Ao tratar da natureza, da universalidade e da extensão do pecado, T. P. Simmons reconhece que o homem não se torna pecador por seus atos. O problema surge quando esse estado é definido essencialmente como qualidade moral. Este estudo contrapõe essa leitura à linguagem de Romanos 5 e 6: morte, reinado, servidão, constituição e libertação.
Introdução
Circula em português um capítulo de T. P. Simmons sobre a doutrina do pecado, extraído de sua teologia sistemática. É um texto de manual: organizado, amplamente referenciado e explícito quanto às fontes das quais retira suas definições. É justamente por isso que merece atenção. O problema que nele aparece não pertence apenas a um autor; representa uma forma bastante difundida de explicar o pecado, sua universalidade e seus efeitos.
Antes de examiná-lo, duas observações são necessárias.
A primeira diz respeito ao próprio texto disponível em português. A tradução em circulação é abreviada: apresenta as três primeiras grandes seções do capítulo, mas não reproduz integralmente o original. Entre as omissões estão justamente afirmações importantes para compreender com maior precisão o pensamento do autor. Por isso, o contraponto abaixo considera não apenas a tradução portuguesa, mas também o texto inglês.
A segunda observação é metodológica. Não está em questão a pessoa de T. P. Simmons, mas suas proposições. E também não se pretende rejeitar tudo porque se discorda de uma parte. A orientação apostólica permanece adequada: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21). No entanto, vale a observação: uma proposição não se torna verdadeira pelo crédito das verdades que a acompanham.
Há, de fato, um importante acerto logo no início do capítulo: o homem não se torna pecador porque pratica atos pecaminosos; seus atos manifestam uma condição que os antecede.
A questão decisiva começa depois.
Que condição é essa?
É uma qualidade moral interior — uma deformação da mente, da vontade e dos afetos — ou é a condição em que o homem foi colocado pela desobediência de Adão, sob o reinado da morte e a servidão do pecado?
Essa distinção percorrerá todo o estudo.
O capítulo de Simmons se organiza em três grandes temas: a natureza, a universalidade e a extensão do pecado. Seguiremos a mesma ordem.
I. A natureza do pecado
O acerto inicial: o ato não constitui o pecador
O autor começa distinguindo o pecado como ato e o pecado como estado, e afirma que o estado precede o ato, porque os atos são expressão daquilo que o homem é. E formula a conclusão numa frase exata: o homem “não é o que é por causa do que faz”; faz o que faz por causa do que é[2].
Esse parágrafo é o que a tradução portuguesa suprimiu — e, no princípio que enuncia, é o melhor do capítulo. Ele diz, com todas as letras, aquilo que a pregação calvinista inverte: ninguém se torna pecador porque pecou. O ato não constitui o pecador; manifesta a condição em que ele já se encontra.
Essa afirmação deve ser preservada, porque fornece uma excelente régua para examinar o restante da doutrina. Se o ato não constitui o pecador, então a pergunta não pode ser apenas: o que o homem faz? É necessário perguntar: em que condição ele se encontra?
Há, porém, um reparo já neste ponto, porque o texto escolhido pelo autor para ampliar o conceito não fala genericamente de conduta. Simmons recorre à árvore e ao fruto: “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” (Mateus 12:33). Mas Jesus não deixa indefinido o que, naquele argumento, corresponde ao fruto. No versículo seguinte, explica: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mateus 12:34). E conclui: “Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” (Mateus 12:37).
O movimento do texto é preciso: árvore, coração, boca e palavras. Portanto, embora “fruto” possa aparecer em outros contextos bíblicos com aplicações diversas, não é legítimo ampliar o sentido do fruto deste texto citado para a conduta em geral quando o próprio Senhor especifica aquilo a que se refere.
Essa associação entre fruto e palavra já estava estabelecida nas Escrituras. “Porventura o ouvido não provará as palavras, como o paladar prova as comidas?” (Jó 12:11); “Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre” (Provérbios 18:20); “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo” (Provérbios 25:11); “Eu crio o fruto dos lábios” (Isaías 57:19). O autor de Hebreus preserva a mesma imagem ao falar do “fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15).
O mesmo cuidado vale para Mateus 7:16. Jesus não formula ali um princípio abstrato sobre avaliar a moralidade de qualquer pessoa, mas adverte especificamente contra falsos profetas: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas” (Mateus 7:15); em seguida: “Por seus frutos os conhecereis” (v. 16). O fruto pelo qual um profeta é conhecido está inseparavelmente ligado ao que ele produz como profeta — à palavra que anuncia.
Ler o fruto de Mateus 12:33 simplesmente como conduta introduz no texto justamente aquilo que Simmons havia acabado de negar: volta-se a determinar o homem pelo que ele faz. A frase inicial do autor deve, portanto, ser conservada, mas sua prova precisa ser lida segundo o contexto. O ato não constitui a árvore; o fruto revela de que árvore procede. E, no texto escolhido, esse fruto é aquilo que sai da boca.
O pecado como ato: transgressão de qual lei?
O pecado como ato é definido a partir de 1 João 3:4: “Qualquer que pratica o pecado, também transgride a lei; porque o pecado é a transgressão da lei.” No manual de Simmons, a “lei” desse versículo é tomada como a lei moral de Deus, a mesma que ele adiante verá resumida nos mandamentos, e o pecado passa a ser a infração desse código.
Mas é preciso perguntar de que lei João está falando. No grego, o versículo não traz um substantivo “lei” separado: diz que quem pratica o pecado pratica ἀνομία, e que o pecado é ἀνομία — iniquidade, literalmente “o sem-lei”, a negação do que foi ordenado. E a própria carta diz qual é a ordem que tem em vista: “E nisto sabemos que o conhecemos: Se guardarmos os seus mandamentos.” (1 João 2:3); “E o seu mandamento é este: Que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo nos deu mandamento.” (1 João 3:23).
O contexto confirma. Logo depois de 3:4, João diz para que o Filho se manifestou — “para tirar os nossos pecados” (1 João 3:5) e “para desfazer as obras do diabo” (1 João 3:8) — e separa duas filiações: “Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do diabo” (1 João 3:10). Não está contabilizando infrações de um código; está distinguindo os que creem dos que não creem. É a mesma linguagem de Jesus: “se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” (João 8:24). E é por isso que ele diz “apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” justamente a quem profetizou, expulsou demônios e fez maravilhas em seu nome (Mateus 7:22-23): o que lhes faltava não era conduta, era obedecer ao mandamento de crer.
Mesmo tomada como ato, portanto, a iniquidade em João não é a infração de uma lista moral, mas a recusa do mandamento do evangelho.
E há um segundo limite. O próprio Paulo diz que houve pecado onde não havia lei: “Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei.” (Romanos 5:13). E acrescenta: “Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão.” (Romanos 4:15).
Ou seja: entre Adão e Moisés houve pecado sem lei escrita, e por isso mesmo sem transgressão contabilizada. Se o pecado fosse apenas o ato contrário à lei, o período de Adão a Moisés seria um vazio — mas Paulo diz o contrário: “a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão” (Romanos 5:14).
Portanto, a definição pelo ato não alcança o fundo do assunto. Ela descreve como o pecado se manifesta, não o que o pecado é. E, onde João a formula, aponta de volta para a condição: “quem não crê já está condenado” (João 3:18).
O pecado como estado: qualidade moral ou condição?
É precisamente aqui que começa a divergência.
Quando o autor define o estado, chama-o de falta de conformidade com Deus na mente e no coração, e passa a provar que as disposições, os pensamentos e os afetos são chamados de pecado (Gênesis 6:5; Jeremias 17:9; Hebreus 3:12), que há pecado de omissão (“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado”, Tiago 4:17) e que o estado da alma que origina os atos é ele próprio chamado pecado (Romanos 7).
Nada disso precisa ser negado. Mas observe-se o que aconteceu: o “estado” foi definido como uma qualidade interior do sujeito — uma deformação da mente, do coração e dos afetos. Isto é, o pecado continua sendo medido pelo que o homem é moralmente, só que agora por dentro, e não por fora. Saiu-se do ato e chegou-se à disposição; não se chegou à condição.
A Escritura descreve outra coisa. No Éden, o que a palavra anunciou não foi uma deformação de caráter, mas a morte: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17). Morte, ali, é separação daquele que é a vida — e é assim que os profetas a descrevem: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça.” (Isaías 59:2).
Por isso o homem sem Cristo é descrito por uma relação, e não por um índice moral: “mortos em ofensas e pecados” (Efésios 2:1), “sem Deus no mundo” (Efésios 2:12), “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5:12).
E, porque é condição, ela tem um senhor: “Todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34). O regime é descrito como reinado — “se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse” (Romanos 5:17) — e como império: Cristo participou da carne e do sangue “para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hebreus 2:14-15).
É por isso que a linguagem paulina não define o pecado pela sua dimensão moral: assim ela impede que os atos sejam confundidos com a condição. O homem pratica ações contrárias à moral, e a elas se dá o nome de pecados; o pecado, porém, em Paulo, é a sujeição a um senhorio.
E a ordem não é a que se costuma supor. Não é por produzir obras más que o homem veio a estar debaixo desse senhorio — tanto que, mesmo debaixo dele, é capaz de boas ações, como o próprio Senhor reconhece: “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos…” (Lucas 11:13). O que há é o inverso: por estar debaixo desse senhorio é que o homem é tido por vil, mentiroso e mau.
Também não são as disposições morais que tornam alguém pecador. Pensamentos, afetos, atos e omissões são próprios da humanidade; o pecado é a condição decorrente da morte, pena que passou a todos os homens. Na ignorância, os religiosos conjeturam sobre o que seria justo e sagrado para se aproximarem de Deus, e o que formulam quase sempre é moralidade e legalidade — engano que nada altera. Ainda que o homem regre inteiramente a sua conduta, como Paulo antes de crer, “segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Filipenses 3:6), não tem como mudar a condição em que se encontra.
O salmista diz na mesma ordem: falar mentira não faz do homem um alienado; ele fala mentira porque se alienou desde a madre — “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras.” (Salmo 58:3).
A diferença não é de palavras. Um estado moral se corrige; uma condição de servidão exige libertação. Um homem mal disposto precisa ser reformado; um homem morto precisa de vida; um servo precisa ser resgatado. Por isso, o evangelho não é apresentado apenas como aperfeiçoamento moral, e sim como poder.
A essência do pecado é o egoísmo?
O ponto alto do capítulo é a definição da essência do pecado. O autor a toma de outros teólogos e a assume: como estado, o pecado seria dessemelhança de Deus; como princípio, oposição a Deus; como ato, transgressão da lei; e a sua essência, sempre e em toda parte, seria o egoísmo. Segue-se a imagem de uma árvore de vontade própria, com duas raízes — um “não” a Deus e um “sim” ao eu —, e uma divisão do egoísmo em quatro partes: vontade própria, ambição, justiça própria e autossuficiência.
Três observações:
- Primeira: a definição não vem do texto, e o autor não esconde isso. As três fórmulas e as quatro partes são citadas de teólogos, não extraídas de uma passagem bíblica. Nenhum dos sete argumentos que ele alinha em seguida é exegese de Gênesis 3. São analogias: a apostasia dos últimos dias (2 Timóteo 3:2, 4), o homem do pecado que se exalta (2 Tessalonicenses 2:4), o contrário do maior mandamento (Mateus 22:37-39), a queda de Satanás, o ciúme de Caim, a impenitência do pecador.
- Segunda: o Éden é reconstruído psicologicamente. Diz-se que Eva comeu porque esperava a sabedoria, e que Adão preferiu a esposa a Deus porque a concebia como contribuindo mais que Deus para a própria gratificação. O texto não diz isso. Diz que Adão deu ouvidos à voz da mulher e comeu da árvore de que Deus lhe ordenara não comer: “Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela…” (Gênesis 3:17). E Paulo acrescenta o que desfaz a reconstrução: “E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.” (1 Timóteo 2:14). A ofensa foi desobediência à palavra, e não a vitória de um afeto sobre outro.
- Terceira, e decisiva: uma essência moral produz uma cruz moral. Se o pecado é, em essência, egoísmo, então a salvação é, em essência, correção do egoísmo, e a obra de Cristo vira exemplo, influência e remédio moral. Mas o paralelo de Paulo não é entre um vício e uma virtude; é entre dois atos de dois homens: “assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Romanos 5:18); “como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19).
O que a cruz substitui é o ato — obediência no lugar de desobediência —, e o que dela procede é vida: “Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez.” (Hebreus 10:9-10).
O egoísmo existe, e é censurável. Mas não é a raiz do senhorio, nem serve para identificá-lo. Do lado oposto está o altruísmo, que é bonito e recomendável — e quem é liberal pode estar tão debaixo do pecado quanto o avarento. Não se determina o senhorio pela conduta. Quem toma o egoísmo por essência erra o diagnóstico: trata o sintoma e deixa intacta a condição. É o que o Senhor reprovou nos que limpavam o lado de fora: “limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança” (Mateus 23:25); “Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.” (Mateus 23:26).
E há um só modo de saber a que senhor o homem está sujeito: o que a boca professa, porque a boca fala do que há em abundância no coração. Quem confessa que Jesus é o Cristo é servo da justiça — “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” (1 João 4:15); “Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:9); “com a boca se faz confissão para a salvação” (Romanos 10:10). E quem não o confessa permanece debaixo do pecado, sejam quais forem as suas ações, boas ou más.
“A regeneração refreia, mas não destrói”
Ao fim da seção, o autor conclui que o pecado é perversidade da vontade e da disposição, que o homem não o superará enquanto estiver na carne e que a regeneração põe um freio sobre ele, sem destruí-lo.
É a consequência lógica de tudo o que veio antes. Se o pecado é uma qualidade moral do sujeito, a regeneração só pode melhorá-lo; e como ninguém fica perfeito, conclui-se que o pecado permanece, apenas contido.
Essa contrução infere que o pecado é a disposição para o bem e para o mal, uma das consequencia do fruto do conhecimento, mas não a unica e a principal; a primeira consequencia da ofensa foi a morte que trouxe a sujeição ao pecado como senhor; simultanemanete o homem passou a conehcer bem e mal, que não é pecado, mas uma faculdade adquirida queornou o homem como Deus.
Nessa construção, o pecado acaba confundido com a disposição para o bem e para o mal — e é preciso separar as duas coisas. Do fruto proibido resultou mais de uma consequência, e a principal não foi a disposição, foi a morte: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17). Foi a morte que instaurou a sujeição ao pecado como senhor. Simultaneamente, o homem passou a conhecer o bem e o mal — e isso não é pecado, e sim uma faculdade adquirida, que o próprio Deus reconhece: “Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3:22). Tratar essa faculdade como se fosse o pecado é confundir o que o homem passou a saber com o senhor a que passou a servir.
Por isso a Escritura descreve outra operação. O velho homem, sujeito ao pecado, não é contido: é morto. “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado.” (Romanos 6:6-7). E do outro lado não emerge o mesmo homem melhorado: “se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17).
A mesma coisa dita com a figura da roupa: “já vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:9-10); “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.” (Efésios 4:24). E João é ainda mais direto quanto à mudança de senhorio: “Qualquer que é nascido de Deus não permanece em pecado; porque a sua semente permanece nele” (1 João 3:9).
Se, depois de crer, o homem permanece o que era, apenas freado, então o evangelho tem a forma de uma nova criação e não tem o seu poder. É exatamente o que Paulo descreve em outro contexto: “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela.” (2 Timóteo 3:5). A palavra traduzida por “eficácia” é a mesma com que ele define o evangelho: “o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16).
II. A universalidade do pecado
Onde o capítulo está certo
Todos os homens, exceto o Senhor Jesus, são pecadores. Nisso não há disputa, e as passagens alegadas dizem o que se quer que digam: “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23); “Não há um justo, nem um sequer” (Romanos 3:10).
A pergunta é outra, e o capítulo não a responde ali: por que todos.
As três respostas correntes
Historicamente, três saídas foram dadas ao mesmo versículo, “a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12):
1. Todos estão corrompidos. É a saída de Calvino: “pecar”, ali, significaria estar envolvido na corrupção herdada de Adão.
2. Todos foram tidos por culpados. É a saída da imputação judicial: os muitos teriam sido considerados, diante de Deus, culpados do delito do primeiro homem.
3. Todos pecaram realmente, em Adão. É a saída realista, e é a que o autor deste manual adota em outro capítulo da sua obra, citando Strong: pela unidade orgânica da raça, todos existiam seminalmente em Adão; a vontade de Adão era a vontade da espécie; por isso o pecado dele é nosso, e não algo alheio.
As três mantêm o mesmo eixo: a culpa precisa ser, de algum modo, pessoalmente nossa — por corrupção, por consideração ou por participação.
O que o próprio texto responde
Paulo não escolhe nenhuma das três. Ele descreve um reinado.
Primeiro, exclui expressamente a contabilidade no período que examina: “Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei.” (Romanos 5:13).
Depois, diz o que houve em lugar dela: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.” (Romanos 5:14).
Essa segunda frase desfaz a explicação realista. Se todos tivessem praticado o pecado de Adão, participando dele seminalmente, todos teriam pecado exatamente à semelhança da transgressão de Adão — que é o que o versículo nega. O apóstolo distingue os que pecaram como Adão dos que não pecaram como ele, e diz que a morte reinou sobre uns e outros.
E, quando retoma a causa, volta sempre ao ato de um só: “se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse” (Romanos 5:17); “por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação” (Romanos 5:18); “pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores” (Romanos 5:19).
O verbo de Romanos 5:19 é o de constituir, estabelecer, pôr numa condição — o mesmo de Tiago: “qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago 4:4). Quem se constitui inimigo não é apenas tido por inimigo; é inimigo. Do mesmo modo, os muitos não foram tidos por pecadores, nem precisaram cometer o ato de Adão: foram postos, pela ofensa de um, na condição em que o pecado reina.
“Estávamos nos lombos de Adão”
Costuma-se apelar, dos dois lados, à figura de Levi: “por meio de Abraão, até Levi, que recebe dízimos, pagou dízimos. Porque ainda ele estava nos lombos de seu pai quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro.” (Hebreus 7:9-10).
A figura é legítima, mas é preciso ver o que ela prova. Levi não praticou o ato de Abraão; não escolheu, não decidiu, não entregou nada. O que lhe alcança é a consequência daquilo que a sua cabeça fez. Do mesmo modo, estar nos lombos de Adão significa herdar a condição instaurada pela ofensa dele — não ter praticado a ofensa, nem contraído a culpa do ato.
É essa distinção que a leitura realista apaga ao dizer que a vontade de Adão era a nossa vontade.
A “idade da responsabilidade”
O capítulo afirma que todos são pecaminosos por natureza e expressam essa pecaminosidade em transgressão deliberada assim que atingem a idade da responsabilidade.
A fórmula é reveladora. Se a condenação viesse dos atos, faria sentido esperar que os atos comecem. Mas a Escritura não põe o homem sob condenação no dia em que ele se torna capaz de escolher: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras.” (Salmo 58:3); “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Salmo 51:5).
Sodoma põe a questão de modo ainda mais claro. Abraão desce até o último número, e a resposta é conhecida: “Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez.” (Gênesis 18:32). Não se acharam dez. Havia crianças naquelas cidades, e elas não entraram na conta dos justos; os que saíram foram Ló e a sua casa, tirados pela mão (Gênesis 19:15-16) — e nem todos chegaram, pois a mulher ficou pelo caminho (Gênesis 19:26). Das Escrituras, o único ali chamado justo é Ló: “E livrou o justo Ló” (2 Pedro 2:7).
Ou seja: inocência, no sentido de ainda não haver praticado o mal, não equivale a justiça. A criança que nada fez não é contada entre os justos, porque justo não é quem ainda não pecou, e sim quem está em Cristo.
E o juízo já está pronunciado antes de qualquer processo: “quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (João 3:18). No Éden não houve processo; houve a consequência que a própria palavra carregava.
A “idade da responsabilidade” é necessária a quem faz a culpa depender do ato. Para quem lê a condenação como condição herdada de Adão, ela é desnecessária.
A quem Paulo estava falando em Romanos 3
Há ainda um ponto que a universalidade, tal como exposta no manual, atropela. Os textos de Romanos 3:10-18 não foram escritos originalmente sobre a humanidade em geral: são Salmos e Profetas que protestam contra Israel. Paulo os cita para incluir o judeu, que se julgava fora da conta: “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” (Romanos 2:17).
Ele mesmo explica o alvo da citação: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.” (Romanos 3:19). E conclui: “Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.” (Romanos 3:20).
A universalidade, portanto, é conclusão do argumento, e não o seu ponto de partida: os gentios já eram réus; ao demonstrar que o judeu também é, fecha-se toda boca. Quem lê esses versículos como um retrato anatômico do ser humano perde a força do argumento e ainda constrói sobre eles uma doutrina que o texto não estava formulando.
III. A extensão do pecado
“Total” só se sustenta com cinco ressalvas
A terceira parte do capítulo trata da extensão, e é ali que aparece a expressão “depravação total”. O autor é cuidadoso, e antes de afirmá-la precisa negar cinco coisas: que o homem esteja privado de consciência; que esteja destituído de qualidades louváveis segundo padrões humanos; que esteja inclinado a toda forma de pecado; que seja incapaz de atos externamente conformes à lei; e que seja tão corrupto quanto poderia ser — pois, diz ele, os homens podem piorar, e pioram. Daí a conclusão: “total” não se refere ao grau, e sim à extensão.
Registre-se o que isso significa. Um termo que precisa de cinco negativas para não dizer o que aparenta dizer está mal escolhido. E a razão é simples: depravação é categoria moral, e categorias morais admitem grau. Por isso é preciso explicar quanto, em que aspecto, até onde.
A categoria que a Escritura usa não admite grau. O homem sem Cristo está separado de Deus — e separação não é maior nem menor: “as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus” (Isaías 59:2); “não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12). Não há alienação parcial, como não há morte parcial. Quem não tem o Filho não tem a vida (1 João 5:12), e isso encerra a questão sem necessidade de advérbio.
O que o autor concede — e a tradução omitiu
Há ainda um sexto item na lista das negativas, ausente da tradução em português: a depravação total não significa corrupção da substância ou da essência da alma. A perversão, diz ele, é moral, e alcança as faculdades, não a substância.
A concessão é correta e merece ser registrada, porque desfaz uma caricatura frequente. O homem caído não deixou de ser criatura de Deus nem perdeu a dignidade de ter sido feito à sua semelhança — Tiago ainda a invoca, muito depois da queda, para censurar a língua: “com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus” (Tiago 3:9).
O problema, portanto, nunca foi de substância. Foi de relação e de senhorio.
As provas da depravação e o seu endereço
Para provar a depravação de todas as faculdades, o capítulo alinha textos: a mente (Gênesis 6:5), o coração (Jeremias 17:9), os afetos (João 3:19; Romanos 8:7), a consciência (Tito 1:15), a palavra (Salmo 58:3; Jeremias 8:6; Romanos 3:13), “da cabeça aos pés” (Isaías 1:5-6) e o nascimento (Salmo 51:5).
Quase todos têm endereço certo, e o endereço muda a leitura. O “da cabeça aos pés”, por exemplo, não é um diagnóstico da anatomia humana: é a descrição de uma nação sob juízo. Basta ler dois versículos antes: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao Senhor, blasfemaram o Santo de Israel” (Isaías 1:4). Só então vem: “Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã” (Isaías 1:6). O mesmo vale para Jeremias, que fala de Judá, e para os Salmos que Paulo cita contra Israel.
Isso não anula a condição universal do homem — ela está firmada em Adão, não nesses textos. Mas mostra que a doutrina foi construída somando diagnósticos nacionais como se fossem descrição da natureza humana.
Os efeitos alegados, um a um
O capítulo conclui com cinco efeitos da depravação total. Cada um merece resposta.
A. “Não resta bem algum no homem por natureza” (Romanos 7:18). Quem fala em Romanos 7 é o homem debaixo da lei, e o versículo não diz o que se quer que diga. Ele diz: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.” O querer está presente. O que falta não é vontade, é poder — porque o homem está debaixo de um senhor. Usar o versículo para provar que não há sequer querer é usá-lo contra o que ele afirma.
B. “Por isso não pode sujeitar-se à lei de Deus nem agradar a Deus” (Romanos 8:7-8). O texto fala da carne: “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser”; “os que estão na carne não podem agradar a Deus”. “Carne”, aqui, é o regime em que o homem confia — o da descendência e do mandamento carnal —, e o que se afirma é a impossibilidade desse regime, não a impossibilidade de o homem ouvir a palavra que o chama para fora dele.
C. “O homem está espiritualmente morto.” Verdade — e é preciso dizer morto para quem. Morto para Deus e vivo para o pecado; sem comunhão com aquele que é a vida. O que não se segue é a conclusão de que o morto não ouve. Jesus diz precisamente o contrário: “vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (João 5:25); “quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24).
A morte que passou a todos entrou pelo ouvir de uma mentira; a vida vem pelo ouvir da verdade.
D. “Logo, não pode compreender as coisas espirituais” (1 Coríntios 2:14). Convém ler o capítulo inteiro. Aos coríntios Paulo anunciou uma coisa só: “nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Coríntios 2:2). E distingue esse anúncio da sabedoria que se fala “entre os perfeitos” (1 Coríntios 2:6). É desta última que trata o versículo 14. Aplicá-lo ao próprio evangelho é contradizer Paulo, que o define como “o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16) — e é contradizer a própria prática de quem prega: ninguém anuncia a mortos que, por doutrina, não podem ouvir.
E. “Logo, não pode arrepender-se nem crer, enquanto não for vivificado” (Jeremias 13:23; João 6:44, 65; 12:39-40). Os textos não sustentam a conclusão.
Jeremias fala de um povo acostumado a fazer o mal: “Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal.” É hábito formado, não incapacidade de nascença.
João 6:44 é explicado pelo próprio Senhor no versículo seguinte: “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim.” (João 6:45). O Pai traz ensinando; e o meio do ensino são as Escrituras.
João 12:39-40 é endurecimento judicial sobre Israel, e não incapacidade adâmica: cita Isaías, que foi enviado a esse povo — “Ouvis, de fato, e não entendeis, e vedes, em verdade, mas não percebeis” (Isaías 6:9) —, e Mateus repete o cumprimento sobre os mesmos ouvintes (Mateus 13:14). Note-se a consequência que ninguém extrai: se os homens já nascessem cegos e surdos por natureza, não haveria por que cegar judicialmente os olhos de um povo. Cega-se quem via.
“Ninguém tira coisa limpa de uma imunda”
O capítulo termina localizando no coração a base da depravação e da inabilidade, com Jeremias 17:9 (“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso”), Provérbios 4:23, Jó 14:4 e as árvores de Mateus 7:17-18 e Lucas 6:45 — estas duas últimas, lidas no contexto, também falam do que procede da boca: os falsos profetas se conhecem pelo que anunciam (Mateus 7:15-16), e “da abundância do seu coração fala a sua boca” (Lucas 6:45).
A conclusão que se tira ali é que do coração natural não pode proceder fé nem santidade, pois ambos decorrem da revelação. E é verdade — mas nada disso conclui pela impossibilidade de ouvir. Conclui pela necessidade de um coração novo, que é exatamente o que Deus promete dar: “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.” (Ezequiel 36:26).
A árvore má não é podada: é cortada, e outra é plantada. O velho homem é crucificado, e uma nova criatura vem à existência — árvores de justiça, “plantações do Senhor, para que ele seja glorificado” (Isaías 61:3), cujo fruto é o dos lábios que confessam o nome de Cristo. Quem sustenta que a regeneração apenas refreia o pecado deixa de pé a árvore que Deus manda cortar.
Conclusão: três palavras trocadas
O capítulo examinado é coerente consigo mesmo, e é isso que o torna útil como exemplo. Nos três pontos em que se divide, uma mesma troca se repete:
Na natureza, a condição vira qualidade moral: o estado é definido como falta de conformidade na mente e no coração, e a essência do pecado, como egoísmo. Perde-se a morte, a separação e o senhorio.
Na universalidade, a constituição vira participação: “todos pecaram” passa a significar que todos pecaram realmente em Adão, por unidade seminal — contra Romanos 5:14, que distingue os que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão e diz que também sobre esses a morte reinou.
Na extensão, a alienação vira grau de corrupção: a palavra “total” exige cinco ressalvas para dizer o que a palavra “morto” já dizia sem nenhuma.
E há uma consequência prática em cada troca. Se o pecado é qualidade moral, a cruz é correção moral. Se a culpa é participação no ato de Adão, a justiça de Deus precisa de uma ficção para funcionar. Se a regeneração apenas refreia, o evangelho tem forma de nova criação sem o poder dela.
A Escritura diz outra coisa, e diz com verbos de condição: os muitos foram constituídos pecadores pela desobediência de um; a morte reinou; o velho homem foi crucificado; o que crê é feito nova criatura e libertado do pecado para ser servo da justiça (Romanos 6:18).
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” (2 Coríntios 5:17).
—
[1] SIMMONS, Thomas Paul. A Systematic Study of Bible Doctrine, cap. “The Doctrine of Sin”. Tradução parcial em português: “A Doutrina do Pecado”, publicada no site Monergismo. A tradução cobre as seções I a III.2 do capítulo e não inclui a seção em que o autor defende a doutrina contra o pelagianismo, o arminianismo e a chamada “New School”. As citações e os resumos deste artigo foram conferidos no original em inglês.
[2] Idem, seção I.2, parágrafo ausente da tradução em português. As demais definições da seção I.4 (o pecado como dessemelhança, oposição e transgressão, e a sua essência como egoísmo, com as quatro partes) são citadas pelo autor de A. H. Strong, E. G. Robinson e S. Harris.

