Artigos Teológicos

A síntese joanina e a questão da fé e obras

A questão da fé e obras em Paulo e Tiago, frequentemente interpretada como antagônica, ganha maior clareza quando examinada à luz da síntese joanina. Por essa perspectiva, percebe-se que ambos não se contradizem, mas enfatizam aspectos distintos do mesmo evangelho, dirigindo-se a públicos também distintos e enfrentando problemas específicos em cada contexto.


A síntese joanina e a questão da fé e obras: João como mediador hermenêutico entre Paulo e Tiago

Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.

Resumo

A relação entre fé e obras em Tiago 2:14–26 constitui um dos impasses hermenêuticos mais persistentes da exegese neotestamentária. Desde Lutero, a tradição interpretativa tendeu a ler a perícope sob o prisma de uma tensão com Paulo — ora acentuando essa oposição, como em Dibelius, ora procurando mitigá-la por meio de distinções conceituais nem sempre suficientes, como em Calvino e Moo. Este artigo propõe que a superação do aparente impasse entre Paulo e Tiago requer três movimentos hermenêuticos articulados: primeiro, a identificação precisa dos distintos públicos-alvo e dos contextos polêmicos enfrentados por cada autor; segundo, a reinterpretação do referente semântico de “obras” em Tiago à luz da própria epístola; e, terceiro, a adoção do Evangelho e das Epístolas de João como mediação hermenêutica, uma vez que os escritos joaninos fornecem definições fundamentais de “amor”, “obra” e “mandamento”, frequentemente ausentes no debate tradicional. A tese central sustenta que, em João, o amor não é apresentado como mero sentimento ou disposição afetiva, mas como sujeição concreta ao mandamento de Deus. Esse amor manifesta-se como obra essencial daquele que se faz servo. Na nova aliança, o mandamento de Deus é crer em Cristo, e essa é a obra exigida por Deus: “que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 João 3:23); “a obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29). Desse modo, a obra requerida por Tiago deve ser compreendida como a obra própria da fé — isto é, a obediência ao mandamento divino revelado no evangelho —, e não como um conjunto autônomo de ações caritativas tomadas como fundamento de justificação. Paulo, por sua vez, não condena a obediência da fé, mas exclusivamente as obras da lei mosaica quando reivindicadas como base para a justificação. Conclui-se, portanto, que Paulo e Tiago não se contradizem. Eles escrevem a públicos distintos, enfrentam desvios distintos e refutam erros distintos. Contudo, ambos convergem na mesma lógica evangélica: o homem é justificado pela obediência ao mandamento de Deus, cujo conteúdo, na nova aliança, é crer no Filho enviado. Assim, João oferece a chave hermenêutica capaz de harmonizar a tensão aparente entre fé e obras, demonstrando que a fé verdadeira não é inoperante, pois sua obra essencial é a obediência ao evangelho de Cristo.

1. Introdução

A tensão entre Tiago 2:24 — “o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” — e Romanos 3:28 — “o homem é justificado pela fé sem as obras da lei” — atravessa a história do cristianismo ocidental como uma fratura hermenêutica que resistiu às sucessivas tentativas de resolução. Martinho Lutero a acentuou ao classificar Tiago como uma “epístola de palha”. João Calvino procurou mitigá-la por meio de uma distinção de planos: Paulo trataria da justificação diante de Deus, enquanto Tiago se ocuparia da demonstração da fé diante dos homens. Martin Dibelius, por sua vez, aprofundou a tensão ao interpretar Tiago como parênese ética judaico-helenística, desprovida de uma estrutura cristológica determinante. Já exegetas modernos, como Douglas Moo e Luke Timothy Johnson, propõem harmonizações mais equilibradas, mas ainda preservam um pressuposto decisivo: o de que as “obras” em Tiago designam, fundamentalmente, ações éticas ou caritativas.

Este artigo propõe que o impasse é, antes de tudo, de natureza semântica e hermenêutica. Ele decorre, por um lado, da identificação imprecisa do referente de “obras” (erga) em Tiago 2 e, por outro, da ausência de um mediador hermenêutico capaz de esclarecer os termos centrais do debate. Esse mediador encontra-se no corpus joanino — o Evangelho de João e as três Epístolas —, no qual se oferecem definições fundamentais de amor, obra e mandamento, categorias frequentemente pressupostas, mas raramente definidas com rigor na discussão tradicional sobre Paulo e Tiago.

A hipótese aqui defendida é que João fornece a chave conceitual para superar o aparente conflito entre os dois autores. Em João, o amor não é reduzido a sentimento, disposição interior ou mera ação filantrópica, mas é definido como obediência ao mandamento de Deus. Esse mandamento, na nova aliança, consiste em crer em Cristo, o Filho enviado pelo Pai. Consequentemente, a obra exigida por Deus não é um conjunto autônomo de práticas morais tomadas como fundamento de justificação, mas a própria obediência da fé: crer naquele que Deus enviou.

A partir dessa mediação joanina, torna-se possível reinterpretar Tiago 2 sem opô-lo a Paulo e sem diluir a força de sua afirmação. Paulo combate as obras da lei mosaica quando reivindicadas como fundamento da justificação; Tiago combate uma confissão inoperante, isto é, uma fé meramente verbal, incapaz de sujeitar-se ao mandamento de Deus. Ambos, portanto, não defendem sistemas concorrentes de justificação, mas enfrentam distorções distintas do evangelho.

O argumento se desenvolve em seis movimentos principais. A seção 2 reconstrói o contexto polêmico de Paulo e demonstra que suas “obras” designam as obras da lei mosaica, não ações éticas em sentido genérico. A seção 3 reconstrói o contexto polêmico de Tiago e sustenta que seu problema é doutrinário, não meramente comportamental. A seção 4 articula a definição joanina de amor como obediência ao mandamento, identificando esse mandamento com a fé em Cristo. A seção 5 reinterpreta “obras” em Tiago à luz dessa definição joanina. A seção 6 examina posições representativas da tradição exegética à luz da tese proposta. Por fim, a seção 7 apresenta a síntese joanina como solução hermenêutica para o aparente impasse entre Paulo e Tiago, antes de a conclusão reunir os principais achados do percurso argumentativo.

2. Paulo e a “lei das obras”: o contexto polêmico da lei mosaica

2.1 O alvo específico de Paulo: os judaizantes

Para compreender o que Paulo entende por “obras”, é indispensável identificar o contexto polêmico em que ele argumenta. Nas epístolas aos Romanos e aos Gálatas — e, em parte, também em Colossenses —, Paulo enfrenta a pressão judaizante exercida por grupos que buscavam submeter os cristãos, especialmente os gentios, a elementos distintivos da lei mosaica. Circuncisão, observância de dias, prescrições alimentares, genealogias e práticas rituais eram reivindicadas como marcas necessárias de pertencimento ao povo de Deus e, em alguns casos, como condições para a justificação.

O episódio de Antioquia, narrado em Gálatas 2:12–14, ilustra com clareza essa tensão. Pedro, que antes comia com os gentios, passou a retrair-se diante da chegada de alguns da parte de Tiago, temendo os da circuncisão. Para Paulo, essa conduta comprometia a “verdade do evangelho”, pois reintroduzia uma distinção religiosa que Cristo havia superado. De modo semelhante, em Filipenses 3:2–6, Paulo denuncia os judaizantes com severidade, chamando-os de “cães” e “maus obreiros”, ao mesmo tempo em que enumera os privilégios que ele próprio possuía “segundo a carne”: circuncisão ao oitavo dia, linhagem de Israel, tribo de Benjamim, condição de hebreu de hebreus, farisaísmo quanto à lei e zelo religioso. Tudo isso, porém, não constituía a justiça que procede de Deus.

As “obras” que Paulo rejeita, portanto, possuem nome e conteúdo específicos. Em Colossenses 2:16–22, aparecem associadas a comida, bebida, dias de festa, lua nova, sábados e prescrições como “não toques, não proves, não manuseies”. Em Gálatas 4:10, o apóstolo censura a observância de “dias, meses, tempos e anos”. Em Gálatas 5:2–4, adverte que, se os gálatas se deixassem circuncidar como exigência religiosa, Cristo de nada lhes aproveitaria. Em Tito 3:9, ordena que se evitem questões néscias, genealogias, contendas e debates acerca da lei.

Esse campo semântico é coerente e delimitado. Paulo não está condenando ações éticas, misericordiosas ou caritativas em sentido genérico. O alvo de sua crítica é o uso da lei mosaica — com seus marcadores rituais, identitários e normativos — como fundamento de justiça diante de Deus. Portanto, quando Paulo afirma que o homem é justificado pela fé “sem as obras da lei” (Romanos 3:28), não está opondo fé e obediência, nem fé e toda forma de ação; está opondo o evangelho de Cristo ao regime mosaico quando reivindicado como caminho de justificação.

2.2 A distinção paulina entre lei da fé e lei das obras

Romanos 3:27 fornece uma chave estrutural para compreender o pensamento paulino: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé”. Paulo não contrapõe simplesmente crer e agir, como se a fé anulasse a obra. A oposição é entre dois regimes: a “lei das obras” e a “lei da fé”; ambos envolvem obediência, mas diferem quanto ao fundamento, ao conteúdo e à lógica da justificação.

A “lei das obras” designa o regime no qual o homem busca estabelecer sua justiça mediante a observância da lei mosaica. Trata-se de uma lógica que preserva a jactância, pois permite ao homem gloriar-se em seus privilégios religiosos, em sua identidade étnica, em sua circuncisão, em sua observância ritual ou em seu desempenho diante da Torah. A “lei da fé”, por sua vez, designa a ordem evangélica na qual a justiça de Deus é recebida mediante a fé em Cristo. Ela exclui a jactância porque desloca o fundamento da justificação através dos pressupostos da lei para a obra de Deus realizada em Cristo e anunciada no evangelho.

Isso não significa que a “lei da fé” dispense a obra. Ao contrário, ela exige uma obediência específica: a obediência ao evangelho, que constitui, em si mesma, a obra própria da fé. Essa obediência não consiste em retornar às prescrições mosaicas como fundamento de justiça, mas em submeter-se ao mandamento de Deus revelado em Cristo. Por isso, Paulo pode falar da “obediência da fé” (Romanos 1:5; 16:26), expressão que impede a leitura da fé como mera adesão intelectual ou como crença desvinculada de sujeição ao evangelho.

Nesse ponto, é relevante observar que o substantivo grego pistis pode aparecer em Paulo não apenas como ato subjetivo de crer, mas também como a realidade objetiva da fé anunciada, isto é, a mensagem, doutrina ou ordem evangélica agora revelada. Em Gálatas 3:23, Paulo escreve: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar”. A fé que “veio” não é simplesmente a capacidade psicológica de crer, pois os antigos já criam em Deus; trata-se da manifestação histórica do evangelho em Cristo, o autor e consumador da fé.

O mesmo raciocínio aparece em Gálatas 3:8, quando Paulo afirma que a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, “anunciou primeiro o evangelho a Abraão”. A justificação pela fé, portanto, não é uma ruptura com a promessa feita a Abraão, mas seu cumprimento em Cristo. Crer, em Paulo, é obedecer ao mandamento do evangelho que proclama Cristo como Senhor e Salvador. Assim, a fé não se opõe à obra exigida por Deus; opõe-se às obras da lei mosaica quando convertidas em fundamento de justificação.

Desse modo, a crítica paulina às “obras” deve ser lida dentro de seu próprio horizonte polêmico. Paulo não rejeita a obra da fé, nem a obediência ao mandamento divino; rejeita a pretensão judaizante de fazer da lei mosaica o caminho da justiça. Sua oposição não é entre fé e obras em sentido absoluto, mas entre dois fundamentos de justificação: de um lado, a justiça buscada pela lei das obras; de outro, a justiça recebida pela lei da fé, isto é, pela submissão ao evangelho de Cristo.

3. Tiago e a “fé morta”: o contexto polêmico da fé incompleta

3.1 Os destinatários e o problema doutrinário

Tiago escreve “às doze tribos que estão na dispersão” (Tiago 1:1), expressão que designa destinatários de matriz judaica situados na diáspora. Diferentemente do contexto paulino em Romanos e Gálatas, não há, nessa epístola, discussão sobre a imposição aos cristãos de origem gentílica de práticas como circuncisão, observância de sábados, genealogias, leis alimentares ou qualquer outro elemento distintivo da lei mosaica como condição para a justificação. O problema enfrentado por Tiago é de outra ordem: uma confissão insuficiente de alguns de seus destinatários, limitada ao monoteísmo, mas sem adesão plena ao mandamento cristológico do evangelho.

A prova textual decisiva encontra-se em Tiago 2:19: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem”. O argumento é preciso: a crença na unidade divina, essência da fé judaica, é correta, mas insuficiente. Os demônios também reconhecem a existência do Deus único e, ainda assim, tal crença de nada lhes aproveita. Portanto, a deficiência denunciada por Tiago não pode ser reduzida a uma falha moral ou comportamental, como se o problema da “fé sem obras” fosse simplesmente a ausência de misericórdia para com os pobres. Os demônios não são censurados por falta de caridade, mas por sua condição de rebelião contra Deus.

A ironia teológica de Tiago aponta, assim, para algo mais profundo. A confissão de que Deus é um, quando separada da obediência ao mandamento de crer em Cristo, permanece no mesmo nível da crença demoníaca: reconhece uma verdade, mas não se sujeita à verdade revelada no evangelho. O problema, portanto, não é a ausência de obras caritativas como prática cristã; é a ausência da obra que Deus exige, isto é, a obediência ao mandamento do evangelho. Em Tiago, essa obediência se expressa em crer em Cristo, o Senhor da glória, sem acepção de pessoas.

3.2 Ortopraxia ou ortodoxia? O diagnóstico do problema

A interpretação dominante, representada em diversos comentários pastorais e acadêmicos, costuma afirmar que o problema dos destinatários de Tiago não era a ortodoxia, mas a ortopraxia; isto é, não seria uma questão de doutrina incorreta, mas de prática incorreta. Nessa leitura, os interlocutores de Tiago possuiriam uma fé doutrinariamente adequada, mas falhariam em traduzi-la em comportamento ético, especialmente em ações de socorro aos economicamente menos favorecidos. O presente artigo contesta essa pressuposição.

A evidência textual aponta em direção diversa. Em Tiago 2:19, os interlocutores não são descritos como crentes em Cristo que negligenciaram a prática da caridade, mas como pessoas que se apoiam na confissão da unidade de Deus. A formulação “tu crês que há um só Deus” remete ao núcleo da confissão monoteísta judaica, não necessariamente à fé cristológica plena. Tiago, portanto, não confronta apenas uma fé verdadeira sem prática; confronta uma fé incompleta, que permanece aquém da obediência ao evangelho de Cristo.

Esse diagnóstico já havia sido preparado em Tiago 1:22–25. O “ouvinte esquecido” não é simplesmente alguém que pratica pouca caridade, mas alguém que ouve a palavra e não a cumpre: “sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tiago 1:22). A oposição fundamental não é entre ouvir doutrina e realizar filantropia, mas entre ouvir a palavra e sujeitar-se a ela. A palavra que deve ser cumprida é a “lei perfeita da liberdade” (Tiago 1:25), isto é, a ordem evangélica que liberta o homem da antiga condição sob a lei e o convoca à obediência da fé.

Esse padrão retoma a linguagem profética do Antigo Testamento. Em Ezequiel 33:31–32, Deus descreve aqueles que se assentam diante do profeta como povo, ouvem as suas palavras, mas não as põem por obra; honram com a boca, mas o coração permanece preso aos seus próprios interesses. A estrutura é a mesma: há audição, há linguagem religiosa, há aparência de recepção da palavra, mas falta a execução daquilo que Deus ordenou.

Tiago se move nesse mesmo horizonte profético. Sua crítica não recai sobre uma fé cristológica verdadeira que apenas carece de obras sociais, mas sobre uma declaração religiosa que não se converte em sujeição efetiva ao mandamento de Deus. A “fé morta”, portanto, não é fé em Cristo sem caridade; é confissão religiosa sem obediência ao evangelho. Ela permanece morta porque não realiza a obra essencial da fé: crer naquele que Deus enviou e sujeitar-se à palavra implantada, poderosa para salvar a alma.

4. O corpus joanino como chave hermenêutica: amor, mandamento e obra

4.1 A definição joanina de amor: obediência, não mero sentimento

O Evangelho de João e as Epístolas joaninas oferecem um conjunto de definições que a hermenêutica do debate entre Paulo e Tiago raramente mobilizou com a devida centralidade. Em 1 João 5:3, o apóstolo afirma: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados”. A declaração não possui caráter meramente circunstancial; ela funciona como definição. O amor de Deus, segundo João, é reconhecido na obediência aos mandamentos divinos.

A mesma estrutura aparece em 2 João 1:6: “E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele”. O verbo “andar” (peripateō) denota modo de vida, conduta e sujeição prática, não simples disposição afetiva. De igual modo, em João 14:15, 21 e 23–24, Jesus articula sistematicamente amor e obediência: “Se me amais, guardai os meus mandamentos”; “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama”; “Se alguém me ama, guardará a minha palavra”. A estrutura é inequívoca: amar implica guardar; não guardar revela ausência de amor.

Essa definição possui raízes profundas no Antigo Testamento, que João absorve e reelabora dentro de sua própria linguagem. Deuteronômio 10:12–13 estabelece a ligação entre temer, andar, amar, servir e guardar os mandamentos: “Que é que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que temas o Senhor teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, para guardardes os mandamentos do Senhor”. Nessa moldura pactual, amar a Deus não é mera afeição interior, mas sujeição obediente, serviço e fidelidade ao mandamento. A hermenêutica moderna, frequentemente condicionada por categorias sentimentais de amor, tende a obscurecer essa dimensão normativa e servil da relação entre Deus e o seu povo.

4.2 A análise linguística do ágapē joanino

Um dado linguístico relevante confirma a necessidade dessa leitura. Conforme observam Gerhard Kittel e Gerhard Friedrich, o termo grego ágapē, na literatura grega anterior e exterior ao Novo Testamento, não possui a densidade teológica que viria a adquirir no uso cristão. Seus sentidos podiam variar entre preferir, estimar, acolher, honrar ou demonstrar consideração. O corpus joanino, porém, confere ao termo uma densidade própria: o amor passa a ser compreendido não apenas como afeição ou benevolência, mas como obediência ao mandamento de Deus.

Nesse sentido, João realiza uma qualificação teológica do vocabulário do amor. Em 1 João 2:3–4, 1 João 5:3 e 2 João 1:6, o amor é deslocado do campo da mera inclinação afetiva para o campo normativo da relação entre Deus e o homem. Amar é guardar os mandamentos; guardar os mandamentos é andar segundo a vontade daquele que ordena. O amor joanino, portanto, não pode ser reduzido à filantropia, à disposição emocional ou à solidariedade humana. Ele se estrutura como sujeição ao mandamento divino.

A relação senhor-servo fornece o substrato conceitual dessa leitura. Na ordem antiga, o servo era aquele que agia sob mando; sua obra não pertencia a si mesmo, mas ao seu senhor. João mobiliza essa lógica ao apresentar a vida diante de Deus como sujeição à palavra daquele que envia e daquele que ordena. João 6:28–29 é decisivo nesse ponto: “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou”. A pergunta da multidão — “que faremos para executarmos as obras de Deus?” — pressupõe a disposição de se colocar na condição de servo, pois a obra do servo consiste em realizar aquilo que o seu senhor requer. Nesse sentido, a resposta de Jesus redefine a obra exigida por Deus: crer naquele que ele enviou (João 6:29; Romanos 6:16). A resposta de Jesus redefine a obra exigida: crer naquele que Deus enviou.

Assim, no horizonte joanino, a obra fundamental do servo de Deus não é primeiramente ascética, ritual ou caritativa; é cristológica. A obra de Deus é crer em Cristo. Toda obediência posterior somente pode ser corretamente compreendida a partir dessa sujeição primeira ao mandamento do evangelho.

4.3 O mandamento primordial do evangelho

Qual é, então, o mandamento de Deus cujo cumprimento constitui amor? João o define com precisão: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 João 3:23). O mandamento primordial do evangelho é crer em Cristo. Não se trata, em primeiro lugar, de ação caritativa, ascese, rito ou observância legal, mas de sujeição ao testemunho que Deus deu acerca de seu Filho.

Essa identidade entre crer e obedecer ilumina a exortação de 1 João 3:18: “Não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”. Amar de palavra e de língua corresponde à religiosidade meramente verbal, isto é, à confissão que honra a Deus com os lábios, enquanto o coração permanece distante dele. O contraste, portanto, não é simplesmente entre palavras e ações éticas, mas entre confissão verbal vazia e obediência efetiva ao mandamento divino.

Na nova aliança, esse mandamento assume conteúdo cristológico: crer em Cristo conforme o testemunho de Deus. A obra em verdade é a sujeição à palavra revelada no Filho. Por isso, a exortação joanina não pode ser reduzida a um apelo genérico à prática da caridade; ela estabelece o princípio hermenêutico pelo qual amor, mandamento e obra se tornam categorias inseparáveis. Amar é obedecer; obedecer é guardar o mandamento; e o mandamento fundamental é crer naquele que Deus enviou.

Essa síntese joanina prepara a releitura de Tiago. Se João define a obra de Deus como crer em Cristo e o amor como obediência ao mandamento, então a “fé sem obras” denunciada por Tiago não deve ser lida imediatamente como fé cristológica sem filantropia, mas como confissão religiosa que permanece apartada do mandamento do evangelho. O corpus joanino, portanto, fornece a chave semântica que permite compreender a obra da fé não como acréscimo externo à fé, mas como sua própria obediência constitutiva.

5. A reinterpretação de “obras” em Tiago à luz do corpus joanino

5.1 A lei perfeita da liberdade e o fazedor da obra

Tiago 1:22–25 estabelece a moldura interpretativa indispensável para Tiago 2. O apóstolo exorta: “Mas sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos”. Em seguida, afirma que aquele que atenta para a “lei perfeita da liberdade” e nela persevera, “não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra”, será bem-aventurado no que realizar. Dois elementos merecem atenção.

Primeiro, a “lei perfeita da liberdade” não deve ser identificada com a lei mosaica enquanto regime de justificação. Em Paulo, a lei mosaica, quando tomada como fundamento de justiça, aparece associada à escravidão, como em Gálatas 4:24–25, onde Agar corresponde ao monte Sinai e “gera filhos para a escravidão”. A lei perfeita da liberdade, em Tiago, aponta para a ordem evangélica — a palavra implantada, poderosa para salvar a alma (Tiago 1:21), a lei de Cristo (Gl 6:2), o jugo suave daquele que concede descanso (Mateus 11:29–30). Trata-se da lei que liberta, não porque dispense obediência, mas porque conduz o homem à posição de servo, sujeitando-o ao mandamento vivificante do evangelho.

Segundo, o “fazedor da obra” não é simplesmente aquele que transforma uma doutrina correta em prática social, mas aquele que ouve a palavra – poderosa para salvar a alma – e se sujeita a ela. A oposição de Tiago não é entre audição doutrinária e filantropia, mas entre ouvir e obedecer. O “ouvinte esquecido” escuta a palavra, mas não a põe por obra (Ezequiel 33:31-32); o “fazedor da obra”, ao contrário, persevera na lei perfeita da liberdade. À luz de João 6:29 e 1 João 3:23, essa obra exigida pela ordem evangélica é crer em Cristo, isto é, obedecer ao mandamento que Deus deu acerca de seu Filho.

5.2 Tiago 2:14–17: a função argumentativa do exemplo

Tiago 2:14 pergunta: “Que aproveita, meus irmãos, se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura a fé pode salvá-lo?”. A questão não é meramente ética, mas soteriológica. Tiago não pergunta se uma fé sem assistência aos necessitados é socialmente deficiente, mas se semelhante fé pode salvar. O problema, portanto, está na natureza da fé professada. Em outros termos, de que aproveita confessar a existência do Deus único, se essa confissão não se converte em fé em Cristo, aquele que Deus enviou? (João 14:1; 1 Pedro 1:21).

O exemplo do irmão ou da irmã sem roupa e sem alimento cotidiano (Tiago 2:15–17) possui função argumentativa e analógica. Tiago demonstra que uma palavra sem realidade correspondente é vazia. Dizer “ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos” sem oferecer o necessário ao corpo é uma fala destituída de eficácia. Do mesmo modo, dizer “tenho fé” sem a obra correspondente à fé é uma declaração igualmente vazia.

A analogia, contudo, não define por si só o conteúdo teológico das “obras”. Ela ilustra a estrutura do problema: declaração sem realização, palavra sem efetividade, confissão sem obediência. O conteúdo das obras deve ser buscado no desenvolvimento maior do argumento, especialmente em Tiago 2:19, onde a fé criticada é explicitada como crença na unidade de Deus. Essa fé é correta enquanto confissão monoteísta, mas insuficiente enquanto permanece apartada do mandamento cristológico do evangelho.

Assim, o exemplo do necessitado não exige que se identifique imediatamente “obras” com assistência aos pobres como fundamento de justificação. Ele mostra que uma declaração destituída de seu cumprimento próprio é morta. No caso da fé, esse cumprimento próprio é a obediência ao mandamento de Deus; e, no horizonte da nova aliança, esse mandamento é crer naquele que Deus enviou.

5.3 Abraão e Raabe: obediência ao mandamento específico de Deus

Os exemplos veterotestamentários de Tiago 2:21–25 confirmam essa leitura. Abraão foi justificado pelas obras quando ofereceu Isaque sobre o altar. Essa obra não possui caráter caritativo, nem corresponde a uma ação moral comum. Considerada isoladamente da palavra divina, seria incompreensível. O que torna a ação de Abraão uma “obra” teologicamente relevante é precisamente sua relação com o mandamento de Deus: Deus ordenou, e Abraão obedeceu.

Por isso, Tiago afirma que “a fé cooperou com as suas obras e que, pelas obras, a fé foi aperfeiçoada” (Tiago 2:22). A fé de Abraão não foi aperfeiçoada porque lhe faltava um complemento moral externo, mas porque alcançou seu termo próprio na obediência. A obra não aparece como acréscimo autônomo à fé, mas como sua efetivação diante da palavra recebida. Abraão creu em Deus, e sua fé se consumou como sujeição ao mandamento divino.

Raabe fornece o mesmo padrão. Sua ação em favor dos espias decorre de uma convicção teológica previamente expressa: “O Senhor, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra” (Josué 2:11). A obra de Raabe não é mero gesto filantrópico ou altruísta; é expressão de uma fé que se sujeita ao Deus que se revelou. Ao receber os mensageiros e despedi-los por outro caminho, Raabe rompe com sua pertença anterior e se alinha ao povo da promessa.

A estrutura é idêntica nos dois casos: Deus fala ou se revela; o homem crê; e essa fé se manifesta como obediência àquilo que foi revelado. Abraão e Raabe são, portanto, exemplos de fé obediente, não de caridade ética tomada como fundamento de justificação. Ambos demonstram que a fé verdadeira não permanece como assentimento declaratório; ela atinge seu telos na sujeição ao mandamento divino.

No horizonte do evangelho, esse mandamento assume conteúdo cristológico. A obra que Deus requer é crer em Cristo. Por isso, Jesus afirma: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29). E, em Mateus 21:32, a censura recai justamente sobre os que não creram: “João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes; mas os publicanos e as meretrizes o creram”. Assim como Abraão e Raabe obedeceram à revelação que receberam, os destinatários de Tiago são chamados a ultrapassar a confissão monoteísta formal e sujeitar-se ao mandamento cristológico do evangelho.

Desse modo, “obras” em Tiago não deve ser reduzido a ações caritativas, embora estas possam decorrer da fé verdadeira. No argumento central da epístola, obra é a obediência que corresponde à palavra recebida. A fé morta é aquela que fala, mas não obedece; confessa, mas não se sujeita; reconhece Deus, mas não realiza a obra que Deus exige no evangelho: crer no Filho enviado.

6. Entendimentos divergentes: análise crítica

6.1 Lutero: o anacronismo hermenêutico

A avaliação de Lutero sobre Tiago — especialmente sua conhecida classificação da carta como “epístola de palha” — repousa sobre um deslocamento hermenêutico decisivo. Lutero leu a tensão entre Paulo e Tiago a partir do horizonte da controvérsia reformada contra o sistema de mérito sacramental romano, marcado por indulgências, penitências, satisfações e obras meritórias. Esse horizonte, porém, não pertence nem ao mundo de Paulo nem ao de Tiago. Ambos os autores escreveram séculos antes do desenvolvimento das estruturas teológicas e eclesiásticas que caracterizariam o catolicismo medieval.

A consequência dessa leitura é dupla. De um lado, Paulo passa a ser interpretado como se combatesse práticas devocionais meritórias que não pertenciam diretamente ao seu contexto polêmico original; de outro, Tiago passa a ser lido como se prescrevesse tais práticas ao afirmar que o homem é justificado pelas obras. O resultado é a produção de um conflito que nasce menos do texto apostólico em si e mais da projeção de debates posteriores sobre ele.

Quando se restaura o horizonte original, a tensão se dissolve em grande medida. Paulo combate a pretensão judaizante de fazer da lei mosaica fundamento de justificação; Tiago combate uma confissão religiosa incompleta, que permanece aquém da obediência ao mandamento do evangelho. A “epístola de palha”, portanto, não resulta de um defeito intrínseco da carta, mas de uma leitura condicionada por uma controvérsia posterior ao contexto apostólico.

6.2 Calvino: a distinção de planos e seus limites

Calvino propôs que Paulo trata da justificação diante de Deus (coram Deo) pela fé, enquanto Tiago trata da demonstração da fé diante dos homens (coram hominibus) pelas obras. Essa distinção possui mérito evidente: preserva a unidade canônica, evita a inferiorização de Tiago e impede que a epístola seja colocada em oposição direta ao evangelho paulino. Contudo, ela carrega um custo hermenêutico considerável: exige que o termo “justificação” opere com sentidos distintos nos dois autores.

O problema é que Tiago 2:14 formula a questão em termos explicitamente soteriológicos: “Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?”. A pergunta não é se tal fé pode convencer os homens, demonstrar piedade diante da comunidade ou produzir reconhecimento público. A pergunta é se tal fé pode salvar. Desse modo, reduzir o argumento de Tiago ao plano da demonstração horizontal enfraquece a verticalidade de sua preocupação.

A proposta deste artigo é mais econômica: não é necessário fazer “justificação” mudar substancialmente de sentido entre Paulo e Tiago. Basta reconhecer que “obras” possui referentes distintos em cada contexto polêmico. Em Paulo, as obras rejeitadas são as obras da lei mosaica reivindicadas como fundamento de justiça. Em Tiago, as obras exigidas dizem respeito à obediência que corresponde à palavra recebida, isto é, à sujeição ao mandamento divino. Assim, a harmonia entre Paulo e Tiago não depende de uma alteração do sentido de “justificar”, mas da identificação correta do conteúdo de “obras” em cada autor.

6.3 Dibelius: a redução parenética e seus limites

Martin Dibelius interpretou Tiago como uma composição parenética de matriz judaico-helenística, com fraca integração cristológica. Essa leitura influenciou de modo significativo a compreensão das “obras” em Tiago como ações éticas ou exortações morais genéricas. O limite dessa abordagem está no pressuposto metodológico de que a ausência de uma cristologia explicitamente desenvolvida implica ausência de conteúdo cristológico estruturante.

A epístola, porém, não deve ser avaliada apenas pelo volume de formulações cristológicas explícitas, mas pelo horizonte teológico que pressupõe. Desde a abertura, Tiago se apresenta como “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo” (Tiago 1:1). A cristologia, portanto, não está ausente; ela funciona como pressuposto da carta. Além disso, Tiago 2:1 fala da fé em “nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória”, o que impede reduzir a epístola a mera exortação ética desvinculada da confissão cristológica.

Desse modo, a parênese de Tiago não deve ser reduzida a moralismo autônomo. Suas exortações pertencem ao horizonte da palavra implantada, da lei perfeita da liberdade e da fé no Senhor da glória. O que Tiago combate não é simplesmente uma comunidade moralmente negligente, mas uma religiosidade que professa o Deus único sem sujeição plena ao mandamento revelado no evangelho de Cristo.

Os exemplos de Abraão e Raabe confirmam esse ponto e dificilmente se ajustam a uma leitura meramente parenética ou moralizante. A obra de Abraão — oferecer Isaque — não corresponde a uma ação ética comum nem a uma prática caritativa; considerada isoladamente da palavra de Deus, seria incompreensível e até moralmente escandalosa. O que a torna obra da fé é o fato de proceder da obediência a um mandamento divino específico. Do mesmo modo, Raabe não é apresentada como modelo de respeitabilidade social ou de filantropia, mas como alguém que, tendo reconhecido o Deus de Israel, rompe com sua antiga pertença e se alinha ao povo da promessa. Em ambos os casos, a obra não é definida por seu valor moral abstrato, mas por sua relação com a revelação recebida e com a sujeição ao mandamento de Deus.

6.4 Moo e Johnson: força e limite das leituras modernas

Douglas Moo interpreta Tiago como combate a uma fé meramente intelectual, incapaz de produzir frutos éticos. Essa leitura tem força pastoral evidente, pois preserva a inseparabilidade entre fé verdadeira e vida transformada. Seu limite, contudo, encontra-se na definição do que sejam os “frutos” ou as “obras” em Tiago. Ao identificá-los prioritariamente com ações éticas decorrentes da regeneração, a leitura tende a deslocar o centro do argumento de Tiago 2:19, onde a fé criticada é apresentada como confissão da unidade de Deus.

Se Tiago afirma que até os demônios creem que Deus é um e estremecem, então o problema não é apenas a ausência de frutos éticos posteriores à fé. A questão recai sobre o próprio conteúdo da fé professada. A fé denunciada por Tiago não é descrita como fé cristológica plena que apenas deixou de produzir caridade; é uma confissão religiosa insuficiente, que reconhece o Deus único, mas não se mostra sujeita ao mandamento cristológico do evangelho.

Luke Timothy Johnson, por sua vez, lê Tiago 2 como uma diatribe contra a separação entre fé e comprometimento existencial. Sua contribuição é relevante, pois ressalta que, em Tiago, a fé não é declaração abstrata, mas realidade performativa. A fé verdadeira compromete a existência e se manifesta em sujeição concreta. O limite dessa abordagem, porém, está em não identificar com precisão o primeiro ato dessa sujeição.

No horizonte neotestamentário, o comprometimento existencial começa com a obediência ao mandamento do evangelho: crer em Cristo. Antes de ser um programa ético, a fé viva é submissão à palavra de Deus acerca do Filho. Por isso, as obras em Tiago não devem ser compreendidas primariamente como ações morais autônomas, mas como a obediência que corresponde à revelação recebida. Essa obediência pode produzir desdobramentos éticos concretos, mas não se reduz a eles.

Assim, as leituras modernas avançam ao rejeitar uma fé puramente verbal ou intelectual, mas permanecem limitadas quando identificam as obras de Tiago, de modo imediato, com práticas éticas ou caritativas. A síntese joanina permite ir além: se a obra de Deus é crer naquele que ele enviou, e se o amor consiste em guardar o mandamento, então a fé morta denunciada por Tiago deve ser compreendida como confissão religiosa sem sujeição efetiva ao evangelho de Cristo.

7. A síntese joanina: harmonização teológica

7.1 Paulo e Tiago: complementaridade estrutural

Quando os referentes semânticos de “obras” são corretamente delimitados, Paulo e Tiago revelam-se não contraditórios, mas convergentes em sua estrutura argumentativa. Ambos rejeitam a religiosidade meramente declaratória, isto é, aquela que professa conhecer a Deus, mas não se sujeita ao seu mandamento.

Essa convergência aparece também em Tito 1:16, quando Paulo denuncia aqueles que “confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras”, sendo, por isso, descritos como abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra. A censura paulina aproxima-se da lógica de Tiago: não basta dizer que se conhece a Deus; é necessário que tal confissão corresponda à obediência devida a Deus. João fornece a definição teológica dessa relação ao afirmar: “Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1 João 2:4). Não basta dizer que se crê no Deus único; é necessário crer em Cristo, aquele que Deus enviou.

Desse modo, a questão não deve ser formulada em termos de “mérito” da salvação, categoria posterior ao horizonte imediato dos apóstolos, mas em termos de sujeição, obediência e jactância. A “lei da fé” exclui a jactância porque nela o homem não se apresenta diante de Deus como alguém que reivindica justiça a partir da lei das obras, mas como servo que se submete ao mandamento do evangelho. E não há glória própria no ato de se fazer servo. Se há glória, ela só pode ser no Senhor, pois a salvação repousa na fidelidade de Deus, que prometeu salvar todo aquele que invocar o seu nome (Gálatas 6:13; 2 Corítios 10:13; Romanos 10:13).

Tiago, por sua vez, enfatiza a resposta exigida diante do evangelho. A palavra recebida não é informação passiva, nem objeto de mera confissão verbal; é mandamento que demanda obediência efetiva. Por isso, a fé morta não é apenas fé sem obras sociais, mas confissão religiosa sem sujeição ao que Deus ordenou. Ela diz, mas não faz; professa, mas não obedece; reconhece Deus, mas não guarda o mandamento que procede de Deus.

João articula essa síntese porque fornece a linguagem que explicita a relação entre conhecer a Deus, amar a Deus, guardar os seus mandamentos e crer em Cristo. Paulo afirma que o amor de Deus está em Cristo Jesus (Romanos 8:39), destacando a iniciativa divina revelada no Filho. João, por sua vez, declara que o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos (1 João 5:3), destacando a resposta obediente daquele que se sujeita a Deus. Em 1 João 3:23, os dois aspectos se unem: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo”.

Assim, crer em Cristo é a obediência fundamental exigida pelo evangelho. Essa fé não se opõe à obra, porque ela mesma é a obra que Deus requer; também não se confunde com as obras da lei, porque não procede da lógica da jactância, mas da sujeição ao mandamento divino. Paulo combate a confiança nas obras da lei como caminho de justiça; Tiago combate a confissão religiosa que não se converte em obediência; João demonstra que o mandamento de Deus, na nova aliança, é crer no Filho enviado. Nessa síntese, fé e obra não se separam: a fé viva é a obediência ao evangelho de Cristo.

7.2 A parábola dos dois filhos como ilustração da síntese

A parábola dos dois filhos, em Mateus 21:28–32, ilumina com precisão a lógica de Tiago. O primeiro filho responde ao pai: “Não quero”, mas depois, arrependido, vai. O segundo responde: “Eu vou, senhor”, mas não vai. Jesus pergunta qual dos dois fez a vontade do pai, e a resposta é o primeiro: aquele que, apesar da recusa inicial, obedeceu de fato.

Tiago aplica lógica semelhante aos seus interlocutores. Declarar que se tem fé, sem executar a obra correspondente à fé, é agir como o filho que promete obedecer, mas não vai. A fé morta é promessa vocal sem sujeição efetiva ao mandamento. Ela fala, mas não executa; confessa, mas não obedece; reconhece uma verdade, mas não se submete à vontade do Pai.

No mesmo contexto, Jesus aplica a parábola aos publicanos e meretrizes que creram na pregação de João Batista: “João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes; mas os publicanos e as meretrizes o creram” (Mateus 21:32). A obra que faltava aos líderes religiosos não era, em primeiro lugar, uma ação caritativa, mas a obediência ao testemunho enviado por Deus. Eles ouviram a mensagem, mas não creram. Os publicanos e as meretrizes, ao contrário, creram. Essa passagem confirma que, no horizonte neotestamentário, crer na palavra enviada por Deus é a obra fundamental da fé.

7.3 João 8: confissão de fé sem sujeição a Cristo

Uma ilustração ainda mais próxima da lógica de Tiago encontra-se em João 8. O evangelista registra que Jesus se dirigiu a judeus que haviam crido nele: “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:31–32). A passagem é decisiva porque apresenta um grupo que, em algum sentido, professava fé em Cristo, mas cuja fé precisava ser provada pela permanência na palavra.

A resposta desses judeus evidencia o problema. Em vez de se submeterem à palavra de Cristo, apelaram à sua descendência abraâmica: “Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (João 8:33). A confissão inicial não produziu sujeição; quando confrontados pela palavra de Cristo, refugiaram-se em sua identidade religiosa. Diziam crer, mas continuavam presos à jactância de serem filhos de Abraão.

Jesus, então, desloca a questão da linhagem para a obediência: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (João 8:39). A verdadeira filiação não é demonstrada pela declaração de pertencimento, mas pela obra correspondente à fé. Abraão creu e obedeceu à palavra de Deus; aqueles judeus, porém, embora reivindicassem Abraão como pai, não realizavam as obras de Abraão, pois resistiam à palavra de Cristo. Por isso, a confissão deles se revelava insuficiente.

Essa passagem ilumina diretamente o problema enfrentado por Tiago. Seus interlocutores diziam crer no Deus único, mas não se sujeitavam plenamente a Cristo, o Senhor da glória. A fé que confessavam permanecia presa ao plano religioso da declaração, sem produzir a obra correspondente ao evangelho: crer naquele que Deus enviou e submeter-se à sua palavra. Do mesmo modo, ao fazerem acepção de pessoas no corpo de Cristo, negavam na prática a fé que diziam professar, pois a fé no Senhor da glória é incompatível com distinções baseadas na aparência, na posição social ou na vantagem humana.

Assim, João 8 confirma a lógica que aproxima João e Tiago. Não basta dizer que se crê; é necessário permanecer na palavra de Cristo. Não basta reivindicar Abraão como pai; é necessário realizar as obras de Abraão. Não basta confessar o Deus único; é necessário crer em Cristo e sujeitar-se ao mandamento do evangelho. A fé morta é precisamente essa confissão que, ao ser confrontada pela palavra, revela que ainda não produziu o fruto digno de arrependimento, pois permanece sem submissão efetiva ao Filho enviado por Deus.

8. Conclusão

A controvérsia entre Paulo e Tiago acerca da fé e das obras resulta de três equívocos hermenêuticos acumulados: primeiro, a identificação imediata das “obras” de Tiago com ações éticas ou caritativas; segundo, o anacronismo que projetou sobre os textos apostólicos a polêmica reformadora contra o sistema religioso medieval; e, terceiro, a ausência do corpus joanino como mediador semântico capaz de definir, com precisão, as categorias de amor, obra e mandamento.

Quando esses equívocos são corrigidos, o panorama se clarifica. Paulo condena as obras da lei mosaica, isto é, o sistema de práticas judaicas reivindicado como fundamento de justiça diante de Deus. Tiago, por sua vez, condena uma fé monoteísta incompleta: a declaração de crença no Deus único que não se converte em obediência ao mandamento de crer em Cristo. Não basta confessar que Deus é um; até os demônios o creem e estremecem. É necessário crer em Cristo, aquele que Deus enviou.

Desse modo, Paulo e Tiago não se contradizem. Eles se dirigem a públicos distintos, enfrentam desvios distintos e refutam erros distintos. Paulo combate a jactância daquele que pretende estabelecer justiça pela lei das obras; Tiago combate a confissão religiosa que permanece sem sujeição efetiva ao mandamento de Deus. Ambos, contudo, convergem na mesma verdade evangélica: o homem é justificado pela obediência ao mandamento de Deus, cujo conteúdo, na nova aliança, é crer no Filho enviado pelo Pai.

João fornece a linguagem que permite reconhecer essa convergência. Paulo afirma que o amor de Deus está em Cristo Jesus, destacando a iniciativa divina revelada no Filho. João declara que o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos, evidenciando a resposta obediente daquele que se sujeita a Deus. E, em 1 João 3:23, define o conteúdo desse mandamento: “que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo”.

Assim, fé e obra não se opõem no evangelho, nem se relacionam como elementos externos justapostos. A fé viva é obra porque é obediência ao mandamento de Deus; e a obra exigida por Deus é crer naquele que ele enviou. A síntese joanina, portanto, não é artificial, mas explicita aquilo que Paulo e Tiago pressupõem a partir de contextos polêmicos distintos: Paulo rejeita as obras da lei como fundamento de justiça; Tiago rejeita a fé verbal sem obediência; João demonstra que o mandamento do evangelho é crer em Cristo. Nessa convergência, a aparente tensão entre fé e obras se dissolve na obediência ao evangelho do Filho.


NOTAS
1. Sobre a função semântica de pistis como querigma em Paulo, ver FITZMYER, Joseph A. Romans: A New Translation with Introduction and Commentary. Anchor Bible 33. New York: Doubleday, 1993, p. 341–345.
2. A equivalência entre amor e obediência na teologia do Antigo Testamento é discutida em FOX, Michael V. The Pedagogy of Proverbs 2. Journal of Biblical Literature, 113/2, 1994.
3. Sobre a relação senhor-servo em Aristóteles e sua ressonância no Novo Testamento, ver HARRILL, J. Albert. Slaves in The New Testament: Literary, Social, and Moral Dimensions. Minneapolis: Fortress, 2006.

REFERÊNCIAS
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