Pecado

“Como a morte passou a todos, todos pecaram”: Romanos 5:12 e a inversão que Calvino não aceitou

Romanos 5:12 diz que a morte passou a todos, e é nessa condição que todos pecaram. Um contraponto à leitura de Calvino, e o que isso muda na cruz.


Romanos 5:12, a essência do pecado e a essência da cruz

Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.

Introdução

A Almeida Corrigida Fiel traduz assim o versículo em disputa: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12).

Repare que a ACF não diz simplesmente “porque todos pecaram”. Diz “por isso que todos pecaram”, expressão menos determinada do que supõem as leituras correntes. E é exatamente aí que está a questão: a morte alcançou todos os homens porque cada um pecou, ou todos pecaram porque a morte alcançou a todos?

Este artigo sustenta a segunda leitura. Em Adão, o pecado precedeu a morte, e isso ninguém disputa, pois está na primeira metade do versículo: por um homem entrou o pecado, e pelo pecado a morte. A questão é outra, e diz respeito aos que vieram depois dele. A morte passou a todos por um só homem, e é sob essa condição que todos pecam. Não se morre porque se pecou; peca-se porque já se está sob a morte.

A diferença parece pequena, mas decide duas coisas: o que é o pecado e o que a cruz faz. É esse o percurso deste artigo.

A cláusula em disputa

A frase grega é ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον, e recebeu historicamente quatro leituras.

A primeira é causal: “porque todos pecaram”. É a que predomina nas traduções modernas e a que este artigo contesta. Nela, o pecado de cada indivíduo passa a explicar por que a morte alcançou cada indivíduo.

A segunda é a da Vulgata, in quo omnes peccaverunt, “em quem todos pecaram”, lida como referência a Adão. Sobre ela se desenvolveu boa parte da doutrina ocidental do pecado original. O problema é gramatical: ἐπί com dativo não equivale a ἐν, e Adão não é o antecedente mais natural na frase.

A terceira vem da tradição grega e entende o relativo em conexão com a morte: “sobre a qual”, “em razão da qual”, “à base da qual todos pecaram”. A seu favor há um dado sintático simples: ὁ θάνατος, a morte, é o substantivo masculino imediatamente anterior.

A quarta é consecutiva: “de modo que todos pecaram”. O resultado se aproxima da terceira: a morte passa a todos, e o pecar aparece como consequência da condição instaurada.

A gramática, sozinha, não encerra a discussão. Paulo usa construções semelhantes em outros contextos, e quem faz o argumento depender apenas da partícula deixa o debate empatado. É preciso perguntar o que ele faz com a relação entre pecado e morte nos versículos seguintes.

A gramática sozinha não decide; o contexto decide

O ponto decisivo está em Romanos 5:13-19.

Primeiro, os versículos 13 e 14:

“Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão.”

A morte reinou sobre pessoas cujo pecado não estava sendo imputado, e reinou inclusive sobre os que não transgrediram à semelhança de Adão. O reinado da morte, portanto, não se explica pela repetição individual da transgressão adâmica. Os dois versículos existem justamente para dizer isso.

E, dos versículos 15 a 19, a explicação vem sempre pela mesma porta: o juízo veio de uma só ofensa, e a morte reinou pela ofensa de um só. O ponto em que isso fica mais claro é o versículo 19, porque ali Paulo diz o que os muitos foram feitos, e por quem: “como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores” (Romanos 5:19). Note o verbo: feitos pecadores. Paulo não diz que muitos se fizeram pecadores e, por isso, foram postos sob a morte. Diz que foram constituídos pecadores pela desobediência de um só.

A balança da justiça: dois homens e dois atos

O argumento chega ao seu ponto máximo quando Paulo põe diante da justiça divina não os atos de bilhões de homens, mas os atos de dois homens:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:18-19).

Pode-se representar isso como uma balança. Num prato, um só homem e uma só ofensa: Adão e sua desobediência. No outro, um só homem e um só ato de justiça: Cristo e sua obediência. A justiça não está pesando, nesse ponto, o currículo moral de cada descendente de Adão. Está expondo as consequências de dois atos representativos.

Daí a insistência nos numerais: “uma só ofensa”, “um só ato de justiça”, “a desobediência de um só homem”, “a obediência de um”. Se o propósito fosse explicar a condenação pela soma dos pecados individuais, essa construção seria incompreensível. O peso do argumento está exatamente em retirar os muitos do centro e colocar ali o um.

De um lado está o primeiro Adão: um homem, uma desobediência, condenação, morte, pecadores, servidão do pecado. Do outro está o último Adão: um homem, uma obediência, justificação de vida, justiça, vivificação, servidão da justiça.

Paulo desenvolve a mesma oposição em outra carta: “O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1 Coríntios 15:45). Não são dois indivíduos comparados moralmente, e sim duas cabeças de humanidade. Do primeiro procede a condição dos que nascem segundo Adão; do último, a vida dos que estão em Cristo. Daí que ele também diga:

“assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Coríntios 15:22).

A balança não pesa cada homem isoladamente para descobrir se praticou pecados suficientes para tornar-se pecador. O resultado do primeiro prato já foi declarado: “pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores”. E, no segundo prato, os muitos não são feitos justos porque cada um produziu a obediência capaz de equilibrar a balança; são feitos justos “pela obediência de um”.

É aqui que o versículo 19 se torna uma objeção difícil de responder para a leitura moral e individual do versículo 12. Se cada homem fosse constituído pecador por seus próprios atos, o paralelismo exigiria que cada homem fosse constituído justo por seus próprios atos. Paulo exclui as duas possibilidades ao atribuir um resultado à desobediência de Adão e o outro à obediência de Cristo. Quem quebra a primeira metade da comparação quebra também a segunda, e com ela a justificação pela fé.

Romanos 6: a mudança de senhor

É por essa razão que Romanos 6 pode passar, sem mudar de assunto, da oposição entre Adão e Cristo para a oposição entre dois senhorios. A condição produzida pelo primeiro homem se manifesta em servidão ao pecado; a vida recebida em Cristo produz outra servidão:

“Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Romanos 6:17-18).

Servos do pecado e servos da justiça. Não se trata de pessoas que antes praticavam muitas ações ruins e agora se esforçam por praticar muitas ações boas. Houve mudança de senhor. O velho homem estava sob o pecado, e por isso Paulo diz que ele “foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Romanos 6:6).

A ordem em que Paulo escreve confirma o ponto. Primeiro afirma que fomos libertados do pecado e feitos servos da justiça; só então ordena: “assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação” (Romanos 6:19). Primeiro a mudança de senhor, depois o serviço correspondente. Do mesmo modo, é a quem já está vivo que se diz: “apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos” (Romanos 6:13).

Romanos 5 e Romanos 6 formam, assim, uma sequência única. O capítulo 5 identifica os dois homens cujos atos inauguram as duas condições; o capítulo 6 mostra os dois senhorios sob os quais vivem os que pertencem a cada uma delas. A prática vem depois, como manifestação do senhorio. As obras dizem a quem o homem serve; não escolhem o senhor. E o próprio Paulo põe o fruto depois da mudança de senhor:

“Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna” (Romanos 6:22).

Onde o pecado foi buscar sua força

A inversão aqui defendida explica a linguagem bíblica sobre o domínio do pecado.

No Éden, a palavra vinculou a consequência à transgressão: “da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17). Adão não possuía potência para produzir a morte; a eficácia estava na palavra. Ele respondeu pela incredulidade, e a sentença se cumpriu pela desobediência.

E é a sentença que se torna o instrumento do domínio: “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” (1 Coríntios 15:56). Paulo descreve o mecanismo: “o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele me matou” (Romanos 7:11); “o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno” (Romanos 7:13).

Sobre os que vieram depois, o domínio se exerce pela morte. Cristo participou da carne e do sangue “para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hebreus 2:14-15). Há um império, há servidão e há libertação.

É também por isso que Paulo não descreve em Romanos 3 uma escala moral, e sim uma condição: “todos estão debaixo do pecado” (v. 9); “Não há um justo, nem um sequer” (v. 10); “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis” (v. 12); “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (v. 23). A preposição “debaixo”, ὑπό, é linguagem de sujeição: estar sob autoridade, servir. E extraviaram-se juntamente, num só evento, e não cada um por sua conta.

O que Calvino escreveu

Essa leitura, porém, precisa enfrentar quem a rejeitou de modo expresso. Calvino conhecia a alternativa grega e tomou posição sobre Romanos 5:12. Nas Institutas, II.1.8, escreve: Et apostolus ipse disertissime testatur (Rom. 5,12), ideo mortem in omnes pervagatam quod omnes peccarint, id est, involuti sint originali peccato et ejus maculis inquinati.

Em português: “E o próprio apóstolo testifica de modo expressíssimo (Rm 5:12) que a morte se propagou a todos porque todos pecaram, isto é, estão envolvidos no pecado original e manchados por suas nódoas.”

Duas observações de tradução, antes do argumento. O advérbio é disertissime, superlativo de diserte, que significa “expressamente”, “em termos claros”, e não “eloquentemente”. Calvino não elogia o estilo de Paulo; afirma que a tese não é inferida, está dita. E involuti é “envolvidos”, “enredados”.

Mais importante que o vocabulário é a estrutura da frase, porque nela há duas camadas. A primeira é aquilo que Calvino toma como afirmação do apóstolo: “a morte se propagou a todos porque todos pecaram”. A segunda é a sua explicação: “isto é, estão envolvidos no pecado original e manchados por suas nódoas”. A equivalência entre pecar e estar envolvido na mancha herdada não vem do versículo; é posta pela glosa.

Poucas linhas antes, ele já dissera o que essa glosa precisa sustentar. Primeiro nega que se trate de obrigação por delito alheio: não se deve entender “como se nós, inocentes e sem merecimento, suportássemos a culpa do delito dele”, mas que, “por sua transgressão, todos fomos revestidos de maldição”.

E então acrescenta a peça decisiva: “dele, contudo, não veio sobre nós somente a pena, pois a peste nele instilada permanece em nós, à qual a pena é devida por direito”Ab illo tamen non sola in nos poena grassata est, sed instillata ab ipso lues in nobis residet, cui jure poena debetur. Logo depois, conclui que até as crianças, trazendo consigo a condenação desde o ventre materno, estão obrigadas “não por vício alheio, mas pelo seu próprio”.

Repare no que o sistema exige nesse ponto. Calvino não pode admitir que apenas a pena tenha passado de Adão aos seus descendentes. Precisa que, junto com ela, tenha passado uma corrupção que já possa ser chamada de culpa, para que cada homem seja condenado por algo que é seu.

A concessão que esvazia a ordem

No comentário a Romanos 5:12, ele é ainda mais explícito, e a sequência do seu raciocínio merece ser acompanhada.

Calvino verte o versículo assim: atque ita in omnes homines mors pervagata est, quandoquidem omnes peccaverunt. E comenta: “Observe a ordem que ele guarda aqui, pois diz que o pecado precedeu e que do pecado se seguiu a morte.” Em seguida, rejeita nominalmente a posição contrária:

“Há alguns que sustentam que somos de tal modo perdidos pelo pecado de Adão como se perecêssemos sem culpa nossa, apenas porque ele pecou por nós. Mas Paulo afirma distintamente que o pecado se estende a todos os que sofrem a sua punição.”

Até aqui a ordem causal está de pé: cada homem morre porque cada homem pecou. Mas então vem a pergunta inevitável: em que sentido cada homem pecou, se a morte reinou até sobre os que não transgrediram à semelhança de Adão? A resposta de Calvino é esta:

“pecar, neste caso, é tornar-se corrompido e vicioso, pois a depravação natural que trazemos do ventre de nossa mãe, ainda que não produza imediatamente os seus frutos, é contudo pecado diante de Deus”.

E, para excluir de vez a leitura por atos, ele acrescenta o argumento que decide tudo:

“se cada um contraísse culpa por si mesmo, por que Paulo formaria uma comparação entre Adão e Cristo?”

Observe o que aconteceu no mesmo parágrafo. A ordem causal é defendida, e o verbo que a sustentaria é esvaziado. Se “todos pecaram” não descreve atos, mas o estado herdado, a cláusula deixou de nomear uma causa e passou a nomear uma condição. A “ordem” que ele diz observar permanece na forma verbal, não no conteúdo.

E o motivo que ele próprio dá para excluir o pecado atual é exatamente o motivo desta leitura. É o argumento do paralelismo: se cada um contraísse culpa por si, a comparação entre Adão e Cristo perderia sentido. Concedido isso, resta perguntar por que a mesma comparação não governa também a explicação da morte.

A primeira consequência: transtornar a essência do pecado

A glosa não é um detalhe de tradução. Ela decide o que a palavra “pecado” significa.

Em Romanos, o pecado não aparece apenas como designação de atos praticados. Aparece como poder sob o qual o homem está posto, e a linguagem já apareceu acima: estar debaixo do pecado, extraviar-se, fazer-se inútil, estar destituído da glória de Deus (Romanos 3:9, 12, 23). São verbos de condição, e não de moralidade comparada.

Jesus usa a mesma linguagem de senhorio:

“todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34).

Quando “todos pecaram” é glosado como “estão envolvidos no pecado original e manchados por suas nódoas”, ocorre um deslocamento de eixo. O que explica a condição do homem deixa de ser o reinado da morte procedente da desobediência de um só e passa a ser a corrupção moral presente em cada um. O pecado deixa de nomear onde o homem está e passa a nomear como o homem é no plano moral.

Nada disso nega que a natureza herdada de Adão seja corrompida. O que se nega é outra coisa: que a corrupção seja a definição do pecado e, sobretudo, que ela seja a causa pela qual a morte alcançou a todos. Paulo diz o inverso:

“se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse” (Romanos 5:17).

As consequências desse deslocamento aparecem depressa. Se a essência do pecado é a depravação, a miséria humana passa a ser demonstrada por comparação, e a pregação precisa convencer o ouvinte de que ele é suficientemente mau. Mas, enquanto o pecado for posição numa escala moral, sempre haverá alguém pior e alguém melhor, e o homem de conduta impecável permanecerá fora do diagnóstico — embora a Escritura o alcance: “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” (Miqueias 7:4). O efeito disso no púlpito será visto adiante.

“Servo do pecado”: a prática revela o senhorio, não o cria

João 8:34 poderia parecer, à primeira vista, uma objeção a tudo isso, pois costuma ser lido como se Jesus dissesse que o homem se torna escravo por pecar.

Não é o que está escrito. Jesus não diz que quem peca torna-se servo; diz que quem pratica o pecado é servo do pecado. O verbo afirma uma condição, e o particípio descreve a prática que a caracteriza.

O contexto trata exatamente de origem. Os ouvintes alegam linhagem para escapar do argumento de que eram escravos: “Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (João 8:33). Jesus responde com a casa: “Ora o servo não fica para sempre em casa; o Filho fica para sempre” (João 8:35). E, adiante, explicita a direção do argumento: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (João 8:39); “Vós fazeis as obras de vosso pai” (João 8:41); “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” (João 8:44). Não são as obras que estabelecem a sujeição; é a sujeição que se manifesta nas obras.

O mesmo apóstolo repete a estrutura na carta: “Quem pratica o pecado é do diabo” (1 João 3:8); “Qualquer que é nascido de Deus não permanece em pecado; porque a sua semente permanece nele” (1 João 3:9); e o fecho não deixa dúvida quanto à função das obras: “Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do diabo” (1 João 3:10). Manifestos, isto é, revelados. Da mesma forma que a semente precede o fruto, as obras são determinadas pelo senhorio.

A libertação confirma a leitura. Se fosse a prática que escravizasse, bastaria interrompê-la para ficar livre, e a salvação seria emenda de conduta. Mas Jesus diz: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32), e: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). O escravo não produz a própria alforria melhorando o comportamento; é libertado pelo Filho, e a liberdade vem de fora dele.

E há, nessa distinção, uma porta que os ouvintes fecharam. Em João 8:35 a diferença entre servo e filho é de permanência: “Ora o servo não fica para sempre em casa; o Filho fica para sempre.” Para o escravo há saída, e é por isso que ser declarado escravo era, ali, boa notícia. De um pai ninguém escapa; de um senhor se pode ser resgatado, e quem liberta é o Filho, o único que permanece na casa.

Os ouvintes, porém, recusaram justamente a condição em que havia remédio: “Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (João 8:33). Jesus concede a descendência — “Bem sei que sois descendência de Abraão” (João 8:37) —, mas nega a filiação: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (João 8:39). Invocaram por pai alguém de quem não eram filhos e, ao fazê-lo, trocaram a única categoria que tinha porta aberta pela que não tem. Quem se diz filho não precisa de alforria; e quem não precisa de alforria permanece escravo.

No capítulo seguinte, diante dos fariseus, Jesus repete o mesmo juízo com outra imagem:

“Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” (João 9:41).

Não é a cegueira que condena, nem a escravidão: é a alegação de não precisar de vista nem de resgate. O verbo é o mesmo dos dois lados — o servo não fica para sempre em casa, mas o pecado de quem diz ver permanece.

Assim, esse versículo não inverte Romanos 5:12; confirma-o. João descreve como o senhorio se manifesta no homem; Romanos 5 responde à pergunta anterior, de como os homens vieram a estar sob esse senhorio. Um texto descreve as obras; o outro identifica a quem o homem é sujeito. Quem pratica o pecado está dizendo de quem é, e não se tornando de alguém a cada novo ato.

A segunda consequência: transtornar a essência da cruz

A definição do problema determina a definição do remédio. Se o pecado é essencialmente corrupção moral, a cruz será essencialmente perdão de atos, e a vida cristã, correção de conduta. Se o pecado é a condição de morte e servidão sob a qual todos foram postos por um só homem, a cruz há de ser substituição de ato por Cristo Jesus, que propõe a morte com Cristo como oportunidade de se ver livre do pecado enquanto senhor, e um novo nascimento através da ressurreição com Cristo.

A ofensa de Adão trouxe condenação e morte sobre ele e sobre toda a humanidade, e nessa condição o homem passou a viver para o pecado. A única saída é morrer para o pecado, morrendo com Cristo; só então é possível viver para Deus.

A Escritura segue o segundo caminho, e o diz com exatidão: “como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19). O que responde à desobediência de Adão não é a soma da obediência dos seus descendentes. É a obediência de outro homem.

Essa é a estrutura da cruz, e Hebreus a descreve como troca de ato: “Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste […] Eis aqui venho […] para fazer, ó Deus, a tua vontade”, e conclui: “Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (Hebreus 10:5, 7, 9-10). Tirar o primeiro e estabelecer o segundo é exatamente a operação que Romanos 5 descreve entre Adão e Cristo. Adão desobedeceu; Cristo veio fazer a vontade de Deus.

Daí que o alvo da cruz não seja a folha corrida do pecador, mas o império que o domina: Cristo participou da carne e do sangue “para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (Hebreus 2:14). É nesse sentido que João Batista o anuncia: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Tira o pecado, no singular, e não a lista de faltas de cada um.

A aplicação dessa obra ao crente vem descrita com a mesma linguagem: o velho homem foi crucificado com Cristo, “para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Romanos 6:6); “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça” (1 Pedro 2:24). O resultado não é um homem antigo melhorado, mas outro homem: “se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17), e em decorrência, livre de toda condenação (Romanos 8:1).

E a justificação recebe, no próprio Romanos 5, o nome que corresponde a isso: “por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Romanos 5:18). Justificação de vida. O remédio corresponde ao diagnóstico. Se o que reina é a morte, o que se concede é vida, e volta então a frase que resume as duas humanidades:

“assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Coríntios 15:22).

O paralelo, portanto, não é “maus em Adão, melhores em Cristo”. É “mortos em Adão, vivificados em Cristo”. E não basta absolver um morto.

Perdão não é todo o evangelho

Nada disso diminui o perdão dos pecados, que a Escritura anuncia abundantemente. O erro está em fazer do perdão de atos a totalidade da obra de Cristo.

Paulo não para ali. Diz que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados” (2 Coríntios 5:19), mas prossegue: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). E descreve o resultado como criação: “revestir-vos do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24).

Há reconciliação, há não imputação, há morte do velho homem, há libertação do senhorio, há criação do novo, há vida. Reduzir tudo isso a uma absolvição seguida de reforma de costumes é menos do que a linguagem apostólica. A cruz não inaugura um programa para tornar Adão aceitável; põe fim ao velho homem e apresenta outro.

A inversão pastoral

É aqui que uma questão de exegese chega ao púlpito.

Se a mensagem começa afirmando que o homem está condenado essencialmente porque acumulou más ações, o pregador terá de convencer o ouvinte de que sua biografia moral é ruim o bastante. E sempre haverá quem responda como o jovem que procurou Jesus: “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” (Mateus 19:20). Ou como o fariseu do templo: “Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros” (Lucas 18:11).

A pregação apoiada na comparação moral precisa então ampliar indefinidamente a definição de falha, até conseguir provar que aquele homem também é suficientemente mau; ou ainda batizar a condição do homem no pecado com o nome de depravação total. Paulo não precisa disso. Sua acusação é ao mesmo tempo mais profunda e mais universal: todos estão debaixo do pecado. O melhor homem nascido de Adão continua sendo homem nascido de Adão, e a sua necessidade não decorre de ter alcançado certo número de infrações, mas de não possuir a vida que só há em Cristo.

Isso explica por que Nicodemos, mestre em Israel, não recebe de Cristo um catálogo de pecados escandalosos. Recebe outra coisa: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3); “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7). A pergunta não é quanto Nicodemos precisa melhorar, e sim de onde precisa nascer. Nesse quesito ele não era diferente da mulher samaritana, embora fosse um religioso.

Uma ressalva de método

Ao contrapor Calvino neste ponto, não convém acusá-lo de desconhecer a alternativa grega. Ele a conhecia e a rejeitou conscientemente, e a rejeição vem acompanhada de um argumento sério: se cada um perecesse sem culpa própria, estaríamos dizendo que perecemos por pecado alheio.

A crítica forte é outra, e é dupla. Primeira: a ordem causal que ele defende não sobrevive a Romanos 5:13-19, onde Paulo insiste que a morte reinou sobre os que não pecaram à semelhança de Adão, que o juízo veio de uma só ofensa e que muitos foram feitos pecadores pela desobediência de um só. Segunda: ao definir “pecar” como corrupção inata, o próprio Calvino retira da cláusula a força causal que lhe atribuíra, e a explicação passa a ser feita pela glosa, e não pelo versículo.

Convém também dizer o que esta leitura não afirma. Ela não nega que, em Adão, o pecado tenha precedido a morte. Não nega que a natureza herdada seja corrompida. Não nega a responsabilidade de cada homem pelos seus atos, nem transforma o pecador em vítima. O que ela nega é uma única coisa: que a morte tenha alcançado cada descendente de Adão por causa dos pecados que cada um praticou.

Conclusão

Romanos 5:12 não diz que a morte esperou o pecado de cada homem para alcançá-lo. Diz que por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, e que assim a morte passou a todos os homens, e é nessa condição que todos pecaram.

A diferença não é um preciosismo exegético, porque decide duas doutrinas ao mesmo tempo.

Decide o que é o pecado. O homem não está debaixo do pecado por ter acumulado atos suficientes para estabelecer esse senhorio; seus atos manifestam a condição em que se encontra. A prática revela o senhorio, não o cria. Nesse sentido, o homem não se torna pecador porque peca: peca porque é pecador, isto é, porque nasceu em Adão, está morto para Deus e sob um senhorio do qual precisa ser libertado.

E decide o que é a cruz. Se a ruína veio pela desobediência de um, o remédio vem pela obediência de outro. Cristo não veio apenas quitar as faltas do velho homem. Veio fazer a vontade de Deus onde Adão desobedeceu, destruir o império da morte, libertar escravos e vivificar mortos.

Por isso a resposta do evangelho não é “emende-se”, e sim “creia naquele que vivifica os mortos”. O primeiro Adão introduziu a morte; o último Adão traz a vida. E é por isso que a salvação é descrita como nascer de novo, e não como consertar o velho homem.

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