Colossenses

Colossenses 2 – Perfeitos em Cristo

O conhecimento da verdade revelada nas Escrituras é indispensável para que os cristãos não sejam enganados por discursos persuasivos que, embora revestidos de aparente sabedoria e espiritualidade, distorcem a mensagem do evangelho. A falta desse conhecimento torna os cristãos vulneráveis às artimanhas de falsos profetas, falsos apóstolos e falsos mestres, que se valem de palavras cuidadosamente elaboradas para introduzir ensinamentos contrários à verdade. Não basta, portanto, que uma mensagem seja convincente, eloquente ou apresentada em nome de Deus; é necessário examinar seu conteúdo à luz das Escrituras. É precisamente contra esse perigo que o apóstolo Paulo adverte: “Ninguém vos engane com palavras vãs, pois por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Efésios 5:6).


Perfeitos em Cristo

O apóstolo Paulo dedicava-se a anunciar Cristo aos gentios, admoestando e ensinando a todos os homens, tanto judeus quanto gentios, em toda a sabedoria, com o propósito de apresentá-los perfeitos em Cristo (Colossenses 1:28–29). Essa missão compreendia duas atividades inseparáveis: de um lado, o trabalho ministerial de anunciar e ensinar o evangelho; de outro, o combate apostólico contra os ensinamentos que ameaçavam afastar os cristãos da verdade anunciada.

No capítulo 1 da Epístola aos Colossenses, Paulo enfatiza o trabalho que lhe fora confiado como ministro do evangelho, especialmente a responsabilidade de anunciar a palavra de Deus, revelar o mistério que estivera oculto desde os séculos e tornar conhecida, entre os gentios, a riqueza da glória desse mistério: Cristo neles, a esperança da glória (Colossenses 1:23–27). O objetivo desse trabalho não era simplesmente transmitir conhecimentos religiosos, mas anunciar Cristo, em quem os cristãos encontram tudo o que é necessário para serem apresentados perfeitos diante de Deus.

No capítulo 2, entretanto, Paulo evidencia outra dimensão dessa mesma missão: o combate em favor daqueles que haviam recebido o evangelho. Sua preocupação não se limitava a alcançar os que ainda não conheciam Cristo, mas também a preservar os cristãos dos discursos capazes de desviá-los da verdade. Por essa razão, depois de declarar o grande combate que sustentava pelos colossenses e por aqueles que não o conheciam pessoalmente, o apóstolo explicita o perigo que motivava sua advertência: “E digo isto para que ninguém vos engane com palavras persuasivas” (Colossenses 2:4).

O combate apostólico, portanto, não se dirigia contra a capacidade humana de argumentar ou persuadir, mas contra os ensinamentos que, revestidos de aparente sabedoria, procuravam introduzir fundamentos estranhos ao evangelho. Filosofias, tradições humanas e rudimentos do mundo representavam perigos quando apresentados como necessários àqueles que já estavam completos em Cristo (Colossenses 2:8–10). Assim, o mesmo apóstolo que trabalhava para anunciar Cristo também combatia para que os cristãos permanecessem firmes nele, sem permitir que argumentos persuasivos os afastassem da verdade que haviam recebido.

Colossenses 2:1 — O grande combate do apóstolo Paulo

“Porque quero que saibais quão grande combate tenho por vós, e pelos que estão em Laodiceia, e por quantos não viram o meu rosto em carne” (Colossenses 2:1).

O segundo capítulo da Epístola aos Colossenses tem início com uma declaração que evidencia a intensidade do empenho do apóstolo Paulo em favor dos cristãos daquela região. Ao afirmar que desejava tornar conhecido o grande combate que sustentava por eles, o apóstolo não pretendia simplesmente comunicar suas dificuldades pessoais, mas demonstrar que o trabalho desenvolvido em benefício da igreja não estava limitado à pregação do evangelho aos que ainda não haviam crido. Sua missão também compreendia o cuidado com aqueles que já haviam recebido a mensagem de Cristo, especialmente os que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.

A conjunção “porque”, que introduz o versículo, estabelece uma relação direta com a declaração que encerra o primeiro capítulo: “E para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente” (Colossenses 1:29). Desse modo, o combate mencionado no início do capítulo 2 não representa uma nova atividade ministerial, mas a continuação do trabalho anteriormente descrito. Paulo anunciava Cristo, admoestando e ensinando a todos os homens em toda a sabedoria, com o propósito de apresentá-los perfeitos em Cristo (Colossenses 1:28). Entretanto, o anúncio do evangelho não esgotava sua responsabilidade, pois aqueles que haviam recebido a palavra também necessitavam ser instruídos e fortalecidos no conhecimento da verdade.

O termo grego traduzido por “combate” é agṓn (ἀγών), empregado para designar uma luta, disputa ou esforço intenso, inclusive no contexto das competições atléticas. A expressão utilizada por Paulo, hēlíkon agōna (ἡλίκον ἀγῶνα), ressalta a grandeza desse empenho, enquanto o verbo relacionado, agōnízomai (ἀγωνίζομαι), já havia sido empregado no versículo anterior para descrever seu trabalho ministerial. A aproximação entre os dois versículos demonstra que o apóstolo considerava o exercício de seu ministério uma atividade que exigia dedicação, perseverança e esforço contínuo, sustentados pela eficácia de Cristo que nele operava poderosamente.

É igualmente importante observar que Paulo não restringe esse combate aos cristãos de Colossos, pois inclui expressamente os de Laodiceia e todos aqueles que ainda não haviam visto seu rosto em carne. Essa declaração amplia o alcance de sua preocupação e evidencia que o cuidado apostólico não dependia da convivência pessoal com os destinatários. Ainda que muitos não o conhecessem presencialmente, estavam incluídos entre aqueles em favor dos quais o apóstolo trabalhava, pois pertenciam ao mesmo corpo, a igreja, da qual Cristo é a cabeça (Colossenses 1:18, 24).

A referência à igreja de Laodiceia também não é incidental. Ao encerrar a epístola, Paulo determina que a carta enviada aos colossenses seja igualmente lida pelos laodicenses e que os cristãos de Colossos tenham acesso à carta procedente de Laodiceia (Colossenses 4:16). Essa orientação demonstra que a instrução apostólica deveria circular entre as comunidades, permitindo que os ensinamentos destinados a uma igreja também contribuíssem para a edificação de outras. Assim, o cuidado de Paulo ultrapassava os limites de uma congregação específica, alcançando os cristãos que compartilhavam a mesma fé, ainda que não tivessem mantido contato pessoal com ele.

A ausência física do apóstolo, portanto, não significava ausência de cuidado. Embora não pudesse estar pessoalmente entre todos aqueles por quem combatia, Paulo procurava contribuir para sua edificação mediante a exposição da verdade do evangelho. Seu empenho tinha como fundamento o ministério que recebera de Deus para anunciar plenamente a sua palavra, tornando conhecido o mistério que estivera oculto desde os séculos e que agora havia sido manifestado aos santos (Colossenses 1:25–27).

Entretanto, a declaração de que sustentava um grande combate suscita uma questão indispensável à compreensão do argumento: em que consistia esse esforço e qual resultado Paulo pretendia alcançar entre os cristãos? A resposta não deve ser procurada primeiramente nas circunstâncias pessoais do apóstolo, mas na finalidade expressamente apresentada no versículo seguinte. Ao afirmar que combatia em favor dos colossenses, dos laodicenses e daqueles que não o conheciam pessoalmente, Paulo prepara seus leitores para compreender que seu trabalho estava diretamente relacionado ao fortalecimento dos corações, à unidade em amor e à plenitude do entendimento do mistério de Deus, Cristo.

Colossenses 2:2 — A finalidade do combate apostólico

“Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo” (Colossenses 2:2).

Depois de declarar o grande combate que sustentava pelos cristãos de Colossos, de Laodiceia e por todos aqueles que ainda não haviam visto seu rosto pessoalmente, o apóstolo Paulo apresenta a finalidade de seu empenho. Seu trabalho não consistia apenas em anunciar Cristo aos que ainda não haviam recebido o evangelho, mas também em fortalecer aqueles que já haviam crido, para que fossem consolados, permanecessem unidos em amor e alcançassem a riqueza da plena certeza do entendimento, mediante o conhecimento do mistério de Deus, Cristo.

A expressão “para que”, que introduz o versículo, estabelece uma relação de finalidade com o combate mencionado anteriormente. Paulo não estava simplesmente descrevendo os benefícios que desejava aos cristãos, mas indicando os resultados que procurava alcançar por meio de seu ministério. Por essa razão, a consolação dos corações, a união em amor e o enriquecimento do entendimento não devem ser considerados objetivos independentes, pois estão relacionados entre si e convergem para o conhecimento do mistério de Deus.

Para que os seus corações sejam consolados

O primeiro resultado pretendido pelo apóstolo era a consolação dos corações dos cristãos. Entretanto, para compreender o significado dessa consolação, é necessário considerar o emprego que Paulo faz do termo em outras passagens, evitando restringi-lo à ideia contemporânea de oferecer alívio emocional diante de uma situação dolorosa.

Ao escrever aos coríntios, o apóstolo apresenta Deus como aquele que consola os seus servos em todas as tribulações, acrescentando a finalidade dessa consolação:

“Que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus” (2 Coríntios 1:4).

A declaração demonstra que a consolação recebida de Deus não permanece restrita àquele que é consolado, mas também o capacita a consolar outras pessoas. Há, portanto, uma relação entre receber consolação e transmiti-la, de modo que o cuidado dispensado aos cristãos também se manifesta por meio daqueles que foram fortalecidos por Deus em suas próprias tribulações.

O termo grego relacionado à consolação, parakaléō (παρακαλέω), possui um campo de significados que compreende consolar, encorajar, exortar e fortalecer. Essa amplitude é importante para a compreensão da declaração de Paulo, pois o objetivo de seu combate não era simplesmente proporcionar conforto aos colossenses, mas contribuir para que seus corações fossem fortalecidos e encorajados na verdade do evangelho.

Nesse sentido, a consolação dos corações está diretamente relacionada à mensagem de Cristo. O mesmo evangelho que anuncia a esperança da glória também fornece aos cristãos os fundamentos necessários para permanecerem firmes, mesmo diante de tribulações e ensinamentos contrários à verdade. Assim, embora estivesse fisicamente distante daqueles por quem combatia, Paulo procurava fortalecê-los mediante a instrução apostólica, demonstrando que a consolação cristã não dependia exclusivamente da presença pessoal daquele que consola, mas podia ser comunicada por meio da palavra anunciada.

E estejam unidos em amor

A segunda finalidade do combate apostólico era que os cristãos estivessem unidos em amor. Entretanto, essa união não poderia ser estabelecida mediante vínculos consanguíneos, afinidades pessoais, pertencimento étnico ou observância de um código de ordenanças, pois a comunhão entre os membros do corpo de Cristo possui um fundamento que ultrapassa todas essas relações. Para compreender a natureza desse vínculo, é necessário considerar que o amor cristão está diretamente relacionado à obediência ao mandamento de Deus, cujo conteúdo é apresentado pelo apóstolo João:

“Ora, o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” (1 João 3:23).

A expressão de 1 João 3:23, “o seu mandamento é este”, merece destaque porque João emprega o singular (entolḗ, ἐντολή), embora apresente duas ações: crer e amar.

A declaração apresenta dois aspectos inseparáveis do mandamento divino: crer no nome de Jesus Cristo e amar uns aos outros. Entretanto, embora reunidos em um mesmo mandamento, esses aspectos possuem uma relação lógica que não pode ser desconsiderada, pois somente aqueles que creem em Cristo são feitos filhos de Deus e, consequentemente, passam a integrar a família à qual se dirige o mandamento do amor fraternal.

O evangelista João já havia estabelecido essa relação ao declarar: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (João 1:12). A condição de filho de Deus não decorre da descendência natural, da vontade da carne ou da vontade do homem, mas está relacionada àqueles que recebem a Cristo pela fé. Dessa maneira, o mandamento de crer em Cristo possui uma importância fundamental, pois é pela fé nele que o homem passa a participar da comunhão daqueles que foram feitos filhos de Deus.

Essa verdade também esclarece a natureza do amor fraternal, pois o mandamento de amar os irmãos pressupõe a existência de uma fraternidade estabelecida em Cristo. Não se trata simplesmente de amar aqueles com quem se compartilham interesses ou sentimentos, mas de reconhecer como irmãos aqueles que igualmente foram feitos filhos de Deus mediante a fé no seu Filho.

O próprio apóstolo João confirma essa relação ao afirmar: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido” (1 João 5:1). A declaração estabelece uma relação direta entre crer em Cristo, nascer de Deus e amar os que dele são nascidos. Assim, o amor fraternal encontra seu fundamento na nova condição daqueles que, mediante a fé, passaram a pertencer à família de Deus.

Por essa razão, não seria suficiente que os cristãos de Colossos cultivassem sentimentos de amizade, solidariedade ou afeição recíproca, pois esses sentimentos também podem existir entre pessoas que não compartilham a fé em Cristo. A união pretendida por Paulo estava fundamentada em uma realidade superior às relações naturais: todos haviam recebido o mesmo evangelho, crido no mesmo Senhor e sido reunidos em um mesmo corpo, do qual Cristo é a cabeça.

A obediência ao mandamento de crer em Cristo estabelece, portanto, o fundamento da comunhão cristã, enquanto a obediência ao mandamento de amar os irmãos manifesta essa comunhão nas relações entre aqueles que pertencem a Deus. Isso não significa que os homens sejam incapazes de demonstrar afeição, solidariedade ou cuidado antes de crerem em Cristo, mas que o amor fraternal especificamente cristão pressupõe a relação comum dos participantes com aquele que os constituiu filhos de Deus.

É nesse sentido que se deve compreender a preocupação de Paulo com a união dos colossenses. O apóstolo não combatia para reunir pessoas mediante vínculos exteriores, nem para submetê-las a tradições e ordenanças religiosas, mas para que aqueles que haviam crido permanecessem unidos em amor, reconhecendo uns aos outros como membros do mesmo corpo.

Essa compreensão encontra correspondência na orientação apresentada posteriormente na própria epístola: “E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3:14). O amor é apresentado como vínculo porque caracteriza e preserva a comunhão entre aqueles que pertencem a Cristo, cuja unidade não se fundamenta nas distinções naturais existentes entre os homens, mas na relação que todos possuem com o mesmo Senhor.

Consequentemente, quando Paulo declara que combatia para que os cristãos estivessem unidos em amor, sua preocupação não se limitava à harmonia das relações interpessoais. O apóstolo desejava que aqueles que haviam obedecido ao mandamento de crer em Cristo também observassem o mandamento de amar uns aos outros, manifestando, na comunhão fraternal, a condição daqueles que foram feitos filhos de Deus.

E enriquecidos da plenitude da inteligência

A terceira finalidade do combate apostólico era enriquecer os cristãos da plenitude da inteligência, expressão que deve ser compreendida à luz do conhecimento espiritual proporcionado pelo evangelho. A expressão não diz respeito ao aumento da capacidade intelectual natural, tampouco à aquisição de conhecimentos filosóficos ou religiosos desvinculados do evangelho, mas à compreensão espiritual da verdade revelada em Cristo.

Essa preocupação já havia sido apresentada no primeiro capítulo da epístola, quando Paulo declarou:

“Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (Colossenses 1:9).

A relação entre as duas passagens é especialmente significativa. No primeiro capítulo, Paulo afirma que não cessava de orar para que os cristãos fossem cheios do conhecimento da vontade de Deus, em toda a sabedoria e inteligência espiritual. No segundo, declara que sustentava um grande combate para que fossem enriquecidos da plenitude do entendimento. Desse modo, aquilo que o apóstolo pedia a Deus em oração também constituía o propósito de seu trabalho ministerial.

O apóstolo, portanto, não considerava a oração um substituto da instrução, nem imaginava que o conhecimento espiritual dispensasse o anúncio da verdade. Ele orava pelos cristãos e trabalhava para que fossem instruídos, pois o conhecimento da vontade de Deus estava relacionado à compreensão da mensagem que lhes havia sido anunciada.

Paulo não se limitava a desejar que os cristãos conhecessem a vontade de Deus, pois trabalhava ativamente para que esse conhecimento fosse comunicado e compreendido. A oração e o ensino não constituíam atividades concorrentes, mas expressões complementares do mesmo cuidado apostólico. Enquanto rogava a Deus pelo crescimento espiritual dos colossenses, empenhava-se em anunciar e ensinar Cristo, em quem se encontram os fundamentos desse conhecimento.

A expressão “plenitude da inteligência” também exige atenção, pois não se refere à capacidade intelectual natural dos homens, como se Paulo estivesse empenhado em torná-los mais inteligentes segundo os critérios humanos. O termo grego sýnesis (σύνεσις), traduzido por “inteligência” ou “entendimento”, aparece associado à plērophoría (πληροφορία), que expressa a ideia de plenitude ou plena certeza. Desse modo, o enriquecimento pretendido pelo apóstolo diz respeito à riqueza de uma compreensão segura da verdade, e não à mera acumulação de informações religiosas.

Essa compreensão guarda relação com a declaração de Paulo aos coríntios: “Mas nós temos a mente de Cristo” (1 Coríntios 2:16). Ao apresentar a sabedoria de Deus em contraste com a sabedoria deste mundo, o apóstolo demonstra que o conhecimento das coisas espirituais não resulta simplesmente da investigação humana, mas daquilo que Deus revelou pelo seu Espírito. A mente de Cristo, nesse contexto, está relacionada à compreensão da sabedoria divina manifestada no evangelho, em oposição aos critérios pelos quais o homem natural pretende julgar as coisas de Deus.

Consequentemente, enriquecer os cristãos da plenitude da inteligência não significava conduzi-los à descoberta de uma verdade superior àquela que haviam recebido, mas proporcionar-lhes uma compreensão cada vez mais segura do evangelho. O conhecimento de Cristo não precisava ser complementado por filosofias, tradições humanas ou ordenanças religiosas, pois o próprio apóstolo demonstrará, no versículo seguinte, que nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.

É igualmente importante observar que Paulo não relaciona a riqueza espiritual à prosperidade material. Quando menciona as riquezas do mistério revelado entre os gentios, identifica expressamente seu conteúdo: “Cristo em vós, esperança da glória” (Colossenses 1:27). A riqueza que Deus quis tornar conhecida não consistia na promessa de abundância de bens terrenos, mas na manifestação de Cristo aos gentios, anteriormente estranhos às promessas, mas agora alcançados pelo anúncio do evangelho.

Assim, o apóstolo não combatia para que os cristãos se tornassem materialmente abastados, mas para que fossem enriquecidos do conhecimento da verdade que lhes havia sido anunciada. Essa distinção não significa que as Escrituras condenem a posse de bens materiais, mas que a riqueza mencionada nessa passagem possui natureza espiritual e está diretamente relacionada à compreensão do mistério de Deus.

O propósito desse combate também encontra correspondência na exortação dirigida aos filipenses:

“Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (Filipenses 1:27).

A declaração demonstra que a defesa do evangelho não constituía uma responsabilidade exclusiva do apóstolo. Assim como Paulo combatia em favor dos cristãos, estes também deveriam permanecer firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente pela fé do evangelho. O conhecimento da verdade anunciada, portanto, não tinha por finalidade apenas proporcionar segurança individual, mas também fortalecer a comunhão daqueles que compartilhavam a mesma mensagem.

Há uma correspondência entre a preocupação de Paulo com os colossenses e sua orientação aos filipenses. Aos primeiros, desejava que estivessem unidos em amor e enriquecidos da plena certeza do entendimento; aos segundos, recomendava que permanecessem firmes em um mesmo espírito, combatendo juntos pela fé do evangelho. Em ambas as passagens, a unidade dos cristãos está relacionada à mensagem de Cristo, que constitui o fundamento de sua comunhão.

Essa relação também demonstra que o combate apostólico não se restringia a denunciar os erros daqueles que se opunham ao evangelho. Antes de tudo, Paulo trabalhava para tornar conhecida a verdade, pois o conhecimento de Cristo fornecia aos cristãos os elementos necessários para reconhecer os argumentos que contrariavam a mensagem recebida. Seu esforço tinha, portanto, uma finalidade positiva: fortalecer o entendimento daqueles que haviam crido, de modo que permanecessem firmes na fé.

A própria estrutura da Epístola aos Colossenses confirma essa interpretação. Inicialmente, Paulo declara sua alegria em sofrer em benefício do corpo de Cristo, que é a igreja (Colossenses 1:24). Em seguida, apresenta-se como ministro segundo a dispensação de Deus, incumbido de anunciar plenamente a sua palavra (Colossenses 1:25). O conteúdo desse anúncio é o mistério que estivera oculto desde os séculos e que agora havia sido manifestado aos santos, cuja riqueza da glória entre os gentios é Cristo, a esperança da glória (Colossenses 1:26–27).

Depois de esclarecer a natureza de seu ministério e o conteúdo da mensagem anunciada, Paulo declara que anunciava Cristo, admoestando e ensinando a todos os homens em toda a sabedoria, com o propósito de apresentá-los perfeitos nele (Colossenses 1:28). Para realizar esse trabalho, esforçava-se e combatia segundo a eficácia de Cristo que nele operava poderosamente (Colossenses 1:29).

Quando, portanto, o apóstolo afirma que sustentava um grande combate pelos cristãos de Colossos e Laodiceia, não introduz um objetivo estranho àquele que já havia apresentado, mas desenvolve a mesma finalidade ministerial. Seu empenho consistia em anunciar Cristo, fortalecer os que haviam crido, promover a comunhão entre os irmãos e enriquecê-los da plena certeza do entendimento, para que conhecessem o mistério de Deus.

Desse modo, o enriquecimento espiritual pretendido por Paulo não deve ser confundido com a aquisição de uma condição de perfeição ainda inexistente nos cristãos. Aqueles que estavam em Cristo já se encontravam completos nele (Colossenses 2:10), embora necessitassem ser instruídos para compreender plenamente a verdade que haviam recebido. O trabalho apostólico não acrescentava algo à suficiência de Cristo, mas tornava conhecida a riqueza daquele em quem os cristãos já haviam crido.

A plenitude da inteligência, portanto, estava vinculada ao conhecimento do mistério de Deus, e não à busca de uma sabedoria independente de Cristo. Essa conclusão prepara a afirmação seguinte do apóstolo, pois o mistério cujo conhecimento ele desejava proporcionar aos cristãos tinha um conteúdo definido: Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.

Para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo

As finalidades anteriormente apresentadas convergem para o conhecimento do mistério de Deus. A consolação dos corações, a união em amor e a riqueza da plena certeza do entendimento não constituem objetivos desvinculados da mensagem do evangelho, mas estão relacionados à compreensão daquilo que Deus revelou por meio de Cristo.

O significado desse mistério já havia sido apresentado por Paulo no capítulo anterior, quando declarou que a palavra de Deus compreendia:

“O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos; aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória” (Colossenses 1:26–27).

A partir dessa declaração, torna-se evidente que o mistério não representa um conhecimento reservado a uma classe privilegiada de iniciados, tampouco uma verdade que permaneça inacessível aos cristãos. Trata-se daquilo que anteriormente estivera oculto, mas que agora havia sido manifestado por Deus mediante o evangelho.

O conhecimento desse mistério também não exigia a adoção de tradições humanas, práticas religiosas adicionais ou sistemas filosóficos destinados a completar a mensagem de Cristo. O mistério revelado tinha Cristo como seu conteúdo central, razão pela qual o apóstolo se dedicava a anunciá-lo, admoestando e ensinando a todos os homens em toda a sabedoria.

Há, portanto, uma continuidade entre a revelação do mistério, apresentada no primeiro capítulo, e o combate apostólico, exposto no segundo. Deus tornou conhecido o mistério por meio do evangelho, e Paulo trabalhava para que os cristãos alcançassem plena compreensão dessa verdade. Não se tratava de acrescentar algo à condição daqueles que estavam em Cristo, mas de fortalecê-los no conhecimento daquele em quem haviam crido.

Essa distinção é essencial, pois o aperfeiçoamento do entendimento não deve ser confundido com a aquisição progressiva de uma condição espiritual que ainda faltasse aos cristãos. Mais adiante, Paulo declara expressamente: “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Colossenses 2:10). Logo, a plenitude em Cristo não é apresentada como o resultado final de um processo de enriquecimento intelectual, mas como uma realidade própria daqueles que estão nele.

O objetivo do combate apostólico era, portanto, que os cristãos compreendessem plenamente a riqueza do evangelho, permanecessem unidos em amor e fossem fortalecidos na certeza da verdade recebida. Essa compreensão também os prepararia para reconhecer a inconsistência dos argumentos que procuravam afastá-los de Cristo, pois não haveria necessidade de buscar em ensinamentos humanos uma sabedoria superior àquela que Deus já havia manifestado em seu Filho.

Colossenses 2:3 — Todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão em Cristo

“Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossenses 2:3).

Ao afirmar que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos em Cristo, o apóstolo Paulo esclarece por que desejava que os cristãos fossem enriquecidos da plena certeza do entendimento para o conhecimento do mistério de Deus. A riqueza espiritual mencionada no versículo anterior não deveria ser procurada em tradições religiosas, sistemas filosóficos ou conhecimentos que se apresentassem como superiores ao evangelho, pois a plenitude da sabedoria e da ciência encontra-se naquele que constitui o próprio conteúdo do mistério revelado por Deus: Jesus Cristo.

A declaração apostólica estabelece uma relação direta entre conhecer a Cristo e alcançar a riqueza do entendimento espiritual. Se todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos nele, o conhecimento da verdade não depende da descoberta de outros fundamentos religiosos que complementem sua mensagem, mas da compreensão daquele que Deus revelou por meio do evangelho. Desse modo, quanto mais os cristãos prosseguem no conhecimento de Cristo, mais compreendem a riqueza da verdade que lhes foi anunciada, sem que isso signifique a aquisição de uma condição espiritual superior àquela que já possuem nele.

O emprego da palavra “tesouros” é especialmente significativo, pois retoma a linguagem de riqueza utilizada anteriormente pelo apóstolo. Paulo havia declarado que Deus quis tornar conhecidas entre os gentios as riquezas da glória do mistério, identificando seu conteúdo como “Cristo em vós, esperança da glória” (Colossenses 1:27). Em seguida, expressou o desejo de que os cristãos fossem enriquecidos da plena certeza do entendimento (Colossenses 2:2). Agora, ao afirmar que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos em Cristo, esclarece onde se encontra a riqueza que procurava comunicar mediante seu ministério.

Essa riqueza não deve ser confundida com os bens materiais, pois o apóstolo não prometia aos cristãos prosperidade econômica em decorrência da fé. Seu trabalho consistia em anunciar Cristo, admoestando e ensinando a todos os homens em toda a sabedoria, para apresentá-los perfeitos nele (Colossenses 1:28). O enriquecimento pretendido por Paulo dizia respeito ao conhecimento da verdade revelada, mediante o qual os cristãos poderiam compreender a vontade de Deus e permanecer firmes no evangelho.

A expressão “sabedoria e ciência” também deve ser considerada à luz do contraste estabelecido por Paulo entre a revelação divina e a confiança humana em outras fontes de conhecimento religioso. Ao escrever aos romanos, o apóstolo descreve aqueles que se apoiavam na lei e se gloriavam em Deus, julgando-se capazes de instruir os ignorantes e ensinar os que ainda necessitavam aprender, precisamente porque possuíam na lei uma forma de conhecimento da verdade:

“Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” (Romanos 2:20).

A referência é importante porque demonstra que a lei era considerada uma fonte de instrução acerca da vontade de Deus. Paulo não negava que houvesse conhecimento verdadeiro na lei, tampouco a considerava uma manifestação falsa da vontade divina. Entretanto, ao apresentar aqueles que nela se apoiavam, o apóstolo também evidenciava a inconsistência de se gloriar no conhecimento da lei sem corresponder, pela própria conduta, à verdade que ela ensinava (Romanos 2:21–23).

Há, portanto, uma diferença entre possuir na lei a forma da ciência e da verdade e reconhecer que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos em Cristo. A lei dava testemunho da vontade de Deus, mas não constituía uma fonte de revelação independente daquele para quem apontavam as Escrituras. O próprio Jesus declarou aos judeus que examinavam os escritos sagrados: “São estas que de mim testificam” (João 5:39).

Essa declaração demonstra que o conhecimento das Escrituras não deveria terminar na confiança depositada na posse ou no domínio de seus preceitos, mas conduzir ao reconhecimento daquele de quem elas testemunhavam. Por isso, a revelação de Cristo não representa a negação da verdade anteriormente anunciada, mas a manifestação daquele em quem se encontra a plenitude da sabedoria de Deus.

O apóstolo Paulo apresenta esse mesmo princípio aos coríntios, ao declarar que Cristo é “poder de Deus, e sabedoria de Deus” (1 Coríntios 1:24). A sabedoria divina não é apresentada como um sistema de conhecimentos separado de Cristo, mas está relacionada à sua pessoa e à obra realizada por meio dele. É por essa razão que o anúncio de Cristo crucificado, considerado escândalo por uns e loucura por outros, constitui a manifestação da sabedoria de Deus para os que são chamados.

Dessa maneira, o conhecimento de Cristo não pode ser colocado no mesmo nível das tradições humanas ou dos sistemas filosóficos que pretendem explicar a relação do homem com Deus. A verdade do evangelho não deriva da capacidade humana de investigar os mistérios divinos, mas daquilo que Deus revelou em seu Filho. Por essa razão, os cristãos não necessitavam buscar uma suposta sabedoria superior à mensagem que haviam recebido, pois o próprio Cristo, anunciado pelo evangelho, é a sabedoria de Deus.

A afirmação de que os tesouros estão “escondidos” em Cristo também exige atenção. O apóstolo não estava sugerindo que existisse um conhecimento secreto, reservado apenas a alguns cristãos especialmente iniciados em doutrinas superiores. Essa interpretação contrariaria o argumento desenvolvido anteriormente, pois Paulo já havia declarado que o mistério, outrora oculto, agora fora manifestado aos santos e anunciado entre os gentios (Colossenses 1:26–27).

O que antes estivera oculto foi revelado por Deus mediante o evangelho, de modo que os tesouros da sabedoria e da ciência não permanecem inacessíveis aos que creem. A expressão indica que esses tesouros se encontram em Cristo, razão pela qual conhecê-lo é indispensável para compreender a riqueza do mistério anunciado. Não se trata, portanto, de procurar verdades ocultas além de Cristo, mas de reconhecer que nele se encontra a sabedoria divina tornada conhecida por meio da pregação apostólica.

Esse entendimento também esclarece a finalidade do combate de Paulo pelos cristãos de Colossos e Laodiceia. O apóstolo não desejava simplesmente que se tornassem conhecedores de determinados preceitos religiosos, mas que alcançassem plena certeza do entendimento acerca de Cristo. Seu esforço em anunciar, admoestar e ensinar tinha como objetivo comunicar-lhes a riqueza da verdade revelada, para que não fossem seduzidos por ensinamentos que prometiam conhecimentos superiores ao evangelho.

Assim, a declaração de que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos em Cristo estabelece o fundamento da advertência que será apresentada no versículo seguinte. Se a plenitude do conhecimento espiritual encontra-se em Cristo, qualquer discurso que pretenda afastar os cristãos dele, ainda que revestido de eloquência, aparente profundidade ou autoridade religiosa, deve ser examinado à luz da verdade anunciada pelos apóstolos.

O combate de Paulo consistia, portanto, em conduzir os cristãos ao conhecimento do mistério de Deus, para que compreendessem a riqueza que lhes havia sido manifestada em Cristo. A suficiência do evangelho não reside na quantidade de informações que o cristão consegue acumular, mas na plenitude daquele que lhe foi anunciado, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.

Colossenses 2:4 — O perigo das palavras persuasivas

“E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas” (Colossenses 2:4).

Depois de afirmar que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos em Cristo, o apóstolo Paulo apresenta a razão pela qual insistia na necessidade de os cristãos alcançarem a plena certeza do entendimento. Sua preocupação não se limitava a proporcionar-lhes conhecimento espiritual, mas também a preservá-los dos ensinamentos que, embora revestidos de aparente sabedoria, poderiam desviá-los da verdade anunciada pelo evangelho.

A expressão “e digo isto” remete à argumentação desenvolvida nos versículos anteriores, especialmente à afirmação de que Cristo é aquele em quem se encontram todos os tesouros da sabedoria e da ciência. Paulo não havia apresentado essa verdade simplesmente para exaltar a excelência do conhecimento de Cristo, mas para demonstrar aos seus leitores que não necessitavam buscar em outros ensinamentos uma sabedoria superior àquela que já lhes fora revelada por meio do evangelho.

O cuidado apostólico manifesta-se, portanto, na franqueza com que Paulo expõe o perigo. Os cristãos precisavam ser instruídos na verdade para que não fossem enganados por discursos persuasivos, pois a eloquência de uma mensagem não constitui garantia de sua veracidade. Um argumento pode parecer coerente, apresentar uma sequência lógica e ser exposto com habilidade, sem que suas conclusões correspondam à verdade revelada nas Escrituras.

A expressão grega traduzida por “engane” deriva do verbo paralogízomai (παραλογίζομαι), que comunica a ideia de iludir ou induzir ao erro mediante um raciocínio enganoso. O termo sugere que o perigo não estava apenas na apresentação de uma afirmação manifestamente falsa, mas também na construção de argumentos capazes de conduzir os ouvintes a conclusões equivocadas, ainda que aparentemente fundamentadas.

Por sua vez, a expressão “palavras persuasivas” traduz o substantivo grego pithanología (πιθανολογία), relacionado à argumentação convincente ou plausível. O emprego desse termo não significa que toda forma de persuasão seja condenável, pois o próprio Paulo procurava persuadir seus ouvintes acerca da verdade do evangelho (Atos 18:4; 19:8). A advertência dirige-se ao emprego de discursos persuasivos como instrumento de engano, quando a força aparente dos argumentos procura conquistar a confiança dos ouvintes em favor de ensinamentos contrários à verdade.

Essa distinção é indispensável, pois o erro doutrinário nem sempre se apresenta mediante uma oposição explícita às Escrituras. Muitas vezes, os argumentos enganosos utilizam expressões bíblicas, recorrem a passagens isoladas e reproduzem conceitos familiares aos cristãos, mas estabelecem relações inadequadas entre eles, produzindo conclusões que não correspondem ao sentido da mensagem apostólica. Desse modo, a aparência de fidelidade às Escrituras pode ser utilizada para conferir credibilidade a ensinamentos que, examinados em seu contexto, contrariam o evangelho.

Por essa razão, o conhecimento espiritual constitui um elemento indispensável ao discernimento cristão. Aquele que desconhece o conteúdo do evangelho torna-se mais vulnerável aos argumentos que se apresentam como revelações superiores, interpretações mais profundas ou complementos necessários à mensagem de Cristo. Entretanto, aquele que conhece a verdade anunciada pelos apóstolos possui os fundamentos necessários para examinar o conteúdo dos discursos e reconhecer quando suas conclusões se afastam do evangelho.

A preocupação de Paulo também aparece em sua advertência aos efésios:

“Ninguém vos engane com palavras vãs, pois por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Efésios 5:6).

Embora o contexto imediato dessa passagem trate especialmente das práticas pecaminosas anteriormente mencionadas, a advertência confirma que palavras podem ser utilizadas para induzir os cristãos ao erro. Não basta que determinado discurso seja agradável, convincente ou aparentemente fundamentado na religião, pois sua veracidade deve ser examinada à luz daquilo que Deus revelou.

A possibilidade do engano também explica as advertências apostólicas contra falsos profetas, falsos apóstolos e falsos mestres, que procuram introduzir ensinamentos contrários à verdade. Pedro, por exemplo, adverte que falsos mestres introduziriam encobertamente heresias de perdição e, movidos pela avareza, fariam negócio dos cristãos com palavras fingidas (2 Pedro 2:1–3). A ameaça, portanto, não se restringe àqueles que negam abertamente a mensagem de Cristo, mas também alcança aqueles que a distorcem mediante argumentos cuidadosamente elaborados.

No caso dos colossenses, a natureza dos ensinamentos contra os quais Paulo os advertia será esclarecida ao longo do capítulo. O apóstolo mencionará filosofias e vãs sutilezas, tradições humanas, rudimentos do mundo e ordenanças religiosas que poderiam ser apresentadas como necessárias àqueles que já estavam completos em Cristo (Colossenses 2:8, 20–23).

O argumento desenvolvido até esse ponto demonstra que a resposta apostólica ao perigo do engano não consistia simplesmente em proibir os cristãos de ouvir discursos diferentes, mas em proporcionar-lhes o conhecimento da verdade. Paulo anunciava Cristo, admoestava e ensinava a todos os homens, e combatia para que seus leitores fossem enriquecidos da plena certeza do entendimento, pois o conhecimento do mistério de Deus os capacitaria a reconhecer a insuficiência dos ensinamentos que procuravam acrescentar algo ao evangelho.

Assim, a advertência contra as palavras persuasivas está diretamente relacionada à declaração de que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos em Cristo. Se nele se encontra a plenitude da sabedoria divina, nenhum argumento, por mais convincente que pareça, pode legitimamente apresentar outra fonte de conhecimento espiritual como complemento necessário à mensagem apostólica. O critério para discernir a verdade não é a habilidade daquele que fala, mas a conformidade de seu ensinamento com o evangelho de Cristo.

Colossenses 2:5 — A ordem e a firmeza da fé em Cristo

“Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo” (Colossenses 2:5).

Depois de advertir os colossenses contra o perigo de serem enganados por palavras persuasivas, Paulo esclarece que sua preocupação com a igreja não dependia da presença física entre aqueles cristãos. Embora estivesse corporalmente distante, considerava-se unido a eles em espírito, compartilhando da alegria proporcionada pelas notícias acerca da ordem e da firmeza da fé que demonstravam em Cristo.

Essa declaração retoma a preocupação apresentada no primeiro versículo do capítulo, quando o apóstolo afirmou que sustentava um grande combate pelos cristãos de Colossos, de Laodiceia e por todos aqueles que ainda não haviam visto seu rosto em carne. A distância física não diminuía seu cuidado, pois a comunhão entre os membros do corpo de Cristo não estava condicionada à convivência pessoal, aos vínculos familiares ou à proximidade geográfica.

A expressão “ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco” estabelece um contraste entre a impossibilidade de Paulo estar pessoalmente com os colossenses e a comunhão que mantinha com eles. O apóstolo não precisava estar fisicamente presente para demonstrar interesse por sua condição espiritual, alegrar-se com sua firmeza ou contribuir para seu fortalecimento mediante a instrução apostólica.

Essa união encontra fundamento na realidade espiritual compartilhada pelos cristãos, conforme Paulo esclarece aos coríntios:

“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1 Coríntios 12:13).

A declaração demonstra que aqueles que pertencem a Cristo foram reunidos em um mesmo corpo, independentemente das distinções naturais existentes entre os homens. Entretanto, quando Paulo afirma estar com os colossenses em espírito, não está necessariamente descrevendo uma presença sobrenatural que lhe permitisse acompanhar diretamente os acontecimentos da igreja, mas expressando sua comunhão e seu interesse pela condição daqueles que compartilhavam a mesma fé.

A alegria do apóstolo também estava relacionada às informações que recebera acerca dos cristãos de Colossos. No primeiro capítulo, Paulo havia mencionado Epafras, apresentado como fiel ministro de Cristo e responsável por tornar conhecido o amor daqueles irmãos:

“O qual nos declarou também o vosso amor no Espírito” (Colossenses 1:8).

A referência permite compreender como Paulo, mesmo distante, tinha conhecimento da condição espiritual dos destinatários. As informações transmitidas por Epafras contribuíam para que o apóstolo conhecesse a fé e o amor existentes entre os colossenses, motivando suas ações de graças, suas orações e seu empenho em favor da igreja.

A declaração de que se alegrava ao contemplar a ordem e a firmeza da fé dos cristãos é especialmente significativa porque demonstra que a advertência anterior não pressupunha necessariamente que os colossenses já tivessem abandonado o evangelho. Pelo contrário, Paulo reconhecia aspectos positivos na condição daquela igreja e se regozijava por saber que permaneciam firmes em Cristo.

O substantivo grego táxis (τάξις), traduzido por “ordem”, comunica a ideia de organização, disposição ordenada ou arranjo apropriado. O termo pode ser utilizado em diferentes contextos, inclusive na descrição de uma formação organizada. Entretanto, em Colossenses 2:5, seu emprego deve ser compreendido à luz da condição dos cristãos, cuja vida comunitária apresentava uma ordem que proporcionava alegria ao apóstolo.

Essa ordem não deve ser confundida simplesmente com disciplina administrativa ou submissão a uma estrutura humana de autoridade, pois o contexto da epístola está relacionado à comunhão dos cristãos e à permanência na verdade do evangelho. A organização mencionada por Paulo era motivo de alegria juntamente com a firmeza da fé em Cristo, demonstrando que a condição da comunidade não poderia ser avaliada independentemente da mensagem que havia recebido.

O termo traduzido por “firmeza” é steréōma (στερέωμα), que expressa a ideia de solidez, estabilidade ou aquilo que se encontra firmemente estabelecido. Associado à fé em Cristo, indica que os colossenses demonstravam estabilidade naquilo que haviam recebido por meio do evangelho.

É importante observar que a fé mencionada nesse contexto não deve ser reduzida à intensidade de um sentimento subjetivo de confiança. A epístola apresenta a fé em relação direta com a mensagem anunciada, recebida e ensinada aos cristãos. No capítulo anterior, Paulo já havia recomendado que permanecessem fundados e firmes na fé, sem se moverem da esperança do evangelho que tinham ouvido (Colossenses 1:23).

Assim, a firmeza da fé em Cristo compreendia a permanência na verdade anunciada, sem permitir que argumentos persuasivos deslocassem os cristãos do fundamento recebido. Essa interpretação será confirmada no versículo seguinte, quando o apóstolo os exorta a andar em Cristo Jesus, o Senhor, da mesma maneira como o haviam recebido.

A referência à ordem e à firmeza também permite compreender a natureza preventiva do combate apostólico. Paulo não precisava aguardar que os cristãos fossem enganados para, somente então, procurar corrigir os erros introduzidos na comunidade. Seu empenho consistia em fortalecer aqueles que já estavam firmes, para que permanecessem na verdade e não fossem desviados por ensinamentos contrários ao evangelho.

A alegria do apóstolo, portanto, não eliminava a necessidade de advertência. Pelo contrário, o reconhecimento da boa condição dos colossenses tornava ainda mais relevante o cuidado com a preservação daquilo que haviam recebido. Se estavam unidos em amor e demonstravam firmeza na fé em Cristo, deveriam continuar sendo instruídos no conhecimento do mistério de Deus, em quem estavam escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.

Dessa maneira, o quinto versículo estabelece uma relação entre o cuidado apostólico e a condição espiritual dos destinatários. Paulo combatia pelos cristãos mesmo estando fisicamente ausente, alegrava-se com a ordem e a firmeza que demonstravam e procurava fortalecê-los mediante a instrução do evangelho. Sua preocupação não resultava necessariamente da constatação de que haviam se desviado da verdade, mas do desejo de que permanecessem firmes naquele que lhes havia sido anunciado.

Essa declaração prepara a exortação apresentada a seguir: “Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele” (Colossenses 2:6). O apóstolo não apresentará aos colossenses uma nova doutrina destinada a completar o evangelho que haviam recebido, mas os exortará a permanecer em Cristo, reconhecendo que aquele que lhes foi anunciado é suficiente para sua vida espiritual.

Colossenses 2:6 — Como recebestes a Cristo, assim também andai nele

“Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele” (Colossenses 2:6).

Após manifestar sua alegria pela ordem e pela firmeza da fé dos colossenses, o apóstolo Paulo apresenta uma exortação que decorre diretamente da condição espiritual daqueles cristãos. Eles haviam recebido Cristo Jesus, o Senhor, mediante o evangelho que lhes fora anunciado e, por essa razão, deveriam andar nele. A orientação não introduz uma nova condição a ser alcançada por meio do comportamento, mas estabelece que a conduta dos cristãos deve corresponder à realidade daqueles que já foram feitos participantes de Cristo.

Para compreender a declaração apostólica, é necessário observar a relação estabelecida entre as expressões “como, pois, recebestes” e “assim também andai nele”. A conjunção “pois” apresenta uma conclusão relacionada ao argumento anterior, enquanto a construção “como… assim também” estabelece uma correspondência entre o recebimento de Cristo e a maneira como os cristãos deveriam viver. Paulo parte de uma realidade já estabelecida para apresentar a conduta que deve caracterizar aqueles que dela participam.

O verbo “recebestes” refere-se ao que já havia ocorrido com os colossenses, enquanto “andai” constitui uma exortação dirigida à sua conduta. Essa distinção é importante porque o apóstolo não determina que recebam Cristo novamente, tampouco que procurem alcançá-lo mediante uma sequência de práticas religiosas, mas que andem naquele que já haviam recebido.

Entretanto, para compreender como os colossenses receberam Cristo, é indispensável considerar a relação entre a fé, o evangelho e o ato de crer. O substantivo grego pístis (πίστις), traduzido por “fé”, pode designar, conforme o contexto, a confiança, a fidelidade ou o conteúdo da mensagem anunciada. O verbo pisteúō (πιστεύω), por sua vez, expressa a ação de crer, dar crédito ou confiar naquilo que foi apresentado.

Essa distinção impede que a verdade do evangelho seja confundida com a confiança daquele que o recebe. A mensagem de Cristo não se torna verdadeira porque o homem nela acredita, pois seu fundamento está na fidelidade de Deus e na obra realizada por seu Filho. A verdade precede o ouvinte, que é chamado a crer naquilo que Deus determinou anunciar. Desse modo, a confiança não produz a verdade, mas encontra nela o fundamento para existir.

É nesse sentido que se deve compreender a referência de Judas à “fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3). A fé mencionada nessa passagem não se limita à convicção particular de cada cristão, mas designa a verdade anunciada e entregue à igreja, que deveria ser preservada e defendida. O mesmo princípio aparece quando Paulo declara: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4:7). Guardar a fé compreende permanecer fiel à mensagem recebida, sem permitir que ensinamentos humanos alterem o conteúdo do evangelho.

Entretanto, o fundamento dessa mensagem não está nela considerada isoladamente, mas em Cristo, aquele de quem o evangelho dá testemunho. Paulo declara que ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, Jesus Cristo (1 Coríntios 3:11). Por essa razão, a fé anunciada não constitui uma verdade independente de Cristo, pois ele é seu conteúdo central, aquele em quem se cumprem as promessas de Deus e em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Colossenses 2:3).

Essa relação também permite compreender a declaração de Paulo acerca da fé que havia de se manifestar (Gálatas 3:23–25). No contexto da epístola, a manifestação da fé está relacionada à vinda de Cristo e à nova condição daqueles que nele creem, em contraste com a sujeição anterior à lei. O apóstolo não apresenta a fé como uma capacidade psicológica que passou a existir no interior dos homens, mas relaciona sua manifestação à obra de Cristo, que constitui o fundamento da mensagem anunciada.

Consequentemente, receber Cristo significa acolher aquele que foi anunciado pelo evangelho. A palavra da verdade foi apresentada aos colossenses, e eles creram na mensagem que ouviram. O próprio apóstolo já havia mencionado a esperança que lhes estava reservada nos céus, da qual ouviram anteriormente pela palavra da verdade do evangelho (Colossenses 1:5).

Crer em Cristo, por sua vez, constitui obediência ao mandamento de Deus. O apóstolo João declara: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 João 3:23). Paulo também estabelece uma relação entre crer e obedecer ao evangelho, ao afirmar: “Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação?” (Romanos 10:16).

Portanto, a obediência requerida pelo evangelho consiste, inicialmente, em dar crédito à mensagem anunciada. Não se trata de uma obra meritória mediante a qual o homem conquista sua salvação, mas de crer naquele que Deus enviou. O evangelho apresenta Cristo como fundamento da salvação, e aquele que crê é feito participante dele, recebendo a nova condição espiritual decorrente de sua união com Cristo.

Essa união não deve ser confundida com uma simples mudança de comportamento. Paulo esclarece que os cristãos foram sepultados com Cristo e nele ressuscitados mediante a fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos (Colossenses 2:12). Assim, aquele que crê no evangelho não permanece na antiga condição para tentar aperfeiçoá-la mediante suas obras, mas é feito participante da morte e ressurreição de Cristo, passando a viver em novidade de vida.

É precisamente essa mudança de condição que fundamenta a exortação para andar em Cristo. O apóstolo não determina aos colossenses que andem nele para se tornarem participantes de sua vida, mas porque já o receberam. A conduta cristã não produz a união com Cristo, pois deve corresponder à realidade daqueles que, mediante a fé, foram unidos a ele.

Essa distinção aparece de maneira particularmente clara na Epístola aos Gálatas:

“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gálatas 5:25).

A estrutura da declaração é semelhante àquela empregada em Colossenses. Paulo parte de uma condição já existente — viver no Espírito — para apresentar uma exortação correspondente — andar no Espírito. O apóstolo não afirma que os cristãos deveriam andar no Espírito para, como consequência, receber a vida espiritual, mas que, por viverem no Espírito, deveriam proceder em conformidade com essa condição.

Viver no Espírito e andar no Espírito, portanto, não são expressões equivalentes em todos os seus aspectos. A primeira descreve a condição daqueles que receberam a vida em Cristo, enquanto a segunda diz respeito à conduta que deve caracterizá-los. A vida espiritual não é produzida pelo comportamento, assim como a união com Cristo não resulta de um processo de aperfeiçoamento moral. Antes, a nova condição fundamenta a exigência de uma conduta correspondente.

O mesmo princípio aparece na Epístola aos Efésios:

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (Efésios 5:8).

Observe que Paulo não afirma que os cristãos deveriam andar como filhos da luz para deixarem de ser trevas. A declaração apresenta primeiro a mudança de condição: anteriormente eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Somente depois o apóstolo os exorta a andar como filhos da luz, demonstrando que a conduta deve corresponder à realidade espiritual que passaram a possuir.

A afirmação é significativa porque Paulo não descreve apenas uma alteração no comportamento dos efésios, como se anteriormente praticassem obras das trevas e agora precisassem adotar práticas mais adequadas. Sua declaração é mais abrangente: eles eram trevas e passaram a ser luz no Senhor. A mudança de comportamento é consequência dessa nova condição, e não a causa pela qual a alcançaram.

Essa mesma relação é apresentada aos romanos, quando Paulo afirma que os cristãos foram sepultados com Cristo pelo batismo na morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dentre os mortos pela glória do Pai, também andem em novidade de vida (Romanos 6:4). O andar em novidade de vida decorre da participação na morte e ressurreição de Cristo, demonstrando que a nova condição espiritual antecede a conduta correspondente.

Desse modo, Colossenses 2:6, Gálatas 5:25 e Efésios 5:8 apresentam uma estrutura argumentativa comum. Aqueles que receberam Cristo devem andar nele; aqueles que vivem no Espírito devem andar no Espírito; e aqueles que são luz no Senhor devem andar como filhos da luz. Em todas essas passagens, o apóstolo estabelece a conduta a partir da condição espiritual dos destinatários, sem apresentar o comportamento como meio de produzir aquilo que Deus já realizou em Cristo.

Isso não significa que o andar cristão seja independente do conhecimento da verdade ou da obediência à palavra de Deus. Pelo contrário, aquele que recebeu Cristo mediante o evangelho deve continuar orientando sua vida pela mensagem recebida, pois o mesmo Senhor que constitui o fundamento de sua salvação também estabelece como seus filhos devem proceder. A obediência ao mandamento de amar os irmãos, por exemplo, não constitui o meio pelo qual alguém se torna filho de Deus, mas a conduta requerida daqueles que, ao crerem em Cristo, receberam essa condição.

A relação entre fé e obediência também impede que o andar em Cristo seja transformado em uma tentativa de conservar a salvação mediante o esforço humano. A eficácia da obra de Cristo não depende da intensidade da confiança daquele que crê, tampouco da capacidade humana de produzir uma condição espiritual mais elevada. Cristo permanece sendo o fundamento da salvação, e os cristãos são exortados a conduzir-se segundo a verdade que lhes foi anunciada.

Essa compreensão é especialmente importante no contexto da Epístola aos Colossenses, pois Paulo havia advertido seus leitores contra discursos persuasivos capazes de desviá-los da verdade do evangelho. Ao ordenar que andassem em Cristo, não propõe um novo sistema de conhecimento ou um conjunto de ordenanças destinado a completar sua condição espiritual, mas reafirma a suficiência daquele que já haviam recebido.

Portanto, a exortação “como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele” estabelece uma relação entre a verdade anunciada, a obediência ao evangelho e a conduta daqueles que foram feitos participantes de Cristo. A fé, enquanto mensagem, apresenta o fundamento da salvação; crer constitui a resposta ao mandamento divino; e andar em Cristo corresponde à maneira como devem viver aqueles que, mediante a fé, foram unidos a ele.

O cristão não anda em Cristo para adquirir a condição de quem está nele, assim como não anda no Espírito para produzir a vida espiritual ou procura comportar-se como filho da luz para tornar-se luz no Senhor. Em todos esses casos, a condição precede a exortação, e a conduta deve corresponder à nova realidade daqueles que foram feitos participantes de Cristo.

Colossenses 2:7 — Arraigados e edificados em Cristo

“Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, abundando em ação de graças” (Colossenses 2:7).

Depois de exortar os colossenses a andarem em Cristo Jesus, o Senhor, da mesma maneira como o haviam recebido, o apóstolo Paulo amplia sua orientação, demonstrando que a conduta cristã deve estar fundamentada naquele que lhes foi anunciado pelo evangelho. A exortação não estabelece um novo caminho pelo qual os cristãos deveriam alcançar a perfeição espiritual, mas evidencia a necessidade de permanecerem firmes na verdade recebida, sem permitir que ensinamentos estranhos a Cristo comprometessem a compreensão do evangelho.

A relação entre os versículos 6 e 7 é indispensável à interpretação, pois as expressões “arraigados”, “edificados” e “confirmados na fé” estão subordinadas à exortação anterior: “assim também andai nele”. Paulo não apresenta uma sequência de condições pelas quais alguém se torna participante de Cristo, mas descreve a situação e o fortalecimento daqueles que já o receberam e, por isso, devem andar nele.

Viver no Espírito e andar segundo o evangelho

A exortação de Paulo para que os colossenses andassem em Cristo deve ser compreendida à luz da nova condição espiritual daqueles que haviam recebido o Senhor Jesus mediante o evangelho. O apóstolo não estava estabelecendo um conjunto de práticas destinadas a produzir a vida espiritual, mas orientando aqueles que já haviam sido vivificados com Cristo a conduzirem-se segundo a verdade que lhes fora anunciada.

Essa distinção aparece de maneira particularmente clara na Epístola aos Gálatas:

“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gálatas 5:25).

A declaração apresenta duas realidades relacionadas, mas distintas. Viver no Espírito diz respeito à nova vida recebida mediante a vivificação em Cristo, enquanto andar no Espírito corresponde à maneira como aqueles que receberam essa vida devem conduzir-se segundo o evangelho. A condição espiritual precede a conduta, de modo que o andar não produz a vida, mas deve corresponder à realidade daqueles que foram feitos participantes de Cristo.

O próprio evangelho esclarece como essa nova vida é concedida. Jesus declarou que suas palavras são espírito e vida (João 6:63), e Pedro afirma que os cristãos foram regenerados pela palavra de Deus, viva e permanente (1 Pedro 1:23). Assim, a vivificação não resulta de um processo de aperfeiçoamento moral ou da observância de ordenanças religiosas, mas da ação de Deus mediante sua palavra, pela qual aqueles que creem são feitos participantes da vida em Cristo.

O andar no Espírito, por sua vez, deve ser compreendido em conformidade com essa nova realidade. Se o evangelho anuncia que judeus e gentios são feitos filhos de Deus mediante a fé em Cristo, não seria coerente que aqueles que receberam essa mensagem continuassem estabelecendo distinções religiosas fundamentadas na descendência natural, na circuncisão ou na observância de preceitos legais. Proceder dessa maneira significaria contrariar, na prática, a verdade que receberam.

Essa questão é particularmente evidente na Epístola aos Gálatas, em que Paulo declara:

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:26–28).

A declaração não elimina as distinções naturais existentes entre os homens, mas demonstra que nenhuma delas estabelece superioridade quanto à condição daqueles que foram feitos participantes de Cristo. Judeus e gentios são igualmente filhos de Deus mediante a fé, razão pela qual a descendência de Abraão segundo a carne não constitui fundamento para alguém reivindicar uma posição espiritual superior à dos demais membros do corpo.

Desse modo, andar segundo o evangelho implica reconhecer e observar a verdade anunciada: todos os que creem em Cristo foram feitos participantes da mesma vida e pertencem ao mesmo corpo. Não cabe, portanto, fazer acepção de pessoas em função da origem étnica, da condição social ou da observância de ordenanças religiosas, como se essas distinções determinassem maior ou menor participação em Cristo.

A relação entre andar no Espírito e a unidade dos cristãos também esclarece a exortação de Paulo para que os colossenses estivessem unidos em amor (Colossenses 2:2). O mandamento de Deus é que os homens creiam no nome de seu Filho Jesus Cristo e se amem uns aos outros (1 João 3:23). Assim, aqueles que obedeceram ao mandamento de crer e foram feitos filhos de Deus também devem observar o mandamento de amar os irmãos, reconhecendo como membros da mesma família todos aqueles que receberam Cristo.

O andar em Espírito, portanto, não pode ser reduzido à manifestação de sentimentos religiosos ou à observância de determinadas normas de comportamento. Trata-se de proceder segundo a verdade do evangelho, o que necessariamente se manifesta na maneira como os cristãos reconhecem e tratam uns aos outros. Quem confessa que todos são um em Cristo não pode, sem contrariar essa confissão, impor distinções que o próprio evangelho tornou irrelevantes para a participação no corpo de Cristo.

Essa compreensão também encontra correspondência na repreensão dirigida por Paulo a Pedro, quando este se afastou dos cristãos gentios por receio dos que eram da circuncisão. Ao perceber que a conduta de Pedro e dos demais judeus não correspondia à verdade do evangelho, Paulo declarou:

“Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gálatas 2:14).

A passagem é especialmente esclarecedora porque demonstra que andar conforme a verdade do evangelho não consiste apenas em professar corretamente seus ensinamentos, mas também em proceder de maneira coerente com eles. Pedro conhecia a verdade anunciada, entretanto, ao afastar-se dos gentios por causa da circuncisão, adotou uma conduta que contrariava a unidade estabelecida em Cristo.

O problema não estava simplesmente na ausência de cordialidade entre os cristãos, mas na contradição entre a verdade anunciada e a prática daqueles que procuravam restabelecer distinções religiosas entre judeus e gentios. Ao repreender Pedro, Paulo não lhe apresentou uma nova regra de convivência desvinculada do evangelho, mas demonstrou que sua conduta não correspondia à mensagem que ele próprio havia recebido.

É nesse sentido que a exortação para andar em Cristo se relaciona com a orientação para andar no Espírito. Aqueles que foram vivificados mediante o evangelho não devem conduzir-se segundo preceitos que contradigam a nova condição recebida, mas permanecer na verdade anunciada, reconhecendo que todos os que creem foram feitos participantes do mesmo corpo.

A Epístola aos Colossenses apresenta expressamente essa realidade quando Paulo declara que, na nova condição dos que pertencem a Cristo, não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita ou servo e livre, mas Cristo é tudo em todos (Colossenses 3:11).

Portanto, quando Paulo exorta os colossenses a andarem em Cristo, arraigados e edificados nele, confirmados na fé segundo aquilo que lhes fora ensinado, sua preocupação não pode ser dissociada da verdade que estabelece a unidade do corpo de Cristo. Permanecer confirmados na fé implica conservar o evangelho recebido, sem permitir que tradições humanas, distinções de origem ou ordenanças religiosas sejam apresentadas como condições adicionais para o pertencimento a Cristo.

Aquele que vive no Espírito recebeu a nova vida mediante o evangelho; aquele que anda no Espírito deve proceder em conformidade com essa mensagem. Por isso, a unidade dos cristãos não depende da descendência natural, da circuncisão ou da observância de tradições humanas, mas da união com Cristo, em quem todos os que creem são constituídos membros do mesmo corpo.

Arraigados e edificados nele

Para demonstrar a relação dos cristãos com Cristo, Paulo emprega duas figuras distintas, mas complementares: uma relacionada ao crescimento das plantas e outra à construção de um edifício. Na primeira, os cristãos são apresentados como arraigados em Cristo; na segunda, como edificados nele. Ambas as imagens apontam para a importância do fundamento que sustenta sua existência espiritual, embora ressaltem aspectos diferentes dessa relação.

O termo traduzido por “arraigados” deriva do verbo grego rhizóō (ῥιζόω), que significa criar raízes ou estabelecer firmemente. Sua forma em Colossenses 2:7 indica uma condição resultante de uma ação já realizada. A imagem apresenta Cristo como aquele em quem os cristãos estão enraizados, assim como uma planta encontra no solo o fundamento de sua fixação e os recursos necessários à sua existência.

A figura não deve ser confundida com um processo pelo qual o homem, mediante seus próprios esforços, procura estabelecer progressivamente sua união com Cristo. Paulo dirige-se àqueles que já haviam recebido o Senhor Jesus e os descreve como arraigados nele. Portanto, a imagem pressupõe a relação anteriormente estabelecida, em vez de apresentar o enraizamento como uma condição ainda a ser conquistada.

A segunda figura, expressa pelo termo “edificados”, deriva do verbo epoikodoméō (ἐποικοδομέω), que comunica a ideia de construir sobre um fundamento. Diferentemente da forma verbal empregada em “arraigados”, o particípio utilizado nessa expressão apresenta a edificação como uma atividade em desenvolvimento. Os cristãos, já arraigados em Cristo, são continuamente edificados nele.

Essa distinção não significa que a união com Cristo seja incompleta ou que dependa de um aperfeiçoamento progressivo para tornar-se eficaz. A edificação diz respeito ao fortalecimento e à formação daqueles que já pertencem a Cristo, enquanto a condição de participantes dele não depende da quantidade de conhecimento que conseguem acumular ou das obras que praticam.

A imagem da edificação também aparece na Epístola aos Efésios, quando Paulo apresenta Cristo como a principal pedra de esquina e os cristãos como integrantes de um edifício que cresce para templo santo no Senhor:

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Efésios 2:20).

A declaração evidencia que Cristo constitui o fundamento indispensável da edificação espiritual, enquanto o ensino apostólico e profético anuncia aquele sobre quem a igreja está estabelecida. Não se trata de construir uma realidade espiritual independente de Cristo, mas de reconhecer que toda a edificação da igreja encontra nele seu fundamento e sua unidade.

Desse modo, estar arraigado e ser edificado em Cristo não são expressões destinadas a ensinar que a salvação depende de um desenvolvimento moral ou intelectual contínuo. A primeira destaca a condição daqueles que estão firmados nele, enquanto a segunda apresenta o fortalecimento que corresponde à vida dos que já receberam o Senhor.

E confirmados na fé, assim como fostes ensinados

Depois de apresentar os cristãos como arraigados e edificados em Cristo, Paulo acrescenta que deveriam estar confirmados na fé, conforme haviam sido ensinados. Essa declaração estabelece uma relação direta entre a firmeza espiritual dos colossenses e o conteúdo da instrução que receberam, demonstrando que o fortalecimento pretendido pelo apóstolo não estava desvinculado da mensagem do evangelho.

O termo traduzido por “confirmados” deriva do verbo grego bebaióō (βεβαιόω), que comunica a ideia de tornar firme, estabelecer ou confirmar. No contexto da epístola, a confirmação está relacionada à fé dos cristãos em Cristo e à verdade que lhes fora anunciada, especialmente porque Paulo acrescenta a expressão “assim como fostes ensinados”.

Essa referência ao ensino recebido é fundamental. Os colossenses não deveriam procurar novas doutrinas que prometessem uma compreensão superior à mensagem apostólica, mas permanecer firmes na verdade que haviam aprendido. O conhecimento espiritual não deveria afastá-los do evangelho anunciado, pois todos os tesouros da sabedoria e da ciência estavam escondidos em Cristo, aquele que lhes fora apresentado pela pregação.

É nesse contexto que a distinção entre a fé anunciada e o ato de crer contribui para a compreensão do versículo. O substantivo pístis (πίστις), traduzido por “fé”, pode designar a confiança daquele que crê ou o conteúdo da mensagem recebida, conforme o contexto. Ao relacionar a confirmação na fé ao ensino anteriormente recebido, Paulo ressalta a importância da verdade anunciada como fundamento da firmeza dos cristãos.

A fé não constitui uma verdade produzida pela confiança humana, pois o evangelho precede o ouvinte e apresenta Cristo como fundamento da salvação. O homem é chamado a crer nessa mensagem e, tendo recebido Cristo, deve permanecer na verdade que lhe foi anunciada. Assim, embora a firmeza na fé envolva a confiança pessoal em Cristo, essa confiança não pode ser separada do conteúdo do evangelho que lhe serve de fundamento.

Essa compreensão também encontra apoio na exortação de Pedro:

“Por isso não deixarei de exortar-vos sempre acerca destas coisas, ainda que bem as saibais, e estejais confirmados na presente verdade” (2 Pedro 1:12).

A declaração de Pedro apresenta uma relação significativa com a orientação de Paulo. Mesmo reconhecendo que seus leitores conheciam a verdade e nela estavam confirmados, o apóstolo considerava necessário continuar exortando-os. O conhecimento anteriormente recebido não tornava dispensável a instrução, pois a lembrança da verdade contribuía para a firmeza daqueles que já a conheciam.

O mesmo princípio aparece na preocupação de Paulo com os colossenses. Embora se alegrasse com a ordem e a firmeza de sua fé em Cristo, não considerava desnecessário instruí-los e adverti-los. Pelo contrário, justamente porque haviam recebido o evangelho e permaneciam firmes nele, deveriam continuar fundamentados na verdade ensinada, evitando que argumentos persuasivos os conduzissem a conclusões contrárias à mensagem apostólica.

Essa relação permite compreender que a confirmação na fé não consiste na busca de uma nova revelação destinada a complementar Cristo, mas na firmeza daqueles que permanecem na verdade que lhes foi anunciada. O ensino recebido não deveria ser abandonado em favor de filosofias, tradições humanas ou ordenanças religiosas que se apresentassem como meios necessários ao aperfeiçoamento espiritual.

Essa interpretação também retoma a advertência apresentada anteriormente na epístola:

“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido” (Colossenses 1:23).

A aproximação entre as duas passagens evidencia a continuidade do argumento apostólico. No primeiro capítulo, Paulo relaciona a permanência na fé à esperança do evangelho que os cristãos haviam ouvido; no segundo, associa a confirmação na fé ao ensino que receberam. Em ambos os casos, a firmeza dos cristãos está relacionada à mensagem anunciada, e não à adoção de conhecimentos religiosos estranhos a Cristo.

Portanto, quando o apóstolo exorta os colossenses a permanecerem confirmados na fé, não está ordenando que produzam uma convicção subjetiva cada vez mais intensa, como se a eficácia da obra de Cristo dependesse da força de sua confiança. Sua preocupação é que permaneçam firmes naquele que receberam, sustentados pela verdade do evangelho e sem permitir que ensinamentos humanos alterem o fundamento de sua comunhão com Deus.

Abundando em ação de graças

A última expressão do versículo acrescenta uma dimensão importante à conduta daqueles que receberam Cristo: deveriam abundar em ação de graças. Depois de apresentar o enraizamento em Cristo, a edificação nele e a confirmação na fé, Paulo conclui com uma orientação que evidencia a resposta de gratidão daqueles que reconhecem a riqueza daquilo que receberam de Deus.

Essa gratidão não aparece isoladamente na Epístola aos Colossenses, pois, desde o primeiro capítulo, Paulo associa o conhecimento da vontade de Deus ao reconhecimento dos benefícios concedidos aos cristãos. Ao orar pelos colossenses, pede que sejam cheios da sabedoria e inteligência espiritual, a fim de andarem dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus (Colossenses 1:9–10).

Em seguida, acrescenta que deveriam dar graças ao Pai, que os fez idôneos para participar da herança dos santos na luz, libertando-os da potestade das trevas e transportando-os para o reino do Filho do seu amor (Colossenses 1:12–13). A gratidão, portanto, está relacionada ao reconhecimento daquilo que Deus já realizou em favor dos que pertencem a Cristo.

Esse contexto impede que a ação de graças seja compreendida como uma exigência mediante a qual o homem procura conquistar o favor divino. Os cristãos não deveriam agradecer para serem transportados ao reino do Filho, pois Paulo declara que Deus já os havia transportado. Tampouco deveriam manifestar gratidão para adquirir a condição de participantes da herança dos santos, uma vez que essa condição já lhes havia sido concedida pelo Pai.

A ação de graças decorre, portanto, do reconhecimento da graça recebida, e não da tentativa de produzir, mediante a gratidão, aquilo que Deus já concedeu em Cristo. Aqueles que compreenderam a riqueza do evangelho possuem motivos para agradecer, pois foram libertos da potestade das trevas, feitos participantes do reino de Cristo e enriquecidos pelo conhecimento da verdade.

Essa relação também contribui para compreender por que Paulo desejava que os cristãos abundassem em ação de graças. Não bastava que reconhecessem intelectualmente a verdade do evangelho, pois a compreensão dos benefícios concedidos por Deus deveria manifestar-se na maneira como se conduziam. O reconhecimento da obra divina produz motivos para gratidão, assim como a nova condição espiritual estabelece o fundamento da conduta requerida aos cristãos.

A expressão “abundando” reforça essa orientação, pois Paulo não se limita a mencionar a ação de graças como uma atitude ocasional, mas a apresenta como característica daqueles que permanecem firmes em Cristo. A abundância da gratidão corresponde ao reconhecimento da riqueza que lhes foi manifestada pelo evangelho, sem que isso signifique que a quantidade de agradecimentos determine a eficácia da salvação recebida.

Dessa maneira, o versículo 7 complementa a exortação anterior sem transformar o andar em Cristo em um processo destinado a alcançar uma perfeição ainda inexistente. Os cristãos já haviam recebido o Senhor Jesus, estavam arraigados nele e deveriam continuar sendo edificados e confirmados na fé, conforme a verdade que lhes fora ensinada, manifestando gratidão a Deus pelos benefícios recebidos.

O contraste com os ensinamentos que Paulo passará a combater torna-se, assim, mais evidente. Enquanto o evangelho apresenta Cristo como fundamento suficiente da salvação, os discursos enganosos procuram introduzir outros elementos como se fossem necessários àqueles que já o receberam. Por isso, permanecer confirmados na fé ensinada constitui uma resposta coerente com a exortação para andar em Cristo, pois aqueles que estão completos nele não necessitam procurar em tradições humanas aquilo que já receberam por meio de sua união com o Senhor.

Colossenses 2:8 — O perigo de ser feito presa por ensinamentos humanos

“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8).

Depois de exortar os colossenses a andarem em Cristo, arraigados e edificados nele, confirmados na fé segundo aquilo que lhes havia sido ensinado, o apóstolo Paulo apresenta uma advertência expressa contra os ensinamentos que poderiam afastá-los da verdade recebida. A mudança no tom da argumentação não representa a introdução de um assunto estranho ao que vinha sendo desenvolvido, mas a explicitação do perigo que motivava seu grande combate em favor daqueles cristãos.

Desde o início do capítulo, Paulo havia demonstrado sua preocupação com o conhecimento espiritual dos destinatários, desejando que fossem consolados, unidos em amor e enriquecidos da plena certeza do entendimento, para conhecerem o mistério de Deus, Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Colossenses 2:1–3). Em seguida, esclareceu que apresentava essas verdades para que ninguém os enganasse com palavras persuasivas (Colossenses 2:4). Agora, retoma a advertência e identifica a natureza dos ensinamentos capazes de seduzir os cristãos, indicando o fundamento que deveria ser utilizado para reconhecê-los.

Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua

A expressão “tende cuidado” traduz o imperativo grego blépete (βλέπετε), derivado de um verbo que significa ver, observar ou prestar atenção. Empregado nessa construção, o termo apresenta uma advertência que exige vigilância e discernimento. Paulo não estava simplesmente recomendando uma atitude genérica de prudência, mas alertando seus leitores acerca de um perigo específico: a possibilidade de serem capturados por ensinamentos que não correspondiam à verdade do evangelho.

A necessidade dessa advertência merece atenção, pois os destinatários já haviam recebido Cristo e estavam arraigados nele. O apóstolo também havia manifestado sua alegria pela ordem e pela firmeza da fé que demonstravam (Colossenses 2:5). Entretanto, essa condição não tornava desnecessário o cuidado com os discursos que lhes eram apresentados. Ainda que permanecessem firmes no evangelho, precisavam discernir os ensinamentos que pretendiam introduzir fundamentos diferentes daqueles que haviam recebido.

A expressão “vos faça presa sua” é particularmente significativa. O verbo grego sylagōgéō (συλαγωγέω) comunica a ideia de levar alguém como despojo ou presa, evocando a ação de quem captura aquilo que pertence a outrem. No contexto da advertência, a imagem apresenta os falsos ensinamentos como instrumentos pelos quais determinadas pessoas poderiam conquistar a sujeição dos cristãos, desviando-os da liberdade e da verdade que haviam recebido em Cristo.

O perigo não consistia em alguém conseguir anular a obra realizada por Cristo ou desfazer, mediante argumentos humanos, a eficácia daquilo que Deus havia estabelecido. A preocupação apostólica estava relacionada à possibilidade de os cristãos serem induzidos a aceitar ensinamentos estranhos ao evangelho, submetendo-se a exigências religiosas que não procediam daquele que haviam recebido como Senhor.

Essa distinção é fundamental, pois Paulo não apresenta a vigilância como meio pelo qual os cristãos deveriam conservar a eficácia da salvação mediante seus próprios esforços. Antes, exorta aqueles que já haviam recebido Cristo a permanecerem na verdade ensinada, sem permitir que outros lhes impusessem fundamentos religiosos estranhos à mensagem apostólica.

A imagem de ser feito presa também demonstra que o engano religioso não se limita à apresentação de informações incorretas. Quando alguém aceita como necessária à sua relação com Deus uma exigência que não procede do evangelho, pode passar a submeter sua consciência e sua conduta à autoridade daqueles que apresentam tal exigência. Desse modo, o ensinamento enganoso deixa de ser apenas um erro de compreensão e torna-se instrumento de sujeição religiosa.

É precisamente contra esse perigo que Paulo adverte os colossenses. Eles haviam recebido Cristo como Senhor e deveriam andar nele, não se deixando capturar por discursos que, sob a aparência de sabedoria espiritual, procuravam estabelecer outros critérios para sua relação com Deus.

Por meio de filosofias e vãs sutilezas

Depois de apresentar o perigo de os cristãos serem feitos presas, Paulo identifica o instrumento pelo qual isso poderia ocorrer: “filosofias e vãs sutilezas”. A advertência não deve ser compreendida como uma condenação indiscriminada de toda investigação racional, pois o apóstolo não afirma que o exercício do pensamento seja incompatível com o evangelho. Sua crítica dirige-se aos ensinamentos que, apresentados como sabedoria, pretendiam conduzir os cristãos segundo fundamentos estranhos a Cristo.

O substantivo grego philosophía (φιλοσοφία) significa, em sua origem, amor à sabedoria, sendo empregado para designar a busca do conhecimento mediante a reflexão e a investigação racional. Entretanto, o sentido de uma palavra não pode ser determinado apenas por sua etimologia, pois é necessário considerar o contexto em que foi utilizada. Em Colossenses 2:8, Paulo relaciona a filosofia combatida ao engano vazio, às tradições humanas e aos rudimentos do mundo, estabelecendo um contraste direto com Cristo.

A expressão traduzida por “vãs sutilezas” contém o substantivo apátē (ἀπάτη), que significa engano ou fraude, acompanhado do adjetivo kenós (κενός), que comunica a ideia de vazio, destituído de conteúdo ou sem resultado. A construção indica que os ensinamentos combatidos podiam apresentar aparência de sabedoria, mas eram vazios quanto àquilo que prometiam proporcionar aos cristãos.

Essa observação permite compreender que Paulo não estava necessariamente apresentando duas espécies independentes de conhecimento, uma denominada filosofia e outra chamada vãs sutilezas. A construção também pode ser entendida como referência a uma filosofia caracterizada pelo engano vazio, especialmente quando seus argumentos procuram apresentar como necessária à salvação uma sabedoria que não procede de Cristo.

Isso não significa que todo conhecimento produzido pela investigação humana seja falso ou inútil. A observação da natureza, o desenvolvimento das ciências, a reflexão filosófica e a organização das relações sociais podem proporcionar conhecimentos legítimos acerca de seus respectivos objetos. Entretanto, a capacidade humana de investigar o mundo não autoriza concluir que o homem possa, mediante seus próprios sistemas de pensamento, descobrir o caminho da salvação ou estabelecer condições adicionais àquelas que Deus revelou em Cristo.

A distinção é indispensável para compreender o argumento apostólico. O problema não está simplesmente na origem humana de determinado conhecimento, mas na pretensão de apresentá-lo como fundamento para conhecer a Deus ou alcançar uma condição espiritual que somente Cristo proporciona. Quando um sistema filosófico ou religioso reivindica autoridade para determinar o que é necessário à salvação, deixa de atuar apenas no campo da reflexão humana e passa a concorrer com a verdade anunciada pelo evangelho.

Paulo já havia declarado que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos em Cristo (Colossenses 2:3). Portanto, a advertência contra a filosofia enganosa deve ser compreendida a partir dessa afirmação. Se Cristo é aquele em quem se encontra a plenitude da sabedoria divina, nenhum ensinamento humano pode legitimamente apresentar-se como complemento indispensável à sua obra, como se o evangelho fosse insuficiente para tornar conhecida a vontade de Deus acerca da salvação.

Segundo a tradição dos homens

Ao identificar as características dos ensinamentos contra os quais advertia, Paulo acrescenta que eram apresentados segundo a tradição dos homens. A expressão desloca a atenção do leitor para a origem e para a autoridade reivindicada por tais ensinamentos, demonstrando que o problema não estava apenas na aparência persuasiva dos argumentos, mas no fundamento sobre o qual eram construídos.

O substantivo grego parádosis (παράδοσις), traduzido por “tradição”, refere-se àquilo que é transmitido ou entregue de uma pessoa a outra. O termo não possui necessariamente sentido negativo, pois o próprio Paulo o utiliza para designar ensinamentos apostólicos que deveriam ser conservados pelos cristãos (2 Tessalonicenses 2:15). Portanto, a crítica de Colossenses 2:8 não se dirige à transmissão de conhecimentos em si, mas às tradições que, procedendo dos homens, são apresentadas como autoridade religiosa em oposição à verdade de Cristo.

Essa distinção também aparece no ensino de Jesus, quando repreendeu aqueles que colocavam suas tradições acima do mandamento de Deus. Ao declarar que determinados religiosos invalidavam a palavra divina por causa da tradição que haviam transmitido, Cristo demonstrou que uma prática religiosa não adquire autoridade divina simplesmente porque foi preservada e ensinada ao longo das gerações (Marcos 7:8–13).

A antiguidade de uma tradição, portanto, não constitui prova de sua conformidade com a vontade de Deus, assim como sua aceitação por determinada comunidade não a transforma em mandamento divino. Para avaliar um ensinamento religioso, é necessário considerar se sua origem e seu conteúdo correspondem à verdade anunciada por Cristo e seus apóstolos.

Essa questão era especialmente relevante para os colossenses, pois Paulo os havia exortado a permanecer confirmados na fé, conforme tinham sido ensinados (Colossenses 2:7). A instrução apostólica apresentava Cristo como fundamento da salvação, enquanto os ensinamentos combatidos procuravam conduzi-los segundo tradições humanas. O contraste, portanto, não estava entre receber ensinamentos e rejeitar todo ensino, mas entre permanecer na verdade do evangelho e submeter-se a doutrinas que não procediam de Cristo.

A preocupação do apóstolo também se relaciona com a união dos cristãos em um mesmo corpo. Se judeus e gentios foram feitos participantes de Cristo mediante a fé no evangelho, não seria legítimo estabelecer distinções entre eles com base em tradições religiosas, como se a observância de determinados costumes concedesse a alguns uma condição espiritual superior à dos demais.

A submissão a tradições humanas torna-se especialmente problemática quando seus defensores procuram transformá-las em requisitos para a comunhão com Deus. Nesse caso, aquilo que pode ter surgido como costume, interpretação ou prática religiosa passa a ser apresentado como condição de salvação, atribuindo-se aos homens a autoridade de exigir aquilo que Deus não estabeleceu por meio do evangelho.

Segundo os rudimentos do mundo

A segunda expressão utilizada por Paulo para caracterizar os ensinamentos combatidos é “segundo os rudimentos do mundo”. Seu significado exige atenção, pois a palavra grega stoicheîa (στοιχεῖα) possui diferentes usos, podendo designar elementos fundamentais, princípios elementares ou, em determinados contextos, realidades associadas à organização e aos poderes do mundo.

Por essa razão, não seria adequado limitar seu significado exclusivamente aos princípios da filosofia humana sem considerar a maneira como Paulo utiliza a expressão em outras passagens. Na Epístola aos Gálatas, por exemplo, o apóstolo afirma que, antes da manifestação da fé, os homens estavam sujeitos aos rudimentos do mundo, empregando posteriormente a mesma linguagem para advertir contra o retorno à sujeição aos elementos fracos e pobres (Gálatas 4:3, 9).

A relação entre essas passagens permite reconhecer que os rudimentos do mundo podiam estar associados a formas de sujeição religiosa anteriores à plena manifestação da verdade em Cristo. Entretanto, a identificação precisa desses elementos deve ser estabelecida pelo contexto, pois o vocábulo também comporta outras possibilidades de interpretação.

Na própria Epístola aos Colossenses, Paulo voltará a mencionar os rudimentos do mundo ao perguntar por que os cristãos, tendo morrido com Cristo para esses rudimentos, continuariam sujeitando-se a ordenanças como se ainda vivessem no mundo (Colossenses 2:20). Em seguida, apresenta exemplos relacionados a proibições de manusear, provar e tocar determinadas coisas, identificando tais exigências como preceitos e doutrinas dos homens (Colossenses 2:21–22).

Essa sequência é particularmente esclarecedora porque demonstra que os rudimentos do mundo estavam relacionados, no argumento apostólico, à sujeição a prescrições religiosas que não deveriam ser impostas àqueles que haviam morrido com Cristo. O problema não consistia simplesmente em conhecer princípios elementares ou observar costumes sociais, mas em submeter a relação com Deus a ordenanças que não correspondiam à nova condição dos cristãos.

A advertência também deve ser compreendida à luz da distinção entre viver no Espírito e andar segundo o evangelho. Aqueles que foram vivificados com Cristo receberam uma nova condição espiritual e, por isso, não deveriam conduzir-se segundo ensinamentos que procurassem restabelecer distinções religiosas superadas pela união com ele.

Paulo apresenta essa questão de maneira expressa na Epístola aos Gálatas, quando repreende Pedro por não proceder corretamente segundo a verdade do evangelho, em razão de sua separação dos cristãos gentios (Gálatas 2:11–14). A conduta de Pedro contrariava a verdade anunciada, pois estabelecia, na prática, distinções entre pessoas que haviam sido feitas participantes do mesmo corpo mediante a fé em Cristo.

Desse modo, os rudimentos do mundo não devem ser considerados apenas como conceitos abstratos pertencentes a um sistema de pensamento. No desenvolvimento do argumento de Colossenses, aparecem relacionados a práticas e ordenanças capazes de sujeitar os cristãos a exigências religiosas que não encontram fundamento na suficiência de Cristo.

E não segundo Cristo

A última expressão do versículo apresenta o critério decisivo para avaliar os ensinamentos contra os quais Paulo advertia: eles não eram segundo Cristo. Essa conclusão reúne os elementos anteriores e demonstra que o problema fundamental não estava simplesmente na habilidade dos argumentos, na antiguidade das tradições ou na organização dos preceitos religiosos, mas no fato de que tais ensinamentos não procediam daquele que Deus havia revelado como fundamento da salvação.

A distinção é essencial, pois nem todo conhecimento produzido pelos homens se opõe necessariamente à verdade divina. Entretanto, nenhum conhecimento humano pode ser apresentado como fundamento independente para alcançar a salvação ou como complemento indispensável à obra realizada por Cristo. A revelação de Deus não depende da capacidade humana de investigar os mistérios divinos, pois foi o próprio Deus quem tornou conhecido o mistério anteriormente oculto, manifestando-o por meio do evangelho.

O evangelista João declara que ninguém jamais viu a Deus e que o Filho unigênito, que está no seio do Pai, o revelou (João 1:18). Jesus também afirma que ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mateus 11:27). Portanto, o conhecimento de Deus necessário à salvação não resulta da descoberta de um sistema filosófico ou da observância de uma tradição religiosa, mas da revelação proporcionada por Cristo.

Essa verdade já havia sido apresentada por Paulo ao declarar que Deus quis tornar conhecidas entre os gentios as riquezas da glória do mistério, identificado como Cristo, a esperança da glória (Colossenses 1:26–27). O ministério apostólico consistia precisamente em anunciar esse mistério, admoestando e ensinando a todos os homens em toda a sabedoria, para apresentá-los perfeitos em Cristo.

Consequentemente, qualquer ensinamento que apresente outros fundamentos como necessários à salvação afasta-se do conteúdo da mensagem apostólica. A verdade do evangelho não pode ser completada por tradições humanas, observâncias religiosas ou sistemas filosóficos, pois todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos naquele que constitui o próprio conteúdo do mistério revelado por Deus.

A advertência de Colossenses 2:8, portanto, não constitui uma condenação indiscriminada da filosofia, das ciências ou das tradições humanas. Paulo combate os ensinamentos que pretendem ocupar o lugar da revelação divina ou acrescentar à obra de Cristo condições que Deus não estabeleceu mediante o evangelho. O cuidado exigido dos cristãos consiste em discernir a origem e o fundamento das doutrinas que lhes são apresentadas, permanecendo confirmados na fé segundo aquilo que receberam.

Assim, o contraste decisivo não está simplesmente entre pensamento humano e ausência de pensamento, mas entre os ensinamentos que procuram estabelecer a relação do homem com Deus segundo princípios estranhos ao evangelho e a verdade que procede de Cristo. Aquele que recebeu o Senhor Jesus deve andar nele, sem permitir que outros o façam presa mediante doutrinas que, embora revestidas de aparente sabedoria, não encontram fundamento naquele em quem habita toda a plenitude da divindade.

Colossenses 2:9 — Em Cristo habita toda a plenitude da divindade

“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2:9).

A conjunção “porque”, que introduz o versículo, estabelece uma relação direta com a advertência anterior, na qual Paulo recomenda aos colossenses que não se deixem capturar por filosofias e vãs sutilezas fundamentadas nas tradições humanas e nos rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. O apóstolo apresenta agora a razão pela qual os cristãos não deveriam procurar nesses ensinamentos aquilo que já lhes havia sido concedido mediante o evangelho: em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade.

A declaração também retoma a exortação apresentada no versículo 6: “Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele”. Se os cristãos haviam recebido Cristo e deveriam andar nele, não seria coerente que procurassem em outros fundamentos religiosos os recursos necessários para alcançar uma condição espiritual superior àquela que receberam. O mesmo Cristo que lhes fora anunciado era aquele em quem se encontravam todos os tesouros da sabedoria e da ciência, razão pela qual nenhum sistema de pensamento poderia acrescentar à sua pessoa ou à sua obra aquilo que fosse necessário à salvação.

Para compreender o alcance dessa afirmação, é indispensável retomar a apresentação que Paulo faz de Cristo no primeiro capítulo da epístola. Ali, o apóstolo o identifica como a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, aquele por quem e para quem todas as coisas foram criadas, tanto as visíveis quanto as invisíveis. Cristo é antes de todas as coisas, nele tudo subsiste, e ele é a cabeça do corpo, da igreja, o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência (Colossenses 1:15–18).

Essa descrição não apresenta Cristo como uma criatura que alcançou posição privilegiada mediante seu desenvolvimento espiritual, mas como aquele cuja identidade e obra possuem singularidade absoluta no propósito divino. O apóstolo não o coloca entre os muitos intermediários pelos quais os homens poderiam aproximar-se de Deus, pois todas as coisas foram criadas por ele e para ele, e nenhuma autoridade existente ocupa posição independente de seu senhorio.

É nesse contexto que Paulo declara: “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Colossenses 1:19). A afirmação antecipa o argumento retomado no segundo capítulo, quando o apóstolo esclarece que essa plenitude é a plenitude da divindade e que ela habita corporalmente em Cristo.

O substantivo grego plḗrōma (πλήρωμα), traduzido por “plenitude”, comunica a ideia daquilo que é pleno ou completo, enquanto theótēs (θεότης) designa a divindade. Paulo não afirma simplesmente que Cristo possui determinados atributos divinos ou que recebeu uma parcela da sabedoria de Deus, mas que nele habita toda a plenitude da divindade. A declaração diz respeito à sua identidade, e não apenas à excelência dos ensinamentos que transmitiu aos homens.

O advérbio sōmatikôs (σωματικῶς), traduzido por “corporalmente”, também merece atenção, pois relaciona essa plenitude à pessoa de Cristo, que se manifestou em carne. A divindade não é apresentada como uma realidade distante e inacessível, cuja manifestação dependesse de uma sucessão de intermediários espirituais, mas como a plenitude que habita naquele que Deus enviou ao mundo e que, depois de sua morte, ressuscitou dentre os mortos.

Essa declaração encontra correspondência no testemunho do evangelista João, segundo o qual o Verbo se fez carne e habitou entre os homens (João 1:14). O mesmo evangelista declara que ninguém jamais viu a Deus e que o Filho unigênito o revelou (João 1:18). Portanto, o conhecimento do Pai não é alcançado mediante uma investigação humana que pretenda descobrir os mistérios divinos independentemente de Cristo, mas pela revelação daquele que veio ao mundo para torná-lo conhecido.

O próprio Jesus declarou que ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mateus 11:27). Essa afirmação demonstra que o conhecimento de Deus necessário à salvação não depende da capacidade humana de elaborar sistemas filosóficos ou preservar tradições religiosas, mas da revelação proporcionada pelo Filho, que tornou conhecida a vontade do Pai mediante o evangelho.

Desse modo, quando Paulo declara que toda a plenitude da divindade habita corporalmente em Cristo, estabelece o fundamento da suficiência daquele que havia sido anunciado aos colossenses. Não seria necessário procurar outra sabedoria para completar a mensagem recebida, pois o próprio Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, constitui a revelação divina destinada a tornar conhecido o caminho da salvação.

A plenitude da divindade que habita em Cristo também esclarece por que o apóstolo rejeita os ensinamentos que não são segundo ele. O problema não consiste na existência de conhecimentos produzidos pela investigação humana, mas na pretensão de estabelecer, mediante filosofias, tradições e ordenanças, condições necessárias à salvação que não procedem da revelação divina. Nenhuma dessas práticas pode conferir ao homem uma participação em Deus superior àquela proporcionada por Cristo.

Entretanto, a afirmação de Paulo não termina na apresentação da plenitude daquele que é o fundamento da salvação. O apóstolo acrescenta, no versículo seguinte, uma declaração acerca da condição daqueles que o receberam: “E estais perfeitos nele”. A relação é fundamental, pois a plenitude da divindade que habita em Cristo constitui o fundamento da completude espiritual daqueles que, mediante a fé no evangelho, foram unidos a ele.

“E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Colossenses 2:10).

Depois de afirmar que toda a plenitude da divindade habita corporalmente em Cristo, Paulo apresenta uma declaração acerca da condição daqueles que haviam recebido o Senhor Jesus: “E estais perfeitos nele”. A afirmação não constitui uma promessa de perfeição futura, tampouco uma orientação para que os cristãos procurem alcançá-la mediante o aperfeiçoamento progressivo de seu comportamento, pois o apóstolo declara que já estão completos naquele em quem habita toda a plenitude da divindade.

A relação entre os dois versículos é especialmente significativa. O substantivo plḗrōma (πλήρωμα), empregado para descrever a plenitude que habita em Cristo, pertence ao mesmo campo lexical do verbo plēróō (πληρόω), do qual deriva a expressão peplērōménoi (πεπληρωμένοι), traduzida por “estais perfeitos”. Paulo estabelece, assim, uma correspondência entre a plenitude de Cristo e a condição daqueles que foram feitos participantes dele, demonstrando que a completude dos cristãos não possui fundamento independente daquele em quem estão.

O particípio peplērōménoi encontra-se no perfeito, indicando uma condição resultante de uma ação já realizada. A declaração não apresenta os colossenses como homens que estavam sendo progressivamente completados mediante a aquisição de novos conhecimentos ou a observância de ordenanças religiosas, mas como aqueles que haviam sido completados em Cristo e permaneciam nessa condição.

Essa distinção é indispensável para compreender a advertência anterior. Os ensinamentos combatidos por Paulo procuravam introduzir fundamentos estranhos ao evangelho, mediante tradições humanas e rudimentos do mundo. Entretanto, se os cristãos já estavam completos em Cristo, nenhuma dessas exigências poderia proporcionar-lhes uma condição espiritual superior àquela que haviam recebido mediante sua união com ele.

O problema não consistia simplesmente em acrescentar determinadas práticas à vida religiosa, mas em atribuir a essas práticas uma eficácia que pertence à obra de Cristo. Quando uma ordenança é apresentada como necessária para completar a condição espiritual daqueles que já receberam o Senhor, estabelece-se uma contradição com a declaração apostólica de que estão perfeitos nele.

A perfeição exigida por Deus

Para compreender a importância dessa declaração, é necessário considerar que as Escrituras apresentam a perfeição como uma exigência divina. Ao instruir Israel, Deus declarou: “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” (Deuteronômio 18:13). Posteriormente, no Sermão do Monte, Jesus afirmou: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:48).

Embora essas declarações pertençam a contextos distintos, ambas apresentam Deus como referência da perfeição. Em Deuteronômio, a determinação está relacionada à integridade e à fidelidade exigidas de Israel diante das práticas religiosas das nações. No Sermão do Monte, Jesus apresenta a perfeição do Pai como referência para seus ouvintes, especialmente ao tratar do amor que não se limita àqueles que correspondem à afeição recebida.

Entretanto, a exigência de perfeição apresentada por Jesus não deve ser isolada da argumentação desenvolvida ao longo do Sermão do Monte. Pouco antes, o Senhor havia declarado: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20).

A afirmação apresenta uma questão decisiva acerca da justiça necessária para entrar no Reino dos Céus. Se a justiça dos escribas e fariseus fosse insuficiente apenas em quantidade, bastaria aos ouvintes de Jesus praticar um número maior de obras religiosas ou observar os mandamentos com rigor superior ao daqueles homens. Nesse caso, a justiça dos religiosos continuaria sendo a referência, e o problema estaria limitado à necessidade de ultrapassar seu desempenho.

Entretanto, o desenvolvimento do Sermão do Monte não permite reduzir a questão a uma competição entre diferentes graus de justiça humana. Ao mencionar os publicanos, Jesus demonstra que amar aqueles que nos amam não constitui uma característica exclusiva dos que pertencem a Deus, pois esse comportamento também é encontrado entre aqueles que não compartilham a mesma relação religiosa com o Pai (Mateus 5:46).

A comparação evidencia a insuficiência de tomar a reciprocidade natural como padrão definitivo do amor requerido por Deus. O homem pode amar aqueles que o amam, fazer bem aos que lhe fazem bem e demonstrar afeição por pessoas com quem possui vínculos de amizade ou parentesco, sem que essas atitudes, consideradas isoladamente, estabeleçam a condição necessária para entrar no Reino dos Céus.

Jesus também denuncia a insuficiência de uma religiosidade fundamentada no reconhecimento dos homens, demonstrando que esmolas, orações e jejuns podem ser praticados com a finalidade de obter aprovação pública (Mateus 6:1–18). A aparência de piedade não altera a natureza do problema, pois o homem pode realizar atos religiosos e continuar fundamentando sua justiça em si mesmo.

É nesse contexto que a exigência “sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” adquire especial relevância. Ao apresentar o Pai como referência, Jesus não permite que os ouvintes estabeleçam o padrão de justiça mediante a comparação entre homens. A questão já não consiste em determinar quem realiza mais obras ou demonstra maior rigor religioso, mas em reconhecer a insuficiência da justiça humana como fundamento para alcançar a perfeição requerida por Deus.

A exigência também não elimina a dimensão prática do amor aos inimigos, que constitui seu contexto imediato. Entretanto, essa orientação não pode ser convertida em um método pelo qual o homem, mediante o aperfeiçoamento gradual de sua conduta, produziria a justiça necessária para entrar no Reino. O mandamento possui conteúdo real, mas sua existência não demonstra que a capacidade humana de obedecer constitua o fundamento da salvação.

Essa distinção torna-se ainda mais clara quando o Sermão do Monte é considerado em seu desenvolvimento até a parábola das duas portas. Depois de afirmar que determinada justiça não permite entrar no Reino, Jesus ordena: “Entrai pela porta estreita” (Mateus 7:13). A relação entre as passagens é importante porque a entrada não é apresentada como resultado de uma longa caminhada anterior de aperfeiçoamento religioso.

Na figura utilizada por Jesus, a entrada antecede a caminhada. O homem não é orientado a percorrer primeiro um caminho estreito para, depois de alcançar determinado grau de aperfeiçoamento moral, encontrar a porta que lhe permitirá ingressar na vida. Antes, é chamado a entrar, e somente então se considera o caminho correspondente à entrada realizada.

Essa ordem encontra correspondência com a declaração de Cristo: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á” (João 10:9). Embora os contextos das duas passagens sejam diferentes, a relação teológica entre elas permite reconhecer que a salvação não decorre de uma trajetória anterior de aperfeiçoamento humano, mas daquele por meio de quem o homem é chamado a entrar.

A afirmação de Paulo aos colossenses apresenta, portanto, uma resposta à questão da perfeição exigida por Deus. O apóstolo não declara que os cristãos estavam se aproximando progressivamente da condição necessária para serem aceitos, mas que já estavam completos em Cristo. A perfeição não é apresentada como o resultado final do desenvolvimento da velha natureza, mas como uma condição estabelecida mediante a união com aquele em quem habita toda a plenitude da divindade.

A participação na natureza divina

Essa compreensão também encontra correspondência na declaração do apóstolo Pedro:

“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (2 Pedro 1:4).

A afirmação acrescenta um elemento importante à compreensão da nova condição daqueles que pertencem a Cristo. Pedro não apresenta a participação na natureza divina como resultado da aquisição de conhecimentos religiosos ou do aperfeiçoamento progressivo da natureza humana, mas como realidade vinculada às grandíssimas e preciosas promessas concedidas por Deus.

A expressão grega theías koinōnoì phýseōs (θείας κοινωνοὶ φύσεως), traduzida por “participantes da natureza divina”, comunica a ideia de participação ou comunhão com aquilo que procede de Deus. A declaração não deve ser reduzida a uma mudança exterior de comportamento, pois a participação mencionada está relacionada à própria condição daqueles que receberam a vida divina, escapando da corrupção existente no mundo.

Entretanto, essa participação não significa que os cristãos se tornaram Deus ou passaram a possuir a divindade de maneira independente daquele que os salvou. A plenitude da divindade habita corporalmente em Cristo, enquanto os cristãos são feitos participantes da vida que Deus lhes concede mediante a união com seu Filho. A distinção preserva a singularidade de Cristo e, ao mesmo tempo, reconhece que a salvação envolve uma nova realidade espiritual, e não simplesmente uma declaração exterior acerca do homem.

A relação entre a participação na natureza divina e a nova criação também merece atenção. Paulo afirma que, se alguém está em Cristo, é nova criatura, pois as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo (2 Coríntios 5:17). O apóstolo não descreve simplesmente um indivíduo que modificou seus hábitos ou passou a observar um código religioso mais rigoroso, mas alguém cuja condição anterior deu lugar a uma nova realidade mediante sua união com Cristo.

Essa mudança de condição não pode ser produzida pelo aperfeiçoamento moral da velha natureza. Por mais que o homem procure disciplinar seus comportamentos, desenvolver virtudes ou aperfeiçoar seus conhecimentos, tais esforços não constituem o fundamento da nova criação. A vida espiritual procede de Deus, que vivifica aqueles que foram unidos a Cristo mediante a fé no evangelho.

O próprio Paulo apresentará essa realidade aos colossenses ao declarar que foram sepultados com Cristo no batismo e nele ressuscitados mediante a fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos (Colossenses 2:12). A participação na morte e ressurreição de Cristo esclarece por que o apóstolo não apresenta a perfeição como um processo destinado a melhorar indefinidamente a antiga condição do homem, mas como realidade decorrente da nova vida recebida nele.

Desse modo, a declaração de Pedro acerca da participação na natureza divina contribui para compreender a profundidade da transformação relacionada à união com Cristo, sem que seja necessário afirmar que as expressões utilizadas pelos dois apóstolos possuem significado lexical idêntico. Enquanto Pedro fala da participação na natureza divina, Paulo afirma que os cristãos estão completos em Cristo, apresentando aspectos relacionados da condição daqueles que receberam a vida de Deus.

A perfeição em Cristo e a nova condição dos filhos de Deus

A relação entre a perfeição e a nova condição espiritual também pode ser compreendida à luz da declaração do evangelista João: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (João 1:12).

A filiação divina não é apresentada como resultado de um processo pelo qual o homem aperfeiçoa gradualmente seu comportamento até tornar-se digno de ser recebido por Deus. João relaciona a condição de filho àqueles que recebem Cristo pela fé, demonstrando que essa realidade decorre do recebimento daquele que foi anunciado pelo evangelho.

Essa compreensão também corresponde à declaração de Paulo de que Deus fez os cristãos idôneos para participarem da herança dos santos na luz (Colossenses 1:12). O apóstolo não afirma que os colossenses estavam procurando alcançar progressivamente a idoneidade necessária para receber a herança, mas que o Pai já os havia feito idôneos. Em seguida, acrescenta que Deus os tirou da potestade das trevas e os transportou para o reino do Filho do seu amor (Colossenses 1:13).

A sequência demonstra que a participação na herança e a transferência para o reino de Cristo não são apresentadas como conquistas decorrentes de um desenvolvimento moral ou intelectual. São realidades que Paulo atribui à ação divina, razão pela qual o apóstolo orienta os cristãos a darem graças ao Pai que lhes concedeu essa condição.

Portanto, quando declara que os colossenses estão completos em Cristo, Paulo não introduz uma ideia isolada, mas reafirma a condição daqueles que já haviam sido feitos idôneos para participar da herança dos santos, libertos da potestade das trevas e transportados para o reino do Filho.

A perfeição em Cristo também não deve ser confundida com a aquisição de conhecimento ilimitado ou com a impossibilidade de os cristãos receberem novas instruções. O próprio Paulo orava para que fossem cheios do conhecimento da vontade de Deus, em toda a sabedoria e inteligência espiritual (Colossenses 1:9), e combatia para que fossem enriquecidos da plena certeza do entendimento (Colossenses 2:2).

Se os cristãos já estavam completos em Cristo e, ao mesmo tempo, necessitavam crescer no conhecimento da verdade, é necessário reconhecer que essas declarações tratam de aspectos diferentes. A completude diz respeito à condição daqueles que foram unidos a Cristo, enquanto a ampliação do entendimento está relacionada à compreensão do evangelho e à conduta correspondente à nova realidade recebida.

O crescimento espiritual, portanto, não deve ser apresentado como um processo pelo qual o homem se torna progressivamente mais filho de Deus ou adquire parcelas adicionais da vida divina. Aquele que recebeu Cristo já foi feito participante dele, embora ainda necessite ser instruído para compreender a riqueza da verdade anunciada e andar segundo o evangelho.

A perfeição em Cristo e o andar no Espírito

Essa distinção permite compreender a relação entre a completude dos cristãos e as exortações apostólicas acerca da conduta. Paulo não declara que os colossenses deveriam andar em Cristo para se tornarem completos nele, mas, porque já o haviam recebido, deveriam conduzir-se em conformidade com a nova condição espiritual.

O mesmo princípio aparece na Epístola aos Gálatas: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gálatas 5:25). A declaração estabelece uma relação entre a vida recebida e o procedimento exigido, sem transformar a conduta no fundamento da vivificação.

Viver no Espírito diz respeito à nova vida concedida mediante a união com Cristo, enquanto andar no Espírito corresponde à conduta segundo a verdade do evangelho. Aqueles que foram vivificados não necessitam produzir novamente essa vida mediante suas obras, mas devem proceder de maneira coerente com a condição que receberam.

Essa compreensão também esclarece por que o andar segundo o evangelho não admite que distinções de origem, circuncisão ou posição social sejam utilizadas como critérios para determinar quem pode participar do corpo de Cristo. Se judeus e gentios são feitos filhos de Deus mediante a fé no mesmo Senhor, não seria coerente estabelecer entre eles uma hierarquia espiritual fundamentada na descendência natural ou na observância de ordenanças religiosas.

Paulo apresentou essa questão aos gálatas ao repreender Pedro porque sua conduta não correspondia à verdade do evangelho (Gálatas 2:14). Ao afastar-se dos cristãos gentios por receio daqueles que eram da circuncisão, Pedro procedia de maneira incompatível com a unidade estabelecida em Cristo.

A advertência demonstra que andar segundo o evangelho não consiste simplesmente em observar determinadas regras de comportamento, mas em proceder de maneira coerente com a verdade anunciada. Quem reconhece que todos os que creem em Cristo foram feitos membros do mesmo corpo não deve estabelecer distinções religiosas que contrariem essa realidade.

Assim, a perfeição em Cristo constitui o fundamento da nova condição espiritual, enquanto o andar segundo o evangelho corresponde à conduta daqueles que já foram feitos participantes dele. A obediência não produz a nova vida, mas deve manifestar-se naqueles que a receberam.

Cristo, a cabeça de todo principado e potestade

Depois de declarar que os cristãos estão perfeitos em Cristo, Paulo acrescenta que ele “é a cabeça de todo o principado e potestade”. A afirmação retoma o argumento cristológico apresentado no primeiro capítulo, quando o apóstolo declarou que todas as coisas foram criadas por Cristo e para ele, incluindo tronos, dominações, principados e potestades (Colossenses 1:16).

Ao apresentar Cristo como cabeça de todo principado e potestade, Paulo reafirma sua supremacia sobre todas as autoridades. Nenhuma delas ocupa uma posição independente daquele por quem e para quem todas as coisas foram criadas, razão pela qual não podem ser apresentadas como intermediários necessários para completar a relação dos cristãos com Deus.

A expressão “cabeça” também havia sido empregada no primeiro capítulo para apresentar Cristo como cabeça do corpo, da igreja (Colossenses 1:18). Entretanto, enquanto naquela passagem o termo destaca a relação de Cristo com seu corpo, em Colossenses 2:10 evidencia sua supremacia sobre todo principado e potestade.

A distinção é importante porque o apóstolo não afirma que todos os principados e potestades integram o corpo de Cristo da mesma maneira que os cristãos, mas que nenhuma dessas autoridades está acima daquele em quem os membros da igreja já estão completos.

Essa declaração também reforça o argumento contra os ensinamentos que procuravam conduzir os colossenses segundo fundamentos estranhos ao evangelho. Se Cristo é a cabeça de todo principado e potestade, não haveria razão para procurar em outras autoridades espirituais aquilo que somente a união com ele proporciona.

A suficiência de Cristo, portanto, não decorre apenas da excelência de sua doutrina, mas de sua própria identidade e posição. Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e aqueles que o receberam estão completos nele. Nenhuma autoridade, tradição ou ordenança pode conferir uma condição superior àquela que Deus concedeu aos que foram unidos ao seu Filho.

Dessa maneira, a declaração de Paulo encerra o argumento iniciado com a advertência contra as filosofias e vãs sutilezas. Os cristãos não deveriam deixar-se capturar por ensinamentos humanos que prometessem complementar sua condição espiritual, pois já haviam recebido Cristo, sido feitos participantes da nova vida e alcançado nele a completude que não poderia ser produzida pelo aperfeiçoamento da velha natureza.

A perfeição exigida por Deus não é conquistada mediante a comparação entre os homens ou pelo aumento das práticas religiosas. A nova condição daqueles que pertencem a Cristo decorre da obra divina, enquanto a conduta cristã deve corresponder à verdade do evangelho que lhes foi anunciado.

Portanto, em Cristo habita toda a plenitude da divindade, e os cristãos estão completos nele, que é a cabeça de todo principado e potestade. A afirmação não torna desnecessários o conhecimento da verdade, a obediência ou o andar segundo o evangelho, mas estabelece que nenhuma dessas atividades constitui o fundamento pelo qual o homem adquire a condição de nova criatura. Aqueles que receberam Cristo já estão completos nele e, por essa razão, devem andar em conformidade com a nova vida que lhes foi concedida. 

11 No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo da carne, a circuncisão de Cristo;

O apóstolo Paulo passa a demonstrar a perfeição alcançada em Cristo, que é a cabeça de todo principado e potestade.

O primeiro elemento da perfeição a se considerar: a circuncisão de Cristo.

Enquanto a circuncisão de Moisés era feita por meio de mãos de homens, a circuncisão de Cristo não é operada por mãos humanas.

Em Cristo eles foram circuncidados com uma circuncisão que despojou toda a carne, e não só o prepúcio. A circuncisão de Cristo é perfeita, pois se ocupa com toda a carne, e não só com aspectos cerimoniais da lei.

A circuncisão de Cristo é perfeita, pois pode alcançar tanto homens quanto as mulheres; gregos e romanos; escravos e livres, etc. Em Cristo podemos cumprir o que determina a lei:

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 );

“Circuncidai-vos ao SENHOR, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” ( Jr 4:4 ).

12 Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.

O segundo elemento da perfeição em Cristo é: sepultados com Cristo no batismo, ou seja, o batismo representa aquilo que o cristão alcança pela fé. Da mesma forma que se é sepultado em Cristo, o cristão ressurge TAMBÉM nele, por meio da fé em Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos.

 

13 E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas,

O que Deus operou não podia ser ignorado. Quando se estava morto em pecado e na incircuncisão da carne, ou seja, a carne estava viva segundo o pecado, Deus vivificou os que creram na mensagem do evangelho juntamente com Cristo, e perdoou todas as ofensas.

Tudo o que Deus operou nos cristão deixou-os perfeitos como perfeito é o último Adão. Os cristãos passaram a ser participantes da natureza de Cristo ( 2Pe 1:4 ).

 

14 Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz.

Havia uma dívida que o homem não podia pagar, e Deus a riscou. Paulo refere-se a lei, que além de tornar evidente a condição pecaminosa do homem, também o deixou com uma dívida por não conseguir cumprir as ordenanças “…desfazendo na sua carne a lei dos mandamentos…” ( Ef 2:14 -15).

A lei é nomeada de ‘escrito de dívida’, isto por causa da obrigação de cumpri-la integralmente para que o homem pudesse viver por meio dela. A divida foi anulada quando cravada na cruz.

 

15 E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo.

Por meio do ato descrito anteriormente, Deus tomou o que era de valor para os principados e potestades. Ao riscar a cédula, ou ao tirar a lei, Deus retirou, ou seja, despojou os principados e potestades daquilo que dava força ao pecado e a lei.

Os principados e potestades neste versículo referem-se as hostes espirituais da maldade, conforme a carta de Paulo aos Efésios “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” ( Ef 6:12 ). Diferente do que é exposto em ( Tt 3:1 ).

 

16 Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados,

Conclui-se: se os cristãos eram perfeitos em Cristo, ninguém podia assumir a condição de juízes, ou seja, que ninguém vós julgue!

A ninguém é dada a autonomia de julgar o que os cristãos comem, bebem, festejam, comemoram, etc. A ninguém é dado julgar os servos e Deus por causa de dias de festas, ou dias de luas, ou de sábados.

A Bíblia apresenta alguns motivos:

a) receberemos o louvor de Deus, e não de homem algum ( 1Co 4:5 );

b) Deus recebeu a todos ( Rm 14:3 );

c) Não se pode julgar o servo alheio ( Rm 14:4 );

d) Cada um deve estar seguro em sua própria mente ( Rm 14:5 ); etc.

 

17 Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo.

Cada elemento que a lei apresentava acerca das comidas, das bebidas, das festas, dos dias, dos sábados e luas, apenas apontavam para elementos futuros, não sendo a imagem exata das coisas “Porque tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam” ( Hb 10:1 ).

Os elementos que a lei apresenta são para cuidados do corpo (comer, beber, festas, descansos, etc), só que o corpo (igreja) pertence a Cristo.

Segue-se que o corpo de Cristo é prefeito, pois ele tem cuidado de todos vós ( 1Pe 5:7 ).

 

 

Regras de Homens

18 Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão,

O apósotlo Paulo ordena: ninguém vos domine! Quando o apóstolo Paulo disse ninguém, é ninguém mesmo. Não há exceção!

Qualquer um que venha com teorias e ideias que estabeleça algum domínio sobre o cristão, e o apóstolo dá exemplo, deve ser descartado. Os judaizantes se apresentavam sob a roupagem de uma pretensa humildade dizendo-se sujeitos a lei e mascaravam as suas doutrinas sob o pretexto de reverencia aos profetas (culto aos anjos); estabelecem o domínio sobre os outros alegando terem visões, no entanto, estes possuem uma mente carnal.

A compreensão destas pessoas que tende a dominar os outros cristãos é segundo um entendimento carnal, seguem enfatuado segundo os rudimentos do mundo e segundo as tradições dos homens.

Para estabelecer este tipo de domínio eles procuram demonstrar que ainda falta alguma coisa para se alcançar a perfeição. Para isso faz-se necessário privar o cristão daquilo que já possui, mas ninguém pode privar o cristão daquilo que já recebeu em Cristo: somos perfeitos, pois recebemos a plenitude em Cristo.

 

19 E não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus.

Aquele que está de posse de uma compreensão carnal não está ligado à cabeça, que é Cristo. De Cristo todo o corpo cresce em aumento de Deus. Observe que o corpo de Cristo cresce provido e organizado por juntas e ligaduras. Esta forma de ilustrar as verdades bíblicas é bem utilizada nesta carta e na carta de Efésios.

Enquanto a carta aos Gálatas possui várias citações do antigo testamento, esta não apresenta nenhuma citação direta.

 

20 Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como:

Paulo chama os cristãos à responsabilidade: estais mortos quanto aos rudimentos do mundo e por que ainda se submetiam a ordenanças da lei? Se eles estavam se submetendo a lei, isto significava que ainda se comportavam como se vivessem no mundo.

 

21 Não toques, não proves, não manuseies?

O cristão não pode ser sobrecarregado de ordenanças como se dependesse delas para viver para Deus. O homem vive para Deus segundo a sua palavra, e não segundo aquilo que pretensos juízes estipulam para a vida do próximo.

Se alguém acredita que terá vida em Deus simplesmente porque não toca certas coisas, ou porque não prova certos alimentos e prazeres, ou porque não manuseia certos objetos, está completamente enfatuado em sua mente carnal.

 

22 As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens;

A filosofia demonstra que tudo que há em baixo dos céus perece pelo uso, e por que alguns ainda estabelecem regras firmadas nestes princípios humanos?

 

23 As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne.

As regras e as doutrinas dos homens possuem aparência, mas não são efetivas para o que se pretende. Parece sabedoria, apresenta uma devoção voluntária, aparenta humildade, parece que o homem está disciplinando o corpo, mas todas estas coisas só conseguem satisfazer a carne, o próprio ego humano.

Muitos querem por meio do jejum ‘alcançar’ uma ‘espiritualidade’, mas o ser espiritual só é possível em Cristo por meio da fé. Só é possível ser espiritual quando nascemos de Deus, e não da vontade do homem.

Alguns procuram disciplinar o corpo como forma de se crescer ‘espiritualmente’, como muitas religiões a pregoam: os espíritas afirmam que podemos alcançar a condição de espíritos elevados; os budistas acreditam que podem alcançar um estágio de perfeição espiritual; as religiões orientais apregoam que é possível ao homem, por meio de uma disciplina rígida e de meditações alcançar a ‘espiritualidade’.

Mas não é assim o evangelho de Cristo. Não adianta ter uma devoção voluntária, antes é necessário nascer de novo. Como exemplo temos Nadabe e Abiu que voluntariamente foram oferecer incenso “E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o SENHOR, o que não lhes ordenara” ( Lv 10:1 ).

Davi voluntariamente foi buscar a arca da aliança, e a forma com que estavam conduzindo a arca não foi aceito por Deus ( 2Sm 6:2 -9). Não é desta voluntariedade que Deus faz referência.

A voluntariedade do cristão é segundo o que pediu o salmista: “Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário” ( Sl 51:12 ). Um espírito voluntário depende de Deus, que o sustêm.

O crescimento que é factível ao cristão é o crescer na graça e no conhecimento conforme assevera o apóstolo Pedro “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém” ( 2Pe 3:18 ).

A aparência de humildade, a disciplina com relação ao corpo físico, a devoção como o celibato, tem aparência de sabedoria, mas não satisfaz o que Jesus disse a Nicodemos: todo homem necessariamente precisa nascer de novo.

0 comments

  1. O texto é conciso e coerente. Eu não concordo com absolutamente tudo, mas esse artigo me ajudou a entender muito mais sobre o texto de Colossenses 2. Obrigado por se dedicar a isso Claudio Crispim. Você está ajudando muitas pessoas a conhecerem ao Senhor de forma mais profunda!

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