Romanos 7 – Miserável homem que eu sou!

 


Miserável homem que eu sou!

Epístola aos Romanos – Capítulo 7:13-25

“Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno. Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.” (Romanos 7:13-25).

O “eu” morto

“Pois eu pela lei estou morto para a lei, a fim de viver para Deus” (Gálatas 2:19).

O uso que Paulo faz do pronome na primeira pessoa ao escrever aos Gálatas é essencialmente autobiográfico e didático, diferentemente de Romanos 7, onde o “eu” possui caráter representativo e didático.

Ao relatar como foi recebido pelos apóstolos em Jerusalém, Paulo menciona que as colunas — Tiago, Cefas e João — lhe estenderam a destra de comunhão, acordando que eles se dedicariam aos da circuncisão, enquanto Paulo e Barnabé aos da incircuncisão. Em seguida, o apóstolo faz referência ao episódio em que repreendeu Pedro, quando este se afastou dos gentios por temor dos da circuncisão.

É precisamente no contexto dessa repreensão que Paulo introduz o uso autobiográfico do “eu”. Ele inicia referindo-se aos cristãos oriundos do judaísmo na primeira pessoa do plural — “nós, judeus por natureza” (Gálatas 2:15) —, mas, em seguida, passa a utilizar a primeira pessoa do singular, transformando a declaração coletiva em testemunho pessoal. Assim, o “nós” dá lugar ao “eu”, quando afirma: “Porque eu, pela lei, estou morto para a lei…” (Gálatas 2:19). Após declarar que até mesmo os judeus, que eram por natureza, não viviam como judeus (Gálatas 2:14), Paulo apresenta a base dessa postura: o reconhecimento de que a justificação não provém das obras da lei, mas da fé em Cristo.

Assim, o apóstolo declara:

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais ‘eu’, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gálatas 2:20).

Ao falar da condição dos “judeus por natureza”, que incluía os próprios apóstolos, Paulo reconhece que, mesmo nessa condição, eles eram pecadores — embora não “dentre os gentios” (Gálatas 2:15). Contudo, por meio do evangelho, compreenderam que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas mediante a fé em Cristo. Por essa razão, também creram em Cristo Jesus, a fim de serem justificados pela fé, e não pelas obras da lei.

O argumento prossegue: se, após terem crido em Cristo para serem justificados, ainda fossem considerados pecadores, isso implicaria afirmar que Cristo seria ministro do pecado — o que Paulo rejeita categoricamente: “De modo nenhum” (Gálatas 2:17).

Ora, se até mesmo o judeu natural é pecador — ainda que não “dentre os gentios” —, então, ao tentar viver como judeu, com o propósito de parecer aos da circuncisão que ainda estava debaixo da lei, seria o mesmo que tornar a edificar aquilo que eles mesmos destruíram ao crerem em Cristo; e, assim procedendo, mostram-se transgressores.

Quando Paulo afirma que “pela lei está morto para a lei, a fim de viver para Deus” (Gálatas 2:19), seu argumento evoca um princípio presente na própria lei, semelhante à figura da mulher que está ligada à lei do marido; morrendo o marido, ela fica livre da lei que a vinculava a ele (Romanos 7:1–3). Do mesmo modo, a morte rompe o vínculo jurídico anteriormente existente.

Nesse sentido, o “eu” em Gálatas 2:19–20 é autobiográfico, mas sua experiência é apresentada com finalidade didática, pois Paulo descreve a sua própria experiência: a morte do “velho homem”, na qual o corpo do pecado é desfeito (Romanos 6:6). Se o velho homem morreu, então, para a lei, ele também morreu, visto que foi crucificado com Cristo. Assim, o apóstolo declara:

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim…” (Gálatas 2:20).

Ao mesmo tempo, esse “eu” possui função didática, pois aquilo que Paulo afirma de si mesmo torna-se paradigma para todos os que obedecem ao evangelho. Ao morrer com Cristo, o crente deixa de viver para a lei e passa a pertencer a outro, conforme o ensino paulino de que, mortos para o pecado, tornamo-nos servos da justiça (Romanos 6:16–18).

Desse modo, o antigo “eu” não mais vive; ele foi crucificado, sepultado com Cristo pelo batismo em sua morte, e, em seu lugar, surge uma nova criatura. Cristo passa a viver naquele que crê, de modo que a vida que agora se vive “na carne” já não é um viver segundo a carne — como a confiança na descendência judaica ou na observância da lei —, mas pela fé no Filho de Deus, que amou e se entregou pela humanidade.

“Rogo-vos, pois, que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns, que nos julgam, como se andássemos segundo a carne. Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas;” (2 Coríntios 10:2-4).

Andar “segundo a carne” é conceito distinto de viver “na carne”. Andar segundo a carne implica avaliar as coisas a partir de critérios externos e humanos, isto é, segundo a aparência (2 Coríntios 10:7), procurando elementos para classificar, comparar e medir, a fim de se vangloriar (2 Coríntios 10:12). Os motivos dessa vanglória, conforme o próprio apóstolo, são “segundo a carne” (2 Coríntios 11:18).

“Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo. Porque nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne. (Gálatas 6:12-13);

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne.” (Filipenses 3:3).

Assim, viver “na carne” diz respeito à existência terrena do indivíduo. Paulo, por exemplo, mesmo sendo cristão, continuava sendo “hebreu de hebreus”; sua condição histórica e étnica permanecia. Portanto, viver na carne refere-se à permanência na existência humana, não à submissão aos critérios carnais, como confiar que descenden da carne de Abraão.

A existência terrena de Paulo era viver na carne; contudo, ele andava em novidade de vida (Romanos 6:4). Para aqueles que estão em Cristo, tudo se fez novo, e as coisas velhas passaram (2 Coríntios 5:17), inclusive o modo de avaliar segundo os pressupostos judaicos. Dessa forma, ainda que vivendo na carne, o cristão não anda segundo a carne, pois sua vida é agora orientada pela nova realidade inaugurada em Cristo.

Portanto, não era porque ainda viviam na carne — condição própria dos “judeus por natureza” — que deveriam continuar conhecendo os homens segundo a carne. Se assim procedessem, fariam acepção de pessoas e não andariam conforme a verdade do evangelho, como o próprio Paulo advertiu no episódio envolvendo Pedro (Gálatas 2:14).

Por isso, o apóstolo afirma:

“Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo.” (2 Coríntios 5:16).

Desse modo, a morte com Cristo rompe não apenas o vínculo com a lei como meio de justificação, mas também com as avaliações baseadas na carne, que são pressupostos orientados pela religiosidade judaica. O novo viver é determinado pela união com Cristo, pela fé no evangelho, que resultou em uma nova criação. Assim, ainda que um cristãos judeu viva na carne, como crente em Cristo não anda segundo a carne, pois sua vida é governada pela realidade inaugurada em Cristo.

Carne ‘versus’ Espírito

Paulo faz referência à carne e ao espírito como realidades opostas que se manifestam por meio de desejos contrários. O apóstolo afirma:

“Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gálatas 5:17).

O verbo “cobiçar” (ἐπιθυμέω) indica desejo, inclinação ou anseio. Assim, carne e espírito são apresentados como realidades que produzem direções distintas, cada qual conduzindo o homem à sujeição correspondente. A oposição entre ambos evidencia que o homem sempre se apresenta como servo daquele a quem obedece.

Esse princípio é exposto por Paulo em Romanos:

“…a quem vos apresentais por servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis; ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça” (Romanos 6:16).

Desse modo, a oposição entre carne e espírito se manifesta em angariar sujeição. Ao apresentar-se como servo, o homem deixa de fazer o que quer e passa a fazer aquilo que exige o senhor ao qual se submete: ou a imundícia e a maldade para a maldade, ou a justiça para santificação (Romanos 6:19).

Quando gerado segundo Adão, o homem está sujeito ao pecado. Ainda que imagine agir segundo a própria vontade, sua condição de escravo faz com que suas ações sirvam continuamente ao pecado para a morte (Romanos 6:16). O corpo do homem nessa condição torna-se instrumento de iniquidade; mesmo quando orientado pela consciência — resultante do conhecimento do bem e do mal —, tudo o que produz pertence ao domínio do pecado. Nesse sentido, o homem não passa de instrumento a serviço do pecado (Romanos 6:13,19).

Por outro lado, quando o homem é gerado de novo segundo o espírito, passa a estar sujeito à justiça. Nessa nova condição, já não vive segundo a própria vontade, mas, como servo da obediência para a justiça, submete-se à forma de doutrina a que foi entregue. Seu corpo passa à condição de instrumento de justiça, de modo que a justiça faz uso daquele que lhe é sujeito. O novo homem torna-se instrumento nas mãos de Deus.

Assim, contrapondo pecado e justiça, não havia como o homem natural lutar contra o pecado, pois era escravo — condição imposta pela morte que passou a todos por causa da ofensa de Adão. A mensagem do evangelho apresenta a esse homem escravizado um novo e vivo caminho, que Cristo consagrou com a sua carne. Aqueles que desejam libertar-se do pecado podem, pela morte com Cristo, morrer para o pecado, bastando crer na mensagem do evangelho.

Se alguém apostata da fé em Cristo, a antiga condição se restabelece, e o homem volta a se sujeitar ao pecado. Nesse sentido, nada pode afastar o crente do amor de Deus que está em Cristo; porém, dentro do rol de coisas e seres que não podem separá-lo, não se inclui o próprio crente caso abandone a fé (Romanos 8:35; Hebreus 3:12).

Ao escrever aos cristãos da Galácia, Paulo não trata diretamente da oposição entre pecado e justiça, mas da oposição entre carne e Espírito. Assim, não é próprio aos cristãos lutarem contra a carne como se esta fosse um poder autônomo interior; antes, a luta descrita pelo apóstolo é entre carne e espírito, dois sistemas doutrinários antagônicos (Gálatas 5:17).

Considerando que o evangelho é espírito e vida, quem está em Cristo está no espírito e, portanto, deve andar em espírito (Gálatas 5:16; 2 Coríntios 3:6; Colossenses 2:6; 1 Pedro 1:17). No passado, os cristãos eram trevas; agora, por estarem em Cristo, são luz. Por isso, devem andar como filhos da luz (Efésios 5:8). Quem está em Cristo precisa andar prudentemente como sábio, e não como néscio, o que, no contexto, contrasta com a vanglória segundo a carne defendida pelos da circuncisão (Efésios 5:15).

Há, portanto, um paralelo entre Romanos 8:1 e Gálatas 5:16. Basta estar em Cristo — isto é, ser nova criatura — para não andar segundo a carne. Contudo, aqueles que vivem no espírito também são exortados a andar no espírito (Gálatas 5:25), o que evidencia a necessidade de coerência entre posição e conduta:

“Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne.” (Gálatas 5:16)

“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8:1,4)

Quem vive no espírito e anda no espírito não busca vanglória, nem se irrita ou inveja os outros. Os critérios de vanglória segundo a carne — circuncisão, linhagem, ser hebreu de hebreus, lei, entre outros — são precisamente aqueles que Paulo rejeita (Filipenses 3:3-6; Gálatas 6:13).

Quando Paulo afirma que carne e Espírito se opõem, emprega a ideia expressa pelo verbo grego ἀντίκειμαι, que transmite o sentido de oposição direta e irreconciliável. Não se trata de uma tensão complementar, mas de realidades incompatíveis entre si. Assim, carne e Espírito são apresentados como domínios distintos, com orientações opostas.

Nesse sentido, ambos aparecem como esferas de sujeição: cada uma conduz o homem a submeter-se ao seu respectivo domínio. A oposição mencionada por Paulo — “para que não façais o que quereis” (Gálatas 5:17) — indica justamente a ausência de autonomia. O homem não permanece neutro, mas sempre se apresenta como servo daquele a quem obedece.

Desse modo, a carne conduz à sujeição aos seus desejos, enquanto o Espírito conduz à sujeição à justiça. A oposição irreconciliável entre ambos evidencia que não é possível caminhar simultaneamente nas duas direções. Ou se anda segundo a carne, ou se anda segundo o Espírito, pois cada domínio exclui o outro e determina a conduta daquele que lhe pertence.

Desse modo, quem é guiado pelo espírito não está sujeito à lei, e vice-versa. Quem está na carne segue ospreceitos da lei, e prtanto, não é sujeito ao evangelho. Por isso, Paulo adverte que um pouco de fermento — a doutrina judaizante — leveda toda a massa, justamente porque lei e graça são inconciliáveis.

Quando o apóstolo afirma que as obras da carne são manifestas e passa a enumerá-las (Gálatas 5:19-21), observa-se que muitas delas correspondem justamente às proibições já estabelecidas pela lei aos que estavam debaixo da lei. Desse modo, a lei não produziu tais práticas, mas tornou evidente a condição de sujeição ao pecado daqueles que estavam debaixo dela. Assim, ao delimitar comportamentos como idolatria, impureza, inveja, dissensões e outras práticas, a lei apenas vetou ações que já pertencia à carne.

Portanto, a função da lei foi tornar visível a condição do homem, evidenciando que aqueles que buscavam justiça por meio da lei permaneciam sujeitos ao pecado. As obras da carne, assim, são próprias daqueles que vivem na esfera da carne; em contraste, o fruto do espírito pertence aos que vivem no Espírito. Dessa forma, Paulo estabelece não apenas uma lista de comportamentos, mas a distinção entre duas esferas de existência: a carne, que manifesta obras provenientes da sujeição ao pecado, e o espírito, que produz o fruto próprio da nova vida.

Os cristãos convertidos dentre os judeus, por viverem no espírito, crucificaram não apenas o velho homem, para que o corpo do pecado fosse desfeito, mas também a carne com suas concupiscências (Gálatas 5:24). Consequentemente, suas ações passam a corresponder ao fruto do espírito, contra o qual não há lei.

Esse fruto se manifesta em atitudes como restaurar o faltoso com mansidão, levar as cargas uns dos outros e vigiar para não cair em tentação (Gálatas 6:1-2). O fruto é do espírito e não do homem; somente Cristo, a videira verdadeira, pode produzi-lo naqueles que estão ligados a Ele:

“Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (João 15:5).

Observe que Jesus fala do fruto no singular, assim como Paulo em Gálatas. O fruto é único porque pertence ao espírito, que o produz naqueles que permanecem em Cristo.

Mesmo permanecendo na carne — isto é, vivendo em seu corpo terreno (2 Coríntios 5:4) —, Paulo continuou vivendo socialmente como qualquer homem. Trabalhava (Atos 18:3), possuía bens pessoais (2 Timóteo 4:13), utilizava recursos de sua época (Atos 20:38), tinha desejos e planos (1 Coríntios 9:4-5) e expressava opiniões (Atos 15:39).

Assim, desejar casar-se não é carnalidade (1 Coríntios 9:5). Ter opinião diferente não é obra da carne (Atos 15:39). Ser repreensível também não significa ser carnal (Gálatas 2:11).

O próprio Cristo expulsou os vendilhões do templo, derrubou mesas e espalhou o dinheiro dos cambistas, e, ainda assim, não agiu segundo a carne. Jesus possuía emoções humanas — alegria, tristeza, angústia, coragem —, mas não estava sujeito à carne e às suas paixões.

Portanto, viver na carne não significa andar segundo a carne. Viver na carne diz respeito à existência terrena; andar segundo a carne refere-se à sujeição aos valores e pressupostos carnais. Quem está em Cristo permanece na carne quanto à existência, mas anda no Espírito quanto à sua conduta (2 Coríntios 20:2-4).

Ter um corpo feito de matéria — carne e sangue — não é o que vincula o homem à carne, à lei ou ao pecado. O próprio Cristo veio em carne e, ainda assim, é descrito como homem espiritual e espírito vivificante:

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1 Coríntios 15:45).

Nesse sentido, reduzir a oposição entre carne e espírito a uma luta interna entre duas naturezas coexistentes no crente aproxima-se mais de um dualismo de matriz platônica do que da estrutura argumentativa paulina. O apóstolo não descreve dois princípios ontológicos habitando simultaneamente o homem regenerado, mas duas condições distintas e inconciliáveis.

Assim, considerar que o cristão permanece de posse de uma “natureza pecaminosa” após ter sido justificado em Cristo contraria a lógica da nova criação. Deus não apenas declara justo; Ele cria o novo homem justo e santo, concedendo-lhe um novo coração e um novo espírito. A justificação em Cristo é, portanto, justificação de vida, e não mera declaração judicial:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Romanos 5:18).

Nesse ponto, J. Sidlow Baxter afirma:

“Permanece, no entanto, um problema sério que precisa ser resolvido para mim, pelo evangelho. O que desejo agora, além da retidão judicial, é alcançar a retidão prática de motivo e conduta em minha vida diária, através de um poder que irá libertar-me da escravidão deste tirano, o ‘pecado que habita em mim’” Baxter, J Sidlow, Examinai as Escrituras – Atos a Apocalipse, edição. 1989, Ed. Edições Vida Nova, pág. 87.

A partir dessa leitura, Baxter entende que o homem desventurado de Romanos 7 descreve alguém já liberto, mas cuja libertação ainda não é plena. Faltaria, segundo essa perspectiva, um poder adicional que garantisse uma libertação completa, de modo que o “velho eu” continuaria acompanhando o homem regenerado até o fim.

Contudo, essa leitura não se harmoniza com a afirmação bíblica de que Cristo libertou os que creem para que sejam livres de fato (Gálatas 5:1). O poder concedido por Deus é suficiente para gerar filhos de Deus (João 1:12). Além disso, Cristo declarou que Ele e o Pai fariam morada naquele que crê. Diante disso, torna-se incoerente sustentar que o pecado continue a habitar no crente como senhor, como se a casa permanecesse dividida entre dois domínios: a obediência e o pecado.

A dificuldade presente na interpretação de Baxter decorre, em grande parte, de uma confusão entre a nova condição do crente e a sua conduta prática. As Escrituras reconhecem que todos tropeçam em muitas coisas (Tiago 3:2), mas isso não implica a permanência de uma natureza pecaminosa dominando o regenerado. O tropeço diz respeito à limitação humana, não à sujeição ao pecado.

Tiago adverte especialmente aqueles que ensinam, pois receberão juízo mais severo. O aviso é claro: todos podem errar; entretanto, aquele que não tropeça na palavra é perfeito, isto é, maduro e plenamente ajustado à verdade recebida. A perfeição mencionada está vinculada à participação na natureza divina e à posição do crente em Cristo:

“MEUS irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo. Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo” (Tiago 3:1 – 2).

Assim, a perfeição do crente não decorre de uma luta entre duas naturezas, mas da nova condição recebida em Cristo. Quem participa da natureza divina não está dividido entre dois senhores; antes, vive sob o domínio da justiça, ainda que sujeito às limitações próprias da existência terrena.

Um pouco mais sobre o ‘Eu’

Quando Paulo afirma: “eu sou carnal” (Romanos 7:14) ou “…e vivo, não mais eu…” (Gálatas 2:20), surge a questão: a qual “eu” o apóstolo se refere? Trata-se do eu psíquico? histórico? social? ou de outra dimensão?

Ao ler:

“Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus” ( 1 Coríntios 15:9 ),

fica evidente que o “eu” mencionado não é o “eu” que foi crucificado com Cristo, mas o eu histórico. Paulo não nega sua trajetória passada. O mesmo homem que perseguiu a igreja tornou-se pregador do evangelho. O perseguidor passou a ser perseguido (Gálatas 1:23; 1 Timóteo 1:13). Portanto, a morte do “eu” não implica anulação da história pessoal.

Da mesma forma, Paulo não renega o seu eu social. Quando preso, apresenta-se como cidadão romano e invoca seus direitos legais:

“É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?” (Atos 22:25; 25:16).

O apóstolo também preserva a memória de sua origem: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, fariseu, cidadão romano (Filipenses 3:5-6; Atos 22:28). Esses elementos mostram que o “eu” crucificado com Cristo não diz respeito às dimensões socioculturais da pessoa.

Também não se trata da anulação do eu psicológico. Pensamentos, memórias, sentimentos e percepções permanecem. Paulo continua expressando emoções e desejos, como quando afirma:

“Eu mesmo poderia desejar ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos” (Romanos 9:3).

Esse amor pelos compatriotas demonstra que suas emoções e lembranças não foram eliminadas após a crucificação com Cristo. O mesmo ocorre em Romanos 10:1, onde manifesta o desejo pela salvação de Israel. Logo, morrer com Cristo não significa extinguir sentimentos, memória ou consciência pessoal.

O “eu” que “não mais vive” não se refere ao centro da consciência do indivíduo — isto é, à soma de pensamentos, ideias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais. Paulo não está descrevendo a extinção da subjetividade humana, nem a anulação da personalidade. O apóstolo também não sugere a supressão dos impulsos instintivos, nem a eliminação da energia psíquica do indivíduo.

Assim, o “eu” ao qual Paulo se refere não deve ser identificado com as categorias da psicologia moderna, nem com os conceitos da psicanálise freudiana, como “ego”, “id” e “superego”. Essas categorias descrevem a estrutura psíquica do indivíduo — o “id” como esfera dos impulsos e desejos inconscientes, regido pelo princípio do prazer, e o “superego” como instância normativa que representa a censura moral e social desses impulsos, formando o ideal de conduta. Já o “ego” funciona como mediação entre essas forças.

Contudo, quando Paulo afirma que o seu “eu” foi crucificado com Cristo, ele não está tratando da dinâmica dos instintos, nem da repressão moral dos impulsos, tampouco da formação de uma personalidade virtuosa por disciplina ética. Sua argumentação não se move no plano psicológico ou moral, mas no plano da condição espiritual e da relação do homem com o pecado, a lei e a justiça.

As obras da carne enumeradas por Paulo aos cristãos da Galácia não guardam relação com os instintos e desejos descritos pelo “id” freudiano. Da mesma forma, o fruto do Espírito não corresponde ao “eu ideal” produzido pelo “superego”. A linguagem paulina não se move no campo da psicologia, mas no da condição espiritual e da relação do homem com Deus. Assim, “carne” e “espírito” não descrevem estruturas psíquicas, e sim esferas de pertencimento.

O “eu” ao qual Paulo se refere quando afirma: “eu sou carnal” (Rm 7:14) não aponta para uma pessoa específica, nem para uma personalidade com sentimentos e emoções particulares. Trata-se de um “eu” representativo que expressa uma condição. Para descrever uma condição, contudo, é necessário vinculá-la a um sujeito. É por isso que Paulo utiliza o pronome pessoal como recurso didático.

Ao longo de sua argumentação, o apóstolo recorre a diversas figuras para ilustrar estados espirituais: usa a escravidão para descrever a sujeição ao pecado, o casamento para explicar a relação com a lei e, ao tratar da condição dos judeus, utiliza o “eu” como forma de representar a realidade dos seus compatriotas segundo a carne. Desse modo, surgem duas condições distintas: o homem natural, que entra no mundo por Adão, e o homem carnal, que confia na descendência de Abraão e na observância da lei como meio de justificação.

Na proposição “eu sou carnal”, o elemento central não é o “eu”, mas o predicativo “carnal”. O apóstolo enfatiza a condição, e não o sujeito individual. O “eu” funciona como recurso ilustrativo; o foco recai sobre a carnalidade como estado de sujeição aos preceitos de homens. Assim, a ênfase da frase está no predicativo, enquanto o sujeito atua como suporte retórico para evidenciar a condição descrita.

Portanto, ao interpretar “eu sou carnal”, deve-se considerar que o objetivo de Paulo é destacar a condição de quem confia na carne. O “eu” é figurativo; a carnalidade é o ponto principal. Isso se harmoniza com a afirmação:

“…não confiamos na carne.” (Filipenses 3:3).

Para explicar a condição daqueles que permaneciam divorciados de Deus, Paulo recorre ao “eu” como figura representativa. Em vez de acusar diretamente seus compatriotas — “vocês são carnais” —, o apóstolo assume a forma didática e aplica a si mesmo a condição, como também declara em outro contexto: “apliquei essas coisas, por figura, a mim e a Apolo” (1 Coríntios 4:6). Assim, por meio do “eu”, Paulo descreve a antiga condição de Israel sem confrontar diretamente seus leitores.

Ao afirmar “eu sou carnal”, o apóstolo fornece aos seus compatriotas elementos para concluir que a descendência de Abraão, a linhagem israelita ou a observância da lei não libertam do jugo do pecado. A expressão evidencia a condição comum a todos os que permanecem na carne.

 Para tornar-se espiritual, é necessário nascer de novo segundo o último Adão, que é Cristo. A carne não é aniquilada por ascetismo, nem pela negação de impulsos naturais. Ao contrário, práticas ascéticas dentro de um sistema legalista tendem a reforçar a confiança na carne. A libertação da carne não ocorre por disciplina moral, mas pelo encontro com a cruz de Cristo, onde o homem deixa a antiga condição e passa a viver segundo o Espírito.

A Lei é Santa

Partindo da argumentação paulina, surge a pergunta retórica:

“Que diremos, pois? É a lei pecado?” A resposta é imediata e enfática: “De modo nenhum!” (Romanos 7:7).

Após essa negativa, o apóstolo desenvolve uma breve exposição demonstrando que a lei não produz o pecado, mas o evidencia. Ao tornar o pecado manifesto, a lei revela a condição daqueles que estavam debaixo dela. Por isso, a conclusão é inevitável:

“Portanto, a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” (Romanos 7:12).

As perguntas que aparecem na sequência — “é a lei pecado?” e “tornou-se-me o bom em morte?” — refletem a perspectiva de quem estava na carne, isto é, de quem ainda raciocinava segundo preceitos humanos e confiava na observância da lei (cf. Colossenses 2:8,22). O “eu” utilizado por Paulo expressa essa condição: a de quem vivia debaixo da lei e, por isso, confiava na carne. Trata-se da situação daqueles que, além de estarem sob o pecado em decorrência da ofensa de Adão, viam as paixões dos pecados — justamente proibidas pela lei — operarem em seus membros, produzindo comportamentos como impureza, idolatria e outras, que Paulo destaca como “obras da carne”.

Nesse sentido, as obras da carne constituem o fruto para a morte apresentado por aqueles que estão sob a lei, pois seus membros são instrumentos de iniquidade (Romanos 6:13,19). Como o próprio Paulo afirma:

“Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.” (Romanos 7:5)

A lei, portanto, é santa porque procede de Deus e revela a condição daqueles que estavam sujeitos ao pecado. O mandamento é santo, justo e bom porque expressa o padrão do amor ao próximo, evidenciando a incapacidade do homem — inclusive do judeu — de cumprir plenamente esse requisito. Se alguém não ama o próximo, como poderia amar a Deus?

“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso…” (1 João 4:20)

Diante dessa exposição, surge uma nova objeção: “Logo tornou-se-me o bom em morte?” (Romanos 7:13). Esse tipo de questionamento parte de uma lógica humana que confunde a função reveladora da lei com a causa do problema. Paulo novamente responde: “De modo nenhum.” O mandamento não se tornou morte; antes, o pecado, utilizando-se do bem, produziu a morte, a fim de revelar-se como excessivamente maligno.

“Mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem…” (Romanos 7:13)

Assim, o problema não está na lei, nem no mandamento, mas no pecado. O mandamento apenas expôs aquilo que já operava no homem. Ao proibir, a lei tornou evidentes as transgressões e demonstrou que os membros daqueles que estavam sob a lei eram instrumentos de iniquidade, servindo à imundícia e à maldade para a maldade (Romanos 6:19). Dessa forma, longe de produzir o pecado, a lei revelou sua malignidade e evidenciou a condição daqueles que confiavam na carne.

A Escravidão como figura

“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” (Romanos 7:14 -17).

Ao afirmar que a lei é espiritual, Paulo parte de um ponto comum entre ele e seus interlocutores. Reconhecer o caráter espiritual da lei não era controverso, especialmente entre cristãos oriundos do judaísmo. Por isso, o apóstolo introduz a declaração como algo sabido: “bem sabemos que a lei é espiritual”. O problema não estava na lei, mas na condição daquele que estava debaixo dela.

É nesse ponto que Paulo introduz a figura do “eu”: “mas eu sou carnal, vendido sob o pecado”. O contraste é intencional. A lei é espiritual, porém o “eu” é carnal. O objetivo não é descrever a nova condição do apóstolo em Cristo, mas evidenciar a situação daquele que, mesmo possuindo a lei, permanece sujeito ao pecado. O “eu” funciona como recurso representativo, aplicado à condição dos judeus que confiavam na carne — descendência, circuncisão e observância da lei —, mas que, ainda assim, permaneciam vendidos ao pecado.

Assim, Paulo não está descrevendo sua condição presente em Cristo, mas a condição sob a lei. O “eu” é figura que representa sua antiga situação — enquanto Saulo — e, ao mesmo tempo, a realidade de seus compatriotas segundo a carne. A intenção é demonstrar que ser descendente de Abraão e seguidor da lei não livra o homem da sujeição ao pecado.

Isso se harmoniza com a própria declaração do apóstolo:

“Rogo-vos que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns que nos julgam, como se andássemos segundo a carne. Pois embora andando na carne, não militamos segundo a carne” (2 Coríntios 10:3).

Paulo distingue claramente entre viver na carne (existência terrena) e andar segundo a carne (sujeição carnal). Logo, não é coerente entender que o apóstolo, após sua união com Cristo, continuasse carnal ou dominado pela carne. Pelo contrário, ele afirma que os que são de Cristo crucificaram a carne com suas paixões (Gálatas 5:24) e que o corpo do pecado foi desfeito (Romanos 6:6; 8:3).

Portanto, quando Paulo afirma “eu sou carnal”, aplica a si mesmo, de modo figurativo, a condição daquele que vive sob a lei e sob o pecado. O contraste reforça que possuir a lei não transforma o homem em espiritual; antes, revela sua carnalidade.

Ter um corpo de matéria não significa ser carnal. Carnal é aquele que confia na carne — na descendência, na circuncisão e na lei —, enquanto permanece vendido ao pecado. Essa era precisamente a contradição denunciada por Cristo aos judeus que se julgavam livres por serem descendentes de Abraão (João 8:33).

Para compreender melhor o que significa ser carnal e vendido ao pecado, é necessário contrastar essa condição com a dos que estão em Cristo.

Condição de Paulo em Cristo:

  • reconciliado com Deus (Romanos 5:10);
  • morto para o pecado (Romanos 6:2);
  • unido à morte de Cristo (Romanos 6:3–6);
  • ressuscitado com Cristo (Colossenses 3:1);
  • o pecado não mais reinava em seu corpo mortal (Romanos 6:12);
  • liberto do pecado e servo da justiça (Romanos 6:18);
  • morto para a lei e livre da lei (Romanos 7:4).

Condição antes de conhecer a Cristo:

  • inimigo de Deus (Romanos 5:10);
  • vivo para o pecado (Romanos 6:2);
  • o pecado reinava em seu corpo mortal (Romanos 6:12);
  • escravo do pecado (Romanos 6:18);
  • retido sob a lei (Romanos 7:6).

Desse modo, o “eu carnal” de Romanos 7 descreve a condição daquele que, embora possua a lei, permanece vendido ao pecado. Já o homem em Cristo — precisamente o convertido dentre os judeus — não é carnal, pois foi libertado do domínio do pecado e passou a viver sob a justiça. Nessa nova condição, não são mais os elementos segundo a carne que o distinguem ou o tornam conhecido, pois a identificação do crente já não se dá por critérios naturais, como descendência, circuncisão ou observância legal, mas pela nova vida em Cristo:

“Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne…” (2 Coríntios 5:16).

Portanto, a antiga distinção baseada na carne perde o seu valor. O judeu convertido não é reconhecido por sua linhagem ou pela lei, mas pela nova condição espiritual. Em Cristo, a referência deixa de ser a carne e passa a ser a nova criação, na qual o homem não é mais definido por sua origem natural, mas pela vida que procede de Deus.

A origem da escravidão

Ora, Adão vendeu-se ao pecado quando desobedeceu ao Criador e, pela força do mandamento — “certamente morrerás” —, passou à condição de escravo. A partir dessa transgressão, o pecado, embora não seja uma pessoa, é apresentado nas Escrituras de forma personificada, como um senhor que exerce domínio por meio da morte que passou a todos os homens. A existência do pecado, portanto, manifesta-se na separação estabelecida entre o Criador e a criatura, que passou a viver destituída da glória de Deus.

O poder que potencialmente estava contido no mandamento, diante da ofensa, passou a operar e trouxe a morte sobre todos. Assim, o pecado — embora não seja uma pessoa — é descrito de forma personificada, como um senhor que domina por meio da morte, submetendo todos os homens à condição de escravos. Assim, ao vender-se ao pecado, Adão introduziu todos os seus descendentes nessa mesma condição. Todos os homens vêm ao mundo sob o domínio do pecado; antes mesmo de praticarem o bem ou o mal, já nascem debaixo desse jugo. As ações posteriores não alteram essa realidade, pois o problema não está apenas nos atos, mas na condição herdada.

Quando Paulo afirma que foi “vendido ao pecado” (Romanos 7:14), utiliza a figura da escravidão conhecida em sua época para ilustrar essa sujeição. A metáfora pressupõe a existência de senhores e servos, e o apóstolo estabelece que há apenas dois domínios possíveis: o pecado e a justiça (Romanos 6:16-18).

Assim, é impossível ao homem servir a dois senhores simultaneamente. Ou o homem é escravo do pecado para a morte, ou é escravo da obediência para a justiça. Não há neutralidade, nem liberdade absoluta fora desses dois domínios. Todo homem está sob um senhor, e sua produção corresponde ao domínio ao qual pertence.

Desse modo, os servos do pecado produzem para o pecado, enquanto os servos da justiça produzem para a justiça. Não há como servir ao pecado e, ao mesmo tempo, produzir para Deus; da mesma forma, os que pertencem à justiça não vivem sob o domínio do pecado. A produção está atrelada a sujeição.

Todos os homens, por serem descendentes de Adão, estavam sob a escravidão do pecado. Para deixar essa condição e passar a servir à justiça, é necessário nascer de novo, obedecendo de coração à forma de doutrina entregue por Cristo (Romanos 6:17). A mudança não ocorre por esforço moral, mas por uma nova geração.

Assim, após a desobediência de Adão, os homens passaram a existir separados de Deus e sujeitos ao pecado. Contudo, ao crer em Cristo, o homem é novamente gerado segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, tornando-se servo da justiça e liberto do pecado (Romanos 6:18).

Contradição entre o que o “eu” aprova e realiza

“Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço.” (Romanos 7:15).

Havia alguns maus obreiros que propunham a circuncisão aos cristãos; contudo, Paulo afirma que os verdadeiros cristãos servem a Deus em espírito — isto é, por meio do evangelho — e, por isso, não confiam na carne (Filipenses 3:2-3). Em seguida, o apóstolo destaca que, se alguém tivesse motivo para confiar na carne, ele o teria ainda mais do que aqueles que inquietavam os cristãos, pois possuía todos os títulos valorizados pelos da circuncisão:

“Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; segundo o zelo, perseguidor da igreja; segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Filipenses 3:5-6).

Entretanto, Paulo declara que abandonou todos esses elementos para ganhar a Cristo (Filipenses 3:7). Assim, quando afirma “eu sou carnal” (Romanos 7:14), sintetiza, em uma única expressão, a condição daquele que confia nesses elementos segundo a carne. A carnalidade, portanto, não diz respeito à materialidade do corpo, mas à confiança na descendência, na circuncisão e na justiça proveniente da lei. Ainda que possuíssem tais privilégios, permaneciam vendidos ao pecado.

A consequência dessa condição é descrita por Paulo como uma conduta contraditória e inexplicável: o homem faz o que não aprova (γινώσκω) e deixa de fazer o que deseja (θέλω).

“Porque o que faço não o aprovo” (Romanos 7:15).

Essa incoerência evidencia a sujeição ao pecado. Por isso, ao escrever aos Gálatas, o apóstolo afirma que carne e espírito se opõem, de modo que o homem não faz o que quer (Gálatas 5:17 cf. Romanos 7:15). A oposição demonstra que quem está sob domínio não age com autonomia, mas como instrumento do senhor ao qual se submete.

Quem está em sujeição não age por si mesmo, mas como instrumento do seu senhor. Aristóteles, em Política, descreve o servo justamente como uma extensão da vontade do senhor, alguém que executa ações que não procedem de si, mas daquele a quem está subordinado.

Nesse sentido, a figura da escravidão esclarece a argumentação paulina. O servo não age por si mesmo, mas como extensão da vontade de seu senhor. Assim, o homem vendido ao pecado produz obras que não correspondem ao que aprova, porque sua ação é determinada pela sujeição. A contradição entre querer e fazer não revela uma luta entre duas naturezas coexistentes, mas a condição daquele que, confiando na carne, permanece sob domínio do pecado.

A exposição que Paulo faz acerca do “eu” não corresponde a um conhecimento que ele possuía enquanto Saulo, nem ao entendimento comum de seus concidadãos segundo a carne, mas a uma compreensão alcançada por meio do evangelho. É a partir dessa revelação que o apóstolo passa a descrever, retrospectivamente, a condição daqueles que estavam debaixo da lei.

Assim, ao afirmar que o “eu” faz o que não aprova, Paulo utiliza um “eu” representativo da condição de quem, embora possua a lei e deseje servir a Deus, permanece sujeito ao pecado. Surge, então, a pergunta: o que esse “eu” queria fazer e não fazia?

A resposta decorre da própria declaração anterior: “vendido sob o pecado”. Se o “eu” está sob escravidão, sua vontade não se realiza. Desse modo, o “eu” desejava servir a Deus — o que se harmoniza com a lei, reconhecida como boa —, porém não conseguia fazê-lo. Ao mesmo tempo, acabava praticando aquilo que aborrecia, isto é, servindo ao pecado.

Essa contradição evidencia a condição do homem sob a lei: ele aprova o bem, deseja o bem, mas permanece sujeito ao pecado. O problema, portanto, não está na lei, nem na vontade, mas na condição de escravidão. O “eu” quer servir a Deus, mas, por estar vendido ao pecado, realiza justamente o contrário.

Novamente, qual é a realidade de alguém vendido como escravo ao pecado? Serve ao pecado. Ainda que deseje deixar de servi-lo, não consegue. Mesmo aborrecendo essa condição, permanece sob o seu jugo. Ainda que intente servir a Deus, não o faz, pois sua sujeição o impede. Há zelo por Deus, mas falta o entendimento que conduz à libertação, isto é, o conhecimento que permite morrer para o pecado e viver para a justiça (Romanos 10:2).

Dessas impossibilidades decorre mais uma evidência de que a lei é boa (Romanos 7:16). Ao descrever a condição daquele que foi vendido ao pecado, Paulo apresenta um argumento em favor da natureza da lei: se o “eu” faz o que não quer e reprova aquilo que pratica, então consente com a lei, reconhecendo que ela é boa. A lei, portanto, não é o problema; ela apenas evidencia a contradição daquele que, mesmo desejando o bem, permanece sujeito ao pecado.

Assim, o versículo 16 do capítulo 7 retoma a questão iniciada no versículo 7: “É a lei pecado?” (Romanos 7:7). A resposta permanece negativa. A lei é boa, pois revela a condição daqueles que vivem segundo a carne, mostrando que são servos do pecado e necessitam de libertação. Ao evidenciar essa incapacidade, a lei conduz à compreensão de que a solução não está na observância legal, mas na libertação que procede da justiça de Deus – Jesus Cristo-homem, e esse crucificado.

O pecado como senhor em sua casa

“De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo” (Romanos 7:17– 21).

Sabemos que, quando o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos em Roma, ele já era templo e morada do Espírito de Deus (1 Coríntios 3:16–17). Se Deus é luz e nele não há treva alguma, segue-se que Cristo não é ministro do pecado; e, estando Paulo em Cristo, sua condição não poderia ser a de alguém dominado pelo pecado (1 João 1:5; 4:17; Gálatas 2:17). Assim, a nova condição do apóstolo é incompatível com a ideia de sujeição contínua ao pecado ou de alternância de mando.

Surge, então, a pergunta: é possível a coexistência de dois senhores na mesma “casa”? Se o crente é morada de Deus, e Cristo governa essa casa, não é coerente afirmar que o pecado continue exercendo domínio sobre ela ou compartilhando o mesmo espaço. A Escritura declara:

“Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” (Hebreus 3:6; João 14:23; Efésios 2:22).

Desse modo, se Cristo governa a casa, o pecado não pode ser senhor nela. A presença de dois domínios simultâneos seria contraditória com a própria metáfora bíblica. Logo, quando Paulo descreve alguém vendido ao pecado e dominado por ele, não está falando de sua condição atual em Cristo, mas de uma condição anterior, representada figurativamente pelo “eu”.

Assim, o “eu” de Romanos 7 não aponta para o apóstolo regenerado, mas para a condição daqueles que estavam sob a lei e sujeitos ao pecado — particularmente seus concidadãos segundo a carne. Paulo utiliza o recurso retórico para ilustrar essa realidade sem acusá-los diretamente.

No versículo 14, o apóstolo emprega a figura da escravidão para descrever a sujeição ao pecado: “vendido sob o pecado”, evidenciando a condição de ser carnal não livra o homem desse domínio. A partir dessa figura, Paulo passa a destacar, por meio do “eu”, elementos distintos e complementares que caracterizam a condição do homem carnal sob a égide do pecado.

Primeiramente, ainda dentro da figura da escravidão, ele evidencia as impossibilidades próprias do servo: a incapacidade de realizar o que deseja e a inevitabilidade de praticar aquilo que não quer. Por isso afirma:

“Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço” (Romanos 7:15).

Essa declaração revela que a vontade do servo não determina sua ação, pois sua conduta está subordinada ao senhor ao qual pertence.

Já no versículo 17, a ênfase se desloca para o modo como esse domínio se exerce. O servo passa a ser descrito como instrumento a serviço do seu senhor:

“De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” (Romanos 7:17).

A linguagem permanece figurativa, mas agora introduz a ideia de domínio interno, apresentando o pecado como senhor que rege a “casa” daquele que permanece sob sua sujeição. Assim, a ação não é atribuída ao “eu” enquanto agente autônomo, mas ao domínio que o governa.

Desse modo, Paulo articula duas figuras complementares: primeiro, a escravidão, que evidencia a perda de autonomia; depois, o senhorio, que explica a origem das ações. Ambas convergem para o mesmo ponto: o homem carnal não age por si mesmo, mas segundo o domínio do pecado ao qual está sujeito. Ambas as figuras reforçam a mesma ideia central: a condição de domínio do pecado sobre aqueles que vivem sob a lei, em contraste com a liberdade dos que estão em Cristo.

O homem carnal, sujeito ao pecado, desejava servir a Deus, mas não o fazia; justamente aquilo que aborrecia era o que acabava praticando: servir ao pecado. A causa desse descompasso era a sua sujeição ao pecado (Romanos 7:15). Assim, embora o “eu” carnal não conseguisse servir a Deus por meio dos preceitos humanos, acabava consentindo com a lei, reconhecendo-a como boa, pois ela denunciava a condição de pecadores daqueles que estavam debaixo dela (Romanos 3:19; 7:16).

Surge então a questão: o que o pecado que habitava nesse “eu” fazia? Ou, de outro modo, o que o “eu” não fazia, mas o pecado, como senhor, realizava? Paulo figurativa e representativamente afirma: “…já não sou eu que faço isto…” (Romanos 7:17). A resposta está nos versículos anteriores: o “eu” desejava realizar a obra de Deus, mas praticava a obra do pecado. Isso evidencia que a ação era determinada pelo domínio ao qual estava sujeito.

A sujeição a um senhor vincula o servo à sua casa, isto é, ao domínio daquele que o governa. A linguagem remete à ideia de pertencimento e extensão de autoridade, não apenas a um local físico, mas a um espaço de domínio efetivo. Essa ideia aparece em textos como João 8:35 e Hebreus 3:2–6, onde a “casa” representa o âmbito de governo do senhor.

Nesse sentido, a metáfora aproxima-se da concepção clássica de escravidão descrita por Aristóteles, que vincula o escravo à estrutura da oikía (οἰκία). O escravo (δοῦλος) é parte da casa e instrumento do senhor, não possuindo autonomia, mas executando a vontade daquele que o governa. Assim, a expressão  paulina “que habita em mim” indica que o pecado exerce domínio sobre aquele que lhe está sujeito, determinando suas ações.

Quando o profeta Isaías se refere a Cristo como o Servo do Senhor, geralmente a ênfase recai apenas sobre o aspecto funcional da missão, especialmente quando o texto é explícito:

“EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios.” (Isaías 42:1).

Entretanto, considerando a concepção antiga de servidão, como a descrita por Aristóteles, o escravo é definido como “instrumento de ação” — não de produção, como as ferramentas inanimadas — sendo chamado de “instrumento vivo” ou “parte viva e separada” do senhor. Nessa perspectiva, o servo não age por autonomia própria, mas como extensão da vontade daquele a quem pertence.

Aplicando essa concepção à linguagem profética, Cristo, como Servo do Senhor, pode ser compreendido como aquele que atua como expressão viva da ação de Deus, isto é, a manifestação concreta da sua vontade. Essa ideia encontra correspondência na metáfora do “braço do Senhor”, utilizada em Isaías 53:

“E a quem se manifestou o braço do SENHOR?” (Isaías 53:1).

No contexto bíblico, o “braço” não representa apenas força ou poder abstrato, mas ação efetiva, intervenção concreta e manifestação operante. Assim, o “braço do Senhor” aponta para a atuação visível de Deus na história. Dessa forma, a imagem do Servo e a do “braço do Senhor” convergem: ambas expressam aquele por meio de quem Deus age.

Desse modo, Cristo é apresentado como Servo não apenas no sentido de missão, mas também como a expressão ativa da vontade divina — o agir de Deus tornado manifesto. A linguagem profética, portanto, associa implicitamente o Servo ao “braço do Senhor”, indicando que a obra realizada pelo Servo é a própria ação de Deus sendo executada na história.

É com base nessa relação senhor e servo que Paulo conclui:

“De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita (οἰκοῦσα) em mim” (Romanos 7:17).

A linguagem permanece figurativa e reforça a ideia de senhorio: o “eu” não age como agente autônomo, mas como servo sob o domínio do pecado, que rege a “casa” daquele que permanece em sujeição.

O “eu” que se sujeitava à carne realizava o querer da carne, e não o do Espírito. Enquanto praticava o querer da carne, por ter sido vendido ao pecado como escravo, permanecia sob o domínio do pecado (Gálatas 5:17). Se os compatriotas de Paulo estivessem no Espírito e andassem segundo o Espírito, fariam a vontade do Espírito, que é antagônica à carne, e assim realizariam aquilo que desejavam: servir a Deus. Contudo, ao fazerem a vontade da carne, oposta ao Espírito, não executavam o próprio querer, que era servir a Deus; antes, realizavam o desejo da carne e serviam ao pecado.

O “eu” apresentado por Paulo — vendido como escravo ao pecado — desejava servir a Deus por meio da lei (Romanos 7:22), mas, por causa do senhor a quem estava sujeito, o pecado, isso lhe era impossível. Por meio da figura da escravidão, Paulo evidencia a tensão entre o querer do servo e a impossibilidade de realizá-lo sob o domínio do seu senhor. Já por meio da figura da “casa” ou “habitação”, ele destaca que o pecado, como senhor, exerce domínio sobre a vida do escravo, determinando suas ações e impedindo sua autonomia.

A impossibilidade de realizar o bem?

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.” (Romanos 7:18).

Os cristãos em Roma sabiam que a lei é espiritual; contudo, o “eu” que Paulo interpõe como figura representa o homem carnal, isto é, aquele que confiava na carne e julgava seguir os mandamentos da lei, quando, na verdade, observava mandamentos de homens (Isaías 29:13). Assim, cobriam-se com uma cobertura que não procedia do Espírito de Deus (Isaías 30:1). Ao rejeitarem o Senhor, ficaram sem verdadeira sabedoria (Isaías 5:24; Jeremias 8:9; Romanos 10:2).

Essa realidade, denunciada pela lei e pelos profetas, passava despercebida ao religioso judeu. Eles não percebiam que eram pecadores como os demais homens, pois ignoravam que haviam sido vendidos ao pecado em decorrência da desobediência de Adão (Romanos 7:14). Desse modo, embora possuíssem a lei e se considerassem vivos, permaneciam sob o domínio do pecado, condição que a própria lei tornava manifesta.

Como o “eu” representativo da nação de Israel, apresentado por Paulo, descreve pessoas que faziam o que não desejavam, indiretamente confirmavam que a lei é boa (Romanos 7:16). O “eu” queria servir a Deus, mas fazia justamente o contrário: praticava aquilo que aborrecia e, assim, servia ao pecado, pois fora vendido como escravo e permanecia sob seu domínio (Romanos 7:15).

O versículo 17 demonstra que, por ter sido vendido ao pecado, tudo o que o “eu” se propunha a fazer acabava sendo “realizado” pelo pecado que nele habitava. A linguagem é figurativa e indica domínio: o pecado passa a exercer senhorio, como quem exerce domínio e governa a “casa”. Desse modo, o escravo não age com autonomia; seus desejos se subordinam ao senhor, e suas ações pertencem àquele que o domina.

Nessa perspectiva, o “eu” torna-se pertencente à οἰκία (casa), isto é, ao domínio do seu senhor, tornando-se parte dessa casa, um “instrumento animado” e extensão da vontade daquele que o governa. Assim, Paulo reforça que a prática do “eu” não decorre de autonomia pessoal, mas da sujeição ao pecado, que opera como senhor sobre aquele que lhe está submetido.

Em seguida, Paulo faz uma declaração acerca da carne, que constitui a essência do “eu”: “sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Romanos 7:18). Para melhor compreender essa afirmação, é necessário considerar a argumentação desenvolvida anteriormente no capítulo 3.

Após declarar, com base nas Escrituras, que Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso (Romanos 3:4), Paulo aplica essa afirmação aos judeus, inclusive àqueles que confiavam na circuncisão (Romanos 3:1). Por também ser judeu e circuncidado ao oitavo dia, ele se inclui nessa exposição coletiva que diz respeito a Israel, demonstrando que a ira de Deus é justificável, uma vez que a injustiça humana não anula a fidelidade divina (Romanos 3:3–5).

É importante notar que Paulo não afirma ser “mentiroso” no sentido moral imediato de alguém que deliberadamente falta à verdade. Historicamente, Saulo vivera segundo a mais rigorosa seita do judaísmo, sendo fariseu (cf. Filipenses 3:5). Ainda assim, ele se inclui na declaração “todo homem é mentiroso”, em contraste com Deus, que é sempre verdadeiro. Nesse contexto, “verdadeiro” e “mentiroso” funcionam como qualificações que contrastam a natureza divina com a condição humana.

Considerando o campo semântico de ἀληθής (alēthēs), o termo não se limita ao sentido moderno de “verdadeiro” como simples oposição à mentira. Na tradição grega, ἀληθής carrega a ideia de aquilo que é real, autêntico, confiável, pleno e não oculto. Deriva de ἀ-λήθης, isto é, “não oculto”, “não escondido”, “manifesto”. Assim, o verdadeiro é aquilo que possui realidade própria, consistência e imutabilidade.

Nesse sentido, o termo ἀληθής aproxima-se semanticamente de ideias como:

  • real — aquilo que possui existência efetiva;
  • veraz — digno de confiança, fiel;
  • nobre — distinto, autêntico, não vulgar;
  • real (realeza) — aquilo que possui legitimidade própria, não derivada.

Essa aproximação não é arbitrária, pois, no mundo antigo, especialmente no pensamento grego e helênico, aquilo que é “verdadeiro” também é o que é autêntico, legítimo, não aparente, em contraste com o que é comum, instável ou ilusório. Assim, o verdadeiro se associa ao que é firme, distinto e superior, enquanto o falso ou mentiroso se vincula ao que é instável, efêmero ou inconsistente.

Quando Paulo afirma: “seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso” (Romanos 3:4), o contraste não deve ser entendido apenas em termos morais, pois embora Deus essencialmente só fale a verdade pela impossibilidade de mentir, ser verdadiero e mentiroso via além da correspondencia do que é declarado com a realidade. O contraste é mais profundo: Deus é ἀληθής, isto é, o absolutamente real, fiel e digno de confiança; o homem, por sua vez, é “mentiroso”, isto é, instável, inconsistente e incapaz de sustentar por si mesmo a verdade.

Desse modo, “verdadeiro”, aplicado a Deus, aproxima-se da ideia de realeza e nobreza no sentido de legitimidade e excelência intrínseca: Deus é o verdadeiro por excelência, o autêntico, o real. Já o homem, em contraste, é descrito como mentiroso não apenas por faltar à verdade, mas por sua condição efêmera e dependente, incapaz de corresponder à realidade plena que pertence somente a Deus.

Assim, o campo semântico de ἀληθής reforça a oposição paulina: Deus é o verdadeiro — o real, fiel e legítimo — enquanto o homem, em sua condição natural, é instável e inconsistente, o que prepara o argumento de que, “na carne”, não habita bem algum.

Da mesma forma que Deus é luz, Ele também é a verdade. Assim como nele não há trevas algumas, também não há mentira alguma. A verdade, portanto, não é apenas um atributo moral, mas uma realidade própria do ser de Deus. Trata-se de uma condição ontológica: Deus é verdadeiro em si mesmo, plenamente real, fiel e incorruptível.

“Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é.” (Deuteronômio 32:4).

Do mesmo modo, o apóstolo João afirma:

“E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas.” (1 João 1:5).

A equivalência é clara: assim como luz exclui trevas, verdade exclui mentira. A verdade, portanto, não é apenas algo que Deus diz, mas aquilo que Ele é. A mentira, por sua vez, está associada à inconsistência, à instabilidade e à separação da realidade divina.

Essa mesma lógica se aplica àqueles que são gerados de novo. Se Deus é luz, os que estão nele são luz; se Deus é verdade, os que estão nele participam dessa mesma condição. Trata-se de uma realidade ontológica pertinente ao novo homem, criado “em verdadeira justiça e santidade” (João 1:12; Efésios 4:24). Por isso, os que estão em Cristo não apenas conhecem a verdade, mas estão na verdade:

“E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 João 5:20).

Assim, estar em Cristo é estar “no verdadeiro”. A verdade deixa de ser apenas um conteúdo conhecido e passa a ser a própria esfera de existência do crente. Portanto, da mesma forma que os cristãos são luz no Senhor, também são verdade, pois essa é a condição do novo ser gerado segundo Deus. Nele não há trevas, nem mentira, mas participação na realidade daquele que é, em si mesmo, o verdadeiro Deus e a vida eterna (2 Pedro 1:4).

Quando Paulo afirma: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Romanos 7:18), e esclarece “em mim” no sentido de “na minha carne”, ele atinge diretamente um dos elementos mais valorizados no judaísmo: a descendência segundo a carne, isto é, a linhagem física proveniente de Abraão. Aquilo que era motivo de confiança e jactância entre seus compatriotas — a carne de Abraão — é precisamente o que Paulo declara não possuir bem algum.

Desse modo, o “eu” utilizado por Paulo representa essa confiança na carne. A condição que os judeus consideravam distintiva — serem descendentes de Abraão — não lhes conferia vantagem espiritual, pois, enquanto permanecessem apenas na carne, continuavam sob o domínio do pecado. Assim, aquilo em que confiavam não continha qualquer bem capaz de produzir justiça diante de Deus.

Essa conclusão já havia sido estabelecida anteriormente:

“Pois que? Somos melhores do que eles? De maneira nenhuma, pois já demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado”(Romanos 3:9).

Se todos foram vendidos ao pecado, então, essencialmente, na carne não havia bem algum. A descendência natural de Abraão não libertava do domínio do pecado, nem produzia justiça. Por isso, Paulo demonstra que não são os filhos da carne de Abraão que são filhos de Deus, mas aqueles que participam da fé de Abraão. Assim, a confiança na carne é esvaziada, e a verdadeira filiação passa a ser definida não pela descendência física, mas pela relação estabelecida pela fé.

Para os cristãos convertidos dentre o judaísmo que ainda não haviam compreendido plenamente a citação do Salmo 53 em Romanos 3:10–18 — onde se afirma que não há quem busque a Deus —, Paulo volta a evidenciar essa mesma verdade ao declarar:

“… e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.” (Romanos 7:18).

Ao afirmar que “na minha carne não habita bem algum”, Paulo retoma a conclusão já estabelecida a partir dos Salmos e dos Profetas: entre os homens, considerados em si mesmos e à parte de Deus, não há quem faça o bem (Romanos 3:10–18). A incapacidade não está na ausência de desejo, pois “o querer” está presente, mas na impossibilidade de realizar o bem enquanto se permanece na carne, sob o domínio do pecado.

Assim, Paulo demonstra que o problema não era a falta de intenção religiosa. Seus interlocutores queriam buscar a Deus; entretanto, por estarem sujeitos ao pecado e confiarem na descendência segundo a carne, não conseguiam realizar aquilo que desejavam. A própria tentativa de servir a Deus por meio da carne evidenciava a incapacidade denunciada pelas Escrituras.

Na ignorância, o próprio Paulo não percebia essa realidade; contudo, agora, à luz do evangelho, compreende que, à parte de Deus, é impossível fazer o bem. Assim, na sua condição anterior, como fariseu, os atos praticados em nome da religião — por procederem da confiança na herança que o seu corpo físico guardava, isto é, na “carne” — não constituíam verdadeira busca de Deus. Antes, confirmavam indiretamente o diagnóstico dos Salmos: a humanidade — e os judeus não são exceção —, em sua condição natural, não busca a Deus, ainda que pense fazê-lo (Salmo 53:1; cf. Romanos 3:10–12).

Antes de ter um encontro com Cristo, Paulo desconhecia que não havia como fazer o bem. Equivocadamente, buscava orientar-se pela lei, sem perceber que ela funcionava como testemunho da condição dos judeus, evidenciando que, assim como os gentios, estavam sob o pecado. Somente à luz do evangelho, e à luz das Escrituras, ele reconhece que não havia bem algum na sua carne e passa a expor essa verdade aos cristãos convertidos da circuncisão por meio do “eu” representativo.

Percebe-se, portanto, que a argumentação de Paulo acerca do “eu”, em Romanos 7, deve ser compreendida à luz da exposição anterior de Romanos 3:10–18. Quando esse fundamento não é considerado, a leitura inicial pode levar à impressão de que Paulo descreve sua nova condição em Cristo. Contudo, é precisamente como nova criatura, iluminado pelo evangelho, que ele adquire o entendimento necessário para descrever sua antiga condição. Assim, o “eu” não expressa o estado presente do apóstolo, mas uma figura didática que representa a condição daqueles que, confiando na carne e na lei, permaneciam sob o domínio do pecado.

Resumindo, a base da exposição paulina encontra-se no texto fundamental de Romanos 3:10–18. O apóstolo dos gentios já havia demonstrado que todos os homens, sem exceção, estavam debaixo do pecado (Romanos 3:9). Todos eram escravos do pecado, conforme testemunham as Escrituras: “Não há justo, nem um sequer” (Romanos 3:10). Todos se desviaram e juntamente se fizeram inúteis; consequentemente, por estarem sob o pecado, “não há quem faça o bem, não há nem um só” (Romanos 3:12).

Ao retomar a argumentação em Romanos 7:14, o apóstolo volta a fazer referência à sujeição ao pecado — descrita pela figura da escravidão: “eu sou carnal, vendido sob o pecado”. Em seguida, apresenta a consequência direta dessa sujeição: a impossibilidade de realizar o bem (Romanos 7:18).

O que impedia o “eu” de realizar o bem? Não era a ausência de vontade. Pelo contrário, o querer estava presente. Entretanto, a sujeição ao pecado tornava impossível a realização desse querer. Por isso Paulo afirma:

“Porque eu sei que em mim (isto é, na minha carne) não habita bem algum; pois o querer está presente em mim, mas não acho o meio de realizar o bem.” (Romanos 7:18)

Assim, Paulo demonstra que o problema não estava no desejo de servir a Deus, mas na condição daquele que estava sob o domínio do pecado. A vontade do servo não é suficiente para libertá-lo do seu senhor. Desse modo, o “eu” quer realizar o bem, mas não o consegue, pois, estando vendido ao pecado, suas ações permanecem determinadas pelo domínio ao qual está sujeito.

O Bem

A questão do “bem” que o apóstolo Paulo afirma ser inviabilizado pela carne não se refere primariamente a categorias éticas ou morais do comportamento cotidiano. Trata-se de algo inerente à condição do homem, isto é, à sua natureza, e não simplesmente às ações externas que pode praticar, ainda que possua uma boa consciência. Quando Paulo diz que “na minha carne não habita bem algum” (Romanos 7:18), ele não afirma que o homem não seja capaz de realizar atos considerados bons, mas que, na condição da carne, não há o bem como qualidade essencial.

Para compreender esse “bem” que Israel — julgando seguir a lei, mas observando mandamentos de homens — não conseguia realizar, é necessário retroceder a Adão antes da queda. Criado em comunhão com Deus, o homem era inerentemente bom, e suas ações decorriam dessa condição. Contudo, com a ordem: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gênesis 2:16-17), após a desobediência, o homem passou à condição de separação de Deus. Essa ruptura alterou sua condição, de modo que o homem deixou de ser bom em sua essência, não por uma mudança meramente comportamental, mas por uma alteração de estado diante de Deus.

A queda, portanto, não apenas introduziu comportamentos maus, mas atingiu a condição do homem. A partir daí, guiado pelo conhecimento do bem e do mal, o homem passou a realizar ações que podem ser avaliadas como boas ou más; porém, essas ações não definem sua natureza. Assim, do ponto de vista ontológico, o homem ou está na condição do bem (em comunhão com Deus) ou na condição do mal (separado de Deus). Já do ponto de vista comportamental, homens em condição má podem realizar ações boas, e homens em condição boa podem praticar ações más.

Esse “mal” não é meramente moral, mas ontológico, isto é, relativo à condição do homem. Por isso Jesus afirma:

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:11).

Os ouvintes são chamados de “maus”, embora fossem capazes de dar boas dádivas. O contraste não é comportamental, mas de condição. Da mesma forma, o Salmo declara:

“Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras. “ (Salmo 58:3).

Assim, o problema destacado por Paulo não é a incapacidade de realizar ações moralmente boas, mas a impossibilidade de produzir o bem como qualidade essencial enquanto se permanece na carne. O homem, separado de Deus, pode praticar atos considerados bons, mas não possui o bem em si mesmo. É nesse sentido que Paulo afirma que, “na carne”, não habita bem algum.

Essa realidade emerge do campo semântico do termo grego ἀγαθός (agathós). É importante destacar que, em sua origem, o termo não se restringe ao sentido moral posterior de “bom”, mas está associado à ideia de excelência, nobreza e distinção — aspectos próximos ao conceito de areté, conforme observa Werner Jaeger em Paideia: A Formação do Homem Grego. Nesse contexto, “bom” não designa primariamente uma qualidade ética abstrata, mas algo que possui valor intrínseco, realidade, excelência e distinção.

De modo semelhante, Friedrich Nietzsche, em Genealogia da Moral, observa que, historicamente, os termos “bom” e “nobre” estão interligados, enquanto “ruim” se associa ao comum, inferior ou plebeu.

À luz dessa consideração, quando a Escritura afirma que Deus é bom, o termo “bom” não deve ser reduzido a uma categoria ética limitada, mas compreendido como aquilo que é pleno, real, verdadeiro e absolutamente confiável — aquele que possui em si mesmo a realidade e a fidelidade perfeitas. O “bem”, portanto, pertence originalmente ao ser de Deus e não a um comportamento humano.

Essa condição é comunicada ao homem por meio do novo nascimento, pela semente incorruptível, que é a palavra de Deus:

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre.” (1 Pedro 1:23).

Em contraste, a condição dos filhos de Adão permanece marcada pela transitoriedade e fragilidade:

“Porque toda carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva; secou-se a erva, e caiu a sua flor.” (1 Pedro 1:24).

Assim, o “bem” não procede da carne, pois a carne é vil, de classe baixa e transitória e não possui realidade em si mesma. O bem, entendido como excelência, nobreza, plenitude e verdade, pertence àquilo que procede de Deus. Por isso, Paulo afirma que, “na carne”, não habita bem algum: a carne, vinculada à descendência natural de Adão, não possui essa qualidade ontológica. Somente o novo nascimento, proveniente da semente incorruptível, comunica ao homem a participação no bem que pertence originalmente a Deus.

“Uma voz diz: Clama; e alguém disse: Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo.” (Isaías 40:6).

Enquanto os da circuncisão se gloriavam na carne e confiavam nela, as Escrituras denunciavam que “toda carne é erva” (1 Pedro 1:24). Assim, gloriavam-se no que é efêmero, semelhante à flor do campo, cuja aparência é passageira e não possui permanência. A confiança na carne, portanto, fundamentava-se em algo transitório, incapaz de produzir o “bem” em sentido essencial.

Nesse contexto, a figura da árvore esclarece melhor a questão do bem e do mal. João Batista anuncia:

“E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.” (Mateus 3:10).

Quais são essas árvores que serão cortadas? São aquelas que não foram plantadas por Deus:

“Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada.” (Mateus 15:13).

A metáfora aponta para a origem. Árvores plantadas por Deus produzem bons frutos porque procedem de uma semente incorruptível; já as que têm origem na carne não podem produzir fruto bom em sentido essencial. Assim, a distinção não está apenas no comportamento visível, mas na procedência.

As árvores que dão bons frutos são aquelas plantadas por Deus, isto é, geradas da semente incorruptível, que é a palavra de Deus (1 Pedro 1:23). Essas não serão arrancadas, pois sua origem é divina. Em contraste, as “árvores” nascidas da vontade da carne, da vontade do homem e do sangue — isto é, da descendência natural — não foram plantadas por Deus e, por isso, não podem produzir bons frutos (cf. João 1:13; Mateus 7:17).

Assim, a figura da árvore reforça o argumento: o problema não é apenas o tipo de fruto, mas a natureza da árvore. A carne, sendo transitória como a erva, não pode produzir o bem que procede de Deus. Somente aquilo que nasce da semente incorruptível possui a condição necessária para produzir bom fruto.

É nesse contexto, oriundo dos profetas que enfatizavam que “toda carne é como a erva”, sem exceção — nem mesmo o homem cujo sobrenome é judeu —, que o antigo “eu” de Paulo, também judeu, compreende, à luz do evangelho, que em sua condição anterior não era possível realizar o bem. Isso porque sua natureza estava sob a sujeição do pecado. Deus é bom, e somente os que participam da sua natureza tornam-se bons e, assim, capacitados a produzir o bem.

O próprio Senhor Jesus chamou seus ouvintes de maus, embora soubessem dar boas coisas:

“Pois, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos…” (Lucas 11:13)

Isso demonstra que dar boas dádivas não é o mesmo que realizar o bem em sentido essencial. Atos como caridade, sacrifício, esmola, compaixão ou companheirismo podem ser considerados boas dádivas, mas não transformam a natureza daquele que os pratica. Um homem pode realizar tais ações e, ainda assim, permanecer na condição descrita por Cristo como “maus”.

Somente a sujeição a Cristo transforma os homens maus em bons, assim como a sujeição ao pecado, decorrente da condenação em Adão, tornou os homens maus. Desse modo, fazer o bem não é simplesmente uma questão de vontade, mas decorre da natureza recebida no nascimento. Se nascido da carne, o homem é carnal, vendido ao pecado e incapaz de realizar o bem em sentido essencial; se nascido do Espírito, torna-se participante da natureza divina e, portanto, apto a produzir o bem.

Aqui surge uma dificuldade interpretativa se o texto for compreendido no sentido estrito de que o pecado “habita” o “eu” descrito por Paulo como se fosse apenas uma presença interna. A linguagem paulina, porém, é mais bem entendida à luz da ideia de domínio. O termo associado à casa (οἰκία) aponta não apenas para habitação, mas para o âmbito de autoridade de um senhor. Assim, a ênfase não está simplesmente em o pecado residir no homem, mas em exercer senhorio sobre ele.

Desse modo, a leitura mais coerente é a de que o pecado atua como senhor em sua própria “casa”, isto é, no “eu” gerado em Adão. Nesse contexto, o pecado possui autonomia e domínio, impedindo o homem de servir a Deus. A figura contrasta com Cristo, que é Senhor sobre a sua própria casa — “cuja casa somos nós” (Hebreus 3:6) — de modo que, sob o senhorio de Cristo, há passagem da morte para a vida e participação em seu reino (2 Timóteo 2:12).

“… já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim.” (Romanos 7:17)

Assim, embora os pecadores dentre os da circuncisão desejassem fazer o bem, suas obras não possuíam valor diante de Deus. As Escrituras descrevem essa realidade afirmando que tais obras são como “trapos de imundícia” e não podem justificar o homem (cf. Isaías 64:6; 57:12). São também comparadas a teias que não servem para vestir, pois não podem cobrir o homem (Isaías 59:6).

A razão é que essas obras não são feitas em Deus, mas procedem da carne representada pelo “eu”. Sob o domínio do pecado, o homem permanece como pertencente a esse senhor, isto é, dentro do seu âmbito de domínio. Por isso, embora o desejo de realizar o bem esteja presente, não há capacidade de efetivá-lo. O problema não está apenas na ação, mas na condição.

Nesse sentido, os judeus, tomados como exemplo no “eu” paulino, inserem-se nessa realidade universal de sujeição ao pecado. Possuíam zelo de Deus, porém não segundo o entendimento que procede do evangelho. Buscando servir a Deus, estabeleceram a sua própria justiça e rejeitaram a justiça de Deus (Romanos 10:2–3).

Assim, o “eu” descrito por Paulo sublinha especialmente a experiência judaica — isto é, daqueles que confiavam na carne e na observância da lei —, ainda que essa experiência reflita uma condição mais ampla da humanidade sob o domínio do pecado. O querer daquele que confia na carne está presente; entretanto, enquanto o pecado exerce senhorio, o homem não consegue realizar o bem.

O Mau

“Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros” (Romanos 7:20 -23).

Novamente o apóstolo Paulo enfatiza a sujeição ao pecado como impedimento para a realização do bem. O que impede o homem, à parte de Deus, de realizar o bem é o pecado; entretanto, o querer permanece presente. Um exemplo claro são os judeus, que desejavam servir a Deus, mas o meio que adotaram não era segundo o espírito, e sim conforme mandamentos de homens. Assim, Paulo não descreve a vontade como escravizada, mas a condição do homem sob domínio do pecado, que impede a concretização do querer.

Desse modo, embora o homem deseje fazer o bem, permanece impedido pelo senhor ao qual está sujeito. A “lei” que o impede não é a lei mosaica, mas a condição herdada, isto é, a natureza vinculada ao pecado. Trata-se de algo próprio da humanidade em Adão. Paulo apresenta esse “eu” como carnal, isto é, como uma “casa” sobre a qual o pecado exerce domínio.

Paulo não está tratando primariamente de comportamento. É possível aos homens praticarem ações consideradas boas ou más, à luz do conhecimento do bem e do mal. O próprio Cristo afirmou que homens maus sabem dar boas dádivas aos seus filhos; contudo, isso não altera a condição daquele que permanece sob o domínio do mal. Assim, o problema não está na capacidade de realizar atos bons isolados, mas na ausência do bem como realidade inerente.

Sabemos que Deus é bom, e aqueles que se tornam morada do Espírito participam dessa condição. Deus não habita templo (ναός) impuro (1 Coríntios 3:17). Ele é luz, e nele não há trevas (1 João 1:5). Portanto, para estar em Deus, o homem precisa nascer de novo, tornando-se luz no Senhor (Efésios 5:8). Nesse novo estado, o domínio do pecado é removido, e o mal não habita no novo homem gerado em Cristo.

Em Romanos 7:22, Paulo fala do “homem interior”, que se deleita na lei de Deus. Esse aspecto explica o zelo religioso: havia desejo de agradar a Deus. Os judeus buscavam continuamente o Senhor e tinham prazer em se aproximar dele, como descreve o profeta:

“Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus,” (Isaías 58 : 2).

O problema, porém, estava nos elementos utilizados. Confiavam em mandamentos humanos e em sinais externos, sem compreender o objetivo da lei. A circuncisão, que era sinal da aliança com Abraão e indicava a promessa de que dele procederiam nações e reis (Gênesis 17:4–9), passou a ser tratada como elemento de salvação. Assim, aquilo que era sinal foi transformado em fundamento.

A aliança da circuncisão foi estabelecida entre Deus, Abraão e seus descendentes (Gênesis 17:4, 9). Contudo, na sequência do mesmo contexto, Deus anuncia outra aliança, que seria firmada com Isaque, o filho da promessa (Gênesis 17:19), cuja realização dependeria do cumprimento da palavra divina no tempo determinado (Gênesis 17:21).

Assim, percebe-se uma distinção importante: a aliança da circuncisão possui um sinal na carne, enquanto a aliança associada a Isaque fundamenta-se na promessa. A primeira é marcada por um elemento visível e físico; a segunda, por uma realidade que procede da palavra de Deus. Por isso, a que possui sinal na carne está vinculada ao que é transitório, ao passo que a que procede da promessa aponta para o que é permanente.

Se a carne é como a flor da erva — passageira e sujeita ao tempo —, então o sinal que nela se estabelece também não possui caráter definitivo. Já a promessa, por não depender da carne, possui natureza duradoura. Dessa forma, a distinção entre as duas alianças evidencia o contraste entre o que é temporal, ligado à carne, e o que é permanente, fundamentado na promessa de Deus.

“Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas.” (2 Coríntios 4:18)

Assim, o querer estava presente, mas, enquanto a confiança permanecia na carne, o bem não podia ser realizado. Somente a partir da nova condição, fundada na promessa e não na carne, o homem deixa de estar sob o domínio do pecado e passa a produzir o bem que procede de Deus.

O prazer que o povo de Israel demonstrava pela lei limitava-se aos lábios, pois não a punham por obra; o que praticavam, na verdade, não passava de mandamentos de homens. Essa realidade já havia sido denunciada pelos profetas:

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza.” (Ezequiel 33 : 31).

E também:

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Isaías 29:13).

Assim, embora afirmassem deleitar-se na lei, na prática estavam submetidos a preceitos humanos. O problema não era a ausência de desejo religioso, mas a condição interna que os conduzia para longe de Deus. Pensavam aproximar-se dele, honrando-o com os lábios, porém o coração permanecia distante (Salmo 5:9).

Nesse sentido, não percebiam que, em vez de estarem sob a lei de Deus, estavam sob a lei do pecado operando em seus membros. Essa condição impedia a concretização do bem que desejavam e desviava o objetivo que buscavam. Desse modo, o zelo religioso coexistia com a incapacidade de obedecer verdadeiramente, confirmando que o querer estava presente, mas a realização era impedida pela sujeição ao pecado.

Ter zelo de Deus não é o mesmo que tê-lo habitando no coração (Romanos 10:2). O zelo pode existir como disposição religiosa, mas isso não significa comunhão real com Deus. Para que Deus habitasse neles, era necessário que se tornassem seu templo; para isso, deveriam circuncidar o coração, conforme já havia sido anunciado por Moisés:

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz.” (Deuteronômio 10:16)

Assim, o problema do povo de Israel — e, por extensão, de toda a humanidade — estava no coração recebido pelo nascimento natural. Em decorrência da desobediência de Adão, o homem passou a existir afastado de Deus, e essa condição se expressa no coração endurecido, incapaz de verdadeira comunhão com o Criador.

A circuncisão do coração, portanto, não diz respeito a um rito externo, mas à remoção daquilo que impede a comunhão com Deus. Essa figura aponta para a morte do velho homem, isto é, para o fim da condição herdada no nascimento natural. Trata-se de uma obra que não pode ser realizada pelo próprio homem, mas que Deus opera, removendo a barreira que separa o homem de si.

Desse modo, somente após a circuncisão do coração — quando o velho homem é desfeito — a separação é eliminada, e o homem torna-se apto para que Deus nele habite. Assim, o zelo religioso é substituído pela comunhão real, e o coração que antes estava afastado passa a ser morada de Deus.

E em que consiste essa “lei” nos membros, chamada por Paulo de “outra lei”, pertinente ao “eu” descrito em Romanos 7:23? Para compreendê-la, é necessário observar o contraste com a realidade daquele que está em Cristo e é exortado a apresentar os seus membros como instrumentos de justiça:

“… pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação. Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça.” (Romanos 6:19-20).

Quando o homem é liberto do pecado, ele é chamado a apresentar os seus membros a Deus como instrumentos de justiça, pois agora é vivo dentre os mortos (Romanos 6:13). A libertação muda o senhorio, mas o serviço se expressa por meio dos membros. O servo da justiça apresenta os seus membros voluntariamente àquele a quem pertence.

Na condição anterior, porém, de sujeição ao pecado, tudo o que o homem produzia pertencia ao seu senhor. Como o corpo do velho homem estava sob o domínio do pecado, seus membros eram instrumentos de iniquidade. Assim, a “lei” que operava nos membros não era uma norma externa, mas o domínio exercido pelo pecado sobre o corpo, que determinava as ações.

Paulo aplica essa realidade, de modo particular, ao “eu” representativo dos judeus que estavam debaixo da lei. Esses possuíam uma “lei no entendimento”, isto é, a convicção de que, ao cumprir os preceitos da lei mosaica, estavam servindo a Deus. Entretanto, a lei não foi dada para salvar, mas para evidenciar o pecado. Desse modo, as próprias práticas realizadas por meio dos membros acabavam prendendo o religioso sob a lei do pecado que operava neles.

Por isso Paulo afirma:

“Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.” (Romanos 7:5 e 19).

Assim, a “outra lei” nos membros é o domínio do pecado que se manifesta através do corpo, conduzindo as ações para um resultado contrário ao que o entendimento desejava. O “eu” quer servir a Deus, mas a lei que opera nos membros — isto é, o senhorio do pecado — leva à produção de frutos para a morte, evidenciando a incapacidade de realizar o bem enquanto se permanece sob esse domínio.

O Homem Miserável

“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado” (Romanos 7:24–25).

O “homem miserável” descrito por Paulo constitui um ponto de debate entre intérpretes. Pergunta-se: trata-se do homem regenerado, frustrado por desejar fazer o bem, mas acabar praticando o mal? Ou Paulo estaria descrevendo outra realidade? A questão é relevante, pois o apóstolo exclama:

“Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:24).

Alguns entendem que esse “homem miserável” é o regenerado ainda ligado ao pecado, baseando-se na sequência argumentativa da epístola: Paulo tratou da morte para o pecado no capítulo 6 e, portanto, não voltaria no capítulo 7 à condição anterior. Contudo, esse argumento ignora um padrão recorrente nas epístolas paulinas: o apóstolo frequentemente apresenta primeiro a nova condição em Cristo e, em seguida, relembra a antiga condição para fins didáticos e contrastivos.

Assim, em Romanos 7, Paulo não retoma a santificação do crente para negá-la, mas explica a função da lei e a condição daquele que, confiando nela, permanece sob o domínio do pecado. O “homem miserável” surge, portanto, dentro da argumentação sobre a lei e o “eu” representativo. Esse “eu” possui identidade definida desde antes: é aquele que “tem por sobrenome judeu e repousa na lei” (Romanos 2:17). Saulo, como judeu, podia usar essa figura para instruir cristãos oriundos da circuncisão.

Esse padrão aparece em outras epístolas. Em Efésios, Paulo primeiro descreve a nova condição dos cristãos (Efésios 1:3–14) e depois relembra a antiga condição sob o pecado (Efésios 2:1–6). Em Colossenses, apresenta a plenitude em Cristo (Colossenses 2:10–11) e, em seguida, recorda a condição anterior (Colossenses 2:12–15). Em Gálatas, afirma a justificação pela fé (Gálatas 2:16) e logo introduz o “eu” autobiográfico e didático:

“Pois eu, pela lei, estou morto para a lei, a fim de viver para Deus” (Gálatas 2:19).

Além disso, o próprio Paulo rejeita a ideia de que Cristo esteja associado ao pecado: “É, porventura, Cristo ministro do pecado? De modo nenhum” (Gálatas 2:17). Se o pecado habitasse o novo homem, isso implicaria contradição com a obra perfeita de Cristo. O testemunho apostólico afirma que Deus é luz e não há nele trevas (1 João 1:5), e que os que estão em Cristo são filhos da luz (1 Tessalonicenses 5:5). A nova condição é descrita como saída das trevas para a luz (1 Pedro 2:9).

Nesse quadro, o “homem miserável” não descreve o estado do regenerado, mas a condição daquele que, embora deseje servir a Deus, permanece sob o domínio do pecado enquanto confia na carne e na lei. A angústia decorre da incapacidade de realizar o bem desejado, situação própria do “eu” representativo sob a lei. Assim, a exclamação de Romanos 7:24 não expressa a experiência normal do novo homem, mas a condição daquele que, ainda sob a égide da lei e da carne, reconhece sua miséria e a necessidade de libertação que somente se encontra em Cristo.

Leituras equivocadas

Seria coerente considerar miserável o mesmo homem que escreveu aos cristãos em Éfeso que Deus “nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3)? Como alguém que ensina que os crentes foram eleitos e predestinados em Cristo poderia, ao mesmo tempo, descrever sua própria condição atual como miserável? Como afirmar que os cristãos são irrepreensíveis diante de Deus em Cristo e, simultaneamente, viver sob constante lamento?

O mesmo Paulo que alguns identificam como o “homem miserável” é aquele que descreve os crentes como escolhidos antes da fundação do mundo, santos e irrepreensíveis diante de Deus (Efésios 1:4), selados com o Espírito (Efésios 1:13) e participantes de uma nova posição espiritual (2 Pedro 1:4). Essa linguagem não se harmoniza com a ideia de que o próprio apóstolo estivesse continuamente atormentado por incapacidade moral ou sentimento permanente de culpa.

Sob essa perspectiva, torna-se difícil sustentar que Romanos 7 descreva a experiência normal do cristão regenerado. A leitura que entende o crente como simultaneamente santo e pecador, vivendo numa tensão contínua de frustração, implicaria atribuir a Paulo uma condição permanente de miséria espiritual. No entanto, o próprio apóstolo afirma: “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Essa declaração aponta para uma nova realidade, incompatível com a ideia de uma existência dominada por lamento e impotência.

Além disso, Paulo ensina que os que estão em Cristo não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito (Romanos 8:1), e que foram libertos da lei do pecado e da morte (Romanos 8:2). Essa libertação não é apresentada como parcial ou meramente posicional, mas como mudança real de condição. Assim, o cristão não é descrito como alguém permanentemente preso a um conflito insolúvel, mas como alguém que passou da morte para a vida.

Esse entendimento também se harmoniza com o ensino das bem-aventuranças. Quando Jesus declarou “bem-aventurados”, falava a pessoas que, espiritualmente, eram pobres e necessitadas. Contudo, a bem-aventurança é a condição alcançada pela relação com o Reino. Assim, aqueles que creem deixam a condição de miséria espiritual e passam à condição de bem-aventurança.

Dessa forma, o “homem miserável” não descreve a condição do apóstolo enquanto ministro do Espírito, nem a realidade contínua do cristão regenerado. Antes, expressa a condição daquele que, sob a lei e na carne, reconhece sua incapacidade e clama por libertação. A resposta imediata de Paulo confirma isso: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 7:25). A miséria pertence à condição anterior; a libertação caracteriza a nova vida em Cristo.

Em seus caminhos há destruição e miséria

Por que, então, Paulo exclama: “Miserável homem que eu sou”? Porque, nesse ponto, ele encerra sua exposição acerca do contraste entre a lei espiritual e a condição representada pelo “eu” carnal, vendido ao pecado (Romanos 7:14). A figura descreve alguém que, embora possua a lei e deseje servir a Deus, permanece escravo do pecado. E o escravo nada possui, pois o resultado do domínio sob o qual vive é a morte (Romanos 6:23).

O homem carnal, representado pelo “eu”, particularmente aplicado ao judeu que confiava na carne e repousava na lei, considerava-se afortunado por possuir privilégios religiosos. Entretanto, tais bens não o libertavam da sujeição ao pecado. Por isso, sua condição é descrita como miserável: possuía sinais exteriores e confiança na carne, mas permanecia sob o jugo do pecado.

Assim, o “homem miserável” é aquele que confiava na carne e repousava na lei, julgando-se justo, e, por isso, rejeitou o Messias que veio chamar pecadores ao arrependimento (Lucas 5:32). Essa autoconfiança o impedia de acessar a salvação em Cristo. Enquanto confiava em sua herança religiosa, permanecia afastado da verdadeira justiça.

Essa mesma realidade é refletida nas palavras de Jesus:

“Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus.” (Mateus 21:31)

Aqueles que confiavam em sua posição religiosa permaneciam fora, enquanto os que reconheciam sua condição eram alcançados. Assim, o homem que se gloriava na carne permanecia apegado a um tesouro efêmero, herdado dos pais, mas não acumulava riquezas diante de Deus:

“Não ajunteis tesouros na terra…” (Mateus 6:19–20).

“Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus.” (Lucas 12:21)

Desse modo, o clamor “miserável homem que eu sou” expressa a condição daquele que, embora se considerasse rico por causa da lei e da carne, era, na realidade, miserável diante de Deus, pois permanecia sob o domínio do pecado e a riqueza que possuía impedia de reconhecer que necessitava de libertação que somente vem por meio de Cristo.

O irmã Tiago expressa essa mesma realidade de miserabilidade ao denunciar aqueles que se julgavam ricos, mas cuja riqueza era transitória e incapaz de salvá-los:

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. 4 Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente vivestes sobre a terra, e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu.” (Tiago 5:1-6).

Esse é o veredito sobre o homem miserável: aquele que, confiando em riquezas corruptíveis — sejam privilégios da carne, a posse da lei ou qualquer segurança herdada — julgava-se rico diante de Deus, mas permanecia sob o domínio do pecado. Embora se considerasse afortunado, apoiava-se em bens efêmeros, incapazes de livrá-lo da morte. Por isso, sua condição é de miséria espiritual, pois, ao confiar nesses tesouros sem valor, rejeitou a justiça de Deus manifestada em Cristo e participou da condenação do Justo. A esse homem, cujo sobrenome é judeu, resta chorar suas misérias, reconhecendo a falência daquilo em que confiava.

Paulo escreve a uma comunidade mista. Os gentios convertidos não tinham dificuldade em reconhecer sua antiga condição sob o pecado; já os convertidos do judaísmo poderiam ainda sustentar alguma vantagem decorrente da lei. Por isso, o apóstolo demonstra que também aqueles que estavam debaixo da lei eram vendidos ao pecado. Para esse fim, utiliza o “eu” representativo, evitando uma acusação direta e conduzindo os interlocutores judeus a reconhecerem, por identificação, que não eram exceção. Assim, Romanos 7 não descreve a condição do cristão, mas a condição daquele que, estando sob a lei, desejava servir a Deus e, ainda assim, permanecia escravo do pecado.

Desse modo, o “eu” miserável de Romanos 7 não descreve diretamente a condição universal da humanidade, mas a condição específica do judeu sob a lei, que argui: “Em seus caminhos há destruição e miséria;” (Romanos 3:16). Contudo, ao demonstrar que nem mesmo aquele que possui a lei consegue realizar o bem, Paulo confirma a tese já estabelecida de que todos, sem distinção, estão debaixo do pecado. O “eu” representativo, portanto, tem pano de fundo judaico, e sua função argumentativa precípua é evidenciar a incapacidade do sistema religioso que promovia a circuncisão na carne — e a confiança na lei — de livrar seus seguidores do domínio do pecado.

A condição de miséria é retirada por Paulo de Isaías 59:7–8, texto que ele cita em cadeia com outras passagens do Antigo Testamento (Salmos 14; 53; 5:9; 140:3; 10:7; 36:1), conforme Romanos 3:10–18.

“Em seus caminhos há destruição e miséria.” (Romanos 3:16).

Considerando que “tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz” (Romanos 3:19), e que os gentios não possuem lei (Romanos 2:14), segue-se que a descrição de Isaías — “destruição e miséria há em seus caminhos” — aplica-se primeiramente aos judeus, isto é, àqueles que estavam sob a lei.

O corpo vinculado à morte

 

É por isso que vem a indagação logo a seguir: ‘Quem me livrará do corpo desta morte?’ Diante de condição tão ingloria, o homem miserável se vê preso a um corpo que o vincula a morte, e que por isso, o pecado mantem o seu senhorio. Quem poderá resgatá-lo? Perceba que o desejo do escravo sob o jugo do pecado é ser livre desse senhor maldoso.

Os religiosos em Israel eram miseráveis porque foram destituídos da glória de Deus assim como toda humanidade, e os recursos que dispunham não os livrava do pecado e da morte. Se partissem desta vida para a eternidade sob o jugo do pecado existirão para sempre alienados de Deus, pois a lei somente notificava  a condição que estavam.

Jesus é o único caminho que conduz os homens a Deus, e para tanto é necessário morrer com Cristo e ressurgir um novo homem “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ). Através da carne de Cristo, todos quantos tornaram participantes da sua carne e sangue, passam a trilhar um novo e vivo caminho, visto que está livre do corpo que os levava a morte. O corpo herdado de Adão é morte, mas o corpo de Cristo é vida dentre os mortos ( 1Co 15:45 ).

Diante da sua total incapacidade de livrar-se do pecado, Paulo da graças a Deus por Jesus nosso Senhor! Cristo é a resposta para a pergunta: “Quem me livrará para fora do corpo desta morte?”.

 

 

 

“Assim que, Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do Pecado ( Rm 7:25 ).

Compare estes dois versículos:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais o pecado ( Rm 6:6 ).

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do Pecado ( Rm 7:25 ).

Que conhecimento! Que alegria saber (conhecer) que o velho homem foi crucificado com Cristo! “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado…” ( Rm 6:6 ).

Mas, por que o velho homem foi crucificado com Cristo? Qual o objetivo de tal crucificação? Para que ‘não sirvamos mais ao pecado’!

Em Cristo Jesus o corpo do pecado foi desfeito (deixou de existir) com o objetivo de o cristão não servir mais ao pecado ( Hb 9:26 ).

No mesmo contexto Paulo assevera: “Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:12 ).

A palavra ‘considerar’ não é um faz de conta. Da mesma forma que é certa a morte de Cristo, também é certa a morte dos que crêem em Cristo, ou seja, os cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

O ‘eu’ é crucificado, morre, a seguir sepultado e ressurge do mesmo modo que Cristo ressurgiu, visto que, o velho homem foi crucificado e morreu à semelhança da morte de Cristo na cruz do calvário, para que o novo homem possa ser semelhante a Ele na ressurreição dentre os mortos ( Rm 6:4 – 6).

Não há como o crente servir o pecado, uma vez que o corpo do pecado foi desfeito (escravidão), e ele não tem mais domínio sobre aqueles por quem Cristo morreu “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ). Ora, se a lei era a força do pecado, uma vez que o cristão morre para a lei, segue-se que está livre do pecado.

 

 

Diante destes versículos resta a pergunta: Paulo se contradiz ao apregoar que o cristão é livre do pecado e que serve a lei do pecado? É claro que não! Como desfazer esta contradição aparente?

Como já demonstramos, é impossível o homem servir a Deus e ao pecado, visto que ou você serve a justiça ou serve ao pecado. Deus jamais permitirá que seus filhos sirvam ao pecado, do mesmo modo que o pecado impede que seus servos sirvam a Deus. O apóstolo diz: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita a lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” ( Rm 8:7 ). “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

Não é possível ao homem servir a Deus segundo a carne (o ‘eu’ está em inimizade com Deus), e isto demonstra que, para servir a Deus é preciso crucificar o ‘eu’ com Cristo e sepultá-lo.  Porém, o que Paulo realmente diz em Rm 7:25 ?

Voltemos ao versículo: Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor…” ( Rm 7:25). Diferente do ‘eu’ que tinha o pecado como senhor, agora em Cristo Paulo agradece a Cristo, o Senhor que o resgatou.

Devemos observar que o contexto do versículo é de agradecimento. O apóstolo está agradecendo porque já tinha alcançado as dádivas de Deus. Paulo demonstra que o Senhor de sua vida é Cristo Jesus, e não o pecado, o que nos remete a segunda parte do versículo: “…assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus ( Rm 7:25 ).

Temos que observar nesta frase três expressões:

  1. ‘eu mesmo’;
  2. ‘servir com entendimento’, e;
  3. ‘servir a lei de Deus’:

Eu mesmo – Quando Paulo expressa algo sobre a sua pessoa ou seu estado atual diante de Deus, ele enfatiza a sua nova condição em Cristo com o peculiar “EU MESMO”: “Porque, em que tendes vós sido inferiores às outras igrejas, a não ser que eu mesmo vos não fui pesado? Perdoai-me este agravo” ( 2Co 12:13 ); “Mas confio no Senhor que também eu mesmo em breve irei ter convosco” ( Fl 2:24 ; 2Co 8:3 ; 1Co 9:27 ; 1Co 7:7 ; Rm 9:3 ; Rm 7:25 ). O apóstolo Paulo geralmente utiliza o ‘eu mesmo’ para evitar confusão com o ‘eu’ figurativo que representa o corpo do pecado. Paulo utilizou o seu ‘eu’ de modo figurativo para falar da sujeição da carne ao pecado a partir do verso 7 do capítulo 7 de Romanos até o verso 24, porém, no verso 25 o apóstolo Paulo volta a descrever a sua atual condição em Cristo. Este mesmo recurso Paulo já havia utilizado no capítulo 3, quando fez referência a condição da carne contrastando-a com a verdade de Deus ( Rm 3:7 );

Entendimento – O apóstolo Paulo servia a Deus com entendimento, já o os judeus só possuíam ‘zelo de Deus’, porém, eles não serviam a Deus com entendimento. O que é servir a Deus com entendimento? Por que os judeus não serviam a Deus com entendimento? Servir a Deus por meio da lei de Moisés é o mesmo que ter zelo de Deus, porém, ter zelo de Deus não é o mesmo que servi-lo com entendimento.  Servir a Deus com entendimento é servi-lo através da verdade do evangelho ( Rm 10:2 ). Ou seja, só serve a Deus com entendimento aqueles que não mais estão na carne, pois foram gerados de novo através do poder que há no evangelho;

A lei de Deus – Paulo demonstra que só através do ‘entendimento’ é possível servir à lei de Deus, isto porque é impossível aos homens carnais cumprirem a lei. Pergunto: qual lei de Deus que Paulo servia? A lei de Moisés? Por certo que não! Ele estava apontando para a lei de Deus em Cristo “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” ( Gl 6:2 ), que só é possível o homem sujeitar-se quando vive em espírito ( Rm 8:7 ; 1Jo 3:23 ).

Resta-nos estudar a última parte do versículo:

“…mas com a carne à lei do Pecado ( Rm 7:25 ).

Temos outros três elementos a serem analisados neste versículo:

  1. ‘mas’;
  2. ‘a carne’, e;
  3. ‘lei do pecado’.

mas – nesta frase o ‘mas’ é uma conjunção adversativa que introduz uma nova ideia contrária ao pensamento da oração anterior. Ou seja, com o entendimento o apóstolo serve a lei de Deus, porém, com a carne o serviço era para a lei do pecado. Se o apóstolo Paulo quisesse dar a entender que é possível servir simultaneamente a lei de Deus e a lei do pecado, a conjunção que deveria ser utilizada era o “E”, e não o “MAS”. Deste modo a frase demonstra que com o entendimento Paulo servia a lei de Deus e que também servia a lei do pecado;

a carne – ‘a carne’ é uma das formas que o apóstolo utiliza para fazer referência à velha natureza herdada de Adão. Neste versículo em análise o apóstolo está falando da condição do ‘eu’ (velho homem) que é descrita na condição de escravo do pecado;

Lei do pecado – Qual é a lei do pecado? A lei do pecado consiste em dar fruto para morte, gerando toda sorte de concupiscência ( Rm 7:8 ). Tudo que o homem no pecado faz pertence por direito ao seu senhor que o assalaria com a morte. Por isso não há quem faça o bem, pois todos pecaram e destituídos estavam da glória de Deus.

Após ter morrido para a lei o apóstolo dos gentios ainda servia ao pecado? Ele ainda produzia frutos para a morte? ( Rm 7:4 ) Ora, estou convencido de que Paulo não mais produzia frutos para a morte.

O que Paulo disse após agradecer pela redenção?

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do Pecado”Rm 7: 25.

“Mas” é uma conjunção adversativa que indica contrariedade quanto a ideia presente na argumentação. Porém, muitos interpretam que Paulo servia a Deus com o entendimento e que também (mas) servia a lei do pecado.

Ora, se o apóstolo Paulo estivesse servindo a ‘lei de Deus’ e a ‘lei do pecado’, haveria um conectivo ‘e’ em lugar da conjunção adversativa ‘mas’ para indicar que havia uma complementação entre a primeira e a segunda oração. Exemplificando: “Assim, eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus e (também) com a carne à lei do pecado”.

Porém, não é esta ideia que depreendemos do texto, visto que o apóstolo simplesmente utilizou um recurso próprio à linguagem chamado Elipse, que consiste na omissão de um termo facilmente identificável pelo contexto simplesmente para não repetir parte da frase. Ele utilizou a conjunção adversativa ‘mas’, que remete a um contra ponto, ou seja: agora que Paulo estava livre da carne servia a lei de Deus com entendimento, mas se procurasse servir a Deus antes de nascer de novo, ou seja, com a carne, serviria à lei do pecado.

Exemplo: “Assim, eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne [servia] a lei do pecado”. Através da conjunção adversativa ‘mas’ o verbo ‘servir’ fica subentendido na frase.

Sabemos que Paulo não mais servia à lei do pecado, visto que, ele já havia crucificado o ‘eu’ (a carne) com as suas concupiscências, sepultado-a com Cristo e ressurgiu um novo homem.

Este mesmo evento é descrito como sendo a circuncisão de Cristo, que nada mais é do que o despojar (lançar fora) do ‘corpo da carne’ (velha natureza). Na circuncisão de Cristo todo o corpo da carne é lançado fora, e não somente o prepúcio, como se dava na circuncisão de Moisés ( Cl 2:11 ).

Observe que, por uma necessidade de estilo na escrita, Paulo suprimiu na segunda parte do versículo o verbo ‘servir’ utilizando a conjunção adversativa ‘mas’. Paulo utilizou a conjunção ‘mas’ e suprimiu o verbo ‘servir’: ‘mas com a carne [servia] à lei do pecado’.

Este mesmo recurso na escrita podemos perceber no evangelho de João:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas (nasceram da vontade ) de Deus” ( Jo 1:13 ).

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mascom a carne (servia) à lei do Pecado ( Rm 7: 25 ).

Vontade: esta palavra é suprimida na segunda parte do versículo de Jo 1:13 , da mesma forma que a palavra ‘sirvo’ foi suprimida em Rm 7:25 . Para entendermos as argumentações dos dois textos faz-se necessário subentender as duas palavras em destaque inserindo-as no texto;

de Deus: nascer da vontade de Deus não possui relação com o nascimento proveniente do sangue, da vontade do varão ou da vontade da carne ( Jo 1:13 ).  Da mesma forma, o ‘servir à lei do pecado’ por meio da carne também não possui relação com o ‘servir à lei de Deus’ com o entendimento;

mas: em ambos os versículos a conjunção ‘mas’ remete a uma ideia de oposição a ideia da frase anterior.  Se em Adão nascemos da vontade da carne, do sangue e da vontade do varão, em Cristo Jesus nascemos da vontade de Deus. Se na carne o homem serve a lei do pecado, em Cristo serve a lei de Deus.

Observe:

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do Pecado ( Rm 7:25 ).

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais o pecado ( Rm 6:6 ).

Observe que com a carne só é possível servir a lei do pecado, porém, o corpo do pecado já foi desfeito, para que o cristão não mais sirva o pecado. Ora, servir o pecado é coisa do passado, portanto, com a carne o apóstolo servia o pecado.

Paulo agradece a Deus: “Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor”. Conclui a sua argumentação certo que servia a lei de Deus através do evangelho: “Assim que eu mesmo (Paulo) com o entendimento sirvo à lei de Deus…”, caso continuasse na mesma condição dos seus compatriotas, continuaria servindo ao pecado “mas com a carne (eu servia) à lei do pecado”.

Apesar da controvérsia entre teólogos sobre se Paulo descreve ou não o seu próprio estado quando diz: “Eu sou carnal”, é possível verificar que ele emprega o tempo presente para tornar a sua argumentação vívida e atual.

Todos os homens conheceram (estavam) o pecado, visto que aquele que é nascido da carne é carne. Todos juntamente se extraviaram, fato este que permitiu o apóstolo fazer alusão ao pecado utilizando a sua própria pessoa “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” ( Rm 7:7 ). Ora, para conhecer o pecado é necessário estar sob a lei e na carne, condição esta pertinente a todos os homens sem Cristo.

Diante da lei imutável, não há outra afirmação que expresse tão bem a condição do velho homem, do que a fala “Eu sou carnal” ( Rm 7:14 ). Enquanto o homem carnal existir a lei o alcançará. Paulo, sabedor da imutabilidade da lei, torna o seu ‘eu’ vívido através do tempo verbal ‘eu sou’, porém, isto não significa e nem implica que ele continuava a ser carnal (pecador) e potencialmente salvo (não efetivamente).

Considerar que o apóstolo Paulo era um cristão ‘nascido de novo’, mas não totalmente liberto do pecado é contrariar o próprio autor que diz: “PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei, do pecado e da morte” ( Rm 8:1 -2).

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0 thoughts on “Romanos 7 – Miserável homem que eu sou!

    • Olá, Mello..

      Servir a Deus significa obedecê-lo. Se vc crer que Jesus é o Filho de Deus conforme as Escrituras serás salvo. Todos os que creem em Cristo, além de serem salvos, também são eleitos (escolhido) para serem santos e irrepreensíveis (Efésios 1.4). Se vc crer que Jesus é o Cristo, cumpriu o mandamento de Deus, portanto é regenerado.

      Dê uma lida nos artigos disponibilizados para poder aumentar a compreensão da Bíblia.

      Att.

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