O jovem rico e a natureza do amor bíblico

O jovem rico representa o homem que, embora religioso e zeloso, recusou submeter-se plenamente ao senhorio de Cristo por permanecer ligado àquilo que constituía sua segurança e identidade. Sua rejeição revela que, onde está o coração, aí está o tesouro do homem, e é isso que determina sua disposição de obedecer e, consequentemente, de entrar no reino de Deus.
O jovem rico e a natureza do amor bíblico
Introdução
A narrativa do encontro entre Jesus e o jovem rico, registrada em Marcos 10:17–31 (cf. Mateus 19:16–30; Lucas 18:18–30), constitui uma das passagens mais elucidativas acerca da natureza da relação entre o homem e Deus no contexto do evangelho. Tradicionalmente, essa perícope tem sido interpretada como uma advertência contra o apego às riquezas materiais. Contudo, quando analisada à luz da definição bíblica do amor (ágape), entendido não como mero afeto subjetivo, mas como realidade objetiva que se manifesta na obediência e na submissão ao senhorio de Cristo (João 14:15; 1 João 5:3; 2 João 6), o texto revela uma densidade teológica significativamente mais profunda.
Nesse sentido, a passagem não trata primariamente da renúncia material como um fim em si mesmo, mas da identificação do verdadeiro senhor ao qual o homem deve se sujeitar para alcançar a vida eterna. O foco central não reside na posse de bens, mas na relação de autoridade e submissão entre o homem e Cristo. A narrativa estabelece, portanto, uma distinção fundamental entre a insuficiência da observância formal da lei como meio de salvação e a necessidade da submissão efetiva ao senhorio pessoal de Cristo como condição para alcançá-la.
O apelo verbal e a questão da autoridade
A questão da autoridade constitui o eixo interpretativo fundamental desta perícope, conforme já estabelecido pelo próprio ensino de Jesus:
“E por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” (Lucas 6:46).
O relato inicia com a aproximação de um jovem judeu que corre ao encontro de Jesus e, ajoelhando-se diante dele, formula a seguinte pergunta:
“Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Marcos 10:17).
Sua atitude corporal — correr e ajoelhar-se — expressa deferência e reconhecimento de autoridade. Contudo, sua declaração revela uma compreensão ainda incompleta da identidade de Cristo. Ao chamá-lo de “Mestre” (didaskalos), o jovem reconhece sua autoridade como instrutor religioso, função amplamente reconhecida no contexto judaico. No entanto, tal designação, em si mesma, não implicava necessariamente o reconhecimento de sua identidade messiânica e divina.
A resposta de Jesus desloca imediatamente o foco da declaração, revelando a insuficiência da compreensão daquele homem:
“Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus.” (Marcos 10:18).
É significativo que Jesus não questione o título “Mestre”, pois havia muitos em Israel que exerciam a função de mestres da lei. O ponto de tensão reside no uso do adjetivo “bom” (agathos), atributo que, no contexto bíblico, pertence propriamente a Deus (cf. Salmos 25:8; 100:5; 145:9). Ao interpelar o jovem dessa maneira, Jesus o confronta com as implicações teológicas de sua própria declaração: se ele reconhece Jesus como verdadeiramente “bom”, deve reconhecer nele a autoridade que pertence exclusivamente a Deus.
Essa interpelação remete implicitamente às promessas messiânicas do Antigo Testamento, segundo as quais o Messias não seria apenas um mestre humano, mas o próprio Senhor que ensinaria o seu povo:
“Todos os seus filhos serão ensinados pelo Senhor, e será grande a paz de seus filhos.” (Isaias 54:13).
Além disso, Jesus corresponde à promessa do profeta semelhante a Moisés, anunciado em Deuteronômio 18:15, aquele a quem o povo deveria ouvir, isto é, a quem deveria obedecer plenamente.
Assim, ao responder dessa maneira, Jesus não apenas corrige a compreensão superficial do jovem, mas o conduz ao cerne da questão: reconhecer sua bondade implica reconhecer sua identidade divina, e reconhecer sua identidade divina implica, necessariamente, submeter-se à sua autoridade.
O problema fundamental daquele homem não residia na falta de conhecimento da lei mosaica, mas em não reconhecer que as próprias Escrituras davam testemunho de Cristo como Senhor. O mesmo Cristo a quem Davi, por inspiração profética, chamou de Senhor, ao declarar: “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita” (Salmo 110:1). Tal testemunho identifica o Messias não apenas como descendente de Davi segundo a carne, mas como seu Senhor, isto é, aquele que detém autoridade régia e legislativa sobre Israel. Nesse sentido, as promessas messiânicas o apresentam como o Servo eleito que estabeleceria o direito entre as nações (Isaías 42:1–4) e como o mediador da nova aliança, por meio de quem a lei de Deus seria estabelecida no interior do seu povo (Jeremias 31:33–34).
A observância dos mandamentos da lei
Jesus, então, remete o jovem aos mandamentos:
“Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe” (Marcos 10:19).
Como um judeu zeloso, o jovem responde:
“Tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (Marcos 10:20).
O texto não fornece qualquer indicação de que essa afirmação fosse falsa. Pelo contrário, a narrativa sugere que, sob a perspectiva da justiça legal, ele era irrepreensível. Sua condição assemelha-se àquela descrita por Paulo ao referir-se à sua própria vida anterior no judaísmo, quando afirmou que, quanto à justiça que há na lei, era irrepreensível (Filipenses 3:6; cf. Atos 22:3; 26:5). De modo semelhante, o fariseu da parábola relatada em Lucas 18:9–14 considerava-se justo diante de Deus com base em sua observância da lei.
Contudo, apesar de sua observância rigorosa, o jovem ainda buscava a vida eterna, o que evidencia a insuficiência da justiça legal para produzir segurança quanto à salvação. Esse fato revela a verdadeira função da lei no contexto da economia da redenção. A lei não foi dada como meio de justificação, mas como instrumento de revelação do pecado, conforme afirma o apóstolo Paulo:
“Foi acrescentada por causa das transgressões” (Gálatas 3:19).
Nesse sentido, a própria lei testificava contra Israel, evidenciando sua condição pecaminosa. Moisés já havia declarado que o povo havia se corrompido e não se comportava como filhos fiéis de Deus (Deuteronômio 32:5). Assim, a entrega da lei não pressupunha a justiça do povo, mas, ao contrário, sua transgressão.
Como afirma Paulo:
“Sabemos que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e rebeldes, para os ímpios e pecadores…” (1 Timóteo 1:9).
A lei é boa e santa (Romanos 7:12), não porque confere justiça ao homem, mas porque expõe sua incapacidade de alcançá-la por seus próprios méritos. Sua função é revelar o pecado e conduzir o homem ao reconhecimento de sua necessidade de redenção, preparando-o para a fé em Cristo (cf. Gálatas 3:24).
Além disso, a própria estrutura da lei torna impossível sua observância perfeita pelo homem caído, pois sua transgressão em um único ponto constitui violação de sua totalidade:
“Porque qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, torna-se culpado de todos.” (Tiago 2:10).
Desse modo, a observância formal da lei, ainda que rigorosa, não possui poder salvífico. Sua finalidade não é justificar, mas revelar o pecado e apontar para a necessidade de submissão àquele que é o único capaz de conceder a vida eterna.
A justiça que vem de Deus
Quando Jesus se dirigiu à multidão, declarou de forma inequívoca que a entrada no reino dos céus era impossível sem uma justiça superior àquela dos escribas e fariseus:
“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.” (Mateus 5:20).
A justiça dos escribas e fariseus consistia na justiça proveniente da lei, conforme descrito por Paulo:
“Moisés descreve assim a justiça que é pela lei: que o homem que fizer estas coisas viverá por elas.” (Romanos 10:5).
Essa justiça baseava-se na observância dos preceitos legais como condição para a vida. Entretanto, a própria lei, ao estabelecer esse princípio, também pronunciava maldição sobre todo aquele que não a cumprisse integralmente:
“Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las.” (Gálatas 3:10).
Assim, a lei não apenas estabelecia um padrão objetivo de justiça, mas também evidenciava a incapacidade do homem judeu de alcançá-lo por meio de sua observância cotidiana, revelando, desse modo, sua condição intrínseca de transgressor.
Em contraste com a justiça baseada na lei, a promessa feita a Abraão foi estabelecida gratuitamente, não com base em obras, mas na fidelidade de Deus. Essa promessa foi confirmada em seu descendente, que é Cristo, por meio de quem a bem-aventurança se estenderia a todas as famílias da terra (cf. Gálatas 3:16). Desse modo, a promessa não se restringia a uma linhagem segundo a carne, mas encontrava seu cumprimento na pessoa do Messias, em quem tanto judeus quanto gentios seriam igualmente alcançados pela graça.
As Escrituras testificam que todos os homens, indistintamente, encontram-se sob o domínio do pecado:
“Não há quem faça o bem, não há nem um só.” (Salmo 53:1–3; cf. Romanos 3:10–12).
Nesse contexto, a própria história de Israel no deserto evidencia a incapacidade deles em permanecerem em obediência perfeita a Deus. Quando o maná foi dado, Deus estabeleceu uma prova de obediência, ordenando que o povo colhesse apenas o necessário para cada dia. Contudo, alguns desobedeceram, guardando além do que fora ordenado (Êxodo 16:4, 19–20). Posteriormente, Deus estabeleceu nova prova relacionada ao sábado, instruindo o povo a não sair para colher no sétimo dia, mas novamente houve desobediência (Êxodo 16:27–28).
Esses episódios demonstram que a incapacidade de obedecer precedeu a entrega formal da lei mosaica. A lei foi introduzida posteriormente, “por causa das transgressões” (Gálatas 3:19), não como meio de justificação, mas como instrumento de revelação da condição pecaminosa do povo.
Nesse contexto, o sábado foi estabelecido como sinal da aliança, não para atestar a capacidade santificadora das obras humanas, mas para testemunhar que a santificação procede exclusivamente de Deus, que separa e consagra o seu povo para si.
“Guardai os meus estatutos e cumpri-os. Eu sou o SENHOR que vos santifica.” (Levítico 20:8).
Assim, a santificação não procedia da observância da lei como se a salvação pudesse ser alcançada por meio das obras praticadas pelos filhos de Israel, mas da obediência ao que fora ordenado por Deus. A vida procede da palavra de Deus, e é somente pela sujeição a ela que o homem alcança a salvação. É Deus quem separa o homem para o seu uso exclusivo. Contudo, essa relação é estabelecida na obediência, pois a misericórdia de Deus é manifestada àqueles que o amam e guardam os seus mandamentos, conforme está escrito:
“Faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” (Êxodo 20:6).
É precisamente nesse ponto que o diálogo entre Jesus e o jovem rico revela sua profundidade teológica. O problema daquele homem não residia na ignorância da lei, mas na incapacidade de compreender sua verdadeira função e finalidade. Sua confiança estava fundada em sua descendência segundo a carne e em sua observância formal dos mandamentos, como se tais elementos lhe conferissem direito à vida eterna. Contudo, a própria lei testemunhava o contrário: que todos, individualmente, encontravam-se sob o domínio do pecado e careciam da justiça que procede de Deus.
A promessa da misericórdia divina, renovada continuamente sobre a nação, decorria da fidelidade de Deus à aliança estabelecida com Abraão. Entretanto, essa promessa encontrava seu cumprimento pleno no descendente prometido, Cristo, por meio de quem se estabelece a nova relação entre Deus e o homem.
A abordagem de Jesus ao jovem rico visava precisamente confrontar sua concepção equivocada de justiça. Sua descendência abraâmica e sua observância formal da lei não lhe conferiam justiça superior, nem o colocavam em posição privilegiada diante de Deus. A vida eterna não seria alcançada por meio da observância da lei, mas mediante a submissão àquele a quem a própria lei e os profetas davam testemunho.
Cristo não veio meramente confirmar a lei como sistema de justificação, mas revelar-se como o próprio objeto da fé e da obediência — o Senhor a quem o homem deve se submeter para receber a vida eterna.
O amor de Cristo como chamado à obediência
O versículo 21 constitui o eixo central da narrativa:
“E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me.” (Marcos 10:21).
O verbo empregado — ἠγάπησεν (ēgapēsen), forma do verbo ἀγαπάω (agapaō) — expressa o amor no sentido que o Novo Testamento consistentemente associa à disposição de estabelecer uma relação de aliança por meio da obediência. O amor de Cristo, nesse contexto, não se manifesta como mero afeto, mas como iniciativa misericordiosa que convoca o homem à submissão ao seu senhorio. Ao emitir um mandamento, Jesus estabelece objetivamente a relação entre Senhor e servo, cabendo ao jovem rico responder em obediência, tomando sobre si o jugo daquele que o chamava:
“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.” (Mateus 11:29).
O jugo, na tradição bíblica, representa a sujeição à autoridade de um senhor e a submissão à sua palavra. O mandamento de Cristo, portanto, não constituía uma exigência arbitrária, mas o meio pelo qual se estabeleceria a relação de sujeição que conduz à vida. Conforme testificam as Escrituras, Deus é a “rocha de habitação” e o fundamento da salvação (Salmo 71:3), e é na sua palavra que se encontra a vida.
Se o jovem rico tivesse se disposto a obedecer, abandonando o que havia angariado durante a sua existência e sujeitando-se à palavra de Cristo, teria manifestado a mesma fé que caracterizou Abraão, que viveu como peregrino, não possuindo herança permanente neste mundo, mas aguardando a cidade cujo arquiteto e edificador é Deus (cf. Hebreus 11:9–10, 13; Gênesis 12:1). Sua obediência teria evidenciado que havia deixado de ser senhor de si mesmo para reconhecer Cristo como seu único Senhor. Da mesma forma que o crente Abraão, o jovem rico era chamado a abandonar sua autossuficiência e submeter-se pessoalmente a Cristo como discípulo.
As riquezas que possuía não constituíam apenas bens materiais, mas englobavam a sua herança sanguínea, religiosidade e apego à lei, elementos equivalentes àqueles que Abraão abriu mão quando saiu da casa de sua parentela. Enquanto permanecesse ligado a elas, continuaria senhor de si mesmo, servindo ao seu próprio ventre, e não poderia submeter-se plenamente a Cristo. Conforme o próprio Senhor ensinou, o amor se manifesta na obediência:
“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama.” (João 14:21).
“Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples.” (Romanos 16:18; Filipenses 3:19)
A ordem dada por Cristo não tinha como objetivo primário estabelecer um princípio universal de renúncia material, mas confrontar o fundamento da confiança daquele homem e conduzi-lo ao reconhecimento de que somente um Senhor pode governar sua vida. A renúncia exigida representava, portanto, a ruptura com tudo aquilo que sustentava sua autonomia — não apenas seus bens, mas também os pressupostos sobre os quais fundamentava sua própria justiça (Filipenses 3:7).
“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e as riquezas.” (Mateus 6:24).
O imperativo final — “segue-me” — constitui o ponto culminante da exigência. O chamado não era primariamente à pobreza, mas à metanoia, isto é, à mudança fundamental de entendimento que resultaria na sujeição pessoal ao senhorio de Cristo. Seguir a Cristo implica reconhecer sua autoridade absoluta e ordenar toda a existência sob sua palavra.
Assim, o amor manifestado por Cristo ao jovem expressa-se no chamado à obediência, pois é na sujeição ao Senhor que o homem encontra a vida eterna.
A recusa como evidência de sujeição concorrente
A reação do homem é decisiva:
“Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades.” (Marcos 10:22).
Sua tristeza revela o conflito entre seus próprios conceitos e a ordem de Cristo. Quanto poderia doar ou contribuir para ter direito aos céus? Por que tinha que abrir mão do que possuía?
A ordem que Jesus deu ao jovem rico também foi dada aos demais discípulos, para que buscassem o reino de Deus — Cristo — despojando-se de tudo o que possuíam. Deveriam fazer bolsas que não envelhecessem, ajuntando tesouro nos céus que nunca se acaba, pois, onde estivesse o seu coração, ali estaria também o seu tesouro (Lucas 12:31–34).
A explicação de Jesus: o problema das riquezas
Jesus então declara:
“Quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no reino de Deus!” (v. 24)
A posse de bens materiais, em si mesma, não constitui impedimento para a entrada no reino dos céus; o verdadeiro impedimento é a não sujeição a Cristo. O termo “confiança”, no paralelo lucano (Lucas 18:24), remete àquilo em que o homem deposita sua segurança. Diferentemente dos pobres de espírito, que nada possuem e, portanto, apenas precisam ouvir e crer, os que são ricos precisam abrir mão daquilo em que confiam para se sujeitarem plenamente a Cristo.
Desde que João Batista apareceu pregando o arrependimento por causa da chegada do reino dos céus, muitos publicanos e pecadores vinham para serem batizados. Contudo, quando escribas e fariseus também vieram ao seu batismo, permaneciam apegados à ideia de que tinham por pai a Abraão e não compreendiam que a mudança de entendimento exigida consistia precisamente em abandonar essa confiança natural, a fim de se submeterem àquele que é o descendente prometido. Por isso, João os advertiu:
“E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mateus 3:9).
A imagem do camelo que não passa pelo fundo de uma agulha (Marcos 10:25) enfatiza a impossibilidade humana de entrar no reino dos céus confiando naquilo que constitui sua própria segurança. No caso de Israel, essa “riqueza” incluía não apenas bens materiais, mas também seus privilégios nacionais e religiosos: a adoção, a glória, as alianças, a promulgação da lei, o culto, as promessas e a descendência dos patriarcas (Romanos 9:4–5). Esses elementos, embora dados por Deus, tornaram-se objeto de confiança equivocada, impedindo-os de reconhecer a necessidade de submissão a Cristo.
Abandonar aquilo que constituía a base de segurança de uma nação, cujos membros foram educados desde a infância a confiar nesses privilégios, era o desprendimento necessário para que pudessem ganhar a Cristo.
Diante do espanto dos discípulos, Jesus reforça o princípio:
“Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” (Marcos 10:24).
O problema não reside na posse em si, mas na confiança depositada nela. Aqueles que confiam nas riquezas tendem a confiar mais nas estruturas humanas que lhes são familiares — líderes, tradições e vínculos naturais — do que na palavra de Deus, tornando-se insensíveis ao chamado divino. Os ricos estão mais próximos da condição de inimigos do Filho do Homem do que da condição de servos, conforme advertiu o profeta:
“Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca. Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa.” (Miquéias 7:5-6).
Para dissipar a perplexidade dos discípulos, Jesus estabelece o princípio fundamental:
“Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível.” (Marcos 10:27).
A entrada no reino de Deus é impossível de ser alcançada por meio das obras da lei ou da confiança em privilégios decorrentes de vínculo de sangue com Abraão. Contudo, é possível a Deus, que cumpriu sua promessa enviando seu Filho, o descendente prometido a Abraão. Assim, a entrada no reino depende da sujeição a Deus mediante a fé em Cristo, aquele em quem se cumpre a promessa e por meio de quem é concedida a vida eterna.
O contraste com os discípulos
Pedro declara:
“Eis que nós tudo deixamos e te seguimos.”
A resposta de Jesus confirma que o abandono mencionado — tudo — evidencia a nova relação estabelecida:
“Ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba…” (Marcos 10:29–30).
A expressão “por amor de mim e por amor do evangelho” indica que o abandono de “casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos” corresponde àquilo que constituía a riqueza que o jovem rico não quis abandonar, mas que os discípulos deixaram para se sujeitarem plenamente a Cristo.
O amor, nesse contexto, manifesta-se como submissão ao senhorio de Cristo.
O princípio escatológico da inversão
A conclusão estabelece o princípio da rejeição de Cristo pelos judeus, os abastados, e da submissão dos gentios, os pobres de espírito, considerados por aqueles como pecadores, determinando, assim, quem entra ou não no reino dos céus:
“Muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros.” (Marcos 10:31).
“Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus.” (Mateus 21:31).
Jesus foi enviado primeiramente à casa de Israel (os primeiros), e estes o rejeitaram, porque não quiseram abrir mão de suas riquezas (João 1:11). Contudo, ao ser direcionado o anúncio do evangelho aos gentios (os últimos), estes, por não possuírem tais fundamentos de confiança, receberam de bom grado a mensagem da salvação.
A parábola dos dois filhos destaca a essência do amor no contexto do chamado divino: a ordem concedida por Cristo expressa seu amor, e a obediência do homem manifesta seu amor para com Deus. Nesse sentido, o termo ágape sublinha a relação entre aquele que possui autoridade para ordenar e aquele a quem cabe a sujeição, de modo que o vínculo da perfeição — mandamento e obediência — emerge como expressão objetiva do amor.
“E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” (Colossenses 3:14).
O que vincula o senhor ao servo e o servo ao seu senhor é o ágape, pois aquele realiza uma obra ao dar um mandamento ao servo, e a obra se consuma quando o servo obedece ao seu senhor.
“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou.” (João 6:29).
Quando a multidão perguntou a Jesus: “Que faremos para executar as obras de Deus?”, em outras palavras, estavam perguntando como se tornar servos de Deus. A resposta foi objetiva: que cressem naquele que Ele enviou, pois é por meio dessa sujeição que a obra de Deus se realiza. O resultado dessa obra é a constituição de um povo que pertence a Deus, descrito nas Escrituras como uma plantação estabelecida por Ele:
“A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantação do SENHOR, para que ele seja glorificado.” (Isaías 61:3).
Desse modo, a obra de Deus consiste em estabelecer uma relação na qual o homem, ao crer naquele que Deus enviou, sujeita-se à sua autoridade, tornando-se parte daquilo que o próprio Deus plantou para sua glória.
