Tiago: epístola de palha?

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Se a pergunta de Tiago fosse feita pelo evangelista João, seria assim: “Meus filhinhos, que proveito há se alguém disser que ama, e não tiver obras? Pode esse amor salvá-lo? ” “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 João 3.18).


Tiago estimula o assistencialismo?

Introdução

Qualquer pessoa durante a leitura de um texto assim o faz através de uma perspectiva subjetiva tendo como suporte lentes formadas por uma bagagem sociocultural. Nesse processo, o leitor se aproxima de um conteúdo objetivo compartilhado pelo autor, abstrai o exposto, e o que se conclui da leitura se mescla à sua bagagem sociocultural que fica mais pesada.

Ao ler uma carta, soma-se um outro fator ao processo descrito acima: a) ou as partes já se conhecem; b) ou o tema abordado é de conhecimento comum, e; c) ou ambos, as partes se conhecem e o assunto também é conhecido.

Com relação a carta de Tiago o processo de leitura e compreensão do tema não é diferente, pois há o leitor com a sua bagagem sociocultural, que se aproxima de um texto com conteúdo objetivo, e o tema principal é de conhecimento tanto do leitor quanto do escritor: o evangelho de Cristo.

Entretanto, seguindo o exemplo do apóstolo Paulo, para se alcançar a excelência do conhecimento de Jesus Cristo, se faz necessário ao homem abrir mão de toda sua bagagem sociocultural, que envolve pressupostos morais, práticas religiosas, vínculo familiar, formação acadêmica, filosofias de vida, etc.

“E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo,” (Filipenses 3.8).

O evangelho de Cristo não foi anunciado pelos apóstolos com palavras de sabedoria humana ou filosofias, antes tendo por base o que o Espírito Santo ensina, comparando coisas espirituais com as espirituais. O método bíblico de ensino do evangelho é comparativo, e muitas das vezes, figuras são utilizadas para estabelecer a comparação, mas os elementos envolvidos na comparação são eminentemente espirituais (1 Coríntios 2.13-14).

Outro elemento que influência a compreensão do texto é a linguagem, pois certos vocábulos são utilizados por grupos específicos. Embora os escritores do Novo Testamento tenham utilizado a língua grega para escrever as suas epístolas, alguns termos ganharam novos contornos em função de um novo grupo de pessoas unidas pelo evangelho de Cristo.

Dentro do grupo de cristãos da igreja primitiva, havia um subgrupo que utilizava uma linguagem que lhes era peculiar, os cristãos convertidos dentre os judeus, de modo que há diferenças relacionadas a expressões linguísticas em função do público alvos das epístolas, visto que o apóstolo Paulo escreveu a gentios, e Tiago, a cristãos judeus.

 

Epístola de palha

No prefácio à tradução de 1522, que Martinho Lutero fez do Novo Testamento, ficou gravado:

“Se eu tivesse que ficar sem uma ou outra — ou as obras ou a pregação de Cristo — eu antes ficaria sem suas obras do que sem sua pregação. Pois as obras não me ajudam, mas suas palavras dão vida, como ele mesmo diz. Ora, João escreve muito pouco sobre as obras de Cristo, mas muito sobre sua pregação.

Os outros evangelistas escrevem muito de suas obras e pouco de sua pregação. Portanto, o evangelho de João é aquele terno, verdadeiro, de longe o principal evangelho a ser preferido aos outros três e colocado acima deles. Assim, também, as epístolas de São Paulo e São Pedro, ultrapassam de longe os outros três Evangelhos, Mateus, Marcos e Lucas.

O evangelho de João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, especialmente Romanos, Gálatas e Efésios, e a primeira epístola de Pedro são livros que te mostram Cristo e te ensinam tudo o que é necessário e salvífico conhecer, ainda que jamais vejas ou escutes outro livro ou doutrina. Por isso a epístola de Tiago, comparada com eles, é realmente uma epístola de palha, já que não há nenhuma característica evangélica nela.” Luther, Works of Martin Luther – The Philadelphia Edition, trans. C. M. Jacobs, vol 6. Preface to the New Testament (Grand Rapids: Baker Book House, 1982), páginas 439-444. Conforme citado em Bercot, David W., Will The Real Heretics Please Stand Up, (Scroll Publishing, 1989), página 112.

No mesmo ano, na segunda edição, Lutero ‘suavizou’ a sua crítica e omitiu a expressão ‘epístola de palha’:

“Mesmo que tenha sido rejeitada pelos antigos, eu louvo esta epístola e a considero boa, pelo fato dela não propor doutrina humana, e por promover duramente a lei de Deus. Para dar minha opinião, porém, sem prejuízo de ninguém, considero-a não escrita por apóstolo. Primeiro porque, contrariamente a Paulo e toda a Escritura, ela dá justiça às obras. . . Segundo, porque ao querer ensinar a cristãos, não lembra em sua longa doutrina o sofrimento, a ressurreição, o Espírito de Cristo. . . Tiago não faz outra coisa do que instar para a lei e suas obras, misturando tão confusamente uma coisa na outra que imagino que tenha sido algum homem bom e piedoso que captou alguns ditos de discípulos dos apóstolos e assim os lançou sobre o papel. . . Designa a lei como lei da liberdade (1.25), sendo que Paulo a chama de lei da servidão, da ira, da morte e do pecado (Gl 3.23s e Rm 7.11,23). . . Em suma, ele quis combater os que confiavam na fé sem obras, e foi fraco demais. Quer alcançá-lo pela promoção da lei, quando os apóstolos o conseguem atraindo para o amor. Por isso eu não posso colocá-lo entre os livros principais, mas com isso não quero impedir ninguém a fazê-lo, e a destacá-lo como lhe apetece, pois no mais contém muitas boas afirmações.”

Analisaremos o comentário de Matinho Lutero e, analisemos se a razão lhe assiste.

 

Objetivo da lei

No comentário à segunda edição, apesar de ‘suavizar’ a sua crítica à carta de Tiago, Lutero louva a epístola e a considera boa por dois motivos:

  1. Não propõe doutrina humana;
  2. Promove duramente a lei de Deus.

As proposições apresentadas por Lutero são contraditórias, visto que, com o advento de Cristo, qualquer promoção da lei mosaica, mesmo que rígida, não passa de doutrina de homens. Como assim?

Primeiro, porque ‘tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei’, ou seja, a lei foi dada aos judeus, para que toda boca esteja fechada e todo mundo seja condenável diante de Deus (Romanos 3.19; Romanos 9.4).

Segundo, mesmo um judeu, se quisesse fazer uso legitimo da lei, deveria se considerar transgressor frente a lei, pois ela foi dada aos injustos, e não aos justos (1 Timóteo 1.9), ao que se conclui que a lei tinha o condão de demonstrar que os judeus, assim como os gentios, também eram pecadores (Romanos 3.9), com o objetivo de conduzi-los a Cristo (Romanos 10.4; Gálatas 3.23-24).

Qualquer promoção da lei que foge ao seu objetivo central: demonstrar que os judeus eram pecadores, e que somente através do Descendente prometido a Abraão os filhos de Israel seriam benditos juntamente com os demais povos, não passa de doutrina de homens.

“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro. ” (Gálatas 3.19).

No entanto, as duas justificativas apresentadas por Lutero para validar as duas proposições contraditórias, promovem maior confusão. Lutero afirmou que:

  1. Contrariando o apóstolo Paulo e a Escritura, Tiago dá justiça às obras;
  2. Ao se propor ensinar os cristãos, não faz alusão em sua exposição as questões afetas ao evangelho.

Ora, quem faz qualquer exposição contrária a Escritura e a doutrina dos apóstolos não deve ser louvado, não é bom e nem é para ser recebido ou saudado pelos cristãos (2 João 1.10). Se a epístola de Tiago afirma que é pelas obras da lei que se dá a justiça de Deus, é anátema. Se alguém se posiciona como mestre do evangelho e não anuncia o sofrimento, morte e ressurreição de Cristo como causa da justiça de Deus, não anuncia o evangelho de fato.

Com essas colocações, Lutero não suavizou a sua crítica, e acrescenta que Tiago somente instou ‘para a lei e suas obras, misturando tão confusamente uma coisa na outra’.

 

O evangelho na epístola de Tiago

Além de insinuar que Tiago era um qualquer que, sem compreender o que ouviu dos apóstolos, redigiu mal traçadas linhas, acusa-o de chamar a lei de ‘lei da liberdade’, e aponta o verso 25, do capítulo 1, da epístola de Tiago. Vejamos:

“Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.” (Tiago 1.25).

Ao tecer a sua crítica, Lutero comete um erro de interpretação do texto da epístola de Tiago de proporção colossal. Justamente no ponto em que afirma que Tiago chama a lei de ‘lei da liberdade’, na verdade, Tiago faz uso de um recurso linguístico chamado metonímia, que consiste no uso de uma palavra fora do seu contexto semântico normal, por ter uma significação que tenha relação objetiva, de contiguidade, material ou conceitual, com o conteúdo ou o referente ocasionalmente pensado, para fazer referência ao evangelho.

O evangelho de Cristo tem duas características sublimadas na figura de retórica ‘lei perfeita da liberdade’ (εἰς νόμον τέλειον τὸν τῆς ἐλευθερίας), que Tiago utilizou:

  1. O evangelho promove a liberdade, e;
  2. O evangelho é o mandamento de Deus.

Ao entregar o Seu Filho unigênito por amor da humanidade, Deus estabeleceu um mandamento: ‘que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo’ (1 João 3.23; João 12.50), para que todo que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16).

O evangelho é um chamado à liberdade:

“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (João 8.36; Lucas 4.19);

“ESTAI, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão.” (Gálatas 5.1).

Antes de nomear o evangelho de ‘lei perfeita da liberdade’, Tiago fez as seguintes alusões ao evangelho de Cristo:

  1. O evangelho é sujeição a Cristo – Tiago afirma sujeição a Deus e a Jesus Cristo como Senhor, ao se apresentar como servo (Tiago 1.1);
  2. O evangelho é promessa de vida aos que amam a Cristo, ou seja, que O obedecem (Tiago 1.12; Romanos 8.28; 1 João 2.25);
  3. O evangelho é a palavra da verdade – a palavra de Deus é semente incorruptível que gera um novo homem segundo a vontade de Deus (Tiago 1.18), para que seja propriedade (primícias) de Deus “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” (Efésios 1.13; João 1.12-13; 1 Pedro 1.22-25; João 17.17; 2 Coríntios 6.7; 2 Timóteo 2.15; Colossenses 1.5; 1 Coríntios 16.15; Êxodo 13.2);
  4. O evangelho é ‘palavra’ poderosa para salvar – o evangelho é recebido com mansidão, portanto, não é imposição, e é poder para salvação (Tiago 1.21; Romanos 1.16; Efésios 1.13; 1 Coríntios 1.18; Colossenses 2.12);
  5. O evangelho é obediência a Deus – Tiago orienta os cristãos a cumprirem o evangelho – a palavra, e não serem meros ouvintes (Tiago 1.22; Mateus 7.24);
  6. O evangelho é anunciado – mas, se o ouvinte não obedece, se assemelha a alguém que olha o seu reflexo no espelho, e quando sai, se esquece do seu rosto natural (Tiago 1.22-23; Mateus 7.26);
  7. O evangelho é a lei perfeita da liberdade – a recomendação de Tiago aos cristãos é perseverar no evangelho (Tiago 1.25; Mateus 24.13; 1 Timóteo 4.16; 2 João 1.9). A lei perfeita da liberdade é o evangelho de Cristo, a palavra da verdade que o ouvinte não pode ouvir e esquecer (Tiago 1.25 comparado com Tiago 1.22-24).

Se Lutero confundiu a ‘lei da liberdade’ com a ‘lei mosaica’, que se dirá da relação ‘fé’ versus ‘obras’? Tiago queria combater os que ‘confiavam na fé sem obras’? Tiago foi fraco? Tiago promoveu a lei?  Não há nenhuma característica evangélica na epístola de Tiago?

 

O evangelho de João é melhor que os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas?

Antes de desclassificar a epístola de Tiago, Lutero afirmou que o evangelho de João, se comparado aos evangelhos sinóticos, de longe é o principal a se ter em preferência, como superior aos outros.

“Portanto, o evangelho de João é aquele terno, verdadeiro, de longe o principal evangelho a ser preferido aos outros três e colocado acima deles. “ Idem.

Apesar de os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas possuírem semelhanças incontestes, e por isso, são chamados de ‘Evangelhos Sinóticos’, cada livro, do ponto de vista literário, é único, e só por esta peculiaridade já é impossível atribuir  valorações diferentes aos evangelhos.

É visível que o evangelho de João possui uma narrativa diferente dos demais, mas essa diferença não dá suporte para classifica-lo com melhor ou pior que os outros.

Ao ler o evangelho de Mateus, percebe-se a preocupação do escritor do evangelho em conduzir a narrativa da forma mais palatável possível ao seu público alvo: os seus irmãos segundo a carne, os judeus. A introdução da narrativa começa com a genealogia de Jesus, vinculando Jesus ao pai Abraão e ao rei Davi, personagens históricos que os judeus atribuem grande valor (Mateus 1.1). Ao evoluir a narrativa, o apóstolo Mateus sempre cita as Escrituras para evidenciar o seu cumprimento, de modo que o leitor conclua, por si só, que Jesus de Nazaré é o Cristo.

O evangelista Marcos afirma que Jesus é o Filho de Deus no primeiro verso (Marcos 1.1), e passa a narrar os diversos sinais miraculosos operados ao longo do seu ministério. Sinais miraculosos é uma questão que os judeus são afetos, pois a narrativa da Antiga Aliança é pontuda por diversos milagres operados por mãos dos profetas da antiguidade.

A narrativa do evangelista Lucas tem por objetivo informar um cristão em particular (Lucas 1.4), e ela é a que mais se aproxima de uma narrativa histórica, situando os eventos no tempo e espaço, e fazendo alusão a algumas pessoas em eminencia. O médico amado evidencia que, muitas pessoas empreenderam narrar os eventos por escrito, e ele, por sua vez, achou por bem faze-lo, elevando a narrativa ao patamar de tratado, haja vista o processo investigativo de Lucas ao escrever (Atos 1.1).

O evangelho de João, pela narrativa, demonstra ser o mais tardio a ser escrito. O público alvo da sua narrativa é a igreja, constituída de judeus e gentios, embora a linguagem utilizada é mais afeta aos judeus. O evangelista João pontua de modo expresso o seu objetivo ao escrever o seu evangelho: crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para isso, dentre os inúmeros sinais operados, o discípulo amado narrou alguns (João 20.30-31). Por ser o mais tardio a ser escrito, período em que a igreja já havia se estabelecido, não se observa no evangelista João a mesma preocupação do evangelista Mateus em desenvolver a narrativa esperando uma conclusão do leitor, pois desde o início da epístola o evangelista João faz declarações contundentes acerca da divindade de Jesus.

Ante a análise acima, verifica-se que cada evangelista teve os seus motivos durante a condução das narrativas, e o próprio evangelista João destaca que narrou os milagres operados por Jesus para que os seus interlocutores cressem em Jesus. Isto posto, verifica-se que são indissociáveis os sinais operados e a pregação de Cristo. Se não houvesse a multiplicação dos pães, como seria a declaração ‘eu sou o pão vivo que desceu dos céus’? Haveria como traçar um paralelo entre a narrativa de João e o povo sendo alimentado no deserto com maná? Não haveria como.

“Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.” (João 5.36);

“Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim.” (João 10.25);

“Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras.” (João 14.11).

Ao ler o evangelho de João, percebe-se que os milagres operados possuem conexão com a mensagem anunciada, de modo que os sinais são um testemunho evidente do Pai em relação ao Seu Filho, de modo que a asserção de Lutero, de que João escreveu pouco sobre as obras de Jesus e muito mais sobre a sua pregação não se sustém.

 

Tiago e as figuras

Temos duas figuras dadas como exemplo no capítulo dois da epístola de Tiago que são emblemáticos: o rico com anel de ouro e o pobre andrajoso (Tiago 2.2-4), e o irmão ou irmã nus e famintos (Tiago 2.15-16).

Analisaremos esses dois exemplos para verificar se essas figuras foram utilizadas para promover o assistencialismo nas igrejas, mas, para isso, se faz necessário verificar outras figuras menos emblemáticas utilizadas por Tiago, e que são quase que esquecidas.

A primeira figura que aparece na epístola de Tiago é o agito da onda do mar, utilizada para descrever o homem quando assaltado por dúvidas. Tiago destaca que, se alguém tem falta de sabedoria, que peça a Deus, que dá a todos liberalmente e sem censura. Mas, se quem pede a Deus tem dúvidas, Tiago compara o tal com a onda do mar, que é impelida e agitada pelo vento (Tiago 1.6).

A aplicação prática da figura leva à seguinte conclusão: não receberá o que pediu, e por ser dúplice, é instável em todos os seus caminhos (Tiago 1.8).

Essa figura ilustra de Tiago se assemelha a figura do cristão menino apresentada pelo apóstolo Paulo:

“Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.” (Efésios 4.14).

Um cristão sem sabedoria é um menino, portanto, sujeito a ser levado por vento de doutrina, assim como as ondas do mar são impelidas e agitas pelo vento.

A próxima figura utilizada por Tiago constrói um paralelismo através da volatilidade da flor da erva (Tiago 1.10). Ao abordar a questão da condição social e financeira dos cristãos, Tiago orienta o irmão paupérrimo se gloriar em sua alta posição em Cristo: filho de Deus e herdeiro de todas as coisas com Ele. Já o irmão abastado financeiramente, que se glorie da sua insignificância, porque haverá de passar assim como a flor da erva, que é fugaz.

A figura é emblemática, pois o sol, ao sair, fustiga a flor com ardente calor, e a flor, por sua vez, cai, tendo em vista que a erva murcha (Tiago 1.11). Em seguida, vem o comparativo: assim o rico também murchará em seus caminhos.

A terceira figura apresentada por Tiago é o reflexo no espelho (Tiago 1.23-24). Após exortar os cristãos a serem ouvintes cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, Tiago compara quem só ouve e não obedece a palavra como alguém que, após se observar no espelho, vai embora e se esquece de como era o seu rosto.

Ao construir essa figura, Tiago estava enfatizando que, quem se esquece do rosto facilmente, sempre estará frente ao espelho verificando como é o seu rosto natural. Mas, do que adianta estar continuamente diante do espelho, se ao se retirar dali, logo se esquecerá de como é o rosto?

A figura expressa a seguinte palavra de Deus anunciada por intermédio do profeta Ezequiel:

“Quanto a ti, ó filho do homem, os filhos do teu povo falam de ti junto às paredes e nas portas das casas; e fala um com o outro, cada um a seu irmão, dizendo: Vinde, peço-vos, e ouvi qual seja a palavra que procede do SENHOR. E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza. E eis que tu és para eles como uma canção de amores, de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra.” (Ezequiel 33.30-32).

Se os filhos de Israel não gostaram da palavra dita a Ezequiel, temos Jesus apresentando uma parábola semelhante:

“E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes? São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes. Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio; Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.” (Lucas 7 :31-35).

Não importava o que os enviados de Deus fizessem, os filhos de Israel permaneciam inertes: não obedeciam a palavra de Deus.

As três figuras analisadas até aqui demandam uma aplicação prática no íntimo do indivíduo. Para cumprir o ordenado através das figuras, não demanda por parte do ouvinte ir ao mar e tentar acalmar as ondas ou tenar parar o vento, manter-se abrigado do sol para não se desvanecer ou fixar na memória o seu rosto natural após contemplar um espelho.

Nas três figuras o que se requer é:

  1. Perseverança, mesmo nas provações;
  2. Gloriar-se com aquilo que tem valor diante de Deus, e não em questões desta vida, e;
  3. Que se obedeça ao evangelho para ser bem-aventurado.

A próxima figura é introduzida de modo fraternal:

“Irmãos meus, não tenhais a fé de nosso Senhor da glória, Jesus Cristo, em acepção de pessoas” (Tiago 2.1).

Os irmãos a que se refere o irmão Tiago são os seus irmãos em Cristo Jesus, pois os destinatários da carta eram filhos de Deus pela fé em Cristo (1 João 3.1-2), e irmãos de nacionalidade, pois ele escreveu as doze tribos da dispersão: cristãos judeus dispersos entre as nações gentílicas (Tiago 1.1).

A determinação soa como um pedido: não tenhas a fé de nosso Senhor da glória, Jesus Cristo, em acepção de pessoas. O termo grego πίστιν (pistin), traduzido por fé refere-se ao evangelho de Cristo. Como o termo πίστιν deriva do que é fiel, leal, verdadeiro, verídico, no verso em análise o termo substitui a ideia de evangelho, palavra, palavra da verdade, pois essa fé tem o sentido de querigma, crença, doutrina, etc., e se refere ao Senhor Jesus.

Se de fato os cristãos das doze tribos da dispersão foram gerados pela palavra da verdade (Tiago 1.16), e eram primícias das criaturas de Deus; se de fato receberam com mansidão a palavra implantada, que é poderosa para salvar a alma (Tiago 1.21); se de fato eram cumpridores da palavra, e não somente ouvintes (Tiago 1.22); se de fato estavam de posse da fé, a fé que de uma vez por todas foi dada aos santos (Judas 1.3), que não fizessem acepção de pessoas!

Tudo o que foi exposto no Capítulo 1, da epístola de Tiago, tinha o viés de preparar os leitores da carta para um pedido:

“Como crentes em Cristo, não façam acepção de pessoas! ”

 

O rico com anel de ouro e o pobre com trajes sujos

Em seguida, Tiago dá um exemplo:

“Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos? ” (Tiago 2.2-4).

Das 56 ocorrências do termo συναγωγή (sunagógé), a única ocorrência em uma epístola do Novo Testamento foi feita no verso 2, do capítulo 2 da epístola de Tiago, exceção ao Livro do Apocalipse, que faz uso duas vezes, para fazer referência à sinagoga de Satanás.

No Novo Testamento o termo grego συναγωγή (sunagógé) é utilizado somente para fazer referência ao templo/local ou ao ajuntamento dos judeus, pois o termo que, efetivamente, se aplica aos cristãos é a ‘igreja’.

Quando Tiago apresentou o exemplo do pobre com vestes sujas e o rico com anel de ouro e vestes luxuosas que entra em uma sinagoga, destaca a possibilidade deste evento em um ajuntamento solene de cristãos, a igreja, ou destaca a possibilidade desse evento ocorrer uma sinagoga, local que é próprio ao ajuntamento de religiosos judeus?

“ἐὰν γὰρ εἰσέλθῃ εἰς συναγωγὴν ὑμῶν…”

“Se pois entrar sinagoga vossa…”

A proposta da figura é uma suposição: ‘se pois…’, e sugere que o evento ocorra em uma sinagoga, local de culto dos judeus, e não em um ajuntamento de cristãos. Tiago arguiu os seus interlocutores acerca da possibilidade desse evento se dar em uma sinagoga: entrar alguém com anel de ouro e vestes luxuosas e um pobre com vestes sujas. E em seguida, apresenta um comportamento possível de um religioso judeu frente um rico e um pobre:

‘… e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos? ’.

Se os interlocutores de Tiago estivessem em uma sinagoga, e entrasse um rico judeu e um pobre judeu, e eles, por sua vez, atentassem para o rico e desprezassem o pobre, conclui-se, evidentemente, que os interlocutores de Tiago fizeram discriminação entre eles mesmos, e por isso, passiveis de serem arguidos pelo mal juízo que fizeram.

Através deste exemplo em uma sinagoga, de quão absurdo é um judeu fazer distinção entre judeus por questões econômicas, preferindo o rico em detrimento do pobre, Tiago concita os judeus cristãos a não fazerem acepção quanto aos cristãos gentios.

Um judeu é judeu onde quer que esteja, e em qualquer condição social: rico ou pobre, senhor ou servo, livre ou servo, etc. Um judeu jamais deveria ser aceito ou desprezado por outro judeu por causa de condição social ou econômica, que se dirá em uma sinagoga. O que tem valor para os judeus é o vínculo de sangue, e ambos, o rico e o pobre, seriam aceitos e tratados de igual modo se comparecessem em uma sinagoga, mesmo o pobre com roupas sujas, pois esse é o comportamento ético e moral que se espera de um judeu.

Em resumo, ao solicitar que os judeus cristãos não tivessem a fé em Jesus Cristo em acepção de pessoas (Tiago 2.1), Tiago apresenta um exemplo hipotético, que evidencia o absurdo que seria, em uma sinagoga, judeus fazerem distinção entre judeus por questões socioeconômicas (Tiago 2.2-4), demonstrando qual deve ser o comportamento de cristãos judeus para com cristãos dentre os gentios.

No verso 5, do capítulo 2, Tiago passa a arguir os cristãos com base no pedido do versículo 1, e o exemplo dos versos 2 a 4, convidando-os a ouvirem a argumentação (Tiago 2. 5-11) e obedecerem (Tiago 2.12).

Primeiro, Tiago remete os cristãos à essência do evangelho:

“Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tiago 2.5).

Quando Deus escolheu os pobres? Essa escolha dos ‘pobres’ tem por base questões socioeconômicas, ou é uma figura? Neste versículo ‘pobre’ é uma figura que remete a uma pessoa que espera em Deus, que contrasta com o ‘rico’, figura que remente a quem se apoia na sua própria força.

Compadecer-se-á do pobre e do aflito, e salvará as almas dos necessitados.” (Salmos 72.13);

“Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos.” (Isaías 57.15);

“Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra.” (Isaías 66.2);

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem (em si mesmo), e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR! (…) Bendito o homem que confia no SENHOR, e cuja confiança é o SENHOR.” (Jeremias 17:5 e 7).

O ‘pobre’ que Deus se compadece e é favorável diz dos ‘pobres de espírito’, que pode ser, socioeconomicamente, tanto o pobre como o rico.

Tiago evidencia que os ‘pobres de espírito’ foram escolhidos para serem ricos na fé (no evangelho) e herdeiros com Cristo de todas as coisas, pois é essa a promessa de Deus aos que O obedecem (amam). A escolha dos ‘pobres’ se deu quando Deus enviou Cristo ao mundo, de modo que, os que amam (obedecem) a Cristo passam a condição de ricos na fé e herdeiros com Cristo de todas as coisas (Tiago 1.12 compare com Tiago 2.5).

“Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: (…) e aos pobres anuncia-se o evangelho.” (Lucas 7.22);

“Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória;” (Colossenses 1.27);

“Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna.” (Tito 3.7; Gálatas 3.29).

Em seguida, vem a repreensão:

“Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tiago 2.6-7).

A acusação é grave: os pobres foram chamados por Deus e agora são ricos na fé e herdeiros conforme a promessa, mas os interlocutores de Tiago desonravam o pobre! Isto significa que os cristãos convertidos dentre os judeus faziam acepção de pessoas, e não tinham em honra alguém que era rico na fé e herdeiro da promessa, mas honravam os ‘ricos’, judeus não convertidos.

No contexto, quem seriam os ricos? Os ‘ricos’ eram os religiosos judeus que oprimiam e perseguiam os judeus convertidos a Cristo, arrastando-os aos tribunais, e que blasfemavam de Cristo. Isto significa que, os cristãos judeus desprezavam os cristãos gentios e tinham em conta os seus concidadãos, que oprimiam os cristãos, arrastando-os aos tribunais e que blasfemavam de Cristo.

Lembrando que, os ‘ricos’ é figura que remete aos que mataram a Cristo:

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. (…) Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu.” (Tiago 5.1)

Com os judeus cristãos estava acontecendo o mesmo que aconteceu com o apóstolo Paulo, que foi arrastado à diversos tribunais pelos judeus incrédulos.

“Mas, sendo Gálio procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus concordemente contra Paulo, e o levaram ao tribunal,” (Atos 18.12).

O que diz a ‘fé’ em Cristo? Que não há diferença entre judeu ou grego, rico ou pobre, homem ou mulher, servo e livre, senhor e escravo, etc., pois todos igualmente são filhos de Deus pela fé em Cristo.

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3.26-28);

“E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.” (Colossenses 3.10-11).

Na igreja de Cristo não há diferenças, pois ela é o corpo de Cristo, e cada cristão, em particular, seus membros (1 Coríntios 12.27). Da mesma forma quena sinagoga não havia diferenças entre judeus ricos e pobres, segundo o exemplo do rico com anel de ouro e o pobre de vestes sujas (Tiago 2.2-4), na igreja de Cristo também não devia haver diferenças decorrentes de nacionalidade, pois em Cristo não há diferenças (1 Coríntios 12.25).

O que estava ocorrendo na comunidade cristã das doze tribos da dispersão era semelhante ao comportamento do apóstolo Pedro, que comia com os gentios enquanto só tinha gentios, mas quando chegou cristãos judeus, foi se distanciando dissimuladamente dos gentios, para ficar com os judeus, quando prontamente foi reprendido pelo apóstolo Paulo.

“Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gálatas 2.12-14).

Tiago podia repreender os cristãos judeus fazendo uma argumentação semelhante a do apóstolo Paulo, mas ele faz uso da lei. Se ao menos cumprissem a lei áurea, que há na Escritura: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’, fariam bem, mas se faziam acepção de pessoas, a mesma lei os arguia como transgressores (Tiago 2.8-9).

Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus? Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios. Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada. Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma. Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor.” (Gálatas 2.14-18);

“Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis. Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores. ”  (Tiago 2.8-9).

Em seguida, Tiago apresenta o espirito da lei, demonstrando que entrar pela lei é permanecer sob culpa:

“Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos. Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei.” (Tiago 2.10-11).

Por fim, Tiago apresenta a conclusão da exposição que teve início no verso 22, do capítulo 1:

Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade. Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.” (Tiago 2.12-13).

Se alguém fala que tem a fé em nosso Senhor Jesus (Tiago 2.1), que assim proceda, ou seja, não faça acepção de pessoas. Por que não fazer acepção, se os cristãos não estão mais debaixo da lei mosaica, que faz com que quem não obedece seja transgressor? Porque como cristãos deviam considerar que não mais serão julgados segundo a lei mosaica, e sim pela ‘lei da liberdade’, o evangelho de Cristo (Tiago 1.25).

E o alerta  no evangelho é grave:

“Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.” (Tiago 2.13).

Jesus determinou aos escribas e fariseus aprenderem a lição da misericórdia:

“Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento.” (Mateus 9.13).

Onde os escribas deveriam aprender o que significa ‘misericórdia quero, e não sacrifício’? Nas escrituras! E o que ela diz?

“E enviou-te o SENHOR a este caminho, e disse: Vai, e destrói totalmente a estes pecadores, os amalequitas, e peleja contra eles, até que os aniquiles. Por que, pois, não deste ouvidos à voz do SENHOR, antes te lançaste ao despojo, e fizeste o que parecia mau aos olhos do SENHOR? Então disse Saul a Samuel: Antes dei ouvidos à voz do SENHOR, e caminhei no caminho pelo qual o SENHOR me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente; Mas o povo tomou do despojo ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao SENHOR teu Deus em Gilgal. Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” (1 Samuel 15.18-23).

A lição que os escribas e fariseus deveriam aprender estava na pessoa de Saul, que após ouvir a ordem de Deus (como alguém que olha o rosto natural no espelho), saiu para fazê-la, mas acabou fazendo a sua própria vontade (mas, esquece de como era o seu rosto). Deus disse: destrói totalmente os amalequitas, e Saul não obedeceu, dando como desculpa que tinha proposto fazer um sacrifício.

O rei Saul é o exemplo claro de alguém que observa o seu rosto natural no espelho, e que após sair, esquece de como era. Saul era tão somente ouvinte, e não cumpridor. Os escribas e fariseus deveriam aprender essa lição, pois vinham ouvir as palavras de Jesus, mas não praticavam, assim como ouviam a lei e não praticavam (João 7.19).

Uma lição importantíssima em Saul, e que era repetida pelos profetas:

“Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.” (Oseias 6.6).

Mas, o povo de Israel permanecia insensíveis a voz de Deus, como crianças que ficam arguindo umas às outras, como os escribas e fariseus, que debatiam acerca do que devia ser feito, mas não obedeciam a voz de Deus.

“São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.” (Lucas 7.32).

 

Fé e obras

Em seguida, Tiago apresenta a figura do irmão e irmã nus e necessitados de alimentos.

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?” (Tiago 2.14-16).

Para compreender as perguntas duas perguntas feita por Tiago, se faz necessário explicar a natureza da ‘fé’ e a natureza das ‘obras’ abordadas nesse versículo. Para isso, voltemos ao capítulo 1:

“Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.” (Tiago 1.25).

A lei perfeita da liberdade é o evangelho de Cristo, no qual o cristão deve perseverar crendo para alcançar a bem-aventurança prometida (2 João 1.9), ou dito de outra forma: a lei perfeita da liberdade é a fé que foi dada aos santos (Judas 1.3), fé que o cristão está na posse (Tiago 2.1), e deve guardar até o final da carreira (2 Timóteo 4.7).

Atentar (παρακύπτω/parakuptó) para a lei perfeita da liberdade é atender, obedecer, sujeitar-se ao evangelho, e perseverar (παραμένω/paramenó) é permanecer, guardar, estar firme. Os verbos παρακύπτω (atentar) e παραμένω (perseverar) resumem-se em uma locução verbal: ποιητὴς ἔργου (praticante de obra), ação que se contrapõe a quem é ouvinte esquecido.

‘Praticar uma obra’, ou ‘pôr por obra’, ou ‘executar a obra’ era uma das formas utilizadas pelos profetas para cobrar dos filhos de Israel a obediência devida a Deus:

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza. E eis que tu és para eles como uma canção de amores, de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra.” (Ezequiel 33.31-32).

Os judeus que iam até o profeta Ezequiel para ouvirem a palavra de Deus, mas após ouvirem, não punham por obra. Isto significa que os filhos de Jacó eram ouvintes ‘esquecidos’, que não atentavam, não obedeciam. Se ouviam e não punham por obra, não obedeciam, as obras deles não prestavam, ou seja, não passavam de iniquidade:

“As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos.” (Isaías 59.6).

Se os filhos de Israel não podiam se cobrir com as suas obras porque eram como teias que não prestam para vestes, na verdade, estavam se cobrindo com uma cobertura que não era a palavra de Deus, antes buscavam conselho de homens.

“AI dos filhos rebeldes, diz o SENHOR, que tomam conselho, mas não de mim; e que se cobrem, com uma cobertura, mas não do meu espírito, para acrescentarem pecado sobre pecado;” (Isaías 30.1).

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído;” (Isaías 29.13).

Ora, observando os contextos onde o termo ἔργον (ergon), traduzido por ‘obra’ aparece, o termo pode assumir um sentido positivo ou negativo. Se o homem ouve a palavra de Deus e põe por obra, significa que obedeceu a Deus. Mas, se ouviu a palavra de Deus e não pôs por obra, não atendeu, desobedeceu a Deus.

A palavra de Deus muitas das vezes é apresentada como ‘temor’ (Êxodo 20.20; Provérbios 2.5; Isaías 8.13). Se o filhos de Israel não davam ouvidos a palavra de Deus, o ‘temor’ que obedeciam era somente mandamentos de homens (Isaías 8.11).

É com base nesta linguagem que o evangelista João instrui os cristãos convertidos dentre os judeus, e o apóstolo Paulo instrui a Tito:

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 João 3.18);

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra.” (Tito 1.16).

O termo obra (ἔργον/ergon), dependendo do contexto, remete a um serviço executado por um servo sob o mando de um senhor. Quando repreendeu a multidão por segui-Lo por causa da multiplicação dos pães, Jesus orientou a trabalharem pela comida que permanece para a vida eterna (João 6.26-27).

A multidão em seguida indagou: ‘Que faremos para executar a obra de Deus?’ (João 6.28). Seria o mesmo que: ‘Que faremos para sermos servos de Deus?’ Ao que Jesus respondeu:

“A obra de Deus é essa: que creiais naquele que Ele enviou”. (João 6.29).

Para se tornar servo de Deus, basta realizar a sua obra: crer em Cristo. Quem crê em Cristo é executor da obra da qual Tiago escreveu, e será bem-aventurado, porque atentou para a lei perfeita da liberdade, não sendo ouvinte esquecido.

“Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.” (Tiago 1.25).

É com os significados dos termos acima que Tiago faz as duas perguntas:

“Meus irmãos, que proveito há se alguém disser que tem fé, e não tiver obras? Pode essa fé salvá-lo? “ (Tiago 2.14).

É em um contexto de exortação acerca dos ouvintes da palavra de Deus que não são cumpridores, mas ouvintes esquecidos (Tiago 1.22-23), que Tiago questiona alguém que diz ter fé. O contexto da pergunta tem relação direta com o ouvinte que não é cumpridor da palavra de Deus e que se assemelha a quem contempla o seu rosto natural no espelho, e logo que sai, se esquece de como era (Tiago 1.23-24). Que adianta o ‘ouvinte esquecido’ dizer que tem fé? Pode essa fé que o ouvinte esquecido diz ter salvá-lo? Ora, se só o fazedor da obra é bem-aventurado no seu feito, segue-se a obra exigida por Tiago é cumprir a palavra de Deus: crer em Cristo.

Os judeus diziam ter fé em Deus, mas não criam em Cristo. Poderia essa fé salvá-los? Se não obedecer, ou seja, por por obra, é inócuo dizer que tem fé. É como aquele que edifica a sua casa na areia.

“E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia;” (Mateus 7.26).

Jesus mesmo disse aos discípulos:

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (João 14.1).

Que proveito há em dizer tenho fé, e não obedecer?

“E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós.” (João 5.38);

“Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (João 5.47);

“Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele.” (João 10.38);

Não adianta dizer ter fé, pois é por Cristo que se crê em Deus.

“E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;” (1 Pedro 1.21).

Quem crê em Cristo, na verdade, crê naquele que O enviou:

“E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou.” (João 12.44).

Se não tem fé em Jesus, que adianta dizer tenho fé? Se a obra de Deus é que creiais naquele que Ele enviou (João 6.29), se não tiver obras, pode essa fé salvá-lo? Não!

Neste ponto do comentário, se faz necessário voltar ao primeiro parágrafo de introdução deste artigo. Afirmamos através do que se observa no cotidiano, que qualquer pessoa durante a leitura de um texto assim o faz através de uma ótica subjetiva tendo como suporte lentes formadas por uma bagagem sociocultural própria. Nesse processo, o leitor se aproxima de um conteúdo objetivo compartilhado pelo autor, abstrai o exposto, e o que se conclui da leitura se mescla à sua bagagem sociocultural.

Se analisar a história e os ensinamentos de Martinho Lutero, vê-se que o pai da reforma protestante, antes de romper com a Igreja Católica, foi influenciado pelos conceitos da doutrina católica acerca da salvação, que enfatizava que as obras dos cristãos são imprescindíveis à graça salvadora.

Como isso é possível, se Lutero rompeu com a Igreja Católica ao pregar a salvação somente pela fé?

Quando rompeu com a Igreja Católica, Lutero o fez por causa do Sacramento da Penitência, que abriga em si as indulgencias, que em um primeiro momento eram práticas impostas pelo clero aos penitentes, como: recitação de orações diversas, jaculatórias, atos de piedade, peregrinações, esmolas, caridades, etc., mas ao passar o tempo, o clero passou a vender as indulgências por dinheiro.

Como as pessoas estavam mais interessadas em pagar indulgência que fazer ‘obras de amor’, ou ‘obras de misericórdia’, segundo a concepção de Lutero (ver as teses de Lutero de 41 a 45), o termo ‘obra’ passou a ser utilizado por Lutero em um sentido pejorativo e contrário à fé. A obra da fé, que é crer em Cristo, é contrária as obras da lei, mas em função de creditar as práticas católicas o termo ‘obras’, acabou por demonizar o termo ‘obra’, na tentativa de enfatizar a salvação pelo evangelho.

Que a Doutrina Católica se equivoca quanto às questões sobre como se alcança a salvação não há o que se discutir, mas ao fazer uso do termo ‘obra’ aplicando as indulgências do catolicismo, a leitura do termo ‘obra’ ficou contaminada. Enquanto o cristão é um homem de fé, pois se aproxima de Deus através do evangelho, e é um homem de obra porque crê que Jesus é o Cristo, Lutero chega a loucura de afirmar que a salvação é pela fé somente, mas fé no sentido de acreditar, e que não é por obra, porque Deus escolheu quem haveria de ser salvo.

Quando o apóstolo Paulo fala que ninguém será justificado pelas obras, ele tem em vista as obras decorrentes da lei mosaica, e não as pretensas obras praticadas pelos Católicos em função das penitências.

“Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.” (Romanos 3.20);

“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.” (Romanos 3.28);

“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.” (Gálatas 2.16);

“Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.” (Gálatas 3.10).

Buscar ser salvo através das ‘obras da lei’ é o mesmo que ser ‘escravo da lei’, ou estar a ‘serviço da lei’ que foi dada sob maldição (Gálatas 3.10).

“ESTAI, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão. Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei.” (Gálatas 5.1-3).

Quando o apóstolo Paulo fez uso do termo ‘obra’, não tinha em vista as práticas da Igreja Católica, principalmente com relação aos Sacramentos da Penitência. Ele tinha em vista os seus irmãos segundo a carne que repousavam e se gloriavam da lei:

“Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; E sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; E confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei;” (Romanos 2.17-20).

Quando o apóstolo Paulo fala que ninguém pode ser salvo por obras, ele tem em vista as obras da lei. Nem judeu, nem prosélito algum pode ser salvo através das obras da lei, pois tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, e não aos gentios.

“Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.” (Romanos 3.19).

Como a lei diz o que diz aos judeus, os judeus serão julgados segundo a lei, e os gentios sem lei serão julgados, pois a lei não foi dada aos gentios.

“Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados. Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei;” (Romanos 2.12-14).

Quem são os que sem lei pecaram? Os gentios. E quem são os que sob a lei pecaram? Os judeus, sendo que esses serão julgados pela lei, e aqueles, sem lei também perecerão.

É possível alguém se salvar através das práticas do Sacramento da Penitência? Impossível, pois não existe na Bíblia a ideia de penitência segundo a doutrina católica. A penitência católica surgiu do pensamento platonista do purgatório, portanto, sem qualquer apoio bíblico.

A mensagem anunciada por João Batista ordenava aos ouvintes que mudassem de entendimento (μετανοεω/metanoeo) por causa da chegada do Cristo, e os teólogos Católicos traduziram μετανοεω por ‘fazei penitencia’, ao que o clero passou a estipular quais eram as penitencias (orações diversas, jaculatórias, atos de piedade, peregrinações, esmolas, caridades, etc.) aos católicos que faziam confissão de seus erros cotidianos.

Quando falou que ninguém pode ser salvo pelas obras da lei, o apóstolo Paulo não tinha em vista os desvios doutrinários da Igreja Católica, ou as propostas de outras religiões. O apóstolo Paulo estava abordando somente as questões judaicas.

No afã de enfatizar a salvação somente pela fé em Cristo, Lutero passou a negar o livre arbítrio do homem, o que é um despautério, e o termo ‘obra’ acabou ganhando uma conotação negativa na doutrina reformada.

Quando Lutero se depara com Tiago, que faz uso positivo do termo obra, assim como os apóstolos fizeram, porém, poucas vezes, em função do público alvo, rotulou a epístola de Tiago como ‘epístola de palha’.

Da mesma forma que há ‘obras da lei’, de outra banda há ‘obras da fé’, ou seja, ‘sujeição à fé’, ‘servo da fé’, ‘a serviço da fé’. Pelas obras da lei ninguém é justificado, mas todos pela ‘obra da fé’ serão justificados.

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 João 3.18).

Se esse verso da carta de João fosse uma pergunta de um argumento, como fez Tiago, seria: “Meus filhinhos, que proveito há se alguém disser que ama, e não tiver obras? Pode esse amor salvá-lo? ”.

Jesus disse a mesma mensagem anunciada por João, de vários modos:

“Se me amais, guardai os meus mandamentos.” (João 14.15);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” (João 14.21);

” Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou.” (João 14.23-24).

O que adianta alguém dizer que ama a Cristo e não guarda os mandamentos d’Ele? Pode, porventura, tal amor salvá-lo? Obvio que não, pois a essência do amor exigido por Cristo é sujeitar-se a Ele na condição de servo, e para isso é necessário obedecê-Lo.

“Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: SENHOR, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21.17).

De que adiantava Simão Pedro dizer: – ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo’, se ele não estava apascentando as ovelhas do Seu Senhor?

A argumentação de Tiago sobre quem alega ter fé, mas não tem as obras, foi feita do seguinte modo pelo apóstolo Paulo:

Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra.” (Tito 1.16).

Só ama a Cristo aquele que toma o Seu jugo:

Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mateus 11.29).

O apóstolo não ousava dizer coisa alguma que Cristo por ele não houvesse feito, para que os gentios fossem obedientes, tanto por palavra quanto por obras, diferentemente dos judeus, que era somente ouvintes da lei e não punham por obra (Romanos 2.13).

“Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras;” (Romanos 15.18).

Se o homem está cansado e oprimido, Cristo pode aliviá-lo. Como? É necessário tomar sobre si o jugo de Jesus. Mas, como descansar ou ter alivio submetendo-se a um novo jugo? O jugo de Jesus é suave, e o fardo é leve, mas para isso o homem tem que tomá-lo.

“Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes, e crestes que saí de Deus.” (João 16.27).

É por isso que Tiago fala da coroa da vida aos que amam ao Senhor (Tiago 1.12), e que, por amar ao Senhor, são ricos na fé e herdeiros do reino (Tiago 2.5). Não basta dizer que tem fé, é imprescindível pôr por obra:

Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem;” (Mateus 23.3).

Os filhos de Abraão devem fazer a obra de Abraão, crer no Descendente:

“Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão.” (João 8.39).

De Abraão, disse Jesus:

“Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se.” (João 8.56).

Da mesma forma que há a ‘lei das obras’, também há a ‘lei da fé’.

“Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé.” (Romanos 3.27).

Se há a ‘lei da fé’, é imprescindível a ‘obra da fé’, que é crer em Cristo:

“Lembrando-nos sem cessar da obra da vossa fé, do trabalho do amor, e da paciência da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai,” (1 Tessalonicenses 1.3).

 

O irmão e a irmã nus e com fome

Voltando a abordagem de Tiago, que questiona se é proveitoso alguém dizer ter fé e não ter obras, e para isso apresenta uma figura:

“E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?” (Tiago 2.15-16).

Ao apresentar essa figura, o irmão Tiago não estava estabelecendo que doar comida e vestimentas a um irmão ou irmã que estão nus ou com fome é a obra exigida pela fé. Entender que Tiago, através da figura, estava recomendando práticas assistencialistas é completamente equivocado, pois o tema e o contexto no qual a figura foi inserida não trata de auxílio aos necessitados, e sim, de obediência a Deus.

A argumentação que valida a figura vem a seguir:

Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” (Tiago 2.17).

Da figura surge elementos para compreender as obras essencial a fé, e não que a figura estabelece que a fé só é verdadeira se o cristão ajudar os necessitados. Fazer tal leitura é tripudiar o que propõe a figura.

Outra questão derivada do significado de ‘obras’ no contexto, que é obediência, é fazer aquilo que é proposto. Ser ouvinte do evangelho, ou dizer que crê sem fazer o que o evangelho propõe, é fé sem obras. Ouvir o evangelho, ou dizer que crê e faz doações rotineiras a entidades filantrópicas, ainda é fé sem obras. A ‘obra da fé’ é fazer única e exclusivamente o exigido por Deus.

Os judeus diziam que tinham fé em Deus, mas não criam em Cristo, portanto, a fé deles era sem obras. Mesmo que um judeu diga que tem fé em Deus, não faz acepção de pessoas, dê esmolas aos necessitados, a fé do tal é sem obras.

Os cristãos das doze tribos da dispersão que Tiago escreveu, alguns deles diziam que tinham fé, mas faziam acepção de pessoas, recebiam os judeus cristãos em um lugar privilegiado, mas desprezavam os gentios cristãos, a tal fé é sem obras, pois não atende um dos pressupostos do evangelho de Cristo: a igreja é uma assembleia de iguais em Cristo Jesus.

A proposta de Tiago é: Sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos! (Tiago 1.22) Qual é o discurso falso? Um deles é dizer que tem fé, mas não tem obras, ou seja, não é cumpridor.

Mas, diante do questionamento: ‘que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras?’, alguém, dentre os das doze tribos da dispersão, poderia contra argumentar: ‘tu tens fé, eu tenho obras’ (Tiago 2.18), como se argumentasse que era obediente.

Tiago, por sua vez, insiste:  – ‘Mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras’. É impossível evidencia a fé se as obras, mas é plenamente possível evidenciar a fé pelas obras.

Quem tem a fé em Cristo é porque crê com o coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, e com a boca confessa que Ele é o Cristo, o filho de Deus. (Romanos 10.9-10). Simão Pedro, ao confessar que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus, evidenciou através da obra a sua fé (Mateus 16.16). Marta, na adversidade, quando questionada se cria que ‘quem crê em Cristo, ainda que esteja morto viverá’, ou ‘se estiver vivo jamais morrerá’, evidenciou a obra da fé: “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (João 11.27).

A ‘obra da fé’ é o mesmo que o ‘fruto dos lábios’:

“Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome.” (Hebreus 13.15).

 

Crer em Deus

Em seguida, Tiago apresenta o discurso de quem dizia ter fé:

“Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem.” (Tiago 2.19).

Esse é o pilar da fé judaica: – ‘Há um só Deus’! Neste versículo fica evidente o posicionamento que Tiago estava combatendo. Alguém havia se introduzido sorrateiramente entre os das doze tribos da dispersão, cristãos convertidos dentre os judeus, e incitou os cristãos com a premissa de que há um só Deus. Quando inquirido, contra argumentava: eu tenho fé em Deus!

Se alguém acredita em um único Deus, faz bem, mas os demônios também creem e estremecem, o que demonstra que tal fé não surte efeito. A fé só surte efeito quando Deus dá um mandamento:

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza.” (Salmos 71.3).

Quem diz ter fé em Deus, no mínimo tem que confessar que Jesus é o Cristo, pois as Escrituras contêm o testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho.

“Se recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior; porque o testemunho de Deus é este, que de seu Filho testificou. Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu.” (1 João 5.9-10).

Dizer que tem fé em Deus, mas não apresentar a obra exigida por Deus, é fé inútil!

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6.29).

Se não tiver esta obra apontada por Cristo, não adianta falar em outras línguas (até a língua dos anjos), ou ter o dom de profecias, ou conhecer todos os mistérios e toda ciência, ou ter toda fé, ou distribuir fortunas para os pobres, ou dar o corpo a ser queimado, etc., que de nada aproveitaria.

“AINDA que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.” (1 Coríntios 13.1-3).

Só tem amor, ou só tem a fé, quem ama a Cristo! Quem ama a Cristo cumpre o seu mandamento, ou seja, toma sobre si o jugo de Cristo e o fardo de Cristo! Da mesma forma que ‘fé sem obra’ de nada aproveita, ‘fé sem amor’ de nada aproveita! Por que?

O amor apresentado pelo apóstolo Paulo não é um sentimento reverente, ou de amizade, ou de fraternidade. O amor evidenciado pelo apóstolo dos gentios é sujeição, obediência! É o amor impossível de ser compartilhado por um servo com dois senhores:

“Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” (Lucas 16.13).

Aquele que toma o jugo de Cristo é o que O ama. Quem está sob o jugo de Cristo é sofredor e benigno (2 Timóteo 2.24; 4.5). Quem é servo de Cristo não é invejoso, não trata com leviandade e nem se ensoberbece (1 Coríntios 3.3; 1 Timóteo 6.4; Gálatas 5.26; Filipenses 2.3). Não é indecente e não busca os seus interesses (Filipenses 2.4). Não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade (Efésios 4.25; 1 Timóteo 6.4).

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha;” (1 Coríntios 13.4-8).

O servo obediente se sujeita ao seu senhor em amor, por isso tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, pois o que obedece nunca falha. No amor proposto pelo apóstolo Paulo não há vangloria, pois que servo há que se glorie de se sujeitar ao seu Senhor? Quem ama a Cristo não busca o seu próprio interesse, antes se sujeita ao interesse do seu Senhor. Quem obedece, jamais é leviano, pois disfarçar a obediência é impossível.

Esta é a essência do amor:

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade. Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele.” (1 João 2.3-5).

Ao explicar o amor, o evangelista João disse:

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor.” (1 João 4.18).

Na obediência não há medo (temor), pois o obediente (perfeito amor) lança fora o medo. O medo só tem razão por causa da pena estabelecida, e quem tem medo é porque é desobediente, ou seja, não é perfeito em amor.

 

Abraão justificado pelas obras

Para concluir a exposição, Tiago lança mão de um último argumento:

“Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?” (Tiago 2.20).

Tiago se dirige a uma pessoa tola, vã, destituído da verdade. Se o leitor não estiver familiarizado com a escrita dos profetas, terá a impressão de que Tiago estava irado com os seus interlocutores, mas na verdade ‘tolo’, ‘louco’, ‘vão’, é figura utilizada pelos profetas para se dirigirem aos filhos de Israel, assim como o adjetivo ‘adúlteros’ (Tiago 4.4).

‘Quer realmente saber que a fé sem as obras é morta?’, pergunta Tiago. Em seguida, Tiago apresenta dois exemplos:

“Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus. Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.” (Tiago 2.21-24).

Como? Abraão foi justificado pelas obras? Sim! Foi justificado pelas obras e a fé cooperou com as suas obras, e pelas obras a fé foi aperfeiçoada!

Primeiro veio a ordem de Deus a Abraão:

“E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi.” (Gênesis 22.2).

Abraão amava o seu único filho, mas teve que obedecer para ser digno de Deus.

“Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.” (Mateus 10.37).

Mas, para oferecer o seu único filho, a fé de Abraão cooperou com as suas obras, pois creu contra a promessa que Deus estabeleceu em Isaque, e creu Abraão que Deus era poderoso para até dos mortos ressuscitar o seu filho.

“Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar;” (Hebreus 11.18).

Qual era a ‘fé’ de Abraão? A palavra de Deus que dizia: ‘Em Isaque será chamada a tua descendência’. (Gênesis 21.12). A palavra de Deus dada a Abraão é o firme fundamento do que ele esperava, e prova do que ele não via, ou seja, a fé (Hebreus 11.1). Como Deus havia prometido que em Isaque a descendência de Abraão seria chamada, descendência em quem todas as famílias da terra seriam benditas, e a palavra de Deus é firme e imutável, creu Abraão em Deus, de modo que entendeu que Deus podia ressuscitar Isaque dos mortos, e em figura o recobrou (Hebreus 11.19).

O que justificou Abraão foi a palavra que disse: ‘Em Isaque será chamada a tua descendência’, pois ao crer nessa palavra dita por Deus, a fé (crença) de Abraão cooperou para que ele oferecesse Isaque, e pelas obras de Abraão a fé (crença) foi aperfeiçoada.

Com a obra de Abraão cumpriu-se a Escritura, que diz: ‘E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça’, e por isso foi chamado o ‘amigo de Deus’. Se alguém que ser chamado de amigo de Deus, tem que se fazer servo como Abraão, que creu em Deus mesmo quando foi exigido a sua esperança, pois teve por fiel Aquele que prometeu.

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.” (João 15.14);

“Se me amais, guardai os meus mandamentos.” (João 14.15).

Esse ‘amigo’ diz dos escravos ladinos, que conheciam a vontade do seu Senhor por estar sempre aos seus pés.

“Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.” (Tiago 2.24).

Neste verso, Tiago deixa bem explicito: o homem é justificado quando obedece a Deus, e não somente por dizer que tem fé. O apóstolo Paulo, por sua vez, a dizer que o homem é justificado pela fé, tem em vista o evangelho, a fé manifesta aos homens na pessoa de Cristo (Gálatas 3.23; Judas 1.3). Quando Paulo diz que o homem é justificado pela fé, ele tem em vista o evangelho, a fé pela qual o justo viverá, a palavra de Deus que é firme e imutável.

O último exemplo é de Raabe:

“E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários, e os despediu por outro caminho? Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.” (Tiago 3.25-26).

Semelhantemente a Abraão, a estrangeira Raabe foi justificada pelas obras, pois ao ouvir acerca do povo de Israel, creu em Deus.

“E disse aos homens: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desfalecidos diante de vós. Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do Mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito, e o que fizestes aos dois reis dos amorreus, a Siom e a Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes. O que ouvindo, desfaleceu o nosso coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o SENHOR vosso Deus é Deus em cima nos céus e em baixo na terra.” (Josué 2.9-11).

Como a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus, por crer em Deus, Raabe atendeu os espias, livrando-os, mesmo com perigo da própria vida. Após os espias darem a palavra que ela seria preservada, bem como a sua família, se Raabe colocasse uma fita vermelha na janela da casa onde estivessem, ela não ficou somente dizendo: ‘tenho fé em Deus’, antes foi e colocou a fita na janela.

“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.” (Romanos 10.17).

Tiago encerra a exposição que começou no primeiro capítulo com a seguinte conclusão:

“Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.” (Tiago 2.26).

 

O propósito da epístola de Tiago

Tiago buscou alertar os judeus cristãos que estavam dispersos entre os gentios sobre fazer uma boa profissão de fé. O maior empecilho para os judeus cristãos não eram os costumes dos gentios, e sim, alguns judeus, que se diziam cristãos, que se intrometiam nas comunidades cristãs enfatizavam a crença em um único Deus, e não professavam Jesus Cristo.

Nesse sentido, Tiago destaca o sentido da fé no hebraico: ‘emuná’, que traz no seu bojo a ideia de verdade, fidelidade, firmeza, o que remete a obediência e confiança. Quem confia em Deus, professa que Jesus é o Cristo, pois esse é o testemunho das Escrituras.

É um equívoco o pensamento de que ‘Não se obedece para ser salvo; se obedece porque foi salvo e porque não deseja comprometer de forma alguma essa salvação graciosamente recebida da parte de Deus’. Na verdade, para ser salvo é necessário obedecer ao evangelho de Cristo. Claramente o homem deve obedecer para ser salvo, pois o que foi concedido graciosamente aos homens foi Cristo.

“E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem;” (Hebreus 5.9).

Se não obedecer ao evangelho, só resta expectação de fogo!

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo;” (2 Tessalonicenses 1.8).

Obedecer ao evangelho, a fé dada aos santos, é a obra a ser realizada por quem diz ter fé. Quem crê em Cristo, a fé manifesta (Gálatas 3.23), já realizou a obra estabelecida por Deus (João 6.29), portanto, tem fé (evangelho) e obras (obediência).

Quem crê na fé manifesta, que é apregoada em todo o mundo (Romanos 1.8), entrou no descanso de Deus, portanto, descansou de suas obras, como Deus da sua (Efésios 1.3; 2.6). Está assentado nas regiões celestiais em Cristo, portanto, descansou, pois realizou a obra de Deus.

“Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas.” (Hebreus 4.10).

 

 

 

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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