Princípios de interpretação dos textos bíblicos

Quando nos deparamos com passagens mais densas, imagens proféticas ou alegorias de difícil interpretação, a dificuldade não está na Bíblia, mas na limitação humana diante da profundidade dos textos bíblicos.


Princípios de interpretação dos textos bíblicos

“As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais.” (1 Coríntios 2:13).

Introdução

Os textos bíblicos comportam um sentido — isto é, uma intenção comunicativa que deve ser buscada a partir do próprio texto, do seu contexto e da unidade das Escrituras. Por isso, é equivocado ler a Bíblia sob o pretexto de “espiritualizar” o que está escrito, como se existisse um plano de significado separado do texto. As Escrituras são, por natureza, espirituais; logo, não faz sentido falar em “tornar espiritual” aquilo que já o é.

Quando nos deparamos com passagens mais densas, imagens proféticas ou alegorias de difícil compreensão, a dificuldade não está na Bíblia, mas na limitação humana diante da profundidade do testemunho bíblico. Superar essa limitação exige um caminho responsável: leitura atenta, comparação de textos, consideração do contexto histórico e literário e, sobretudo, deixar que a própria Escritura ilumine a Escritura.

Assim, buscar o sentido de profecias, símbolos e figuras não significa abandonar a literalidade do texto para alcançar um significado subjacente; significa, antes, reconhecer que a linguagem bíblica emprega gêneros e recursos próprios, e que o seu sentido se esclarece por critérios internos e coerentes. É nesse horizonte que apresentaremos princípios e métodos de interpretação — a hermenêutica bíblica —, disciplina teológica dedicada a interpretar, compreender e aplicar corretamente a Palavra.

 

Interpretação bíblica: uma habilidade

Considerando a recomendação paulina a Timóteo, percebe-se que a interpretação bíblica não é um improviso ocasional, mas uma habilidade que se desenvolve ao longo da carreira cristã — sobretudo em quem foi chamado ao serviço ministerial. O cristão é salvo pela graça de Deus manifesta em Cristo: ação divina que o resgata da sujeição ao pecado — que trouxe morte a todos os homens — e o introduz numa nova condição: filho de Deus, coerdeiro com Cristo (1 João 3:1-2).

Timóteo foi alcançado por essa mesma graça quando creu no evangelho. Contudo, por ter sido chamado ao ministério pastoral, precisava apresentar-se a Deus aprovado, sem embaraços que o envergonhassem (2 Timoteo 1:8; Romanos 1:16; 1 Pedro 4:16), e com uma competência específica: manejar bem a palavra da verdade (2 Timóteo 2:15) — palavra que é escândalo para judeus e loucura para gregos.

Essa aptidão é decisiva porque o obreiro, em sentido próprio, deve ser teleios (maduro, apto, ajustado ao ofício), especialmente no que diz respeito ao domínio da matéria que molda o discurso (Tiago 3:2; Romanos 6:17; Efésios 4:14; 1 Timóteo 4:16). Quem tropeça na palavra — no sentido de não saber manejá-la com precisão — não está habilitado para a defesa e edificação da fé, ainda que, como cristão, tropece “em muitas coisas” no cotidiano.

Isso não significa licença para libertinagem. Ao contrário: o obreiro deve manter boa consciência e cultivar a disposição contínua de “portar-se honestamente em tudo” (Hebreus 13:18). A questão é que a exigência ministerial não se reduz à moralidade genérica; ela inclui, de modo indispensável, a capacidade de servir ao evangelho com fidelidade e clareza — isto é, de manejar corretamente a Palavra.

Um equívoco comum é supor que a interpretação bíblica seja um dom idêntico aos dons ministeriais listados em Romanos 12:6–8. Paulo foi designado apóstolo dos gentios e Pedro, apóstolo da circuncisão; esses chamados implicam obrigação e encargo (“ai de mim se não anunciar o evangelho”, 1 Coríntios 9:16). Porém, qualquer despenseiro, qualquer ministro, seja qual for sua função, precisa da mesma base: capacidade para servir ao novo pacto e comunicar o evangelho (2 Coríntios 3:6). O ponto não é “quem tem dom”, mas como se sustenta o ministério sem tropeçar no essencial: a Palavra.

“Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!” (1 Coríntios 9:16);

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Coríntios 3:6).

Essa habilidade não se adquire por longas temporadas de práticas devocionais tomadas como substitutas do estudo — como se orações, jejuns, vigílias e meditações, por si, produzissem precisão exegética. A Escritura aponta outro caminho: permanecer no que se aprendeu, ler, ouvir, aprender, comparar texto com texto, e, sob essa disciplina, o Espírito Santo guia à verdade e faz lembrar o que foi aprendido. É nesse sentido que Paulo escreve:

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.” (2 Timóteo 3:14-17).

Os próprios relatos bíblicos reforçam esse princípio. Cornélio era homem de oração, mas para conhecer o evangelho foi necessário que Pedro lhe anunciasse as boas-novas; o eunuco etíope, mesmo vindo do templo, precisou que Filipe lhe explicasse as Escrituras. Ou seja: a fé vem por ouvir, e o ouvir pela Palavra; é pelo contato com as sagradas letras que Deus faz o homem sábio para a salvação.

Assim, ao crer, o cristão recebe a “espada do Espírito”, isto é, a Palavra de Deus; e, ao manuseá-la diariamente, desenvolve discernimento e maturidade. Essa prática constante é indispensável especialmente a quem foi constituído para a defesa do evangelho (Filipenses 1:16; Judas 1:3), pois o ministério exige mais do que boa intenção: exige fidelidade no conteúdo e precisão na forma.

No caso específico de Timóteo, havia ainda um cuidado adicional: desviar-se de doutrinas estranhas — “fábulas profanas e de velhas” uma referência aos ensinamentos dos judaizantes — e exercitar-se na piedade, isto é, no evangelho. Piedade aqui não diz de uma vida orientada a certas práticas caridosas, e sim, estar em consonância ao evangelho.

“Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo em piedade; Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir.” (1 Timóteo 4:7-8).

O “dom” recebido por profecia e imposição de mãos, nesse contexto, refere-se à incumbência ministerial — ao encargo de pastorear — que Timóteo já exercia, sobretudo em Éfeso (1 Timóteo 1:3; 1:18). Já para os cristãos em geral, Paulo recomenda ser “cheio do Espírito”, o que se expressa, inclusive, pela circulação comunitária da Palavra por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais — prática essencial num contexto em que muitos não sabiam ler (Efésios 5:18-19; Salmo 1:2).

Por isso, a mesma ideia aparece em Colossenses: ser cheio do Espírito equivale a deixar “a palavra de Cristo habitar abundantemente” e a comunidade ensinar e admoestar uns aos outros.

“A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR com graça em vosso coração.” (Colossenses 3:16).

O “vinho em que há contenda” pode ser compreendido, no contexto paulino, como figura de uma embriaguez doutrinária. Não se refere ao torpor induzido pelo produto decorrente da fermentação do suco da uva, mas o estado de perturbação e desordem produzido por influências que desviam a comunidade do eixo do evangelho. Nesse sentido, ele se ajusta ao efeito típico da doutrina dos judaizantes, que introduzia exigências legalistas e gerava disputas, insegurança e divisão — uma “contenda” que intoxica o discernimento e desvia a consciência (Romanos 16:17).

Em contraste, o “espírito” do qual os cristãos devem estar plenos (cheios) refere-se ao conteúdo vivificante do evangelho, isto é, a Palavra de Cristo habitando ricamente na comunidade. Por isso, Paulo aproxima as duas ideias: em Efésios 5:18–19, ser cheio do Espírito se expressa em salmos, hinos e cânticos espirituais; em Colossenses 3:16, o paralelo direto é “a palavra de Cristo habite em vós abundantemente”. Assim, a plenitude não é um êxtase desordenado, mas uma comunidade saturada do evangelho — que canta, ensina, admoesta e se orienta por Cristo, em lugar de ser arrastada por “vinhos” doutrinários que produzem contenda.

 

Princípios hermenêuticos

Como já foi dito, é deturpação interpretar a Bíblia sob o pretexto de “espiritualizar” histórias, parábolas, eventos ou ensinamentos, como se o texto precisasse ser elevado a um plano superior para, então, fazer sentido. A Escritura, por natureza, já é espiritual. E afirmar que a Bíblia é espiritual não equivale a dizer que ela encerra um “sentido mais profundo” de ordem filosófica, ritualística ou mística, acessível apenas por chaves esotéricas; significa, antes, que sua origem, sua finalidade e sua eficácia decorre exclusivamente de Deus.

O Novo Testamento é espiritual porque o próprio Cristo declara: “as palavras que eu vos tenho dito são espírito e vida” (João 6:63). Essa afirmação se conecta diretamente com Isaías, que profetizou que o Espírito do Senhor estaria sobre o Messias, capacitando-o a evangelizar os pobres (Isaías 61:1; Lucas 4:17-21). E essa promessa, por sua vez, remete ao anúncio do derramamento do espírito “sobre toda carne” (Joel 2:29) — realidade que se cumpre por meio daquele que foi prometido a Abraão: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3).

Um ponto essencial da hermenêutica bíblica é reconhecer que, mesmo quando a Escritura emprega símbolos, figuras, adágios, parábolas ou símiles, ela não abandona o terreno da realidade: tais recursos apontam para verdades objetivas e, em última instância, para eventos e referenciais concretos. Ainda que certos textos nos remetam a desígnios divinos e a uma dimensão que ultrapassa a experiência imediata, isso não autoriza a multiplicação arbitrária de sentidos, como se a Bíblia fosse uma espécie de reservatório inesgotável de significações.

É verdade que diferentes segmentos ditos cristãos atribuem leituras diversas a passagens específicas; porém, essa “abundância” não está no texto, mas nas lentes com que ele é lido. Jesus enfrentou precisamente esse problema quando contestou os judeus que “examinavam as Escrituras” supondo ter nelas a vida eterna, e mostrou que, na verdade, elas testificavam de Cristo (João 5:39), o descendente prometido. Sua colocação não foi uma “espiritualização”, mas uma chamada à literalidade do testemunho profético: a promessa a Abraão não se referia a “descendências” no plural, como se fosse uma categoria coletiva indeterminada; ela apontava, de modo específico, para um só, isto é, Cristo (Gálatas 3:16).

O equívoco dos judeus consistiu em ler a promessa a partir de sua própria condição “segundo a carne”, tomando-se como herdeiros automáticos do que Deus prometeu ao Descendente. A Escritura, porém, é precisa: Isaque não é o “fim” da promessa, mas o marco pelo qual a linhagem prometida seria chamada (Gênesis 21:12; Romanos 9:7). Não há aqui um “sentido além da letra” que autorize múltiplas leituras; há, sim, a possibilidade de uma leitura enviesada, firmada em expectativas humanas.

Por isso, a teologia cristã, quando fiel ao texto, buscará o sentido que a própria Escritura pretende comunicar. Os eventos narrados são tratados como reais, não como mitos: o Éden, a arca, a abertura do Mar Vermelho, a força de Sansão e outros episódios são apresentados como fatos históricos. Do mesmo modo, os eventos centrais da fé — morte e ressurreição de Cristo — não são alegorias. O cristão é chamado a crer no que não vê, mas essa fé é “fundamento” e “prova” do que se espera (Hebreus 11:1), não uma licença para transformar fatos em símbolos flutuantes.

Tomemos, por exemplo, a expressão “fruto”. Nas Escrituras, ela pode designar o fruto literal produzido por uma árvore ou pela terra (como no relatório sobre os “frutos” da terra, Deuteronômio 1:25), e também pode referir-se, por extensão controlada pelo próprio texto, ao fruto dos lábios, isto é, às palavras — louvor, confissão e anúncio — que procedem da boca (Hebreus 13:15; Isaías 57:19).

O ponto hermenêutico aqui é simples: o significado não é livre nem ilimitado; ele é definido pelo uso bíblico e pelo contexto imediato. Assim, qualquer sentido atribuído a “fruto” que não se sustente nessa moldura textual — seja literal (colheita) ou verbal (lábios) — acaba sendo uma leitura imposta ao texto, e não extraída dele.

Isso também esclarece o uso bíblico de alegorias e tipologias. Quando Paulo recorre a Sara e Agar como alegoria das duas alianças, ele não dissolve a história em metáfora vaga; ele emprega a alegoria para explicitar uma realidade concreta: assim como o filho gerado segundo a carne perseguiu o filho nascido segundo a promessa, também os religiosos judaicos perseguiam os que, pelo evangelho, haviam nascido de novo. O elemento literal, aqui, é a realidade presente da Igreja: os cristãos são filhos da livre e, por isso, sofrem oposição; e, nesse sentido, são os verdadeiros filhos de Abraão — não por genealogia, mas por fé

A tradição clássica fala em sentidos moral (tropológico) e anagógico; porém, mesmo quando se reconhece uma dimensão pedagógica e escatológica na Escritura, o princípio não muda: a Bíblia ensina e forma. Paulo afirma que o que foi registrado sobre Israel foi escrito “para nosso ensino” e como “exemplos” para que não incorramos nos mesmos erros (Romanos 15:4; 1 Coríntios 10:6 e 11). Logo, o núcleo hermenêutico não é inventar camadas ocultas, mas compreender o texto como ele se dá e para o fim que Deus o deu.

Assim, a questão decisiva na interpretação não é “quantos sentidos posso extrair”, mas como leio — isto é, com que pressupostos, com que viés e com que compromisso com o próprio texto (Lucas 10:26).

Metáforas, hipérboles e alegorias

Os escritores bíblicos recorreram amplamente às figuras de linguagem, entre elas a metáfora. A metáfora é um recurso que estabelece uma comparação implícita: transfere a um termo o significado de outro, com base numa semelhança percebida, tornando o discurso mais expressivo, poético e, muitas vezes, mais memorável. Em outras palavras, ela usa palavras fora do sentido estritamente denotativo para comunicar um sentido real por meio de imagem.

Em textos históricos e narrativos, esse recurso tende a aparecer com menor frequência; já em textos poéticos e sapienciais — como Salmos e Provérbios — é abundantemente empregado. Isso, porém, não significa que o texto passe a ter “um significado essencial oculto”, nem que a figura dissolva a objetividade do que está sendo dito.

No Salmo 23, por exemplo, quando se afirma: “O SENHOR é o meu pastor”, a linguagem é metafórica, mas o que ela comunica é plenamente objetivo: o cuidado e a proteção de Deus. Do mesmo modo, quando Jesus diz: “Eu sou a porta” (João 10:9), Ele não é madeira, mas a metáfora é transparente quanto ao seu ponto central: Cristo é o único acesso do homem a Deus. Assim, o emprego de metáforas, hipérboles e símiles não enfraquece a literalidade do sentido; apenas indica que a literalidade aqui não é “material”, e sim a intenção real do autor comunicada por imagem.

Por isso, dizer que uma leitura literal da Bíblia “gera confusão” costuma revelar outro problema: não saber ler o gênero e a figura. O erro não está na literalidade, mas em confundir literalidade com “leitura de superfície” ou “materialização” de imagens. A leitura literal, no sentido próprio, busca o significado simples, direto, gramatical e contextual: o que o autor pretendeu comunicar, considerando contexto histórico, literário e teológico. Se o texto afirma que Jesus nasceu em Belém, isso deve ser entendido como fato histórico. Se o texto usa figura, deve-se buscar o que aquela figura está afirmando de fato.

Mesmo quando o sentido aparente parece “absurdo”, isso não autoriza o intérprete a inventar sentidos paralelos. No Sermão do Monte, quando Jesus diz que, se o olho faz tropeçar, deve-se arrancá-lo, o ponto não é ensinar automutilação como técnica moral, mas produzir impacto para evidenciar a gravidade do pecado e, no fluxo do discurso, expor a insuficiência da justiça humana diante da exigência da justiça divina. A chave está na tese do próprio sermão: a justiça exigida excede a dos líderes religiosos (Mateus 5:20); ao empurrar o ouvinte até o limite, Jesus mostra que essa justiça não é atingida por esforço carnal, mas pela mudança de entendimento (metanoio/arrependimento) que a presença do reino dos céus impõe (Mateus 3:2).

Isso mostra por que a interpretação bíblica exige atenção ao estilo do texto: há descrições, narrativas, leis, poesia, provérbios, parábolas, alegorias e tipologias. Separar o “gramatical” do “literário” como se fossem mundos distintos compromete a precisão, porque o sentido bíblico é justamente o encontro entre forma e intenção.

Veja um exemplo de metáfora funcional: Paulo escreve que “antes que viesse a fé” e que “a fé veio” (Gálatas 3:23–24). Não se trata de fé como pessoa que anda e chega, mas de uma forma figurada de dizer que a realidade da fé se manifestou historicamente com a vinda de Cristo e a revelação do evangelho. A figura dá leveza e força ao argumento, mas remete a um evento literal: a encarnação e a inauguração do novo pacto.

Outro ponto importante: a Bíblia não se propõe a ser um tratado de cientificismo moderno. Expressões como “os quatro cantos da terra” não pretendem discutir a geometria do planeta, mas comunicar, no horizonte linguístico do leitor antigo, a ideia de “toda a extensão”, “todas as direções”. Se o autor adotasse linguagem científica futura, seria impreciso para seus leitores. Do mesmo modo, leis sobre impureza e alimentos não pressupõem microbiologia; tratam de separação, culto e ordem pedagógica dentro da economia da aliança.

É justamente por isso que um método alegórico — entendido como atribuição de sentidos ocultos a detalhes narrativos, frequentemente além (ou contra) a intenção do autor — tende a produzir equívocos. Dar significado “espiritual” aos mergulhos de Naamã, à capa do cego curado, à árvore em que Zaqueu subiu ou à pedra diante do túmulo de Lázaro, como se cada detalhe fosse um código, não é interpretação; é invenção quando o próprio texto não autoriza.

Quando a Escritura usa alegoria de modo legítimo, costuma controlar o sentido. Em Mateus 16, por exemplo, Jesus fala do “fermento dos fariseus”, e o texto esclarece que se tratava da doutrina deles; o símbolo não fica solto. O mesmo ocorre em alegorias apostólicas: o sentido é dado, não projetado.

Alguém pode perguntar por que os textos bíblicos recorrem a alegorias e parábolas, em vez de se limitarem a uma gramática estritamente denotativa. Em muitos casos, esses recursos linguísticos são empregados para produzir impacto, facilitar a fixação do ensino na memória dos ouvintes e condensar verdades complexas em imagens simples e marcantes. Isso ajuda a explicar, inclusive, como a mensagem pôde ser preservada e posteriormente registrada com fidelidade, como ocorre nos Evangelhos.

Além disso, em determinados contextos, a linguagem figurada também funciona como uma forma de preservar a integridade do que é transmitido: aquilo que não é imediatamente compreendido tende a não ser facilmente distorcido, instrumentalizado ou combatido por quem rejeita a mensagem. Assim, a alegoria não substitui a verdade; ela a comunica de modo mais eficaz — e, muitas vezes, mais protegido.

Por exemplo, o livro de Provérbios, atribuído a Salomão, é composto por sentenças sapienciais que, à primeira vista, parecem apenas reunir lições moralizantes e conselhos práticos para a vida. Contudo, quando analisado com maior acuidade, percebe-se que, por trás dessa forma pedagógica, o texto também sustenta uma denúncia da apostasia e do desvio religioso.

Nesse sentido, Provérbios recorre a figuras recorrentes — como o jovem simples e a mulher adúltera — para representar, de modo mais profundo, a dinâmica da sedução espiritual. A mulher adúltera não precisa ser lida apenas como personagem literal, mas como um retrato da religiosidade infiel que se instala “na cidade”, busca adeptos e captura consciências por meio de palavras persuasivas. Em Provérbios 7:14, por exemplo, a menção à “paga de votos” indica um vocabulário de culto e compromisso religioso, sugerindo que o texto não está tratando somente de desejo carnal, mas também de uma forma de serviço religioso corrompido, que atrai o incauto por retórica e aparência de piedade.

Essa leitura não equivale a uma alegorização arbitrária do texto, como se fosse legítimo atribuir sentidos ocultos a qualquer detalhe. Trata-se, antes, de reconhecer evidências internas e coerências temáticas que apontam para uma crítica precisa à religião falsa — crítica tão bem articulada que pode passar despercebida justamente por quem reduz o livro a um manual de moral. Além disso, essa linha de leitura é consistente com o padrão profético do Antigo Testamento, em que a infidelidade espiritual de Israel é denunciada por meio da imagem da prostituição: “como se fez prostituta a cidade fiel” (Isaías 1:21) e as longas metáforas de Ezequiel sobre a “mulher” que se corrompe (Ezequiel 16:35) reforçam esse mesmo registro simbólico.

Em outros casos, um livro reúne diversas figuras para retratar uma verdade em escala mais ampla. Na Antiga Aliança, Israel é frequentemente apresentado como rebanho, necessitado do cuidado do Pastor, enquanto povos hostis são descritos como feras do campo — leão, urso, leopardo — imagens que expressam ameaça, opressão e predadores ao redor. O Apocalipse, por sua vez, concentra esse tipo de linguagem em visões densas: a figura da prostituta e da besta (Apocalipse 17) compõe um quadro simbólico em que uma realidade apostatada se apoia em um poder político amplo — um conglomerado de nações — e, por algum tempo, sente-se segura sob sua proteção.

Interpretando as Escrituras

O que o intérprete precisa buscar é a intenção original do autor — isto é, o sentido que o texto pretende comunicar no seu contexto. Um exemplo claro desse princípio aparece na tentação de Cristo. O tentador interpela Jesus a transformar pedras em pão e, depois, a lançar-se do pináculo do templo como “prova” de que era o Filho de Deus, citando as Escrituras (Salmo 91) como se elas autorizassem um gesto espetacular e presunçoso.

A resposta de Jesus é decisiva para a hermenêutica: Ele não “espiritualiza” o texto nem o contradiz, mas o interpreta à luz de outras Escrituras, corrigindo o uso indevido do Salmo. Por isso afirma: “também está escrito” — “nem só de pão viverá o homem” e “não tentarás o Senhor teu Deus”. Assim, Jesus demonstra que a leitura correta não consiste em isolar um versículo para justificar uma ação, mas em compreender a Escritura com a própria Escritura, respeitando seu propósito e seus limites.

Interpretar, portanto, não é tensionar o texto para servir a objetivos próprios. Jesus podia, de fato, transformar pedras em pão; contudo, fazê-lo ali significaria empregar poder para escapar da condição humana ordinária, quando o princípio estabelecido é que o homem se sustenta no caminho comum da vida — “do suor do seu rosto”. Do mesmo modo, Deus prometeu proteção ao Cristo, mas provocar deliberadamente a necessidade dessa proteção, por iniciativa presunçosa, não é confiar: é atentar contra si mesmo. E a Escritura não oferece amparo a esse tipo de atitude.

Há, assim, diferença entre ser guardado no curso da obediência e forçar a promessa para justificar imprudência. Jesus prometeu autoridade “sobre serpentes e escorpiões”, e Paulo foi preservado quando, em uma necessidade simples (ajuntar lenha), foi mordido por uma víbora. Mas isso é bem diferente de tomar áspides nas mãos de modo intencional, invocando proteção para demonstrar “poder espiritual”. Nesse caso, não se trata de obediência, mas de espetáculo — promessa convertida em pretexto.

O mesmo vale para certas leituras “personalíssimas” das narrativas. Pedro andou sobre as águas porque foi chamado a isso por Cristo, em circunstância específica. Transformar esse episódio em regra para “provar” autoridade ou espiritualidade é deslocar o texto do seu propósito, usando-o como instrumento de autoafirmação. Esse tipo de leitura não é autorizado, porque troca a lógica bíblica — obediência, dependência e sobriedade — pela lógica da exibição, que tenta fazer do texto um palco para o ego.

O mesmo vale para leituras “personalíssimas” de certas narrativas. Pedro andou sobre as águas porque foi chamado por Cristo, em circunstância específica. Transformar esse episódio em regra para “provar” autoridade ou espiritualidade é deslocar o texto do seu fim, usando-o como instrumento de autoafirmação. É trocar a lógica bíblica — obediência, dependência e sobriedade — pela lógica da exibição.

Até mesmo os relatos de milagres precisam ser lidos com finalidade didática, e não como promessa automática de proteção contra as aflições da vida. Quando Jesus menciona a viúva de Sarepta e o leproso Naamã, Ele não ensina uma “técnica” para obter milagres nem oferece um atalho contra o sofrimento. Ele evidencia o sentido pedagógico do texto: a soberania de Deus em agir onde quer e a realidade de que “um profeta não é bem recebido na sua própria terra” (Lucas 4:24–27). O foco não é o prodígio em si, mas o ensino que o prodígio comunica no seu contexto. Por isso, usar tais textos como base para prometer intervenções miraculosas a cada vicissitude é desviar o propósito do relato — afinal, a própria Escritura afirma que “no mundo tereis aflições”.

Nesse quadro, é importante notar que nem Jesus nem os apóstolos estavam autorizados a “inventar” sentidos. Na condição de Filho, Jesus falava apenas o que o Pai lhe determinara:

“Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito.” (João 12:49-50).

Do mesmo modo, Paulo afirma que não se propôs a inovar com novidades, mas a anunciar o que já estava anunciado “na lei e nos profetas” (Atos 26:22–23). E quando diz que tratava de “coisas espirituais”, isso não significa que recebia diariamente instruções privadas como se Deus lhe soprasse novas frases ao ouvido. O núcleo do que pregava era o testemunho de Cristo: os coríntios foram “enriquecidos” com “toda palavra” e “todo conhecimento” do evangelho, de modo que “nenhum dom” lhes faltava (1 Coríntios 1:5–6). Ainda que Paulo tivesse ampla formação e recursos de sabedoria humana, decidiu nada anunciar além de Cristo crucificado — escândalo para judeus e loucura para gregos —, de modo que sua palavra fosse “demonstração de espírito e de poder”, isto é, evidência de Cristo, o Espírito vivificante (1 Coríntios 2:4).

Por isso, quando Paulo declara que falava “com palavras ensinadas pelo Espírito Santo”, ele explica o método: comparar coisas espirituais com as espirituais. Se as palavras de Cristo são “espírito e vida”, e se a Lei, os Salmos e os Profetas dão testemunho dessas mesmas realidades, então a via mais segura para aprender a interpretar a Bíblia é deixar que a própria Escritura governe o sentido, mantendo o texto em seu propósito e em sua unidade:

“As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais.” (1 Coríntios 2:13).

 

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