Na primeira parte, vimos que em Jeremias 19:5 Deus diz de certas coisas: “nem me veio ao pensamento”. Agora, a vontade oculta de Lutero é posta à prova no Éden, na clareza interna da Escritura, em João 6:44, Efésios 2 e Romanos 8:7, na ordem entre fé e regeneração e no argumento de que a promessa só é certa se tudo for necessário. Se a fé vem pelo ouvir, o que resta para uma decisão secreta tomada antes da palavra?
Uma leitura de De servo arbitrio no texto latino e o limite da vontade oculta de Martinho Lutero
7. O Éden e a primeira tentativa de procurar uma intenção divina atrás da palavra
Se a distinção entre o Deus revelado e uma vontade divina oculta pretende funcionar como chave hermenêutica, precisa sobreviver ao primeiro teste que a Escritura oferece: a primeira palavra normativa que Deus dirige ao homem.
“De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:16-17).
A palavra contém liberdade, limite e consequência: Adão dispõe de todas as árvores, uma lhe é vedada, e Deus anuncia de antemão o que sucederá caso sua palavra seja rejeitada. A função do anúncio é evidente — informar a decisão do homem. Se aquilo que Deus diz não corresponde ao que efetivamente governa o acontecimento, a advertência perde sua razão de ser. E é exatamente no Éden que se pode medir o preço de uma teoria segundo a qual o dito divino seria verdadeiro no plano da revelação, mas não necessariamente determinante no plano daquilo que Deus secretamente quis.
A palavra não descreve um veneno
Convém recolher em poucas linhas o que já ficou estabelecido. A árvore não é apresentada como venenosa: chama-se “do conhecimento do bem e do mal”, e nada no texto atribui ao fruto propriedade natural capaz de produzir a morte por si. Tampouco havia em Adão uma vis mortis, uma força pela qual pudesse tornar-se mortal. A morte lhe sobrevém porque Deus vinculara a consequência à transgressão — “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. A eficácia não estava no fruto nem em Adão: estava na palavra. Ele podia comer, mas não podia produzir a sentença; podia rejeitar o que Deus dissera, mas não podia fabricar o efeito anunciado. O ato foi seu; a sentença, de Deus.
O que interessa agora, porém, não é o efeito, e sim o caminho pelo qual a palavra foi desacreditada antes de ser desobedecida.
A ofensa foi não confiar na palavra
A transgressão do Éden não é a violação mecânica de uma regra: sua raiz é a incredulidade. Deus havia falado, e o homem recebera conhecimento suficiente para agir segundo aquela palavra. Foi então que a serpente introduziu uma interpretação concorrente — “certamente não morrereis” —, e o problema começa precisamente aí, quando a palavra revelada deixa de bastar para governar a decisão. Adão e Eva não precisavam conhecer todas as razões pelas quais Deus estabelecera o limite, nem perscrutar qualquer vontade secreta. Precisavam confiar no que lhes fora dito.
A primeira pergunta da serpente não é sobre liberdade, mas sobre o que Deus realmente quis dizer
A estratégia se anuncia já em Gênesis 3:1: “É assim que Deus disse?” A pergunta desloca a mulher da palavra recebida para a interpretação da palavra. Mas o movimento se completa adiante:
“Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3:4-5).
Repare-se na forma do argumento. A serpente não começa negando que Deus tenha falado — admite que há uma palavra dada. O que ela faz é introduzir uma informação sobre aquilo que Deus sabe, como se esse saber não anunciado permitisse corrigir o sentido daquilo que Deus disse. A estrutura é esta: Deus disse uma coisa; mas Deus sabe outra; logo, o que Deus disse não deve ser tomado em seu sentido imediato. A mulher é assim transferida do terreno do que Deus havia dito para o terreno do que ela poderia conjecturar acerca de um conhecimento divino não revelado.
Uma comparação de estrutura, não de pessoas
Convém dizê-lo com toda clareza: não se afirma que Lutero seja moralmente comparável à serpente. Sua sinceridade não está em causa, nem sua devoção, nem sua luta contra erros, nem seu compromisso com a Escritura. A comparação recai sobre a forma do dispositivo, não sobre a pessoa que dele se serve. A pergunta é apenas esta: o que acontece quando uma informação atribuída a Deus, mas não revelada por Deus, é empregada para relativizar aquilo que Deus efetivamente disse?
No Éden, isso destruiu a confiança na palavra. Toda teologia que recorra a uma intenção divina não revelada para modificar o alcance do que foi revelado carrega, portanto, um ônus elevadíssimo: precisa demonstrar que a Escritura autoriza tal operação — porque a primeira ocorrência bíblica dessa estrutura aparece justamente como tentação.
O problema da vontade oculta aplicado ao Éden
Apliquemos agora a distinção luterana ao próprio jardim. Deus diz: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Se, simultaneamente, sustentamos que Deus secretamente determinou a transgressão e moveu o querer pelo qual Adão haveria de comer, a palavra revelada passa a ocupar uma posição bastante estranha: adverte contra um resultado já necessário, ordena evitar aquilo que a vontade oculta tornara inevitável, e a consequência recai sobre o homem por um acontecimento cujo querer, segundo a tese da moção universal, teria sido movido por Deus. A palavra deixa de funcionar como informação verdadeira destinada a orientar uma decisão e passa a funcionar como anúncio exterior de um processo decidido em outro plano. Admitida uma vontade oculta que decide por trás da palavra, o alerta perde função, a ofensa se torna difícil de compreender e a sentença recai sobre um desfecho já fixado. Esse é o preço do dispositivo.
A advertência só faz sentido se puder informar uma resposta
É aqui que a distinção entre escolha e decisão volta a prestar serviço. Antes da queda, Adão tinha escolha real entre objetos disponíveis; mas a palavra de Deus não era catálogo, e sim mandamento — sua função era informar a decisão de obedecer. Se a resposta de Adão fosse metafisicamente necessária por uma vontade oculta que lhe movia o querer, a palavra teria perdido exatamente aquilo que a torna advertência. Uma advertência só é advertência porque comunica algo capaz de ser levado em conta pelo destinatário; se este não pode responder de outro modo, porque seu querer já foi determinado por uma agência escondida, o que parece advertência é apenas a descrição exterior de uma necessidade interior. E não é isso que o relato sugere.
A palavra tira a simplicidade
A palavra dada no Éden produz ainda outro efeito, e ele vem antes da transgressão. Ao ouvir “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, Adão passou a conhecer o que estava em jogo naquela árvore. A palavra tirou-lhe a simplicidade, a inocência de quem ignora o que está diante de si. Não se trata ainda da inocência moral, que só se perdeu com a transgressão. Trata-se da remoção da ignorância. Desde que Deus falou, Adão já não podia comer como quem não sabe.
Provérbios descreve essa diferença:
“O prudente prevê o mal, e esconde-se; mas os simples passam e acabam pagando” (Provérbios 22:3).
O prudente não tem força para impedir o mal; apenas o vê antes e se abriga. O simples não o vê e segue adiante. O que os separa não é potência, mas conhecimento, e é justamente conhecimento que a palavra fornece. Por isso a advertência do Éden não pode ser lida como descrição exterior de uma necessidade interior. Depois dela, Adão já não era simples: se comesse, comeria sabendo.
“Certamente morrerás” e “certamente não morrereis”
O contraste entre Deus e a serpente mostra bem onde a questão se decide. Deus diz “certamente morrerás”; a serpente responde “certamente não morrereis”. Não há, no texto, disputa entre duas forças dentro da vontade de Eva: há disputa entre duas palavras, e o que está em jogo é qual delas será recebida como verdadeira. A serpente não precisa mover metafisicamente a vontade da mulher — precisa apenas persuadi-la a desconfiar da palavra de Deus. Por isso o relato importa tanto para a doutrina da fé: a queda ocorre no terreno da confiança, e no terreno da confiança será anunciada a restauração.
O evangelho reabre pela palavra o que a incredulidade fechou
Depois da queda, o homem já não dispõe de uma escolha originária entre permanecer em Adão ou estar em Cristo. Essa possibilidade não lhe pertence naturalmente e precisa ser anunciada. É o evangelho que introduz em seu conhecimento aquilo que ele não poderia descobrir por si: a porta estreita não se encontra por investigação filosófica, Cristo é pregado. A palavra de Deus faz, portanto, o mesmo que fez no princípio: remove a ignorância e põe diante do homem um conhecimento capaz de informar sua resposta. Paulo o declara em Atenas: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, ordena agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” (Atos 17:30). Há um antes e um agora: os tempos da ignorância e o anúncio que lhes põe fim. Pedro descreve nos mesmos termos a vida anterior dos que creram: “não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância” (1 Pedro 1:14). Assim como Adão, depois da palavra, já não podia comer como simples, o ouvinte do evangelho já não pode permanecer como quem não sabe. A diferença radical está no conteúdo: no Éden, a palavra anunciou a consequência da incredulidade; no evangelho, anuncia a vida em Cristo. Em nenhum dos dois casos o poder reside na vontade humana. Reside na palavra que Deus profere.
Daí uma consequência que precisa ser conservada: se a morte pôde sobrevir a Adão sem que ele possuísse potência interna para produzi-la, também a vida pode ser concedida ao que crê sem que possua potência interna para produzi-la. O ouvinte não fornece eficácia à palavra — apenas responde. E é isso que permite compreender por que a fé pode ser necessária sem converter-se em mérito: a condição não é a causa eficiente do efeito. Comer foi condição da sentença anunciada, sem que Adão tenha produzido a própria condenação; crer é condição para participar da vida anunciada, sem que a fé produza a regeneração. A potência pertence a Deus e foi posta na carne de Cristo:
“Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. (…) Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.” (João 6:55 e 57).
A primeira grande divergência reaparece
Chegamos outra vez ao ponto que separa esta leitura da de Lutero. Ele precisa afirmar que o querer pelo qual o homem responde é movido por outra vontade. O relato do Éden exibe estrutura diversa: Deus fala; o homem ouve; uma palavra concorrente lhe é apresentada; ele confia ou não confia; e a palavra de Deus produz o efeito que havia anunciado. A eficácia não precisa ser depositada dentro do homem antes da resposta — ela já estava na palavra. É por isso que o evangelho pode ser chamado “poder de Deus para salvação”: não porque transfira previamente uma força secreta à vontade para só então tornar eficaz a pregação, mas porque a própria mensagem é o meio pelo qual Deus atua.
E isso conduz diretamente ao problema seguinte. Lutero não localiza a incapacidade apenas na vontade: antes mesmo de chegar à discussão antropológica, já havia introduzido uma incapacidade no entendimento — a Escritura seria clara externamente, mas sua clareza interna dependeria de uma iluminação anterior concedida pelo Espírito. A pergunta passa a ser, então: se é preciso receber luz antes de compreender a palavra, o que a própria palavra ainda faz?
8. A clareza interna de Lutero: se a luz vem antes da pregação, o que a pregação produz?
Na primeira parte de De servo arbitrio, antes ainda de desenvolver sua tese sobre a vontade, Lutero enfrenta a alegação de Erasmo de que muitas passagens da Escritura seriam obscuras. Sua reação contém uma formulação com a qual não tenho dificuldade alguma em concordar:
Spiritus sanctus non est Scepticus.
O Espírito Santo não é cético. Deus não falou para produzir uma revelação indecifrável. A Escritura possui clareza externa: aquilo que Deus decidiu revelar foi posto em palavras, anunciado e entregue aos homens. Nesse ponto, Lutero presta um serviço real à discussão, pois uma revelação que precisasse ser reconstruída por especulação filosófica deixaria de ser revelação.
O problema aparece quando ele acrescenta uma segunda categoria:
Duplex est claritas scripturae, sicut et duplex obscuritas: una externa in verbi ministerio posita, altera in cordis cognitione sita.
Há, portanto, uma clareza externa, posta no ministério da palavra, e outra interna, situada no conhecimento do coração. Quanto à segunda, Lutero é categórico: nullus homo unum iota in scripturis videt, nisi qui spiritum Dei habet. Nenhum homem vê um só iota nas Escrituras, a não ser quem tem o Espírito de Deus.
A distinção exige cuidado. Não se pergunta aqui se o Espírito atua na compreensão da verdade: atua. Nem se o evangelho contém uma sabedoria que a investigação natural jamais alcançaria: contém. Pergunta-se onde está a eficácia que produz a compreensão. Está numa iluminação anterior à palavra, ou na própria palavra pela qual o Espírito ensina? Para responder, é preciso antes perguntar o que a Escritura chama de “Espírito” nos textos em que a questão se decide.
Quem fala, o que é falado e o que é dado
A palavra “espírito” não tem um único uso na Escritura, e a formulação de Lutero funde pelo menos três deles.
O primeiro é o próprio Espírito Santo, pessoa divina, que falou pelos profetas: “os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21); “Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías” (Atos 28:25). Aqui o Espírito é quem fala, e a Escritura é aquilo que Ele falou.
O segundo é a própria palavra falada. Jesus declara: “as palavras que eu vos digo são espírito e vida” (João 6:63). Paulo chama os apóstolos de “ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito” (2 Coríntios 3:6). João manda provar os espíritos e distingue “o espírito da verdade e o espírito do erro” (1 João 4:1, 6), isto é, mensagens. É nesse sentido que se cumpriu, no Pentecostes, a promessa de Joel citada por Pedro: “do meu Espírito derramarei sobre toda a carne” (Atos 2:17). O que a multidão experimentou foi ouvir: “todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus” (Atos 2:11). O espírito foi derramado sobre toda a carne quando a palavra foi anunciada a todos.
O terceiro é o dom do Espírito Santo concedido aos que creram. Pedro diz aos ouvintes: “Arrependei-vos […] e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38). Paulo lembra aos efésios a ordem dos acontecimentos: “depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Efésios 1:13).
A distinção não reduz o Espírito Santo a uma mensagem, nem separa o Espírito da palavra que Ele fala. Distingue quem fala, o que é falado e o que é dado a quem crê. Feita a distinção, a ordem bíblica aparece com nitidez. O Espírito Santo fala. A palavra, que é espírito e vida, é anunciada. O homem ouve e crê. Quem creu é selado com o Espírito da promessa. Em nenhum ponto dessa sequência aparece uma iluminação concedida antes da palavra para que a palavra possa ser recebida. O dom do Espírito vem depois da fé, a fé vem pelo ouvir, e aquilo que se ouve já é espírito.
É essa ordem que a clareza interna desloca. Quando a compreensão da palavra é condicionada a ter o Espírito, aquilo que a Escritura apresenta como selo de quem creu passa a funcionar como pré-requisito para crer.
Aptidão para aprender não é posse do conteúdo
Uma coisa é afirmar que o homem não possui naturalmente o conteúdo do evangelho; outra, bem diversa, é dizer que lhe falta a própria aptidão para receber ensino. Um homem pode ignorar uma verdade sem que lhe falte a faculdade de aprender aquilo que desconhece. O discípulo não precisa possuir antecipadamente a verdade para aprendê-la; precisa que alguém a ensine a ele. É o que supõe a ordem de Jesus: “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11:29). A ordem soaria estranha se aprender exigisse que o conteúdo já estivesse interiormente iluminado antes da palavra do Mestre.
O problema humano não precisa, portanto, ser descrito como ausência de um órgão espiritual de compreensão. Descreve-se de modo bem mais simples: o homem não sabe aquilo que Deus ainda não lhe ensinou. E a solução correspondente não é acrescentar-lhe previamente uma capacidade secreta, mas ensinar. Isso preserva as duas verdades ao mesmo tempo: o evangelho não procede da sabedoria humana, e o homem pode aprender aquilo que Deus lhe anuncia.
Se a iluminação vem antes, a pregação perde sua função causal
Paulo estabelece uma ordem bastante direta: “como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10:14). E conclui: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17). O movimento é palavra, ouvir e fé. Não é iluminação interior, capacidade de ouvir, palavra e fé. Isso não afasta o Espírito do processo. Ao contrário, indica que a palavra anunciada é precisamente o instrumento pelo qual Deus atua. Daí também que “aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Coríntios 1:21). Repare-se no meio escolhido.
Se a operação decisiva que torna possível compreender já houvesse ocorrido antes da pregação, a pregação passaria a ocupar lugar secundário. Limitar-se-ia a informar alguém que recebera previamente a capacidade determinante de acolhê-la. Mas Paulo atribui ao anúncio função causal dentro do próprio processo. A pergunta, portanto, não é se há ação do Espírito. É se o Espírito precisa atuar antes da palavra para que a palavra possa atuar, ou se atua justamente por meio dela.
A palavra da cruz não é informação inerte
O ponto se harmoniza com o que já observamos a respeito de Romanos 1:16 na primeira parte. Paulo não diz que o evangelho informa sobre um poder que Deus exercerá depois sobre alguns ouvintes; diz que o evangelho é o poder de Deus para salvação. A mensagem não é embalagem de uma potência situada noutro lugar.
É assim que o apóstolo descreve sua pregação em Corinto: “a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (1 Coríntios 2:4-5). Onde aparece o Espírito? Na própria pregação. Onde aparece o poder? Na mensagem anunciada. O mesmo capítulo diz como isso acontece: “as quais também falamos, não com palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina” (1 Coríntios 2:13). O Espírito Santo ensina, e ensina com palavras. A oposição paulina não é entre palavra exterior e ação interior, mas entre sabedoria humana e palavras ensinadas pelo Espírito. Isso impede converter a pregação em sinal exterior incapaz de produzir coisa alguma enquanto uma operação anterior não modificar o ouvinte.
Metanoia: a mensagem exige mudança de entendimento porque comunica algo novo
O chamado inicial de Jesus tem essa mesma estrutura: “Arrependei-vos, e crede no evangelho” (Marcos 1:15). Μετάνοια envolve mudança de entendimento, de consideração, de direção mental. O evangelho apresenta algo que exige revisão daquilo que o ouvinte tinha por verdadeiro. Não faria sentido anunciar uma mensagem para produzir metanoia se a mudança decisiva do entendimento devesse ocorrer antes que a mensagem pudesse ser compreendida.
Ezequiel prometera: “dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo” (Ezequiel 36:26). O coração novo é entendimento novo, e Jesus mostra por qual meio ele vem: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (João 15:3). A palavra confronta, instrui, corrige, persuade e chama. Sua eficácia não se reduz a transmitir dados a uma mente já iluminada por outro ato: a própria mensagem é instrumento de iluminação.
O mistério foi revelado para ser compreendido
A conclusão converge com o que vimos sobre o oculto na primeira parte. O mistério que esteve oculto “se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” (Romanos 16:26). A sequência é límpida: estava oculto, foi manifestado, foi notificado e produz obediência da fé. A solução do ocultamento é revelação, não uma faculdade interna anterior à revelação. Se o revelado só pudesse ser realmente compreendido por quem antes houvesse recebido uma iluminação independente da própria mensagem, o encargo de Paulo, “demonstrar a todos qual seja a comunhão do mistério” (Efésios 3:9), perderia boa parte do seu peso. Deus revela porque a revelação comunica.
Mas e 1 Coríntios 2:14?
A objeção inevitável é a conhecida declaração de Paulo: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14). O texto não pode ser ignorado. Tampouco deve ser retirado de sua sequência e convertido automaticamente na proposição de que o homem natural é incapaz até mesmo de ouvir e crer no evangelho anunciado.
O contexto merece atenção. Paulo acabara de dizer que Deus salva pela pregação e que nada se propusera saber entre os coríntios “senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Coríntios 2:2). No versículo 6, porém, ocorre uma virada: “Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos.” Dali em diante, o assunto é “a sabedoria de Deus, oculta em mistério” (1 Coríntios 2:7), revelada pelo Espírito e falada com palavras “que o Espírito Santo ensina” (1 Coríntios 2:13).
A Escritura distingue o que se anuncia ao pecador do que se dá a quem nasceu de novo. Ao pecador anuncia-se Cristo, e este crucificado, o fundamento dos apóstolos e dos profetas: “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Coríntios 3:11; cf. Efésios 2:20). É pouco em extensão e tudo em eficácia. É a palavra da cruz, “poder de Deus” (1 Coríntios 1:18), pela qual o homem é gerado de novo, “não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus […] E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” (1 Pedro 1:23, 25). Ao que nasceu, Pedro prescreve outro alimento: “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” (1 Pedro 2:2). Ao maduro pertence o que Hebreus chama de “mantimento sólido […] para os perfeitos” (Hebreus 5:14). Hebreus chama esses primeiros ensinos de “rudimentos da doutrina de Cristo” e de “fundamento” (Hebreus 6:1), e crentes que regrediram podem precisar “que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus” (Hebreus 5:12); então eles funcionam como leite. Ao pecador, porém, o fundamento é anunciado para que creia; ao que nasceu, é ensinado para que cresça.
Essa sequência dá sentido ao “não pode” de 1 Coríntios 2:14. O leite não se destina a quem ainda não nasceu. Destina-se a “meninos novamente nascidos”, e sua finalidade é o crescimento; quem não foi gerado pela palavra ainda não tem o que fazer crescer. O homem natural não pode entender as coisas que se discernem espiritualmente pela mesma razão por que o leite não alimenta quem ainda não nasceu. Não lhe falta ouvido para o anúncio. Aquele alimento é que pressupõe o nascimento que só o anúncio produz. O que lhe é incompreensível é o leite racional e, com mais razão, o mantimento sólido; não o fundamento, que é Cristo anunciado e que tem poder para salvá-lo.
Paulo confirma a distinção logo em seguida: “E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne” (1 Coríntios 3:1-2). Os coríntios já haviam crido, e o Espírito de Deus habitava neles (1 Coríntios 3:16); ainda assim, estavam no leite. “O que é espiritual” (1 Coríntios 2:15), portanto, não é simplesmente quem creu, mas o maduro, que no contexto refere-se aos que têm “os sentidos exercitados” (Hebreus 5:14). Se até crentes precisavam crescer para receber essa sabedoria, a incapacidade descrita no capítulo 2 não pode ser convertida em impossibilidade de ouvir e crer em Cristo, o fundamento.
Isso não desliga o versículo 14 da pregação. A palavra é a mesma: as coisas do Espírito “lhe parecem loucura”, como a palavra da cruz é “loucura para os que perecem” (1 Coríntios 1:18) e Cristo crucificado é “loucura para os gregos” (1 Coríntios 1:23). O homem natural reage à sabedoria dos perfeitos como reage à cruz. Mas “loucura” é um veredito, e só dá veredito quem ouviu.
Receber e examinar: os mesmos verbos em Bereia
O versículo tem dois verbos decisivos. O homem natural “não compreende” as coisas do Espírito de Deus: o verbo é οὐ δέχεται, literalmente “não recebe”. E não pode entendê-las “porque elas se discernem espiritualmente”: o verbo é ἀνακρίνεται, “examinar”, “julgar”. Lucas usa exatamente esses dois verbos para descrever judeus que ainda não haviam crido. Os bereanos “de bom grado receberam [ἐδέξαντο] a palavra, examinando [ἀνακρίνοντες] cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim”. E o resultado veio depois: “De sorte que creram muitos deles” (Atos 17:11-12). Receber a palavra e examiná-la não foram consequência da fé; vieram antes dela.
O paralelo mostra o que 1 Coríntios 2:14 descreve. Não é um homem incapaz de ouvir, e sim um homem que não recebe e que examina pelo critério errado. “Natural” (ψυχικός) é o termo que Tiago usa para a sabedoria que “não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica” (Tiago 3:15). Judas o aplica a homens de dentro da própria comunidade: “Estes são os que a si mesmos se separam, sensuais, que não têm o Espírito” (Judas 1:19). A palavra designa quem avalia as coisas de Deus pela sabedoria deste mundo, como os gregos que “buscam sabedoria” (1 Coríntios 1:22). Enquanto julga por esse critério, ele não pode conhecer aquilo que só se examina “comparando as coisas espirituais com as espirituais” (1 Coríntios 2:13). Os bereanos examinaram pelas Escrituras e creram.
Paulo descreve o mesmo movimento entre os tessalonicenses: “havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1 Tessalonicenses 2:13). A palavra foi recebida, e é ela que opera nos que creram. Do lado oposto, os que perecem são os que “não receberam o amor da verdade para se salvarem” (2 Tessalonicenses 2:10). Receber ou não receber é o que se diz de quem ouviu a palavra.
A pregação chega, é entendida como proposição e pode ser recebida ou rejeitada, examinada pelas Escrituras ou julgada loucura. E precisamente porque chega ao homem, pode também confrontá-lo e conduzi-lo à mudança de entendimento. A incapacidade de 1 Coríntios 2:14 não alcança o fundamento anunciado. Esse o pecador pode receber ou rejeitar, e quem o recebe é gerado de novo e passa a desejar o leite racional.
A incredulidade não prova ausência de capacidade cognitiva
Cabe evitar aqui outra inferência apressada. Que muitos ouçam e não creiam não demonstra que todos sejam naturalmente incapazes de crer. Demonstra que ouvir não produz submissão de modo mecânico. Uma palavra pode ser eficaz sem ser coercitiva, como já se via no Éden: a palavra de Deus era verdadeira e eficaz e, ainda assim, Adão podia não confiar nela. É por isso que Deus, por meio de seus embaixadores, roga que os homens se reconciliem com Ele (2 Coríntios 5:20), em vez de constrangê-los.A eficácia da palavra não consiste em transformar o destinatário numa extensão mecânica de quem fala. Consiste em tornar presente, pelo anúncio, aquilo que Deus quer que o homem conheça, vinculando à palavra aquilo que Deus prometeu realizar. Assim o evangelho pode ser poder de Deus sem que cada ouvinte seja irresistivelmente conduzido à mesma resposta.
A clareza externa não precisa de uma segunda clareza independente
É aqui que a distinção luterana precisa ser refinada. Há nela uma verdade importante: ler palavras não equivale automaticamente a compreender o que Deus comunica. Preconceitos, tradições, interesses, falsas filosofias e resistência podem obscurecer o entendimento. Mas daí não se segue que exista uma segunda luz divina a ser infundida antes que a primeira possa funcionar. A palavra pode ser justamente aquilo que remove a obscuridade: o ensino corrige o ignorante, a repreensão corrige o equivocado, o evangelho confronta quem estava submetido a outra compreensão. A luz ilumina porque chega às trevas. Se fosse preciso iluminar as trevas antes para que a luz pudesse ser percebida, a própria metáfora se desfaria.
O Espírito ensina pela palavra
A formulação permite conservar o que há de correto na preocupação de Lutero sem aceitar sua conclusão antropológica. Sim, a compreensão da verdade revelada depende do Espírito. Não é preciso, porém, imaginar esta sequência: Espírito, iluminação secreta, capacidade nova e, por fim, palavra compreensível. A Escritura oferece outra: o Espírito Santo fala; a palavra, que é espírito e vida, é anunciada; o homem ouve, é ensinado e crê; quem creu é selado com o Espírito Santo da promessa e cresce no discernimento das coisas espirituais. O Espírito não concorre com a palavra: fala por ela, e é dado a quem a recebeu.
A estrutura preserva integralmente a iniciativa divina. O homem não inventa a verdade, não descobre Cristo pela razão natural, não produz a mensagem e não cria a potência que o salva. Ele é ensinado. A revelação vem de fora.
“Aprendei de mim”
Voltemos, então, à simplicidade da palavra de Cristo. “Aprendei de mim” pressupõe duas coisas ao mesmo tempo: que o discípulo ainda não possui aquilo que precisa aprender, e que é tratado como alguém a quem se pode ensinar. É exatamente o que a doutrina da pregação requer. O homem não precisa nascer com o evangelho dentro de si: precisa ouvi-lo. Não precisa possuir uma potência salvadora: precisa ser confrontado pelo poder de Deus que está no evangelho. Não precisa iluminar-se a si mesmo: precisa que a luz lhe seja anunciada. Por isso a ordem paulina continua decisiva. A fé vem pelo ouvir; não é o ouvir eficaz que vem depois de uma fé embrionária ou de uma iluminação prévia. A palavra ocupa o início do processo humano de resposta.
A diferença precisa com Lutero
Também aqui convém não erguer caricatura. Lutero não precisa ser lido como se ensinasse uma experiência mística independente da Escritura; sua teologia atribui à Palavra importância enorme e vincula a ela a ação do Espírito. O problema surge quando a clareza interna funciona como condição de possibilidade, sem a qual o texto externamente claro permanece espiritualmente inacessível. Nesse caso, a pergunta retorna: o que produz a passagem da incredulidade para a fé?
Se a resposta for uma operação interior que torna possível receber a palavra, então a palavra já não ocupa o lugar causal que Romanos 10:17 e 1 Coríntios 1:21 lhe atribuem, e o dom do Espírito passa para antes da fé que o recebe. Se, ao contrário, o Espírito realiza essa obra pela palavra, então não é preciso colocar antes da pregação uma regeneração, uma iluminação autônoma ou uma moção secreta do querer. A palavra é o meio.
O problema muda de “quem pode entender?” para “a quem Deus fala?”
A conclusão altera igualmente o modo de formular a incapacidade humana. A pergunta deixa de ser se o homem natural possui dentro de si uma faculdade espiritual pela qual descubra as coisas de Deus. Não possui, e o evangelho nunca exigiu isso. A pergunta passa a ser esta: quando Deus lhe fala por meio do evangelho, a palavra de Deus é capaz de ensiná-lo?
Se a resposta for não, a incapacidade da criatura terá sido declarada maior que a eficácia do meio escolhido por Deus. Se for sim, não se atribui poder autônomo ao homem: atribui-se poder à palavra. É precisamente o que Paulo faz ao dizer que o evangelho é o poder de Deus para salvação.
Resta, porém, o conjunto de textos talvez mais invocado em favor de uma incapacidade absoluta anterior à fé: João 6:44, Romanos 8:7 e a linguagem bíblica acerca dos “mortos” em delitos e pecados. Eles precisam ser enfrentados de frente. Não basta construir um modelo positivo da eficácia da palavra; é necessário perguntar se há passagens que excluam expressamente a possibilidade de resposta antes de uma operação regeneradora.
9. “Ninguém pode vir a mim”: atração, morte e a incapacidade que os textos realmente afirmam
Depois de sustentar que a eficácia do evangelho está na própria palavra anunciada, resta uma objeção inevitável. Há textos que parecem dizer não apenas que o homem não consegue realizar a salvação, mas que nem sequer pode responder ao evangelho enquanto Deus não produzir antes uma mudança em sua condição interior. Três passagens costumam cumprir esse papel: João 6:44, Efésios 2:1 e Romanos 8:7.
A objeção precisa ser enfrentada de frente. De nada adiantaria demonstrar que a presciência não causa os acontecimentos, que o jumento de Lutero confunde escolha com decisão ou que Romanos 7:18 separa querer de realizar, se a Escritura afirmasse, ao final, que o homem não regenerado é incapaz até mesmo de ouvir o evangelho e aquiescer a ele. Mas os três textos não dizem a mesma coisa e não devem ser fundidos numa única metáfora de “incapacidade total”.
“Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o trouxer”
Jesus fala a uma multidão que o seguia “porque comestes do pão e vos saciastes” (João 6:26). A essa multidão Ele acabara de dizer: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29). E logo depois: “também vós me vistes, e contudo não credes” (João 6:36). É a ela que declara: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:44). O verbo δύναται impede qualquer enfraquecimento: Jesus fala realmente de incapacidade. Ninguém pode vir por si mesmo, e nesse ponto não há disputa. A questão é outra: como o Pai traz o homem a Cristo?
O verbo “trazer” (ἑλκύω) não responde sozinho. É o mesmo de João 12:32: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim.” Se o verbo significasse por si mesmo uma moção interior irresistível, essa segunda frase exigiria que todos viessem. O modo da atração, portanto, não está no verbo; precisa ser buscado no contexto. Se o texto terminasse no versículo 44, seria possível preencher o “trazer” com praticamente qualquer teoria: regeneração anterior à fé, infusão de uma nova faculdade, mudança irresistível da vontade ou uma moção secreta como a de De servo arbitrio.
Mas Jesus continua falando, e o versículo seguinte explica o anterior: “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” (João 6:45). A citação é de Isaías: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR” (Isaías 54:13). No versículo 44, o Pai traz; no 45, o homem ouve o Pai, aprende e vem a Cristo. Antes de procurar uma operação secreta que o texto não menciona, é preciso levar a sério a operação que Jesus menciona expressamente: o Pai ensina, e o homem ouve, aprende e vem. O próprio Cristo explica o “trazer” em termos de revelação.
Os que o Pai dá, os que o Pai traz e os que creem
João 6:44 não é uma frase isolada. Jesus diz a mesma coisa de vários modos ao longo do discurso, e as formulações se explicam umas às outras:
- “aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” (v. 35);
- “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (v. 37);
- “Que nenhum de todos aqueles que me deu, eu perca, mas que o ressuscite no último dia” (v. 39);
- “Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (v. 40);
- “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (v. 44).
No versículo 35, “vir” e “crer” são paralelos: vir a Cristo é crer nele. A promessa “eu o ressuscitarei no último dia” liga os versículos 39, 40 e 44 e mostra que falam do mesmo grupo. Os que o Pai deu (v. 39) são identificados, no versículo seguinte, como “todo aquele que vê o Filho, e crê nele” (v. 40), e são esses mesmos que o Pai traz (v. 44). O texto não descreve dois grupos, um escolhido e movido em segredo e outro que apenas ouve. Descreve um só: os que creem. E a vontade do Pai não é um decreto oculto sobre quem poderá crer. Jesus a declara: “que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna”.
Por isso não se sustenta a objeção de que o trazido é sempre ressuscitado e de que, portanto, a atração seria irresistível. Que todo trazido seja ressuscitado significa que todo o que crê tem a vida eterna, e é exatamente isso que diz o versículo 40. A certeza está na promessa feita ao que crê, e não numa moção que torna o crer inevitável.
O versículo 65 confirma essa leitura. Jesus retoma a frase do versículo 44 logo depois de dizer que suas palavras “são espírito e vida” e que “há alguns de vós que não creem” (João 6:63-64): “Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido” (João 6:65). A frase explica a incredulidade diante das palavras de Cristo. A concessão do Pai aparece justamente onde a palavra que vivifica foi anunciada e não foi crida.
O Pai traz ensinando
Isso se harmoniza com o Evangelho de João como um todo. Os judeus diante de Jesus não estavam privados da palavra do Pai: tinham Moisés e os profetas. Jesus lhes dissera: “E o Pai, que me enviou, ele mesmo testificou de mim. […] E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós. Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam. E não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:37-40). E ainda: “Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele” (João 5:46).
A lógica é significativa. Jesus não diz: “Vocês não vêm porque ainda não receberam uma faculdade interior que lhes permita entender Moisés.” Diz: “não quereis vir” e “se crêsseis em Moisés, creríeis em mim”. O Pai testificara, a palavra fora dada e Moisés escrevera acerca de Cristo. A questão era se haviam de fato ouvido e aprendido. Por isso João 6:45 não diz “todo aquele a quem o Pai transforma interiormente vem a mim”, e sim “todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim”.
Os profetas já haviam ligado as duas coisas: ser dado e ser ensinado. Isaías fala dos “filhos que me deu o SENHOR” (Isaías 8:18), palavra que Hebreus põe na boca de Cristo: “Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu” (Hebreus 2:13). O mesmo profeta promete: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR” (Isaías 54:13). Os filhos dados são os filhos ensinados. O Pai dá ao Filho aqueles a quem ensina, e ensina pelo testemunho que deu do Filho nas Escrituras.
“Trazer” não significa que o homem descobriu Cristo sozinho
Essa leitura não devolve autonomia ao homem. Ao contrário: se o Pai não falar, ninguém chega a Cristo; se Deus não revelar, ninguém descobre o Filho por especulação; se não houver palavra, não há conteúdo ao qual aquiescer. O homem não constrói a porta estreita, não inventa Cristo, não produz o evangelho, nem guarda dentro de si uma verdade salvadora à espera de ser descoberta. O Pai precisa trazê-lo. Mas o próprio Jesus esclarece como o Pai o faz: ensina, e o homem ouve, aprende e vem.
É o que vimos na seção anterior. A incapacidade natural de descobrir o evangelho não exige uma iluminação secreta anterior ao evangelho. A solução bíblica para a ignorância é o ensino.
João 6:44 não diz: “ninguém pode crer antes de ser regenerado”
Há aqui uma inferência que precisa ser identificada. O texto diz: “ninguém pode vir se o Pai não o trouxer”. Com frequência, é usado como se dissesse: “ninguém pode crer se o Pai não o regenerar antes”. As duas frases não são equivalentes. Regeneração não aparece no versículo; “nascer de novo” não aparece; “receber vida antes de crer” não aparece. O que aparece, na explicação dada por Jesus, é ouvir e aprender do Pai.
João 6:44 demonstra, portanto, a necessidade absoluta da iniciativa divina sem demonstrar regeneração anterior à fé. A iniciativa está no Pai, que ensina; a resposta, naquele que ouve e aprende; e Cristo é aquele a quem o ensino conduz.
“Por isso não podiam crer”
O mesmo Evangelho traz uma declaração de incapacidade ainda mais direta: “Por isso não podiam crer” (João 12:39). João, porém, apresenta a causa numa ordem precisa. Primeiro: “ainda que tinha feito tantos sinais diante deles, não criam nele” (João 12:37). Depois, a citação de Isaías: “Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração” (João 12:40). E Jesus acabara de ordenar: “Enquanto tendes luz, crede na luz” (João 12:36). Essa ordem só faz sentido dirigida a quem podia crer enquanto a luz estava presente.
Mateus cita a mesma profecia e mostra de onde veio o endurecimento: “o coração deste povo está endurecido, e ouviram de mau grado com seus ouvidos, e fecharam seus olhos” (Mateus 13:15). O “não podiam” não descreve a condição de todo homem nascido de Adão. Descreve o juízo sobre um povo que viu os sinais, ouviu a palavra e fechou os olhos. É uma incapacidade que vem depois da recusa, e não antes do anúncio. Longe de provar que ninguém pode ouvir sem uma regeneração prévia, o texto mostra que o endurecimento é consequência de ter ouvido e rejeitado.
O morto de Efésios 2 anda
A segunda imagem usada para sustentar uma incapacidade anterior à fé é a morte: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados” (Efésios 2:1). O argumento costuma transformar a metáfora numa equivalência absoluta: um cadáver não ouve, não decide, não crê; logo, o homem precisa ser vivificado antes de poder crer.
Paulo, porém, não permite que “morto” seja lido como cadáver inerte, porque explica imediatamente o que esses mortos faziam: “Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo” (Efésios 2:2). E acrescenta: “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne” (Efésios 2:3). Os mortos andavam, seguiam o curso deste mundo, tinham desejos e faziam vontades. A metáfora da morte não significa ausência de atividade. Tomada ao pé da letra biológica, obrigaria a concluir que um morto também não pode pecar, e Paulo acaba de dizer que os mortos andavam nos pecados. A própria frase impede que a metáfora se converta em fisiologia espiritual.
A morte de que Paulo fala é uma relação, e não uma inércia. Quem está morto para Deus está vivo para o pecado e anda nele. O mesmo apóstolo dirá do cristão que está morto para o pecado (Romanos 6:11), sem que isso o torne incapaz de agir. Da palavra “morto”, portanto, não se deduz automaticamente “incapaz de ouvir uma mensagem”. Essa incapacidade precisaria ser demonstrada por outro texto; a metáfora, sozinha, não a contém.
Os mortos ouvem
O próprio Senhor Jesus descreve a relação entre morte e audição, e a ordem é o inverso do que a objeção supõe: “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (João 5:25). Os mortos ouvem, e os que ouvem vivem. O versículo anterior diz o mesmo sem metáfora: “quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24). A passagem da morte para a vida vem depois de ouvir e crer, e não antes.
Isaías já convocava nos mesmos termos: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (Isaías 55:3). Diante do túmulo de Lázaro, Jesus diz: “quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25). Em nenhum desses textos o morto precisa viver para poder ouvir. Ouve, e vive.
“Vivificar” também precisa ser lido em Cristo
Há outra dificuldade em usar Efésios 2 como prova de regeneração anterior à fé. Paulo não fala de uma descarga de vida posta no indivíduo para que ele possa depois decidir crer. Diz que Deus “nos vivificou juntamente com Cristo” (Efésios 2:5). A vivificação é cristológica: participação na vida daquele que morreu e ressuscitou. E Paulo interrompe a frase com um parêntese, “(pela graça sois salvos)”, que ele mesmo desenvolve adiante: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé” (Efésios 2:8). A vivificação não aparece como condição anterior à fé, mas como salvação por meio dela.
Colossenses 2 torna essa relação ainda mais explícita, ao dizer que os crentes ressuscitaram com Cristo “pela fé no poder de Deus” (Colossenses 2:12). O texto será examinado na próxima seção, junto com a pergunta que ele provoca: como podem os mortos morrer?
Romanos 8:7: quem é o sujeito da incapacidade?
Chegamos ao texto mais forte para a objeção: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Romanos 8:7). Também aqui há um οὐδὲ γὰρ δύναται, “nem pode”, e a incapacidade é real. Mas é preciso começar pela gramática antes de construir uma antropologia.
O sujeito da frase não é simplesmente “o homem”, e sim τὸ φρόνημα τῆς σαρκός, a inclinação da carne. Paulo acabara de dizer de quem ela é: “os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito” (Romanos 8:5). “Carne”, aqui, não é o corpo, nem uma parte do homem em luta com outra. O termo, dependendo do contexto, pode designar a origem: “O que é nascido da carne é carne” (João 3:6). No argumento de Paulo, designa também o regime de quem se apoia nessa origem e na lei que a disciplinava. É a “lei do mandamento carnal” (Hebreus 7:16), a confiança na circuncisão e na linhagem que Paulo abandonou ao dizer que “não confiamos na carne” (Filipenses 3:3). Por isso ele pode escrever que a lei “estava enferma pela carne” (Romanos 8:3) e que, “quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” (Romanos 7:5). O contraponto é servir “em novidade de espírito, e não na velhice da letra” (Romanos 7:6).
Lida assim, a frase descreve dois regimes, e não duas forças dentro da alma. A inclinação da carne não se sujeita à lei de Deus porque se sujeita a outra coisa: a um temor que “consiste só em mandamentos de homens” (Isaías 29:13). Isso impede uma substituição silenciosa. “A inclinação da carne não pode sujeitar-se” não se converte, sem mais, em “nenhum homem não regenerado pode crer no evangelho”. Entre as duas proposições há etapas exegéticas que precisariam ser demonstradas.
A inclinação da carne não é convertida; é abandonada
Paulo nunca ensina que a carne deva ser educada até tornar-se espírito, nem que a inclinação da carne será reformada até começar a sujeitar-se a Deus. A solução para a carne é outra: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5:24). O velho homem é crucificado; o regime da carne não é aperfeiçoado, é abandonado; e o velho homem, cujo corpo pertence ao pecado, é crucificado com Cristo.
Tampouco se trata de uma luta interior entre corpo e espírito, vencida por quem alimentar melhor um dos lados. Quando Paulo diz que “a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne” (Gálatas 5:17), está opondo a lei do mandamento carnal ao evangelho, e não o apetite natural à alma. Comer, dormir, trabalhar e desejar pertencem à condição humana; “as coisas da carne” são outra coisa. Por isso a ordem não é reprimir o corpo, e sim andar segundo o evangelho: “Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne” (Gálatas 5:16).
Quando Paulo diz que a inclinação da carne não pode sujeitar-se a Deus, a afirmação pode ser tomada exatamente como está: aquilo que constitui o regime da carne não pode, permanecendo carne, tornar-se submissão a Deus. A inimizade não se reforma até virar amizade e continuar sendo inimizade. O que precisa ocorrer é mudança de condição. Mas a passagem ainda não disse como se entra nessa nova condição, e esse é outro assunto.
Descrever um estado não é explicar a transição
Romanos 8:8 acrescenta: “Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus.” Conceda-se integralmente: quem permanece nesse regime não pode produzir por ele a justiça agradável a Deus. Mas dessa descrição não se deduz o mecanismo pelo qual alguém sai do regime. Uma coisa é dizer: “enquanto está nesta condição, não pode produzir o que pertence à outra”. Outra é dizer: “não pode ouvir a palavra que o chama a sair desta condição”.
A analogia do escravo torna a distinção visível. O escravo não pode exercer os direitos de um homem livre enquanto permanece escravo, mas isso não o torna incapaz de ouvir e aceitar a notícia de sua emancipação. Aceitar a libertação não é exercer de antemão os poderes do estado para o qual será transferido. Assim também Romanos 8 descreve com exatidão a impossibilidade de o regime da carne produzir o que pertence ao espírito, isto é, ao evangelho. Daí não se segue que a palavra do evangelho não possa alcançar quem ainda está naquele estado. Foi justamente para isso que Deus fez “o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne” (Romanos 8:3).
Romanos 8:7 não pode anular Romanos 7:18
Essa leitura preserva a continuidade do argumento paulino. Pouco antes, Paulo escrevera: “o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” (Romanos 7:18). Convém perguntar, porém, de quem é esse “eu”, porque a resposta decide o alcance do versículo. Lutero, seguindo o Agostinho tardio, lia Romanos 7:14-25 como a voz do cristão regenerado. Se fosse assim, o versículo provaria apenas que o crente quer, e nada diria do homem antes da fé.
O próprio capítulo identifica o sujeito. É o “eu” de quem diz: “quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” (Romanos 7:5). É quem se declara “carnal, vendido sob o pecado” (Romanos 7:14). Um capítulo antes, Paulo dissera dos crentes exatamente o contrário: “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Romanos 6:18). O “eu” de Romanos 7 é figura representativa do homem sob a lei, daquele que tem “por sobrenome judeu, e repousa na lei” (Romanos 2:17). Só no versículo 25, com o “eu mesmo”, Paulo volta a falar de si como quem foi liberto: “Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor.”
E esse homem sob a lei quer: “Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus” (Romanos 7:22). É o mesmo que Paulo testemunha de Israel: “têm zelo de Deus, mas não com entendimento” (Romanos 10:2). O querer não está ausente. O que falta é a realização, porque o servo, enquanto pertence a seu senhor, não executa o próprio querer. E o “bem” que ele não consegue realizar não é um ato moral isolado, já que homens maus sabem dar boas coisas aos filhos (Mateus 7:11). É a justiça que pertence a Deus, e que ninguém produz a partir da carne como regime.
Isso fecha a continuidade com Romanos 8. Se Romanos 8:7 for transformado em “o homem não pode sequer querer ou aquiescer a qualquer chamado de Deus”, teremos feito o capítulo 8 apagar o que o capítulo 7 acabara de mostrar no próprio homem sob a lei. Os dois capítulos descrevem o mesmo regime, o da carne. Romanos 7 mostra que nele o querer existe e o realizar não; Romanos 8, que sua inclinação não pode sujeitar-se à lei de Deus. O problema continua sendo senhorio e realização, e não ausência de toda resposta possível à palavra. Como vimos na primeira parte, o pecado pode governar o realizar sem produzir cada querer.
E o mandamento de crer?
Aqui convém antecipar uma objeção legítima. João declara: “E o seu mandamento é este: Que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 João 3:23). Monta-se então o raciocínio: a carne não pode sujeitar-se à lei de Deus; crer é mandamento de Deus; logo, o homem na carne não pode crer. E parece que se volta exatamente à conclusão de Lutero.
O discurso de João 6 começa exatamente por aí. Quando a multidão pergunta “Que faremos para executarmos as obras de Deus?”, Jesus responde: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (João 6:28-29). O mandamento de crer é dirigido à mesma multidão a quem, pouco depois, Jesus diz que ninguém pode vir se o Pai não o trouxer. Uma frase não anula a outra: o Pai traz pela palavra que manda crer.
A dedução, além disso, mistura dois regimes que Paulo acabara de distinguir. Romanos 8 começa assim: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2). A lei do Espírito de vida é o próprio mandamento do evangelho, a “lei perfeita da liberdade” (Tiago 1:25). E o próprio Cristo disse das suas palavras que “são espírito e vida” (João 6:63). Hebreus opõe os dois regimes com a mesma nitidez: Cristo não foi feito “segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo o poder da vida incorruptível” (Hebreus 7:16). O mandamento de crer pertence, portanto, à ordem pela qual Deus liberta o homem, e não à ordem cuja impotência Paulo descreve. Não se deve contar 1 João 3:23 entre as obras que a carne precisaria executar para aperfeiçoar-se. O evangelho não ordena à carne: “torna-te espiritual por tuas obras”. Anuncia Cristo e ordena ao homem que creia naquele que o liberta. Esse mandamento não atribui potência salvadora à carne; põe diante do homem a palavra pela qual Deus o chama para fora daquele senhorio.
Crer tampouco confere mérito a quem crê. Quem crê não apresenta uma obra; sujeita-se. É tomar o jugo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim” (Mateus 11:29). O mérito está na palavra, fiel e digna de toda aceitação; ao que crê cabe apenas render-se a ela.
O evangelho não reforma a carne nem o velho homem; chama o homem para morrer com Cristo
O argumento pode agora ser formulado com precisão, desde que se distingam três coisas que costumam ser confundidas.
Não sustento que o regime da carne possa sujeitar-se a Deus. Paulo diz que sua inclinação “não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Romanos 8:7). Esse sistema não se aperfeiçoa até virar outra coisa; é abandonado. Quem crê morre para ele: “também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro” (Romanos 7:4), e passa a servir “em novidade de espírito, e não na velhice da letra” (Romanos 7:6).
Tampouco sustento que o velho homem possa ser reformado até produzir justiça. Nascido de Adão, ele tem um corpo que pertence ao pecado, e esse corpo não é corrigido: é desfeito. “O nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Romanos 6:6).
Nem sustento que o morto em pecados já possua a vida que só existe em Cristo. “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5:12).
Sustento outra coisa: nenhuma dessas afirmações demonstra que o homem seja incapaz de ouvir o evangelho e aquiescer à palavra pela qual Deus o chama a morrer e a viver com Cristo.
A diferença é decisiva. A palavra não pede ao morto que ressuscite a si mesmo; anuncia aquele que ressuscita os mortos. Não pede ao velho homem que desfaça o próprio corpo do pecado; anuncia a morte de Cristo, na qual esse corpo é desfeito. Não pede ao regime da carne que se torne espírito; anuncia outro regime, o evangelho, cujas palavras “são espírito e vida” (João 6:63). Não pede ao escravo que rompa as próprias correntes; anuncia libertação. E não pede ao homem que gere dentro de si o poder necessário, porque o próprio evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16).
Incapacidade, então, de quê?
Podemos agora responder com mais precisão. João 6:44 afirma que ninguém chega a Cristo sem a iniciativa do Pai. Concedido; mas Jesus explica essa iniciativa pelo ensino, e os que o Pai traz são os mesmos que veem o Filho e creem nele (João 6:40). João 12:39 afirma que alguns não podiam crer. Concedido; mas o endurecimento veio sobre quem viu os sinais e fechou os olhos. Efésios 2 afirma que o homem está morto em ofensas e pecados. Concedido; mas esses mortos andam, desejam e desobedecem, e os mortos que ouvem a voz do Filho vivem (João 5:25). Romanos 8:7 afirma incapacidade. Concedido; mas o sujeito é a inclinação da carne, e a passagem descreve a impotência de um regime para produzir o que pertence ao outro, sem explicar por si só como o evangelho conduz alguém de uma condição à outra.
Nenhum desses textos exige, portanto, a sequência regeneração secreta, capacidade de ouvir, fé. Todos são compatíveis com a sequência que vem se formando ao longo deste estudo: Deus fala; o homem ouve, aprende e crê; Deus realiza nele aquilo que o homem não pode realizar. A iniciativa continua sendo de Deus. O conteúdo continua vindo de Deus. O poder continua sendo de Deus. A regeneração continua sendo obra de Deus. O que deixa de ser necessário é pôr uma regeneração não anunciada antes da própria palavra que a Escritura apresenta como instrumento de vida.
E é justamente essa ordem que precisamos examinar agora com maior rigor.
10. Como podem os mortos morrer? Fé, morte com Cristo e regeneração
A seção anterior mostrou que a expressão “mortos em ofensas e pecados” não pode ser transformada automaticamente em “cadáveres incapazes de ouvir”. Os mortos de Efésios 2 andavam segundo o curso deste mundo, e os mortos que ouvem a voz do Filho de Deus vivem (João 5:25). Resta, porém, uma questão ainda mais importante: em que momento Deus concede a nova vida?
A resposta importa diretamente para De servo arbitrio. Se o homem precisa ser regenerado para poder crer, a transformação interior vem antes da resposta à palavra. Nesse caso, a pregação chega a alguém que já recebeu, por uma operação anterior, aquilo que o torna capaz de recebê-la. A eficácia determinante não estaria propriamente no evangelho anunciado, mas numa obra secreta realizada antes dele.
Se, ao contrário, a Escritura coloca a palavra e o crer antes da vivificação com Cristo, a ordem se inverte. Deus não regenera o homem para que ele creia. Deus lhe anuncia Cristo; ele crê; e Deus realiza nele aquilo que somente Deus pode realizar.
É aqui que Deuteronômio 30, Ezequiel 36, 1 Pedro 1, Romanos 6 e Colossenses 2 convergem de modo particularmente significativo.
Antes de discutir a ordem, é preciso distinguir “fé” de “crer”
Grande parte da controvérsia se torna confusa porque “fé” e “crer” são tratados como se fossem necessariamente a mesma coisa. Convém, por isso, estabelecer uma distinção.
Por fé, no primeiro momento da sequência, refiro-me àquilo que é apresentado ao homem como objeto de confiança: o evangelho anunciado, a palavra acerca de Cristo. É o que Paulo chama de “pregação da fé” (Gálatas 3:2) e de “aquela fé que se havia de manifestar” (Gálatas 3:23). Por crer, refiro-me à resposta do ouvinte a essa palavra. A distinção não pretende afirmar que o substantivo πίστις tenha sempre, em todo contexto, o sentido de “evangelho”; o Novo Testamento também o usa para a confiança do crente. O ponto é outro: não se deve confundir a mensagem digna de fé com o ato de quem nela deposita confiança.
Primeiro alguma coisa precisa ser anunciada; depois pode ser crida. Paulo pergunta: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10:14). E conclui: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17). A precedência pertence à palavra. O homem não produz o objeto da fé; recebe-o de fora.
A mesma distinção esclarece Efésios 2:8: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” O pronome “isto” (τοῦτο) é neutro e não concorda com “fé” (πίστις), que é feminino. O dom não é apenas o ato de crer. É toda a salvação pela graça, por meio da fé que Deus manifestou em Cristo.
E há nisso uma simetria que remonta ao Éden. A morte entrou porque o homem deu ouvidos à palavra da serpente em lugar da palavra de Deus; a vida vem quando o homem dá ouvidos à palavra de Deus: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (Isaías 55:3).
Deuteronômio 30: a voz vem antes da circuncisão do coração
Deuteronômio 30 é especialmente importante porque, lido só a partir do versículo 6, parece fornecer exatamente a ordem contrária: “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” (Deuteronômio 30:6). Poder-se-ia argumentar: primeiro Deus circuncida o coração, depois o homem pode amar, ouvir e obedecer.
O problema é que Moisés não começa no versículo 6. A sequência começa no versículo 2: “E te converteres ao SENHOR teu Deus, e deres ouvidos à sua voz, conforme a tudo o que eu te ordeno hoje”. Vem então o versículo 3: “Então o SENHOR teu Deus te fará voltar do teu cativeiro”. Só depois vem o versículo 6: “o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração”. A ordem do texto é esta: ouvir a voz, voltar-se ao Senhor, ação restauradora de Deus, circuncisão do coração.
A circuncisão é obra de Deus, e isso não está em discussão: o homem não produz o novo coração. Mas a obra de Deus não é apresentada como condição anterior para que a voz possa ser ouvida. A voz já está presente, e a resposta a ela aparece antes da circuncisão prometida. Não temos coração novo, depois capacidade de ouvir, depois conversão. Temos a voz de Deus, o ouvir, o voltar e, então, Deus transformando.
Convém perguntar também o que é essa circuncisão. Paulo responde que a verdadeira é “a que é do coração, no espírito, não na letra” (Romanos 2:29). E aos colossenses diz em que ela consiste: “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo” (Colossenses 2:11). A circuncisão do coração é o despojo do corpo dos pecados na morte de Cristo. Por isso Deuteronômio a coloca antes do “para que vivas”: primeiro se impõe o despojo, depois a vida. Esse é exatamente o movimento que Romanos 6 e Colossenses 2 desenvolverão.
Ezequiel 36 também possui uma ordem
A promessa de Ezequiel costuma ser invocada no mesmo sentido: “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo” (Ezequiel 36:26). Sem dúvida, é Deus quem dá; o coração novo não é produção humana. Mas novamente convém não começar a leitura no meio da passagem. O versículo anterior declara: “Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados” (Ezequiel 36:25). Só depois vem o coração novo, e só depois dele: “E porei dentro de vós o meu Espírito” (Ezequiel 36:27). A sequência é purificação, coração novo e espírito novo, e então o Espírito de Deus.
Essa ordem se harmoniza com a linguagem do Novo Testamento, que associa a purificação à palavra. Jesus diz aos discípulos: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (João 15:3). Paulo fala de Cristo purificando a igreja “com a lavagem da água, pela palavra” (Efésios 5:26). Não é necessário fazer de “água” um sinônimo de “pregação” em toda ocorrência bíblica. O ponto é mais cuidadoso: o padrão de purificação pela palavra antes da renovação interior encontra correspondência no Novo Testamento. E o Espírito dado depois do coração novo corresponde à ordem de Efésios 1:13, em que os que ouviram e creram são “selados com o Espírito Santo da promessa”.
Isso prepara diretamente 1 Pedro 1.
“Sendo de novo gerados […] pela palavra de Deus”
Pedro escreve: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pedro 1:23). A relação é explícita: a regeneração não acontece à margem da palavra, e o instrumento apresentado é a semente incorruptível, a palavra de Deus. Pedro prossegue identificando essa palavra: “E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” (1 Pedro 1:25). A semente não é uma operação secreta ocorrida antes da mensagem; é a própria palavra evangelizada.
Tiago diz o mesmo: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tiago 1:18). E Pedro, no início da carta, liga esse novo nascimento à ressurreição de Cristo: Deus “nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1 Pedro 1:3).
A ordem aqui defendida não retira a regeneração das mãos de Deus. Faz o contrário: identifica o instrumento que o próprio texto associa à obra regeneradora. A regeneração é de Deus, a semente é de Deus, a mensagem é de Deus e a vida é de Deus; o homem não produz nenhuma delas. Mas a obra acontece por meio da palavra, e não antes dela nem sem ela.
A semente precisa chegar antes do nascimento
A metáfora de Pedro é particularmente feliz para esta discussão. A semente não é resultado do nascimento; é seu princípio. Ela chega antes. Se a semente incorruptível é a palavra de Deus, a palavra não pode ser reduzida a um anúncio exterior feito a alguém que já foi regenerado para poder recebê-la. Nesse modelo, a regeneração viria antes da palavra que a Escritura chama de semente da regeneração, e a imagem ficaria invertida. Pedro apresenta a palavra-semente e, depois, o novo nascimento. O poder germinativo não pertence ao solo; pertence à semente.
Jesus usa a mesma imagem e indica a ordem: “A semente é a palavra de Deus. E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo, e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo” (Lucas 8:11-12). A palavra é semeada em quem ouve; o diabo a arranca antes que o ouvinte creia; e a salvação viria crendo. A semente está no coração antes da fé, e não depois de uma regeneração.
Isso corresponde ao que vimos no Éden. Adão não possuía em si o poder de produzir a morte; a sentença eficaz estava na palavra de Deus. Da mesma forma, o pecador não precisa possuir em si o poder de produzir vida. A semente que produz vida vem de fora.
Crer não faz a semente viva
A distinção impede também outra conclusão equivocada. Se a palavra produz regeneração e o homem precisa crer, alguém poderia perguntar: então é o crer do homem que dá eficácia à palavra? Não. A semente não recebe sua natureza do solo. A palavra já é “viva, e que permanece para sempre”; o evangelho já é “o poder de Deus para salvação”. O crer não transforma uma palavra impotente numa palavra eficaz. Não cria a promessa, não cria Cristo, não cria a ressurreição, não gera o poder de Deus. Apenas aquiesce ao que foi posto diante do ouvinte. Tiago o diz com precisão: “recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” (Tiago 1:21). O poder de salvar está na palavra; ao homem cabe recebê-la com mansidão.
Por isso, quando dois homens recebem a palavra e um crê enquanto o outro resiste, a diferença entre eles não precisa ser localizada numa vis salvadora que um possui e o outro não. Tampouco precisa ser localizada numa semente secreta depositada em apenas um deles antes da palavra pública. A semente foi anunciada a ambos. A diferença está na sujeição ou na resistência à palavra, e a sujeição não é mérito, porque crer é descansar, e não realizar.
Romanos 6: a libertação exige uma morte
Chegamos à pergunta que dá título a esta seção. Paulo afirma: “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Romanos 6:6-7). A libertação do velho senhorio passa pela morte com Cristo.
Isso exige que se diga sempre para quem se está morto ou vivo. Antes de Cristo, o homem está morto para Deus e, justamente por isso, vivo para o pecado: anda nele. Em Cristo, está morto para o pecado e vivo para Deus: “considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:11). São relações opostas e simultâneas. Dividir a humanidade apenas em “mortos” e “vivos”, sem dizer em relação a quem, é o que produz a imagem do cadáver.
O problema, portanto, não é “como um cadáver realiza uma ação?”. É “como alguém que está morto para Deus e vivo para o pecado passa a estar morto para o pecado e vivo para Deus?”. A resposta de Paulo é a união com Cristo em sua morte e ressurreição. E ele diz também por onde se entra nessa união: “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Romanos 6:17-18). A ordem é explícita. Eram servos do pecado; obedeceram de coração à doutrina que lhes foi entregue; foram libertados. A obediência à palavra não é descrita como fruto de uma libertação anterior, mas como aquilo por meio do qual a libertação veio.
Como podem os mortos morrer?
Aqui aparece a dificuldade para uma regeneração posta logicamente antes da fé. Se o homem precisa primeiro ser vivificado para depois poder crer, a sequência seria esta: morto em pecados, recebe nova vida, crê, é unido à morte de Cristo. Mas Romanos 6 localiza a ruptura com o velho senhorio na participação na morte de Cristo: “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Romanos 6:3-4). E acrescenta: “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Romanos 6:8).
A pergunta não é um jogo retórico: como pode o homem receber primeiro a vida própria da nova criação e só depois passar pela morte que põe fim ao velho homem? A ordem ficaria invertida. Não se ressuscita primeiro para morrer depois com Cristo. A estrutura apostólica é pascal: morte, e então ressurreição. Vivificar juntamente com Cristo não é depositar no pecador uma centelha de vida para que ele consiga crer; é ressuscitá-lo com Cristo depois de ter morrido com Ele.
Colossenses 2 explicita o elemento que Romanos 6 pressupõe
Colossenses 2 é particularmente importante porque reúne no mesmo parágrafo circuncisão, morte, fé e vivificação:
“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo. Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele” (Colossenses 2:11-13).
Paulo não diz “ressuscitastes para que pudésseis ter fé”. Diz “ressuscitastes pela fé no poder de Deus”. A sequência é difícil de conciliar com a tese de que essa mesma vivificação precisa acontecer antes para tornar possível o crer. Os colossenses estavam mortos; foram circuncidados pela circuncisão de Cristo, isto é, sepultados com Ele; ressuscitaram pela fé na operação de Deus; e Deus os vivificou juntamente com Ele. A fé não é a potência da ressurreição. O texto é explícito sobre onde está o poder: “no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”. É a distinção que vem sendo feita desde Romanos 7:18: o homem crê, Deus realiza.
A fé está justamente no poder que o homem não possui
O detalhe de Colossenses 2:12 merece atenção. O objeto da confiança é τῆς ἐνεργείας τοῦ θεοῦ, a operação de Deus. Crer é reconhecer uma potência que não está no homem e descansar nela. A estrutura não poderia ser mais adequada à resposta que se dá aqui à vis humanae voluntatis. Erasmo perguntou por uma força da vontade; Lutero respondeu que ela não existe; Paulo desloca a força para outro lugar: a operação é de Deus. O crente não ressuscita porque sua fé seja potente; crê na potência daquele que ressuscitou Cristo.
Dizer que o homem crê antes de ser vivificado não equivale, portanto, a dizer que ele possui vida em si mesmo. Equivale a dizer que, estando morto para Deus, ele confia naquele que pode vivificá-lo.
Abraão fornece a mesma estrutura
É exatamente assim que Paulo descreve Abraão, que creu “perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem” (Romanos 4:17). Abraão não creu num vazio. Creu “conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Romanos 4:18). A promessa veio primeiro, e a fé respondeu a ela.
Abraão tampouco precisou possuir em si o poder de gerar o que lhe fora prometido. Ao contrário: “E não enfraquecendo na fé, não atentou para o seu próprio corpo já amortecido” (Romanos 4:19). O corpo não tinha potência correspondente à promessa, e esse era justamente o ponto. Abraão creu, “estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer” (Romanos 4:21). O poder estava naquele que prometeu; a resposta, naquele que creu.
É a mesma estrutura do Éden, invertida quanto ao efeito. Adão não tinha poder para produzir a morte; Abraão não tinha poder para produzir a promessa. Em ambos os casos, o poder estava na palavra e naquele que a proferira.
A regeneração anterior à fé cria o problema que pretendia resolver
A doutrina da regeneração anterior à fé pretende proteger a graça, e seu raciocínio é compreensível: se o homem morto pudesse crer antes de ser regenerado, alguma capacidade salvadora teria de existir nele. Mas essa conclusão só se segue se crer for realizar, e foi exatamente essa premissa que Romanos 7:18 obrigou a abandonar. No próprio homem sob a lei, “carnal, vendido sob o pecado” (Romanos 7:14), o querer existe onde o realizar não existe. E Romanos 4 acrescenta: “àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Romanos 4:5).
Não é necessário, portanto, pôr vida regenerada antes do crer para impedir que a fé se torne obra. Basta conservar a distinção apostólica: crer não é realizar. A ausência de potência no homem permanece absoluta, e o poder da regeneração continua inteiramente em Deus.
A pergunta “o que vem primeiro, regeneração ou fé?” pode estar mal formulada
Há, porém, um problema terminológico mais profundo. Quem pergunta “o que vem primeiro: fé ou regeneração?” com frequência já identificou fé com crer. Mas a palavra a ser crida precisa existir antes de quem crê nela. Cristo não passa a existir quando alguém crê; o evangelho não nasce da resposta do ouvinte; a promessa é anterior à confiança. Se “fé” designa a palavra da fé, ela vem antes da regeneração, porque é a semente. Se designa o crer, a Escritura o coloca depois do ouvir e antes da vivificação com Cristo.
A sequência deve, então, ser formulada com mais precisão: a palavra da fé é anunciada; o homem ouve e muda de entendimento; crê; e Deus o faz participante da morte e da vida de Cristo.
A ordem que emerge dos textos
Podemos agora reunir os elementos sem atribuir ao homem aquilo que pertence a Deus.
Primeiro, Deus fala. O evangelho existe antes do ouvinte e chega a ele como palavra exterior, semente incorruptível.
Depois, o homem ouve e aprende. Foi assim que Jesus explicou o trazer do Pai em João 6:45.
A palavra produz metanoia, mudança de entendimento, porque introduz um conhecimento que o homem não possuía.
Então ele crê, obedecendo de coração à doutrina que lhe foi entregue. Não realiza a salvação; descansa naquilo que Deus prometeu realizar.
Em Cristo ocorre a ruptura com o antigo senhorio. É a circuncisão não feita por mão: o velho homem é crucificado e sepultado com Cristo.
E Deus o vivifica juntamente com Cristo, dando-lhe aquilo que não possuía e jamais poderia produzir, e o sela com o Espírito Santo da promessa.
Isso preserva a graça com mais rigor, não com menos
Nada nessa ordem permite ao homem dizer “eu me regenerei”, nem “produzi minha nova vida”, nem “minha vontade continha uma força capaz de me conduzir à salvação”. O homem ouviu uma promessa que não inventou, creu num Cristo que não produziu, confiou num poder que não possuía, morreu numa morte que era a de outro e recebeu de Deus uma vida que não poderia gerar.
Toda a eficácia permanece divina. O que deixa de existir é a necessidade de pôr, antes da palavra, uma operação secreta sobre o querer para explicar por que alguém pode crer.
O ponto de ruptura com Lutero fica ainda mais estreito
Isso permite localizar a divergência com mais precisão. Antes de crer, o homem é realmente servo do pecado. Não possui vida em si mesmo, não possui justiça, não pode produzir regeneração nem realizar a própria libertação. Nisso a distância de Lutero é pequena.
Depois de crer, o homem tampouco se torna independente de Deus. Paulo escreve aos filipenses:
“De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:12-13).
Operar a salvação não é produzi-la. O próprio versículo a apresenta como continuidade da obediência, “assim como sempre obedecestes”, e a linguagem vem dos profetas: “seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” (Isaías 8:13); “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” (Isaías 66:5). O temor do Senhor é a sua palavra; o tremor é a obediência a ela. Operar a salvação com temor e tremor é obedecer à palavra.
A frase retoma, invertida, a de Romanos 7:18. Ali, sob a lei: “o querer está em mim, mas não consigo realizar (κατεργάζεσθαι) o bem”. Aqui, em Cristo: “operai (κατεργάζεσθε) a vossa salvação”. O homem na carne tinha o querer e não o realizar; no crente, Deus opera “tanto o querer como o efetuar”. E opera pelo mesmo meio, a palavra que agora habita nele: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente” (Colossenses 3:16). A controvérsia não está, portanto, em negar que Deus opere no homem. A pergunta é quando e em quem Paulo afirma essa operação. Filipenses é dirigido aos que estão “em Cristo Jesus”, aos que “sempre obedecestes”. É no crente que Deus opera o querer e o efetuar, pois é nova criatura por estar justamente em Cristo.
O salto de Lutero consiste em transportar essa operação para trás e fazê-la explicar o próprio querer pelo qual o incrédulo passa a crer. É justamente esse salto que os textos examinados não exigem. Antes do crer, Deus opera pela palavra posta diante do homem; depois do crer, opera no homem que foi unido a Cristo, pela palavra que nele habita. A distinção preserva, ao mesmo tempo, a eficácia do evangelho e a total dependência do regenerado.
A controvérsia se reduz, então, a um instante: aquele em que a palavra alcança quem ainda está sob o antigo senhorio. Lutero coloca antes da resposta uma moção interior indispensável. Este estudo coloca diante do homem a semente viva do evangelho. Um explica o crer por algo que Deus fez secretamente no ouvinte; o outro, pela eficácia daquilo que Deus pôs publicamente diante dele.
Resta saber se, ao rejeitar a contingência da resposta, Lutero não tinha também uma preocupação legítima que ainda precisa ser respondida: como confiar absolutamente nas promessas de Deus se nem todos os acontecimentos são necessários? É a pergunta que ele próprio formula logo depois de seu “raio”.
11. Fidelidade não é necessidade: por que a promessa de Deus é certa sem que todos os acontecimentos sejam inevitáveis
Há uma razão pastoral por trás da necessidade defendida por Lutero, e ela não deve ser ignorada. Logo depois de apresentar como necessarium et salutare ao cristão saber que Deus nada prevê contingentemente, Lutero liga a imutabilidade divina à própria possibilidade de confiar em suas promessas: quomodo poteris eius promissionibus credere, certo fidere ac niti? Como poderás crer em suas promessas, confiar nelas e apoiar-te nelas com certeza? Se aquilo que Deus conhece e quer pudesse ocorrer de outro modo, pensa ele, a certeza da fé ficaria comprometida.
Esse aspecto merece ser levado a sério. Refutar a metafísica de De servo arbitrio sem responder à preocupação que a motiva deixaria uma impressão ruim, como se, para preservar uma resposta humana real, fosse preciso enfraquecer a segurança daquilo que Deus promete. Não é necessário fazer essa troca. A Escritura oferece outro fundamento para a certeza: Deus é fiel. A segurança do crente repousa na fidelidade de Deus à sua palavra, e não na necessidade de todos os acontecimentos.
A certeza de uma promessa não exige a necessidade de tudo o que acontece
É preciso distinguir duas proposições. Uma é: Deus certamente cumprirá aquilo que prometeu. Outra é: tudo o que acontece tinha necessariamente de acontecer. A primeira não implica a segunda. Para ter certeza de que Deus cumprirá uma promessa, não é preciso crer que toda vontade humana, toda desobediência, todo pecado e toda resposta tenham sido tornados necessários de antemão. É preciso saber que aquele que prometeu é fiel e poderoso para cumprir o que disse.
É exatamente assim que Paulo descreve Abraão: “E estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer” (Romanos 4:21). Veja-se onde está a certeza de Abraão. Paulo não diz que Abraão estava certo porque todos os acontecimentos futuros já estavam fixados. Diz que estava persuadido acerca de quem prometera: Deus era poderoso para fazer aquilo que dissera. A certeza repousa no caráter e no poder do Promissor.
Abraão não confiou na necessidade; confiou em Deus
Romanos 4 é especialmente apropriado porque a promessa estava diante de circunstâncias que, do ponto de vista humano, apontavam no sentido contrário. Abraão “não atentou para o seu próprio corpo já amortecido, pois era já de quase cem anos, nem tampouco para o amortecimento do ventre de Sara” (Romanos 4:19). Não havia em Abraão uma potência natural capaz de produzir o que fora prometido. Mas tampouco lhe é apresentada uma doutrina segundo a qual todos os acontecimentos do universo são necessários. A fé tem um objeto muito mais concreto: Deus falou, e Abraão julgou fiel e poderoso aquele que falou.
Isso se liga a tudo o que este estudo vem sustentando. A potência não está no homem; está em Deus e em sua palavra. Abraão não torna a promessa verdadeira por crer nela. Crê porque aquele que prometeu é verdadeiro.
A verdade produz certeza; a certeza não produz verdade
Essa ordem precisa ser preservada. A fé de Abraão não criou a fidelidade de Deus; sua confiança não acrescentou potência à promessa; Deus não se tornou confiável porque Abraão conseguiu adquirir certeza subjetiva. A direção é a inversa: Deus é fiel, sua palavra é verdadeira, e por isso o homem pode confiar nela.
Por isso Hebreus exorta: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hebreus 10:23). A razão dada não é “porque o futuro não pode conter contingência”. É “porque fiel é o que prometeu”. O fundamento da esperança é uma pessoa fiel. Ninguém torna a promessa fiel por confiar nela; confia porque a promessa é fiel e lhe foi anunciada.
A imutabilidade que a Escritura oferece é a do conselho prometido
Lutero fala de uma vontade incommutabilis, imutável. A Escritura também fala de imutabilidade, e justamente com finalidade pastoral. Mas convém ver de que imutabilidade se trata:
“Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento; para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” (Hebreus 6:17-18).
O objeto da imutabilidade é o conselho prometido e confirmado por juramento. Seu fundamento é que “é impossível que Deus minta”. Seu fim é a “firme consolação”. Seus destinatários são “os herdeiros da promessa”, que se refugiam na “esperança proposta”. Hebreus oferece exatamente o que Lutero procurava, uma certeza inabalável para a fé, e a oferece sem afirmar a necessidade de cada volição humana. A consolação vem das “duas coisas imutáveis”: Deus não muda, e é impossível que Deus minta. Não vem da imutabilidade de todos os acontecimentos.
A fidelidade diz algo sobre Deus que a necessidade não diz
Aqui aparece uma diferença teológica profunda. Uma engrenagem funciona necessariamente segundo sua disposição mecânica, mas ninguém diz que a engrenagem é “fiel”. A fidelidade pertence ao campo da relação entre palavra e ação. Alguém prometeu e depois realizou o que prometeu. A fidelidade consiste justamente em não negar na ação aquilo que se afirmou na palavra.
Por isso Paulo escreve: “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2:13). A impossibilidade mencionada não precisa ser transformada numa teoria segundo a qual todos os acontecimentos são necessários. O texto fala do próprio Deus: Ele “não pode negar-se a si mesmo”. Não contradiz aquilo que é, não mente, não promete uma coisa e realiza outra. Essa é precisamente a resposta ao problema do Deus absconditus. A certeza cristã não depende de imaginar uma vontade escondida por trás da palavra; depende de que não haja contradição entre aquele que fala e aquele que age.
O Éden fornece novamente o teste mais simples
A palavra dirigida a Adão mostra que certeza e necessidade não são sinônimos. Deus disse: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17). A consequência era certa. Mas dessa certeza não se segue que Adão teria necessariamente de comer. São duas proposições diferentes: “se comer, certamente morrerá” e “certamente comerá”. A primeira é o que Deus revelou; a segunda teria de ser acrescentada por outra teoria.
Isso é extremamente importante. A palavra de Deus pode estabelecer infalivelmente uma consequência sem tornar necessária a condição à qual essa consequência foi vinculada. O caráter condicional do mandamento não torna a palavra incerta. Ao contrário: quando Adão come, a palavra se cumpre exatamente como fora anunciada. A contingência da resposta não introduz contingência na fidelidade de Deus.
Uma promessa condicional pode ser absolutamente verdadeira
O mesmo princípio vale para inúmeras declarações bíblicas. Quando Jesus diz que “todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna” (João 6:40), a certeza da promessa não exige a proposição “Deus tornou necessário quem crerá e quem não crerá”. A promessa é absolutamente verdadeira na forma em que foi dada: todo aquele que crê recebe o que Deus prometeu ao que crê. A resposta pode ser contingente sem que a promessa o seja.
O que não pode variar é aquilo que Deus vinculou à promessa. Se alguém crê, Deus não poderá depois dizer: “Embora eu tenha prometido vida ao que crê, decidi secretamente não concedê-la a este.” Isso seria infidelidade. Mas não há infidelidade alguma em Deus dirigir uma promessa verdadeira a homens capazes de resistir a ela.
Certeza sobre a palavra não é certeza sobre a resposta humana
Esse ponto desfaz parte importante do problema. Há pelo menos duas perguntas diferentes. Posso ter certeza de que Deus cumprirá o que prometeu? Sim. Posso concluir daí que a resposta de cada ouvinte já é necessária? Não. A primeira certeza diz respeito a Deus; a segunda seria uma tese acerca de cada criatura. Não há razão lógica para transportar a imutabilidade do Promissor para a necessidade de todas as respostas dos destinatários.
Deus pode ser invariavelmente fiel enquanto os homens variam em sua resposta. É exatamente o que 2 Timóteo 2:13 expressa: “Se formos infiéis, ele permanece fiel.” Há variação de um lado e nenhuma do outro. A infidelidade humana não converte Deus em infiel; mas a fidelidade divina tampouco precisa converter a infidelidade humana em ato causado por Deus.
A vontade oculta devolve o problema que pretendia resolver
Aqui o argumento retorna à vontade oculta. Se aquilo que Deus diz publicamente pode vir acompanhado de uma vontade secreta que determina o contrário para o destinatário, o problema pastoral que Lutero queria resolver reaparece dentro de sua própria solução. Como o ouvinte saberá o que Deus realmente quer para ele? Pela palavra, ou pelo decreto oculto? Se a resposta for “pela palavra”, a vontade escondida não pode desfazer o que a palavra afirma. Se for “pelo decreto oculto”, não há acesso a ele, e a certeza procurada terá sido posta exatamente no lugar aonde Lutero proíbe o homem de ir.
Esse é o paradoxo. A doutrina é construída para dar certeza, mas localiza a razão última dos acontecimentos numa vontade que, por definição, não pode ser conhecida. A Escritura faz o contrário: põe a segurança naquilo que foi dito. Diz “fiel é o que prometeu”, e não “seguro é o que permanece escondido”.
A promessa é pública; o decreto oculto não pode fundamentar a fé
A fé bíblica necessita de objeto, e ninguém confia numa informação à qual não tem acesso. Abraão pôde crer porque recebeu uma promessa. Israel podia ser responsabilizado porque recebeu uma palavra. O evangelho pode ser crido porque é anunciado. Por isso Paulo pergunta: “E como crerão naquele de quem não ouviram?” (Romanos 10:14). A fé repousa sobre aquilo que chegou ao ouvinte.
Um decreto oculto pode, no máximo, ser inferido por um sistema teológico; não pode ser crido, no sentido paulino, por aquele a quem nunca foi comunicado. Daí a tensão interna quando a certeza da salvação é fundada, afinal, numa vontade escondida. O crente não dispõe do decreto; dispõe da promessa. É a promessa, então, que precisa bastar.
“Não pode negar-se a si mesmo”
2 Timóteo 2:13 oferece também uma resposta particularmente forte à ideia de duas vontades que pareçam contraditórias. Deus “não pode negar-se a si mesmo”. Se Ele diz “não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva” (Ezequiel 33:11), a segurança dessa palavra não pode depender de supormos que, num nível inacessível, Ele queira precisamente aquilo que declarou não desejar. Se diz “nem me veio ao pensamento” (Jeremias 19:5), não podemos tornar a certeza dependente de uma vontade escondida na qual aquilo estava, afinal, determinado.
A fidelidade exige continuidade entre quem Deus é, o que Deus diz e o que Deus faz. Não exige conhecimento exaustivo de Deus, nem a eliminação do mistério. Exige ausência de contradição.
O problema nasce de uma definição excessiva de segurança
Lutero parece exigir mais do que a promessa necessita. Para assegurar que Deus cumprirá infalivelmente o que prometeu, ele caminha em direção a “tudo acontece necessariamente segundo vontade imutável”. Mas a segunda proposição é muito mais ampla que a primeira. Para garantir que um médico cumprirá uma promessa que está sob seu poder, não é preciso que todos os movimentos dos demais envolvidos sejam determinados por ele. Muito mais no caso bíblico, em que Deus pode cumprir seu propósito apesar da oposição humana.
A soberania não exige que Deus produza a resistência que vence. Essa distinção já apareceu quando examinamos Efésios 1:11 na primeira parte: o propósito de Deus pode ser infalível sem que cada oposição a ele seja causada pelo próprio propósito.
José: Deus cumpre seu propósito através do mal sem produzir o mal
A história de José fornece uma estrutura útil. Seus irmãos agiram perversamente, e José mais tarde declara: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida” (Gênesis 50:20). Há dois propósitos moralmente distintos ligados ao mesmo acontecimento: os irmãos intentaram o mal; Deus conduziu o resultado para o bem.
Não é necessário transformar “Deus o intentou para bem” em “Deus produziu nos irmãos o querer mau para depois convertê-lo em bem”. A soberania aparece justamente na capacidade de Deus de conduzir a história sem precisar ser autor moral da oposição. Isso oferece uma alternativa à necessidade universal: providência não é causalidade moral de cada vontade.
Deus pode anunciar de antemão sem tornar necessária a desobediência
O ponto retorna ao que vimos sobre a presciência. Deus pode anunciar acontecimentos de antemão, incorporar ações humanas ao cumprimento de seu propósito e saber como responderá a elas antes que ocorram. Nada disso exige concluir que Ele tenha movido positivamente cada querer mau. O cumprimento da palavra demonstra sua fidelidade, e não a causalidade divina do pecado. A questão, portanto, não é diminuir a soberania, e sim definir corretamente o que precisa ser causado por Deus para que seu propósito se cumpra.
A certeza cristã tem um lugar visível: Cristo
Há ainda uma consequência cristológica. Se a certeza precisasse ser buscada atrás da revelação, no decreto secreto, nunca saberíamos onde encontrá-la. Paulo, porém, situa as promessas em outro lugar: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” (2 Coríntios 1:20). A certeza cristã está em Cristo. Isso se harmoniza com o que vimos acerca do oculto: os tesouros estão escondidos em Cristo, e não atrás dele. A segurança também está ali.
Não é preciso conhecer uma vontade secreta para saber se Deus será fiel. É preciso olhar para aquele em quem Deus cumpriu sua palavra. “E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, Deus a cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus” (Atos 13:32-33). A ressurreição de Cristo é a demonstração histórica de que Deus não abandona sua promessa.
A fidelidade basta para a certeza e preserva a responsabilidade
A distinção traz uma vantagem importante. Preserva integralmente a segurança, porque Deus não falha. E preserva integralmente a responsabilidade, porque a resposta humana não precisa ser produzida por Deus para que Deus cumpra seu propósito. Não somos obrigados a escolher entre dois extremos: ou Deus é fiel porque tudo é inevitável, ou existe contingência e Deus talvez não consiga cumprir sua palavra. Há uma terceira possibilidade, e é a mais simples: existem respostas reais das criaturas, e existe um Deus poderoso e fiel o bastante para cumprir o que prometeu sem precisar causar todas essas respostas.
A necessidade não pode ser o fundamento da fidelidade
Podemos agora inverter a questão. Deus não é fiel porque as coisas não podem ocorrer de outro modo. Permanece fiel porque não nega a si mesmo. É seu caráter que fundamenta a certeza. A necessidade metafísica, se for introduzida, precisa ser demonstrada por outra razão; não pode ser deduzida da necessidade pastoral de confiar em Deus. A promessa precisa de um Deus fiel, e não de um universo em que todas as volições sejam necessárias. É esse o ponto que a preocupação pastoral de Lutero não consegue estabelecer.
O “raio” perde também sua necessidade pastoral
Lutero chamou sua tese de necessária e salutar. Depois de tudo o que foi examinado, é possível separar o que realmente é necessário do que não é. É necessário saber que Deus não mente, que é poderoso, que não nega a si mesmo e que cumprirá o que prometeu. Não é necessário concluir daí que Judas não pudesse deixar de trair. Não é necessário afirmar que o querer de Judas era obra de Deus movida pela onipotência. Não é necessário tornar necessários todos os acontecimentos para tornar segura uma única promessa.
A segurança que Lutero procurava na necessidade já estava na fidelidade, e estava num lugar melhor: na palavra revelada. A frase pode permanecer como síntese desta seção: a verdade produz certeza; a certeza não produz verdade. A promessa é segura porque Deus é fiel, e não porque todas as respostas humanas tenham sido tornadas inevitáveis de antemão.
Com isso, estão examinadas as principais colunas de De servo arbitrio: a presciência, a necessidade sem coação, o jumento, a vis da vontade, a moção do querer, o Deus escondido, a clareza interna, a incapacidade anterior à fé e, agora, o argumento pastoral em favor da necessidade.
12. O que permanece de De servo arbitrio: convergências, rupturas e o ponto exato da controvérsia
Lido De servo arbitrio diretamente no original, a conclusão deste estudo precisa ser mais restrita do que a crítica costuma formular.
Não basta dizer que Lutero “negou a vontade humana”, porque ele não o fez. Também não é correto afirmar que sua doutrina transforma o homem em alguém coagido contra aquilo que deseja; Lutero rejeita expressamente essa ideia. Tampouco a controvérsia pode ser reduzida à pergunta sobre se o homem possui força para produzir a própria salvação, porque nesse ponto a distância é mínima.
O exame permitiu separar o que deve ser concedido, o que precisa ser corrigido e o que permanece como verdadeira ruptura. E o resultado é importante: quanto mais precisamente Lutero é lido, menor fica o campo da controvérsia, mas mais grave se torna aquilo que permanece.
Lutero tem razão ao negar a salvação como potência humana
A definição aceita por Erasmo falava de uma vis humanae voluntatis, uma força da vontade humana pela qual o homem poderia aplicar-se às coisas que conduzem à salvação. Se por livre-arbítrio se entende essa potência, não há necessidade de defendê-lo. O homem não possui em si poder para justificar-se, para regenerar-se, para romper o senhorio do pecado, para ressuscitar com Cristo ou para produzir a vida eterna. Nesse ponto, a crítica que apenas contrapõe a Lutero uma suposta “liberdade humana” corre o risco de defender aquilo que a Escritura também nega.
Romanos 7:18 oferece uma solução melhor, porque não atribui poder ao homem: “o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem”. O θέλειν permanece; o κατεργάζεσθαι falta. E Paulo o diz do homem sob a lei, “carnal, vendido sob o pecado” (Romanos 7:14), e não do regenerado. É essa distinção que permite negar a vis sem abolir o querer, e é ela que desfaz a definição sobre a qual Erasmo e Lutero concordaram.
Lutero também tem razão ao distinguir necessidade de coação
Outra correção necessária diz respeito à linguagem de “fatalismo”. Lutero não diz que o pecador deseja uma coisa enquanto Deus o força fisicamente a fazer outra. Sua formulação é necessitate immutabilitatis, non coactionis: necessidade de imutabilidade, não de coação. O homem pratica o que pratica sponte et libenti voluntate, espontaneamente e querendo. Não é justo, portanto, refutá-lo com a imagem de uma marionete violentada de fora.
A dificuldade está em outro lugar. O homem quer, mas Lutero afirma que o querer pelo qual ele age se encontra sob uma necessidade que ele próprio não pode alterar. Se o termo “fatalismo” for usado, precisa ser definido com cuidado: não como coação da vontade, mas como um sistema em que o resultado não poderia ser outro e em que a voluntariedade do agente não cria verdadeira contingência. O desacordo não está em saber se há violência sobre o querer, e sim em onde se localiza a servidão.
O jumento também prova menos do que parece
A famosa montaria não precisa ser inteiramente rejeitada. Há nela algo que se pode conceder: ninguém escolheu originalmente seu cavaleiro. Ninguém escolheu nascer em Adão; ninguém entrou no mundo como sujeito neutro diante de dois caminhos igualmente disponíveis. Nesse sentido, não há livre escolha originária entre Adão e Cristo.
O problema surge quando dessa afirmação se conclui que, por não ter escolhido o senhorio sob o qual nasceu, o homem também não pode responder quando outro senhorio lhe é anunciado. Essa passagem não está contida na metáfora. Mateus 7:13 não oferece duas portas a um homem parado no meio; diz: “Entrai pela porta estreita.” Uma condição já existe, e depois vem um mandamento. Por isso se distingue a escolha, como seleção entre alternativas inicialmente disponíveis, da decisão, como resposta diante de uma ordem. O jumento mostra a ausência da primeira; não demonstra a impossibilidade da segunda. Lutero e esta leitura concordam que ninguém selecionou o cavaleiro inicial. A divergência surge quando o evangelho é anunciado e Cristo é apresentado ao homem.
A presciência não sustenta sozinha a necessidade
Também não basta dizer: Deus sabia que Judas trairia; logo, Judas não poderia deixar de trair. A própria categoria de πρόγνωσις precisa ser lida a partir da estrutura bíblica da revelação. Em Atos 2:23, quando Pedro fala da “presciência”, a crucificação já ocorreu. O acontecimento fora anunciado pelos profetas, e Atos 3:18 explica que Deus cumpriu aquilo que anunciara de antemão. A anterioridade está entre o anúncio e o acontecimento, e não necessariamente entre Deus e seu próprio conhecimento.
Mesmo que se concedesse a Lutero um conhecimento infalível de todo o futuro, restaria uma segunda dificuldade: conhecer não é causar. Essa crítica, porém, não encerra De servo arbitrio, porque Lutero possui um argumento mais forte. O praevidet não está sozinho; permanece o facit. E é aí que se chega ao verdadeiro ponto de ruptura.
O problema decisivo não é que Deus conhece Judas, mas que Lutero diz que Deus move seu querer
Lutero declara acerca da traição: velle illud erat opus Dei, quod omnipotentia sua movebat, aquele querer era obra de Deus, que sua onipotência movia. Nesse ponto, a discussão deixa de ser sobre conhecimento. Já não se pergunta “Deus sabia?”, e sim “Deus produziu o querer pelo qual Judas quis trair?”. A distinção entre conhecer e causar já não resolve, e é exatamente aqui que a divergência se torna máxima.
Pode-se admitir que Deus sustenta a criatura, que nada existe independentemente dele e que seus propósitos não podem ser derrotados. Nada disso exige concluir que cada querer mau seja positivamente movido pela onipotência divina. A formulação de Lutero vai além da providência: atribui ao próprio velle uma causalidade divina. É por isso que Jeremias 19:5 se tornou, neste estudo, mais importante do que qualquer discussão abstrata sobre liberdade.
“Nem me veio ao pensamento” delimita o que pode ser atribuído a Deus
Deus diz acerca do sacrifício de crianças: “o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento” (Jeremias 19:5). A progressão não deve ser reduzida a “Deus não aprovou”. Primeiro, “nunca lhes ordenei”; depois, “nem falei”; por fim, “nem me veio ao pensamento”. A terceira negativa alcança precisamente o campo onde uma teoria da vontade oculta tentaria alojar o acontecimento. Se alguém responder “Deus não ordenou, mas decretou secretamente”, a primeira negativa poderia parecer insuficiente. Mas então vem a terceira. O texto não é uma inferência humana sobre Deus; é uma declaração em primeira pessoa, na qual Deus exclui determinado ato de seu próprio desígnio.
É por isso que este estudo não se apoia na expressão consagrada “escravidão da vontade”, mas nesta sentença de Jeremias. A questão decisiva é: pode-se atribuir a uma vontade oculta aquilo que Deus, ao revelar-se, declarou não estar em seu pensamento?
O Deus absconditus não resolve, porque deixa de ser oculto quando recebe conteúdo
A distinção luterana entre o Deus pregado e o Deus escondido poderia funcionar como advertência: há coisas que Deus não revelou, e não se deve especular sobre elas. Nesse sentido, Deuteronômio 29:29 bastaria: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus.” Mas Lutero não mantém o oculto sem conteúdo. Afirma que Deus praevidet, proponit et facit e, no caso do querer humano, que omnipotentia sua movebat. Nesse momento, já não se está diante do silêncio, e sim de uma afirmação sobre o que Deus faz. E o que se afirma acerca de Deus precisa ser testado pela revelação.
O oculto poderia proteger apenas aquilo sobre o que nada sabemos; não pode servir para contradizer o que sabemos. Daí a diferença fundamental: o oculto bíblico pertence a Deus enquanto não revelado, e aquilo que Deus quis que soubéssemos foi manifestado em Cristo. A Escritura descreve o mistério como o que “esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” (Colossenses 1:26). O escondido está em Cristo, e não atrás dele.
A clareza interna reproduz o mesmo problema em outro nível
Algo semelhante acontece na primeira parte de De servo arbitrio. No plano da vontade, uma moção secreta precisa preceder a resposta. No plano do conhecimento, uma iluminação interna precisa tornar possível a compreensão. Nos dois casos, aquilo que está diante do homem corre o risco de tornar-se secundário diante daquilo que Deus teria de realizar primeiro dentro dele, e o que foi publicamente anunciado perde a posição causal que a Escritura lhe atribui.
Paulo, porém, afirma que “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17) e que “aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Coríntios 1:21). A eficácia está na mensagem. Isso não exclui a ação do Espírito; define como ela se dá. O Espírito Santo fala pela palavra, cujas palavras “são espírito e vida” (João 6:63), e o dom do Espírito é dado aos que ouviram e creram (Efésios 1:13). A palavra não é informação morta à espera de uma segunda potência. Ela própria é chamada “o poder de Deus para salvação” (Romanos 1:16).
A incapacidade humana permanece real
Nada disso exige minimizar a condição do pecador. O homem está morto em ofensas e pecados, está sob o senhorio do pecado e não pode produzir a justiça de Deus. A inclinação da carne não se sujeita à lei de Deus. Ninguém chega a Cristo sem o Pai. Tudo isso permanece.
A divergência está em transformar essas afirmações numa proposição adicional: “portanto, o evangelho não pode produzir resposta enquanto Deus não regenerar anteriormente o ouvinte”. Essa conclusão precisa ser demonstrada, e os textos não a demonstram. João 6:45 explica o trazer do Pai pelo ouvir e aprender. João 12:39 descreve o endurecimento de quem viu os sinais e fechou os olhos. Efésios 2 descreve mortos que andam, e João 5:25, mortos que ouvem a voz do Filho e vivem. Romanos 8:7 tem por sujeito τὸ φρόνημα τῆς σαρκός, a inclinação de um regime, e não o homem que ouve. E Colossenses 2:12 associa a ressurreição com Cristo à “fé no poder de Deus”. A incapacidade é real, mas não é preciso defini-la de modo que torne o meio escolhido por Deus incapaz de alcançar aquele a quem foi enviado.
A palavra chega antes do novo coração
Deuteronômio 30 oferece um dado importante. Antes de “o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração” (Deuteronômio 30:6), aparece: “E te converteres ao SENHOR teu Deus, e deres ouvidos à sua voz” (Deuteronômio 30:2). A ação transformadora continua sendo de Deus, mas a voz não espera pelo coração novo para poder ser ouvida. E 1 Pedro fornece a chave complementar: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus” (1 Pedro 1:23). A palavra é a semente, e não o fruto posterior da regeneração.
A distinção fundamental: o homem responde; Deus realiza
Depois de todas essas etapas, a posição deste estudo pode ser formulada sem ambiguidade: o homem responde; Deus realiza.
A frase precisa ser entendida à luz de tudo o que já foi dito. Responder não é realizar. Crer não é regenerar-se. Confiar não é justificar-se. Entrar pela porta não é construir a porta. Aceitar a promessa não é produzir aquilo que foi prometido.
A estrutura já estava no Éden. Adão não possuía potência para produzir a morte; a palavra dizia “certamente morrerás”; ele respondeu pela incredulidade; a sentença foi de Deus. No evangelho, a direção se inverte. O homem não possui potência para produzir vida; a palavra anuncia a vida; ele crê; a vivificação é de Deus. Nos dois casos, a resposta pertence ao destinatário, e a eficácia, à palavra de Deus.
Isso não é semipelagianismo disfarçado
Uma objeção previsível seria afirmar que, se o homem pode aquiescer, alguma parcela da salvação acaba por pertencer a ele. Mas essa conclusão depende, novamente, de transformar aquiescência em produção, e Paulo não faz isso: “àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Romanos 4:5). Quem crê é descrito justamente como quem não realiza.
Por isso a imagem da capitulação continua adequada. Um homem sitiado que se rende não pode dizer: “Eu conquistei o exército que me venceu.” Sua rendição é exatamente o abandono dessa pretensão. Do mesmo modo, quem crê não apresenta a fé como obra pela qual obrigou Deus a salvá-lo; descansa naquele que salva. Isso não torna resistência e aquiescência coisas idênticas, mas impede que a diferença entre elas seja transformada em mérito.
Depois de crer, Deus realmente opera o querer
Há ainda uma convergência que deve ser explicitamente reconhecida. Paulo escreve aos filipenses: “operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:12-13). Não é necessário enfraquecer essa frase: Deus realmente opera no crente. Mas operar a salvação não é produzi-la. É obedecer, com temor e tremor, à palavra do Senhor, como os que “tremeis da sua palavra” (Isaías 66:5), e é por essa palavra que Deus opera no crente o querer e o efetuar. A frase retoma, invertida, a de Romanos 7:18: sob a lei, havia o querer e faltava o realizar; em Cristo, Deus opera ambos. E Paulo a dirige aos que já estão em Cristo.
A divergência, portanto, não é “Lutero diz que Deus opera no homem, e eu nego”. Não nego. A diferença é temporal e relacional: antes do crer, Deus age mediante a palavra dirigida ao homem; depois do crer, Deus opera naquele que foi unido a Cristo, pela palavra que nele habita. Lutero transporta a segunda realidade para o instante anterior e a usa para explicar por que o homem crê. É exatamente nesse deslocamento que o desacordo permanece.
A controvérsia inteira cabe agora em um instante
Retirados os excessos da crítica, o desacordo pode ser formulado de maneira muito mais estreita. Antes que o evangelho seja anunciado, a concordância é ampla: o homem está sob o pecado, não escolheu Adão, não possui justiça, não pode produzir nova vida. Depois que ele crê, a concordância é novamente extensa: a salvação é obra de Deus, a regeneração é de Deus, a nova vida é de Deus, e Deus opera no regenerado.
A divergência aparece entre esses dois momentos: no instante em que a palavra alcança o ouvinte. Lutero precisa dizer que a palavra exterior não basta e que a onipotência precisa mover o querer. Este estudo sustenta que à palavra não falta poder, porque ela própria é o poder de Deus anunciado ao homem. Essa é a verdadeira jugular da controvérsia, o iugulum que Lutero elogiou Erasmo por ter atingido.
Nem uma qualidade superior, nem uma moção secreta
Chega-se também à pergunta inevitável: então por que um crê e outro não? A resposta precisa evitar duas soluções que este estudo rejeita. Não é porque o primeiro possua uma natureza melhor, o que transformaria a graça em reconhecimento de qualidade. Mas também não é porque uma vontade oculta tenha decidido secretamente produzir fé em um e não no outro.
A diferença está na relação de cada ouvinte com a palavra que lhe foi dirigida: um aquiesce, o outro resiste. Não se trata de superioridade de natureza, nem de potência salvadora, nem de mérito, mas de uma resposta. E, justamente porque a resposta não produz o benefício, quem crê não tem fundamento para gloriar-se.
O que resta de De servo arbitrio
Ao fim deste exame, não resta simplesmente dizer que Lutero estava “errado sobre tudo”. Resta uma conclusão muito mais definida. Ele estava certo em rejeitar uma força humana capaz de produzir salvação. Estava certo ao distinguir necessidade de coação. Estava certo em reconhecer a gravidade da escravidão do pecado. Estava certo em insistir na iniciativa divina. Estava certo em afirmar que Deus opera no homem regenerado. E estava certo ao perceber que a questão do arbítrio tocava a própria jugular da controvérsia.
Estava certo, por fim, em exigir que a fé repouse em algo que não vacila. Mas essa segurança não precisava da necessidade de todos os acontecimentos: já estava na fidelidade de Deus à sua palavra, que “não pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2:13).
Mas, justamente depois de conceder tudo isso, permanece uma tese que não posso acompanhar: a de que a palavra dirigida ao homem não seja suficiente como meio da ação divina e de que, para haver resposta, o próprio querer precise ser movido antes pela onipotência, segundo uma vontade que permanece escondida.
É esse elemento que transforma a servidão em necessidade. É ele que faz da traição de Judas um velle movido por Deus. É ele que exige uma vontade oculta por trás da palavra pregada. É ele que, querendo garantir a certeza das promessas, a coloca numa vontade à qual o crente não tem acesso. E é ele que, por fim, encontra diante de si a declaração: “nem me veio ao pensamento.”
A controvérsia termina, portanto, num lugar muito diferente daquele em que costuma ser posta. Não é necessário defender uma vontade humana soberana contra um Deus soberano. É necessário apenas defender a suficiência da palavra que o Deus soberano decidiu anunciar.
13. Conclusão: “Nem me veio ao pensamento”, ou por que a palavra revelada deve ter a última palavra
A leitura de De servo arbitrio no original exigiu corrigir o alvo da crítica. Lutero não ensinou simplesmente que o homem fosse privado de vontade, nem descreveu o pecador como alguém violentado de fora para praticar aquilo que não deseja. Sua tese é mais cuidadosa: o homem age voluntariamente, sponte et libenti voluntate, mas seu arbitrium não possui a potência pela qual poderia aplicar-se às coisas que conduzem à salvação.
Nesse ponto, a distância é menor do que costuma parecer. Tampouco reconheço no homem uma vis capaz de produzir sua regeneração. O pecador não tem poder para justificar-se, libertar-se do senhorio do pecado, gerar nova vida ou realizar a própria ressurreição. Se foi essa força que Erasmo pretendeu preservar, a objeção de Lutero acerta o alvo.
Mas Romanos 7:18 introduz uma distinção que a definição aceita por ambos não preservou: “o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem”. E Paulo o diz do homem sob a lei, “carnal, vendido sob o pecado” (Romanos 7:14). Querer não é realizar. É a partir dessa distinção que toda a controvérsia precisa ser reconstruída.
O problema nunca foi saber se o homem pode salvar a si mesmo
Ele não pode. O problema é saber se, por não conseguir realizar a salvação, ele também é incapaz de responder àquele que a realiza. São coisas diferentes. O evangelho não ordena ao morto que produza vida; anuncia aquele que vivifica os mortos. Não ordena ao escravo que rompa as próprias correntes; anuncia libertação. Não diz ao culpado que produza justiça; apresenta aquele que justifica o ímpio.
Por isso Paulo pode pôr lado a lado duas expressões que pareceriam contraditórias se crer fosse uma obra: “àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Romanos 4:5). A fé não é uma realização diminuída. É confiança naquele que realiza.
O Éden mostrou onde está o poder
A primeira palavra dirigida ao homem já fornecia o paradigma. Adão não possuía uma potência interna capaz de produzir a própria morte, e o fruto não é apresentado como veneno. A sentença estava na palavra: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17). Adão respondeu a essa palavra pela incredulidade, mas não produziu a morte. A eficácia pertencia àquilo que Deus declarara.
Isso permite compreender também o evangelho sem transferir seu poder para uma faculdade humana. Paulo não diz que a vontade do homem é poder para salvação. Diz que o evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). O poder está na palavra; a resposta, no ouvinte. Confundir as duas coisas é justamente retornar à vis humanae voluntatis que deveria ter sido abandonada.
A palavra não precisa esperar que o homem seja secretamente capacitado
É por isso que João 6:44 não pode ser isolado do versículo seguinte. Jesus diz: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer.” E logo explica: “Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” (João 6:45). O Pai traz ensinando. A iniciativa é inteiramente divina, mas o meio apresentado é a revelação.
Do mesmo modo, os mortos de Efésios 2 não são cadáveres inertes: neles “noutro tempo andastes” (Efésios 2:2). E Jesus diz que “os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (João 5:25). Romanos 8:7, por sua vez, não diz simplesmente que “o homem não pode crer”. O sujeito da impossibilidade é τὸ φρόνημα τῆς σαρκός, a inclinação da carne, um regime que não pode sujeitar-se à lei de Deus. O regime da carne não precisa ser melhorado, e sim abandonado; o velho homem, cujo corpo pertence ao pecado, precisa morrer com Cristo. Mas afirmar isso ainda não demonstra que a palavra do evangelho seja incapaz de alcançar quem vive sob aquele senhorio.
A nova vida não precisa preceder a palavra que a produz
Também aqui a Escritura oferece uma ordem significativa. Deuteronômio 30 não começa com a circuncisão do coração. Antes dela aparece: “E te converteres ao SENHOR teu Deus, e deres ouvidos à sua voz” (Deuteronômio 30:2). Só depois vem: “o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração” (Deuteronômio 30:6).
1 Pedro é ainda mais explícito: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pedro 1:23). A palavra é chamada semente. Não é resultado posterior do nascimento; é o instrumento pelo qual Deus o produz.
Colossenses 2 completa o quadro: “nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2:12). O poder continua sendo de Deus, e é justamente por isso que o homem crê no poder de Deus. Não há aqui uma potência humana concorrente com a graça; há confiança numa potência que o homem não possui.
A ordem que emerge do argumento é, portanto: a palavra é anunciada, o homem ouve e crê, e Deus realiza aquilo que somente Ele pode realizar. Essa formulação preserva a regeneração como obra inteiramente divina, sem retirar da palavra sua função eficaz.
A verdadeira ruptura com Lutero está no próprio querer
Chegamos então ao ponto que as convergências não dissolvem. Lutero escreve acerca de Judas: velle illud erat opus Dei, quod omnipotentia sua movebat, “aquele querer era obra de Deus, que sua onipotência movia”.
Aqui já não se discute se Deus conhece de antemão, nem se Judas agiu coagido; Lutero concede que ele agiu querendo. A questão é a origem daquele querer. Afirmar que Deus conhece não é afirmar que Deus causa. Mas Lutero vai além do conhecimento: atribui à onipotência divina a moção do próprio velle. É aí que De servo arbitrio encontra seu verdadeiro problema.
“Nem me veio ao pensamento”
Jeremias fornece um texto singular, porque Deus não se limita a proibir determinado mal. Fala em primeira pessoa sobre a relação daquele ato com sua própria vontade:
“Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento” (Jeremias 19:5).
A progressão é decisiva. “Nunca lhes ordenei” exclui o preceito. “Nem falei” exclui qualquer palavra divina da qual a prática pudesse proceder. “Nem me veio ao pensamento” alcança o próprio desígnio atribuído a Deus. Não se trata de dizer que Deus desconhecesse o que os homens poderiam praticar; trata-se de negar que aquilo procedesse de sua intenção.
É por isso que a passagem é um problema muito mais sério para a tese da moção universal do que qualquer discussão abstrata sobre presciência. Se todo velle mau fosse opus Dei movido pela onipotência, o querer que levou aqueles homens a sacrificar os próprios filhos também precisaria estar, em algum sentido positivo, na operação divina. Mas Deus diz: “nem me veio ao pensamento”.
A vontade oculta não pode recuperar o que a revelação excluiu
É aqui que o Deus absconditus deixa de resolver o problema. É perfeitamente bíblico afirmar que há coisas que Deus não revelou: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus”. Mas o mesmo versículo continua: “porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29). O que permanece oculto não pode ser usado como uma segunda revelação para alterar aquilo que Deus revelou.
Se nada sabemos acerca do oculto, devemos permanecer em silêncio. Se, porém, afirmamos que nele Deus prevê, propõe, faz e move determinados quereres, já não estamos em silêncio: passamos a ensinar algo acerca de Deus. E essa afirmação precisa submeter-se ao que Deus disse sobre si mesmo. O problema do Deus absconditus, portanto, não é reconhecer o mistério. É preencher o mistério com um conteúdo positivo e usar esse conteúdo para relativizar a palavra.
O oculto bíblico conduz a Cristo
A Escritura conhece outro movimento. O mistério é aquele “que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” (Colossenses 1:26). O que estava escondido em Deus tornou-se matéria de anúncio, e Paulo recebeu a graça de “demonstrar a todos qual seja a comunhão do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus” (Efésios 3:9). E os tesouros escondidos estão em Cristo, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:3), e não atrás dele.
O movimento bíblico vai do oculto ao revelado, e não do revelado a um conteúdo oculto que o corrige. Por isso, quando o Filho revela o Pai, não temos autorização para pôr atrás de Cristo uma vontade mais verdadeira que suas próprias palavras.
Nem a certeza da fé exige esse recurso
Também não é preciso recorrer à necessidade universal para proteger as promessas. Lutero tinha uma preocupação legítima: se Deus pudesse falhar, a fé seria impossível. Mas a Escritura não fundamenta a certeza na necessidade de todos os acontecimentos. Fundamenta-a na fidelidade daquele que prometeu: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hebreus 10:23). Abraão creu, “estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer” (Romanos 4:21). Hebreus fala, sim, da imutabilidade do conselho de Deus aos herdeiros da promessa e das “duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta” (Hebreus 6:18). E Paulo escreve: “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2:13).
A variação da resposta humana não produz variação em Deus. A promessa não é certa porque todos os acontecimentos sejam engrenagens inevitáveis; é certa porque Deus não mente. Essa é a diferença entre fidelidade e necessidade, e é por isso que a segurança cristã está na palavra fiel, e não num decreto ao qual o crente não tem acesso.
A divergência inteira está num único instante
Depois de todas as concessões feitas a Lutero, a controvérsia pode ser reduzida à sua verdadeira dimensão. Antes que o evangelho alcance o homem, concordamos que ele está sob o pecado, não escolheu nascer em Adão e não possui força para produzir sua libertação. Depois que está em Cristo, concordamos que a nova vida é obra de Deus e que “Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13).
A diferença está no instante entre essas duas condições: aquele em que a palavra alcança quem ainda está sob o antigo senhorio. Lutero precisa pôr ali uma moção interior da onipotência, anterior e determinante, sem a qual a palavra exterior não produziria resposta. Este estudo põe ali o próprio evangelho, “o poder de Deus para salvação”.
A diferença, portanto, não está entre graça divina e autonomia humana. Está entre duas explicações da eficácia da graça. Uma põe aquilo que decide secretamente dentro do ouvinte. A outra põe o poder de Deus publicamente diante dele, na palavra anunciada.
O homem não pode gloriar-se de ter capitulado
Resta a pergunta que sempre retorna: se um crê e outro não, não foi o primeiro quem fez a diferença? Houve, sim, diferença de resposta. Disso, porém, não se segue mérito. Quem capitula não pode gloriar-se de ter derrotado o rei diante do qual depôs as armas. Crer é justamente abandonar a pretensão de produzir justiça própria. É descansar, confiar, receber como verdadeira a palavra que Deus pôs diante do homem.
Quem crê não pode dizer “salvei a mim mesmo”. Sua própria fé testemunha o contrário: “não posso salvar-me; creio naquele que pode”. Não há mérito em reconhecer a própria impotência.
Nem inversão, nem caricatura
Por isso este estudo não termina simplesmente invertendo a crítica habitual a Lutero. Não conclui que Lutero estava certo. Conclui que ele precisava ser criticado por aquilo que realmente escreveu, e não por uma caricatura de sua posição.
Lutero não aboliu o querer. Não ensinou coação. Percebeu corretamente que a controvérsia dizia respeito à potência atribuída ao homem, e estava certo ao recusar que essa potência salvadora residisse na criatura. Mas foi além. Transformou a ausência de poder para realizar em incapacidade para aquiescer. Transformou a imutabilidade de Deus em necessidade dos acontecimentos. Transformou a providência em moção do próprio querer. E, quando a palavra revelada pareceu apontar em outra direção, preservou uma vontade escondida sobre a qual não se deveria perguntar. É esse último movimento que não consigo acompanhar.
A palavra deve ter a última palavra
Não sabemos tudo o que Deus sabe, não conhecemos todas as razões de seus atos, não temos acesso exaustivo ao seu conselho. Há coisas encobertas que pertencem somente a Ele. Mas, justamente porque pertencem a Ele, não temos autorização para preenchê-las com aquilo que nossa metafísica exige. Quando Deus permanece em silêncio, podemos permanecer em silêncio. Quando fala, devemos ouvir.
E quando Ele próprio declara sobre determinado mal “nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento”, não cabe à teologia responder: “não veio ao pensamento revelado, mas estava na vontade escondida”. Essa resposta não preserva o mistério. Contradiz uma revelação em nome de uma informação que ninguém recebeu. O oculto pode continuar oculto. O que não pode é tornar-se uma vontade inventada atrás da palavra, capaz de fazer a palavra significar menos do que Deus disse.
Por isso, a conclusão deste estudo não é simplesmente que “a vontade não é escrava”. É mais precisa: o homem não possui em si o poder da salvação; o poder está na palavra daquele que salva.
Ele não escolheu a condição em que nasceu, mas Deus lhe dirige uma palavra. Não pode produzir nova vida, mas Deus anuncia aquele que vivifica. Não pode realizar sua própria justiça, mas pode descansar naquele que justifica o ímpio.
E não precisamos procurar atrás dessa palavra uma vontade mais verdadeira que a própria palavra. Porque, quando Deus quis excluir de si determinada atribuição, não nos deixou diante do silêncio. Ele falou:
“Nem me veio ao pensamento.”
“Nem me veio ao pensamento”: um contraponto à vontade oculta de Lutero (Parte 1)

