O sermão de M’Cheyne sobre Romanos 5:19 concorda com a verdade em quase tudo: dois homens, dois atos, nenhum homem feito pecador por seus próprios atos. Mas, onde Paulo diz “constituídos”, ele lê “tidos por”, e a cruz se converte em contabilidade. Um alerta sobre a doutrina que se parece com a verdade.
A forma sem o poder: M’Cheyne, Romanos 5:19 e a aparência de piedade
Introdução
Circula em português um sermão de Robert Murray M’Cheyne sobre Romanos 5:19, sob o título “A desobediência e a obediência de um só”[1]. Quem leu o artigo “Como a morte passou a todos? Romanos 5:12 e a inversão que Calvino não aceitou” encontrará nele afirmações que, à primeira vista, parecem confirmar a tese ali defendida. M’Cheyne reconhece um paralelo rigoroso entre o modo como os homens foram feitos pecadores e o modo como são feitos justos; rejeita a ideia de que cada homem seja constituído pecador por seu próprio pecado; e coloca frente a frente, como dois pratos de uma balança, um homem e uma desobediência, um homem e uma obediência.
É justamente essa proximidade que exige atenção. O erro mais fácil de perceber é o que se opõe frontalmente à verdade; mais difícil é discerni-lo quando conserva a linguagem da verdade, acompanha parte de sua estrutura e só depois introduz uma conclusão diferente. A concordância em muitos pontos pode emprestar credibilidade justamente ao ponto que precisa ser examinado. Por isso vale aqui a advertência de Paulo acerca dos que têm “aparência de piedade, mas negando a eficácia dela” (2 Timóteo 3:5).
Uma cautela, porém, é necessária. O versículo não é aplicado aqui como juízo pessoal sobre M’Cheyne, como se ele devesse ser contado entre aqueles a quem Paulo se refere. Trata-se de um homem de reconhecida piedade, que morreu aos vinte e nove anos e cujas notas de púlpito foram publicadas depois de sua morte, sem que ele as tivesse revisado para esse fim[2]. O uso é de método: a linguagem ortodoxa, a reputação de um pregador ou a presença de muitas afirmações verdadeiras não dispensam o exame da doutrina. Uma proposição não se torna verdadeira pelo crédito das verdades que a acompanham, nem pelo nome de quem a proferiu; precisa ser demonstrada por aquilo que as Escrituras efetivamente dizem. O que se examina aqui, portanto, é a doutrina inteira, e não apenas a parte que se parece com a verdade (1 João 4:1).
A controvérsia não está em saber se o ato de Adão alcançou “os muitos” de Romanos 5:19. Nesse ponto, M’Cheyne percebe corretamente a força do versículo: os muitos não foram feitos pecadores pela soma de seus próprios atos, assim como não são feitos justos pela soma de suas próprias obediências. Paulo põe diante do leitor dois homens, o primeiro e o último Adão; dois atos, a desobediência e a obediência; e dois resultados que alcançam os muitos.
A questão decisiva é outra: o que exatamente a desobediência de Adão fez aos muitos?
M’Cheyne responde que os tornou judicialmente culpados pelo pecado do primeiro homem. A leitura defendida aqui sustenta algo diferente: a ofensa de Adão trouxe o juízo para condenação, e essa condenação se manifesta no reinado da morte, debaixo do qual os homens são constituídos pecadores e servos do pecado. Não é preciso transformar o ato pessoal de Adão em culpa pessoal de seus descendentes para reconhecer que a sua desobediência determinou a condição dos muitos.
Dessa diferença nasce uma segunda pergunta: o que, então, a obediência de Cristo faz aos que creem?
É aí que os dois pratos da balança precisam ser examinados até o fim. Se pela desobediência de um vieram condenação, morte e servidão ao pecado, pela obediência de outro vêm justificação de vida, libertação e servidão à justiça. O desacordo não diz respeito à existência dos dois representantes, nem à eficácia de seus atos sobre os muitos, mas à natureza daquilo que cada um deles produz.
A primeira mentira tinha verdade dentro
A morte entrou no mundo por meio de um único termo: “não”. Bastou acrescentá-lo para transtornar completamente a palavra que Deus havia dado. Deus dissera: “certamente morrerás” (Gênesis 2:17); a serpente respondeu:
“Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3:4-5).
A negativa veio acompanhada de uma explicação. A serpente não se limitou a contradizer a consequência anunciada por Deus; apresentou também um motivo para desacreditar a proibição. Insinuou que Deus havia vedado o fruto porque sabia que, ao comê-lo, o homem teria os olhos abertos e alcançaria o conhecimento do bem e do mal.
É justamente aí que a sedução se torna mais sutil. O resultado anunciado continha uma verdade. Depois da queda, o próprio Deus declarou:
“Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3:22).
Os olhos realmente se abriram, e o conhecimento do bem e do mal realmente veio. O que era falso não era esse resultado, mas a explicação dada para a proibição e, sobretudo, a negação da consequência que Deus havia expressamente anunciado. O mandamento não dizia que o fruto deveria ser evitado para impedir que o homem adquirisse conhecimento; dizia:
“No dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).
Assim, a serpente tomou uma consequência verdadeira e a utilizou para dar plausibilidade a uma conclusão falsa. O homem realmente conheceria o bem e o mal, mas disso não se seguia que “certamente não morreria”. Ao contrário: poderia adquirir aquele conhecimento e, ainda assim, morrer — exatamente como Deus havia dito.
A falsidade decisiva, portanto, estava concentrada naquele único “não”. A verdade que o acompanhava não corrigia a mentira; apenas a tornava mais persuasiva.
A primeira sedução registrada nas Escrituras não consistiu, portanto, em substituir toda a verdade por uma falsidade evidente. A serpente preservou parte da realidade, mas alterou precisamente o ponto do qual dependia a obediência. Uma afirmação verdadeira foi colocada a serviço de uma conclusão falsa.
Todo o restante podia ser verdadeiro sem desfazer a contradição fundamental: Deus dissera “morrerás”; a serpente disse “não morrereis”.
Jesus disse do diabo: “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio” (João 8:44). No Éden, porém, a mentira não veio sozinha. Veio acompanhada de uma afirmação que depois se mostrou verdadeira, e foi essa combinação que tornou a palavra sedutora.
Paulo temia que o mesmo método operasse entre os cristãos:
“Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo.” (2 Coríntios 11:3).
A astúcia não exige negar tudo. Basta conservar uma estrutura suficientemente verdadeira para que o ponto alterado atravesse a vigilância do ouvinte. E o perigo aumenta quando muitas proposições corretas cercam justamente aquela que deveria ser examinada com mais cuidado.
Por isso uma doutrina não se julga pela quantidade de verdades que contém, mas pelo que faz exatamente no ponto em que se afasta do texto. Uma única alteração pode mudar o sentido de todo o conjunto.
O que M’Cheyne diz bem
Antes da crítica, é preciso fazer justiça ao sermão. Há nele afirmações que todo leitor atento de Romanos 5 deve reconhecer.
A primeira é o paralelo: “Há um paralelo exato entre o modo pelo qual somos feitos pecadores e o modo pelo qual somos feitos justos”[3]. É a estrutura estabelecida por Paulo:
“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” (Romanos 5:19).
M’Cheyne percebe que Paulo não põe diante do leitor dois conjuntos de obras produzidas pelos muitos, mas dois homens e dois atos opostos: a desobediência de Adão e a obediência de Cristo.
A segunda é a recusa da leitura individualista. M’Cheyne diz que Deus não tratou os homens como um campo de trigo, “onde cada haste está sobre a sua própria raiz”, mas como uma árvore cujos ramos têm uma só raiz; e conclui:
“Não fomos feitos pecadores cada um pelo seu pecado individual, mas todos pelo pecado de um. Do mesmo modo, aprouve a Deus justificar os pecadores, não cada um pela sua própria obediência, pela sua própria bondade e santidade, mas ‘pela obediência de um’”[4].
A força do argumento está no paralelismo, recurso literário e retórico pelo qual elementos correspondentes são colocados lado a lado para evidenciar uma relação de simetria, contraste ou equilíbrio entre ideias. Em Romanos 5:19, esse paralelismo é construído de forma particularmente nítida: um homem corresponde a outro homem, uma desobediência corresponde a uma obediência, e o efeito produzido por um ato é contraposto ao efeito produzido pelo outro. A estrutura não é meramente ornamental; ela orienta a interpretação, porque exige que os dois lados sejam lidos em correspondência.
Se cada homem fosse constituído pecador por seus próprios atos, a correspondência exigiria que cada homem fosse constituído justo por seus próprios atos. Paulo exclui as duas possibilidades: de um lado, “pela desobediência de um”; do outro, “pela obediência de um”. A balança de Romanos 5 não pesa, num prato, os pecados de toda a humanidade e, no outro, as obras de todos os justificados. Em cada prato há um homem e um ato.
A terceira é reconhecer que a queda não se reduz a uma anotação judicial sem consequências reais. M’Cheyne afirma que os ramos “caíram, murcharam e morreram naquele dia” e que os filhos de Adão vêm ao mundo “mortos para Deus e para as coisas divinas”, embora “vivos para outras coisas”[5]. Isso aproxima o sermão da linguagem bíblica acerca da morte, da servidão e da necessidade de vivificação: o problema do homem não é apenas uma lista de atos a ser cancelada, mas uma condição da qual ele precisa ser retirado.
A quarta aparece perto do fim do sermão. M’Cheyne faz uma distinção: “muitos, não todos” ao ler “… como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19). Ao explicar por que não são todos, porém, não recorre a uma indisponibilidade de Cristo para parte da humanidade. Afirma que “o segundo Adão se oferece a todos” e “está disposto a ter a mesma extensão do primeiro Adão”; que, assim como a ruína trazida pela queda do primeiro alcançou toda criatura, “o dom do segundo Adão é para toda criatura”; e que a maioria fica de fora porque não vem, nem quer vir[6].
Nesse ponto, a linguagem do sermão cria uma tensão interessante com formulações mais rígidas do calvinismo a que M’Cheyne estava ligado. Não seria exato dizer que ele abandona a doutrina reformada da redenção particular, pois essa tradição distingue a extensão da oferta da eficácia da redenção e também pode afirmar que Cristo deve ser oferecido indistintamente a todos. M’Cheyne, porém, vai além da mera ordem de pregar a todos: apresenta o último Adão disposto a alcançar a extensão do primeiro e localiza nos que não vêm a razão de ficarem de fora. Com isso preserva o paralelismo num ponto que certas formulações sistemáticas tendem a restringir: se a condição procedente do primeiro Adão alcançou todos sem seleção prévia entre seus descendentes, Cristo não é apresentado como indisponível a nenhum deles.
Acrescente-se que, para M’Cheyne, a justiça não é alcançada ao fim de muitos anos de aperfeiçoamento moral, mas recebida quando se crê; e que, coerentemente, não há jactância na família de Cristo: “Onde está logo a vanglória? É excluída.” (Romanos 3:27).
Se o sermão terminasse aqui, haveria pouco a contestar. Mas não termina.
Depois de estabelecer corretamente os dois homens, os dois atos e a dependência dos muitos em relação a eles, M’Cheyne introduz o elemento que precisa ser examinado: transforma o efeito da desobediência de Adão sobre seus descendentes em culpa judicial pelo próprio delito de Adão. É aí — e não na dependência dos muitos em relação a um só — que a divergência começa.
“É um termo judicial”
Ao explicar a expressão “foram feitos pecadores”, M’Cheyne enumera três consequências da queda: a morte física, a morte espiritual e “a maldição de Deus”. Sobre a terceira, escreve:
“Este é o sentido próprio de ‘foram feitos pecadores’. É um termo judicial: ‘foram tidos, à vista de Deus, como culpados, perdidos, pecadores arruinados’”[7].
Das três, M’Cheyne toma a última como o “sentido próprio” da expressão paulina e a explica por um verbo de consideração: os muitos teriam sido “tidos” como pecadores.
Mas esse não é o verbo de Paulo.
Em Romanos 5:19, “foram feitos” traduz κατεστάθησαν, de καθίστημι: constituir, estabelecer, pôr numa posição ou condição. O mesmo verbo aparece em Tiago: “qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago 4:4). Quem se constitui inimigo não é apenas tido por inimigo; é inimigo.
O verbo, sozinho, não decide se essa constituição tem ou não dimensão judicial. O ponto é mais simples: Paulo não escreveu que os muitos foram considerados pecadores; escreveu que, pela desobediência de um, foram constituídos pecadores. A explicação de M’Cheyne introduz no verbo aquilo que precisaria ser demonstrado pelo contexto.
E o contexto tem, de fato, vocabulário de lançamento em conta:
“Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.” (Romanos 5:13-14).
O verbo traduzido por “imputado” é ἐλλογέω, lançar em conta, o mesmo que Paulo emprega ao escrever a Filemom: “E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta.” (Filemom 1:18). Paulo conhece bem a linguagem do débito e do lançamento em conta.
Quando, porém, explica por que a morte alcançou os que viveram de Adão até Moisés, não diz que o pecado de Adão lhes foi imputado, nem que foi lançado na conta deles. Diz outra coisa: “a morte reinou”.
A tradição reformada introduz aqui uma inferência conhecida: se os pecados pessoais não eram imputados na ausência da lei e, ainda assim, os homens morriam, deviam morrer porque a culpa de Adão lhes fora imputada. É uma construção possível dentro do sistema; entretanto não é o que o versículo afirma. E, quando Paulo retoma a causa desse reinado, torna a ligá-la ao ato de um só: “se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse” (Romanos 5:17). O mecanismo é descrito com o verbo reinar, não com o verbo imputar.
Esse detalhe importa. Há um ato, há condenação, há morte e há um domínio que se estabelece sobre os muitos. Reino é linguagem de senhorio, a condição de quem está debaixo de um senhor, e não um lançamento numa conta. Por isso o capítulo termina com dois reinados — “para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna” (Romanos 5:21) — e o seguinte exorta: “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal” (Romanos 6:12). A estrutura é maior que uma transferência contábil: há dois regimes, dois senhorios e duas condições.
Os descendentes de Adão, portanto, não são inocentes tidos por culpados, nem são arbitrariamente castigados pela ação de outro. São, de fato, alienados de Deus desde o nascimento: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras.” (Salmo 58:3). Paulo não descreve homens unidos a Deus que apenas recebem o nome de pecadores por uma anotação externa; descreve homens “mortos em ofensas e pecados” (Efésios 2:1), “por natureza filhos da ira” (Efésios 2:3), “debaixo do pecado” (Romanos 3:9), sujeitos à potestade das trevas (Colossenses 1:13) e ao império da morte. A condenação é real porque a consequência é real: é condição instaurada pela ofensa de um só, e não o veredito de um processo em que cada descendente figura como réu do que não praticou. No Éden não houve processo; houve a consequência que a própria palavra carregava: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).
Por isso a culpa decorrente do pecado como condição, nas Escrituras, não é algo que se transfere de uma pessoa para outra, mas algo que decorre da condição em que a pessoa se encontra. Paulo mostra a condição oposta ao dizer que Cristo reconciliou os que eram estranhos e inimigos “no corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” (Colossenses 1:22). Os termos são ἀμώμους, sem defeito, a palavra usada para o cordeiro “imaculado” (1 Pedro 1:19), e ἀνεγκλήτους, aqueles contra quem não se pode apresentar acusação. Ninguém é sem defeito porque outro o foi, nem inacusável porque se lançou em sua conta a inocência alheia; é-se ἄμωμος e ἀνέγκλητος pelo que se é.
O mesmo vale no sentido contrário. Culpável é quem está na condição que admite acusação, a condenação que veio de uma só ofensa (Romanos 5:16, 18); inculpável é quem saiu dela: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8:1). E Paulo pergunta, com o verbo da mesma raiz de ἀνέγκλητος: “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos” (Romanos 8:33-34).
A linguagem é judicial: acusação, justificação, condenação. Mas Paulo localiza a ausência de condenação nos que estão em Cristo, ligados àquele que morreu e ressuscitou. A sentença favorável acompanha uma mudança de condição e de senhorio.
A inversão nos descendentes de Adão
Romanos 5 nunca formula essa proposição.
Formula outra: pela ofensa de um veio a condenação; pela ofensa de um a morte reinou; pela desobediência de um muitos foram constituídos pecadores. A diferença parece pequena, mas decide também o outro prato da balança.
Se M’Cheyne começa explicando “constituídos pecadores” como “tidos por pecadores”, torna-se natural que, do lado de Cristo, “constituídos justos” passe a significar “tidos por justos”.
E é exatamente esse o passo que ele dará.
Adão debaixo dos Dez Mandamentos?
Antes de chegar ao segundo prato, porém, há um passo intermediário que merece atenção. Ao descrever a obediência de Cristo, M’Cheyne estabelece este paralelo:
“Adão não estava somente debaixo dos Dez Mandamentos, mas recebera um mandamento especial, para provar a sua obediência à vontade de Deus […]. Do mesmo modo, Cristo não estava somente debaixo dos Dez Mandamentos, mas debaixo de um mandamento especial […]: que morresse pelos pecadores”[8].
A frase não deve ser descartada como simples lapso histórico. A teologia reformada clássica sustenta que a lei moral já obrigava Adão antes do Sinai e foi depois resumida nos Dez Mandamentos. A formulação de M’Cheyne tem lógica dentro do sistema a que pertence.
A pergunta exegética, entretanto, permanece: é assim que Gênesis e Romanos constroem o paralelo entre Adão e Cristo?
O Decálogo, como legislação dada a Israel, vem muito depois de Adão, e Paulo distingue expressamente o período anterior à lei: “até à lei estava o pecado no mundo” (Romanos 5:13); “a morte reinou desde Adão até Moisés” (Romanos 5:14); “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse” (Romanos 5:20). Gálatas dá a mesma sequência: a lei veio “quatrocentos e trinta anos depois” (Gálatas 3:17). Isso não significa que antes de Moisés não houvesse vontade de Deus, obrigação ou transgressão. Abraão demonstra o contrário: “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis.” (Gênesis 26:5). O que obrigava Abraão, porém, era a voz que Deus lhe dirigira, e não o código que mais tarde seria dado a Israel.
E, para explicar a desobediência de Adão, não é preciso pô-lo debaixo do Decálogo. Gênesis dá diretamente a palavra que o obrigava: “da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás” (Gênesis 2:17).
Aqui, curiosamente, M’Cheyne acerta o paralelo justamente quando acrescenta o que chama de “mandamento especial”. Adão recebeu uma palavra específica, e Cristo declara ter recebido uma palavra específica:
“Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai.” (João 10:17-18).
O paralelo é de extraordinária precisão. A Adão, uma palavra: não comas. A Cristo, uma palavra: dou a minha vida. O primeiro desobedeceu; o último obedeceu.
Cristo, é certo, nasceu “sob a lei” (Gálatas 4:4), o que Paulo não diz de Adão. A simetria, portanto, não depende de pôr ambos sob o mesmo código mosaico. O ponto de contato estabelecido por Romanos 5 é outro: a desobediência de um e a obediência de um.
A sobreposição do Decálogo, contudo, não é inofensiva. Pôr Adão debaixo dos Dez Mandamentos transforma a ofensa do Éden em infração de um código moral. Não por acaso, logo no início do sermão, M’Cheyne a chama de “um pequeno pecado”, cuja ação exterior foi apenas estender a mão e tomar um fruto convidativo, e em seguida a aplica aos ouvintes: quebrar o sábado, beber demais, falar o que é falso; “um pequeno pecado trouxe um mundo inteiro debaixo da maldição de Deus”[9].
Note-se o movimento. O pregador afirma corretamente que ninguém foi feito pecador pelo seu pecado individual; mas, ao fazer da ofensa de Adão uma ilustração da gravidade dos “pequenos pecados”, devolve a atenção do ouvinte justamente aos seus atos individuais, grandes e pequenos. Não que esses atos deixem de ser pecados — “todos tropeçamos em muitas coisas” (Tiago 3:2). Mas não são os tropeços cotidianos que explicam Romanos 5:19. Paulo não põe na balança os erros de comportamento dos descendentes de Adão; põe a desobediência de um homem diante da obediência de outro.
A ofensa do Éden não foi pequena nem grande numa escala moral: foi a desobediência à palavra que trazia em si a morte. Medi-la pelo tamanho do gesto é tratar como questão moral aquilo que Paulo apresenta como condição: a entrada do pecado no mundo e, pelo pecado, a morte. É o mesmo deslocamento que, em Calvino, leva Romanos 5:12 da natureza para os atos, embora por outro caminho: a condição que resulta da desobediência de Adão passa a ser lida pela categoria da culpabilidade moral, em vez de permanecer no eixo que Paulo desenvolve — condenação, morte, reinado e servidão.
A obediência convertida em lista
Se Adão é posto debaixo do Decálogo, a obediência de Cristo também precisa ser definida como cumprimento do Decálogo. É o que M’Cheyne faz. Descreve essa obediência como “dupla”: primeiro, Cristo “obedeceu à santa lei de Deus”; depois, deu a sua vida. E apresenta a primeira mandamento por mandamento: não teve outros deuses, não se curvou a ídolos, não tomou em vão o santo nome, “lembrou-se do dia de sábado para o santificar”, foi sujeito a José e Maria, não matou, não adulterou, não furtou, não cobiçou[10].
Essa leitura parece apoiar-se numa compreensão estreita das palavras de Jesus: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim destruir, mas cumprir.” (Mateus 5:17). “Cumprir” não significa ali percorrer uma lista de mandamentos e satisfazê-los um a um, como quem produz um inventário de observâncias legais. A própria frase impede essa redução, porque Jesus não diz apenas que veio cumprir a lei, mas “a lei ou os profetas”. Os profetas não eram uma lista de preceitos a obedecer; eram anúncio, promessa, figura e testemunho daquilo que haveria de se realizar em Cristo.
Por isso, quando acrescenta que “nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mateus 5:18), Jesus não está dizendo que a sua missão consistia em guardar sucessivamente cada preceito para acumular justiça, mas que nada do que a lei e os profetas anunciavam ficaria sem realização. Depois de ressuscitar, Ele mesmo o explica: “convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” (Lucas 24:44). Cumprir, aqui, não é mera conformidade ética com um preceito; é a chegada daquilo para o qual a revelação anterior apontava. Cristo não é apenas aquele que cumpre mandamentos; é aquele em quem a lei e os profetas se cumprem.
Que Cristo viveu sem pecado não está em discussão. Ele mesmo disse: “O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada.” (João 8:29). A questão é se a “obediência de um” de Romanos 5:19 é uma soma de observâncias da lei mosaica, acumuladas ao longo da vida para depois constituírem um crédito de justiça em favor de outros.
O paralelismo de Paulo aponta em outra direção. Em Romanos 5:18, a “uma só ofensa” corresponde “um só ato de justiça”. Não se contrapõem uma transgressão isolada de Adão e uma coleção de atos legais de Cristo, mas dois atos representativos, dos quais procedem duas condições opostas. A “obediência de um”, no versículo seguinte, explica esse ato de justiça.
Hebreus identifica a vontade que o Filho veio cumprir e o ato em que essa obediência alcança o seu propósito: “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez.” (Hebreus 10:9-10). A obediência não aparece como patrimônio de méritos legais acumulados e depois transferidos, mas como a realização da vontade de Deus que culmina na oferta do corpo de Cristo.
A lista de M’Cheyne torna o problema especialmente visível quando chega ao sábado. Cristo não se apresenta como quem acumula justiça guardando cada preceito sabático, mas como quem tem autoridade sobre o próprio sábado: “Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor.” (Mateus 12:8). Isso não significa que Ele tenha transgredido a lei; significa que a sua relação com ela não se reduz à de um devedor que precisa produzir, mandamento após mandamento, o capital jurídico que será creditado aos demais.
Paulo descreve a obediência do Filho de outra maneira: “achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8). O “até” não faz da vida anterior um segundo estoque de justiça, paralelo à cruz; mostra a direção e a consumação da obediência. Toda a vida do Filho é obediência ao Pai, e essa obediência chega ao seu ato culminante na entrega de si mesmo. Por isso Romanos pode falar, ao mesmo tempo, da “obediência de um” e de “um só ato de justiça”.
O contraste, portanto, não é entre uma vida moralmente defeituosa de Adão e uma vida moralmente perfeita de Cristo contabilizada preceito por preceito. É entre a desobediência do primeiro homem e a obediência do último Adão, cuja manifestação decisiva é a entrega de si mesmo segundo a vontade do Pai. A vida obediente culmina na cruz; não é um crédito paralelo a ela.
“Como se”
Chega-se, então, ao outro prato da balança. Sobre os que recorrem a Cristo, M’Cheyne escreve:
“Não são apenas feitos inocentes, como se não tivessem cometido pecado, mas justos, como se tivessem cumprido toda a justiça. Tudo o que Cristo fez e sofreu é considerado deles. Nem são feitos justos como se tivessem obedecido, mas como se tivessem obedecido divinamente”[11].
A simetria com o primeiro prato é perfeita. Antes, os descendentes de Adão foram tidos por culpados pelo pecado de um só; agora, os que estão em Cristo são tidos por justos pela obediência de um só. Dos dois lados aparece a mesma operação: algo realizado por outro é considerado como se tivesse sido realizado pelos muitos. O paralelismo prometido no início do sermão permanece, mas já não é exatamente o de Paulo.
Paulo escreveu: “pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores”; e: “pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19). Na explicação de M’Cheyne, o versículo passa a dizer, em substância: foram tidos como se tivessem desobedecido em Adão; serão tidos como se tivessem obedecido em Cristo. A diferença é decisiva. O verbo paulino não descreve apenas o que Deus considera acerca dos muitos, mas o que o ato de um constitui nos muitos. O primeiro Adão introduz uma condição; o último Adão introduz outra. É isso que o restante de Romanos desenvolve.
Não se trata de negar a dimensão judicial da justificação. Paulo fala de condenação, justificação e acusação em linguagem inequivocamente judicial. Nem se pode dizer que Deus jamais justifica o ímpio, porque o próprio apóstolo afirma:
“Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.” (Romanos 4:5).
Deus justifica o ímpio. Mas essa afirmação precisa ser posta ao lado do que Ele mesmo declarou:
“De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio.” (Êxodo 23:7).
Não se trata de opor justiça e misericórdia, como se Deus manifestasse uma em Êxodo e suspendesse a outra em Romanos. Paulo apresenta a solução com precisão:
“Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Romanos 3:26).
Os dois movimentos operam juntos: Deus justifica e permanece justo ao fazê-lo. É essa simultaneidade que torna inadequada a explicação segundo a qual Deus continua diante de um ímpio e passa a tratá-lo como se fosse justo, atribuindo-lhe externamente a obediência praticada por outro.
A pergunta correta, então, não é se Deus justifica o ímpio; Romanos 4:5 já respondeu que sim. É como Ele justifica o ímpio e, no próprio ato de justificá-lo, continua sendo justo. Romanos 3:26 responde: em Cristo, pela fé. E Romanos 6 mostra que essa justiça não termina numa consideração externa acerca do mesmo homem:
“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.” (Romanos 6:6).
Quem chega ímpio não é deixado intacto e simplesmente denominado justo. A antiga condição, atrelada ao corpo, é levada à morte em Cristo: o corpo do pecado é desfeito.
“Porque aquele que está morto está justificado do pecado.” (Romanos 6:7).
O grego é significativo: ὁ γὰρ ἀποθανὼν δεδικαίωται ἀπὸ τῆς ἁμαρτίας. O verbo é δικαιόω, o mesmo da justificação; mas a construção ἀπὸ τῆς ἁμαρτίας, “do pecado”, e todo o contexto de Romanos 6 apontam para a libertação do domínio do pecado: o morto já não serve ao antigo senhor.
Isso é decisivo. Paulo não descreve um velho homem que continua vivo debaixo de uma nova classificação jurídica. O velho homem é sepultado com Cristo pelo batismo na morte (Romanos 6:4); pela morte, o homem é libertado do pecado e, gerado de novo em Cristo, é feito servo da justiça: “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.” (Romanos 6:18). O ímpio que crê não permanece no primeiro Adão, inalterado, tratado como se tivesse vivido a vida de outro. É unido a Cristo, o antigo senhorio é rompido e uma nova criatura vem à existência (2 Coríntios 5:17).
Assim, quando Paulo diz que Deus “justifica o ímpio”, não ensina que Deus chama de justo um homem que permanece na impiedade em que foi encontrado. Deus justifica aquele que chega ímpio mediante a fé, e é justamente esse homem que morre com Cristo e ressurge em novidade de vida. A misericórdia não opera contra a retidão de Deus, nem a justificação exige que Ele declare verdadeiro aquilo que não é. A obra pela qual Deus justifica o ímpio é também a demonstração da sua justiça: em Cristo, Ele é “justo e justificador”.
A justiça pertence ao novo nascimento
A justiça, portanto, não é uma opinião favorável de Deus acerca de quem continua pertencendo ao antigo regime. E aqui se esclarece também a oposição entre ímpio e justo, que não deve ser reduzida, em primeiro lugar, a uma escala de comportamento. O ímpio não é simplesmente o homem que acumulou mais atos maus, nem o justo aquele que conseguiu reunir boas obras suficientes.
As duas condições correspondem a duas origens, dois nascimentos e dois senhorios. Pelo nascimento natural, o homem procede do primeiro Adão e entra no mundo debaixo do pecado e da morte; essa é a condição de impiedade e injustiça que antecede os seus próprios atos e da qual eles são manifestação. Pelo nascimento espiritual, procede do último Adão: quem nasce de Deus é introduzido em outra condição, deixa o antigo senhorio e passa a viver sob a justiça.
Por isso Paulo não descreve a salvação como aperfeiçoamento progressivo do velho homem, mas como a sua morte e o surgimento de uma nova vida. O que nasceu de Adão pertence ao regime da morte; o que nasce de Deus pertence ao regime da vida. A prática segue a condição: o pecado manifesta o senhorio do primeiro nascimento, e a justiça manifesta a vida recebida no segundo.
A apresentação de Colossenses 1:22 pertence à mesma lógica. Paulo não diz que os reconciliados serão apresentados como se fossem santos, como se fossem irrepreensíveis, como se fossem inculpáveis. Diz que serão apresentados santos (ἁγίους), sem mácula (ἀμώμους) e não sujeitos a acusação (ἀνεγκλήτους), e que o meio foi “a morte”, no corpo da carne de Cristo. Isso não elimina a dimensão judicial, pois ἀνέγκλητος pertence justamente ao campo da acusação; mas mostra que a reconciliação não é mera atribuição verbal de uma qualidade alheia. O propósito da morte de Cristo é apresentar diante de Deus pessoas que estão, de fato, nessa condição.
Romanos 8 localiza no mesmo lugar a ausência de condenação: “para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1), isto é, na nova criatura (2 Coríntios 5:17). E a acusação desaparece em conexão com Cristo morto e ressuscitado (Romanos 8:33-34), não porque Deus precise imaginar que os seus nunca foram aquilo que foram, mas porque a união com Cristo levou à morte a antiga condição e introduziu uma nova.
O manto e o novo homem
M’Cheyne torna a sua concepção particularmente visível por meio de outra imagem. A obediência de Cristo, diz ele, “cobre e justifica” os que vêm a Deus por meio dele; e os crentes são como crianças vestidas de modo igual: “uma só veste cobre a todos, o manto do seu Irmão mais velho”[12].
A metáfora da veste, em si, é bíblica. Paulo diz dos batizados: “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.” (Gálatas 3:27). E, como o batismo é na morte de Cristo, revestir-se de Cristo é ressurgir com Ele. Os profetas também conheciam a linguagem da cobertura, e denunciavam a falsa: “Ai dos filhos rebeldes, diz o Senhor, que tomam conselho, mas não de mim; e que se cobrem, com uma cobertura, mas não do meu espírito” (Isaías 30:1); os profetas de Jerusalém “têm feito para eles cobertura com argamassa não temperada” (Ezequiel 22:28). As teias que o homem tece “não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras” (Isaías 59:6), e “todas as nossas justiças” são “como trapo da imundícia” (Isaías 64:6).
O problema, portanto, não está em falar de roupa. Está no que acontece com quem a recebe. No sermão, a metáfora representa a obediência de outro cobrindo igualmente todos os crentes. Se o velho homem permanece vivo e apenas recebe sobre si o manto da obediência alheia, a figura confirma exatamente o “como se”: o homem continua sendo o que era, embora apareça diante de Deus coberto pela justiça de outro.
Em Colossenses e Efésios, Paulo desenvolve a imagem do revestimento junto com uma operação anterior: o velho homem é despido.
“pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:9-10).
“E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.” (Efésios 4:24).
A sequência merece atenção: despir o velho homem, vestir o novo. E o novo homem não é uma aparência lançada sobre o antigo; é criado segundo Deus em justiça e santidade. Romanos 6 diz o mesmo sem a metáfora da roupa: o velho homem foi crucificado.
Uma veste lançada sobre o velho homem não basta, portanto, para representar o que Paulo descreve. Antes do revestimento há morte; antes do novo homem há crucificação do velho; antes da servidão à justiça há libertação do pecado.
O evangelho não veste Adão para que ele pareça Cristo. Leva o homem adâmico à cruz e lhe dá vida em Cristo.
A obediência não é transferida como biografia
Aqui também é preciso distinguir a obediência de Cristo da ideia de que toda a sua biografia moral é transferida ao crente, como se este a tivesse realizado.
Cristo foi absolutamente obediente ao Pai. Nasceu para fazer a sua vontade e permaneceu obediente até o fim. Mas Romanos 5 constrói o paralelo com extraordinária precisão: “por uma só ofensa […] para condenação, assim também por um só ato de justiça […] para justificação de vida” (Romanos 5:18); “pela desobediência de um só homem […] pela obediência de um” (Romanos 5:19).
A comparação não exige que Deus reescreva a história dos crentes como se cada um tivesse guardado todos os mandamentos que Cristo guardou. O ponto é que Cristo obedeceu onde Adão desobedeceu. Adão recebeu a palavra e desobedeceu. Cristo recebeu a palavra — “Este mandamento recebi de meu Pai” (João 10:18) — e obedeceu, até onde a obediência precisava chegar: “sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8). Por isso Hebreus o apresenta entrando no mundo e dizendo: “Eis aqui venho (no princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hebreus 10:7).
A eficácia dessa obediência não depende de Deus imaginar que nós a praticamos.
Depende de quem a praticou: o último Adão.
Assim como ninguém precisou praticar pessoalmente a transgressão de Adão para nascer sob a condição produzida por sua desobediência, ninguém precisa ser considerado autor da obediência de Cristo para receber a condição produzida por ela. Nos dois pratos, o ato pertence a um; o resultado alcança os muitos.
Dois atos, duas constituições
É aqui que os dois pratos da balança podem, finalmente, ser postos lado a lado.
Para M’Cheyne, a desobediência de Adão é considerada nossa, e por isso somos tidos por pecadores; a obediência de Cristo é considerada nossa, e por isso somos tidos por justos.
Paulo formula o paralelo de outra maneira. No primeiro prato:
- um homem → uma desobediência → condenação → morte → reinado do pecado → servos do pecado.
No segundo:
- um homem → uma obediência → justificação de vida → nova criação → reinado da graça → servos da justiça.
Repare que a ordem interna não é a mesma para o um e para os muitos. Em Adão, o pecado precede a morte; nos seus descendentes, a morte precede o pecar. Em Cristo, a obediência precede a vida; nos que creem, a vida recebida precede a prática da justiça. Nos dois pratos, o ato pertence a um só, e é a condição que alcança os muitos.
Em nenhum dos lados é necessário atribuir aos muitos a autoria do ato praticado pelo um.
Os descendentes de Adão não comeram do fruto como se cada um estivesse no jardim.
Os que estão em Cristo não obedeceram até a cruz como se cada um fosse Jesus de Nazaré.
Os atos continuam pertencendo a quem os praticou; o que alcança os muitos são os seus efeitos. O primeiro ato instaura uma condição; o segundo tira o homem dessa condição e o introduz em outra. Por isso Paulo não escreve que, pela desobediência de um, os muitos foram considerados como se tivessem desobedecido, nem que, pela obediência de um, serão considerados como se tivessem obedecido. Escreve: “como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos”.
O primeiro nascimento produz homens pertencentes ao primeiro Adão; o novo nascimento, homens pertencentes ao último. E, justamente porque a mudança é real, Paulo pode dizer, sem ficção e sem contradição, que Deus justifica o ímpio: justifica aquele que chega ímpio, mas não o deixa no senhorio em que o encontrou.
O ímpio crê; o velho homem morre; o servo é libertado; o novo homem é criado.
E aquele que estava debaixo do pecado é feito servo da justiça.
Não é como se. É nova criação.
A ira do Pai sobre o Filho
O mesmo esquema de consideração deixa marcas em outros dois pontos do sermão: na relação do Pai com o Filho e no conteúdo que se dá à morte espiritual.
Na mesma página em que cita João 10:17, “Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida”, M’Cheyne diz que Cristo foi “homem de dores” desde a mocidade e que “muitas e muitas vezes afundou sob a nuvem escura da ira de seu Pai, até exalar o último gemido no Calvário”[13].
As duas afirmações não cabem juntas. Se o Pai ama o Filho precisamente porque Ele dá a sua vida, o ato de dar a vida não é o momento da ira do Pai sobre o Filho, mas o da sua aprovação. Cristo “se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus” (Hebreus 9:14) e se entregou “em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Efésios 5:2). A palavra é, outra vez, ἄμωμον: uma oferta sem defeito e de cheiro suave não é objeto de ira.
Não se nega que houve um cálice, nem que ele não passou: “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.” (Mateus 26:39). O pedido não foi atendido porque a vontade do Pai devia cumprir-se, e não porque a pessoa do Filho tivesse sido rejeitada. Também não se nega que Ele foi feito maldição: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gálatas 3:13). O próprio texto diz de onde vem a maldição: do madeiro, segundo a lei, e não de uma ira do Pai contra a pessoa do Filho ao longo de toda a sua vida. Ao ser feito pecado por nós (2 Coríntios 5:21), Cristo tomou a posição da humanidade alcançada pela ofensa de Adão e suportou as suas consequências, sem jamais deixar de ser Aquele “que não conheceu pecado”.
O Salmo 22 possui caráter messiânico, e Jesus o toma nos lábios na cruz ao clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Porém, o próprio salmo não termina no desamparo. Sua conclusão interpreta a aflição à luz da resposta divina: “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” (Salmo 22:24). Assim, o clamor inicial não pode ser isolado do desfecho do salmo. Aquele que sofre parece abandonado em meio à angústia, mas a mensagem final é justamente que Deus não desprezou o aflito, não ocultou dele o rosto e ouviu o seu clamor. Aplicado a Cristo, o salmo conduz da aflição e da aparente ausência de Deus à vindicação daquele que clamou e foi ouvido. Quem viu ira ali foram os que olhavam de fora: “e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido” (Isaías 53:4).
Também aqui a lógica é a da consideração. Se a culpa foi lançada na conta dos muitos e a justiça na conta dos crentes, é preciso que alguma conta receba a ira, e o Filho obediente passa a ser tratado como se fosse o culpado. A Escritura, no momento mesmo em que Ele se entrega, diz que o Pai o ama.
Morte espiritual: a mesma palavra, outro conteúdo
M’Cheyne diz que os filhos de Adão vêm ao mundo “mortos para Deus”, e isso soa como o que se sustenta neste site: morto para Deus, vivo para o pecado. Mas ele não para aí. Diz que, no dia da queda, “não restou nele, nem em nenhum dos seus, uma centelha de vida espiritual”, e que o homem é “avesso a tudo o que é bom”[14]. Logo no início do sermão, aplica 1 Coríntios 2:14 às duas verdades de Romanos 5:19, como somos feitos pecadores e como somos feitos justos: os não convertidos “não conhecem nenhuma delas”, porque “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus”[15].
A mesma expressão, “morto para Deus”, recebe então outro conteúdo. Deixa de ser relação, estar separado daquele que é a vida (“Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida”, 1 João 5:12), e passa a ser incapacidade de ouvir e entender a mensagem que salva. Jesus, porém, disse que os mortos ouvem: “vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (João 5:25). E Paulo não aplica 1 Coríntios 2:14 ao anúncio de Cristo crucificado, que levou aos coríntios (1 Coríntios 2:1-2) e que é “o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16), mas à sabedoria que se fala “entre os perfeitos” (1 Coríntios 2:6).
O próprio sermão desmente a aplicação. M’Cheyne prega Romanos 5:19 a homens que acabara de declarar incapazes de compreendê-lo e os exorta a orar para descobrir a sua ligação com o primeiro Adão, a fim de se apegarem ao segundo[16]. A pregação supõe que o morto ouve; a doutrina diz que não pode.
A tradução também precisa ser lida inteira
O leitor de língua portuguesa enfrenta ainda outro obstáculo: a tradução em circulação suaviza pontos do original. Onde M’Cheyne escreve que o primeiro Adão era “belo, extraordinariamente belo” (fair, exquisitely fair), a tradução diz “justo, perfeitamente justo”. Onde diz que o homem é “avesso a tudo o que é bom” (disinclined from all that is good), a tradução diz “extraviado”. A última lição, que no original afirma que, “no momento em que abandonais a Cristo, perdeis a vossa justiça diante de Deus” e que se pode “ser feito justo mais uma vez”, aparece como “se você abandonou a Cristo, não é justo diante de Deus, volte agora”[17]. O próprio versículo vem citado como “Romanos 19:5”, e o título inverte a ordem do original, The Obedience and Disobedience of One.
Nenhuma dessas diferenças altera o núcleo do que se discute aqui: o “termo judicial” e o “como se” estão preservados na tradução. Mas elas ilustram o princípio deste artigo. Quem lê apenas a parte, ou uma versão da parte, não pode dizer que examinou a doutrina.
Por que é preciso olhar a doutrina inteira
Em Filipos, uma jovem que tinha espírito de adivinhação seguiu Paulo por muitos dias clamando: “Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo.” (Atos 16:17). Tudo o que ela dizia era verdadeiro. Paulo, porém, não aceitou o testemunho: “perturbado, voltou-se e disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela” (Atos 16:18). Uma afirmação correta não valida a fonte que a pronuncia, nem o que essa fonte disser em seguida.
Pedro advertiu que os falsos doutores não anunciariam o erro às claras: “introduzirão encobertamente heresias de perdição” (2 Pedro 2:1). Judas diz o mesmo: “se introduziram furtivamente alguns” (Judas 1:4). O que se introduz encobertamente precisa de cobertura, e nenhuma cobertura é melhor que a verdade. Até na tentação o diabo citou a Escritura (Mateus 4:6). E Pedro, pouco depois de confessar que Jesus era o Cristo, ouviu: “Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.” (Mateus 16:23). A mesma boca que confessara a verdade pôde servir de escândalo.
Por isso a Escritura não manda aprovar o que parece bom, mas examinar: “Examinai tudo. Retende o bem.” (1 Tessalonicenses 5:21). “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” (1 João 4:1). Os de Bereia são chamados mais nobres porque “de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos 17:11). Receber de bom grado e examinar não se excluem.
No sermão de M’Cheyne, o exame mostra como a mistura funciona. A parte verdadeira (dois homens, dois atos, a recusa do individualismo, a oferta a toda criatura) dá autoridade ao conjunto. A parte que se afasta (o “termo judicial”, Adão debaixo do Decálogo, a obediência como lista, o “como se”, o manto sobre o velho homem, a ira do Pai sobre o Filho, a morte como incapacidade) entra com essa autoridade emprestada. E, uma vez aceita, não fica num canto do sermão: altera o sentido do pecado, o da cruz e o da justificação.
É aqui que a advertência de Paulo a Timóteo encontra o seu lugar: “aparência de piedade, mas negando a eficácia dela” (2 Timóteo 3:5). Como se disse no início, o versículo não é aplicado à pessoa de M’Cheyne; aplica-se à doutrina o critério que ele encerra: a forma pode estar inteira e a eficácia, negada. A palavra traduzida por “aparência” é μόρφωσις, forma, contorno; a traduzida por “eficácia” é δύναμις, a mesma com que Paulo define o evangelho: “o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16).
É exatamente o que acontece no sermão. A forma do evangelho está toda ali: dois Adões, uma desobediência e uma obediência, a cruz, a justiça, a oferta a toda criatura. Mas, se o evangelho apenas considera justo quem continua sendo o que era, se cobre o velho homem em vez de crucificá-lo, se deixa o morto incapaz de ouvir a palavra que lhe é pregada, então conserva a forma e nega o poder. O evangelho não tem apenas aparência de nova criação; ele cria: “se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17).
O perigo maior não está em quem nega Romanos 5:19, mas em quem o afirma com as palavras certas e o preenche com outro conteúdo. “Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte.” (Provérbios 14:12). A semelhança com a verdade não é critério de verdade; é motivo de atenção.
Conclusão: a balança revisitada
A balança de Romanos 5 continua de pé, e M’Cheyne ajuda a vê-la: dois homens, dois atos e dois resultados que alcançam os muitos. Num prato, muitos constituídos pecadores; no outro, muitos constituídos justos.
O que o sermão faz é trocar os verbos dos dois pratos. Onde Paulo diz “constituídos”, M’Cheyne lê “tidos por”; onde Paulo diz “reinou”, ele lê “imputou”; onde Paulo diz “despistes” e “vestistes”, ele lê “cobre”. Com os verbos trocados, a balança deixa de pesar duas condições, morte em Adão e vida em Cristo, e passa a pesar duas contas.
Contra isso não basta concordar com a estrutura. É preciso ler a doutrina inteira e perguntar, diante de cada frase semelhante à verdade, o que ela contém. A controvérsia nunca foi se o ato de Adão alcançou os muitos, mas o que esse ato fez aos muitos, e o que a obediência de Cristo faz com os que creem: não os considera como se tivessem obedecido, mas os faz morrer com Ele e viver para Deus, e assim os apresenta santos, irrepreensíveis e inculpáveis. “Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.” (Romanos 6:10).
Esse exame não é desconfiança contra irmãos, mas zelo pelo que foi recebido: “tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 1:3).
[1] M’CHEYNE, Robert Murray. A desobediência e a obediência de um só. O Estandarte de Cristo, 12 ago. 2015. Disponível em: //oestandartedecristo.com/a-desobediencia-e-a-obediencia-de-um-so-por-r-m-mcheyne/. Acesso em: 13 set. 2026.
[2] M’CHEYNE, Robert Murray. Sermon LI: The Obedience and Disobedience of One (Rm 5:19). Dundee, 17 abr. 1842 (sermão de Ceia). In: Additional Remains of the Rev. Robert Murray M’Cheyne. Edinburgh: John Johnstone, 1847, p. 356-362. O prefácio informa que os sermões foram impressos a partir das notas manuscritas do autor, escritas como preparação para o púlpito e não destinadas à publicação. As citações deste artigo foram traduzidas diretamente do original, com auxílio de inteligência artificial e conferência do texto inglês.
[3] Idem, p. 356.
[4] Idem, p. 360.
[5] Idem, p. 357-358.
[6] Idem, p. 361.
[7] Idem, p. 358.
[8] Idem, p. 360.
[9] Idem, p. 357.
[10] Idem, p. 359.
[11] Idem, p. 361.
[12] Idem, p. 360 e 362.
[13] Idem, p. 360.
[14] Idem, p. 357-358.
[15] Idem, p. 356.
[16] Idem, p. 358.
[17] Idem, p. 358 e 362.

