Tiago

Acepção de pessoas: o rico, o pobre e a unidade do corpo em Tiago

Introdução

Tiago abre o segundo capítulo de sua epístola com uma advertência:

“Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tiago 2:1).

A fé de nosso Senhor Jesus Cristo é aquilo que os destinatários receberam e professam: o evangelho de Cristo (Judas 1:3; Filipenses 1:27). Tiago não põe em dúvida essa verdade. O que ele denuncia é a contradição de quem confessa Jesus Cristo como Senhor da glória e, ao mesmo tempo, estabelece distinções entre os que pertencem a ele.

A ilustração do rico e do pobre na assembleia costuma ser lida como lição sobre o tratamento devido aos menos favorecidos, ou como prescrição de práticas assistenciais. Mas o argumento de Tiago segue outro caminho. A ilustração não ensina a socorrer; ela expõe o absurdo de fazer distinções. A questão que Tiago coloca é mais ampla: o que significa professar a fé de Cristo numa comunidade em que judeus e gentios foram feitos um só corpo.

1. A assembleia e o lugar de honra

O exemplo de Tiago é concreto:

“Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?” (Tiago 2:2-4).

O termo traduzido por “ajuntamento” é συναγωγή, sinagoga: εἰς τὴν συναγωγὴν ὑμῶν, “em vossa sinagoga”. Tiago conhece a palavra “igreja” e a emprega ao falar dos presbíteros (Tiago 5:14). Aqui, porém, escreve às doze tribos da dispersão (Tiago 1:1), judeus que creram em Cristo e para quem a sinagoga também era sua. E a construção é hipotética: “se… entrar”.

A cena remete, portanto, ao ambiente judaico, onde a própria Lei proibia o favorecimento de pessoas:

“Não farás injustiça no juízo; não respeitarás o pobre, nem honrarás o poderoso; com justiça julgarás o teu próximo” (Levítico 19:15).

O mandamento não manda socorrer o pobre, nem o favorece: exige imparcialidade, e proíbe tanto respeitar o pobre quanto honrar o poderoso. Isso não significa que a prática fosse sempre fiel à Lei. Jesus denunciou os que amavam “as primeiras cadeiras nas sinagogas” (Mateus 23:6). Mas um judeu não deixava de ser filho de Abraão por ser pobre, e tratar de modo desigual dois membros do mesmo povo, por causa do anel ou da roupa, era injustificável diante da Lei que diziam guardar.

É aqui que a ilustração ganha sua força. Se seria absurdo fazer distinção entre judeus por questões econômicas, como poderiam, agora professando a fé de Jesus Cristo, fazer distinção entre judeus e gentios? A diferença econômica, que era uma questão de aparência na sinagoga, serve para evidenciar a distinção étnica na igreja.

2. A lei real e o estrangeiro

A transição do pobre para a questão étnica se dá pela lei:

“Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis. Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois condenados pela lei como transgressores. Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tiago 2:8-10).

A lei que regia a sinagoga é a mesma que ordena amar o próximo. O mandamento citado por Tiago está em Levítico 19:18, onde o próximo aparece ligado aos “filhos do teu povo”. Mas o mesmo capítulo não termina ali:

“E quando o estrangeiro peregrinar convosco na vossa terra, não o oprimireis. Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-ás como a ti mesmo, pois estrangeiros fostes na terra do Egito” (Levítico 19:33-34).

Quem invoca a lei do amor ao próximo já tem nela o estrangeiro. Moisés liga ainda essa exigência ao próprio caráter de Deus:

“Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa. Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito” (Deuteronômio 10:17-19).

Assim se compreende a gravidade da acusação. Quem amava apenas os seus concidadãos e desprezava o gentio, seu irmão em Cristo, cumpria a lei em parte. E a lei não se cumpre em parte: um só ponto desobedecido é desobedecer toda a lei.

3. Uma palavra com história: προσωποληψία

A expressão “acepção de pessoas” traduz uma família de palavras gregas formada a partir de πρόσωπον (rosto, aparência) e λαμβάνω (receber): προσωποληψία, “receber o rosto”, isto é, julgar alguém pela aparência. Tiago a emprega em 2:1 (ἐν προσωποληψίαις) e em 2:9 (προσωποληπτεῖτε).

Nos escritos apostólicos, a mesma família de palavras também aparece onde se trata da igualdade entre judeus e gentios diante de Deus. Paulo, depois de declarar que haverá glória, honra e paz “primeiramente ao judeu e também ao grego”, conclui:

“Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” (Romanos 2:11).

E Pedro, na casa do centurião Cornélio, reconhece:

“Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo” (Atos 10:34-35).

O vocábulo não se restringe a esse assunto: Paulo o usa também para senhores e servos (Efésios 6:9; Colossenses 3:25). Mas a correspondência mostra que a advertência de Tiago não se limita às diferenças econômicas da ilustração.

4. Os pobres e os ricos

Depois da hipótese, Tiago passa à acusação:

“Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tiago 2:5-7).

A construção muda: não é mais “se… entrar”, mas “vós desonrastes”. A cena hipotética dá lugar ao que de fato ocorria, e as figuras são agora definidas. Os pobres que Deus escolheu são os que creram em Cristo, judeus e gentios, ricos na fé e herdeiros do reino, sem que a condição social os defina. Os desonrados eram, especificamente, os gentios que creram.

Os ricos são os da circuncisão que não creram. Foram eles que arrastaram os cristãos: “arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão” (Atos 8:3), diz Lucas de Saulo, que confessa: “castigando-os muitas vezes por todas as sinagogas, os obriguei a blasfemar” (Atos 26:11). Levaram Paulo ao tribunal (Atos 18:12). E Tiago os identifica no fim da epístola:

“Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. […] Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tiago 5:1, 6).

“O Justo” é o título que Pedro e Estêvão aplicam a Cristo diante dos judeus (Atos 3:14; 7:52). A censura de Tiago é, portanto, severa: os cristãos dentre os judeus honravam seus concidadãos não convertidos, que os oprimiam, e desprezavam os irmãos dentre os gentios, a quem Deus fizera ricos na fé.

5. O que era a riqueza de Israel

A oposição entre ricos e pobres já havia sido apresentada no primeiro capítulo, depois da menção ao “homem de ânimo dobre” (Tiago 1:8):

“Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação, e o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva” (Tiago 1:9-10).

Essa linguagem não é nova. Tudo o que a lei diz, “aos que estão debaixo da lei o diz” (Romanos 3:19), e as advertências dos Salmos alcançavam, antes de todos, os filhos de Israel. Neles, o rico é “o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas” (Salmos 52:7), e o povo é advertido: “se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” (Salmos 62:10). O Salmo 49, que se apresenta como parábola e enigma (v. 4), fala dos que “se gloriam na multidão das suas riquezas” e declara que “nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão” (vv. 6-7). Esse caminho é “a sua loucura” (v. 13), e quem o segue “irá para a geração de seus pais” (v. 19). Quem confiava em ser filho de Abraão confiava em prerrogativas que não podia remir. Por isso Deus “despediu vazios os ricos” (Lucas 1:53).

O mesmo princípio foi anunciado por Jeremias:

“Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o Senhor” (Jeremias 9:23-24).

Logo em seguida, o profeta declara que toda a casa de Israel é “incircuncisa de coração” (Jeremias 9:26).

A exaltação e o abatimento remetem à queda de Israel. A riqueza dos judeus era a descendência de Abraão e a posse da lei, nas quais confiavam para a salvação (Mateus 3:9; João 8:33). Essa confiança os levou a rejeitar o Messias e, com ele, a palavra de Deus, a verdadeira fortuna (Jeremias 8:9; Salmos 119:72). Por isso foram abatidos, como os profetas haviam dito dos altivos (Isaías 2:11-12): “pela sua incredulidade foram quebrados” (Romanos 11:20). Os gentios, que nada tinham de que se gloriar, receberam o evangelho e foram exaltados, pois “a sua diminuição”, a de Israel, é “a riqueza dos gentios” (Romanos 11:12). O abatimento deles não é mérito, mas a posição do “pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” (Isaías 66:2), posição que é também a dos judeus que creram. Ao rico, Tiago ordena gloriar-se em seu abatimento: abandonar o que tinha por ganho (Filipenses 3:7) e humilhar-se diante do Senhor para ser exaltado (Tiago 4:10), pois Deus não rejeitou o seu povo, e “ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Romanos 11:1, 5).

Paulo descreve essa riqueza com precisão. Ele podia confiar na carne mais do que qualquer outro: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, hebreu de hebreus, fariseu, segundo a justiça que há na lei irrepreensível. E conclui:

“Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo” (Filipenses 3:7).

Quem assim passa “como a flor da erva” não é simplesmente o dono de bens. “Toda a carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; mas a palavra do Senhor permanece para sempre” (1 Pedro 1:24-25). A verdadeira riqueza não consiste nas prerrogativas humanas, mas na palavra que Deus deu a conhecer e no reino que prometeu. Diante dela, as vantagens da origem ou da observância da Lei deixam de servir de fundamento para qualquer distinção:

“Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio […] pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo” (Efésios 2:14, 16).

“Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

6. Judeus e gentios: Cornélio e Antioquia

As dificuldades dos primeiros cristãos de origem judaica em aceitar plenamente a comunhão com os gentios mostram que a questão era real.

Na casa de Cornélio, Pedro declarou:

“Vós bem sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo” (Atos 10:28).

Mesmo assim, ao voltar a Jerusalém, foi questionado: “disputavam com ele os que eram da circuncisão, dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos, e comeste com eles” (Atos 11:2-3).

Mais tarde, em Antioquia, o próprio Pedro voltou a manifestar essa dificuldade:

“Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação” (Gálatas 2:12-13).

Paulo o repreendeu publicamente, porque “não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho” (Gálatas 2:14).

Note-se que a mesa era o lugar da distinção. O problema não era a falta de comida, mas com quem se comia. Também não era ignorar a verdade anunciada, pois Pedro já a havia reconhecido e proclamado. O problema era persistir numa conduta incompatível com aquilo que já se reconhecera acerca de Cristo. É exatamente essa contradição que Tiago denuncia: ter a fé de nosso Senhor Jesus Cristo “em acepção de pessoas”.

7. Um só pão, um só corpo: a ceia em Corinto

A mesma incompatibilidade aparece na igreja de Corinto. Paulo havia estabelecido o princípio:

“Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Coríntios 10:17).

“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres” (1 Coríntios 12:13).

Mas os coríntios, ao se reunirem, reproduziam as distinções que essa unidade excluía:

“Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm?” (1 Coríntios 11:21-22).

Nesse contexto, a advertência contra comer e beber indignamente, “não discernindo o corpo do Senhor” (1 Coríntios 11:29), não pode ser separada do desprezo pelos demais participantes da comunhão. Se todos participam do mesmo pão e constituem um só corpo, desprezar um dos membros é agir em contradição com a realidade que a própria ceia anuncia.

Na reunião solene havia os que tinham pão e vinho e os que nada tinham. Mas o ato de antecipar-se e comer cada um a sua ceia, desprezando a igreja de Deus e envergonhando os que nada tinham, podia esconder algo mais grave: como livre não compartilho com escravos; como judeu não me ajunto com gentios; como grego não me associo à mesa com bárbaros. O texto menciona apenas “os que nada têm”, mas as barreiras que Paulo declara derrubadas são essas (Colossenses 3:11).

O remédio apostólico confirma a natureza do problema:

“Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais para comer, esperai uns pelos outros. Mas, se algum tiver fome, coma em casa, para que não vos ajunteis para juízo” (1 Coríntios 11:33-34).

Paulo não institui ali uma distribuição de alimentos. Ordena que esperem uns pelos outros e manda comer em casa quem tem fome. A assembleia de Tiago e a ceia de Corinto tratam da mesma falta: honrar uns e envergonhar outros entre os que pertencem ao mesmo Senhor.

8. Vestes e comida: prescrição assistencial?

Tiago 2, Tiago 1:27, 1 João 3:17 e 1 Coríntios 11 são frequentemente lidos como fundamento bíblico da ação social da igreja. Pedrito Maynard-Reid, em Poverty and Wealth in James, lê a epístola em chave socioeconômica, com os ricos como opressores de fora da comunidade e Deus optando pelos pobres. Timothy Keller, em Generous Justice, sustenta que a salvação é só pela fé, mas que fazer justiça aos pobres é sinal inevitável da verdadeira fé. Ronald Sider e René Padilla, cada um a seu modo, tornaram-se referências da defesa da ação social no meio evangélico. Na leitura de 1 Coríntios 11, Gerd Theissen e Jerome Murphy-O’Connor deram destaque ao conflito social entre ricos e pobres à mesa.

Há verdade nessas observações: a situação dos pobres era real, e havia cristãos passando necessidade. O que se questiona é a passagem da descrição à prescrição. Quatro elementos dos próprios textos pesam contra essa leitura.

  • Primeiro, a função da imagem. Em Tiago 2:15-16, o irmão nu e sem mantimento compõe uma comparação, e o versículo seguinte a conclui: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (Tiago 2:17). O assunto é a fé. Palavras que não suprem a necessidade ilustram uma confissão sem obediência. E a fé examinada é a do versículo 19: “Tu crês que há um só Deus”. Quem crê em Deus, mas rejeita aquele que ele enviou, deixa de realizar a obra que Deus requer (João 6:29).
  • Segundo, a lei citada. Levítico 19:15 proíbe respeitar o pobre tanto quanto honrar o poderoso. A exigência é imparcialidade, não socorro.
  • Terceiro, os exemplos. As obras de Tiago 2 são as de Abraão oferecendo Isaque e de Raabe recolhendo os emissários (Tiago 2:21-25). Nenhuma é ato de caridade. São obediência àquilo que Deus falou ou fez conhecer. É nesse sentido que o homem “é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tiago 2:24).
  • Quarto, o remédio de Paulo. Em Corinto, como se viu, a solução foi esperar uns pelos outros e/ou comer em casa.

Tiago 1:27 tem a mesma direção. O versículo anterior fala de quem “cuida ser religioso” (Tiago 1:26), e “religião” é a palavra com que Paulo se refere ao judaísmo (Atos 26:5). A declaração é crítica dirigida aos que, por sua confissão, se achavam religiosos. O padrão pelo qual são confrontados é o da própria Lei e dos Profetas: “fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas” (Isaías 1:17). O texto não institui um programa cristão.

Isso não significa que o socorro aos necessitados seja indiferente. Paulo registra a recomendação recebida em Jerusalém, “que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência” (Gálatas 2:10), mas o faz para mostrar que nada foi acrescentado ao seu evangelho, e não para impor essa prática aos gálatas. A coleta para os santos de Jerusalém não foi tributo, “porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia” fazê-la (Romanos 15:26). Quando trata do assunto, Paulo diz: “Não digo isto como quem manda” (2 Coríntios 8:8), e “cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade” (2 Coríntios 9:7). Mesmo ao dizer “o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia” (1 Coríntios 16:1), regula o modo da coleta: cada um “conforme a sua prosperidade”.

Cada vez que a ajuda aparece ligada à doutrina, o que está em jogo é a unidade do corpo. “Se os gentios foram participantes dos seus bens espirituais, devem também ministrar-lhes os temporais” (Romanos 15:27). Em Jerusalém, a murmuração surgiu porque as viúvas dos gregos “eram desprezadas no ministério cotidiano” (Atos 6:1): a falta de alimento era, antes, uma distinção entre gregos e hebreus.

Portanto, assistir o necessitado é conduta que convém a quem crê (Efésios 4:28), adorno do evangelho e não seu conteúdo, nem causa de salvação. E não se confunde com o amor que Deus exige: “E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres […] e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria” (1 Coríntios 13:3). A igreja pode socorrer e ainda assim fazer acepção de pessoas. O que Tiago não admite é a fé de Cristo com distinção entre os que são de Cristo.

9. Não de palavra, mas em obra e em verdade

O apóstolo João trata da mesma contradição com termos próximos dos de Tiago:

“Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como reside nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas em obra e em verdade” (1 João 3:17-18).

João não emprega as figuras do rico e do pobre. Apresenta o exemplo de alguém que tem posses e não se dispõe a socorrer o irmão, e o faz sem instituir qualquer imposição. O contexto mostra a gravidade da exortação: quem odeia seu irmão é homicida (1 João 3:15), e o amor fraternal tem por referência Cristo, que deu a sua vida por nós (1 João 3:16). Logo adiante, João reúne em um só mandamento aquilo que Tiago também mantém unido:

“E o seu mandamento é este: Que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo nos deu mandamento” (1 João 3:23).

Esse é o evangelho, que Tiago chama de “lei perfeita da liberdade” (Tiago 1:25), e por ela os destinatários seriam julgados:

“Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade. Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo” (Tiago 2:12-13).

Nem João nem Tiago estabelecem um novo fundamento para a verdade anunciada. Ambos mostram que professar essa verdade exige uma conduta coerente com ela.

Conclusão

A acepção de pessoas, em Tiago 2, não é uma questão de etiqueta, nem um programa de assistência. É a contradição entre a fé que se professa e a maneira como se tratam aqueles que pertencem ao mesmo Senhor.

A cena da sinagoga mostra o absurdo de fazer distinção por aparência entre filhos do mesmo povo. A lei do amor ao próximo, que inclui o estrangeiro, transfere a questão para a relação entre judeus e gentios. Os ricos são os da circuncisão, que confiaram na descendência e na lei e rejeitaram o Cristo; os pobres são os que Deus fez ricos na fé. Cornélio, Antioquia e a ceia em Corinto mostram que essa contradição foi uma luta real da Igreja apostólica.

Quem reconhece Jesus Cristo como Senhor da glória não pode justificar o desprezo por aqueles que, pertencendo ao mesmo corpo, devem ser tratados como irmãos, seja qual for sua condição social ou sua origem. Ter a fé de nosso Senhor Jesus Cristo é crer no nome do Filho e amar os que nele creem: “Assim falai, e assim procedei”.

Referências utilizadas

KELLER, Timothy. Generous Justice: How God’s Grace Makes Us Just. New York: Dutton, 2010.

MAYNARD-REID, Pedrito U. Poverty and Wealth in James. Maryknoll: Orbis, 1987.

MURPHY-O’CONNOR, Jerome. St. Paul’s Corinth: Texts and Archaeology.

PADILLA, C. René. Mission Between the Times.

SIDER, Ronald J. Rich Christians in an Age of Hunger. 1977.

THEISSEN, Gerd. The Social Setting of Pauline Christianity.

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