O prêmio da soberana vocação anunciado em Filipenses 3:14 não deve ser confundido com a salvação já recebida mediante a fé no evangelho. Paulo apresenta a redenção como uma realidade presente dos que pertencem a Cristo, enquanto a esperança da vocação aponta para as riquezas da glória que serão manifestadas quando os filhos de Deus receberem corpos conformes ao corpo glorioso do primogênito. Essa distinção também esclarece por que o apóstolo declarou não haver alcançado a perfeição e, poucos versículos depois, incluiu-se entre os perfeitos.
1. O problema da perfeição em Filipenses 3
A declaração de Paulo em Filipenses 3 apresenta uma dificuldade interpretativa que não pode ser resolvida mediante a simples afirmação de que nenhum cristão é perfeito. Depois de reconhecer que ainda não havia alcançado a perfeição, o apóstolo prossegue afirmando que todos quantos já eram perfeitos deveriam ter o mesmo sentimento. As duas declarações aparecem no mesmo argumento e utilizam palavras pertencentes à mesma família vocabular, razão pela qual precisam ser consideradas em relação àquilo que Paulo havia recebido, ao conhecimento que possuía e à finalidade da vocação que ainda aguardava.
O apóstolo declara:
“Não que já a tenha alcançado, ou que já seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus” (Filipenses 3:12).
Poucos versículos depois, acrescenta:
“Por isso todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará” (Filipenses 3:15).
A dificuldade surge quando se atribui às duas ocorrências o mesmo significado, como se Paulo estivesse afirmando e negando uma condição idêntica. Entretanto, as Escrituras empregam a linguagem da perfeição em relação à realização de uma finalidade, à maturidade no entendimento e à condição daqueles que foram aperfeiçoados mediante a obra de Cristo. A interpretação exige identificar o referente de cada declaração, evitando transformar a perfeição em uma categoria exclusivamente moral.
O contexto de Filipenses 3 fornece os elementos necessários para essa investigação. Paulo havia abandonado sua antiga confiança na descendência israelita, na circuncisão e na justiça procedente da Lei, reconhecendo a excelência do conhecimento de Cristo. Ao mesmo tempo, aguardava a ressurreição dentre os mortos e prosseguia em direção ao prêmio da soberana vocação. A questão, portanto, não consiste simplesmente em saber se Paulo ainda cometia erros, mas em compreender a diferença entre a justiça que já possuía pela fé, o conhecimento de Cristo que reconhecia como excelente e a glória futura que esperava receber.
2. A excelência do conhecimento de Cristo e a justiça recebida pela fé
Antes de mencionar o prêmio da soberana vocação, Paulo apresenta aquilo que anteriormente constituía o fundamento de sua confiança religiosa. Circuncidado ao oitavo dia, pertencente ao povo de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus e fariseu quanto à Lei, o apóstolo possuía as credenciais que poderiam conferir reconhecimento entre seus compatriotas. Quanto à justiça que procedia da Lei, declarou ter sido irrepreensível, demonstrando a importância que anteriormente atribuía à sua posição religiosa (Filipenses 3:4–6).
Entretanto, aquilo que considerava lucro passou a ser reputado perda diante de Cristo. O apóstolo não estava simplesmente modificando sua avaliação acerca das vantagens sociais do judaísmo, mas reconhecendo que a justiça diante de Deus não procedia da descendência natural nem da observância da Lei. Por isso, afirmou considerar todas as coisas como perda pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, desejando ser achado nele, não possuindo justiça própria, mas aquela que vem de Deus pela fé (Filipenses 3:7–9).
Essa mudança é indispensável à interpretação do restante do capítulo. Paulo não apresenta a salvação como um prêmio que ainda deveria conquistar mediante esforços sucessivos, pois sua antiga confiança nas realizações religiosas havia sido substituída pela justiça que procede de Deus. O conhecimento de Cristo não representou a descoberta de um método superior de aperfeiçoamento moral, mas o reconhecimento da verdade pela qual os homens recebem a justiça divina mediante a fé.
A expressão “excelência do conhecimento de Cristo Jesus” também merece atenção porque não designa uma informação secundária acrescentada à experiência religiosa do apóstolo. O conhecimento de Cristo compreende a verdade anunciada pelo evangelho, mediante a qual Paulo reconheceu a insuficiência da justiça procedente da Lei e a suficiência daquele que Deus constituiu Senhor e Salvador. Conhecer Cristo implicava abandonar os fundamentos anteriores de confiança e reconhecer tanto a salvação nele concedida quanto o propósito divino que nele seria realizado.
Paulo também manifesta uma disposição de contínua atenção a essa verdade, sem que tal atitude exija concluir que desconhecia o evangelho que anunciava. Ao desejar conhecer Cristo e a virtude de sua ressurreição, o apóstolo não negava aquilo que já havia recebido, mas demonstrava que a excelência de Cristo não deveria ser transformada em motivo de presunção pessoal. Sua declaração posterior de que não julgava haver alcançado a perfeição pode ser compreendida à luz dessa modéstia sincera, embora o contexto também a relacione diretamente à finalidade futura da ressurreição.
Essa disposição encontra correspondência em outras declarações paulinas. O apóstolo desejava que os cristãos conhecessem o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que fossem cheios de toda a plenitude de Deus (Efésios 3:18–19). Também declarou que anunciava aos gentios as insondáveis riquezas de Cristo, reconhecendo a grandeza da graça que lhe fora concedida para esse ministério (Efésios 3:8). Embora conhecesse a excelência da revelação que recebera, Paulo não transformava esse conhecimento em motivo de presunção, pois reconhecia a profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus (Romanos 11:33; 2 Coríntios 12:7). Sua modéstia, portanto, não deve ser confundida com ignorância acerca da verdade que anunciava, mas compreendida diante da grandeza daquilo que Deus lhe havia revelado.
3. A salvação já recebida: redenção e remissão dos pecados
A distinção entre salvação e vocação torna-se mais evidente quando se considera a maneira como Paulo descreve a condição presente dos cristãos. Ao escrever aos colossenses, o apóstolo dá graças ao Pai, que os fez idôneos para participar da herança dos santos na luz, libertou-os do poder das trevas e os transportou para o Reino do Filho do seu amor (Colossenses 1:12–13). Em seguida, declara:
“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” (Colossenses 1:14).
A escolha do tempo verbal é significativa. Paulo não afirma que os cristãos aguardam adquirir a redenção mediante o cumprimento de determinadas exigências futuras, mas que já a possuem em Cristo. A remissão dos pecados integra a condição daqueles que foram libertados do poder das trevas e transportados para o Reino do Filho.
Essa salvação deve ser distinguida da glorificação corporal ainda aguardada. Os cristãos já foram feitos participantes da redenção concedida em Cristo, embora continuem possuindo corpos sujeitos à fraqueza, à corrupção e à morte. A permanência dessas limitações não significa que a redenção mencionada em Colossenses 1:14 esteja incompleta, pois Paulo emprega a mesma linguagem em contextos distintos, referindo-se também à redenção do corpo que ocorrerá futuramente (Romanos 8:23).
A salvação anunciada pelo evangelho é recebida mediante a obediência à verdade, que se manifesta na fé em Cristo. Paulo apresenta sua missão apostólica como destinada à obediência da fé entre as nações (Romanos 1:5), enquanto Pedro relaciona a purificação das almas à obediência à verdade (1 Pedro 1:22). Essa obediência não corresponde à realização de obras da Lei como fundamento da justificação, mas à resposta daquele que, ouvindo o evangelho, reconhece a verdade anunciada acerca de Cristo.
“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” (Efésios 1:13).
A fé, nesse sentido, não constitui uma obra meritória mediante a qual o homem adquire o direito de exigir a salvação de Deus. Crer em Cristo corresponde a receber a verdade anunciada pelo evangelho, por meio da qual o homem abandona sua antiga confiança e recebe a justiça concedida em Cristo. A salvação procede da graça divina, embora o evangelho exija ser crido e obedecido; não é recompensa pelo desempenho religioso daqueles que procuram estabelecer justiça própria.
Essa compreensão permite reconhecer que Paulo, ao escrever aos filipenses, não estava correndo em busca de uma salvação que ainda não recebera. A justiça procedente da fé já havia substituído sua antiga confiança na Lei, enquanto a esperança da ressurreição e da glória permanecia diante dele como finalidade da vocação divina.
4. Deus nos salvou e chamou com uma santa vocação
A distinção entre a salvação e a vocação encontra uma expressão particularmente importante na segunda epístola a Timóteo. Ao exortar seu cooperador a participar das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, Paulo identifica aquele que realizou a salvação e concedeu o chamado:
“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9).
A distinção entre salvação e vocação não se fundamenta apenas na ordem dos verbos empregados em 2 Timóteo 1:9, mas na relação estabelecida por Paulo entre o evangelho, a graça e o propósito eterno de Deus. No versículo anterior, o apóstolo exorta Timóteo a participar das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, identificando em seguida aquele que nos salvou e chamou com santa vocação, não segundo nossas obras, mas segundo seu propósito e graça concedida em Cristo antes dos tempos eternos. A salvação está relacionada ao evangelho, enquanto a vocação é apresentada em sua relação com o propósito estabelecido em Cristo, cuja realização compreende a glória destinada aos filhos de Deus.
Essa correspondência é desenvolvida em Efésios, onde Paulo declara que Deus escolheu os seus em Cristo para serem santos e irrepreensíveis, predestinando-os para a adoção de filhos segundo o beneplácito de sua vontade (Efésios 1:4–5). O apóstolo também apresenta o mistério desse propósito como a reunião de todas as coisas em Cristo, tanto as que estão nos céus quanto as que estão na terra, acrescentando que nele fomos feitos herança, predestinados segundo o conselho daquele que opera todas as coisas conforme sua vontade (Efésios 1:9–11). Entretanto, quando descreve como seus destinatários passaram a participar dessa realidade, afirma que ouviram a Palavra da verdade, o evangelho da salvação, creram e foram selados com o Espírito Santo da promessa, identificado como garantia da herança (Efésios 1:13–14). Desse modo, a salvação recebida mediante o evangelho e a herança vinculada ao propósito divino aparecem relacionadas, sem que precisem ser tratadas como realidades idênticas.
Essa relação também é expressamente apresentada em 2 Tessalonicenses 2:13–14, quando Paulo declara que Deus escolheu os cristãos para a salvação mediante a santificação do Espírito e a fé da verdade, acrescentando que os chamou pelo evangelho para alcançarem a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. A passagem relaciona a eleição para a salvação à verdade anunciada e recebida, enquanto apresenta a glória de Cristo como finalidade do chamado. Portanto, a distinção entre salvação e vocação não exige separar o chamado do evangelho, mas reconhecer que a obra divina compreende tanto a redenção já recebida quanto a herança gloriosa destinada aos filhos de Deus.
A relação entre salvação e vocação também deve ser considerada à luz da estrutura argumentativa empregada por Paulo. Em Efésios 1, o apóstolo parte das bênçãos espirituais já concedidas aos cristãos em Cristo e apresenta sua relação com a eleição, a predestinação, a redenção e o propósito eterno, esclarecendo posteriormente que seus destinatários ouviram a Palavra da verdade, creram e foram selados com o Espírito Santo da promessa (Efésios 1:3–14). Em Efésios 2, demonstra que aqueles que anteriormente estavam mortos em ofensas foram vivificados, ressuscitados e assentados com Cristo nas regiões celestiais, mediante a graça e por meio da fé (Efésios 2:1–10). Essa correspondência também aparece em Colossenses 3:1–4, onde a ressurreição com Cristo é apresentada como uma condição já estabelecida, enquanto a manifestação dos cristãos com ele em glória permanece futura.
Essa maneira de expor a obra divina oferece uma chave interpretativa para Romanos 8:28–30. Paulo identifica os chamados segundo o propósito como aqueles que amam a Deus e apresenta a finalidade da predestinação: serem conformes à imagem do Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Ao retomar os predestinados e declarar que foram chamados, justificados e glorificados, o apóstolo pode ser compreendido como fazendo uma retrospectiva da obra que os constituiu participantes de Cristo, em vez de estabelecer uma cronologia destinada a demonstrar uma escolha individual anterior à fé. Nessa leitura, a glorificação mencionada no versículo 30 relaciona-se à nova condição daqueles que foram ressuscitados com Cristo, enquanto a conformidade corporal à imagem do primogênito permanece como finalidade futura da vocação (Efésios 2:5–6; Colossenses 3:1; Romanos 8:23; Filipenses 3:21).
A finalidade desse propósito também é esclarecida quando Paulo declara ter recebido a graça de anunciar aos gentios as insondáveis riquezas de Cristo e manifestar o mistério anteriormente oculto em Deus, para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria divina seja conhecida dos principados e potestades celestiais (Efésios 3:8–10). O apóstolo identifica essa realização com o eterno propósito estabelecido em Cristo Jesus (Efésios 3:11). A vocação dos filhos de Deus, portanto, não se limita à remissão dos pecados, mas compreende sua participação na herança gloriosa estabelecida no primogênito, por meio de quem Deus realiza seu propósito de reunir todas as coisas. A salvação é recebida mediante a obediência ao evangelho; a vocação, segundo essa interpretação, expressa a finalidade que Deus determinou gratuitamente para os salvos: constituí-los filhos conformados à imagem de Cristo e participantes da glória que será manifestada na redenção de seus corpos.
O propósito foi estabelecido em Cristo antes dos tempos eternos e não dependeu de uma conquista posterior dos homens. Quando Deus determinou que seu Filho fosse o primogênito entre muitos irmãos, estabeleceu também a condição à qual esses irmãos seriam conformados. Por isso, a vocação é santa e gloriosa, relacionada à manifestação de uma nova geração cuja imagem corresponde à do último Adão ressuscitado.
A diferença entre salvação e vocação não representa a existência de duas salvações independentes, mas a distinção entre a redenção já concedida e o destino estabelecido para aqueles que a receberam. Os cristãos foram libertados mediante o evangelho e chamados a participar da glória do primogênito, de modo que o propósito divino ultrapassa a remissão dos pecados e alcança a futura transformação corporal dos filhos de Deus.
5. As riquezas da glória da herança dos santos
Paulo esclarece a finalidade dessa vocação quando ora para que os cristãos tenham iluminados os olhos de seu entendimento:
“Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos” (Efésios 1:18).
A oração é dirigida àqueles que já haviam crido em Cristo e recebido o selo do Espírito Santo da promessa. Portanto, Paulo não pede que sejam novamente salvos para somente depois adquirirem uma esperança, mas que compreendam a grandeza da vocação e da herança relacionadas à condição que já receberam.
A esperança da vocação deve ser considerada em sua relação com as riquezas da glória destinadas aos santos. Não se trata simplesmente da expectativa de abandonar o pecado ou deixar de pertencer ao mundo, pois os destinatários já haviam sido constituídos filhos de Deus mediante a fé. O conhecimento requerido pelo apóstolo diz respeito à finalidade gloriosa do propósito estabelecido em Cristo.
Essa relação permite compreender por que os regenerados necessitam crescer no entendimento sem que tal crescimento produza novas parcelas de filiação ou de santidade espiritual. A vocação lhes foi concedida segundo a graça e o propósito de Deus, mas a compreensão de sua grandeza pode desenvolver-se à medida que recebem e examinam a Palavra da verdade.
A própria oração de Paulo demonstra que a riqueza da herança não é conhecida simplesmente por observar a condição corporal presente dos cristãos. Eles continuam sujeitos às limitações humanas, enquanto a glória prometida permanece aguardando sua manifestação. O entendimento iluminado pela Palavra reconhece aquilo que Deus determinou realizar, mesmo antes de sua manifestação corporal.
Assim, a esperança da vocação não é uma salvação incerta que o cristão procura obter mediante suas realizações, mas a expectativa da glória que Deus estabeleceu gratuitamente para aqueles que já pertencem a Cristo.
6. O prêmio da soberana vocação em Filipenses 3
A esperança da soberana vocação também esclarece a declaração de Paulo de que desejava conhecer Cristo, o poder de sua ressurreição e a comunhão de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte (Filipenses 3:10). Essa relação já havia sido apresentada em Romanos 8:17, quando o apóstolo declarou que os cristãos, por serem filhos de Deus, são também herdeiros e coerdeiros de Cristo, participando de seus sofrimentos com vistas à glorificação juntamente com ele. O conhecimento de Cristo, portanto, compreende tanto a justiça já recebida mediante a fé quanto a esperança da glória destinada aos muitos irmãos do primogênito.
É nesse contexto que Paulo acrescenta: “Para ver se de alguma maneira eu possa chegar à ressurreição dentre os mortos” (Filipenses 3:11). A expressão não deve ser isolada da explicação que o próprio apóstolo apresenta em Romanos 8:24–25, quando afirma que fomos salvos em esperança e que aquilo que ainda não vemos aguardamos com paciência. A esperança se distingue da posse manifesta daquilo que foi prometido, razão pela qual a linguagem de expectativa não exige concluir que Paulo duvidasse da salvação já recebida. O apóstolo permanecia orientado para a ressurreição e a glorificação corporal que ainda aguardava.
A linguagem empregada por Paulo em Filipenses 3:14 também esclarece a relação entre a perseverança e a finalidade da vocação. O termo grego skopós (σκοπός), traduzido por “alvo”, indica o ponto para o qual o corredor dirige sua atenção, enquanto brabeîon (βραβεῖον) designa o prêmio que se encontra ao final da corrida. A expressão ánō klḗseōs (ἄνω κλήσεως), traduzida na Almeida Corrigida Fiel por “soberana vocação”, refere-se ao chamado do alto, cuja finalidade Paulo esclarece ao anunciar que os cristãos aguardam dos céus o Salvador que transformará seus corpos para serem conformes ao seu corpo glorioso (Filipenses 3:20–21). A metáfora da corrida representa, portanto, a perseverança daquele que prossegue em direção à finalidade estabelecida por Deus, sem transformar a glória prometida em pagamento por obras humanas. O apóstolo já havia afastado expressamente essa possibilidade ao declarar que sua justiça não procedia da Lei, mas da fé em Cristo (Filipenses 3:7–9).
Essa compreensão também impede que o prêmio da soberana vocação seja confundido com os galardões relacionados ao serviço cristão. Em 1 Coríntios 3:14, Paulo afirma que aquele cuja obra permanecer receberá recompensa, empregando o termo misthós (μισθός) no contexto da avaliação daquilo que cada edificador construiu sobre o fundamento, que é Cristo. Em Filipenses 3, entretanto, a argumentação não se concentra na avaliação das obras ministeriais, mas na ressurreição dentre os mortos e na conformidade corporal com o Cristo glorificado. Embora ambas as passagens utilizem a linguagem da recompensa, seus contextos apresentam finalidades distintas. O prêmio da soberana vocação corresponde, nessa interpretação, à glória que Deus determinou conceder aos muitos irmãos do primogênito, enquanto o galardão de 1 Coríntios 3:14 se relaciona à obra realizada sobre o fundamento já estabelecido.
A relação entre a ressurreição mencionada no versículo 11, o prêmio anunciado no versículo 14 e a transformação corporal descrita no versículo 21 permite identificar o conteúdo glorioso da soberana vocação. O prêmio corresponde à manifestação da semelhança com o Cristo ressuscitado, quando os muitos irmãos receberão corpos conformes ao corpo daquele que Deus constituiu primogênito dentre os mortos (Romanos 8:29). A salvação recebida pelo evangelho estabelece sua condição presente; a vocação concedida pela graça anuncia a finalidade para a qual foram chamados; e a glorificação corporal manifestará aquilo que Deus determinou realizar nos muitos irmãos de Cristo.
7. Por que Paulo se inclui entre os perfeitos?
A declaração de Filipenses 3:15 deve ser considerada à luz de toda essa exposição. Depois de reconhecer que não julgava haver alcançado a finalidade para a qual fora alcançado por Cristo, Paulo afirma que todos quantos já eram perfeitos deveriam compartilhar o mesmo sentimento.
O contraste não exige compreender a perfeição como uma condição espiritual que o apóstolo possuísse apenas parcialmente. Paulo já havia recebido a justiça procedente da fé e pertencia à geração estabelecida em Cristo. Entretanto, ainda aguardava a manifestação da glória correspondente à soberana vocação, razão pela qual prosseguia em direção ao alvo.
A declaração de Paulo de que ainda não havia sido aperfeiçoado, seguida da afirmação de que ele e seus irmãos já eram perfeitos, deve ser compreendida à luz da finalidade em relação à qual a perfeição é considerada. O termo grego téleios não designa necessariamente uma condição de absoluta impecabilidade moral, mas pode indicar aquele que é completo, maduro ou adequado a determinado propósito. Assim, a perfeição deve ser examinada segundo a finalidade estabelecida no contexto, evitando atribuir a todas as ocorrências o mesmo significado.
Essa distinção aparece quando Paulo declara que anuncia sabedoria entre os perfeitos (1 Coríntios 2:6), quando apresenta a finalidade de seu ministério como a de apresentar todo homem perfeito em Cristo Jesus (Colossenses 1:28) e quando descreve a edificação da igreja até que todos cheguem à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Efésios 4:13). O escritor de Hebreus também identifica os perfeitos como aqueles cujos sentidos foram exercitados para discernir tanto o bem quanto o mal (Hebreus 5:14), enquanto Tiago recomenda que a paciência tenha sua obra perfeita, para que seus destinatários sejam perfeitos e completos (Tiago 1:4). Nessas passagens, a linguagem da perfeição relaciona-se à realização de uma finalidade, à compreensão da verdade e à maturidade daqueles que dela participam.
Essa perspectiva também esclarece a atitude de Paulo em Filipenses 3. Embora tivesse recebido a justiça procedente da fé e conhecesse a excelência da revelação de Cristo, o apóstolo não fazia desse conhecimento motivo de presunção. Ao declarar que não julgava haver alcançado a perfeição, reconhecia, com sincera modéstia, que a excelência do conhecimento de Cristo ultrapassava qualquer pretensão humana de conhecimento exaustivo. Sua declaração não significa que desconhecesse a verdade do evangelho ou que lhe faltasse a condição espiritual recebida mediante Cristo. Ao mesmo tempo, o contexto conserva a esperança da ressurreição e da glorificação corporal como finalidade ainda não alcançada.
Essa distinção também se manifesta na construção grega empregada por Paulo. Em Filipenses 3:12, o apóstolo utiliza teteleiōmai (τετελείωμαι), forma verbal que expressa o aperfeiçoamento ou a realização de uma finalidade; no versículo 15, emprega o adjetivo téleioi (τέλειοι), para identificar aqueles que são perfeitos, completos ou maduros. A diferença gramatical não estabelece, isoladamente, os sentidos de cada ocorrência, mas evidencia a necessidade de examinar a finalidade considerada em cada declaração.
Quando Paulo acrescenta que todos quantos já eram perfeitos deveriam ter o mesmo sentimento, emprega o verbo phronéō, relacionado ao modo de pensar, compreender e orientar o entendimento. A exortação dirige-se àqueles que possuem uma condição estabelecida em Cristo e devem reconhecer a finalidade dessa condição, compartilhando a mesma compreensão acerca da justiça recebida pela fé e da esperança da soberana vocação. Por isso, o apóstolo admite que alguns possam compreender determinados aspectos de maneira diferente, acrescentando que Deus lhes revelará aquilo que ainda necessitam entender (Filipenses 3:15).
A finalidade do ensino apostólico é precisamente conduzir os cristãos a essa unidade de entendimento. Paulo recomenda aos coríntios que tenham o mesmo sentimento e vivam em paz (2 Coríntios 13:11), enquanto declara aos colossenses que anuncia Cristo, admoestando e ensinando todo homem em toda a sabedoria, para apresentar todo homem perfeito em Cristo Jesus (Colossenses 1:28). O homem perfeito, considerado segundo a finalidade da edificação do corpo, corresponde à medida da estatura completa de Cristo, conforme a expressão empregada em Efésios 4:13. Essa perfeição funcional não exige que todos possuam conhecimento exaustivo, mas que estejam devidamente orientados pela verdade de Cristo, reconhecendo o propósito para o qual foram chamados.
Portanto, a afirmação de que os cristãos são perfeitos não deve ser transformada em declaração de impecabilidade moral, assim como a necessidade de alcançar unidade no entendimento não significa que a regeneração seja uma obra incompleta. A condição concedida em Cristo estabelece a posição dos filhos de Deus, enquanto o conhecimento da verdade os capacita a compreender e manifestar a finalidade dessa condição. A exortação de Filipenses 3:15–16 procura precisamente conservar os irmãos nessa orientação comum, para que andem segundo a verdade que receberam, mantendo diante de si a esperança da glorificação prometida.
No versículo seguinte, Paulo recomenda que, naquilo a que já chegaram, continuem andando de maneira correspondente. O verbo stoichéō expressa a ideia de caminhar ordenadamente, conservando o passo segundo determinada orientação. Na leitura mais longa do texto grego, presente no Texto Recebido e refletida na Almeida Corrigida Fiel, aparecem também as expressões “segundo a mesma regra” e “sintamos o mesmo”, que explicitam a relação entre a orientação adotada e a disposição de entendimento. Essas expressões não integram a leitura mais curta adotada nas principais edições críticas modernas, mas a ideia fundamental permanece no verbo stoichéō: os cristãos devem continuar caminhando coerentemente com a verdade que receberam.
“Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo” (Filipenses 3:16).
A correspondência com Gálatas 6:15–16 é significativa, pois Paulo também relaciona o andar segundo uma regra à realidade da nova criatura, em contraste com a confiança na circuncisão. Desse modo, o mesmo sentimento recomendado aos filipenses não deve ser interpretado como submissão uniforme aos preceitos da Lei, mas como disposição comum diante da verdade do evangelho. A diversidade no desenvolvimento do entendimento não estabelece distintas condições espirituais entre os filhos de Deus, assim como a necessidade de caminhar segundo a verdade não transforma a obediência prática em causa da regeneração.
8. Tornar firme a vocação e a eleição
A exortação de Pedro para que os cristãos procurem fazer cada vez mais firme sua vocação e eleição somente pode ser compreendida quando considerada à luz daquilo que Deus já lhes havia concedido. O apóstolo inicia sua exposição declarando que o poder divino deu tudo quanto diz respeito à vida e à piedade, mediante o conhecimento daquele que os chamou por sua glória e virtude. Acrescenta que receberam grandíssimas e preciosas promessas, pelas quais se tornaram participantes da natureza divina, escapando da corrupção que existe no mundo pela concupiscência (2 Pedro 1:3–4). Portanto, antes de recomendar qualquer diligência, Pedro estabelece a condição dos destinatários e a finalidade do chamado que receberam.
A partir desse fundamento, o apóstolo recomenda que os cristãos acrescentem à fé a virtude, à virtude o conhecimento e, sucessivamente, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, o amor fraternal e o amor (2 Pedro 1:5–7). Essas qualidades apresentam correspondência com o fruto do Espírito descrito por Paulo em Gálatas 5:22–23, não porque as duas enumerações sejam idênticas, mas porque ambas demonstram os resultados que devem manifestar-se naqueles que receberam a verdade de Deus. A diligência recomendada por Pedro não constitui um processo pelo qual os cristãos adquirem gradualmente a natureza divina, pois o apóstolo já havia declarado que se tornaram participantes dessa natureza mediante as promessas recebidas. Trata-se do fruto produzido pela Palavra, à medida que o cristão permanece nela, exercita seu entendimento e orienta sua maneira de proceder segundo a verdade.
Essa relação entre a Palavra e seus frutos foi apresentada por Jesus na parábola do semeador, quando identificou a semente como a Palavra de Deus e descreveu aqueles que, ouvindo-a com coração bom e honesto, a conservam e dão fruto com perseverança (Lucas 8:11–15). O fruto não é a causa da semente, mas o resultado de sua permanência e desenvolvimento. Da mesma maneira, as qualidades recomendadas por Pedro não produzem a regeneração, mas manifestam os efeitos da verdade recebida, que deve permanecer operante no entendimento e na conduta dos filhos de Deus.
O próprio apóstolo esclarece a finalidade da enumeração ao afirmar que, se essas qualidades existirem e abundarem nos cristãos, não os deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo (2 Pedro 1:8). A esterilidade é apresentada em relação ao conhecimento de Cristo, demonstrando que a verdade recebida deve produzir os resultados correspondentes à sua finalidade. Aquele que conhece a Palavra e nela se exercita desenvolve discernimento e manifesta o fruto desse conhecimento, enquanto a ausência dessas qualidades evidencia uma vida que não corresponde adequadamente à verdade recebida.
A advertência seguinte confirma a importância do conhecimento, pois Pedro declara que aquele em quem faltam essas qualidades é cego, não consegue ver ao longe e se esqueceu da purificação dos seus antigos pecados (2 Pedro 1:9). O apóstolo não afirma que a purificação deixou de ter ocorrido, mas que o indivíduo se esqueceu dela. A deficiência descrita envolve, portanto, a perda de discernimento acerca da condição anteriormente recebida. A imagem daquele que não consegue enxergar longe também se relaciona, nessa interpretação, à incapacidade de conservar diante de si a esperança das promessas divinas, cuja manifestação gloriosa permanece futura.
É nesse contexto que Pedro recomenda aos irmãos que procurem fazer cada vez mais firme sua vocação e eleição, acrescentando que, fazendo essas coisas, nunca jamais tropeçarão (2 Pedro 1:10). O verbo grego ptaíō, traduzido por tropeçar, deve ser interpretado segundo a advertência que o antecede. A esterilidade no conhecimento, a cegueira e o esquecimento da purificação demonstram o perigo de perder a firmeza na verdade recebida. Por isso, o tropeço pode ser compreendido, no desenvolvimento da epístola, como o desvio que compromete a fidelidade à Palavra e à esperança da vocação, sem que essa interpretação elimine as consequências práticas de tal desvio.
Essa relação encontra confirmação no encerramento da mesma epístola, quando Pedro recomenda aos cristãos que se guardem para não serem arrastados pelo erro dos homens abomináveis e decaírem de sua firmeza, acrescentando que devem crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pedro 3:17–18). O crescimento recomendado não constitui a aquisição progressiva da natureza divina, mas o desenvolvimento da compreensão e da firmeza daqueles que já receberam as promessas. A Palavra, quando compreendida e exercitada, produz frutos que se manifestam no indivíduo, preservando-o da esterilidade e do erro.
A declaração de que, fazendo essas coisas, os cristãos receberão amplamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo também precisa ser considerada em sua relação com a diligência recomendada (2 Pedro 1:11). O apóstolo não apresenta uma entrada desvinculada da perseverança, mas tampouco afirma que o propósito eterno de Deus seja produzido pelas obras humanas. A expressão “porque assim” relaciona a entrada prometida à firmeza daqueles que permanecem na verdade, enquanto a origem da vocação continua sendo a graça e as promessas anteriormente concedidas por Deus.
Desse modo, tornar firme a vocação e eleição não significa tornar verdadeiro, mediante esforços humanos, o propósito que Deus estabeleceu em Cristo antes dos tempos eternos. Significa permanecer na verdade recebida, exercitando o conhecimento de Cristo para que a Palavra produza os frutos correspondentes à nova condição espiritual. Aquele que perde de vista as promessas e se esquece da purificação recebida torna-se infrutífero no conhecimento; aquele que permanece diligente na Palavra conserva a firmeza necessária para prosseguir em direção à finalidade gloriosa da vocação.
A relação entre conhecimento, fruto e esperança esclarece, portanto, a exortação de Pedro. Os regenerados já receberam as promessas e foram feitos participantes da natureza divina, mas precisam conservar a compreensão daquilo que receberam e exercitar-se na verdade para que seu conhecimento não permaneça estéril. A diligência não produz a filiação, mas manifesta seus frutos; a firmeza não estabelece o propósito eterno, mas preserva o cristão na esperança correspondente à vocação que lhe foi concedida.
9. A redenção do corpo e a manifestação dos muitos irmãos
A distinção entre redenção presente e glorificação futura encontra uma de suas expressões mais claras em Romanos 8. Paulo declara que os cristãos receberam o Espírito de adoção, pelo qual clamam “Aba, Pai”, e acrescenta que, sendo filhos, são também herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo (Romanos 8:15–17).
A filiação e a herança são apresentadas como realidades presentes daqueles que receberam o Espírito. Entretanto, Paulo acrescenta que, sendo filhos, os cristãos são herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo, destinados a ser glorificados juntamente com ele (Romanos 8:17). O apóstolo prossegue declarando que as aflições do tempo presente não podem ser comparadas com a glória que será revelada, relacionando essa manifestação à esperança da criação e à redenção do corpo (Romanos 8:18–23). Desse modo, a condição de herdeiro já pertence aos regenerados, enquanto a manifestação corporal da herança permanece futura.
Essa distinção também esclarece a relação entre a glorificação mencionada em Romanos 8:30 e a esperança apresentada anteriormente no mesmo capítulo. A glorificação já recebida corresponde, na interpretação aqui desenvolvida, à participação espiritual na ressurreição de Cristo, pela qual os regenerados foram vivificados e ressuscitados juntamente com ele (Romanos 6:8–11; Efésios 2:5–6; Colossenses 3:1). Essa condição presente não deve ser confundida com a glória que ainda será revelada, anunciada em Romanos 8:18 e relacionada à futura manifestação dos filhos de Deus e à redenção de seus corpos (Romanos 8:19–23). As duas realidades pertencem ao mesmo propósito: os cristãos já são filhos e coerdeiros de Cristo, conforme Romanos 8:17, mas ainda aguardam a manifestação corporal da glória correspondente à sua vocação.
Não existe contradição entre possuir a redenção em Cristo e aguardar a redenção do corpo. A primeira declaração refere-se à salvação já concedida, enquanto a segunda anuncia a transformação que ainda ocorrerá na existência corporal dos regenerados. A vida espiritual recebida mediante o evangelho não depende dessa transformação futura para se tornar real, mas o propósito divino compreende também a manifestação gloriosa dos muitos irmãos.
A finalidade dessa transformação é expressamente apresentada quando Paulo declara que Deus determinou que os filhos fossem conformados à imagem de seu Filho, para que ele fosse o primogênito entre muitos irmãos (Romanos 8:29). O propósito não consiste apenas em constituir indivíduos libertos da antiga condição espiritual, mas em formar uma família de filhos participantes da imagem daquele que ressuscitou dentre os mortos.
A conformidade prometida encontra sua realização corporal na transformação anunciada em Filipenses 3:21. O mesmo Senhor que ressuscitou em glória transformará os corpos dos que lhe pertencem, de modo que recebam uma condição semelhante à sua. A esperança da vocação, portanto, corresponde às riquezas da glória que Deus destinou aos santos, cuja manifestação revelará a extensão do propósito estabelecido antes dos tempos eternos.
O prêmio da soberana vocação não é, assim, uma salvação que ainda precise ser comprada mediante esforços humanos, mas a glória que será concedida aos filhos segundo o propósito gratuito de Deus. Os regenerados já receberam a redenção pelo sangue de Cristo e foram chamados a participar da condição gloriosa do primogênito, na qual se manifestará a imagem e a semelhança que Deus determinou conceder ao homem.
Conclusão — Salvos pela fé, chamados à glória
A exposição de Filipenses 3 somente pode ser compreendida quando se distingue a justiça recebida mediante a fé da finalidade gloriosa estabelecida na soberana vocação. Paulo havia abandonado a confiança na Lei e reconhecido a excelência do conhecimento de Cristo, recebendo a justiça que procede de Deus. Sua declaração de que ainda não havia alcançado a perfeição não deve ser utilizada para negar a condição espiritual dos regenerados nem para transformar a salvação em um prêmio conquistado pelo aperfeiçoamento moral.
A salvação pertence àqueles que recebem a verdade do evangelho mediante a obediência da fé. Em Cristo, os regenerados já possuem a redenção e a remissão dos pecados, foram feitos filhos de Deus e habilitados à herança dos santos. Entretanto, a vocação divina anuncia uma finalidade que ainda aguarda sua manifestação: a glorificação dos muitos irmãos, cujos corpos serão transformados conforme o corpo glorioso do primogênito.
A excelência do conhecimento de Cristo permite reconhecer tanto a salvação presente quanto a esperança futura. Os cristãos podem crescer no entendimento dessa verdade sem que tal crescimento produza novas parcelas de filiação ou constitua a causa da glória que receberão. A vocação procede da graça e do propósito eterno de Deus, enquanto a perseverança na verdade corresponde à condição daqueles que já foram alcançados pelo evangelho.
O prêmio da soberana vocação é a manifestação gloriosa da herança destinada aos filhos de Deus: receber a imagem celestial, mediante a redenção do corpo, para que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos. A salvação já foi concedida em Cristo; a vocação aponta para a glória que Deus determinou manifestar naqueles que lhe pertencem.

