Santificação

Santificação: completa ou progressiva?

A pergunta “santificação: completa ou progressiva?” deve ser respondida a partir da obra de Cristo, e não da experiência variável dos cristãos. Se a resposta for buscada no comportamento humano, a santificação sempre parecerá incompleta. Sempre haverá algo a corrigir, algum conhecimento a adquirir e alguma virtude a exercitar.


Um contraponto à ideia de santificação como processo de aperfeiçoamento moral

Introdução

A pergunta “a santificação é completa ou progressiva?” deve ser respondida, antes de tudo, a partir da obra de Cristo. Quando a santificação é medida pelas oscilações da experiência humana, ela sempre parecerá incompleta: haverá conhecimento a adquirir, condutas a corrigir e virtudes a exercitar. As Escrituras, porém, distinguem a condição daquele que foi separado para Deus da conduta que convém a quem já lhe pertence. A primeira decorre da vontade de Deus, da oferta de Cristo e da regeneração; a segunda envolve crescimento, disciplina, renovação do entendimento e serviço. Este estudo sustenta que a santificação é completa quanto à nova condição do crente, enquanto seu aprendizado e sua conduta continuam sujeitos a amadurecimento e correção.

Para estabelecer o contraponto, foi escolhido o artigo “Santificação: completa ou processual?”, de Hermisten Maia Pereira da Costa, que apresenta uma compreensão amplamente difundida nos sistemas teológicos: a santificação teria início na regeneração, mas prosseguiria durante toda a vida cristã, mediante o progressivo abandono do pecado e a conformação do crente à imagem de Cristo.

Essa formulação parece equilibrada porque procura preservar duas afirmações: o cristão já foi separado por Deus, mas ainda precisa crescer em santidade. O problema não está em reconhecer que o cristão deve amadurecer, abandonar práticas inadequadas, renovar o entendimento e apresentar bom procedimento. As Escrituras realmente exortam os cristãos à obediência, à sobriedade, ao amor, à vigilância e à prática do bem.

A questão é outra: essas mudanças podem ser chamadas de santificação?

Quando crescimento espiritual, disciplina, amadurecimento, correção de conduta e transformação moral — realidades que os apóstolos relacionam à boa consciência e ao bom procedimento cristão — são reunidos sob o nome de “santificação progressiva”, aquilo que a Escritura apresenta como obra completa de Deus passa a ser tratado como um processo ainda incompleto no cristão.

É necessário, portanto, distinguir duas realidades:

  1. a condição santa que Deus concede àquele que está em Cristo;
  2. a conduta que convém a quem já foi santificado.

A primeira é obra exclusiva de Deus. A segunda é responsabilidade do cristão como servo de Deus. Confundi-las produz a ideia de que o comportamento humano completa, desenvolve ou aperfeiçoa uma condição que somente Deus pode conceder.

1. O significado fundamental da santificação

Santificar significa separar alguém ou alguma coisa para pertencimento e uso exclusivo.

Nas Escrituras, objetos, lugares, dias e pessoas podiam ser santificados. Isso não significava que adquirissem progressivamente melhores qualidades morais. Um utensílio santificado não passava por uma transformação de caráter. Ele era separado de um uso comum e destinado ao serviço exclusivo de Deus.

Esse princípio aparece na declaração de Paulo:

“Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” (1 Coríntios 6:20).

O fundamento da santificação é o pertencimento. O cristão é santo porque foi adquirido por Deus, separado da antiga condição e constituído propriedade daquele que o comprou.

Por isso, Paulo não escreveu à igreja de Corinto dizendo que seus membros precisavam tornar-se santos. Ele os identificou como pessoas já santificadas:

“À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (1 Coríntios 1:2).

Apesar dos inúmeros problemas de comportamento existentes naquela comunidade, Paulo não afirmou que os coríntios possuíam apenas uma santidade inicial, ainda insuficiente. Eles eram “santificados em Cristo Jesus”.

Isso demonstra que a santidade deles não decorria de um desempenho moral satisfatório. Decorria da relação que possuíam com Cristo.

A expressão “em Cristo” é decisiva. Cristo não é somente aquele que auxilia o cristão a tornar-se santo. Ele próprio foi constituído santificação para os que creem:

“Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1 Coríntios 1:30).

Se Cristo é a santificação do crente, não se pode afirmar que essa santificação esteja incompleta. Cristo não é progressivamente aperfeiçoado, e a condição daquele que está nele não depende de evolução moral nem de um pertencimento gradual a Deus.

2. A santificação é realizada pela oferta de Cristo

A carta aos Hebreus não apresenta a santificação como resultado de um processo contínuo de afastamento do pecado. Ela a relaciona diretamente à vontade de Deus cumprida na oferta do corpo de Cristo:

“Nessa vontade é que temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (Hebreus 10:10).

O texto estabelece três elementos fundamentais:

  • a santificação decorre da vontade de Deus;
  • ela é realizada pela oferta do corpo de Cristo;
  • essa oferta ocorreu uma única vez.

Mais adiante, o autor declara:

“Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14).

A oferta é única, o aperfeiçoamento é completo e seu efeito é permanente. O texto não diz que Cristo iniciou um aperfeiçoamento que precisa ser completado pela luta moral do cristão. Ele “aperfeiçoou para sempre”.

A expressão “os que são santificados” não deve ser isolada da afirmação principal: por uma única oferta, Cristo os “aperfeiçoou para sempre”. Ainda que a forma verbal possa descrever aqueles sobre os quais a obra santificadora de Deus atua, o ponto do autor não é uma melhora moral gradual, mas a eficácia permanente do único sacrifício. O contraste do capítulo é entre os sacrifícios repetidos, incapazes de aperfeiçoar, e a oferta única de Cristo, que produz acesso definitivo a Deus.

A ideia de santificação progressiva introduz uma tensão desnecessária nessa declaração. Se aqueles que são santificados foram aperfeiçoados para sempre pela única oferta de Cristo, em que sentido a santificação deles ainda estaria incompleta?

Pode-se afirmar que o cristão ainda precisa aprender, amadurecer e corrigir sua conduta. Não se pode, porém, transformar esse amadurecimento na continuação da oferta santificadora de Cristo.

A obra de Cristo não necessita da colaboração humana para alcançar sua eficácia plena.

3. A santificação ocorre na regeneração

A santificação está inseparavelmente ligada à regeneração e à justificação. Paulo reuniu essas realidades ao lembrar aos coríntios a mudança de condição que haviam experimentado:

“Mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6:11).

Os verbos indicam realidades já efetuadas: foram lavados, santificados e justificados.

Paulo não disse: “começastes a ser santificados”. Também não colocou a justificação no passado e a santificação como processo presente. As três expressões descrevem aspectos da mesma intervenção divina que retirou aqueles homens de sua antiga condição.

Na regeneração, o velho homem é crucificado com Cristo e uma nova criatura é levantada em novidade de vida. A nova criatura é justa porque não está sob condenação e é santa porque pertence a Deus.

“E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24).

O novo homem não é criado parcialmente santo. Ele é criado “em verdadeira justiça e santidade”. A santidade não é uma qualidade que o novo homem desenvolverá até atingir uma condição ideal; é uma característica da nova criação realizada por Deus.

Assim como alguém não nasce parcialmente filho para tornar-se progressivamente filho, aquele que nasce de Deus não começa apenas parcialmente santo. O novo nascimento estabelece uma nova filiação, uma nova condição e um novo pertencimento.

4. A Palavra santifica porque produz uma nova condição

Jesus declarou aos discípulos:

“Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (João 15:3).

Eles não estavam se tornando progressivamente limpos. Já estavam limpos pela Palavra recebida.

Na oração sacerdotal, Jesus pediu:

“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17).

Essa santificação não deve ser reduzida a um programa de aperfeiçoamento moral. A Palavra da verdade é a semente incorruptível pela qual o homem nasce de novo:

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre” (1 Pedro 1:23).

Também por isso Paulo descreveu a obra de Cristo em favor da Igreja:

“Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água pela palavra” (Efésios 5:25–26).

Cristo santifica a Igreja mediante a purificação produzida pela Palavra. Essa obra não consiste em melhorar gradualmente a natureza herdada de Adão. Consiste em gerar uma nova criatura por meio da verdade do evangelho.

A antiga criatura não é reformada. Ela morre com Cristo. A nova criatura não surge moralmente incompleta, mas é criada segundo Deus, em justiça e santidade.

5. O equívoco de transformar santificação em aperfeiçoamento moral

A definição progressiva normalmente entende a santificação como uma diminuição progressiva do pecado e um aumento correspondente da semelhança com Cristo.

Esse modo de pensar depende de uma identificação entre pecado e falhas de comportamento. Quanto menos práticas censuráveis alguém apresenta, mais santificado seria. Quanto mais virtudes demonstra, mais próximo estaria da santidade.

Entretanto, essa lógica produz dificuldades.

Há pessoas que não professam a fé cristã e, ainda assim, apresentam disciplina, generosidade, mansidão, autocontrole e respeito. Da mesma maneira, há cristãos que, embora pertencentes a Deus, ainda demonstram imaturidade, desconhecimento ou falhas de conduta.

Se santidade significasse grau de aperfeiçoamento moral, uma pessoa não regenerada, mas socialmente disciplinada, poderia parecer mais santa que um cristão imaturo.

O comportamento não estabelece a condição espiritual de alguém diante de Deus.

Os homens não são pecadores porque aprenderam comportamentos ruins. Eles praticam ações próprias da condição em que nasceram. São pecadores porque foram gerados sob o pecado e permanecem escravos dele. Paulo não atribui a entrada do pecado no mundo a um processo educacional ou cultural, mas à ofensa de um só homem:

“Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte” (Romanos 5:12).

Do mesmo modo, a libertação do pecado não acontece porque o indivíduo conseguiu substituir hábitos ruins por bons hábitos. Ela ocorre pela morte com Cristo:

“Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Romanos 6:7).

A mudança decisiva não é comportamental, mas de condição: o antigo servo do pecado morre e, pela ressurreição com Cristo, surge uma nova criatura que pertence a Deus.

6. Romanos 6 não ensina uma santificação gradual

Romanos 6 é frequentemente interpretado como uma descrição da luta progressiva do cristão contra o pecado. Entretanto, o argumento de Paulo está fundamentado na mudança de senhorio.

O apóstolo afirma que o velho homem foi crucificado, o corpo do pecado foi desfeito e aquele que morreu foi libertado do pecado:

“Sabendo isto: que o nosso velho homem foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de que não sirvamos mais ao pecado” (Romanos 6:6).

A finalidade não é fazer o pecado perder influência lentamente, mas extinguir a condição de servidão ao pecado.

Depois, Paulo declara:

“Libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Romanos 6:18).

E conclui:

“Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna” (Romanos 6:22).

O texto não descreve pessoas parcialmente libertas tentando aumentar gradualmente sua liberdade. Elas já foram libertadas do pecado e feitas servas de Deus.

Em Romanos 6, a prática da justiça não produz a transferência de senhorio nem cria a nova condição do cristão. Essa transferência já ocorreu: ele foi libertado do pecado e feito servo de Deus. O “fruto para santificação” descreve a vida consagrada que decorre desse pertencimento, e não um processo mediante o qual o homem conquista gradualmente o direito de pertencer a Deus.

O fruto não compra o servo, não efetua sua transferência de domínio e não o torna propriedade de Deus. Somente depois de libertado do antigo senhor e feito servo de Deus é que ele possui fruto para santificação.

Portanto, a santificação não é o processo pelo qual o homem deixa progressivamente de ser servo do pecado. É a condição daquele que, pela morte e ressurreição com Cristo, já foi separado para Deus.

Isso porque aquele que vive sob o domínio do pecado pertence ao diabo e, portanto, não pertence a Deus nem pode servi-lo. Jesus declarou que “todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34), e João afirmou que “quem comete o pecado é do diabo” (1 João 3:8). A questão do pecado é, antes de tudo, uma questão de senhorio, e não simplesmente de comportamento.

Os judeus que diziam crer em Cristo possuíam, em muitos aspectos, um comportamento exteriormente louvável quando comparado ao dos gentios. Ainda assim, permaneciam servos do pecado, porque não haviam sido libertados de seu domínio. Isso demonstra que disciplina moral, religiosidade e boas ações não alteram, por si mesmas, a condição espiritual do homem. O que define essa condição é a quem ele pertence e a quem serve.

7. “Sede santos” não estabelece uma santificação progressiva

Uma objeção comum afirma que, se os cristãos já são santos, não haveria razão para a ordem:

“Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16).

A dificuldade surge porque se pressupõe que a ordem significa: “tornem-se progressivamente mais santos”.

Entretanto, o imperativo bíblico pode exigir que alguém viva de maneira correspondente à condição que já recebeu.

Quando Paulo ordena aos cristãos que andem como filhos da luz, não está ensinando que eles precisam tornar-se progressivamente filhos:

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (Efésios 5:8).

Primeiro vem a condição: “sois luz no Senhor”. Depois, a exortação: “andai como filhos da luz”.

O comportamento deve corresponder à nova identidade, mas não a produz.

Da mesma forma, “sede santos” é um chamado para que aqueles que pertencem a Deus vivam de maneira compatível com esse pertencimento. Não é uma ordem para que completem, mediante esforço próprio, aquilo que se pressupõe equivocadamente que a oferta de Cristo teria deixado inacabado.

Quando Pedro declara: “Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16), aplica o mesmo princípio presente nas palavras de Jesus: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:48). Em ambos os casos, há uma retomada das Escrituras, nas quais a exigência divina está acompanhada da declaração de quem efetivamente santifica:

“Portanto, santificai-vos e sede santos, pois eu sou o Senhor, vosso Deus. E guardai os meus estatutos e cumpri-os. Eu sou o Senhor que vos santifica” (Levítico 20:7–8).

De modo semelhante, lê-se:

“Perfeito serás, como o Senhor, teu Deus” (Deuteronômio 18:13).

A ordem para que o povo seja santo ou perfeito não atribui ao homem o poder de produzir em si mesmo a santidade ou a perfeição de Deus. Ela exige uma conduta compatível com a relação estabelecida por aquele que o separou para si. O fundamento da exortação não está na capacidade humana de alcançar gradualmente a condição exigida, mas na ação do próprio Deus, que declara:

“Eu sou o Senhor que vos santifica”.

A exortação, portanto, não produz a condição; ela evidencia a ação daquele que separa os que são seus para seu uso e os chama a viver de maneira correspondente a esse pertencimento.

8. A santificação não é meta a ser alcançada

Paulo declarou que Deus escolheu os que estão em Cristo para serem santos e irrepreensíveis:

“Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele” (Efésios 1:4).

O texto não apresenta santidade e irrepreensibilidade como alvos que os cristãos atingirão mediante disciplina. Elas decorrem do propósito estabelecido “nele”, isto é, em Cristo.

Da mesma forma, Cristo entregou-se pela Igreja para apresentá-la:

“Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Efésios 5:27).

Quem realiza essa apresentação é Cristo. A Igreja é santa e irrepreensível porque foi purificada por ele, não porque cada membro conseguiu alcançar um grau suficiente de aperfeiçoamento moral.

A meta do cristão não é tornar-se aquilo que Deus já o fez em Cristo. Sua responsabilidade é permanecer na verdade recebida, conservar firme a confiança no evangelho e viver de modo digno da vocação para a qual foi chamado.

“Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” (Hebreus 3:14).

A perseverança bíblica não consiste em completar progressivamente a santificação. Consiste em permanecer firme na fé em Cristo, não se afastando da verdade do evangelho.

9. Crescimento espiritual não é santificação progressiva

Negar a santificação progressiva não significa negar o crescimento cristão.

O Novo Testamento ensina que os cristãos devem:

  • crescer no conhecimento;
  • amadurecer no entendimento;
  • abandonar práticas incompatíveis com a fé;
  • aprender a fazer o bem;
  • amar uns aos outros;
  • desenvolver domínio próprio;
  • corrigir falhas de conduta;
  • servir à justiça;
  • produzir bons frutos.

O equívoco está em chamar todas essas coisas de santificação.

Um filho pode crescer sem se tornar progressivamente mais filho. Um servo pode aprender a servir melhor sem se tornar progressivamente mais propriedade de seu senhor. Um cidadão pode amadurecer sem se tornar progressivamente mais cidadão.

Da mesma forma, o santo pode crescer, aprender e amadurecer sem se tornar progressivamente mais santo.

Pedro exortou:

“Crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18).

Ele não escreveu: “crescei em santificação”. O crescimento mencionado é na graça e no conhecimento.

Paulo falou do aperfeiçoamento dos santos para a obra do ministério:

“Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:12).

Observe-se a ordem: aqueles que serão aperfeiçoados já são chamados “santos”. O aperfeiçoamento está relacionado à capacitação, maturidade e edificação do corpo, não à aquisição gradual da condição de santidade.

Os santos precisam ser instruídos e amadurecidos, mas já são santos antes desse aperfeiçoamento.

10. Santificação e renovação do entendimento não são a mesma coisa

A doutrina da santificação progressiva geralmente reúne sob uma única expressão realidades que as Escrituras apresentam de maneira distinta. Renovação do entendimento, crescimento no conhecimento, amadurecimento, disciplina, correção de comportamento e santificação passam a ser tratados como diferentes aspectos de um mesmo processo.

Entretanto, a renovação do entendimento não produz a santidade do cristão. Ela orienta aquele que já foi santificado quanto à maneira de viver neste mundo.

Paulo escreveu:

“E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2).

O apóstolo não está explicando como seus leitores poderiam tornar-se propriedade de Deus. Ele se dirige a pessoas que já haviam sido justificadas pela fé, libertadas do pecado, feitas servas da justiça e apresentadas como vivas dentre os mortos.

A renovação do entendimento possui uma finalidade prática: permitir que o cristão reconheça e experimente a vontade de Deus. Ela corrige concepções, orienta escolhas e produz discernimento, mas não completa a obra pela qual Deus santificou o crente.

Essa distinção também aparece em Efésios:

“E vos renoveis no espírito do vosso sentido; e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:23–24).

O novo homem não é criado para alcançar futuramente a justiça e a santidade. Ele é criado em verdadeira justiça e santidade. A renovação do entendimento é necessária porque aquele que foi criado de novo precisa abandonar os padrões de pensamento próprios de sua antiga existência.

Portanto, há uma diferença entre:

  • ser criado em justiça e santidade;
  • aprender a pensar e viver de acordo com essa nova condição.

O primeiro ato pertence exclusivamente a Deus. O segundo diz respeito à instrução e ao amadurecimento do cristão.

Transformar a renovação do entendimento em santificação progressiva é inverter a ordem apresentada por Paulo. O cristão não renova o entendimento para tornar-se santo; renova o entendimento porque, criado de novo em Cristo, já pertence a Deus.

11. Apresentar os membros à justiça não produz uma nova natureza

Romanos 6:19 é frequentemente usado para defender uma participação ativa do cristão em um processo de santificação:

“Assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação” (Romanos 6:19).

A leitura progressiva conclui que o cristão se torna progressivamente santo à medida que apresenta seus membros à justiça. Entretanto, o contexto estabelece outra ordem.

Antes dessa exortação, Paulo já havia declarado:

“Libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Romanos 6:18).

A apresentação dos membros não produz a libertação do pecado nem transforma o indivíduo em servo da justiça. Isso já havia acontecido.

Primeiro, o homem é libertado do pecado.

Depois, é feito servo da justiça.

Somente então é exortado a apresentar seus membros ao serviço de seu novo senhor.

A exortação diz respeito ao exercício da servidão, e não à aquisição gradual de uma nova condição.

Um servo não se torna progressivamente propriedade de seu senhor porque executa suas tarefas. Ele executa as tarefas porque já pertence ao senhor. Da mesma maneira, o cristão não se torna gradualmente santo porque serve à justiça. Ele serve à justiça porque foi santificado, adquirido por Deus e separado para seu uso.

Quando Paulo fala em “servir à justiça para santificação”, não está ensinando que boas obras acrescentam graus de santidade à natureza do cristão. Ele descreve a finalidade correspondente ao novo senhorio: os membros que antes estavam a serviço da impureza agora devem ser colocados a serviço da justiça, porque o homem passou a pertencer a Deus.

A santificação diz respeito ao pertencimento; a apresentação dos membros diz respeito ao serviço.

12. O ensino da graça não é um método para conquistar santidade

Paulo escreveu:

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, justa e piamente” (Tito 2:11–12).

Esse texto demonstra que a graça ensina o cristão a viver. Entretanto, não afirma que essa aprendizagem produz ou completa a santificação.

A graça primeiro se manifesta trazendo salvação. Depois, instrui aqueles que foram alcançados por ela.

A ordem é importante. A pessoa não renuncia à impiedade para conquistar a graça nem para se tornar progressivamente propriedade de Deus. É a graça salvadora que a instrui a viver de maneira coerente com a nova condição recebida em Cristo.

A leitura de Tito 2:11–12 fica desfocada quando “impiedade” e “concupiscências mundanas” são compreendidas apenas em sentido moralizante. Quando Paulo afirma que “a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens”, ele também contrasta a universalidade do evangelho com as restrições impostas pela lei e pelos mandamentos humanos. A graça alcança tanto judeus quanto gentios, sem estabelecer a antiga distinção que separava os povos.

Nesse contexto, os publicanos e os gentios, reconhecidos publicamente como pecadores, muitas vezes recebiam Cristo com maior prontidão, pois não possuíam uma justiça religiosa a preservar. Já os judaizantes procuravam submeter os cristãos a preceitos, genealogias, disputas e ordenanças próprias do judaísmo, desviando-os da simplicidade do evangelho. Por isso, Paulo adverte Tito acerca daqueles que ensinavam “o que não convém, por torpe ganância” e transtornavam casas inteiras (Tito 1:10–14).

As “concupiscências mundanas”, portanto, não devem ser limitadas aos vícios individuais geralmente associados à imoralidade. Elas também abrangem as ambições terrenas, religiosas e políticas daqueles que desejavam libertar-se do domínio romano, restaurar um reino nacional e transformar a esperança messiânica em instrumento de poder. Em lugar da herança celestial oferecida em Cristo, alimentavam expectativas terrenas; em vez de promoverem a paz, arregimentavam os incautos para contendas, facções e disputas.

Eram homens obstinados, arrogantes e atrevidos, que falavam mal das dignidades e se ocupavam de questões capazes de fomentar instabilidade e divisão. Embora aparentassem zelo religioso, não compreendiam verdadeiramente aquilo que afirmavam, nem as consequências de seus ensinos. Paulo descreve comportamento semelhante ao advertir contra “questões loucas, genealogias, contendas e debates acerca da lei”, porque são inúteis e vãos (Tito 3:9).

É nesse cenário que a exortação ganha força:

“Vivamos neste presente século sóbria, justa e piamente” (Tito 2:12).

Viver sobriamente é o oposto de se embriagar com o vinho da contenda, da ambição e da rebelião. A Escritura emprega a figura do vinho para descrever uma influência que entorpece o entendimento e conduz à perversidade: “o seu vinho é ardente veneno de dragões” (Deuteronômio 32:33). Isaías também chama os líderes de Jerusalém de “príncipes de Sodoma” e seu povo de “povo de Gomorra” (Isaías 1:10), denunciando uma religiosidade exterior que encobria injustiça e corrupção.

Por isso, a ordem “não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” (Efésios 5:18) pode ser compreendida para além da embriaguez literal: trata-se também de não se deixar dominar pelo espírito de facção, disputa e ambição que caracterizava aqueles mestres. A graça ensina o cristão a rejeitar essa forma de impiedade e a viver com sobriedade, justiça e piedade, não como meio de adquirir a salvação, mas como fruto da nova condição recebida em Cristo.

Poucos versículos depois, Paulo apresenta o fundamento dessa nova vida:

“O qual se deu a si mesmo por nós, para nos remir de toda a iniquidade e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” (Tito 2:14).

Cristo não entregou a si mesmo apenas para possibilitar que o homem iniciasse uma caminhada rumo à santidade. Ele se entregou para:

  • remir;
  • purificar;
  • constituir para si um povo particular.

As boas obras aparecem depois dessa purificação. O povo é purificado por Cristo e, por isso, torna-se zeloso de boas obras. As obras não efetuam a purificação nem transformam gradualmente o povo em propriedade de Cristo.

A sequência bíblica é:

  1. Cristo entrega a si mesmo;
  2. Cristo redime;
  3. Cristo purifica;
  4. Cristo constitui para si um povo;
  5. esse povo é instruído a viver e torna-se zeloso de boas obras.

Algumas formulações da santificação progressiva tendem a reunir sob o mesmo termo a condição concedida em Cristo e o desenvolvimento prático do cristão. O problema analisado neste artigo não é o reconhecimento do crescimento, mas a utilização da palavra “santificação” para designar simultaneamente a obra completa de Deus e o amadurecimento ainda incompleto do crente.

Esse posicionamento tende a deslocar o quinto elemento da sequência bíblica para dentro dos três primeiros, como se o zelo e a disciplina dos cristãos participassem da obra de remissão e purificação.

A graça, porém, não ensina o homem a completar a obra de Cristo. Ela ensina os que foram purificados por Cristo a viver de acordo com a salvação recebida.

13. A vontade de Deus é a causa da santificação

A santificação não começa na vontade humana de dedicar-se mais intensamente a Deus. Sua origem é a vontade do próprio Deus.

O autor de Hebreus declara:

“Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Nessa vontade é que temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (Hebreus 10:9–10).

O texto não diz que somos santificados por realizar progressivamente a vontade de Deus. Afirma que somos santificados na vontade de Deus, cumprida pela oferta do corpo de Cristo.

Cristo veio realizar aquilo que nenhum descendente de Adão poderia executar. Sua obediência não apenas oferece um exemplo moral a ser imitado; ela cumpre o propósito divino pelo qual um novo povo é separado para Deus.

A causa da santificação é a vontade de Deus.

O meio é a oferta do corpo de Cristo.

A extensão da oferta é única: “feita uma vez”.

O resultado é expresso como realidade consumada: “temos sido santificados”.

Essa construção exclui a ideia de uma santificação dividida entre a obra de Cristo e o desempenho posterior do cristão. Não há uma parte realizada pela oferta e outra realizada pelo esforço moral.

A vontade que santifica não é a vontade do homem de mudar seus hábitos, mas a vontade de Deus realizada pela obediência de Cristo.

Quando Deus ordena que seu povo seja santo, não estabelece uma meta impossível para que os homens tentem alcançá-la por esforço. Ele próprio providencia aquilo que sua vontade exige.

Deus disse: “Sede santos”, e realizou essa vontade por meio daquele que veio fazer perfeitamente tudo o que lhe foi determinado.

14. A Palavra que santifica

Na oração sacerdotal, Jesus pediu ao Pai:

“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17).

A verdade não é apenas um conjunto de orientações morais destinadas a melhorar gradualmente o comportamento dos discípulos. A Palavra de Deus é a semente incorruptível que produz o novo nascimento.

Pedro relaciona a purificação à obediência à verdade:

“Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre” (1 Pedro 1:22–23).

A sequência apresentada por Pedro é esclarecedora.

A purificação ocorre pela obediência à verdade. Essa verdade é a Palavra incorruptível pela qual os cristãos foram gerados de novo. O amor fraternal aparece como consequência e finalidade prática dessa purificação.

Não é o exercício crescente do amor que produz o novo nascimento. É porque foram purificados e gerados pela Palavra que os cristãos devem amar uns aos outros com coração puro.

O mesmo princípio aparece nas palavras de Jesus:

“Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (João 15:3).

Os discípulos não estavam gradualmente ficando limpos. Jesus declarou que já estavam limpos pela Palavra recebida.

Paulo também relaciona a santificação da Igreja à Palavra:

“Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água pela palavra” (Efésios 5:25–26).

O agente é Cristo.

O objeto é a Igreja.

O meio purificador é a Palavra.

O resultado é uma Igreja santa e irrepreensível, pois ela é o corpo de Cristo.

A Igreja não se purifica a si mesma mediante sucessivas reformas morais. Cristo a purifica pela lavagem da Palavra.

O evangelho não apenas fornece informações pelas quais alguém começa a melhorar seu caráter. Ele é o poder de Deus que produz uma nova criação. Quem recebe a Palavra da verdade nasce de novo, passa a pertencer a Deus e, por isso, é santo.

15. O cristão pode santificar a si mesmo?

Algumas passagens empregam linguagem que, isoladamente, pode sugerir que o homem produz sua própria santificação.

Paulo escreveu:

“Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição” (1 Tessalonicenses 4:3).

Essa passagem precisa ser interpretada à luz da distinção entre a condição concedida por Deus e a conduta prática daquele que já lhe pertence.

Em 1 Tessalonicenses, Paulo dá continuidade às instruções acerca do relacionamento entre os cristãos. O parâmetro estabelecido era o amor de uns para com os outros: “E o Senhor vos aumente e faça abundar em amor uns para com os outros e para com todos, como também nós para convosco” (1 Tessalonicenses 3:12). Assim como o apóstolo os havia acolhido e servido, eles também deveriam agir uns para com os outros. Desse modo, seus corações seriam confirmados — expressão relacionada à boa consciência — e eles seriam apresentados “irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai” (1 Tessalonicenses 3:13).

A razão da exortação aparece na sequência: os tessalonicenses já sabiam quais mandamentos lhes haviam sido dados pelo Senhor Jesus. O principal deles era que amassem uns aos outros. Essa era a vontade de Deus para aqueles que haviam sido separados para ele: “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4:3; João 13:35; 1 João 3:23).

A santificação mencionada no texto não é uma transformação gradual pela qual o pecador se torna progressivamente propriedade divina. É a condição daqueles que, pertencendo a Cristo, devem rejeitar os pressupostos da lei como parâmetro da relação entre os irmãos aceita por Deus. Essa distinção era necessária porque o apelo dos judaizantes consistia justamente em introduzir a lei como regra das relações humanas entre os cristãos.

Caso lhes dessem ouvidos, os cristãos substituiriam o mandamento de Cristo — amar uns aos outros — e acabariam envolvidos em disputas acerca da lei. Contudo, a finalidade do mandamento já havia sido alcançada por eles em Cristo (Romanos 10:4). Restava-lhes viver segundo “o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida” (1 Timóteo 1:5).

Se a regra das relações entre os cristãos fosse a lei, e não o evangelho — a lei da liberdade —, eles correriam o risco de serem conduzidos por discursos vãos, proferidos por homens que desejavam ser mestres da lei, sem compreender o que diziam nem aquilo que afirmavam com tanta segurança (Tiago 1:25; 2:9–12; 1 Timóteo 1:6–7).

O problema era que os judaizantes não faziam uso legítimo da lei. Além de procurarem estabelecer a própria justiça por meio dela, desejavam impô-la aos cristãos. Se, porém, a utilizassem legitimamente, compreenderiam que ela não foi dada como instrumento pelo qual alguém conquistaria uma posição diante de Deus, mas em razão de serem transgressores, desobedientes, profanos, homicidas, adúlteros e de todos os que se opõem à sã doutrina (Gálatas 3:19; 1 Timóteo 1:8–11).

Nesse contexto, a expressão “abster-se da prostituição” adquire especial significado, porque a prostituição, como figura profética, possui antecedentes nas Escrituras. Israel, ao abandonar o Senhor e seguir outros deuses, foi repetidamente apresentado como uma mulher infiel. Moisés anunciou que o povo se levantaria e se prostituiria após deuses estranhos (Deuteronômio 31:16). Isaías, por sua vez, dirigiu-se aos rebeldes como “filhos da agoureira, descendência do adúltero e da prostituta” (Isaías 57:3).

Na carta aos Tessalonicenses, essa temática é apresentada justamente no contexto da exortação ao amor entre os cristãos, que é a marca do verdadeiro discípulo. Toda doutrina que substitui o mandamento de Cristo por outro fundamento de relacionamento contraria a vontade de Deus e, sob a linguagem profética, pode ser compreendida como infidelidade ou prostituição espiritual.

É significativo que, depois de afirmar que os cristãos não foram chamados para a imundícia, mas para a santificação, Paulo volte imediatamente ao mandamento do amor:

“Quanto, porém, ao amor fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros” (1 Tessalonicenses 4:9).

A referência à imundícia também não precisa ser limitada à imoralidade sexual. Paulo escreve:

“Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si” (Romanos 1:24).

Essa linguagem remete ao que já havia sido anunciado nos Salmos:

“Mas o meu povo não quis ouvir a minha voz, e Israel não me quis. Portanto, eu os entreguei aos desejos dos seus corações, e andaram nos seus próprios conselhos. Oh! Se o meu povo me tivesse ouvido! Se Israel andasse nos meus caminhos!” (Salmo 81:11–13).

Ora, aqueles que foram entregues aos desejos de seus próprios corações — condição descrita como imundícia — e passaram a andar segundo os seus próprios conselhos foram os filhos de Israel, e não os gentios. O Salmo declara expressamente:

“Mas o meu povo não quis ouvir a minha voz, e Israel não me quis. Portanto, eu os entreguei aos desejos dos seus corações, e andaram nos seus próprios conselhos” (Salmo 81:11–12).

A imundícia, portanto, não deve ser entendida apenas como desordem sexual. Ela também descreve a condição de um povo que rejeitou a voz de Deus e passou a seguir os próprios desejos, juízos e projetos. A avareza, nesse sentido, não se limita ao apego ao dinheiro, mas inclui a disposição de buscar para si aquilo que Deus não concedeu, estabelecendo a própria vontade em oposição à vontade divina (Ezequiel 33:31).

É nesse quadro que a sequência de 1 Tessalonicenses deve ser lida. Paulo não precisava ensinar aos cristãos um mandamento novo acerca do amor fraternal, pois eles já haviam sido instruídos por Deus a amar uns aos outros:

“Quanto, porém, ao amor fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros” (1 Tessalonicenses 4:9).

Antes disso, o apóstolo já havia manifestado o seu desejo de que o Senhor os fizesse crescer nesse mesmo amor:

“E o Senhor vos aumente e faça abundar em amor uns para com os outros e para com todos, como também nós para convosco” (1 Tessalonicenses 3:12).

A ligação entre essas passagens é direta. O amor não era apenas uma virtude entre outras, mas o parâmetro das relações entre aqueles que pertenciam a Cristo. Por isso, Paulo lembra que eles já sabiam quais mandamentos haviam recebido do Senhor Jesus:

“Porque vós bem sabeis que mandamentos vos temos dado pelo Senhor Jesus” (1 Tessalonicenses 4:2).

Esses mandamentos não apontavam de volta para as disputas da lei, para os conselhos humanos ou para os interesses dos judaizantes. Conduziam ao amor fraternal expresso em 1 Tessalonicenses 4:9. Os cristãos, portanto, não podiam seguir outro caminho (Mateus 5:43). Tendo sido instruídos por Deus a amar, deveriam permanecer nessa instrução, crescer nela e rejeitar qualquer doutrina que substituísse o mandamento de Cristo por ordenanças capazes de produzir contenda, separação e domínio entre os irmãos.

Assim, a santificação mencionada no contexto não é produzida por uma disciplina exterior. Ela é a condição dos que foram separados para Deus e, por isso, devem viver segundo o mandamento que receberam. O contraste é entre ouvir a voz de Deus e andar nos próprios conselhos; entre o amor ensinado por Cristo e os desejos daqueles que procuravam impor outro fundamento às relações cristãs.

Embora os religiosos de Israel apresentassem um comportamento exteriormente distinto — como o fariseu que foi ao templo e declarou não ser ladrão, injusto nem adúltero —, as Escrituras demonstram que haviam sido entregues aos desejos de seus próprios corações. Portanto, andavam em imundícia. Essa descrição não aponta necessariamente, em todos os casos, para a imoralidade sexual, mas para a rejeição do mandamento de Deus e para a sujeição aos próprios conselhos e desejos (Romanos 6:19).

Isso não elimina o sentido moral subjacente da exortação. Em outro contexto, Paulo condena expressamente a imoralidade sexual e ordena aos cristãos que fujam da prostituição (1 Coríntios 6:18). Também recomenda o casamento como resposta legítima diante desse risco (1 Coríntios 7:2). Entretanto, em 1 Tessalonicenses, a linguagem apostólica não deve ser reduzida a um programa ascético por meio do qual o homem se tornaria progressivamente santo.

A abstinência, a disciplina ou qualquer outra prática exterior não transforma o homem em propriedade divina. Essas práticas são recomendadas porque o cristão já pertence a Deus. Seu corpo não é apresentado como algo que poderá vir a pertencer ao Senhor depois de suficiente aperfeiçoamento moral, mas como aquilo que já é do Senhor:

“O corpo não é para a prostituição, senão para o Senhor, e o Senhor para o corpo” (1 Coríntios 6:13).

Paulo, portanto, não ensina que a conduta produz a santificação. Ele ensina que a santificação concedida em Cristo exige uma conduta correspondente. O cristão deve amar, conservar boa consciência, fugir da prostituição, rejeitar as dissensões e tratar o irmão com honra, não para se tornar propriedade de Deus, mas para evidenciar que já foi separado para ele.

O apóstolo não afirma que os tessalonicenses seriam santificados caso se abstivessem da prostituição. Ao contrário, por já terem sido chamados à santificação, deveriam saber “possuir o seu vaso em santificação e honra” (1 Tessalonicenses 4:4). A exortação não cria a condição; orienta o uso prático daquele que já pertence ao Senhor.

16. Possível motivo pelo qual Paulo fala veladamente aos cristãos de Tessalônica

O sentido imediato de “prostituição” em 1 Tessalonicenses 4:3 corresponde à leitura natural de porneia: imoralidade sexual. Por essa razão, a passagem se aplica diretamente à pureza da conduta. Entretanto, considerando que Paulo afirmava não ensinar coisa alguma além do que os profetas e Moisés haviam anunciado, cabe perguntar, adicionalmente, se a linguagem por ele empregada também poderia alcançar formas de infidelidade religiosa já denunciadas pelos profetas (Atos 26:22).

Por que Paulo teria empregado uma linguagem mais velada, recorrendo ao termo “prostituição”, para também confrontar uma possível influência judaizante entre os tessalonicenses? Uma explicação possível encontra-se no caráter inicial de sua relação com aquela igreja e no contexto histórico da carta. Primeira Tessalonicenses é geralmente situada entre os anos 49 e 52 d.C., durante a segunda viagem missionária, e costuma ser considerada uma das primeiras — possivelmente a mais antiga — entre as cartas paulinas preservadas.

Nesse estágio inicial, Paulo poderia ter evitado uma confrontação direta que agravasse as tensões entre judeus e gentios ou expusesse ainda mais os cristãos à oposição daqueles que já haviam promovido perseguição contra a comunidade. Assim, sem abandonar o sentido moral imediato da exortação, a linguagem de “prostituição” também poderia evocar a tradição profética, na qual a infidelidade a Deus era frequentemente representada por essa figura (cf. Tiago 4:4).

Tratava-se, portanto, de uma comunidade recém-formada, composta por cristãos provenientes tanto do judaísmo quanto do mundo gentílico. Uma acusação direta e generalizada contra os judeus poderia produzir animosidade entre os irmãos, enfraquecer a unidade da igreja e fornecer aos adversários elementos para afirmar que Paulo pregava contra o povo judeu, e não apenas contra o uso ilegítimo da lei e a rejeição do evangelho.

Esse cuidado também pode ser compreendido à luz da perseguição sofrida em Tessalônica. Segundo o relato de Atos, alguns judeus que rejeitaram a pregação mobilizaram pessoas da cidade, provocaram tumulto e acusaram os cristãos de agir contra os decretos de César (Atos 17:5–9). Nesse ambiente, uma carta que pudesse ser apresentada como ataque político ou étnico contra a nação judaica agravaria a oposição e colocaria os cristãos em situação ainda mais delicada.

Paulo, então, combate o mesmo problema mediante a linguagem das Escrituras. Em vez de nomear continuamente os judaizantes, retoma as imagens proféticas da prostituição, da imundícia, da avareza, da rejeição à voz de Deus e do andar segundo os próprios conselhos. Seus leitores familiarizados com as Escrituras poderiam reconhecer que essa linguagem fora originalmente aplicada ao próprio Israel quando se afastava de Deus.

Desse modo, a exortação alcançava o erro sem transformar a carta em um ataque étnico. O alvo não era o judeu por sua origem, mas qualquer doutrina que afastasse os cristãos do mandamento recebido do Senhor Jesus. A oposição fundamental era entre ouvir a voz de Deus e seguir os próprios conselhos; entre permanecer no evangelho e retornar aos pressupostos da lei como meio de justiça e regra de separação entre os irmãos.

Na carta aos Gálatas, o tom é consideravelmente mais direto. Ali, os judaizantes já haviam perturbado as igrejas, pervertido o evangelho e persuadido alguns cristãos a buscar na circuncisão e na observância da lei aquilo que somente Cristo podia conceder. Por isso, Paulo denuncia abertamente os que “vos inquietam” e desejam “transtornar o evangelho de Cristo” (Gálatas 1:7; 5:10–12).

A data de Gálatas é discutida entre os estudiosos, de modo que não é seguro precisar a sua provável datação e nem vinculá-la categoricamente à terceira viagem missionária. O que o próprio conteúdo da carta permite afirmar é que a controvérsia já havia alcançado um estágio mais grave: outro evangelho estava sendo anunciado, a suficiência de Cristo estava sendo comprometida e os cristãos corriam o risco de se submeter novamente à escravidão.

Assim, a diferença de linguagem não implica diferença de doutrina. Em Tessalonicenses, Paulo adverte de maneira pastoral e alusiva, procurando preservar uma igreja recém-estabelecida, fortalecer o amor fraternal e não oferecer aos perseguidores uma acusação adicional. Em Gálatas, diante do avanço manifesto do erro, combate-o abertamente e identifica sem rodeios seus agentes e suas consequências.

Em ambas as cartas, porém, o objetivo é o mesmo: impedir que os cristãos abandonem o mandamento de Cristo, substituam o evangelho pela lei e retornem a uma forma de servidão incompatível com a condição daqueles que foram chamados à santificação.

17. É Deus quem purifica

A leitura de 1 Tessalonicenses 4:3 deve considerar os mesmos pressupostos presentes na advertência de Paulo a Timóteo:

“Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda boa obra” (2 Timóteo 2:20–21).

Uma leitura superficial pode transmitir a ideia de que Deus exige do homem algo que este não pode realizar por si mesmo: purificar a própria natureza ou produzir a santidade necessária para pertencer ao Senhor. Seria semelhante a ordenar que o homem circuncidasse espiritualmente o próprio coração:

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” (Deuteronômio 10:16).

Entretanto, a própria Escritura esclarece que é Deus quem realiza essa circuncisão:

“E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Deuteronômio 30:6).

A ordem para circuncidar o coração não atribui ao homem o poder de transformar a própria natureza. Ela o chama a abandonar a resistência e a submeter-se à ação de Deus. A transformação efetiva, porém, é realizada pelo Senhor.

O mesmo princípio aparece quando João escreve:

“E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (1 João 3:3).

Essa declaração não significa que o homem possua, independentemente de Deus, o poder de purificar a própria natureza. Quem deposita a esperança em Cristo purifica-se no sentido de voltar-se para aquele que é puro e de rejeitar tudo aquilo que contradiz essa esperança. A purificação procede de Deus e é recebida em Cristo.

Não se trata, portanto, de acrescentar à esperança uma obra autônoma de purificação, como se o homem completasse aquilo que Deus iniciou. Quem verdadeiramente espera em Cristo afasta-se dos enganos, porque reconhece que somente ele pode purificá-lo.

Essa verdade já havia sido anunciada por Ezequiel:

“Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ezequiel 36:25).

O sujeito da ação é Deus: “eu vos purificarei”. O homem não remove a própria imundícia, não produz um novo coração e não cria em si mesmo um novo espírito. É o Senhor quem purifica, transforma e concede vida.

Para compreender a figura dos vasos em 2 Timóteo 2, é necessário observar primeiro a instrução dada ao próprio Timóteo:

“Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 2:1).

Timóteo deveria fortalecer-se na graça que há em Cristo, e não na confiança em sua própria disciplina. Essa exortação está em harmonia com o mandamento de crescer “na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” e de encher-se do Espírito, isto é, permitir que a palavra de Cristo habite abundantemente em sua vida e serviço (2 Pedro 3:18; Efésios 5:18; Colossenses 3:16).

Como obreiro, Timóteo deveria trazer certas coisas à memória dos seus ouvintes e adverti-los para que não se envolvessem em contendas de palavras. Essas disputas não produziam edificação, mas conduziam à ruína dos ouvintes. Paulo compara o avanço desses discursos à gangrena, porque corroem, contaminam e conduzem à morte espiritual.

É nesse contexto que surge a declaração:

“Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19).

O fundamento permanece firme porque a segurança não está na capacidade do homem de constituir-se como povo de Deus, mas no conhecimento e na fidelidade do próprio Senhor: “O Senhor conhece os que são seus”. A segunda parte do selo apresenta a consequência prática dessa condição: quem professa o nome de Cristo deve apartar-se da iniquidade.

À primeira leitura, a expressão “apartar-se da iniquidade” costuma ser entendida em sentido estritamente moral, como afastamento da imoralidade de caráter, de conduta ou de atos. Entretanto, o contexto permite perceber também um contraponto com Israel, cujos líderes eram descritos como obreiros da iniquidade, homens que devoravam o povo como se comessem pão (Salmo 53:4).

Nesse sentido, a advertência de Paulo alcança mais do que a simples rejeição de comportamentos imorais. Todo aquele que professa o nome de Cristo deve afastar-se da iniquidade, isto é, romper com o erro, com a injustiça e com o vínculo religioso que se opõe ao evangelho. Isso incluía abandonar os pressupostos da religiosidade nacional que procurava submeter os cristãos à lei e afastá-los da suficiência de Cristo.

Afastar-se da iniquidade, tomada apenas como erro moral, não faz alguém pertencer a Cristo. O fundamento permanece este: “O Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2:19). A separação prática não produz o pertencimento; ela decorre dele.

Do mesmo modo, quem confessa Cristo não pode permanecer em comunhão com um sistema doutrinário contrário ao evangelho. Não há concordância entre Cristo e os ídolos, nem comunhão entre a luz e as trevas (2 Coríntios 6:14–16). Portanto, apartar-se da iniquidade também significa rejeitar toda estrutura religiosa que concorra com Cristo, substitua o evangelho pela lei ou procure estabelecer outro fundamento para a justiça e para a comunhão entre os irmãos.

Paulo, então, apresenta a figura de uma grande casa. Ele não diz simplesmente “a Igreja, que é o corpo de Cristo”, mas fala de uma casa ampla, na qual existem vasos de diferentes materiais e destinados a usos distintos. Há vasos de ouro e prata, mas também de madeira e barro; alguns são usados para honra, outros para desonra.

O vaso não cria a si mesmo. Também não escolhe originalmente sua matéria, sua forma ou o lugar que ocupa na casa. A figura trata de utilidade, separação, honra e preparo para o serviço. Quando Paulo afirma que alguém deve purificar-se “destas coisas”, o contexto aponta para o afastamento dos discursos profanos, das contendas, dos erros doutrinários e dos homens que se desviaram da verdade.

Purificar-se dessas coisas significa romper com os enganos, as associações e as práticas que tornam o servo impróprio para um serviço honroso. Não significa criar uma nova natureza, produzir a própria regeneração ou adquirir por mérito a condição de propriedade divina.

O cristão pode afastar-se de doutrinas enganosas, abandonar práticas desonrosas, guardar-se de associações prejudiciais e preparar-se para boas obras. Pode também vigiar sua conduta, rejeitar contendas e conservar-se fiel à verdade que recebeu.

O que ele não pode fazer é gerar-se novamente, purificar a própria natureza, libertar-se por si mesmo do domínio do pecado ou adquirir a santidade que procede de Deus.

A criatura não produz a natureza divina da qual participa. O vaso não cria a si mesmo. O servo não compra a si próprio. O homem não circuncida espiritualmente o próprio coração nem remove a sua imundícia por força moral.

Somente Deus gera o novo homem. Somente Cristo adquire para si um povo. Somente a Palavra incorruptível produz o novo nascimento. Por isso, a purificação prática do cristão não é a causa de seu pertencimento a Deus, mas a consequência de já ter sido purificado, santificado e separado para o uso do Senhor.

18. “Sede santos”: a ordem fundamentada na ação de Deus

A ordem:

“Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16)

é frequentemente interpretada como uma meta de aperfeiçoamento moral. Contudo, essa leitura desconsidera que a Palavra de Deus não apenas exige; ela também realiza aquilo que Deus estabeleceu em seu propósito.

O imperativo não é uma promessa em sua forma gramatical. Entretanto, ele deve ser compreendido à luz da declaração que o acompanha: “Eu sou o Senhor que vos santifica”. A ordem exige conduta correspondente, enquanto a condição de pertencimento é produzida por Deus.

Quando Deus disse: “Haja luz”, sua Palavra produziu aquilo que ordenou. Do mesmo modo, a vontade de constituir um povo santo não ficou dependente da capacidade humana de alcançar um padrão divino.

A ordem encontra seu cumprimento na obra de Cristo.

O homem natural não pode tornar-se participante da natureza divina pela imitação de comportamentos. Nenhum grau de disciplina transforma um descendente de Adão em filho de Deus.

A santidade não decorre de copiar exteriormente atributos morais atribuídos a Deus. Ela decorre do novo nascimento, pelo qual o homem passa a participar da natureza divina:

“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4).

A participação na natureza divina não é resultado de etapas de aproximações sucessivas. O homem não participa dez por cento da natureza divina no início da fé e aumenta essa participação à medida que melhora seu comportamento.

Ou ele permanece na antiga geração de Adão, ou nasce de Deus.

Ou é servo do pecado, ou é servo da justiça.

Ou pertence ao mundo, ou pertence a Cristo.

Ou é filho da ira, ou é filho de Deus.

Ou é planta que o Pai não plantou, ou é plantação do Senhor.

A nova filiação não admite graus. Consequentemente, a santidade que decorre dessa filiação também não pode ser parcelada.

“Sede santos” não significa “produzam em si mesmos, progressivamente, a natureza de Deus”. Significa que a vontade divina de possuir um povo santo deve ser compreendida à luz da obra pela qual Deus efetivamente o cria, purifica e separa para si.

19. Santidade não é imitação moral de Deus

Outro problema da visão progressiva é definir santidade como semelhança moral crescente com Deus.

É correto afirmar que os filhos devem imitar o Pai em suas ações. Paulo escreveu:

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor” (Efésios 5:1–2).

Contudo, imitar uma conduta não produz filiação nem comunica natureza.

Uma pessoa pode imitar determinados hábitos de outra sem compartilhar sua origem, sua família ou sua condição. Da mesma maneira, atos de generosidade, paciência ou disciplina não transformam o homem natural em participante da natureza divina.

Paulo não disse: “Imitai a Deus para vos tornardes filhos”. Ele disse: “como filhos amados”.

A filiação antecede a imitação.

O andar em amor é consequência da condição de filho, não o meio pelo qual essa condição é conquistada.

A santidade do cristão não é uma cópia moral exterior da santidade divina. Ela procede do fato de que o novo homem é gerado segundo Deus:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tiago 1:18).

Deus não declara santa uma natureza que permanece essencialmente ligada a Adão. Ele faz morrer o velho homem e gera, pela Palavra da verdade, uma nova criatura.

Essa criatura é santa porque procede de Deus e pertence a Deus.

20. “Segui a santificação” significa seguir a Cristo

Hebreus 12:14 é um dos textos mais usados para apresentar a santificação como uma meta progressiva:

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.”

Frequentemente, interpreta-se o versículo da seguinte maneira: o cristão deve aumentar gradualmente sua santidade pessoal, pois, se não alcançar determinado nível, não verá o Senhor.

Essa interpretação transforma a obra completa de Cristo em uma condição incompleta e incerta, subordinando a visão do Senhor ao desenvolvimento moral do indivíduo.

O contexto de Hebreus, porém, aponta para outra direção.

A carta conclama seus leitores a permanecerem firmes em Cristo, a não retrocederem, a não rejeitarem aquele que fala e a não abandonarem a comunhão dos santos. O perigo enfrentado não era simplesmente a ausência de refinamento moral, mas o afastamento da graça e da verdade do evangelho, afastamento que também se manifestaria em amargura, profanação e condutas incompatíveis com a vocação recebida.

“Seguir a santificação” não significa fabricar santidade por esforço. Significa perseguir e permanecer na realidade santificadora que se encontra em Cristo, juntamente com todos os que o invocam.

Cristo é a santificação dos que creem:

“O qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1 Coríntios 1:30).

Seguir a santificação é, portanto, seguir a Cristo. Ele é a nossa paz e também a nossa santificação; assim, sem Cristo, ninguém verá o Senhor (Efésios 2:14; 1 Coríntios 1:30; Hebreus 12:14).

O mesmo padrão aparece quando Paulo escreveu a Timóteo:

“Foge também dos desejos da mocidade; e segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” (2 Timóteo 2:22).

A caminhada cristã não é isolada. A paz e a santificação são seguidas “com todos”, isto é, na comunhão dos que permanecem em Cristo.

Sem Cristo, ninguém verá o Senhor. Sem a santificação que ele próprio se tornou para os que creem, ninguém será admitido à presença de Deus.

Hebreus 12:14 não ensina que o homem deva completar, por esforço próprio, uma santificação deixada incompleta por Cristo. A exortação chama os cristãos a permanecerem na paz e na realidade santificadora recebida nele, vivendo em comunhão e de modo correspondente a essa condição.

21. A santificação não é atribuída a uma natureza que continua impura

Uma compreensão meramente posicional da santidade também pode ser insuficiente. Não basta dizer que Deus considera santo alguém que, em sua natureza, continua sendo o mesmo velho homem sujeito ao pecado.

A santificação não é uma ficção jurídica nem uma atribuição externa desconectada da regeneração.

O novo homem é efetivamente criado em justiça e santidade:

“Que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24).

A expressão “verdadeira justiça e santidade” impede que a nova condição seja reduzida a uma aparência ou a uma declaração sem correspondência real.

Deus não chama santo o velho homem em Adão. O velho homem precisa morrer com Cristo, para que aquele que ressurge com ele seja declarado justo e santo. O homem gerado de Adão, à parte de Cristo, jamais será declarado justo e santo, porque permanece sob a antiga condição.

A santidade não é atribuída à natureza adâmica aperfeiçoada, disciplinada ou reformada. Ela pertence ao novo homem, criado segundo Deus, que surge da união com Cristo em sua morte e ressurreição. Por isso, a solução divina não consiste em melhorar o velho homem, mas em levá-lo à morte com Cristo:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado” (Romanos 6:6).

O que ressuscita com Cristo já não pertence à antiga condição em Adão. Trata-se de uma nova criação, constituída em justiça e santidade:

“E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24).

Portanto, Deus não santifica o velho homem para conservá-lo vivo. Ele o julga na morte de Cristo. Aquele que crê é feito participante dessa morte e, ressuscitando com Cristo, recebe uma nova condição. É esse novo homem — e não o descendente de Adão considerado em si mesmo — que é declarado justo, santo e pertencente a Deus.

Seria um contrassenso imaginar que o velho homem pudesse ser aperfeiçoado gradualmente até se tornar aceitável diante de Deus. A natureza adâmica não é reformada para, ao final de um processo, receber os títulos de justa e santa. Ela é julgada e levada à morte com Cristo.

As Escrituras descrevem o homem em Adão como alguém que se desvia desde o nascimento e profere mentiras (Salmo 58:3). Essa sujeição ao pecado caracteriza sua condição de impiedade. Deus, porém, é o autor da lei e o justo Juiz; por isso, não perverte o juízo, não condena o justo nem declara justo o ímpio enquanto este permanece em sua condição de culpado. Quando a lei determina: “não justificarei o ímpio” (Êxodo 23:7), a ordem é dirigida aos juízes de Israel, mas está fundamentada no próprio caráter justo de Deus. Eles não deveriam fraudar o julgamento porque Deus não transtorna a justiça.

“Não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” (Êxodo 23:7).

Por essa razão, a justificação do ímpio anunciada no evangelho não pode significar que Deus simplesmente ignora sua culpa ou chama justa a sua antiga condição. Deus justifica aquele que crê porque o velho homem é julgado na morte de Cristo, e o crente é unido a ele em sua morte e ressurreição. Assim, Deus não condena o justo nem absolve arbitrariamente o culpado; ele permanece “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:26).

Por isso, a solução divina não é o aperfeiçoamento progressivo do velho homem, mas sua crucificação:

“O nosso homem velho foi com ele crucificado” (Romanos 6:6).

Aquilo que pertence à primeira criação é condenado na morte de Cristo, e uma nova criatura é levantada com ele. É somente nessa nova condição que o ímpio pode ser justificado (Romanos 4:5). Deus não declara justa a velha natureza; ele justifica aquele que, pela fé, é unido a Cristo em sua morte e ressurreição.

Assim se compreende como Deus pode ser, ao mesmo tempo, “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:26). Ele não ignora o pecado nem chama santo aquilo que permanece em Adão. O velho homem é julgado, e o crente é feito participante de uma nova criação em Cristo.

Portanto, a justificação do ímpio não é a aprovação gradual de sua antiga condição. É a declaração de justiça daquele que morreu com Cristo e ressurgiu com ele. A primeira criação não é aperfeiçoada até tornar-se aceitável; ela é levada à cruz, e o novo homem é criado em justiça e santidade.

A santificação decorre dessa nova criação.

Por isso, ela não é simplesmente imputada a alguém que permanece essencialmente pecador. Ela pertence verdadeiramente à nova criatura, que procede da semente incorruptível e participa da natureza divina.

A justificação e a santificação não são duas ficções complementares. A nova criatura é justa porque está livre da condenação ligada à antiga condição e é santa porque foi gerada por Deus e pertence exclusivamente a ele.

22. O aperfeiçoamento dos santos pressupõe que eles já são santos

Paulo ensinou que Cristo concedeu dons à Igreja:

“Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:12).

Esse texto oferece uma distinção terminológica decisiva.

Os que precisam de aperfeiçoamento já são chamados santos.

Se o aperfeiçoamento fosse a própria santificação, Paulo teria descrito pessoas ainda não santas sendo progressivamente transformadas em santos. Entretanto, ele fala do aperfeiçoamento dos santos.

A santidade é a condição daqueles que pertencem a Cristo.

O aperfeiçoamento diz respeito a:

  • capacitação para o ministério;
  • edificação do corpo;
  • unidade da fé;
  • conhecimento do Filho de Deus;
  • maturidade;
  • estabilidade doutrinária;
  • crescimento em amor.

Nada disso precisa ser negado. Pelo contrário, são elementos indispensáveis da vida cristã.

O que deve ser rejeitado é a tentativa de usar essas realidades para redefinir a santificação como um processo.

O santo pode ser aperfeiçoado sem se tornar progressivamente mais santo, assim como o filho pode ser educado sem se tornar progressivamente mais filho.

23. O problema pastoral da santificação progressiva

Além das dificuldades exegéticas, a ideia de santificação progressiva produz consequências pastorais importantes.

Quando a santidade é pastoralmente medida pelo desempenho moral, podem surgir orgulho ou desespero, pois o cristão começa a avaliar sua relação com Deus a partir de oscilações de comportamento, emoções e desempenho.

Nos dias em que demonstra maior disciplina, sente-se mais santo.

Nos dias em que tropeça, sente-se menos santificado.

Sua confiança deixa de repousar integralmente na obra de Cristo e passa a depender da avaliação de seu próprio progresso.

Isso pode produzir dois resultados opostos.

O primeiro é o orgulho espiritual. Quem apresenta comportamento exteriormente mais disciplinado passa a considerar-se mais santificado do que outros cristãos.

O segundo é o desespero. Quem reconhece suas fraquezas conclui que talvez não esteja avançando suficientemente no processo e teme não atingir a santidade necessária para ver o Senhor.

Nos dois casos, o olhar é desviado de Cristo.

A doutrina bíblica não elimina a necessidade de correção, disciplina e amadurecimento. Ela apenas coloca essas coisas no lugar correto.

O cristão deve examinar sua conduta para corrigir tropeços, não para calcular o grau de sua aceitação diante de Deus.

Deve crescer no conhecimento, não para completar a oferta de Cristo, mas para servir com entendimento.

Deve praticar boas obras, não para conquistar a condição de santo, mas porque foi criado em Cristo para realizá-las.

A segurança do crente está na suficiência daquele que, por uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que são santificados.

24. Síntese do contraponto

A formulação de santificação progressiva examinada neste artigo reúne sob um mesmo termo categorias que deveriam ser distinguidas: a condição completa concedida em Cristo e o desenvolvimento prático do cristão.

A distinção bíblica pode ser apresentada desta maneira:

Santificação

  • é obra de Deus;
  • decorre de sua vontade;
  • é realizada pela oferta de Cristo;
  • ocorre mediante a Palavra da verdade;
  • está vinculada à regeneração;
  • torna o homem propriedade de Deus;
  • produz uma nova criatura santa;
  • é completa e definitiva.

Crescimento cristão

  • ocorre ao longo da vida;
  • envolve renovação do entendimento;
  • exige aprendizagem;
  • inclui disciplina e correção;
  • produz maturidade;
  • prepara para o serviço;
  • desenvolve conhecimento;
  • orienta a boa conduta.

Confundir essas duas realidades faz do crescimento humano uma continuação da obra redentora. Distingui-las preserva tanto a suficiência de Cristo quanto a responsabilidade dos cristãos.

O crente não cresce para ser santificado. Cresce porque foi santificado.

Não renova o entendimento para adquirir uma nova natureza. Renova o entendimento porque já foi criado de novo.

Não apresenta os membros à justiça para deixar progressivamente de pertencer ao pecado. Apresenta-os à justiça porque já foi libertado do pecado e feito servo de Deus.

Não pratica boas obras para tornar-se povo particular de Cristo. Pratica-as porque Cristo o remiu e purificou para si.

Não segue uma santidade produzida por esforço próprio. Segue a Cristo, que lhe foi feito santificação.

25. Conclusão ampliada

A santificação não pode ser definida a partir das mudanças graduais observadas na experiência dos cristãos. A experiência é variável; a obra de Cristo é perfeita.

Os cristãos podem crescer em conhecimento, amadurecer, corrigir comportamentos, desenvolver habilidades para o serviço e aprender a amar de maneira mais consciente. Tudo isso é verdadeiro e necessário.

Nenhuma dessas coisas, porém, completa a santificação.

A vontade de Deus foi realizada pela oferta do corpo de Cristo.

A Igreja foi purificada pela lavagem da Palavra.

Os que creem foram lavados, santificados e justificados.

O novo homem foi criado em verdadeira justiça e santidade.

Cristo aperfeiçoou para sempre os que são santificados.

A oposição à santificação progressiva não é uma oposição ao crescimento cristão. É uma defesa da linguagem bíblica e da suficiência da obra de Deus.

O crescimento pertence à experiência do santo.

A renovação do entendimento pertence à aprendizagem do santo.

A disciplina pertence à correção do santo.

As boas obras pertencem ao serviço do santo.

A santificação, porém, pertence à obra de Deus em Cristo.

Ela não é uma meta distante, mas a condição presente daquele que nasceu de Deus. Não é uma conquista moral, mas o resultado da nova criação. Não é uma cooperação entre a graça e o esforço humano, mas a execução da vontade divina pela oferta única do Salvador.

O cristão não é um pecador que, mediante sucessivas melhorias, se aproxima da condição de santo. É uma nova criatura que, por ter sido santificada, deve aprender a andar de maneira digna daquele a quem pertence.

Portanto, quando se pergunta se a santificação é completa ou progressiva, a resposta bíblica deve preservar a distinção:

A santificação é completa; o crescimento é progressivo.

A nova criação é instantânea; a renovação do entendimento é contínua.

O pertencimento é definitivo; o serviço é aprendido.

A obra de Cristo é perfeita; a conduta do cristão ainda pode ser corrigida.

Essa distinção não diminui a responsabilidade humana. Ao contrário, fornece seu verdadeiro fundamento:

“Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” (1 Coríntios 6:20).

O cristão glorifica a Deus não para ser comprado, mas porque foi comprado.

Serve à justiça não para tornar-se santo, mas porque pertence ao Santo.

Produz fruto não para completar sua regeneração, mas porque recebeu uma nova vida.

E permanece em Cristo não para aperfeiçoar a obra do Salvador, mas porque Cristo é, do princípio ao fim, sua justiça, sua santificação e sua redenção.

26. A transformação de 2 Coríntios 3:18

Outro texto usado para sustentar a santificação progressiva é:

“Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem” (2 Coríntios 3:18).

Entretanto, o contexto não trata de uma escala de aperfeiçoamento moral individual. Paulo contrasta o ministério da antiga aliança, gravado em pedras, com o ministério do espírito, próprio da nova aliança.

O véu permanecia na leitura do Antigo Testamento, ou seja, a falta de pleno entendimento, mas era retirado em Cristo. A transformação decorre da passagem da antiga realidade encoberta para a revelação da glória de Deus na face de Cristo.

“De glória em glória” não significa necessariamente que o cristão acumula graus de santidade à medida que melhora seu comportamento. A expressão aparece no contraste entre a glória transitória do ministério da condenação e a glória superior e permanente do ministério do Espírito, isto é, do evangelho. Trata-se da passagem de uma ordem marcada por glória provisória para outra, cuja glória é definitiva e excedente.

No contexto imediato, “de glória em glória” deve ser compreendido à luz do contraste entre a glória transitória da antiga aliança e a glória permanente do ministério do Espírito. A transformação não é descrita como reforma progressiva do velho homem, mas como efeito da contemplação da glória do Senhor na realidade da nova aliança. Sua consumação ocorrerá quando os que pertencem a Cristo também trouxerem plenamente a imagem do celestial. Quando o cristão alcançar plenamente a imagem de Cristo, será semelhante a ele e refletirá a sua glória, pois o verá como ele é (Romanos 8:29; 1 João 3:1–2).

Nesse contexto, a conformidade à imagem de Cristo não se limita a uma semelhança moral progressiva. Refere-se, sobretudo, à participação na condição gloriosa do Cristo ressuscitado. A promessa é que aquele que hoje pertence a Cristo será finalmente conformado à sua imagem, não apenas em conduta, mas também em corpo e condição.

Essa conformidade decorre da nova criação. Os que estavam ligados ao primeiro Adão passam, em Cristo, à condição dos que pertencem ao último Adão. O contraste não é entre um velho homem cada vez mais aperfeiçoado e um estado moral superior, mas entre duas humanidades: a do primeiro homem, terreno, e a do segundo homem, celestial.

Por isso, Paulo escreve:

“Qual o terreno, tais são também os terrenos; e qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Coríntios 15:48–49).

A imagem do celestial não é produzida pelo aperfeiçoamento gradual da natureza adâmica. Ela será plenamente manifestada na ressurreição, quando o corpo corruptível se revestir da incorruptibilidade, e o mortal, da imortalidade. Assim, “de glória em glória” aponta para a superioridade da nova aliança e para o destino final daqueles que, em Cristo, serão conformados à sua imagem gloriosa.

A obra é de Deus, não o resultado de um projeto autônomo de aperfeiçoamento da natureza adâmica.

27. A responsabilidade moral do cristão permanece

A distinção entre santificação e comportamento não elimina a responsabilidade cristã. O Novo Testamento trata essa responsabilidade por meio de expressões como boa consciência, honestidade, fidelidade, tropeço e conduta digna do evangelho (Atos 23:1; Hebreus 13:18; 1 Pedro 3:21; Tiago 3:2).

À primeira vista, passagens que ordenam glorificar a Deus no corpo, apresentar os membros ao serviço da justiça ou anunciar as virtudes daquele que chamou das trevas para a sua maravilhosa luz parecem referir-se exclusivamente a exigências morais e comportamentais. Entretanto, em muitos desses textos, o contraste principal é doutrinário e diz respeito à condição em que o homem se encontra diante de Deus.

As oposições apresentadas pelos apóstolos são estruturais:

  • carne e espírito;
  • lei e graça;
  • escrava e livre;
  • primeiro Adão e último Adão;
  • velho homem e novo homem;
  • trevas e luz;
  • condenação e justificação;
  • morte e vida.

Leituras mais recentes, porém, frequentemente deixam de interpretar as Escrituras à luz dessas oposições e atribuem aos textos uma conotação quase exclusivamente moral. Isso ocorre, em parte, porque muitos teólogos aceitam determinada interpretação lexicográfica do adjetivo grego ἅγιος (hagios) e fazem do elemento moral o seu sentido fundamental.

No uso grego secular, o termo podia designar aquilo que era separado, consagrado, venerável ou relacionado ao âmbito sagrado. Contudo, ao encontrá-lo nas Escrituras, alguns intérpretes acrescentaram ao próprio vocábulo uma ideia moral que não decorre necessariamente de seu significado básico.

Bancroft descreve esse entendimento nos seguintes termos:

“A raiz da qual se originam esta e outras palavras correlatas é o vocábulo grego ‘hagios’. O pensamento mais próximo da santidade de que era capaz o grego secular era ‘o sublime, o consagrado, o venerável’. O elemento moral está totalmente ausente. Ao ser adotada esta palavra nas Escrituras, entretanto, foi necessário proporcionar-lhe novo sentido. Empregando a palavra ‘santo’ em seu sentido mais elevado, quando aplicada a Deus, os melhores lexicógrafos definem-na como ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’” (BANCROFT, Emery H. Teologia Elementar. 3. ed. EBR, 2001, p. 261, grifo nosso).

Entretanto, os apóstolos, ao empregarem o termo ἅγιος nas Escrituras, não apresentaram qualquer explicação indicando que estavam abandonando seu sentido fundamental para lhe conferir um significado inteiramente novo. Não afirmaram que o vocábulo passaria a significar, por si mesmo, perfeição moral adquirida ou aquilo que “merece e exige reverência moral e religiosa”.

O contexto pode, evidentemente, associar a santidade a uma conduta compatível com Deus. Isso, porém, é diferente de afirmar que o elemento moral pertence necessariamente ao significado intrínseco de ἅγιος. A palavra continua indicando, antes de tudo, aquilo que foi separado, consagrado ou pertencente a Deus. A responsabilidade moral decorre dessa condição, mas não constitui a condição nem é produzida pelo vocábulo.

Assim, concluir que ἅγιος carrega necessariamente em si a ideia de mérito moral ou de aperfeiçoamento progressivo é impor ao termo uma noção que precisa ser demonstrada pelo contexto, e não simplesmente presumida pela definição teológica. O santo não é aquele que se tornou gradualmente digno de Deus por sua conduta, mas aquele que foi separado para Deus e, por isso, é chamado a viver de maneira correspondente à condição que recebeu.

Mesmo diante dos inúmeros tropeços de conduta existentes na comunidade cristã de Corinto, Paulo a denomina “igreja de Deus”, expressão que indica pertencimento. Em seguida, ele afirma que aqueles cristãos haviam sido “santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (1 Coríntios 1:2). A santidade, portanto, não é apresentada como resultado de um processo de aperfeiçoamento moral, mas como condição decorrente do chamado e da união com Cristo.

Esse chamado produz uma nova relação de pertencimento. Por isso, Paulo afirma que os cristãos são “lavoura de Deus” e “edifício de Deus” (1 Coríntios 3:9). A linguagem não descreve homens tentando tornar-se propriedade divina; descreve aqueles que já pertencem a Deus e, por essa razão, devem viver de modo coerente com essa condição.

A mesma ideia aparece quando o apóstolo pergunta:

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (1 Coríntios 3:16–17).

O templo não se torna santo em razão da qualidade de seus materiais ou de sua construção; ele é santo porque pertence a Deus e porque o Espírito de Deus habita nele. A condição de santidade decorre do pertencimento, não do mérito moral. A exortação prática vem depois: justamente porque são templo de Deus, os cristãos não podem agir de modo destrutivo contra a comunidade.

O mesmo princípio aparece no capítulo 5. Ao tratar do homem imoral que permanecia entre os coríntios, Paulo o compara ao “fermento velho” que deveria ser lançado fora. Contudo, ao dirigir-se à comunidade, afirma:

“Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento” (1 Coríntios 5:7).

A formulação é decisiva. Paulo ordena que removam o fermento velho, mas, ao mesmo tempo, declara que eles já eram “sem fermento”. A exortação não cria a condição; exige que a conduta corresponda à condição já concedida.

Assim, o homem reprovável é apresentado como fermento velho, enquanto a comunidade é chamada de massa sem fermento. Isso não significa que os coríntios não tivessem falhas. A própria carta demonstra o contrário. Significa que, em Cristo, haviam recebido uma nova condição e, por isso, não deveriam tolerar entre eles aquilo que contradizia essa realidade.

O apóstolo não diz: “Purificai-vos para que venhais a ser santos”. Em essência, sua exortação é outra: “Porque sois santos, removei aquilo que não corresponde à vossa condição”. A santidade precede a exortação; o pertencimento precede a responsabilidade. A nova massa já existe, e o fermento velho é que deve ser lançado fora.

O apóstolo Pedro oferece um exemplo dessa verdade. Embora já fosse santo e salvo em Cristo, ainda conservava a concepção de que não deveria entrar na casa de gentios. Quando foi repreendido pelo Senhor, abandonou esse entendimento e reconheceu que não deveria considerar comum ou imundo aquele a quem Deus havia purificado (Atos 10:15, 28). Tratava-se de um costume de origem nacional e religiosa que já não correspondia à nova realidade inaugurada em Cristo e que, nesse sentido, funcionava como um fermento velho a ser removido.

28. Rivalidade desmedida

Antes de abordarmos o indivíduo imoral que se encontrava entre os cristãos de Corinto, é necessário observar como Paulo tratou as dissensões e divisões surgidas no interior daquela comunidade.

Paulo esclarece que aplicou a si e a Apolo, de modo didático, princípios que alcançavam a situação mais ampla da comunidade. Isso não exige concluir que todas as referências anteriores fossem nomes fictícios, mas demonstra que seu objetivo não era alimentar rivalidades pessoais: ele empregou a si mesmo e a Apolo como exemplos para corrigir a exaltação de homens e o orgulho das facções.

Para não expor diretamente os envolvidos, o apóstolo tomou a si mesmo e a Apolo como figuras representativas da controvérsia. A dissensão era real, assim como eram reais as pessoas que a promoviam; contudo, Paulo e Apolo foram empregados como exemplos didáticos, e não necessariamente como os verdadeiros polos da disputa.

O próprio Paulo esclarece esse procedimento:

“E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro” (1 Coríntios 4:6).

A expressão “apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo” demonstra que Paulo transferiu figuradamente para si e para Apolo uma situação que envolvia outros membros ou líderes da comunidade. Dessa maneira, corrigia o erro sem transformar a carta numa exposição nominal dos responsáveis.

Quando afirma anteriormente: “Eu sou de Paulo”, “eu, de Apolo”, “eu, de Cefas” e “eu, de Cristo” (1 Coríntios 1:12), o apóstolo apresenta os partidos por meio de nomes representativos. O problema central não era uma rivalidade pessoal entre Paulo e Apolo, pois ambos eram cooperadores de Deus. A verdadeira questão era a exaltação de homens, a formação de partidos e a pretensão de alguns de exercer domínio sobre os demais.

Paulo e Apolo aparecem, portanto, como figurantes de uma disputa real. O recurso permitiu que os coríntios reconhecessem o erro sem que o apóstolo precisasse identificar imediatamente cada um dos que fomentavam as divisões. Seu propósito era levá-los a compreender que nenhum obreiro deveria ser elevado acima daquilo que estava escrito e que ninguém deveria ensoberbecer-se “a favor de um contra outro”.

Essa observação é importante para a compreensão dos capítulos seguintes. A carta não apresenta simplesmente uma sequência desconectada de falhas morais individuais. Paulo trata de um problema mais amplo: a presença de líderes, discursos e associações que introduziam orgulho, competição, julgamento e divisão na comunidade.

Assim, antes de mencionar o homem envolvido em conduta reprovável, Paulo já havia demonstrado que a comunidade estava contaminada pela jactância. A tolerância daquele indivíduo não era um fato isolado. Ela estava relacionada à disposição dos coríntios de se exaltarem, se compararem entre si, formarem partidos e acolherem influências contrárias ao fundamento estabelecido por Cristo.

A passagem de 1 Coríntios 4:6 funciona, portanto, como chave interpretativa. Paulo emprega a si mesmo e a Apolo como personagens representativos para corrigir, de maneira prudente, pessoas reais que estavam produzindo dissensões entre os irmãos. Somente depois de expor esse ambiente de orgulho e divisão é que ele passa a tratar do indivíduo cuja permanência entre eles evidenciava a mesma jactância e falta de discernimento.

A origem das dissensões e dos partidarismos em Corinto estava ligada à atuação de alguns que se consideravam sábios segundo os critérios deste mundo. Em vez de se gloriarem em Cristo ressuscitado, gloriavam-se em homens, em posições de prestígio e em discursos que produziam facções dentro da comunidade (1 Coríntios 3:18–21).

Paulo, por isso, adverte:

“Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio” (1 Coríntios 3:18).

É significativo que, logo depois de repreender aqueles que pretendiam ser sábios segundo este mundo, o apóstolo cite duas passagens do Antigo Testamento:

“Ele apanha os sábios na sua própria astúcia” (1 Coríntios 3:19).

“O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são vãos” (1 Coríntios 3:20).

Essas citações não aparecem por acaso. Elas retomam a linguagem de repreensão dirigida aos homens que confiavam na própria sabedoria e procuravam estabelecer-se como guias do povo. Isso aproxima o problema de Corinto da arrogância religiosa denunciada em Romanos 2, quando Paulo se dirige àquele que se chama judeu, repousa na lei, gloria-se em Deus e presume ser guia dos cegos e instrutor dos ignorantes, embora não pratique aquilo que ensina (Romanos 2:17–21).

A mesma espécie de sabedoria é contrastada por Tiago com a sabedoria que vem do alto. Quando há inveja, sentimento faccioso e disputa por proeminência, não se trata de sabedoria celestial, mas de uma sabedoria terrena, humana e demoníaca, cuja consequência é a perturbação e toda obra perversa (Tiago 3:13–16).

Desse modo, a sabedoria censurada em 1 Coríntios 3 não deve ser entendida apenas como vaidade intelectual genérica. Ela possuía uma dimensão religiosa e doutrinária. Alguns se apresentavam como mestres, gloriavam-se na tradição, reivindicavam autoridade e atraíam pessoas para si, reproduzindo entre os cristãos os mesmos mecanismos de prestígio e domínio presentes na religiosidade judaizante.

Por isso, Paulo conclui:

“Portanto, ninguém se glorie nos homens” (1 Coríntios 3:21).

O problema dos partidos não consistia apenas em preferências pessoais por determinados pregadores. Era a substituição do fundamento que é Cristo pela exaltação de homens que se consideravam sábios e aptos a dirigir os demais. Assim, a censura aos “sábios deste mundo”, as citações veterotestamentárias e o paralelo com Romanos 2 e Tiago 3 permitem considerar que influências religiosas de matriz judaica poderiam integrar o contexto mais amplo das dissensões em Corinto.

Ao perceber essa influência e por atuar como defensor do evangelho, Paulo não se limita a enviar Timóteo. Ele anuncia que irá pessoalmente a Corinto para verificar não as palavras, mas o poder daqueles que estavam ensoberbecidos:

“Mas em breve irei ter convosco, se o Senhor quiser, e então conhecerei, não as palavras dos que andam ensoberbecidos, mas o poder” (1 Coríntios 4:19).

A advertência é significativa. Os que promoviam dissensões possuíam discurso, pretensão de sabedoria e capacidade de atrair seguidores, mas Paulo queria verificar se havia neles o poder correspondente ao evangelho. Não bastava falar com autoridade, apresentar argumentos ou reivindicar conhecimento da lei; era necessário demonstrar a realidade do reino de Deus.

Por isso, acrescenta:

“Porque o reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” (1 Coríntios 4:20).

O contraste reforça a crítica aos que estavam “inchados”. Sua autoridade parecia repousar na eloquência, na sabedoria humana e na exaltação pessoal. Paulo, porém, submete tudo ao critério do evangelho. A questão não era quem falava melhor, quem possuía maior prestígio ou quem conseguia reunir mais partidários, mas quem permanecia no fundamento de Cristo.

O envio de Timóteo e a intenção de visitar pessoalmente a comunidade mostram a gravidade do problema. Paulo desejava recordar aos coríntios seus caminhos em Cristo e confrontar aqueles que, mediante discursos e pretensões religiosas, introduziam divisões e afastavam os irmãos da simplicidade do evangelho.

Assim, 1 Coríntios 4:19 não é apenas uma ameaça disciplinar. É também um desafio aos falsos sábios e aos líderes facciosos: Paulo iria examinar se, por trás de suas palavras, havia realmente o poder de Deus ou apenas vaidade, presunção e influência humana.

29. Imoralidade que nem entre os gentios se nomeia

A exposição que culmina em 1 Coríntios 6:20 — “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” —, frequentemente utilizada em defesa da santificação progressiva, começa no capítulo 5, quando Paulo destaca o comportamento reprovável de um membro daquela comunidade.

O apóstolo já havia repreendido alguns coríntios por estarem inchados, pois se apoiavam na sabedoria deste mundo e se gloriavam em homens (1 Coríntios 3:18; 4:6). Depois de mencionar a conduta reprovável daquele indivíduo, Paulo volta a censurar a jactância da comunidade, que tolerava a presença de um fermento capaz de levedar toda a massa.

A referência ao fermento não é meramente moral. Ela evoca também o elemento doutrinário do judaísmo e reforça a advertência contra associações religiosas incompatíveis com o evangelho. Jesus já havia utilizado a figura do fermento para se referir à doutrina dos fariseus e dos saduceus (Mateus 16:12). Paulo, por sua vez, contrasta a sabedoria deste mundo com a sabedoria de Deus e adverte os coríntios a celebrarem a festa “não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1 Coríntios 1:19; 5:8).

Os cristãos de Corinto estavam se aproximando de pessoas que, embora se apresentassem como irmãos, permaneciam vinculadas a práticas e doutrinas contrárias à verdade. Por isso, Paulo esclarece que, ao mencionar os devassos, avarentos, idólatras e demais transgressores, não estava ordenando o afastamento absoluto dos incrédulos deste mundo, pois, nesse caso, seria necessário que os cristãos saíssem do mundo.

Sua proibição dizia respeito à associação com aqueles que, embora se chamassem irmãos, fossem devassos, avarentos, idólatras, maldizentes, beberrões ou roubadores. Com esses, os cristãos não deveriam sequer comer (1 Coríntios 5:9–11).

A distinção é decisiva. Paulo não estava instituindo uma separação social entre a comunidade cristã e todos os gentios incrédulos. O alvo da advertência eram aqueles que reivindicavam o nome de irmão, mas permaneciam em uma condição doutrinária e prática incompatível com o evangelho. O problema não era apenas a existência de falhas morais, mas a aceitação, dentro da comunhão, de pessoas e influências que contradiziam o fundamento de Cristo.

Assim, a ordem para glorificar a Deus no corpo não surge isoladamente como exigência ascética destinada a tornar o cristão progressivamente santo. Ela aparece no desenvolvimento de uma advertência sobre pertencimento, comunhão e senhorio. O corpo pertence a Deus porque foi comprado por preço; por isso, não deve ser associado àquilo que representa fermento velho, idolatria, prostituição ou oposição ao evangelho.

A exortação, portanto, não cria a condição de santidade. Ela parte da condição já recebida. Os coríntios deveriam glorificar a Deus no corpo porque o corpo já pertencia ao Senhor, assim como deveriam lançar fora o fermento velho porque, em Cristo, já eram considerados uma massa sem fermento.

29.1 O indivíduo imoral como ponto de partida para uma exposição doutrinária

Antes que alguém alegasse que os coríntios não estavam ensoberbecidos, Paulo apresenta um fato concreto que depunha contra a comunidade: um comportamento tão reprovável que, segundo o apóstolo, nem sequer entre os gentios era comum encontrar algo semelhante. Apesar disso, eles não estavam entristecidos, mas permaneciam inchados (1 Coríntios 5:1–2).

Surge, então, uma questão importante: por que aquele indivíduo, apesar de sua conduta abjeta, continuava sendo preservado no meio da comunidade?

O texto não informa expressamente a origem étnica ou religiosa dessa pessoa. As citações veterotestamentárias, a linguagem da Páscoa e a figura do fermento permitem reconhecer um pano de fundo judaico no modo como Paulo constrói sua argumentação. Isso, porém, não permite afirmar que o indivíduo mencionado em 1 Coríntios 5 era judeu, judaizante ou protegido por um grupo da circuncisão. O dado explícito é que a comunidade tolerava uma conduta incompatível com o evangelho e permanecia ensoberbecida diante dela.

Passando para o campo da inferência, o modo como Paulo formula a acusação — “nem ainda entre os gentios” — permite considerar a possibilidade de que se tratasse de alguém ligado à circuncisão ou, ao menos, protegido por aqueles que se julgavam sábios e reivindicavam prestígio religioso. Nesse caso, sua permanência entre os cristãos poderia estar relacionada à influência dos que utilizavam a liberdade que havia em Cristo como ocasião para introduzir doutrinas humanas, identificadas por Paulo com a carne, a malícia e o fermento velho.

Essa hipótese deve ser apresentada como inferência, não como afirmação explícita do texto. O ponto seguro é que a comunidade estava tolerando uma situação que contradizia sua própria condição em Cristo, e essa tolerância estava ligada à jactância já denunciada nos capítulos anteriores.

É significativo que a lista de comportamentos reprováveis apresentada em 1 Coríntios 5 se aproxime daquela utilizada por Paulo ao escrever a Timóteo. O apóstolo afirma que a lei não foi estabelecida para o justo, mas para os transgressores, desobedientes, ímpios, profanos, homicidas, devassos e para todos os que se opõem à sã doutrina (1 Timóteo 1:9–10).

Aqueles que se julgavam justos e dignos da lei não percebiam que ela havia sido dada justamente porque eram transgressores. Sua função não era conferir-lhes superioridade, mas evidenciar sua condição reprovável. A lei expunha o pecado, demonstrava a necessidade de salvação e deveria conduzi-los a Cristo.

Essa lista não significa que todos os judaizantes praticassem literalmente cada um desses atos. Ela revela, antes, a condição de servidão em que se encontravam. A lei constitui uma unidade, de modo que aquele que tropeça em um só ponto torna-se culpado de todos. Assim, o homem que reivindicava justiça por meio da lei era condenado pela própria lei que pretendia usar como fundamento de superioridade.

Além disso, ao rejeitarem o uso legítimo da lei — que deveria conscientizá-los de sua condição pecaminosa e conduzi-los a Cristo —, deixavam de reconhecer a própria necessidade do Salvador. Moisés já havia declarado acerca de Israel:

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e torcida é” (Deuteronômio 32:5).

A lei, portanto, não demonstrava que eram filhos de Deus por descendência natural. Ao contrário, evidenciava sua corrupção e sua necessidade de uma nova condição concedida por Deus.

Mais grave ainda, ao tentarem impor aos cristãos um sistema contrário ao evangelho, os judaizantes assumiam a posição representada pelo filho da escrava, que perseguia o filho da livre. Embora alegassem zelo pela lei, utilizavam-na contra sua finalidade e combatiam aqueles que haviam sido feitos filhos da promessa pela fé em Cristo.

As mesmas categorias de conduta aparecem nos Salmos 78 e 106, nos quais Israel é apresentado como um povo que se misturou com as nações, aprendeu suas obras, serviu aos seus ídolos e trocou a glória de Deus pela figura de um animal que come erva. Paulo retoma essa imagem em Romanos 1:23, ao afirmar que eles:

“Mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.”

Essa correspondência demonstra que o pano de fundo da argumentação paulina não é simplesmente a idolatria dos gentios. A própria história de Israel evidenciava que aqueles que possuíam a lei e afirmavam conhecer a Deus haviam incorrido nas mesmas práticas que condenavam nas nações.

Desse modo, Paulo elimina qualquer fundamento para que os judaizantes se considerassem superiores aos gentios. Eles também estavam debaixo do pecado e necessitavam igualmente da salvação em Cristo.

Essa aproximação é importante porque demonstra que as acusações de idolatria, prostituição e imundícia não se dirigem simplesmente ao mundo gentílico, identificado por Paulo como “os de fora”. As próprias Escrituras já haviam aplicado essas categorias a Israel, quando o povo rejeitou a voz de Deus, seguiu os próprios conselhos e abandonou o fundamento estabelecido pelo Senhor.

Assim, ao advertir os coríntios contra aqueles que, dizendo-se irmãos, eram devassos, avarentos e idólatras, Paulo não estava apenas enumerando vícios morais isolados. Ele também recorria à linguagem profética para descrever pessoas que reivindicavam vínculo com o povo de Deus, mas permaneciam associadas a uma ordem religiosa contrária ao evangelho.

A expressão “chamando-se irmão” ganha, por isso, especial relevância. Tratava-se de pessoas que reivindicavam pertencimento à comunidade da fé, mas cuja doutrina e conduta reproduziam a infidelidade de Israel denunciada pelos profetas. A orientação para que os cristãos não se associassem a elas não decorria de desprezo pelos gentios, mas da necessidade de preservar a comunidade da influência daqueles que, sob aparência religiosa, procuravam reconduzi-la à ordem da qual Cristo a havia libertado.

Quando Paulo determina que “com o tal nem ainda comais”, reforça a dimensão da comunhão. A questão não era proibir todo contato social com os incrédulos, mas impedir que a igreja reconhecesse como irmão e recebesse à sua mesa aquele que, por sua doutrina e conduta, negava o fundamento de Cristo. A mesa não era uma simples ocasião de alimentação; representava participação, concordância e comunhão.

A lista de 1 Coríntios 5, portanto, não deve ser interpretada isoladamente. Ela se relaciona com 1 Timóteo 1, com os Salmos 78 e 106, com Romanos 1 e com a explicação de Paulo de que os acontecimentos de Israel foram registrados como exemplos para os cristãos (1 Coríntios 10:1–6).

Em todos esses textos, transgressão moral, idolatria e infidelidade doutrinária aparecem ligadas. O problema não era apenas o comportamento exterior, mas a rejeição da verdade de Deus e a substituição de sua glória por outro fundamento.

Por isso, a linguagem da prostituição não precisa ser entendida exclusivamente como referência à imoralidade sexual. No vocabulário profético, ela também descreve a infidelidade religiosa e a transgressão da aliança. Isso não significa que todos os judaizantes praticassem promiscuidade sexual, mas que, ao rejeitarem a verdade do evangelho e procurarem impor outro fundamento, eram descritos por meio das figuras tradicionalmente aplicadas aos transgressores da lei.

29.2 Lançar fora o fermento velho

Ao afirmar que “um pouco de fermento leveda toda a massa” (1 Coríntios 5:6), Paulo demonstra que a permanência daquele homem entre os irmãos não constituía um problema meramente individual. Sua presença expunha negativamente a comunidade e evidenciava que a instrução anterior — não acolher como irmão aquele que permanecesse em práticas reprováveis — não estava sendo observada (1 Coríntios 5:9–12).

É significativo que, ao tratar do fornicário, Paulo intercale a figura do fermento e somente depois retome a determinação de excluir aquela pessoa (1 Coríntios 5:1–5, 13). Essa ordem sugere que o apóstolo não estava preocupado apenas com a conduta individual do transgressor, mas principalmente com a passividade dos cristãos diante dela.

A tolerância da comunidade revelava algo mais profundo. O conhecimento de que alguns se orgulhavam não os havia conduzido ao discernimento, mas apenas à jactância. Estavam inchados, embora não percebessem que aquela conduta comprometia toda a comunidade. Por isso, Paulo declara:

“Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa?” (1 Coríntios 5:6).

A figura do fermento amplia o alcance da advertência. Não lançar fora o fermento velho significava tolerar uma influência pertencente à antiga ordem, capaz de contaminar toda a comunidade. A questão, portanto, não se restringia ao comportamento do indivíduo, mas se estendia aos pressupostos doutrinários que permitiam sua permanência e justificavam a passividade dos demais.

Embora o texto não informe expressamente se aquele indivíduo era judeu ou gentio, a maneira como Paulo articula o caso com a figura do fermento, com a Páscoa e com a ordem de retirar “o iníquo” do meio da comunidade aproxima o episódio da linguagem aplicada a Israel nas Escrituras.

Não se pode afirmar categoricamente sua origem, mas também não se deve ignorar a possibilidade de que estivesse ligado à identidade judaica ou à influência judaizante. A advertência não era dirigida aos “de fora”, mas àquele que, chamando-se irmão, permanecia associado a uma condição incompatível com o evangelho.

Paulo então ordena:

“Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento; porque Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Coríntios 5:7).

A formulação é decisiva. Os cristãos deveriam remover o fermento velho porque já eram considerados “sem fermento”. A limpeza não produziria a nova massa; ela deveria manifestar, na prática, a condição que já haviam recebido em Cristo.

A referência à Páscoa reforça a oposição entre duas ordens. Cristo, a verdadeira Páscoa, já havia sido sacrificado. Por isso, os cristãos não deveriam celebrar com o fermento velho da antiga condição, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade:

“Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1 Coríntios 5:8).

O contraste não é apenas entre mau e bom comportamento. É também entre a antiga ordem e a realidade inaugurada por Cristo; entre o fermento da maldade, da malícia e das doutrinas humanas e os ázimos da sinceridade e da verdade do evangelho.

Somente depois de estabelecer esse princípio coletivo Paulo retoma o caso concreto e determina:

“Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Coríntios 5:13).

A exclusão do fornicário aparece, assim, como aplicação prática de uma verdade mais ampla: aquilo que pertence à antiga ordem não deve permanecer misturado à comunidade formada pela obra de Cristo.

Lançar fora o fermento velho significava rejeitar tanto a conduta reprovável quanto a influência doutrinária que a tolerava. A comunidade não poderia aproximar a mesa dos ázimos da sinceridade e da verdade da mesa do fermento velho, marcada por ordenanças, festas, dias, meses e anos que pretendiam concorrer com a suficiência de Cristo.

A nova massa não deveria ser levedada pelos elementos da antiga ordem. Cristo, a verdadeira Páscoa, já havia sido sacrificado; por isso, a comunhão cristã deveria permanecer fundamentada exclusivamente na sinceridade e na verdade do evangelho.

29.3 Os problemas causados por alguns que estão dentro

Se alguém entende que a lista de condutas reprováveis mencionada por Paulo se refere exclusivamente ao comportamento sexual do iníquo, precisa considerar que o apóstolo repete praticamente a mesma enumeração ao tratar dos litígios entre cristãos levados aos tribunais (1 Coríntios 5:11; 6:9–10). O mais significativo é que Paulo apresenta essas condutas como pertencentes ao passado daqueles cristãos: alguns deles haviam vivido dessa maneira, mas foram lavados, santificados e justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito de Deus (1 Coríntios 6:11).

Ao instruir os cristãos a não se associarem com aqueles que, dizendo-se irmãos, fossem devassos, avarentos, idólatras, maldizentes, beberrões ou roubadores, a preocupação do apóstolo não era criar uma separação indiscriminada entre os cristãos e os gentios incrédulos. Seu propósito era impedir que a comunidade reconhecesse como irmão e acolhesse à mesa alguém cuja prática ou doutrina contradissesse o evangelho, especialmente quando se procurava negar a suficiência de Cristo mediante a imposição de dias, festas, circuncisão e outros elementos pertencentes à antiga ordem.

Depois de mencionar, por duas vezes, a prostituição, a avareza e a idolatria (1 Coríntios 5:11; 6:9–10), e de tratar da mesa e das associações entre os irmãos (1 Coríntios 5:7–8), Paulo retoma a questão ao declarar: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm” (1 Coríntios 6:12).

Em seguida, afirma:

“Os alimentos são para o estômago, e o estômago para os alimentos; Deus, porém, aniquilará tanto um como os outros” (1 Coríntios 6:13).

Os alimentos e o estômago pertencem à ordem transitória, inclusive quando associados às distinções alimentares e às práticas cerimoniais do judaísmo. O corpo, entretanto, não pertence a essa mesma categoria:

“Mas o corpo não é para a prostituição, senão para o Senhor, e o Senhor para o corpo” (1 Coríntios 6:13).

A afirmação possui sentido moral direto, mas, dentro da leitura aqui proposta, também apresenta uma dimensão eclesiológica e doutrinária. O cristão não deve unir o seu corpo àquilo que representa infidelidade a Cristo. Não deve associar-se de maneira cúmplice com aqueles que, embora se apresentem como irmãos, participam da prostituição espiritual e da idolatria.

Essa linguagem pertence ao universo profético de Israel, no qual a infidelidade religiosa era frequentemente descrita como adultério ou prostituição. Tiago emprega a mesma figura ao escrever aos cristãos da dispersão:

“Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago 4:4).

Quando Paulo pergunta se alguém tomaria os membros de Cristo para fazê-los membros de uma prostituta, destaca a absoluta incompatibilidade entre pertencer a Cristo e unir-se a uma realidade contrária ao seu senhorio. O corpo do cristão não lhe pertence de maneira autônoma: é membro de Cristo. Por isso, não pode ser colocado a serviço de outro senhor, de outro culto ou de outro fundamento religioso.

Sob esse aspecto, “fugir da prostituição” também significa rejeitar comunhão com sistemas que concorrem com Cristo. Aquele que recebe e participa das obras de quem não permanece na doutrina de Cristo torna-se participante de suas más obras, princípio igualmente expresso em 2 João 10–11.

Essa leitura, entretanto, não elimina a condenação da imoralidade sexual presente no texto. Paulo efetivamente reprova a união sexual ilícita e insiste que o corpo deve ser usado em santidade e honra. O sentido moral e o sentido doutrinário não precisam ser tratados como alternativas excludentes. A figura alcança tanto a prática corporal desordenada quanto a infidelidade religiosa que submete os membros de Cristo a outro senhorio.

Glorificar a Deus no corpo significa, portanto, não entregar os membros de Cristo à prostituição, à idolatria ou à comunhão com doutrinas contrárias ao evangelho. O corpo já foi adquirido por Cristo e deve ser usado de maneira coerente com esse pertencimento:

“Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1 Coríntios 6:20).

Da mesma forma, apresentar os membros ao serviço da justiça não produz a passagem do domínio do pecado para o domínio da graça. Paulo parte do fato de que os cristãos já haviam sido libertos do pecado e feitos servos da justiça. A apresentação dos membros é, portanto, a consequência prática de uma mudança de senhorio já realizada.

Também o anúncio das virtudes daquele que chamou os cristãos das trevas para a sua maravilhosa luz pressupõe uma mudança de condição. O cristão não anuncia para ser transportado das trevas, mas porque já foi chamado para a luz. Sua conduta, sua confissão e seu serviço devem manifestar aquilo que Deus já realizou.

Isso não torna o comportamento indiferente. Aquele que pertence a Cristo deve conservar boa consciência, andar honestamente, evitar escândalos e não servir de tropeço aos irmãos. Contudo, essas obras não criam a nova natureza, não produzem a santificação e não justificam o velho homem. Elas evidenciam, no plano prático, a realidade da nova condição recebida em Cristo.

A responsabilidade cristã não consiste em aperfeiçoar gradualmente o homem em Adão, mas em viver de modo coerente com a nova criação. A doutrina estabelece a condição; a conduta manifesta essa condição. O cristão não age para se tornar santo, justo ou pertencente a Deus, mas porque, em Cristo, já foi santificado, justificado e chamado das trevas para a luz.

A graça não torna a conduta irrelevante. Ela estabelece uma nova relação de serviço.

O erro está em afirmar que o bom comportamento aperfeiçoa a santificação. O cristão pratica o bem porque pertence a Deus; não passa a pertencer mais intensamente a Deus porque pratica o bem.

As boas obras são frutos da nova condição, não instrumentos de produção da santidade.

Essa compreensão também impede dois extremos.

O primeiro é o moralismo, que mede a santidade pela aparência, pelo temperamento, pelos costumes e pela disciplina exterior.

O segundo é a negligência, que utiliza a obra completa de Cristo como desculpa para desprezar os mandamentos dirigidos aos filhos de Deus.

A resposta bíblica não consiste em transformar a santificação em um processo de aperfeiçoamento moral. Consiste em preservar a ordem correta:

  • Deus regenera;
  • Deus justifica;
  • Deus santifica;
  • O novo homem, feito servo de Deus, é instruído a viver de acordo com a nova condição.

30. O Deus de paz santifica completamente

Paulo orou:

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23).

À primeira vista, a oração poderia sugerir que os tessalonicenses ainda não eram santificados. No entanto, o próprio Paulo já os havia identificado como escolhidos para a salvação “em santificação do Espírito e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13).

A ênfase de 1 Tessalonicenses 5:23 recai sobre Deus como agente da obra e sobre a conservação integral dos cristãos. O versículo seguinte elimina qualquer possibilidade de atribuir o cumprimento ao esforço humano:

“Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Tessalonicenses 5:24).

Não é o cristão que completa a obra por disciplina moral. É Deus quem a realiza e conserva.

A oração de Paulo não estabelece uma cooperação pela qual Deus faz uma parte e o cristão completa a outra. Ela expressa confiança na fidelidade daquele que chama.

31. Completa ou progressiva?

A santificação bíblica é completa quanto à condição do crente diante de Deus.

Ela é realizada:

  • pela vontade de Deus;
  • pela oferta do corpo de Cristo;
  • pelo sangue da nova aliança;
  • pela Palavra da verdade;
  • na regeneração;
  • em união com Cristo.

Ela não é um processo de reforma da natureza herdada de Adão. O velho homem não é progressivamente aperfeiçoado; ele é crucificado com Cristo. O novo homem não é criado parcialmente santo; é criado em verdadeira justiça e santidade.

Isso não significa que o cristão alcançou conhecimento completo, maturidade perfeita ou comportamento sem falhas. Significa que essas realidades pertencem à esfera do crescimento, da aprendizagem, da disciplina, da correção e do serviço cristão — não à produção ou complementação da santidade.

A santificação é completa; o conhecimento pode crescer.

A santificação é completa; a conduta pode ser corrigida.

A santificação é completa; o cristão pode amadurecer.

A santificação é completa; o servo ainda precisa aprender a servir.

Conclusão

A pergunta “santificação: completa ou progressiva?” deve ser respondida a partir da obra de Cristo, e não da experiência variável dos cristãos.

Se a resposta for buscada no comportamento humano, a santificação sempre parecerá incompleta. Sempre haverá algo a corrigir, algum conhecimento a adquirir e alguma virtude a exercitar.

Se, porém, a resposta for buscada na oferta de Cristo, a conclusão será outra:

“Nessa vontade é que temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (Hebreus 10:10).

A santificação não é a longa caminhada pela qual o cristão tenta tornar-se propriedade de Deus. É a obra pela qual Deus, em Cristo, separa para si um povo e o constitui em nova criação. O velho homem não é gradualmente reformado até tornar-se santo; ele é crucificado com Cristo, e o novo homem é criado em verdadeira justiça e santidade.

Isso não elimina o crescimento cristão. Os santos ainda precisam ser instruídos, amadurecidos, corrigidos e preparados para toda boa obra. Sua conduta deve corresponder à condição recebida, mas não a produz nem completa. O cristão não obedece para concluir sua santificação; obedece porque foi santificado e pertence àquele que o comprou.

Por uma única oferta, Cristo aperfeiçoou para sempre os que são santificados. Portanto, a santificação é completa em Cristo; o crescimento no conhecimento, no serviço e no bom procedimento continua ao longo da vida.

Referências

BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Corrigida.

COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Santificação: completa ou processual? Monergismo.

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