Justificação

A justificação pela lei da fé: obediência, união com Cristo e nova criação

A “lei das obras” corresponde ao regime no qual o homem deveria cumprir todas as prescrições legais para viver por elas, diferente da justificação pela lei da fé que decorre da promessa em Cristo.


A justificação pela lei da fé: obediência, união com Cristo e nova criação

Resumo

Este artigo propõe uma compreensão da justificação fundamentada na oposição paulina entre a “lei da fé” e a “lei das obras”. Sustenta-se que essa antítese não corresponde, primariamente, ao contraste entre atividade humana e passividade, nem entre mérito moral e confiança subjetiva, mas à distinção entre dois sistemas: a lei mosaica, considerada como regime de obras, e o evangelho de Cristo, apresentado como lei da fé. Nessa perspectiva, a fé não constitui mérito humano, mas obediência ao mandamento divino de crer naquele que Deus enviou. A justificação, por sua vez, não se reduz a uma declaração jurídica externa nem à simples transferência contábil da justiça de Cristo. Ela decorre da união do crente com Cristo em sua morte e ressurreição, pela qual o velho homem é crucificado e uma nova criatura é efetivamente constituída em justiça. A proposta diferencia-se tanto da formulação calvinista quanto da arminiana, pois não depende da eleição incondicional, da graça irresistível, da graça preveniente ou da transformação da fé em causa meritória. Sua estrutura é cristológica, participativa e criacional: pela obediência do último Adão, aqueles que creem são feitos justos.

1. Introdução

A doutrina da justificação foi frequentemente organizada pela teologia ocidental a partir de uma linguagem predominantemente judicial. O ser humano é apresentado como réu culpado diante do tribunal divino; a lei formula a acusação; Cristo satisfaz as exigências jurídicas; sua justiça é atribuída ao pecador; e Deus pronuncia uma espécie de “sentença absolutória” em favor daquele que crê.

Essa construção recorre a elementos da linguagem bíblica tradicionalmente interpretados como metáforas jurídicas, embora tais elementos guardem relação mais direta com a condição originária atribuída pelo nascimento do que com a dinâmica de um tribunal. O problema surge quando essa linguagem, mal compreendida e obscurecida por categorias jurídicas contemporâneas, passa a controlar todas as demais imagens bíblicas da salvação, subordinando a filiação, a geração, a morte, a ressurreição e a nova criação a um modelo exclusivamente forense. A justificação deixa, então, de ser interpretada à luz da morte e ressurreição de Cristo, da nova criação, do novo nascimento e da constituição de uma nova humanidade, passando a ser concebida quase exclusivamente como mudança de posição jurídica.

A interpretação aqui defendida parte de outro eixo. Em vez de começar pela ideia de um tribunal no qual uma justiça externa é creditada ao pecador, começa pela relação entre os dois homens representativos descritos por Paulo: Adão e Cristo. Pela desobediência de Adão, muitos foram constituídos pecadores; pela obediência de Cristo, muitos são constituídos justos. A justificação deve, portanto, ser compreendida no interior dessa passagem entre duas humanidades, duas condições e duas criações.

Nesse contexto, a fé não é uma obra meritória nem uma capacidade autônoma da vontade humana. Também não é simples instrumento passivo concebido para preservar um sistema de imputação. A fé possui dois eixos inseparáveis. Em primeiro lugar, ela é dada mediante a revelação da graça de Deus em Cristo, isto é, por meio do evangelho anunciado. Em segundo lugar, essa revelação exige uma resposta obediente: o mandamento divino que ordena aos homens que creiam no Filho. Assim, a fé é, ao mesmo tempo, dádiva revelada no conteúdo do evangelho e resposta humana de obediência à palavra de Deus.

A tese central deste estudo é que a justificação ocorre pela união do crente com Cristo, mediante a obediência ao evangelho. O homem não é salvo por realizar as obras da lei, mas pela lei da fé; não é aceito por apresentar uma justiça própria, mas é feito participante da justiça do último Adão; não permanece apenas juridicamente coberto, mas é criado de novo em Cristo em verdadeira justiça e santidade.

2. A lei da fé e a lei das obras

Paulo afirma:

“Onde está, logo, a jactância? Foi de todo excluída. Por qual lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé” (Romanos 3:27).

A expressão “lei da fé” exige atenção. Caso Paulo pretendesse apenas opor fé e lei como realidades absolutamente incompatíveis, dificilmente empregaria a palavra “lei” para qualificar a própria fé. O apóstolo distingue duas leis ou dois princípios reguladores: a lei das obras e a lei da fé.

A “lei das obras” corresponde ao regime no qual o homem deveria cumprir todas as prescrições legais para viver por elas. Seu princípio é expresso em Levítico e retomado por Paulo:

“O homem que fizer estas coisas viverá por elas” (Romanos 10:5).

A “lei da fé”, ao contrário, corresponde à palavra do evangelho, isto é, ao primeiro eixo anteriormente identificado: a fé como revelação da graça de Deus em Cristo. Nesse sentido, “fé” não designa inicialmente a resposta subjetiva do homem, mas o conteúdo revelado e anunciado, a mensagem mediante a qual Deus manifesta sua justiça, sua promessa e sua obra salvadora no Filho.

“A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos” (Romanos 10:8).

A oposição paulina não é, portanto, entre fazer alguma coisa e não fazer absolutamente nada. É a oposição entre buscar justiça mediante a lei mosaica e submeter-se à palavra da fé. De um lado, encontra-se a tentativa de estabelecer justiça própria por meio do regime legal; de outro, a justiça de Deus manifestada em Cristo e anunciada no evangelho.

A controvérsia enfrentada por Paulo era historicamente concreta. Os judaizantes pretendiam impor aos gentios a circuncisão, as observâncias alimentares, os calendários religiosos e outros elementos da lei. A questão não era se o ser humano realizava qualquer ação, mas se a participação nas promessas dependia das obras prescritas pelo sistema mosaico.

Por isso, a expressão “obras da lei” não deve ser convertida automaticamente em sinônimo de toda e qualquer ação humana. Crer, invocar e confessar são ações, mas não são obras da lei. Elas pertencem à resposta exigida pelo evangelho.

A lei da fé exclui a jactância porque retira do homem todo fundamento de glória na carne: ter Abraão por pai, possuir a circuncisão, receber a lei, contar com os profetas, reivindicar descendência segundo a carne ou apoiar-se em quaisquer outros distintivos religiosos, étnicos ou históricos. Diante do evangelho, nenhum desses privilégios constitui fundamento de justiça, pois a promessa é recebida mediante a fé e se estende, nos mesmos termos, a todos os que creem.

A descendência, a circuncisão, o conhecimento da lei e os distintivos nacionais deixam, assim, de determinar quem pertence ao povo de Deus. Judeus e gentios são chamados pelo mesmo evangelho e recebem a mesma promessa mediante a lei da fé, a qual exige que creiam naquele que Deus enviou. Desse modo, a pertença ao povo da promessa não é definida pela origem carnal, mas pela resposta obediente à revelação da graça de Deus em Cristo.

3. Os diferentes sentidos bíblicos da palavra “fé”

A palavra “fé” não possui um único sentido em todas as passagens bíblicas. Dependendo do contexto, pode indicar:

  1. o conteúdo revelado e anunciado;
  2. a fidelidade daquele em quem se confia;
  3. a resposta humana de confiança;
  4. a condição dos que vivem segundo o evangelho.

Quando Paulo declara que “antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei” e que, “tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio” (Gálatas 3:23-25), não pode estar afirmando que ninguém acreditava em Deus antes de Cristo. Abraão creu, os profetas creram e os justos viveram pela fé. Nessa passagem, “fé” designa a realidade revelada em Cristo, o regime do evangelho que sucedeu a administração da lei.

Do mesmo modo, Judas exorta os cristãos a batalharem “pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Judas 3). Nesse caso, a fé é o conteúdo da revelação cristã.

Em outros textos, a fé designa a resposta do ouvinte à mensagem. “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17). O homem ouve a palavra e nela confia.

Essa distinção é importante porque impede que todas as ocorrências do termo sejam reduzidas a uma experiência psicológica interior. Ser justificado pela fé significa ser justificado por meio da realidade inaugurada por Cristo e anunciada no evangelho, bem como responder obedientemente a essa mensagem.

A fé subjetiva não substitui Cristo. Ela possui valor porque se dirige a Cristo. O poder salvador não se encontra na faculdade humana de acreditar, mas naquele em quem se crê e na palavra que anuncia sua morte e ressurreição.

4. A fé como obediência ao mandamento de Deus

A fé não é apresentada nas Escrituras como opção indiferente, mas como mandamento. João declara:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” (1 João 3:23).

O verbo “crer” aparece aqui como conteúdo explícito do mandamento divino. O evangelho não apenas oferece informações sobre Cristo; ordena aos homens que confiem nele.

Essa verdade também aparece na linguagem paulina da “obediência da fé”. A missão apostólica foi estabelecida para promover a obediência da fé entre as nações (Romanos 1:5), e o evangelho foi manifestado a todos os povos com essa mesma finalidade (Romanos 16:26).

Fé e obediência não são, portanto, conceitos opostos. A incredulidade é desobediência, enquanto crer é submeter-se ao testemunho que Deus deu acerca de seu Filho.

Isso não significa que a fé constitua obra meritória. Obedecer ao mandamento de crer não produz a obra redentora, não acrescenta valor ao sacrifício de Cristo nem torna o homem credor de Deus. A fé é obediência receptiva: reconhece a veracidade de Deus por intermédio de Cristo, abandona toda confiança na carne e nas obras da lei e se entrega à promessa.

O ato de crer não produz jactância porque consiste em submeter-se ao mandamento de Deus. Longe de exaltar o homem, a fé o coloca na condição de servo, pois aquele que crê renuncia à pretensão de estabelecer a própria justiça e se sujeita à palavra daquele que o chama.

Jesus declarou:

“A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29).

A expressão “obra de Deus” não significa que Deus crê no lugar do homem, pois o mandamento é dirigido aos ouvintes. Significa que a obra exigida procede de Deus, possui como objeto aquele que Deus enviou e está inserida no propósito divino de conceder vida.

O homem que crê não oferece pagamento. Ele recebe a dádiva. Receber, porém, não equivale a permanecer inerte diante da palavra. O evangelho chama, ordena, persuade e exige resposta.

5. Por que crer não é produzir mérito

Uma das objeções tradicionais à necessidade da fé afirma que, caso o homem tenha de crer, sua decisão se tornaria fundamento de mérito. A diferença entre o salvo e o não salvo residiria, finalmente, na qualidade da escolha humana.

Essa objeção depende de uma identificação indevida entre ação e mérito. Nem toda ação produz direito a recompensa. Um necessitado que aceita um presente realiza uma ação, mas não se torna merecedor do presente por tê-lo recebido. Um enfermo que toma o remédio prescrito não se torna autor da cura. Um náufrago que entra no barco não se torna construtor da embarcação.

O mérito da salvação pertence exclusivamente a Cristo porque somente ele:

  • assumiu a condição humana;
  • foi obediente até a morte;
  • venceu o pecado;
  • ressuscitou dentre os mortos;
  • inaugurou a nova criação;
  • tornou-se o último Adão e espírito vivificante.

O ato de crer, também denominado fé, não concorre com as realizações de Cristo. A fé não produz o objeto em que confia, nem acrescenta algo à obra daquele que salva. Sua função é abandonar toda pretensão de justiça própria e acolher a palavra de Deus, reconhecendo em Cristo o firme fundamento da salvação.

A jactância não é excluída pela eliminação da resposta humana, mas pela natureza da resposta exigida. Crer significa confessar que a justiça não procede da linhagem, da lei, da sabedoria, do poder ou da capacidade pessoal. Diferentemente daquele que se gloria na carne, o crente gloria-se no Senhor, porque reconhece que tudo quanto recebe procede de Cristo.

O apóstolo não afirma que a fé exclui a glória humana porque tenha sido irresistivelmente produzida no indivíduo. Afirma que a lei da fé, por sua própria estrutura, exclui a jactância. Isso ocorre porque crer é, essencialmente, submeter-se ao mandamento de Deus. A fé elimina todo fundamento de superioridade baseado na carne, pois aquele que obedece se apresenta como servo daquele a quem se sujeita, conforme o princípio exposto em Romanos 6:16-17.

6. A justificação e a obediência do último Adão

A base da justificação encontra-se na obediência de Cristo:

“Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos” (Romanos 5:18-19).

Paulo estabelece um paralelismo entre Adão e Cristo. A desobediência do primeiro homem introduziu pecado, condenação e morte. A obediência do último Adão introduziu justiça, justificação e vida.

O texto não diz simplesmente que os descendentes de Adão receberam contabilmente uma transgressão externa, nem que os que pertencem a Cristo recebem contabilmente um conjunto de méritos. Ele afirma que, pela desobediência de um, muitos foram constituídos pecadores, e, pela obediência de outro, muitos são constituídos justos.

O verbo empregado indica uma mudança de condição ou constituição. A humanidade adâmica é pecadora porque participa da condição inaugurada por Adão. Os que pertencem a Cristo são feitos justos porque participam da condição inaugurada por sua obediência e ressurreição.

Cristo não apenas acumulou méritos que poderiam ser transferidos. Ele tornou-se a cabeça de uma nova humanidade. Sua justiça não pode ser separada de sua pessoa, de sua vida e de sua condição ressuscitada.

Ser justificado é ser encontrado nele.

7. A união com Cristo como centro da justificação

A expressão “em Cristo” ocupa lugar central na teologia paulina. A salvação não consiste somente em receber benefícios provenientes de Cristo, mas em ser unido a ele.

Paulo afirma:

“Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (Romanos 6:3).

E acrescenta:

“Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida” (Romanos 6:4).

A justificação deve ser lida à luz dessa união. O homem não permanece intacto em sua condição adâmica e recebe apenas uma nova classificação jurídica. Ele é unido à morte de Cristo. Seu velho homem é crucificado, sua relação com o pecado é rompida e uma nova vida se inicia.

Paulo declara:

“Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado” (Romanos 6:6-7).

Aquele que morreu está justificado ou é liberto do pecado. A linguagem relaciona diretamente a justificação à morte do velho homem, e não uma espécie de “sentença absolutória” .

Isso não significa que o cristão se torne incapaz de cometer deslizes cotidianos, nem que sua conduta alcance imediatamente a perfeição absoluta. Significa, antes, que sua identidade, sua origem e sua condição diante de Deus já não são definidas pelo velho Adão, mas pela semente incorruptível mediante a qual foi gerado de novo. Ele pertence a Cristo e é um com ele.

A justiça do crente não é uma qualidade moral desenvolvida independentemente de Cristo. Também não consiste em simples crédito externo atribuído a alguém que permanece integralmente pertencente à velha criação. É a condição daquele que foi inserido no Justo, unido a Cristo e feito participante da vida do Ressuscitado.

8. A justificação como nova criação

A linguagem da criação oferece uma chave decisiva para compreender a salvação. Paulo afirma:

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Coríntios 5:17).

O apóstolo não diz que aquele que está em Cristo é apenas considerado nova criatura. Ele é nova criação. O ato salvador de Deus possui caráter efetivo e criador.

Efésios descreve o novo homem como aquele que foi “criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Efésios 4:24). A justiça não é apresentada somente como registro externo, mas como elemento constitutivo do novo homem.

Essa nova criação decorre da ressurreição de Cristo. Pedro afirma que Deus regenerou os crentes “para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1 Pedro 1:3). A ressurreição, portanto, não constitui apenas a confirmação de que um pagamento foi aceito; ela é o acontecimento pelo qual surge a cabeça – Cristo – da nova humanidade. Todos os que ressuscitam com Cristo passam a participar de sua vida e de sua condição, de modo que, “assim como ele é, nós somos também neste mundo” (1 João 4:17).

O último Adão tornou-se espírito vivificante (1 Coríntios 15:45). Aqueles que pertencem ao primeiro Adão trazem a condição do terreno: são culpáveis, porque participam da humanidade submetida ao pecado e à morte. Aqueles que pertencem a Cristo, porém, trazem a condição do celestial: são inculpáveis, pois foram unidos ao Ressuscitado e já não estão sob condenação. É nesse sentido que Paulo declara: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1), pois aquele que está em Cristo é nova criatura, e tudo se fez novo. Sua condição já não é definida por qualquer vínculo com o passado adâmico, mas pela nova realidade inaugurada em Cristo, na qual o velho homem foi crucificado e uma nova humanidade foi constituída pela ressurreição.

A justificação que dá vida, mencionada em Romanos 5:18, deve ser compreendida nesse horizonte. Deus justifica vivificando. Ele não apenas altera uma ficha; concede participação na vida do Filho ressuscitado.

9. Os limites de uma linguagem exclusivamente forense

As Escrituras utilizam imagens jurídicas. Falam de condenação, culpa, acusação, absolvição e julgamento. Essas imagens não devem ser eliminadas. Devem, porém, ser integradas às demais formas bíblicas de descrever a salvação.

O problema da linguagem exclusivamente forense aparece quando Deus é apresentado como alguém que chama de justo aquele que, em sua condição real, permanece injusto. A justiça seria totalmente externa ao indivíduo, e a justificação não produziria qualquer mudança constitutiva.

Nesse modelo, a regeneração precisa ser colocada em uma etapa distinta para que a transformação real seja preservada. A justificação altera a posição; a regeneração altera a natureza; a santificação altera progressivamente a conduta.

Embora essas distinções possam possuir utilidade didática, tornam-se problemáticas quando fragmentam aquilo que o Novo Testamento apresenta unido. Aquele que é justificado está em Cristo; aquele que está em Cristo morreu e ressuscitou com ele; aquele que ressuscitou com Cristo é nova criatura; aquele que é nova criatura foi criado em justiça e, por isso, não está sujeito à condenação. Sua inoculpabilidade não decorre de mera declaração externa, mas da nova condição recebida em Cristo, na qual foi feito participante da vida e da justiça do Ressuscitado.

A declaração divina não é ficção nem tratamento meramente nominal. Quando Deus declara justo aquele que está em Cristo, sua palavra corresponde à obra que ele realizou. Deus chama justo aquele que foi unido ao Justo e criado novamente nele.

O veredicto corresponde à realidade da nova criação.

10. A justiça de Cristo não é separável de Cristo

A doutrina da imputação pode ser compreendida de maneiras diferentes. Em algumas formulações, a justiça de Cristo é descrita como patrimônio moral acumulado por sua obediência e creditado à conta do crente. Sua obediência ativa cumpriria todos os preceitos, enquanto sua obediência passiva suportaria a penalidade.

O risco dessa formulação é separar a justiça da pessoa de Cristo. A justiça passa a ser tratada como objeto transferível, quase como quantia depositada em favor de alguém.

O Novo Testamento, entretanto, afirma que Cristo “se tornou, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e redenção” para os crentes (1 Coríntios 1:30). A justiça salvadora não é um atributo de Cristo que possa ser abstraído de sua pessoa e transferido como realidade independente. Cristo é, ele próprio, a justiça daqueles que estão unidos a ele, de modo que o crente é justo não por receber algo separado do Filho, mas por estar no Justo e participar de sua vida.

O crente não recebe um benefício isolado para depois permanecer fora de Cristo. Ele recebe o próprio Cristo. Sua justiça decorre da união com aquele que é justo, pois o crente foi feito um só corpo com Cristo e participa, nele, da vida e da condição do Ressuscitado.

Da mesma forma, o pecado não deve ser concebido apenas como débito contábil. Ele é poder, domínio e condição de morte. A obra de Cristo não apenas cancela uma dívida, mas liberta do império das trevas, destrói a condição do velho homem e inaugura uma nova existência.

A justiça de Cristo é comunicada não como substância moral autônoma, mas mediante participação em sua vida.

11. A relação entre justificação e regeneração

A teologia sistemática frequentemente discute se a regeneração precede a fé ou se a fé precede a regeneração. O calvinismo clássico tende a afirmar uma regeneração lógica anterior à fé, de modo que o homem é vivificado para que possa crer. O arminianismo costuma recorrer à graça preveniente, pela qual Deus restaura a possibilidade de resposta antes da fé salvadora.

A estrutura bíblica pode ser compreendida sem depender dessas duas alternativas.

O evangelho é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Romanos 1:16). A palavra de Cristo é anunciada, ouvida e recebida pela fé. O crente não crê porque possua mérito próprio, mas porque reconhece que a palavra de Deus é fiel e digna de toda aceitação. Por meio dessa palavra, Deus gera de novo aqueles que recebem o testemunho acerca do Filho e os introduz na nova vida que há em Cristo.

Pedro relaciona o novo nascimento à palavra:

“Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1 Pedro 1:23).

Tiago afirma:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tiago 1:18).

João declara que aqueles que receberam Cristo e creram em seu nome receberam o direito de ser feitos filhos de Deus, os quais nasceram de Deus (João 1:12-13).

A palavra não é simples informação; nela há poder para gerar um novo homem. Assim como a palavra pronunciada no Éden continha, potencialmente, a consequência da morte — pois, se o homem comesse, certamente morreria —, também a palavra do evangelho contém poder para comunicar vida. Aquele que dela se torna participante pela fé recebe nova vida em Cristo.

A palavra do evangelho é viva, poderosa e eficaz. Por meio dela, Deus chama o homem, revela o Filho e comunica a promessa da nova criação. Essa eficácia, contudo, não exige afirmar que o ouvinte tenha sido regenerado antes de ouvir e crer. Ao contrário, o novo nascimento ocorre mediante a palavra recebida pela fé, pois é por ela que Deus gera aqueles que acolhem o testemunho acerca de Cristo.

O novo nascimento está vinculado à recepção da palavra e à união com o Cristo ressuscitado. O homem ouve, crê e é vivificado por Deus mediante o evangelho.

A fé não causa a regeneração como mérito ou poder independente. Ela é a resposta mediante a qual o homem é unido ao objeto da promessa.

12. Paulo e Tiago: lei, fé e obras

A relação entre Paulo e Tiago é frequentemente apresentada como um problema. Paulo afirma que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei. Tiago declara que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé.

A aparente contradição desaparece quando se observa que os autores enfrentam problemas diferentes.

Paulo combate a pretensão de obter justiça mediante as obras da lei. Seu adversário confia na circuncisão, na linhagem, na posse da lei e nos distintivos religiosos de Israel.

Tiago enfrenta alguém que afirma possuir fé, mas sua confissão limita-se ao monoteísmo:

“Crês que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem” (Tiago 2:19).

Essa fé é insuficiente não porque necessite ser complementada por méritos morais, mas porque não corresponde à fé de Abraão. O patriarca ouviu a promessa de um descendente por meio do qual seriam benditas todas as famílias da terra e passou a agir segundo aquilo que Deus havia declarado.

Sua disposição de oferecer Isaque em holocausto, em obediência a Deus, revelou que confiava naquele que vivifica os mortos. Abraão agiu, aparentemente, contra a própria promessa concentrada em seu filho, mas o fez porque estava plenamente convicto de que Deus permaneceria fiel. Considerou que o Senhor era poderoso até mesmo para ressuscitar Isaque dentre os mortos e, assim, cumprir a promessa relativa ao descendente (Hebreus 11:17-19).

As obras de Abraão eram obras decorrentes da fé. Isso significa que Abraão não decidiu simplesmente acreditar no improvável ou no impossível; ele creu na promessa que Deus lhe havia feito. A promessa era o firme fundamento daquilo que esperava: o descendente. Abraão possuía o testemunho divino acerca do que ainda não via e, por isso, confiou.

Nesse sentido, sua fé não possuía mérito próprio. Ao levar Isaque para ser oferecido, Abraão não realizou uma obra moralmente meritória segundo critérios humanos. Ao contrário, considerada isoladamente, a ação de imolar o próprio filho seria moralmente censurável. Sua obediência só pode ser compreendida à luz da promessa. Abraão sabia que Isaque era o filho no qual a promessa do descendente seria cumprida e, justamente por isso, confiou que Deus era poderoso para ressuscitá-lo dentre os mortos. O fundamento de sua fé não estava na ação praticada, mas na fidelidade daquele que havia prometido.

As obras de Abraão, portanto, não eram obras da lei mosaica, pois ele viveu antes da promulgação da lei. Eram ações que procediam da confiança na promessa.

Paulo recorre a Abraão para demonstrar que a promessa antecede a lei e é recebida pela fé, e não pelas obras da lei. Tiago recorre ao mesmo patriarca para demonstrar que a fé verdadeira não consiste em mera afirmação doutrinária — “creio em Deus” — desprovida de obediência ao testemunho que Deus deu acerca de seu Filho.

João fornece a síntese ao declarar que o mandamento de Deus é crer no nome de Jesus Cristo e amar os irmãos. A fé verdadeira obedece ao evangelho e se manifesta no amor, pois o amor consiste essencialmente em obedecer ao mandamento divino.

Paulo rejeita as obras da lei como fundamento de justiça. Tiago rejeita a profissão vazia de fé. Ambos preservam a centralidade da promessa e da obediência a Deus.

13. A fé de Abraão e a promessa

Abraão é apresentado como pai de todos os que creem. Sua fé não consistiu na mera aceitação de uma fórmula abstrata acerca da existência de Deus. Ele creu porque Deus lhe fez uma promessa e demonstrou, no próprio cumprimento inicial dessa palavra, tanto seu poder quanto sua fidelidade.

O nascimento de Isaque na velhice de Abraão, por intermédio de Sara, que era estéril, constituiu evidência concreta de que aquele que havia prometido era poderoso para realizar o que dissera. Assim, a fé de Abraão não se apoiava no improvável considerado em si mesmo, mas na promessa específica de um descendente e nos sinais já concedidos de que Deus era fiel para cumpri-la.

Paulo declara:

“Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça” (Romanos 4:3).

A expressão não deve ser entendida como se o ato psicológico de crer fosse convertido em quantidade de mérito equivalente à perfeita observância da lei. A fé foi reconhecida como justiça porque Abraão se submeteu à promessa de Deus.

Ele não apresentou obras que pudessem gerar salário. Recebeu uma promessa gratuita. Sua fé não criou o descendente, não venceu a esterilidade e não produziu a vida a partir da morte. Tudo procedeu de Deus.

A fé de Abraão foi confiança naquele “que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Romanos 4:17).

Esse ponto é decisivo para a justificação. Deus justifica não apenas emitindo uma declaração abstrata, mas vivificando. A fé olha para aquele que ressuscita os mortos.

Abraão creu na promessa do descendente. O cristão crê naquele que foi entregue por causa das transgressões e ressuscitou para a justificação, o descendente (Romanos 4:25). Em ambos os casos, a fé responde à palavra do Deus que concede vida.

14. A justificação pela ressurreição de Cristo

A morte de Cristo ocupa lugar indispensável na justificação. Nela, a condição de sujeição ao pecado é desfeita, pois o homem gerado segundo Adão é levado à cruz, morto e sepultado com Cristo. A morte constitui o único meio de romper definitivamente o domínio que o pecado exercia sobre o velho homem. É nesse sentido que o homem morre com Cristo para ser justificado do pecado, conforme Paulo declara: “aquele que morreu está justificado do pecado” (Romanos 6:7).

Nesse primeiro movimento, manifesta-se a justiça de Deus: o pecador recebe a consequência de sua condição, isto é, a morte. A pena não é ignorada nem ultrapassa o transgressor; ela se cumpre na morte do velho homem com Cristo. Deus é justo porque não preserva a humanidade adâmica condenada pelo pecado, mas a conduz à cruz e ao sepultamento.

Entretanto, o ato divino da justificação não se limita à morte e ao sepultamento com Cristo. Paulo afirma que Jesus “foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Romanos 4:25). Aquele que é sepultado com Cristo recebe acesso a um novo e vivo caminho, pois a morte do velho homem permite que a graça de Deus opere eficazmente por meio da ressurreição.

Desse modo, um novo homem vem à existência para a glória de Deus. Se, na morte com Cristo, Deus se mostra justo ao executar a consequência devida à condição pecaminosa, na ressurreição ele se revela justificador, porque gera uma nova criatura, livre da condenação e criada em justiça. A justificação compreende, portanto, dois atos inseparáveis: a morte daquele que pertencia a Adão e a vivificação daquele que passa a existir em Cristo.

A ressurreição é constitutiva da justificação porque nela Cristo emerge como cabeça de uma nova criação. Caso a salvação consistisse apenas no pagamento de uma penalidade, a morte poderia ser considerada suficiente em si mesma. O propósito de Deus, porém, não é somente desfazer a separação entre Deus e os homens, mas conceder vida e restaurar a comunhão.

Cristo morreu e ressuscitou. Aqueles que estão nele morrem e ressuscitam com ele. Sua justificação é, portanto, “justificação de vida”, porque os introduz na condição do Ressuscitado e os faz participantes de uma nova existência.

A ressurreição não serve apenas como confirmação de que uma transação jurídica foi aceita. Ela é o acontecimento criador que inaugura uma nova geração de homens espirituais, formados segundo Cristo, o último Adão e espírito vivificante.

Por essa razão, Pedro vincula o novo nascimento à ressurreição de Jesus Cristo, enquanto Paulo relaciona a novidade de vida ao mesmo acontecimento. A justificação deve ser compreendida nesse movimento: morte para a antiga condição adâmica e ressurreição para uma nova vida em Cristo.

15. A identidade do justificado

A teologia cristã deve distinguir entre a nova condição do crente, que anda em novidade de vida, e as falhas de conduta às quais ainda está sujeito no cotidiano. Essas falhas podem ser denominadas tropeços e, nesse sentido, também “pecados”; contudo, não significam que o crente permaneça pecador em sua identidade ou submetido ao pecado como senhor.

Aquele que está em Cristo pode tropeçar, pois “todos tropeçamos em muitas coisas” (Tiago 3:2), mas já não é servo do pecado. O tropeço descreve uma falha de conduta; a condição de pecador, por sua vez, diz respeito à sujeição ao domínio do pecado. Essas realidades não devem ser confundidas.

João expressa essa distinção ao afirmar que “todo aquele que é nascido de Deus não peca”, porque a semente divina permanece nele (1 João 3:9-10). O fundamento dessa condição não é a perfeição imediata de sua conduta, mas sua nova origem: ele nasceu de Deus. Por isso, o pecado já não constitui sua prática, sua identidade nem o poder que governa sua existência.

Caso aquele que foi unido a Cristo permanecesse essencialmente pecador e ainda sujeito ao mesmo senhorio anterior, sua pertença ao Filho seria anulada. João estabelece uma oposição entre os filhos de Deus e os filhos do diabo, não com base na ausência absoluta de qualquer tropeço, mas segundo a origem, a identidade e a condição que determinam a vida de cada um.

Paulo recorre ao mesmo princípio ao perguntar: “Se, procurando ser justificados em Cristo, fomos nós mesmos também achados pecadores, seria, porventura, Cristo ministro do pecado? De modo nenhum” (Gálatas 2:17). Se os que foram justificados em Cristo permanecessem na mesma condição adâmica de pecadores, Cristo seria apresentado como ministro do pecado. O apóstolo rejeita essa conclusão porque aquele que está em Cristo não pertence mais ao domínio do pecado, embora ainda possa cometer falhas em sua caminhada.

Assim, o cristão não é definido por seus tropeços, mas pelo novo nascimento. Ele pode falhar na conduta, mas não permanece sob o senhorio do pecado; pode necessitar de correção e perdão, mas sua identidade é a de filho de Deus, nova criatura e servo da justiça.

Daí a declaração de Jesus:

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado.” (João 8:34).

A afirmação não trata apenas de uma falha isolada, mas de uma condição de servidão. Cometer o pecado, nesse contexto, significa permanecer sob seu domínio, tendo-o como senhor. A prática revela a condição daquele que ainda não foi libertado.

João desenvolve o mesmo princípio:

“Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo.” (1 João 3:8).

Assim, a prática do pecado identifica uma relação de pertencimento e sujeição. Aquele que permanece no pecado pertence ao domínio do diabo; aquele que nasceu de Deus foi libertado desse senhorio pela obra de Cristo. Isso não significa ausência absoluta de tropeços cotidianos, mas mudança real de condição: o pecado já não define sua origem, sua identidade nem o poder que governa sua vida. É por isso que no Novo Testamento os apóstolos chamam os membros da Igreja de santos, filhos, justos, novas criaturas, servos da justiça e irmãos santificados.

Essas designações não se baseiam na perfeição comportamental, mas na obra realizada por Deus em Cristo.

O velho homem não recebe nova classificação; ele é crucificado. O novo homem não é mera aparência jurídica; ele é criado. O crente deve despojar-se das práticas que pertenciam à velha condição porque essa condição já não define quem ele é.

A ética cristã nasce da nova identidade. Os apóstolos não dizem: “Tornem-se aquilo que Deus apenas finge que vocês são”. Eles exortam: “Andem de modo digno da vocação”, “considerem-se mortos para o pecado”, “revistam-se do novo homem”.

A conduta deve corresponder à nova criação já realizada.

16. Distanciamento do calvinismo e do arminianismo

A interpretação aqui proposta não deve ser classificada automaticamente como calvinista ou arminiana.

Ela se distancia do calvinismo ao rejeitar:

  • a necessidade de uma regeneração anterior à fé;
  • a ideia de que somente alguns são eficazmente chamados por decreto incondicional;
  • a graça irresistível como condição para explicar a resposta de fé;
  • a redução da justificação a uma declaração externa;
  • a concepção da justiça de Cristo como mero crédito transferido;
  • a permanência do justificado como essencialmente pecador, embora juridicamente coberto.

Também não corresponde ao arminianismo clássico, pois não depende:

  • de uma graça preveniente universal que restaura abstratamente o livre-arbítrio;
  • da eleição baseada na presciência de uma decisão humana autônoma;
  • da transformação da fé em causa moral da salvação;
  • da ideia de cooperação entre duas forças independentes;
  • da preservação necessária do mesmo paradigma forense empregado pela tradição reformada.

A questão central não é definir qual parcela da salvação pertence a Deus e qual parcela pertence ao homem. A salvação pertence integralmente a Deus. A questão é compreender como o evangelho ordena uma resposta sem transformar essa resposta em mérito.

Deus realiza a redenção, envia o Filho, ressuscita Cristo, anuncia a promessa, gera pela palavra e cria o novo homem. O ser humano é chamado a crer. Sua resposta não completa uma obra incompleta; recebe a obra consumada e é unido àquele que a realizou.

17. A graça de Deus e a responsabilidade humana

A soberania de Deus não exige que toda resposta humana seja previamente causada de modo irresistível. Da mesma forma, a responsabilidade humana não exige uma vontade autônoma, independente da graça e da palavra.

A Escritura apresenta Deus como aquele que chama e o homem como aquele que deve ouvir (obedecer). Deus promete, e o homem deve confiar. Deus envia o evangelho, e os homens são responsabilizados pela forma como respondem.

Jesus censurou aqueles que se recusaram a ir a ele para terem vida:

“Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).

Também declarou:

“Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida” (João 3:36).

A oposição é entre crer e permanecer desobediente. A responsabilidade do homem é real porque o chamado de Deus é verdadeiro.

A graça não é preservada pela transformação do ser humano em objeto inerte. Ela é preservada pelo reconhecimento de que a palavra, a promessa, o Salvador, a vida e a nova criação procedem inteiramente de Deus.

A resposta de fé não divide a glória. Ao contrário, glorifica a Deus, pois reconhece sua veracidade:

“Quem, todavia, lhe aceita o testemunho, por sua vez, certifica que Deus é verdadeiro” (João 3:33).

18. A exclusão definitiva da jactância

A lei da fé exclui a jactância porque não oferece espaço para distinções baseadas na carne.

O judeu não pode gloriar-se na lei. O gentio não pode gloriar-se na sabedoria. O religioso não pode gloriar-se em ritos. O moralista não pode gloriar-se em sua disciplina. O crente não pode gloriar-se no ato de crer, pois a fé confessa que a salvação se encontra em outro.

Todo aquele que crê declara:

  • eu não sou a fonte da promessa;
  • eu não realizei a redenção;
  • eu não venci a morte;
  • eu não criei a nova humanidade;
  • eu não possuo justiça independente de Cristo;
  • eu dependo integralmente daquele que Deus enviou.

A fé é, por sua própria natureza, renúncia à autossuficiência; é submissão ao Senhor.

O homem não é salvo porque sua fé seja extraordinária, mas porque Cristo é suficiente. Uma fé pequena dirigida ao Salvador verdadeiro não encontra eficácia em sua própria dimensão, mas na fidelidade daquele em quem confia.

O homem é salvo porque Deus enviou seu Filho; é salvo porque o Filho assumiu a condição de servo e submeteu-se plenamente à vontade do Pai; é salvo porque Cristo desceu à sepultura e, desfeitas as amarras da morte, ressurgiu dentre os mortos pelo poder de Deus. A salvação, portanto, tem sua origem, seu fundamento e sua eficácia na obra realizada por Deus em Cristo.

O homem participa dessa salvação porque crê nessas verdades e as confessa com a boca, conforme Paulo declara: “A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé que pregamos: se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:8-9). A fé não cria a obra salvadora, mas recebe o testemunho de Deus acerca de seu Filho e se submete à palavra do evangelho.

A glória pertence ao Senhor.

19. Implicações doutrinárias

A compreensão da justificação como união com Cristo e nova criação produz importantes consequências.

19.1 A salvação não é ficção jurídica

Deus não considera arbitrariamente justo aquele que permanece integralmente na velha condição. Ele declara aquilo que sua própria obra criou em Cristo.

19.2 A justiça não pode ser separada da vida

A justificação é “justificação de vida”. Ser feito justo e receber vida pertencem ao mesmo movimento realizado pela obediência e ressurreição de Cristo.

19.3 A fé não é rival da graça

A exigência de crer não diminui a iniciativa divina. A fé responde à graça e recebe aquilo que não poderia produzir.

19.4 A obediência cristã não é obra da lei

O evangelho possui mandamentos, mas esses mandamentos não reconduzem o cristão ao regime mosaico. Crer em Cristo e amar os irmãos constituem a obediência própria da nova aliança.

19.5 A santidade decorre da nova identidade

O cristão não busca produzir, por esforço autônomo, a condição de novo homem. Vive de acordo com aquilo que Deus já realizou em Cristo.

19.6 A evangelização é verdadeira proclamação

O evangelho pode ser anunciado a todos sem reservas ocultas. A ordem “crê no Senhor Jesus” é sincera, e a promessa de salvação pertence a todo aquele que crê.

20. Conclusão

A justificação deve ser compreendida a partir da lei da fé, da obediência do último Adão e da união do crente com Cristo.

A lei das obras corresponde ao regime no qual o homem buscava viver mediante o cumprimento das prescrições legais. A lei da fé corresponde ao evangelho, à palavra que anuncia Cristo e ordena aos homens que creiam nele.

A fé é obediência, mas não mérito. É ação, mas não pagamento. É resposta, mas não coautoria. O homem crê naquele que realizou toda a obra necessária para sua salvação.

A base da justificação não é o tamanho da fé, mas a obediência de Cristo. Pela desobediência de Adão, muitos foram constituídos pecadores; pela obediência de Cristo, muitos são constituídos justos.

Essa constituição não ocorre por simples transferência contábil de méritos. O crente é unido à morte e à ressurreição de Cristo. O velho homem é crucificado, e uma nova criatura surge. Deus declara justo aquele que está no Justo e participa da vida do Ressuscitado.

A linguagem forense possui valor quando permanece subordinada à totalidade do testemunho bíblico. O veredicto divino não pode ser separado da obra criadora que o fundamenta. Deus não apenas absolve; vivifica. Não apenas cobre; recria. Não apenas transfere benefícios; une o homem ao Filho.

Essa compreensão não se enquadra adequadamente na disputa tradicional entre calvinismo e arminianismo. Ela rejeita tanto a necessidade de uma regeneração irresistível anterior à fé quanto a construção de uma autonomia humana restaurada por graça preveniente. Sua ênfase recai sobre o poder do evangelho, a responsabilidade de crer e a eficácia criadora da união com Cristo.

A jactância é excluída não porque o homem deixa de responder, mas porque sua resposta consiste em abandonar toda confiança em si mesmo em rendição ao Senhor. A lei da fé conduz o homem para fora de sua própria justiça e o introduz em Cristo.

Aquele que crê não apresenta méritos. Recebe a promessa. Não oferece justiça própria. É feito justo pela obediência do último Adão. Não permanece apenas declarado vivo enquanto continua morto. Ressuscita com Cristo para andar em novidade de vida.

Referências

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