Polêmicos

“Nem me veio ao pensamento”: um contraponto à vontade oculta de Lutero (Parte 1)

Em Jeremias 19:5, Deus diz que certas práticas “nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento”. Como conciliar essa declaração com a vontade oculta que Lutero atribui a Deus? Nesta primeira parte, examinamos o texto e o que ele revela sobre a vontade de Deus.


Uma leitura de De servo arbitrio no texto latino e o limite da vontade oculta em Martinho Lutero

Introdução

Este estudo examina os argumentos de Martinho Lutero contra o livre-arbítrio diretamente no texto latino de De servo arbitrio (1525), conforme a Weimarer Ausgabe. Começo por uma exigência de método: a crítica só tem valor se atingir o que Lutero de fato afirma, e não formulações atribuídas a ele. Isso não enfraquece a objeção. Obriga, porém, a colocá-la no lugar correto.

Isso importa porque Lutero não sustenta simplesmente que o homem seja uma criatura sem vontade, arrastada contra o que deseja. Pelo contrário, ele insiste que a necessidade não é coação. O homem age sponte et libenti voluntate: espontaneamente, querendo aquilo que faz. Também não estão no centro da controvérsia os desejos, as decisões ordinárias ou as escolhas relativas às coisas desta vida. A questão que Lutero assume a partir de Erasmo é mais precisa: existe na vontade humana alguma vis, alguma força pela qual o homem possa aplicar-se às coisas que conduzem à salvação eterna? É essa definição que precisa ser examinada primeiro, porque discutir outra coisa seria combater um Lutero que não está em De servo arbitrio.

Nesse ponto, há mais convergência do que a controvérsia costuma deixar ver. Não sustento que o homem possua em si mesmo poder capaz de produzir sua salvação. Não considero a fé uma obra pela qual alguém presta auxílio a Deus, nem suponho que uma faculdade autônoma da criatura seja capaz de romper, por força própria, a escravidão do pecado. Romanos 7:18 estabelece exatamente a distinção que deve governar a discussão: “o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem”. Querer e realizar não são a mesma coisa. Uma coisa é a vontade; outra, a escolha entre alternativas disponíveis; outra, decidir-se diante de uma oferta; outra ainda, o poder de produzir aquilo que se deseja. Fundir as quatro sob a expressão vis humanae voluntatis já condiciona a resposta antes que a pergunta seja examinada.

Por isso, o desacordo com Lutero não deve ser formulado como oposição entre graça divina e autonomia humana. Essa antítese não corresponde ao argumento que desenvolverei. A questão real surge quando Lutero acrescenta à incapacidade de realizar o bem duas proposições muito mais abrangentes. A primeira: Deus não prevê nada contingentemente, mas tudo “prevê, propõe e faz” segundo vontade imutável. A segunda: até o querer de Judas, embora voluntário e não coagido, era obra de Deus, movida por sua onipotência. É nesse segundo movimento que a discussão deixa de ser apenas antropológica e se torna uma questão sobre o que se pode atribuir ao próprio Deus.

É também aí que aparece o problema da chamada vontade oculta. Diante de textos em que Deus se apresenta chamando, rogando, advertindo ou declarando não desejar a morte do ímpio (Ezequiel 18:23; 33:11), Lutero distingue o Deus pregado do Deus escondido. Aquilo que Deus revela deve ser ouvido; aquilo que Ele teria determinado em sua majestade oculta não deve ser investigado: Quatenus igitur Deus sese abscondit et ignorari a nobis vult, nihil ad nos. Enquanto Deus se esconde e quer ser ignorado por nós, nada disso nos diz respeito.

Essa solução, porém, levanta uma pergunta anterior à controvérsia sobre o livre-arbítrio: a própria Escritura autoriza que se atribua ao Deus oculto uma decisão contrária àquilo que o Deus revelado diz, ou que determine o contrário?

Jeremias oferece um teste extraordinariamente simples:

“O que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento” (Jeremias 19:5).

A força da declaração está em sua progressão. Deus não diz apenas que não ordenou o sacrifício dos filhos, o que ainda permitiria imaginar um decreto diferente do preceito. Acrescenta que não o falou e, por fim, que aquilo nem sequer lhe veio ao pensamento. O texto deixa de tratar do que Deus ordenou aos homens e passa a ser uma declaração de Deus sobre si mesmo. É exatamente aqui que a vontade oculta deixa de funcionar como resposta automática. Não se pode recorrer a uma intenção escondida para atribuir a Deus aquilo que Ele, falando de seu próprio pensamento, nega que estivesse nele. É esse ponto que ocupará o centro desta investigação.

Isso não significa negar que haja coisas ocultas em Deus. A Escritura afirma expressamente que há. A questão é o que a Bíblia chama de oculto, e aqui surge uma diferença fundamental: na Escritura, o oculto tem história. O mistério esteve oculto e depois foi manifestado (Romanos 16:25-26; Colossenses 1:26). Aquilo que esteve escondido em Deus foi dado a conhecer pela pregação do evangelho (Efésios 3:9). Os tesouros da sabedoria estão escondidos em Cristo (Colossenses 2:3), e não numa vontade situada por trás dele. O oculto bíblico é temporal: oculto então, revelado agora. Já o Deus absconditus, invocado para sustentar uma decisão que continua por trás da palavra revelada mesmo depois de ela ter sido pronunciada, pertence a outra estrutura conceitual.

A diferença é decisiva porque Cristo não veio revelar um Deus cuja verdadeira vontade permanece em outro lugar. “Deus nunca foi visto por alguém”; o Filho o deu a conhecer (João 1:18). Suponha-se que a vontade salvadora anunciada, o chamado universal, o rogo à reconciliação e a advertência contra o pecado pertençam apenas ao Deus pregado. Suponha-se ainda que a decisão eficaz pertença a uma vontade inacessível, capaz de produzir o contrário. Nesse caso, a revelação já não revela aquilo que efetivamente decide. A palavra continua verdadeira como anúncio, mas perde sua função na determinação do acontecimento.

É justamente essa separação que este estudo colocará à prova.

A crítica, portanto, não será que Lutero retirou do homem toda voluntariedade, porque ele não o fez. Tampouco sustentarei que o homem possui uma força pela qual se salva, porque não possui. A investigação será mais estreita. A fé vem pelo ouvir (Romanos 10:17). O evangelho é ele próprio o poder de Deus para a salvação (Romanos 1:16). A palavra anunciada é o meio pelo qual uma alternativa antes inexistente é posta diante do homem. Se tudo isso é verdade, o que resta para uma moção secreta decidir antes da palavra?

A resposta a essa pergunta passará pela definição de arbitrium, pela distinção entre querer e realizar em Romanos 7:18, pela figura luterana do jumento, pela presciência, por Efésios 1:11, pela clareza interna da Escritura e pelo argumento pastoral de Lutero em favor da necessidade. Todos esses caminhos, porém, terminarão no mesmo ponto. Lutero afirma que há uma esfera da vontade divina que não nos compete perscrutar. A objeção deste estudo é que essa esfera muda de natureza quando recebe conteúdo, isto é, quando se afirma que ela prevê, propõe, faz e move determinado querer. Aí já não estamos diante do silêncio de Deus, mas de uma afirmação sobre Deus. E toda afirmação sobre Deus pode e deve ser examinada à luz daquilo que Ele revelou.

É nesse lugar que a sentença de Jeremias deixa de ser um texto lateral e se torna o eixo da controvérsia:

“Nem me veio ao pensamento.”

Ela não explica tudo o que Deus ocultou. Faz algo mais limitado e, para esta discussão, mais decisivo: impede que chamemos de vontade oculta aquilo que Deus, ao revelar seu próprio pensamento, declarou mais de uma vez não estar nele (Jeremias 7:31; 19:5; 32:35).

1. O que Lutero realmente colocou em discussão: arbitrium não é voluntas

A primeira correção necessária diz respeito ao próprio nome da controvérsia. Há uma longa tradição de leitura que trata De servo arbitrio como se Lutero houvesse escrito sobre uma “vontade escravizada”. A tradução consagrada favorece essa impressão, mas ela conduz o leitor a atacar uma tese que Lutero expressamente não sustenta.

O título latino é De servo arbitrio, não De serva voluntate. Arbitrium e voluntas se relacionam, mas não são termos idênticos: voluntas designa o querer; arbitrium aponta para o juízo, a decisão, o poder de determinar-se entre alternativas. A distinção é decisiva porque Lutero em nenhum momento descreve o homem como alguém incapaz de querer — ao contrário, faz questão de preservar a espontaneidade do querer exatamente enquanto nega ao homem o liberum arbitrium diante de Deus.

Daí a fórmula com que explica o que entende por necessidade, e que não pode ser posta de lado:

Necessario vero dico, non coacte […] necessitate immutabilitatis, non coactionis […] sed sponte et libenti voluntate facit.

O homem não pratica o mal como quem é arrastado contra a vontade, “pelo pescoço”, à maneira de um ladrão conduzido à pena. Ele o faz sponte et libenti voluntate: espontaneamente e querendo. A necessidade que Lutero defende é necessidade sem coação — e isso desloca o ponto de partida de toda a discussão.

A pergunta correta, portanto, não é se o homem possui vontade: Lutero responderia que sim. Tampouco é se ele deseja, prefere, ama, rejeita e age voluntariamente: também aqui a resposta é afirmativa. A controvérsia começa em outro lugar, e começa numa definição que Lutero aceita de Erasmo:

vis humanae voluntatis, qua se possit homo applicare ad ea quae perducunt ad aeternam salutem, aut ab iisdem avertere.

Isto é, a “força da vontade humana pela qual o homem pode aplicar-se às coisas que conduzem à salvação eterna ou afastar-se delas”. A obra inteira se desenvolve em torno dessa vis, dessa potência atribuída ao querer humano, e Lutero jamais abandona tal definição como campo da disputa.

Estabelecer isso com precisão elimina de imediato uma falsa oposição. Não se trata de defender contra Lutero uma força humana capaz de produzir salvação. Se “livre-arbítrio” significar uma potência pela qual o homem realiza aquilo que o conduz à vida eterna, não há interesse algum em preservá-lo: nada que o homem produza pode transformar a graça em salário ou fazê-lo autor da própria regeneração. Nesse aspecto, quem contesta Lutero por essa via atinge o alvo errado.

O verdadeiro problema está na definição que Erasmo propôs e Lutero acolheu. Ela reúne numa única faculdade coisas que precisam ser distinguidas: querer, decidir e realizar. E é Paulo quem as separa de modo explícito:

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem(Romanos 7:18).

O contraste apostólico é exato: o querer está presente, o realizar não. O texto não conclui que a vontade seja inexistente porque o poder de realização é inexistente; afirma as duas coisas ao mesmo tempo — há querer e há incapacidade de realizar. É essa simultaneidade que permite desdobrar aquilo que a definição clássica havia comprimido sob um único nome. Há a vontade, o querer e o desejar; há o arbítrio ou escolha, que só existe em relação a alternativas efetivamente disponíveis; e há o poder de realização, a capacidade de produzir aquilo que foi querido. Confundir os três é converter a ausência de uma dessas capacidades em prova automática da ausência das demais — e é precisamente isso que Romanos 7:18 proíbe. Paulo não diz “como não posso realizar, também não posso querer”; diz o contrário: “o querer está em mim”. A incapacidade recai sobre o κατεργάζεσθαι, o realizar, não sobre o θέλειν, o querer. A distinção, portanto, não é uma construção filosófica introduzida de fora no texto bíblico: nasce dentro do próprio argumento paulino, e é ela que desfaz a vis applicandi sobre a qual Erasmo e Lutero concordaram.

Nesse sentido, a fórmula corrente — “a vontade é escrava” — precisa ser qualificada. Se por ela se entende que o homem não possui vontade própria ou que age contra aquilo que deseja, ela não representa sequer a tese de Lutero, que insiste no oposto: o homem age espontaneamente. Sua célebre imagem da montaria confirma-o. A vontade humana é como um jumento: se Deus o monta, “quer e vai para onde Deus quer”; se Satanás o monta, igualmente “quer e vai” para onde seu cavaleiro quer. O ponto decisivo vem em seguida:

nec est in eius arbitrio ad utrum sessorem currere aut eum quaerere.

Não está no seu arbítrio correr para um ou outro cavaleiro, nem procurá-lo. Note-se a distinção interna à própria frase: a montaria quer — vult; a montaria vai — vadit; o que lhe falta é o arbitrium pelo qual escolheria seu cavaleiro. Lutero preserva a voluntas e nega o arbitrium justamente no ponto em que a relação com Deus está em jogo.

E aqui há uma convergência que convém reconhecer sem reservas. Nenhum homem escolheu a condição na qual entrou no mundo. Ninguém compareceu diante de duas portas e selecionou Adão em lugar de Cristo; ninguém decidiu nascer sob a sentença ligada à primeira ofensa. A ideia de que o homem dispusesse, depois da queda, de um “cardápio” contendo igualmente vida e morte, Cristo e Adão, caminho largo e caminho estreito, não corresponde ao quadro bíblico. Se é isso que se pretende chamar de livre escolha, também eu a nego.

Dessa concordância, porém, não se segue aquilo que Lutero pretende demonstrar. Uma coisa é afirmar que o homem não escolheu o senhorio sob o qual nasceu; outra, bem distinta, é afirmar que, uma vez alcançado por um mandamento que lhe ordena sair dessa condição, ele não pode aquiescer ao que lhe foi anunciado. A primeira proposição descreve ausência de escolha anterior; a segunda, incapacidade de resposta posterior. São teses diferentes, e é por confundi-las que a tradução “escravidão da vontade” embaralha a disputa: ela sugere que o problema seja a existência ou a liberdade psicológica do querer, quando o próprio Lutero preserva o querer espontâneo. A questão real é se esse querer possui algum arbítrio coram Deo, alguma possibilidade de responder quando a palavra de Deus lhe apresenta aquilo que antes não estava disponível.

Vale insistir nisso, porque o caminho mais óbvio de objeção é também o mais frágil. Não basta contrapor a Lutero uma “vontade livre” e julgar suficiente demonstrar que o homem deseja sua libertação. Ele responderia sem dificuldade: um escravo pode desejar fugir da pena e ainda assim não desejar a Deus. Sua tese não depende de negar desejos; depende de negar que o homem possa, por seu próprio arbitrium, determinar-se em direção a Deus.

A divergência precisa, portanto, ser formulada de outra maneira. Não é que Lutero diga que o homem não quer e eu diga que quer — nesse ponto ele também diz que quer. Não é que Lutero diga que o homem é coagido e eu diga que age espontaneamente — ele próprio rejeita a coação. Não é sequer que Lutero negue ao homem força para produzir a salvação e eu lha atribua — também nego essa força. O desacordo começa exatamente onde a ausência de poder de realização é convertida em incapacidade de aquiescência à palavra.

É aí que Romanos 7:18 se mostra mais importante do que parece. O versículo não devolve ao homem uma potência salvadora; faz algo anterior e mais modesto, e por isso mesmo mais decisivo: impede que se chame por um único nome aquilo que o apóstolo separou. O querer pode estar presente enquanto o realizar permanece impossível.

Com isso, a questão de De servo arbitrio há de ser reformulada. Não se trata de saber se o homem pode realizar sua salvação — não pode. Nem de saber se pode apresentar obras pelas quais alcance a graça — não pode. Trata-se de saber se, quando aquilo que Deus preparou é anunciado, o homem precisa possuir uma força para recebê-lo; ou se, justamente porque crer não é realizar, mas aquiescer, a definição de Erasmo e Lutero já começa no lugar errado.

Essa pergunta será decisiva mais adiante. Antes, porém, é preciso enfrentar a primeira coluna que Lutero ergue sobre aquela definição — pois ele não se limita a afirmar que falta ao homem uma vis: sustenta que tudo o que acontece ocorre necessariamente, porque Deus nada prevê contingentemente, mas tudo prevê, propõe e faz segundo vontade imutável. É aí que a controvérsia deixa o significado de arbitrium e entra naquilo que Lutero chamou de seu “raio”.

2. “Por este raio é esmagado o livre-arbítrio”: presciência, necessidade e o primeiro erro de Lutero

Definido o livre-arbítrio como uma vis, uma força pela qual o homem poderia aplicar-se às coisas que conduzem à salvação, Lutero apresenta em seguida aquilo que julga bastante para destruir essa possibilidade. Ele próprio chama o argumento de um “raio”:

Est itaque et hoc imprimis necessarium et salutare Christiano, nosse, quod Deus nihil praescit contingenter, sed quod omnia incommutabili et aeterna infallibilique voluntate et praevidet et proponit et facit. Hoc fulmine sternitur et conteritur penitus liberum arbitrium.

Em síntese: Deus nada prevê contingentemente; antes, tudo prevê, propõe e faz mediante vontade imutável, eterna e infalível. “Por este raio”, conclui, o livre-arbítrio é inteiramente derrubado.

A formulação merece atenção porque contém três verbos, e não apenas um: praevidet — prevê; proponit — propõe; facit — faz. Não constituem um único argumento. O primeiro diz respeito ao conhecimento; o último, à causalidade. Ainda que se demonstre que conhecer um acontecimento não é causá-lo, permanecerá de pé a afirmação de que Deus o faz. Quem confunde as duas linhas produz uma refutação incompleta — e, pior, celebra como vitória aquilo que apenas removeu o primeiro obstáculo. Comecemos, pois, pelo primeiro elemento do raio, com a advertência de que ele não é o último.

Presciência não é um atributo acrescentado à onisciência

A construção de Lutero repousa sobre uma ideia aparentemente simples: Deus conhece antecipadamente aquilo que acontecerá; esse conhecimento é infalível e imutável; logo, aquilo que Deus conhece como futuro não poderia ocorrer de outra maneira. O problema, porém, começa antes da conclusão — começa no sentido atribuído à própria palavra presciência.

Na linguagem teológica posterior, presciência passou a funcionar quase como nome de uma faculdade divina: Deus possuiria um conhecimento presente acerca de fatos ainda futuros. Estabelecida a faculdade, discute-se se esse conhecimento causa os acontecimentos, se apenas os contempla, ou se a eternidade divina dissolve a distinção entre passado, presente e futuro. Toda essa discussão, contudo, pode estar partindo de uma categoria que o texto bíblico não estabelece dessa maneira.

O substantivo grego πρόγνωσις ocorre apenas duas vezes no Novo Testamento, ambas em Pedro. Uma delas é Atos 2:23:

“A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.”

A leitura corrente tende a tomar “determinado conselho” e “presciência” como duas descrições do mesmo decreto eterno. Mas a construção da frase recomenda cautela: Pedro coordena os dois termos, e se ambos designassem exatamente o mesmo ato causal, o segundo pouco acrescentaria ao primeiro.

Mais decisivo, porém, é observar a posição temporal de quem fala. No momento em que Pedro pronuncia essas palavras, a crucificação já ocorreu. Ele não está dizendo a seus ouvintes que Deus possui conhecimento antecipado de um acontecimento ainda futuro; está explicando um acontecimento passado. O referente de πρόγνωσις é um fato já consumado quando o termo é empregado. Resta perguntar, então, por que Pedro o chama de “presciência”.

A resposta está no próprio livro de Atos. Pouco depois, o mesmo apóstolo declara:

“Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado: que o Cristo havia de padecer” (Atos 3:18).

E, na oração da igreja, o mesmo acontecimento é retomado nestes termos:

“Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer” (Atos 4:28).

Os dois textos, juntos, iluminam o primeiro. O conselho diz respeito ao propósito de Deus, àquilo que Ele determinou realizar; a presciência diz respeito ao conhecimento tornado conhecido de antemão, isto é, àquilo que Deus fizera saber antes do acontecimento por meio da palavra profética. O elemento pro-, portanto, não exige a ideia de uma faculdade divina que “olha para frente” no tempo: exige apenas que o anúncio tenha precedido o fato. Pedro não deixa o conteúdo da presciência indefinido — ele o explica: Deus “cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado”.

Duas sequências, portanto, disputam o texto. A primeira, que a tradição consagrou: há um evento futuro → Deus o conhece antecipadamente → a isso se chama presciência. A segunda, muito mais ajustada ao contexto: o conselho de Deus estabelece um evento → Deus o revela antecipadamente → os profetas o anunciam → o acontecimento ocorre → Pedro identifica essa antecipação revelacional como πρόγνωσις.

Na segunda leitura, a anterioridade está entre o anúncio e o acontecimento, e não entre Deus e aquilo que Ele conhece. Deus não precisou “prever” a crucificação como quem observa de longe um fato ainda inexistente: Ele a determinou em seu conselho e a anunciou antes que ocorresse. A diferença parece pequena e é decisiva, porque impede que πρόγνωσις se converta num atributo adicional da onisciência divina do qual se possa extrair, em seguida, uma necessidade metafísica.

Por que Deus anuncia antes

Se a presciência não designa uma faculdade pela qual Deus contempla antecipadamente um futuro distante de si, resta explicar por que a Escritura atribui tanta importância ao fato de que Deus anuncia acontecimentos antes que ocorram. O próprio Deus responde por meio de Isaías:

“Eu sou o SENHOR; este é o meu nome; a minha glória a outro não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura. Eis que as primeiras coisas já se cumpriram, e as novas eu vos anuncio, e, antes que venham à luz, vo-las faço ouvir” (Isaías 42:8-9).

A finalidade do anúncio antecipado não é fornecer conhecimento a Deus, mas ao homem. E a sequência do texto é eloquente: primeiro Deus se identifica — “Eu sou o SENHOR”; depois exclui os rivais — “a minha glória a outro não darei , nem o meu louvor às imagens”; por fim apresenta a comprovação — aquilo que fora anteriormente anunciado já se cumpriu, e agora outras coisas são anunciadas antes que venham à luz. O conhecimento antecipado possui, assim, função revelacional e testemunhal: aquilo que para o homem ainda não ocorreu lhe é trazido de antemão, para que o cumprimento posterior confirme a palavra recebida e testemunhe de quem ela procedeu.

Repare-se no que o texto exatamente diz. Não é Deus declarando “antes que aconteçam, eu as conheço”, mas “antes que aconteçam, eu faço vocês conhecê-las”. A crucificação não era futura para Deus quando Ele a conhecia; era futura para aqueles a quem Deus decidiu antecipadamente dá-la a conhecer. Essa é a estrutura permanente do discurso profético — o acontecimento é futuro para o ouvinte, Deus o anuncia antes, o acontecimento ocorre, e seu cumprimento autentica o que havia sido dito —, e é exatamente ela que reaparece nos discursos de Pedro sobre a morte de Cristo.

Deus não antevê porque não está atrás do futuro

Falar de Deus como quem “prevê” acontecimentos futuros pode ser útil na linguagem humana, mas não deveria ser convertido sem exame em descrição ontológica de como Deus conhece. Para o homem há um antes e um depois; para o profeta, há o que lhe foi anunciado e o que depois se cumpre. Deus, porém, não ocupa um ponto anterior da linha do tempo de onde contemplaria o que ainda não chegou. Se Ele é onipresente, não existe um futuro ontologicamente distante de sua presença: aquilo que para nós ainda ocorrerá não está “longe” de Deus a ponto de exigir antecipação.

Por isso, atribuir a Deus uma “presciência” concebida como parcela especializada de sua onisciência acaba, paradoxalmente, por reduzir a onisciência. Deus não sabe algumas coisas porque são presentes e outras porque as antevê. Ele sabe. É o homem que precisa das categorias passado, presente e futuro para organizar aquilo que conhece. Nesse sentido, a expressão bíblica “conhecido de antemão” descreve com naturalidade a antecipação da manifestação, sem exigir uma modalidade especial do conhecimento divino.

Pedro fornece novamente o exemplo decisivo, agora a respeito do próprio Cristo:

“O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” (1 Pedro 1:20).

A relação verbal é instrutiva: προεγνωσμένου, conhecido de antemão, e φανερωθέντος, manifestado. A antítese não se dá entre um futuro inexistente e um conhecimento antecipado dentro de Deus, mas entre aquilo que estava conhecido e aquilo que depois foi manifestado. O movimento é do oculto para o revelado — e vale reter esse padrão, pois ele voltará adiante, quando examinarmos o chamado Deus absconditus. Na Escritura, o que esteve oculto é posteriormente manifestado: a ocultação tem termo.

O problema do prefixo latino

Há ainda uma questão de linguagem, e ela não é acessória. O latim praescientia torna quase irresistível ler o prae como um “antes” no conhecimento de Deus. A palavra parece dizer por si mesma: Deus sabe antes aquilo que acontecerá depois. Mas convém perguntar: antes para quem?

A tradução corre o risco de transformar a posição temporal de quem recebe a revelação numa propriedade intrínseca de quem revela. O profeta conhece antes do acontecimento porque Deus lhe anunciou; disso não se segue que Deus conheça o evento mediante uma faculdade chamada “conhecimento antecipado”. E é justamente aqui que não convém deixar a teologia ser governada pelo formato de uma palavra latina, quando o uso apostólico pode ser examinado em seu próprio contexto. O mesmo padrão se repete em outros pontos: a tradução deixa de apenas transportar o sentido e passa a reorganizá-lo; a categoria latina começa a funcionar como definição da categoria bíblica; e o sistema teológico é então erguido sobre aquilo que a tradução já havia pressuposto.

Ora, se πρόγνωσις não designa uma faculdade causal nem uma modalidade temporal do conhecimento divino, o primeiro movimento do argumento de Lutero perde sua força. Não se pode concluir que Deus “previu” infalivelmente que Judas faria X, logo Judas necessariamente faria X, quando o “pré” do texto não descreve a maneira pela qual Deus conhece Judas, mas a maneira pela qual um acontecimento ou uma pessoa foram previamente dados a conhecer no plano da revelação.

Conhecer não é causar

Concedamos, ainda assim, por hipótese, que Deus conheça infalivelmente um acontecimento futuro. Restaria demonstrar uma segunda proposição, e a passagem de uma à outra não é automática: que o conhecimento torne o acontecimento necessário. Saber que algo ocorrerá não é produzir aquilo que ocorre.

O caso de Judas mostra isso com nitidez. Que a Escritura houvesse anunciado a traição não converte o anúncio em causa moral da traição. Por isso Jesus pode dizer, na mesma sentença, que “o Filho do Homem vai, como acerca dele está escrito” e “ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído” (Mateus 26:24). A segunda afirmação preserva a imputabilidade de quem age; se o anúncio anterior fosse a causa eficiente da traição, o “ai daquele homem” seria uma sentença dirigida contra alguém por executar aquilo que o próprio anúncio irresistivelmente produziu nele.

Distinguir conhecimento de causalidade continua, portanto, necessário. Mas é igualmente necessário reconhecer que essa distinção não basta para refutar Lutero.

O facit sobrevive ao praevidet

É aqui que uma crítica apressada a De servo arbitrio falharia. Lutero não escreveu apenas que Deus prevê todas as coisas: escreveu que Deus prevê, propõe e faz todas as coisas. E, ao tratar especificamente de Judas, vai mais longe ainda. Embora Judas haja agido querendo e sem coação, Lutero afirma:

velle illud erat opus Dei, quod omnipotentia sua movebat.

“Aquele querer era obra de Deus, que sua onipotência movia.”

Neste ponto já não estamos diante de um argumento sobre conhecimento, mas sobre causalidade. Demonstrar que presciência não é causalidade derruba uma premissa sem derrubar a construção: retirado o praevidet, permanece o facit. E o reconhecimento importa também por honestidade metodológica — não se deve proclamar vitória sobre De servo arbitrio porque uma de suas linhas argumentativas cedeu. A crítica precisa seguir até onde Lutero efetivamente localiza a eficácia da necessidade: na ação da onipotência sobre o próprio querer.

Uma ressalva necessária: a eternidade não resolve sozinha a questão

Pela mesma razão, não convém apresentar a onipresença divina como se ela, isoladamente, encerrasse a disputa. A ideia de que Deus contempla todos os tempos num presente eterno não nasceu nesta controvérsia: já aparece, de forma clássica, em Boécio — para Deus não haveria propriamente previsão, mas um nunc stans, um presente permanente.

Lutero pode responder, e em substância responde, que sua conclusão não depende de Deus estar “antes” do acontecimento. Depende da imutabilidade. Se Deus sabe infalivelmente que Judas trairá, então a proposição “Judas não trairá” não pode tornar-se verdadeira sem que o conhecimento divino se revele falso. Retirar o relógio não elimina, por si só, a dificuldade modal — e essa objeção precisa ser concedida.

Daí que o argumento mais forte não consista em afirmar que Deus está presente em todos os tempos, saída estruturalmente semelhante ao nunc stans boeciano e incapaz de sustentar sozinha o peso da refutação. Consiste em perguntar, antes disso, se a categoria bíblica πρόγνωσις foi legitimamente transformada na faculdade metafísica da qual Lutero parte.

O primeiro raio atinge menos do que Lutero supõe

A primeira tese pode agora ser decomposta em três afirmações: que Deus possui conhecimento infalível de tudo; que esse conhecimento deve ser compreendido como praescientia de acontecimentos futuros; e que da infalibilidade desse conhecimento decorre a necessidade absoluta dos acontecimentos.

A primeira não está em disputa. A segunda precisaria ser demonstrada a partir do uso bíblico de πρόγνωσις e προγινώσκω — e o uso apostólico aponta antes para o campo daquilo que foi conhecido e anunciado anteriormente e depois manifestado. A terceira, mesmo concedida em caráter provisório, não estabelece causalidade. A presciência bíblica, portanto, não precisa ser convertida em explicação metafísica de como Deus conhece o futuro: sua função explícita na revelação é tornar o futuro antecipadamente conhecido aos homens, para que o cumprimento posterior testemunhe acerca de Deus e de sua palavra. O raio, até aqui, não esmagou o querer humano.

Mas Lutero dispõe de uma segunda arma, mais poderosa que a primeira. Ele não se limita a dizer que Deus sabia que Judas trairia; diz que o próprio querer pelo qual Judas traiu era obra de Deus, movida por sua onipotência. Nesse terreno, conhecer e causar já não se separam por uma distinção lógica — e é nesse terreno que a Escritura apresenta a Lutero uma dificuldade muito mais grave. Pois há atos humanos a respeito dos quais Deus não diz apenas “não os ordenei”. Diz:

“não lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento.”

3. Necessidade sem coação: o jumento de Lutero e a diferença entre escolher e decidir

Estabelecido o alcance limitado do primeiro raio, Lutero precisa explicar como uma ação pode ser necessária e, ao mesmo tempo, voluntária. O ponto exige precisão, porque atribuir-lhe uma vontade coagida seria refutar uma tese que ele expressamente rejeita:

Necessario vero dico, non coacte […] necessitate immutabilitatis, non coactionis […] sed sponte et libenti voluntate facit.

O homem age por necessidade, mas não por coação; não como quem é arrastado contra a vontade, mas espontaneamente e querendo aquilo que faz. O problema de De servo arbitrio não é, portanto, psicológico. Lutero não imagina Judas protestando contra uma traição que Deus o obrigasse fisicamente a executar: Judas quer trair — negocia, recebe o dinheiro, procura a ocasião e realiza o ato voluntariamente. É exatamente por isso que a resposta não pode consistir em dizer “Judas quis, logo era livre”. Lutero também afirma que Judas quis. A divergência mora em outra pergunta: aquele querer podia decidir de outro modo quando confrontado pela palavra de Deus?

O jumento de Lutero

A figura mais conhecida de De servo arbitrio torna essa distinção explícita:

Sic humana voluntas in medio posita est ceu iumentum: si insederit Deus, vult et vadit quo vult Deus […] si insederit Satan, vult et vadit quo vult Satan; nec est in eius arbitrio ad utrum sessorem currere aut eum quaerere.

A vontade humana é posta como uma montaria. Se Deus a monta, quer e vai para onde Deus quer; se Satanás a monta, quer e vai para onde Satanás quer. O que não está em seu arbitrium é correr para um ou outro cavaleiro, ou procurá-lo. A imagem confirma, portanto, a distinção já assentada: a montaria quer, a montaria vai; o que ela não faz é selecionar entre os cavaleiros.

E é justamente aí que a figura prova menos do que parece — porque aquilo que ela demonstra pode ser concedido sem hesitação. Nenhum homem, exceto Adão, compareceu diante de duas alternativas igualmente disponíveis: obedecer ou desobedecer; nenhum homem ao entrar no mundo decidiu nascer em Adão em vez de nascer em Cristo; todos chegaram ao mundo numa condição já determinada pela primeira ofensa. Se “livre-arbítrio” significar o poder de escolher previamente entre Adão e Cristo, entre a porta larga e a estreita, esse livre-arbítrio de fato não existe. Ocorre que a Escritura tampouco apresenta a salvação como um cardápio posto diante de um homem neutro.

A Bíblia não diz: “escolhei entre as duas portas”

Jesus não declara “escolhei qual das duas portas preferis”. Diz: “Entrai pela porta estreita” (Mateus 7:13). A diferença é decisiva.

Uma escolha, em sentido estrito, pressupõe alternativas colocadas lado a lado diante do agente para que ele selecione uma delas. Uma decisão diante de um mandamento tem outra estrutura: o homem já se encontra em determinada condição e então recebe uma ordem que exige resposta. Não lhe perguntam qual caminho gostaria de iniciar — ele já está no caminho largo. O mandamento faz surgir diante dele aquilo que antes não estava disponível ao seu conhecimento: “Entrai.”

Não há, pois, seleção inicial entre dois caminhos; há uma condição anterior e, depois, uma palavra que ordena sair dela. É essa distinção entre escolha e decisão que responde à figura do jumento. A metáfora demonstra que a montaria não escolheu quem a montava; não demonstra que, quando uma ordem externa lhe é dirigida, ela seja incapaz de responder à ordem. O salto lógico ocorre exatamente nessa dobra.

O problema do par Deus/Satanás

Há ainda uma segunda dificuldade na metáfora. Lutero coloca sobre a montaria dois cavaleiros possíveis, Deus ou Satanás — mas não é essa a antítese pela qual Paulo explica a condição humana e a redenção. O grande paralelismo apostólico é Adão e Cristo: por um homem entrou o pecado e, pelo pecado, a morte; por outro vêm a justificação e a vida; assim como em Adão todos morrem, em Cristo recebem vida os que lhe pertencem. A relação é geracional e representativa.

Isso importa porque o problema humano não é descrito primariamente como o de uma criatura neutra disputada por dois seres espirituais. O homem nasce dentro de uma condição derivada daquele de quem procede. A porta larga, nessa perspectiva, não é Satanás: é Adão, por quem todos os homens vêm ao mundo ao abrir a madre. E a porta estreita não é simplesmente “Deus” em oposição ao diabo: é Cristo, o último Adão, aquele por quem se entra na nova criação mediante o novo nascimento. A servidão muda de natureza — já não se trata de uma montaria possuída por um cavaleiro, mas de um homem pertencente a uma ordem da qual precisa ser libertado.

A pena do Éden foi a morte

Gênesis torna a distinção ainda mais aguda. Antes da transgressão, Adão dispunha de verdadeira possibilidade de escolha: “De toda árvore do jardim comerás livremente.” Havia pluralidade real de objetos disponíveis, e entre eles estava também a árvore do conhecimento do bem e do mal. O primeiro homem, portanto, não pode ser descrito pela figura do jumento como criatura que jamais possuiu escolha: antes da queda havia vontade, alternativas e poder correspondente.

E quando Deus estabelece a consequência da transgressão, declara: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás.” A sentença anunciada é a morte. O texto não diz “perderás a capacidade de decidir”, nem “tua vontade passará a ser montada por Satanás”, nem “jamais poderás responder à minha palavra até que eu secretamente mova teu querer”. A pena revelada foi a morte — e uma teologia da incapacidade não pode inserir na sentença do Éden uma pena adicional que o texto não enuncia. É disso que Lutero precisa, e é isso que Gênesis 2:17 não lhe concede.

Caim: um alerta dirigido a um homem já sob o pecado

O que Gênesis não anuncia como pena, o capítulo seguinte confirma pela prática. Caim é o primeiro homem gerado fora do jardim, já na condição derivada da primeira ofensa — e é a ele, não a Adão inocente, que Deus dirige estas palavras:

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.” (Gênesis 4:7).

A frase reconhece o domínio antes de ordenar qualquer coisa. “Jazer à porta” não descreve uma ameaça agachada, à espreita de um homem ainda ileso: a porta é o lugar onde se exerce domínio — é ali que os anciãos se assentam e os juízos se pronunciam (Jó 29:7) —, e o pecado ali jaz porque ali reina. Caim não escolheu esse senhorio; recebeu-o com o nascimento, do mesmo modo que todos os que procedem de Adão. Nisso, a figura do jumento tem o que lhe é devido: o cavaleiro não foi selecionado pela montaria.

E é precisamente ao homem assim descrito que a palavra se dirige com um imperativo. O desejo de que o texto fala é o do próprio Caim — sua inclinação, seu ressentimento, o querer que dentro em pouco se levantaria contra o irmão —, e é sobre ele que a ordem incide: “sobre ele deves dominar.” Deus não promete a Caim que o domínio do pecado cesse mediante seu esforço, nem lhe atribui poder para produzir a justiça que o libertaria dessa condição. Ordena-lhe algo bem mais modesto, e por isso mesmo decisivo: que domine o próprio desejo. A servidão permanece onde a Escritura a coloca — na condição e no poder de realização —, sem que o querer seja convertido numa faculdade movimentada em segredo por outro agente.

Tampouco há aqui aceitação por obras. Se “fazer bem” significasse produzir a justiça pela qual o homem se torna aceito, o versículo destruiria a própria justificação pela fé — e Abel não teria sido aceito por ter oferecido “pela fé” um sacrifício mais excelente (Hebreus 11:4). O contraste entre os dois irmãos não opõe realização a realização, mas fé a incredulidade: aquilo que separa suas ofertas é aquilo mesmo sem o qual é impossível agradar a Deus.

Note-se ainda o que o texto não faz. Deus não aguarda mover secretamente o querer de Caim para então falar-lhe; fala primeiro, e é a palavra que põe diante dele aquilo que antes não estava disponível ao seu conhecimento. Sob a figura do jumento, essa fala seria dirigida a uma montaria incapaz de qualquer resposta enquanto não fosse tomada por outro cavaleiro, e a advertência “sobre ele deves dominar” descreveria uma tarefa que o próprio Deus houvesse tornado impossível ao destinatário.

O desfecho, por fim, impede que se leia no episódio um otimismo que ele não contém: Caim não dominou. Levantou-se contra seu irmão e o matou. A passagem não promete vitória ao homem nem lhe reconhece potência para emancipar-se do senhorio sob o qual nasceu. Estabelece outra coisa, menor e suficiente: Deus dirige sua palavra a quem está sob o domínio do pecado, e trata a resposta como resposta. A eficácia continua pertencendo àquele que fala; a imputação, àquele que ouve.

A escravidão é real, mas não precisa ser localizada na vontade

Nada disso nega a escravidão produzida pelo pecado. A questão é onde ela incide. Paulo pode dizer, na mesma frase, que “o querer está em mim” e que “não consigo realizar o bem” — e é essa simultaneidade que permite compreender a servidão sem converter o querer numa faculdade secretamente movimentada por outro agente. O pecado governa o homem em sua condição e impede que ele produza a justiça capaz de libertá-lo. O escravo não realiza a própria emancipação. Mas da incapacidade de realizar não se deduz a incapacidade de ouvir uma palavra de libertação e aquiescer a ela.

A analogia jurídica ajuda. Um escravo pode desejar a liberdade e permanecer incapaz de conquistá-la: seu desejo não rompe as correntes, seu conhecimento não anula o título do senhor, sua decisão interior não produz juridicamente a emancipação. Para que seja livre, é preciso que ocorra algo que ele não pode realizar por si. Por isso o evangelho não diz “produza sua libertação”. Diz: “creia.” A libertação é obra de outro.

Mas e o escravo que não quer sair?

Aqui surge a objeção mais forte de que Lutero disporia. Nem todo escravo deseja a liberdade: há quem se acomode à condição em que vive, ame o senhorio a que está submetido ou prefira a situação conhecida à liberdade oferecida. E a própria Escritura descreve homens que preferiram as trevas à luz, ao referir-se à rejeição por parte da nação de Israel (João 3:19). Se o homem se sujeita espontaneamente ao senhorio em que está, por que responderia à palavra que o convoca a sair?

A resposta exige antes esclarecer o sentido do “amor” ali envolvido. Quando João diz que os homens “amaram mais as trevas do que a luz”, não é preciso entender ἀγαπάω como sentimento irresistível produzido pela natureza. O uso bíblico associa amar a servir, honrar e sujeitar-se: “se me amais, guardai os meus mandamentos”; “ninguém pode servir a dois senhores”, amando um e aborrecendo o outro. Amar as trevas descreve sujeição, não uma substância psicológica implantada na vontade.

Ainda assim, a objeção sobrevive, e em forma melhor: se o homem já está sujeito às trevas, pode decidir deixar de sujeitar-se quando a luz lhe é anunciada? Essa é a pergunta correta — e ela não será respondida pela metáfora do jumento, que apenas pressupõe aquilo que deveria demonstrar, a saber, que a montaria não pode responder a outro senhorio enquanto não for previamente tomada pelo novo cavaleiro. A questão terá de ser decidida pela Escritura.

O evangelho não oferece dois cavalos; dá uma ordem a quem já está em marcha

É neste ponto que a diferença entre escolher e decidir se torna decisiva. O homem não está parado entre Adão e Cristo. Já entrou por Adão e segue por um caminho largo que conduz à perdição — caminho que Adão inaugurou ao desobedecer a Deus e comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não lhe são exibidos dois caminhos como produtos equivalentes entre os quais possa optar: ele está no caminho largo porque não teve como escolher de quem descenderia.

Então lhe chega uma palavra: “Reconciliai-vos com Deus.” “Arrependei-vos e crede no evangelho.” “Entrai pela porta estreita.” “Quem tem sede venha.” Essas fórmulas não pressupõem autonomia salvadora; pressupõem destinatário. E uma ordem dirigida a alguém só funciona como ordem porque solicita resposta. Nesse instante não se pede ao homem que produza vida, justiça, regeneração ou ressurreição. Pede-se que aquiesça ao que lhe é anunciado.

Daí a pertinência singular da formulação de Isaías:

“Voltando e descansando sereis salvos; no sossego e na confiança estaria a vossa força” (Isaías 30:15).

A fé não é a vis de Erasmo — é precisamente o seu contrário. Não é força de aplicação, mas descanso; não é realizar, mas confiar naquilo que outro realiza. A objeção de Lutero atinge, portanto, um alvo que o evangelho não exige. Se a pergunta for se o homem tem força para realizar aquilo que o salva, a resposta é não. Mas se a pergunta for se, quando Deus anuncia o que realizou e ordena que o homem confie, é necessário possuir uma força salvadora para deixar de resistir e aquiescer — essa já é outra questão.

A verdadeira divergência aparece agora

Pode-se, assim, conceder a Lutero muito mais do que habitualmente se concede: que o homem não escolheu nascer em Adão; que não escolheu inicialmente entre a porta larga e a estreita; que não possui força para produzir a própria libertação; que não pode realizar a justiça mediante a qual se justificaria; que não pode regenerar-se; e que não é coagido a pecar contra aquilo que deseja, mas age voluntariamente. Tudo isso é concedido sem reservas.

A divergência se concentra, portanto, num único ponto: quando a palavra de Deus põe diante do homem aquilo que antes não lhe estava disponível e lhe ordena responder, essa resposta é possível sem uma moção secreta anterior sobre a vontade? Lutero diz que não. A resposta que aqui se sustenta é que sim — não porque exista no homem uma força autônoma capaz de produzir aquilo que Deus promete, mas porque responder à palavra nunca foi produzir o efeito que a palavra anuncia. O próprio Éden o mostrará adiante: Adão respondeu à sentença que lhe fora dita e nem por isso produziu a morte que sobreveio. A eficácia pertencia à palavra; a resposta, a ele.

Permanece de pé, assim, a distinção que atravessou toda esta seção e que Romanos 7:18 enuncia sem rodeios: uma coisa é o querer, outra é o realizar. E se é o próprio apóstolo quem os separa, então a controvérsia entre Erasmo e Lutero pode ter sido mal formulada desde o primeiro instante — pois foi erguida sobre uma definição que tratava o livre-arbítrio precisamente como força de aplicação. É essa definição que precisa ser examinada agora.

4. Romanos 7:18 e a definição que Erasmo e Lutero aceitaram juntos

A controvérsia inteira repousa sobre uma definição que os dois adversários subscreveram. Erasmo definiu o livre-arbítrio como

vis humanae voluntatis, qua se possit homo applicare ad ea quae perducunt ad aeternam salutem, aut ab iisdem avertere.

isto é, como força da vontade humana mediante a qual o homem poderia aplicar-se às coisas que conduzem à salvação eterna ou afastar-se delas. Lutero negou que tal vis existisse, mas não contestou a definição do objeto em disputa: assumiu-a como o campo de batalha de De servo arbitrio. Tanto assim que, ao encerrar a obra, elogia Erasmo por haver atingido o cardo rerum, a dobradiça da questão — não papado, indulgências ou purgatório, mas aquilo que a vontade humana pode fazer diante de Deus.

O elogio é justo quanto à importância do tema e cego quanto ao vício da formulação. Pois a definição já traz consigo uma fusão que o apóstolo Paulo não faz:

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.”

No grego a separação é ainda mais nítida: τὸ θέλειν, o querer, e τὸ κατεργάζεσθαι, o realizar, o produzir, o efetuar. O primeiro está presente; o segundo falta. Paulo não conclui que, faltando-lhe poder para realizar, também lhe falte vontade — diz exatamente o contrário: “o querer está em mim.” É por aí que a definição aceita por ambos precisa ser desmontada.

Querer não é realizar

A expressão vis humanae voluntatis converte a vontade em força de aplicação, e com isso pressupõe que querer algo seja possuir, ao menos em alguma medida, a potência de realizá-lo. Romanos 7:18 demonstra que não. E o demonstra no homem sob a lei, e não no regenerado: o “eu” que assim fala é o que se declara “carnal, vendido sob o pecado” (Romanos 7:14), como se verá na segunda parte. Um homem pode querer sem poder realizar, desejar sem dispor dos meios, consentir com uma verdade e permanecer incapaz de produzir o efeito correspondente.

Emergem daí três coisas que jamais deveriam ter sido reunidas numa só faculdade: a vontade, que deseja; a decisão, pela qual o homem responde ao que lhe é apresentado; e o poder de realização, pelo qual aquilo que se deseja é efetivamente produzido. A distinção não foi importada da filosofia para dentro do texto — é o próprio apóstolo quem separa o querer do realizar.

E isso altera a pergunta que governou toda a controvérsia. Se a salvação dependesse de o homem produzir aquilo que o salva, Lutero teria razão em perguntar pela vis: seria preciso descobrir que potência existe na vontade capaz de gerar vida, romper a escravidão do pecado, justificar o culpado e produzir uma nova criatura. Mas o evangelho não exige que o homem produza nenhuma dessas coisas — Deus é quem as produz. A pergunta bíblica, portanto, não é que força existe na vontade para gerar salvação, e sim que força é necessária para confiar naquilo que Deus promete realizar. A resposta pode perfeitamente ser: nenhuma força de realização.

O Éden já havia mostrado a diferença

O princípio é anterior à redenção. Adão não dispunha de potência autônoma para produzir a própria morte, e a narrativa não apresenta a árvore do conhecimento do bem e do mal como planta venenosa cuja composição destruiria o corpo humano. A consequência estava vinculada àquilo que Deus havia anunciado: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Adão comeu — mas não produziu a morte. Respondeu à palavra pela incredulidade e pela desobediência; a eficácia da sentença estava na palavra de Deus.

A sequência é sempre a mesma: palavra de Deus, condição anunciada, resposta do homem, efeito estabelecido por Deus. O poder não estava em Adão; estava na palavra. E é isso que desfaz a falsa alternativa em que a discussão costuma encalhar — ou o homem possui uma potência autônoma, ou Deus precisa mover-lhe secretamente o querer antes que possa responder. O Éden exibe uma terceira estrutura: Adão pôde responder sem possuir em si o poder correspondente ao efeito produzido. A resposta foi dele; a eficácia da sentença, de Deus.

O evangelho inverte a direção da sentença e conserva a estrutura. No Éden: “se comeres, morrerás.” No evangelho: “quem crê tem a vida eterna.” Em nenhum dos dois casos o homem produz o resultado anunciado — o incrédulo não cria a morte, o crente não cria a vida. Daí que Paulo não descreva a fé como capacidade humana de realizar salvação, mas escreva: “o evangelho de Cristo […] é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16).

A pergunta que decide a controvérsia é, então, onde está a δύναμις. Lutero procura uma vis na vontade humana, não a encontra e conclui que o homem não pode aplicar-se à salvação. Mas a Escritura não diz que a vontade humana é poder para salvação; diz que o evangelho é poder de Deus para salvação. A ausência de vis no homem pode ser inteiramente verdadeira e, ainda assim, irrelevante para o ato de crer — porque a potência necessária já está na palavra anunciada.

Fé não é uma obra diminuída

Convém não escapar da dificuldade rebaixando a fé à condição de obra pequena. Se crer fosse apenas uma obra mais fácil que as demais, Lutero poderia responder, com razão, que continuamos atribuindo ao homem alguma participação causal na salvação. Paulo, porém, não gradua obras: opõe-nas à fé.

“Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Romanos 4:4-5).

O texto não fala de quem pratica uma obra chamada fé. Fala de quem “não pratica, porém crê”. Crer está posto em oposição ao realizar — e por isso a formulação de Isaías é tão exata quanto irônica diante da vis: “em vos converterdes e em repousardes estaria a vossa salvação; no sossego e na confiança estaria a vossa força” (Isaías 30:15). A força, quando o profeta a nomeia, consiste em sossego e confiança. Perguntar pela força da vontade para aplicar-se à salvação já supõe uma salvação que exige aplicação de força; o evangelho exige confiança naquele que realiza.

O pecado pode governar o realizar sem produzir cada querer

A mesma distinção esclarece o sentido da escravidão. Dizer que o homem é escravo do pecado não obriga a concluir que todo desejo seu seja produzido pelo pecado, à maneira de um cavaleiro que movimenta a montaria. Romanos 7:18 oferece descrição mais precisa: o querer permanece enquanto o realizar está sob senhorio. O sujeito quer o bem e não consegue efetuá-lo. O domínio do pecado é, assim, absolutamente real, sem que a vontade precise ser convertida numa faculdade desprovida de qualquer querer contrário ao senhorio que a domina — como o escravo que deseja a liberdade e continua escravo, porque o desejo não rompe o vínculo jurídico nem produz emancipação.

É justamente aí que a cruz se torna indispensável. Paulo não diz que o escravo se liberta mediante uma decisão suficientemente enérgica; diz que o velho homem precisa morrer:

“sabendo isto: que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Romanos 6:6-7).

A libertação se realiza na morte com Cristo, não na força da vontade. Afirmar que a vontade pode responder à palavra não é, portanto, torná-la capaz de quebrar as próprias correntes.

A resposta não produz aquilo a que responde

Eis o princípio que precisa ser conservado do início ao fim: responder à palavra não é produzir aquilo que a palavra oferece. Adão respondeu à primeira palavra pela incredulidade e não produziu a morte. Abraão creu na promessa e não produziu o filho. Israel devia confiar no Deus que o libertaria e não produziu o êxodo. O pecador crê no evangelho e não produz regeneração, justificação ou vida eterna.

Em todos esses casos a resposta humana e a eficácia divina se distinguem sem competir entre si — o que permite recusar as duas posições extremas. De um lado, não há no homem uma vis autônoma pela qual realize a salvação. De outro, não é preciso supor uma moção secreta anterior que produza nele o próprio ato de aquiescer. A palavra é eficaz; o homem a ouve; a resposta não fornece poder à palavra, apenas o coloca sob aquilo que ela anuncia.

Então, quem faz a diferença?

Aqui costuma erguer-se a objeção: se dois homens ouvem o mesmo evangelho e apenas um crê, quem fez a diferença? A pergunta traz uma premissa escondida — a de que, estando a diferença na resposta do ouvinte, aquele que creu deve possuir alguma qualidade superior pela qual mereceu a salvação. Mas isso não se segue. Dois homens podem receber a mesma ordem, e um sujeitar-se enquanto o outro resiste, sem que a sujeição constitua mérito. Quem capitula diante de um rei não pode gloriar-se de haver conquistado o reino: a capitulação é precisamente o abandono da pretensão de resistir.

Do mesmo modo, crer não é apresentar algo a Deus, mas deixar de apresentar; não é produzir justiça, mas confiar naquele que justifica o ímpio; não é realizar, mas descansar. A diferença entre quem crê e quem não crê está na sujeição ou na resistência à palavra, não numa potência salvadora presente em um e ausente no outro. Guardemos essa observação, porque ela voltará quando chegarmos à chamada clareza interna de Lutero — ponto em que a eficácia da palavra é deslocada daquilo que se prega para uma iluminação anterior no ouvinte.

O ponto em que Erasmo e Lutero erraram juntos

Erasmo queria preservar uma força na vontade; Lutero queria destruí-la. Ambos concordaram que era necessário haver uma força para que o homem se aplicasse ao que conduz à salvação, e é essa premissa comum que Romanos 7:18 põe em questão: e se a salvação não exigir tal força, precisamente porque querer e realizar são coisas distintas? Nesse caso, Lutero está certo ao negar a vis e errado ao concluir, da ausência dela, a impossibilidade de crer. A fé não é aquilo que realiza a obra; repousa naquele que a realiza.

O problema de De servo arbitrio, portanto, talvez não comece na resposta que Lutero deu a Erasmo. Começa na pergunta que ambos aceitaram. A controvérsia foi procurar força onde o evangelho havia posto descanso.

E é exatamente aqui que a tese luterana revela sua dificuldade maior. Para sustentar que nem mesmo a aquiescência pode ocorrer sem uma ação anterior de Deus sobre a vontade, Lutero precisa avançar para além da ausência de vis: precisa afirmar que o próprio querer do agente é movido pela onipotência divina. É o que faz no caso de Judas —

velle illud erat opus Dei, quod omnipotentia sua movebat.

“Aquele querer era obra de Deus, que sua onipotência movia.”

Já não se discute, portanto, o que o homem pode fazer, mas o que Deus faz no querer humano. E é nesse terreno que Jeremias apresenta a frase que dá título a este estudo.

5. “Aquele querer era obra de Deus”: quando a onipotência passa a causar o querer

Até aqui foi possível manter separadas duas questões que costumam aparecer misturadas: uma coisa é afirmar que Deus conhece aquilo que acontece; outra, bem diversa, é afirmar que Ele produz o querer pelo qual a criatura pratica aquilo que acontece. No caso de Judas, Lutero não se detém no primeiro plano:

Si praescivit Deus, Iudam fore proditorem, necessario Iudas fiebat proditor […] licet id fecerit volendo, non coactus; sed velle illud erat opus Dei, quod omnipotentia sua movebat, sicut et omnia alia.

Judas realizou a traição querendo, não coagido; e, contudo, acrescenta Lutero, “aquele querer era obra de Deus, que sua onipotência movia, como todas as demais coisas”.

A frase muda a natureza da controvérsia. Já não basta responder que o conhecimento divino da traição não a causou: Lutero pode conceder inteiramente essa distinção e preservar sua conclusão por outro caminho, pois é o próprio querer de Judas que ele coloca sob a ação da onipotência. O argumento de De servo arbitrio anda, portanto, sobre duas pernas — Deus prevê infalivelmente, logo o acontecimento é necessário; e Deus opera todas as coisas, de modo que até o querer pelo qual o agente atua é movido por sua onipotência. Derrubada a primeira, a segunda continua de pé. É ela que precisa agora ser examinada.

O problema não é a sustentação da criatura

Convém precisar de saída aquilo que não está em discussão. Toda criatura depende de Deus para existir, e nenhum ato humano ocorre fora da criação, da providência ou da sustentação divina. Não se pergunta aqui se Judas poderia existir, respirar, pensar ou agir sem que Deus lhe sustentasse a existência. A questão é mais estreita e mais grave: a vontade concreta de trair foi positivamente produzida pela onipotência divina?

Há diferença entre dizer que Deus sustenta o agente que age e dizer que Deus move o querer pelo qual o agente deseja precisamente o mal que pratica. Lutero afirma a segunda coisa — e é por isso que a responsabilidade de Judas não resolve, sozinha, o problema. Dizer que Judas agiu voluntariamente demonstra apenas a ausência de coação, e isso Lutero já havia concedido. A pergunta permanece intacta: de quem procede esse querer? Se o velle é opus Dei, a discussão deixa de versar sobre a escravidão humana e passa a versar sobre a autoria atribuída a Deus.

Efésios 1:11 não pode ser retirado de Efésios 1:10

Um dos textos habitualmente convocados para sustentar uma operação divina universal é Efésios 1:11: “conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade.” Lido isoladamente, o “faz todas as coisas” converte-se com facilidade numa proposição metafísica sem fronteiras — Deus causa cada acontecimento e cada volição particular porque opera absolutamente tudo.

Mas o versículo não começa em si mesmo. Paulo acabara de definir, na frase anterior, em que consiste o propósito: “tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:10). A repetição de τὰ πάντα entre os dois versículos não deveria passar despercebida. No v. 10, “todas as coisas” tem objeto expressamente delimitado: a recapitulação de tudo em Cristo. No v. 11, Paulo prossegue falando daquele que opera segundo o conselho de sua vontade dentro desse mesmo propósito.

A leitura contextual mais natural, portanto, não é que Deus produza cada volição humana, boa ou má, mas que opera todas as coisas concernentes ao propósito que acabara de anunciar — reunir tudo em Cristo. Quem pretende universalizar o versículo assume um ônus que raramente reconhece: explicar por que a mesma expressão mudaria de referente entre duas linhas consecutivas.

Propósito, vontade e misericórdia não são a mesma coisa

Aqui é preciso evitar outra fusão. Que Deus possua um propósito eterno não implica que toda manifestação de sua vontade seja idêntica a esse propósito, nem que toda ação misericordiosa sua seja mera execução de um decreto individual anterior. A Escritura conserva as distinções: o propósito diz respeito àquilo que Deus estabeleceu em Cristo, a preeminência do Filho e a reunião de todas as coisas nele; a vontade se manifesta também em declarações como a de que Deus “quer que todos os homens sejam salvos, e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4); e a misericórdia diz respeito ao resgate do homem de sua condição de pecado.

Confundir essas categorias é o que permite extrair de Efésios 1:11 aquilo que o texto não precisa dizer: que cada pecado, desejo e decisão humana existe porque Deus positivamente o quis e moveu aquele querer. A distinção importa sobretudo porque o propósito eterno pode cumprir-se apesar do pecado, sem que o pecado precise ser convertido em parte produzida por esse mesmo propósito. Deus vence a oposição sem ser autor da oposição; cumpre o que determinou apesar da desobediência, sem que daí se conclua que produziu a desobediência que superou.

Judas é o teste

O caso de Judas torna o problema concreto. Jesus declara que “o Filho do Homem vai, como acerca dele está escrito” — o acontecimento havia sido anunciado — e acrescenta: “ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído” — a responsabilidade do traidor permanece intacta. Acrescente-se agora a terceira proposição, a de que o querer pelo qual Judas traiu era obra de Deus movida pela onipotência, e a pergunta se impõe: por que o “ai” recai moralmente sobre Judas, se o próprio velle da traição foi positivamente produzido pela onipotência daquele que depois o julga?

Responder que Judas quis não adianta, pois a tese de Lutero é precisamente que ele quis porque o querer foi movido — e a necessidade não deixa de ser necessidade pelo fato de a criatura sentir o movimento como vontade própria. O que se requer, neste ponto, é um texto em que Deus não apenas condene o ato, mas fale da relação entre aquele ato e a sua própria vontade. Jeremias oferece exatamente isso.

“Nem me veio ao pensamento”

Ao denunciar os sacrifícios de crianças a Baal, Deus declara:

“Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento (Jeremias 19:5; cf. 7:31; 32:35).

A sentença não é uma simples proibição moral. Deus não diz apenas “eu proibi isso”: apresenta uma progressão de três negativas, e cada uma alcança um plano diferente.

A primeira recai sobre o mandamento — “nunca lhes ordenei”. Deus não instituiu aquela prática. Se o texto parasse aqui, ainda seria possível recorrer à distinção conhecida: Deus não a ordenou em sua vontade revelada, mas poderia tê-la determinado em sua vontade secreta.

A segunda amplia o campo — “nem falei”. Não houve palavra divina da qual aquela prática pudesse ser extraída; não se trata do mero silêncio de um preceito, mas da negativa de que o ato tenha procedido daquilo que Deus comunicou.

A terceira é a decisiva — “nem me veio ao pensamento”. A expressão não afirma que Deus desconhecesse a possibilidade de tais sacrifícios ou que fosse cognitivamente surpreendido por eles; esse não é o seu sentido. O que ela nega é que aquela prática tenha procedido do desígnio, da intenção ou da vontade divina. Deus não está dizendo “eu sabia que fariam, mas não mandei”: está recusando que se lhe atribua o ato. Daí a força da progressão — não ordenei, não falei, não veio ao meu pensamento. O argumento da passagem não é a ignorância de Deus quanto ao futuro; é exatamente o contrário. Deus nega que aquele mal tenha origem em sua vontade. Em Jeremias 32:35, a mesma negativa volta com outra imagem, “nem veio ao meu coração”, o que afasta ainda mais a ideia de que essa prática tivesse lugar numa vontade oculta. E não se trata de uma inferência sobre presciência, mas de uma declaração de Deus a respeito de um ato humano específico — cuja tríplice negativa alcança justamente o lugar onde uma moção divina do querer precisaria ser situada.

O problema para o velle illud erat opus Dei

Ponham-se as duas afirmações lado a lado. Lutero: “aquele querer era obra de Deus, que sua onipotência movia.” Jeremias: “nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento.”

Se todo querer mau fosse, no sentido proposto por Lutero, opus Dei quod omnipotentia sua movebat, seria forçoso dizer que também o querer daqueles que queimaram os próprios filhos foi movido pela onipotência divina. Mas é precisamente essa atribuição que Deus recusa.

E as saídas usuais não alcançam o problema. Não basta dizer que Deus não aprovou o ato: a questão não é aprovação, é causalidade do querer. Tampouco basta dizer que Deus permitiu que agissem conforme seus desejos, pois permissão e moção são categorias distintas — se Deus apenas permite, a fórmula segundo a qual o querer concreto é positivamente movido pela onipotência já foi abandonada. Resta insistir que foi Deus quem moveu aquele velle; nesse caso, porém, é preciso explicar como Deus poderia dizer, ao mesmo tempo, “não veio ao meu pensamento” e “o querer pelo qual fizeram isso era obra minha, movida por minha onipotência”. Essa conciliação precisa ser demonstrada, não pressuposta.

Não se trata da “vontade de preceito”

A resposta previsível consiste em distinguir aquilo que Deus ordena daquilo que secretamente decreta. Mas Jeremias 19:5 é particularmente hostil a essa solução, porque não permanece no plano do preceito. A primeira expressão — “não ordenei” — poderia, sim, ser classificada como vontade revelada. A terceira ultrapassa esse nível: “nem me veio ao pensamento.” Aqui é o próprio Deus quem fala da relação daquele ato com sua vontade. Não estamos deduzindo o secreto a partir do mandamento; estamos ouvindo Deus recusar a atribuição.

O Deus oculto ainda poderia resolver?

Resta a Lutero uma última proteção conceitual. Diante da tensão entre aquilo que Deus revela e aquilo que a necessidade parece exigir, ele distingue o Deus pregado do Deus escondido: aquele chama, promete, oferece, lamenta e roga; este permanece fora do alcance da investigação humana.

Quatenus igitur Deus sese abscondit et ignorari a nobis vult, nihil ad nos.

Enquanto Deus se esconde e quer ser por nós ignorado, nada disso nos diz respeito.

Jeremias, porém, cria uma dificuldade específica para esse recurso. Se o Deus escondido é, por definição, aquilo sobre o que não devemos falar, ele não pode ser invocado para contradizer o que o Deus revelado acaba de afirmar a respeito de si mesmo. E há um problema maior: Lutero não deixa o Deus escondido em silêncio. Atribui-lhe conteúdo — diz que prevê, que propõe, que faz, que move o querer. Nesse instante, o oculto deixa de ser uma região que desconhecemos e se torna uma afirmação positiva sobre a ação de Deus. E toda afirmação positiva acerca de Deus há de ser submetida àquilo que Deus revelou sobre si.

É aqui que Jeremias 19:5 deixa de ser objeção a uma passagem isolada e se torna a porta para a questão central deste estudo: pode uma vontade oculta ser empregada para atribuir a Deus aquilo que o próprio Deus declarou não proceder de sua vontade?

Responder a isso exige examinar a categoria mesma de Deus absconditus — e talvez seja aí que resida a divergência mais profunda. Porque a Escritura de fato fala de coisas ocultas em Deus. Resta perguntar o que ela chama de oculto: se o oculto bíblico permanece para sempre atrás do revelado, ou se é precisamente aquilo que esteve escondido e depois foi dado a conhecer.

6. O Deus escondido de Lutero e o oculto que a Bíblia revelou

A distinção entre o Deus pregado e o Deus escondido é uma das peças mais importantes de De servo arbitrio, e aparece exatamente onde a relação entre a vontade divina e aquilo que Deus ordena ou oferece aos homens se torna difícil de conciliar:

Quatenus igitur Deus sese abscondit et ignorari a nobis vult, nihil ad nos.

“Enquanto Deus se esconde e quer ser por nós ignorado, nada disso nos diz respeito.”

A função do dispositivo é clara. O Deus pregado pode chamar o pecador, oferecer misericórdia, declarar que não deseja a morte do ímpio e rogar que os homens se reconciliem com Ele — mas dessas declarações não se poderia concluir que a vontade divina eficaz corresponda universalmente ao anunciado, porque existiria também o Deus escondido, cuja vontade não deve ser investigada.

Ora, o problema não está em reconhecer que há coisas que Deus não revelou; a Escritura o afirma expressamente. A questão é outra: chama a Bíblia de “oculta” uma vontade divina que permanece simultaneamente por trás da vontade revelada e que pode determinar algo diverso daquilo que Deus fez conhecer? É essa categoria que precisa ser confrontada com a linguagem bíblica do oculto.

A Bíblia também fala de um Deus que se oculta

Não se responde a Lutero afirmando simplesmente que Deus nunca se esconde. Isaías declara: “Verdadeiramente tu és o Deus que te ocultas, o Deus de Israel, o Salvador” (Isaías 45:15). Deuteronômio estabelece que “as coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus” (Deuteronômio 29:29). E há momentos em que Deus esconde do povo a sua face. A ocultação é, portanto, categoria bíblica — o que ainda não demonstra que corresponda ao Deus absconditus de Lutero. É preciso perguntar como essa ocultação funciona na Escritura.

A primeira diferença salta aos olhos: a ocultação bíblica pode ser anunciada. Em Deuteronômio 31:17-18, Deus diz de antemão ao povo que esconderá o rosto — “esconderei totalmente o meu rosto naquele dia” — e declara a razão, “por todo o mal que tiver feito”. O paradoxo é apenas de superfície: Deus revela antecipadamente que se ocultará. A ocultação não constitui, pois, um domínio sobre o qual nada se possa dizer. Ela é pregada, tem causa declarada, pode ser conhecida antes de ocorrer — e chega a tornar-se objeto de confiança, como em Isaías: “Esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” (Isaías 8:17).

Repare-se no que o profeta faz. Isaías não espera em Deus apesar de nada saber sobre aquela ocultação: espera naquele que esconde o rosto porque sabe quem é esse Deus, sabe que Ele a anunciou e conhece a razão pela qual se oculta. Uma ocultação anunciada, motivada e capaz de sustentar a fé é outra coisa, e de outra natureza, que uma vontade por definição inacessível, cuja função seria explicar por que aquilo que Deus revelou não corresponde necessariamente ao que efetivamente determinou.

“As coisas encobertas pertencem ao SENHOR” — mas o versículo não termina aí
Deuteronômio 29:29 merece leitura inteira: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.”

É perfeitamente bíblico dizer que há coisas pertencentes somente a Deus. O problema começa quando a primeira oração é convertida em fundamento para neutralizar a segunda. O versículo não estabelece duas vontades concorrentes — uma revelada, que orienta o homem, e outra oculta, que secretamente determina o contrário. Estabelece uma distinção de acesso: quanto ao que Deus não revelou, não há base para especular; quanto ao revelado, “nos pertence […] para cumprirmos”. A função prática, moral e decisória é atribuída ao revelado.

A consequência para a discussão é direta. Se algo pertence verdadeiramente ao oculto de Deuteronômio 29:29, não pode ser usado para alterar o significado daquilo que foi revelado — do contrário faríamos precisamente o que o versículo impede, transformando o que não nos pertence em informação teológica pela qual reinterpretamos o que nos pertence. O oculto, enquanto realmente oculto, não pode operar como segunda chave de leitura da revelação: ele é justamente aquilo sobre o que não temos informação. Conservar “as encobertas pertencem ao SENHOR” e deixar de lado “as reveladas nos pertencem para cumprirmos” é inverter a finalidade do texto.

O oculto bíblico não permanece oculto para sempre

Há uma segunda diferença, ainda mais importante. Na Escritura, o oculto tem estrutura predominantemente temporal: esteve oculto, foi revelado. Paulo escreve do “mistério que esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” (Colossenses 1:26) — repare-se nos tempos verbais: esteve oculto, agora foi manifesto. O mesmo padrão fecha a carta aos Romanos: “conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora” (Romanos 16:25-26). E Pedro apresenta Cristo na mesma forma: “conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” (1 Pedro 1:20).

É a estrutura que já havíamos encontrado ao examinar πρόγνωσις: aquilo que estava antecipado no conhecimento e no conselho de Deus é posteriormente manifestado aos homens. A Bíblia não constrói o oculto como uma vontade que permanece eternamente por trás da revelação, mas como aquilo que ainda não fora revelado e que, no tempo determinado, foi dado a conhecer. Oculto então, manifesto agora — ao passo que o dispositivo luterano precisa de revelado aqui e oculto ali, ao mesmo tempo. A diferença não é de intensidade; são categorias distintas.

O oculto tem nome: mistério

A Escritura tampouco deixa indeterminado o conteúdo do oculto. Paulo lhe dá um nome: μυστήριον, mistério. Fala do “mistério da sua vontade” (Efésios 1:9) e da “dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus” (Efésios 3:9) – ARC. De modo que, à pergunta sobre o que estava oculto em Deus, a Escritura não nos obriga a responder que fosse uma vontade inescrutável acerca de quais indivíduos seriam eficazmente movidos e quais não. Paulo identifica o conteúdo, e o conteúdo é o propósito revelado em Cristo: Deus nos fez conhecer o mistério de sua vontade, o de “tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:9-10). O oculto tinha conteúdo — e esse conteúdo foi revelado.

O escondido está em Cristo, não atrás dele

Colossenses torna o argumento ainda mais preciso: “para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:2-3). A preposição decide a questão. Os tesouros estão escondidos em Cristo; não há no texto uma segunda vontade escondida atrás de Cristo, à qual devêssemos recorrer para descobrir o que Deus realmente quis quando Cristo falou. É o que se harmoniza com João 1:18: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” O invisível tornou-se conhecido no Filho.

Isso não significa que o homem passe a conhecer exaustivamente a essência divina, nem que cesse todo mistério, nem que toda pergunta sobre Deus tenha resposta. Significa algo mais restrito, e suficiente para esta controvérsia: não estamos autorizados a construir atrás do Filho uma vontade que desfaça aquilo que o Filho revelou acerca do Pai. Se Cristo diz “vinde a mim”, não cabe responder que talvez a vontade efetiva de Deus seja que alguns dos chamados não possam vir. Se Deus roga “reconciliai-vos comigo”, não cabe pôr atrás do rogo um decreto que determine a resistência daqueles a quem o rogo se dirige. E a razão não é conhecermos todas as coisas ocultas de Deus — é precisamente não as conhecermos. A revelação é o que possuímos, e o revelado deve governar aquilo que afirmamos acerca de Deus. O escondido está em Cristo, não atrás dele.

O oculto possui conteúdo, público e termo

Efésios 3 permite ir mais longe. Paulo explica que lhe foi dada a graça “de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério que desde os séculos esteve oculto em Deus” (Efésios 3:8-9) — “para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Efésios 3:10).

A construção merece atenção. Diante da expressão “oculto em Deus”, Paulo não conclui “não o investiguem”: conclui que recebeu a missão de “demonstrar a todos”. O oculto bíblico tem, portanto, estrutura bem definida — conteúdo, o propósito em Cristo; público, os homens, a igreja, os principados e potestades; meio de divulgação, o evangelho; e termo, esse “agora”. Aquilo que estava oculto existe precisamente para ser manifestado quando chega o tempo de sua revelação. Da mesma expressão, Paulo extrai uma missão; o Deus absconditus extrai uma interdição.

O mistério esteve oculto até para os profetas

Essa observação ajuda a delimitar o que o mistério oculto não era. Pedro não diz que os profetas desconheciam a graça por completo. Pelo contrário, diz que eles “profetizaram da graça” e que, a respeito dela, “inquiriram e trataram diligentemente” (1 Pedro 1:10). O tema, portanto, já estava nas Escrituras. O que ainda lhes escapava era a plena compreensão do que anunciavam: “que tempo ou que ocasião de tempo” o Espírito de Cristo indicava (1 Pedro 1:11), e até onde essa graça chegaria. Isso só seria revelado no evangelho: “que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo” (Efésios 3:6). É esse mesmo anseio de compreender que o versículo 12 expressa ao dizer que os “anjos desejam bem atentar” para essas coisas.

Paulo afirma que o mistério não foi dado a conhecer em outras gerações como agora foi revelado. O conteúdo escondido não era, pois, uma lista secreta de indivíduos a quem Deus faria crer e de indivíduos cuja incredulidade determinaria. O que estava oculto era como o propósito se realizaria em Cristo: como o Filho seria manifestado, como judeus e gentios seriam reunidos num só corpo, como o Unigênito seria também o primogênito entre muitos irmãos, como aquilo que fora anunciado em figuras e profecias encontraria cumprimento. O oculto bíblico pertence à história da revelação; não é uma segunda vontade que permanece para sempre inacessível depois que Cristo veio.

Não há dois Deuses

Convém formular a objeção sem atribuir a Lutero o que ele não afirma. Lutero não ensina dois deuses, e não se trata de acusá-lo de politeísmo ou de supor que tenha concebido duas divindades concorrentes. A dificuldade é estrutural. Quando se afirma que existe um Deus pregado, que quer, chama e oferece, e uma majestade escondida cuja vontade eficaz não pode ser inferida daquela oferta, estabelecem-se dois níveis de acesso à vontade do mesmo Deus — e é o segundo nível que precisaria ser demonstrado biblicamente. O problema não é a existência de coisas desconhecidas; é atribuir às desconhecidas um conteúdo determinado e depois empregá-lo para relativizar aquilo que é conhecido.

Um Deus verdadeiramente oculto seria silêncio

Daí uma distinção que me parece decisiva. Se Lutero houvesse dito apenas que há coisas acerca dos decretos divinos que não conhecemos e sobre as quais não devemos especular, não haveria o que objetar — é praticamente a função de Deuteronômio 29:29. Mas De servo arbitrio não permanece nesse silêncio. Afirma que Deus praevidet, proponit et facit, prevê, propõe e faz todas as coisas; e, no caso de Judas, que velle illud erat opus Dei, quod omnipotentia sua movebat.

Já não se fala, então, de algo desconhecido: tem-se diante de si uma descrição positiva da agência divina — e uma agência descrita pode ser examinada. Um Deus verdadeiramente desconhecido seria silêncio; um Deus do qual se afirma que prevê, propõe, faz e move determinado querer não está sendo deixado em silêncio. O recurso ao oculto, assim, consome a si mesmo: ele poderia impedir a especulação apenas enquanto nada disséssemos sobre o que está oculto. No instante em que lhe atribuímos causalidade, deixa de funcionar como limite epistemológico e passa a funcionar como doutrina positiva acerca de Deus. E doutrina positiva deve responder à revelação.

É exatamente aí que Jeremias volta

Agora a força de Jeremias 19:5 aparece por inteiro. A Ezequiel 18:23 e 33:11, Lutero ainda poderia responder que o Deus pregado não quer a morte do ímpio e que não nos cabe investigar a majestade escondida. Mas Jeremias não está apenas dizendo o que Deus manda: Deus fala ali da relação entre determinado ato e o seu próprio pensamento — “nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento”.

Responder que isso vale quanto ao Deus revelado, ao passo que a vontade oculta determinou o ato e moveu o querer pelo qual foi praticado, já não é respeitar o silêncio do oculto: é fazer uma afirmação sobre ele. E essa afirmação choca-se frontalmente com aquilo que Deus revelou acerca do próprio pensamento. É aqui que o dispositivo perde a função. O Deus oculto só poderia proteger aquilo que ignoramos; não pode ser usado para afirmar exatamente aquilo que Deus revelou não se dever atribuir a Ele.

O oculto bíblico não contradiz o revelado

Chegamos, então, à distinção fundamental. Há coisas ocultas em Deus — sim. Mas não temos autorização para convertê-las numa segunda revelação construída por inferência metafísica. O que não sabemos permanece com Deus; o que Deus revelou pertence a nós; e o que esteve oculto e Deus quis que conhecêssemos foi manifestado em Cristo e anunciado pelo evangelho.

Por isso a formulação adequada não é que haja um Deus pregado e um Deus escondido cujas vontades precisem ser sustentadas simultaneamente, mas que há um só Deus, que ocultou aquilo cujo tempo de manifestação ainda não havia chegado e que, chegada a plenitude dos tempos, revelou seu mistério em Cristo. O oculto era mistério; o mistério foi manifestado; e o que permanece não revelado não pode ser invocado para contrariar o que foi revelado.

É justamente nisso que a frase de Jeremias pesa tanto nesta controvérsia. “Nem me veio ao pensamento” não pretende revelar todos os pensamentos de Deus. Faz algo muito mais simples: exclui um pensamento específico. E, uma vez que Deus o excluiu, não podemos recuperá-lo sob o nome de vontade oculta.

“Nem me veio ao pensamento”: um contraponto à vontade oculta de Lutero (Parte 2)

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