Interpretação bíblica

A fé (πίστις) nos escritos de Paulo: o testemunho de Deus e a resposta humana

Uma investigação exegética sobre o evangelho, o crer e a interpretação de Efésios 2:8.


1. A questão fundamental: o que significa πίστις nos escritos de Paulo?

O substantivo grego πίστις (pístis), geralmente traduzido por “fé”, ocupa lugar central na exposição do evangelho realizada pelo apóstolo Paulo. Para compreender seu significado, porém, é necessário distinguir a mensagem anunciada por Deus da resposta humana diante dessa mensagem.

A simples crença na existência de Deus não se confunde com o crer exigido pelo evangelho. O homem pode admitir a existência de uma divindade com base em suas observações, raciocínios ou convicções pessoais, independentemente do conhecimento das Escrituras. Essa crença, entretanto, não equivale a crer no testemunho que Deus deu acerca de seu Filho.

O evangelho não se limita a exigir que o homem reconheça a existência de Deus. Ele apresenta uma mensagem específica, cujo conteúdo é Jesus Cristo. A questão fundamental não é apenas admitir que Deus existe, mas crer que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho de Deus, conforme o testemunho divino anunciado nas Escrituras (1 João 5:10).

O evangelista João evidencia essa distinção:

“Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:31).

O texto identifica o conteúdo do testemunho escrito e a resposta esperada daqueles que o recebem. O testemunho apresenta Jesus como o Cristo, o Filho de Deus; crer consiste em reconhecer como verdadeira essa declaração e confessá-la.

A mesma relação aparece em 1 João 5:9-10, quando o apóstolo distingue o testemunho de Deus acerca de seu Filho da resposta daquele que crê nesse testemunho. Não se trata, portanto, de uma crença produzida independentemente da revelação, mas da aceitação daquilo que Deus declarou.

É sob essa perspectiva que se propõe investigar o substantivo πίστις nos escritos paulinos. A hipótese a ser examinada é que, em determinados contextos, a fé designa o próprio conteúdo do testemunho divino, isto é, a mensagem do evangelho que apresenta Jesus como o Cristo. Nesses casos, a fé não corresponde à convicção produzida no ouvinte, mas à verdade anunciada, diante da qual ele é chamado a crer.

Essa distinção não significa que πίστις possua invariavelmente esse significado. O contexto pode indicar o emprego do substantivo para descrever a confiança humana em Deus. A investigação deverá, portanto, identificar quando Paulo se refere à mensagem anunciada e quando descreve a resposta daqueles que a recebem.

A questão é importante porque, se a fé designa a mensagem que apresenta Cristo, ela antecede logicamente a resposta do ouvinte: primeiro há o testemunho a respeito de Cristo; depois, a exigência de crer naquilo que foi testemunhado.

O foco da investigação são as cartas de Paulo. Outros escritos apostólicos, como Hebreus, Tiago, Judas e as epístolas de Pedro, serão considerados quando esclarecerem o emprego paulino, sem que se pressuponha que todos os escritores utilizem o vocábulo da mesma maneira.

Dessa forma, a investigação não pretende negar a importância do crer, mas distinguir aquilo que Deus testemunha da resposta humana exigida por esse testemunho. Somente mediante essa distinção será possível avaliar adequadamente os diferentes empregos de πίστις nos escritos de Paulo e, de modo particular, a declaração de Efésios 2:8, lida como parte de uma carta dirigida a cristãos que já conheciam o evangelho.

2. O campo semântico da fé: πίστις, πιστεύω, πιστός e πιστόω

A investigação do significado de πίστις exige inicialmente distinguir esse substantivo dos vocábulos pertencentes à mesma família lexical. Embora relacionados, πίστις, πιστεύω (pisteúō), πιστός (pistós) e πιστόω (pistóō) possuem funções gramaticais distintas e significados que precisam ser determinados conforme o contexto.

A proximidade etimológica não implica identidade semântica. Palavras da mesma família podem apresentar sentidos relacionados sem que sejam intercambiáveis numa determinada construção. Da mesma forma, a tradução de diferentes vocábulos por palavras portuguesas relacionadas à fé não autoriza o intérprete a atribuir a todos eles um significado uniforme.

2.1. πίστις (pístis): o substantivo

O termo πίστις é um substantivo feminino da terceira declinação. Seu campo semântico abrange fé, confiança, fidelidade, confiabilidade e convicção. Em determinados contextos cristãos, o substantivo também pode identificar aquilo que é crido, professado ou transmitido, isto é, o conteúdo da fé.

Essa variedade exige examinar cada ocorrência considerando a construção gramatical, os verbos associados ao substantivo, seus eventuais complementos e o desenvolvimento da argumentação.

O emprego de πίστις não permite concluir, apenas por sua natureza substantiva, que o escritor esteja se referindo à mensagem anunciada. Um substantivo também pode designar uma atitude, disposição, qualidade ou relação. Entretanto, a possibilidade de πίστις designar confiança não impede que, em determinados contextos, o mesmo vocábulo identifique o conteúdo da proclamação cristã.

Um exemplo é Gálatas 1:23, em que a fé aparece como objeto do verbo anunciar: “Aquele que já nos perseguiu anuncia agora a fé que antes destruía”. O significado não decorre simplesmente de πίστις ser um substantivo, mas da relação entre o substantivo, o verbo e o contexto da atividade persecutória e missionária do apóstolo. A passagem será examinada na seção 3.1.

2.2. πιστεύω (pisteúō): o verbo crer

Diferentemente de πίστις, πιστεύω é um verbo cujo campo semântico compreende crer, acreditar, dar crédito, confiar e, em determinadas construções, confiar algo a alguém.

O emprego desse verbo identifica uma ação ou atitude atribuída ao sujeito, mas não determina, por si só, a origem ou a veracidade daquilo que é crido. O homem pode acreditar numa afirmação verdadeira ou falsa, confiar numa pessoa digna ou indigna de confiança e aceitar como verdadeiro um testemunho procedente de Deus ou dos homens. Por conseguinte, o simples ato de crer não constitui, isoladamente, a característica distintiva da resposta exigida pelo evangelho.

O crer exigido pelo evangelho possui um conteúdo específico: o testemunho que Deus apresenta acerca de Jesus Cristo. Em João 20:31, o verbo πιστεύω vem acompanhado daquilo que deve ser reconhecido como verdadeiro: Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Não se trata de crer numa realidade indeterminada, nem de simplesmente admitir a existência de Deus.

Assim, importa distinguir o ato de crer do conteúdo daquilo que é crido. O verbo identifica a resposta do sujeito; o contexto determina o objeto dessa resposta.

Romanos 10:9 apresenta uma aplicação importante dessa distinção:

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.”

O verbo crer está associado a uma afirmação específica: Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos. O conteúdo anunciado não é produzido pela convicção do ouvinte. É apresentado como verdade acerca de Cristo, à qual o ouvinte é chamado a dar crédito.

2.3. πιστός (pistós): fiel, confiável ou crente

O adjetivo πιστός pode significar fiel, digno de confiança, confiável ou crente, conforme o contexto. Aplicado a Deus, destaca sua fidelidade. Aplicado aos homens, pode caracterizar alguém como fiel, digno de confiança ou pertencente à comunidade dos que creem.

Em 1 Coríntios 1:9, Paulo declara: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor”. A expressão πιστὸς ὁ θεός apresenta a fidelidade como atributo daquele que chamou os cristãos. O adjetivo não designa o evangelho anunciado nem o ato de crer praticado pelo homem.

Em Gálatas 3:9, a expressão τῷ πιστῷ Ἀβραάμ, “o crente Abraão”, caracteriza o patriarca como aquele que creu em Deus, conforme a argumentação desenvolvida a partir de Gênesis 15:6. Em Efésios 1:1, πιστοῖς ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ refere-se aos fiéis em Cristo Jesus.

Esses exemplos mostram que πιστός caracteriza pessoas ou seres em relação à fidelidade, à confiabilidade ou à condição de crentes, e que seu sentido depende do referente e da construção.

2.4. A fidelidade de Deus e a condição dos fiéis em Cristo

A interpretação dos vocábulos relacionados à fé deve considerar também os pressupostos que sustentam a argumentação bíblica, ainda que não sejam expressamente reiterados pelos escritores. Por exemplo, não se pode atribuir a Deus o ato de crer no sentido de aceitar um testemunho para alcançar conhecimento, pois, sendo onisciente, Ele conhece todas as coisas e não depende de informações ou evidências externas para reconhecer a verdade. O homem, por sua vez, é chamado a crer no testemunho divino, mesmo sem ter presenciado os acontecimentos anunciados. Essa distinção é evidenciada nas palavras de Jesus a Tomé: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (João 20:29). Assim, o crer pressupõe uma relação com aquilo que é apresentado como digno de crédito, enquanto a onisciência divina exclui a necessidade dessa forma de conhecimento mediado pelo testemunho.

Quando Paulo declara que “fiel é Deus” (1 Coríntios 1:9), apresenta uma característica essencial e imutável do ser divino, cuja realidade independe do reconhecimento humano. Deus não se torna fiel porque o homem nele crê; ao contrário, sua fidelidade constitui o fundamento pelo qual sua Palavra é digna de crédito. Aquele que promete é verdadeiro, não pode mentir e possui poder para cumprir tudo o que anunciou. Essa fidelidade deve ser considerada como um pressuposto indispensável à interpretação das Escrituras, mesmo quando não é expressamente mencionada pelo escritor bíblico. Portanto, ao examinar os vocábulos relacionados à fé, não se pode desconsiderar que a confiança humana encontra seu fundamento na veracidade, na fidelidade e no poder de Deus, e não na disposição subjetiva daquele que crê. A confiança do homem não confere credibilidade à Palavra divina; é a fidelidade daquele que a pronunciou que a torna digna de confiança.

Essa relação aparece na argumentação acerca de Abraão. Segundo Romanos 4:20-21, Abraão não duvidou da promessa e estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para realizar o que havia prometido. A convicção de Abraão não constitui o fundamento da veracidade da promessa; a promessa é digna de crédito em razão da fidelidade e do poder daquele que a fez.

A verdade da palavra de Deus não resulta do ato de crer; é o crer que deve ter por fundamento a verdade anunciada. O mesmo se aplica ao evangelho: Deus não exige que o homem produza uma convicção desprovida de conteúdo, mas apresenta o testemunho acerca de seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos (Romanos 10:9).

Por outro lado, quando Paulo se dirige aos cristãos como fiéis em Cristo Jesus (Efésios 1:1; Colossenses 1:2), a designação não precisa ser interpretada como virtude moral previamente adquirida nem como requisito ético para alcançar a salvação. Pode identificar aqueles que, por terem crido no evangelho, pertencem a Cristo e participam da nova realidade nele estabelecida. Aquele que está em Cristo é nova criatura (2 Coríntios 5:17), e essa condição não decorre de excelência moral anterior, mas da condição que alcançou por intermédio do novo nascimento.

Deus é fiel em si mesmo; os cristãos são identificados como fiéis por pertencerem àquele em quem creram. Essa distinção impede que a designação dos cristãos como fiéis seja convertida em exigência de mérito. A conduta é relevante para a vida cristã, mas não deve ser confundida com o fundamento da nova condição daquele que está em Cristo.

2.5. πιστόω (pistóō): convencer, assegurar ou tornar confiável

O verbo πιστόω possui emprego distinto de πιστεύω. Seu campo semântico compreende tornar confiável, confirmar, assegurar e, especialmente nas formas passivas, estar convencido ou seguro de alguma coisa.

Em 2 Timóteo 3:14 lemos: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido”. A forma ἐπιστώθης é o aoristo passivo do indicativo, segunda pessoa do singular: Timóteo havia sido convencido ou assegurado quanto às coisas que aprendera.

O texto relaciona o conteúdo aprendido à convicção alcançada, mas essa relação não autoriza identificar πιστόω com πίστις nem com πιστεύω. Na sequência, Paulo menciona as sagradas Escrituras, “que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15). O contexto permite observar a relação entre aprendizado, convicção, Escrituras e salvação, sem reduzir todos os vocábulos a um único significado.

2.6. A distinção entre o conteúdo anunciado e a resposta humana

O exame dos quatro vocábulos demonstra que a investigação da fé no Novo Testamento não pode ser resolvida por uma definição lexical isolada. O substantivo πίστις pode designar diferentes realidades; o verbo πιστεύω descreve o ato de crer ou confiar; o adjetivo πιστός caracteriza alguém como fiel, confiável ou crente; e o verbo πιστόω expressa a ação de assegurar ou a condição de estar convencido.

Essas distinções não significam que o substantivo sempre designe a mensagem e que o verbo sempre corresponda à resposta humana. Em determinados contextos, o próprio substantivo designa confiança ou atitude pessoal. A questão decisiva é identificar a realidade à qual o escritor se refere em cada ocorrência.

Quando Paulo afirma que antes perseguia a fé e agora a anuncia (Gálatas 1:23), é necessário investigar a fé enquanto objeto da proclamação. Quando declara que Abraão creu em Deus (Gálatas 3:6), o verbo descreve a resposta de Abraão diante da palavra divina. E quando afirma que a fé haveria de vir e de se manifestar (Gálatas 3:23), introduz uma dimensão histórica que não deve ser ignorada.

Portanto, a investigação não consiste em separar artificialmente a fé do crer, mas em determinar quando πίστις identifica a mensagem anunciada e quando descreve a confiança daquele que a recebe.

3. A fé como conteúdo anunciado: o evangelho, a doutrina e o testemunho de Deus

A compreensão de πίστις como conteúdo anunciado encontra apoio em passagens nas quais a fé não aparece como disposição humana, mas como realidade que pode ser proclamada, transmitida e defendida. Essas construções permitem distinguir a mensagem que exige o crer da resposta daqueles que a recebem.

A investigação não parte do pressuposto de que πίστις possui um significado fixo. O objetivo é verificar em quais contextos o próprio escritor utiliza o substantivo para identificar a mensagem cristã e quais elementos, explícitos ou pressupostos, sustentam essa interpretação.

3.1. Gálatas 1:23 — A fé que Paulo passou a anunciar

Ao relatar o conhecimento que as igrejas da Judeia tiveram de sua conversão, Paulo declara:

“Somente tinham ouvido dizer: Aquele que já nos perseguiu anuncia agora a fé que antes destruía” (Gálatas 1:23).

νῦν εὐαγγελίζεται τὴν πίστιν ἥν ποτε ἐπόρθει

O substantivo πίστιν, no acusativo singular, é objeto direto de εὐαγγελίζεται, verbo empregado para anunciar boas-novas. Paulo apresenta a fé como objeto da proclamação: as Boas Novas, o Evangelho de Cristo.

O contexto identifica a realidade que o apóstolo antes combatia. Em Gálatas 1:13, Paulo recorda que perseguia intensamente a igreja de Deus e procurava destruí-la. Em Gálatas 1:11-12, apresenta o evangelho que anunciava como recebido por revelação de Jesus Cristo; em Gálatas 1:15-16, relata que Deus revelou seu Filho nele para que o anunciasse entre os gentios.

Paulo não perseguia uma disposição psicológica existente no interior dos cristãos. Sua perseguição era dirigida à comunidade identificada com a mensagem acerca de Jesus Cristo (Atos 9:2). Da mesma forma, sua nova atividade não consistia em anunciar a experiência interior dos que haviam crido, mas em proclamar Jesus Cristo, o Filho de Deus.

A comunidade é formada por aqueles que recebem o evangelho, e suas relações decorrem dessa recepção. O que Paulo anuncia, porém, é a mensagem acerca de Cristo.

A interpretação objetiva de πίστις em Gálatas 1:23 decorre, portanto, da convergência entre o verbo utilizado, a função do substantivo como objeto da proclamação, a progressão do discurso e a ênfase conferida à revelação do Filho de Deus. A fé que antes era combatida passou a ser anunciada pelo próprio perseguidor.

3.2. Judas 3 — A fé que foi entregue aos santos

Embora a investigação esteja concentrada nos escritos paulinos, a epístola de Judas oferece um exemplo claro de πίστις empregada em referência ao conteúdo da mensagem cristã:

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3).

τῇ ἅπαξ παραδοθείσῃ τοῖς ἁγίοις πίστει

O elemento decisivo é o particípio παραδοθείσῃ, de παραδίδωμι, verbo que expressa o ato de entregar, transmitir ou confiar algo a alguém. Em Judas 3, a fé é apresentada como uma realidade anteriormente constituída e entregue aos santos, e não como algo produzido por eles. A construção evidencia que a comunidade é destinatária de um conteúdo transmitido, cuja existência antecede seu recebimento. Portanto, a ênfase do escritor não recai sobre uma capacidade subjetiva de crer infundida nos destinatários, mas sobre a fé que lhes foi confiada e pela qual deveriam batalhar. O propósito da exortação confirma essa interpretação: os santos são chamados a defender aquilo que receberam, e não a produzir ou preservar uma disposição psicológica de acreditar.

O contexto reforça essa compreensão. No versículo seguinte, Judas denuncia homens que transformavam a graça de Deus em dissolução e negavam o Senhor Jesus Cristo. Em Judas 17, recomenda que os destinatários se lembrem das palavras anteriormente ditas pelos apóstolos. Em Judas 20, exorta-os a edificar-se “sobre a vossa santíssima fé”.

A correspondência entre a fé entregue aos santos (Judas 3), as palavras anteriormente anunciadas pelos apóstolos, das quais os destinatários deveriam lembrar-se (Judas 17), e a santíssima fé sobre a qual deveriam edificar-se (Judas 20) favorece a compreensão de πίστις como referência ao conteúdo da mensagem apostólica. O escritor não apresenta a fé como uma disposição subjetiva a ser produzida pelos destinatários, mas como uma verdade anteriormente recebida, que deveria ser preservada e defendida. Essa interpretação encontra correspondência em Gálatas 1:23, onde Paulo é apresentado como aquele que anunciava a fé que anteriormente procurava destruir. Em ambos os contextos, a ênfase recai sobre uma realidade objetiva: aquilo que Paulo anuncia é a fé; aquilo que Judas exorta os santos a defender é a fé que lhes foi entregue. Em essência, essa fé corresponde ao evangelho, cujo núcleo é o testemunho apostólico acerca da pessoa e da obra de Jesus Cristo. Assim, o crer constitui a resposta humana à mensagem, enquanto a fé anunciada e entregue designa, nesses contextos, a verdade que deve ser recebida, confessada e preservada.

3.3. Filipenses 1:27 — A fé do evangelho

Na epístola aos Filipenses, Paulo estabelece uma relação explícita entre πίστις e o evangelho:

“Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (Filipenses 1:27).

συναθλοῦντες τῇ πίστει τοῦ εὐαγγελίου

O particípio συναθλοῦντες expressa a ideia de combater juntamente em favor de um objetivo comum. A expressão τῇ πίστει τοῦ εὐαγγελίου relaciona diretamente a fé ao evangelho. O genitivo pode indicar a fé associada ao evangelho, a fé que o evangelho suscita ou a própria mensagem pela qual os cristãos devem combater.

O contexto apresenta o evangelho como a referência que governa a conduta da comunidade. Paulo não recomenda que cada cristão preserve uma convicção religiosa particular; sua preocupação envolve a unidade dos destinatários, sua firmeza diante dos adversários e sua participação conjunta na causa do evangelho. Os cristãos não são chamados a defender a intensidade de suas convicções, mas a permanecer unidos tendo o evangelho de Cristo como referência.

A obediência, a firmeza e a disposição de enfrentar a oposição são respostas diante dessa mensagem e não devem ser confundidas com o próprio conteúdo anunciado.

3.4. Efésios 4:5 — Uma só fé, um só Senhor

Ao exortar os cristãos à preservação da unidade do Espírito, Paulo declara:

“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4:5).

Em Efésios 2:14-18, o apóstolo já havia apresentado Cristo como aquele que, de judeus e gentios, fez um só povo, reconciliando ambos com Deus num só corpo. Aqueles que antes estavam separados foram reunidos em Cristo: há um só corpo, um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo e um só Deus e Pai.

Se o substantivo designasse apenas a experiência individual de confiar, seria necessário explicar em que sentido essa confiança é uma só, já que cada cristão é um sujeito distinto. É possível compreender a expressão como a confiança compartilhada num mesmo Senhor. O contexto, porém, permite investigar se Paulo se refere ao conteúdo comum que identifica os cristãos: o evangelho de Jesus Cristo.

Essa leitura encontra apoio na própria epístola. Em Efésios 1:13, os destinatários ouviram a palavra da verdade, o evangelho da sua salvação, e nele creram. A passagem distingue a mensagem anunciada da resposta. O mesmo evangelho foi apresentado a judeus e gentios, que passaram a constituir um só corpo.

Efésios 4:13 amplia esse entendimento:

“Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus.”

A associação entre fé e conhecimento do Filho de Deus é significativa, porque o contexto trata da atuação dos ministros na edificação do corpo e adverte contra a instabilidade provocada por “todo o vento de doutrina” (Efésios 4:14). A unidade da fé, enquanto conteúdo comum, distingue-se do crescimento dos cristãos no conhecimento dessa verdade. A mensagem é uma só, embora seus destinatários ainda precisem avançar em sua compreensão.

Há muitos que creem, mas um só Senhor e um só evangelho que anuncia esse Senhor.

3.5. Gálatas 3:23-25 — A fé que estava por vir e havia de se manifestar

A utilização de πίστις em Gálatas 3:23-25 apresenta uma dificuldade interpretativa importante:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gálatas 3:23).

A passagem contém duas construções:

Πρὸ τοῦ δὲ ἐλθεῖν τὴν πίστιν — “mas, antes de vir a fé”.

εἰς τὴν μέλλουσαν πίστιν ἀποκαλυφθῆναι — “para a fé que havia de ser revelada”.

Na primeira, Paulo utiliza o infinitivo aoristo ἐλθεῖν, de ἔρχομαι, vir. Na segunda, emprega μέλλουσαν, particípio presente de μέλλω, com o infinitivo aoristo passivo ἀποκαλυφθῆναι, de ἀποκαλύπτω, revelar. A fé é apresentada como algo que ainda haveria de vir e ser revelado.

Paulo já havia apresentado Abraão como aquele que creu em Deus (Gálatas 3:6). A confiança humana em Deus, portanto, não começou com a manifestação histórica de Jesus Cristo. Surge a questão: se Abraão já cria em Deus, em que sentido a fé ainda estava por vir?

A resposta deve vir da argumentação apostólica. Em Gálatas 3:16, Paulo identifica Cristo como a descendência à qual se referia a promessa feita a Abraão. Em Gálatas 3:19, declara que a lei foi acrescentada até que viesse a descendência a quem a promessa fora feita. Em Gálatas 3:24, afirma que a lei serviu de aio para conduzir a Cristo; e, no versículo 25: “Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de tutor”.

A sequência estabelece uma relação entre a vinda da descendência prometida, que é Cristo, e a vinda da fé. O texto apresenta dois períodos: aquele em que os destinatários estavam sob a tutela da lei e aquele inaugurado com a chegada da fé.

A interpretação de πίστις como simples surgimento da capacidade humana de confiar encontra aqui uma dificuldade, pois a confiança em Deus já existia. A interpretação de πίστις como a manifestação histórica de Cristo, anunciada no evangelho, explica por que Paulo emprega os verbos vir e revelar, e corresponde a Gálatas 1:23, onde a fé é mensagem anunciada.

Ainda é necessário distinguir duas proposições: que a vinda da fé esteja relacionada à manifestação histórica de Cristo, e que o substantivo πίστις seja empregado diretamente como designação pessoal de Cristo. A primeira encontra apoio na sequência de Gálatas 3. A segunda depende de demonstração adicional.

De todo modo, a fé que haveria de se manifestar não pode ser reduzida à experiência individual de crer. Está relacionada à nova realidade inaugurada com a manifestação de Cristo, a descendência prometida a Abraão.

3.6. Síntese: a mensagem anunciada e a resposta exigida

Em Gálatas 1:23, a fé é anunciada. Em Judas 3, foi entregue aos santos. Em Filipenses 1:27, aparece relacionada ao evangelho pelo qual a comunidade combate unida. Em Efésios 4:5 e 13, é uma só e está associada ao conhecimento do Filho de Deus. Em Gálatas 3:23-25, é realidade que haveria de vir e se manifestar.

Embora as construções sejam distintas, todas permitem identificar o emprego de πίστις para uma realidade que não se confunde com a disposição psicológica de um indivíduo. O elemento comum é a relação da fé com a manifestação, a transmissão e a preservação da mensagem cristã.

A distinção permanece essencial: o testemunho de Deus acerca de seu Filho possui conteúdo próprio e é apresentado ao homem para que creia. O crer não é a fonte da verdade anunciada; é a resposta daquele que recebe como verdadeiro o testemunho divino.

4. A fé como resposta humana: a palavra anunciada, o crer, a confissão e a perseverança

A investigação de πίστις exige considerar tanto as passagens em que a fé designa o conteúdo da mensagem quanto aquelas em que está relacionada à confiança, à fidelidade, à perseverança e à obediência humana.

Reconhecer essa diversidade não significa que os escritores apostólicos empreguem o substantivo de maneira arbitrária. Cada ocorrência deve ser examinada considerando a construção, os pressupostos da argumentação e a realidade à qual a expressão remete.

A tese de que πίστις pode designar o evangelho não depende de estabelecer equivalência lexical entre esses termos. Em algumas passagens, a própria construção favorece o sentido objetivo. Em outras, a identificação resulta da convergência entre o contexto, os pressupostos e as inferências legitimamente decorrentes do discurso.

Demonstrar que πίστις pode designar o conteúdo objetivo do evangelho não equivale a demonstrar que esse seja seu sentido predominante, nem que o substantivo não possa designar confiança. O propósito não é atribuir um único significado ao vocábulo, mas determinar o que os escritores efetivamente comunicam ao empregá-lo.

4.1. O significado lexical e a realidade comunicada pelo escritor

A interpretação de uma expressão não se esgota nos significados que seus vocábulos podem assumir isoladamente. É necessário considerar o enunciado, seus pressupostos, a organização do discurso e a importância que o escritor atribui a cada elemento. Quatro critérios são particularmente relevantes:

  • Denotação: o conteúdo efetivamente afirmado pelo enunciado, consideradas as palavras empregadas, suas relações sintáticas e o estado de coisas que a frase apresenta como verdadeiro.
  • Conotação: as associações históricas, culturais, literárias e teológicas evocadas por uma expressão, particularmente as que podiam ser reconhecidas pelos destinatários originais.
  • Ênfase: o destaque conferido pelo escritor aos elementos de sua argumentação, perceptível mediante qualificações, repetições, contrastes, retomadas e pela função que a expressão desempenha no discurso.
  • Inferência: a recuperação de informações não declaradas expressamente, mas sustentadas pelos pressupostos compartilhados, pelo contexto e pelas relações entre os enunciados.

A convergência desses elementos permite reconhecer o que o escritor comunica, mesmo quando não repete todas as informações necessárias à compreensão de uma declaração.

A ausência de equivalência lexical entre duas palavras não impede que ambas remetam, em determinado contexto, à mesma realidade. Evangelho, palavra, promessa, Cristo e fé não são sinônimos; mas, conforme o contexto, uma referência à fé pode evocar a promessa divina, a mensagem acerca de Cristo ou um elemento da obra redentora. Essa relação pode decorrer de retomada discursiva, de associação conotativa ou de metonímia, cuja ocorrência não deve ser presumida, mas justificada pelo próprio texto.

O intérprete deve, portanto, distinguir três questões: o que o vocábulo significa, a que realidade a expressão se refere e o que o contexto permite inferir acerca dessa realidade.

4.2. O evangelho e os diferentes elementos da mensagem cristã

O substantivo εὐαγγέλιον designa uma boa notícia. Toda notícia possui conteúdo: pode referir-se a uma pessoa, anunciar um acontecimento, comunicar uma ação realizada ou tornar conhecida uma nova realidade.

Nos escritos apostólicos, o evangelho tem Jesus Cristo como centro. Paulo inicia a epístola aos Romanos declarando que foi separado para o evangelho de Deus, prometido pelos profetas nas Escrituras, acerca de seu Filho (Romanos 1:1-4).

Em outras passagens, o anúncio destaca aspectos diferentes dessa mesma realidade: a palavra da cruz (1 Coríntios 1:18); a morte, o sepultamento e a ressurreição de Cristo (1 Coríntios 15:1-4); Cristo como propiciação pela fé no seu sangue (Romanos 3:25); sua entrega por nossas ofensas e sua ressurreição para nossa justificação (Romanos 4:25). Esses acontecimentos e suas consequências salvíficas pertencem ao conteúdo da mensagem e constituem elementos essenciais da confissão cristã.

O mesmo princípio deve orientar a interpretação de πίστις. Quando a fé aparece relacionada ao sangue de Cristo, não se conclui que o substantivo signifique sangue; quando associada à ressurreição, não significa ressurreição; quando se refere a Cristo, não se transforma obrigatoriamente num nome de Cristo. Mas o contexto pode permitir inferir que essas realidades constituem o conteúdo, o objeto ou o fundamento da fé mencionada.

A comunidade formada pelos que recebem a mensagem, suas relações e as consequências práticas de sua nova condição decorrem da proclamação, mas não devem ser confundidas com o conteúdo principal daquilo que se anuncia.

4.3. Por que empregar πίστις quando existe o verbo πιστεύω?

Uma questão importante é compreender por que os escritores empregam o substantivo πίστις dispondo também do verbo πιστεύω.

A distinção não permite estabelecer uma regra segundo a qual πίστις designaria sempre a mensagem e πιστεύω sempre a resposta. O substantivo pode nomear uma confiança pessoal. Mas a escolha entre substantivo e verbo possui relevância discursiva: o verbo focaliza a ação de crer; o substantivo permite apresentar a fé como realidade da qual se afirmam características, relações e consequências.

Em Gálatas 1:23, a fé é objeto da proclamação. Em Judas 3, é algo entregue aos santos. Em Judas 20, é o fundamento da edificação. Em Romanos 4:5, porém, Paulo utiliza o verbo para identificar aquele que crê e o substantivo com possessivo para se referir à sua fé.

A classe gramatical não determina, isoladamente, o caráter objetivo ou subjetivo da expressão. A pergunta exegética deve ser mais específica: por que o escritor escolheu o substantivo nessa construção, que elementos o acompanham (possessivo, complemento, verbo) e que realidade pretendeu colocar em evidência? Esse critério será retomado na análise de Efésios 2:8.

4.4. Romanos 1:1-17 — O evangelho, a fé e o crer no mesmo discurso

A introdução da epístola aos Romanos mostra a importância da análise contextual.

Paulo declara que foi separado para o evangelho de Deus e identifica seu conteúdo: Jesus Cristo, o Filho de Deus. Só então menciona a finalidade de seu apostolado: “para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome” (Romanos 1:5). O antecedente discursivo é o evangelho já apresentado.

Paulo poderia ter falado em obediência ao evangelho, como em Romanos 10:16. Empregou, porém, o substantivo πίστις. A construção genitiva, isoladamente, não decide se a expressão indica obediência à mensagem ou obediência que decorre da confiança. Mas o contexto mostra que a obediência pretendida não é uma disposição religiosa genérica: está ligada ao evangelho acerca de Jesus Cristo, cujo anúncio constitui a missão apostólica.

Em Romanos 1:8, Paulo declara: “em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. O verbo καταγγέλλω pode designar proclamar ou tornar conhecido. O possessivo e o contexto de agradecimento permitem compreender a expressão como a adesão dos romanos ao evangelho, que se tornara notória; a notoriedade pública, por si só, não demonstra que se trate de doutrina. Mas a fé dos romanos não pode ser interpretada independentemente do evangelho acerca do Filho de Deus apresentado nos versículos anteriores e retomado no versículo 9.

Em Romanos 1:12, Paulo menciona a consolação “pela fé mútua, assim vossa como minha”. A realidade comum pode ser considerada sob dois aspectos: a mesma confiança em Cristo e a mesma mensagem acerca de Cristo. A unidade do referente cristológico é segura, ainda que a identificação imediata de πίστις como doutrina exija argumentação.

Nos versículos 15 e 16, Paulo retoma o anúncio do evangelho e declara que ele é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. O particípio πιστεύοντι identifica aquele que crê, enquanto o evangelho é o sujeito da declaração acerca do poder salvador. No versículo 17, afirma que no evangelho “se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé”.

A alternância entre evangelho, fé e crer ocorre no desenvolvimento de uma mesma argumentação. Paulo pode estar destacando sucessivamente a mensagem anunciada, a adesão ao seu conteúdo e a resposta exigida. Em qualquer caso, o conteúdo da mensagem não é produzido pela confiança dos destinatários; a resposta humana é exigida diante daquilo que Deus tornou conhecido acerca de seu Filho.

4.5. A fé em Cristo e a confiança humana

Há passagens em que πίστις se relaciona mais diretamente à confiança humana, especialmente quando o contexto especifica aquele em quem se deve crer.

Em Atos 26:18, a expressão πίστει τῇ εἰς ἐμέ, “pela fé em mim”, identifica Cristo como objeto da fé. A construção favorece a confiança dirigida à pessoa de Jesus. Mas o Cristo a quem se deve crer é aquele que se revelou a Paulo e o enviou para anunciar a mensagem pela qual os homens se converteriam das trevas à luz; a confiança exigida não tem conteúdo indeterminado.

Em Atos 3:16, Pedro relaciona a cura do homem à fé no nome de Jesus, atribuindo o acontecimento a Cristo ressuscitado, e não ao poder ou à piedade dos apóstolos.

Em Romanos 3:22 e Gálatas 3:22, a construção πίστις Ἰησοῦ Χριστοῦ exige atenção especial, pois o genitivo admite discussão entre a fé dirigida a Cristo e a fidelidade de Cristo. Em Romanos 3:25, a relação entre fé, sangue e propiciação também depende da ligação sintática dos termos. Em Gálatas 3:26, Efésios 3:12 e 2 Timóteo 3:15, a fé aparece relacionada a Cristo e às realidades decorrentes de sua obra.

Colossenses 2:12 é especialmente significativo: “nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”. A construção διὰ τῆς πίστεως τῆς ἐνεργείας τοῦ θεοῦ relaciona a fé à atuação de Deus. É natural compreender πίστις como confiança, mas o objeto dessa confiança não é uma ideia genérica acerca de Deus: é sua atuação específica na ressurreição de Jesus Cristo, que pertence ao conteúdo do evangelho.

Em 1 Tessalonicenses 1:8, a referência à fé dos destinatários para com Deus favorece a confiança humana, mas aparece no contexto em que a palavra do Senhor havia sido divulgada a partir deles.

Reconhecer o sentido subjetivo de πίστις, portanto, não exige separar a confiança do testemunho que lhe serve de fundamento.

4.6. Romanos 4 — A confiança de Abraão e a promessa de Deus

Romanos 4:5 apresenta um emprego de πίστις relacionado diretamente àquele que crê:

“Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.”

O apóstolo emprega o particípio πιστεύοντι e o substantivo com possessivo, “a sua fé”. A interpretação de πίστις como confiança humana tem aqui fundamento gramatical. O texto, porém, identifica aquele em quem se crê: Deus, que justifica o ímpio. A confiança não aparece como realidade autônoma, capaz de produzir a verdade da mensagem ou a justiça divina.

Em Romanos 4:19-21, Paulo afirma que Abraão não enfraqueceu na fé, não duvidou da promessa por incredulidade e estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera. A convicção de Abraão não constitui o fundamento da promessa; a promessa antecedeu sua confiança e era digna de crédito em razão daquele que a pronunciou.

Hebreus 11:17-19 desenvolve essa relação. Deus havia declarado que a descendência de Abraão seria chamada em Isaque (Gênesis 21:12), e a promessa de que nele seriam benditas todas as famílias da terra (Gênesis 12:3) dependia dessa descendência. Posteriormente, Deus ordenou que o patriarca oferecesse o filho. Se Isaque morresse antes de gerar a descendência prometida, seria necessário que Deus lhe restituísse a vida para que a palavra se cumprisse.

A ressurreição de Isaque não havia sido anunciada como solução para aquela circunstância. Mas a conclusão de Abraão decorria necessariamente das duas declarações divinas: a promessa recebida e a ordem posterior. Por isso, ele considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos.

Não se tratava de uma convicção construída independentemente do testemunho divino, mas de uma conclusão fundamentada na promessa e no poder daquele que a pronunciara. A obediência de Abraão não significou abandono da promessa; o patriarca permaneceu firme precisamente porque reconhecia que Deus não deixaria de cumprir o que prometera.

Não foi a confiança de Abraão que tornou verdadeira a promessa; foi a fidelidade de Deus que tornou a promessa digna de confiança.

4.7. A palavra da fé, o crer e a confissão cristã

Romanos 10:8-10 distingue a mensagem anunciada, o crer e a confissão:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos” (Romanos 10:8).

τὸ ῥῆμα τῆς πίστεως ὃ κηρύσσομεν

Em seguida, Paulo apresenta o conteúdo da proclamação: confessar Jesus como Senhor e crer que Deus o ressuscitou dentre os mortos. No versículo 10, distingue o crer com o coração da confissão feita com a boca. A palavra da fé é pregada; os ouvintes são chamados a crer no testemunho acerca de Cristo e a confessá-lo.

Em Romanos 10:14-17, Paulo pergunta como os homens crerão naquele de quem não ouviram, e como ouvirão sem quem pregue. Declara que nem todos obedeceram ao evangelho, citando Isaías: “Senhor, quem creu na nossa pregação?”, e conclui: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17). A correspondência entre obedecer ao evangelho e crer na pregação mostra que a obediência exigida está ligada ao reconhecimento do testemunho anunciado, como em Romanos 6:17, onde os destinatários obedeceram de coração à forma de doutrina a que foram entregues.

Em 1 Timóteo 6:12-13, Paulo exorta Timóteo a combater o bom combate da fé e recorda a boa confissão que ele fizera diante de muitas testemunhas, aproximando-a daquela que Jesus Cristo testemunhou diante de Pôncio Pilatos. O combate exige perseverança humana, mas está ligado à verdade acerca de Cristo.

A epístola aos Hebreus desenvolve a mesma relação. Jesus é o apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão (Hebreus 3:1); os destinatários devem retê-la, tendo Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote (4:14); devem reter firmes a confissão da esperança, porque fiel é o que prometeu (10:23); e oferecer a Deus o fruto dos lábios que confessam o seu nome (13:15). A confissão cristã possui conteúdo específico e expressão verbal, e seu núcleo é a identidade e a obra de Jesus Cristo.

4.8. A perseverança: a ação humana e aquilo que deve ser conservado

As exortações que empregam verbos de firmeza, permanência e conservação apresentam a ação exigida dos destinatários. Aquilo que deve ser conservado, porém, é identificado por diferentes complementos.

Em 1 Coríntios 16:13: “estai firmes na fé”. Em Filipenses 1:27: combatendo juntamente pela fé do evangelho. Em Colossenses 1:23: permanecer na fé sem se afastar da esperança do evangelho ouvido. Em Colossenses 2:7: confirmados na fé, assim como fostes ensinados. Em 2 Tessalonicenses 2:15: conservar as tradições ensinadas. Em Hebreus 4:14 e 10:23, o objeto é a confissão. Em Judas 3, a fé entregue aos santos.

A perseverança humana pode ser exigida em relação à confiança, à esperança, à confissão ou ao conteúdo recebido. É necessário distinguir a ação exigida da realidade na qual os destinatários devem permanecer.

Em Hebreus 6:12, o escritor exorta os destinatários a serem “imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas”. A expressão διὰ πίστεως καὶ μακροθυμίας favorece a compreensão de πίστις como confiança perseverante, associada à paciência dos que aguardam o cumprimento da palavra divina. Mas a promessa antecede a espera, como no caso de Abraão, mencionado em seguida. A confiança não é a garantia da promessa; a palavra é digna de crédito em razão daquele que prometeu.

4.9. Hebreus 11:1 — O firme fundamento e a prova das coisas que não se veem

A interpretação de Hebreus 11:1 exige considerar a argumentação anterior.

Em Hebreus 10:23 lemos: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu”. O texto apresenta a confissão que deve ser conservada, a ação humana de retê-la e a fidelidade divina que fundamenta a exortação. Em Hebreus 10:35-36, os destinatários são exortados a não rejeitar sua confiança e a perseverar para alcançar a promessa. Em Hebreus 10:38, aparece a declaração de que o justo viverá pela fé.

Só então o escritor afirma:

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem” (Hebreus 11:1).

O substantivo ὑπόστασις admite sentidos como fundamento, substância, segurança ou confiança; em Hebreus 3:14, aparece ligado à conservação firme, até o fim, da confiança inicial. A tradução “firme fundamento” não demonstra isoladamente que πίστις signifique a promessa divina. Mas a tradução “certeza das coisas que se esperam” também não autoriza concluir que a convicção do crente seja a garantia do cumprimento daquilo que espera.

O mesmo cuidado vale para ἔλεγχος, “prova”. O termo pode significar prova, demonstração ou convicção; mas uma convicção humana não constitui, por si, prova da realidade que se afirma reconhecer. A certeza humana, por mais intensa, não torna verdadeira uma promessa. A questão é determinar o que o escritor comunica ao relacionar a fé, enquanto firme fundamento e prova, às coisas esperadas e às não vistas, e para isso os exemplos do capítulo são indispensáveis.

4.10. Hebreus 11:3 e Deuteronômio 8:3 — A palavra que torna conhecida a verdade

Hebreus 11:3 declara:

“Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.”

Πίστει νοοῦμεν κατηρτίσθαι τοὺς αἰῶνας ῥήματι θεοῦ

O verbo νοοῦμεν descreve o entendimento de uma realidade que os destinatários não presenciaram. A construção distingue πίστει, relacionado ao entendimento, de ῥήματι θεοῦ, relacionado à formação dos mundos. Essa distinção não impede investigar o fundamento do conhecimento mencionado.

Em Deuteronômio 8:3, Moisés declara que Deus deixou Israel ter fome e o sustentou com o maná “para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem”. A experiência da fome não produziu essa verdade, nem a convicção dos israelitas tornou possível o maná: Deus agiu e tornou conhecida a finalidade de sua atuação. As duas passagens mostram a prioridade daquilo que Deus torna conhecido sobre a compreensão humana.

Essa relação merece atenção diante de Habacuque 2:4, citado em Romanos 1:17 e Hebreus 10:38: “o justo viverá pela fé”. Em Habacuque, Deus ordenara que a visão fosse escrita e anunciara que se cumpriria no tempo determinado. A declaração acerca do justo aparece num contexto de revelação cujo cumprimento devia ser aguardado. Não se trata de estabelecer identidade lexical entre palavra e fé, mas de reconhecer a correspondência entre a revelação divina, a esperança e a resposta dos que consideram verdadeiro o testemunho recebido.

4.11. Hebreus 11:27 — Moisés ficou firme como vendo o invisível

O escritor afirma:

“Pela fé deixou o Egito, não temendo a ira do rei; porque ficou firme, como vendo o invisível” (Hebreus 11:27).

Πίστει κατέλιπεν Αἴγυπτον … τὸν γὰρ ἀόρατον ὡς ὁρῶν ἐκαρτέρησεν.

O verbo ἐκαρτέρησεν, de καρτερέω, descreve a perseverança de Moisés, e a conjunção γάρ apresenta sua explicação: ele permaneceu firme como quem contemplava aquele que não podia ver. Perseverar não tem o mesmo significado lexical de crer, mas, no contexto, a perseverança manifesta a resposta de quem reconheceu como verdadeiro o testemunho divino.

Moisés não perseverou diante de uma realidade imaginada. As narrativas do Êxodo apresentam Deus revelando-se ao seu servo como o Deus dos patriarcas e comunicando sua vontade e suas promessas. A relação exata entre esses acontecimentos e a saída mencionada em Hebreus 11:27 comporta discussão, mas o conjunto da história de Moisés é marcado pelo testemunho e pela atuação divina. O Invisível havia se tornado conhecido mediante a palavra e a atuação de Deus; “como vendo” não exige visão física, mas o reconhecimento de uma realidade que não depende da percepção sensorial.

Há correspondência temática com 2 Pedro 1:19, onde a palavra dos profetas é apresentada como “mui firme” e comparada a “uma luz que ilumina em lugar escuro”. A palavra profética não se torna confiável porque o ouvinte acredita nela; sua função é tornar conhecida a verdade e orientar os que a recebem.

A convergência desses elementos permite sustentar que “pela fé”, em Hebreus 11:27, está vinculado à revelação divina que fundamentava a perseverança de Moisés. Ainda assim, é preciso distinguir essa conclusão da hipótese mais específica de que πίστει designe diretamente esse testemunho no versículo. O ponto fundamental é que não foi a perseverança de Moisés que tornou real o Invisível; foi o reconhecimento daquele que se revelara que fundamentou sua perseverança.

4.12. O testemunho dos antigos — Hebreus 11:2, 5 e 39

Hebreus 11 apresenta também uma correspondência pelo verbo μαρτυρέω. Em 11:2, os antigos alcançaram testemunho; em 11:5, Enoque alcançou testemunho de que agradara a Deus; em 11:39, todos alcançaram testemunho pela fé, sem alcançar a promessa. A repetição liga a abertura à conclusão da exposição.

O testemunho favorável recebido pelos personagens não se confunde com o registro posterior de suas histórias, mas a preservação dessas narrativas permite apresentá-las aos destinatários como testemunho da relação que os antigos mantiveram com Deus.

O caso de Raabe é esclarecedor. Conforme Josué 2:9-11, ela ouvira acerca das obras do Senhor em favor de Israel, reconheceu que o Senhor é Deus em cima nos céus e embaixo na terra e agiu conforme o que considerou verdadeiro. Sua conduta não surgiu independentemente das notícias recebidas. O mesmo princípio vale para Noé, Abraão, Sara, Isaque e Jacó: todos haviam recebido advertências, promessas ou informações acerca da atuação divina, e suas ações são apresentadas em relação àquilo que Deus tornara conhecido.

O capítulo, portanto, não é uma exposição sobre a capacidade humana de acreditar. Recupera acontecimentos preservados nas Escrituras para demonstrar a relação entre a revelação divina, a resposta dos antigos e a perseverança dos que aguardam o cumprimento da promessa.

4.13. A fé professada e a obediência em Tiago 2

Tiago abre o capítulo com a fé como conteúdo professado: “Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tiago 2:1). A expressão τὴν πίστιν τοῦ κυρίου ἡμῶν Ἰησοῦ Χριστοῦ pressupõe uma mensagem conhecida dos destinatários. A censura não recai sobre a verdade anunciada, mas sobre a incoerência de quem confessa Jesus Cristo como Senhor e, na assembleia, faziam acepção de pessoas. Essa conduta contraria o próprio mandamento que diziam observar: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Tiago 2:8). Daí a exortação: “Assim falai, e assim procedei” (Tiago 2:12).

No versículo 14, a situação argumentativa muda:

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (Tiago 2:14).

A construção λέγῃ τις πίστιν ἔχειν, “se alguém disser que tem fé”, destaca o caráter declaratório da pretensão. Tiago não afirma que esse interlocutor possui a fé em Cristo. Pergunta que proveito tem uma declaração desacompanhada da conduta correspondente. O exemplo dos versículos 15 e 16 tem a mesma estrutura. As palavras dirigidas ao irmão necessitado, sem o alimento e as vestes de que precisa, podem parecer adequadas, mas não produzem o resultado que a situação exige. João emprega a mesma imagem: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 João 3:18).

O versículo 19 identifica a profissão examinada:

“Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem” (Tiago 2:19).

A declaração remete à confissão central do judaísmo: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Deuteronômio 6:4). Tiago reconhece que ela é verdadeira, mas mostra que reconhecer uma verdade acerca de Deus não equivale à obediência exigida por sua revelação. Também o judaísmo podia ser chamado de fé, enquanto conteúdo professado. Mesmo assim, conforme a repreensão de Jesus, as tradições humanas chegavam a invalidar o mandamento de Deus (Marcos 7:7-13). Quando perguntaram a Jesus o que deveriam fazer para executar as obras de Deus, ele respondeu: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29). Aos discípulos disse: “credes em Deus, crede também em mim” (João 14:1). Quem professa crer no Deus de Israel, mas rejeita aquele que ele enviou, deixa de realizar justamente a obra que Deus requer.

Os exemplos de Abraão e Raabe confirmam a mesma ordem: “Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada” (Tiago 2:22). Abraão ofereceu Isaque porque confiava naquele que lhe havia prometido a descendência por meio desse filho. Raabe acolheu os espias porque ouvira acerca das obras do Senhor em favor de Israel (Josué 2:9-11). O patriarca de Israel e a mulher cananeia agiram conforme o testemunho recebido, mas nenhum dos dois tornou verdadeira a palavra de Deus ao agir. A promessa e o testemunho vieram antes da obediência.

Portanto, Tiago não contrapõe fé e boas ações como dois meios complementares de justificação. Contrapõe a mera profissão de fé à obediência à palavra de Deus, que, à luz da revelação de Cristo, exige crer naquele que Deus enviou. A fé morta não é o evangelho desprovido de obras humanas. É uma profissão religiosa que permanece sem a obediência correspondente. A verdade anunciada continua íntegra, seja qual for a resposta humana. O que as obras mostram é se há coerência entre aquilo que alguém declara crer e sua maneira de proceder.

4.14. A fé recebida, compartilhada e conservada na nova aliança

Há continuidade entre o testemunho recebido pelos antigos e o evangelho anunciado na nova aliança. Os patriarcas possuíam promessas, ordens ou evidências da atuação divina; os apóstolos anunciam Jesus Cristo, em quem as promessas encontram seu cumprimento.

Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo (1 Coríntios 3:11). Os cristãos estão edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo Jesus Cristo a principal pedra da esquina (Efésios 2:20). Em Colossenses 2:6-8, Paulo exorta os destinatários a andar em Cristo, arraigados e edificados nele, confirmados na fé, assim como foram ensinados, e adverte contra o que não é segundo Cristo. A firmeza exigida está relacionada à mensagem transmitida.

Em 1 Pedro 2:4-7, Cristo é a pedra viva, eleita e preciosa para com Deus, e os cristãos são pedras vivas edificadas casa espiritual. Os que creem não tornam Cristo a pedra eleita por sua confiança; reconhecem aquele que Deus estabeleceu e anunciou. Em 1 Pedro 1:23-25, o apóstolo identifica expressamente a palavra de Deus, viva e que permanece, com a que foi anunciada pelo evangelho. Em 2 Pedro 1:1, dirige-se aos que alcançaram fé igualmente preciosa; o contexto evidencia não se tratar de confiança subjetiva, e sim a mesma fé anunciada pelos apóstolos, isto é, a mensagem de Jesus Cristo.

Em Apocalipse 2:13, Cristo elogia os que retêm o seu nome e não negam a sua fé; em 14:12, os santos guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus. O substantivo aparece em contextos que enfatizam o conteúdo professado.

4.15. Síntese: a palavra anunciada, a resposta humana e a fidelidade de Deus

As passagens examinadas mostram que πίστις pode designar confiança humana, fidelidade ou conteúdo anunciado, conforme o contexto. A interpretação, porém, não pode limitar-se às possibilidades do léxico: é necessário reconhecer a realidade à qual o escritor se refere, os pressupostos de sua argumentação e a ênfase do enunciado.

Em Gálatas 1:23 e Judas 3, a fé é a mensagem anunciada e entregue. Em Romanos 4:5, é a confiança daquele que crê no Deus que justifica o ímpio. Em Hebreus 6:12, está associada à paciência dos que aguardam as promessas. Em Tiago, a fé professada é examinada pelas obras.

O reconhecimento da confiança humana, porém, não elimina a prioridade do testemunho divino. Abraão não tornou verdadeira a promessa por sua convicção; Raabe não tornou reais as obras de Deus por acolher os espias; Moisés não tornou real o Invisível por perseverar. A palavra, a promessa e a atuação divina antecederam as respostas humanas.

Na nova aliança, Cristo é o fundamento, e o evangelho torna conhecida sua identidade e sua obra. Os homens são chamados a crer nesse testemunho, confessar Jesus como Senhor e perseverar na verdade recebida. A confiança não produz a verdade da mensagem; a confissão não estabelece a identidade de Cristo; a perseverança não transforma a promessa em realidade.

Consequentemente, a questão a ser enfrentada na interpretação de Efésios 2:8 não consiste em negar que a fé possa designar resposta, confiança ou obediência humana. Consiste em investigar qual dessas realidades o escritor colocou em evidência numa carta dirigida a quem já havia ouvido e crido, e se a interpretação adotada preserva a prioridade do testemunho divino, cujo núcleo é Jesus Cristo, sua identidade, sua obra e a salvação nele anunciada.

5. A ênfase das epístolas e a interpretação da fé em Efésios 2:8

Antes de determinar o significado de uma expressão numa carta, é necessário identificar os destinatários, aquilo que já conheciam, a finalidade da comunicação e a realidade que o escritor procura destacar.

Diferentemente de um livro, uma carta possui destinatário determinado pelo próprio remetente, e remetente e destinatários partilham um conhecimento anterior que a carta não precisa repetir. O apóstolo resume esse princípio:

“Porque nenhumas outras coisas vos escrevemos, senão as que já sabeis ou também reconheceis; e espero que também até ao fim as reconhecereis” (2 Coríntios 1:13).

Três consequências desse princípio são decisivas para a leitura de Efésios 2:8.

  • A primeira: as cartas não são evangelísticas. Seus destinatários já haviam ouvido o evangelho, já haviam crido e participavam de comunidades formadas pela proclamação apostólica. A finalidade da carta não era ensiná-los a começar a crer, mas trazer à lembrança, esclarecer e defender aquilo que já haviam recebido.
  • A segunda: as cartas trabalham com fragmentos. O remetente menciona um ponto da doutrina e, com poucas palavras, evoca um conteúdo que os destinatários já conheciam por inteiro.
  • A terceira: as cartas empregam uma linguagem própria ao grupo. Como o apóstolo escrevia a contemporâneos instruídos no mesmo evangelho, não precisava definir os termos que empregava. Expressões como “a fé”, “a palavra” ou “o evangelho” possuíam, entre remetente e destinatários, um referente conhecido.

Essas consequências não determinam, por si mesmas, o sentido de cada ocorrência de πίστις. Mas estabelecem a pergunta correta: ao mencionar a fé numa carta dirigida a quem já creu, que realidade o escritor pretende trazer à lembrança?

5.1. A finalidade da epístola como critério de interpretação

Em 1 Coríntios 15:1, Paulo escreve: “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis”. O apóstolo distingue o evangelho anunciado, seu recebimento e a permanência nele. A exortação pressupõe uma mensagem anterior, cuja verdade não depende da permanência dos destinatários.

Em Gálatas 1:6-9, a preocupação concentra-se na preservação do evangelho diante de outra mensagem que pretendia substituí-lo. Em Colossenses 1:5-7, Paulo recorda a palavra da verdade do evangelho que os destinatários ouviram e aprenderam com Epafras; em 1:23, exorta-os a permanecer firmes na fé, sem se afastarem da esperança do evangelho; em 2:6-8, liga essa firmeza ao ensino recebido. Em 2 Tessalonicenses 2:5, a pergunta “Não vos lembrais de que estas coisas vos dizia quando ainda estava convosco?” mostra a mesma função: a carta remete ao ensino presencial.

Nessas passagens, a confiança dos destinatários é pressuposta, enquanto a mensagem recebida constitui o objeto da recordação, da explicação e da defesa.

Esse princípio não autoriza afirmar que toda ocorrência de πίστις nas epístolas designe o evangelho. Mas impede que a resposta humana seja adotada antecipadamente como interpretação predominante, independentemente da finalidade do discurso.

5.2. O lugar de Efésios 2:1-10 na estrutura da carta

As cartas de Paulo e de Pedro seguem uma composição semelhante: apresentação pessoal, louvor a Deus, oração pelos destinatários, exposição acerca da pessoa de Cristo, recordação daquilo que foi realizado em Cristo e, por fim, exortação sobre a nova maneira de viver.

Em Efésios, essa sequência é nítida. O louvor ocupa 1:3-14; a oração, 1:15-19; a pessoa de Cristo, ressuscitado e exaltado, 1:20-23; a recordação daquilo que Deus realizou, 2:1-10. A exortação começa em 4:1: “Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados”.

Efésios 2:8 pertence, portanto, ao bloco em que o apóstolo recorda o que Deus fez, e não a um bloco em que explica como proceder para alcançar a salvação.

A gramática confirma essa função. A expressão ἐστε σεσῳσμένοι, “sois salvos”, é uma construção perifrástica com particípio perfeito: descreve uma condição já estabelecida e presente. Paulo não convida os efésios a serem salvos; lembra-lhes que já o são, e por quê.

Os destinatários também já haviam crido. Em Efésios 1:13, ouviram “a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação” e nele creram. Em 1:15, Paulo menciona “a fé que entre vós há no Senhor Jesus”.

Se o crer dos destinatários já é pressuposto desde o primeiro capítulo, é necessário perguntar que realidade o apóstolo destaca ao declarar, em 2:8, que são salvos “por meio da fé”. A simples repetição não decide a questão: o próprio versículo 8 retoma o que o versículo 5 já afirmara, e recordar é justamente a função do bloco. A pergunta decisiva é se o meio mencionado pertence à sequência daquilo que Deus realizou — vivificou, ressuscitou, fez assentar — ou à resposta dos destinatários. Se πίστις designa o ato de crer dos efésios, o versículo insere, no meio das ações divinas, a resposta humana. Se designa a fé que foi anunciada, o versículo recorda o meio pelo qual a salvação chegou até eles: a manifestação de Cristo proclamada no evangelho.

A segunda leitura corresponde melhor à função do bloco: recordar o que foi realizado em Cristo e como isso chegou aos destinatários. Os elementos que a sustentam — a condição dos destinatários gentios, o paralelo com Efésios 3:6 e a ausência dos marcadores que, na mesma carta, indicam a confiança dos destinatários — são examinados nas seções seguintes.

5.3. A mensagem da salvação como antecedente de Efésios 2:8

Em Efésios 1:13, a palavra da verdade é identificada como o evangelho da salvação dos destinatários. A mensagem é apresentada como verdade antes da resposta humana, e o ouvir é distinguido do crer.

Em Efésios 1:19-20, Paulo relaciona o poder de Deus à ressurreição de Cristo. Em 2:1-7, recorda a condição anterior dos destinatários e a intervenção divina pela qual foram vivificados, ressuscitados e assentados com Cristo. O versículo 5 declara, entre parênteses: “pela graça sois salvos”.

A afirmação é retomada em Efésios 2:8:

τῇ γὰρ χάριτί ἐστε σεσῳσμένοι διὰ πίστεως· καὶ τοῦτο οὐκ ἐξ ὑμῶν, θεοῦ τὸ δῶρον

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.”

A conjunção γάρ liga a declaração à argumentação anterior. Efésios 2:8 não introduz assunto novo: explica a afirmação do versículo 5, acrescentando o meio, “por meio da fé”, e a origem, “não vem de vós”.

A questão consiste em determinar se esse meio corresponde à resposta humana já mencionada em 1:13 ou ao conteúdo salvífico que, no mesmo versículo, foi chamado de evangelho da salvação.

5.4. “Não vem de vós”: os destinatários gentios

A identificação dos destinatários oferece um elemento frequentemente negligenciado. Os efésios eram, em sua maioria, gentios, como o próprio apóstolo declara logo em seguida:

“Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne […]. Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (Efésios 2:11-13).

Dois elementos merecem atenção.

  • O primeiro é o verbo “lembrai-vos” (μνημονεύετε). O apóstolo declara expressamente a função da passagem: trazer à memória. E Efésios 2:11 continua 2:1-10, introduzido por “portanto”.
  • O segundo é a condição anterior dos destinatários: estranhos às alianças da promessa. A promessa não procedia deles; fora feita a Abraão e à sua descendência.

Nesse contexto, “isto não vem de vós” (οὐκ ἐξ ὑμῶν) não precisa ser lido apenas como negação de uma capacidade psicológica. Declara também, a gentios que antes estavam sem Cristo e sem promessa, que a salvação não teve origem neles nem em suas obras.

Efésios 3:6 completa a ideia:

“A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho.”

A preposição é a mesma de 2:8: διὰ τοῦ εὐαγγελίου, “pelo evangelho”. Os gentios participam da promessa pelo evangelho; são salvos pela graça por meio da fé.

As expressões não são lexicalmente equivalentes. Mas, numa carta que trata justamente da inclusão dos gentios na promessa, a correspondência entre “por meio da fé” (2:8) e “pelo evangelho” (3:6) é significativa: em ambas, o meio é algo que chegou aos gentios de fora deles, procedente de Deus.

Trata-se de uma inferência sustentada pelo contexto, não de uma afirmação expressa do versículo. Sua força decorre da convergência entre a identidade dos destinatários, a ordem para lembrar e a construção paralela de 3:6.

5.5. A linguagem própria: “a fé” como designação da mensagem

O apóstolo, escrevendo a cristãos instruídos no mesmo evangelho, não precisava definir os termos que empregava. Nessa linguagem comum, “a fé” podia designar a própria mensagem.

Em Gálatas 1:23, Paulo anuncia a fé que antes destruía. Em Gálatas 3:23-25, a fé vem e se manifesta num momento histórico, relacionado à vinda de Cristo. Em Efésios 4:5, há uma só fé, ao lado de um só Senhor e um só batismo; em 4:13, a unidade da fé é associada ao conhecimento do Filho de Deus. Em Colossenses 1:23, permanecer na fé é não se afastar da esperança do evangelho. Os destinatários de Efésios estavam familiarizados com essa linguagem, que o apóstolo utiliza na mesma carta.

O mesmo apóstolo, em outras cartas, distingue numa única frase a fé que vem e os que creem. Em Romanos 3:22, a justiça de Deus se manifesta “pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem” (διὰ πίστεως Ἰησοῦ Χριστοῦ εἰς πάντας καὶ ἐπὶ πάντας τοὺς πιστεύοντας). Em Gálatas 3:22, a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado “para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes” (τοῖς πιστεύουσιν). Qualquer que seja a leitura do genitivo, discutida na seção 4.5, a construção distingue πίστις, pela qual a justiça e a promessa chegam, daqueles que creem e as recebem. Se o crer já está expresso pelo particípio, o substantivo não precisa repeti-lo. Efésios 2:8 apresenta a mesma ordem: a salvação pela graça, “por meio da fé”, a destinatários que já haviam crido (1:13).

Há ainda um critério de construção, o mesmo aplicado a Romanos 4:5 nas seções 4.3 e 4.6.

Quando Paulo se refere à confiança dos destinatários em Efésios, a construção o indica. Em 1:15, a fé é qualificada por um complemento: a fé que entre vós há “no Senhor Jesus”. Em 3:17, é localizada: “para que Cristo habite pela fé nos vossos corações”. Em 3:12, é especificada pelo genitivo αὐτοῦ, que a ACF traduz como “nossa fé nele”, embora o genitivo admita a discussão já apontada para πίστις Ἰησοῦ Χριστοῦ.

Em Efésios 2:8, nenhum desses elementos aparece. Não há possessivo, não há complemento que indique o objeto da confiança, não há referência ao coração dos destinatários. A expressão é simplesmente “por meio da fé”, no interior de uma declaração sobre o que Deus fez.

A ausência desses indicadores não prova, sozinha, o sentido objetivo. Mas retira o principal apoio gramatical da leitura subjetiva, que passa a depender do pressuposto de que toda menção da fé na salvação designa o ato humano de crer.

5.6. A tradição que identifica a fé como o dom

Uma parte significativa da tradição sustenta que o dom de Deus mencionado em Efésios 2:8 é a própria fé.

Agostinho, especialmente em De praedestinatione sanctorum, argumenta que a fé é dom de Deus tanto em seu início quanto em seu crescimento. Jerônimo, em seu comentário a Efésios, entende que o apóstolo acrescentou a cláusula para que ninguém pensasse ser salvo por sua própria fé. Teodoro de Beza, seguindo os pais, adota a mesma referência.

Johann Albrecht Bengel, no Gnomon Novi Testamenti, lê “e isto” como “o crer, isto é, a fé, não vem de vós”. Charles Hodge, em seu comentário de 1856, reconhece a dificuldade do gênero neutro, mas sustenta que a cláusula intermediária é parentética e se refere não à ideia principal, “sois salvos”, mas à subordinada, “por meio da fé”, porque essa leitura atenderia melhor ao propósito da passagem. O comentário de Jamieson, Fausset e Brown e a Cambridge Bible seguem a mesma direção.

O argumento de Hodge merece consideração, porque não depende apenas da gramática, mas do propósito atribuído à passagem. É justamente esse propósito que o caráter de carta questiona.

Hodge supõe que o apóstolo pretende excluir até o último resquício de contribuição humana, inclusive o ato de crer. Mas Efésios 2:1-10 não é uma exposição dirigida a quem discute a origem do crer; é a recordação, a gentios que já creram, daquilo que Deus realizou em Cristo. A pergunta sobre a origem psicológica da fé não aparece no contexto, nem é retomada no versículo 9, que exclui as obras da lei, e não o crer suscitado pelo evangelho, cuja verdade repousa na fidelidade de Deus.

Além disso, toda essa tradição pressupõe que πίστις designa o ato de crer. Ainda que o dom fosse a fé, permaneceria a pergunta anterior: que fé? Se πίστις designa, no versículo, a mensagem manifestada em Cristo, dizer que a fé é dom de Deus seria afirmar que o evangelho procede de Deus, e não que Deus produziu em cada destinatário a capacidade de acreditar.

5.7. A tradição que identifica a salvação como o dom

A maior parte dos comentaristas modernos entende que o demonstrativo neutro τοῦτο não retoma diretamente χάρις nem πίστις, ambos femininos, mas a declaração inteira: ser salvo pela graça, por meio da fé.

João Crisóstomo, em sua quarta homilia sobre Efésios, já destacava que o crer dependia da iniciativa de Deus, que veio aos homens e os chamou, recorrendo a Romanos 10:14. Sua observação preserva um ponto importante: o crer pressupõe a mensagem ouvida. Mas a necessidade de uma mensagem anterior demonstra a origem divina do evangelho, não necessariamente a concessão de uma capacidade interior de crer. O próprio Paulo conclui o argumento dizendo que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus (Romanos 10:17).

João Calvino afirma que a salvação não é recompensa, mas graça pura, recebida por meio da fé. A edição consultada contém uma nota editorial que menciona Teofilacto, segundo o qual Paulo não afirma que a fé, especificamente, é o dom, mas que ser salvo por meio da fé o é. É preciso distinguir essa nota do texto do próprio Calvino.

Heinrich Meyer refere o demonstrativo à salvação descrita, considerando a fé o instrumento pelo qual o homem dela se apropria. Charles Ellicott entende que a referência abrange a salvação e a fé que a aceita, sendo a graça a causa e a fé o instrumento. Albert Barnes, Marvin Vincent, Alexander Maclaren e Stewart Salmond, no Expositor’s Greek Testament, também referem o demonstrativo à salvação.

Entre os autores mais recentes, Harold W. Hoehner observa que τοῦτο retoma o conteúdo da declaração anterior. Daniel B. Wallace, em sua gramática exegética, considera mais provável que o demonstrativo se refira ao conceito de salvação pela graça por meio da fé. S. M. Baugh entende que o referente é o evento inteiro de ser salvo pela graça por meio da fé. Gregory P. Sapaugh (1994) e John F. Hart (2006) sustentam, por análise gramatical, que o dom é a salvação, e não o ato de crer. John Eadie apresenta a fé como instrumento subjetivo, a aceitação voluntária do testemunho divino.

Essa leitura do demonstrativo tem considerável força contextual. O versículo 5 já afirmara “pela graça sois salvos”; os versículos 8 e 9 retomam a afirmação e excluem a procedência humana e as obras. O centro do argumento é a ação salvífica de Deus.

Entretanto, todos esses autores, embora divirjam quanto ao dom, concordam num ponto que não demonstram: que πίστις, no versículo, designa a confiança humana.

A identificação do referente de τοῦτο não resolve o referente de πίστις. São relações distintas. O demonstrativo pode retomar a declaração inteira enquanto o substantivo permanece sujeito à investigação de seu sentido contextual.

Em outras palavras, a controvérsia tradicional pergunta se o dom é a fé ou a salvação, mas os dois lados leem a passagem como explicação de como o homem se apropria da salvação. A pergunta anterior, que o caráter de carta impõe, é outra: o que o apóstolo está lembrando a destinatários que já creram?

5.8. Klyne Snodgrass: a possibilidade objetiva reconhecida e descartada

Klyne Snodgrass, no NIV Application Commentary, reconhece que πίστις pode designar o ato de crer, o conteúdo daquilo que é crido e o próprio evangelho como realidade professada. Ao interpretar Efésios 2:8, porém, conclui que a fé corresponde ao meio pelo qual a salvação é recebida.

O argumento mais forte a favor dessa conclusão é o uso da própria epístola: a fé dos destinatários no Senhor Jesus (1:15), o acesso com confiança pela fé (3:12) e Cristo habitando pela fé nos corações (3:17). Esse argumento precisa ser reconhecido: seria impreciso afirmar que o caráter da epístola obriga a ler todas as ocorrências de πίστις como referência ao evangelho.

Contudo, as três passagens possuem exatamente os elementos que faltam em 2:8: um complemento que indica o objeto da confiança (1:15), um genitivo pessoal (3:12) ou a localização nos corações dos destinatários (3:17). Além disso, nenhuma delas pertence ao bloco em que o apóstolo recorda o que Deus realizou: 1:15 está na oração; 3:12 e 3:17, na exposição do ministério e na segunda oração.

A diferença de construção e de função discursiva enfraquece a transferência do sentido dessas passagens para 2:8. E Efésios 3:6, no mesmo assunto da participação dos gentios na promessa, apresenta o evangelho como meio, com a mesma preposição, correspondência que Snodgrass não considera.

5.9. A questão textual: διὰ πίστεως ou διὰ τῆς πίστεως?

Alguns testemunhos gregos apresentam διὰ πίστεως, sem artigo; outros, incluindo a tradição bizantina e o Texto Recebido, do qual procede a Almeida Corrigida Fiel, trazem διὰ τῆς πίστεως, com artigo.

A presença do artigo não determina, por si, o referente objetivo: em Efésios 3:17, διὰ τῆς πίστεως é geralmente lido como confiança. A ausência do artigo também não exclui a referência a uma realidade conhecida dos destinatários, especialmente numa linguagem própria ao grupo, em que “fé” já tinha referente estabelecido.

A variante deve ser reconhecida, sem que se transforme em argumento decisivo para qualquer das interpretações.

5.10. Efésios 2:10 e Isaías 26:12: a obra é de Deus

Vale sublinhar que, na epístola de Efésios, o apóstolo cita poucas passagens do Antigo Testamento de forma expressa, mas incorpora outras de modo velado à sua linguagem. Um dos exemplos é Efésios 2:10:

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.”

A declaração ecoa Isaías 26:12, em que o profeta reconhece que é o Senhor quem realiza todas as obras do seu povo.

A alusão confirma a ênfase do bloco. O versículo 9 exclui as obras dos destinatários como origem da salvação; o versículo 10 apresenta as obras que Deus preparou. A sequência inteira destaca o que Deus fez: vivificou, ressuscitou, fez assentar, salvou, criou e preparou.

Nesse contexto, “por meio da fé” é mais naturalmente compreendido como parte daquilo que Deus realizou e tornou conhecido do que como contribuição dos destinatários, ainda que essa contribuição seja negada como mérito.

5.11. Cristo e o dom de Deus

Em João 4:10, Jesus declara à mulher samaritana que, se ela conhecesse o dom de Deus e quem lhe pedia água, pediria e receberia água viva. O conhecimento da identidade de Cristo está ligado ao recebimento da dádiva divina.

Em Efésios 1:7, Paulo apresenta a redenção em Cristo, pelo seu sangue. Em 2:5-6, a vivificação e a ressurreição dos destinatários estão relacionadas à união com Cristo.

O Pulpit Commentary, embora adote a leitura subjetiva da fé, observa que o dom de Deus não é apenas a fé, mas toda a obra e a pessoa de Cristo que a fé recebe.

O texto não exige que τὸ δῶρον seja traduzido como “Cristo”; sua referência mais provável é a salvação pela graça descrita antes. Mas essa salvação tem seu fundamento, sua realização e sua disponibilidade em Cristo, e chegou aos gentios por meio da mensagem que o anuncia.

5.12. Conclusão

A discussão acerca de Efésios 2:8 tem se concentrado na origem da capacidade humana de crer, e a tradição se divide entre os que identificam o dom com a fé e os que o identificam com a salvação. Essa não é a única questão relevante, nem a primeira.

O demonstrativo neutro favorece a referência ao conjunto da salvação pela graça por meio da fé, e o dom de Deus deve ser compreendido a partir da salvação apresentada nos versículos anteriores.

Mas a identificação do dom não determina o referente de πίστις. E, nesse ponto, os elementos próprios da carta convergem.

Os destinatários já haviam ouvido o evangelho e crido (1:13, 15). O versículo pertence ao bloco em que o apóstolo recorda o que Deus realizou em Cristo (2:1-10), e a passagem seguinte declara essa função: “lembrai-vos” (2:11). Os destinatários eram gentios, antes estranhos às alianças da promessa (2:12), e participam da promessa “pelo evangelho” (3:6), com a mesma preposição de “por meio da fé”. A linguagem comum entre remetente e destinatários já empregava “a fé” como designação da mensagem (4:5, 13). E a construção de 2:8 não traz nenhum dos indicadores que, na mesma epístola, marcam a confiança dos destinatários (1:15; 3:12; 3:17).

Essa convergência favorece compreender “por meio da fé” como referência à fé manifestada e anunciada, isto é, ao evangelho de Cristo pelo qual a salvação chegou aos gentios, e não ao ato de crer dos efésios.

A leitura subjetiva permanece gramaticalmente possível e tem apoio em outras construções paulinas. Mas, para prevalecer, precisa explicar por que o apóstolo, numa sequência que enumera o que Deus fez, empregaria sem complemento nem localização um substantivo que, na mesma epístola, recebe esses indicadores quando designa a confiança dos destinatários (1:15; 3:17); e por que, tratando da participação dos gentios na promessa, apresenta o evangelho como o meio, com a mesma preposição (3:6).

Em qualquer das possibilidades, deve ser preservado o princípio que orienta toda esta investigação: a verdade da mensagem anunciada não é produzida pela confiança dos destinatários. Deus realizou a salvação em Cristo, e o evangelho torna conhecida essa realidade. O crer é a resposta exigida diante desse testemunho, não a sua origem.

Referências utilizadas

AGOSTINHO. De praedestinatione sanctorum (A Treatise on the Predestination of the Saints).

BAUGH, S. M. Ephesians. Evangelical Exegetical Commentary. Bellingham: Lexham Press, 2016. Posição resumida em “What Is The Gift In Ephesians 2:8?”, Heidelblog, 2014.

BENGEL, J. A.; MEYER, H. A. W.; ELLICOTT, C. J.; BARNES, A.; VINCENT, M.; MACLAREN, A.; SALMOND, S. D. F. (Expositor’s Greek Testament); JAMIESON, FAUSSET e BROWN; Cambridge Bible for Schools and Colleges; Pulpit Commentary. Comentários de Efésios 2:8 reunidos em Bible Hub.

BEZA, Teodoro de. Annotationes in Novum Testamentum, comentário de Efésios 2:8.

CALVINO, João. Commentary on Galatians and Ephesians, comentário de Efésios 2:8-10.

CRISÓSTOMO, João. Homily 4 on Ephesians.

EADIE, John. Commentary on Ephesians 2:8-10.

HART, John F. “Is Faith a Gift from God According to Ephesians 2:8? A Grammatical Analysis”. Chafer Theological Seminary Journal, 2006.

HODGE, Charles. A Commentary on the Epistle to the Ephesians. 1856, comentário de Efésios 2:8.

HOEHNER, Harold W. Comentário de Efésios 2:8-9 em The Bible Knowledge Commentary, organizado por John F. Walvoord e Roy B. Zuck.

JERÔNIMO. Commentarius in Epistolam ad Ephesios, comentário de Efésios 2:8.

SAPAUGH, Gregory P. “Is Faith a Gift? A Study of Ephesians 2:8”. Journal of the Grace Evangelical Society, 1994.

SNODGRASS, Klyne. Ephesians. The NIV Application Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1996. Comentário de Efésios 2:8-10.

WALLACE, Daniel B. Greek Grammar Beyond the Basics. Grand Rapids: Zondervan, 1996. Seção sobre o pronome demonstrativo, Efésios 2:8.

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