Cântico Não É Adoração: Uma Distinção Bíblica

Embora a congregação seja necessária para edificação mútua e proclamação da verdade, a adoração não nasce do ambiente coletivo; ela procede da nova realidade espiritual do indivíduo unido a Cristo.


Cântico Não É Adoração: Uma Distinção Bíblica

 

Introdução

Este artigo decorre de uma análise crítica da posição adotada pelo Pr. José Maurício da Silva[1], líder da Igreja Batista Palavra Viva, em relação à música gospel intitulada Auê (A fé ganhou).

Não é propósito deste estudo examinar diretamente a música do coletivo Candiero, cuja composição apresenta elementos que se aproximam do sincretismo religioso e cuja linguagem pode remeter, ainda que implicitamente, a referências associadas às religiões de matriz africana. Tal análise ultrapassa o escopo deste trabalho, uma vez que as Escrituras estabelecem que o julgamento daqueles que estão fora não compete àqueles que estão dentro da fé, pois Deus é quem os julga (1 Coríntios 5:12–13).

O foco desta análise, portanto, não recai sobre aqueles que estão fora, mas sobre a manifestação espiritual expressa na crítica formulada pelo referido líder religioso. O objetivo não é julgar a pessoa em sua aparência, comportamento ou posição institucional, mas examinar o espírito que se manifesta por meio de suas declarações, conforme a orientação apostólica:

“Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.” (1 João 4:1).

O parâmetro para tal exame não é a aparência externa, a posição religiosa ou a identidade institucional, mas a reta justiça, isto é, o julgamento fundamentado na verdade das Escrituras:

“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.” (João 7:24).

Assim como o ouvido discerne as palavras e o paladar prova os alimentos, é necessário provar os espíritos (ou os frutos), pois a verdadeira natureza de uma árvore é revelada por seus frutos, e não por sua aparência, como ensinou o próprio Senhor:

“Pelos seus frutos os conhecereis.” (Mateus 7:16–20; cf. Mateus 12:33).

Desse modo, esta análise se propõe a examinar, à luz das Escrituras, se a crítica apresentada está em conformidade com a verdade do evangelho ou se reflete concepções que dela se afastam. O fato de uma crítica se dirigir a algo que, do ponto de vista bíblico, é de fato indevido não significa, por si só, que sua formulação corresponda à verdade. Uma crítica pode identificar um problema real e, ainda assim, interpretá-lo de maneira equivocada ou atribuir-lhe fundamentos que não procedem da revelação divina.

Por isso, não basta considerar o alvo da crítica, mas é necessário avaliar também se seus pressupostos e conclusões permanecem fiéis ao testemunho das Escrituras.

Nesse sentido, permanece atual a advertência de Jó diante das interpretações equivocadas de seus amigos, que, embora pretendessem defender a Deus, o faziam por meio de argumentos que não correspondiam à verdade:

“Porventura, falareis perversidade por Deus e por ele falareis mentiras?” (Jó 13:7).

Assim, toda afirmação teológica, ainda que apresentada sob a aparência de zelo pela verdade, deve ser examinada à luz da revelação bíblica, para que não se incorra no erro de atribuir a Deus aquilo que Ele próprio não declarou.

A Formulação Retórica de “Arrancar o Olho” no Sermão do Monte e seu Verdadeiro Propósito Teológico

O primeiro elemento do vídeo gravado pelo Pr. José Maurício consiste na tentativa de fundamentar sua crítica por meio de uma referência às palavras de Jesus no Sermão do Monte, quando afirma que, se o olho escandaliza, deve ser arrancado. A aplicação sugerida é que, analogamente, se uma música causa escândalo, aquele que a produziu deveria tomar para si a mesma prescrição. A referência implícita encontra-se em Mateus 5:29:

“Se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e lança-o de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo seja lançado no inferno.” (Mateus 5:29).

É inquestionável que essa declaração pertence ao contexto do Sermão do Monte. Contudo, sua interpretação não pode ser dissociada de seu propósito teológico nem do público ao qual foi originalmente dirigida. Jesus falava majoritariamente a judeus que viviam sob a lei e que depositavam sua confiança na observância de seus preceitos como fundamento de sua justiça diante de Deus. Por essa razão, ele estabelece o princípio central que orienta todo o discurso: a condição essencial para entrada no reino dos céus:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.” (Mateus 5:20).

Essa afirmação constitui o eixo interpretativo do Sermão do Monte. A partir dela, Jesus passa a demonstrar que a justiça baseada na observância da lei — representada pelos escribas e fariseus — era insuficiente para introduzir o homem no reino de Deus. Para evidenciar essa insuficiência, ele emprega uma estratégia pedagógica deliberada: intensifica as exigências da própria lei, introduzindo contrastes progressivos por meio da fórmula “ouvistes o que foi dito… eu, porém, vos digo”. Esse agravamento não visa estabelecer um novo sistema de justificação por meio de exigências ainda mais rigorosas, mas expor a impossibilidade de o homem alcançar a justiça requerida por Deus através da observância legal.

É nesse contexto que se insere a declaração acerca de arrancar o olho ou cortar a mão. Trata-se de uma formulação propositalmente extrema, cuja finalidade não é prescrever uma ação literal, mas revelar, por meio do absurdo implícito, a incapacidade humana de eliminar, por seus próprios meios, a fonte do pecado e, consequentemente, de produzir a justiça exigida por Deus. Se a justiça dependesse da eliminação radical de toda causa de tropeço, o homem estaria inevitavelmente condenado à sua própria destruição, pois o problema não reside em um membro isolado, mas em sua própria condição.

O próprio desenvolvimento do discurso confirma esse propósito. Ao comparar o comportamento dos judeus com o dos publicanos e gentios, Jesus demonstra que as ações consideradas evidência de justiça — como amar os que os amam e saudar os de seu próprio grupo — não constituíam sinal de superioridade espiritual, pois eram igualmente praticadas por aqueles considerados pecadores:

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem assim os próprios gentios?” (Mateus 5:46–47).

O discurso de Jesus, portanto, constitui uma estratégia pedagógica que, ao invés de negar diretamente o sistema de justiça baseado na lei, expõe sua insuficiência por meio de contrastes e paralelos. Ao demonstrar que os filhos de Israel não eram essencialmente diferentes dos publicanos e gentios em suas ações, Jesus confronta a confiança de seus ouvintes em sua própria justiça e os conduz à necessidade de uma mudança de entendimento (metanoia), que só é possível mediante o reconhecimento do reino de Deus manifestado em sua própria pessoa.

Desse modo, Jesus revela que a justiça baseada na lei não distinguia essencialmente Israel dos demais povos. O agravamento das exigências — como amar os inimigos e ser perfeito como o Pai celestial — não estabelece um padrão alcançável pelo esforço humano, mas expõe a impossibilidade de o homem produzir, por si mesmo, a justiça requerida. Essa impossibilidade é ainda mais evidente quando Jesus apresenta o próprio Deus como modelo, aquele que faz nascer o sol sobre justos e injustos, revelando uma perfeição que procede de sua própria natureza e não da reciprocidade humana.

Assim, a declaração acerca de “arrancar o olho” não deve ser apropriada como instrumento de condenação dirigido a terceiros — como se fosse uma autorização para juízos pessoais — ainda que o objeto da crítica seja, sob o ponto de vista doutrinário, profundamente questionável. Antes, deve ser compreendida em seu propósito original: um recurso retórico empregado por Jesus para expor a incapacidade do homem de alcançar a justiça por meio da observância da lei e para conduzi-lo ao reconhecimento da justiça que procede exclusivamente de Deus, manifestada na pessoa de Jesus Cristo.

Portanto, a declaração de Jesus não autoriza sua apropriação como fundamento para condenações humanas baseadas em analogias externas, mas deve ser compreendida dentro de sua função pedagógica original: revelar a insuficiência da justiça humana e preparar o caminho para o reconhecimento da justiça que procede exclusivamente de Deus e que se manifesta na pessoa de Cristo.

Uma música pode ser canção, louvor ou adoração?

O Pr. José distingue três categorias de música no contexto eclesiástico contemporâneo. A primeira corresponde às canções, caracterizadas por narrativas ou declarações acerca do que Deus fará na vida do indivíduo, frequentemente centradas nas necessidades humanas, como vitória, restauração ou superação. Segundo ele, desde os anos 2000, esse tipo de música tornou-se predominante, contribuindo para uma ênfase antropocêntrica, na qual o homem ocupa o centro da experiência religiosa. A segunda categoria é o louvor, entendido como cânticos direcionados à exaltação de Deus, em consonância com o modelo predominante nos Salmos. O entrevistado observa, contudo, que a presença desse tipo de expressão tem diminuído significativamente nas igrejas nas últimas décadas. Por fim, ele destaca a adoração, considerada a forma mais elevada e, ao mesmo tempo, mais rara de expressão musical na igreja atual. Para ele, a verdadeira adoração requer entrega, reverência, quietude e intimidade com Deus, em contraste com o que descreve como uma prática contemporânea marcada por excesso de verbalização e ruído, o que, em sua avaliação, revela uma dificuldade generalizada da igreja em compreender e praticar a adoração genuína.

Canções

Entretanto, do ponto de vista conceitual, canção designa simplesmente uma composição poética associada a uma melodia. Nesse sentido, pode abranger aquilo que o Pr. classificou como cântico ou louvor, mas não se confunde, por si só, com adoração no sentido bíblico. A divisão proposta, portanto, não estabelece categorias essencialmente distintas quanto à natureza formal, mas diferencia conteúdos e ênfases dentro de uma mesma realidade estética: a canção.

Em outras palavras, o que alguns denominam cântico e outros associam à adoração continua sendo, formalmente, uma canção. A distinção terminológica apresentada não encontra fundamento direto na forma musical, mas em interpretações acerca de seu conteúdo ou intenção. Qualquer poesia articulada com musicalidade — seja de temática sacra ou secular — permanece, em sua essência estrutural, uma canção. O fato de o conteúdo tratar de temas religiosos não altera sua natureza formal; apenas motiva sua rotulação como “louvor”.

Por isso, para compreender a diferença crucial entre canção, louvor e adoração, não se deve partir da forma musical em si — ritmo, métrica, instrumentação, entonação — nem de uma classificação formal entre composições seculares e sacras. A distinção que se pretende estabelecer não reside na estrutura estética da composição, pois louvor e adoração não são categorias musicais, mas realidades espirituais.

Toda canção, independentemente de sua temática, mobiliza a dimensão emocional de quem a canta e de quem a ouve. Quando a composição é solene e vinculada à confissão de fé, pode ser tradicionalmente denominada hino. Contudo, mesmo nesse caso, continua sendo uma canção sob o ponto de vista formal. Se não assume caráter solene, permanece sendo chamada simplesmente de canção, ainda que trate de temas religiosos. Nesse contexto, o debate não deve ser reduzido à forma musical ou à sua eventual inserção no mercado, mas à distinção entre expressão estética e realidade espiritual — distinção que não pode ser estabelecida apenas pela classificação musical.

A crítica do Pr. José, ao atribuir o gosto musical dos pentecostais predominantemente a uma condição socioeconômica, não parece captar o fenômeno em sua complexidade. Ainda que fatores sociais influenciem preferências culturais, a formação e a difusão dos estilos musicais, em sua maioria, estão profundamente relacionadas a dinâmicas de mercado, estratégias de consumo e interesses econômicos mais amplos. Assim, o que se apresenta como expressão espontânea de determinado estrato social frequentemente está inserido em cadeias produtivas, processos de massificação e lógicas comerciais que ultrapassam o recorte puramente socioeconômico da base religiosa.

Louvor

Aquilo que o Pr. José classifica como “louvor” — e que muitas vezes evocamos com certa nostalgia ao nos referirmos às boas composições do século passado — continua sendo, do ponto de vista formal, simplesmente canção. A qualidade poética ou a profundidade teológica de uma composição não a transforma, por si, em louvor ou adoração no sentido bíblico. Não há correlação automática entre estilo musical, época histórica ou densidade lírica e a realidade espiritual do louvor.

O que distingue muitas das boas canções do século passado não é uma suposta categoria musical superior, mas o conteúdo que expressavam. Essas composições frequentemente refletiam, ainda que sem plena consciência teológica por parte de seus autores, a estrutura dos Salmos 103 e 104. Ou exaltavam os feitos de Deus — sua graça, misericórdia e benefícios concedidos aos homens — ou celebravam seus atributos — sua grandeza, majestade, justiça e juízo.

Em essência, eram canções que bendiziam a Deus: ora por aquilo que Ele faz, ora por aquilo que Ele é. A diferença, portanto, não reside na forma musical nem na época de produção, mas na centralidade de Deus no conteúdo da composição. Ainda assim, continuam sendo canções. Louvor e adoração não se definem pela excelência estética da composição, pela sofisticação poética ou pela solenidade da melodia, mas pela realidade espiritual daquele que bendiz a Deus.

Salmo como profecia

Outro equívoco na argumentação do Pr. José consiste em supor que o simples acréscimo de musicalidade aos Salmos produz, automaticamente, louvor. Essa conclusão decorre de não se atentar para a natureza teológica dos próprios Salmos. Embora estruturados poeticamente, entoados no contexto litúrgico e acompanhados de instrumentos, muitos Salmos possuem dimensão profética, especialmente messiânica.

A Escritura reconhece essa dimensão ao associar o ministério musical à profecia (cf. 1 Crônicas 25:1–3; 2 Samuel 23:2; Atos 2:30). Os Salmos transcendem a experiência imediata do salmista e apontam para realidades futuras, especialmente messiânicas. Há Salmos que anunciam aspectos da pessoa e da obra do Messias — sua divindade, encarnação, sofrimento, morte, ressurreição e exaltação (cf. Salmo 91; 22; 110). Outros revelam dimensões de seu ministério: servo, sacerdote, rei, mediador, homem e Deus (cf. Salmo 110).

Mesmo quando não apresentam previsões messiânicas explícitas, os Salmos exercem função profética no sentido mais amplo, pois redarguem, ensinam, instruem e formam o povo de Deus — exatamente como Paulo descreve a função das Escrituras (2 Timóteo 3:16–17).

Portanto, musicalidade não define a natureza espiritual do texto. O fato de algo ser poético e cantado não o transforma automaticamente em louvor no sentido bíblico. Os Salmos, ainda que cantados, são revelação inspirada, com densidade teológica e caráter profético. Reduzi-los a “louvor” apenas por sua forma musical é desconsiderar sua natureza escritural e seu lugar na economia da revelação.

Louvor

Do ponto de vista bíblico, o louvor não pode ser compreendido primariamente como uma iniciativa autônoma da criatura em direção ao Criador, como se Deus dependesse da ação humana para ser glorificado. A Escritura apresenta o louvor, antes de tudo, como algo que emana da própria obra de Deus.

O Salmo 19:1 declara: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos.” Aqui, não há palavras articuladas, cânticos ou poesia humana. A própria existência da criação, em sua ordem, beleza e magnitude, constitui louvor. A glória de Deus é manifesta naquilo que Ele faz.

Nesse sentido, o louvor é intrínseco à obra divina. A criação louva ao revelar o poder, a sabedoria e a majestade daquele que a trouxe à existência. De modo semelhante, a nova criação em Cristo também é descrita como “para louvor da sua glória” (Efésios 1:6,12, 14; Filipenses 1:11). O salvo não apenas tributa cânticos, mas sua própria existência redimida manifesta a glória de Deus; ele mesmo é resultado da graça e, portanto, expressão viva da glória divina, expressão máxima de louvor a Deus.

Enquanto os céus proclamam a grandeza e a majestade do Altíssimo, os redimidos manifestam a glória de sua graça. Deus planta “árvores de justiça” (Isaías 61:3), isto é, forma um povo regenerado, para que Ele seja glorificado. Isso não significa que Deus criou ou redimiu o homem por necessidade de cânticos, mas que sua própria obra redentora constitui louvor.

Assim como uma obra-prima revela a habilidade e a genialidade de seu autor — não porque a pintura verbalize elogios, mas porque sua própria existência testemunha a excelência de quem a produziu — também a criação e a redenção testemunham a glória de Deus. Ele não está em busca de hinos para suprir alguma carência; Ele realiza sua obra maravilhosa, e dela procede o seu louvor.

“E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado.” (Isaías 60:21).

Glorificar

De igual modo, glorificar a Deus possui um sentido mais profundo e específico do que simplesmente cantar ou entoar palavras de exaltação. Biblicamente, glorificar está ligado à manifestação pública daquilo que Deus realiza — especialmente por meio da confissão que procede dos “frutos dos lábios” que o próprio Deus cria.

“Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos.” (João 15:8).

Hebreus 13:15 afirma: “Ofereçamos sempre, por ele, a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome.” O texto define o louvor como confissão — mas trata-se de uma confissão que não procede da capacidade natural do homem, e sim da vida que lhe foi comunicada. À luz da metáfora bíblica da oliveira (cf. Romanos 11), somente quem está enxertado na oliveira participa da seiva que a sustenta.

Assim, a verdadeira confissão — o fruto dos lábios que glorifica a Deus — não é mero discurso religioso, mas expressão de uma vida que permanece ligada à fonte. Não se trata apenas de pronunciar palavras corretas, mas de manifestar, pela união com Cristo, a realidade da graça recebida.

Como o ramo não pode produzir fruto se não estiver ligado à videira (cf. João 15), também o louvor como confissão autêntica só pode ser produzido por aquele que participa da vida que vem de Deus. O fruto não nasce do esforço do ramo, mas da seiva que o sustenta. Do mesmo modo, a confissão que glorifica a Deus é fruto da vida gerada por Ele mesmo. Não se trata meramente de expressão estética, mas de proclamação consciente da obra e do nome de Deus. A glorificação, portanto, não se confunde com o ato musical em si; está vinculada à confissão da verdade revelada.

Isaías 57:19 reforça essa perspectiva ao declarar: “Eu crio o fruto dos lábios.” O próprio Deus é quem produz a palavra que o glorifica. O “cântico novo”, nesse sentido, não é primariamente uma nova composição musical, mas a proclamação renovada da obra redentora — a expressão da paz anunciada “ao que está longe e ao que está perto”. Em essência, trata-se da proclamação do evangelho.

Assim, glorificar a Deus não é apenas cantar, bendizer ou executar um hino. É confessar aquilo que Ele fez e é. A glória de Deus se manifesta quando sua obra é anunciada e reconhecida. A música pode ser veículo dessa confissão, mas não a define. O que glorifica é a verdade proclamada — fruto criado por Deus nos lábios daqueles que foram alcançados por sua graça.

Adoração

Por fim, quanto à adoração, é necessário ajustar o eixo da discussão. A adoração, biblicamente compreendida, não é uma prática circunscrita a um modelo específico de igreja — seja ela contemporânea ou apostólica — nem está condicionada a determinados estados emocionais ou atmosféricos, como entrega sensível, quietude contemplativa, intimidade subjetiva ou paciência ritualizada. Tampouco a igreja, enquanto reunião local, constitui um “centro de adoração” no sentido espacial do termo, como se Deus estivesse vinculado a um ambiente específico.

Tais afirmações decorrem, muitas vezes, de construções conceituais que não são devidamente examinadas à luz das Escrituras. No diálogo com a mulher samaritana, Jesus desloca completamente o foco da discussão. A questão apresentada por ela dizia respeito ao lugar legítimo de adoração — o monte Gerizim ou Jerusalém. A resposta de Jesus, porém, não reforça a centralidade do espaço cultual, mas a relativiza:

“Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.” (João 4:21).

Se o elemento determinante fosse o culto enquanto estrutura externa, Jesus teria reafirmado o templo e Jerusalém como centro legítimo. No entanto, Ele declara que o Pai procura adoradores, não adoração. O objeto da busca divina não é o ambiente, o rito ou a performance, mas a pessoa.

Adorar “em espírito e em verdade” significa adorar a Deus à luz da revelação que se cumpre na própria pessoa de Cristo. A verdade não é um conceito abstrato, mas o evangelho encarnado. Pela palavra de Cristo — que é espírito e vida — o crente é feito participante da nova realidade: torna-se membro do corpo de Cristo, templo do Espírito, sacerdócio real. Assim, oferece a Deus “sacrifício de louvor, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15).

Nesse sentido, o adorador, por sua união com Cristo, possui em si todos os elementos essenciais da adoração: o templo (pois é morada do Espírito), o sacerdote (pois participa do sacerdócio de Cristo) e o sacrifício (a confissão que procede do coração e sai pela boca). A adoração, portanto, não depende de circunstâncias externas ou estados emocionais específicos. Entrega, quietude, intimidade e paciência podem acompanhar a experiência cristã, mas não constituem seus fundamentos.

Embora a congregação seja necessária para edificação mútua e proclamação da verdade, a adoração não nasce do ambiente coletivo; ela procede da nova realidade espiritual do indivíduo unido a Cristo. O ato de cantar pode ser comunitário; o momento de bendizer pode ser público. Mas a adoração, em sua essência, decorre da condição daquele que foi reconciliado com Deus: nova criatura. Basta, para isso, estar em Cristo.

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17).

Conclusão

Em síntese, cântico designa, em sua natureza formal, uma composição poética associada à musicalidade; é expressão estética que pode veicular conteúdos diversos, sejam eles seculares ou sacros. Louvor, por sua vez, não se define pela forma musical, mas pela realidade espiritual daquele que, unido a Cristo, confessa e manifesta a obra de Deus — é fruto dos lábios gerado pela graça, expressão daquilo que Deus fez e é. Adoração, finalmente, não se restringe a um estilo, atmosfera ou performance cultual, mas consiste na relação do adorador com Deus em espírito e em verdade, fundamentada na união com Cristo e na submissão à revelação do evangelho. Confundir essas categorias, reduzindo-as à forma musical, conduz a equívocos conceituais que obscurecem a verdade bíblica. E mais grave ainda é combater um erro apoiando-se em pressupostos igualmente equivocados, pois, embora o alvo da crítica possa ser legítimo, argumentos fundamentados em categorias imprecisas acabam por enfraquecer a própria defesa da verdade que se pretende preservar.

 

[1] Maurício, José. Auê (A fé ganhou)????? (Facebook) Perfil Efraimbrasil. Acesso em:27 fev 2026. Disponível em: https://www.facebook.com/reel/1197608375693807

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