“Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,” (Efésios 3:11).
“Que homem é este?”, perguntaram os discípulos depois da tempestade. A resposta das Escrituras tem mais de uma parte: é o homem semelhante aos seus irmãos, previsto por Moisés; é o Verbo eterno que se esvaziou e tomou a forma de servo; é o Cordeiro que foi obediente até a morte; e é o primogênito dentre os mortos, exaltado acima dos anjos, em quem habita corporalmente toda a plenitude, para que em tudo tenha a preeminência.
Introdução — “Que homem é este?”
Certa ocasião, enquanto Jesus atravessava o mar acompanhado de seus discípulos, uma tempestade ameaçou a embarcação. Embora já tivessem presenciado muitos de seus milagres, aqueles homens ficaram assustados com a violência dos ventos e das ondas e despertaram o Mestre, que dormia. Jesus repreendeu o vento e o mar, produzindo uma grande bonança, diante da qual os discípulos manifestaram sua admiração: “Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mateus 8:27).
A pergunta ultrapassa o espanto provocado pelo acontecimento, pois apresenta uma dificuldade que acompanha toda a investigação acerca da identidade de Jesus Cristo. Aquele que dormia na embarcação era verdadeiramente homem, sujeito ao cansaço e às necessidades humanas, mas as Escrituras atribuíam ao Senhor o poder de fazer cessar a tormenta e aquietar as ondas (Salmo 107:29). Reconhecer a humanidade de Jesus, portanto, não bastava para compreender quem era aquele que Deus havia enviado.
O testemunho das Escrituras permite reconhecer que o homem Jesus não começou a existir quando nasceu de Maria, pois aquele que se fez carne é o Verbo que estava com Deus e era Deus desde o princípio (João 1:1–14). Entretanto, a identidade eterna daquele que veio ao mundo não deve ser confundida com a condição humana que voluntariamente assumiu. A presente investigação examina, por isso, a continuidade de uma mesma pessoa em três condições: o Verbo eterno antes da encarnação, o servo durante os dias de sua carne e o Cristo ressuscitado e glorificado.
Essa distinção é indispensável à interpretação do esvaziamento anunciado por Paulo em Filipenses 2:6–8. A tese aqui desenvolvida sustenta que o Verbo efetivamente renunciou à glória e aos atributos infinitos de sua condição anterior para assumir a humanidade, sem que essa mudança implicasse o desaparecimento de sua identidade pessoal. A resposta à pergunta dos discípulos deverá, portanto, ser construída pelo testemunho das Escrituras, acompanhando aquele mesmo sujeito desde sua existência anterior à criação até sua glorificação após a morte.
1. O homem previsto por Moisés: um profeta do meio de seus irmãos
A primeira parte da resposta foi dada séculos antes da tempestade. Ao despedir-se de Israel, Moisés anunciou:
“O SENHOR teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” (Deuteronômio 18:15).
E o próprio Deus confirmou: “Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Deuteronômio 18:18).
A promessa responde a um pedido do povo. Em Horebe, Israel havia rogado para não ouvir mais a voz de Deus nem ver aquele grande fogo, para que não morresse (Deuteronômio 18:16). Deus aprovou o pedido e estabeleceu o modo como falaria: por meio de um homem, tirado do meio de seus irmãos, com as palavras de Deus na boca.
Segue-se que a aparência comum de Jesus não é um obstáculo ao seu reconhecimento, mas a marca do cumprimento. O Cristo não viria com o fogo do Sinai, nem em forma angelical; viria como um israelita entre israelitas. Por isso seus concidadãos podiam dizer que conheciam seu pai e sua mãe, e estranhar que ele afirmasse ter descido do céu (João 6:42). Por isso Filipe o anuncia a Natanael como aquele de quem Moisés escreveu na lei (João 1:45), e Pedro e Estêvão aplicam a ele, nominalmente, a profecia do profeta semelhante a Moisés (Atos 3:22; 7:37).
O mesmo vale para a promessa feita a Davi: o Cristo seria seu descendente, herdeiro de um trono (2 Samuel 7:12–16), nascido “da descendência de Davi segundo a carne” (Romanos 1:3). O autor de Hebreus resume a necessidade: “convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos” (Hebreus 2:17).
Que homem é este? Antes de tudo, um homem — e exatamente o homem que as Escrituras mandaram esperar: do meio de seus irmãos, semelhante a eles, com as palavras de Deus em sua boca.
2. O testemunho de Deus acerca de seu Filho
Se a aparência cumpria a profecia, ela não bastava para identificá-lo. A identidade de Jesus Cristo não deve ser estabelecida simplesmente pelo que os homens afirmavam acerca dele, pois o próprio Jesus apresentou o testemunho do Pai como fundamento do reconhecimento de sua missão.
Ao discutir com os judeus, declarou que as Escrituras testemunhavam a seu respeito (João 5:39). Posteriormente, afirmou que tanto seu próprio testemunho quanto o testemunho daquele que o enviou confirmavam sua identidade (João 8:17–18).
O evangelista João também esclarece que o testemunho de Deus é maior que o testemunho dos homens, precisamente porque Deus testemunhou acerca de seu Filho (1 João 5:9–10).
A importância desse testemunho também pode ser compreendida pela natureza profética das Escrituras de Israel, pois o próprio Jesus declarou que tudo quanto estava escrito a seu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos deveria cumprir-se (Lucas 24:44). Essa declaração complementa sua afirmação de que as Escrituras testificavam acerca dele (João 5:39), demonstrando que sua identidade e missão haviam sido anunciadas antes de sua manifestação entre os homens.
A referência aos Salmos merece particular atenção porque Davi foi expressamente identificado por Pedro como profeta, ao demonstrar que sua declaração acerca daquele que não seria deixado na morte anunciava a ressurreição de Cristo (Atos 2:29–31). Além disso, Davi, juntamente com os capitães do exército, separou os descendentes de Asafe, Hemã e Jedutum para profetizarem acompanhados de harpas, saltérios e címbalos (1 Crônicas 25:1). Os cânticos sagrados, portanto, também estavam relacionados ao ministério profético de Israel, razão pela qual seu testemunho deve ser considerado na investigação acerca daquele que Deus prometeu enviar.
Essa relação é essencial para a compreensão do evangelho, pois a confiança do homem não produz a verdade acerca de Cristo. A identidade do Messias não depende da intensidade da convicção daqueles que nele creem, mas daquilo que Deus revelou por meio das Escrituras e confirmou na obra realizada por seu Filho.
Quando Jesus perguntou aos discípulos quem os homens diziam ser o Filho do homem, recebeu respostas diferentes. Alguns o consideravam João Batista, outros Elias, Jeremias ou algum dos profetas. Entretanto, ao dirigir a pergunta aos próprios discípulos, ouviu de Pedro a declaração: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:16).
Jesus esclareceu que essa identificação não procedia da carne e do sangue, mas da revelação do Pai. A confissão de Pedro não resultava simplesmente da convivência pessoal com Jesus ou da observação de seus milagres, pois outras pessoas haviam presenciado suas obras sem reconhecer quem ele era.
A resposta de Pedro deve ser compreendida à luz das promessas messiânicas. Ao reconhecer Jesus como o Cristo, identificava nele o descendente prometido a Davi, aquele a quem Deus havia anunciado um reino duradouro (2 Samuel 7:12–16).
Entretanto, a revelação acerca de Jesus não se limita à sua descendência davídica, pois as Escrituras também demonstram que aquele homem possuía uma origem anterior à criação do mundo.
Que homem é este? O Cristo prometido, o Filho do Deus vivo — e isso se sabe pelo testemunho de Deus, não pela aparência do homem.
3. O Verbo eterno antes da encarnação
O testemunho de Deus vai além da descendência de Davi. João abre seu evangelho afirmando que, no princípio, o Verbo estava com Deus e era Deus, acrescentando que todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez (João 1:1–3). A declaração estabelece simultaneamente sua identidade divina, sua distinção pessoal daquele com quem estava e sua anterioridade em relação à criação. O Verbo não pertence à ordem dos seres que vieram à existência, pois é apresentado como aquele por intermédio de quem todas as coisas foram criadas.
O autor de Hebreus aplica a ele as palavras do salmista sobre aquele que fundou a terra, cujos anos não terão fim (Salmo 102:25–27; Hebreus 1:10–12). Paulo declara que ele é antes de todas as coisas (Colossenses 1:17). E o próprio Jesus, diante dos judeus, afirmou: “antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8:58).
Dessa maneira, o Verbo eterno não teve sua origem no nascimento de Jesus, tampouco passou a existir quando Maria concebeu. Aquele que veio ao mundo já existia antes da criação, embora ainda não estivesse manifestado na condição humana que posteriormente assumiria.
Na eternidade, portanto, o Verbo é Deus: uma das pessoas da divindade, igualmente eterna, onisciente, onipotente e onipresente. O nascimento em Belém não marca o início de sua existência; marca sua entrada no mundo dos homens. É nessa entrada que as Escrituras o apresentam como o Filho gerado: “o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lucas 1:35).
A distinção entre o Verbo e as criaturas não decorre simplesmente de sua existência espiritual, pois Jesus declara que Deus é espírito (João 4:24), enquanto as Escrituras também identificam os anjos como espíritos ministradores (Hebreus 1:14). A diferença fundamental está na origem e na condição desses seres: o Verbo existia antes de todas as coisas e participou da criação, enquanto os demais espíritos pertencem à ordem daquilo que foi criado. Sua identidade, portanto, não pode ser confundida com a de uma criatura espiritual que posteriormente recebeu autoridade ou poder divino.
Essa distinção também é importante para compreender o esvaziamento. Na interpretação aqui desenvolvida, o Verbo não deixou de existir quando renunciou aos atributos infinitos de sua anterior condição, pois o esvaziamento não significou a destruição do sujeito pessoal que os possuía. Foi esse mesmo sujeito preexistente que se fez carne, assumindo a condição humana sem que sua entrada no mundo constituísse o início de sua existência. A continuidade dessa identidade não poderia ser determinada simplesmente pela observação do homem Jesus, mas é conhecida pelo testemunho das Escrituras, que identificam aquele que nasceu de Maria com o Verbo que estava com Deus e era Deus desde o princípio.
Uma oração de Jesus reúne as duas condições em uma frase: “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” (João 17:5). Quem ora é o mesmo que possuía a glória; e, se a pede, é porque já não a tinha. Ninguém pede o que conserva.
Entretanto, o reconhecimento dessa origem eterna não autoriza confundir a condição anterior do Verbo com a existência humana de Jesus. Antes de fazer-se carne, não estava sujeito à fome, ao cansaço, ao sofrimento ou à morte, pois essas experiências pertencem à condição que assumiu quando veio ao mundo.
É precisamente essa distinção que torna necessário examinar o esvaziamento anunciado na Epístola aos Filipenses.
Que homem é este? Aquele que, antes de ser homem, estava com Deus e era Deus, e por quem o mar e os ventos foram feitos.
4. O servo: o esvaziamento do Verbo
Paulo declara que Cristo, subsistindo em forma de Deus, não considerou sua condição como algo de que devesse tirar proveito, mas esvaziou-se voluntariamente, tomando a forma de servo e fazendo-se semelhante aos homens. A declaração estabelece uma relação entre a condição que o Verbo possuía antes da encarnação e aquela que assumiu ao entrar no mundo:
“Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:6–8).
O verbo kenóō (κενόω) significa esvaziar, tornar vazio. Paulo estabelece um contraste entre a forma (morphḗ, μορφή) de Deus e a forma de servo, situando o esvaziamento na passagem de uma condição à outra. O mesmo apóstolo emprega uma figura semelhante quando afirma que Cristo, “sendo rico, por amor de vós se fez pobre” (2 Coríntios 8:9). Na interpretação desenvolvida neste estudo, essa pobreza não corresponde à simples ocultação de uma riqueza integralmente conservada, mas a uma renúncia efetiva à condição anteriormente possuída. Por isso, a expressão “tomando a forma de servo” deve ser considerada em sua relação com a realidade da humanidade assumida.
A compreensão desse esvaziamento exige reconhecer a diferença entre os atributos infinitos da divindade e as limitações próprias da existência humana. A onisciência, a onipotência e a onipresença não são capacidades que possam ser reduzidas a determinadas proporções sem perder sua infinitude. Se Jesus permanecesse naturalmente onisciente, não haveria limitação real de conhecimento; se permanecesse naturalmente onipotente, sua capacidade de agir não estaria sujeita às limitações humanas; e, se permanecesse onipresente, sua existência não estaria circunscrita à condição corporal que assumiu. A tese aqui defendida é que o Verbo renunciou efetivamente a esses atributos, em vez de apenas ocultá-los sob uma aparência humana.
Entretanto, a renúncia aos atributos infinitos não deve ser confundida com o desaparecimento daquele que os possuía. O sujeito que se esvaziou é o mesmo que tomou a forma de servo, nasceu de Maria, viveu entre os homens e posteriormente pediu ao Pai a glória que possuía antes que o mundo existisse (João 17:5). Sua identidade pessoal não começou com a encarnação, tampouco deixou de existir quando assumiu a humanidade. A distinção fundamental está entre quem ele é e a condição em que passou a existir.
Essa interpretação difere da cristologia clássica, segundo a qual o Verbo assumiu a natureza humana sem deixar de possuir a natureza divina e seus atributos. A divergência não consiste em negar sua preexistência ou sua verdadeira humanidade, mas em compreender o alcance do esvaziamento. Enquanto a interpretação clássica sustenta que a encarnação não implicou a perda dos atributos divinos, a leitura aqui desenvolvida considera que o Verbo efetivamente renunciou aos atributos infinitos de sua condição anterior, permanecendo, contudo, o mesmo sujeito pessoal. Sua condição mudou, não sua identidade.
A continuidade dessa identidade permite considerar o testemunho dos Salmos acerca da proteção divina dispensada àquele que confia no Senhor. O Salmo 91 declara: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará” (Salmo 91:1). O Salmo 121, por sua vez, apresenta o Senhor como a sombra protetora daquele que guarda, acrescentando que Deus preservará sua entrada e sua saída (Salmo 121:5–8). Ambos utilizam a figura da sombra para expressar a proteção divina, embora a correspondência entre esses textos e a trajetória de Cristo precise ser compreendida à luz de seu cumprimento nas Escrituras.
Na leitura cristológica aqui proposta, a referência ao esconderijo do Altíssimo e ao descanso à sombra do Onipotente pode ser relacionada à passagem do Verbo de sua condição anterior à existência humana. Aquele que estava com Deus antes da criação entrou no mundo e, tendo assumido verdadeiramente a forma de servo, passou a viver sob os cuidados do Pai. Jesus declarou: “Saí do Pai e vim ao mundo; outra vez, deixo o mundo e vou para o Pai” (João 16:28). Aquele que saiu do Pai foi o mesmo que entrou no mundo e anunciou seu retorno, de modo que tais acontecimentos não representam o surgimento ou o desaparecimento de sua identidade pessoal, mas a continuidade de sua existência em condições distintas.
Essa interpretação encontra um ponto de apoio adicional na utilização do Salmo 91 durante a tentação de Jesus. O adversário citou a promessa de que Deus daria ordens aos seus anjos para guardá-lo, procurando induzi-lo a colocar essa proteção à prova (Salmo 91:11–12; Mateus 4:5–7). Cristo recusou a proposta, não porque a confiança no cuidado divino fosse inadequada, mas porque não se deveria tentar o Senhor. O episódio estabelece uma relação expressa entre a promessa do salmo e a existência terrena de Jesus, cuja obediência se manifestou também na recusa de exigir uma demonstração extraordinária da proteção de Deus.
“Esvaziou-se, tomando”: não seria acréscimo em vez de renúncia?
Objeta-se que o esvaziamento é explicado pelo particípio seguinte — esvaziou-se tomando a forma de servo — e que, portanto, consistiu em acrescentar a humanidade, sem nada deixar.
O particípio diz como o esvaziamento se realizou, não que ele não tenha ocorrido. Tomar a forma de servo é o modo pelo qual aquele que estava em forma de Deus se esvaziou; se nada tivesse sido deixado, o verbo escolhido por Paulo não descreveria coisa alguma. O contexto confirma a leitura: o texto prossegue com humilhação, obediência e morte, e só então diz que “Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome” (Filipenses 2:9). Exaltar e dar pressupõem que ele estava em baixo e sem aquilo que recebeu. Soma-se a isso a oração de João 17:5: ele pede a glória que tinha.
Então Jesus, na terra, deixou de ser Deus?
Não. A divindade de Jesus está em quem ele é, e não nos atributos que exercia. As Escrituras o chamam Deus porque o Verbo se fez carne (João 1:1, 14), não porque o homem de Nazaré soubesse todas as coisas ou estivesse em todos os lugares. É por essa identidade que ele é o Emanuel, Deus conosco (Mateus 1:23), e é por ela que os anjos lhe devem adoração já quando é introduzido no mundo (Hebreus 1:6).
Atrelar a divindade de Cristo ao exercício dos atributos conduz a um dilema: ou ele os exercia, e então nunca esteve fraco, nunca ignorou coisa alguma e sua morte foi aparente; ou não os exercia, e então — por esse critério — não seria Deus. O dilema desaparece quando se reconhece que a identidade permanece na condição assumida: o Verbo é o mesmo em glória, em carne e em glória novamente.
“Eu, o SENHOR, não mudo”
Objeta-se com Malaquias 3:6 que Deus é imutável e, portanto, nenhuma das pessoas da divindade poderia deixar sua glória.
O versículo diz: “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos”. A segunda parte explica a primeira. O que não muda é a fidelidade de Deus à sua palavra: os filhos de Jacó não foram consumidos, apesar de sua infidelidade, porque Deus não volta atrás no que prometeu aos pais. O texto trata do caráter e do propósito de Deus, não de uma impossibilidade de agir.
A encarnação, longe de contrariar essa imutabilidade, é a sua demonstração. O propósito estabelecido em Cristo antes da fundação do mundo, e anunciado pelos profetas, foi cumprido à risca: Deus prometeu um homem do meio de seus irmãos, e o Verbo se fez carne. Mudança haveria se a palavra falhasse. Negar que Deus pudesse fazê-lo é que limitaria o seu poder: a encarnação decorre do poder de Deus, não de uma fraqueza.
O mesmo se diga de Hebreus 13:8: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente”. O mesmo afirma a identidade da pessoa e a constância de sua palavra — o contexto contrapõe o versículo às “doutrinas várias e estranhas” (Hebreus 13:9). Não afirma que sua condição jamais variou; do contrário, o texto negaria que ele esteve morto e agora vive (Apocalipse 1:18).
Quem sustentava todas as coisas enquanto ele dormia no barco?
Objeta-se que, se o Verbo se esvaziou de seu poder, a criação teria ficado sem sustento, pois dele se diz que todas as coisas subsistem por ele (Colossenses 1:17) e que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder (Hebreus 1:3).
A objeção esquece que Deus é três pessoas em uma só divindade. Quando uma delas deixa a glória e é introduzida no mundo, a divindade não se ausenta nem se reduz: o sustentáculo de todas as coisas permanece. O próprio Jesus o declara: “Meu Pai trabalha até agora” (João 5:17). E, em oração, dirige-se ao Pai como “Senhor do céu e da terra” (Mateus 11:25). Nos dias da sua carne, o homem Jesus não sustentava o universo; era sustentado, como todos os homens, por aquele a quem orava.
Quanto aos dois textos: Colossenses 1:17 identifica a pessoa — aquele que é antes de todas as coisas e por quem foram criadas —, e Hebreus 1:3 descreve aquele que, depois de fazer a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, a quem todas as coisas foram sujeitas (seção 11). Nenhum deles afirma que o homem cansado, adormecido na popa, governava naquele instante os ventos que o cercavam.
Que homem é este? O Verbo que se esvaziou: o mesmo que era rico e se fez pobre, que estava em forma de Deus e tomou a forma de servo.
5. O filho de Maria: o Unigênito introduzido no mundo
A entrada do Verbo no mundo ocorreu mediante a concepção no ventre de Maria, uma virgem de Israel, conforme o anúncio do anjo Gabriel de que o poder do Altíssimo a cobriria com sua sombra e de que aquele que dela nasceria seria chamado Filho de Deus, recebendo o trono de Davi, seu pai (Lucas 1:30–35). O mesmo Verbo que existia antes da criação assumiu, assim, a condição humana por iniciativa divina, recebendo o corpo que lhe fora preparado, nascendo de mulher e participando verdadeiramente da carne e do sangue (Hebreus 10:5; Gálatas 4:4; Hebreus 2:14).
Entretanto, a maternidade de Maria não constitui a origem da existência eterna do Verbo, pois aquele que nasceu dela já existia antes da criação. A distinção entre origem eterna e nascimento segundo a carne impede que o início da existência humana de Jesus seja confundido com o início da existência daquele que se fez carne.
A singularidade dessa concepção também não elimina as necessidades próprias da humanidade. Jesus nasceu, foi alimentado, cresceu e desenvolveu-se, participando verdadeiramente das condições que caracterizam a vida humana.
Essa humanidade era indispensável à obra que deveria realizar, pois somente participando efetivamente da carne e do sangue poderia morrer, conforme esclarece o autor de Hebreus (Hebreus 2:14).
Conclui-se que:
- Maria é mãe de Jesus Cristo-homem. Ela não é a origem daquele que no princípio estava com Deus. Deu à luz aquele que se esvaziou — o Verbo já em forma de servo —, e não a condição eterna da qual ele se despira. Isso não divide Cristo em dois: o filho de Maria é o Verbo, e por isso Isabel pôde chamá-la “mãe do meu Senhor” (Lucas 1:43). Mas a maternidade diz respeito à humanidade que ele assumiu, não à divindade que possuía. O nome Emanuel declara quem é o menino; não transfere à mãe a geração de Deus.
- Ele é o Unigênito. Introduzido no mundo, era o único gerado de Deus entre os homens. A condição de primogênito, como se verá, pertence à ressurreição.
- Ele é sem pecado, e isso não exigiu atributos divinos. Todos os descendentes de Adão nascem sob a condenação que passou a todos os homens (Romanos 5:12), porque procedem da semente de Adão. Jesus não procedeu dela: José não foi seu pai. Gerado por Deus no ventre de Maria, participou da carne e do sangue sem estar sob a condição herdada de Adão — como o próprio Adão, antes da ofensa, era homem e não era pecador. Daí em diante, sua justiça foi obediência: “em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hebreus 4:15). A tentação foi real justamente porque ele era homem.
Que homem é este? O filho de Maria, gerado por Deus: homem verdadeiro, fora da condenação de Adão, o Unigênito do Pai.
6. O homem aprovado por Deus: limites, dependência e milagres
Os Evangelhos não tratam o desenvolvimento de Jesus como aparência. “E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens” (Lucas 2:52). Aos doze anos, ouvia e interrogava os doutores (Lucas 2:46–47). Adulto, teve fome, sede e cansaço — dormia durante a tempestade. E declarou não saber o dia e a hora: “daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai” (Marcos 13:32).
O crescimento em sabedoria merece atenção porque demonstra que sua experiência humana compreendeu aprendizado e desenvolvimento do entendimento, não sendo adequado tratar todas as limitações registradas nos Evangelhos como meras representações exteriores. A descrição também demonstra a importância de sua formação entre os israelitas, povo ao qual Deus havia confiado as Escrituras e as promessas messiânicas.
Jesus não nasceu em um ambiente indiferente à revelação divina, mas no meio daqueles que aguardavam o cumprimento das promessas feitas aos patriarcas e aos profetas. Essa circunstância integra o propósito de Deus, pois o Messias deveria ser reconhecido mediante a Palavra anteriormente anunciada.
Entretanto, o crescimento em sabedoria e a dependência de Deus não significam que Jesus fosse apenas mais um homem que, mediante estudo religioso, alcançou uma condição excepcional. Sua identidade como Verbo eterno permanece indispensável ao evangelho, enquanto seu conhecimento das Escrituras e sua obediência pertencem à experiência humana que assumiu.
Sobre o poder com que agia, suas declarações são diretas: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma” (João 5:30); “o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” (João 14:10). Diante do túmulo de Lázaro, antes de ordenar que o morto saísse, agradeceu: “Pai, graças te dou, por me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre me ouves” (João 11:41–42). O autor de Hebreus generaliza: nos dias da sua carne, ofereceu orações e súplicas, e “foi ouvido” (Hebreus 5:7).
É assim que os apóstolos explicam seus sinais. Pedro o apresenta como “homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós” (Atos 2:22), e diz a Cornélio que ele andou fazendo o bem e curando “porque Deus era com ele” (Atos 10:38). Os milagres não exigem supor que o homem conservasse a onipotência: o Pai o ouvia sempre.
A atuação do poder divino por intermédio de um homem não significa que esse poder tenha se tornado um atributo natural daquele que realizou o sinal. Moisés estendeu a mão sobre o mar, mas foi o Senhor quem fez retirar as águas (Êxodo 14:21); Elias orou, e Deus respondeu com o fogo que consumiu o sacrifício (1 Reis 18:36–38). A comparação não equipara Jesus aos profetas quanto à sua identidade, pois ele é o Verbo preexistente que se fez carne, mas esclarece a distinção entre o poder daquele que realiza a obra e a condição humana daquele por intermédio de quem ela se manifesta. Pedro estabelece essa distinção ao apresentar Jesus como o homem aprovado por Deus mediante os sinais, prodígios e maravilhas que o próprio Deus realizou por intermédio dele (Atos 2:22).
Mas Moisés orava; Jesus ordenava. E perdoava pecados, e aceitava adoração
A diferença existe e precisa ser explicada, não diminuída. Jesus não é um profeta entre outros: é o Filho, e o Pai lhe entregou autoridade que não deu a servo algum. Mas o texto diz entregou:
- Perdoar pecados. Quando Jesus perdoou e curou o paralítico, a multidão “glorificou a Deus, que dera tal poder aos homens” (Mateus 9:8). O evangelista não corrige a multidão.
- Julgar. O Pai “deu-lhe o poder de também exercer o juízo, porque é o Filho do homem” (João 5:27).
- Dar a vida e retomá-la. “Tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” (João 10:18). E os apóstolos anunciam, sem exceção, que Deus o ressuscitou (Atos 2:24, 32).
- Delegar. Jesus deu aos doze poder sobre espíritos imundos e enfermidades (Mateus 10:1). Autoridade que se recebe e se repassa é autoridade conferida; a onipotência não se delega.
A adoração, por sua vez, é devida a ele por quem ele é. O homem que os discípulos adoraram no barco (Mateus 14:33) é o Verbo; a adoração dirige-se à pessoa, não aos atributos que estivesse exercendo.
“Vimos a sua glória” e “quem me vê a mim vê o Pai”
João afirma: “vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14). A glória que se viu no Verbo feito carne é qualificada pelo próprio versículo: graça e verdade. Não é a glória que ele tinha antes que o mundo existisse — essa ele ainda pediria ao Pai.
E quando disse a Filipe que quem o via, via o Pai (João 14:9), Jesus explicou em seguida como: “As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” (João 14:10). O Pai era visto nas palavras e nas obras que realizava por meio do Filho. Na encarnação, ele revelou Deus aos homens (João 1:18); a expressão plena da imagem pertence à sua condição glorificada (seção 11).
Que homem é este? Um homem a quem o Pai sempre ouve e a quem entregou autoridade. Os ventos obedeceram porque Deus era com ele — e era com ele porque este homem é o seu Filho.
7. O Ungido: as palavras de Deus em sua boca
O título Cristo corresponde ao hebraico Mashiach (מָשִׁיחַ), Ungido: aquele que Deus escolheu e enviou. Isaías descreve sua missão: o Espírito do Senhor está sobre ele, porque foi ungido para anunciar boas-novas (Isaías 61:1–2). Na sinagoga de Nazaré, Jesus leu essa passagem e declarou que ela se cumpria naquele dia (Lucas 4:16–21).
O episódio demonstra que sua missão estava relacionada à revelação anteriormente confiada a Israel. Jesus não anunciava um propósito estranho às Escrituras, mas identificava em sua própria pessoa o cumprimento daquilo que Deus havia prometido.
Aqui reaparece a promessa feita a Moisés: “porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar”. Jesus a reivindica quase literalmente: sua doutrina não é dele, mas daquele que o enviou (João 7:16); o Pai lhe deu mandamento sobre o que havia de dizer e falar (João 12:49–50); aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus (João 3:34).
A unção, portanto, identifica o Messias escolhido e enviado por Deus, cuja missão compreendia anunciar a Palavra divina e realizar as obras que lhe foram confiadas. Não significa que a humanidade de Jesus possuísse naturalmente atributos infinitos, pois Pedro declara que Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder, acrescentando que Jesus andou fazendo o bem e curando os oprimidos porque Deus era com ele (Atos 10:38). Assim, o poder manifestado durante seu ministério deve ser considerado em relação à ação divina e à condição daquele que foi enviado, sem transformar a unção em demonstração de onipotência própria da natureza humana.
Que homem é este? O profeta semelhante a Moisés, o Ungido: o homem que fala o que ouviu do Pai.
8. O servo obediente e o Cordeiro de Deus
O profeta que fala é também o servo que obedece. O Salmo 22 apresenta o justo que confia em Deus desde o ventre (Salmo 22:9–10), e Hebreus põe na boca de Cristo as palavras “Porei nele a minha confiança” (Hebreus 2:13). Sua confiança não foi representação. No Getsêmani, manifestou sua vontade diante do sofrimento e submeteu-se à do Pai (Lucas 22:42). “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” (Hebreus 5:8) — não porque antes fosse desobediente, mas porque obedeceu de fato, na condição em que obedecer custa.
A obediência de Cristo também pode ser compreendida à luz da figura do servo voluntário estabelecida na Lei de Moisés. Segundo Êxodo 21:5–6, o servo hebreu que, tendo chegado o momento de sua libertação, desejasse permanecer a serviço de seu senhor deveria manifestar expressamente essa vontade. Sua orelha seria então perfurada com uma sovela, junto à porta ou ao umbral, como sinal de que havia escolhido continuar servindo. Deuteronômio 15:16–17 retoma essa disposição e relaciona a decisão ao amor que o servo dedicava ao seu senhor e à sua casa. A permanência no serviço, portanto, resultava de uma escolha voluntária, e não simplesmente da obrigação anteriormente estabelecida.
Essa figura oferece uma correspondência importante para compreender a declaração profética do Salmo 40: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste” (Salmo 40:6). No hebraico, a expressão corresponde literalmente à ideia de cavar ou abrir os ouvidos, empregando um verbo diferente daquele utilizado na legislação acerca da perfuração da orelha do servo. Entretanto, a aproximação entre as passagens permite reconhecer uma relação significativa com a disposição voluntária para servir, especialmente porque o salmista acrescenta que vinha para cumprir a vontade de Deus, conforme estava escrito a seu respeito no volume do livro (Salmo 40:7–8). A importância da figura não está, portanto, apenas na abertura dos ouvidos para escutar, mas na obediência daquele que voluntariamente se apresenta para realizar a vontade de seu Senhor.
O escritor de Hebreus retoma esse testemunho e o atribui expressamente a Cristo, declarando que, ao entrar no mundo, disse: “Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste” (Hebreus 10:5). A formulação corresponde à antiga tradução grega do salmo, que apresenta o corpo preparado em lugar dos ouvidos abertos mencionados no texto hebraico. A correspondência deve ser considerada em relação ao propósito da passagem: aquele que voluntariamente se dispõe a servir apresenta-se para cumprir a vontade divina, e o corpo preparado constitui a condição humana na qual essa obediência seria realizada até a morte.
Essa relação esclarece o esvaziamento anunciado por Paulo. O Verbo, que subsistia em forma de Deus, não foi constrangido a assumir a condição de servo, mas esvaziou-se a si mesmo e tomou voluntariamente essa forma, fazendo-se semelhante aos homens (Filipenses 2:6–7). O mesmo sujeito que existia antes da criação entrou no mundo, recebeu um corpo e passou a viver sob as limitações da humanidade, não como alguém submetido involuntariamente a uma condição inferior, mas como aquele que se apresentou para cumprir o propósito do Pai.
O corpo preparado, portanto, não foi um simples revestimento exterior do Verbo, mas a humanidade verdadeira na qual sua obediência se manifestou mediante sofrimento e morte. O escritor de Hebreus esclarece que, mediante essa vontade, os cristãos foram santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas (Hebreus 10:9–10). Aquele que declarou ter vindo para cumprir a vontade divina foi o mesmo que ofereceu sua vida, demonstrando que a forma de servo assumida no esvaziamento encontrou sua expressão definitiva na obediência até a cruz.
A disposição voluntária de cumprir a vontade do Pai não permaneceu apenas como uma declaração daquele que entrou no mundo, pois encontrou sua expressão definitiva na obediência até a morte. Isaías já havia anunciado o sofrimento do Servo do Senhor, descrevendo-o como aquele que seria conduzido ao sacrifício sem oferecer resistência: “como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” (Isaías 53:7). A correspondência tornou-se manifesta quando João Batista identificou Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1:29), enquanto Pedro declarou que esse Cordeiro, sem defeito e sem mácula, havia sido conhecido antes da fundação do mundo e manifestado nos últimos tempos (1 Pedro 1:19–20).
A morte do Cordeiro exigia a humanidade real. Ele participou da carne e do sangue “para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte” (Hebreus 2:14). Deus não morre; anjos não morrem; era necessário um homem. Paulo diz que ele foi crucificado por fraqueza (2 Coríntios 13:4). Se o crucificado conservasse o poder ilimitado, não haveria fraqueza, e a cruz seria aparência.
Por isso o mediador é designado pela sua humanidade: “há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2:5). E por isso Paulo o contrapõe a Adão: pela desobediência de um homem muitos foram constituídos pecadores; pela obediência de um, muitos serão constituídos justos (Romanos 5:19). Adão era “a figura daquele que havia de vir” (Romanos 5:14).
Que homem é este? O servo do Senhor e o Cordeiro de Deus: o homem que obedeceu onde Adão desobedeceu, e que podia morrer porque era verdadeiramente homem.
9. O primogênito dentre os mortos
A morte não encerrou o propósito. “Deus o ressuscitou” é o centro do anúncio apostólico (Atos 2:24), e Pedro conclui o sermão de Pentecostes dizendo que a esse Jesus, crucificado, “Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2:36). Paulo afirma que aquele que nasceu da descendência de Davi segundo a carne foi declarado Filho de Deus em poder pela ressurreição dentre os mortos (Romanos 1:3–4).
A ressurreição, portanto, não deve ser considerada apenas como a reversão da morte, pois integra o propósito pelo qual o Verbo assumiu a humanidade. Lázaro voltou à vida e posteriormente morreu, enquanto Cristo, ressuscitado dentre os mortos, “já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele” (Romanos 6:9). A diferença evidencia que Jesus não retornou simplesmente à condição mortal anteriormente possuída, mas passou a uma existência glorificada e incorruptível. Aquele que voluntariamente tomou a forma de servo e foi obediente até a cruz recebeu de Deus uma condição que não possuía durante os dias de sua carne. A relação é estabelecida por Paulo quando, depois de apresentar a humilhação e a obediência de Cristo, declara: “Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Filipenses 2:9). A exaltação corresponde, assim, à glorificação daquele mesmo Jesus que havia recebido um corpo para cumprir a vontade do Pai.
Essa condição tem nome. O que veio ao mundo como Unigênito tornou-se, ao ressurgir, “o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Colossenses 1:18). Cumpriu-se a promessa do salmo: “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Salmo 89:27). E cumpriu-se a palavra de Isaías sobre o servo: “será exaltado, e elevado, e mui sublime” (Isaías 52:13). O servo desfigurado e o mui sublime são o mesmo.
O próprio ressuscitado descreve a mudança: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mateus 28:18). O que ele não tinha nos dias da sua carne, agora lhe é dado.
Paulo tira a consequência para o modo de conhecê-lo: “ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo” (2 Coríntios 5:16). Discute-se se “segundo a carne” qualifica Cristo ou o modo de conhecer. Em qualquer das leituras, o resultado é o mesmo: depois de sua morte e ressurreição (versículo 15), já não é adequado considerá-lo apenas como o homem que andou na Galileia. Quem para ali, conhece-o pela metade.
Que homem é este? O primogênito dentre os mortos, a quem Deus fez Senhor e Cristo.
10. O Senhor glorificado: acima dos anjos, semelhante ao Altíssimo
Qual é, então, a condição do Cristo ressuscitado? Aquele que participou da carne e do sangue não retornou à existência mortal, tampouco foi transformado em um anjo. As Escrituras apresentam o homem Jesus coroado de glória e honra, exaltado acima dos poderes celestiais e assentado à direita de Deus. Para compreender a singularidade dessa condição, é necessário distinguir a natureza dos homens, a posição dos anjos, a semelhança glorificada prometida aos filhos de Deus e a divindade eterna daquele que sujeitou todas as coisas a Cristo.
- Os homens. O salmista diz que Deus fez o homem “pouco menor do que os anjos” (Salmo 8:5). Foi essa a posição que o Verbo assumiu: “feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte” (Hebreus 2:9).
- Os anjos. Espíritos ministradores, superiores ao homem em força e poder, mas servos (Hebreus 1:14).
- Os semelhantes ao Altíssimo. A posição mais elevada abaixo de Deus — a que o Cristo glorificado ocupa como primogênito.
- Deus. O único eterno, onisciente, onipotente e onipresente.
A terceira posição é atestada por vários textos. Foi ela que o adversário cobiçou: “Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:14). O que ele quis tomar, Deus determinou conceder — ao homem, em Cristo. É a esperança do salmista: “eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” (Salmo 17:15), isto é, na ressurreição. E é o que se anuncia desde o princípio: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26).
Acima dos anjos
O Cristo glorificado foi “feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hebreus 1:4). A declaração integra o argumento iniciado pelo escritor quando afirma que Deus, tendo falado antigamente aos pais, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos profetas, nestes últimos dias falou por meio de seu Filho (Hebreus 1:1–2). A superioridade da revelação concedida em Cristo constitui, portanto, um elemento essencial dessa exposição, pois aquele por quem Deus falou não é simplesmente mais um mensageiro enviado a Israel, mas o próprio Verbo preexistente, por intermédio de quem todas as coisas foram criadas e a quem Deus constituiu herdeiro de tudo.
O substantivo grego ángelos (ἄγγελος) significa mensageiro e pode designar tanto homens encarregados de transmitir uma mensagem quanto seres celestiais. Sua utilização exige, portanto, atenção ao contexto, pois a identidade daquele que transmite a Palavra divina não pode ser determinada exclusivamente pelo vocábulo empregado. No início de Hebreus, o escritor estabelece expressamente um contraste entre os profetas, pelos quais Deus anteriormente falou aos pais, e o Filho, por meio de quem falou nestes últimos dias. A distinção reaparece quando adverte que, se a palavra anteriormente anunciada por mensageiros permaneceu firme, maior responsabilidade recai sobre aqueles que negligenciam a salvação proclamada inicialmente pelo próprio Senhor (Hebreus 2:1–3).
A importância desse contraste torna-se ainda mais evidente quando o escritor apresenta Moisés e Cristo. Moisés foi fiel em toda a casa de Deus, mas sua fidelidade correspondia à condição de servo, para testemunho daquilo que posteriormente seria anunciado. Cristo, entretanto, é apresentado como Filho sobre sua própria casa, constituída por aqueles que lhe pertencem (Hebreus 3:1–6). A distinção não diminui a importância do ministério de Moisés, pois sua atuação integrou o propósito divino de comunicar a Palavra aos filhos de Israel. Entretanto, demonstra que a condição daquele que serve como testemunha não se confunde com a posição daquele em quem o testemunho encontra seu cumprimento. Moisés anunciou a Palavra que recebeu, enquanto o Filho é apresentado como aquele por meio de quem Deus falou nestes últimos dias e a quem constituiu herdeiro de todas as coisas.
Essa relação também contribui para compreender as referências aos mensageiros associados à entrega da Lei. O Pentateuco identifica Moisés como mediador da comunicação divina, aquele que recebeu os mandamentos e os transmitiu ao povo. O próprio Moisés declarou que permaneceu entre o Senhor e Israel para anunciar a Palavra divina (Deuteronômio 5:5). Embora Atos 7:53 e Gálatas 3:19 mencionem mensageiros na transmissão da Lei, a utilização do termo ángelos exige considerar seu campo semântico e a função desempenhada pelos instrumentos humanos da revelação. A existência de uma tradição acerca da participação de seres celestiais no Sinai não altera o testemunho expresso das Escrituras de que Moisés recebeu e transmitiu os mandamentos ao povo.
Entretanto, a superioridade do Filho não se limita à revelação anteriormente comunicada pelos profetas ou à autoridade de Moisés. O escritor de Hebreus também reúne testemunhos acerca da filiação, da realeza e da exaltação daquele que se assentou à direita da Majestade nas alturas. Ao perguntar a qual dos anjos Deus alguma vez declarou “Tu és meu Filho” ou ordenou que se assentasse à sua direita, estabelece a singularidade daquele que recebeu uma posição não atribuída aos demais mensageiros (Hebreus 1:5–13). A excelência de Cristo compreende, assim, tanto a autoridade daquele por quem Deus anunciou sua Palavra quanto a dignidade do Senhor glorificado, superior aos seres celestiais.
Essa superioridade tornou-se manifesta na glorificação de Jesus, que, depois de sofrer a morte, foi ressuscitado e exaltado por Deus, estando à sua direita, “havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências” (1 Pedro 3:22). Paulo igualmente o apresenta acima de todo principado, potestade, poder e domínio, com todas as coisas sujeitas debaixo de seus pés (Efésios 1:20–22).
O escritor de Hebreus aprofunda essa declaração ao afirmar que Deus não sujeitou aos anjos o mundo futuro de que fala, recorrendo ao Salmo 8 para apresentar o homem que foi feito por pouco menor e posteriormente coroado de glória e honra (Hebreus 2:5–9). O cumprimento dessa profecia é identificado em Jesus, aquele que participou verdadeiramente da carne e do sangue, sofreu a morte e recebeu a posição glorificada que Deus lhe concedeu. Assim, a excelência do Cristo ressuscitado não se limita à superioridade de seu ensino sobre a revelação anteriormente transmitida pelos profetas, pois alcança também o governo do mundo futuro, que Deus sujeitou àquele mesmo homem que se fez servo e foi exaltado acima de toda autoridade.
Os verbos merecem atenção: feito, herdou, exaltou, deu. Nenhum deles descreve o Verbo na eternidade, que nada herdou e por ninguém foi feito. Descrevem o homem que morreu e ressuscitou.
Abaixo da divindade
A posição do Cristo glorificado é recebida e subordinada, e as Escrituras o dizem sem constrangimento:
- Paulo ressalva que, quando se diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, “claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas”; e que, no fim, “também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1 Coríntios 15:27–28).
- Ressuscitado, Jesus fala de “meu Deus e vosso Deus” (João 20:17); glorificado, repete quatro vezes “meu Deus” em uma só frase (Apocalipse 3:12).
- Está à destra de Deus, pois: “convém que o céu contenha” a Cristo até os tempos da restauração de tudo (Atos 3:21). Por isso ele disse que convinha que fosse, para que o Consolador viesse (João 16:7): sua presença com os seus até a consumação dos séculos (Mateus 28:20) dá-se pelo Espírito que enviou, não por ubiquidade de seu corpo.
O semelhante ao Altíssimo, portanto, não comporta a infinitude. É semelhante, não igual. Sobressai aos homens e aos anjos, e permanece distinto de Deus, de quem recebe o que tem.
Isso não desfaz o que se disse na seção 4. Quanto à identidade, ele é o Verbo que estava com Deus e era Deus. Quanto à condição, é o homem glorificado, primogênito de uma nova geração. A glória que pediu — “glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo” — foi-lhe dada na exaltação à direita de Deus: o que o Verbo possuía por si mesmo, o homem ressuscitado recebe do Pai.
“São iguais aos anjos”?
Objeta-se que Jesus disse dos ressuscitados que “são iguais aos anjos” (Lucas 20:36), o que excluiria uma posição superior.
O versículo delimita a comparação: “Porque já não podem mais morrer; pois são iguais aos anjos, e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição”. A igualdade diz respeito ao ponto em discussão com os saduceus — não morrem e não se casam —, não à posição. Quanto à posição, o mesmo versículo os chama filhos de Deus, e Paulo afirma que os santos hão de julgar os anjos (1 Coríntios 6:3).
Que homem é este? O homem que Deus exaltou acima dos anjos: semelhante ao Altíssimo, sujeito somente àquele que tudo lhe sujeitou.
11. A imagem do Deus invisível e a plenitude que nele habita
A compreensão da plenitude da divindade que habita corporalmente em Cristo exige considerar a condição daquele que foi ressuscitado e exaltado por Deus, pois as declarações de Paulo acerca de sua imagem, primogenitura e preeminência não podem ser dissociadas da ressurreição dentre os mortos. O apóstolo não apresenta apenas a identidade daquele que existia antes da criação, tampouco se limita a descrever a humanidade de Jesus durante sua existência terrena, mas anuncia a posição ocupada pelo Cristo glorificado no cumprimento do propósito divino.
É a respeito desse Cristo — ressuscitado e exaltado — que Paulo escreve aos colossenses:
“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Colossenses 1:15).
“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Colossenses 1:18–19).
“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2:9).
A plenitude
“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Colossenses 1:15).
“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Colossenses 1:18–19).
“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2:9).
A plenitude
A palavra plḗrōma (πλήρωμα) designa a plenitude, aquilo que completa ou preenche inteiramente. Para compreender seu significado na exposição de Paulo, é necessário relacionar a declaração acerca de Cristo ao propósito divino anunciado na criação e à condição daqueles que são feitos filhos de Deus.
Primeiramente, Paulo declara que foi do agrado do Pai que toda a plenitude habitasse em Cristo (Colossenses 1:19). Na interpretação desenvolvida neste estudo, essa declaração diz respeito à condição do homem glorificado, que recebeu de Deus a preeminência e a glória correspondentes à sua ressurreição. A identidade eterna do Verbo não começou a existir mediante uma concessão do Pai, pois aquele por intermédio de quem todas as coisas foram criadas já existia antes da fundação do mundo. A plenitude concedida deve, portanto, ser examinada em relação ao propósito que Deus realizou naquele que se tornou o primogênito dentre os mortos.
Em seguida, o apóstolo afirma que essa plenitude habita corporalmente em Cristo (Colossenses 2:9). A referência ao corpo merece atenção porque Paulo também declara que a reconciliação foi realizada mediante a morte de Cristo “no corpo da sua carne” (Colossenses 1:22). Embora a diferença de expressões não estabeleça, por si só, uma distinção temporal entre o Cristo mortal e o glorificado, ela permite considerar a humanidade daquele que morreu e posteriormente foi ressuscitado. A interpretação aqui proposta relaciona a plenitude corporal à condição glorificada do último Adão, em quem Deus realizou plenamente o propósito estabelecido para o homem.
A terceira observação decorre da relação estabelecida por Paulo entre a plenitude de Cristo e a condição dos cristãos: “E estais perfeitos nele” (Colossenses 2:10). A expressão traduz o particípio peplērōménoi (πεπληρωμένοι), do verbo plēróō, pertencente à mesma família de plḗrōma. O apóstolo apresenta aqueles que estão em Cristo como completos nele, declaração que deve ser considerada juntamente com a afirmação de que Deus aperfeiçoou para sempre os santificados mediante uma única oferta (Hebreus 10:14). Embora peplērōménoi e teteleiōken, empregado em Hebreus, sejam formas de verbos distintos, ambas contribuem para compreender a condição daqueles que foram alcançados pela obra de Cristo.
Essa perfeição não significa que os cristãos tenham adquirido os atributos infinitos de Deus, tampouco que seus corpos já estejam glorificados. Refere-se, antes, à nova condição recebida mediante a regeneração, pela qual foram feitos filhos de Deus e participantes de sua natureza (João 1:12–13; 2 Pedro 1:4). Não se trata de aperfeiçoar progressivamente a antiga condição herdada de Adão até alcançar o novo nascimento, mas de receber, mediante a Palavra de Deus, uma vida correspondente ao propósito estabelecido em Cristo. Os regenerados já pertencem à nova criação e estão completos naquele que é sua cabeça, embora ainda aguardem a manifestação corporal da semelhança que lhes foi prometida.
É precisamente nesse propósito que se encontra a relação entre plenitude e perfeição. Quando Deus declarou “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26), não anunciou a produção de outro ser eterno, onisciente, onipotente e onipresente, mas a constituição de uma criatura que manifestasse perfeitamente aquilo que Deus determinou expressar de si. Na interpretação desenvolvida neste estudo, a plenitude que habita corporalmente no Cristo glorificado corresponde à realização integral dessa finalidade: nele nada falta à imagem e à semelhança que Deus estabeleceu para o homem. A plenitude da imagem, portanto, não deve ser confundida com a infinitude daquele cuja imagem é manifestada.
A condição do Cristo ressuscitado permite compreender essa distinção. Jesus mostrou aos discípulos suas mãos e seus pés, declarou possuir carne e ossos e comeu diante deles, demonstrando a realidade de seu corpo (Lucas 24:39–43). Os apóstolos também testemunharam que comeram e beberam com ele depois da ressurreição (Atos 10:41). Entretanto, suas manifestações revelavam uma existência distinta daquela experimentada durante os dias de sua carne: desapareceu da presença dos discípulos em Emaús, apresentou-se no meio deles quando as portas estavam fechadas e foi elevado ao céu diante de suas testemunhas (Lucas 24:31; João 20:19; Atos 1:9). Esses acontecimentos demonstram uma condição glorificada que não pode ser reduzida às limitações do corpo mortal, embora não exijam atribuir-lhe a infinitude própria de Deus.
O corpo glorioso de Cristo, portanto, não representa a transformação de um homem finito em um ser infinito, mas a passagem da corrupção à incorrupção, da fraqueza ao poder e da condição mortal à imortalidade (1 Coríntios 15:42–44). Aquele que foi feito menor do que os anjos por causa do sofrimento da morte foi coroado de glória e honra, recebendo a preeminência acima de toda autoridade (Hebreus 2:9). Sua plenitude consiste, nessa interpretação, na perfeição da condição gloriosa que Deus estabeleceu para o primogênito, sem que lhe falte qualquer elemento necessário ao cumprimento desse propósito.
Assim se distinguem as condições examinadas neste estudo: antes da encarnação, o Verbo possuía os atributos infinitos de sua existência divina; durante os dias de sua carne, assumiu verdadeiramente a humanidade e suas limitações; depois da ressurreição, recebeu a condição glorificada na qual habita corporalmente a plenitude correspondente à imagem e à semelhança que Deus determinou manifestar no homem.
Se o finito não comporta o infinito, como a plenitude habita em um corpo?
A objeção decorre da identificação entre a plenitude da divindade e a posse de todos os atributos infinitos de Deus. Entretanto, na interpretação aqui desenvolvida, a plenitude que habita corporalmente em Cristo corresponde à manifestação perfeita da imagem divina no homem glorificado, e não à transformação de seu corpo em um ser onipresente, onisciente ou onipotente.
Essa distinção torna-se ainda mais importante quando se considera o destino daqueles que serão conformados à imagem de Cristo. Paulo declara que o Senhor transformará o corpo abatido dos cristãos para que seja conforme o seu corpo glorioso (Filipenses 3:21). Se os filhos de Deus receberão corpos semelhantes ao do primogênito, a plenitude da imagem que nele se manifesta deve ser considerada em relação à condição que lhes será comunicada. A semelhança prometida não significa que se tornarão seres infinitos, pois continuarão sendo filhos que receberam de Deus a vida e a glória, e não divindades independentes ou eternas em sua origem.
A perfeição da imagem reside, portanto, na correspondência integral com o propósito de Deus. Assim como uma imagem pode expressar fielmente aquilo que lhe foi determinado representar sem possuir a natureza ilimitada de seu modelo, também o homem glorificado manifesta perfeitamente a imagem divina sem se tornar o próprio Deus infinito. O argumento não depende apenas da relação vocabular entre plḗrōma e peplērōménoi, mas do propósito anunciado em Gênesis 1:26, da glorificação do último Adão e da promessa de que muitos filhos serão conformados à sua imagem.
A plenitude já não estava nele na cruz?
A objeção surge porque Paulo, depois de declarar que foi do agrado do Pai que toda a plenitude habitasse em Cristo, acrescenta que por meio dele todas as coisas seriam reconciliadas, mediante a paz estabelecida pelo sangue de sua cruz (Colossenses 1:19–20). A proximidade das afirmações pode sugerir que a plenitude mencionada já deveria ser compreendida como integralmente presente durante o sofrimento e a morte de Jesus.
Entretanto, o argumento de Paulo não se limita a apresentar os acontecimentos em sua ordem cronológica. O apóstolo reúne o propósito divino realizado por intermédio de Cristo, identificando-o como aquele em quem foram criadas todas as coisas, como a cabeça da igreja, como o primogênito dentre os mortos e como o instrumento da reconciliação. Na interpretação aqui desenvolvida, a plenitude corporal é considerada em relação à condição glorificada daquele que ressuscitou, enquanto sua morte constitui o acontecimento mediante o qual a reconciliação foi realizada. A distinção não significa que Colossenses 1:19–20 estabeleça expressamente essa sequência temporal, mas que a leitura da passagem deve levar em conta a preeminência atribuída ao primogênito dentre os mortos.
O corpo oferecido na cruz era verdadeiramente humano e sujeito à morte, pois foi mediante o sofrimento que Cristo cumpriu a vontade do Pai. O corpo glorificado, por sua vez, já não está sujeito à corrupção, e nele se manifesta a condição destinada ao primogênito. O mesmo Jesus que ofereceu sua vida é aquele que Deus ressuscitou, não havendo mudança de identidade pessoal entre o servo crucificado e o Senhor glorificado.
A imagem do Deus invisível
A declaração de que Cristo é a imagem do Deus invisível também deve ser examinada no contexto em que Paulo apresenta sua preexistência e participação na criação. O apóstolo afirma que nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, e que ele é antes de todas elas (Colossenses 1:15–17). Essas afirmações identificam aquele que existia antes da criação, mas não encerram a exposição, pois Paulo prossegue apresentando Cristo como a cabeça do corpo, o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência (Colossenses 1:18).
O mesmo sujeito é apresentado em condições distintas. Aquele por intermédio de quem todas as coisas vieram à existência é também aquele que participou da carne e do sangue, sofreu a morte e foi ressuscitado por Deus. Na leitura aqui proposta, sua identidade eterna explica quem ele é, enquanto sua ressurreição manifesta a condição na qual se realizou plenamente o propósito divino de constituir um homem à sua imagem e semelhança. A expressão “imagem do Deus invisível” deve, portanto, ser considerada em relação à unidade pessoal de Cristo e à condição gloriosa que ocupa como primogênito dentre os mortos.
A Epístola aos Hebreus apresenta uma relação semelhante ao declarar que o Filho é “o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3). O termo charaktḗr (χαρακτήρ) designa uma marca ou impressão correspondente àquilo que a produz, expressando a fidelidade da representação. O escritor prossegue afirmando que Cristo, depois de realizar a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas, tendo-se tornado superior aos demais mensageiros em razão do nome que herdou (Hebreus 1:3–4). A relação entre a imagem expressa e a exaltação permite compreender, na interpretação aqui desenvolvida, a condição do Cristo glorificado como manifestação perfeita daquilo que Deus determinou expressar de si no homem.
Aqui se completa o propósito anunciado na criação. Quando Deus declarou “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26), estabeleceu uma finalidade cuja realização não se esgotou na formação de Adão do pó da terra. Embora Gênesis 1:27 declare que o homem foi criado à imagem de Deus, Paulo identifica Adão como figura daquele que havia de vir (Romanos 5:14). A distinção é fundamental: o primeiro homem recebeu a condição terrena na qual o Verbo posteriormente se manifestaria, mas não a condição glorificada que o último Adão alcançaria mediante a ressurreição.
O primeiro homem foi formado do pó da terra e transmitiu aos seus descendentes a condição terrena, enquanto o último Adão, depois de participar verdadeiramente da carne e do sangue e sofrer a morte, ressuscitou como homem celestial, incorruptível e glorificado e transmitirá essa mesma condição aos muitos filhos trazidos à glória. Paulo estabelece essa correspondência ao declarar que, assim como trouxemos a imagem do terreno, também traremos a imagem do celestial (1 Coríntios 15:45–49). A imagem divina que se manifesta no Cristo glorificado, portanto, corresponde à perfeição da humanidade segundo o propósito estabelecido pelo Criador, e não à reprodução da infinitude daquele que a concedeu.
Essa realização não se encerra na glorificação do primogênito, pois Deus determinou que os filhos fossem conformados à imagem de seu Filho, para que ele fosse o primogênito entre muitos irmãos (Romanos 8:29). Aqueles que creem já foram feitos filhos de Deus, nascidos de sua Palavra e participantes da nova criação, mas ainda aguardam a redenção do corpo, quando serão revestidos de incorruptibilidade e terão seus corpos transformados conforme o corpo glorioso de Cristo (Romanos 8:23; Filipenses 3:21). A perfeição que receberam mediante a regeneração corresponde à nova condição espiritual estabelecida em Cristo, enquanto a glorificação futura completará a manifestação corporal da semelhança prometida.
Por isso, a expressão “expressa imagem” não deve ser confundida, nessa interpretação, com a infinitude de Deus. A perfeição da imagem não exige que ela possua a totalidade dos atributos daquele que representa, mas que corresponda sem deficiência ao propósito para o qual foi estabelecida. O Cristo ressuscitado manifesta plenamente a condição gloriosa destinada ao homem, e os muitos irmãos serão conformados à sua imagem sem que, por isso, se tornem oniscientes, onipotentes ou onipresentes. A plenitude é comunicável porque diz respeito àquilo que Deus determinou conceder aos seus filhos; a infinitude, por sua vez, pertence à existência divina do Verbo antes de seu esvaziamento.
A igreja e a manifestação da multiforme sabedoria de Deus
A glorificação do último Adão e a constituição dos muitos filhos conformados à sua imagem também devem ser consideradas à luz do propósito de Deus de reconciliar todas as coisas, tanto as que estão nos céus quanto as que estão na terra. Depois de declarar que foi do agrado do Pai que toda a plenitude habitasse em Cristo, Paulo acrescenta que, por meio dele, Deus reconciliaria consigo todas as coisas, estabelecendo a paz pelo sangue de sua cruz (Colossenses 1:19–20). A reconciliação, portanto, não constitui um propósito separado da plenitude anunciada pelo apóstolo, pois ambas as declarações integram a exposição acerca daquele que foi constituído cabeça do corpo, da igreja, e primogênito dentre os mortos.
Essa relação torna-se ainda mais evidente na Epístola aos Efésios, quando Paulo apresenta o mistério da vontade divina como o propósito de reunir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus quanto as que estão na terra, na dispensação da plenitude dos tempos (Efésios 1:9–10). O apóstolo não descreve simplesmente a restauração da condição anteriormente possuída por Adão, mas anuncia um propósito que alcança toda a criação e encontra seu centro naquele que Deus ressuscitou e exaltou acima de todo principado, potestade, poder e domínio. Ao sujeitar todas as coisas debaixo dos pés de Cristo, Deus o constituiu cabeça sobre todas as coisas para a igreja, que é o seu corpo, “a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” (Efésios 1:20–23). A declaração possui uma consequência que não deve ser desconsiderada: se todas as coisas foram sujeitas àquele que é a cabeça da igreja, os membros de seu corpo também participam, por sua união com ele, da posição de preeminência que lhe foi concedida. Por isso, Paulo afirma que Deus ressuscitou os cristãos juntamente com Cristo e os fez assentar nos lugares celestiais nele (Efésios 2:6), acrescentando, em outra ocasião, que os santos haverão de julgar os anjos (1 Coríntios 6:3). A igreja, portanto, não foi destinada a permanecer subordinada aos poderes celestiais, mas a participar da posição gloriosa de Cristo, acima da condição comum dos homens e dos anjos. Essa superioridade não estabelece uma autoridade independente para os membros, pois todas as coisas permanecem sujeitas a Cristo, que governa como cabeça de seu corpo. Antes, demonstra que o propósito divino compreende a exaltação do primogênito e a participação dos muitos irmãos na glória e na autoridade que Deus lhe concedeu.
A igreja ocupa, assim, uma posição singular nesse propósito, pois não constitui apenas uma reunião de pessoas que receberam o perdão dos pecados, mas o corpo daquele que foi glorificado como primogênito. Cristo é a cabeça, e os regenerados são seus membros, unidos a ele mediante a Palavra e destinados à conformidade com sua imagem. A perfeição que receberam em Cristo não significa que já possuam corpos glorificados, mas que foram constituídos filhos de Deus e participantes da nova criação. Quando seus corpos forem transformados conforme o corpo glorioso do Senhor, a semelhança anunciada desde o princípio será manifestada também naqueles que pertencem ao primogênito.
Entretanto, a realização desse propósito não se destina exclusivamente à contemplação dos homens, pois Paulo declara que Deus trouxe à luz a dispensação do mistério anteriormente oculto, “para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Efésios 3:9–10). A expressão demonstra que a igreja participa da manifestação de uma sabedoria divina que ultrapassa o conhecimento anteriormente concedido aos seres celestiais. Aqueles que contemplam a obra de Deus na criação são agora confrontados com o propósito realizado em Cristo, por meio do qual homens anteriormente sujeitos à morte são regenerados, constituídos membros de seu corpo e destinados à glória.
A multiforme sabedoria de Deus torna-se manifesta precisamente nessa realização: o Verbo por intermédio de quem todas as coisas foram criadas assumiu voluntariamente a condição humana, obedeceu até a morte e foi ressuscitado e exaltado como cabeça de uma nova geração. Mediante sua obra, Deus constitui uma família de filhos conformados à imagem do primogênito, fazendo da igreja a demonstração de seu propósito eterno. Aquele que havia sido feito menor do que os anjos por causa do sofrimento da morte recebeu autoridade acima deles, enquanto os muitos irmãos que lhe pertencem são chamados a participar de sua condição gloriosa. Desse modo, a igreja manifesta aos principados e potestades celestiais a sabedoria do propósito divino realizado em Cristo, sem que seus membros precisem se tornar seres infinitos para corresponder perfeitamente à imagem e à semelhança estabelecidas por Deus.
Essa demonstração também esclarece a relação entre a reconciliação e a consumação. A reconciliação foi realizada pelo sangue da cruz, enquanto a plena sujeição de todas as coisas ao governo de Cristo ainda aguarda o cumprimento anunciado pelas Escrituras. Quando todos os inimigos forem vencidos, inclusive a morte, o propósito divino terá alcançado sua consumação, e o Filho entregará o Reino ao Pai (1 Coríntios 15:24–28). A igreja, constituída pelos muitos filhos conduzidos à glória, permanecerá como manifestação da sabedoria de Deus, cuja obra culminará na perfeita realização daquilo que determinou desde o princípio.
A consumação: quando Deus será tudo em todos
A distinção entre a plenitude do Cristo glorificado e a infinitude da condição eterna do Verbo também permite compreender a consumação anunciada por Paulo. O apóstolo declara que Cristo deve reinar até que todos os inimigos sejam colocados debaixo de seus pés e que o último inimigo a ser destruído será a morte. Somente depois disso ocorrerá a entrega do Reino a Deus Pai, quando toda autoridade contrária ao propósito divino tiver sido aniquilada (1 Coríntios 15:24–26).
Paulo estabelece expressamente a distinção entre aquele a quem todas as coisas foram sujeitas e aquele que as sujeitou. Ao afirmar que Deus colocou todas as coisas debaixo dos pés de Cristo, ressalva que o próprio Deus está excetuado dessa sujeição. Em seguida, declara:
“E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1 Coríntios 15:27–28).
Essa declaração apresenta o término do governo exercido por Cristo na condição de homem glorificado a quem o Pai confiou todas as coisas. Enquanto o Reino lhe foi concedido e sua autoridade lhe foi dada, a condição do Filho ressuscitado permaneceu distinta daquela do Deus infinito, de quem tudo recebeu. Na consumação, quando a morte tiver sido vencida e os muitos filhos houverem alcançado a glória prometida, o propósito para o qual o Verbo assumiu a humanidade terá atingido sua realização definitiva.
Na interpretação cristológica desenvolvida neste estudo, essa consumação permite compreender o retorno do Verbo à condição que possuía antes de seu esvaziamento. Aquele que voluntariamente renunciou aos atributos infinitos para assumir a forma de servo e que, depois da ressurreição, recebeu a plenitude correspondente à imagem glorificada, terá cumprido integralmente o propósito estabelecido pelo Pai. A entrega do Reino e a sujeição final do Filho assinalam, nessa leitura, o encerramento da condição de semelhante ao Altíssimo como etapa do propósito divino, de modo que o mesmo sujeito possa ser considerado novamente na condição eterna que possuía antes da encarnação.
Convém observar que Paulo não descreve expressamente uma restituição dos atributos infinitos nesse momento, mas anuncia a sujeição final do Filho e a consumação do governo recebido. A compreensão do retorno à condição eterna do Verbo decorre da relação que esta interpretação estabelece entre sua preexistência, o esvaziamento efetivo, a glorificação e o cumprimento integral do propósito de Deus. Não se trata do surgimento de outra pessoa nem do desaparecimento daquele que foi glorificado, mas da permanência do mesmo sujeito ao longo de todas as condições examinadas.
A consumação também não desfaz a glória prometida aos muitos filhos, pois a conformidade deles à imagem do primogênito constitui parte do propósito que terá sido plenamente realizado. Os regenerados serão glorificados e permanecerão filhos de Deus, participantes da vida e da herança que lhes foram concedidas, sem que a perfeição dessa condição os transforme em seres infinitos. Assim, o homem glorificado é a manifestação perfeita da imagem divina destinada aos filhos, enquanto a infinitude corresponde ao Verbo eterno, cuja identidade atravessa toda a realização desse propósito.
Que homem é este? A expressa imagem do Deus invisível, em quem foi do agrado do Pai que habitasse toda a plenitude; o primogênito glorificado que conduz muitos filhos à glória e que, na consumação de todas as coisas, entrega o Reino ao Pai, para que Deus seja tudo em todos.
Conclusão — O mesmo, do princípio à glorificação
A pergunta que os discípulos fizeram diante da tempestade não poderia ser respondida apenas pela aparência daquele que dormia na embarcação, tampouco pela grandeza do milagre que haviam testemunhado. A identidade de Jesus Cristo somente pode ser compreendida mediante o testemunho das Escrituras, que apresentam o mesmo sujeito em condições distintas. O homem que participou verdadeiramente da carne e do sangue era o Verbo que estava com Deus e era Deus antes da criação, por intermédio de quem todas as coisas vieram à existência. Seu nascimento não constituiu o início de sua existência, assim como sua morte não representou o fim daquele que havia sido enviado ao mundo.
Ao tomar a forma de servo, o Verbo não assumiu simplesmente a aparência das limitações humanas, mas esvaziou-se voluntariamente da glória e dos atributos infinitos de sua condição anterior. Recebeu o corpo que lhe fora preparado, viveu em dependência do Pai e ofereceu sua vida em obediência até a morte. A continuidade de sua identidade não dependeu da permanência desses atributos, pois aquele que se humilhou foi o mesmo que anteriormente subsistia em forma de Deus. A humanidade de Jesus foi verdadeira, sua obediência foi efetiva e sua morte constituiu o cumprimento da vontade daquele que o enviou.
Deus, entretanto, ressuscitou aquele mesmo Jesus e o exaltou soberanamente, constituindo-o Senhor e Cristo, primogênito dentre os mortos e cabeça da igreja. O homem que havia sido feito menor do que os anjos por causa do sofrimento da morte foi coroado de glória e honra, recebendo a preeminência sobre todas as coisas. Nele se manifesta, conforme a interpretação desenvolvida neste estudo, a imagem glorificada correspondente ao propósito eterno de Deus, de modo que sua ressurreição não encerra apenas a história daquele que se fez servo, mas inaugura a condição gloriosa à qual os muitos filhos de Deus serão conformados.
Assim, a identidade do Verbo, a humanidade do servo e a glória do primogênito não pertencem a três pessoas diferentes, mas ao mesmo Jesus Cristo, cuja trajetória revela a fidelidade de Deus ao propósito anunciado pelas Escrituras. Aquele que foi visto em fraqueza e humilhação recebeu do Pai a glória e a autoridade que agora possui, enquanto seus irmãos aguardam a manifestação da semelhança que lhes foi prometida.
Que homem é este? O Verbo que se fez carne, o servo que foi obediente até a morte e o primogênito glorificado, em quem o propósito eterno de Deus encontra seu cumprimento e por meio de quem muitos filhos serão conduzidos à glória.

