Colossenses 3 – Ressurretos em Cristo

“Morrer” e “ressuscitar” com Cristo são fatos consumados que fazem parte do passado da vida dos cristãos. Embora “morrer” e “ressuscitar” possam parecer conceitos antagônicos, em Cristo, eles se complementam. Primeiro, é necessário conformar-se com Cristo em Sua morte, e só então ressurgir com Ele para uma nova vida, sendo um novo homem. Tanto a morte quanto a ressurreição ocorrem somente quando se está “COM” ou “EM” Cristo.
Ressurretos em Cristo
“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (…) e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” (Efésios 1:3; 2:6).
Buscando as coisas que são de cima
1- Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus.
Antes de qualquer análise do texto bíblico, é importante ter em mente que as divisões em capítulos e versículos servem apenas para facilitar a localização das passagens. Essas divisões não fazem parte do texto original e, por isso, podem influenciar negativamente o intérprete, caso se considere cada capítulo como uma unidade isolada ou que os versículos encerrem em si ideias estanques. O conteúdo da carta não fica restrito a um capítulo ou versículo; ele se desenvolve de modo contínuo. Para compreendê-lo adequadamente, é necessário considerar o fluxo da argumentação como um todo.
Nesse sentido, o capítulo tem início com uma conclusão que decorre de elementos apresentados anteriormente: “Portanto…”. A conjunção indica que Paulo está retomando a argumentação desenvolvida anteriormente para introduzir uma nova exortação baseada nela. Ao dizer: “Portanto, se…”, o apóstolo retoma uma ideia já exposta para, a partir dela, desenvolver outra.
No versículo 20 do capítulo anterior, Paulo havia afirmado que os cristãos estavam mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo. Diante disso, ele questiona por que ainda se sujeitariam a ordenanças como se ainda vivessem no mundo. Se morreram com Cristo, não estão mais vinculados àquela antiga condição (Romanos 6:2-6).
O versículo em análise retoma a mesma temática do capítulo anterior sob outra perspectiva: “se já ressuscitastes com Cristo” corresponde, em sentido, à afirmação “se estais mortos com Cristo”. A morte com Cristo não é o fim, mas o caminho para a ressurreição com Ele. Assim, morrer e ressuscitar com Cristo não são ideias antagônicas, mas complementares dentro da nova realidade “em Cristo”, que, em suma, é ser uma nova criatura (2 Coríntios 5:17).
Essa conclusão, apresentada sob forma condicional, encontra paralelo nos eventos narrados em Romanos 6. Na carta aos cristãos de Roma, Paulo destaca que ser batizado em Cristo é ser batizado na sua morte (Romanos 6:3). O homem que crê tem o seu velho homem crucificado com Cristo; ele morre com Cristo e, por isso, é sepultado com Ele (Romanos 6:6). Após essa sepultura, surge o novo homem, criado segundo Deus, processo que Paulo descreve como ressurreição com Cristo (Romanos 6:5–6).
Esse mesmo processo é apresentado sob outras figuras em Colossenses. A crucificação e a morte são descritas como circuncisão “não feita por mãos” (Colossenses 2:11), o que permite ao crente ser sepultado com Cristo no batismo, isto é, na sua morte (Colossenses 2:12). A ressurreição, por sua vez, aponta para a regeneração, que difere da ressurreição futura por ocasião da volta de Cristo, quando haverá o revestimento de glória (Romanos 8:18).
Em outros termos, a ressurreição destacada por Paulo também é apresentada como glorificação no sentido da nova condição concedida em Cristo (Romanos 8:30). Esse processo ocorre quando o crente é unido a Cristo, tornando-se participante de sua vida. Assim, ser glorificado com Cristo — isto é, participar de sua nova vida — não se confunde com o evento futuro, quando o que é corruptível se revestirá de incorruptibilidade. Ressuscitar com Cristo, portanto, é consequência de morrer com Ele (Romanos 6:2–3; 8:30).
Paulo, portanto, trabalha com duas afirmações correlatas:
“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo…” (Colossenses 3:1);
“Se, pois, estais mortos com Cristo…” (Colossenses 2:20).
A segunda afirmação encerra o vínculo com a antiga condição, enquanto a primeira inaugura um novo vínculo, estabelecido na vida com Cristo.
“Ressuscitar” e “morrer” com Cristo são fatos conclusos que fazem parte da experiência passada do cristão (“já” e “estais”). Embora “morrer” e “ressuscitar” soem como elementos antagônicos, em Cristo eles se complementam.
Primeiro é necessário conformar-se com Cristo em sua morte e, então, ressurgir com Ele para uma nova vida e para um novo homem. Tanto o morrer quanto o ressuscitar só ocorrem quando se está “com” ou “em” Cristo.
Observe o contraste:
“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus.” (Colossenses 3:1);
“Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies?” (Colossenses 2:20–21).
As “coisas que são de cima” pertencem àqueles que ressuscitaram com Cristo. Isso porque a morte com Cristo rompe o vínculo com a antiga condição, encerrando a relação com o pecado e com a lei como sistema regulador da vida (Colossenses 3:3).
As “coisas deste mundo”, por sua vez, referem-se aos rudimentos, ordenanças, regras e comportamentos provenientes de mandamentos de homens, segundo os rudimentos do mundo. Trata-se de um sistema religioso ligado aos da circuncisão, que alguns cristãos ainda seguiam, próprio da vida anterior, isto é, da condição que possuíam antes de morrerem e ressuscitarem com Cristo.
Pensando as coisas que são de cima
2 – “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra.”
Enquanto ainda viviam para o pecado, os interlocutores de Paulo ocupavam seus pensamentos com as coisas da terra, como filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens e os rudimentos do mundo. Ao pensar nas coisas terrenas, os destinatários da carta se prendiam a ordenanças como: “não faças isto”, “não toques aquilo”, “não proves isto ou aquilo”. Entendiam que tais práticas poderiam “melhorar” a condição do homem diante de Deus. Ledo engano.
A partir do momento em que o homem morre com Cristo, passa a viver para Deus — ressuscita com Ele — e, por isso, torna-se necessário buscar as coisas que são de cima e ocupar-se nelas.
Mas quais são as “coisas de cima”? E por que Paulo faz referência ao lugar onde Cristo está assentado? Para responder, é necessário considerar o que Paulo escreveu aos cristãos de Éfeso:
“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (…) e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” (Efésios 1:3; 2:6).
Ressuscitar com Cristo implica participar dessa nova realidade. Se o homem já ressuscitou com Cristo, isso significa que, espiritualmente, está assentado nos lugares celestiais, onde Cristo está à destra de Deus.
O “assentar” indica descanso. Assim como, ao terminar a obra da criação, Deus descansou no sétimo dia, Cristo, ao concluir a obra da redenção, assentou-se à destra do Pai. Isso significa que sua obra é completa:
“Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus” (Hebreus 10:12).
Os sacerdotes, ao oferecerem sacrifícios continuamente, nunca podiam tomar assento, pois tais sacrifícios não aperfeiçoavam os adoradores. Cristo, porém, ao oferecer-se a si mesmo como sacrifício perfeito, e sendo o sumo sacerdote dos bens futuros, assentou-se à destra de Deus nas alturas, evidenciando a suficiência de sua obra.
Por isso, Paulo conclama os cristãos a pensarem nas coisas que são de cima, pois é dessa realidade que procedem todas as bênçãos espirituais em Cristo. Enquanto aqueles que vivem segundo o curso deste mundo se ocupam de ordenanças e preceitos externos, o cristão deve ocupar-se com aquilo que recebeu de Deus: redenção, regeneração, eleição, justificação, santificação, herança e demais bênçãos espirituais (Efésios 1:1–14).
As coisas que são de cima referem-se, portanto, aos dons concedidos por Deus àqueles que se tornaram participantes da natureza divina (2 Pedro 1:4). Já as coisas da terra pertencem àqueles cujo “deus é o ventre” (Filipenses 3:19), pois se apoiam nos elementos segundo a carne (Filipenses 3:3–8).
A vida em Cristo
3 – Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
O motivo para se pensar nas coisas de cima reside no fato de que os cristãos estão mortos — mortos para o pecado. Essa condição implica que o corpo do pecado foi desfeito e, concomitantemente, rompeu-se o vínculo com a lei.
A exortação para pensar nas coisas do alto é significativa e possui um duplo objetivo: conscientizar os convertidos dentre os da circuncisão a abandonarem os pressupostos do judaísmo e, ao mesmo tempo, alertar os cristãos convertidos dentre os gentios a não se deixarem levar pela doutrina dos judaizantes.
Convém lembrar que o pecado é uma condição que alcança toda a humanidade, enquanto a lei alcança, de modo específico, a descendência de Abraão (Romanos 3:19–23). Todos pecaram, porque a morte, decorrente da ofensa, passou a todos os homens; assim, tornaram-se mortos para Deus e vivos para o pecado.
Entre os gentios, enquanto escravos do pecado, nada havia para considerar, pois ignoravam sua condição de sujeição. Já entre os da circuncisão, havia um conjunto de elementos terrenos sobre os quais refletiam: circuncisão, herança terrena, lei, patriarcas, profetas etc. Tais referências lhes conferiam uma falsa segurança, como se fossem salvos por descenderem de Abraão. Contudo, esse vínculo segundo a carne os mantinha debaixo da lei, que os acusava de transgressões, e sob o domínio do pecado, por causa da morte.
Ao morrer com Cristo, o homem morre para o pecado — quando o corpo do pecado é desfeito — e, ao ressurgir com Ele, passa a viver para Deus. Os da circuncisão, agora em Cristo, morreram para o pecado e também para a lei. Já os da incircuncisão, ao morrerem para o pecado, não deveriam se deixar enredar pelos elementos terrenos próprios da circuncisão.
Não há como dissociar o “morrer” para o pecado do “ressurgir” com Cristo. Os que ressurgiram dentre os mortos alcançaram nova vida, plenamente garantida em Cristo. Essa condição pertence àqueles que, de uma vez por todas, morreram para aquilo que os retinha: todos, quanto ao pecado; e, de modo particular, os da circuncisão, também quanto à lei.
Revestimento de glória
4 – Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.
Este versículo trata tanto do futuro de todos os cristãos quanto estabelece um contraste entre a esperança terrena dos judaizantes e a esperança celestial dos cristãos.
A esperança terrena dos judaizantes consistia na restauração do reino de Israel. Em contraste, a esperança dos cristãos é gloriosa: serem revestidos de glória.
O pensamento dos cristãos, portanto, deve estar voltado para o momento em que Cristo se manifestar, pois, naquele dia, eles se manifestarão com Ele em glória. Assim como Ele é, o veremos (1 João 3:1–2), e seremos semelhantes a Ele, com um corpo glorioso.
O apóstolo Paulo afirma que toda a criação geme na expectativa da revelação dos filhos de Deus, isto é, da manifestação da igreja — o corpo de Cristo — em glória (Romanos 8:19). Essa revelação ocorrerá quando Cristo se manifestar.
Contudo, antes da adoção plena, isto é, da redenção do corpo, já se pode afirmar que, assim como Cristo é, os cristãos também são neste mundo: filhos da luz (1 João 4:17).
Os membros como instrumento
5 – Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria;
A condição do cristão perante Deus é a de alguém assentado nos lugares celestiais, e é nas coisas concernentes a essa posição que deve pensar (Efésios 1:3; 1:20; 2:6; 3:10).
Os cristãos já morreram e ressurgiram com Cristo para a glória de Deus, e a dinâmica desses eventos está descrita na epístola aos Romanos (Romanos 6:10). Esses mesmos eventos são abordados na epístola aos Colossenses, e a argumentação da carta tem por base duas premissas fundamentais:
“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo…” (Colossenses 3:1);
“Se, pois, estais mortos com Cristo…” (Colossenses 2:20).
Tendo ocorrido a morte e a ressurreição, segue-se a exortação: “Mortificai, pois…”. Ou seja, o essencial já aconteceu; agora, o cristão deve conformar-se à nova condição que recebeu em Cristo. As premissas dos versículos 1 e 3 do capítulo 3 não podem ser desprezadas na análise do versículo 5, pois este não trata do meio de salvação, mas de como o crente deve viver à luz da nova posição que possui.
A linguagem empregada por Paulo no verso 5 pode ser melhor compreendida à luz de Romanos 6:6 e do contexto greco-romano, no qual o escravo era considerado instrumento do seu senhor, e seus membros, extensão de sua vontade. Assim, “mortificar os membros” não significa aniquilar o corpo físico, como se o cristão devesse abrir mão de suas vontades e anseios próprios da vida presente; antes, significa não se tornar uma extensão viva do pecado. Isto é, o crente não deve se colocar a serviço da iniquidade.
A ideia de “membros”, conforme empregada pelo apóstolo, pode ser compreendida à luz da concepção da sociedade grega descrita por Aristóteles em A Política, especialmente na seção “Do senhor e do escravo”. Nela, o escravo é apresentado como alguém destinado ao uso do seu senhor, sendo considerado parte dele, uma extensão de sua vontade.
Segundo essa concepção, o escravo não pertence a si mesmo, mas a outro; é, portanto, um instrumento para agir sob as ordens de seu senhor. Trata-se de uma posse viva, cuja função é executar a vontade daquele a quem está subordinado. Nesse sentido, seus “membros” não são autônomos, mas operam como prolongamento da ação do senhor.
É a partir dessa lógica que a linguagem paulina pode ser melhor compreendida. Ao falar em “mortificar os membros”, Paulo não está tratando do corpo em si, mas da condição de sujeição: ou os membros estão a serviço do pecado, como instrumentos de iniquidade, ou estão a serviço de Deus, como instrumentos de justiça.
Considerando que os cristãos já morreram e ressurgiram com Cristo (Colossenses 2:20–21; 3:1; Romanos 6:10), o pecado não pode mais reinar no corpo mortal para que se lhe obedeça em suas concupiscências (Romanos 6:12). Isso significa que os membros do cristão não devem mais servir como instrumentos da injustiça, mas, como agora são vivos dentre os mortos, devem ser apresentados a Deus como instrumentos de justiça (Romanos 6:12–13).
O verbo grego νεκρόω (“mortificar”) carrega justamente essa ideia: tornar inoperante. Portanto, não se trata de servir à justiça por meio de ordenanças externas — como se a abstenção de práticas como prostituição, impureza, afeição desordenada, concupiscência ou avareza pudesse, por si só, tem poder de produzir vida espiritual —, mas de não colocar os membros a serviço da lei pelo fato dela vedar essas práticas.
Há aqui um alerta importante: servir a Deus por meio dos pressupostos da lei, como se a observância de proibições fosse o caminho para a libertação do pecado, é inverter a ordem do evangelho. A libertação não decorre da abstinência moral, mas da morte com Cristo. Caso contrário, o indivíduo continua oferecendo seus membros como instrumentos de injustiça, ainda que sob aparência religiosa que deriva das tradições dos homens.
Os cristãos, como servos de Cristo, devem portar-se de modo a não dar escândalo nem a judeus, nem a gregos, nem à igreja de Deus, o que implica um comportamento orientado por uma consciência reta, acima do padrão comum da sociedade na qual o crente está inserido (Hebreus 13:18). Contudo, tentar servir a Deus por meio dos pressupostos da lei equivale a tornar-se servo da própria lei, o que, em última instância, submete o homem novamente ao pecado, pois expõe Cristo ao vitupério (Romanos 7:25; Hebreus 6:6).
Para evitar dissensão no seio da igreja de Colossos, especialmente entre cristãos convertidos dentre judeus e gentios, Paulo não aborda diretamente a lei, como faz na carta aos Romanos; antes, destaca elementos a ela associados — como prostituição, impureza, afeição desordenada, vil concupiscência e avareza, que é idolatria —, apontando de forma implícita para o seu uso indevido. Assim, combate aqueles que se utilizam da lei de maneira ilegítima, os quais são descritos como injustos e obstinados: ímpios e pecadores, profanos e irreligiosos, parricidas, matricidas, homicidas, fornicadores, sodomitas, roubadores de homens, mentirosos e perjuros. Isso evidencia que, ao tropeçar em um só ponto da lei, o transgressor se torna culpado de toda ela (1 Timóteo 1:9–10).
Essa forma velada de apontar elementos da lei — que caracterizam os da circuncisão sob o seu domínio — constitui um recurso pedagógico para apresentá-los como exemplo, a fim de que os crentes em Cristo não incorram na incredulidade. Tal advertência remete ao exemplo do povo no deserto, do qual Deus não se agradou em sua maioria (1 Coríntios 10:5–14), evidenciando-os como transgressores.
Observe-se, ainda, que o rol de condutas apresentado em Colossenses 3:5 guarda paralelismo com aquele descrito em 1 Coríntios 10:5–14, reforçando o argumento paulino quanto à incompatibilidade entre a antiga condição e a nova vida em Cristo.
Uma leitura equivocada do texto consistiria em entender que Paulo está apresentando a abstenção de condutas imorais como condição essencial para a libertação do pecado, em vez de reconhecê-la como consequência da morte com Cristo. Se a simples vedação de práticas imorais fosse suficiente para produzir justiça, o evangelho não seria necessário para a salvação. Por outro lado, se alguém entende essa lista como um conjunto de ações cuja observância aproxima o homem de Deus, na verdade está oferecendo seus membros como instrumentos de injustiça, ainda que sob aparência de piedade.
Isso foi precisamente o que ocorreu com os cristãos da Galácia. Ao se deixarem circuncidar, passaram a introduzir um elemento da lei que, como fermento, comprometia a pureza do evangelho. A partir daí, prescrições como “não toques”, “não proves” e semelhantes tornam-se centrais, deslocando o foco da graça para a observância externa, fazendo com que os membros deixem de ser instrumentos de justiça para se tornarem instrumentos de injustiça (Romanos 6:11–13).
Embora o cristão ainda esteja na terra e possua um corpo físico, o texto não trata diretamente do corpo que será revestido de imortalidade, mas de uma figura que remete à lógica da escravidão: os membros como instrumentos a serviço de um senhor. Assim, “mortificar os membros” significa não mais permitir que eles sejam governados pelo pecado, mas submetê-los à justiça.
Portanto, não se deve concluir que morrer e ressurgir com Cristo decorrem da abstenção de práticas morais. Muitas religiões ensinam tais práticas, e seus adeptos as observam rigorosamente, sem, contudo, terem morrido e ressuscitado com Cristo.
Morrer e ressurgir com Cristo — isto é, tornar-se nova criatura — decorre da graça de Deus mediante o evangelho e a fé. Já “mortificar os membros” diz respeito à vida prática: não apresentar os membros à injustiça, mas oferecê-los voluntariamente a Deus, como servos da justiça.
Nesse sentido, o ensino de Paulo é coerente com outra de suas exortações:
“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gálatas 5:25).
A ira de Deus
6 – Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência;
Este versículo é breve, mas concentra diversas questões que o tornam grandioso e complexo, sobretudo pela forma como correlaciona a “ira de Deus” com a “rebeldia”.
As práticas mencionadas — prostituição, impureza, afeição desordenada, vil concupiscência e avareza, que é idolatria — não se resumem a meras condutas condenadas pela lei; antes, constituem uma forma de evidenciar que os filhos de Israel são transgressores. Em decorrência das transgressões dos filhos de Jacó, desde que foram tirados do Egito e não deram ouvidos a Deus, o salmista elenca, no Salmo 78, condutas no deserto que precederam a imposição formal da lei. Tais práticas expõem a rebeldia que caracterizou Israel, indicando que a ira de Deus, em destaque, não se vincula meramente à transgressão formal da lei, mas à repreensão imposta por Deus em razão da persistente oposição do povo à sua palavra (Gálatas 3:19).
Assim, as condutas elencadas por Paulo em Colossenses 3:5 devem ser compreendidas não apenas como uma lista normativa de pecados, mas como a expressão de um padrão mais profundo de rebeldia já evidenciado na história de Israel antes mesmo da entrega da lei, conforme descrito no Salmo 78. Nesse salmo, o comportamento dos filhos de Jacó no deserto revela uma constante infidelidade a Deus: fingiam obedecer, mas o coração não era firme (Salmos 78:36–37); contaminavam-se com práticas idólatras (Salmos 78:58); davam vazão a desejos desordenados ao tentarem a Deus segundo seus próprios apetites (Salmos 78:18); e manifestavam cobiça insaciável, mesmo após receberem provisão divina (Salmos 78:29–31). Tais atitudes demonstram que o problema não se restringe à violação de preceitos legais, mas à disposição interior de incredulidade e rejeição da palavra de Deus, que antecede e fundamenta a própria necessidade da lei (Salmos 78:22.
Ao retomar essas categorias, Paulo ecoa esse padrão histórico, fazendo com que os filhos de Israel figurem como exemplo, a fim de que os cristãos não incorram no mesmo erro de desobediência (1 Coríntios 10:1–11). Desse modo, ao enumerar condutas semelhantes às descritas no Salmo 78, o apóstolo, ao declarar que a ira de Deus vem sobre os “filhos da desobediência”, tem em vista os filhos rebeldes — em essência, a nação de Israel por causa da incredulidade —, estabelecendo um contraste com a igreja, que é constituída de filhos de Deus mediante a fé em Cristo (Isaías 30:1).
Vale destacar que, ao pontuar as condutas sobre as quais vem a ira de Deus, Paulo não está estabelecendo uma nova lei para a igreja. Antes, evidencia que os cristãos, como servos da justiça, não devem apresentar seus membros à injustiça, nem se submeter a preceitos humanos que, historicamente, despertaram a ira de Deus sobre Israel. Tais práticas — prostituição, impureza, afeição desordenada, vil concupiscência e avareza, que é idolatria — já eram denunciadas no contexto da aliança, como se observa em Deuteronômio (Deuteronômio 4:25–26; 6:14–15), onde a transgressão conduzia à manifestação da ira divina.
Nesse sentido, a “ira de Deus” não se reduz à condenação em Adão, nem se limita ao juízo final, mas deve ser compreendida também como resposta divina à obstinação de um povo que, mesmo sob a lei, permanece em desobediência. Trata-se de uma ira que se manifesta de forma histórica, pactual e pedagógica, em reação à rebeldia persistente de Israel, evidenciando-se concretamente por meio de maldições, juízos e disciplina, funcionando como sinal de sua condição e como chamado à conversão (cf. Deuteronômio 28:46; 29:27–28; 9:7–8).
A “ira” que vem sobre os filhos da desobediência, nesse contexto, deve ser analisada à luz da exortação para que o cristão não se torne instrumento da injustiça, conforme desenvolvido em Romanos 6. Em essência, trata-se do perigo de voltar a submeter-se aos preceitos da lei como sistema de justiça, os quais, historicamente, não livraram Israel da ira manifesta nas maldições registradas em Deuteronômio, culminando no exílio — uma realidade de caráter coletivo.
“Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão:” (Deuteronômio 28:15).
Esse enfoque difere do contexto de Romanos 2, onde a ira está relacionada à rejeição do evangelho e ao julgamento dos segredos dos homens diante de Deus, evidenciando uma dimensão individual (Romanos 2:8,16). Assim, enquanto em Romanos 6 e Colossenses 3 a ênfase recai sobre a não submissão a um sistema que evidencia o pecado e já demonstrou seus efeitos históricos, em Romanos 2 a ira é apresentada como juízo escatológico, ligado à resposta pessoal de cada indivíduo à verdade do evangelho.
“Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus.” (Romanos 2:5).
Os filhos da desobediência
7 – Nas quais, também, em outro tempo andastes, quando vivíeis nelas.
Este versículo contém a mesma ideia que ( Ef 5:8 ):
“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 )
‘Em outro tempo’ refere-se ao tempo em que por natureza se era filho da desobediência, ou seja, éreis trevas.
‘Nas quais’ refere-se ao comportamento desprezível que os filhos das trevas possuem.
Após comparar os elementos que compõe os dois versículos, verifica-se que ‘andar’ fala de questões comportamentais, e ‘viver’ fala de qual natureza o homem pertence (luz ou trevas; carne ou Espírito).
“Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” Gl 5. 25.
Aqueles que, após nascerem da água e do Espírito, passaram a viver em Espírito, e, por tanto, são espirituais, também deve andar, ou seja, a ter um comportamento a altura de sua nova natureza.
Em outro tempo andávamos em concupiscências, pois vivíamos segundo o pecado. Por natureza éramos trevas, e andávamos como filhos das trevas.
Hoje é diferente: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” ( Rm 6:4 ).
Ao cremos em Cristo, morremos com ele e ressurgimos e passamos a viver uma nova vida por meio de Cristo. Como fomos ressuscitados e vivemos em novidade de vida, devemos também andar em novidade de vida.
8 – Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca.
Paulo convoca os cristãos a experimentarem um novo patamar na conduta cristã.
Antes todos andavam segundo o curso do mundo, mas agora há o dever de se desfazer de tudo que era pertinente ao velho homem que foi crucificado com Cristo: ira, cólera, malicia, etc. O cristão deve se despojar, desfazer de tudo que era pertinente a velha criatura.
A velha criatura foi morta na cruz de Cristo, e não mais vive, mas Cristo vive nos que creem ( Gl 2:20 ). Segue-se que agora deve se desfazer das coisas que pertenciam ao velho homem.
9 – Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos,
A mentira é um tipo de comportamento pertinente ao velho homem, pois o novo homem é segundo a verdade do evangelho, o que o torna livre. Livre do velho homem, da velha natureza e despido do comportamento desprezível segundo o pecado.
10 – E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou;
Há uma nova ‘roupa’ para aqueles que estão em Cristo. O cristão JÁ se despiu e JÁ se vestiu do que é pertinente ao novo homem “E vos revestistes do novo…”.
Este novo homem se renova para o conhecimento, segundo o que Paulo falou aos romanos: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ).
O novo homem é segundo a imagem de Deus! Como?
A transformação que ainda esta sendo submetidos os filhos de Deus é quanto ao entendimento, e isto sim é um processo, pois o objetivo de Deus é que experimentemos a sua boa vontade.
Mas quanto a filiação, o novo homem é criado segundo Deus “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ).
O novo homem é criado segundo o poder de Deus, e de Cristo temos recebidos a plenitude “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” ( Cl 2:10 ). Qual a Adão são os filhos de Adão, qual Cristo são os filhos de Deus ( 1Co 15:48 ).
Sendo Cristo a imagem de Deus “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 ), novamente estabeleceu o propósito eterno de fazer convergir em Cristo todas as coisas, sendo nós os que cremos, feitos a imagem e semelhança de Deus “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26) .
“Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles”
( Hb 2:10 )
11 – Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.
Qual é o único lugar que não há diferença entre os homens? No corpo de Cristo, visto que Ele disse ao repartir o pão: “E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim” ( 1Co 11:24 ). O corpo de Cristo estaria repartido, ou seja, cada um deles eram o corpo de Cristo.
O corpo de Cristo consegue abrigar a todos os homens e ele não faz distinção entre os seus. Cristo passa a ser tudo em todos. Qualquer aspecto que se queira evidenciar, devemos considerar primeiramente a Cristo, o apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão ( Hb 3:1 ).
12 – Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade;
No versículo dez Paulo demonstrou que o cristão foi vestido do novo, e aqui ele recomenda revestir de misericórdia, benignidade, humildade, etc.
Qual a diferença entre vestir e revestir? Qual é a vestimenta do novo homem? Qual o motivo de ser necessário revestir?
Antes de conhecer a Jesus as vestes do velho homem eram trapos de imundícies, hoje, o cristão cobre-se de salvação e é envolvido pelo manto da justiça de Deus ( Jó 29:14 ; Is 61:10 ). Ao ser criado em verdadeira justiça e santidade, o novo homem não é achado nu a semelhança de Adão, mas está vestido do que Deus lhe providenciou.
Do novo homem o cristão já está vestido, agora, por ser eleito, santo e amado precisa revestir-se de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, longanimidade ( Gl 5:22 ).
13 – Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.
Paulo interpõe a pessoa de Cristo como exemplo.
14 – E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.
Ademais, o amor não deve faltar na vida do cristão, pois n’Ele está o vínculo perfeito “E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 4:16 ).
15 – E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos.
A paz de Deus excede a todo entendimento. Por meio de Cristo temos paz com Deus, e isto foi realizado por meio do corpo dele.
Por meio da fé nos unimos a Cristo, e isto se dá por meio da sua morte. Após a morte ressurgimos um novo homem e em paz com Deus “Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz” ( Ef 2:15 ).
Fomos chamados por meio do corpo de Cristo e passamos a ter paz com Deus. Agora fazemos parte deste corpo que é composto por pessoas de diferentes classes sociais, etnias, línguas, nações, etc. A paz que temos com Deus transcende e alcança os nossos semelhantes, o que prova que somos nascidos dele.
16 – A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.
A palavra de Deus deve fazer morada no crente “Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia” ( Tg 3:17 ).
Após adquirir sabedoria conforme expõe o apóstolo Tiago, o ensinar e o admoestar se dá através de salmos, hinos e cânticos, ou seja, através da palavra de Deus.
17 – E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.
O louvor pertence a Deus por meio de Cristo ( Ef 2:10 ).
O contexto muda completamente e Paulo passa a exortar grupos em particular. Paulo determina as mulheres cristãs que residiam em colossos a que fossem sujeitas aos seus maridos, o que é conveniente no Senhor. Não há nesta carta qualquer referência que esclareça os motivos pelas quais o apóstolo Paulo solicita esta submissão àquelas irmãs em particular.
A carta aos cristãos de Efésios possui tal ordenança e outros elementos, mas é temerário nos socorrer de outra carta para tentar elucidar o propósito de Paulo em dar tal recomendação. Por quê? Os cristãos de Efésios viram o apóstolo Paulo pessoalmente e os cristãos de Colossenses não. Isto porque a carta possui destinatários e serve quase que exclusivamente àquela comunidade cristã. Observe que Paulo é bem genérico na exortação.
19 – Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não vos irriteis contra elas.
Paulo recomenda aos maridos o amor para com as esposas e que não se irritassem com elas. É bem genérico, e não é de bom alvitre tentar dar um motivo pela qual os maridos se irritavam com suas esposas.
20 – Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor.
Paulo recomenda a obediência aos filhos, e arremata que tal atitude agrada ao Senhor.
21 – Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não percam o ânimo.
Paulo aponta aos pais o motivo pela qual não se deve irritar os filhos: para que não percam o ânimo.
22 – Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus.
Analisando as determinações verifica-se um parâmetro que preserva a autoridade na sociedade e na família. Quando Paulo fala àqueles que estão sob autoridade, ele aponta o Senhor (esposa, filhos, servos). Quando Paulo fala aos detentores de autoridade (marido, pais, senhores), ele não fala como ao Senhor, mas aponta a causa pela qual não se deve tomar tal atitude.
23 – E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens,
Deixando as questões pertinentes a autoridade de lado, Paulo recomenda a todos os cristãos que tudo o que fizessem, que fizessem como ao Senhor.
24 – Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis.
Tudo o que o cristão faz é serviço ao Senhor. Hoje somos escravos da justiça, conforme Paulo diz aos Romanos (v. 17 ; Rm 6:18 ).
25 – Mas quem fizer agravo receberá o agravo que fizer; pois não há acepção de pessoas.
Vide explicação do versículo seis.

Glórias a Deus. Deus continue te dando força,virtude, sabedoria, disposição e boa mente em Cristo. Fica com Deus, ótimo estudo,gostei.
Paz do senhor Jesus capitão, excelente, adorei este estudo!
Estudo abençoado! Que Deus continue a te usar, meu irmão! Fique na Paz! Um grande abraço!