Além da Lei Moral: O Evangelho como Resposta à Alienação, não à Moral

Um erro recorrente no pensamento cristão contemporâneo é a tentativa de correlacionar o Evangelho estritamente à moral humana. No entanto, a Escritura demonstra que o Evangelho opera em uma dimensão distinta.


Além da Lei Moral: O Evangelho como Resposta à Alienação, não à Moral

“Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração;” (Efésios 4:18).

O certo e o errado são intrínsecos à natureza humana, mas não constituem a chave para a compreensão do Evangelho de Cristo

Este artigo toma como ponto de partida o primeiro capítulo da obra Cristianismo Puro e Simples, de C. S. Lewis, no qual o autor sustenta que o senso de certo e errado constitui uma lei moral universal, presente em todos os povos e culturas, funcionando como uma espécie de “lei da gravidade” da consciência humana. Para Lewis, o fato de os homens reconhecerem essa lei e, ao mesmo tempo, não conseguirem cumpri-la plenamente apontaria para a existência de uma realidade transcendente — Deus.

Embora essa observação possua validade antropológica e filosófica, ela não oferece, em si mesma, a chave hermenêutica adequada para a compreensão do Evangelho de Cristo. O reconhecimento universal do certo e do errado não revela a essência do Evangelho, mas apenas evidencia uma condição herdada da queda: todos os homens permanecem “conhecedores do bem e do mal”, conforme a narrativa do Gênesis. Esse conhecimento, porém, não é o problema central que o Evangelho vem resolver.

O Evangelho não surge para explicar a existência de Deus nem para recompor a moral humana, mas para revelar Cristo como a resposta divina à consequência primeira e mais radical da desobediência de Adão no Éden: a morte, entendida como alienação espiritual, separação da vida que há em Deus.

O Evangelho além da Lógica do Bem e do Mal

A Autoridade de quem Maneja a Palavra

É um fenômeno curioso observar como muitos se sentem aptos a discorrer sobre o Evangelho sem o devido preparo — algo impensável em qualquer outra área do conhecimento humano. No entanto, a questão aqui não é o letramento acadêmico; afinal, o apóstolo Pedro não dispunha de erudição secular, mas possuía o conhecimento da Verdade.

A defesa do Evangelho é uma tarefa reservada àqueles que se apresentam a Deus aprovados, como obreiros que não têm do que se envergonhar e que manejam retamente a palavra da verdade (2 Timóteo 2:15), uma maturidade que não cabe aos neófitos (1 Timóteo 3:6). O próprio Paulo serve como paradigma: embora fosse culto, ele se apresentou como servo e jamais utilizou seu prestígio no judaísmo ou sua cidadania romana como alicerce para a exposição da cruz; pelo contrário, considerou tais prerrogativas como “esterco” diante da sublimidade de Cristo (Filipenses 3:8).

O conhecimento do bem e do mal não é o cerne do problema humano

A Dualidade da Queda: Morte vs. Conhecimento

A narrativa da queda em Gênesis possui uma simplicidade poética que esconde uma complexidade ontológica sobre o destino da humanidade. No instante em que Adão tomou o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, dois eventos ocorreram simultaneamente:

  1. A Ruptura Ontológica: O pecado entrou no mundo e, com ele, a morte — a alienação espiritual de Deus que alcançou todos os homens; por isso é dito que todos pecaram (Romanos 5:12).
  2. A Expansão Cognitiva: Adão tornou-se “como Deus” no sentido restrito de conhecer o bem e o mal (Gênesis 3:22).

A consciência moral intrínseca à humanidade não é fruto de um desenvolvimento ético progressivo, mas herança direta do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que estava no meio do jardim. Ao comer desse fruto, Adão não apenas pecou, mas tornou-se, naquele aspecto específico, semelhante a Deus: conhecedor do bem e do mal.

A natureza humana original, criada para a comunhão plena, foi conspurcada. O homem passou à condição de morto para Deus, mas, paradoxalmente, sua maior preocupação imediata não foi a alienação eterna, mas a autopercepção da sua nudez (Gênesis 3:7).

Nota Crítica: Deus jamais legislou sobre a nudez no Éden. Não havia, no Éden, qualquer mandamento que proibisse a nudez; ainda assim, Adão e Eva, munidos agora de consciência moral, erigiram para si uma lei inexistente, confeccionando aventais de folhas.; contudo, a nova consciência adquirida pelo homem foi tão impactante que a percepção da nudez se tornou mais urgente para ele do que o fato de estar morto para o seu Criador. O que se tornou prioridade foi cobrir a sua nudez com uma vestimenta de folhas, e se desculpar por se esconderem por algo trivial, o que demonstra que a percepção quanto a separação de Deus não se fez sentir ou notar, até serem expulsos do Éden. O impacto psicológico da nudez percebida foi mais imediato do que a percepção da morte espiritual.

A Névoa da Moralidade

Essa névoa persiste na percepção da humanidade até hoje. Confundimos moral, ética e as categorias de “certo e errado” como se fossem o objetivo final do Evangelho ou a única evidência do pecado. Na realidade, o fato de a lei moral ser universal apenas prova que todos compartilhamos do sabor do mesmo fruto.

O fruto não era “bom” ou “mau”; ele continha em si a dualidade, como um fruto agridoce. O bem e o mal tornaram-se faces da mesma moeda, sabores indissociáveis de uma natureza decaída. O Evangelho, portanto, não vem para nos ensinar a escolher o “lado bom” dessa moeda moral, mas para nos resgatar da morte, restaurando-nos à Vida que está além de qualquer conhecimento humano. A desobediência transtornou a natureza humana e, concomitantemente, trouxe um conhecimeto repreentado através da figura da “moeda”. 

A humanidade, entretanto, passou a se preocupar prioritariamente com o segundo aspecto — o conhecimento adquirido — e não com o primeiro, que é a perda da comunhão com Deus. Essa inversão permanece até hoje: o homem se angustia com questões morais, éticas e comportamentais, mas ignora a alienação espiritual que o separa da vida divina. O Evangelho, porém, dirige-se precisamente a essa perda, e não à mera gestão do bem e do mal.

O Evangelho: Entre a Revelação Divina e a Intuição Humana

A Precedência da Promessa sobre a Lei mosáica

Um erro recorrente no pensamento cristão contemporâneo é a tentativa de correlacionar o Evangelho estritamente à moral humana. No entanto, a Escritura demonstra que o Evangelho opera em uma dimensão distinta. Quando Deus estabeleceu Sua promessa a Abraão — 430 anos antes da outorga da Lei — Ele o fez por pura graça, sem exigências morais prévias. A declaração “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3) revela um Evangelho anunciado de forma incondicional (Gálatas 3:17). Essa promessa não continha exigências morais, rituais ou legais. O Evangelho anunciado a Abraão não dependia do comportamento humano, mas da fidelidade de Deus à Sua própria palavra. Na plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho Unigênito, nascido de mulher, da linhagem de Davi, não para reforçar códigos éticos, mas para tornar Deus conhecido aos homens.

Essa verdade personifica-se no encontro de Jesus com dois personagens distintos: Nicodemos e a mulher samaritana. Nicodemos, representando o ápice da religiosidade e da moralidade judaica, foi confrontado com a impossibilidade de ver o Reino sem um novo nascimento. Já a samaritana, representando o estigma da imoralidade, símbolo da marginalidade moral e religiosa, recebeu a oferta da “água viva”. Ambos estavam igualmente incapacitados, ainda que por razões distintas, de acessar o Reino sem a revelação de Cristo (João 3 e 4). Isso demonstra que o Evangelho não possui as amarras da moral humana; ele possui o poder de criar um novo homem (Romanos 1:16; João 1:12-13). No Sermão da Montanha, ao exigir uma justiça que excedesse a dos escribas e fariseus, Jesus não estava propondo um “super-moralismo”, mas declarando que tanto a elite religiosa quanto a multidão careciam de uma solução que apenas a Revelação poderia trazer.

Revelação, não intuição

A justiça requerida por Deus não pode ser inferida pela observação da natureza nem pela introspecção moral. A compreensão do que é justo aos olhos de Deus pertence ao campo da revelação, e não da intuição ou da observação natural; nenhum esforço intelectual permite ao homem inferir a justiça divina. Embora os céus proclamem a glória de Deus (Salmos 19:1), a criação não revela o caminho da reconciliação. Para isso, foi necessário o envio de um mediador:

“Se houver um anjo mediador, um entre mil, para declarar ao homem o que lhe convém” (Livro de Jó 33:23).

Esse anúncio, feito por Eliú no livro de Jó, antecipa o cerne do Evangelho: não é a moral humana que restaura a comunhão, mas a intervenção graciosa de Deus por meio de um mediador. Em sua exposição, a moralidade não aparece como entrave ou causa primária da separação de Deus. O foco reside na necessidade de um resgate que transcenda o domínio do pecado. A força do pecado não reside no comportamento isolado, mas no poder da lei: “certamente morrerás”. Como afirma o apóstolo Paulo, “o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” (1 Corítios 15:56).

O equívoco do Éden: liberdade transformada em proibição

A alienação humana não nasceu de uma falha moral progressiva, mas da ofensa de um único homem: Adão. O mandamento no Éden visava a preservação da vida, mas, sob a ótica da desobediência, tornou-se em morte. É fundamental notar que a estrutura original do mandamento era de liberdade plena:

“De todas as árvores do jardim comerás livremente” (Gênesis 2:16).

A estratégia de Satanás foi inverter essa lógica, transformando um aviso de proteção em uma proibição restritiva. A advertência acerca da árvore do conhecimento não era uma restrição arbitrária, mas a revelação da consequência ontológica da ruptura da confiança. A serpente deslocou o eixo do mandamento, transformando um aviso de vida em uma suposta proibição opressora. O pecado de Adão foi, essencialmente, incredulidade: ele deixou de confiar na palavra de Deus para confiar em sua própria percepção; não foi um “erro ético”, mas um ato de incredulidade.

O poder que residia potencialmente na lei espiritual “certamente morrerás” passou a operar em função da transgressão (Rm 7:11), e desde então, a proposta central do Evangelho tem sido desfazer essa consequência específica: a morte espiritual (1 João 3:8).

A Dualidade e o Engano da Moralidade

O grande paradoxo da condição humana é que o homem sem a revelação do Evangelho foca-se obsessivamente na “dádiva” contida no fruto do conhecimento: a capacidade de ser como Deus, discernindo tanto o bem quanto o mal. Embora Deus não tenha dado esse conhecimento, pela desobediência o homem tomou esse conhecimento para si, e mesmo o homem se tornando pecador, Deus jamais retiraria o conhecimento adquirido, pois os dons são irrevogáveis (Romanos 11:29).

Todas as religiões e sistemas filosóficos tratam da dualidade bem vs. mal. Erradicar o mal das ações humanas é louvável no campo civil e legal, mas, como aponta Paulo, isso é apenas o homem agindo como “lei para si mesmo” (Romanos 2:14). Adão, ao perceber sua nudez, erigiu sua própria lei ao costurar aventais de folhas. Jesus denunciou essa religiosidade que limpa o exterior do copo, mas mantém o interior imundo (Mateus 23:25-28). A moralidade foca na aparência de justiça, mas o Evangelho foca na necessidade de morrer com Cristo para poder ressurgir com Ele uma nova criatura.

Para muitos, perseguir um senso moral é o ápice da espiritualidade, quando, na verdade, ele é apenas evidencia que todos os homens tem em si potencial para o bem e para o mal. O Evangelho não vem para aperfeiçoar esse conhecimento do bem e do mal visando torna-lo melhor nas relações humanas, mas para resgatar a humanidade da morte que a desobediência de Adão proporcionou e que isolou os homens da vida que há em Deus.

Metanoia: A Mudança de Entendimento

Quando João Batista e o próprio Jesus anunciaram o arrependimento, não o fizeram sob o pretexto do binômio bem e mal, ou do certo e errado. O motivo é explícito na própria proclamação: “Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos Céus”. Em outras palavras, a mudança exigida dos ouvintes não se fundamentava num saber moral comum à humanidade, mas na irrupção de uma realidade nova: o Reino era chegado porque o Cristo estava manifesto. O arrependimento requerido não era, em primeiro lugar, um ajuste ético, mas uma reorientação do entendimento diante da presença do Messias e do governo de Deus que se anunciava nele.

É certo que o Evangelho produz transformação de conduta naqueles que se rendem a Cristo; isso decorre do fato de que os que se fazem servos dele passam a conformar-se com seu caráter. Contudo, essa mudança comportamental é consequência, não essência. O núcleo do Evangelho é operar metanoia — arrependimento como mudança de mente, isto é, mudança de compreensão sobre como se serve a Deus e como se entra no Reino. Para o judaísmo do período, “servir a Deus” era frequentemente pensado em termos de carne e sangue: ser descendente de Abraão, portar o sinal da circuncisão e submeter-se ao ordenamento mosaico. O Evangelho, porém, desloca o centro: a promessa feita a Abraão se cumpre no Descendente prometido, Cristo, por meio de quem vem a bem-aventurança a todas as famílias da terra.

Essa promessa é grandiosa, mas muitos em Israel rejeitaram o Cristo porque esperavam dele, antes de tudo, uma restauração nacional e política. Por isso, sem mudança de entendimento não há conversão. O apóstolo Pedro formula essa lógica de maneira direta ao conclamar: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor” (Atos 3:19). A mensagem de Pedro tinha como alvo judeus que haviam participado da rejeição e morte de Jesus; ao anunciar que ele era o Cristo do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, e que Deus o ressuscitara, Pedro buscava produzir neles metanoia: que compreendessem que a morte de Jesus, ainda que perpetrada por mãos humanas, cumpria as profecias. Se isso lhes fosse revelado, mudariam de entendimento e, então, se converteriam — isto é, creriam que Jesus é o Cristo prometido e que Deus o ressuscitou dentre os mortos.

Por que essa distinção é necessária?

Se o diagnóstico do Evangelho for reduzido à violação de uma lei moral universal, o fundamento da fé torna-se instável. Se a base da nossa pregação não estiver sobre a verdade de que a morte alcançou a todos (diagnóstico ontológico), mas apenas sobre a ideia de que todos violam uma “lei moral” (diagnóstico comportamental), a estrutura não se sustentará.

C.S. Lewis argumenta que é preciso enfatizar a transgressão moral para que o homem sinta necessidade de perdão. Contudo, os fariseus sentiam-se moralmente impecáveis — eles jejuavam, davam o dízimo e não roubavam (Lc 18:11-12). O diagnóstico falho de Lewis corre o risco de validar o pressuposto do “conhecimento do bem e do mal”, focando no que o homem adquiriu (a percepção da nudez), enquanto o Evangelho busca despertar a humanidade para o que foi perdido: a Vida.

“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.” (Lucas 18:11-12).

É pertinente a analogia proposta por C. S. Lewis ao afirmar que, quando alguém reconhece que está doente, torna-se mais disposto a ouvir o médico. Contudo, há uma distinção decisiva que essa analogia não pode obscurecer: reconhecer sintomas não equivale a receber um diagnóstico correto. Uma percepção genérica de mal-estar pode até gerar abertura à escuta, mas somente um diagnóstico preciso define a natureza da enfermidade e, sobretudo, o tratamento adequado.

O diagnóstico do Evangelho não afirma que o homem é pecador porque viola uma lei moral universal percebida pela consciência; afirma, antes, que o homem é pecador porque um só homem pecou, e, por esse pecado, a morte passou a todos. Trata-se de uma condição herdada, ontológica, anterior a qualquer avaliação ética do comportamento. É nesse ponto que o Evangelho exerce sua eficácia: ele alcança igualmente judeus e gentios, moralmente exemplares ou socialmente reprováveis, certos ou errados, desde que lhes seja anunciado que o pecado não é apenas um ato cometido, mas um estado recebido em Adão, cujo efeito é a morte – alienação de Deus.

Quando o diagnóstico é deslocado desse eixo e passa a se apoiar no pressuposto de que todos os homens violam uma lei moral inscrita na consciência, retorna-se, ainda que involuntariamente, ao horizonte do conhecimento do bem e do mal adquirido no Éden. Esse enfoque fixa a atenção naquilo que o homem ganhou — a capacidade de discernir e julgar moralmente — e não naquilo que ele perdeu: a comunhão com Deus. Assim como Adão, que se inquietou com a nudez recém-percebida, mas não com a morte espiritual que se instaurara, o homem continua preocupado com sua condição moral, enquanto permanece indiferente à separação que o Evangelho veio precisamente desfazer.

Voltemos, portanto, ao Evangelho puro e simples: a revelação de Cristo como a vida que venceu a morte.

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