Pecado

Adão pecou e trouxe a morte: a humanidade sob a morte tornou-se pecadora


Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.

Transgressão, hamartía e obediência em Romanos 5

Quando se fala em pecado, é comum que a primeira imagem formada seja a de uma ação moralmente reprovável. Mentir, furtar, adulterar, matar ou cometer alguma injustiça são atos imediatamente identificados como pecados e, quase sem perceber, passa-se da afirmação de que determinado homem praticou um pecado para a conclusão de que ele é pecador porque praticou aquela ação. Essa associação parece natural, mas cria dificuldades quando aplicada à argumentação de Paulo em Romanos 5, porque o apóstolo não explica a condição humana como simples resultado da multiplicação de ações moralmente erradas.

O argumento paulino começa com um homem e com um acontecimento singular: “por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” (Romanos 5:12). A ordem é importante. Adão recebe um mandamento específico, desobedece à palavra recebida e transgride o limite que Deus havia estabelecido; por essa ação, a ἁμαρτία (hamartía) entra no mundo e, por meio dela, entra a morte. Em Adão, portanto, o movimento parte de uma ação e desemboca numa condição que ultrapassa o próprio agente.

Com seus descendentes, contudo, a história não recomeça no mesmo ponto. Eles não aparecem diante de Deus na situação em que Adão se encontrava antes da queda, como se cada indivíduo recebesse novamente um mundo sem pecado e sem morte para decidir se permitiria ou não a entrada da morte. Quando os descendentes de Adão surgem, a morte já entrou no mundo e já exerce o domínio que Paulo descreverá dizendo que “a morte reinou” (Romanos 5:14). Por isso, a relação causal precisa ser distinguida: Adão peca e traz a morte ao mundo; seus descendentes vêm ao mundo sob a morte e, nessa condição, são pecadores.

Essa assimetria constitui a tese central deste estudo. Em Adão está em evidência uma ação: sua desobediência a um mandamento determinado. Nos descendentes está em evidência um estado: a existência sob uma realidade que eles não inauguraram. As ações posteriores desses homens podem ser boas ou más e continuam possuindo valor moral, mas não são elas que criam ou removem a condição fundamental na qual a humanidade passou a existir.

A distinção se torna ainda mais significativa quando se observa que Adão transgrediu antes de possuir o conhecimento do bem e do mal associado à árvore. O conhecimento que mais tarde passaria a orientar a avaliação moral das ações humanas não foi o fundamento da primeira transgressão; foi uma consequência dela. Isso significa que aquilo que a humanidade utiliza como medida de aproximação ou afastamento de Deus — conhecer o bem, escolher o bem, evitar o mal — chegou depois do acontecimento que introduziu no mundo o pecado e a morte. O conhecimento pode avaliar a condição, mas não pode desfazer aquilo que o antecedeu.

É justamente por essa razão que Paulo, ao construir o contraste entre Adão e Cristo, não opõe ignorância e conhecimento, nem simplesmente más obras e boas obras. Em Romanos 5:19, a oposição é muito mais precisa: desobediência e obediência. Pela desobediência de um, muitos foram constituídos pecadores; pela obediência de outro, muitos serão constituídos justos. A resposta corresponde à natureza da ruptura.

Adão transgrediu antes de conhecer o bem e o mal

A narrativa de Gênesis precisa ser lida em sua própria sequência. Antes de tomar do fruto, Adão já havia recebido uma palavra suficientemente clara:

“De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:16–17).

A liberdade concedida ao homem era ampla, enquanto a restrição era específica. Adão não precisava elaborar por conta própria uma teoria sobre o bem e o mal para saber o que deveria fazer; Deus havia estabelecido o limite antes que o homem adquirisse o conhecimento associado à árvore. Sua responsabilidade, portanto, não dependia de uma consciência moral previamente construída a partir da distinção entre bem e mal, mas da palavra que lhe fora dirigida.

A transgressão consistiu precisamente em ultrapassar esse limite. Deus dissera “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, e o homem comeu. É nesse sentido que o ato pode ser denominado παράβασις (parábasis), transgressão, pois havia uma fronteira estabelecida que foi atravessada, e παρακοή (parakoḗ), desobediência, pois havia uma palavra recebida que não foi atendida.

O conhecimento do bem e do mal surge no mesmo momento, mas decorre do fruto da árvore, e não da sentença “certamente morrerás”. Quando Deus declara que “o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal” (Gênesis 3:22), a expressão “se tornou” sublinha uma mudança de condição: o conhecimento associado à árvore não estava presente daquela forma antes da transgressão; aparece como resultado do ato de comer o fruto. Esse ato (παράβασις) trouxe o pecado e a morte; ao mesmo tempo, fez com que o homem se apropriasse de um conhecimento próprio do fruto, que não se confunde com o pecado nem com a morte que entraram no mundo.

Isso impede que se reconstrua a primeira transgressão como se Adão houvesse analisado previamente duas categorias morais, identificado uma delas como “mal” e, apesar disso, escolhido praticá-la. A narrativa apresenta outra estrutura: havia uma palavra de Deus que concedia plena liberdade e advertia sobre uma decisão que teria consequência, de modo que a questão colocada diante do homem era se permaneceria ou não nessa palavra.

Há quem objete que não existe liberdade onde se impõe limite. Diante disso, é indispensável considerar que o próprio Deus, soberano e livre, tem limites e limita a si mesmo: ora sujeitando-se à sua palavra, ora por não poder negar a si mesmo nem justificar o ímpio. Para que o homem fosse igualmente livre e tomasse decisões soberanas, também precisava de um limite (“certamente morrerás”), pois só assim poderia exercer plenamente essa faculdade. O tempo se encarregaria de tornar suas decisões imutáveis: não cabe ao homem alterar uma decisão tomada nem os seus efeitos; se quiser remediá-la, terá de tomar uma nova.

Voltando ao Éden, a serpente introduz justamente uma mudança de fundamento. A ordem divina havia definido o limite, mas o diálogo de Gênesis 3 desloca a atenção para aquilo que a árvore parecia oferecer. A mulher vê que o fruto é bom para alimento, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento; sua avaliação do objeto passa a concorrer com aquilo que Deus havia dito. A questão deixa de ser apenas a palavra recebida e passa a incluir aquilo que parece bom aos olhos do próprio homem.

Não é necessário concluir, por isso, que o conhecimento do bem e do mal seja intrinsecamente mau. O próprio texto atribui esse conhecimento a Deus. O problema não está no conhecimento em si, mas em buscá-lo por meio da desobediência, sem levar em conta a palavra de Deus e a consequência anunciada. O homem não pecou porque conhecer fosse mau, mas porque, em vista de algo que desconhecia — o conhecimento do bem e do mal —, lançou mão daquilo sobre o qual Deus o havia alertado que teria consequências.

Pela mesma razão, convém afastar três leituras correntes: a de que a queda abriu os olhos de Adão e Eva apenas para o mal; a de que foi a desobediência, e não o fruto, que lhes deu esse conhecimento; e a de que a transgressão introduziu no mundo, além do pecado, o mal. O texto diz que os olhos de ambos se abriram (Gênesis 3:7) e que o homem passou a conhecer o bem e o mal (Gênesis 3:22), e não somente o mal. A árvore era do conhecimento do bem e do mal, e essa dualidade era própria do fruto: o homem não tinha como participar de um e deixar o outro. O ato foi um só, mas seus efeitos têm origens distintas: como transgressão da palavra, acionou a sentença e trouxe o pecado e a morte (Romanos 5:12); como participação no fruto, deu ao homem o conhecimento do bem e do mal. O que entrou no mundo pela desobediência foi o pecado e a morte; o mal de que fala Gênesis aparece ao lado do bem, como objeto de um conhecimento que o próprio Deus possui.

Essa distinção produz uma consequência importante. O conhecimento que mais tarde permitiria ao homem avaliar suas ações como boas ou más não causou a primeira transgressão. Quando esse conhecimento chegou, a desobediência já havia acontecido e a sentença “certamente morrerás” já havia sido acionada. O conhecimento veio tarde demais para impedir aquilo que, a partir de então, tentaria administrar.

Hamartía: mais que uma ação isolada

A distinção entre o ato de Adão e a condição posterior da humanidade exige atenção ao vocabulário utilizado por Paulo. Romanos 5 não emprega uma única palavra, indistintamente, para descrever tudo o que aconteceu no Éden. O apóstolo fala de παρακοή, desobediência; παράβασις, transgressão; παράπτωμα (paráptōma), ofensa ou queda; e ἁμαρτία, pecado.

O campo semântico de ἁμαρτάνω (hamartánō) é mais amplo do que a conhecida formulação “errar o alvo”. Léxicos do grego antigo registram sentidos como falhar em atingir, não alcançar determinado resultado, ficar aquém, ser deficiente, cometer um erro e, em determinados contextos, cometer uma ofensa. O Cambridge Greek Lexicon, por exemplo, organiza os usos desde “falhar em atingir a marca” até “falhar em alcançar ou realizar”, “ficar aquém” e “cometer uma ofensa”.

A imagem do arqueiro continua sendo útil, desde que não seja reduzida ao ponto em que a flecha cai fora do alvo. A hamartía não precisa ser imaginada apenas como o espaço que separa a flecha do centro: é o empreendimento como um todo que falhou em relação àquilo que deveria alcançar. O movimento do arqueiro, a direção da flecha e o resultado que não correspondeu à marca estão todos incluídos na hamartía.

W. E. Vine reconhece essa ideia ao indicar como sentido literal de ἁμαρτία a “falha em atingir a marca”, mas sua exposição se torna ainda mais importante quando trata do uso paulino. Vine identifica ocorrências em que hamartía funciona como “princípio ou fonte de ação” e outras em que aparece como “princípio ou poder governante”, citando especialmente Romanos 5–8.

Essa amplitude já pode ser percebida no grego clássico. Na Poética, Aristóteles emprega ἁμαρτία ao descrever a falha pela qual o personagem trágico passa da prosperidade à desventura, sem que seja necessário caracterizá-lo como essencialmente perverso. O dado não significa que Paulo tenha retirado sua doutrina do pecado da tragédia grega, mas demonstra que hamartía não era, lexicalmente, sinônimo obrigatório de “violação consciente de uma lei”.

Kenneth McLeish, em sua apresentação da Poética, procura justamente afastar uma moralização excessiva da tragédia aristotélica, ressaltando que o fracasso do personagem não deve ser confundido automaticamente com perversidade. Para quem quiser se aprofundar no tema, a edição brasileira da obra, traduzida por Raul Fiker, foi publicada pela Editora UNESP.

Essa distinção lexical torna-se particularmente significativa em Romanos 5. Adão pratica uma desobediência, ultrapassa um limite e, por isso, comete uma transgressão. Paulo, porém, não se limita a afirmar que Adão transgrediu; escreve que, por um homem, ἡ ἁμαρτία entrou no mundo.

A linguagem muda de escala. O ato pertence ao homem que desobedeceu, enquanto aquilo que entra no mundo excede o próprio agente.

Esse desenvolvimento fica ainda mais claro nos capítulos seguintes de Romanos, nos quais o pecado aparece como uma realidade que reina, domina, escraviza, engana, habita e opera. Paulo afirma que o pecado “reinou na morte” (Romanos 5:21), que não deve “reinar” no corpo mortal (Romanos 6:12), que não terá “domínio” sobre aqueles que estão sob a graça (Romanos 6:14), que os homens foram “servos do pecado” (Romanos 6:17,20) e que o pecado pode habitar no homem e operar nele (Romanos 7:17,20).

Essas expressões dificilmente podem ser reduzidas à ideia de uma coleção de decisões moralmente erradas. Paulo personifica a hamartía como poder e descreve os homens em relação de sujeição a ela.

É nesse sentido que a expressão ὑφ’ ἁμαρτίαν, “sob pecado”, de Romanos 3:9 adquire especial importância. Paulo não está simplesmente dizendo que judeus e gentios já praticaram alguma ação inadequada; apresenta ambos debaixo de uma condição que os abrange: o senhorio do pecado, que é o aguilhão da morte (1 Coríntios 15:56).

Em Adão, pecado e depois morte

Romanos 5:12 estabelece a ordem referente ao primeiro homem:

“Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte.”

Adão recebe uma palavra, desobedece, transgride, e dessa ação entra a hamartía no mundo; por meio da hamartía, entra a morte. A causalidade do primeiro movimento não deve ser invertida.

Em Adão, portanto, temos:

mandamento → desobediência → transgressão → pecado → morte.

Essa sequência pertence à singularidade de Adão. Ele não nasceu debaixo da morte; sua ação é apresentada como aquilo por meio do qual a morte entra. Ele não recebeu um mundo já dominado pela hamartía; sua desobediência constitui o acontecimento pelo qual essa realidade entra no mundo.

Isso explica por que Adão não deve ser tratado simplesmente como o primeiro de uma série de pecadores idênticos. Sua posição é singular porque sua ação possui função causal. Antes dele, na narrativa paulina, não há o reino da morte sobre a humanidade; depois dele, a morte passa a reinar.

Nos descendentes, primeiro está a morte

É justamente aqui que a condição dos descendentes deve ser diferenciada. Paulo não afirma que cada ser humano retorna à condição pré-adâmica para repetir a sequência inicial. Ao contrário, declara que:

“… a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão” (Romanos 5:14).

Essa afirmação é fundamental. Há homens sobre os quais a morte reina sem que tenham cometido transgressão à semelhança da de Adão, qual seja, desobedecer a um mandamento direto de Deus, com consequências tão funestas. A universalidade da morte, portanto, não depende da universalização da mesma transgressão.

A diferença pode ser formulada de maneira simples: Adão atravessou o limite; seus descendentes nascem do outro lado dele.

Eles não precisam novamente estender a mão para o fruto a fim de colocar-se sob a morte, porque a morte já entrou e já reina. Não começam pela desobediência de Adão; começam pela consequência da desobediência dele.

Por isso, a ordem referente aos descendentes não deve ser apresentada como se cada homem primeiro praticasse uma transgressão para depois tornar-se pecador e morrer. Essa estrutura reproduziria em cada indivíduo a situação singular de Adão e apagaria justamente a distinção estabelecida em Romanos 5:14.

A ordem defendida neste artigo é outra:

Adão peca → entra a morte.

A humanidade nasce sob a morte → e, por isso, encontra-se na condição de pecadora.

Em Adão há uma ação inaugural; em seus descendentes há um estado recebido.

Essa distinção não significa que os descendentes deixem de praticar pecados, nem que suas decisões sejam moralmente indiferentes. Significa que essas decisões não criam a condição na qual eles já se encontram. A condição de pecador não começa quando alguém pratica sua primeira ação má, nem desaparece quando pratica uma ação boa.

Um homem pode alimentar seu filho, socorrer um necessitado, devolver aquilo que encontrou, dizer a verdade ou agir com justiça em determinada circunstância e continuar sendo pecador. Da mesma maneira, pode mentir, furtar ou agir injustamente sem que essa ação seja aquilo que o transforma pela primeira vez em pecador.

Boas ou más ações acontecem dentro de uma condição anterior às próprias ações.

Essa é uma das razões pelas quais Romanos 5:19 é tão importante: “pela desobediência de um só homem, muitos foram constituídos pecadores”.

Paulo não diz apenas que os muitos passaram a cometer más ações. O verbo καθίστημι (kathístēmi) aponta para constituição ou estabelecimento em determinada posição. Os muitos são constituídos ἁμαρτωλοί, pecadores.

A força do argumento aparece no paralelo, porque o mesmo verbo é empregado no outro lado: pela obediência de um, muitos serão constituídos justos. Se “constituídos pecadores” significasse simplesmente “passaram a praticar más ações”, seria difícil manter a correspondência com a constituição como justos, que Paulo vincula à obediência de Cristo e não à soma das boas obras dos muitos.

“A morte passou a todos”: a questão de Romanos 5:12

É nesse contexto que deve ser examinada a controversa expressão ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον no final de Romanos 5:12.

A tradução causal, “porque todos pecaram”, possui tradição antiga e amplo apoio. Entretanto, Joseph A. Fitzmyer dedicou um estudo específico à possibilidade de ἐφ’ ᾧ possuir valor consecutivo, isto é, expressar resultado. Seu artigo, publicado em New Testament Studies em 1993, examina precisamente a possibilidade de compreender a construção como “com o resultado de que todos pecaram”.

Essa leitura se ajusta de maneira particularmente interessante à assimetria aqui proposta. O movimento seria:

Adão desobedece → pecado entra → morte entra → morte passa a todos → como resultado, todos são alcançados pela condição pecaminosa.

Nesse caso, o final do versículo não estaria simplesmente reproduzindo em cada descendente a sequência “pecado pessoal → morte”, mas descrevendo a extensão da morte como condição da humanidade posterior a Adão.

J. Cambier já havia dedicado estudo importante à relação entre “os pecados dos homens” e “o pecado de Adão” em Romanos 5:12, mostrando como a distinção entre esses dois níveis pertence ao próprio problema exegético da passagem. Seu artigo apareceu em New Testament Studies em 1965.

A tese deste artigo, contudo, não precisa repousar exclusivamente sobre a leitura consecutiva de ἐφ’ ᾧ. Mesmo que se adote a tradução causal tradicional, permanece o dado incontornável de Romanos 5:14: a morte reina sobre pessoas que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão. Portanto, a condição dos descendentes não pode ser simplesmente identificada com uma reprodução individual da transgressão originária.

A leitura consecutiva de Fitzmyer é importante porque torna explícita uma possibilidade sintática que corresponde particularmente bem à ordem aqui defendida, mas o argumento maior depende do conjunto da passagem: entrada do pecado por um homem, entrada da morte pelo pecado, passagem da morte a todos, reino da morte mesmo sobre aqueles que não repetiram a transgressão de Adão e constituição dos muitos como pecadores pela desobediência de um.

O texto evidencia que todos pecaram em função da condição advinda da força do mandamento, que operou devido à desobediência; daí a realidade: as pessoas são pecadoras porque são escravas do pecado, e não porque cometem transgressões. Como os filhos de Israel, em particular, achavam que haviam se livrado de tal condição por terem Abraão por pai, Deus lhes deu a lei para evidenciar que, assim como toda a humanidade, eram também transgressores.

O conhecimento do bem e do mal chega depois da ruptura

Essa ordem lança nova luz sobre o papel do conhecimento do bem e do mal. Os descendentes de Adão possuem algo que Adão não possuía antes de sua transgressão: o conhecimento associado à árvore. Entretanto, possuem simultaneamente algo que Adão também não possuía antes de sua desobediência: estão sob o domínio da morte.

A humanidade posterior vive, portanto, numa situação singular: conhece o bem e o mal enquanto sob o domínio do pecado e da morte.

É justamente daí que surge uma das confusões mais persistentes na compreensão da relação do homem com Deus. O conhecimento adquirido é transformado em régua para medir aproximação ou afastamento: se faço o bem, aproximo-me; se faço o mal, afasto-me. Nesse esquema, a condição do homem passa a ser pensada como saldo das decisões morais tomadas ao longo da vida.

O problema é que o conhecimento do bem e do mal aparece depois daquilo que pretende corrigir; o pecado é consequência da ofensa, e o conhecimento, propriedade do fruto. Quando Adão o adquire, sua desobediência já aconteceu e a morte já foi introduzida pela palavra “certamente morrerás”. O conhecimento pode permitir ao homem avaliar o que faz, mas não possui poder retroativo para impedir o acontecimento que lhe deu origem.

Isso não diminui sua importância ética. Saber que determinada ação é injusta continua sendo relevante; praticar o bem continua sendo melhor do que praticar o mal. O ponto é outro: nenhuma dessas ações modifica por si mesma a condição anterior na qual são praticadas, até porque as decisões entre o mal e o bem não respondem a um mandamento específico com consequências preestabelecidas. A realidade da humanidade só poderia mudar se houvesse outra palavra divina com esse poder; e ela existe na palavra do evangelho, conhecimento dado por revelação, e não com base no conhecimento do fruto da árvore.

Paulo desenvolve princípio semelhante quando fala da lei. Em Romanos 3:20, “pela lei vem o conhecimento do pecado”. A lei revela, identifica, delimita e torna evidente, mas conhecimento não é libertação.

Romanos 7 aprofunda essa diferença. O mandamento é santo, justo e bom, enquanto o pecado continua capaz de operar. O problema, portanto, não pode estar simplesmente na ausência de informação sobre o que deve ser feito.

A humanidade pode saber e continuar sob domínio.

Pode discernir e continuar sob a morte.

Pode aprovar o bem sem que o próprio conhecimento tenha poder para restituir a vida perdida.

O conhecimento desempenha função diagnóstica das ações do homem perante seus semelhantes, mas não possui em si mesmo eficácia terapêutica para alterar a sua condição. É por isso que é imprescindível a revelação em Cristo, que é poder para salvação; para a queda foi necessária a palavra “certamente morrerás”, e para a vida é necessária a palavra “em ti serão benditas todas as famílias da terra”.

A moralidade não produz uma nova condição

Essa distinção explica por que a moralidade não deve ser confundida com salvação. O conhecimento do bem e do mal permite avaliar ações; por isso, existem ações melhores e piores, justas e injustas, generosas e perversas. Nada nesta tese exige negar essas diferenças.

A questão está no poder atribuído às ações.

Se a condição de pecador tivesse origem na soma das más escolhas de cada indivíduo, uma quantidade suficiente de boas escolhas poderia, ao menos em princípio, produzir o movimento contrário. O homem poderia reparar sua condição por meio da própria performance moral.

Romanos 5, porém, concentra a origem do problema em outro lugar: na desobediência de um.

Da mesma forma, concentra a solução não nas boas obras acumuladas pelos muitos, mas na obediência de um.

Isso demonstra que Paulo está trabalhando em um nível diferente daquele da contabilidade moral. As obras existem e são julgadas, mas não ocupam o lugar causal que pertence aos dois homens colocados em paralelo.

Em Adão, uma desobediência introduz uma ordem.

Em Cristo, uma obediência introduz outra.

O descendente de Adão pode fazer o bem enquanto continua sob a primeira ordem, assim como aquele que é constituído justo não se torna justo porque conseguiu acumular boas ações suficientes para inverter o estado anterior.

A condição herdada antecede as ações.

Da desobediência de Adão à obediência de Cristo

Romanos 5:19 oferece a chave para compreender por que o conhecimento não poderia constituir a resposta definitiva à queda:

“Porque, como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão constituídos justos.”

Paulo emprega παρακοή, desobediência, para descrever Adão e ὑπακοή (hypakoḗ), obediência, para descrever Cristo. O paralelismo não é acidental, porque a solução corresponde exatamente à natureza do problema.

Se o problema tivesse entrado no mundo porque Adão não possuía conhecimento moral suficiente, seria coerente esperar que Deus solucionasse a queda fornecendo informação suficiente. Se o problema tivesse sido simplesmente um saldo negativo de ações, seria plausível imaginar uma restauração fundada num saldo positivo de boas ações.

Paulo não segue nenhuma dessas linhas.

A ruptura entra pela desobediência.

A resposta vem pela obediência.

Cristo, portanto, não é apresentado apenas como professor de uma moral superior ou como exemplo de alguém que conseguiu realizar mais boas obras do que os demais homens. Sua obediência possui efeito constitutivo porque é colocada em paralelo com a ação constitutiva de Adão.

A força da comparação está precisamente no fato de que os muitos são alcançados pela ação de um em ambos os lados.

Pela desobediência de Adão, muitos são constituídos pecadores.

Pela obediência de Cristo, muitos são constituídos justos.

Isso significa que a solução também não nasce das ações individuais daqueles que serão constituídos justos. Assim como os descendentes de Adão não inauguraram o reino da morte, os alcançados por Cristo não inauguram a nova ordem de justiça e vida.

O paralelismo culmina em Romanos 5:21:

“para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor”.

Paulo encerra a comparação novamente com a linguagem de reino. O pecado reina na morte; a graça reina para a vida. O contraste não é apenas entre dois comportamentos, mas entre duas ordens.

Essa estrutura permite compreender por que a resposta à condição humana precisava ultrapassar o conhecimento do bem e do mal. O homem precisava não apenas conhecer, mas ser retirado de um domínio e introduzido em outro.

A assimetria entre Adão e seus descendentes

Toda a argumentação pode ser sintetizada preservando uma distinção que não deve ser apagada.

No caso de Adão, a sequência é:

palavra → desobediência → transgressão → ἁμαρτία → morte.

No caso da humanidade posterior, a sequência começa em outro ponto:

morte já reinante → humanidade sob a condição de ἁμαρτία → homens constituídos pecadores → ações boas e más praticadas dentro dessa condição.

A segunda sequência não é simplesmente uma repetição da primeira. É consequência dela.

É exatamente por isso que Paulo pode afirmar que a morte reinou sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão. Eles não precisam repetir o ato que abriu a porta para viver dentro da realidade que entrou por aquela porta.

Esse dado também explica por que a afirmação “todos são pecadores” não equivale a dizer que “todas as ações de todos os homens são más”. A primeira descreve uma condição; a segunda faria uma afirmação sobre cada comportamento individual, algo que o versículo citado não diz.

O homem pode realizar algo bom e permanecer pecador porque a bondade daquele ato não possui capacidade de remover o senhorio da morte. Pode realizar algo mau, mas essa ação não é aquilo que inaugura sua condição, pois ele já pertence à humanidade atingida pelo reino que começou em Adão.

Aqui está uma das diferenças fundamentais entre transgressão e estado de pecado. Adão é transgressor porque realizou uma ação determinada contra um mandamento específico; seus descendentes são pecadores porque já existem dentro da condição surgida daquela transgressão.

Aqui, estado.

Lá, desobediência.

Conclusão

A leitura de Romanos 5 proposta neste artigo parte de uma assimetria que precisa ser preservada para que Adão e seus descendentes não sejam colocados artificialmente na mesma situação. Adão recebeu um mandamento específico antes de possuir o conhecimento do bem e do mal associado à árvore, desobedeceu à palavra recebida e transgrediu o limite estabelecido; por meio dessa ação, a hamartía entrou no mundo e, pelo pecado, entrou a morte.

Em Adão, portanto, o pecado antecede a morte.

Com seus descendentes, porém, a história começa depois desse acontecimento. Eles não surgem num mundo sem morte, nem recebem novamente a situação original do Éden. A morte já entrou e já reina, inclusive sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão.

Na humanidade posterior, portanto, a morte antecede a condição pessoal na qual os homens aparecem como pecadores.

Essa distinção permite compreender por que a condição de pecador não pode ser reduzida à prática individual de ações moralmente más. Boas e más decisões são tomadas por homens que já existem sob a realidade introduzida anteriormente. A ação moral pode ser avaliada, aprovada ou condenada, mas não cria nem remove, por si só, essa condição.

O conhecimento do bem e do mal também precisa ser colocado dentro dessa sequência. Ele foi adquirido depois da transgressão; por isso, ainda que permita distinguir ações e orientar condutas, não possui poder para reparar aquilo que o antecedeu. A humanidade passa a conhecer o bem e o mal quando já perdeu aquilo que era mais fundamental: a vida que decorre da comunhão que possuía com Deus antes da queda.

É justamente nesse ponto que a comparação entre Adão e Cristo alcança sua força. Paulo não coloca diante da desobediência de Adão uma quantidade superior de conhecimento, nem uma acumulação de boas obras, mas a obediência de Cristo. O problema que entrou por uma desobediência é enfrentado por uma obediência; a condição que desembocou em morte é contraposta à condição que desemboca em vida.

A diferença pode, finalmente, ser expressa desta maneira:

Adão desobedeceu, transgrediu e trouxe a morte; seus descendentes já surgem sob a morte e, dentro desse domínio, são pecadores. Adão praticou o ato que inaugurou a ruptura; a humanidade recebeu o estado resultante. O conhecimento do bem e do mal, por ser posterior a essa ruptura, pode julgar as ações, mas não pode desfazer a morte. Por isso, a resposta paulina não é simplesmente aprender a escolher melhor entre o bem e o mal, mas ser alcançado pela obediência daquele que, em oposição ao primeiro homem, introduz justiça e vida.


Referências

ARISTÓTELES. Poética. cap. 13, 1453a.

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FITZMYER, Joseph A. “The Consecutive Meaning of ἐφ’ ᾧ in Romans 5.12”. New Testament Studies, v. 39, n. 3, p. 321–339, 1993.

McLEISH, Kenneth. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

VINE, W. E. Vine’s Expository Dictionary of New Testament Words. Verbete “Sin”. A exposição de ἁμαρτία inclui seu emprego como princípio ou fonte de ação e como poder governante.

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