ts 2:15);

“E, também, todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Tm 3:12).

As perseguições não decorrem dos negócios desta vida, mas, por causa da justiça (Mateus 5:10). Não se pode entender a ‘justiça’, da qual Jesus fala, com luta por causas sociais, sistemas políticos, placa de igreja, filosofias de vida, etc.

À época dos apóstolos, os judeus foram perseguidos, entretanto, isso se dava por que não se sujeitavam a nenhuma instituição humana, pois, queriam a independência politica de Israel. Sobre esses, disse o apóstolo Pedro:

“Mas, principalmente, aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades” (2 Pedro 2:10).

Quando veio a perseguição dos romanos sobre os judeus, isso se deu por questões políticas, não por causa da justiça. Por isso, o alerta: “Então, Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mateus 26:52).

A ‘justiça’ em voga, diz da justiça de Deus, que se descobre no evangelho:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” (Romanos 1:16-17).

Jesus deixa claro que os seus discípulos seriam bem-aventurados, quando sofressem perseguições, por causa da justiça ou, quando fossem injuriados e perseguidos por causa de Cristo. A atitude de um discípulo, ao ser perseguido, por causa de Jesus, é exultar e se alegrar, por dois motivos: a) grande recompensa nos céus e; b) os profetas, também, foram perseguidos.

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque, assim, perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mateus 5:10-12).

 

Sal da terra e luz do mundo

“Vós sois o sal da terra e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador e dá luz a todos que estão na casa. Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16).

Após as bem-aventuranças, Jesus declara que os seus discípulos eram sal da terra. Por que sal da terra? O que os discípulos fizeram para receberem esse predicativo? Percebe-se, pela leitura do texto bíblico, que os discípulos não tinham feito nada, porém, já eram sal e luz.

Isso significa que ser sal e luz do mundo está, intrinsicamente, ligado a ser discípulo de Cristo. Ser discípulo de Cristo é o suficiente para ser sal da terra e luz do mundo.

Enquanto o crente em Cristo estiver sendo perseguido, por causa da justiça, sendo injuriado e perseguido, por causa de Cristo, é sal da terra e luz do mundo. Se o crente não estiver amando a seus irmãos ou, se não permanecer nos ensinamentos de Cristo, deixou de ser discípulo, consequentemente, deixa de ser sal e luz.

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente, sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:31-32);

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35);

“Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e, assim, sereis meus discípulos” (João 15:8);

Como o crente produz fruto? Estando ligado à videira verdadeira (Joao 15:4-5). E qual é o fruto que o crente ligado à Cristo produz? O fruto dos lábios, que confessam o nome de Cristo, como Senhor e Mestre (Hebreus 13:15), pelo qual Deus é glorificado (Isaías 61:3).

É por isso que o apóstolo Paulo instruía os discípulos a permanecerem firmes na verdade do evangelho, a fé que foi dada aos santos:

“Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que, por muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:22).

A parábola do sal e da luz tem por objetivo demonstrar que, assim, como o sal insipido perde o seu valor e função, tal é a condição daqueles que deixam de ser discípulos; para o reino de Deus, deixam de ter valor e só servem para ser lançados fora e pisados pelos homens.

Qualquer que diz estar em Cristo e volta às questões da lei, deixa de ser sal da terra. Os cristãos das cidades da Galácia, por estarem passando para outro evangelho, estavam deixando de serem sal da terra. Por causa do nome, da doutrina de Cristo, o homem é sal da terra, mas, se voltar a lançar mão de rudimentos fracos e pobres como: guardar os Sábados, circuncidar-se, lavar as mãos, etc., torna-se insípido, para nada mais presta (Gálatas 4:9-10; Colossenses 2:20-22).

Um verdadeiro discípulo, aquele que permanece no ensino de Jesus, é liberto do Senhor, um filho da luz, portanto, é luz no Senhor (Efésios 5:8). É impossível a um discípulo de Jesus esconder a sua real condição dos que não creem, da mesma forma que é impossível esconder uma cidade edificada sobre um monte.

Mas, como não se acende uma lamparina para colocá-la em um lugar oculto (alqueire), mas, sim, num lugar que a luz preencha todo o ambiente (velador), iluminando quem está ao redor, semelhantemente, a condição de discípulos de Cristo deve ser patente a todos os homens.

Quais são as boas obras que, se os homens a observarem, torna possível aos homens glorificarem a Deus que está nos céus? Ações de caridade? Engajamento em alguma passeata em favor da natureza? Trabalho voluntário em algum hospital? Acolher crianças abandonadas? Mitigar o sofrimento dos pobres, através de doações de esmolas?

Se considerarmos a passagem bíblica, onde o apóstolo Paulo evidencia que estas questões não são o amor reclamado por Deus, vez que, de nada adianta distribuir toda fortuna ou, até mesmo o sacrifício da própria existência.

“E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres e, ainda, que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria” (1 Coríntios 13:3).

Sendo discípulo de Cristo, a luz do crente irradia diante dos homens e a boa obra realizada que os homens, ao verem, glorificarão a Deus, diz da própria crença em Cristo. A obra de Deus é crer em Cristo e a obra má é obedecer a mandamentos de homens.

Para compreender a essência da ‘obra’ destacada por Jesus, temos que analisar o termo, segundo a perspectiva do homem da antiguidade, onde predominava a relação senhor e servo. Aristóteles deixou registrado qual é essa relação:

“… existe uma obra, desde que haja comando de uma parte e de outra, obediência” (ARISTÓTELES, 2011, p. 25).

Existe boa obra, desde que haja mandamento por parte de Deus e obediência por parte dos discípulos de Cristo, pois, diante da obra que resulta do mandamento e da obediência, Deus é glorificado. Mas, se os mandamentos são de homens maus, a obra só pode ser má e não glorifica a Deus.

Se o crente em Cristo honra os seus irmãos em Cristo, considerando os outros superiores a si mesmo, nada deve a ninguém. Cumpriu o mandamento: a) creu em Cristo e; b) ama o outro, conforme Deus ordenou:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 João 3:23);

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo (Filipenses 2:3);

“Amai-vos, cordialmente, uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros (Romanos 12:10);

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei” (Romanos 13:8).

Desde que o crente em Cristo permaneça crendo que Jesus é o Senhor e considere o outro em honra, é discípulo de Cristo, liberto do Senhor, portanto, sal e luz do mundo.

“Por isso, ouvindo eu, também, a fé que entre vós há no Senhor Jesus e o vosso amor para com todos os santos” (Efésios 1:15).

Mas, enquanto houver cristãos que pensem que a missão da Igreja de Cristo é promover fraternidade entre as pessoas, respeito à natureza, justiça social, redistribuição de renda, etc., não são discípulos verdadeiros, pois, não deixam que os mortos enterrem os seus e se esquecem de que o Cristo não tinha onde reclinar a cabeça.

“E, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei. E disse Jesus: As raposas têm covis e as aves do céu têm ninhos, mas, o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E outro de seus discípulos lhe disse: Senhor, permite-me que primeiramente vá sepultar meu pai. Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me e deixa os mortos sepultarem os seus mortos” (Mateus 8:19-22).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




O Sermão da montanha e algumas práticas religiosas dos judeus – esmola, oração e jejum

Considerando o que é ensinado no Sermão da Montanha na oração do Pai nosso, de que quem roga a Deus pelo perdão das ofensas espera que Deus o faça graciosamente (como perdoamos os nossos devedores), não se pode aquiescer de uma ideia prescritiva de comportamento, de que Jesus estava ensinando que Deus só perdoa aqueles que perdoam aos seus semelhantes.


O Sermão da montanha e a abordagem de Jesus, acerca da esmola, da oração e do jejum

 

Introdução

O capítulo 6 do evangelho, segundo Mateus, é continuação do Sermão da Montanha, portanto, para interpretá-lo e compreendê-lo, se faz necessário considerar os princípios que norteiam o discurso de Jesus.

Em primeiro lugar, é necessário considerar o público alvo do discurso, pois Jesus só falou, por parábolas, à multidão: “E sem parábolas nunca lhes falava.” (Mc 4:34; Mt 13:13)

Em segundo lugar, é necessário considerar que a justiça dos seus ouvintes deveria ser superior à de seus mestres (Mt 5:20),  portanto, as práticas dos ouvintes de Jesus não deveriam ser as mesmas práticas dos escribas e fariseus, vez que elas não concedem a justiça, que dá direito ao reino dos céus.

Em terceiro lugar, é necessário considerar as suas ações, sob o prisma da pergunta: ‘Que fazeis de mais?’, ou ‘Não fazem os publicanos e pecadores, também, o mesmo?’, visto que praticavam ações semelhantes àqueles que condenavam e achavam que tinham direito ao reino dos céus. (Mt 5:46-47)

Após redarguir a multidão, com base em questões da lei, o Senhor Jesus passa a questionar as práticas religiosas (esmola, oração e jejum) dos seus ouvintes. (Mt 5:21-48)

 

Esmolas

“GUARDAI-VOS de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.” (Mateus 6:1-4)

Após demonstrar a impossibilidade de seus interlocutores alcançarem justiça superior à dos seus líderes religiosos, através da lei, Jesus passa a abordar algumas práticas religiosas do judaísmo. A forma como a prática das esmolas era realizada é a primeira questão religiosa a ser analisada.

É importante notar que, logo após orientar os seus ouvintes a serem perfeitos, como o Pai celestial, Jesus instrui a multidão a não esmolar, com o fito de serem notados pelos religiosos, alertando que, quem dá esmola diante dos homens, não será recompensado por Deus. (Mt 5:48)

Jesus salienta que os hipócritas (líderes religiosos), tanto nas sinagogas, quanto nas ruas, procuravam dar esmolas diante de uma plateia, como quem toca uma trombeta, chamando a atenção para si, no momento que iam esmolar, somente para serem reverenciados pelos seus pares, pela prática. A atenção destes, já era recompensa bastante para os hipócritas.

Jesus não proibiu a prática religiosa de esmolar, mas orientou a multidão que, se fosse dar esmolas, que o fizesse em oculto, ou seja, sem chamar a atenção (não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita), pois, Deus é conhecedor de todas as coisas e é Ele que recompensará publicamente o doador.

Dar esmolas é uma prática humanitária adotada pelas religiões e por  seus seguidores. Jesus não condena quem dá donativos aos seus semelhantes, porém, qualquer que pensa que alcançará a salvação por meio dessa prática, precisa mudar a concepção (metanoia), pois o único caminho que conduz o homem a Deus é Cristo.

Segundo São Roberto Belarmino (1542-1621), teólogo católico e cardeal inquisidor, há cinco vantagens em se dar esmola:

  • É reparação por pecados cometidos;
  • Acumula-se méritos para a vida eterna;
  • Permite o perdão dos pecados;
  • Aumentam a confiança em Deus;
  • Inspira os pobres a rezarem por seus benfeitores.

Observe essa reprimenda feita a um fariseu:

“E, estando ele, ainda, falando, rogou-lhe um fariseu que fosse jantar com ele; e, entrando, assentou-se à mesa. Mas, o fariseu admirou-se, vendo que não se lavara antes de jantar. E o Senhor lhe disse: Agora vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade. Loucos! Quem fez o exterior não fez, também, o interior? Antes, dai esmola do que tiverdes e eis que tudo vos será limpo. Mas, ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, a arruda e toda a sorte de hortaliças e desprezais o juízo e o amor de Deus. Importava fazer estas coisas e não deixar as outras.” (Lc 11:37-42).

Ao dizer:

Antes daí esmola do que tiverdes e eis que tudo vos será limpo.” (Lc 11:41), ou;

Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, onde não chega ladrão e a traça não rói”, Jesus não estava orientando os fariseus a adotarem a pratica de esmolarem, pois, isso, já faziam. (Lc 12:33)

A determinação de Jesus aos fariseus é a mesma dada ao jovem rico, para que eles fossem peefeitos, como, perfeito, é o Pai Celeste:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.” (Mt 19:21; Mt 5:48);

“Outrossim, o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a.” ( Mt 13:4 -46).

O apóstolo Paulo considerou tudo o que possuía como esterco, para ganhar a Cristo, ou seja, ele se desfez de tudo:

“E, na verdade, tenho, também, por perda, todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo.” (Fl 3:8)

Ora, a multidão precisava ser perfeita, como o Pai é perfeito (Mt 5:48) e aí, a necessidade de aprender, acerca da prática das ‘esmolas’.

Para os ouvintes de Jesus serem perfeitos como o Pai celeste, precisavam ser misericordiosos como o Pai celeste: “Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:26). O termo grego traduzido por esmola é ελεημοσυνη[1] (eleemosune) que, também, significa misericórdia, piedade.

A esmola exigida por Deus, não tinha em vista os pobres, pois Ele mesmo enfatizou:

“Porquanto, sempre tendes convosco os pobres, mas a mim não me haveis de ter sempre.” (Mt 26:11)

Por parábola, Jesus estava ensinando os ouvintes do Sermão do Monte, como se purificarem: entregando a alma a Cristo, seguindo-O como mestre, pois essa é a justiça de Deus, a misericórdia (esmola), que deviam aprender e exercer.

“Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício. Porque eu não vim chamar os justos, mas, os pecadores ao arrependimento.” ( Mt 9:13);

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.” (Mt 5:10-11);

“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” (Rm 10:3-4; Rm 3:22 ; Fl 3:9; Is 42:21).

Cristo é a justiça, pela qual os seus discípulos seriam perseguidos, a justiça que excedia à justiça dos escribas e fariseus:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e dos fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Mt 5:20);

“Mas, buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6:33)

Os escribas e fariseus deviam por em prática o mais importante da lei: o juízo, a misericórdia e a fé e não deixarem de fazer doações aos pobres, pois o conceito de ‘justiça’ estabelecido por Deus é a obediência à sua palavra, o que, também, se designa por  ‘misericórdia’!

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, mas desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas e não omitir aquelas.” (Mt 23:23)

O que Deus estabeleceu na lei? O que era justiça para Israel? O cuidado em cumprir todos os mandamentos, como Deus ordenou.

“E o SENHOR nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos, que temêssemos ao SENHOR, nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje. E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR, nosso Deus, como nos tem ordenado.” (Dt 6:24-25)

Mas, passou-se o tempo e o profeta Isaías protestou contra Israel, dizendo:

“CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça e têm prazer em se chegarem a Deus…” (Is 58:1-2)

Se a justiça para Israel era cumprir o que Deus ordenou, por que perguntavam, a cada dia, pelos direitos da justiça? Respondo: Porque os filhos de Israel confundiam práticas religiosas, como distribuir dinheiro aos pobres (esmola), com o serem ‘misericordiosos’ de fato, ou seja, em Israel não havia quem entendesse: – ‘Misericórdia quero e não sacrifício’.

O registro da parábola do Sermão da Montanha pelo evangelista Lucas, assemelha-se, em muito, ao que Mateus registrou, com relação à ‘misericórdia’, o que nos fornece elementos para melhor compreensão da parábola do Sermão da Montanha, no que concerne às esmolas:

“E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também, os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também, os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também, os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno, até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:32-36)

Os versos 32 a 35, do capítulo 6, de Lucas, contém a mesma temática de Mateus 5, versos 46 a 48, exceto pela invocação do que os ouvintes ouviram, acerca da lei:

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-48)

Como já vimos, anteriormente, Jesus não estava instituindo novas praticas ou, novos princípios morais, antes, destacando o fato de que tudo o que faziam, a pretexto da lei, os pecadores faziam o mesmo: amam aos que os amam, fazem o bem aos que lhes querem bem, emprestam para receber com juros, etc.

Daí a necessidade de práticas superiores às dos escribas e fariseus, para serem perfeitos: serem misericordiosos, ou seja, deveriam vender tudo o que possuíam e dar aos pobres, ou seja, dar esmola de tudo o que tivessem! (Lc 11:41 e 12:33; Mt 19:21; Mt 5:48)

 

A oração

“E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar, em pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo, que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes.” (Mt 6:5-8)

Assim como a prática de dar esmolas, a oração é prática comum aos diversos segmentos religiosos existentes no mundo e até à algumas correntes filosóficas, que adotam tal prática, a pretexto de meditação.

No judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo, espiritismo, etc., a oração é tida por uma ação religioso que faz contato com o divino, através de uma ligação, conversa, pedido, agradecimento, reconhecimento, louvor, adoração ou, reverência, podendo ser individual ou, coletiva.

Daí a pergunta: o que diferencia a oração do cristão, da oração das outras religiões? Qual era o mote da oração dos judeus, que se fez necessário Jesus instrui-los, acerca da oração?

Não podemos esquecer que estamos analisando o Sermão da Montanha, uma grande parábola, pois tem, por público alvo, os judeus, povo religioso, mas que as Escrituras protestavam contra eles como sem compreensão: “Porque são gente com falta de conselhos e neles não há entendimento.” (Dt 32:28)

Considerando a necessidade premente dos ouvintes de Jesus obterem justiça superior à dos escribas e fariseus, para terem direito ao reino dos céus (Mt 5:20), Jesus destaca o comportamento dos lideres da religião judaica, que, continuamente, frequentavam as sinagogas, tinham prazer em fazer suas orações, em pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, com o objetivo de serem notados pelos seus pares.

No mínimo, o comportamento dos ouvintes de Jesus deveria ser diferente dos seus líderes, caso quisessem justiça superior. Se os líderes judaicos já receberam a sua recompensa, ao se fazerem notar quando oram nas praças e nos templos, os ouvintes de Jesus deveriam entrar em seu local de repouso e fechar a porta para orar, sem que os outros percebam, pois é Deus quem ouve as petições e recompensa publicamente.

Semelhantemente, de nada adianta fechar a porta do quarto para orar, mas, quando for testemunhar, anunciar na tribuna, diante de todos, que é um homem ou, mulher de oração ou, exibir joelhos calejados, a pretexto de orar bastante. Muitos pregadores dão testemunho de si mesmos, de que são homens de oração, com o fito de serem reverenciados por seus expectadores!

Além de não se exibirem como os hipócritas, os ouvintes de Jesus são instruídos a não se utilizarem de vãs repetições, como os gentios, que acham que, por muito orar, de algum modo serão atendidos.  Através desse verso, torna-se evidente que o público alvo da mensagem do Sermão do Monte era composto por judeus.

Jesus deixa claro que, para Deus atender a uma oração, Ele não leva em conta o quanto a pessoa ora, como se o tempo em que a pessoa permanece em oração o sensibilizasse. Deus não se assemelha ao juiz iniquo da parábola sobre o dever de orar sempre, sem se desfalecer. (Lc 18:1-8)

Deus não é favorável a qualquer que acredita que será atendido por muito rogar, antes, Deus atende aquele que confia que Ele é misericordioso e galardoador daqueles que O obedecem.

Jesus enfatiza que Deus conhece aquilo que o homem há de pedir, antes, mesmo, de formular o pedido. O crente, quando ora a Deus, assim, o faz, porque confia na misericórdia divina,  não porque Deus desconhece os seus problemas ou, o que vai pedir.

Observe que Jesus só analisa a maneira que os escribas e fariseus oravam e recomenda a seus ouvintes que mudem a forma de fazê-lo. Ao apontar o jeito que os escribas e fariseus oravam e a maneira que os seus ouvintes deveriam orar, Jesus não estava estabelecendo que a condição para serem ouvidos por Deus era fechar a porta do aposento ou, que o quarto é um lugar especial para Deus.

A proposta de Jesus à multidão é para que, ao menos, a forma e o lugar onde orarem fosse alterada, caso buscassem alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus.

A resposta que um jovem, cego de nascença, deu aos escribas e fariseus, após ser curado por Jesus, é a melhor definição de quem Deus ouve a oração e de quem Deus não ouve:

“Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse ouve.” (Jo 9:31).

Isaías já havia profetizado, explicando o motivo pelo qual Deus não ouvia os filhos de Israel:

“Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e, ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.” (Is 1:15).

Enquanto Deus exigia do povo obediência (1Sm 15:22; Os 6:6), os filhos de Jacó apresentavam-se no templo com sacrifícios, ou seja, com a mão manchada de sangue, pois, quem oferece um boi é como quem mata um homem. (Is 66:3).

 

A oração do ‘Pai nosso’

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, o poder e a glória, para sempre. Amém.” (Mateus 6:9-13).

Conhecendo os seus interlocutores, pois não sabiam o que pedir e nem como pedir, Jesus ensina a oração do Pai Nosso.

Esse problema, a respeito do que pedir e de  como convém pedir, não é afeita à Igreja de Cristo, pois o Espírito Santo intercede pelos que estão em Cristo e Jesus mesmo orou ao Pai, pelos que haveriam de crer n’Ele.

“E da mesma maneira, também, o Espírito ajuda nas nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir, como convém, mas, o mesmo Espírito, intercede por nós, com gemidos inexprimíveis.” (Rm 8:26; Jo 17:20).

A oração do Pai nosso, ao longo dos tempos, tornou-se uma reza e muitos a utilizam de modo repetitivo, como se fosse uma fórmula mágica. Diante de situações mil, as pessoas recitam o Pai nosso, como em velórios, perigos, tristezas, decepções, etc. Em nossos dias, as pessoas continuam se utilizando de vãs repetições em suas orações e, simplesmente, agregam as suas imprecações ao Pai Nosso.

A oração ‘modelo’, ensinada por Jesus, contém princípios que norteariam os judeus a saberem a quem pedir, o que pedir e como pedir. Os ouvintes de Jesus, ao pé do monte, não precisam iniciar as suas orações, dizendo: ‘Pai nosso que estais nos céus…’, como se nessas palavras houvesse um conteúdo mágico, uma fórmula, mas, antes, compreenderem que, quando orarem, devem confiar, inteiramente, em Deus, como Pai.

Aquele que roga: “Pai nosso que estás nos céus…”, é conduzido a considerar se, efetivamente, é um dos filhos de Deus, pois, se for uma mancha, geração perversa e distorcida, de nada adianta orar, pois não será atendido. (Dt 32:5)

“O filho honra o pai e o servo a seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o meu temor?” (Ml 1:6)

A oração é fruto da confiança que o filho deposita na misericórdia e na fidelidade de Deus (Hb 11:6) e não o contrário, confiar que a oração é o elemento que concede o favor divino.

Quando orassem ‘… santificado seja o teu nome’, os ouvintes de Jesus deveriam considerar se santificam (separam) o nome de Deus, quando se obedecem à Sua palavra. Rogos, orações e imprecações, não diferenciam Deus de outros deuses, mas, sim, por honrá-lo como Pai e Senhor.

“Ao SENHOR dos Exércitos, a Ele santificai; seja Ele o vosso temor e seja Ele o vosso assombro.” (Is 8:13)

Deixar de pronunciar o nome de Deus ou, pronunciar o nome de Deus somente em aramaico ou hebraico, não é santificar o nome de Deus. Se a doutrina (temor) de quem ora é proveniente de Deus e, se o individuo, efetivamente, obedece (assombro, tremor), Deus é santificado (separado). Como santificar o nome do Senhor? Obedecendo-O! Ao dizer: santificado seja o teu nome, quem faz a oração deve ter a Deus como seu temor (regra de fé) e obediência.

Na Antiga Aliança, o homem santificava o nome do Senhor, quando obedecia aos seus mandamentos e, na Nova Aliança, com o advento de Cristo, santificar ao Senhor é crer que Jesus de Nazaré é o Cristo.

“Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”. (1 Pe 3:15)

Santificar o nome de Deus não é algo visível, mensurável aos olhos do próximo, antes, é próprio ao indivíduo que obedece a Deus em espírito e em verdade. Por isso, dar esmola para que todos vejam ou, orar nas praças, não significa que se está ‘santificando’ o nome de Deus.

Quando o homem santifica a Deus obedecendo, Deus também santifica o seu nome, realizando a sua maravilhosa obra redentora. Deus santificou o seu nome, ao levantar salvação poderosa na casa de Davi, seu servo, pois Ele havia prometido que o Cristo nasceria na casa de Davi. Deus santifica o seu nome, como fiel e verdadeiro, ao lembrar-se da sua santa aliança e juramento a Abraão. (Lc 1:69-73)

Jesus sabia que Deus era o seu Pai e que, verdadeiramente, ele era o Filho e que Deus sempre haveria de atendê-Lo. Mas, quando diante da multidão, Jesus rogava ao Pai para que soubessem que Ele é o enviado de Deus, como salvador do mundo.

“Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste”. (Jo 11:42)

Percebe-se, através da oração de Cristo, que a oração, também, possui um viés didático para aqueles que ouvem a oração.

O que os judeus deveriam pedir a Deus em oração? O reino de Deus! Por que o reino de Deus? Ora, o reino de Deus se estabelece pela presença do Cristo, o grande Rei, e só é inaugurado com a vinda do Cristo, o Filho de Davi.

Ao orar pela vinda do Messias, estariam orando segundo a vontade de Deus, e assim, não haveria como não serem atendidos.

“E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve.” (1 Jo 5:14)

Com a vinda do Cristo, a vontade de Deus se estabelece, tanto nos céus, quanto na terra:

  1. nos céus, a vontade de Deus é estabelecida, porque Cristo é constituído a cabeça do corpo, que é a Igreja, constituída de todas as famílias da terra (judeus e gentios);
  2. na terra, Deus faz a sua vontade, cumprindo a sua palavra a Abraão e a Davi, fazendo os filhos de Israel herdarem a terra prometida e assentando Cristo sobre o trono de Davi, seu pai.

Em Cristo, o Filho de Davi, o templo prometido a Davi está sendo erguido com pedras vivas: que é a igreja, portanto, a promessa feita a Davi está sendo cumprida, e Cristo é constituído o primogênito de Deus entre muitos irmãos (Rm 8:29).

Por meio de Cristo, Deus restaurará a nação de Israel, unificando as duas casas de Israel, e Ele se assentará sobre o trono de Davi, na condição de o mais elevado dos reis da terra (Sl 89:27) e exercerá o sacerdócio, segundo a ordem de Melquisedeque. (Sl 110:4)

Quando orassem, os Judeus tinham que se preocupar com o que comer?

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou, pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento e o corpo, mais do que o vestuário? (…) (Por todas estas coisas, os gentios procuram). De certo, vosso Pai celestial, bem sabe que necessitais de todas estas coisas. (Mt 6:25)

Em outra ocasião, Jesus ensinou aos judeus, que deviam trabalhar pela comida que permanece:

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou.” (Jo 6:27)

Devemos lembrar que o homem não vive de pão, mas, da palavra de Deus (Dt 8:3), e que Deus estabeleceu o trabalho, como meio de subsistência (Gn 3:19). A oração que Jesus ensinou, tinha o viés de fazer os seus interlocutores pensarem o que é conveniente pedirem a Deus, pois Deus não contraria a sua palavra, dando pão a comer, se é necessário trabalhar.

Ao pedirem pão, os ouvintes de Jesus deveriam repensar os seus conceitos, acerca do que estava estabelecido por Deus e, assim, ocorreria o arrependimento, pois, Cristo é o verdadeiro pão que dá vida:

“Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu” (Jo 6:32)

“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.” (Jo 6:51).

Quando Deus concedeu aos filhos de Israel pão no deserto, por mão de Moisés, era fornecida a matéria prima, todos os dias, para o consumo daquele dia. Assim, não deviam se preocupar com o que haveriam de comer amanhã, mas, sim, em preparar o que foi concedido por Deus, apenas, no dia de hoje.

Os ouvintes de Jesus deveriam pedir a Deus o perdão de suas ofensas, confiados na misericórdia de Deus e não se apresentarem diante d’Ele, confiando que eram justos. O favor divino só é concedido aos necessitados de espírito.

Somente o Cristo pode levantar as mãos aos céus e orar ao Pai, apresentando a sua retidão e justiça:

“O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça, e conforme a integridade que há em mim.” (Sl 7:8)

Quando alguém perdoa a dívida do seu próximo, assim, o faz, graciosamente (sem pedir nada em troca), portanto, os ouvintes de Jesus deveriam pedir a Deus que fossem perdoados, graciosamente.

O ensino de Jesus não estabelece uma barganha entre o homem e Deus: ‘Ó, Senhor, perdoa a minha dívida, pois eu perdoo aquele que me ofende’. Interpretar como imprescindível perdoar o outro, para ser perdoado por Deus, é pernicioso e torce a ideia do texto. Deus não é devedor de ninguém, mesmo quando esse alguém perdoa o seu semelhante.

“Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro, tal como tu e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem.” (Jó 35:7-8)

O ‘assim como’ da frase: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, é um comparativo que introduz a ideia de gratuidade, ou seja, que Deus os perdoaria, sem nada exigir.

O ensino de Jesus tinha o fito de orientar a multidão a não adotar o posicionamento descrito na parábola do fariseu e do publicano, em que o fariseu, confiado em si mesmo, na sinagoga, dá graças a Deus, por não ser como os demais homens.

“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.” (Lc 18:11)

Os ouvintes de Jesus deviam orar a Deus para livrá-los da tentação, livrando-os do mal. No que consiste a tentação? Tudo o que faz o homem desviar-se de cumprir os mandamentos de Deus! O mal se abate sobre todos os que se desviam de obedecer a Deus, portanto, qualquer que permanece obediente a Deus está livre do mal.

“Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados.” (2 Pe 2:9).

Ao final da oração, reconheça que a Deus pertence o reino, o poder e a glória para sempre, ou seja, que é plenamente possível a Deus conceder tudo o que foi pedido, anteriormente, pois essa é a vontade de Deus!

O crente em Cristo faz a oração do Pai nosso? Lembre-se que, quando ensinou o Pai nosso, Jesus estava ensinando judeus a orarem, não a convertidos ao evangelho!

Quem está em Cristo, não precisa orar pedindo ao Pai que santifique o seu nome, pois já santificou a Cristo como Senhor em seu coração, quando creu que Jesus é o Cristo. Já não é necessário pedir que venha o reino de Deus, pois crê que Cristo é o reino dos céus entre os homens, que trouxe salvação a todos os povos. Não precisa pedir pão, pois é participante de Cristo, ou seja, comeu do pão e bebeu da água concedida por Deus, de modo que não terá mais fome e nem sede. Já não precisa pedir perdão das ofensas, pois já não resta nenhuma condenação por estar em Cristo.

 

Perdão

“Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mt 6:14 -15)

Para interpretar esses dois versos, devemos considerar:

a) denotação: sentido real, literal da frase, ou o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;

b) conotação: a associação subjetiva, cultural e/ou emocional, que está para além do significado estrito ou, literal de uma palavra, frase ou, conceito ou, seja, diz dos sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;

c) ênfase: refere-se ao grau de importância que o autor atribui aos diferentes elementos constitutivos da frase.

Portanto, a instrução de Jesus, com relação ao perdão às ofensas dos outros, deve ser analisado, segundo os princípios estampados nos versos 43 à 48, do capítulo 5, de Mateus ou, segundo os princípios de Lucas 6, versos 32 à 36. Observe:

“E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também, os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos e fazei bem e emprestai, sem nada esperardes e será grande o vosso galardão e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno, até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:32-36)

Analisando os versos acima, do ponto de vista denotativo, o que é ensinado? Que o perdão de Deus só é concedido àqueles que perdoam? Que o perdão de Deus está condicionado ao perdão que os homens dispensam aos seus semelhantes? Que os ouvintes de Jesus tinham que primeiramente perdoar as ofensas dos seus semelhantes para só, então, alcançarem o direito de serem perdoados por Deus?

Sabemos que o perdão que Deus dispensa aos homens tem por base a sua misericórdia e graça, manifesta em Cristo (Rm 4:7; Ef 4:32), o dom de Deus, portanto, é contrário interpretar os versos 14 e 15 de Mateus 6, como se o perdão de Deus estivesse atrelado ao perdão que o homem primeiro dispensa aos seus semelhantes.

Sendo assim, analisemos o seguinte verso bíblico, na língua grega:

“Ἐὰνγὰρἀφῆτετοῖςἀνθρώποις τὰ παραπτώματα αὐτῶν, ἀφήσει καὶ ὑμῖν ὁ πατὴρὑμῶν ὁ οὐράνιος·” Mt 6:14 [TextusReceptus (Elzevir) (1624)]

“se [2] Pois [1] perdoardes às pessoas as ofensas delas, perdoará também a vós o Pai [2] vosso [1] o celeste” (Mateus 6:14).

O mesmo verso, sem ponto e vírgula:

“Εαν γαρ αφηται τοις ανθρωποις τα παραπτωματα αυτων αφησει και ϋμιν ο ΠHΡ ϋμων ο ουρανιος” Mt 6:14 [Codex Washingtonianus (W or 032) (5th century)]

Nas nossas Bíblias, a oração do Pai nosso termina com um ‘amém’, porém, em muitos manuscritos do Novo Testamento não há o ‘assim seja’ encerrando o ensinamento acerca de como orar. Há que se considerar que os antigos manuscritos do Novo Testamento não possuíam sinais de pontuação como: vírgula, ponto final, interrogação, exclamação, etc., e, que esses sinais foram introduzidos muito mais tarde.

Considerando o que é ensinado na oração do Pai nosso, de que quem roga a Deus pelo perdão das ofensas, espera que Deus o faça graciosamente (como perdoamos os nossos devedores), não se pode aquiescer de uma ideia prescritiva de comportamento, de que Jesus estava ensinando que Deus só perdoa àqueles que perdoam aos seus semelhantes.

Já explicamos que, o ‘assim como’, estampado na oração do ‘Pai nosso’, com relação ao perdão (perdoamos os nossos devedores), introduz a ideia de gratuidade, não de dívida, pois se o homem perdoar ou não quem o ofende, Deus nada deve ao homem. (Jó 35:7-8)

“Ora, àquele que faz qualquer obra, não lhe é imputado o galardão, segundo a graça, mas, segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.” (Rm 4:4-5)

O ‘assim como perdoamos os nossos devedores’ não é elemento que torna o homem merecedor do perdão divino e nem estabelece uma dívida de Deus para com os homens, antes, indica a base do perdão divino: benevolência, gratuidade.

Antes de abordar as questões relacionadas à religiosidade dos judeus, como esmolas e orações, a ordem expressa de Cristo para os seus ouvintes era para que fossem ‘perfeitos’, ou seja, ‘misericordiosos’ como o Pai celeste, portanto, após questionar as práticas religiosas (esmolas e oração) dos líderes judaicos e ensinar o ‘Pai nosso’, o que se segue são perguntas que exigem dos ouvintes de Jesus respostas, segundo a perfeição divina (que faz que o sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos), e não uma ordem que estabeleça uma barganha pelo perdão divino.

O núcleo da indagação dos versos 14 e 15 de Mateus 6, ou seja, a ênfase, retoma a ideia abordada anteriormente: ‘Se vocês amam somente os que vos amam e cumprimentam somente os que vos cumprimentam, não fazem os publicanos e os gentios o mesmo?’, pois, se os ouvintes de Jesus desejavam entrar nos céus, não podiam se contentar com práticas semelhantes às dos escribas e fariseus; além do mais, não estavam fazendo nada de mais, se comparada as práticas dos ouvintes às práticas dos seus líderes, os publicanos e gentios!

A partícula ‘se’, no verso 14, de Mateus 6, introduz uma argumentação conclusiva, com base no que já foi exposto, não um mandamento a ser observado, que represente uma espécie de barganha com Deus, para alcançar o Seu perdão.

A ideia expressa é: Se os ouvintes de Jesus (homens falhos) perdoavam as ofensas dos seus semelhantes, o Pai celeste também haveria de perdoá-los!

“se [2] Pois [1] perdoardes às pessoas as ofensas delas, perdoará também a vós o Pai [2] vosso [1] o celeste”.

Esse argumento será repetido no capítulo 7, do seguinte modo:

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mt 7:11)

Se os ouvintes de Jesus, sendo maus, perdoavam as ofensas dos seus semelhantes, o Pai celeste, também, haveria de perdoá-los!

Como interpretar o verso 15?

“ἐὰνδὲμὴἀφῆτετοῖςἀνθρώποις, [τὰ παραπτώματα αὐτῶν] οὐδὲ ὁ πατὴρὑμῶνἀφήσειτὰ παραπτώματα ὑμῶν” Westcott/Hortwith Diacritics.

“se[2] mas[1] não perdoardes às pessoas, nem o Pai[2] vosso[1] perdoará as ofensas[2] vossa[1]” (Mateus 6:15).

Com base no verso 45, do capítulo 5 de Mateus: “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos”, se os ouvintes de Jesus não perdoassem as pessoas, considerando que Deus é perfeito, seria o caso de ‘nem mesmo’ (οὐδὲ) Deus perdoá-los?

Vale destacar que o ensinamento do apóstolo Paulo às igrejas, no quesito perdão, difere da temática do ensinamento de Jesus à multidão, visto que os públicos alvos das mensagens são diferentes: Cristo falava por parábolas ao povo, enquanto que o apóstolo Paulo falava abertamente aos cristãos.

O apóstolo Paulo exorta os cristãos a perdoarem uns aos outros, sendo benignos e misericordiosos. Entretanto, já estavam perdoados por Deus, através de Cristo e precisavam tomar Cristo como exemplo, perdoando os irmãos. Em momento algum é posta a condição de ser necessário perdoar o outro para ser perdoado.

“Suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.” (Cl 3:13)

“Antes, sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como, também, Deus vos perdoou em Cristo.” (Ef 4:32).

Os cristãos, também, são exortados a terem paz, uns com os outros, e com relação aos não cristãos, se depender do cristão, que tenham paz com todos os homens:

“Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Rm12:18);

“Tende paz entre vós.” (1 Ts 5:13)

Diferentemente, Jesus demonstra aos seus interlocutores que, se queriam ser perfeitos, ou seja, obterem justiça superior à dos escribas e fariseus, deveriam imitar a Deus como filhos, que faz vir chuva sobre bons e maus.

 

O jejum

“E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados, como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade, vos digo que já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará, publicamente” (Mt 6:16-18).

A questão do jejum é a última prática religiosa dos judeus que Jesus aborda e deve ser analisado, através das mesmas premissas que analisamos a esmola e a oração.

Devemos considerar a ordem para serem perfeitos e misericordiosos:

“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48), ou;

“Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:36).

Em que os judeus eram diferentes dos gentios e publicanos, quando davam donativos, se os gentios e os publicanos faziam o mesmo? Em que os judeus eram diferentes dos gentios e publicanos, se os judeus, semelhantemente, aos gentios e publicamos, oravam se utilizando de vãs repetições? Como os jejuns dos judeus se diferenciavam dos jejuns dos publicanos, que eles consideravam pecadores?

Após informar aos seus ouvintes, que era impossível entrarem no reino dos céus se não alcançassem justiça superior à dos escribas e fariseus, e abordar a questão da esmola e da oração, Jesus faz uma observação, acerca do jejum praticado pelos escribas e fariseus.

Quando jejuavam, os escribas e fariseus, simplesmente, se ocupavam em desfigurar os seus rostos (fazer cara fechada), para que os outros percebessem que eles estavam em jejum; os escribas e fariseus, nem mesmo lavavam e ungiam a cabeça, segundo o costume, para demonstrarem a sua devoção e religiosidade.

Nesse sentido, Jesus alerta os seus ouvintes a não jejuarem para serem notados pelos homens, mas que não se mostrassem contristados, quando jejuassem, pois Deus tudo vê. Os ouvintes de Jesus deveriam se portar, naturalmente, quando jejuassem: lavar o rosto, ungir a cabeça, alegrar o semblante, etc.

O jejum era uma prática religiosa muito utilizada pelos escribas e fariseus, tanto que questionaram Jesus sobre o motivo dos seus discípulos não jejuarem, e inclusive, compararm os discípulos de Cristo, com os discípulos de João Batista.

“Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes e fazem orações, como, também, os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?” (Lc 5:33).

A resposta de Jesus foi surpreendente:

“Podeis vós fazer jejuar os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles?” (Lc 5:34).

O que é o jejum? O jejum é contristar-se diante de Deus e foi instituído por Deus, atrelado ao dia de descanso, ou seja, um sábado (dia aprazível ao Senhor Deus).

“É um sábado de descanso para vós e afligireis as vossas almas; isto é estatuto perpétuo.” (Lv16:31).

O ‘afligir’ da alma, ou seja, o jejum, não é uma prática que infligisse ao corpo a algum tipo de sofrimento, como flagelo, abstenção, ascetismo, etc. Por outro lado, as ervas amargas já tinham o viés de lembrá-los do sofrimento do Egito e que Deus, com mão forte, os resgatou da servidão.

Os filhos de Israel deveriam afligir a alma, não o corpo. O que seria afligir a alma? Reconhecer a sua real condição, diante de Deus, a partir do exposto em sua palavra, não a partir de convicções próprias.

Não encontramos no Pentateuco uma ordem expressa de Deus para que o povo jejuasse, antes, deveriam afligir a alma.

Um filho de Jacó afligiria a alma no momento que reconhecesse que não foi por causa de suas justiças que Deus resgatou os filhos de Israel do Egito, mas, sim, porque Deus cumpriu o prometido a Abraão (Dt 9:4-6). Reconhecer a sua real condição, diante do que Deus revela e passar a agir conforme a palavra de Deus, é afligir a alma.

Mas, com o passar do tempo, o que deveriam considerar segundo a palavra Deus, tornou-se um elemento de culto e, em vez de afligirem a alma, passaram a não comer, não lavar o rosto e nem a utilizar perfume, o que designaram por jejum.

Jejuar, ou melhor, afligir a alma não consiste em ficar cabisbaixo, moribundo, melancólico, etc., ou, sem lavar o rosto, sem ungir a cabeça ou, sem se alimentar.

“Seria este o jejum que eu escolheria, que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aprazível ao SENHOR?” (Is 58:5)

Observe a repreensão de Deus, por intermédio do profeta Isaías, de que o verdadeiro jejum não consistia em ficar cabisbaixo, antes seria deixar de ser altivo, de dura cerviz. Jejuar, também, não consistia em deitar-se sobre pano de saco ou sobre cinzas, antes é humilhar-se a si mesmo, fazendo-se servo de Deus.

Deus nunca chamou o ato de andar cabisbaixo ou, de deitar-se sobre saco e cinza, como jejuar ou, como afligir a alma. O verdadeiro jejum se dá quando o homem considera a sua condição de dura servis e abaixa a cabeça, sujeitando-se ao jugo de Deus, ou seja, reconhecendo a sua condição e se fazendo servo, obedecendo à palavra de Deus.

Os filhos de Israel confundiam o ato de jejuar com o afligir a alma (Is 58:3). Reclamavam que jejuavam e Deus não atendia, porém, Deus nunca requereu que jejuassem, ficando sem comer, cabisbaixos, vestindo pano de saco ou, assentando-se em cinzas. (Is 58:5)

O verdadeiro Sábado (dia) de jejum, não visava chamar a atenção de Deus para as desventuras diárias daqueles que jejuassem,antes, o jejum demandava obediência a Deus, cuidando em soltar os cativos do pecado, as ataduras que prendem o homem ao jugo da servidão, que é a morte.

Deus ordena a quem jejua que distribua pão ao faminto. Jejuar é distribuir pão gratuitamente? Deus não estava falando de pão cotidiano, quando apontou o jejum verdadeiro. O pão dos verdadeiros israelitas diz da salvação, que há em Deus, que dá liberalmente aos pobres de espírito pão e vestes de justiça aos nus.

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos e despedaces todo o jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras e não te escondas da tua carne?” (Is 58:6-7);

“Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; A sua justiça permanece para sempre” (2 Co 9:9; Sl 102:9);

“Dizendo: Por que jejuamos nós e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas e tu não o sabes? Eis que no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho” (Is 58:3).

O verdadeiro jejum não era ficar com fome, mas abrir a alma ao faminto. Faminto de que? Ao faminto de justiça! O faminto se farta do pão providenciado do Deus que é dado a qualquer que tenha fome e sede de justiça.

“E se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita; então, a tua luz nascerá nas trevas e a tua escuridão será como o meio-dia.” (Is 58:10; Is 55:1-3).

Como se abre a alma ao faminto? Anunciando as palavras de Deus: que Ele fez uma aliança perpétua, ao prometer o Cristo a Davi. (Is 55:3)

O jejum, como o afligir da alma, assim, como todos os elementos instituídos pela lei, era sombra de uma realidade, que remete a Cristo. Cristo é Senhor do Sábado, a alegria do Senhor, portanto, em Cristo o homem já entrou no repouso (descanso) de Deus, que o sábado na Antiga Aliança representava.

“Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” (Hb 4:10);

“PORQUE tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem, cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam.” (Hb 10:1)

A festa anual de expiação, no dia dez do sétimo mês, era uma festa de jejum (Lv 16:29). Era um dia de descanso, ou seja, um sábado, que poderia ser qualquer dia da semana, pois era o décimo dia do sétimo mês (Lv 16:31). Como Deus ouve o aflito que clamar (Lv 22:23), quando foi dito para afligir a alma, Deus estava conclamando os filhos de Israel a clamarem ao Senhor, confiando em sua misericórdia (Jl 2:32), não para ficarem sem comer, pois era um dia de festa ao Senhor e nesses dias havia muita comida e bebida.

Ao instruir aos seus ouvintes para não se mostrarem contristados, quando jejuassem, Jesus estava dando elementos para que questionassem as práticas dos seus líderes religiosos e, concomitantemente, fazer uma releitura do que é o jejum exigido por Deus. (Mt 6:16)

Quando os ouvintes de Jesus jejuassem, deveriam lavar o rosto e ungir a cabeça com óleo, ou seja, manterem-se de semblante alegre. Se não parecia aos homens que jejuavam (Mt 6:18), mas a Deus, certo é que haveriam de compreender o exposto pelo profeta Isaías.

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” (Is 58:6-7)

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“1654 ελεημοσυνη eleemosune de 1656; TDNT – 2:485, 222; n f 1) misericórdia, piedade 1a) esp. como exibido no dar esmola, caridade 2) o benefício em si mesmo, doação ao pobre, esmola”.  Dicionário Bíblico Strong.

ESMOLA – “eleémosuné (ἐλεημοσύνη), relacionado com eleemon, “misericordioso”, significa: (a) “misericórdia, piedade, particularmente em dar esmolas” (Mt 6.1,2,4; At 10.2; 24.17); (b) o próprio ato de caridade, as “esmolas” — o efeito pela causa (Lc 11.41; 12.33; At 3.2,3,10; 9.36; 10.2,4,31-‘H Nota: Em Mt 6.1, traduzindo dikaiosune, de acordo com os textos mais autênticos, temos “justiça” (ARA)” Dicionário VINE, pág. 613.

“A palavra “justiça”, também, engloba tudo o que Deus espera do Seu povo. Os verbos associados com “justiça” indicam a praticabilidade desse conceito. A pessoa julga, trata, sacrifica e fala com justiça: e a pessoa aprende, ensina e busca a justiça, fundamentado num relacionamento especial com Deus. O santo do Antigo Testamento pedia a Deus que o tratasse com justiça: “O Deus, dá ao rei os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei” (SI 72.1). A Septuaginta dá às seguintes traduções: dikaios (“aqueles que são retos, justos, íntegros, que se conformam com as leis de Deus”): dikaiosune (“justiça, retidão” ): e eleemosune (“escritura de terra, esmola, doação de caridade”). Dicionário VINE, pág. 163.




O Sermão do monte e o adultério

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo público alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha eram os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja, ou os gentios não convertidos.


O Sermão do monte e o adultério

Introdução

Sabemos que Jesus não veio ao mundo para revogar a lei, mas, sim, para cumpri-la. Nesse sentido, é inadmissível a ideia de acrescer ou diminuir qualquer mandamento à lei:

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2);

“Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” (Pv 30:6).

Se a multidão entendesse que, no Sermão do Monte, Jesus estivesse acrescentando à lei um novo mandamento, por menor que fosse o mandamento ou, proposta de alteração, não sofreriam o discurso passivamente.

Por que a multidão não se enfureceu e se arremeteu contra Cristo, ao ouvir o Sermão da Montanha? Jesus estava apresentando ao povo um novo código moral e de condutas, em substituição à lei?

Que ênfase considerar, ao ler o discurso de Jesus?

 

Adultério

“Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mateus 5:27-28)

Jesus aponta outro ponto da lei: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás” (Mt 5:27), em seguida, alerta que não bastava aos seus ouvintes absterem-se das relações sexuais ilícitas, pois, qualquer que atentar para uma mulher para cobiçá-la, em seu coração já adulterou!

“Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mt 5:28).

Por que Jesus cita a lei e, em seguida, apresenta regras próprias mais rígidas que a lei?

“Eu, porém, vos digo…”

O ensinamento de Jesus era totalmente diferente dos seus antecessores. Os escribas e fariseus enfatizavam a lei, Cristo enfatiza os seus ouvintes, perante a lei.

Para compreender a proposta de Jesus, em relação ao adultério, temos de considerar o seu alerta, no início do discurso à multidão, que eles precisavam de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de terem direito a entrar no reino dos céus.

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20).

Como alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, se tudo o que faziam, segundo a lei, os publicanos faziam exatamente o mesmo?

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

O motivo de Jesus ter apresentado a lei e, em seguida, apresentado a sua determinação, visava alcançar a compreensão dos seus ouvintes, que se achavam  justos, por ouvirem a lei, porém, os publicanos que eles consideram pecadores faziam exatamente o mesmo!

Os judeus amavam aqueles que os amavam, saudavam aqueles que os saudavam, e se achavam justos diante de Deus, por causa da lei. O que os ouvintes de Jesus faziam a mais que os seus concidadãos cobradores de impostos?

O pensamento do fariseu – da parábola – que foi ao templo orar e deu graças por não ser como os demais homens: roubadores, injustos e adúlteros e nem mesmo como o publicano, além de jejuar duas vezes na semana e dar os dízimos de tudo quanto possuía (Lc 18:11-12), era a tônica dos ouvintes de Jesus.

O fariseu da parábola não roubava, não era ‘injusto’ e não adulterava, etc., e mesmo assim, não voltou para casa justificado. Por quê? Porque o fariseu não tinha a justiça superior que o permitiria entrar no reino dos céus (Lc 18:11).

Se os ouvintes de Jesus desejavam justiça superior à dos escribas e fariseus, não deveriam fazer tão somente o que os fariseus faziam: não adulterar. Em face da necessidade dos seus ouvintes, é que entra a proposta de Jesus: nem mesmo poderiam atentar para uma mulher para a cobiçar, pois já teriam cometido adultério no coração (Mt 5:28).

Se fossem capazes de fazer o que Jesus estava ordenando, adotando uma regra de conduta superior à dos escribas, fariseus e publicanos, em relação ao adultério, quiçá alcançassem a justiça superior à dos seus líderes religiosos, que os permitisse entrar no reino dos céus.

 

Arranque o olho que escandaliza

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno” (Mt 5:29-30).

Jesus apresenta uma solução aos que se deixassem levar pela concupiscência dos olhos:

“Arranca-o e atira-o para longe de ti”!

Se o olho dos ouvintes de Jesus os fizesse tropeçar, de modo que atentassem para uma mulher e a cobiçasse, a proposta de Jesus é: arranca-o e atira-o para longe de ti! Quem dentre os ouvintes de Jesus, a pretexto de não ir para o inferno, teria coragem de arrancar um dos seus olhos?

Arrancar o olho, após incorrer no erro de atentar para uma mulher, para cobiçá-la, é uma proposta diferente à prática proposta pelos escribas e fariseus! Para alguém que necessita de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de ter direito a entrar no reino dos céus, é melhor que se perca um dos seus membros, do que ser lançado todo o corpo no inferno.

Satisfazer qualquer exigência necessária, para se alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de entrar nos céus, deve ser a meta do homem e se alguma coisa o faz tropeçar (escandalizar), que seja removido. Se a mão direita é causa de tropeço, que seja cortada e lançada para longe! É melhor perder um membro, do que ter o corpo inteiro lançado no inferno.

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti” (Mt 5:29).

A proposta de Jesus é prescritiva de comportamento, visando estabelecer uma moral superior à dos escribas e fariseus ou, visa provocar nos seus ouvintes uma mudança de pensamento (arrependimento/metanoia)?

 

O divorcio

“Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério e qualquer que casar com a repudiada, comete adultério” (Mateus 5:31 -32).

Os judeus tinham ouvido que, aquele que deixasse a sua esposa, que lhe desse carta de divórcio. Mas, para produzir uma mudança de concepção nos seus ouvintes, acerca da justiça de Deus, Jesus alerta que, qualquer que se divorcia de sua mulher, a não ser por imoralidade por parte dela, faria com que tanto a mulher repudiada, quanto quem se casasse com ela, cometessem adultério.

Jesus estava ab-rogando a lei dada por Moisés? O que Jesus intentava, ao anunciar que, o que estava estabelecido na lei, era pouco? Sabemos que qualquer alteração em uma lei estabelece uma nova, revogando a antiga, mas esse não era o objetivo de Jesus, pois Ele mesmo disse:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Considerando que Jesus estava falando ao povo e que ele nunca falava ao povo sem parábolas (Mc 4:34), certo é que a proposta de Jesus não era impor novas regras sociais acerca da união conjugal aos seus ouvintes, antes, a proposta é apresentar uma grande parábola, que conduzisse os seus ouvintes a compreenderem a necessidade de se buscar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6:33), pois, somente a justiça de Cristo, o reino de Deus, é superior à justiça dos escribas e fariseus.

Devemos considerar que Jesus não veio anular, omitir ou acrescentar o estabelecido pelos profetas, portanto, é contra senso entender o anunciado no Sermão da Montanha, como sendo uma ‘nova moral’, pertinente ao reino de Deus.

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2).

Embora o Senhor Jesus fosse o Verbo eterno encarnado, na condição de Filho, não tinha autonomia para alterar o estabelecido por Deus pois, na sua primeira vinda, se fez servo.

 

Juramentos

“Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR. Eu, porém, vos digo que, de maneira nenhuma, jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque, o que passa disso, é de procedência maligna” (Mateus 5:33– 37).

Em seguida, Jesus aborda a questão dos juramentos, destacando o que dizia a lei: “Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR” (Mt 5:33) para, em seguida, proibi-los de jurar, visto que não pertenciam aos ouvintes de Jesus as coisas sagradas que eles evocavam nos juramentos.

Como jurar por algo que não lhe pertence, como os céus, o trono de Deus? Como jurar pela terra, se ela pertence a Deus? Como jurar pela cidade santa, se ela pertence ao Messias? Como jurar por algo que o homem tem por seu, que é o cabelo da sua cabeça, se nem poder tem para mudar a cor do seu cabelo?

Deus já havia salientado na lei que a terra lhe pertencia e o povo havia votado que fariam o que Deus ordenara:

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel. E veio Moisés, chamou os anciãos do povo, e expôs diante deles todas estas palavras, que o SENHOR lhe tinha ordenado. Então todo o povo respondeu a uma só voz e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo” (Ex 19:5-8).

Deus não está interessado em que o homem faça votos, mas,  que cumpra o que já havia votado, que é obedecer à Sua palavra.

“Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” (Tg 2:12).

Jesus orienta os seus ouvintes a terem uma palavra firme e segura, pois os profetas já haviam alertado que a palavra deles era ‘sim’, mas que não punham por obra o que diziam.

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Quem honra com a boca, mas não obedece a Deus, é de procedência maligna: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás”  (Is 1:4).

 

Talião

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” (Mt 5:38-42).

Jesus continua o seu discurso, evidenciando um princípio da lei: “Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé…” (Ex 21:24) e ordena aos seus ouvintes que não resistam aos homens violentos. Que, caso fossem agredidos em uma das faces, que oferecessem a outra.

Nesse mesmo diapasão, se alguém reclamasse aos ouvintes de Jesus a túnica (vestido) litigiosamente, que deixassem o adversário levar a capa também. Ou, se alguém exigisse dos ouvintes de Jesus que se andasse uma milha, que se dispusessem a acompanhá-lo, também, por duas. Ou, se alguém pedisse algo, que dessem o que foi pedido e, jamais deixassem de emprestar a qualquer que lhe pedisse.

O que Jesus pretendia com esse discurso? Mudar as regras que disciplinavam as relações sociais? Dar a outra face ou, entregar a capa a quem quer a túnica, para obter salvação? Dar a quem pede e não negar a quem pede emprestado, para obter direito à salvação? É certo que não!

Jesus pretendia mudar a lei de Moisés, que é prescritiva de comportamento e disciplina as relações sociais em seus vários aspectos: casamento, divórcio, empréstimo, penhor, guerra, etc.? (Ex 24:1-22) O que foi estabelecido por Deus como preceito em Israel não era justo? A lei não disciplinava o princípio expresso na máxima da lei do talião: paridade entre ofensa e retribuição? É certo que sim!

No seu discurso Jesus busca provocar no povo uma mudança de concepção, pois, ao apresentar a necessidade de uma justiça maior que a dos escribas e fariseus, deixa claro que é impossível alcançar tal justiça através da total abnegação.

Se os fariseus e os escribas, pelas obras da lei não tinham direito a ver o reino dos céus, que ações meritórias o povo deveria praticar, de modo que fosse possível suplantar a justiça dos seus líderes religiosos?

“Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça” (Rm 9:31).

Muitos veem na sugestão de ‘dar a outra face a quem ferir’, o pináculo da sabedoria contida na doutrina de Jesus. No entanto, Jesus estava somente apresentando várias situações que colocam em xeque a religião judaica, visto que os publicanos e os gentios tinham o mesmo comportamento que os escribas e fariseus e eram tidos por pecadores.

A sabedoria de Jesus está, não em dar a outra face a quem agredir mas,  na pergunta que produz a metanoia (arrependimento):

“Que fazeis demais?”

 

O amor ao próximo

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:43-48).

É cediço que o amor ao próximo é o cumprimento da lei:

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque, quem ama aos outros, cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:8-10).

Mas, qual o objetivo de Jesus em lembrar ao povo o que constava na lei?

“Amará o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Mt 5:43).

Por que Ele dá a ordem:

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44)?

Basta alguém amar o seu inimigo, que alcançará a filiação divina? Uma oração em favor dos que perseguem, é suficiente para a pessoa ser declarada um dos filhos de Deus? Absolutamente, não!

As ações que Jesus recomenda à multidão tinham por objetivo mudar a concepção dos seus ouvintes, não impor-lhe, novas regras sociais. Para os ouvintes de Jesus entrarem no reino dos céus, o exigido por Deus era justiça superior à dos escribas e fariseus e, por isso, Ele ordena a amar os inimigos, pois, só amando ao próximo, a justiça alcançada não suplantaria a dos escribas e fariseus.

Somente praticando ações superiores às praticadas pelos escribas e fariseus, é que os ouvintes de Jesus seriam tidos por filhos de Deus, visto que a lei deixa claro que os filhos de Israel não eram filhos, mas, uma mancha.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5; Is 30:9).

Se os ouvintes de Jesus queriam alcançar a filiação divina, ou seja, terem justiça maior que a dos escribas e fariseus, as suas ações deveriam ser da mesma natureza do Pai celeste, que não faz acepção de pessoas: faz nascer o sol sobre grandes e pequenos e faz vir chuva sobre justos e injustos.

Partindo do pressuposto de que quem faz somente o que é ordenado não passa de servo inútil, que recompensa alguém teria ao fazer somente o estabelecido na lei?

“Assim, também, vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lc 17:10).

Tudo o que foi exposto por Jesus, desde o verso 21, deve ser considerado segundo o prisma dessa pergunta fundamental:

“Pois, se amais os que amam a vós, que recompensa tendes? Não é assim que os publicanos também fazem?”, ou:

“E se saudais apenas os seus irmãos, o que a mais fazeis? Não é assim que os gentios também fazem?” (Mt 5:47).

Conforme apontado pelo apóstolo Paulo, os filhos de Israel se achavam melhores que os gentios (Rm 3:9), e Jesus apresenta várias ações ao povo que, caso quisessem ser diferentes dos publicanos e gentios, deveriam considerar praticar.

Os filhos de Israel queriam ser recompensados com o reino dos céus somente amando àqueles que os amavam, dai a sugestão: amai os vossos inimigos! A proposta de Jesus ante a má compreensão dos judeus, acerca das coisas de Deus, foi apresentar um comportamento diferente da dos publicanos e gentios: dê a outra face, a qualquer que ferir a sua face!

Ir à sinagoga com os concidadãos e saudá-los nas praças não era algo que pudesse diferenciá-los dos gentios, pois os gentios também se portavam dessa forma. Através dessa abordagem, Jesus queria que considerassem que, somente ouvir a lei, não torna ninguém justo (Rm 2:13) e que os gentios, apesar de não terem a lei de Moisés, naturalmente, faziam as mesmas coisas que constavam da lei (Rm 2:14).

Ora, só é justificado quem pratica a lei (Rm 2:13) e como nenhum dos ouvintes de Jesus cumpriam, totalmente, a lei (Jo 7:19), nenhum deles era melhor que os gentios, portanto, também, não podiam herdar o reino dos céus. Devemos considerar que, se o homem tropeça em um só quesito da lei, é transgressor de toda a lei.

“Porque qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2:10).

Para os ouvintes de Jesus alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, precisavam ser perfeitos, como o pai Abraão:

“Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48).

Como ser perfeito diante de Deus? Basta andar na presença de Deus, assim como Deus ordenou a Abraão:

“Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17:1; Dt 18:13).

O homem jamais será perfeito, de modo a ser possível andar com Deus, antes, por andar com Deus é que o homem alcança a perfeição, assim como aconteceu com Enoque, Noé e Abraão (Gn 5:24; Gn 6:9).

A mensagem de Jesus no Sermão da Montanha estava preparando o povo para a seguinte ordem:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me” (Mt 19:21).

Só os que estão em Cristo são perfeitos, verdadeiros filhos do crente Abraão:

“E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10; Gl 3:7).

Através dessa releitura do Sermão da Montanha, percebe-se que a proposta de Jesus visava causar nos seus ouvintes uma mudança de concepção, o tão apregoado ‘arrependimento’!

A mensagem de Jesus não visava mudança de comportamento, mas, uma mudança de compreensão à vista do Cristo, o reino de Deus.

“Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 4:17).

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo publico alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha tinha por alvo os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja ou os gentios não convertidos.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




Não matarás e o Sermão da Montanha

No Sermão do Monte Jesus agrava as exigências da lei para que os seus ouvintes entendessem que nada faziam que os diferenciava dos pecadores, se tão somente fossem ouvintes do que estava nas Escrituras (Rm 2:13).


Não matarás e o Sermão da Montanha

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar, será réu de juízo” (Mateus 5:21).

Introdução

O Sermão do Monte foi anunciado, especificamente, com a finalidade de demover os filhos de Israel dos conceitos que, por tradição, herdaram de seus antepassados. A mensagem de Jesus contém elementos que possibilitaria à multidão reconhecer, através das Escrituras, a pessoa de Jesus de Nazaré como o Filho de Deus, o Filho de Davi (Sl 2:7; 2Sm 7:14).

Discursar para uma multidão composta por judeus não era uma tarefa fácil. Antes do Sermão do Monte, Jesus já havia discursado aos seus compatriotas e, quando abordou duas passagens bíblicas, de uma perspectivava diferente da que os seus concidadãos estavam acostumados a ouvir – as passagens bíblicas da viúva de Sarepta, de Sidom, e de Naamã, o chefe do exército sírio, leproso – quiseram lançá-lo do alto de um precipício: “E todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira” (Lc 4:28-29).

Como mudar a concepção de um público que possuía entendimento equivocado acerca da lei, sem que ficassem irados? Como destacar a santidade da lei e apontar a necessidade dos seus ouvintes utilizarem a lei, legitimamente? Como destacar que a lei não cumpriu o seu papel (enferma), por causa do argumento que utilizavam (pela carne): – “Temos por pai a Abraão”.

Estas são algumas das censuras paulinas em desfavor dos judeus:

“Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” (Rm 2:20).

“Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa, legitimamente; sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas” (1Tm 1:8-9).

“Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho, em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne” (Rm 8:3).

O público alvo de Jesus tinha a lei como a plenitude do conhecimento, da sabedoria, da doutrina insofismável, no entanto, o orador à frente da plateia era a própria Verdade encarnada, em quem todos os tesouros da sabedoria e da ciência estavam ocultos, mas não O receberam: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14:6). “Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2:3).

A lei, que era tão preciosa aos olhos da multidão, na verdade, tinha por objetivo conduzir os judeus a Cristo. Como seriam conduzidos? Quando informados pela lei que todos os homens pecaram – os judeus não eram exceção – consequentemente, precisariam de um Mediador: Jesus Cristo-homem: “Porque, o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). “Por isso, nenhuma carne será justificada diante dele, pelas obras da lei, porque pela lei, vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20).

Através do Sermão da Montanha, Jesus destaca que a lei não cumpria a sua função por estar débil (enferma), uma vez que os judeus faziam da ‘carne o seu braço’, ou seja, se diziam salvos por serem descendência de Abraão (Jr 17:5).

A lei foi feita para os ímpios, mas como os filhos de Israel não utilizavam a lei, legitimamente, não compreenderam qual era a real condição deles, diante de Deus: pecadores!

O fato de os filhos de Jacó serem descendentes da carne de Abraão, tornou-se um empecilho para reconhecerem que eram pecadores, tal qual os gentios.

Após a leitura deste comentário ao Sermão do Monte, você terá os elementos necessários para compreender como Jesus, através de símiles, parábolas e enigmas, evidenciou aos seus ouvintes as bem-aventuranças dos seus seguidores, sem abrir mão de demonstrar a mensagem dos profetas e censurar os escribas e fariseus:

“Desde os dias de vossos pais, vos desviastes dos meus estatutos e não os guardastes” (Ml 3:7);

“Mas, vós vos desviastes do caminho, a muitos fizestes tropeçar na lei e corrompestes a aliança de Levi, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ml 2:8).

No Sermão do Monte, Jesus não podia falar, abertamente, aos seus ouvintes que, ninguém, exceto os seus discípulos, observava a lei: “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei! Por que procurais matar-me?” (Jo 7:19).

Jesus, também, não podia dizer, abertamente, que ele era o Cristo, o Filho unigênito de Deus, por isso anunciou a bem-aventuranças dos pobres, dos que choravam, dos mansos, dos sedentos, etc., para que seus ouvintes entendessem, pelas Escrituras, que quem lhes falava era o prometido Rebento do troco de Jessé (Is 11:1-4; Is 61:1-3)

 

Introduzindo mudança de concepção em relação à lei

Antes de apontar o que estava escrito na lei, Jesus deixou claro, aos seus ouvintes, uma impossibilidade:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:21).

O que entender por ‘de modo nenhum entrareis no reino dos céus’? Que o reino dos céus estaria vetado (fechado), justamente, para aquelas pessoas que, desde tenra idade, eram ensinadas todos os sábados, nas sinagogas, que eram ditosas, especificamente, por terem, por pai, o patriarca Abraão.

Em outras palavras Jesus, disse à multidão: – ‘Vocês não entrarão no reino dos céus…’. A assertiva de Jesus foi abrandada pela condição estabelecida, antes da negativa: ‘…se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus” (v. 21). A multidão não se assustou com a impossibilidade, em função da condição estabelecida por Cristo, uma vez que, ainda, seria possível entrar no reino dos céus, se alcançassem justiça superior à dos escribas e fariseus.

Os filhos de Israel estavam acostumados com o surgimento de intermináveis normas e regulamentos, elaboradas pelos escribas – que, por tradição, passavam de pais para filhos, inicialmente, de forma oral (Mishnah), e, posteriormente, de maneira escrita (Talmud) – que não protestaram, quando lhes foi anunciado, que não era possível entrarem no reino dos céus.

Os ouvintes de Jesus, possivelmente, aguardavam mais regras, nos moldes das anunciadas pelos escribas: – Que ações e omissões serão recomendadas, que darão direito a entrar no reino dos céus?

As intermináveis regras, que por tradição os judeus se sujeitavam, foram previstas pelo profeta Isaías:

“Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento,  regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão e caiam para trás, se quebrantem, se enlacem e sejam presos” (Is 28:13).

De modo que o povo se aproximava de Deus, somente com a boca, mas o coração estava longe de Deus, pois os mandamentos que cumpriam eram mandamentos de homens, aprendidos de forma rotineira (Is 29:13; Jr 12:2).

Apesar da ordem divina, para contemplarem a pedra preciosa de esquina, assentada em Sião (Is 28:16), as visões tornaram-se, para os filhos de Israel, como as palavras de um livro proibido, para aquele que sabe ler ou como um livro entregue nas mãos de quem não sabe ler (Is 29:11-12).

Diante desse quadro funesto, sete versículos nos chamam a atenção, pois são imprescindíveis para compreendermos a continuação do Sermão da Montanha:

“E naquele dia, os surdos ouvirão as palavras do livro e, dentre a escuridão, e dentre as trevas, os olhos dos cegos as verão. E os mansos terão gozo sobre gozo no Senhor; e os necessitados entre os homens se alegrarão no Santo de Israel. Porque o tirano é reduzido a nada e se consome o escarnecedor e todos os que se dão à iniquidade são desarraigados; Os que fazem culpado ao homem por uma palavra e armam laços ao que repreende na porta e os que, sem motivo, põem de parte o justo” (Is 29:18-21).

 

O cumprimento de várias profecias

O profeta Isaías predisse acerca de um dia, no qual os surdos haveriam de ouvir as palavras do livro e os olhos dos cegos haveriam de contemplá-las. ‘Surdez’ e ‘cegueira’ são figuras utilizadas pelos profetas para fazerem referência aos filhos de Israel, como nação: “Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” (Is 43:8; Is 42:18 e 20; Is 32:3).

O dia que Isaías previu, diz do dia sobremodo oportuno (Is 25:9), pois a salvação em Cristo seria manifesta por Deus e Cristo seria dado por aliança do povo de Israel e luz para os gentios (Is 42:6; Is 49:5-9).

Mas, por que os filhos de Israel (surdos e cegos) ouviriam e veriam as palavras do livro, somente no dia aprazado? Porque os filhos de Israel estavam como bêbados, porém, não era de vinho, nem de bebida forte. Sobre os filhos de Israel pesava um espírito de profundo sono, torpor que se assemelha aos que estão bêbados, de modo que os olhos deles estavam como que, vedados, e os ouvidos como que, agravados (Is 29:10).

O dia aprazado por Deus diz do evento em que Jesus anunciaria bem-aventuranças (regozijo e alegria) aos mansos e necessitados (Is 29:19), quando Cristo, o Santo de Israel, julgaria e repreenderia os mansos e pobres, segundo a reta justiça, diferente dos líderes de Israel, que julgavam segundo o ouvir dos seus ouvidos e segundo a vista dos seus olhos, ou seja, segundo a aparência: “Mas julgará com justiça aos pobres e repreenderá, com equidade, aos mansos da terra; e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio” (Is 11:4).

Enquanto Jesus anunciava as bem-aventuranças do Sermão do monte, as profecias registradas nos capítulos 11 e 29, de Isaías, se cumpriam. Jesus é o rebento que brotou do tronco de Jessé, sobre quem o espírito do Senhor repousava e, que se apresentou aos filhos de Israel, anunciando boas novas aos pobres: “Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7:22; Is 61:1).

Embora Jesus estivesse se apresentando ao povo como a fortaleza do pobre e do necessitado e preparando uma festa para que todos os povos pudessem ser participantes, destruindo a morte e enxugando a lágrimas, ao retirar o opróbrio do seu povo de toda a terra (Is 25:4 -8), os filhos de Israel não O reconheceram como o Senhor, anunciado pelos profetas (Is 25:9).

É em função de rejeitarem a Cristo que o profeta anunciou: – ‘Quando eu vim, por que ninguém apareceu? Quando chamei, por que ninguém respondeu?’ (Is 50:2). Quem é o Senhor que, quando chamou ninguém respondeu? O mesmo Senhor que, quando veio, se fez servo e deu as suas costas aos que O feriam (Is 50:6). O mesmo servo do Senhor, o rebento da raiz de Jessé, que o espírito do Senhor estava sobre Ele, e que, portanto, tinha a língua instruída para dar descanso ao cansado (Is 50:4).

O leitor do Sermão do Monte não pode perder de vista que os eventos registrados por Isaías, pois alguns aspectos dessas profecias estavam se cumprindo enquanto Jesus falava aos filhos de Israel.

Enquanto Jesus anunciava o reino, a obra de Deus estava sendo executada, em meio ao povo de Israel e a sabedoria dos líderes de Israel destruída (Is 29:14). Os líderes de Israel (tiranos), homens escarnecedores e dados à iniquidade, estavam sendo reduzidos a nada (Is 29:20). “Porque os estranhos se levantam contra mim e tiranos procuram a minha vida; não têm posto Deus perante os seus olhos. (Selá)” (Sl 54:3). “Ó Deus, os soberbos se levantaram contra mim e as assembleias dos tiranos procuraram a minha alma e não te puseram perante os seus olhos” (Sl 86:14).

Os líderes de Israel, a pretexto de uma lei, forjaram o mal contra o justo, condenando quem não tinha culpa alguma (Sl 94:19-20). A profecia do Salmo 94 é a mesma anunciada pelo profeta Isaías, pois fala de tiranos, escarnecedores e iníquos que fariam o Cristo culpado; que armariam laços para Ele, por repreender na ‘porta’, e que, por fim, negariam justiça ao inocente (Is 29:21).

‘Porta’ é referência ao local onde os juízes, príncipes e anciões se reuniam: “Seu marido é conhecido nas portas e assenta-se entre os anciãos da terra” (Pv 31:23). Quando é dito: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças” (Sl 24:7), é uma previsão referente ao futuro, quando todos reunidos em uma assembleia serão convocados a se postarem de pé, visto que o rei da glória estará adentrando ao recinto.

Os lideres de Israel, homens que se assentavam à porta e que armariam laços, se opuseram a Cristo durante o Seu ministério e negaram-lhe justiça, quando O condenaram à morte, o Filho de Deus que tinha zelo da casa do Pai e os seus irmãos se tornaram estranhos: “Aqueles que se assentam à porta, falam contra mim; e fui o cântico dos bebedores de bebida forte” (Sl 69:12; Sl 69:8-9; Jo 2:17).

Cristo tinha uma causa: obediência ao Pai (Jo 4:34). Por causa da obra do Pai, Jesus ‘repreendia na porta’ e os líderes de Israel se opunham (Sl 69:12). O Filho de Deus se fez servo, obedecendo ao Pai até a morte e morte de cruz (Fl 2:8), mas os seus negaram-lhe justiça e o mataram (At 3:13; Is 53:8; At 8:33).

Sabedor dos eventos previstos nas Escrituras, Jesus instrui os seus ouvintes sobre o homicídio!

“Não vos deu Moisés a lei? E nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” (Jo 7:19; Jo 8:37 e 40)

 

Não matarás

“21 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar, será réu de juízo” (Mt 5:21).

Após afirmar, categoricamente, que, caso a justiça dos seus ouvintes – uma multidão composta de judeus – não fosse superior à justiça dos escribas e fariseus, de maneira nenhuma herdariam o reino dos céus, Jesus chamou a atenção dos seus ouvintes, ao lembrá-los do que ouviram, acerca do que foi anunciado aos antigos:

“Não matarás; mas, qualquer que matar, será réu de juízo” (v. 21).

Como Jesus falava à multidão, não afirmou: ‘Está escrito’, e nem questionou: ‘Nunca lestes?’, ou ‘O que está escrito?’, ou ‘Como lês?’, etc., antes, fez referência ao que ouviram, pois mais de 97% dos que ali estavam eram analfabetos[1]: Ouvistes que foi dito aos antigos: …’ (v. 21). “Nós temos ouvido da lei, que o Cristo permanece para sempre” (Jo 12:34; Jo 10:34; Jo 8:17; Lc 19:46; Lc 10:26; Mc 7:6).

A multidão, rotineiramente, ouvia, aos sábados, os mandamentos, conforme o que está escrito no Êxodo: “Não matarás” (Êx 20:13) e suas consequências legais: ‘E quem matar a alguém, certamente, morrerá’ (Lv 24:17; Lv 24:21; Nm 35:30).

Como os judeus passaram à condição de escravos das nações vizinhas, desde a conquista dos Babilônicos, por volta do século V a.C., a autonomia para aplicarem a pena capital inexistia, restando somente submeterem os seus réus, nos casos de homicídios, aos tribunais estrangeiros.

A morte de Jesus, a cargo dos Romanos, deixa claro que os judeus não podiam praticar a pena capital pois, apelaram para Pôncio Pilatos, procurador da Judéia, e tiveram que pressioná-lo para condenar Cristo à morte: “Desde, então, Pilatos procurava soltá-lo; mas os judeus clamavam, dizendo: Se soltas a este, não és amigo de César; qualquer que se faz rei é contra César” (Jo 19:12).

Embora, julgado no Sinédrio (Mt 26:57), corte judaica composta por príncipes, sacerdotes, rabinos, escribas, fariseus, Jesus foi conduzido ao pretório, perante Pilatos (Mt 1:1 -2; Lc 23:1), seguido de grande multidão, para pressionar o governo local a condená-Lo à morte (Jo 19:12 e 15).

Por fim, a pena capital não foi aplicada por apedrejamento, mas, por crucificação, que, segundo a lei mosaica, qualquer que fosse pendurado no madeiro, seria maldito de Deus: “Responderam e disseram-lhe: Se este não fosse malfeitor, não to entregaríamos. Disse-lhes, pois, Pilatos: Levai-o vós e julgai-o segundo a vossa lei. Disseram-lhe então os judeus: A nós não nos é lícito matar pessoa alguma. (Para que se cumprisse a palavra que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer)” (Jo 18:30-32). “Quando, também, em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas, certamente, o enterrarás, no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim, não contaminarás a tua terra, que o SENHOR teu Deus te dá em herança” (Dt 21:22-23).

Decorrente do mandamento ‘Não matarás’, havia, ainda, a obrigação dos filhos de Israel, de se afastarem do falso testemunho, bem como, de não matarem o inocente e o justo: “De palavras de falsidade te afastarás e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” (Êx 23:7).

Os filhos de Israel tinham o dever de testemunhar, verazmente, segundo o que viram e ouviram, pois, pela palavra de duas pessoas, uma outra podia ser morta: “Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas, uma só testemunha, não testemunhará contra alguém, para que morra” (Nm 35:30). “Por boca de duas testemunhas, ou três testemunhas, será morto o que houver de morrer; por boca de uma só testemunha não morrerá” (Dt 17:6; Jo 8:17).

Os filhos de Israel foram alertados para não seguirem a maioria, tomando parte com a maioria, para torcer o direito, o que fizeram quando condenaram a Jesus: “Não seguirás a multidão, para fazeres o mal; nem, numa demanda falarás, tomando parte com a maioria para torcer o direito” (Êx 23:2).

Segundo a lei, a pena capital não podia passar da pessoa do transgressor, ou seja, a alma que pecasse, essa mesma, morreria: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado” (Dt 24:16; Ez 18:4). E, se a pena fosse açoites, a quantidade de açoites não poderia ultrapassar uma quarentena, para o condenado não ser aviltado: “Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos” (Dt 25:3).

Tudo o que estava estabelecido na lei servia para preservar os filhos de Israel como povo e de aviso para não participarem da morte de Cristo, no entanto, acabaram torcendo o direito, ao se deixarem guiar por homens inescrupulosos, que se utilizaram de testemunhas mentirosas e entregaram Jesus para ser morto: “Ora, os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e todo o conselho, buscavam falso testemunho contra Jesus, para o conduzirem à morte; E não o achavam; apesar de se apresentarem muitas testemunhas falsas, não o achavam. Mas, por fim, chegaram duas testemunhas falsas, e disseram: Este disse: Eu posso derrubar o templo de Deus e reedificá-lo em três dias” (Mt 26:59-61); “E os principais dos sacerdotes e todo o concílio buscavam algum testemunho contra Jesus, para o matar, mas não o achavam. Porque muitos testificavam falsamente contra ele, mas os testemunhos não eram coerentes. E, levantando-se alguns, testificaram falsamente contra ele, dizendo: Nós o ouvimos dizer: Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens e, em três dias, edificarei outro, não feito por mãos de homens” (Mc 14:55-58); “E, LEVANTANDO-SE toda a multidão deles, o levaram a Pilatos.  E começaram a acusá-lo, dizendo: Havemos achado este pervertendo a nossa nação, proibindo dar o tributo a César e dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei” (Lc 23:1-2).

Portanto, os filhos de Israel feriram o Justo (Jo 18:22-23), deixaram que fosse açoitado por estrangeiros (Jo 19:1) e, por fim, entregaram-no para ser morto (Jo 19:16; Jo 19:23).

Os escribas e fariseus faziam o que bem entendiam com a lei, como se lê:

“Responderam-lhe os judeus: Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei,  ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus” (Jo 19:7);

“Disse-lhes, pois, Pilatos: Levai-o vós e julgai-o, segundo a vossa lei. Disseram-lhe, então, os judeus: A nós não nos é lícito matar pessoa alguma (Jo 18:31).

Assim, se cumpriram as Escrituras, que dizem:

“Pode acaso associar-se contigo o trono da iniquidade, que forja o mal, tendo por pretexto uma lei? Eles se ajuntam contra a alma do justo e condenam o sangue inocente” (Sl 94:20 -21).

Não há sociedade entre a justiça e a injustiça e nem entre a luz e as trevas (2Co 6:14), portanto, os homens que exerciam domínio politico e religioso em Israel, tendo por base a lei, se uniram contra o Justo e o condenaram.

Vale destacar que, quando Davi estava no deserto de Parã com os seus homens, conviveram com os servos de Nabal, no Carmelo. Os homens de Davi não tomaram nada do rebanho de Nabal e ainda protegeram os servos de Nabal de toda sorte de ataques (1 Sm 25:15-16).

Quando Davi soube que o rico Nabal tosquiava as suas ovelhas, enviou seus servos a Nabal para pedirem, em nome de Davi, que ele concedesse alguma dádiva do que estava à mão. Nabal não mediu as palavras e disse aos servos de Davi: – “Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos servos há hoje, que fogem ao seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu pão, a minha água e a carne das minhas reses, que degolei, para os meus tosquiadores e o daria a homens que eu não sei donde vêm?” (1 Sm 25:10-11).

Quando soube do agravo de Nabal, Davi ordenou aos seus homens que cingissem a espada, deixou duzentos homens cuidando da bagagem e subiram em quatrocentos homens com o propósito de por fim a Nabal e à sua casa: “E disse Davi: Na verdade que, em vão, tenho guardado tudo quanto este tem no deserto e nada lhe faltou de tudo quanto tem e ele me pagou mal por bem. Assim, faça Deus aos inimigos de Davi, e outro tanto, se eu deixar até amanhã de tudo o que tem, até mesmo um menino” (1 Sm 25:21-22).

Abigail, mulher de Nabal, quando soube do agravo que o seu marido fez a Davi, rapidamente tomou consigo presentes e foi ao encontro de Davi. Quando viu a comitiva de Davi, de imediato prostrou-se em terra e avocou para si a transgressão do seu marido.

Apesar de Davi ser um homem de guerra, Abigail foi enviada, por Deus, para que Davi não derramasse sangue e as suas próprias mãos lhe servissem de salvação (1 Sm 25:26). Por Deus, Abigail acentuou a Davi, que ele não foi posto para fazer suas próprias guerras e nem para defender a sua própria honra (1 Sm 25:31).

Embora fosse um homem de guerra, Davi não podia matar para defender a sua honra, assim como qualquer um em Israel não podia. Nabal era um louco, tanto no nome, quanto nas atitudes, conforme o testemunho de Abigail, porém, Davi não tinha o direito de lançar mão da vida de Nabal, da mesma forma que não podia lançar mão de Saul (1 Sm 24:6).

O mandamento: “Não matarás”, não comportava exceções! Não podia matar um ungido, bem como, não podia matar qualquer do povo. Os filhos de Israel não podiam matar quem pagasse mal por bem, quanto mais, por inveja: “Porque sabia que por inveja o haviam entregado” (Mt 27:18).

 

Metanoia

Ao lembrar a multidão, acerca do que ouviram da lei (não matarás, não adulterarás,…), Jesus estabeleceu um ponto de apoio à sua exposição, que terá o seu clímax nas questões dos versos 46 e 47: “Não fazem os cobradores de impostos o mesmo?”; “Não fazem os gentios também assim?”.

Sabedor de que o único argumento que os filhos de Israel escutavam, ao seu próprio modo, era a lei, Jesus lembra aos seus ouvintes alguns mandamentos da lei para poder evidenciar a impossibilidade de alcançarem justiça superior à dos seus líderes, por meio das práticas que, por tradição, receberam dos seus pais.

Jesus precisava operar nos seus ouvintes, uma revolução no modo de interpretar (metanoia) a Lei, os Profetas e os Salmos, entretanto, não podia dizer a sua mensagem abertamente, assim como o apóstolo Paulo, quando escreveu aos Gálatas: “E é evidente que, pela lei, ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé” (Gl 3:11).

O apóstolo Paulo disse, abertamente, aos da sinagoga de Antioquia da Pisídia, que, pela lei de Moisés, não podiam ser justificados: “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39). Jesus Cristo, por sua vez, tinha que evidenciar essa verdade, por meio de parábolas e enigmas.

Lembrando Jesus não podia dizer abertamente: – “Eu sou o Cristo”, e por isso mesmo proibia aos seus discípulos que anunciassem que Ele era o Cristo (Mt 16:20), isto porque os filhos de Israel deviam identifica-Lo como o Cristo por intermédio da sua doutrina (Jo 7:16 -17).

Quando Jesus apresenta a necessidade de adquirir justiça superior à dos escribas e fariseus, na verdade, evidencia a fraqueza e a inutilidade da lei, para aquilo que os filhos de Israel pretendiam: direito a entrar no reino dos céus (Hb 7:18; Gl 4:9).

A lei é proveitosa, porque evidencia a condição dos homens e anuncia bem-aventurança a todas as famílias da terra, através do descendente de Abraão, não pelos rudimentos fracos e pobres que os seus seguidores abstraíram, como ’guardar dias,  meses, tempos e anos’, ou ordenanças, que tem por base ‘não toques, não proves, não manuseies’ (Cl 2:21).

O que a multidão ouviu, acerca do que foi dito por Deus aos antigos (Êx 20:1 e 22), somado ao que Jesus estava propondo, compunha os elementos necessários para que os seus ouvintes considerassem que tudo o que faziam, tendo por pretexto a lei de Moisés, os gentios e os publicanos, igualmente, faziam o mesmo. Como os filhos de Israel faziam o mesmo que os gentios e publicanos, Jesus introduz algumas questões para considerarem: – “Eu, porém, vos digo…” (Mt 5:22).

Os ouvintes de Jesus estavam acostumados com o ensinamento de que não poderiam ser (roubadores, injustos e adúlteros) como os demais homens (gentios), nem mesmo como os publicanos (judeus, cobradores de impostos para Roma). Também não bastava ser judeu ou prosélito, antes eram necessárias as práticas de jejuns, dízimos, etc. “O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo” (Lc 18:11-12).

As observações: ‘Que recompensa tereis? Que fazeis de mais? Não fazem os publicanos o mesmo? Não fazem os gentios, também, assim?’ remontam ao que foi dito pelo apóstolo Paulo aos cristãos em Roma:

“PORTANTO, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo (Rm 2:1).

Jesus frisou à multidão: – Ouvistes o que foi dito aos antigos…’, em vez de: – Praticais o que foi dito aos antigos’, o que remete à observação paulina:

“Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados” (Rm 2:13).

Como obteriam justiça superior aos escribas e fariseus, se eram somente ouvintes da lei? Como teriam direito a entrar no reino dos céus, se praticavam as mesmas ações que os gentios (demais homens) e cobradores de impostos? Apesar de os gentios não terem lei, naturalmente, faziam as mesmas coisas que eram da lei!

”Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem, naturalmente, as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando, juntamente, a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Rm 2:13-15).

Jesus precisava fazer a multidão entender que eram transgressores da lei, tanto eles, quanto os seus mestres, pois o ensinamento dos seus mestres resumia-se em proibir matar, roubar, furtar, adulterar, etc. “Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus, pela transgressão da lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios, por causa de vós” (Rm 2:21-24); “E testificaste contra eles, para que voltassem para a tua lei; porém eles se houveram soberbamente e não deram ouvidos aos teus mandamentos, mas pecaram contra os teus juízos, pelos quais o homem que os cumprir viverá; viraram o ombro, endureceram a sua cerviz e não quiseram ouvir” (Ne 9:29).

Observe que o Sermão tem por alvo a multidão composta por judeus, pessoas que precisavam compreender que o reino de Deus estava no meio deles e, que, portanto, a argumentação de que tinham por pai a Abraão, não era válida. Que a vantagem, em relação aos gentios, de ser confiada, primeiramente, a palavra de Deus aos judeus (circuncisão), de modo algum tornava os da circuncisão melhores que os gentios, pois a lei que os judeus tinham como forma da ciência e da verdade, realizava um papel inclusivo, demonstrando que os judeus também eram pecadores (Rm 3:1-31).

O maior dos equívocos, acerca do Sermão do Monte, é entender que Jesus estabeleceu um novo código moral ou um novo padrão de conduta que os seus discípulos deveriam seguir.

Observe esta colocação, que consta do Novo Comentário Bíblico do Novo Testamento:

“Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus. Esse foi o clamor de Jesus, ao iniciar Seu ministério público na Galileia (Mt 4.17). Sua mensagem rapidamente se espalhou e grandes multidões vieram ouvi-lo da Galileia, de toda Síria e de Decápolis e, também, de Jerusalém, da Judéia e dalém do rio Jordão (Mt 4.24,25). Todos iam a Ele para ouvir sobre o Reino; Jesus, em vez disso, falava sobre o estilo de vida daqueles que queriam viver no Reino. 0 Sermão do Monte contém a essência do ensinamento moral e ético de Jesus”. O Novo Comentário Bíblico do Novo Testamento, com Recursos Adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010,  pág. 27.

Os editores do ‘O Novo Comentário Bíblico do Novo Testamento’, inicialmente, destacaram a mensagem de Jesus, no início do seu ministério: ‘Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus’. Em seguida, destacam que a mensagem de Jesus se espalhou, rapidamente, e grandes multidões o procuravam. Até esse ponto, a abordagem dos editores do comentário bíblico, em questão, está correta.

O problema está na assertiva de que todos queriam ouvir Jesus sobre o Reino, pois o texto bíblico não diz assim. Observe:

“E percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E a sua fama correu por toda a Síria e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos e ele os curava. E seguia-o uma grande multidão da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia e de além do Jordão” (Mt 4:23-25).

O interesse das multidões estava nas curas que Jesus operava e os editores do ‘O Novo Comentário’ inferiram que as multidões estavam interessadas em ouvir sobre o reino. Em seguida, afirmam que Jesus ‘falava sobre o estilo de vida daqueles que queriam viver no Reino’, o que não condiz com o exposto nos Evangelhos.

No Sermão do Monte, Jesus não estava propondo um estilo de vida aos seus ouvintes e nem abordando questões de cunho moral e ético. Até porque, o que foi dito no Sermão do Monte não se constitui uma regra de conduta para a igreja de Cristo, antes, são argumentos que visavam mudar a concepção dos judeus, para que cressem em Cristo.

Não encontramos nos Evangelhos Jesus orientando os seus discípulos acerca de questões éticas e morais, até porque, para os cristãos, tudo é licito, ressalvado o que não é conveniente e o que não edifica: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” (1 Co 10:23).

No Novo Testamento, não temos ordenanças e mandamentos, mas, recomendações, orientações, como se lê:

“Porquanto, ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” (At 15:24); “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência” (Gl 2:10).

‘Estilo de vida’ é uma expressão moderna que se refere à forma pela qual uma pessoa ou, um grupo de pessoas, se porta no mundo e, em consequência, faz suas escolhas. O evangelho de Cristo não trata do comportamento ou das escolhas que as pessoas fazem no seu cotidiano, antes, se restringe em revelar Deus ao mundo: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (Jo 1:18).

Questões éticas e morais decorrem de julgamentos segundo o que é aparente e Jesus não julgava segundo as aparências: “E deleitar-se-á no temor do SENHOR; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos” (Is 11:3).

“O ensino de Jesus era de que o ser humano não será julgado, apenas, por suas ações, mas sim, e ainda mais, por seus desejos, embora jamais tenham chegado a transformar-se em ação. Segundo as pautas morais do mundo, uma pessoa é boa se não cometer ações proibidas; o mundo não tem interesse em julgar os pensamentos. Segundo a pauta moral que Jesus propõe, ninguém pode ser considerado bom, a menos que jamais deseje fazer o proibido; Jesus Se interessa, profundamente, pelos pensamentos humanos. Disto surgem três coisas”. Barclay, William. Comentário do Novo Testamento.

Barclay afirma que a pauta moral de Jesus é proibir pensamentos e desejos, acerca do que era vetado na lei. Ora, Jesus não impôs proibições à multidão, antes, Ele veio salvar o que se havia perdido, tanto que Ele não julgava os seus interlocutores: “E se alguém ouvir as minhas palavras e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12:47); “Vós julgais segundo a carne; eu, a ninguém julgo” (Jo 8:15).

Seria um contrassenso impor restrições comportamentais a quem já foi julgado e está sob condenação – condição própria a todos os homens – pois nenhuma conduta adotada por um condenado pode livrá-lo da pena: “Pois, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” (Rm 5:19).

Os ouvintes de Jesus foram ensinados que não eram pecadores por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão. No entanto, como os da promessa é que são contados como descendência de Abraão (Rm 9:8-9), os ouvintes de Jesus eram pecadores, por serem descendentes da carne e do sangue de Adão, assim como Ismael, o filho da escrava Agar.

O julgamento e a condenação da humanidade ocorreram no Éden e lá todos foram apenados com a morte: destituição da glória de Deus. Dessa penalidade não há o que o homem faça ou deixe de fazer, pense ou deixe de pensar, queira ou deixe de querer que o absolva da condenação (Jo 3:18).

O julgamento das obras no Tribunal do Grande Trono Branco visa às ações dos homens, não pensamentos e desejos, assim como o julgamento dos salvos no Tribunal de Cristo: “E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras (Ap 20:12).

Na verdade, quando Jesus evoca o que a multidão ouvia acerca dos assassinatos, adultérios, perjúrios, etc., simplesmente, era para destacar que os escribas e fariseus nada faziam de extraordinário, pois os publicanos, que eram tidos por eles como pecadores, igualmente não matavam, não adulteravam, não cometiam perjúrio, etc.

Zaqueu é um exemplo, pois como chefe dos publicanos e sendo rico, demonstrou ser integro, pois propôs devolver quadruplicado qualquer ganho ilícito, caso houvesse defraudado alguém sem perceber, segundo o que estabelecia a lei, além das contribuições que fazia aos pobres.

Isto demonstra que Zaqueu não era corrupto, pois se os seus bens fossem oriundos de corrupção, não teria como devolver o que defraudou quadruplicado: “E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado(Lc 19:8).

Os versos 21 a 45, do capítulo 5, de Mateus, devem ser vistos sob o argumento que  segue:

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

Esse princípio também foi abordado pelo evangelista Lucas, pois é uma espécie de ‘alavanca’ que visa promover a mudança de concepção (metanoia) dos judeus que ouviam o discurso de Jesus.

“E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também, os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também, os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também, os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto” (Lc 6:32-34).

Quem eram os publicanos? Eram judeus a serviço de Roma que exerciam o ofício de cobrar impostos dos seus patrícios. Aos olhos da multidão, os publicanos eram pecadores e Jesus utilizou a figura, justamente, dos publicanos, para ilustrar algumas parábolas, como a ‘Parábola do Fariseu e do Publicano’, a ‘Parábola dos dois filhos’ e a ‘Parábola da Ovelha Perdida’.

Como é possível às meretrizes e aos publicanos terem direito ao reino dos céus e os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, não?

“Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade, vos digo, que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus” (Mt 21:31).

A mensagem do Sermão do Monte possui o seguinte viés: mudar a concepção dos seus ouvintes, para que façam a vontade de Deus, pois somente os que fazem a vontade de Deus são irmãos e mãe de Jesus: “Mas, respondendo ele, disse-lhes: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a executam” (Lc 8:21).

 

Irmão

“22 Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.

23 Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,

24 Deixa ali, diante do altar, a tua oferta e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta.

25 Concilia-te, depressa, com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão.

26 Em verdade te digo que, de maneira nenhuma, sairás dali, enquanto não pagares o último ceitil” (Mt 5:22-26).

 

Antes de prosseguir, o leitor precisa lembrar-se de uma passagem profética de Deuteronômio:

“O SENHOR teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” (Dt 18:15).

Vale destacar que o apóstolo Pedro aplica a passagem de Deuteronômio à pessoa de Cristo, o irmão ‘escolhido’, dentre os filhos de Israel:

“Porque Moisés disse aos pais: O Senhor vosso Deus levantará de entre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser” (At 3:22).

Faz-se necessário lembrar que os métodos de ensino, ou a didática, na antiguidade, difere muito da didática dos nossos dias, que é carregada de definições e conceitos. Um método de ensino da antiguidade era a dialética, no qual o papel do instrutor consistia mais em perguntar e inquirir, do que responder ou, contestar, o aprendiz. Outro, o método maiêutico, era baseado na ironia e no diálogo, etc.

Na matemática, por causa dos ‘operadores lógicos’ ou, ‘conectivos lógicos’, é possível estabelecer uma prova por ‘contradição’ ou ‘redução ao absurdo’, do latim ‘reductio ad absurdum’[2].

Como operar uma mudança de concepção em um povo que se julgava superior aos gentios, por tere uma lei? Negando a lei? Não! Como a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom (Rm 7:12), seria necessário enfatizá-la, pois, ela foi introduzida para mudar a concepção dos judeus, para que eles viessem a Cristo. Mas, como a lei se tornou frágil, enferma por causa da carne (Gl 3:24; Rm 8:3), que método de ensino utilizar para operar essa mudança de concepção?

Um método de ensino é lançar mão do absurdo, de uma situação inusitada, ou, do impossível, estabelecendo como base para evidenciar a contradição do pensamento dos recalcitrantes.

Comparando o que Jesus disse aos seus ouvintes: “Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo…” (Mt 5:22), com o que foi prescrito aos antigos: “Não matarás e, quem matar, estará sujeito a julgamento” (Mt 5:21), percebe-se, pela penalidade, que Cristo equiparou o ato de matar alguém, ao sentimento de ira contra um irmão.

A proporcionalidade da pena, em relação às ações, matar e encolerizar, deixa evidente que a proposta de Cristo não era normatizar comportamentos e nem estabelecer princípios éticos e morais. A discrepância entre as penalidades e as ações, tem por objetivo evidenciar uma verdade, como a que foi exposta por Isaías:

“Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial, é como o que bendiz a um ídolo; também, estes, escolhem os seus próprios caminhos e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Is 66:3).

O que Isaías estava evidenciando? Um novo princípio moral? Uma nova lei? Não! Ele estava destacando o absurdo de alguém que se propõe a oferecer um sacrifício, mas rejeita a palavra de Deus.

Ao comparar quem mata um boi a quem tira a vida de um homem, o profeta Isaías estava evidenciando a gravidade das ações de quem não obedece a Deus, para seguir os seus próprios desígnios: “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2); “Contudo o meu povo se tem esquecido de mim, queimando incenso à vaidade, que o fez tropeçar nos seus caminhos e nas veredas antigas, para que andasse por veredas afastadas, não aplainadas” (Jr 18:15).

Um exemplo de absurdo, vemos em Saul, que não obedeceu à ordem de Deus, sob o argumento de que iria sacrificar ao Senhor (1 Sm 15:15). Ao escolher seguir o seu próprio conselho, Saul estava se portando como quem mata um homem ou como quem ofereceu um porco sobre o altar.

Os gentios e os publicanos – considerados pecadores, pela multidão – não matavam, para não serem réus de juízo, e os ouvintes do Sermão da Montanha, por sua vez, não matavam, para não serem, igualmente, réus de juízo e, com isso, esperavam ser recompensados por Deus.

Dessa falta de coerência no pensamento dos judeus, decorre a argumentação de Jesus, no final do capítulo: que recompensa tereis, se os pecadores, também, não matam, para não serem réus de juízo? Que fazeis, demais?

Como os ouvintes de Jesus não estavam utilizando a lei de forma legítima, a proposta de Jesus visava ‘abrir os ouvidos’ dos seus ouvintes, para que pudessem entender qual o objetivo da lei de Deus: “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9).

Quando Jesus anunciou: “Eu, porém, vos digo que qualquer que…”, propõe ações à multidão que superasse o que os gentios e publicanos faziam e muitas dessas ações propostas soam como absurdo. Quem, em sã consciência, arrancaria os olhos para não ser réu do fogo do inferno?

Se os filhos de Israel pensavam que eram melhores que os gentios e publicanos, a pretexto da lei, no mínimo, teriam que temer, serem conduzidos ao tribunal, quando ficassem zangados com o irmão, diferentemente, dos gentios e publicanos, que temiam ser conduzidos ao tribunal, em caso de homicídio.

Jesus introduz essa proposta, porque havia acabado de exigir dos seus ouvintes uma justiça que suplantasse à dos seus líderes religiosos e, ao lembrar o que fora dito aos antigos, através da lei, propõe um comportamento que suplantasse o exigido pela letra da lei, como sugestão, para alcançarem justiça superior à dos escribas e fariseus.

Seria contraproducente intentar alcançar uma justiça que excedesse à dos escribas e fariseus, fazendo somente o que fora dito aos antigos, ou fazendo o que os gentios também faziam, principalmente, porque os gentios faziam as mesmas coisas que os judeus, mesmo não tendo lei.

A proposta de Jesus visava a uma mudança de concepção, demonstrando à multidão a impossibilidade de se justificar, através das exigências da lei: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei; porquanto, pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

Jesus agravou as exigências da lei, para que os seus ouvintes entendessem que nada faziam que fosse superior ao que era feito pelos pecadores, se tão somente fossem ouvintes do que foi dito aos antigos (Rm 2:13).

Seguem as propostas de Jesus:

  • qualquer que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo;
  • qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio;
  • qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.

Algumas Bíblias contém uma interpolação: ‘sem motivo’, na proposta de Jesus: ‘qualquer que [sem motivo], se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo’, que não há nos melhores manuscritos, tentando suavizar a exigência de Jesus, pois leem o texto como se fosse uma prescrição de comportamento, mas, a abordagem de Jesus é mais profunda ainda.

Primeiro, Jesus evidencia o que ouviram acerca do que foi dito aos antigos: “Não matarás. Mas, qualquer que matar, será réu de juízo”. Em segundo lugar, Ele enfatiza que: “Qualquer que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo”.

Por que Jesus insere a figura do ‘irmão’ na sua abordagem? Por que Jesus chama a atenção dos seus ouvintes para o elemento ‘carne’ e ‘sangue’, que estabelecem os laços fraternos?

Ao trazer à memoria o que foi dito aos antigos, Jesus estava apontando para os escritos de Moisés, onde também está registrado que Deus haveria de levantar um profeta do meio dos filhos de Israel, assim como Moisés, a quem deveriam ouvir:

“Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18);

Historicamente, os filhos de Jacó não aceitavam bem o fato de um dos seus irmãos ser profeta ou sonhador de sonhos, como ocorreu com José do Egito, um tipo de Cristo: “Vendo, pois, seus irmãos que seu pai o amava mais do que a todos eles, odiaram-no, e não podiam falar com ele, pacificamente. Teve José um sonho, que contou a seus irmãos; por isso o odiaram ainda mais” (Gn 37:4-5; Mt 2:15).

Qualquer dos ouvintes de Jesus que quisesse justiça superior à dos escribas e fariseus, deveria aceitar a doutrina de Cristo, portanto, não podia temer os escribas e fariseus, não ser afeito à glória de homens e nem se escandalizar com a doutrina de Jesus “Apesar de tudo, até muitos dos principais creram nele; mas não o confessavam por causa dos fariseus, para não serem expulsos da sinagoga. Porque amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (Jo 12:42-43).

Neste diapasão, os ouvintes de Jesus deveriam confessar a Cristo, o ‘irmão’ anunciado por Moisés – Aquele a quem deviam ouvir -, ou então, estariam se posicionando como opositores (adversários) de Cristo: “Eis que lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18); “Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Mq 7:6); “Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei, também, diante de meu Pai, que está nos céus. Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mt 10:32-36).

A exigência de Jesus, com relação à ira, parece ser muito alta, porém, os seus irmãos não suportavam a abordagem que Cristo fazia das Escrituras e, várias vezes, foram tomados pela ira: “E todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira” (Lc 4:28).

E a ordem: “Irai-vos e não pequeis” (Ef 4:26), não é contrária ao posicionamento de Jesus?

O Salmo 4, verso 4, diz: “Perturbai-vos e não pequeis; falai com o vosso coração sobre a vossa cama e calai-vos”. Algumas traduções vertem: Irai-vos e não pequeis. O termo hebraico רָגַז, transliterado ragaz, comumente vertido por ‘irai’ ou, ‘perturbai’, na verdade, deveria ser vertido por ‘tremei’, significando ‘obedeça’.

O sentido do termo é semelhante ao empregado nestes versos: “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” (Is 66:5); “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” (Sl 2:11); “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11).

Após recomendar que se deixe a mentira e que se fale a verdade, cada qual com o seu próximo, conforme expresso pelo profeta Zacarias (Ef 4:25; Zc 8:16), o apóstolo Paulo ordena aos cristãos que obedeçam (tremei), pois estas eram as coisas a serem observadas para não pecarem.

Como a pessoa poderia ser réu do Sinédrio, somente por nomear o seu irmão de ‘raca’? O termo ‘raca’ pode ser entendido como imprestável, desprezível, vil, baixo, etc., termo de origem semita, transliterado para o grego.

Ora, a profecia apontava para o Cristo como ‘desprezado e o mais indigno dos homens’ (Is 53:3), portanto, era de se ter cuidado, pois ao desprezar algum irmão, chamando-o de ‘raca’, pois, poderia estar desprezando o ‘Servo’ do Senhor – o profeta anunciado por Moisés, que seria levantado, dentre os filhos de Jacó, do qual estava escrito que os filhos de Israel não fariam caso algum: “QUEM deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR? Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza, nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado e não fizemos dele caso algum” (Is 53:1-3).

Jesus enfatiza que, qualquer que chamasse o irmão de ‘louco’, seria réu do fogo do inferno. Como entender o fato de Jesus orientar os seus ouvintes, para não chamarem a um irmão de louco, para não estarem sujeitos ao fogo do inferno, mas, Jesus, por sua vez, chama os escribas e fariseus de ‘insensatos’, em outras palavras, de ‘loucos’?

Há uma diferença gritante entre os escribas e Cristo. Cristo julgava segundo a reta justiça, enquanto que os escribas e fariseus julgavam segundo a aparência e a carne: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24).

Segundo o estabelecido nas Escrituras, Jesus a ninguém julgava (Jo 8:15; Is 11:3). Quando Jesus chamou os escribas e fariseus de ‘loucos’, simplesmente, apontou para as Escrituras, que nomeavam de loucos e néscios, àqueles que se alimentavam do povo de Israel, como se fosse pão (Sl 53:1-4). Como os escribas e fariseus eram obreiros da iniquidade, ‘néscios’, era a condição deles diante de Deus e, por isso, Jesus os denominava ‘loucos’, como o fez Moisés (Dt 32:6).

O povo de Israel era louco e ignorante, um julgamento que consta nas Escrituras, portanto, nomeá-los de ‘loucos’, em função das Escrituras, é julgar segundo a reta justiça, não segundo a aparência: “Deveras, o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22).

Ora, se, alguém dentre os filhos de Jacó, fosse levantado como profeta e deveria ser ouvido, cada membro da nação deveria ter o seu irmão em honra, pois qualquer um deles poderia ser o Cristo. Se observassem as profecias, não rejeitariam àquele que era desprezado do povo e opróbrio dos homens: “Mas, eu sou verme e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo” (Sl 22:6; Is 53:3).

Mas, caso os ouvintes de Jesus tivessem essa disposição de nunca ficarem irados, de esbravejarem ou, de falarem mal do próprio irmão, quando, em particular, fossem ofertar e se lembrassem, junto ao altar, que o ‘irmão’ tinha algo em seu desfavor, que deixassem a oferta junto ao altar e fossem se reconciliar com o seu irmão.

“Mas ao ímpio, diz Deus: Que fazes tu, em recitar os meus estatutos, e em tomar a minha aliança na tua boca? Visto que odeias a correção e lanças as minhas palavras para detrás de ti. Quando vês o ladrão, consentes com ele e tens a tua parte com adúlteros. Soltas a tua boca para o mal e a tua língua compõe o engano. Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho de tua mãe!” (Sl 50:16-20).

Perceba que não é o ofertante que tem algo contra o irmão, antes, o irmão que tem algo contra o ofertante e, mesmo assim, o ofertante deveria ter a capacidade magnânima de buscar a reconciliação, mesmo que não tivesse algo contra o irmão.

Jesus propõe que o ônus da reconciliação não fique a cargo de quem ofendeu, mas, que compete ao ‘ofendido’ se retratar, portanto, essa seria uma atitude mais nobre e diferente da atitude dos gentios e pecadores ou, o significado do termo ‘ofendido’, deve ser revisto.

O termo grego traduzido por ‘reconciliar’ é διαλλάσσομαι, transliterado diallassómai, possui o sentido de ‘mudar a mente de qualquer pessoa’, ‘mudar completamente (mentalmente) para conciliar’, o que remete ao arrependimento, a mesma ideia do termo grego μετανοέω, transliterado metanoeó.

Devemos questionar: Por que Jesus não impôs a obrigação de o irmão, que tinha algo desfavorável, vir se retratar? Ora, Jesus queria dar a entender aos seus ouvintes que Ele era o irmão levantado dentre os filhos de Israel como profeta, segundo o que foi dito a Moisés, para mudar a mente dos seus irmãos.

Não era o Servo do Senhor, o opróbrio dos homens e desprezado do povo, que deveria se ‘reconciliar’ com os filhos de Israel, mas, sim, os filhos de Israel que deveriam se reconciliar com Ele. É certo que o profeta anunciado por Moisés, o irmão levantado dentre os filhos de Israel, estaria corretíssimo na sua colocação, portanto, cabe aos irmãos ofertantes, se ‘retratarem’, ou seja, mudarem de concepção, completamente, aceitando o proposto por Ele: “Eis, lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18).

O termo grego μνάομαι[3], transliterado mnaomai, comumente traduzido por ‘recordar’, ‘lembrar’, também possui a forma prolongada μιμνησκω, transliterada mimnesko. O termo μναομαι não tem o sentido de ‘recordar de algo que se esqueceu’, antes, de ‘recordar de’, de ‘fazer-se lembrar’, de ‘ter na lembrança’, de ‘fixo na mente’.

Quando o ofertante chegasse junto ao altar e, aquilo que ouviu do Cristo estivesse fixo na mente, ter na lembrança, não conseguisse esquecer, que deixasse a oferta no altar e retornasse e se ‘conciliasse’ com o irmão (Mt 5:23).

O que o irmão tem que é expresso pelo termo διαλλάσσομαι não é resultado de uma briga, desavença, inimizade, antes é algo que pode mudar a mente, a compreensão. Na verdade, quando o ofertante estivesse diante do altar e viesse à mente a compreensão do ensino dado pelo irmão, que deixasse a oferta no altar e se reconciliasse depressa com Ele.

Caso os ouvintes de Jesus não percebessem a nuance do discurso, com relação à possibilidade de estarem contrariando aquele irmão que seria levantado por Deus, em meio aos filhos de Israel, conforme predito por Moisés, o argumento a seguir deveria se considerado:

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

Jesus encerra a abordagem, acerca do que ouviram que foi dito aos antigos, de modo a levá-los a considerar o seguinte:

“Pois, se reconciliardes com quem buscou a reconciliação, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se esperardes quem vos ofendeu, que venha a se reconciliar, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?”

Devemos ter em mente que, em relação à carne e ao sangue, os judeus eram irmãos de Jesus, mas, com relação à doutrina, eram ‘adversários’. Com relação à carne e ao sangue, Jesus veio para o que era Seu, mas, com relação à doutrina, os seus irmãos se escandalizaram (não O recebera): “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1:11); “E assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mt 10:36; Mq 7:6).

Para compreender a afirmação acima, vale destacar o evento em que Jesus entrou no templo e expulsou todos os que vendiam e compravam e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Em seguida, Jesus operou sinais e maravilhas, curando cegos e coxos e as crianças que ali estavam, passaram a dizer: – ‘Hosana ao Filho de Davi’ (Mt 21:12-16).

Os escribas e fariseus, ao ouvirem a confissão das crianças, dentro do templo, indignaram-se. Foi quando questionaram Jesus, dizendo: – “Ouves o que estes dizem?”. Eles não aceitavam que o Jesus de Nazaré fosse o Filho de Davi, portanto, Filho de Deus, sacerdote e rei de Israel.

Os escribas e fariseus queriam que Jesus repreendesse as criancinhas para que parassem de dizer ‘Hosana ao filho de Davi’. Eles não suportavam ouvir as criancinhas clamando por misericórdia ao Filho de Davi.

Do mesmo modo que queriam que os cegos, à beira do caminho, se calassem por gritarem por misericórdia ao Filho de Davi, os escribas e fariseus estavam indignados por ouvirem as crianças dizerem: “Salva-nos agora, ó Tu que habitas nas maiores alturas”, “Salva-nos, te imploramos”, ou seja, as crianças estavam apontando para Cristo, como sendo o Senhor do Salmo 118, verso 25.

“Salva-nos, agora, te pedimos, ó SENHOR; ó SENHOR, te pedimos, prospera-nos. Bendito aquele que vem em nome do SENHOR; nós vos bendizemos desde a casa do SENHOR” (Sl 118:25-26).

Foi quando Jesus respondeu, utilizando o Salmo 8, verso 2:

“E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito, tiraste o perfeito louvor?” (Mt 21:16).

Nesta previsão, o salmista registra que as crianças estavam clamando ao Filho de Davi misericórdia, para calarem os adversários de Cristo, ou seja, os inimigos que, nesse evento, tratavam-se dos escribas e dos fariseus.

“Tu ordenaste força, da boca das crianças e dos que mamam, por causa dos teus inimigos, para fazer calar ao inimigo e ao vingador” (Sl 8:2).

O termo grego ἀντίδικος[4] transliterado antidikos, traduzido por adversário, possui o significado de oponente, inimigo, adversário. Já no Antigo Testamento, o termo צָרַר transliterado tsarar, pode se referir a um inimigo pessoal, como expresso na lei: “Se encontrares o boi do teu inimigo ou o seu jumento, desgarrado, sem falta lhe reconduzirás” (Êx 23:4), mas, também, foi utilizado pelos profetas para descrever os opositores de Cristo.

Os adversários, os inimigos do Filho do homem, eram os seus próprios familiares, pois não O compreendiam e com Ele se escandalizavam: “Sabendo, pois, Jesus, em si mesmo, que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto escandaliza-vos?” (Jo 6:61).

Alcançar justiça superior à dos escribas e dos fariseus, por meio das obras da lei, é impossível, ao que Jesus propõe, por parábola, a qualquer que se opusesse a Ele, rejeitando a sua doutrina, o que se segue:

“Sê disposto para com o teu adversário…”, ou “Concilia-te, depressa, com o teu adversário…” (Mt 5:25).

Enquanto a proposta comportamental do cristão é de ter paz com todos os homens, se possível, Jesus orienta a multidão, através do Sermão da Montanha, que fossem dispostos para com o adversário, ou seja, que, urgentemente, se conciliassem com aquele que se opunham a eles, enquanto estavam no caminho: “Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12:18).

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão. Em verdade, te digo que, de maneira nenhuma, sairás dali, enquanto não pagares o último ceitil” (Mt 5:25-26).

Daí vale questionar: É só se reconciliar com os inimigos, que se adquire direito de entrar no reino dos céus? É certo que não, pois o homem é salvo, somente pela fé em Cristo!

Vale destacar que o ‘adversário’ com quem Jesus ordena aos judeus se reconciliarem, possui maior autoridade que eles, pois é capaz de entregá-los ao juiz. Quem é o ‘adversário’, que os ouvintes de Jesus deveriam conciliar? Por que o adversário que deveriam conciliar está no singular e não no plural?

Uma multidão de ouvintes e só um adversário, com quem deviam estar dispostos, pois ninguém consegue pagar uma dívida com Deus! (Sl 49:7-9; Mt 5:26).

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão” (Mt 5:25).

Continua:

O Sermão do Monte e o adultério

 


 

[1] “5.21 — Ouvistes que foi dito. Refere-se aos ensinamentos de vários rabinos, não aos de Moisés. Jesus estava questionando a interpretação dos mestres judeus, não o Antigo Testamento”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 25.

[2] Reductio ad absurdum (latim para “redução ao absurdo”[1] , provavelmente, originário do grego ἡ εις άτοπον απαγωγη, transl. “e eis átopon apagoge”, que significaria algo próximo a “redução ao impossível”, expressão, frequentemente, usada por Aristóteles, também, conhecida como um argumento apagógico, “Reductio ad impossibile ou, ainda, prova por contradição, é um tipo de argumento lógico, no qual, alguém, assume uma ou mais hipóteses e, a partir destas, deriva uma consequência absurda ou ridícula e, então, conclui que a suposição original deve estar errada. O argumento se vale do princípio da não-contradição (uma proposição não pode ser, ao mesmo tempo, verdadeira e falsa) e do princípio do terceiro excluído (uma proposição é verdadeira ou é falsa, não existindo uma terceira possibilidade)”, Wikipédia.

[3] “3415 μναομαι (mnaomai), voz média, derivado de 3306 ou, talvez, da raiz de 3145 (da ideia de fixação na mente ou, de posse mental); v 1) fazer lembrar, 1a) relembrar ou, voltar à mente, fazer-se lembrar de, lembrar, 1b) ser trazido à memória, ser lembrado, ter em mente, 1c) lembrar algo, 1d) estar atento a”, Dicionário Bíblico Strong; “3403 μιμνησκω (mimnesko), forma prolongada de 3415 (do qual algo dos tempos são emprestados); v 1) fazer lembrar, 1a) recordar, voltar à mente, lembrar-se de, lembrar, 1b) ser trazido à mente, ser lembrado, ter na lembrança, 1c) lembrar algo, 1d) estar atento a”, Dicionário Bíblico Strong.

[4] “476 αντιδικος (antidikos), de 473 e 1349; TDNT – 1:373,62; n m 1) oponente, 1a) um oponente em um caso de lei, 1b) adversário, inimigo”. Dicionário Bíblico Strong.




As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus.


As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Parte II

“E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” (Lucas 6:20).

Introdução

Este texto é a segunda parte do artigo O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da Lei, disponível no Portal Estudos Bíblicos. Caso não tenha lido a primeira parte desse artigo, recomendamos a leitura da primeira parte, a fim de se ter compreensão plena da exposição a seguir.

Na primeira parte do artigo, foram analisadas as beatitudes, através do registro no Evangelho segundo Mateus e, agora, daremos continuidade à análise das beatitudes, por meio do registro efetuado pelo apóstolo Lucas, com especial destaque no público alvo do discurso de Jesus.

Vale salientar que a condição de ‘pobres bem-aventurados’ não tem relação com a condição financeira do indivíduo, pois, entre os apóstolos, havia um médico e um cobrador de impostos e, mesmo assim, Jesus classificou os seus discípulos como pobres.

Se a condição ‘pobre’ bem-aventurado fosse decorrente de questões socioeconômicas, no mínimo, Lucas e Mateus seriam exceções à regra. A bem-aventurança é uma espécie de hebraísmo[1], expressão linguística muito usual nas Escrituras, como encontramos no Salmo 32:

BEM-AVENTURADO aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade e, em cujo espírito, não há engano” (Sl 32:1-2).

Para um judeu da época de Jesus, falar no aramaico asheré ou no grego makários (bem-estar, abençoados, felizes, bem-aventurados,ditosos, venturosos), pelo contexto, teria o mesmo efeito: seriam remetidos às exclamações enfáticas que permeiam as Escrituras.

 

O evangelista Lucas e as beatitudes

“E, descendo com eles, parou num lugar plano e, também, um grande número de seus discípulos e grande multidão de povo de toda a Judeia, de Jerusalém e da costa marítima de Tiro e de Sidom; os quais tinham vindo para ouvi-lo e serem curados das suas enfermidades, como, também, os atormentados dos espíritos imundos; e eram curados. E toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele virtude e curava a todos. E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem e vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:17-23).

Enquanto o evangelista Mateus iniciou registrou o Sermão da Montanha focado na mensagem do discurso, o evangelista Lucas incluiu no registro da mensagem uma descrição do local onde o discurso foi feito, bem como dá detalhes pertinentes ao público que estava ouvindo o Mestre e quando Ele muda a abordagem, em função dos grupos de pessoas que compunham a multidão.

O evangelista Lucas narra que Jesus subiu em um monte para orar e que Ele passou a noite em oração (Lc 6:12). Quando amanheceu, chamou os seus discípulos (seguidores) e, dentre eles, escolheu doze e deu-lhes o nome ‘apóstolos’ (Lc 6:13).

Após a escolha dos doze, Jesus desceu do monte, juntamente com os apóstolos e seus discípulos, e parou em um lugar plano, onde encontrava-se uma outra grande quantidade de discípulos, juntamente com uma grande multidão de diversas regiões da Judéia, Jerusalém e da costa marítima de Tiro e Sidom (Lc 6:17).

Muitos da multidão vieram para ouvir e serem curados por Jesus, pois bastava tocá-Lo para serem livres do mal que lhes afligia (Lc 6:18-19).

O evangelista Mateus enfatiza que Jesus se assentou, ato que indicou à multidão que Ele ia falar, pois à época os mestres ensinavam assentados (Lc 4:20). O evangelista Lucas, por sua vez, evidencia que Jesus selecionou o público alvo da sua mensagem, através de um olhar: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Jesus olhou para os seus discípulos e enfatizou que eles eram bem-aventurados porque o tão almejado reino dos céus pertencia aos seus seguidores. Entretanto, Jesus não falou abertamente esta verdade, antes disse: “Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Se os discípulos eram ‘os pobres’ e aos pobres ‘pertence o reino dos céus’, certo é que os discípulos eram ditosos, venturosos, pois estavam de posse do reino dos céus – Cristo (Jo 1:12).

E o que dizia os profetas acerca do reino de Deus?

“Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7).

Os profetas anunciavam que o Messias seria firmado e fortificado com juízo e justiça sobre o trono de Davi. Como o reino é firmado e fortificado em juízo e justiça, e a essência do reino é o principado d’Aquele que se assenta sobre o trono de Davi, quem recebeu o rei está farto de justiça (Jo 1:12).

Os seguidores de Cristo que eram famintos, agora são ditosos, por serem fartos de justiça. A tristeza, o abatimento, foram substituídos por alegria, ou seja, eles foram consolados (Is 61:3).

Ao profetizar acerca do reino do Messias, o Salmista declarou que o rei se compadecerá do necessitado que clamar, como também do aflito e dos necessitados. O rei não fará acepção: atenderá o necessitado que clamar, de modo que todas as nações o servirão: “E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão. Porque ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude. Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados” (Sl 72:11-13).

Quem são os pobres, aflitos e necessitados? Responde-se: – Aqueles que invocam o nome do Senhor!

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32);

“Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados (Sl 72:13).

O publicano, quando orou, de pé e ao longe, no templo, portou-se como necessitado, pois invocou a Deus, dizendo: – “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”  (Lc 18:13). O publicano invocou o Senhor como pobre, tradução do termo grego ‘ptojói’, que remete a alguém em absoluta miséria, penúria total. Reconheceu a sua condição miserável: – ‘Sou pecador’!

E os necessitados serão livres do que? Da opressão econômica? Do descaso social? Das políticas governamentais opressoras? Das lutas de classes? Da discriminação racial? Não! Ele libertará o homem que clamar – do engano, da violência (Sl 72:14).

Mais adiante, abordaremos essas duas figuras: ‘engano’ e ‘violência’, que compõem a parábola do Salmo de Salomão.

Cristo é a pedra de tropeço, a rocha de escândalo, colocada em Israel por Deus e todo aquele que n’Ele cresse, não seria confundido. Enquanto os filhos de Israel esperavam um rei que estabelecesse um governo, o rei veio para estabelecer um santuário. Antes de restaurar o reino de Israel, Ele veio edificar um templo – a Igreja – um santuário, uma casa de oração para todos os povos: “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço e rocha de escândalo às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Is 8:14); “Também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7).

Os discípulos creram em Cristo – a rocha de escândalo para as duas casas de Israel (Judá e Israel) – portanto, os discípulos não foram confundidos, daí o título de bem-aventurados. Ao crerem no enviado de Deus, os discípulos estavam de posse do reino dos céus, portanto, eram fartos de justiça e consolados por Deus. Por terem recebido o grande rei, o Filho de Davi, foram feitos filhos de Deus (Jo 1:12).

Jesus frisou que os discípulos eram bem-aventurados quando odiados e quando os homens buscassem separá-los, injuriando e rejeitando-os como maus, por causa d’Ele. Quando acontecesse de serem injuriados e rejeitados, era para os discípulos não se entristecerem, antes deveriam exultar, folgar, porque a recompensa do Pai celeste seria grande (Mt 6:19-20), visto que, os filhos de Israel, no passado, também haviam perseguido os profetas de Deus.

Diferente dos escribas e fariseus que ajuntavam tesouro na terra, os discípulos, quando perseguidos, estariam ajuntando tesouro nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e nem está ao alcance de ladrões (Mt 6:19, compare com Mt 5:12).

 

Peso sobre os ricos

O evangelista Lucas registrou alguns ‘ais’ anunciados por Jesus, durante a exposição do Sermão do monte e o evangelista Mateus, por sua vez, não faz esse registro. Somente no capítulo 23 o evangelista Mateus registra a censura do Senhor Jesus contra os líderes judaicos, porém, em outro contexto.

Após anunciar a venturosa alegria dos discípulos, o evangelista Lucas registra uma censura através de imprecações de ‘ais’, que Jesus fez, desfavorável a algumas pessoas que estavam ouvindo o discurso.

Seria contrassenso os discípulos serem congratulados e censurados no mesmo discurso. Os seguidores de Cristo não poderiam ser ‘pobres’ e ‘ricos’, portanto, a censura de Jesus torna evidente que o público alvo do Sermão mudou. Observe:

“Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

A conjunção adversativa ‘mas’ e o peso ‘ai’, indicam que Jesus deixou de falar com os seus seguidores e que o juízo que estava sendo anunciado tinha por alvo um outro grupo de pessoas. Isto significa que Jesus deixou de olhar para os seus discípulos e direcionou o seu olhar para um outro público, em meio à multidão: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós…” (Lc 6:20).

Para censurar certo grupo de pessoas em meio à multidão, Jesus introduz a figura do ‘rico’. Jesus estava falando da condição social de algumas pessoas em meio à multidão? Não!

Qual o significado da figura dos ‘ricos’ no discurso de Jesus?

O salmista Asafe fez uma descrição das pessoas que se enquadram no perfil dos ‘ricos’:

“3 Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.

4 Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força.

5 Não se acham em trabalhos como outros homens, nem são afligidos como outros homens.

6 Por isso a soberba os cerca como um colar; vestem-se de violência como de adorno.

7 Os olhos deles estão inchados de gordura; eles têm mais do que o coração podia desejar.

8 São corrompidos e tratam maliciosamente de opressão; falam arrogantemente.

9 Põem as suas bocas contra os céus e as suas línguas andam pela terra.

10 Por isso, o povo dele volta aqui e águas de copo cheio se lhes espremem.

11 E eles dizem: Como o sabe Deus? Há conhecimento no Altíssimo?

12 Eis que estes são ímpios e prosperam no mundo; aumentam em riquezas (Sl 73:3-12).

Para ler esse salmo e compreender as figuras utilizadas pelo salmista Asafe é necessário conhecimento básico de alguns recursos utilizados para a construção da poesia hebraica.

Os salmos, provérbios e a maioria das profecias são construídos através de um elemento formal denominado paralelismo. A poesia hebraica não possui rima, mas, sim, um encadeamento lógico que substitui a rima e o ritmo, que muitos chamam de “ritmo de sentido”.

O verso 3: “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios”, foi construído através de um paralelismo sintético (ou: formal, construtivo), em que a segunda frase do verso amplia e acrescenta um conceito à primeira frase.

Asafe, profeticamente, diz que ‘tinha inveja dos néscios’, dos loucos e, em seguida, a justificativa: por causa da prosperidade dos ímpios! Se a inveja decorre da prosperidade, certo é que os ‘néscios’ são ‘ímpios’ e vice-versa.

Tudo o que é descrito nos versos seguintes rementem aos ímpios, por conseguinte, aos néscios e/ou loucos. Daí outra pergunta? Quem são os loucos? Ou, quem são os ímpios?

Considerando o que o apóstolo Paulo asseverou: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19), visto que os judeus se achavam excessão, e que o termo ‘lei’ empregado por ele engloba a lei, os profetas, os provérbios e os salmos (Escrituras), os ‘loucos’ em questão refere-se aos filhos de Israel, como foi dito por Moisés:

“Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6).

Quando é dito no Salmo 74: “Lembra-te disto: que o inimigo afrontou ao SENHOR e que um povo louco blasfemou o teu nome” (Sl 74:18). O inimigo que afrontou ao Senhor diz da Babilônia que derribou o tempo e ateou fogo ao santuário. Já o povo louco que ‘blasfemou’ o nome do Senhor diz dos filhos de Israel, como diz o profeta: “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm 2:24).

A censura de Deus recai sobre o seu próprio povo:

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22);

“Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4);

“Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade, também haverá grande ódio” (Os 9:7).

Retornando ao Salmo 73, o salmista descreve os ‘loucos’, ou o povo de Israel com outras figuras: a ‘soberba’ os envolvem como um colar, vestidos de ‘violência’ (Sl 73:6), ‘prosperam’ no mundo e aumentam em ‘riqueza’ (Sl 73:12).

O salmista estaria falando do acumulo de riquezas materiais? Não! A figura possui outro significado.

O que seria a violência que usam como vestimenta? O profeta Isaías responde:

“As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade e obra de violência há nas suas mãos” (Is 59:6).

Em lugar de vestes de justiça produzidas por Deus, os ‘loucos’ se cobrem com obras de iniquidade, trapos de imundície que, diante de Deus, são obras de violência. Em lugar do espírito do Senhor (palavra), preferem a força: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6).

Por que violência? Porque a palavra do Senhor na boca dos ‘loucos’ é transtornada em ‘opressão’ e ‘engano’, como se lê: “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8).

Um exemplo de violência é trocar a obediência pelo sacrifício. Enquanto Deus requer do homem a obediência, os sacerdotes incitavam o povo ao sacrifício. Deus requer que o homem seja pobre, abatido de espírito, ou seja, que obedeça (tremer) a sua palavra, porém, cada qual seguiam os desvarios dos seus próprios corações e acabavam praticando a ‘violência’ do sacrifício, como se lê:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra. Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Is 66:2-3).

A violência de quem mata um homem é comparável à violência de quem sacrificava um boi a Deus, mas que não se sujeita a Ele.

Por toda a Escritura é utilizada a figura do rico, do violento, do mentiroso, do perverso, do maligno, etc.

“Porque os seus ricos estão cheios de violência, e os seus habitantes falam mentiras e a sua língua é enganosa na sua boca” (Mq 6:12);

“Porque o dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo o soberbo e altivo, e contra todo o que se exalta, para que seja abatido” (Is 2:12);

“Estas seis coisas o SENHOR odeia e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6:16-19).

Em função de outras passagens do Novo Testamento, verifica-se que a figura dos ‘ricos’, à época de Jesus e dos apóstolos, fazia referência aos escribas, aos fariseus e aos príncipes do povo de Israel. Os homens que condenaram e mataram a Cristo e arrastavam os seus seguidores aos tribunais eram ‘ricos’!

“Porventura, não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais? Porventura, não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tg 2:6-7).

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente, vivestes sobre a terra e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1-6).

Os textos de Lucas e de Tiago contra os ricos não possuem viés marxista, não abordam lutas de classes, não visam questões trabalhistas e sindicalistas e nem dão suporte à teologia da libertação.

Os ‘ricos’ como figura nas Escrituras não são decorrentes da ordem socioeconômica com base escravocrata, não deriva do capitalismo selvagem e nem decorre de ideologias de governo, etc.

‘Rico’ é uma figura empregada pelos profetas, para fazer referência àqueles que confiavam em si mesmos, que faziam da carne a sua força e o coração se apartava do Senhor (Jr 17:5).

Os profetas na Antiga Aliança descreveram tais homens como insensatos, loucos, que ajuntavam riquezas, mas não retamente (Jr 17:11; Sl 49:5-6 e 12-13; Sl 52:7).

O profeta Amós anunciou o peso do Senhor sobre homens ímpios que estavam em repouso na cidade de Jerusalém. Que, apesar da invasão inimiga iminente por causa da transgressão em Israel, continuavam deitados em camas de marfim, comiam cordeiros e bezerros cevados, cantavam ao som da lira, bebiam vinho e se ungiam com o mais excelente óleo, mas não se afligiam pela ruina da casa de Israel (Am 6:1-7).

Apesar da aparente segurança, os que viviam uma vida regalada em Jerusalém seriam conduzidos ao exílio (Am 6:7).

A figura do ‘rico’ foi utilizada pelos profetas para compor inúmeros símiles e diversas parábolas, e é com base no que foi anunciado na lei, profetas e nos salmos, etc., que Jesus apresentou a parábola do homem rico:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas, Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lc 12:16 -21).

A quem Jesus propôs a parábola do homem rico? Para entendermos a parábola, primeiro temos que identificar quem era o público alvo da mensagem, pois pela quantidade de parábolas, até mesmo os discípulos ficaram confusos e perguntaram: “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos” (Lc 12:41).

Havia ajuntado milhares de pessoas ao redor de Jesus, tanto que empurravam uns aos outros (Lc 12:1). Inicialmente, Jesus fala com os seus discípulos, utilizando o fermento com figura para alertá-los da perniciosidade contida na doutrina dos fariseus (Lc 12:1).

Mas, enquanto falava aos seus discípulos, um homem O interrompeu, rogando: – “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12:13). Após repreender o homem, deixando claro que a sua função não era de juiz ou divisor de herança, ordenou aos seus ouvintes que se abstivessem da ‘avareza’.

Seria a ‘avareza’ abordada por Jesus um dos sete pecados capitais? Jesus estava falando de quem tem excessivo apego ao dinheiro?

Ora, anteriormente Jesus havia determinado cautela para com o ‘fermento’ dos fariseus, que era a hipocrisia (Lc 12:1; Mt 16:12). Jesus não estava falando de fermento biológico ou fermento químico ou de pão feito de trigo.

Jesus, também, não estava dizendo que a hipocrisia dos escribas e fariseus se resumia em fingirem ter crenças, virtudes, ideias ou sentimentos que não possuíam.

Na verdade, Jesus estava alertando quanto ao preceito de homens que era ensinado pelos escribas e fariseus. Substituir a palavra de Deus por preceitos de homens é o que os profetas declaravam como sendo ‘hipocrisia’. Mesmo que o homem creia piamente que o seu posicionamento seja correto, se não é conforme o mandamento de Deus, é hipocrisia: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9).

A ‘hipocrisia’ não diz da falsidade, dissimulação, fingimento, etc., nas relações interpessoais. Certo é que, do ponto de vista das relações humanas, a hipocrisia é perniciosa e reprovável, porém, a hipocrisia abordada por Cristo tem relação com o que foi anunciado pelos profetas:

“Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos. Por isso o Senhor não se regozija nos seus jovens e não se compadecerá dos seus órfãos e das suas viúvas, porque todos eles são hipócritas e malfazejos e toda a boca profere doidices; e nem com tudo isto cessou a sua ira, mas ainda está estendida a sua mão” (Is 9:16-17);

“O hipócrita com a boca destrói o seu próximo, mas os justos se libertam pelo conhecimento” (Pv 11:9).

O ‘hipócrita’ é o que diz ‘doidices’, que em lugar de anunciar a palavra do Senhor, que satisfaz o faminto e sacia o sedento, profere o engano, preceitos de homens que não satisfazem a alma faminta por justiça: “Porque o vil fala obscenidade e o seu coração pratica a iniquidade, para usar de hipocrisia e para proferir mentiras contra o SENHOR, para deixar vazia a alma do faminto e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida” (Is 32:6).

Se a ‘hipocrisia’ diz da doutrina de engano, certo é que a ‘avareza’ não diz daquele que está em busca do lucro econômico mas, sim, do que busca a falsidade, seguindo o devaneio do seu coração corrompido: “E eles vêm a ti, como o povo costumava vir e se assentam diante de ti, como meu povo e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ez 33:31); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jr 6:13).

Ter zelo de Deus, mas não ter entendimento, ou seja, o conhecimento, é o mesmo que hipocrisia e avareza (Rm 10:1-3; Pv 19:2). Não é possível servir a dois senhores, lisonjear um com a boca e o coração seguir a avareza, ou seja, servir a Deus e a Mamom: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Ninguém pode servir a Deus e seguir a sua avareza. Aquele que segue a sua ‘avareza’ elegeu o seu próprio ventre como deus. Lisonjeia a Deus com a boca, mas permanece sendo senhor de si mesmo, ou seja, não se humilha (se faz servo) debaixo das potentes mãos de Deus: “Porque, os tais, não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Rm 16:18).

Jesus destaca que a vida do homem não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15), isso porque, as Escrituras evidenciam que a vida está em ser um abatido de espírito (Is 57:15), ou seja, alguém que se humilha a si mesmo para servir a Deus. A vida está na palavra de Deus e não no pão cotidiano (Dt 8:3).

Após Jesus anunciar que certo homem alcançou grande lucro e arrazoava consigo mesmo, que construiria celeiros maiores para poder dizer: – “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos. Descansa, come, bebe e folga” (Lc 12:19) e que Deus lhe disse: – “Louco, esta noite te pedirão a tua alma. Então, o que tens preparado, para quem será?”, Jesus compara ao homem louco qualquer que ajunta tesouro na terra e não é rico para com Deus (Lc 12:21).

O homem rico da parábola é louco por não ajuntar tesouro nos céus e não por ser abastado economicamente. A parábola introduz uma similitude entre aquele que ajunta bens materiais e não sabe quem desfrutará, com aqueles que ajuntam recompensa aqui, e não são ricos para com Deus (Mt 5:19-21).

A parábola do homem rico deriva do que escreveu o Salmista Davi: “Todo homem anda como uma sombra: em vão se inquieta; amontoa riquezas, sem saber quem as levará” (Sl 39:6). O homem rico foi nomeado ‘louco’ por causa do que foi anunciado por Jeremias: “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará e no seu fim será um insensato (Jr 17:11).

O homem rico era um insensato, um louco, pois o que estava ajuntando não o tornava rico para com Deus. O termo ‘louco’ é uma figura que se aplica aos filhos de Israel, desde Moisés: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” (Sl 94:8).

Como tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, ou seja, refere-se aos judeus, a figura do ‘louco’ aplica somente aos judeus, o que demonstra que a parábola do homem rico tinha como figurante um judeu (Rm 3:19). Quando é dito: “Todo homem anda como uma sombra”, o texto é inclusivo, demonstrando que os judeus não são exceção à regra, como equivocadamente achavam.

A parábola do homem rico era instrução para os discípulos, mas, como Jesus falava por parábolas ao povo e expôs um grande número de parábolas, isso trouxe um questionamento: – “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos?” (Lc 12:41).

Quando era anunciado algo à multidão, o evangelista Lucas deixou frisado: “Disse também à multidão: Quando vedes a nuvem que vem do ocidente, logo dizeis: Lá vem chuva e assim sucede” (Lc 12:54), o que evidencia a importância de se observar o público alvo da mensagem.

Retornemos às beatitudes anunciadas por Jesus aos seus discípulos, segundo o que foi registrado pelo evangelista Lucas:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque, eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:20-23).

Após anunciar as bem-aventuranças, Jesus anuncia um peso contra algumas pessoas, em meio à multidão que estava ouvindo o discurso, ou seja, os ‘ais’ (peso) não eram em desfavor aos discípulos:

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

Os escribas e fariseus deviam observar que, enquanto todos os homens diziam coisas boas acerca deles, assim também fizeram no passado os filhos de Israel aos falsos profetas. Os líderes da religião judaica eram os fartos que, em breve, sentiriam o quanto eram miseráveis. Agora estavam alegres, mas em breve haveriam de se lamentar e chorar.

Após anunciar o peso do Senhor através de ‘ais’ contra os líderes da religião, Jesus se dirige à multidão, mudando o público alvo da sua mensagem novamente, dizendo: “Mas a vós, que isto ouvis…” (Lc 6:27).

Após estabelecer um contraponto entre a condição dos Seus seguidores e os mestres da religião judaica através das beatitudes e dos ‘ais’, Jesus se volta à multidão para expor a sua doutrina.

Do capítulo 6 do evangelho de Lucas, dos versos 27 em diante, o público alvo da mensagem de Cristo é a multidão que os escribas e fariseus consideravam maldita: “Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (Jo 7:49).

 

Cristo, a lei e os profetas

“17 Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.

18 Porque, em verdade, vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mt 5:17 -18).

O evangelista Mateus não registrou a censura dos escribas e fariseus e o evangelista Lucas, por sua vez, não registrou a relação de Cristo com a lei e os profetas. Lucas não registrou a censura e a lembrança do que foi determinado nas Escrituras e vai direto para a ordem à multidão de amar os inimigos, o que foi feito por Mateus somente a partir do verso 44 do capítulo 5.

A transição do público alvo da mensagem de Cristo é mais perceptível através do registro do evangelista Lucas, como vemos no seguinte apelo: “Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai…” (Lc 6:27), no entanto, essa mesma transição de público ocorre no evangelho de Mateus, quando Jesus diz: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

O pronome na terceira pessoa do plural ‘vós’, e a referência ao que foi dito: beatitudes e censura, indica que Jesus passou a tratar com um outro público: a multidão, deixando de fora os seus discípulos e os líderes da religião judaica (escribas e fariseus).

O público alvo da mensagem de Cristo mudou, pois ele não está mais falando da condição dos seus discípulos (pobres, tristes, mansos, puros de coração, etc.), visto que é impossível ser bem-aventurado e ter grande galardão nos céus (Mt 5:12), quando não se compreende a relação de Cristo com a lei e os profetas.

Ele também não estava falando aos escribas e fariseus (ricos, fartos, etc.), uma vez que a mensagem de Cristo dá uma solução: entrem pela porta estreita (Mt 7:13), pois qualquer que ouvisse a sua doutrina e obedecesse, seria comparável ao homem prudente que constrói a sua casa sobre a rocha (Mt 7:24).

Do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus, versos 17 em diante, o leitor terá um discurso voltado para a multidão que, em primeiro lugar, visa esclarecer a relação de Jesus com a lei e os profetas (não vim destruir a lei e os profetas) e, em seguida, alertar que o reino dos céus estava vetado à multidão, caso não adquirissem justiça superior à justiça dos escribas e fariseus (Mt 5:20).

Lembrando que a temática da mensagem de Jesus, desde quando João Batista foi preso, era revolucionar o modo de pensar dos seus concidadãos (Mt 4:12-17), o leitor do Sermão da Montanha precisa estar cônscio de que o sermão tem o escopo de operar uma mudança de compreensão (metanoia) nos judeus.

Mas, para entender o arrependimento (metanoia) exigido por Cristo, primeiro se faz necessário compreender quem eram os judeus e o entendimento que possuíam da lei, pessoas a quem, primeiramente, Jesus foi enviado (Jo 1:11; Mt 15:24; Jr 50:6).

Para o leitor ter noção de quem eram os judeus, basta ler o capítulo 7 do livro dos Atos dos apóstolos, onde o mártir Estêvão faz um resumo preciso da origem e crescimento do povo Judeu.

Os judeus são descendentes do patriarca Abraão, um gentio que veio da Mesopotâmia, antes de fixar residência em Harã. Quando em Harã, Deus apareceu a Abraão e disse-lhe: – “Sai desta terra e dentre a tua parentela para uma terra que Eu te mostrarei” (At 7:2-3).

Abraão deixou os seus parentes e passou a peregrinar nas terras de Canaã (Gn 12:1-5). Deus não deu herança a Abraão em Canaã (At 7:5), pois Abraão viveu como peregrino na terra da promessa (Hb 11:9). Abraão não herdou terras, antes era herdeiro da seguinte promessa: “À tua descendência darei esta terra” (Gn 12:7).

Abraão gerou Isaque, segundo a promessa e Isaque gerou a Jacó e Jacó os doze patriarcas. Os patriarcas cheios de inveja venderam José como escravo, porém Deus o fez governador do Egito e tudo o que foi revelado a Abraão cumpriu-se (At 7:6-7; Gn 15:13-14).

Os filhos de Israel foram feitos escravos no Egito e Deus levantou um profeta – Moisés – e o comissionou para resgatar o seu povo do jugo da servidão, como foi revelado a Abraão. O resgate do povo foi feito com poderosa mão, sendo realizado por Deus muitos prodígios e sinais memoráveis (At 7:34-35).

Moisés profetizou que, dentre os filhos de Israel, Deus levantaria um profeta como Moisés, e que o povo deveria ouvi-Lo (At 7:37). Mas, quando Moisés subiu ao monte Sinai para falar com Deus e ficou quarenta dias e quarenta noites. O povo achou que Moisés estava demorando e que poderia ter morrido e rebelou-se, pois intentou retornar ao Egito (At 7:39).

Por causa da rebeldia do povo, Deus se afastou e os abandonou à própria sorte. Em outras palavras, o Senhor que os seguia no deserto (a pedra) e que concedeu comida e bebida espiritual ‘escondeu’ o seu rosto: “Assim se acenderá a minha ira naquele dia contra ele e desampará-lo-ei, esconderei o meu rosto dele, para que seja devorado; e tantos males e angústias o alcancem, que dirá naquele dia: Não me alcançaram estes males, porque o meu Deus não está no meio de mim? Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:17-18; Dt 32:20; Is 64:7); “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1Co 10:4).

Onde há relato nas Escrituras de uma pedra que seguia os filhos de Israel no deserto e contra quem se rebelaram?

“Porque apregoarei o nome do SENHOR; engrandecei a nosso Deus. Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos são justos; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é” (Dt 32:3-4 e 15).

A mesma Rocha que serviu de tropeço às duas casas de Israel, visto que os edificadores a rejeitaram (1Pe 2:6-8; Is 8:14; Is 28:16; Sl 118:22). A Rocha que os seguia é o Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel, para que aprendessem a esperar n’Ele: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17), pois, só há salvação quando Deus manifesta a sua glória na face de Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2Co 4:6).

Manifestar o rosto é o mesmo que resplandecer, de modo que o resplendor da face de Deus é misericórdia e salvação: “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti” (Nm 6:25); “Faze-nos voltar, ó Deus e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos” (Sl 80:3).

Embora os filhos de Israel oferecessem sacrifícios no deserto por quarenta anos, dizendo que serviam ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó, continuamente eram censurados e repreendidos como transgressores (At 7:42-43).

Deus não se agradou da MAIORIA deles quando percorriam o deserto por serem cobiçosos (torpe ganancia), idólatras, promíscuos (prostituiam), tentadores e murmuradores (1Co 10:5-10).

Havia em Israel aqueles que cobiçavam coisas materiais, reverenciavam outros deuses, que se prostituiam, etc., porém, havia os religiosos que diziam seguir a lei de Deus (como o fariseu que orava no templo agradecendo a Deus por não ser como os demais homens, pois não matava, não roubava, não se prostituía, etc.), e mesmo assim Deus os denominava cobiçosos, idolatras, promíscuos, etc.

Ora, todos esses comportamentos, perniciosos do ponto de vista da moral humana, foram utilizados como figuras para apontar uma realidade espiritual, assim como tudo o que sobreveio sobre Israel foi feito para a Igreja de Cristo como figura (1Co 10:6 e 11).

Moisés protestou contra Israel, dizendo:

“Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” (Dt 31:27).

O que é a rebelião? A rebelião não é o mesmo que feitiçaria? A mesma feitiçaria que os religiosos tanto apontavam como prática reprovável entre os gentios? Que são a iniquidade e a idolatria? A iniquidade e a idolatria não são o mesmo que persistir no erro (porfiar)? O mesmo julgamento que os filhos de Israel emitiam com relação aos povos vizinhos como iníquos e idólatras, arguia contra eles por rejeitarem a palavra de Deus (Rm 2:1-3).

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1Sm 15:23).

Ao chamar os filhos de Israel de rebeldes e de dura cerviz, Moisés estava chamando-os de feiticeiros, de iníquos e de idólatras. Por que? Ora, basta analisarmos a confissão de Neemias:

“E recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em beneficência, tu não os desamparastes” (Ne 9:17).

Em outras palavras, os filhos de Israel, na sua ‘feitiçaria’ (rebelião), levantaram um líder tencionando voltar ao Egito. Queriam permanecer escravos, ou seja, porfiar, o mesmo que iniquidade e idolatria.

É em função da transgressão e da iniquidade que os filhos de Israel são denominados de ‘loucos’, como já vimos acima: “Os loucos, por causa da sua transgressão e por causa das suas iniquidades, são aflitos” (Sl 107:17).

Ora, a maioria das figuras utilizadas pelos profetas para censurarem os filhos de Israel, primeiramente, foram utilizadas por Moisés em seu cântico profético: loucos, dura cerviz, ignorantes, perversos, depravados, Sodoma, Gomorra, veneno, peçonha, víboras, etc. (Dt 32:5-6 e 28-29 e 32-33).

Isaías clamou contra Israel dizendo: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10). Semelhantemente, clamou Jeremias: “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer  o mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22). Ezequiel chamou os filhos de Israel de prostituta: “Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

As figuras utilizadas pelos profetas para falar contra os filhos de Israel eram nomes que se davam aos comportamentos desregrados, do ponto de vista de convivência social, porém, essas figuras apontavam para uma realidade espiritual.

Equivocadamente, os filhos de Israel tornaram-se moralistas, legalistas e ritualistas, reprimindo comportamentos humanos desregrados (figuras) e se esqueciam da realidade: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt 23:23).

Dessa prevaricação surgiram judeus religiosos que percorriam o mar e a terra para tornar um gentio seguidor do judaísmo (prosélito), e, quando conseguiam, o estado do prosélito se tornava duas vezes pior do que os seus instrutores: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23:15).

Como mestres, os escribas e fariseus eram prevaricadores, ou seja, os interpretes não sabiam interpretar a lei e os profetas “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” (Is 43:27); “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito” (Jr 2:8); “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” (Is 46:8); “Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Os escribas e fariseus achavam que eram salvos por terem Abraão por pai e não atinavam que, somente, os que tem a mesma fé que Abraão são filhos de Abraão: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3:9); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque, eu vos digo que, até destas pedras, pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (Jo 8:33); “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (Jo 8:39); “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3:7).

O entendimento dos escribas e fariseus era de que bastava ser descendente da carne e do sangue de um judeu para ter direito à bem-aventurança prometida a Abraão, ou que um gentio se circuncidasse e guardasse as tradições dos anciões.

“1 E AJUNTARAM-SE a ele os fariseus e alguns dos escribas, que tinham vindo de Jerusalém.

2 E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam.

3 Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes;

4 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.

5 Depois perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos por lavar?

6 E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim;

7 Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.

8 Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.

9 E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.

10 Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá.

11 Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor;

12 Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe,

13 Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7:1-13).

É em função da má leitura que se faz das Escrituras que muitos não conseguem compreender porque Saul foi rejeitado por Deus, e Davi, um homicida e adúltero, foi considerado um homem segundo o coração de Deus.

Aos olhos de Deus, Saul era feiticeiro, iniquo e idolatra, pois era um homem de torpe ganancia (queria a presença do profeta e sacerdote Samuel somente para ser honrado diante do povo), e hábil em mentir, desviar da palavra do Senhor e conceber e proferir do coração palavras falsas (1Sm 13:12; 1Sm 15:30; 1Sm 15:20 e 24-25).

Davi, por sua vez, portou-se de modo inconveniente e reprovável (2Sm 11:4 e 15), e recebendo a pena pelos seus crimes (2Sm 12:10-12). O comportamento de Davi deu azo aos inimigos de Deus blasfemarem, não só no seu tempo, pois onde a história de Davi tornar-se conhecida até hoje, questionam o Deus de Israel.

Mas, em que Davi é melhor que Saul? Errou, porque não foi instruído corretamente segundo a lei, mas quando Deus matou Uzá, de pronto buscou instrução nas Escrituras.

Certa feita os levitas receberam carros de bois, assim como os filhos de Israel receberam a arca da aliança dos filisteus sobre carros de bois, porém, à época de Moisés, somente os filhos de Coate nada receberam, pois o santuário estava a seu encargo e deveriam levá-lo sobre os ombros (2Sm 6:5-7; Nm 6:9).

Davi temeu ao Senhor e questionou como viria a ele a arca do Senhor (2Sm 6:9), e assim buscam ao Senhor segundo o que Deus prescrevera na lei (1Cr 15:2 e 12-15). No mesmo dia que trouxe a arca, Davi entregou pela primeira vez a Asafe e seus irmãos um Salmo de ações de graças ao Senhor onde ele instrui os filhos de Israel a jamais se esquecerem da aliança de Deus e das palavras que prescreveu (1Cr 16:7 e 15-17).

Ora, a multidão ao pé da montanha que estava ouvindo o discurso de Jesus era composta de judeus, descendentes do patriarca Abraão e que foram liderados por Moisés quando saíram do Egito. Desde sempre, aquela multidão foi instruída por prevaricadores que mentiam, pois concebiam e proferiam do coração palavras de falsidade dizendo que os filhos de Jacó efetivamente eram uma nação santa, um povo escolhido por Deus, pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão: “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e o proferir do coração, palavras de falsidade” (Is 59:13).

Entretanto, a Escritura que os mestres da lei liam para afirmar falsamente que os filhos de Israel eram possessão do Senhor, na verdade era condicional, pois dizia: se diligentemente ouvissem a voz de Deus e guardassem a aliança ENTÃO SERIAM propriedade peculiar: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar, dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5).

As pessoas que estavam ouvindo o discurso de Jesus pensavam que eram salvas por serem descendentes da carne de Abraão (Mt 3:9; Jo 8:39). Achavam que eram mais justas e melhores que os outros povos vizinhos, simplesmente porque os seus pais receberam a lei de Deus das mãos de Moisés (Dt 9:4; Rm 3:9). Embora os seus antecessores tivessem matado os profetas que anunciavam a vinda de Cristo, eles religiosamente edificavam e adornavam os túmulos dos profetas sob pretexto de serem melhores que os seus pais (At 7:51-53; Lc 11:47-48). Eles religiosamente ouviam a lei, mas não seguiam os preceitos de Deus (At 7:53; Jo 7:19; Ml 3:7; Rm 2:13), etc.

Os ouvintes de Jesus foram instruídos a cumprir mandamentos de homens e, ao ouvirem a doutrina de Cristo, haveria conflito de ideias, pois o que Jesus haveria de ensinar não era conforme estavam acostumados a ouvir, daí o alerta de Jesus à multidão: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

É nesse ponto que entra a questão do arrependimento, no seu sentido grego: ‘metanoia’. Quando Jesus apregoava ‘arrependei-vos’, não estava buscando uma reação emocional de pesar dos seus interlocutores por atos realizados ou não, quer fossem atos bons, por não terem sido realizados ou ruins, que foram realizados.

O arrependimento apregoado por Jesus diz da ‘metanoia’ dos gregos, ou seja, significa mudança de mente, mudança de concepção em vista de um novo conhecimento ou evento. Não é o arrependimento traduzido por ‘paenitentia’, que invoca sofrimento, fazer penitencia, pagar indulgência, etc.

A ordem era: arrependei-vos (mudem a concepção de vocês), porque é chegado o reino dos céus (a chegada do reino dos céus – Cristo – é o evento ou o conhecimento que deveriam mudar o modo de pensar dos judeus).

Como mudar a concepção de pessoas que eram acostumadas a ouvir que eram bem-aventuradas, por terem por Pai a Abraão? (Mt 3:9) Como mudar o pensamento de pessoas que estavam acostumadas a ouvir que eram filhos de Abraão e que nunca foram escravos de ninguém? (Jo 8:33) Como mudar o modo de pensar de pessoas acostumadas a ouvirem que era necessário fazer prosélitos, sob o argumento de que só assim os gentios seriam ditosos?

Jesus não podia dizer abertamente ao povo: – “Eu sou o Cristo”, por isso, Ele fez uso de parábolas, de modo que a multidão pudesse, pelas figuras utilizas no Sermão da Montanha, compreender pela Escrituras, que Ele era o Cristo: “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava (Mc 4:33-34).

Jesus não podia dizer abertamente que era o Cristo, porque quem testifica de si mesmo é mentiroso: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” (Jo 5:31). Também era impossível os seus ouvintes reconhecerem o Cristo pela aparência, muito menos alguém iria indicá-lo: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Os sermões de Jesus visavam a mudança de concepção dos seus interlocutores, portanto, precisavam ser conduzidos genuinamente através da lei, dos profetas e dos salmos a Cristo. Para reconhecerem Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, assim como confessou o apóstolo Pedro (Mt 16:16), os discursos de Jesus apontavam através de parábolas e figuras o testemunho (revelação) de Deus nas Escrituras.

O apóstolo Pedro confessou que Jesus é o Filho de Deus, porque Deus revelou a ele. Como? Quando? A revelação de Deus se deu pela manifestação de Cristo aos homens, conforme o testemunho das Escrituras (1Jo 5:9-11).

Não foi carne e sangue que revelou ao apóstolo Pedro que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, não foram os seus concidadãos, os seus parentes, os judeus que deram o conhecimento necessário para o apóstolo chegar àquela confissão que lhe concedeu a bem-aventurança. ‘Carne’ e ‘sangue’ neste contesto remete a parentesco, nacionalidade: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não to revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16:16-17).

Para os escribas e fariseus, a lei e os profetas estavam intimamente ligados à guarda da tradição dos anciões (Mc 7:5), consequentemente, não conseguiam entender como era possível Jesus ser um mestre judaico e comer com os publicanos e pecadores (Mt 9:11), muito menos entender como era possível os discípulos de Jesus não jejuarem (Mt 9:14). Como era possível um seguidor da lei não guardar o sábado? (Mt 12:2)

Por questões semelhantes a essas, facilmente o povo poderia entender que Jesus estava destruindo a lei e os profetas. É em função da falta de compreensão dos seus interlocutores que Jesus enfatiza qual o seu papel em relação à lei e os profetas: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Quando Jesus disse que veio para ‘cumprir’ a lei e os profetas, não estava enfatizando os ritos e cerimoniais da lei, antes destacou que Ele era o cumprimento da lei e dos profetas. Jesus deixou claro que nada do que constava na lei acerca d’Ele (nem um jota ou um til) deixaria de se cumprir.

Quando Jesus disse: “Vim para cumprir” (v. 17), temos que interpretar esse verso segundo essa perspectiva: “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44), ou seja, nem um jota ou til deixaria de se cumprir “Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento” (Lc 22:37).

Jesus estava preparando o entendimento do povo para que pudessem compreender, que todas as promessas que constam das Escrituras, sem exceção, estavam vinculadas à pessoa de Cristo: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” (2Co 1:20).

Jesus não veio cumprir os preceitos dos escribas e fariseus que, pela tradição oral, compõem a Mishnah ou o comentário posterior que deu origem ao Talmud. Por Ele ser a realidade, vez que a lei era sombra, não precisava guardar os sábados (dias de descansos), pois Ele é o descanso que Deus prometeu à humanidade, cujos sábados simbolizavam.

O objetivo da lei era o Cristo, pois através do nascimento, morte e ressurreição Ele é a propiciação para todo que crê “Porque o fim (objetivo) da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). A lei é santa, justa e boa, porém, através da lei era impossível o homem se justificar, pois a lei era sombra da realidade que se encontra em Cristo “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2:16-17); “PORQUE sendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, podem aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb 10:1).

Certa feita, Jesus e os discípulos estavam caminhando em um dia de sábado, e passando por uma seara, os discípulos de Jesus colheram espigas. Os fariseus de ponto criticaram a atitude dos discípulos de Jesus, ao que Ele respondeu apontando para Davi que, quando esteve em aperto e com fome, entrou no templo e comeu os pães da propiciação juntamente com os seus homens.

Jesus deixa claro que o sábado foi instituído por causa dos homens e não o homem por causa do sábado. E ao final da exposição, Jesus deixa claro que Ele é o Senhor que instituiu o sábado (Mc 2:23-28).

Ora, o sábado foi instituído para que o povo soubesse que precisavam de descanso para a alma, assim como precisavam de descanso para o corpo físico. Os filhos de Israel só teriam descanso quando perguntassem pelas veredas antigas e andassem nela, mas se faziam de rogados e rejeitavam andar segundo a palavra de Deus: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos,  vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Jesus veio revelar a vontade de Deus aos homens e orientou a todos dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

A instituição de sábados de festas tinha como foco a raiz de Jessé, ou seja, o Cristo – o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel – “E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso” (Is 11:10); “E o efeito da justiça será paz, a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:17).

De que adiantava guardar sábados e dias de festas, se eles não entrariam no repouso estabelecido por Deus? “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira: Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo” (Hb 4:3).

O escritor ao Hebreus deixa claro que Josué não deu descanso aos filhos de Israel, embora eles tivessem entrado na terra prometida com ele:

“Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo. Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia. E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência, Determina outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas. Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:3-11)

Como poderia Josué ter dado repouso aos filhos de Israel, se Davi, muito tempo depois, profetiza acerca de um dia – hoje – quando haveria de ser dado o descanso? Como poderiam ter alcançado descanso, se Deus jurou que aquele povo não entraria no descanso de Deus?

Mas, se ouvissem a voz de Deus anunciada por Davi – hoje – e não endurecessem o coração, certamente entrariam no descanso do Senhor. Se é dito para dar ouvidos à voz de Deus, certo é que há um descanso.

Enquanto os escribas e fariseus ordenavam ao povo que se lavassem antes das refeições, Jesus deixa claro que todos os que o ouviam já estavam limpos pela palavra. Ele deixa claro que o que sai pela boca é o que contamina o homem e não o que entra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3).

Cristo é a água limpa providenciada por Deus que purifica o homem de toda imundície, portanto, não é a agua natural que purifica o homem, mas, sim, o Verbo de Deus: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

A lei e os profetas testificavam do Cristo e Jesus deixa claro essa função das Escrituras: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

A lei foi dada aos filhos de Israel para que reconhecessem que eram pecadores, porém, por causa da carne (sou filho de Abraão) a lei se tornou enferma, ou seja, não produzia o seu efeito, visto que os filhos de Israel se achavam justos, por serem descendentes da carne de Abraão (Rm 8:3).

Por mais que a lei arguisse os judeus como transgressores encerrando tanto judeus quanto gentios debaixo do pecado (Gl 3:22), pois essa era a função da lei, ela tornou-se inócua (enferma) frente ao argumento: ‘Temos por pai Abraão’ (carne).

A lei serviu de ‘aio’ para que os judeus fossem conduzidos a Cristo (Gl 3:24), os judeus, por sua vez, buscavam ser justificados por meio do que foi dado para preservá-los até a vinda do Cristo: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

 

Os deveres dos mestres

“19 Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus” (Mt 5:19).

Jesus evidencia a importância da lei e dos profetas, ao destacar que, qualquer que aviltar (transtornar) um dos mandamentos, por menor que fosse e ensinasse aos homens, será nomeado ‘menor’, ‘sem expressividade’ (ἐλάχιστος)[2] no reino dos céus. Porém, aquele que obedecer e ensinar, será chamado ‘grande’ no reino dos céus.

Torcer o mandamento de Deus é violentar a própria alma, pois o peso decorre de suas próprias palavras: “Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não semeei”  (Lc 19:22); “Mas nunca mais vos lembrareis do peso do SENHOR; porque a cada um lhe servirá de peso a sua própria palavra; pois torceis as palavras do Deus vivo, do SENHOR dos Exércitos, o nosso Deus” (Jr 23:36; Ez 22:26; Pv 8:32-36).

O apóstolo Paulo é exemplo de alguém que é chamado ‘grande’ no reino dos céus, pois creu que Jesus é o Cristo (cumpriu o exigido na lei e nos profetas) e ensinava o evangelho de Cristo aos seus ouvintes, através da lei de Moisés e dos profetas: “E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” (At 28:23).

 

Justiça superior

“20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mt 5:20)

Do mesmo modo que era impossível Nicodemos ver o reino de Deus, apesar de ser juiz, príncipe e fariseu, se não nascesse de novo, também era impossível à multidão que ouvia Jesus entrar no reino dos céus.

O reino dos céus estava vetado ao povo, do mesmo modo que o reino dos céus estava vetado aos escribas e fariseus, ou seja, a justiça deles era equivalente. Daí a ordem: se a justiça do povo não excedesse a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrariam nos céus.

Através desta colocação, Jesus estava demonstrando que os líderes da religião judaica não podiam entrar no reino dos céus, apesar de parecerem justos aos olhos dos homens (Mt 23:28).

Levando-se em conta a seguinte parábola: “E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova?” (Lc 6:39), certo é que a multidão estava em igual condição à dos seus líderes religiosos (Mt 15:12).

Qual a justiça superior à dos escribas e fariseus? A justiça pela qual os seguidores de Jesus haveriam de ser perseguidos e injuriados (Mt 5:10-12).

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).

A justiça da lei descrevia os seus ouvintes como mortos, pois o homem que fizesse o estipulado na lei haveria de viver pelo que cumprisse (Rm 10:5; Lv 18:5).

No evento das serpentes ardentes, temos uma alegoria que aponta para condição dos filhos de Israel, mortos em delitos e pecados, visto que qualquer que olhasse para a serpente de metal, viveria: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” (Nm 21:8).

Para viver, era necessário cumprir a lei, que foi interposta com maldição: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém” (Dt 27:26). Para viverem, teriam que olhar para a serpente, segundo o que Deus ordenará ao povo, por intermédio de Moisés.

Os filhos de Israel desconheciam que a justiça superior foi dada gratuitamente a Abraão, quando Deus prometeu que, em seu Descendente, todas as famílias (judeus e gentios) da terra seriam benditas: “Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé” (Rm 4:13).

Apesar de os filhos de Israel horarem a Deus com os lábios, o coração deles estava longe de Deus (Mt 15:8), e justamente quem veio explicar tudo acerca da lei e dos profetas (Jo 5:25), não foi reconhecido por eles, porque a mensagem de Jesus era contrária a religiosidade judaica (formalismo, legalismo e ritualismo).

Os judeus não se consideravam transgressores da lei e nem atinavam que, qualquer que tentasse guardar a lei, mas tropeçasse em um único ponto dela, era transgressor de toda lei (Tg 2:11). Os descendentes de Jacó não analisavam o motivo pelo qual a lei protestava contra eles, como povo rebelde e fazia referência a eles como injustos, tanto que Moisés deixou claro que os judeus não eram melhores e nem mais justos que os povos vizinhos (Dt 9:4 e 6), principalmente, porque os judeus eram ouvintes da lei, mas nenhum deles a praticavam (Jo 7:19; Rm 2:13).

 

Continua: ‘Não matarás’ e o Sermão da Montanha

 


[1] Hebraísmos –  refere-se a termos ou expressões exclusivas da linguagem dos hebreus (algo semelhante as expressões idiomáticas) que, pela peculiaridade da língua ou do contexto, pode trazer certa dificuldade aos tradutores para verterem o texto em outra língua.

[2] “1646 ελαχιστος elachistos superlativo de elachus (curto); usado como equivalente a 3398; TDNT – 4:648,593; adj 1) o menor, o mínimo 1a) em tamanho 1b) em valor: de administração de negócios ​1c) em importância: que é o momento mínimo 1d) em autoridade: de mandamentos 1e) na avaliação de seres humanos: de pessoas 1f) em posição e excelência: de pessoas” Dicionário Bíblico Strong; “1. elachistos (ελαχιστος). “o mínimo, o menor”, o grau superlativo formado da palavra elachus, “pequeno”, de cujo lugar foi tirado por mikros (o grau comparativo de elassõn, “menos” ). É usado acerca de: (a) tamanho (Tg 3.4. “bem pequeno” ); (b ) quantidade, a administração dos negócios (Lc 16.10. duas vezes; Lc 19.17); (c) importância (1 Co 6.2); (d) autoridade, de mandamentos (Mt 5.19); (e) avaliação, sobre pessoas (Mt 5.19. segunda parte: Mt 25.40,45; 1 Co 15.9): sobre uma cidade (Mt 2.6); sobre atividades ou operações (Lc 12.26; 1 Co 4.3, “mui pouco” ). 2. eiachistoteros (éXaxicrrÓTepoç), grau comparativo formado do n° I , é usado em Ef 3.8. “o mínimo”. 3. mikros (piicpóç). “pequeno, pouco”, é usado em At 8.10 (“o mais pequeno” ) e Hb 8.11 (“o menor”). com referência a hierarquia ou influência. Veja PEQUENO (1), A. n° 1.” Dicionário VINE.




O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da lei

A expressão ‘os tristes’ bem-aventurados não possui relação com o sentimento de desilusão frente aos infortúnios da vida e nem decorre  das emoções em ebulição a que todos homens estão sujeitos. Os ‘tristes’ é figura que compõe um quadro profético, e possui conexão com o advento do Messias, que, segundo o profeta Isaías, foi ungido para apregoar boas novas nos seguintes termos: a tristeza substituída por glória, gozo e louvor, com o objetivo de Deus ser glorificado.


As Bem-aventuranças – Parte I

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e dos fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20)

Como compreender o Sermão da Montanha? Nele, Jesus apresenta princípios éticos e morais[1] do seu reino? O núcleo da mensagem do Sermão da Montanha é de cunho sociocultural? Além dos mandamentos cunhados na lei mosaica, Jesus apresentou novos mandamentos?

Antes de explicarmos algumas nuances pertinentes ao ensino de Cristo à multidão, primeiro faremos análise de alguns textos, que são essenciais à leitura do Sermão da Montanha.

Essa análise é imprescindível à leitura do Sermão da Montanha, vez que trará o conhecimento essencial de algumas peculiaridades pertinentes às Escrituras, que possibilitam a compreensão do discurso de Jesus à multidão.

 

Parábolas

Uma característica intrínseca à mensagem anunciada pelos profetas da Antiga Aliança era as visões, as parábolas e os enigmas: “Falei aos profetas e multipliquei a visão; e pelo ministério dos profetas propus símiles” (Os 12:10).

Os profetas anunciavam visões, propunham parábolas ou apresentavam enigmas, pelo fato de Deus não falar abertamente ao povo. Moisés era exceção à regra, visto que, nem mesmo os profetas, tinham o privilégio de falar cara a cara, boca a boca com Deus, a não ser por sonhos: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” (Nm 12:8).

Nas Escrituras, encontramos alguns profetas que foram taxados pelo povo de contadores de parábolas, entretanto, os profetas se resignavam em falar estritamente o que Deus ordenou: “Então disse eu: Ah! Senhor DEUS! Eles dizem de mim: Não é este um proferidor de parábolas?” (Ez 20:4); “Filho do homem, propõe um enigma e profere uma parábola para com a casa de Israel” (Ez 17:2).

Deus falou, muitas vezes, ao povo de Israel, utilizando-se dos seus mensageiros, e, na plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho Unigênito para anunciar aos homens as boas novas (Hb 1:1-2), porém, algo não mudou: assim como os profetas da Antiga Aliança, Jesus falou ao povo utilizando parábolas: “E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear” (Mt 13:3).

Por que Jesus falava por parábolas? Uma das pistas é o anunciado pelos profetas:

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” (Mt 13:13).

Falar à multidão por parábolas é uma das características mais importantes a se observar nos discursos de Jesus. O evangelista Marcos é contundente: Jesus só falava ao povo por parábolas! Esta observação do evangelista nos obriga a analisar com cuidado todos os discursos de Jesus, principalmente, quando identificamos o público alvo da mensagem: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Mc 4:34).

Se o discurso de Jesus tem como público a multidão, os escribas ou os fariseus, provavelmente, haverá uma parábola ou um enigma a ser interpretado.

Se o discurso tem os discípulos como público alvo, faz-se necessário analisar se Jesus falou abertamente ou expôs uma parábola: “E ele disse-lhes: a vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora, todas estas coisas se dizem por parábolas” (Mc 4:11).

Para fixar o que foi exposto, faça a seguinte análise: leia o capítulo 13 de Mateus, analise a mensagem de Jesus e qual era o público alvo. O discurso é uma parábola? Jesus estava falando com os discípulos, os escribas, os fariseus, os pecadores, a multidão? Seria possível compreender a mensagem de Jesus, sem a explicação que foi dada em particular aos discípulos?

O evangelista Mateus, assim como Marcos, deixou registrado que Jesus nada dizia à multidão, sem fazer uso de parábolas e, em seguida, apresenta o motivo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão e nada lhes falava sem parábolas. Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; Publicarei coisas ocultas, desde a fundação do mundo” (Mt 13:34-35); “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” (Sl 78:2); “Inclinarei os meus ouvidos a uma parábola; declararei o meu enigma na harpa” (Sl 49:4).

Através da explicação do evangelista Mateus, conclui-se que o Salmo 78 não se refere ao salmista, antes que o Salmo é uma predição que aponta para o Messias. O salmista predisse que o Messias abriria a boca propondo parábolas e enigmas: “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” (Sl 78:2 compare com Mt 13:35).

Atentar para o público alvo da mensagem é de tamanha importância para a compreensão da mensagem, que até os discípulos questionaram se a mensagem era para todos, ou só para eles: “E disse-lhe Pedro: Senhor, dizes essa parábola a nós, ou também a todos?” (Lc 12:41).

Diante do que foi exposto, o leitor deve considerar se o que foi dito no Sermão da Montanha é um discurso ‘aberto’, ou se o discurso é uma grande parábola composta de enigmas e símiles, tendo em vista o público alvo tratar-se de uma multidão.

Certa vez, Deus mandou Moisés reunir os filhos de Israel ao pé do Monte Sinai para quando Deus falasse com Moisés, eles também pudessem ouvir. Quando o povo viu o monte fumegando, trovões e relâmpagos, se retiram do local onde deviam ficar reunidos e disseram a Moisés: “Fala tu conosco e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” (Ex 20:18-21).

O povo ficou com medo de morrer quando vislumbraram a glória do Altíssimo, evidenciando o quanto eram rebeldes, incrédulos e descrentes. Tremenda injustiça não confiar naquele que é imutável e que não mente, ao que Moisés disse: “Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” (Ex 20:20).

Deus se relaciona com o homem através da sua fidelidade, e o homem pela confiança, portanto, não pode ter medo de Deus. Deus somente estava colocando eles à prova, para apresentar a sua palavra (temor) para que não pecassem contra o Senhor.

O contexto da lei era para instruir o povo judeu em justiça, mas, dali em diante, Deus continuou enviando os seus santos profetas que utilizavam parábolas e enigmas. Jesus veio com o mesmo propósito: revelar Deus aos homens, por isso utilizou as mesmas figuras e parábolas anunciadas pelos profetas.

As parábolas e os enigmas serviam para facilitar a compreensão, mas os filhos de Israel rejeitavam a doutrina de Jesus “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender” (Mc 4:33).

Portanto, para uma boa interpretação do Sermão da Montanha é imprescindível essa análise inicial!

 

Divisões e títulos

As Bíblias oferecem o recurso de divisões em capítulos e versículos para facilitar a localização e citação de determinadas passagens, desde o Século XIII[2]. Embora úteis à localização e indicação de uma citação, não faz parte do original, portanto, o leitor não pode se pautar nessas divisões e subdivisões para determinar quando inicia ou encerra um assunto ou argumento.

Hoje, além das divisões em capítulo e versículo, introduziram títulos e subtítulos que, invariavelmente, influencia a leitura, ou acaba sugerindo ao leitor uma mudança de assunto ou desmembramento do discurso.

O palavra de Jesus no Sermão da Montanha é una e coesa, com começo meio e fim. Com a introdução de divisões, subdivisões, títulos e subtítulos, a ideia inicial que se tem é de que se trata de um discurso fragmentado, que aborda diversos temas, portanto, sem coesão.

A concepção de que Jesus aborda diversas questões ao longo do Sermão da Montanha é totalmente perniciosa para uma boa interpretação do discurso.

 

As bem-aventuranças

“1 E JESUS, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;

2 E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:

3 Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;

4 Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

5 Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;

9 Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

10 Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;

11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.

12 Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas, que foram antes de vós” (Mateus 5:1-12).

 

Após subir em um monte, por causa da multidão, Jesus assentou-se –  ação que indicou a todos que iria ensinar – quando se aproximaram dele os seus discípulos (Lc 4:20).

Jesus iniciou o seu discurso apresentando nove características essenciais aos bem-aventurados: pobres de espírito, tristes, mansos, famintos e sedentos de justiça, misericordiosos, puros de coração, pacificadores, perseguidos por causa da justiça e injuriados (Mt 5:3-11).

Todas estas características decorrem de parábolas e figuras utilizadas pelos profetas do Antigo Testamento, portanto, registradas nas Escrituras, ou seja, Jesus não inventou nenhuma delas.

‘Pobre de espírito’ é uma figura que remete a uma peculiaridade do bem-aventurado, assim como triste, manso, faminto e sedento de justiça, etc. É impossível ser manso e não ser pacificador. As peculiaridades do bem-aventurado são indissociáveis, pois os pobres de espírito também são identificados como aqueles que choram, ou que tem sede e fome de justiça, ou por serem puros de coração, ou por serem mansos, etc.

Considerando alguns aspectos do ministério de Jesus e o que foi anunciado pelos profetas, conclui-se que as bem-aventuranças anunciadas não visavam questões de cunho social. É um equívoco considerar que a bem-aventurança anunciada por Jesus, visava alcançar os pobres e marginalizados do seu tempo.

Quando Jesus anunciou as Bem-aventuranças, na verdade estava fazendo referência às profecias incrustadas nas Escrituras, ou seja, utilizou alguns elementos principais das profecias, como sujeito da promessa, para fazer o povo lembrar das promessas que apontavam um tempo de refrigério pela presença do Messias (At 3:19-20).

Como Deus anunciou a Abraão, que, em sua descendência, seriam benditas todas as famílias da terra (At 3:25), e essa promessa foi reiterada diversas vezes pelos profetas, e foram utilizados diversos recursos como figuras, parábolas, enigmas, símiles, etc., portanto, uma simples referência fez com que o povo se lembrasse das beatitudes decorrentes da presença do Cristo.

A abordagem de Cristo no Sermão da Montanha não possui viés socioeconômico ou de reestruturação política, pois a bem-aventurança anunciada no discurso decorre da promessa feita a Abraão, que Deus cumpriu quando ressuscitou o Senhor Jesus Cristo dentre os mortos.

 

Quem são os pobres de espírito?

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra” (Is 66:2; Is 57:15).

Segundo o profeta Isaías, o ‘pobre’, o ‘abatido’ ou o ‘humilde’ de espírito é aquele que obedece (treme) a palavra de Deus. Ao dizer: “Bem-aventurados os pobres de espírito”, Jesus está anunciado que Deus é favorável (olharei) àqueles que Lhe obedecem (Mt 7:24).

Aquele que obedece (inclina o ouvido) o mando de Deus alcança vida, pois lhe é concedido por Deus as firmes beneficências prometidas a Davi: o Cristo, o reino dos céus: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3; Mt 10:7).

O que Deus prometeu a Davi? Um descendente! A aliança eterna de Deus com os que inclinam os ouvidos (atende, obedece) é conceder o Cristo, o Filho de Davi, poderosa salvação na casa (descendência) de Davi (Lc 1:69).

Através da definição dada pelo profeta Isaías, é possível compreender quem são os pobres de espírito, quesito essencial para compreender o símile: “Bem-aventurado os pobres de espírito…”, visto que Jesus nunca falava abertamente ao povo, somente por parábolas (Mt 13:34).

Através do profeta Isaías verifica-se que Jesus não está tratando de questões sociais, políticas ou econômicas. Na verdade, Ele está tratando, tanto com pessoas ricas, quanto com pessoas pobres, do ponto de vista econômico, tanto com servos, quanto com reis, do ponto de vista social, tanto sábios, quanto com ignorantes, do ponto de vista cultural (Sl 49:2), para que reconheçam, através da mensagem de Cristo, que são miseráveis, necessitados, pobres.

A miserabilidade socioeconômica não dá ao homem a condição de pobre, abatido ou humilde diante de Deus. Deus reconhece o homem como pobre, abatido ou humilde, quando o homem se submete a Ele na condição de servo, ou seja, obediente. É humilde, ou antes, se humilha aquele que deixa de se guiar pela vaidade dos seus pensamentos e que se apresenta diante de Deus, na condição de servo, para obedecê-lo.

Neste ponto, o evangelho não se propõe a sujeitar o homem a Deus, através de ritos, leis e formas impostos pela religião. O evangelho não se propõe a controlar a existência do homem em sociedade, quanto ao que comer, beber, vestir, casar, procriar, comprar, vender, trabalhar, etc., antes, em que o homem creia que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, que havia de vir ao mundo.

O humilde de espírito, no advento da Nova Aliança, é aquele que se sujeita à seguinte ordenança de Deus:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Príncipes, cavalos, cavaleiros, força, violência, braço, etc., são figuras utilizadas pelos profetas para apontar os soberbos, altivos, ricos, abastados, etc. (Sl 49:13), mas, qualquer que confia no Senhor, é descrito como oprimido, faminto, pobre, abatido, etc., figuras utilizadas pelos profetas para propor símiles e compor parábolas (Sl 146).

Não há ninguém (rico ou pobre, judeu ou gentil) que possa dar o resgate por sua própria alma ou de outrem (Sl 49:6-8). Todos os homens necessitam da salvação providenciada por Deus, portanto, todos precisam de reconhecer que são necessitados. Os judeus, por sua vez, não reconheciam que eram necessitados, pobres, etc., antes se comportavam como ricos, abastados, etc., pois se vangloriavam da descendência (somos filhos de Abraão), se vangloriavam da carne (circuncisão) e se vangloriavam da lei (Moisés).

Quem obedece a Deus, se posiciona diante d’Ele, na condição de humilde, necessitado e pobre, portanto, é agradável ao Senhor, como fez o publicano:

“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc 18:13); “O SENHOR se agrada dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia” (Sl 147:11; Mt 9:13).

‘Esperar’ na misericórdia, significa ‘confiar’. Para o homem alcançar a misericórdia de Deus, basta obedecê-Lo. Quando o homem obedece a Deus, demonstra, efetivamente, que espera em Deus, ou seja, que confia na sua palavra, que diz: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

 

Quem são os que choram?

“A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes. A ordenar acerca dos tristes de Sião, que se lhes dê glória, em vez de cinza, óleo de gozo, em vez de tristeza, vestes de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” (Is 61:2-3).

Quando é dito que os tristes são bem-aventurados, os ouvintes de Jesus deveriam lembrar-se da promessa de alegria registrada pelo profeta Isaías aos tristes!

A expressão ‘os tristes’ bem-aventurados não possui relação com o sentimento de desilusão frente aos infortúnios da vida e nem decorre  das emoções em ebulição a que todos homens estão sujeitos.

Os ‘tristes’ é figura que compõe um quadro profético, e possui conexão com o advento do Messias, que, segundo o profeta Isaías, foi ungido para apregoar boas novas nos seguintes termos: a tristeza substituída por glória, gozo e louvor, com o objetivo de Deus ser glorificado.o (Ef 1:12).

O anúncio da bem-aventurança dos que choram indica a chegada do tempo de refrigério (salvação). A mensagem de boas novas anunciada por Cristo aos pobres era para possibilitar aos seus ouvintes elementos para que identificassem, pelas Escrituras, o reino de Deus, em meio aos homens: Cristo. “Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7:22).

Ao dizer ‘Bem-aventurados os tristes…’, Jesus estava dando a entender que a profecia de Isaías naquele dia se cumpriu nos ouvidos dos que ali estavam e produziria refrigério naqueles que dessem crédito: “Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4:21); “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos pobres; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” (Is 61:1-2); “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15).

Os tristes bem-aventurados são os quebrantados, o mesmo que contritos de espírito “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de espírito” (Sl 34:18; Sl 51:17). O ‘quebrantado’ é aquele que deixa de ser ‘altivo’ e se faz ‘servo’, ou seja, obedece ao mandamento de Deus, que, na nova aliança, é crer em Cristo: “A minha alma está quebrantada de desejar os teus juízos em todo o tempo” (Sl 119:20).

 

Quem são os mansos?

“Guiará os mansos em justiça e aos mansos ensinará o seu caminho” (Sl 25:9; Mt 11:29).

Os mansos são aqueles que se deixam instruir como as crianças e aprendem de Cristo: o humilde e manso de coração. Os mansos são os humildes de espírito e vice-versa: “Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos” (Pv 16:19).

O Senhor convida os ‘meninos’ à instrução (Sl 34:11), não os ‘tolos’, porque diferente do tolo, a criança se deixa instruir. O mesmo Senhor, em outra passagem, diz: “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte de Sião” (Is 8:18); “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11); “Ainda que repreendas o tolo como quem bate o trigo com a mão de gral entre grãos pilados, não se apartará dele a sua estultícia” (Pv 27:22); “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” (Pv 22:15).

Daí o imperativo: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lc 18:17).

Os mansos são os que obedecem a Deus, ou seja, que põem por obra o seu mandamento: “Buscai ao SENHOR, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do SENHOR” (Sf 2:3).

 

Quem são os que tem fome e sede de justiça?

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25).

Aquele que se acorrenta a uma árvore defendendo uma causa ecológica? Quem abraça uma causa social? Que levanta uma bandeira à não beligerância? Não!

Na verdade, tem fome e sede de justiça aquele que anseia por obedecer ao mandamento de Deus, pois está escrito: Se cuidar em cumprir o mandamento como foi ordenado é justiça, ou seja, quem anseia por justiça é aquele que obedece, tem ‘fome’ e ‘sede’ de cuidar em cumprir como foi ordenado!

Quem tem fome e sede e justiça crê no enviado de Deus, pois este é o seu mandamento: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

É no evangelho que se descobre a justiça de Deus, e somente nele é possível ao homem que tem sede e fome de justiça ser saciado!

A fome e a sede são figuras que remetem ao pobre, ao necessitado de espírito. O órfão, a viúva e o estrangeiro também são figuras que remetem aos necessitados, aos pobres de espírito, aqueles a quem Deus toma por filhos “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo” (Sl 68:5).

Deus fartará os necessitados, segundo a promessa que foi feita a Davi: o Cristo, como bem reitera o profeta no Salmo 132:

“O SENHOR jurou com verdade a Davi e não se apartará dela: Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono. Se os teus filhos guardarem a minha aliança e os meus testemunhos, que eu lhes hei de ensinar, também os seus filhos se assentarão perpetuamente no teu trono. Porque o SENHOR escolheu a Sião; desejou-a para a sua habitação, dizendo: Este é o meu repouso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei. Abençoarei abundantemente o seu mantimento; fartarei de pão os seus necessitados” (Sl 132:11-15).

 

Quem são os misericordiosos?

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9)

As pessoas que nutrem um sentimento de dor e de solidariedade em relação a alguém que sofre uma tragédia pessoal ou que caiu em desgraça? Dó? Compaixão? Piedade?

Quando Saul desobedeceu a Deus e deixou de eliminar Agague, rei dos amalequitas, bem como, o melhor do interdito, o que foi que Deus disse? Obedecer é melhor do que sacrificar, ou seja, melhor era exterminar todos os amalequitas que apresentar a Deus bois e ovelhas! (1Sm 15:22).

Essa passagem bíblica de Saul evidencia que a misericórdia de Deus decorre da obediência à Sua palavra, e não a um sentimento de solidariedade, compaixão ou piedade “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade para aqueles que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” (Sl 25:10).

Quando poupou a vida de Agague, Saul não exerceu misericórdia. Ele estava sendo misericordioso, enquanto estava exterminando os amalequitas, estava cumprindo o mandamento de Deus, que diz: Misericórdia quero! “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

Deus deixa claro a quem a sua misericórdia e amor é direcionado: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6), ou seja: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

A misericórdia de Deus é só para os que O obedecem, portanto, os ‘misericordiosos’ bem-aventurados, que alcançam misericórdia, são os que ‘amam’ a Deus, ou seja, que O obedecem.

Deus já havia instruído Israel, quando disse a Moisés que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, um trocadilho para evidenciar que Deus tem misericórdia dos que O obedecem.

Os que obedecem a Deus são recebidos como filhos, portanto, são nomeados misericordiosos, assim como o Pai Celeste é misericordioso.

A misericórdia de Deus foi evidenciada a todos os homens, inclusive aos gentios, na pessoa do seu Filho – Jesus Cristo – entretanto, os desobedientes, iníquos e pérfidos não estão sob o abrigo da misericórdia de Deus: “Tu, pois, ó SENHOR, Deus dos Exércitos, Deus de Israel, desperta para visitares todos os gentios; não tenhas misericórdia de nenhum dos pérfidos que praticam a iniquidade. (Selá.)” (Sl 59:5).

 

Quem são os limpos de coração?

“Tal é a geração daqueles que o buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó” (Sl 24:6).

O Salmo 24 tem resposta para essa pergunta!

Os limpos de coração são aqueles que buscam a face do Senhor, ou seja, os gerados de novo da semente incorruptível (1Pd 1:23). É através do novo nascimento que o homem se torna geração do Senhor, portanto, limpo de coração, tal qual Ele é neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (1Jo 4:17).

São limpos de coração, porque foram circuncidados pelo Pai celeste! Através da circuncisão de Cristo o coração de pedra é extraído e Deus concede um novo coração de carne limpo: “E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36:26).

É através da aspersão da água pura, pelo Espírito Eterno, que o homem alcança um coração novo e limpo, ou seja, o homem nasce de novo da água e do Espírito, pois Deus diz: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

Os que creem veem a salvação de Deus, pois Deus se manifestou ao mundo na pessoa do seu Filho (Jo 1:18), pois Cristo veio revelar o Pai aos homens: “E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão e temerão e confiarão no SENHOR” (Sl 40:3); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21); “E a glória do SENHOR se manifestará e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do SENHOR o disse” (Is 40:5); “O SENHOR desnudou o seu santo braço, perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10).

É através do resplendor do rosto de Cristo – o Senhor que escondeu a sua face da casa de Israel – que o homem é salvo: “Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80:3); “Esconderei, pois, totalmente, o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:18); “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17).

 

Quem são os pacificadores?

“Ah! se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos, então seria a tua paz como o rio e a tua justiça como as ondas do mar!” (Is 48:18).

Qualquer que dá ouvidos (crédito, obedece) ao mandamento de Deus é pacificador!

Aquele que se deixa instruir pelo Senhor Jesus, que é manso e humilde de coração, cumpre o mandamento de dar ouvidos ao anunciado por Deus, portanto, são filhos ensinados do Senhor, e a paz deles é abundante: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Is 54:13); “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

O termo grego ειρηνοποιος, traduzido por ‘pacificador’, significa ‘que ama a paz’, ou seja, que honra, que obedece a paz, e Cristo é a nossa paz (Ef 2:14). Cristo concede filiação divina a todos os que O recebem: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (Jo 1:12); “Aparta-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a” (Sl 34:14).

Cristo é o tema da mensagem de paz anunciada pelos ‘pacificadores’: paz para os que estão longe (gentios) e paz para os que estão perto (judeus): “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Is 57:19); “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio” (Ef 2:13-14); “Escutarei o que Deus, o SENHOR, falar; porque falará de paz ao seu povo, e aos santos, para que não voltem à loucura” (Sl 85:8); “Muita paz tem os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” (Sl 119:165).

Aqueles que têm fome e sede de justiça são pacificadores, pois Deus diz: “Até que se derrame sobre nós o espírito lá do alto; então o deserto se tornará em campo fértil e o campo fértil será reputado por um bosque. E o juízo habitará no deserto, e a justiça morará no campo fértil. E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:15-17); “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Is 26:12).

 

A quem pertence o reino dos céus?

“E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2Tm 3:12)

O reino dos céus pertence a todos quantos sofrem perseguição, por causa da justiça, ou seja, do evangelho de Cristo. Todos quantos são injuriados e perseguidos, ou que, mentindo, disserem em desfavor deles toda sorte de mal, são bem-aventurados por causa de Cristo: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados” (1Pd 3:14-16).

As bem-aventuras decorrem de Cristo, pois Ele é a justiça de Deus e o rei estabelecido para reinar em Sião: “Eu, porém, ungi o meu Rei, sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2:6-7); “Porque o trono se firmará em benignidade, e sobre ele, no tabernáculo de Davi, se assentará, em verdade, um que julgue e busque o juízo e se apresse a fazer justiça” (Is 16:5); “EIS que reinará um rei com justiça e dominarão os príncipes segundo o juízo” (Is 32:1); “Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e verdade irão adiante do teu rosto” (Sl 89:14; Sl 97:2; Sl 98:2).

Cristo é o louvor e a mão direita (destra) de Deus cheia (plena) de justiça, o santo braço desnudado perante todos os povos: “Segundo é o teu nome, ó Deus, assim é o teu louvor, até aos fins da terra; a tua mão direita está cheia de justiça” (Sl 48:10); “Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7); “Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão e no meu braço esperarão” (Is 51:5); “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça e paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17).

Quando anunciou as beatitudes, Jesus fez uso de algumas figuras utilizadas pelos profetas da Antiga Aliança, que fazem referência àqueles que obedecem a Deus.

Pobres, tristes, mansos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, limpos de coração, pacificadores, perseguidos, são figuras que remetem aos obedientes.

As beatitudes são um anúncio de que as profecias das Escrituras estavam se cumprindo.

Observe o que foi profetizado por Isaías:

“E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro e dentre a escuridão, dentre as trevas, os olhos dos cegos as verão. E os mansos terão gozo sobre gozo no SENHOR; e os necessitados entre os homens se alegrarão no Santo de Israel. Porque o tirano é reduzido a nada e se consome o escarnecedor e todos os que se dão à iniquidade são desarraigados; Os que fazem culpado ao homem por uma palavra e armam laços ao que repreende na porta e os que sem motivo põem de parte o justo. Portanto, assim diz o SENHOR, que remiu a Abraão, acerca da casa de Jacó: Jacó não será agora envergonhado, nem agora se descorará a sua face. Mas, quando ele vir seus filhos, obra das minhas mãos no meio dele, santificarão o meu nome; sim, santificarão ao Santo de Jacó e temerão ao Deus de Israel. E os errados de espírito virão a ter entendimento e os murmuradores aprenderão doutrina” (Is 29:18-24).

Jesus Cristo é o Senhor que foi convidado a se assentar à destra da Majestade nas alturas (Sl 110:1), a quem os filhos de Israel deveriam santificar o nome, conforme profetizou Isaías e o apóstolo Pedro evidenciou ao falar da perseguição que sofre os que seguem a Cristo: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis; Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3:14-15); “Não chameis conjuração a tudo quanto este povo chama conjuração; e não temais o que ele teme, nem tampouco vos assombreis. Ao SENHOR dos Exércitos, a Ele santificai; e seja Ele o vosso temor e seja Ele o vosso assombro” (Is 8:12-13).

É impossível alguém ser manso e não ser misericordioso ou ter o coração limpo e não ser pacificador, pois as beatitudes são características que remetem à pessoa que ouve a doutrina de Cristo e a pratica (Mt 7:24). Todas essas figuras se complementam e remetem àqueles que se sujeitam a Deus, como servo, crendo em Cristo como o enviado de Deus.

Os profetas utilizaram essas figuras para anunciarem a vinda do Cristo, pois Cristo é a base da nova aliança, perpétua, estabelecida por Deus com os povos, segundo o que foi prometido a Davi: um Renovo justo, o rebento da raiz de Jessé, o Descendente, etc., sendo que todos os profetas da Antiga Aliança foram perseguidos por falarem a seus compatriotas dessa Nova Aliança: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3; Jr 31:31-34; Hb 8:13).

Os profetas, ao darem testemunho de Cristo, utilizaram as mesmas figuras que Cristo empregou, quando anunciou as beatitudes. Os profetas da Antiga Aliança somente sabiam (porque foi revelado a eles), que o que ministravam não pertencia a Israel e por isso se questionavam sobre o tempo, ou ocasião de tempo, que se dariam as maravilhas anunciadas (1Pe 1:10 -12).

Esta é a essência do Sermão da Montanha:

“E dizendo: O tempo está cumprido e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:15).

No Sermão da Montanha, Jesus revela ao povo, através das figuras utilizadas pelos profetas, que o tempo de refrigério que constava nas Escrituras foi inaugurado pela presença do reino de Deus em meio aos homens – Cristo – que anunciava o reino dos céus, um reino que não era desse mundo: “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” (Is 28:12); “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados e venham, assim, os tempos do refrigério pela presença do SENHOR” (At 3:19).

O que aquela multidão esperava? O que foi ensinado pelos escribas e fariseus: que o reino de Israel seria restaurado com a vinda do Messias! Para os judeus, profecias como a de Joel: “PORQUE, eis que naqueles dias e naquele tempo, em que removerei o cativeiro de Judá e de Jerusalém” (Jo 3:1), se cumpriria com o advento do Cristo.

Mas, não foi o que ocorreu, pois a restauração prevista nas Escrituras não era primeiramente nacional, mas sim, para os gentios, para que se cumprisse a bem-aventurança prometida a Abraão, que diz: “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3); “E, respondendo ele, disse-lhes: Em verdade, Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará; e, como está escrito do Filho do homem, que ele deva padecer muito e ser aviltado” (Mc 9:12).

Quando anunciou que faria casa (descendência) a Davi, Deus anunciou que o Descendente de Davi edificaria uma casa a Deus e, em seguida, prometeu que estabeleceria o trono do descendente dado a Davi para sempre.

Como Deus não habita em casa feita por mãos de homens, o Descendente prometido a Davi – Cristo – está a edificar a Sua Igreja como templo santo ao Senhor, do qual todos os que creem se constituem ‘pedras vivas’ edificadas sobre a pedra angular, para morada de Deus em Espírito.

Somente após o advento da igreja, quando se dará o encerramento do tempo dos gentios, que será restaurado o reino prometido a Israel (1Sm 7:13). O povo de Israel estava tão fixo na promessa de restauração do reino de Israel, que se esqueceu de que havia uma promessa a Abraão, acerca de todas as famílias da terra.

Quando Jesus veio, João Batista o precedeu – o Elias – e a restauração implementada não era de um reino visível, mas, sim, de um reino que não era deste mundo, do qual todos os que creem em Cristo, não importando a nação, podem ser participantes.

Mas, como mudar a concepção de um povo que estava fito na promessa: “À tua semente darei esta terra” (Gn 12:7), e não dava ouvidos à voz de Deus, para que o juramento feito aos pais fosse confirmado? (Jr 11:4-5). Como mudar a concepção de um povo que, por circuncidar o prepúcio da carne, mas não deixava Deus circuncidar o coração, achava que era melhor que as nações vizinhas? (Jr 9:26) Como mudar o entendimento de um povo que tinha a lei de Moisés chegada à boca, mas longe do coração? (Jr 12:2; Is 29:13).

A mensagem do Sermão do Monte visa produzir uma mudança de concepção (metanóia) no povo, por isso, Jesus não deu testemunho abertamente de Si mesmo, dizendo: “Eu sou o Cristo”, antes, teve que anunciar por parábolas e símiles o testemunho que Deus deu acerca do Filho do homem. Os filhos de Israel deveriam comparar a doutrina de Cristo com as Escrituras e reconhecer que Jesus era o enviado de Deus, por conseguinte, reconhecendo Cristo como o Filho de Davi, estariam crendo no testemunho de Deus “Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo” (Jo 7:16-17).

Enquanto o povo aguardava o reino messiânico, Jesus – o Renovo Justo prometido a Davi – se apresenta como a justiça, pela qual os seus seguidores seriam perseguidos e injuriados: “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente e praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Jr 23:5-6).

Nas entrelinhas, Jesus se revela como a justiça, que dá direito ao reino dos céus, e qualquer perseguido por causa d’Ele seria recompensado: “Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão” (Hb 10:35), mas, a multidão pensava, equivocadamente, que o reino estava na iminência de se manifestar, quando Jesus chegou próximo de Jerusalém. Por causa da cegueira espiritual, não perceberam que o reino de Deus já estava manifesto: “E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus” (Lc 19:11).

A causa de Cristo é a causa da justiça e todos que seguirem a Cristo serão perseguidos e injuriados, do mesmo modo que os profetas foram perseguidos: “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” [assombrosas] (Sl 45:4).

 

As similitudes

“13 Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.

14 Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;

15 Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador e dá luz a todos os que estão na casa.

16 Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16).

A leitura que se faz das similitudes deve ser extensão das beatitudes, portanto, o entendimento de que as ‘figuras’ (sal, luz) aplicadas aos discípulos não decorrem das bem-aventuranças, como se o discurso de Jesus fosse estruturado em divisões e subdivisões, como se não fosse coeso e uno, não é uma boa leitura.

Na verdade, as características enumeradas nos versos 3 ao 9: pobre, triste, manso, faminto e sedento por justiça, misericordioso, puro, pacífico, definem os seguidores da doutrina de Cristo, ou seja, aqueles que serão perseguidos e injuriados por causa de Cristo, mas que serão recompensados entrando no reino dos céus.

Vale destacar que Abel foi perseguido por Caim; Isaque foi perseguido por Ismael; Jacó foi perseguido por Esaú, etc., eventos que servem de alegoria, pois com os seguidores de Cristo não é diferente, serão perseguidos por serem filhos da promessa: “Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17:14; Gl 4:29).

As características pertinentes aos bem-aventurados descrevem os obedientes, os humildes, os servos, portanto, a obediência a Cristo é o que torna os seus seguidores ‘sal da terra’ e ‘luz do mundo’.

Na lei, estava estabelecido que todas as vezes que fossem ofertados alimentos a Deus, que a oferta deveria ser temperada com sal: “E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Lv 2:13).

As ofertas de alimentos eram voluntárias, pois Deus nunca requereu holocaustos e sacrifícios dos filhos de Israel, porém, quando, voluntariamente, fossem oferecer algo a Deus, o sal era obrigatório. A oferta era voluntária, mas o sal era obrigatório! Por que? Porque é a obediência que torna o ofertante agradável e aceito por Deus, consequentemente, a oferta será aceita (Gn 4:4-5).

Acrescer sal à oferta demandava obediência por parte do ofertante, uma ordenança para que os filhos de Israel entendessem que Deus quer a obediência, mais que o sacrifício, assim como o fato de os filhos de Israel permaneceram 40 anos no deserto, sendo guiados por Deus, para que entendessem que o homem vive pela palavra de Deus “Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios e comei carne. Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios” (Jr 7:21 -22); “E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não. E te humilhou,  te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:2-3; Sl 50:9; Mq 6:6-7).

Vale destacar que Deus se agrada da obediência, pois obedecer é melhor que o sacrifício “Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1Sm 15:22).

A ordenança acerca do sal demonstra que a obediência é superior ao sacrifício, pois a aliança é selada pela obediência e o homem aceito por Deus, porém, através do sacrifício ninguém é aceito por Deus.

O profeta Miquéias ilustra essa questão:

“Com o que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei diante do Deus altíssimo? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu ventre pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça e ames a benignidade e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6:6-8).

A determinação para acrescer sal ao alimento ofertado remetia o ofertante a não se esquecer de, diligentemente, guardar a aliança. Toda ação voluntariosa em apresentar a Deus oferta, holocausto, sacrifício, etc., no momento de adicionar sal, o ofertante estava sendo instruído sobre o que Deus realmente requer do homem: obediência: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5); “Disse, mais, o SENHOR a Moisés: Escreve estas palavras; porque conforme ao teor destas palavras tenho feito aliança contigo e com Israel” (Êx 34:27).

Assim como o sal era imprescindível à oferta de alimentos, a obediência é imprescindível ao homem, para estar sob a proteção da aliança. O que preserva o homem é a aliança estabelecida por Deus e não uma oferta, mesmo que temperada com sal.

O ‘sal’ que o ofertante não deveria deixar faltar ao sacrifício era a obediência à aliança estabelecida por Deus, o que refletiria no ato ímpar de não se esquecer de acrescentar sal à oferta.

Exemplo vivo de obediência encontramos nos patriarcas, pois foi a aliança de Deus que preservou Noé durante o dilúvio (Gn 6:18), que, sendo justo, sujeitou-se à ordem de Deus para construir uma arca e se abrigar nela. Quando entrou na arca que construíra sob ordem de Deus, Noé honrou a aliança, o que demonstra a sua plena confiança em Deus: “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30).

De nada serviria o trabalho árduo de construir a arca e aguentar a oposição dos pecadores, se no momento em que Deus ordenasse a Noé entrar na arca, ele deixasse de entrar sob o argumento de que Deus era poderoso para preservá-lo, mesmo fora da arca.

Deus ordenou a Abraão que saísse de sua parentela, sob a promessa de que seria grandemente recompensado. Abraão obedeceu ao Senhor (Gn 12:4) e Deus firmou uma aliança com juramento (Gn 26:4-5). Abraão foi escolhido para ordenar os seus filhos e a sua casa para obedecerem a Deus, pois só quando o homem honra a Deus como Senhor e Pai é que se alcança a bênção de Deus, contida na promessa (Gn 18:19).

Já os filhos de Israel desprezaram a aliança e foram levados cativos, ou seja, não foram ‘preservados’, porque não permaneceram sob a aliança (Ex 6:4: Jz 2:20-22; Sl 78:10; Jr 11:8; Jr 31:32).

O sacrifício do qual Deus se agrada, é um espírito quebrantado, ou seja, um coração contrito, obediente à palavra de Deus, portanto, o ofertante não poderia esquecer o sal da aliança, ou seja, de obedecer: “E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Lv 2:13).

Quando foi dito: “Vós sois o sal da terra…”, Jesus estava apontando para os seus discípulos e dizendo: “Vocês são os que obedecem a Deus na terra”! “Vocês ouviram as minhas palavras e as praticam”! (Mt 7:24)

Quando foi dito: “e se o sal for insípido, com que se há de salgar?”, temos uma breve alusão aos desobedientes – à nação de Israel. Como não obedeceu à aliança, a nação de Israel foi rejeitada e lançada fora, uma alusão à dispersão de Israel, quando perdeu a proteção de Deus e passou a ser governada pelos gentios: “E persegui-los-ei com a espada, com a fome e com a peste; e dá-los-ei para deslocarem-se por todos os reinos da terra, para serem uma maldição, um espanto, um assobio e um opróbrio entre todas as nações para onde os tiver lançado” (Jr 29:18; Hb 4:6 e 11;1Pd 2:8).

Com relação aos sacerdotes, por estatuto Deus deu todas as ofertas dos filhos de Israel a eles, visto que não possuíam possessão de terra e nem herdade, a não ser o próprio Deus (Nm 17:20). Essa aliança estabelecida com os sacerdotes foi chamada de ‘aliança perpétua de sal’, ou seja, que Deus havia dado as coisas santas ofertadas pelos filhos de Israel para preservá-los: “Todas as ofertas alçadas das coisas santas, que os filhos de Israel oferecerem ao SENHOR, tenho dado a ti e a teus filhos e a tuas filhas contigo, por estatuto perpétuo; aliança perpétua de sal perante o SENHOR é, para ti e para a tua descendência contigo” (Nm 18:19).

Pelas Escrituras, verifica-se que as alianças que Deus fez com os homen, tinham o fito de preservá-los, dando mandamentos para que observassem cuidadosamente. Mas, o cuidado de Deus somente é efetivo sobre a vida dos homens que são obedientes, de modo que, através da obediência, o homem fica sob a aliança.

Deus disse: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17), e também: “…porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30), pois aquele que cumpre o mandamento de Deus – que na Nova Aliança é crer que Jesus é o Filho de Deus – em si mesmo tem sal, como foi dito: “Bom é o sal; mas, se o sal se tornar insípido, com que o temperareis? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9:50).

Na palavra de Deus está expresso o cuidado de Deus pelo homem e em obedecê-la, o homem se coloca debaixo da proteção de Deus. O sal representa tanto o cuidado de Deus quanto o dever de obediência, pois onde há mandamento tem que haver obediência.

O cuidado de Deus pela humanidade foi manifesto em Cristo e todo o que crê será salvo. Os apóstolos testemunharam a vinda do Filho de Deus ao mundo e eles testificaram acerca dessa verdade, de sorte que qualquer que também confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus: “Vimos e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus” (1Jo 4:14 -15).

Quem crê em Cristo, deve militar pelo evangelho, pois no evangelho se descobre a justiça de Deus – Cristo – ou seja, aquele que crê e anuncia ao mundo o evangelho de Cristo é sal da terra. Se o crente não desempenha a sua função de levar Cristo ao mundo, torna-se insípido e será lançado fora, assim como o sal, quando perde a sua propriedade: “Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo 15:2; Lc 14:34-35).

A perseguição por causa do evangelho de Cristo, revela aqueles que são o sal do mundo e a luz do mundo. A perseguição por causa do evangelho vem somente sobre aqueles que levam a preciosa semente incorruptível: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” (Is 52:7).

Os pacificadores são filhos de Deus e, como filhos da Luz, são luz no Senhor, portanto, luz do mundo: “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” (Jo 12:36); “Porque, noutro tempo, éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” (Ef 5:8).

Assim como o sal tem a sua serventia, a luz também. Assim como é impossível esconder uma cidade quando edificada sobre um monte, também é impossível deixar um crente em Cristo camuflado aos olhos do mundo.

Da mesma forma que uma lamparina (candeia) não é colocada debaixo do alqueire (pote, vaso, vasilhame) ou debaixo da cama, mas no velador, assim é com os seguidores de Cristo: são luz que alumiam no mundo que está em densas trevas: “LEVANTA-TE, resplandece, porque vem a tua luz e a glória do SENHOR vai nascendo sobre ti; Porque eis que as trevas cobriram a terra e a escuridão os povos; mas sobre ti, o SENHOR virá surgindo e a sua glória se verá sobre ti. E os gentios caminharão à tua luz e os reis ao resplendor que te nasceu” (Is 60:1-3); “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (Is 9:2).

Todos os que creem em Cristo são feitos filhos da luz e, por conseguinte, despenseiros de Deus (1Co 4:1-2; 1Pe 4:10), portanto, quando abrem a boca para anunciar o evangelho, faz com que a sua luz brilhe diante dos homens: “E se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita; então, a tua luz nascerá nas trevas e a tua escuridão será como o meio-dia” (Is 58:10); “Atendei-me, povo meu e nação minha, inclinai os ouvidos para mim; porque de mim sairá a lei e o meu juízo farei repousar para a luz dos povos” (Is 51:4).

A boa obra que Jesus ordena ao cristão, para que deixe os homens verem, não se refere ao comportamento do cristão – embora um despenseiro da glória de Deus deva ter um bom comportamento diante dos homens – mas, sim, manifestar ao mundo a boa nova que o Senhor realizou ao manifestar Cristo ao mundo: “O SENHOR trouxe a nossa justiça à luz; vinde e contemos em Sião a obra do SENHOR, nosso Deus” (Jr 51:10); “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Is 26:12).

O bom porte do crente não se refere ao bom perfume de Cristo, que é o mesmo que a boa obra, que se refere ao que Deus realizou: “Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29); “E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem” (2Co 2:14-15).

É Deus que deu Cristo – a paz – portanto, Ele realizou no crente todas as obras, de modo que, a obra que o mundo vê no crente refere-se ao testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo. Só é luz do mundo aquele que fala segundo a palavra de Deus, ou seja, aquele que anuncia as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8:20).

A leitura do verso: “Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16), demanda uma compreensão da linguagem judaica, pois ‘obra’ refere-se ao resultado do cumprimento de um mandamento, de modo que crer em Cristo é uma obra.

Jesus mesmo disse: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29). Qualquer que atenta para o evangelho, a lei perfeita da liberdade, e persevera, ou seja, crê que Jesus é o Filho de Deus, é bem-aventurado, pois executou a obra: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

A obra está ligada às palavras que os homens proferem: “Por isso, se eu for, trarei à memória as obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas” (3 Jo 1:10). Portanto, a boa obra que os homens devem ver naqueles que são luz é o anúncio desta verdade:

“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque, todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” (Jo 3:17:21).

Continua: As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo


[1] “Todos iam a Ele para ouvir sobre o Reino; Jesus, em vez disso, falava sobre o estilo de vida daqueles que queriam viver no Reino. 0 Sermão do Monte contém a essência do ensinamento moral e ético de Jesus” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Editora Central Gospel, Rio de Janeiro: 2010, Pág. 27.

[2] Os judeus utilizavam as letras PE e SAMECH para apontar os parágrafos há muito tempo. Já na era cristã, primeiro foi introduzida uma divisão por capítulos pelo Arcebispo Estêvão Langton e outra pelo Cardeal Hugo de Sancto Caro, ambas realizadas no século XIII, porém, a divisão do Arcebisbo Langton, realizada em 1205 acabou prevalecendo. Somente 300 anos mais trade foi introduzida a divisão em versículos pelo italiano Santi Pagnini (1470-1541), e em 1551, Roberto Estienne propôs uma divisão diferente que acabou prevalecendo, sendo aplicada na sua edição grega do Novo Testamento e depois na versão em francês de 1553, e é utilizada até hoje.




O primeiro e grande mandamento na lei

Para ouvir e compreender a mensagem de Cristo é necessário comparar coisas espirituais com coisas espirituais (novo testamento com antigo testamento) e lembrar sempre do seguinte versículo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas” ( Mt 13:34 ). Até mesmo a resposta que Jesus deu ao fariseu era uma parábola, pois Cristo é o ‘braço’ do Senhor, a luz do Senhor manifesto aos homens, e os homens não O compreenderam ( Jo 12:41 ; Jo 1:5 ).


“Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” ( Mt 22:36 -40).

Certa feita Jesus foi questionado pelos discípulos porque falava aos seus ouvintes por parábolas. E Jesus lhes respondeu: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” ( Mt 13:13 ).

Jesus falava ao povo por parábolas, pois neles se cumpria a profecia de Isaías, uma vez que o coração deles estava endurecido ( Mt 13:15 ).

No diálogo que Jesus teve com certo doutor da lei se faz necessário descobrir se Jesus também falou por parábolas, para que, o doutor da lei e fariseu ouvindo, não ouvisse e nem compreendesse ( Jo 1:5 ).

Os profetas anunciaram que o Cristo haveria de propor enigmas e parábolas aos seus ouvintes ( Sl 49:4 ; Sl 78:2 ), e Jesus não trouxe nada de diferente do que constava na lei, salmos e profetas ( Jo 5:39 ; Lc 24:44 ).

A pergunta capciosa de um fariseu foi: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?”.

Jesus, por sua vez, demonstrou que o primeiro e grande mandamento na lei é: “Amará o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” ( Mt 22:37 ), e que o segundo, semelhante ao primeiro é: “Amará o teu próximo como a ti mesmo” ( Mt 22:39 ).

O mestre dos fariseus deu-se por satisfeito, pois era isto mesmo que ele queria ouvir. Ele escutou e aprovou a resposta de Cristo. Ele já havia lido e ouvido esta passagem bíblica inúmeras vezes, mas não ‘ouviu’ e nem ‘compreendeu’.

A pergunta que o doutor da lei precisava fazer para Jesus era: como se ama a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento?

As Escrituras nos revelam que cumprir todos os mandamentos assim como certo príncipe judeu cumpria a lei desde a mocidade, não é o mesmo que amar a Deus de todo coração, de toda a alma e de todo o entendimento ( Mt 19:20 ; Lc 18:18 -24).

“- Tudo isto tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” Se o Jovem rico amasse a Deus de todo o seu coração, não teria se retirado triste ( Mt 19:22 ). Se ele entendesse a proposta da lei, jamais teria perguntado: “Que bem farei para herdar a vida eterna” ( Lc 18:18 ), pois saberia que não há bem algum a ser realizado pelo homem que dê direito a salvação, antes, para que o homem possa herdar a vida eterna é necessário somente crer no Autor da salvação.

Mesmo sendo príncipe dos judeus, fariseu, juiz e mestre em Israel, Nicodemos também não amava o Senhor Deus de todo coração, de toda alma e de todo entendimento, uma vez que Jesus lhe disse: necessário vos é nascer de novo ( Jo 3:1 -5 ).

Outro fariseu subiu ao templo, e em oração disse: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo” ( Lc 18:11 -12).

Mesmo ‘seguindo’ o que preceituava a lei, o fariseu que subiu ao templo não foi justificado! Não roubar, não matar, não furtar, não ser injusto ou adultero não é o mesmo que amar a Deus de todo coração, de toda a alma e de todo o entendimento, pois aqueles que amam a Deus e cumprem os seus mandamentos são declarados justos ( Dt 7:9 ).

Se os fariseus, apesar de serem religiosos, legalistas, formalistas e ritualistas, não cumpriram o primeiro e grande mandamento na lei, como esperar que qualquer do povo cumpriria o mandamento que diz: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:4 -5)?

A resposta está em Deuteronômio, verso 6, capítulo 30: “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Para que o homem possa ‘amar o Senhor Deus de todo o coração, de toda alma, de todas as forças e de todo o entendimento’ é necessário que o coração do homem seja circuncidado por Deus.

A circuncisão do coração feita por Deus tem dois objetivos definidos:

  • Que o homem obtenha vida, e;
  • Que o homem possa amar ao Senhor de todo o coração, de toda a alma, etc.

Somente um coração circuncidado pelo Senhor pode amá-Lo de todo. Somente após Deus realizar a sua obra, que é a circuncisão do coração, torna-se possível ao homem e a mulher amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo entendimento, etc “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração (…), para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma” ( Dt 30:6 ).

Um coração incircunciso está morto diante de Deus. Somente um coração circuncidado vive perante Ele “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração (…) para que vivas ( Dt 30:6 ). Nada representa diante de Deus os sentimentos de um coração incircunciso, ou seja, que está morto! A circuncisão de Deus é para que o homem tenha vida, pois Deus é Deus de vivos, e não de mortos.

O amor a Deus não se vincula a sentimentos humanos, à voluntariedade, aos serviços, aos sacrifícios ou esforço próprio, antes só é possível amar a Deus após a intervenção cirúrgica de Deus: a circuncisão do coração!

Havia um enigma no primeiro e grande mandamento da lei! Muitos leram, outros ouviram, porém, não entenderam e nem compreenderam como se cumpre o primeiro e grande mandamento na lei: circuncidai, pois o vosso coração!

Antes de entregar pela segunda vez as tábuas dos dez mandamentos, Deus orientou o povo a amá-lo ( Dt 10:12 ). De que modo? Circuncidando o prepúcio do coração ( Dt 10:16 ). Ou seja, o cumprimento da lei dependia diretamente da circuncisão do coração, o que só é possível através da ação divina, sem o auxílio de mãos humanas: obra exclusiva de Deus “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração…” ( Dt 30:6 ; Cl 2:11).

Da mesma forma que, segundo a carne, Abraão circuncidou Isaque, quando Deus recebe dentre os homens filhos para si, Ele circuncida o prepúcio do coração dos seus filhos. É o pai que circuncida o filho, e a circuncisão promovida por Deus demonstra que Ele recebeu o circuncidado por filho.

Os fariseus não amavam a Deus de todo o coração porque acreditavam que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão. Por serem circuncidados na carne ao oitavo dia após nascerem, acreditavam que tal prática os tornava filhos de Deus.

Porém, Deus só recebe por filhos aqueles que ele circuncida. A circuncisão do coração é necessária para que o homem viva, ou seja, volte a ser participante da glória de Deus. Sem a circuncisão que Deus efetua no coração o homem está morto, continua na incircuncisão da carne herdada de Adão, mesmo após cumprir os quesitos da lei, como o é a circuncisão do prepúcio.

Enquanto a circuncisão do prepúcio era quesito para ser membro da nação de Israel, a circuncisão do coração é imprescindível para que fossem participantes do Israel de Deus ( Rm 9:6 ). Somente Deus pode realizar a circuncisão do coração do homem “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Após ser circuncidado pelo Senhor, o homem recebe um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). É tirado o coração de pedra e concedido um coração de carne ( Ez 36:26 ). O criado em verdadeira justiça e santidade um novo homem( Ef 4:24 ). Tudo se faz novo!

Somente após receber um novo coração e um novo espírito, o homem regenerado passa a adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, consegue amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.

O profeta Ezequiel anunciou que Deus haveria de espargir água pura sobre os homens, ou seja, através da sua palavra Deus haveria de conceder um novo coração e um novo espírito.

Após o novo nascimento, Deus haveria de habitá-los, condição imprescindível para que os homens andem, guardem e cumpram os estatutos de Deus ( Ez 36:25 -27 ). Para amar a Deus de todo o coração é necessário que Deus habite o homem.

Diante da lei e do protesto veemente dos profetas, o povo de Israel aplicavam-se a cumprir os mandamentos como guardar o sábado, utilizar os filactérios, jejuns, orações, sacrifícios, etc. Valorizavam a circuncisão ao oitavo dia, porém, o coração deles permanecia na incircuncisão, longe de Deus “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 At 7:51 ).

O jovem rico era um perfeito retrato da nação de Israel, visto que a maioria seguia o estipulado nos dez mandamentos: “Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo” ( Mt 19:18 -19 ; Ex 20:2 – 17), porém, sentiam que faltava alguma coisa.

Elogiar a Cristo não é o mesmo que amar a Deus de todo o coração: “Muito bem, Mestre, e com verdade disseste…!” ( Mt 12:32 -33). Para o escriba ainda faltava alguma coisa também, pois não basta reconhecer que Jesus apresentou um ensino verdadeiro: “Não estás longe do reino de Deus” ( Mt 12:34 ).

Se o escriba observasse melhor, veria que a porta para se entrar no reino de Deus estava aberta bem a sua frente! Se ele abandonasse os seus conceitos (arrependimento), veria o quão próximo estava o reino dos céus “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus” ( Mt 3:2 ).

Após observarmos o jovem rico e o escriba, precisamos entender porque não basta guardar os mandamentos da lei “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” ( Mt 19:20 ). É essencial descobrir porque mesmo após admitir qual é o maior dos mandamentos, muitos ainda não tem acesso ao reino dos céus “Não estás longe do reino de Deus” ( Mt 12:34 ).

Embora fosse ferrenho seguidor da lei por ser fariseu, exemplo em Israel como mestre, conhecedor da lei como juiz, Nicodemos não podia entrar no reino dos céus, pois lhe faltava nascer de novo! ( Jo 3:2 ). Só é possível nascer de novo após morrer! Quando Deus oferece ao homem e a mulher a circuncisão do coração, ele demonstra a necessidade de se exterminar a velha natureza herdada de Adão, condição essencial para que ocorra o novo nascimento.

Para ser circuncidado pelo Senhor basta crer na palavra que diz: “Ouve, ó Israel…”, pois a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus ( Sl 81:8 ).

Para ouvir e compreender a mensagem de Cristo é necessário comparar coisas espirituais com coisas espirituais (novo testamento com antigo testamento) e lembrar sempre do seguinte versículo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas” ( Mt 13:34 ). Até mesmo a resposta que Jesus deu ao fariseu era uma parábola, pois Cristo é o ‘braço’ do Senhor, a luz do Senhor manifesta aos homens, e os homens não O compreenderam ( Jo 12:41 ; Jo 1:5 ).

 

O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da lei

As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Não matarás e o Sermão da Montanha

O Sermão do Monte e o adultério

O Sermão da montanha e algumas práticas religiosas dos judeus – esmola, oração e jejum




Obediência sem legalismo

Ao apresentar o espírito inatingível da lei, Jesus demonstrou ao povo que eles não faziam nada de mais quando seguiam as regras da lei, pois os gentios e os cobradores de impostos faziam as mesmas coisas ( Mt 5:46 -47). Ou seja, Jesus demonstrou através do Sermão do Monte que aquilo que buscavam na lei, que tanto veneravam, nada lhes acrescentou, visto que, tudo que faziam, os demais homens também faziam o mesmo “Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei” ( Rm 2:14 ).


 

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir”
( Mt 5:17 )

O Sermão do Monte

Há uma grande diferença entre obediência e legalismo, porém, se faz necessário compreender o significado de ambos. Para isto, analisaremos alguns aspectos da doutrina de Cristo, e qual o objetivo da lei.

Diante de uma multidão curiosa, querendo saber se a doutrina de Jesus era contra a lei e os profetas, Jesus reitera que não veio destruir ou ab-rogar a Lei e os Profetas “Não cuideis…” ( Mt 5:17 ).

As Escrituras demonstram que Deus se apresenta ao povo como descanso e refrigério. Em todos os tempos, desde Abel até os nossos dias, a palavra de Deus traz descanso e refrigério a alma dos homens que nele confiam ( Is 28:12 ).

Mas, os lideres religiosos de Israel, consideravam e instruíam o povo de que a lei e os profetas era um sistema rígido de ‘regras sobre regras’. Porque não quiseram dar ouvidos à palavra de Deus que é descanso e refrigério ( Is 28:12 ), diziam que a lei era regra sobre regra, mandamento sobre mandamento ( Is 28:10 ).

Bastava ouvir (fé) que receberiam refrigério, porém, ao rejeitarem a Deus, abraçaram somente um volume acentuado de regras e mandamentos que os enlaçaria, deixando-os presos “Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem e se enlacem, e sejam presos” ( Is 28:13 ).

Após perceber que a palavra de Deus é descanso (fé) e não regras (obras), é necessário compreender a dimensão desta verdade.

A lei também estipulou que, ‘no estarem quietos’ estaria a vitória do povo, sem apontar um sistema de normas “Moisés, porém, disse ao povo: Não temais; estai quietos, e vede o livramento do SENHOR, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais os tornareis a ver” ( Ex 14:13 ); “Porque o Egito os ajudará em vão, e para nenhum fim; por isso clamei acerca disto: No estarem quietos será a sua força” ( Is 30:7 ).

Observe que a mensagem da lei e dos profetas é única: estai quietos (fé)!

Jesus demonstrou que a sua missão está intimamente ligada à lei e as mensagens dos profetas, porém o cumprir a lei não se vincula a um sistema legalista ou formalista, e sim, ao refrigério e descanso prometido pelas Escrituras (lei e profetas).

Em nossos dias, ainda há muitos que pensam que Cristo veio cumprir os ritos e cerimoniais presentes na lei mosaica. É certo que Cristo, como judeu, cumpriu com os cerimoniais da lei, porém, vale salientar que a sua missão foi além de ‘regras sobre regras’.

Ele não revogou (anulou) a lei e nem o que foi dito pelos profetas, antes os cumpriu (estabeleceu), destruindo a parede de separação, a barreira de inimizade, ao reconciliar ambos (judeus e gentios) em um só corpo ( Ef 2:13 -18).

Cristo veio cumprir, ou seja, efetivamente Ele veio dar cumprimento à Lei e os Profetas. Porém, quando se lê que Ele veio cumprir a lei, entenda que Ele veio cumprir perfeitamente tanto a lei quanto os profetas que dizem: “…em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

Este foi o tema da mensagem dos profetas: “Assim diz o Senhor DEUS: Eis que levantarei a minha mão para os gentios, e ante os povos arvorarei a minha bandeira…” ( Is 49:22 ). De igual modo a lei expressa: “Regozijai-vos, ó gentios, com o seu povo…” ( Dt 22:43 ).

Cristo, ‘Luz para os gentios’ é o cumprimento da lei e dos profetas, cumprimento que vai além de ‘regras sobre regras’, compreensão dos religiosos à época. Cristo cumpriu a lei e os profetas por ser o evangelho da paz “a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto”, e por Cristo ambos (judeus e gentios) obtiveram acesso ao Pai em um mesmo Espírito, por meio da fé “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” ( At 2:39 ).

Cristo é o cumprimento da palavra que disse: a virgem conceberá. Ele é o cumprimento da palavra que diz: ‘E, tu Belém, Efrata…’. O livro de Mateus aplica-se em demonstrar que Jesus é o cumprimento da lei e dos profetas, além dele observar as ordenanças da lei como: circuncisão, páscoa, festas, etc.

Guardar o sábado não é o cumprimento da lei. Observar dias, festas e luas não é o cumprimento da lei. Não tocar, não provar e não manusear não é o cumprimento da lei. Abster-se de alimentos não é o cumprimento da lei, pois o cumprimento da lei é Cristo, que estabeleceu a fé como único elemento de acesso à justiça de Deus.

Em Cristo cumpre-se a lei que não faz acepção de pessoas, onde o natural e o estrangeiro é justificado por Deus. Deus é um só que justifica a todos (judeus e gentios) que creem em Cristo.

Por meio da fé cumpre-se o que foi dito por intermédio da lei e dos profetas. É Deus quem justifica gregos e judeus somente pela fé em Cristo!

Há aqueles que afirmam não serem legalistas, mas que apontam a necessidade de normas e leis morais. Apontam o Antigo Testamento como sendo um conjunto de regras válidas à vida e práticas cristãs. Por que pensam assim? Porque além de não compreender o que Jesus disse acerca de cumprir a lei e os profetas, não compreendem o objetivo do Sermão do Monte.

No Sermão do Monte Jesus expôs a lei? Por certo que não!

Observe que após demonstrar a bem-aventurança dos seus discípulos ( Mt 5:11 -12), Jesus apresenta aos seguidores de Moisés o inatingível espírito da lei. O povo estava acostumado a ouvir a lei no seguinte tom: “Não matarás”, Jesus, porém lhes disse: “…qualquer que sem motivo, se encolerizar contra o seu irmão, estará sujeito a julgamento…” ( Mt 5:21 -22).

Jesus estava estabelecendo um novo sistema de normas e regras? Não! Ele estava demonstrando que jamais o povo seria bem-aventurado através da lei mosaica, pois os seus maiores seguidores, os escribas e fariseus, estavam aquém do exigido por Deus.

Se os fariseus e escribas, homens que o povo consideravam cumpridores da lei, não haviam alcançado a justiça de Deus, como o povo alcançaria justiça superior a dos religiosos mais severos? ( Mt 5:20 ).

Ao apresentar o espírito inatingível da lei, Jesus demonstrou ao povo que eles não faziam nada de mais quando seguiam as regras da lei, pois os gentios e os cobradores de impostos faziam as mesmas coisas ( Mt 5:46 -47).

Ou seja, Jesus demonstrou através do Sermão do Monte que aquilo que buscavam na lei, que tanto veneravam, nada lhes acrescentou, visto que, tudo que faziam, os demais homens também faziam o mesmo “Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei” ( Rm 2:14 ).

Enquanto os judeus precisavam da lei para fazer o bem e amar o próximo, os gentios e pecadores faziam o mesmo sem as regras formais de um código. Naturalmente os publicanos e pecadores faziam as coisas prescritas na lei: amavam e faziam o bem aos seus semelhantes ( Lc 6:33 ).

Qual a jactância dos judeus em apoiarem-se na lei como sendo melhores que os outros povos? Por certo, para serem melhores deveriam fazer algo de diferente, como o dar a outra face a quem ferir uma das faces. Por certo seriam melhores, caso deixassem levar a túnica aquele que pedisse a capa “E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo” ( Lc 33:34 ).

Se nem mesmo eles (religiosos judeus) cumpriram a lei, pois temos o testemunho que diz “E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé” ( Gl 3:11 ), que dirá perseguirem o espírito da lei? “Pois qualquer que guardar toda a lei, mas tropeças em um só ponto, torna-se culpado de todos” ( Tg 2:10 ).

No final do Sermão do Monte Jesus aponta o caminho sobre modo excelente: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ); “Está é a porta do Senhor pela qual os justos entrarão” ( Sl 118:20 ).

Através do Sermão do Monte Jesus contesta o sistema religioso dos escribas e fariseus, a falibilidade de suas pretensões na lei e apresentou-se como a porta pela qual os homens devem entrar.

Todos que ouvissem as palavras de Jesus e as praticassem, seriam semelhantes ao homem que construiu a sua casa sobre a rocha ( Mt 7:24 ).

Agora, é preciso comparar a exigência da lei e a exigência de Cristo:

“Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 );

“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha” ( Mt 7:24 ).

 

Obediência sem Legalismo

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele”
( Jo 14:21 )

 

Quais são as regras ou quesitos dos mandamentos de Cristo? Como servir e obedecer a Cristo?

Quando se fala em obediência, a primeira relação que se faz é com regras, mandamentos, ordenanças, etc.

Jesus declarou: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama” ( Jo 14:21 ). Mas, quais são os seus mandamentos?

Ao falar dos mandamentos de Cristo, João disse: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são penosos” ( 1Jo 5:3 ).

Percebe-se através deste versículo que o amor de Deus é expresso em seus mandamentos. Que os seus mandamentos não são penosos, ou seja, que não envolve trabalho.

Ora, se o amor de Deus é expresso em seus mandamentos, e Cristo é o amor de Deus revelado aos homens, segue-se que cumprir os mandamentos de Deus é crer no nome do seu Filho “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

Quem ouve a mensagem de Cristo e crê, cumpre cabalmente o mandamento de Deus. De igual modo, crer em Cristo, ou cumprir o mandamento de Deus é designado também de obediência: “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

O que é obediência à verdade se não a fé na ‘fé que uma vez foi dada aos santos’? Por intermédio da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, o homem é de novo criado, e passa a ser uma nova criatura, em verdadeira justiça e santidade. A nova criatura gerada em Cristo é eleita na santificação do Espírito para a obediência ( 1Pe 1:2 ).

A falta de fé caracteriza a desobediência “Visto, pois, que resta que alguns entrem nele, e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência” ( Hb 4:6 ).

Qualquer ideia contra o evangelho de Cristo deve ser combatido, levando o homem a obediência, que é crer “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo; E estando prontos para vingar toda a desobediência, quando for cumprida a vossa obediência” ( 2Co 10:5 -6).

A obediência da fé é o mesmo que crer no evangelho. Somente pela fé (obediência) é possível cumprir o mandamento do Deus Eterno “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ); “Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome” ( Rm 1:5 ).

A obediência a Cristo remove todo e qualquer fardo, pois não demanda esforços ou realizações pessoais. Comparado as ordenanças dos homens os mandamentos de Deus são suaves e leves ( Mt 11:30 ).

Por que o homem não entrará no reino dos céus? “Por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu mando?” ( Lc 6:46 ). É preciso guardar algum dia da semana (sábado ou domingo) para fazer o que Jesus manda? Há algum tipo de comida que torna o homem aceitável diante de Deus? É preciso ir a escola dominical? Etc.

Sabemos que nem o sábado e nem o domingo é o dia do Senhor, visto que o dia do Senhor refere-se ao dia do juízo ( Jl 2:31 ). Que tipo de comida é agradável? “Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus; se comemos, nada temos de mais, e se não comemos, nada nos falta” ( 1Co 8:8 ).

Se o que Jesus manda não refere-se a dias, comidas, festas, etc, qual é o seu mandamento? Por que muitos que dizem Senhor, Senhor não entrarão no reino dos céus? Porque não fizeram o que Jesus ordenou, que é: “NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” ( Jo 14:1 ).

Uma multidão que seguia a Cristo perguntou: “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” (João 6: 28). Todos os pretensiosos que procuram algo para fazer, como fizeram os ouvintes da lei e a multidão que seguiam a Cristo, não encontrarão descanso “Tudo o que o Senhor falou, faremos” ( Ex 19:8 ).

O jovem rico também queria fazer algo para ter direito a salvação, porém, não conseguiu realizar.

A resposta de Jesus para quem quer executar a obra de Deus é: “A obra de Deus é esta: Crede naquele que Ele enviou” ( Jo 6: 29 ).

Aquele que crê cumpre os mandamentos de Deus, conforme alertou o apóstolo João: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Em primeiro lugar é preciso ao homem crer em Cristo, e, então, o amor ao próximo será eficaz, pois o amor deve ser segundo o mandamento que diz: creia no nome de seu Filho Jesus.

Quando o homem crê em Cristo, Deus realiza a Sua obra, criando o novo homem em verdadeira justiça e santidade. A obra de Deus somente Ele pode realizar, pois refere-se a nova criação em Cristo.

A obra de Deus é a circuncisão não feita por mãos, a circuncisão de Cristo, que é o despojar da carne, ou seja, no despojar do velho homem ( Cl 2:11 ). É possível ao homem despojar-se do corpo da carne, se tal circuncisão é feita sem o auxilio de mãos?

De igual modo, o que Deus pediu ao povo através da lei foi que circuncidassem o coração. De que modo é possível circuncidar o coração, senão pela fé? As exigências da lei são idênticas as exigências do evangelho, como se lê: “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas o SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao SENHOR teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, Que guardes os mandamentos do SENHOR, e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem? (…) Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:12 -16).

Aqueles que ouviam a lei e buscaram justificar-se por meio das obras da lei pereceram, porém, aqueles que ouviram a lei, e creram que somente através da circuncisão do prepúcio do coração, obra realizável somente por Deus pela fé, estes alcançaram um novo coração e um novo espírito (nova vida) ( Sl 51:10 ).

Aqueles que obedeceram o mandamento do Senhor, que é: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração”, fizeram o que o Senhor pediu! Estes são os que temem ao Senhor! Estes passaram a andar os caminhos de Deus! Através do novo coração alcançado após a circuncisão passaram a amar e servir o Senhor de todo o coração, e com toda a sua alma, visto que, com o coração herdado de Adão é impossível amar a Deus, pois amar a Deus é cumprir os seus mandamentos.

Todos os mandamentos da lei seriam cumpridos quando os homens circuncidassem os seus corações pela fé.

Os mandamento de Deus é para o bem do homem e revelam o seu amor! Os mandamentos não são penosos, pois a obra pertence ao Senhor! “… os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem? (…) Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração…” ( Dt 10:12 -16). Compare: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são penosos” ( 1Jo 5:3 ).

O amor de Deus é expresso em seus mandamentos, para o bem do homem. Sem realizações, obras, serviços, trabalhos penosos, pois é Deus quem fará para o homem todas as suas obras através da circuncisão “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ).

Se a obediência é fé na palavra de Deus, qual a utilidade da legalidade? Quem busca salvar-se por intermédio das obras da lei, que é o caso dos legalistas (alguém que usa a lei de forma a ter direito à salvação), fadado está à perdição.

Os puritanos discursam condenando os pensadores legalistas, porém, por não compreenderem que a obediência equivale a fé, alegam que é preciso aos cristãos seguirem quesitos morais da lei a título de praticar os mandamentos de Deus.

Os puritanos compreendem que ‘praticar seus mandamentos’ esta relacionado as escolhas morais norteadas pela lei. Isto porque há mais de um mandamento a se cumprir. Mas, que diz o verso seguinte: “Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas” ( Mt 22:14 ). Quem terá direito a vida, se não os que crerem?

Os escritores falam de ‘mandamentos’ no plural porque é preciso crer em Cristo e amar, segundo o seu mandamento, ou seja, é preciso guardar os seus mandamentos “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado” ( 1Jo 3:23 -24).

Os mandamentos equivalem a crer em Cristo e amar, segundo a fé do evangelho.

Os puritanos dizem que não utilizam a lei para serem salvos, porém, alegam que necessitam da lei porque ela os faz consciente das suas necessidades. O que ainda falta a quem recebeu a Cristo?

Dizem guardar a lei de modo que, mostram a si mesmos que já são salvos. Guardam a Lei para serem obedientes a Cristo, demonstrando o quanto o amam. Esquecem que amar é obedecer! Esquecem que obedecer é crer! Não compreendem o que é obedecer.

Para os puritanos obediência é expressar o amor de Cristo a Cristo guardando a Lei, pois entendem que através do estudar e observar a lei o cristão é levado a boas obras. Não compreendem que o novo homem é criado para as boas obras, porém, é Deus quem as preparou e faz ( Ef 2:10 ; Is 26:12 ).

Eles entendem que o Sermão do Monte é uma nova roupagem dos Dez Mandamentos de Deus. Pecam em dizer que é preciso ao homem ‘… esforçar para guardar a Lei de uma maneira santa por meio de Cristo’.

“Nós devemos nos esforçar para guardar a Lei de uma maneira santa por meio de Cristo” Qual a diferença entre legalismo e obediência, C. Matthew McMahon, tradução de Josias Cardoso, coletado no Site Monergismo.

Enquanto a Bíblia demonstra que o pecado decorre da natureza de Adão, visto que, bem antes da lei estava o pecado no mundo, e por ele a morte, consideram que só é possível saber o que é pecado através da lei.

“Nós precisamos da Lei para mostrar o nosso pecado. Nós precisamos da Lei para nos dirigir à justiça. Nós precisamos dos mandamentos de Cristo que estão distribuídos por toda a Escritura para alcançar nossa santificação e santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12:14). Salvação não depende de guardar a Lei, pelo contrário, nossa salvação é vista em nós quando guardamos a Lei” Qual a diferença entre legalismo e obediência, C. Matthew McMahon, tradução de Josias Cardoso, coletado no Site Monergismo.

O que percebe-se através das declarações de McMahon é que ele desconhece o que é pecado. Se ele soubesse que o pecado decorre da natureza decaída de Adão, por certo veria que a lei somente realça a impossibilidade do homem de salvar-se a si mesmo através de boas ações.

Se ele soubesse que é Cristo que livra o homem da natureza (pecado) de Adão, e que quem está em Cristo é livre do pecado, não estaria a procura do que é pecado. É Cristo que nos justifica, e não a lei! Como é possível a lei dirigir alguém à justiça?

Cristo é a paz e a santificação daqueles que creem, e por isso, quem segue a paz, que é Cristo, e quem segue a santificação, que também é Cristo, verá a Deus. O mandamento para a santificação, ou o seguir a Cristo é crer naquele que Deus enviou ( Hb 12:14) “Foge também dos desejos da mocidade; e segue a justiça, a fé, o amor, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” ( 2Tm 2:22 ).

Quem quer mostrar a salvação através da lei esquece que os nascidos do Espírito são como os caminhos do vento e como os ossos que formam no ventre da grávida, pois a salvação é obra de Deus, que faz todas as coisas ( Ec 11:2 ; Jo 3:8 ; Is 26:12 ).

Os puritanos esquecem o protesto de Paulo: “Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado” ( Rm 14:23 ).

Quem creu em Cristo e ama o próximo cumpriu a lei, pois o cumprimento da lei é o amor ( Rm 13:8 -10 ; 1Jo 3:23 -24). Para os que querem guia-se pela lei, Paulo fala para rejeitar as obras das trevas, pois os que são filhos da luz, deve vestir-se das armas da luz, que é o amor ( Rm 13:12 ).

Revesti-vos de Cristo, sem o cuidado das obras da lei que é segundo a carne e as suas concupiscências. Tudo o que o velho homem criado em Adão faz é pecado, pois é segundo a carne. Mas, tudo o que o novo homem, criado em Cristo (último Adão) faz é segundo a justiça, pois o novo homem existe por fé ( Rm 14:23 ).

O justo viverá da fé, e tudo aquilo que o justo faz é de fé! Ou seja, se viveis em Espírito, andai também em Espírito ( Gl 5:25 ), pois contra você não há lei ( Gl 5:23 ).