O fatalismo do Sínodo de Dort repousa sobre um único versículo: Efésios 2:8. Mas o texto afirma que o dom procede de Deus, não que ele seja infundido na vontade do homem, palavra que o próprio Sínodo precisou acrescentar para obter a prova que buscava. O dom de Deus é Cristo, posto diante do homem, e não uma qualidade depositada dentro dele.
Contraponto ao fatalismo do Sínodo de Dort
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).
Introdução
Poucos versículos são invocados com tanta confiança e examinados com tão pouco cuidado. Ao tratar de Efésios 2:8, R. C. Sproul conclui que a passagem deveria selar a questão para sempre, e que a fé pela qual somos salvos é dom de Deus.[1]
Selar o quê, exatamente? É a pergunta que ninguém faz, e é a pergunta que decide tudo.
Que o dom procede de Deus, ninguém contesta. Que a salvação não vem do homem, ninguém contesta. O que os defensores da leitura sinodal afirmam sem prova é coisa bem diferente: que o dom mencionado pelo apóstolo consiste numa qualidade depositada dentro do indivíduo, sem a qual ele estaria impedido de responder ao evangelho. É esta afirmação, e não a gratuidade do dom, que o presente artigo se propõe a examinar.
Essa é a tese do Sínodo de Dort. E ela não está no texto.
Advirto desde já que o presente estudo não defende o arminianismo, nem o sinergismo, nem qualquer meio-termo entre as duas escolas. O leitor que procurar aqui a bandeira de um dos partidos não a encontrará, pelo motivo que ficará claro adiante: ambos os partidos partem do mesmo erro de leitura, e por isso disputam há quatro séculos uma questão mal colocada.
Por que o termo “fatalista”
Chamar de fatalista a posição não é injúria, é descrição, e a prova vem dos próprios defensores.
O Pr. Augustus Nicodemus, ao expor o que denomina os seis pontos do seu calvinismo, abre com a declaração de que crê que Deus predestinou tudo o que acontece.[2] Em seguida, no mesmo parágrafo, sente a necessidade de esclarecer que Deus não é uma força impessoal como o destino, e afirma que as decisões humanas são reais e fazem diferença.
Ora, quem precisa negar que a sua doutrina é fado, é porque a descrição o alcançou. E a negativa não resolve. Se tudo o que acontece foi predestinado, a queda de Adão foi predestinada, e não há como falar em responsabilidade moral. Restam duas saídas, ambas ruinosas: ou Deus predestinou Adão a comer do fruto, ou traçou um plano infalível para que ele comesse. Nas duas, o homem foi criado para pecar.
Note-se ainda que “predestinar” e “planejar” são termos que se excluem. Quem determinou todos os eventos não traça planos; planos supõem contingência. O documento se contradiz na própria frase que pretende resolver a contradição.
Acrescente-se a admissão de que a compatibilidade entre a soberania divina e a vontade das criaturas é, para o autor, um mistério. Chama-se mistério ao que a doutrina não consegue explicar. É o “credo quia absurdum” de Tertuliano de Cartago aplicado onde não cabe, pois o evangelho é verdade, não absurdo, e a fé, ainda que não seja compreensível ao homem natural, não se funda em contradições que desafiem a razão.
Fatalista, portanto, é o termo próprio: designa o sistema em que os eventos estão fixados de antemão e a resposta humana é aparência.
O que Dort efetivamente publicou
Convém ser preciso, pois a polêmica costuma ser feita contra caricaturas. Vejamos o que o Sínodo escreveu, e não o que se diz que escreveu.
Primeiro Capítulo da Doutrina, Artigo 5 – Ao tratar da causa da incredulidade, o Sínodo atribui a culpa ao homem, mas declara que a fé em Jesus Cristo e a salvação por meio dele são dádiva gratuita de Deus. E cita, como prova, precisamente Efésios 2:8. É o próprio documento que elege o versículo como fundamento.
Primeiro Capítulo, Artigo 6 – Declara que Deus concede fé a uns e não a outros, e que isso procede do decreto eterno, pelo qual ele inclina a crer os corações dos eleitos.
Terceiro e Quarto Capítulo, Artigos 11 e 12 – Estabelecem que Deus opera a regeneração de modo eficaz e infalível, e que, restaurada a vontade, o homem crê. A ordem é fixada: primeiro a regeneração, depois a fé.
Terceiro e Quarto Capítulo, Artigo 14 – Aqui a tese aparece sem disfarce. O Sínodo afirma que a fé é dom de Deus não por ser oferecida ao livre-arbítrio do homem, mas por ser conferida ao homem, “implantada e infundida nele”. Acrescenta que não se trata de Deus conceder a capacidade de crer e aguardar o consentimento humano, pois é Deus quem efetua tanto o querer quanto o realizar. Ao pé do artigo, as referências: Efésios 2:8 e Filipenses 2:13.
Terceiro e Quarto Capítulo, Rejeição dos Erros, Erro 6 – O Sínodo condena expressamente os que negam que Deus infunda na vontade uma nova natureza, capacidade ou dom, e os que sustentam ser a fé apenas ato do homem.
Está tudo declarado, por escrito, e subscrito por todos os oficiais das igrejas reformadas. Agora leiamos o versículo.
A palavra que o apóstolo não escreveu
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.”
Procure no versículo a palavra infundida. Procure implantada. Procure dentro. Procure qualquer indicação de que o dom seja uma qualidade depositada na vontade.
Não está lá.
O que o apóstolo afirma é que a coisa não procede de vós. Ora, “não procede de vós” é afirmação sobre a origem do dom, não sobre o seu lugar de depósito. Dizer que o pão não veio de mim não é dizer que o pão está dentro de mim. São proposições inteiramente distintas, e o Sínodo passa de uma à outra sem sequer notar a passagem.
Aqui está o ponto central deste estudo:
Para que Efésios 2:8 prove o que Dort quer, seria necessário que o texto dissesse não apenas que o dom vem de Deus, mas que ele é infundido no homem. O texto diz a primeira coisa e cala sobre a segunda. A segunda foi trazida de fora e lida para dentro.
O Sínodo sabia disso. Por que outra razão o Artigo 14 precisaria acrescentar “infundida” ao que o versículo diz? Quem cita um texto como prova e precisa completá-lo com um termo que ele não contém está confessando, no ato mesmo de citar, que o texto sozinho não prova.
A passagem não sela coisa alguma. Ela é silenciosa quanto ao ponto em disputa.
Três distorções herdadas do latim
Antes de prosseguir, é preciso desfazer três deslocamentos que a tradição ocidental introduziu na leitura das Escrituras. Não são erros isolados: vieram todos pela mesma via, e cada um deles sustenta uma peça da doutrina sinodal.
Primeira: fides e credere
No grego há o substantivo πίστις (pistis) e o verbo πιστεύω (pisteuō), da mesma raiz. O latim tem fides, mas não possui verbo derivado desse radical, o que obrigou os tradutores a recorrer a credere, palavra de outra origem. Rompida a ligação entre substantivo e verbo, perdeu-se a percepção de que a Escritura trata de duas coisas distintas mas encadeadas: a fé anunciada e o crer de quem a ouve.
Daí em diante, “fé” passou a significar quase sempre o ato de acreditar, e o leitor moderno já não enxerga no texto o outro sentido, que é o mais frequente nas cartas paulinas.
Segunda: metanoia e paenitentia
O termo grego traduzido por arrependimento é μετάνοια, que significa mudança de concepção, de entendimento, de modo de pensar. O latim verteu-o por paenitentia, palavra do campo semântico da pena e do castigo.
A consequência é conhecida: sobre paenitentia ergueram-se a penitência, a distinção entre pecados veniais e capitais, e as indulgências. Arrepender-se passou a ser lamentar faltas morais, quando o que a Escritura requer é mudar de concepção quanto ao modo de o homem ser salvo. Foi por isso que Jesus, ao abrir o entendimento dos discípulos, mandou que se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações (Lucas 24:46-47), e não penitência diante de sacerdotes.
Terceira: as obras da lei e as obras do catolicismo
Quando o apóstolo escreve “não vem das obras, para que ninguém se glorie”, de que obras ele fala? Basta continuar a leitura, pois o próprio parágrafo define:
“Portanto, lembrai-vos de que vós éreis noutro tempo gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão… na sua carne desfez a inimizade, a saber, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças” (Efésios 2:11, 15).
O contexto imediato é a circuncisão, a incircuncisão, as ordenanças, a parede de separação entre judeus e gentios, os dois povos feitos um. As obras do verso 9 são as obras da lei: circuncisão, genealogia, dias de festas, lua nova, sábados, purificações e os mandamentos de homens acrescentados pela tradição oral. O apóstolo escreve contra os judaizantes, não contra outra coisa.
Com a Reforma, os reformadores enfrentavam indulgências, penitências, esmolas e dogmas, e passaram a ler “obras” nas cartas paulinas como se ali estivessem tais práticas. Ninguém é salvo por indulgências, é verdade; mas essas não são as obras de que o apóstolo trata, pois na época em que escreveu a Igreja Católica não existia, e em nenhuma linha das suas cartas ela poderia ser contestada.
Note-se que a segunda e a terceira distorção são a mesma moeda: paenitentia gerou as práticas, e as práticas foram depois projetadas sobre o que Paulo chamava de obras.
Daí decorre o que interessa a este estudo. Se o verso 9 não fala das obras que a Reforma combatia, com quanto menos razão falará do ato de crer. O temor de Dort é anacrônico duas vezes: transporta para o século I uma polêmica do século XVI, e depois estende essa polêmica a algo que ela mesma não alcançava.
A jactância que o apóstolo exclui é a dos que se gloriavam na carne: hebreus, israelitas, descendência de Abraão, adoção, glória, alianças, lei, culto, promessas (Romanos 9:3-5). Abraão não possuía nenhum desses itens quando creu, pois não era circuncidado e a lei ainda não fora dada. É esta a jactância excluída, e não a de um pecador que ouviu boas novas e nelas confiou.
O testemunho de Calvino contra o uso calvinista
Há constrangimento adicional para quem invoca Dort. João Calvino não lia o versículo assim.
Ao comentar Efésios 2, Calvino registra como erro comum restringir o termo “dom” à fé, e afirma que Paulo apenas repete, com outras palavras, o que já dissera: não que a fé seja o dom de Deus, mas que a salvação nos é dada por Deus.[3] Albert Barnes, ao expor o mesmo verso, alinha Calvino nesse grupo, ao lado de Grócio, Locke, Storr e Clarke.[4]
Isto não refuta a doutrina reformada da fé como dádiva, que se pode tentar sustentar por outras vias. Mas desmonta o gesto retórico. O versículo não encerra assunto nenhum para sempre, como Sproul inferiu, visto que o próprio Calvino não julgava que ele tratasse do assunto.
A gramática
O pronome “isto” traduz o grego touto, demonstrativo neutro singular. Na oração antecedente, “graça” é feminino, “fé” é feminino, e “sois salvos” é particípio masculino plural. Não há, na frase, nenhum antecedente neutro.
A leitura natural do grego toma touto como referente à oração inteira, “o serdes salvos pela graça mediante a fé”, e não a um dos seus termos isolados. É a construção corrente em que um demonstrativo neutro resume uma proposição anterior.
O contexto confirma. A antítese de “obras” é a salvação, não a fé, e em Romanos 6:23 o dom gratuito de Deus é identificado com a vida eterna.
Onde está, então, o dom?
Aqui a exposição deixa de ser negativa.
Concedo a Dort tudo quanto ele deseja quanto à gratuidade. A fé salvadora não procede do homem. O homem não a produz; é recipiente, não fonte. A salvação foi providenciada antes que o homem existisse, pois o Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo (1 Pedro 1:20; Apocalípse 13:8). A confiança do homem não garante coisa alguma; é Deus quem se interpõe como garantia (Hebreus 6:17; 10:23).
Nada disso está em disputa. O que está em disputa é uma única questão: onde o dom foi depositado.
Dort responde: dentro do sujeito. As Escrituras respondem: diante dele.
O dom de Deus é Cristo. Foi assim que o Senhor o nomeou junto ao poço de Jacó: “Se tu conheceras o dom de Deus” (João 4:10). É a fé que havia de manifestar-se, para a qual estávamos encerrados debaixo da lei, e que veio na plenitude dos tempos (Gálatas 3:23-25). É a graça e a verdade que vieram por Jesus Cristo (João 1:17). É a pedra eleita e preciosa posta em Sião, e a ela se segue um mandamento: quem nela crer não será confundido (1 Pedro 2:6).
Crer, acreditar, descansar, repousar, confiar em Cristo não é o dom de Deus. O dom de Deus é Cristo, o firme fundamento (Efésios 2:20; 1 Coríntios 3:11; Romanos 15:20).
Aqui está a distinção que resolve a controvérsia inteira, e ela cabe numa linha:
Crer é sujeitar-se a um mandamento; a fé é o mandamento.
A fé, como doutrina, evangelho, verdade e Cristo, precede a crença, pois esta só ocorre em função daquela. É por isso que se pode dizer, sem contradição alguma, que a fé é dom de Deus e que crer é obediência do homem. Não são duas afirmações rivais a serem equilibradas; são afirmações sobre coisas distintas.
De fé em fé
A objeção previsível dirá que estamos forçando o sentido de pistis, criando dois usos onde o texto tem um só. Mas o apóstolo já havia posto os dois usos lado a lado, na mesma frase, no pórtico da carta aos Romanos:
“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê… Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” (Romanos 1:16-17).
De fé em fé. Do evangelho anunciado à confiança de quem o ouviu. Da causa ao efeito. Quem toma os dois termos no mesmo sentido transforma a frase em tautologia e não sabe explicar por que o apóstolo a escreveu.
Um teste que o leitor pode fazer
Ofereço ainda um teste que o leitor pode fazer com a concordância na mão. Percorra o Novo Testamento e verifique: os apóstolos jamais designam Cristo, o evangelho ou a verdade pelo verbo pisteuō. Somente pelo substantivo pistis.
No grego há o substantivo πίστις (pistis) e o verbo πιστεύω (pisteuō). Nas línguas latinas essa distinção se perdeu, porque não temos verbo derivado do radical de fides, o que obrigou os tradutores a recorrer a credere. A confusão é de tradução, não do texto grego.
Diz-se batalhar pela fé (Judas 3), guardar a fé (2 Timóteo 4:7), permanecer fundado e firme na fé (Colossenses 1:23), desviar-se da fé (1 Timóteo 6:21), a pregação da fé (Gálatas 3:2), a obediência da fé (Romanos 1:5; 16:26), a fé anunciada em todo o mundo (Romanos 1:8). Substitua “fé” por “evangelho” em cada uma dessas passagens e o sentido permanece intacto. Tente fazer o mesmo com o verbo, e verá que não há caso.
Objetar-se-á com João 6:29, onde a obra de Deus é definida com o verbo: que creiais naquele que ele enviou. Mas note-se que ali o verbo designa a obra requerida, e o objeto crido continua sendo outro, “aquele que ele enviou”. A distinção permanece de pé: o verbo nomeia o ato de sujeição, o substantivo nomeia aquilo a que o homem se sujeita.
A ordem: o que precede o quê
Os Artigos 11 e 12 do Terceiro e Quarto Capítulo fixam a ordem do Sínodo: Deus regenera, e o regenerado crê. Daí a pergunta que se tornou obrigatória nos manuais: o que vem primeiro, a regeneração ou a fé?
A pergunta está mal posta, e por isso nunca se resolve. Quem a formula já supôs que “fé” e “crer” são a mesma coisa. Desfeita a confusão, a ordem se apresenta sem mistério algum:
Primeiro a fé, isto é, o evangelho anunciado, Cristo manifesto, a palavra da verdade dirigida ao homem de fora para dentro. Nada precede isto, pois Cristo é preexistente (Colossenses 1:17) e o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13:8), o que não se pode dizer nem do arrependimento nem da crença de ninguém.
Depois o arrependimento, a mudança de concepção que o anúncio produz em quem o ouve e compreende. Sem mensagem não há metanoia, pois ninguém muda de entendimento a respeito de coisa que desconhece. Aquele que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra (Mateus 13:23).
Depois o crer, o descanso na esperança proposta, que é a sujeição ao mandamento. Foi o que o apóstolo testificou em Mileto: a judeus e a gregos anunciou o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo (Atos 20:21).
Depois a regeneração, obra que só Deus opera, e que examinaremos a seguir.
De fé em fé, portanto, e não da regeneração para a fé. A ordem do Sínodo inverte a do apóstolo porque precisa de um homem previamente capacitado; a ordem do apóstolo dispensa essa necessidade porque o que capacita não está no homem, está na mensagem.
A regeneração não é infusão na vontade
Resta a acusação mais grave do Sínodo, formulada na Rejeição dos Erros: quem nega a infusão de nova natureza, capacidade ou dom na vontade estaria reduzindo a fé a mero ato do homem.
A acusação erra o alvo, e a resposta tem duas partes.
Primeira: não se nega a obra interior de Deus. Nega-se que ela seja infusão de uma faculdade de crer – Deus concede coração novo e espírito novo, conforme está escrito: “Então espargirei água pura sobre vós, e ficareis purificados… e vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo” (Ezequiel 36:25-26). Ninguém disputa isto. O que se pergunta é por que meio essa obra se realiza, e o próprio profeta responde: pelo espargir de água pura, que é a palavra. É pelo lavar regenerador que Deus opera, e o instrumento é a semente incorruptível, que é o evangelho: “sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e permanente” (1 Pedro 1:23).
A obra é de Deus, integralmente. Mas ela é operada através da mensagem, e não à revelia dela.
Segunda: a regeneração não é retoque na vontade do velho homem; é criação de nova criatura. Aqui está o equívoco de fundo do Artigo 14. O Sínodo imagina uma faculdade defeituosa que Deus conserta injetando-lhe uma qualidade nova, de modo que a mesma pessoa, agora consertada, passe a poder crer. Não é o que as Escrituras descrevem. A velha criatura é morta e sepultada com Cristo, e o que surge é homem novo, criado segundo Deus em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4:24). “Se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17).
Note-se a consequência: quem foi regenerado permanece de posse da sua memória e do seu entendimento, e por isso ainda lhe é dito que se transforme pela renovação do entendimento (Romanos 12:2). Pedro já estava limpo pela palavra de Cristo e ainda assim tinha a mente embotada. Se a regeneração fosse infusão de qualidades na mente, essa exortação não faria sentido algum.
O Sínodo, portanto, condena uma tese que não é a nossa. Não dizemos que a fé é apenas ato do homem; dizemos que ela é o mandamento de Deus posto diante do homem, e que o crer é a obediência a esse mandamento, obediência que Deus produz pela sua palavra e que culmina na criação de uma criatura inteiramente nova (Romanos 1:5; 16:26).
O medo que move Dort, e por que é infundado
O motor da posição sinodal não é gramatical, é psicológico. Teme-se que, se o homem crê, o homem contribui; e se contribui, se gloria.
O temor pressupõe que crer seja obra meritória. Não é, e o apóstolo o diz com todas as letras.
“Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Romanos 3:27).
Note-se: a fé é o próprio mecanismo pelo qual a jactância é excluída, e não uma ameaça a ser neutralizada.
“Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê…” (Romanos 4:4-5).
O apóstolo põe obra e fé em colunas opostas. A objeção precisa colocá-las na mesma coluna para funcionar, e é o texto que resiste.
Estamos diante de dois sistemas, e ambos são mandamentos. A lei foi dada sob ameaça de maldição; o evangelho, mediante promessa. Todo mandamento requer obediência, e obedecer é fazer-se servo. Quem toma sobre si o jugo de Cristo humilha-se a si mesmo se fazendo servo (Mateus 11:29-30). Onde está a jactância em capitular? Não há vanglória em obedecer, nem soberba em se fazer servo, pois o amor não se ensoberbece (1 Coríntios 13:4).
E há a razão de fundo, que é decisiva:
A verdade produz certeza; a certeza não produz verdade.
A confiança do homem nunca é causa; é sempre efeito. Ninguém torna verdadeira a lei da gravidade por confiar nela; confia porque ela é verdadeira e lhe foi demonstrada. Assim também com o evangelho: “muitos mais creram nele, por causa da sua palavra” (João 4:41). A palavra foi a causa; a crença, o efeito.
Sendo assim, que mérito é possível alguém auferir ao acreditar numa palavra fiel e digna de toda aceitação (1 Timóteo 1:15)? Nenhum. O mérito está inteiramente na virtude daquele que chama os homens das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pedro 2:9).
A solução de Dort, além de infundada, é mais custosa: para eliminar o mérito, suprime a resposta. A solução do apóstolo dissolve o problema antes que ele se levante.
Os dois textos que restam
Quem defende a infusão recorre, previsivelmente, a duas passagens. O próprio Artigo 14 anota uma delas.
Filipenses 2:13, “Deus é que opera em vós tanto o querer como o efetuar”. O contexto é a exortação aos que já creem, para que operem a sua salvação com temor e tremor. O versículo trata da vida do salvo, não da entrada nela. Aplicá-lo à origem da fé é retirá-lo do seu parágrafo.
Filipenses 1:29, “porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele”. Leia-se com o verso anterior. O apóstolo consola cristãos diante de opositores, e diz que a oposição é para estes indício de perdição e para aqueles de salvação. A graça de crer em Cristo veio pelo anúncio do evangelho, e a ela se acrescentou a graça de padecer pela mesma mensagem. Nada ali afirma que a concessão se deu por eleição prévia em vez de pela pregação. O texto declara que foi concedido; não declara como foi concedido, e é o “como” que está em disputa.
O custo interno da tese sinodal
Se o crer fosse infundido, três coisas ficariam sem função.
A pregação. “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10:14). A cadeia é inequívoca: crer não é determinado por eleição, mas por ouvir. Daí a necessidade de que alguém pregue.
A fidelidade da mensagem. O apóstolo se esforça para que a pregação não consista em palavras persuasivas de sabedoria humana, para que a fé se apoie no poder de Deus (1 Coríntios 2:4-5). Se a crença fosse imposta na mente, a qualidade da mensagem seria indiferente ao resultado (2 Timóteo 1:13).
A imputação da incredulidade. O Novo Testamento inteiro responsabiliza quem não crê, e o próprio Dort, no Artigo 5 do Primeiro Capítulo, insiste que a culpa da incredulidade está no homem, de modo nenhum em Deus. Ora, cobra-se de um homem impedido aquilo que ele foi impedido de fazer?
Registre-se que o Sínodo mantém a necessidade dos meios e a sinceridade do chamado externo. É afirmação louvável, e é também o ponto em que o documento se desdiz. Se a fé é infundida, o meio é ornamento.
Nem calvinismo, nem arminianismo
Cabe agora dizer com clareza o que esta exposição não é.
Não é arminianismo. O arminiano erra ao tomar a fé como algo que o homem decide ter por seu livre arbítrio, tratando o dom como disposição interna produzida pelo sujeito. Quem assim lê não distinguiu a fé (Cristo, evangelho) do crer (confiança), e por isso disputa a posse de um terreno que não é seu.
Não é calvinismo. O calvinista erra do lado oposto, tomando o mesmo dom como qualidade infundida no sujeito, e daí deduzindo a inabilidade e a particularidade.
Observe-se que ambos cometem o mesmo erro: colocam o dom dentro do homem. Discordam apenas sobre quem o colocou ali, se o próprio homem ou Deus. Por isso a controvérsia se arrasta há quatro séculos sem solução, pois disputam a posição de uma coisa que não está onde os dois supõem.
O eixo verdadeiro não é monergismo contra sinergismo, nem soberania contra livre-arbítrio. É interioridade contra exterioridade do dom. Deslocado o eixo, a disputa se desfaz: o dom é exterior, ofertado sem acepção a todos os homens (Tito 2:11), e a resposta do homem é obediência a um mandamento, sem mérito algum. É sem sentido alguém que se faz servo jactar-se.
Conclusão
Contra os mortos em delitos e pecados alega-se a incapacidade absoluta de responder. Mas está escrito que o povo que andava em trevas viu uma grande luz, e que sobre os que habitavam na região da sombra da morte a luz resplandeceu (Isaías 9:2). E disse o Senhor: “quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25). Mortos não operam a própria salvação, mas a mensagem lhes é proclamada, e os que dentre eles derem crédito alcançarão vida: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (Isaías 55:3).
Efésios 2:8 não sela questão alguma.
O versículo afirma que a salvação pela graça mediante a fé não procede de vós. Quem pretende que o próprio crer seja infundido na vontade precisa demonstrá-lo a partir de outros lugares e assumir o ônus da prova. Não lhe é lícito invocar um versículo cujo pronome aponta para outra coisa, cujo verso seguinte trata das obras da lei, e cuja alegada prova o Sínodo só obteve acrescentando ao texto uma palavra que o apóstolo não escreveu.
O dom de Deus não foi depositado dentro do homem. Foi posto diante dele, levantado como a serpente no deserto, à vista de todos, e anunciado a toda criatura debaixo do céu (João 3:14).
Referências
Cânones de Dort (1619)
- Primeiro Capítulo da Doutrina, Art. 5 — a causa da incredulidade e a fonte da fé; cita Ef 2:8 como prova.
- Primeiro Capítulo da Doutrina, Art. 6 — Deus concede fé a uns e não a outros, segundo o decreto eterno.
- Terceiro e Quarto Capítulo da Doutrina, Art. 12 — da regeneração eficaz e infalível.
- Terceiro e Quarto Capítulo da Doutrina, Art. 14 — a fé conferida, implantada e infundida no homem; cita Ef 2:8 e Fp 2:13.
- Terceiro e Quarto Capítulo da Doutrina, Rejeição dos Erros, Erro 6 — condenação dos que negam a infusão de nova qualidade na vontade.
Texto em português consultado em Igreja Protestante Reformada (ipreformada.com/canones-dort) e Monergismo (monergismo.com/textos/credos/dort.htm).
Demais obras
- SPROUL, R. C. Chosen by God. Wheaton: Tyndale House, 1986. Ed. bras.: Eleitos de Deus.
- LOPES, Augustus Nicodemus. Os Seis Pontos do Meu Calvinismo. Blog Tempora et Mores, dez. 2013.
- CALVINO, João. Comentário à Epístola aos Efésios, sobre Ef 2:8.
- BARNES, Albert. Notes on the New Testament, sobre Ef 2:8.
- GEISLER, Norman. Eleitos, mas livres (Chosen But Free). Ed. Vida.
Estudos correlatos neste site
- Fé: o dom de Deus
- Há mérito em crer em Cristo?
- A lei da fé e a lei das obras
- A fé que uma vez nos foi dada
- Os seis pontos do Calvinismo de Augustus Nicodemus
- Judas estava predestinado a trair Jesus?
[1]SPROUL, R. C. Chosen by God. A citação circula em português a partir de GEISLER, Eleitos, mas livres, que a reproduz ao tratar de Ef 2:8.
[2]LOPES, Augustus Nicodemus. Os Seis Pontos do Meu Calvinismo, ponto 1.
[3]CALVINO, Comentário à Epístola aos Efésios, sobre Ef 2:8.
[4]BARNES, Notes on the New Testament, sobre Ef 2:8, onde arrola Calvino, Storr, Locke, Clarke, Koppe e Grócio entre os que tomam a salvação, e não a fé, como o dom.

