Evangelho Lucas

A exortação decorrente das mortes na queda da torre de Siloé

O Sermão do Monte, a repreensão decorrente da queda da torre de Siloé e o diálogo com Nicodemos são indispensáveis para provocar uma mudança de entendimento em religiosos que confiavam em si mesmos.


A exortação decorrente das mortes na queda da torre de Siloé

E, NAQUELE mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios.

Introdução

O ministério de Jesus não pode ser compreendido como uma sucessão uniforme de discursos aplicados indistintamente a todos os públicos. O Senhor não falava do mesmo modo a todos, porque seus ouvintes não partiam do mesmo lugar religioso, histórico e espiritual. A forma da abordagem variava conforme a condição do interlocutor, os pressupostos que carregava e o obstáculo específico que o impedia de compreender o evangelho.

Aos judeus religiosos, herdeiros da Lei, familiarizados com os profetas e acostumados a medir a justiça pela observância exterior, Jesus frequentemente dirigiu palavras de confronto, repreensão e desmonte da justiça construída sobre preceitos e doutrinas de homens, ainda que sustentadas sob o pretexto de fidelidade à Lei. O problema não estava na Lei em si, mas no uso religioso que dela se fazia como instrumento de distinção, mérito e falsa segurança diante de Deus (1 Timóteo 1:8-9).

Aos marginalizados, estrangeiros, publicanos e pecadores, sua abordagem muitas vezes assumiu outra forma: o anúncio direto da graça, da vida e do dom de Deus. Não porque tais pessoas fossem, por natureza, menos pecadoras, mas porque não estavam necessariamente comprometidas com um sistema religioso que, embora reivindicasse fidelidade a Deus, recusava-se a reconhecer Cristo como o enviado de Deus. Muitos desses ouvintes não se apresentavam diante de Cristo como guardiões da justiça mosaica, nem como intérpretes autorizados da vontade divina, mas como sedentos, excluídos, enfermos, culpados ou socialmente desprezados.

Essa diferença aparece com nitidez quando se colocam em paralelo três episódios: a repreensão de Jesus acerca dos galileus mortos por Pilatos e dos dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé (Lucas 13:1-5), o Sermão do Monte (Mateus 5–7) e o diálogo com Nicodemos (João 3). Esses três momentos têm em comum o fato de o discurso, a repreensão ou o diálogo se dirigirem, direta ou indiretamente, ao universo religioso judaico, no qual a confiança na descendência, na posição religiosa e nas obras da Lei,  produzia uma falsa segurança diante de Deus.

No episódio dos comentários acerca da morte dos galileus e da queda da torre de Siloé, Jesus repreende uma leitura religiosa da tragédia, o que evidencia que seus interlocutores estavam inseridos no universo judaico. Seus ouvintes pareciam inclinados a interpretar tanto a morte dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios, quanto a morte dos dezoito sobre os quais caiu a torre, como evidência de maior culpa em relação aos demais galileus ou aos demais habitantes de Jerusalém, respectivamente.

Ao fazê-lo, preservavam implicitamente a própria justiça por comparação: se aqueles morreram daquele modo, é porque eram mais pecadores e se encontravam em condição pior que os demais; se nós permanecemos, é porque estamos em melhor condição diante de Deus. Jesus desfaz essa lógica e redireciona o episódio para a verdadeira questão: “se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis”.

A calamidade alheia não decorria de inferioridade moral, religiosa ou nacional. Aqueles homens pereceram em tragédias distintas; contudo, se os judeus que se aproximavam de Jesus não mudassem de entendimento — isto é, se não se arrependessem diante de Cristo, o reino dos céus presente entre os homens — igualmente pereceriam. A tragédia dos outros, portanto, não deveria ser contemplada do alto de um pedestal religioso. Antes, diante da pessoa de Cristo, aqueles ouvintes precisavam reconhecer que tanto os que haviam morrido quanto eles próprios necessitavam da mesma salvação. A diferença não estava em serem uns mais culpados que outros, mas no fato de que todos, igualmente, careciam de Cristo para serem salvos.

O Sermão do Monte opera de maneira semelhante. Dirigido a um público inserido no horizonte da Lei, das tradições religiosas e da justiça dos escribas e fariseus, o discurso de Jesus não se limita a estabelecer um ideal ético mais elevado. Antes, revela a insuficiência da justiça da lei e desautoriza a confiança religiosa construída sobre práticas visíveis. Ao declarar que a justiça dos seus ouvintes deveria exceder a dos escribas e fariseus, Jesus atinge o centro da segurança judaica: se a justiça dos modelos religiosos de Israel não bastava, então nenhuma justiça meramente humana poderia fundamentar a entrada no reino.

O diálogo com Nicodemos também pertence a esse mesmo campo de confrontação. Nicodemos era fariseu, príncipe dos judeus e mestre em Israel. Representava, portanto, o homem religioso instruído, situado no interior da tradição judaica e possuidor de autoridade interpretativa. No entanto, Jesus não lhe oferece apenas uma correção doutrinária ou um acréscimo de informação. Declara-lhe a necessidade radical de nascer de novo. Com isso, mostra que descendência, posição, conhecimento da Lei e reconhecimento religioso não produzem vida espiritual. O mestre de Israel precisava da mesma intervenção divina exigida de qualquer homem: nascer do alto.

Em contraste, o diálogo com a mulher samaritana (João 4) revela outra dinâmica. Ali, Jesus não confronta uma liderança judaica convicta de sua justiça, nem um público religioso persuadido de sua superioridade. Ele se dirige a uma estrangeira, mulher samaritana, marcada por exclusão histórica, religiosa e social. Nesse encontro, a tônica não é o desmonte da justiça pretendida pela observância da Lei, mas a revelação do dom de Deus: “Se tu conheceras o dom de Deus”.

Essa distinção é fundamental para compreender não apenas a pedagogia de Jesus, mas também o modelo de evangelização da igreja. O Sermão do Monte, a repreensão decorrente da queda da torre de Siloé e o diálogo com Nicodemos são indispensáveis para provocar uma mudança de entendimento em religiosos que confiavam em si mesmos. Primeiro, era necessário revelar a insuficiência da religião judaica quando reduzida à descendência, à observância exterior, às obras da lei e às tradições humanas; somente então o ouvinte estaria em condição de reconhecer sua necessidade e de ouvir o evangelho sem a blindagem da justiça própria.

Contudo, o anúncio ordinário do evangelho aos povos, especialmente no contexto da missão da igreja, aproxima-se mais do modelo oferecido à mulher samaritana. A proclamação cristã não começa, em regra, tratando todos os ouvintes como fariseus confiantes nas obras da lei, mas apresentando Cristo como o dom de Deus, a fonte da água viva e o Salvador que deve ser recebido pela fé. A repreensão da justiça própria permanece necessária quando o interlocutor se apoia nela; mas, diante dos sedentos, estrangeiros e distantes, o evangelho se anuncia como dádiva: “Se tu conheceras o dom de Deus”.

A torre de Siloé e a falsa leitura religiosa da tragédia

Em Lucas 13, alguns judeus chegam a Jesus trazendo a notícia de que Pilatos havia misturado o sangue de certos galileus com os sacrifícios que ofereciam. Aparentemente, a informação não era neutra. Por trás dela havia uma interpretação religiosa implícita: aqueles homens teriam sofrido tal destino porque eram mais pecadores que os demais.

Jesus responde desmontando essa leitura: aqueles galileus não eram mais pecadores do que todos os outros galileus. Em seguida, acrescenta outro exemplo: os dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé também não eram mais culpados que os demais habitantes de Jerusalém. A conclusão é repetida duas vezes: se não se arrependessem, todos igualmente pereceriam. Observe-se que Jesus coloca galileus e habitantes de Jerusalém no mesmo patamar, retirando dos seus ouvintes qualquer possibilidade de superioridade regional, religiosa ou moral.

A reprimenda de Jesus atinge o centro da mentalidade religiosa que interpreta calamidades alheias como prova de superioridade própria. O problema não estava apenas na curiosidade sobre a morte dos outros, mas na falsa segurança de quem observava a tragédia à distância e concluía: “Eles pereceram porque eram piores que os demais sobreviventes da Galileia”.

Essa postura revela o coração da justiça própria. O homem religioso se justifica comparando-se com o outro, como se vê na oração do fariseu: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens” (Lucas 18:11). Se alguém sofre, presume-se que pecou mais. Se outro cai, conclui-se que era menos justo. Se uma tragédia atinge determinados indivíduos, os sobreviventes podem imaginar-se preservados por mérito próprio, esquecendo-se de que “tudo sucede igualmente a todos” (Eclesiastes 9:2).

Jesus corta essa lógica pela raiz. Não era por serem judeus, nem por habitarem Jerusalém, que estariam imunes à tragédia ou ao juízo. A queda da torre de Siloé, ocorrida em Jerusalém, servia justamente como exemplo contra essa falsa segurança: até mesmo no centro religioso de Israel, a morte alcançara homens que não eram mais culpados que os demais.

A torre de Siloé, portanto, não é apenas um episódio sobre tragédia e sofrimento. É um espelho colocado diante dos judeus religiosos. Eles deveriam deixar de interpretar a queda dos outros como confirmação de sua própria justiça e reconhecer que estavam sob a mesma necessidade: arrepender-se diante da manifestação de Cristo. A tragédia dos outros não deveria ser contemplada do alto de um pedestal religioso; antes, diante da pessoa de Cristo, precisavam reconhecer que tanto os que haviam morrido quanto eles próprios careciam da mesma salvação.

O mesmo princípio no Sermão do Monte

O Sermão do Monte opera de modo semelhante. Frequentemente lido como um código ético universal ou como um manual de moral cristã, ele possui, antes de tudo, uma função reveladora. Jesus fala a um público judeu, inserido no contexto da Lei, dos escribas, dos fariseus, das práticas religiosas e da expectativa do reino. Sua palavra expõe a insuficiência da justiça humana, mesmo quando revestida de zelo religioso.

Logo no início, as bem-aventuranças deslocam o eixo da segurança religiosa. O reino não é apresentado como posse dos autossuficientes, dos que se julgam ricos em justiça ou dos que se consideram completos diante de Deus, mas como promessa aos pobres de espírito, aos que choram, aos mansos e aos que têm fome e sede de justiça (Mateus 9:12; João 9:41). A entrada no reino não é descrita como conquista dos que se gloriam na Lei, mas como bem-aventurança dos que reconhecem sua carência diante de Deus.

Em seguida, Jesus declara que a justiça dos seus ouvintes deveria exceder a dos escribas e fariseus. Essa afirmação é decisiva. Aos olhos do povo, escribas e fariseus representavam o padrão visível de observância religiosa. Se a justiça deles não bastava, então todo o edifício da justiça fundada na observância exterior estava abalado. A questão já não podia ser resolvida pela comparação entre judeus e gentios, religiosos e publicanos, observantes e pecadores; o próprio padrão religioso de Israel era colocado sob exame.

Quando Jesus trata do homicídio, do adultério, dos juramentos, da vingança e do amor aos inimigos, Ele não está apenas ampliando exigências morais. Ao revelar a profundidade espiritual da Lei, torna evidente que sua função não era fornecer ao homem um instrumento de autoglorificação, mas manifestar a transgressão. O problema não é apenas matar, mas odiar; não é apenas adulterar, mas cobiçar; não é apenas jurar, mas faltar com a verdade; não é apenas amar o próximo do próprio grupo, mas limitar o amor à lógica seletiva da reciprocidade humana.

Nesse ponto, a palavra de Jesus atinge a própria pretensão de superioridade religiosa. Se os judeus amavam apenas os que os amavam, que faziam de extraordinário? Os publicanos não faziam o mesmo? Se saudavam apenas os seus irmãos, em que excediam os demais? Os gentios não procediam de igual modo? Assim, Jesus mostra que certos comportamentos nos quais os religiosos poderiam se gloriar também eram praticados por aqueles que eles julgavam inferiores. Como Paulo afirmaria, os gentios, embora não tivessem a Lei, por vezes faziam naturalmente as coisas que são da Lei (Romanos 2:14). A comparação, portanto, não sustentava a justiça própria; antes, a destruía.

O Sermão do Monte, nesse sentido, tem a mesma função da repreensão diante da torre de Siloé: retirar do judeu religioso a perspectiva de que o outro era pecador em condição pior, enquanto ele próprio estaria seguro por descender de Abraão. Tanto em Lucas 13 quanto em Mateus 5–7, Jesus desmonta a falsa segurança religiosa. Em Lucas 13, Ele declara: “não pensem que aqueles morreram porque eram piores; arrependam-se”. Em Mateus 5–7, Ele mostra: “não pensem que a justiça exterior basta; a justiça exigida por Deus excede a dos escribas e fariseus”.

O Sermão termina com a imagem das duas casas: uma edificada sobre a rocha e outra sobre a areia. A casa que cai não cai por falta de aparência religiosa, mas por falta de obediência à palavra de Cristo. Do mesmo modo, a torre de Siloé lembra que toda estrutura humana pode ruir; e, quando ruir, não servirá de consolo ter observado a queda dos outros sem reconhecer em Cristo o chamado ao arrependimento. A tragédia alheia e o Sermão do Monte convergem, portanto, para a mesma lição: nenhuma justiça própria permanece diante de Deus; é necessário ouvir a palavra de Cristo e sujeitar-se a ela.

O público-alvo: judeus religiosos e a confiança nas obras da lei

A força desses textos aumenta quando se percebe o público a quem Jesus se dirige. O Sermão do Monte não foi proferido no vazio. Ele nasce dentro do mundo judaico, diante de ouvintes que conheciam a Lei, os profetas, as promessas, o templo, as esmolas, as orações, os jejuns e as distinções entre justos e pecadores, judeus e gentios, puros e impuros.

Esse público precisava ser confrontado porque possuía uma forma específica de resistência ao evangelho: a confiança na origem abraâmica e na justiça decorrente da observância da Lei. O problema não era ausência de religião, mas excesso de confiança em uma religião sem fundamento sólido diante de Deus: a pretensão de justiça por intermédio das obras da lei. Não era desconhecimento absoluto de Deus, mas falta do conhecimento essencial, pois tinham zelo de Deus, porém não com entendimento (Romanos 10:2). Não era irreligiosidade pagã, mas uma religiosidade que, mesmo reivindicando conhecer a Deus, resistia ao conhecimento que Cristo, o enviado do Pai, veio revelar.

Nesse contexto, a pregação de Jesus assume tom de repreensão. Ele não começa dizendo: “Se conheceras o dom de Deus, e quem é o que te pede de beber”. Essa abordagem, dirigida à samaritana, não é o ponto de partida no Sermão do Monte. Aos judeus religiosos, Jesus primeiro revela que a justiça deles não basta. Não oferece apenas uma melhoria moral, mas exige arrependimento diante da sua própria presença. Não confirma a superioridade judaica sobre publicanos, gentios e pecadores; antes, mostra que publicanos e gentios, em determinados aspectos, faziam o mesmo que eles. Ao expor essa semelhança, Jesus destrói a presunção de uma diferença salvadora baseada na identidade sanguínea, nacional ou religiosa.

A torre de Siloé funciona nesse mesmo registro. Os judeus que comentavam a tragédia dos outros estavam inclinados a se proteger pela comparação com gentios galileus. Jesus responde que a questão não era medir o pecado das vítimas, mas reconhecer a necessidade de arrependimento dos sobreviventes. A calamidade alheia não justificava ninguém. O chamado era direto: arrepender-se ou permanecer perdido.

Essa pedagogia é necessária quando o interlocutor está blindado pela religião. Antes de apresentar a graça como dom, muitas vezes é preciso destruir a ilusão de justiça. Antes de anunciar a entrada, é preciso mostrar que o caminho largo que conduz à perdição teve início em Adão, e que nascer da carne, ainda que descendente de Abraão, não livra ninguém da condenação herdada no Éden. Antes de falar da casa edificada sobre a rocha, é preciso demonstrar que todo fundamento humano — seja tradição, genealogia, mérito ou observância exterior — é areia.

Nicodemos: o religioso que precisava nascer de novo

O diálogo com Nicodemos se aproxima desse mesmo eixo. Nicodemos era fariseu, príncipe dos judeus e mestre em Israel. Ele não representa o estrangeiro distante da revelação, mas o religioso instruído, conhecedor das Escrituras e ocupante de posição respeitável. Por isso, Jesus não o trata como alguém que precisa apenas receber uma informação adicional, mas como alguém cuja própria base de segurança precisa ser desfeita.

Nicodemos reconhece que Jesus é mestre vindo de Deus, mas Jesus responde deslocando imediatamente o assunto para a necessidade do novo nascimento: “aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”. A resposta parece abrupta, mas é precisa. O problema de Nicodemos não era falta de religião; era a insuficiência da religião para produzir vida. Ele podia ser mestre em Israel e, ainda assim, necessitar nascer do alto.

A semelhança com o Sermão do Monte é evidente. No Sermão, Jesus mostra que a justiça dos escribas e fariseus não basta para entrar no reino. A Nicodemos, um fariseu e mestre, Jesus declara que ninguém vê o reino sem nascer de novo. Em ambos os casos, a mensagem confronta a mesma ilusão: a de que posição religiosa, conhecimento da Lei, obras, tradição e pertencimento nacional garantem entrada no reino.

Também há paralelo com Lucas 13. Aos que comentam a tragédia alheia, Jesus diz: “se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis”. A Nicodemos, Jesus diz, em essência: se não nasceres do alto, não verás o reino. Em ambos os casos, o interlocutor religioso é retirado do lugar de observador e colocado no banco dos necessitados. Ele não é juiz da condição dos outros; é alguém que também precisa da intervenção de Deus.

Nicodemos, portanto, exemplifica o judeu religioso que precisa compreender que a salvação não vem da carne, da descendência, da posição, da Lei ou da instrução. O que é nascido da carne é carne. É necessário nascer do Espírito. A religião pode instruir, disciplinar, organizar e distinguir socialmente; mas não pode gerar vida. Só Deus vivifica.

A mulher samaritana: o evangelho anunciado como dom

O diálogo com a mulher samaritana segue outro caminho. Jesus não está diante de um mestre em Israel, mas de uma mulher estrangeira aos olhos dos judeus, samaritana, marcada por uma história pessoal difícil e por uma tradição religiosa considerada impura pelos judeus. O encontro ocorre não no templo, nem em uma sinagoga, nem diante de uma assembleia judaica, mas junto a um poço.

A abordagem de Jesus é notavelmente diferente. Ele não começa por desmontar uma justiça farisaica, nem por exigir que ela ultrapasse a justiça dos escribas, nem por confrontá-la com a queda de outros. Ele inicia com uma aproximação simples: pede água. A partir disso, conduz a conversa para o dom de Deus: “Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva”.

Aqui, o centro da abordagem não é a demolição da presunção legalista, mas a revelação de Cristo como aquele que dá água viva. Jesus expõe o passado da mulher, sim, mas não como quem a coloca diante de uma comparação religiosa para esmagá-la. Ele revela sua condição para conduzi-la à verdade acerca de si mesmo. O objetivo não é simplesmente confrontar suas ações para condená-la, mas levá-la ao reconhecimento do Messias.

Quando a conversa avança para a questão do lugar de adoração — o monte dos samaritanos ou Jerusalém — Jesus novamente supera a disputa religiosa. Ele afirma que chegaria a hora, e já havia chegado, em que os verdadeiros adoradores adorariam o Pai em espírito e em verdade. A salvação vem dos judeus, mas não permanece aprisionada ao sistema de distinções que separava judeus e samaritanos. Em Cristo, o dom de Deus se apresenta também a uma estrangeira.

Essa abordagem se mostra mais próxima da missão posterior da igreja entre os povos. A igreja não foi enviada para reproduzir o Sermão do Monte como se o confronto com os elementos da Lei fosse o molde único de evangelização, nem para tratar todos os ouvintes como fariseus legalistas. A missão apostólica aos gentios consistiu, sobretudo, em anunciar Cristo crucificado e ressurreto, o dom da graça de Deus, a justiça recebida pela fé, a reconciliação e a vida eterna.

A samaritana ouve sobre o dom, a água viva, a verdadeira adoração e o Messias que se revela. Ela não é chamada a entrar em uma disputa sobre méritos da Lei, nem a provar superioridade moral diante dos judeus. Ela é confrontada pela verdade, mas atraída pela revelação da graça. E, ao receber essa revelação, torna-se testemunha: “Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito”.

O modelo de evangelismo da igreja

A comparação desses episódios ajuda a corrigir um erro comum: tomar todo discurso de Jesus como se fosse um único modelo evangelístico aplicável indistintamente a qualquer público, ou interpretar o Sermão do Monte como a imposição de uma nova lei, de uma ética superior ou de um código moral autônomo destinado aos cristãos. O Senhor, porém, discernia seus ouvintes e tratava cada um conforme o obstáculo espiritual que carregava. Aos religiosos autoconfiantes, expunha a insuficiência da justiça própria. Aos quebrantados, estrangeiros e marginalizados, revelava a graça de Deus com admirável proximidade. Aos mestres de Israel, mostrava a necessidade do novo nascimento. Aos samaritanos, apresentava o dom da água viva.

Isso não significa que o Sermão do Monte, a repreensão da torre de Siloé e o diálogo com Nicodemos não tenham valor para a igreja. Têm enorme valor. Eles ensinam como confrontar o judaismo, a confiança nas obras da lei, a presunção moral e a falsa segurança dos que julgam os outros para justificar a si mesmos. Sempre que a igreja fala a religiosos autossuficientes, esses textos permanecem indispensáveis.

Contudo, o modelo ordinário de evangelização da igreja entre os povos aproxima-se mais do encontro de Jesus com a mulher samaritana. A igreja anuncia o dom de Deus em Cristo. Proclama que o Filho foi enviado, morreu e ressuscitou; que nele há vida, reconciliação e salvação; que pecadores são chamados à fé; que as barreiras étnicas, religiosas e sociais são superadas; e que, por meio dele, Deus forma adoradores em espírito e em verdade.

O evangelismo cristão não deve partir da presunção de que todo ouvinte é um fariseu tentando justificar-se pelas obras da lei. Muitos se assemelham mais à samaritana: estão distantes, feridos, confusos, marcados por religiosidade fragmentada e por sede espiritual, mas não necessariamente seguros em uma justiça legalista. A esses, o anúncio do evangelho deve apresentar Cristo como o dom de Deus, a fonte da água viva e o Salvador que deve ser recebido pela fé.

Por isso, é preciso discernimento. Ao religioso que confia em sua justiça, a palavra de Cristo derruba a torre da autoconfiança: arrepende-te, nasce de novo, entra pela porta estreita, edifica sobre a rocha. Ao estrangeiro sedento, a palavra de Cristo apresenta o dom: se conhecesses o dom de Deus, pedirias, e Ele te daria água viva.

A igreja precisa de ambas as dimensões, mas não deve confundi-las. Quando se prega o Sermão do Monte como se fosse o primeiro anúncio a todos os povos, corre-se o risco de transformar o evangelho em exigência moral antes de apresentar Cristo como dom. Quando se evita toda repreensão, corre-se o risco de confirmar o religioso em sua falsa segurança. A sabedoria está em reconhecer o público e aplicar a palavra conforme a enfermidade espiritual em questão.

A unidade entre arrependimento, novo nascimento e dom de Deus

Segue a versão revisada, com correções, maior precisão e tom de artigo:

Embora as abordagens sejam distintas, elas não anunciam mensagens contraditórias. A repreensão de Lucas 13, o Sermão do Monte, o diálogo com Nicodemos e o encontro com a mulher samaritana convergem para Cristo.

Em Lucas 13, Jesus chama ao arrependimento porque a falsa segurança religiosa não livra ninguém do juízo. No Sermão do Monte, revela que a justiça humana é insuficiente e que somente quem ouve e pratica a sua palavra edifica sobre a rocha. Em João 3, mostra que o homem precisa nascer do alto para ver o reino de Deus. Em João 4, revela que o dom de Deus é concedido por meio daquele que dá a água viva.

Arrependimento, novo nascimento e água viva não são doutrinas concorrentes, mas aspectos da mesma salvação. O arrependimento rompe com a falsa segurança, pois consiste em mudança de entendimento diante da manifestação de Cristo. O novo nascimento está inseparavelmente ligado a essa mudança, pois, ao reconhecer Cristo como o enviado de Deus, o homem crê naquele por meio de quem recebe vida. A água viva expressa o dom concedido por Cristo aos que nele creem. Em todos os casos, o homem é retirado do centro e Cristo é colocado como fundamento.

A diferença está no modo como Jesus conduz cada público até essa verdade. Ao judeu religioso, frequentemente desmonta a confiança na justiça própria produzida pela observância da Lei. À samaritana, revela-se como o dom que sacia a sede. Ao mestre em Israel, declara a necessidade de nascer de novo. Aos que julgavam os mortos de Siloé, ordena que deixem de interpretar a tragédia dos outros como prova de superioridade própria e olhem para Cristo, arrependendo-se diante dele.

Conclusão

O episódio da torre de Siloé e o Sermão do Monte pertencem ao mesmo horizonte de confrontação profética. Ambos têm como alvo um público judaico religioso, inclinado a interpretar a vida a partir da superioridade moral, da observância da Lei e da comparação com outros pecadores. Em ambos, Jesus destrói a falsa segurança: os que morreram não eram mais pecadores; os que ouvem a Lei não são justos por isso; os que dizem “Senhor, Senhor” não entram no reino se não se submetem à vontade do Pai; os que edificam sobre fundamento humano verão sua casa ruir.

Nicodemos se insere nessa mesma linha. Como mestre em Israel, ele representa a insuficiência da religião para gerar vida. Sua necessidade não é acrescentar uma doutrina ao seu repertório, mas nascer do alto. A palavra de Jesus a ele é tão radical quanto a do Sermão: a carne não dá direito ao reino; a posição religiosa não produz vida; a instrução na Lei não substitui a obra do Espírito.

A mulher samaritana, porém, revela outro modo de abordagem. A ela, Jesus anuncia o dom de Deus, a água viva e a verdadeira adoração. Ele não ignora sua condição, mas também não a trata como fariseu autoconfiante. Sua palavra saceia a sede, revela o Messias e abre caminho para que uma estrangeira se torne testemunha entre os seus.

Por isso, o evangelismo da igreja deve ser mais próximo, em seu anúncio ordinário aos povos, do modelo da samaritana: apresentar Cristo como dom de Deus, fonte de vida, Salvador revelado e fundamento da verdadeira adoração. O Sermão do Monte, o diálogo com Nicodemos e a repreensão da torre de Siloé continuam necessários, sobretudo quando a igreja enfrenta a religião da justiça própria. Mas a missão entre os sedentos não deve começar pela imposição de um ideal moral; deve começar pela revelação daquele que dá água viva.

Cristo sabe tratar religiosos, mestres, pecadores e estrangeiros. A igreja, se quer evangelizar com fidelidade, precisa aprender com essa pedagogia: repreender a justiça própria quando ela se levanta, mas anunciar com clareza o dom de Deus aos que têm sede.

Referências Escriturísticas

Lucas 13:1-5 | Mateus 5:1-48; 6:1-34; 7:1-29 | João 3:1-21; 4:1-42 | Romanos 3:19-28; 10:1-4 | Gálatas 2:16; 3:10-14 | Efésios 2:8-10 | Atos 13:38-39; 17:30-31.

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