Introdução
O que são as concupiscências da carne? Ao ouvir a expressão, muitos leitores das Escrituras pensam imediatamente em desejos sexuais, sensualidade e impulsos do corpo. Essa associação, quando transformada em definição geral, compromete a compreensão da linguagem dos apóstolos.
Nas Escrituras, a carne nem sempre designa o corpo físico, e a concupiscência nem sempre corresponde ao desejo sexual. O significado de cada expressão precisa ser identificado no contexto em que é utilizada.
Uma das demonstrações mais claras dessa distinção está na Epístola aos Filipenses. Paulo declara que os cristãos não confiam na carne e, em seguida, apresenta as credenciais nas quais antes depositava sua confiança: circuncisão ao oitavo dia, descendência de Israel, tribo de Benjamim, condição de fariseu, zelo e irrepreensibilidade segundo a justiça que há na lei (Filipenses 3:3–6).
Nesse contexto, confiar na carne não é satisfazer desejos sexuais, mas pretender estabelecer justiça diante de Deus mediante a descendência natural e a observância religiosa. É o que o profeta já havia denunciado: “Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jeremias 17:5).
O próprio Paulo, irrepreensível segundo a lei, perseguia a igreja de Deus (Filipenses 3:6; Gálatas 1:13–14). Uma pessoa podia, portanto, apresentar comportamento exteriormente disciplinado e extraordinário zelo religioso e, ainda assim, estar em oposição à verdade anunciada por Deus.
No Novo Testamento, além de designar a matéria do corpo e a descendência natural, a palavra “carne” é empregada em contextos que denunciam a confiança nos recursos humanos, a vanglória religiosa, a ambição, as rivalidades e a resistência ao evangelho (Romanos 8:5–8; Gálatas 5:16–21; 6:12–13; Colossenses 2:18–23).
Para compreender essa distinção, é necessário examinar a concupiscência, a carne e o espírito conforme o uso dessas expressões nas epístolas de João, Paulo, Pedro e Judas.
A concupiscência da carne não é sinônimo de desejo sexual
O apóstolo João declara:
“Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo” (1 João 2:16).
A declaração apresenta três expressões relacionadas àquilo que procede do mundo. O significado de “concupiscência”, entretanto, não deve ser estabelecido a partir da interpretação tradicional que associa a palavra aos desejos sexuais. O termo grego epithymía (ἐπιθυμία) possui um campo semântico mais abrangente.
O significado lexical de epithymía
O Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), em sua terceira edição, organizada por Frederick William Danker, apresenta epithymía como desejo, anseio ou aspiração intensa, com sentido positivo ou negativo conforme o contexto. Entre os exemplos de sentido positivo, o léxico registra o desejo de Paulo de partir e estar com Cristo (Filipenses 1:23).
Joseph Henry Thayer, em A Greek-English Lexicon of the New Testament, também distingue o sentido geral de desejo ou anseio daquele que envolve o desejo por coisas proibidas.
As próprias Escrituras confirmam a distinção. Jesus empregou o verbo correspondente, epithyméō, ao manifestar seu desejo de comer a páscoa com os discípulos (Lucas 22:15), e Paulo usou epithymía para o desejo de estar com Cristo (Filipenses 1:23).
Portanto, o vocábulo não possui, por natureza, sentido moralmente negativo, muito menos exclusivamente sexual. É o contexto que determina se o desejo é um anseio humano legítimo, ligado às necessidades do dia a dia, ou uma disposição que se opõe à verdade divina.
As diferentes interpretações de 1 João 2:16
A extensão da expressão “concupiscência da carne” também é discutida pelos comentaristas.
Agostinho, ao comentar as categorias de 1 João 2:16, relaciona os desejos da carne à busca de satisfações corporais, como a alimentação e as relações sexuais. Essa abordagem influenciou interpretações posteriores que associam a concupiscência sobretudo aos prazeres dos sentidos.
Essa, porém, não é a única leitura da tradição exegética. No Comentário Crítico e Exegético da série de H. A. W. Meyer — cujo volume sobre as epístolas de João foi redigido por J. E. Huther —, registram-se posições diferentes: alguns intérpretes compreendem a concupiscência da carne em sentido amplo, enquanto outros a restringem aos desejos sensuais. Entre os representantes da leitura mais ampla, são mencionados Lücke, de Wette e Neander. O simples registro dessas posições mostra que o significado da expressão nunca foi uniforme entre os estudiosos.
Daniel B. Wallace, em seu comentário exegético de 1 João 2:12–17 publicado no Bible.org, considera insuficiente restringir a expressão à promiscuidade ou aos desejos sensuais característicos do ambiente pagão. Na perspectiva bíblica de matriz judaica, observa ele, a carne pode representar a condição humana em sua totalidade, abrangendo interesses que não são necessariamente sexuais.
A expressão pode, portanto, compreender desejos e aspirações que, isoladamente, não têm aparência de imoralidade, mas que se tornam contrários à vontade divina quando estabelecidos como fundamento da segurança ou da realização humana à parte de Deus. O homem pode desejar reconhecimento, prestígio, autoridade, riquezas ou uma condição religiosa privilegiada — interesses que não precisam envolver desejo sexual algum para se oporem à verdade.
A concupiscência, a soberba e a confiança humana
A própria enumeração de João mostra que a oposição à vontade do Pai não se restringe à sensualidade. A expressão alazoneía toû bíou (ἀλαζονεία τοῦ βίου), traduzida por “soberba da vida”, envolve ostentação e pretensão de superioridade relacionadas aos recursos da existência. Alfred Plummer, no volume sobre as epístolas de João do Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges, relaciona a expressão à vanglória associada aos meios de vida e às posses.
Assim, a declaração de João contempla não apenas aquilo que o homem deseja experimentar, mas também aquilo que pretende possuir e aquilo em que procura gloriar-se. O problema não está na existência de necessidades corporais ou de aspirações humanas, mas na orientação desses desejos e em sua relação com a vontade de Deus.
Essa distinção encontra um antecedente significativo na história de Israel. O salmista registra que os israelitas, apesar dos benefícios recebidos, “deixaram-se levar à cobiça no deserto, e tentaram a Deus na solidão” (Salmos 106:13–15; Números 11:4–34). O problema não era a falta de alimento, pois Deus os sustentava diariamente com o maná, mas a cobiça e a maneira como expressaram seus desejos. Insatisfeitos com a provisão divina, passaram a recordar os alimentos que consumiam no Egito, contrapondo a liberdade que haviam recebido à condição de escravidão da qual foram resgatados. Em vez de reconhecerem a misericórdia de Deus, lamentavam sua situação no deserto e questionavam a própria libertação, como se a vida sob o domínio dos egípcios lhes oferecesse melhores condições (Números 11:4–6; 14:2–4). Assim, a concupiscência não se manifestou simplesmente no desejo de comer carne, mas na ingratidão, na incredulidade e na disposição de desprezar a liberdade concedida por Deus em favor das satisfações materiais que associavam à antiga escravidão.
“Mas um mês inteiro, até vos sair pelas narinas, até que vos enfastieis dela; porquanto rejeitastes ao SENHOR, que está no meio de vós, e chorastes diante dele, dizendo: Por que saímos do Egito?” (Números 11:20)
A mesma abrangência aparece no Novo Testamento. Paulo menciona os desejos da carne e dos pensamentos (Efésios 2:3), inclui as invejas e as dissensões entre as obras da carne (Gálatas 5:19–21) e denuncia os que queriam gloriar-se na carne dos gentios para não serem perseguidos (Gálatas 6:12–13). Também identifica como carnal a compreensão daqueles que, sob pretexto de humildade e devoção, submetiam os cristãos a preceitos humanos (Colossenses 2:18–23).
A análise lexical de epithymía, as interpretações de 1 João 2:16 e o conjunto das passagens demonstram, portanto, que a concupiscência não deve ser reduzida à libido. Ela pode manifestar-se tanto na busca de satisfação corporal quanto na ambição, na vanglória, na avareza e na confiança em elementos religiosos com que o homem procura estabelecer a própria justiça diante de Deus.
É necessário, porém, distinguir essa conclusão do significado lexical da palavra. Epithymía significa desejo ou anseio; identificar determinada concupiscência como expressão da confiança na carne depende da relação estabelecida pelo contexto bíblico.
Os desejos da carne e dos pensamentos
A relação entre carne e entendimento aparece expressamente em Efésios:
“Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Efésios 2:3).
A declaração deve ser lida à luz da própria estrutura do argumento. Paulo inicia o capítulo na segunda pessoa do plural: “vós”, que estáveis mortos em ofensas e pecados e que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo (Efésios 2:1–2). No versículo 3, porém, muda a construção: “todos nós também” andávamos nos desejos da nossa carne.
A mudança inclui o próprio escritor na condição descrita, e o contexto sugere quem são esse “nós”. No capítulo anterior, Paulo já distinguira “nós os que primeiro esperamos em Cristo” de “vós”, que crestes depois de ouvir a palavra da verdade (Efésios 1:12–13). Mais adiante, identifica os destinatários como “gentios na carne”, chamados incircuncisão pelos que se chamavam circuncisão, e desenvolve a reconciliação de judeus e gentios num só corpo (Efésios 2:11–18). É possível, portanto, entender o “todos nós” como a inclusão dos cristãos vindos do judaísmo: também os que haviam recebido a lei participavam da condição de morte e necessitavam da misericórdia divina. Mesmo que se leia o “nós” como todos os cristãos, o resultado é o mesmo: Paulo se inclui.
A sintaxe grega reforça essa leitura. O versículo 1 começa com “vós, estando mortos” (hymâs óntas nekroús), mas a frase fica suspensa: o verbo “vivificou”, que a ACF traz já no versículo 1, não está no grego desse versículo e foi suprido pelos tradutores a partir do versículo 5. Ela só é retomada no versículo 5, agora na primeira pessoa: “estando nós ainda mortos (óntas hēmâs nekroús) em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo”. A passagem de “vós” para “nós” acompanha a ampliação do argumento: não só os gentios, mas também os que possuíam privilégios religiosos dependiam da mesma obra vivificadora de Deus.
A observação tem consequências para a interpretação dos desejos da carne. O próprio Paulo, antes de crer, era irrepreensível “segundo a justiça que há na lei”, embora perseguisse a igreja e se destacasse pelo zelo pelas tradições de seus pais (Filipenses 3:4–6; Gálatas 1:13–14). Se ele se inclui entre os que andavam nos desejos da carne e dos pensamentos, essa linguagem não pode ser restringida aos comportamentos sensuais atribuídos aos gentios. O próprio apóstolo descreve assim o tempo sob a lei:
“quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros” (Romanos 7:5).
Efésios 2:3 não identifica expressamente os desejos da carne com a circuncisão, a descendência natural e a observância da lei como fundamento de justiça. Mas a inclusão de Paulo e o contexto da reconciliação entre judeus e gentios autorizam a aproximação com a oposição entre carne e espírito desenvolvida em outras epístolas (Filipenses 3:3–9; Gálatas 3:2–3; 6:12–15).
A expressão “por natureza filhos da ira, como os outros também” elimina qualquer pretensão de superioridade decorrente da identidade religiosa. Paulo usa o mesmo termo, phýsei (φύσει), ao dizer a Pedro: “Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios” (Gálatas 2:15). Em Efésios, os que eram judeus por natureza eram também, por natureza, filhos da ira — pois “tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” (Romanos 3:9, 19).
A carne, portanto, não designa apenas os impulsos do corpo. A expressão precisa ser examinada também em relação aos pensamentos, às concepções e à confiança humana, pois até os que se consideravam irrepreensíveis segundo a lei necessitavam da vida concedida exclusivamente por Deus mediante Cristo (Efésios 2:3–5; Filipenses 3:3–9).
A referência aos pensamentos merece atenção. O apóstolo não descreve apenas impulsos corporais, mas também a maneira de pensar e de compreender a realidade. Uma pessoa pode desejar prestígio, autoridade ou superioridade sobre outras, alimentar rivalidades, defender concepções equivocadas e procurar estabelecer a própria justiça diante de Deus — sem que nada disso dependa de satisfação sensual.
Isso não significa que o corpo humano seja, por sua natureza física, contrário a Deus. As Escrituras distinguem a sujeição ao pecado das necessidades naturais do organismo. O próprio Senhor Jesus Cristo participou da carne e do sangue, assumindo verdadeira humanidade (João 1:14; Hebreus 2:14). A fome, o cansaço e as demais necessidades corporais não são, por si mesmos, demonstrações de carnalidade.
O problema também não se resolve com a simples oposição entre corpo e mente, como se o corpo fosse a origem do mal e o entendimento permanecesse naturalmente puro. O próprio entendimento pode estar comprometido por concepções opostas à verdade de Deus. Por isso, a oposição bíblica entre carne e espírito não deve ser reduzida a uma disputa entre os impulsos físicos e a capacidade humana de discipliná-los.
Carne e Espírito: a descendência de Abraão e o novo nascimento
Para compreender a linguagem apostólica, é necessário considerar os diferentes sentidos de sárx (σάρξ). Conforme o contexto, o vocábulo designa a matéria do corpo, a humanidade, a descendência natural e, em especial, essa descendência invocada como título diante de Deus (Lucas 24:39; Romanos 1:3; Gálatas 4:23; João 3:6; Romanos 9:8).
Jesus esclareceu a Nicodemos, “mestre de Israel”, que “o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6, 10). A declaração não descreve uma luta entre duas substâncias no interior do homem. Opõe o nascimento segundo a carne de Abraão, em que os judeus confiavam (“somos descendência de Abraão”, João 8:33; Mateus 3:9), ao nascimento que procede de Deus: os que receberam a Cristo “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:12–13). A descendência não dá participação no reino; é necessário nascer de novo pela palavra (João 3:3–8; 1 Pedro 1:23).
Quando carne e espírito são apresentados em oposição um ao outro, as Escrituras não descrevem duas forças em conflito dentro do indivíduo, mas dois regimes exteriores a ele. Paulo o mostra pela alegoria da escrava e da livre: “estas são as duas alianças” (Gálatas 4:24). E acrescenta: “como então aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o Espírito, assim é também agora” (Gálatas 4:29). Ismael, nascido segundo a carne, perseguia Isaque, nascido por promessa; do mesmo modo, os que se apoiavam na aliança do Sinai perseguiam os filhos da promessa (Gálatas 4:23–31). É nesse quadro que se deve ler a oposição de Gálatas 5:17.
Pedro também contrapõe a condição transitória de toda carne à permanência da palavra de Deus, pela qual os cristãos foram gerados de novo: “toda a carne é como a erva” (1 Pedro 1:23–25; Isaías 40:6–8). Nesse sentido, a carne é a própria condição humana, frágil e passageira. O corpo, constituído de carne e, portanto, corruptível, não pode herdar a incorrupção; por isso será transformado (1 Coríntios 15:39, 50–53).
Na Epístola aos Romanos, porém, é preciso distinguir duas categorias. A condição de todos os homens sob o pecado, judeus ou gentios, é descrita como o “velho homem”, que foi crucificado e sepultado com Cristo para que não sirvamos mais ao pecado (Romanos 6:4–6). Já a “carne”, quando introduzida na epístola, carrega outra ideia. Designa a descendência (“da descendência de Davi segundo a carne”, Romanos 1:3); a circuncisão “exteriormente na carne” (Romanos 2:28); a incapacidade de qualquer descendente, judeus incluídos, de ser justificado pelas obras da lei, pois “nenhuma carne será justificada diante dele” (Romanos 3:20); e “Abraão, nosso pai segundo a carne” (Romanos 4:1), que nada alcançou por meio da carne, pois a justiça lhe foi imputada quando ainda estava na incircuncisão, e a herança lhe foi dada por promessa, não pela lei (Romanos 4:10–13). Ao falar da fraqueza da carne, Paulo mostra que o que era impossível à lei se devia a isto: a lei “estava enferma pela carne” (Romanos 6:19; 8:3).
Assim, “estar na carne”, em Romanos, não descreve a condição de toda a humanidade sujeita ao pecado — essa é a do velho homem —, nem os impulsos do organismo. Descreve a condição daqueles em quem “as paixões dos pecados, que são pela lei” operavam (Romanos 7:5): os que estavam sob a lei e serviam a Deus “na velhice da letra” (Romanos 7:6), a mesma lei que trouxe o conhecimento da concupiscência ao dizer “Não cobiçarás” (Romanos 7:7). Por isso Paulo dirige esse argumento “aos que sabem a lei” (Romanos 7:1). A carne, nesse sentido, é a condição ou o regime de quem está debaixo da lei, e “os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Romanos 8:8). Isso não contradiz João 3:6: todo homem é nascido da carne quanto à origem natural; mas o regime “na carne”, contraposto ao espírito, é o da lei. Os gentios, por sua vez, estavam “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12): sob o pecado como velho homem, mas não “na carne” no sentido de Romanos 7:5.
Os regenerados, por sua vez, ainda vivem na carne, isto é, no corpo — o “tabernáculo” (2 Coríntios 5:1–4) —, sem, contudo, andar segundo a carne: “andando na carne, não militamos segundo a carne” (2 Coríntios 10:2–3; Gálatas 2:20; Romanos 8:4). Por isso Paulo pode dizer aos romanos que eles “não estão na carne” (Romanos 8:9): ali a expressão designa a condição e o regime, não o corpo. Do mesmo modo, o homem regenerado não se torna espiritual por ter disciplinado suficientemente o corpo, mas porque recebeu vida mediante Cristo.
Paulo declara que os que pertencem a Cristo foram libertados do pecado e feitos servos da justiça (Romanos 6:6–7, 17–18, 22). A mudança de condição não decorre de aperfeiçoamento moral progressivo, mas da participação na morte e ressurreição de Cristo, em que o velho homem foi crucificado (Romanos 6:3–11; Colossenses 2:11–13). Essa verdade orienta a leitura de Romanos 8 e Gálatas 5.
A inclinação da carne em Romanos 8
Paulo inicia Romanos 8 declarando que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). A declaração deve ser lida à luz do desenvolvimento anterior, em que o apóstolo distingue a sujeição ao pecado e à lei da liberdade concedida mediante Cristo (Romanos 6:6–22; 7:4–6). Em Romanos 7:6, ele havia contraposto o servir “em novidade de espírito” ao servir “na velhice da letra”.
Em seguida, declara: “os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito” (Romanos 8:5). A expressão phrónēma tês sarkós (φρόνημα τῆς σαρκός), traduzida por “inclinação da carne”, relaciona-se à orientação do pensamento, e não designa exclusivamente a sensualidade.
O apóstolo acrescenta que a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus (Romanos 8:6–7). A declaração ganha relevo diante daqueles que pretendiam estabelecer justiça pela lei de Moisés: alguém podia considerar-se fiel às determinações religiosas e, ainda assim, resistir à justiça que Deus manifestou em Cristo (Romanos 9:31–32; 10:2–4). Quem deposita sua segurança na circuncisão, na descendência natural ou na observância da lei como fundamento de justiça não se sujeita à suficiência da obra de Cristo (Filipenses 3:3–9; Gálatas 5:2–4).
Isso não faz de cada ocorrência de “carne” no Novo Testamento um sinônimo lexical de judaísmo ou da lei mosaica. Em Romanos 8, porém, o termo é empregado para contrapor a condição dos que estão sob o domínio do pecado e da lei à dos que estão sob o domínio da justiça e do espírito: “a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2; cf. 6:18). Ao longo do capítulo, andar ou ser “segundo a carne” e “estar na carne” têm sentido doutrinário e supõem submissão à lei, enquanto o espírito se refere à submissão a Cristo (Romanos 8:1, 3–9, 12–13). Por isso Paulo declara que seus destinatários não estavam na carne, mas no Espírito (Romanos 8:9).
O próprio capítulo confirma que “carne” não é aí sinônimo de corpo. Quando Paulo quer falar do organismo, usa outra palavra: “o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado”; Deus “vivificará os vossos corpos mortais”; “se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis” (Romanos 8:10–11, 13). A exceção é o versículo 3, em que a carne designa também a humanidade assumida por Cristo, enviado “em semelhança da carne do pecado” — justamente o lugar em que Deus “condenou o pecado na carne”.
A condição do cristão, portanto, não é determinada pela presença ou ausência de certos impulsos corporais, mas por pertencer a Cristo — e a confiança na carne não pode conceder a vida que procede do novo nascimento (Romanos 8:9–11; João 3:6). Isso não elimina a necessidade de instrução e correção da conduta, mas impede confundir tais orientações com a produção da regeneração por esforço humano.
As concupiscências da carne em Gálatas 5
Paulo escreve aos gálatas: “Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne” (Gálatas 5:16). A exortação não faz do domínio dos impulsos corporais a condição da vida no Espírito. Paulo se dirige aos que haviam começado pelo Espírito, pela pregação da fé (Gálatas 3:2–3), e os conclama a andar de modo correspondente ao que receberam. A ordem vem acompanhada de uma promessa enfática: andando em Espírito, não cumprirão a concupiscência da carne (Romanos 8:1). Em seguida, o apóstolo apresenta a oposição entre carne e Espírito (Gálatas 5:17).
Essas declarações não devem ser isoladas da controvérsia que atravessa a epístola. Paulo havia questionado os gálatas por procurarem aperfeiçoar-se pela carne depois de terem começado pelo Espírito, pela pregação da fé (Gálatas 3:2–3). A questão era a influência de mestres que impunham a circuncisão e a observância da lei aos cristãos dentre os gentios. O apóstolo esclarece que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo (Gálatas 2:16), e adverte que os que procuravam justificar-se pela lei se separavam de Cristo (Gálatas 5:2–4).
É nesse contexto que deve ser lida a exortação para andar em Espírito. Paulo relaciona a liberdade dos cristãos ao serviço mútuo pelo amor e adverte contra as contendas que ameaçavam a comunhão (Gálatas 5:13–15). Só então enumera as obras da carne:
“Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas…” (Gálatas 5:19–21).
A lista inclui práticas sexuais e excessos do corpo, que não devem ser apagados da interpretação. Mas a maior parte dela trata de inimizades, contendas, ciúmes, dissensões, heresias e invejas. A enumeração não pode, portanto, ser explicada exclusivamente pela sensualidade. As rivalidades e divisões também são obras da carne — e surgem justamente quando alguns procuram estabelecer autoridade sobre os demais mediante suas próprias concepções religiosas.
A que corresponde essa enumeração? Ao comportamento dos filhos de Israel no deserto. O próprio Paulo faz essa ligação ao escrever aos coríntios: “estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles […]. E não forniquemos, como alguns deles fornicaram […]. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram” (1 Coríntios 10:6–11).
Os salmos que recordam a história de Israel descrevem as mesmas práticas. Os israelitas “tentaram a Deus nos seus corações, pedindo carne para o seu apetite” (Salmos 78:18); “invejaram a Moisés no campo” (Salmos 106:16); “fizeram um bezerro em Horebe e adoraram a imagem fundida” (Salmos 106:19); “juntaram-se com Baal-Peor” (Salmos 106:28), quando o povo se prostituiu com as filhas de Moabe (Números 25:1–3); indignaram o Senhor “junto às águas da contenda” (Salmos 106:32); “derramaram sangue inocente” ao sacrificar os filhos aos ídolos (Salmos 106:37–38). Por não ouvirem a sua voz, Deus os entregou “aos desejos dos seus corações” (Salmos 81:11–12). Moisés resume: “rebeldes fostes contra o Senhor” desde o dia em que saíram do Egito (Deuteronômio 9:7).
Mesmo os itens que não aparecem literalmente nesses relatos estão compreendidos neles. A feitiçaria, por exemplo, é associada pela própria Escritura à rebelião que marcou o povo no deserto: “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor…” (1 Samuel 15:23; Deuteronômio 9:7, 24). E as heresias — no grego, hairéseis (αἱρέσεις), facções ou partidos — têm seu retrato no grupo de Coré, Datã e Abirão, que se congregou contra Moisés e Arão (Números 16:1–3; Salmos 106:16–18).
Esse histórico explica a natureza da lei. Ela “foi ordenada por causa das transgressões” (Gálatas 3:19) e “não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados” (1 Timóteo 1:9–10). Assim, as obras da carne descrevem o comportamento do povo a quem a lei foi dada como transgressor — e é justamente para essa lei que os gálatas eram atraídos. Querer aperfeiçoar-se pela carne (Gálatas 3:3) era voltar ao regime que fora dado por causa dessas mesmas obras.
As práticas da lista que a moral humana reprova, entretanto, não definem por si mesmas a condição de quem está sujeito à carne. Quem está debaixo da lei e pratica preceitos dos homens (Mateus 15:9) é carnal mesmo sem cometer homicídio, prostituição ou qualquer das ações enumeradas. É o caso do fariseu da parábola, que agradecia a Deus por não ser “como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros”, jejuava duas vezes na semana e dava o dízimo de tudo — e, no entanto, não desceu justificado para sua casa (Lucas 18:11–14). A inclinação da carne “não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Romanos 8:7).
Some-se a isso que a distinção entre estar na carne e estar no Espírito não se refere ao nascimento natural em oposição ao novo nascimento, mas à condição de descender da carne de Abraão como elemento de salvação — “somos descendência de Abraão” (João 8:33) —, em contraste com a necessidade de nascer de novo pela palavra de Deus (1 Pedro 1:23). Por isso Jesus disse a Nicodemos, “mestre de Israel”, que era necessário nascer de novo (João 3:7, 10), e Paulo conclui que “não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” (Romanos 9:8).
Paulo declara que “os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5:24). A declaração deve ser lida com o que o apóstolo dissera de si mesmo: “Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus. Já estou crucificado com Cristo” (Gálatas 2:19–20). A carne, nesse argumento, não é reformada aos poucos; é deixada para trás por quem morreu para a lei pelo corpo de Cristo (Romanos 7:4–6).
Assim, a exortação para andar em Espírito não é uma ordem para que o cristão produza a própria regeneração mediante o domínio progressivo dos desejos corporais. Os gálatas haviam começado pela pregação da fé; precisavam permanecer na verdade do evangelho e preservar a comunhão pelo amor (Gálatas 3:2–3; 5:13–16, 25–26).
A vanglória religiosa e a confiança na carne
No fim da epístola, Paulo revela os interesses dos que obrigavam os gentios a circuncidar-se:
“Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo. Porque nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne” (Gálatas 6:12–13).
A declaração é decisiva. Os denunciados não são caracterizados pela busca ostensiva de prazeres sexuais, mas pela aparência religiosa, pela preservação da própria posição e pela vanglória. A circuncisão dos gentios serviria de troféu para quem a impunha. A carne aparece, assim, associada à identidade religiosa e ao interesse de obter reconhecimento submetendo outras pessoas às exigências de determinados mestres.
O testemunho de Paulo sobre sua antiga condição aprofunda a questão:
“Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Filipenses 3:6).
A declaração reúne dois elementos aparentemente contraditórios: zelo religioso e perseguição aos cristãos. Paulo podia considerar-se irrepreensível segundo os critérios da lei e, ao mesmo tempo, combater violentamente os que anunciavam Jesus como o Cristo, enquanto se destacava pelo zelo pelas tradições de seus pais (Gálatas 1:13–14). O problema não estava na falta de disciplina moral, mas no entendimento religioso que orientava sua conduta.
O zelo, por si mesmo, não demonstra fidelidade a Deus. Paulo reconhece que seus compatriotas tinham zelo de Deus, “mas não com entendimento”, porque procuravam estabelecer a própria justiça e não se sujeitavam à justiça de Deus (Romanos 10:2–3).
Por isso, o apóstolo contrapõe a glória na carne à glória na cruz de Cristo, concluindo que nem a circuncisão nem a incircuncisão valem coisa alguma, mas sim o ser uma nova criatura (Gálatas 6:14–15).
A aparência de humildade e a carnal compreensão
A Epístola aos Colossenses oferece outra demonstração da diferença entre disciplina do corpo e carnalidade.
Paulo adverte contra filosofias, vãs sutilezas, tradições dos homens e rudimentos do mundo que não eram segundo Cristo (Colossenses 2:4, 8), e afirma que os cristãos estão perfeitos nele, que é a cabeça de todo principado e potestade (Colossenses 2:9–10). A partir daí, combate a pretensão de julgá-los por causa da comida, da bebida, dos dias de festa, da lua nova ou dos sábados (Colossenses 2:11–17).
É nesse contexto que escreve:
“Ninguém vos domine a seu arbítrio com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando em vão inchado na sua carnal compreensão” (Colossenses 2:18).
O texto grego emprega noûs tês sarkós (νοῦς τῆς σαρκός), relacionando expressamente a carne ao entendimento. A carnalidade denunciada não é ausência de disciplina corporal, mas uma compreensão que se opõe à suficiência de Cristo.
A referência ao culto dos anjos também exige consideração. O termo ángelos (ἄγγελος) significa mensageiro e pode designar seres celestiais ou mensageiros humanos. Considerando a controvérsia sobre as tradições e a autoridade atribuída aos elementos da antiga aliança, é possível ler a expressão como referência à reverência dedicada aos antigos mensageiros de Deus, especialmente os profetas — o que encontra correspondência temática na denúncia de Jesus contra os que edificavam os sepulcros dos profetas sem atender à mensagem deles (Mateus 23:29–32; Lucas 11:47–48). Essa identificação, porém, é uma interpretação contextual e minoritária, e não decorre apenas do significado do vocábulo.
Independentemente dessa questão, a acusação de Paulo é clara. Em seguida, ele denuncia as ordenanças “não toques, não proves, não manuseies”, identificando-as com preceitos e doutrinas dos homens (Colossenses 2:20–22), e conclui:
“As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:23).
O versículo é decisivo para o tema deste estudo: a própria disciplina do corpo, quando imposta como meio de justiça, serve “para a satisfação da carne”. O rigor aplicado ao corpo não prova que o homem esteja livre da confiança na carne; pode ser exatamente a forma que ela assume. Uma pessoa pode praticar abstinências, defender tradições religiosas e apresentar-se como humilde, enquanto deposita sua confiança em elementos incapazes de conceder a vida prometida por Deus — e usa essas exigências para dominar os demais.
Se a concupiscência da carne fosse simplesmente a tendência humana de buscar o prazer físico, material ou egoísta acima da vontade de Deus, Colossenses 2:23 não se sustentaria, pois a “satisfação da carne” descrita por Paulo se dá justamente no ascetismo: na devoção voluntária, na humildade aparente e na disciplina do corpo. O que se satisfaz ali não é o apetite do corpo, mas a mesma carne que deixava aqueles mestres “inchados na sua carnal compreensão” (Colossenses 2:18). E, mesmo para quem prefere traduzir o versículo 23 como “contra a satisfação da carne” — isto é, como incapacidade de refreá-la —, a conclusão permanece: o versículo 18 já havia identificado como carnal o entendimento desses mestres. Assim, o ascetismo de matriz judaica — que julgava os cristãos “pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados” (Colossenses 2:16) — realiza exatamente o que a carne, como sistema religioso, promove: impõe preceitos dos homens a pretexto da lei e subjuga os que a eles se submetem (Colossenses 2:20–22; Gálatas 4:9–10; 5:1). Por isso, em Gálatas, a oposição entre a carne e o Espírito desemboca nesta conclusão: “se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei” (Gálatas 5:17–18).
As concupiscências e a exploração religiosa
As advertências apostólicas mostram que interesses materiais e pessoais também podem ser promovidos em nome da piedade. Antes de examiná-las, é preciso definir o termo. Nas cartas a Timóteo e a Tito, “piedade” (eusébeia, εὐσέβεια) não designa um sentimento nobre ou uma disposição devota da alma: o seu conteúdo é o próprio evangelho, como Paulo diz expressamente: “grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” (1 Timóteo 3:16). O conteúdo do “mistério da piedade” é Cristo manifestado e anunciado. Por isso o apóstolo fala da “doutrina que é segundo a piedade” (1 Timóteo 6:3) e do “conhecimento da verdade, que é segundo a piedade” (Tito 1:1).
Com esse sentido, as advertências ganham outra precisão. Paulo recomenda a Timóteo que impeça certos homens de ensinar outra doutrina, envolvendo-se em fábulas, genealogias intermináveis e questões que não edificam (1 Timóteo 1:3–7), lembrando que “a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente” (1 Timóteo 1:8). Adverte também contra os que, “pela hipocrisia de homens que falam mentiras”, proíbem o casamento e ordenam a abstinência dos alimentos que Deus criou (1 Timóteo 4:1–3) — o mesmo ascetismo denunciado em Colossenses. Em contraste, ordena: “exercita-te a ti mesmo em piedade; porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir” (1 Timóteo 4:7–8). A oposição não é entre corpo e sentimento religioso, mas entre a disciplina imposta ao corpo e o evangelho, que traz a promessa da vida.
Mais adiante, Paulo denuncia quem “ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade”. Esse é soberbo, delira acerca de questões e contendas de palavras — das quais nascem invejas e contendas — e pertence aos homens “corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que ganho seja piedade” (1 Timóteo 6:3–5). Se piedade é o evangelho, a acusação é grave: esses homens tratavam a mensagem de Cristo como fonte de lucro. A resposta de Paulo inverte a equação: “é grande ganho a piedade com contentamento” (1 Timóteo 6:6). O ganho é o próprio evangelho, não o que se extrai dele.
O mesmo sentido esclarece a advertência da segunda carta: nos últimos dias haveria homens “tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela” (2 Timóteo 3:5). A forma do evangelho pode ser conservada enquanto se nega o seu poder — e o evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16).
A ligação entre doutrina, corrupção do entendimento e interesse material é significativa. Esses homens não precisavam ter conduta sexualmente dissoluta para demonstrar que seus interesses eram contrários à verdade; podiam apresentar-se como mestres do evangelho enquanto buscavam vantagens pessoais.
Paulo prossegue advertindo que “os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas” (1 Timóteo 6:9–10). Em Colossenses, a avareza é chamada de idolatria (Colossenses 3:5). A corrupção dos desejos não se restringe à sensualidade: manifesta-se também na ambição material e na exploração do próximo.
Pedro faz denúncia semelhante: os falsos mestres fariam negócio dos cristãos por avareza, com palavras fingidas (2 Pedro 2:1–3). Descreve-os como os que, “falando coisas mui arrogantes de vaidades, engodam com as concupiscências da carne, e com dissoluções” aqueles que se estavam afastando do erro, prometendo-lhes liberdade, sendo eles mesmos servos da corrupção (2 Pedro 2:18–19).
O contexto inclui a libertinagem, que não deve ser apagada da interpretação. Mas a denúncia também contempla a avareza, a arrogância, a exploração e o uso enganoso da promessa de liberdade. A aparência de religiosidade pode coexistir com interesses humanos contrários à verdade.
Judas e os que andam segundo suas concupiscências
A Epístola de Judas expõe com especial clareza a relação entre concupiscência, arrogância, cobiça e oposição à palavra de Deus.
Judas declara que certos homens se haviam introduzido dissimuladamente entre os cristãos, convertendo em dissolução a graça de Deus e negando o único Senhor (Judas 4). Para mostrar a gravidade da situação, recorda três antecedentes: o povo que saiu do Egito e depois foi destruído por não crer; os anjos que não guardaram o seu principado; e Sodoma e Gomorra (Judas 5–7).
A primeira referência remete à história de Israel. Os Salmos 78 e 106 registram que os israelitas, apesar dos benefícios recebidos, murmuraram, cobiçaram, desobedeceram e resistiram à palavra de Deus (Salmos 78:10–22, 56–58; 106:13–25). A incredulidade e a concupiscência manifestavam-se entre os que participavam das próprias instituições religiosas de Israel.
Judas prossegue dizendo que esses homens “contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e difamam as dignidades” (Judas 8). A denúncia, porém, logo apresenta exemplos ligados à inveja, à cobiça e à rebelião:
“Ai deles! Porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré” (Judas 11).
Os três personagens não têm histórias idênticas, mas revelam manifestações diferentes da oposição à vontade divina: Caim, a disposição que culminou no homicídio do irmão (Gênesis 4:3–8); Balaão, o interesse pela recompensa (Números 22–24); Coré, a rebelião contra a autoridade estabelecida por Deus (Números 16:1–35). Os exemplos de Judas ultrapassam, portanto, uma denúncia limitada à sensualidade.
O autor descreve-os ainda como os que se banqueteavam com os irmãos “apascentando-se a si mesmos sem temor” (Judas 12) e conclui:
“Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse” (Judas 16).
A associação entre concupiscência, arrogância e interesse é expressa. O desejo denunciado inclui a disposição de obter vantagens explorando as relações humanas.
Por fim, Judas identifica esses homens como “os que a si mesmos se separam, sensuais, que não têm o Espírito” (Judas 19). O termo grego psychikoí (ψυχικοί), traduzido por “sensuais”, não designa necessariamente pessoas dominadas por desejos sexuais, mas a condição natural, em contraste com o que procede de Deus. Paulo usa o mesmo adjetivo para o “homem natural” que não compreende as coisas do Espírito de Deus (1 Coríntios 2:14).
A carnalidade, as divisões e o entendimento
As epístolas aos Coríntios mostram bem a diversidade de aplicações do termo “carne”. Ele designa a composição dos corpos — “nem toda a carne é uma mesma carne” (1 Coríntios 15:39); a união íntima — “serão dois uma só carne” (1 Coríntios 6:16); a matéria corruptível e mortal (1 Coríntios 15:50; 2 Coríntios 4:11); o próprio corpo — “a nossa carne não teve repouso algum” (2 Coríntios 7:5); e a etnia — “vede a Israel segundo a carne” (1 Coríntios 10:18). Aparece também como motivo de orgulho — “muitos se gloriam segundo a carne” (2 Coríntios 11:18) — e como critério de sabedoria e conhecimento: “não são muitos os sábios segundo a carne” (1 Coríntios 1:26); “a ninguém conhecemos segundo a carne” (2 Coríntios 5:16). Há até um uso positivo: a carta de Cristo escrita “nas tábuas de carne do coração” (2 Coríntios 3:3). Nenhum desses empregos se refere ao desejo sexual. Quando as traduções falam de “carne” como alimento — “nunca mais comerei carne” (1 Coríntios 8:13); “com leite vos criei, e não com carne” (1 Coríntios 3:2) —, o grego emprega outras palavras, kréas e brōma, e não sárx.
É nesse quadro que deve ser lida a repreensão aos coríntios. Paulo os chama de carnais por causa das invejas, contendas e dissensões entre eles (1 Coríntios 3:1–3), e menciona os que diziam “eu sou de Paulo” e “eu de Apolo” (1 Coríntios 3:4). Rivalidades e disputas religiosas são descritas com a linguagem da carne. Mas o apóstolo não está declarando que estivessem na carne quanto à condição: falou-lhes “como a carnais, como a meninos em Cristo” (1 Coríntios 3:1). Eram espirituais, pois estavam em Cristo, mas comportavam-se como meninos. A própria pergunta de Paulo indica onde estava a carnalidade: “não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” (1 Coríntios 3:3). Era o modo de andar, e não a condição, que não correspondia ao que haviam recebido. Por isso o apóstolo os exorta depois: “não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento” (1 Coríntios 14:20).
É necessário, porém, distinguir a repreensão à conduta dos coríntios da condição daqueles que receberam vida em Cristo. O próprio apóstolo os chama de santificados em Cristo Jesus (1 Coríntios 1:2) e afirma que Cristo lhes foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção (1 Coríntios 1:30). Ao tratar das divisões, explica que aplicou figuradamente essas coisas a si mesmo e a Apolo para que os irmãos aprendessem a não se ensoberbecer a favor de um contra o outro (1 Coríntios 4:6).
As advertências, portanto, não precisam ser lidas como prova de uma regeneração incompleta, mas como correção de comportamentos e entendimentos que deveriam corresponder ao evangelho recebido.
Pedro foi repreendido por Paulo nesse mesmo sentido: ao afastar-se dos cristãos dentre os gentios por temer os da circuncisão, não andava retamente conforme a verdade do evangelho (Gálatas 2:11–14). Pedro já pertencia a Cristo, mas precisava corrigir uma atitude incompatível com a verdade que professava. Um cristão pode necessitar de correção quanto ao entendimento e à conduta sem que se considere incompleta a regeneração recebida. A vida dos que pertencem a Cristo deve corresponder à condição concedida por Deus, preservando a comunhão, o amor fraternal e a fidelidade ao evangelho (Efésios 4:1–6; Colossenses 3:10–14).
As armas da milícia apostólica não são carnais
A distinção entre carne e espírito também esclarece a natureza do combate travado pelos apóstolos.
“Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; destruindo argumentos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:3–5).
O contraste é significativo. O apóstolo participava da condição humana e tinha um corpo físico, mas os recursos de seu ministério não correspondiam às pretensões humanas que se opunham à verdade. As fortalezas não são estruturas militares, mas argumentos e altivez que se levantam contra o conhecimento de Deus, e o alvo do combate é o entendimento levado cativo à obediência de Cristo.
Nesse contexto, não militar segundo a carne é não fazer das credenciais próprias do judaísmo — a descendência e o sinal da circuncisão — instrumento do ministério. É o que se vê nos capítulos seguintes. Os adversários de Paulo em Corinto se gloriavam segundo a carne (2 Coríntios 11:18) e punham os irmãos em servidão (2 Coríntios 11:20). Suas credenciais eram exatamente essas: “São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendência de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? (Falo como fora de mim) Eu ainda mais” (2 Coríntios 11:22–23). Paulo mostra que, se a questão fosse gloriar-se nessas coisas, ele teria mais motivos do que eles; mas, ao entrar nesse terreno, declara agir como insensato e pede: “suportai-me” (2 Coríntios 11:1, 16–17, 21). Ao final, conclui: “Fui néscio em gloriar-me; vós me constrangestes” (2 Coríntios 12:11).
A ironia é aguda. A insensatez que Paulo assume é a mesma que as Escrituras atribuíam ao povo que confiava em seus privilégios: “povo louco e ignorante” (Deuteronômio 32:6); “povo insensato, e sem coração” (Jeremias 5:21). Jesus chamou de “loucos” os fariseus que limpavam o exterior do copo e do prato (Lucas 11:39–40), e Paulo descreve o judeu que confiava na lei como “instrutor dos néscios” (Romanos 2:20) — o termo grego é o mesmo de 2 Coríntios 11 (áphrōn, ἄφρων). Gloriar-se segundo a carne era, portanto, a verdadeira insensatez; Paulo só a imita para expô-la.
O testemunho do apóstolo ilustra essa distinção. Antes de reconhecer Jesus como o Cristo, ele perseguia os que anunciavam o evangelho por zelo pela lei (Filipenses 3:6) — a lei que Hebreus chama ‘do mandamento carnal’ (Hebreus 7:16); depois, passou a anunciar a fé que antes procurava destruir (Gálatas 1:13–23). O combate apostólico não seria conduzido com a violência antes empregada contra os cristãos, mas com a verdade anunciada em Cristo. Paulo passou a gloriar-se na cruz (Gálatas 6:14), justamente aquilo que era “escândalo para os judeus” (1 Coríntios 1:23). Os que se gloriavam na carne e nela confiavam, ao contrário, tinham nos elementos da lei e na descendência de Abraão aquilo que impunham aos cristãos dentre os gentios, para se gloriarem de fazer prosélitos (Gálatas 6:13; Mateus 23:15).
Também não basta trocar armas materiais por práticas religiosas, como se toda atividade exteriormente espiritual correspondesse à vontade de Deus. O próprio Paulo denuncia concepções revestidas de humildade e sabedoria, mas provenientes de compreensão carnal (Colossenses 2:18–23). Combater segundo a verdade é rejeitar os argumentos contrários ao evangelho, e não dominar os cristãos mediante tradições e ordenanças humanas.
As advertências aos cristãos e a condição recebida em Cristo
As Escrituras trazem diversas advertências contra as concupiscências carnais. Pedro roga aos cristãos, “como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais, que combatem contra a alma” (1 Pedro 2:11), e que mantenham bom procedimento entre os gentios (1 Pedro 2:12). Paulo exorta: “revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências” (Romanos 13:14), depois de mencionar glutonarias, bebedeiras, desonestidades e dissoluções, mas também contendas e inveja (Romanos 13:13).
Essas recomendações, portanto, não se limitam à sexualidade — nem autorizam reduzir toda referência às concupiscências a questões doutrinárias. Abrangem disposições e comportamentos diversos, cujo sentido precisa ser estabelecido em cada contexto.
O ponto fundamental é distinguir as recomendações dirigidas aos cristãos da obra pela qual Deus os regenerou. Os destinatários dessas exortações já pertenciam a Cristo, e sua nova condição não dependia de alcançarem certo grau de disciplina corporal ou moral (Romanos 6:6–7, 17–22; Hebreus 10:14). Continuavam, porém, sujeitos a erros de entendimento e de conduta, razão pela qual recebiam instruções para preservar a comunhão e corresponder à verdade anunciada.
Daí a ordem de Pedro: “cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo; como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância” (1 Pedro 1:13–14). O remédio é do entendimento, não do corpo. E essas concupiscências estão ligadas à “vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais” (1 Pedro 1:18). Se houver dúvida de que a crítica tem por alvo a tradição judaica, basta ver quem são os “rebeldes” da carta: os que rejeitaram “a pedra que os edificadores reprovaram” (1 Pedro 2:7–8) — e os edificadores, segundo Pedro, eram os líderes de Israel: “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores” (Atos 4:11).
Dois versículos da mesma carta parecem apontar em outra direção, mas confirmam essa leitura. O primeiro diz: “Porque nos basta que no tempo passado da vida fizéssemos a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, embriaguezes, glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias” (1 Pedro 4:3). Pedro se inclui no “fizéssemos”, e a expressão ecoa a palavra do Senhor a Israel por Ezequiel: “dize ao rebelde, à casa de Israel: […] Bastem-vos todas as vossas abominações, ó casa de Israel!” (Ezequiel 44:6). Fazer “a vontade dos gentios” era o que Israel fazia ao praticar as abominações das nações. O segundo diz: “Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus” (1 Pedro 2:10). A linguagem é a que a lei e os profetas aplicaram a Israel: “não são seus filhos, mas a sua mancha” (Deuteronômio 32:5); “vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus” (Oseias 1:9). E a promessa era feita ao mesmo povo: “no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo” (Oseias 1:10; 2:23). Por isso Pedro os chama de “geração eleita, […] povo adquirido” (1 Pedro 2:9; Êxodo 19:5–6): neles se cumpre a nova aliança — “eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Jeremias 31:33).
Por isso Pedro roga aos cristãos que se abstenham das concupiscências carnais “como a peregrinos e forasteiros” (1 Pedro 2:11). A expressão indica que não tinham aqui pátria permanente — “não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura” (Hebreus 13:14). Assim foi com Abraão, que habitou na terra da promessa “como em terra alheia […]. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:9–10); e assim com os patriarcas, que “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra” (Hebreus 11:13; Filipenses 3:20). Sendo peregrinos, não lhes cabia batalhar pela implantação do reino neste mundo — “o meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos” (João 18:36) —, mas sujeitar-se “a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governadores” (1 Pedro 2:13–14). A sujeição às autoridades era o meio de, “fazendo bem”, tapar “a boca à ignorância dos homens insensatos” que falavam mal dos cristãos (1 Pedro 2:12, 15). O risco era usar a liberdade em Cristo como pretexto: “como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus” (1 Pedro 2:16). Daí a exortação a deixar “toda a malícia, e todo o engano, e fingimentos, e invejas, e todas as murmurações” (1 Pedro 2:1).
Assim, a concupiscência da carne está associada ao engano — Paulo fala das “concupiscências do engano” (Efésios 4:22) — e tem sua raiz no regime da “lei do mandamento carnal” (Hebreus 7:16). Seu alvo são as coisas terrenas: os inimigos da cruz de Cristo são aqueles “cujo Deus é o ventre […] que só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:18–19); “não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre” (Romanos 16:18). O retrato já estava nos profetas, nos pastores de Israel que eram “gulosos, não se podem fartar”, e se voltavam “cada um para a sua ganância” (Isaías 56:10–11), e no povo que se assentava diante de Ezequiel para ouvir a palavra: “ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ezequiel 33:31). Esses não se sujeitam a Deus. Antes, “se cobrem com uma cobertura, mas não do meu espírito” (Isaías 30:1) — uma justiça que é como “trapo da imundícia” (Isaías 64:6), feita de “mandamentos de homens” recebidos por tradição (Isaías 29:13; Mateus 15:3–9).
A santificação concedida por Deus mediante Cristo não deve ser confundida com a necessidade de corrigir práticas incompatíveis com o evangelho (1 Coríntios 1:2; Hebreus 10:10, 14; Efésios 4:22–24). Essa distinção impede transformar as advertências contra a carne num sistema de regras pelo qual o homem pretenda justificar-se — o que seria, ironicamente, uma nova forma de confiança na carne (Colossenses 2:20–23; Gálatas 6:15).
O cristão pertence a Cristo pela fé e deve permanecer na verdade que recebeu, exercendo o amor fraternal e rejeitando concepções e comportamentos que comprometam a comunhão (Gálatas 5:13–16; 1 João 3:23).
Conclusão
As concupiscências da carne não podem ser reduzidas aos desejos sexuais ou aos impulsos naturais do corpo. O vocábulo grego epithymía designa desejo ou anseio e adquire sentido moral conforme o contexto em que é empregado. Do mesmo modo, a palavra sárx, traduzida por “carne”, apresenta diferentes aplicações nas Escrituras, não sendo possível atribuir a todas elas um significado único. Em Romanos, porém, a distinção é precisa: a condição de todos os homens sob o pecado é a do velho homem, crucificado com Cristo (Romanos 6:6), enquanto “estar na carne” designa o regime daqueles em quem as paixões dos pecados operavam pela lei e que serviam a Deus na velhice da letra (Romanos 7:5–6). Por isso “os que estão na carne não podem agradar a Deus”, e os que pertencem a Cristo “não estão na carne, mas no Espírito” (Romanos 8:8–9).
A linguagem apostólica demonstra que a carnalidade também se manifesta na maneira de pensar, na vanglória, na confiança em privilégios naturais e religiosos e na resistência à verdade de Deus. Paulo, que se considerava irrepreensível segundo a justiça que há na lei, reconheceu que suas antigas credenciais não constituíam fundamento de justiça diante de Deus (Filipenses 3:3–9). A carne em que se confiava era a descendência de Abraão invocada como título de salvação; mas “não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa” (Romanos 9:8).
A controvérsia desenvolvida na Epístola aos Gálatas confirma essa distinção. Aqueles que procuravam impor a circuncisão aos cristãos dentre os gentios desejavam apresentar boa aparência na carne, evitar a perseguição decorrente da cruz de Cristo e gloriar-se na carne alheia (Gálatas 6:12–13). Nesse caso, a confiança na carne não se manifestava na busca de prazeres sensuais, mas na pretensão de obter reconhecimento mediante a observância religiosa. Por isso a oposição entre a carne e o Espírito conclui: “se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei” (Gálatas 5:18).
A Epístola aos Colossenses apresenta outra expressão dessa realidade. Homens que promoviam práticas de humildade, devoção voluntária e rigor corporal estavam “inchados na sua carnal compreensão”, e suas ordenanças não tinham valor algum “senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:18, 23). As cartas a Timóteo denunciam o mesmo ascetismo — proibir o casamento e ordenar a abstinência de alimentos — e lhe contrapõem a piedade, que não é um sentimento devoto, mas o próprio evangelho: “grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne” (1 Timóteo 3:16; 4:1–8). Até mesmo práticas exteriormente religiosas podem servir à vanglória, à confiança humana e ao lucro, quando se toma o ganho por piedade e se conserva a aparência do evangelho negando a sua eficácia (1 Timóteo 6:5; 2 Timóteo 3:5).
Isso não significa que as Escrituras excluam os desejos sensuais do conjunto das concupiscências carnais. As obras da carne incluem práticas sexuais ilícitas, idolatria, excessos, inimizades, contendas, invejas e dissensões (Gálatas 5:19–21) — o mesmo comportamento do povo no deserto, por causa de cujas transgressões a lei foi ordenada (1 Coríntios 10:6–11; Gálatas 3:19). O problema está em restringir a expressão a uma única categoria, deixando de reconhecer as demais manifestações da oposição humana à vontade de Deus.
As advertências apostólicas também precisam ser distinguidas da obra pela qual Deus concede vida aos que creem em Cristo. Os cristãos, já santificados em Cristo Jesus, recebem instruções para corrigir seu entendimento e sua conduta, sem que isso signifique que a regeneração dependa de um processo de aperfeiçoamento moral ou de disciplina corporal (1 Coríntios 1:2; Romanos 6:3–11; Hebreus 10:10–14). Pedro mostra que o remédio é do entendimento: cingir os lombos do entendimento e não se conformar com as concupiscências da antiga ignorância, ligadas à vã maneira de viver recebida dos pais por tradição (1 Pedro 1:13–14, 18). Como peregrinos e forasteiros, que esperam a cidade cujo artífice e construtor é Deus, os cristãos se abstêm das concupiscências carnais sem precisar batalhar pela implantação do reino neste mundo (1 Pedro 2:11; Hebreus 11:10; João 18:36).
Portanto, a investigação das concupiscências da carne deve considerar tanto os desejos que envolvem a satisfação corporal quanto as pretensões humanas que se opõem à verdade do evangelho. A busca de justiça por meio da descendência natural, da circuncisão, das tradições religiosas ou dos preceitos humanos não pode produzir a vida que procede de Deus.
A carne não precisa disfarçar-se de religião: muitas vezes, é como religião que ela se apresenta. A confiança humana não se transforma em justiça pela disciplina do corpo, assim como a observância de ordenanças não substitui a vida concedida mediante Cristo.

