Colossenses 1 – A expressa imagem do Deus invisível

Quando Paulo e o escritor aos Hebreus afirmam que Jesus é a “imagem do Deus invisível” ou a “expressa imagem da sua pessoa”, referem-se ao Cristo ressurreto e glorificado, e não simplesmente ao Cristo encarnado em sua condição de humilhação entre os homens.


A expressa imagem do Deus invisível

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;” (Colossenses 1:15).

O capítulo 1 de Colossenses contém uma das mais precisas exposições sobre a obra de Jesus Cristo crucificado, tema central do evangelho, bem como uma descrição magnífica da pessoa de Jesus Cristo ressurreto, agora com corpo glorificado (2 Coríntios 5:16). A alusão ao corpo glorificado do Cristo ressurreto — a expressa imagem e semelhança do Deus invisível — oferece aos salvos um vislumbre do corpo que herdarão quando o corpo mortal for revestido de glória e imortalidade, questão também levantada pelo apóstolo João (1 João 3:1–2; Colossenses 3:4).

A carta aos Colossenses segue o mesmo padrão observado em outras epístolas paulinas: as questões essenciais são apresentadas no início e, ao longo da exposição, são retomadas, explicadas e desenvolvidas com maior profundidade.

Um novo reino

13 — “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor”;

Deus arrebatou Paulo, Timóteo e todos os cristãos da autoridade (ἐξουσία) das trevas. O termo grego ἐξουσία deve ser compreendido como poder conferido, isto é, uma delegação de autoridade dentro de uma jurisdição específica — neste caso, as trevas, considerando que “o mundo jaz no maligno” (1 João 5:19). Assim, o próprio Deus resgatou todos os que creram desse poder a serviço das trevas e os transportou para o reino de seu Filho, evidenciando uma mudança essencial de domínio, agora vinculada a uma realeza:

“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.”
(1 Pedro 2:9; cf. Atos 26:18)

Essa distinção é importante, pois o reino do Filho pressupõe soberania, autoridade e governo, impondo um senhorio que não opera por mera delegação, mas por domínio próprio. Por isso, Paulo designa Jesus como o “Filho do seu amor”, destacando que o reino para o qual os cristãos foram transportados pertence ao Filho amado de Deus (Mateus 3:2).

A diferença entre ἐξουσία e βασιλεία torna-se ainda mais evidente quando se considera Colossenses 2:15, texto que remete ao poder exercido pelas lideranças religiosas do judaísmo. Trata-se de um poder e domínio que não possui vínculo com Deus, visto que o próprio povo rejeitou o governo divino ao pedir um rei, como declarado a Samuel: “não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1 Samuel 8:7). Se a base do governo dos líderes de Israel estava apoiada em ordenanças de homens, então não procedia de Deus, mas vinculava-se às trevas (Efésios 2:2).

Portanto, a “potestade das trevas” não deve ser confundida com as autoridades civis às quais os cristãos devem sujeitar-se, isto é, os poderes constituídos por Deus entre os reinos da terra (Romanos 13:1–7; Tito 3:1). Também não se refere, nesse contexto, aos demônios, mas àqueles que se assentavam na cadeira de Moisés e ensinavam mandamentos de homens (Mateus 23:2). Essa perspectiva torna-se mais clara em Colossenses 2:15, quando Paulo critica aqueles que julgavam os cristãos com base em critérios próprios da ótica judaizante.

Ao tratar da nação judaica e de seus líderes, o evangelista João evidencia por que a ἐξουσία era um poder conferido. Cristo manifestou-se como a luz do mundo, conforme predito pelos profetas; contudo, os homens — seus próprios concidadãos segundo a carne — amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras não eram feitas em Deus e, por isso, eram essencialmente más (João 3:19–21).

O domínio próprio do reino de Cristo, tratado neste versículo, não se refere a um evento exclusivamente futuro, nem diz respeito ao futuro reino de Israel, cujo trono de Davi pertence a Cristo. Antes, trata-se de uma autoridade efetiva no presente, realidade própria dos cristãos ainda neste mundo, visto que, em Cristo, tudo se fez novo. Quando Paulo agradece pela idoneidade concedida aos santos, é porque, assim como Cristo é, os cristãos também são neste mundo: filhos de Deus e herdeiros conforme a promessa (1 João 4:17; 3:1–2).

O que ocorreu com os cristãos também ocorreu com o próprio apóstolo: todos foram resgatados do domínio das trevas e transportados para o reino de Cristo. A única diferença entre Paulo e os demais cristãos está no serviço que ele desempenhava, isto é, no ministério apostólico que lhe foi confiado, pois a redenção decorre de um único ato de graça comum a todos os que estão em Cristo (Colossenses 1:25).

Esse ministério apostólico, entretanto, difere da ideia de “ministério apostólico” divulgada em alguns contextos atuais, em que muitos se autocomissionam e se intitulam apóstolos. No caso de Paulo, o ministério não foi assumido por iniciativa própria, mas recebido por comissão divina, segundo a vontade de Deus e em conformidade com a revelação de Cristo.

A redenção em Cristo

14 — “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados”;

Deus concede aos homens a redenção por intermédio do “Filho do seu amor”. Quando se afirma que essa redenção se dá “pelo sangue”, não se deve compreender a expressão como referência isolada ao sangue enquanto tecido vivo, fluido e especializado que circula pelo sistema cardiovascular. No contexto do evangelho, “sangue” funciona como elemento representativo da crucificação, assim como a cruz, o sofrimento, a morte, a sepultura e a ressurreição de Cristo.

Nesse sentido, quando se diz que há poder no sangue, afirma-se, essencialmente, que há poder no evangelho (1 Coríntios 1:18). O sangue remete à obra consumada de Cristo, realizada em plena obediência ao Pai; e é essa obra, anunciada pelo evangelho, que concede vida eterna aos que creem.

Trata-se de uma forma de remeter à obra consumada por Jesus Cristo-homem: encarnado, obediente, crucificado, morto e ressuscitado. Esses elementos e eventos são essenciais ao evangelho, pois neles se manifesta a plena obediência do Filho ao Pai e a eficácia da redenção concedida aos que creem.

Quando se diz que a remissão se dá pelo sangue, toma-se a parte pelo todo, em uma figura de linguagem que demonstra que a redenção se dá em Cristo, pois Ele é o Cordeiro morto desde a fundação do mundo. O sangue é, portanto, um dos elementos que compõem a essência do evangelho, conforme predito pelos profetas.

Essa redenção decorre da pessoa e da obra de Jesus Cristo, cujo ministério terreno culminou na crucificação, em plena obediência ao mandamento do Pai. Por isso, Paulo afirma que a redenção se deu “pelo seu sangue”, isto é, mediante a entrega obediente de Cristo até a morte, “e morte de cruz” (Filipenses 2:8).

Enquanto a perdição veio pela ofensa de um só homem, Adão, a redenção vem pela obediência de Cristo, o último Adão. Assim, se pela desobediência de Adão muitos foram feitos pecadores, pela obediência de Cristo muitos são feitos justos. O sofrimento de Cristo, que culminou no derramamento do seu sangue, evidencia que Ele foi obediente em tudo, até consumar a obra determinada pelo Pai (Hebreus 5:8).

Embora se diga que a redenção se deu pelo sangue de Cristo, ela decorre essencialmente da obediência, e não de um sacrifício entendido como ato meramente voluntarioso. O sacrifício, tomado isoladamente, poderia sugerir uma iniciativa espontânea; a obediência, porém, evidencia sujeição ao mandamento do Pai. Desse modo, Cristo não apenas se ofereceu, mas se ofereceu em obediência, cumprindo plenamente a vontade daquele que o enviou.

Com a ofensa, Adão “vendeu-se” ao pecado; consequentemente, a humanidade foi sujeita ao pecado, visto que a morte passou a todos os homens. Essa “sujeição”, porém, não envolveu uma transação comercial, pois todos os que descendem de Adão passaram a pertencer ao pecado por causa da morte assim como um descendente de escravo pertence ao seu senhor. Considerando que o termo grego ἀπολύτρωσις (apolýtrōsis) possui, no uso secular, o sentido básico de libertação mediante pagamento de resgate, ao aplicá-lo ao evangelho deve-se compreender que, em Cristo, houve libertação real de uma condição anterior de domínio.

Nesse sentido, no evangelho, ἀπολύτρωσις não indica uma transação feita com o pecado para libertar o homem, pois o pecado é um senhor que não abre mão de seus servos. A libertação ocorre porque o corpo do pecado é desfeito pela morte do velho homem com Cristo. Assim, o homem não é libertado mediante negociação com o antigo senhor, mas pela morte daquele que estava sob o domínio do pecado, o que possibilita a criação de um novo homem em Cristo.

Em Colossenses 1:14, a redenção está ligada à remissão dos pecados, isto é, à libertação, ao perdão e à absolvição completa. Isso demonstra que o cristão foi liberto do antigo domínio e transportado para o reino do Filho do amor de Deus. A remissão (ἄφεσις) é a essência da redenção (ἀπολύτρωσις), pois a circuncisão de Cristo é o que livra o homem do pecado.

A ideia de “preço”, que emerge do termo ἀπολύτρωσις, costuma ser entendida como se Cristo tivesse pago o valor total de uma compra para garantir a liberdade dos pecadores. Nessa leitura, a redenção seria concebida como uma espécie de troca, em que Cristo substituiria sua justiça eterna pelos pecados da humanidade, ideia relacionada ao conceito de imputação desenvolvido no contexto da Reforma.

Entretanto, Paulo demonstra que a justiça de Deus exige substituição de ato: obediência em lugar de desobediência. É na obediência de Cristo, o último Adão, que o peso do pecado é anulado na balança da justiça.

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.” (Romanos 5:18)

Não se trata, portanto, de pagamento a um credor pessoal, como se Deus negociasse com o pecado ou com o diabo; trata-se do custo obediencial da redenção, isto é, a entrega de Cristo até a morte, pela qual o antigo domínio é encerrado e uma nova criação é inaugurada.

O “preço” não diz respeito a um valor monetário, pois o substantivo τιμή remete à ideia de honra, respeito e estima, transcendendo a noção de simples quantia ou soma (1 Pedro 1:18-19). Nesse sentido, o “preço” diz respeito à obediência de Cristo ao Pai, mediante a qual Ele se entregou a si mesmo em morte, e morte de cruz (Gálatas 2:20; 1 Timóteo 1:4; Tito 2:14). A redenção, portanto, não se funda em uma transação comercial, mas na entrega honrosa e obediente do Filho, que cumpriu plenamente a vontade divina e conquistou a vitória sobre o pecado e a morte.

Como ler os versículos a seguir, se eles parecem sugerir uma compra ou que houve um pagamento com determinado preço?

“O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.” (1 Timóteo 2:6);

“Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.” (1 Coríntios 6:20);

“Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens.” (1 Coríntios 7:23).

A redenção pelo sangue decorre do fato de Cristo ter se entregado como resgate (ἀντίλυτρον) pela humanidade. A morte de Cristo, em obediência ao Pai, é o resgate; não se trata, porém, de afirmar que Cristo “trocou” sua justiça eterna pelos pecados da humanidade, nem que sua morte tenha sido um pagamento comercial destinado a comprar a liberdade dos homens, como se houvesse uma negociação entre Deus e o pecado, ou entre Deus e o diabo.

A morte física de Cristo possui caráter substitutivo, pois Ele morreu em favor dos homens; contudo, a obediência de Cristo não substitui a obediência que o homem deve ao evangelho. Cristo obedeceu ao Pai até a morte; o homem, por sua vez, deve obedecer ao mandamento de Deus, crendo em Cristo, para ser conformado com Ele em sua morte. Assim, a morte com Cristo — descrita como batismo na morte ou circuncisão de Cristo — não é substitutiva, mas participativa: o velho homem morre com Cristo, e uma nova criatura surge em sua ressurreição.

Parte da confusão em torno da redenção e do “pagamento de um preço” decorre do fato de Paulo empregar figuras distintas em contextos distintos. Aos coríntios, a figura utilizada para descrever a redenção é a escravidão: “fostes comprados por bom preço”. Já na abordagem a Timóteo, a linguagem se aproxima da ideia de resgate, isto é, do ato pelo qual alguém apto assume a responsabilidade de libertar ou recuperar aquilo que estava perdido ou sujeito a outro domínio.

Nas cartas destinadas a igrejas que Paulo visitou pessoalmente, certas ressalvas explicativas aparecem com menor frequência, pois os destinatários já haviam recebido diretamente do apóstolo a exposição do evangelho. Em Colossenses, porém, como a igreja fora evangelizada por Epafras, Paulo se detém em algumas explicações fundamentais. Por isso, ao falar da redenção pelo sangue de Cristo, ele esclarece que essa redenção consiste na remissão dos pecados.

Essa explicação era necessária porque a linguagem da redenção podia evocar atos regulados pela lei mosaica, especialmente aqueles relacionados à recuperação de pessoas, heranças ou bens familiares. No Antigo Testamento, a redenção era ato de um parente capaz, que assumia a responsabilidade de fazer o que fosse exigido para restaurar a condição perdida de um membro da família, seja quanto à liberdade, à herança ou à descendência (Levítico 25:25–49; Rute 3:12–13).

Entretanto, quando Paulo aplica essa linguagem ao evangelho, ele não está tratando de bens materiais, mas de bens futuros. Cristo é o Redentor porque, por meio de sua morte em obediência, liberta os homens do poder do pecado e os conduz à condição de filhos de Deus.

Quando o homem crê em Cristo, passa a ser participante da carne e do sangue de Cristo. Desse modo, torna-se descendente de Abraão por intermédio do Descendente, que é Cristo, e, ao mesmo tempo, recebe a filiação divina pela fé. Aquilo que alguns judeus disseram indevidamente a Cristo — “Somos descendentes de Abraão e jamais fomos escravos de ninguém” — somente os cristãos podem afirmar em sentido pleno, pois, por meio de Cristo, foram libertos do pecado e feitos filhos de Deus.

Por meio do Descendente, os que creem tornam-se descendentes de Abraão; e, por meio da fé, recebem a filiação divina ao ressurgirem com Cristo dentre os mortos. O novo homem criado em Cristo, este sim, nunca foi escravo de ninguém, pois já nasce livre, santo e pertencente a Deus.

Portanto, quando Paulo faz referência à redenção, não está descrevendo uma transação comercial, nem uma compra de bens materiais, mas a libertação efetiva do domínio do pecado. Cristo, como Redentor, não paga ao pecado para libertar seus servos; antes, pela obediência até a morte, desfaz o corpo do pecado, inaugura uma nova criação e conduz os que creem à herança dos santos na luz.

A imagem e semelhança de Deus

15 — “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”;

Com a interposição de um aposto explicativo acerca do Cristo ressurreto, o contexto da carta sofre uma mudança significativa entre os versículos 15 e 20. Depois de tratar da redenção concedida no Filho do amor de Deus, Paulo passa a explicar quem é esse Filho, apresentando a grandeza de Cristo em relação a Deus, à criação, à igreja e à reconciliação de todas as coisas.

Nesses versículos, o apóstolo introduz uma exposição semelhante àquela encontrada no início da carta aos Hebreus, em que o Filho é apresentado como a manifestação plena de Deus:

“O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa…”(Hebreus 1:3).

De modo correlato, Paulo afirma:

“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação.” (Colossenses 1:15).

Quando Paulo e o escritor aos Hebreus afirmam que Jesus é a “imagem do Deus invisível” ou a “expressa imagem da sua pessoa”, referem-se ao Cristo ressurreto e glorificado, e não apenas ao Cristo encarnado em sua condição de humilhação entre os homens.

É certo que o Filho encarnado revelou Deus aos homens em sua missão terrena (João 1:18); contudo, em Colossenses 1:15, Paulo conduz a exposição para além da encarnação em humilhação, evidenciando o Cristo ressurreto, agora com corpo glorificado, como o cumprimento e a expressão máxima da imagem e semelhança propostas desde o princípio.

O Cristo encarnado, embora fosse do céu e espiritual, assumiu a semelhança dos homens, participando da carne e do sangue, para que pudesse chamar os homens de irmãos (Hebreus 2:14–17). Assim, na encarnação, Ele revelou Deus aos homens; mas, na ressurreição e glorificação, manifesta-se como a expressa imagem do Deus invisível, o homem celestial e glorificado em quem o propósito divino alcança sua plena realização.

Nesse sentido, Cristo, ao encarnar-se, veio com a imagem do homem terreno, isto é, com a mesma forma humana concedida a Adão quando foi criado no Éden. Paulo afirma que Adão era “figura daquele que havia de vir” (Romanos 5:14), de modo que Cristo, o último Adão, veio em semelhança da carne, assumindo a condição humana que Ele teofanicamente concedeu originalmente a Adão; Adão, como figura de Cristo — aquele que havia de vir —, não deve ser compreendido apenas como um elemento tipológico. Antes, sua criação envolve a concessão da imagem em condição de humilhação, a mesma condição humana que, futuramente, o Cristo assumiria ao vir ao mundo. Contudo, em Colossenses 1:15, a ênfase não recai sobre essa condição de humilhação, mas sobre o Cristo ressurreto, glorificado, que manifesta a imagem do Deus invisível.

Desse modo, Adão não apenas prefigura Cristo de maneira simbólica; ele recebe, desde o princípio, a forma humana que serviria de referência à encarnação do Verbo. Assim, quando Cristo vem em semelhança da carne, não assume uma forma estranha ao propósito divino, mas aquela mesma imagem terrena concedida originalmente a Adão, para, por meio da obediência, morte e ressurreição, conduzir os homens à imagem celestial e gloriosa.

É necessário, portanto, distinguir dois aspectos. Primeiro, Deus, que habita em luz inacessível e jamais foi visto por alguém, revelou-se aos homens por meio do Filho encarnado. Sobre essa verdade, o apóstolo João testemunha:

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (…) Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” (João 1:14,18)

Segundo, a referência à “imagem do Deus invisível” também deve ser lida em conexão com o propósito divino declarado no Éden: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Esse propósito encontra sua plena realização em Cristo ressurreto. Ao ressurgir dentre os mortos pelo poder de Deus Pai, Cristo passa a ser visto como o homem glorificado, cuja condição expressa a imagem e semelhança do Deus invisível.

Desse modo, há uma correlação entre o primeiro homem e o último Adão. O primeiro homem, Adão, é terreno, e os que dele descendem trazem a imagem do terreno. O último Adão, Cristo, é celestial, e os que estão n’Ele serão conformados à sua imagem gloriosa (Filipenses 3:21). É nesse sentido que Paulo declara:

“O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial.” (1 Coríntios 15:47–49);

“Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas.” (Filipenses 3:21).

Portanto, ao dizer que Cristo é a imagem do Deus invisível, Paulo não está apenas afirmando que Jesus revela Deus aos homens, mas também que o Cristo ressurreto e glorificado é o cumprimento pleno do propósito eterno de Deus quanto à imagem e semelhança. Nele se contempla aquilo que Deus havia proposto desde o princípio: um homem glorificado, celestial e incorruptível, à imagem do Deus invisível.

E não somente isso: esse último homem, constituído espírito vivificante, vindo do céu e, portanto, celestial, ao ressurgir dentre os mortos, foi glorificado e passou a ocupar a posição preeminente de primogênito entre muitos irmãos.

Assim, Cristo é apresentado em posição de proeminência, dignidade e autoridade entre muitos irmãos semelhantes a Ele, pois todos os filhos de Deus serão conformados à sua imagem, cada qual revestido de um corpo glorioso. Esse é o sentido do adjetivo πρωτότοκος, empregado no versículo ao designar Jesus como “o primogênito de toda a criação”.

É um erro ler esse versículo como se Jesus fosse o primeiro ser criado, interpretação adotada por grupos como as Testemunhas de Jeová e os Adventistas do Sétimo Dia. O termo “primogênito”, nesse contexto, não indica origem criada, mas posição de preeminência, dignidade e direito.

Na encarnação, o Verbo eterno despiu-se de sua glória e, ao ser introduzido no mundo na condição de homem e servo, manifestou-se como o unigênito de Deus. Contudo, após sua morte, sepultura e ressurreição, Cristo passou a ser apresentado também como primogênito, e isso envolve algumas distinções importantes.

O adjetivo πρωτότοκος pode ser utilizado como título de Cristo, como ocorre em Hebreus 1:6: “E, outra vez, quando introduz no mundo o primogênito…”. Nesse caso, o título remete à linguagem régia do Salmo 89:27, em que o primogênito é associado à supremacia sobre os reis da terra.

O termo também pode indicar o primeiro de uma série, como em Apocalipse 1:5, onde Jesus é chamado de “o primogênito dentre os mortos”, pois foi o primeiro a ressurgir dentre os mortos em glória. Nesse sentido, quando ocorrer o arrebatamento da igreja, os cristãos que desceram à sepultura ressuscitarão, ao som do grande alarido e da voz de arcanjo, participando da mesma realidade gloriosa inaugurada por Cristo.

Além disso, o adjetivo carrega a ideia de pertencimento, decorrente de um hebraísmo, uma vez que, no Pentateuco, os primogênitos são descritos como pertencentes a Deus (Números 8:17; Êxodo 13:12).

Nesse sentido, a igreja é o ajuntamento solene daqueles que pertencem a Deus. É sob essa perspectiva que se deve compreender a expressão “igreja dos primogênitos” (Hebreus 12:23), pois não se trata de uma assembleia composta por muitos “primeiros filhos” em sentido natural ou cronológico — o que seria incoerente se tomado estritamente no sentido de primogenitura biológica. Antes, a expressão aponta para a condição comum dos santos como propriedade exclusiva de Deus, separados para Ele em Cristo.

Por fim, πρωτότοκος também expressa a noção de preeminência, pois, na antiga aliança, o primogênito tinha direito à porção dobrada da herança (Deuteronômio 21:17).

Portanto, ao chamar Cristo de “primogênito de toda a criação”, Paulo não o coloca entre as criaturas como o primeiro ser criado, mas o apresenta como aquele que ocupa a posição suprema sobre toda a criação, tanto por direito quanto por dignidade, autoridade e herança.

Essa exposição paulina conduz à seguinte definição: “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Colossenses 1:18). Esse versículo esclarece o sentido da afirmação anterior e não abre espaço para a interpretação de que Cristo seria o primeiro ser criado. Cristo é designado “primogênito” em razão de sua preeminência, e não por ter sido criado. Entender o termo nesse sentido criacionista constitui grave equívoco teológico.

Cristo é o “primeiro gerado” no sentido de unigênito, quando nos referimos ao Verbo eterno introduzido no mundo (Hebreus 1:6). Essa condição, contudo, não possui relação com a criação, seja a primeira, seja a nova criação, da qual Ele é o Criador (Hebreus 9:11).

Todos os seres do universo — anjos, arcanjos, querubins, serafins, homens e animais — foram criados por Deus por intermédio de Cristo (João 1:1–3; Colossenses 1:16). Cristo, portanto, distingue-se de todas as criaturas por sua preexistência anterior à encarnação.

Por essa razão, mesmo tendo assumido um corpo de carne ao vir ao mundo, Ele é chamado de Pai da Eternidade, pois não tem princípio de dias nem fim de existência. Sua humanidade não anula sua eternidade; antes, evidencia o mistério do Verbo eterno que se fez carne.

O Verbo eterno, ao despir-se de sua glória, tornou-se plenamente homem. Contudo, em razão de sua preexistência, mesmo na condição humana, seus títulos divinos e a reverência que lhe é devida permanecem legítimos. Por isso, as Escrituras o apresentam como “Deus Forte”, “Deus”, “Senhor que esconde o seu rosto”, “Senhor”, e também como aquele que deve ser adorado (Isaías 8:17; 9:6; 10:21; Hebreus 1:6,8; Salmo 45:6; 93:2; 95:6; 97:7; 110:1).

Quando Jesus morreu na cruz, cessaram as funções vitais de seu corpo terreno; isto é, a morte alcançou verdadeiramente Jesus Cristo segundo sua humanidade, no corpo de carne que Ele assumiu. Contudo, a morte não afetou o espírito de Cristo, assim como não afeta o espírito dos demais seres humanos. Nesse sentido, não se deve dizer, em sentido estrito, que Deus morreu em relação à pessoa de Cristo.

A morte alcançou o corpo físico de Jesus, pois foi exatamente para isso que Ele participou de carne e sangue. Entretanto, desfeitas as ânsias da morte, visto que era impossível que ela o retivesse, Jesus ressurgiu dentre os mortos e assentou-se à destra da Majestade nas alturas.

Por fim, é importante destacar que alguns questionam a passagem de Gênesis em que se afirma que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Por desconhecimento, perguntam: se Deus é Espírito, que imagem teria concedido a Adão? Outros se equivocam ao responder que essa imagem seria moral, quando a moral é um fenômeno próprio da experiência humana.

A resposta torna-se evidente à luz de Colossenses 1:15 e Romanos 5:14: Adão foi criado à imagem de Jesus Cristo-homem, aquele que havia de vir, e não segundo a imagem daquele que habita em luz inacessível. Assim, a imagem concedida a Adão não deve ser entendida como uma qualidade moral abstrata, mas como referência tipológica ao Cristo que viria, o último Adão, em quem o propósito divino quanto à imagem e semelhança se cumpre plenamente.

Jesus Cristo, o Criador

16 “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele”.

A posição de πρωτότοκος, pertinente a Cristo e destacada no versículo 15, não deve ser compreendida em sentido natural ou cronológico, como geralmente se entende a posição do primeiro filho de um casal em relação aos demais. Nesse título, exclui-se a ideia de origem criada ou de prioridade temporal quanto ao vir à existência; considera-se, antes, a posição de preeminência de Cristo em relação aos seus irmãos.

Essa preeminência se dá, primeiramente, pelo fato de Cristo ser o primeiro a ressurgir dentre os mortos em glória, alcançando, assim, a mais elevada posição em toda a criação: a de semelhante ao Altíssimo, ou seja, a expressa imagem do Deus invisível. Nesse sentido, Ele é apresentado como o homem glorificado, celestial e incorruptível, em quem se cumpre plenamente o propósito divino de imagem e semelhança. Além disso, tal preeminência também decorre do fato de que os cristãos, ao serem regenerados, passam a integrar a geração eleita, tornando-se filhos de Deus e, consequentemente, irmãos de Cristo (João 1:12; 1 João 3:1–2).

A condição de irmão de Cristo se dá por meio do evangelho, que possibilita ao homem morrer com Cristo e ser sepultado com Ele. Então, pela maravilhosa graça de Deus, surge a nova criatura, em razão de também ressurgir com Cristo.

A primogenitura, portanto, além de envolver o fato de Cristo ser o primeiro ressurreto dentre os mortos, também se relaciona ao fato de que, pela ressurreição com Cristo, os muitos filhos de Deus serão conformados à imagem do Filho, pois todos receberão corpos glorificados (Romanos 8:29). Desse modo, no que diz respeito à ressurreição e à imagem, o termo primogenitura comporta, respectivamente, a ideia de prioridade temporal e de posição preeminente.

Cristo possui a preeminência porque, como Verbo eterno, é o Criador de todas as coisas que há nos céus e na terra, incluindo tronos, dominações, principados e potestades, bem como as coisas visíveis e invisíveis (1 Coríntios 15:27; Salmo 102:25–27; Hebreus 1:10–11).

E não somente isso: dado o propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo, tudo o que foi criado foi feito por intermédio do Verbo eterno, que estava com Deus (João 1:1–2; Efésios 3:11). Por essa razão, Cristo não é apenas o agente da criação, mas também o beneficiário, o centro e o fim desse propósito divino.

A preexistência de Cristo

17 — “E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele”.

Nesse versículo, o apóstolo Paulo destaca tanto o poder quanto a preexistência de Cristo, atributos exclusivos da divindade. Somente Deus sustenta a existência da criação, e somente Ele é antes de todas as coisas, pois é, essencialmente, a causa primária de tudo quanto existe. O Verbo eterno, por estar com Deus no princípio de todas as coisas criadas e por ser Deus, conforme pontua João, é autoexistente como uma das pessoas da divindade; e a autoexistência é condição essencial da eternidade. Nesse sentido, a preexistência é termo utilizado para fazer referência a Jesus, o Verbo encarnado, que, em sua essência, é eterno e autoexistente.

Quando Paulo afirma que todas as coisas subsistem por Cristo, refere-se ao atributo do Todo-Poderoso: a capacidade ilimitada de trazer à existência tudo quanto existe e de manter todas as coisas existindo. Essa afirmação transcende o mundo material, regido pelo espaço e pelo tempo, e alcança também a dimensão espiritual, realidade superior que engloba e ultrapassa a ordem criada.

Os atributos da divindade de Cristo também são destacados pelo escritor aos Hebreus ao descrever o Filho de Deus glorificado:

“O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa…” (Hebreus 1:3)

A condição de Cristo como resplendor da glória de Deus, isto é, como expressa imagem da sua pessoa, refere-se ao período inaugurado após a ressurreição e glorificação de Cristo, até o momento em que Ele entregar ao Pai todas as coisas que lhe foram sujeitas (1 Coríntios 15:27–28).

Na eternidade, Cristo é o Verbo. Ao ser encarnado, por ter sido gerado de Deus, manifestou-se como o Filho unigênito. Ao ser glorificado, assumiu a posição de expressa imagem do Deus invisível, o homem celestial e incorruptível em quem se cumpre plenamente o propósito divino quanto à imagem e semelhança. Por fim, na consumação de todas as coisas, quando o propósito eterno estabelecido em Cristo alcançar sua plenitude, Ele entregará o reino ao Pai, e Deus será tudo em todos.

É nesse sentido específico que se deve compreender a afirmação de Hebreus: Cristo sustenta “todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1:3). Trata-se do Filho glorificado, a quem todas as coisas foram sujeitas, exercendo autoridade até que se cumpra plenamente o propósito divino e tudo seja finalmente submetido a Deus.

A preeminência de Cristo

18 — “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência”.

Ao destacar a autoridade de Cristo sobre a igreja como cabeça do corpo, Paulo aborda, essencialmente, a primogenitura de Cristo. Cristo é o primogênito de toda a criação porque a igreja é a assembleia dos primogênitos, isto é, daqueles que pertencem a Deus e foram feitos filhos em Cristo. Sem a igreja, que é o corpo do qual Cristo é a cabeça, não haveria o sentido pleno de Cristo como primogênito entre muitos irmãos. Por isso, além de salvar os homens por sua misericórdia, manifestada em Cristo, Deus também predestinou todos quantos são salvos pela fé em Cristo, mediante a loucura da pregação, a serem conformes à imagem de seu Filho. Isso significa que os salvos serão semelhantes a Ele, revestidos de corpos gloriosos, para que Cristo seja a cabeça de muitos filhos conduzidos à glória, todos segundo a imagem e semelhança de Deus (Romanos 8:29).

Em resumo, Jesus é apresentado como o princípio nos versículos 16 e 17, pois todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. Já o versículo 15 apresenta Cristo, essencialmente, como o primogênito dentre os mortos, pois, ao ressurgir, Ele alcançou a condição de expressa imagem do Deus invisível. Os que creem, porque morrem e ressurgem com Ele, são os muitos filhos conduzidos à glória de Deus, predestinados a terem a mesma imagem do Cristo ressurreto. Assim, tornam-se membros de uma nova criação, cujo propósito culmina na preeminência de Cristo sobre todas as coisas.

Cristo, o Verbo encarnado, é o princípio porque por Ele e para Ele Deus criou todas as coisas, o que lhe confere a posição de soberano. Na condição de primogênito dentre os mortos, Cristo passa a ocupar a posição de preeminência entre seres semelhantes a Ele em glória.

Na condição de soberano, não há quem lhe seja igual, pois Ele é o inalcançável. Já na posição de preeminente, há um corpo de irmãos que serão semelhantes a Ele; contudo, mesmo entre esses muitos filhos conduzidos à glória de Deus, Cristo conserva a primazia, a dignidade e a autoridade próprias do Primogênito (Hebreus 2:10).

Desse modo, a predestinação não determina quem será salvo, mas qual imagem terão os salvos em Cristo. A salvação se dá por meio do evangelho, que contém o poder de Deus para salvar todo aquele que crê. A predestinação, por sua vez, visa à preeminência de Cristo, determinando que os salvos sejam conformados à imagem do Filho.

“O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial.” (1 Coríntios 15:47–49).

Assim, os salvos pela loucura da pregação, quando Cristo se manifestar, também se manifestarão em glória. Serão semelhantes ao segundo homem, que é do céu: celestiais, revestidos da imagem gloriosa de Cristo (Colossenses 3:4; 1 João 3:1–2; 1 João 4:17; 2 Pedro 1:4).

Os salvos em Cristo, ainda neste mundo, já são tal como Cristo é: luz, pois foram feitos filhos de Deus pela fé em Cristo. Contudo, quando Cristo se manifestar, além da salvação já alcançada, receberão também a mesma imagem concedida ao Cristo glorificado, sendo semelhantes a Ele em glória.

Toda plenitude afeta a Cristo

19 — “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse.”

Por meio deste versículo, é possível identificar um dos pontos centrais do propósito divino: que toda a plenitude habitasse em Cristo.

Na eternidade, Cristo, como o Verbo de Deus, já possuía toda a plenitude da divindade. Por isso, é descrito como aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas. Nada do que existe veio à existência sem Ele, pois, como Verbo eterno, participa plenamente da natureza divina.

De igual modo, ao despir-se de sua glória e ser introduzido no mundo, Jesus Cristo-homem tornou-se plenamente homem. Ao participar de carne e sangue, fez-se semelhante aos homens em tudo, assumindo integralmente a condição humana. Assim, nele habitava também a plenitude da humanidade, pois foi verdadeiro homem, sujeito às mesmas condições próprias da existência humana, exceto o pecado (Hebreus 2:14,17).

Após sua morte, sepultura e ressurreição, Cristo foi alçado à condição de semelhante ao Altíssimo, ocupando posição hierárquica acima dos seres celestiais. Nessa condição glorificada, toda a plenitude passa a habitar nele de modo correspondente ao propósito eterno de Deus: Cristo é a expressa imagem do Deus invisível, o homem glorificado, celestial e incorruptível, em quem se cumprem a imagem e a semelhança propostas desde o princípio.

A missão de Jesus Cristo-homem

20 — “E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.”

Esse versículo encerra o aposto explicativo acerca da pessoa de Cristo e retoma o tema da redenção, apresentado anteriormente no versículo 14.

A redenção pelo sangue, que em essência promove a paz entre Deus e os homens, decorre do evangelho. Como já destacado, o elemento “sangue” aponta para a mensagem da cruz, isto é, para o evangelho, a loucura da pregação. Desse modo, não se deve isolar a cruz ou o sangue como elementos mágicos ou autônomos; eles são salvíficos porque remetem à obra efetivamente consumada por Cristo, anunciada no evangelho. Esses elementos evidenciam a vontade do Pai em dar ao Filho o cálice a beber, bem como a plena obediência de Cristo.

Pelo sangue da cruz de Cristo, estabelece-se a paz — paz que excede todo entendimento —, pois ela alcança tanto judeus quanto gentios, respectivamente os que estavam perto e os que estavam longe (Filipenses 4:7; Isaías 57:19). Essa paz excede o entendimento porque é concedida por revelação, na pessoa de Cristo, e não por capacidade humana. O homem, por si mesmo, não poderia alcançá-la, pois os pensamentos e caminhos de Deus são mais altos que os pensamentos e caminhos dos homens (Isaías 55:9).

O que Deus propôs em Cristo torna-o essencial à reconciliação de todas as coisas. A reconciliação aqui indica a restauração da harmonia, abrangendo tanto as coisas que estão na terra quanto as que estão nos céus.

A harmonia nos céus foi violada quando Lúcifer, posto no monte santo como querubim ungido para cobrir, desviou-se da função que lhe fora confiada. Em vez de reconhecer o propósito divino centrado em Cristo, presumiu para si uma posição que não lhe pertencia e intentou elevar-se acima dos demais seres celestiais, aspirando ser semelhante ao Altíssimo (Ezequiel 28:14; Isaías 14:12–14). Com isso, arrastou consigo terça parte dos anjos em sua queda (Apocalipse 12:4). Na terra, por sua vez, a reconciliação se dá quando Cristo, por meio de sua carne, inaugura um novo e vivo caminho, conduzindo os homens do pecado para Deus (Hebreus 10:20).

É por meio do evangelho que a multiforme sabedoria de Deus se torna conhecida das potestades, pela igreja; e é por esse mesmo evangelho que os homens são alcançados pela misericórdia divina (Efésios 3:10). Assim, todas as coisas são reconciliadas por meio de Cristo, pois toda a criação geme na expectativa da manifestação dos filhos de Deus. Quando Cristo se manifestar, os filhos de Deus também se manifestarão com Ele em glória; então, céus e terra contemplarão uma nova categoria de seres celestiais, revestidos de glória, conforme a expressa imagem do Deus invisível.

Desse modo, o próprio Deus, em Cristo, é a base do propósito eterno. Nele, tanto as coisas que estão na terra quanto as que estão nos céus são restauradas ao seu estado de harmonia, conforme o sentido de ἀποκαταλλάσσω: reconciliar plenamente, reconduzindo todas as coisas ao propósito estabelecido por Deus em Cristo.

21 — “A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou”

Considerando que o apóstolo Paulo é o apóstolo dos gentios, mas que, antes de seu apostolado, era fariseu, judeu de judeus e da tribo de Benjamim, faz-se necessário observar atentamente os pronomes utilizados na primeira e na segunda pessoa do plural, pois a alternância entre “vós” e “nós” não é casual.

Quando Paulo emprega “vós”, muitas vezes distingue a condição anterior dos gentios antes de se converterem a Cristo, especialmente em relação à promessa da Antiga Aliança feita aos pais. Quando emprega “nós”, pode tanto destacar a condição peculiar dos cristãos convertidos dentre os judeus — comunidade à qual ele próprio pertencia antes de sua conversão — quanto evidenciar a nova condição comum de todos os cristãos, judeus e gentios, agora participantes da mesma graça, da mesma herança e da mesma vida em Cristo.

Essa distinção pronominal é essencial à interpretação do texto. Geralmente, quando o apóstolo utiliza a segunda pessoa do plural — “vós” —, destaca a condição específica dos gentios antes de serem alcançados pelo evangelho: estavam separados, estranhos às alianças da promessa e inimigos no entendimento (Colossenses 1:21; cf. Efésios 2:12–13).

Entretanto, quando trata das bênçãos concedidas à igreja em Cristo Jesus, abrangendo indistintamente judeus e gentios, Paulo se inclui na narrativa por meio da primeira pessoa do plural:

“Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz.” (Colossenses 1:12);

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.” (Efésios 1:3).

Por outro lado, quando Paulo se inclui na narrativa com o pronome “nós”, em alguns contextos, ele também pode estar destacando sua condição anterior ao evangelho: a de judeu, seguidor do judaísmo e fariseu, condição compartilhada por muitos cristãos convertidos dentre os judeus. Nesses casos, ele se interpõe como exemplo ou dirige repreensão aos cristãos oriundos da circuncisão, como ocorre em Gálatas:

“Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios… (…) Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores…” (Gálatas 2:15,17).

Assim, a alternância entre “vós” e “nós” deve ser considerada com atenção. Ela pode indicar, conforme o contexto, a distinção entre gentios e judeus, a condição anterior de Paulo e dos cristãos oriundos da circuncisão, ou ainda a unidade de todos os cristãos em Cristo, agora participantes da mesma promessa e da mesma herança.

Considerando que Paulo se dirige aos destinatários da carta pela segunda pessoa do plural — “vós” — ao longo de Colossenses 1:2–9, e que se refere a si mesmo e a Timóteo, os remetentes, pela primeira pessoa do plural — “nós” — em Colossenses 1:1,3 e 9, é necessário observar com atenção a mudança pronominal que ocorre quando ele passa a tratar das bênçãos divinas.

Em Colossenses 1:12–14, ao afirmar que Deus “nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz”, “nos tirou da potestade das trevas” e “nos transportou para o reino do Filho do seu amor”, Paulo utiliza a primeira pessoa do plural em sentido inclusivo. Nesse ponto, o “nós” abrange tanto os remetentes quanto os destinatários, indicando que Paulo, Timóteo e os cristãos de Colossos participam da mesma graça, da mesma redenção e da mesma herança em Cristo.

Após o aposto explicativo acerca da pessoa de Cristo, porém, Paulo volta a se dirigir aos colossenses em segunda pessoa: “A vós também, que noutro tempo éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras más…” (Colossenses 1:21). Essa mudança não é casual. Ao retomar o “vós”, Paulo particulariza novamente a condição anterior dos destinatários gentios antes de serem reconciliados pelo evangelho.

Desse modo, a exclusão de Paulo da exposição após o aposto cristológico não significa que ele estivesse fora da obra da reconciliação, mas que, naquele ponto específico, o apóstolo passa a tratar da condição histórica e religiosa própria dos gentios: estavam afastados das alianças, estranhos à promessa e inimigos no entendimento. Paulo, como judeu por natureza e antigo fariseu, não compartilhou dessa mesma condição gentílica anterior, embora também necessitasse da graça e da redenção em Cristo.

Assim, a alternância entre “nós” e “vós” é fundamental para a interpretação do texto. Quando Paulo fala das bênçãos universais concedidas em Cristo, inclui-se com todos os cristãos. Quando trata da condição anterior dos gentios, distingue os destinatários e emprega “vós”, evidenciando que a reconciliação também os alcançou, ainda que antes estivessem separados da promessa.

22 — “No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis,”

A reconciliação demandou o corpo de carne de Cristo, o que implicou a sua morte. Nesse ponto, não se deve entender a entrega de Cristo apenas como oferta sacrificial, no sentido ritual comum, mas como expressão de plena obediência ao Pai. O escritor aos Hebreus deixa claro que Cristo participou de carne e sangue para sujeitar-se à morte, pois, de outro modo, não poderia provar a morte por todos (Hebreus 2:9,14).

Nesse sentido, Deus preparou um corpo para Cristo quando o Verbo eterno foi introduzido no mundo. Deus não requereu de Cristo um sacrifício meramente ritual, nos moldes repetitivos da lei; requereu a obediência plena, pela qual o corpo preparado foi oferecido uma vez por todas (Hebreus 10:5–10). Ao resignar-se à obediência, oferecendo o seu corpo, Cristo realizou a substituição de ato: obediência em lugar da desobediência de Adão (Romanos 5:18–19).

A reconciliação com Deus não se deu por meio do corpo glorioso do Cristo ressurreto, mas “no corpo da sua carne”, pela morte. Essa verdade pode ser observada nas palavras de Jesus:

“Em verdade, em verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos.” (João 6:53).

É por meio da carne de Cristo que se abre o novo e vivo caminho de acesso a Deus:

“Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne.” (Hebreus 10:20).

Pela morte com Cristo, o velho homem é desfeito: morre com Cristo e é sepultado pelo batismo na sua morte. Em seguida, surge o novo homem, criado em Cristo, designado espiritual, sobre o qual não há condenação alguma. O velho homem, gerado em Adão, era culpável, condenável e repreensível em razão da ofensa de Adão; já a nova criatura, gerada de novo em Cristo, é apresentada diante de Deus como santa, inculpável e irrepreensível.

Por meio da morte, foi riscado o escrito de dívida que pesava contra o homem, pois, em Cristo, Deus cria um novo homem em verdadeira justiça e santidade (Colossenses 2:14; Efésios 4:24).

O objetivo de Cristo, ao entregar-se em favor dos pecadores, foi apresentá-los diante de Deus como santos, irrepreensíveis e inculpáveis, isto é, conduzir muitos filhos à glória de Deus.

É por causa dessa verdade do evangelho que Paulo, já no início da carta, nomeia os cristãos como santos e fiéis em Cristo.

O evangelho como esperança

23 — “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro”.

Todas as benesses apresentadas por Paulo até aqui — tais como idoneidade, herança, reino, redenção, reconciliação, santidade, irrepreensibilidade e inculpabilidade — pertencem aos cristãos pelo fato de estarem em Cristo, ou de Cristo estar neles (v. 27).

Esse conjunto de bênçãos caracteriza os cristãos que permanecem fundados e firmes na fé, isto é, alicerçados em Cristo e firmes n’Ele. O substantivo πίστις — “fé” —, sobre o qual o crente deve permanecer fundado e firme, funciona aqui como um recurso linguístico pelo qual se toma a obra pelo autor. Assim, permanecer firme na fé é permanecer firme em Cristo, pois Ele é o autor e consumador da fé.

O único obstáculo possível ao cristão seria ele mesmo, caso se demova do fundamento estabelecido, que é Cristo, pois nada pode separá-lo do amor de Deus. Deus é fiel à sua palavra, e todas as bênçãos concedidas têm em Cristo o “sim”. Resta ao crente permanecer fundado e firme na fé, o que, em essência, significa não se mover da esperança do evangelho que lhe foi anunciado.

“Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:13).

Fundados e estruturados sobre uma base sólida — Cristo, o firme fundamento —, os cristãos não permanecem apoiados em uma concepção própria, que muitas vezes se confunde com mera crença subjetiva. O fundamento da fé não é uma ideia produzida pelo homem, mas a pessoa de Cristo, anunciada no evangelho.

O evangelho foi anunciado aos cristãos quando ainda eram pecadores. Aqui, os pecadores são designados como criaturas, diferentemente dos cristãos, que agora são filhos de Deus. Eles ouviram acerca da esperança propostaque o evangelho contém e que foi e é pregado a todos os homens, nações e línguas, do qual o apóstolo Paulo foi constituído ministro.

Ao ouvirem o evangelho anunciado, os cristãos creram em Cristo, o que equivale a refugiar-se na esperança proposta. É dessa esperança que o cristão não deve se demover, pois ela decorre do firme fundamento, que é Cristo:

“… tenhamos forte consolação, nós, os que nos refugiamos em lançar mão da esperança proposta.” (Hebreus 6:18).

É sob esse aspecto que Tiago fala da obra da fé: “Ora, a perseverança deve terminar a sua obra”. A perseverança decorre da confiança em Cristo, posta à prova, de modo que ela conclui a obra da fé, conduzindo o cristão à maturidade (Tiago 1:3–4).

Ao final, o remetente da carta novamente se identifica e evidencia sua atribuição no evangelho: Paulo é ministro da mensagem que anuncia Cristo, o fundamento sobre o qual os cristãos devem permanecer firmes.

24 — “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja;”

Paulo estava alegre, mesmo padecendo pelos cristãos, de modo que seu sofrimento não era motivo de tristeza. Ele mesmo havia se disposto a sofrer em favor do evangelho, como se observa em sua declaração:

“Estou pronto não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (Atos 21:13).

A expressão “na minha carne” refere-se ao corpo físico de Paulo e remete, ao mesmo tempo, ao sofrimento de Cristo quando esteve em carne. Paulo não utiliza aqui o termo “corpo” em referência à sua estrutura física, mas “carne”, para evidenciar que ele também, como os demais cristãos, participava do corpo de Cristo, que é a igreja.

É necessário prestar atenção ao contexto para definir adequadamente o significado da palavra “carne” nas cartas paulinas. O termo pode referir-se ao corpo físico, à herança genealógica de Abraão ou ainda a um sistema doutrinário próprio ao homem judeu.

Quando Paulo afirma: “Para ver se de alguma maneira posso incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles” (Romanos 11:14), refere-se aos hebreus, isto é, aos seus parentes segundo a carne.

Quando escreve: “E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne, antes me recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo” (Gálatas 4:14), refere-se ao seu corpo físico e às limitações que nele suportava.

Já em Romanos 7:18 — “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum…” —, Paulo emprega “carne” em sentido representativo, remetendo ao homem judeu sob a lei, cuja tentativa de servir a Deus a partir dos pressupostos da carne revela sua incapacidade diante do pecado.

25 — “Da qual eu estou feito ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir a palavra de Deus;”

Paulo faz uma retrospectiva acerca do seu ministério apostólico e, assim, traça um panorama do que escreveu até o versículo 25, realizando uma espécie de breve resumo antes de avançar para novas questões na carta. Ele reafirma sua condição de ministro, ponto já apresentado anteriormente (Colossenses 1:1; 1:23).

Paulo declara ser ministro do evangelho, o que, em outras palavras, também significa ser ministro do Espírito (2 Coríntios 3:6). Ao ser comissionado como ministro de Cristo, seu ministério foi estabelecido em favor da igreja, que é o corpo de Cristo. Portanto, sua função não tinha finalidade particular nem proveito próprio, mas estava vinculada ao serviço prestado aos santos.

O ministério de Paulo lhe foi concedido “segundo a dispensação de Deus”, isto é, conforme a administração divina que lhe confiou a responsabilidade de anunciar, expor e tornar plenamente conhecida a palavra de Deus. Nesse sentido, “cumprir a palavra de Deus” não significa apenas obedecer a uma ordem pessoal, mas levar a efeito aquilo que Deus havia determinado revelar por meio do evangelho (Atos 2:23).

A palavra de Deus — essencialmente aquilo que fora anunciado pelos profetas — contém as previsões acerca da grandeza de Cristo glorificado. Essa grandeza se manifesta na condução de muitos filhos à glória de Deus, de modo que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos (Colossenses 1:18; Romanos 8:29; Hebreus 2:10). Cristo, como a expressa imagem do Deus invisível, é o centro dessa revelação; e o ministério de Paulo consiste justamente em anunciar essa realidade aos cristãos, mostrando que a plenitude da obra divina se cumpre em Cristo, o Primogênito, e em seu corpo, que é a igreja, os muitos irmãos.

O mistério revelado

26 — “O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos;”

O mistério de Deus, que é Cristo, esteve oculto desde a criação do mundo. Esse mistério permaneceu encoberto ao longo das gerações dos pais e dos profetas, mas, no tempo presente, foi revelado aos seus santos, isto é, aos cristãos (Colossenses 1:15–20).

Esse mistério manifesta-se na pessoa de Cristo e é revelado aos homens por meio do evangelho (Efésios 3:3; 6:19). Assim, aquilo que antes estava oculto nas Escrituras e nas promessas agora foi plenamente anunciado: Cristo, a imagem do Deus invisível, o primogênito dentre os mortos, em quem se cumprem a vontade de Deus e a esperança da glória.

27 — “Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória;”

Deus quis revelar o mistério que antes estivera oculto, não apenas aos judeus, mas também aos gentios. Esse mistério manifesta as riquezas da sua glória, pois, em Cristo, os salvos são feitos coerdeiros com Ele de todas as coisas (Efésios 1:11; Romanos 8:32).

A expressão “Cristo em vós” aponta para a esperança da glória, pois essa é a destinação final das novas criaturas: serem glorificadas com Cristo. Assim, “estar em Cristo” e “Cristo em vós” referem-se à mesma realidade espiritual: a nova condição daquele que foi regenerado e feito nova criatura. Sobre esse, portanto, não pesa condenação alguma (Romanos 8:1).

Em outras palavras, o mistério antes oculto agora foi revelado no evangelho: Cristo não apenas entre os judeus, mas também nos gentios; não apenas como promessa futura, mas como realidade presente nos que creem, garantindo-lhes a esperança da glória.

28 “A quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo;”

O evangelho era anunciado pelos apóstolos com o objetivo de apresentar perfeitos em Cristo todos aqueles que cressem na mensagem anunciada. Todos os que creem em Jesus conforme dizem as Escrituras são perfeitos diante de Deus. Essa perfeição, contudo, não deve ser entendida em sentido moral absoluto, como ausência de falhas comportamentais, mas como conformidade ao propósito que Deus estabeleceu em Cristo.

A ideia de “perfeito”, aqui, deriva do termo grego τέλειος (teleios), que aponta para aquilo que alcançou seu fim, propósito ou maturidade. Nesse sentido, o cristão é perfeito porque, estando em Cristo, foi conduzido à condição para a qual Deus o destinou: ser nova criatura, participante da natureza divina e integrante do corpo de Cristo.

Paulo, por isso, exortava e ensinava a todos em toda sabedoria, isto é, segundo a verdade do evangelho, pois Cristo é a sabedoria de Deus (Colossenses 3:16; 1 Coríntios 1:24). Sua pregação não consistia em mera transmissão de informações religiosas, mas na proclamação de Cristo, por meio da qual os homens são instruídos, edificados e apresentados perfeitos diante de Deus.

Além disso, Paulo tinha plena consciência da responsabilidade que lhe fora imposta como ministro do evangelho: anunciar Cristo não era uma escolha pessoal ou um projeto particular, mas uma obrigação decorrente do encargo recebido de Deus (1 Coríntios 9:16).

29 — “E para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente”.

O trabalho de Paulo consistia em apresentar a Deus homens perfeitos em Cristo. Ele demonstra que seu labor e seu combate se realizavam segundo a eficácia de Deus, que nele operava poderosamente.

O trabalho tinha em vista a edificação do corpo de Cristo; já o combate se dava em defesa do evangelho, isto é, da fé uma vez entregue aos santos (Filipenses 1:27; Judas 1:3).

Assim, aquilo que Paulo havia proclamado aos cristãos acerca da força e da fortaleza de Deus (Colossenses 1:11), ele agora demonstra em sua própria experiência ministerial: a mesma força e o mesmo poder operavam eficazmente por meio dele.

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