Compreender o que a Bíblia chama de fé é indispensável para compreender a salvação em Cristo. Mas uma dificuldade aparece logo no início: em português, usamos frequentemente a mesma palavra — “fé” — para designar coisas diferentes. Podemos falar da fé como confiança, da fé como conteúdo crido e até da fé como fidelidade.
O grego do Novo Testamento ajuda a organizar a questão.
O substantivo πίστις (pístis) pode significar fé, confiança, fidelidade e, em alguns contextos, a própria fé enquanto conteúdo recebido e transmitido. Já o verbo πιστεύω (pisteúō) significa crer, confiar, depositar confiança.
Essa diferença é importante.
A fé não é exatamente o mesmo que o ato de crer.
A pístis é aquilo em que a confiança se apoia ou a própria confiança enquanto realidade estabelecida; pisteúō é a ação do homem diante daquilo que lhe foi apresentado como verdadeiro.
Por isso Paulo pode escrever:
“A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17).
No grego:
ἡ πίστις ἐξ ἀκοῆς
“a fé vem do ouvir”.
Mas, poucos versículos antes, ao falar da resposta do homem, emprega o verbo:
ἐὰν πιστεύσῃς ἐν τῇ καρδίᾳ σου
“se creres em teu coração” (Romanos 10:9).
De um lado está a fé (pístis); de outro, o crer (pisteúō).
Não são termos estranhos entre si — pertencem à mesma família lexical —, mas também não devem ser confundidos como se designassem exatamente a mesma coisa. No grego do Novo Testamento, essa relação é visível na própria forma das palavras: πίστις (pístis), “fé, confiança, fidelidade”, e πιστεύω (pisteúō), “crer, confiar”, pertencem à mesma família formada sobre o radical πιστ-. O substantivo e o verbo, portanto, permanecem linguisticamente ligados: pístis e pisteúō, fé e crer.
Essa ligação ficou menos evidente quando o texto passou para o latim. A tradição latina empregou fides para traduzir pístis, mas recorreu normalmente a credere para traduzir pisteúō. Assim, onde o grego mantém diante do leitor palavras da mesma família, o latim apresenta dois vocábulos de famílias diferentes: fides e credere. As línguas românicas herdaram em grande medida essa separação: em português, dizemos fé, mas não possuímos um verbo derivado ordinariamente da mesma base com o sentido de “exercer fé”; dizemos crer, proveniente de credere.
Isso produz um efeito importante na leitura. Para o leitor grego, a relação entre fé e crer é imediatamente perceptível: pístis é o substantivo e pisteúō é o verbo da mesma família. Em português, “fé” e “crer” parecem, à primeira vista, conceitos lexicalmente independentes. Essa distância vocabular pode ocultar uma relação que o texto grego mantém à vista.
Ainda assim, a relação lexical não significa identidade gramatical. πίστις é substantivo; πιστεύω é verbo. A primeira pode nomear fé, confiança, fidelidade ou, conforme o contexto, aquilo que é crido; o segundo descreve a ação de crer ou confiar. Por isso é possível distinguir sem separar: a fé é apresentada; o homem crê; a verdade é anunciada; o ouvinte deposita nela a sua confiança.
Paulo pergunta: “Como crerão (πιστεύσωσιν) naquele de quem não ouviram?” (Romanos 10:14) e, poucos versículos depois, conclui: “a fé (πίστις) vem pelo ouvir” (Romanos 10:17). Em português, “crer” e “fé” parecem palavras sem parentesco; no grego, πιστεύσωσιν e πίστις tornam visível que se trata da mesma família semântica, embora uma forma designe o ato de confiar e a outra nomeie a fé ou confiança. Isso permite preservar uma distinção importante: o homem crê; ele não cria aquilo em que crê.
Isso será fundamental para compreender a diferença entre a verdade que se apresenta ao homem e a confiança que o homem deposita nessa verdade.
Classificação
Para fins didáticos, podemos distinguir dois campos:
a) fé natural;
b) fé salvadora.
A distinção não pretende afirmar que existam duas faculdades diferentes dentro do homem. O princípio básico é semelhante: a confiança possui um objeto.
A diferença está naquilo que produz a confiança e, sobretudo, na finalidade para a qual ela se dirige.
Fé natural
No uso comum, fé pode significar crença, confiança, segurança ou expectativa. Mesmo alguém que rejeite qualquer crença religiosa vive diariamente apoiado em inúmeras formas de confiança.
O homem atravessa uma ponte porque confia que ela suportará seu peso. O motorista faz uma curva confiando no atrito entre os pneus e o asfalto. O agricultor lança a semente esperando que as condições naturais permitam sua germinação. Quem faz planos para amanhã age porque espera que o curso ordinário da realidade continue.
Essa confiança, porém, não cria a realidade na qual se apoia. O homem não torna a gravidade verdadeira por acreditar nela; A chuva não cai porque alguém acredita que choverá; O dia não sucede à noite porque alguém depositou confiança nesse acontecimento.
A ordem é inversa:
Deus fala.
A promessa é anunciada.
Cristo é apresentado.
O homem ouve.
E, ouvindo, crê.
Mais uma vez:
a verdade produz certeza; a certeza não produz verdade.
Cristo não ressuscitou porque alguém creu.
O homem crê porque lhe é anunciado que Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos.
É exatamente essa a ordem de Romanos 10:
“Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:9).
O verbo é novamente pisteúō.
O homem não produz a ressurreição com sua crença. A ressurreição é o fato anunciado.
Crer é confiar no que Deus realizou e prometeu.
A fé como conteúdo anunciado
Há ainda outro uso importante de pístis no Novo Testamento. Em determinados contextos, “a fé” não designa simplesmente a confiança subjetiva existente no indivíduo, mas aquilo que é crido: a mensagem recebida, anunciada e transmitida.
Judas oferece um exemplo particularmente claro:
“batalhardes pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3).
No grego:
τῇ ἅπαξ παραδοθείσῃ τοῖς ἁγίοις πίστει
Aqui, a pístis é algo que foi entregue — paradotheísē, de paradídōmi, “entregar, transmitir”. Nesse contexto, portanto, “a fé” não pode ser reduzida ao ato interior de alguém confiar, pois não foi a confiança subjetiva dos santos que lhes foi entregue, mas o conteúdo da mensagem cristã que receberam.
Paulo emprega linguagem semelhante ao recordar aquilo que se dizia a seu respeito depois de sua conversão:
“Aquele que já nos perseguiu anuncia agora a fé que antes destruía” (Gálatas 1:23).
Não se destrói a confiança interior de outra pessoa no sentido em que se destrói uma doutrina anunciada; e Paulo não estava pregando seu próprio estado psicológico. A “fé” aparece aqui como aquilo que passou a anunciar.
Romanos 10 torna essa distinção ainda mais instrutiva. Paulo fala da:
“palavra da fé, que pregamos” (Romanos 10:8).
Existe, portanto, uma palavra que é pregada e, diante dela, o homem é chamado a crer:
“se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:9).
A relação entre pístis e pisteúō aparece novamente. A mensagem é anunciada; o homem crê naquilo que ouviu. Não se trata de separar os termos, que pertencem à mesma família lexical, mas de distinguir o conteúdo apresentado da resposta daquele que o recebe.
Isso impede que pístis seja automaticamente reduzida a uma disposição psicológica produzida dentro do homem. Conforme o contexto, o termo pode designar a confiança daquele que crê, mas pode também apontar para a fé enquanto realidade anunciada e recebida, isto é, para o conteúdo em que se crê.
Podemos, então, formular a relação com maior precisão:
a fé pode ser entregue; o homem a recebe;
a fé pode ser anunciada; o homem a ouve;
a palavra da fé pode ser pregada; o homem crê.
Aquilo que Deus revelou vem primeiro; a confiança do ouvinte vem como resposta, de modo que é a verdade que produz confiança.
É também sob essa perspectiva que ganha relevo a expressão paulina “obediência da fé” — ὑπακοὴ πίστεως (Romanos 1:5; 16:26). A construção admite discussão quanto à relação exata do genitivo, mas o contexto de Romanos é inequívoco quanto ao movimento: o evangelho é manifestado, anunciado às nações e dirigido a elas para que haja uma resposta de fé.
Assim, o evangelho não é produzido pelo crente, nem se torna verdadeiro quando alguém crê. Primeiro Deus fala, promete e realiza; depois essa verdade é anunciada, ouvida e crida. A pístis pode nomear aquilo que chega ao homem; pisteúō descreve o homem confiando naquilo que lhe chegou.
É novamente a mesma ordem: a verdade é anunciada; o homem crê. A crença não produz a verdade — responde a ela.
A fidelidade de Deus é o fundamento da confiança
A fé salvadora não repousa, portanto, na intensidade psicológica da confiança humana.
Repousa na fidelidade daquele que prometeu.
Abraão é apresentado exatamente assim:
“estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer” (Romanos 4:21).
A segurança de Abraão não tornou Deus capaz de cumprir.
Ele confiou porque Deus era capaz.
Da mesma forma:
“fiel é o que prometeu” (Hebreus 10:23).
A base da confiança não está em quem crê. Essa confiança não nasce da força interior daquele que crê, mas da fidelidade daquele que fez a promessa. Porque Deus é fiel à sua palavra e poderoso para cumpri-la, sua palavra se apresenta como digna de crédito e, por isso, pode ser recebida com plena confiança. É nesse sentido que Paulo afirma repetidamente: “Fiel é esta palavra e digna de toda a aceitação” (1 Timóteo 1:15; cf. 4:9). A crença, portanto, não torna verdadeira a promessa; decorre da dignidade e da fidelidade da palavra daquele que prometeu.
Está em quem promete.
Isso permite formular a questão com maior precisão:
Não é a força da crença que garante a promessa; é a fidelidade de quem prometeu que torna racional e segura a confiança.
A mesma lógica se aplica à salvação.
O homem não produz a realidade da salvação por confiar nela.
Deus preparou a salvação em Cristo, anunciou-a pelo evangelho e oferece nela um fundamento digno de confiança.
O homem é chamado a crer
Por isso, é necessário distinguir novamente a fé — pístis — de o crer — pisteúō. A mensagem não crê, Cristo não crê no lugar do ouvinte e a promessa não crê. Quem crê é o homem. Contudo, aquilo em que ele crê não foi produzido por ele; foi-lhe anunciado.
É nesse sentido que Jesus ordena: “Arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1:15). O verbo “crede” traduz πιστεύετε, forma de pisteúō. O objeto da confiança já está posto diante dos ouvintes: o evangelho. A ordem, portanto, não é que produzam dentro de si uma fé e façam dela o fundamento da salvação, mas que creiam na boa notícia que lhes está sendo anunciada.
A força, assim, não está no ato psicológico de crer, mas naquilo em que se crê. Por isso Paulo chama o evangelho de “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). O poder pertence a Deus e ao evangelho; o homem é descrito como “aquele que crê” — τῷ πιστεύοντι.
Essa distinção é fundamental: o evangelho é o poder de Deus para salvar; crer não é o poder que salva, mas a confiança naquele poder.
Fé natural e fé salvadora
Podemos, então, formular melhor a comparação entre fé natural e fé salvadora. Elas não são idênticas, mas compartilham um princípio epistemológico elementar: a confiança sempre se dirige a um objeto considerado verdadeiro e digno de confiança.
Na experiência natural, o homem confia naquilo que aprende acerca do mundo e reconhece como regular e confiável. Na salvação, porém, sua confiança se dirige àquilo que Deus revelou acerca de Cristo. A primeira se apoia na regularidade percebida da criação; a segunda, na fidelidade do Criador e na verdade da palavra do evangelho.
É justamente esse contraste que o salmista estabelece ao declarar:
“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do SENHOR nosso Deus.” (Salmo 20:7).
A questão, portanto, não é simplesmente se o homem confia, pois todos depositam confiança em alguma coisa. A questão decisiva é em quem ou em que essa confiança está depositada. Uns confiam na força que podem mobilizar, nos recursos de que dispõem e naquilo que podem controlar; o justo, porém, confia em Deus.
E aqui reaparece o princípio que governa toda a argumentação: a confiança do homem não torna Deus fiel. Ela é possível justamente porque Deus já é fiel. O homem não confere credibilidade à palavra divina ao crer nela; crê porque aquele que falou é verdadeiro, fiel e poderoso para cumprir o que prometeu.
Deus ofereceu uma demonstração decisiva de seu poder e de sua fidelidade ao ressuscitar Cristo dentre os mortos. Cristo confiou no Pai conforme o que havia sido anunciado pelos profetas, submeteu-se à vontade divina e foi “obediente até à morte, e morte de cruz”. Deus, por sua vez, confirmou essa confiança e essa obediência ao agir poderosamente sobre ele, levantando-o dentre os mortos e fazendo-o assentar à sua direita.
É nessa base objetiva que o evangelho chama o homem a crer. Paulo não apresenta a fé como confiança lançada no vazio, mas como resposta a um ato já realizado por Deus: “se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10:9). O objeto da crença é, portanto, um Deus que já demonstrou seu poder ao ressuscitar Cristo.
Efésios reforça o mesmo ponto ao falar da “sobre-excelente grandeza do seu poder”, manifestada segundo a operação da sua força, “que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” (Efésios 1:19-20). A ressurreição torna-se, assim, a prova histórica de que Deus é poderoso para cumprir aquilo que promete.
Por isso, a confiança cristã não repousa numa disposição subjetiva do crente, mas na fidelidade daquele que já agiu. Cristo confiou no Pai e foi obediente até a morte; o Pai respondeu com poder, ressuscitando-o e exaltando-o. É esse Deus, comprovadamente fiel e poderoso, que o evangelho apresenta como digno de ser crido.
Assim, a fé salvadora não tem por fundamento a intensidade da confiança do crente, mas a dignidade daquele em quem ele confia. Deus não se torna digno de crédito porque o homem crê; o homem crê porque Deus é digno de crédito.
Conclusão
A distinção entre pístis e pisteúō impede um equívoco importante. Fé não deve ser reduzida ao mero ato interior de acreditar.
No Novo Testamento, pístis possui um campo semântico mais amplo: pode indicar confiança, fidelidade e, conforme o contexto, a própria fé recebida e anunciada.
Pisteúō, por sua vez, descreve o ato de crer, confiar, depositar confiança. Por isso, a salvação não começa com o homem produzindo dentro de si algo chamado fé, nem com Deus infundindo previamente nele uma capacidade para crer. A origem está em Deus e em sua palavra: Deus é fiel e poderoso para cumprir o que promete.
Ele promete, envia Cristo, e Cristo realiza a obra. O evangelho, então, anuncia aquilo que Deus fez e prometeu. O homem ouve essa palavra e, reconhecendo-a como digna de confiança por causa da fidelidade daquele que a proferiu, crê.
Assim, crer no evangelho não transforma uma possibilidade em verdade; repousa numa verdade já estabelecida pela fidelidade e pelo poder de Deus.
Ela repousa numa verdade que já foi estabelecida por Deus. Daí permanecer válida a proposição que governa todo o argumento:
A verdade produz certeza; a certeza não produz verdade.
E, no evangelho:
a promessa produz fundamento para a confiança; a confiança não produz a promessa (Efésios 2:20).
É por isso que a Escritura não chama o homem a criar a salvação pela fé.
Chama-o a crer naquele que salva.

