Colossenses 1 – Idôneos em Cristo

Deus fez os cristãos idôneos em Cristo, isto é, após o novo nascimento, eles já desfrutam da prerrogativa de herdeiros. Quando creram na mensagem do evangelho, receberam poder para serem feitos filhos de Deus (João 1:12). Ao serem criados em Cristo, foram formados em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4:24), de modo que Deus constituiu, n’Ele, um novo homem. Assim, as novas criaturas vieram à existência já com pleno direito à herança reservada nos céus, não necessitando permanecer sob tutores ou curadores, como ocorria no regime da lei (Gálatas 4:1–2).


Idôneos em Cristo

“Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz;” (Colossenses 1:12).

A epístola de Paulo aos Colossenses apresenta a estrutura completa de uma missiva: inicia-se com a apresentação pessoal do remetente, segue com a identificação dos destinatários, traz a saudação e, em seguida, descreve a condição dos cristãos em Cristo, como santos e fiéis.

Essa mesma estrutura pode ser observada em outras cartas do Novo Testamento, como as epístolas aos Efésios e aos Romanos, bem como nas cartas de Pedro, nas quais também se identificam remetente, destinatários, saudação inicial e elementos doutrinários que situam a condição dos cristãos diante de Deus.

Apresentação e Saudação

1 PAULO, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo,

Os remetentes da carta são o apóstolo Paulo e seu irmão em Cristo, Timóteo, fiel cooperador no ministério. Timóteo foi um discípulo próximo de Paulo, convertido ainda jovem, que o acompanhou em diversas viagens missionárias e exerceu papel relevante no cuidado e na edificação das igrejas, sendo reconhecido por sua fé sincera e dedicação ao evangelho.

O apostolado de Paulo decorre da vontade de Deus e está fundamentado em Cristo. Esse versículo constitui, portanto, uma breve defesa de seu ministério apostólico. Paulo deixa claro que não se arrogou tal posição; antes, foi comissionado por Deus para esse ofício:

“… do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Colossenses 1:23,25).

2 Aos santos e irmãos fiéis em Cristo, que estão em Colossos: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.

Os destinatários da carta são os “santos” e “fiéis” que estavam em Colossos, cidade da região da Frígia, na Ásia Menor, atual Turquia. Colossos situava-se no vale do rio Lico, próxima a cidades importantes como Laodiceia e Hierápolis. Embora tivesse sido um centro relevante no passado, à época de Paulo era uma cidade menor, marcada por diversidade cultural e religiosa, contexto que ajuda a compreender a presença de influências filosóficas e judaizantes combatidas na epístola.

Este versículo apresenta os seguintes elementos:

a) Aos santos – A carta de Paulo e Timóteo foi dirigida aos cristãos de Colossos, designados como “santos” em Cristo. Paulo os chama assim porque estão em Cristo. Ao considerar a afirmação: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17), bem como “… mas sim o ser uma nova criatura” (Gálatas 6:15), compreende-se que “estar em Cristo” equivale a ser uma nova criatura.

A expressão “em Cristo” sintetiza essa nova condição própria dos cristãos, resultante da regeneração, pela qual o homem é criado em verdadeira justiça e santidade:

“E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24).

Paulo mantém essa designação ao longo de toda a carta (Colossenses 1:2; 1:4; 1:12; 1:22; 1:26; 3:12).

b) Aos fiéis – Da mesma forma, Paulo chama os cristãos de “fiéis”. Essa fidelidade não é autônoma, mas se dá “em Cristo”, e não à parte d’Ele. Tanto a santidade quanto a fidelidade decorrem da união com Cristo e são fruto do novo nascimento.

Assim, o cristão não é apenas “fiel a Cristo”, no sentido de esforço pessoal para conservar uma condição diante de Deus; antes, é “fiel em Cristo”, pois essa fidelidade procede da nova condição recebida n’Ele. Trata-se, portanto, de uma fidelidade que não nasce do esforço humano, mas da obra de Deus no novo homem. Compare-se essa fidelidade mencionada no versículo 2 com a referência feita a Epafras no versículo 7.

c) Colossos – Cidade onde residiam os destinatários da carta, situada em um contexto de pluralidade cultural e religiosa. Essa realidade ajuda a compreender os desafios enfrentados pela igreja local, especialmente diante de influências filosóficas, tradições humanas e elementos judaizantes que poderiam afastar os cristãos da suficiência de Cristo.

d) Graça e paz – “Graça” refere-se ao favor imerecido de Deus, concedido por meio da fé em Cristo. Por intermédio d’Ele, o homem passa a ter paz com Deus, pois, sem Cristo, encontra-se em estado de inimizade espiritual:

“Porque, se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho…” (Romanos 5:10).

Assim, a saudação “graça e paz” não é mera formalidade epistolar, mas uma síntese da nova condição do cristão: alcançado pela graça e reconciliado com Deus em Cristo.

Agradecimentos a Deus

3 Graças damos a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, orando sempre por vós,

O apóstolo agradece a Deus, especificando tratar-se do Pai de Jesus Cristo e, portanto, Senhor dos cristãos. Ao mesmo tempo, declara que intercede em favor deles.

Essa especificação é significativa, pois distingue a forma cristã de se referir a Deus daquela própria do judaísmo, frequentemente vinculada à figura dos patriarcas. Paulo não se limita a falar do “Deus de Abraão, Isaque e Jacó”, mas do Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, evidenciando que a relação dos cristãos com Deus é mediada por Cristo.

O agradecimento, nesse contexto, está diretamente relacionado ao fato de Paulo e Timóteo orarem continuamente pelos cristãos, reconhecendo neles os efeitos da graça de Deus manifestos pela fé em Cristo.

A confiança dos cristãos

4 Porquanto ouvimos da vossa fé em Cristo Jesus, e do amor que tendes para com todos os santos;

O apóstolo Paulo e Timóteo ouviram acerca da πίστις (fé) dos colossenses e, por isso, davam graças a Deus e oravam continuamente em favor deles. No contexto da antiguidade secular, o termo πίστις podia referir-se a uma garantia que produzia persuasão, isto é, levar alguém a ser convencido e, consequentemente, a confiar. O elemento que sustenta a confiança é justamente essa garantia, daí a compreensão de fé como confiança fundamentada.

Nesse sentido, Cristo Jesus é apresentado como a garantia que promove a confiança dos cristãos. Assim, a leitura do texto pode ser entendida como “a vossa confiança em Cristo”. A ideia subjacente aproxima-se do campo semântico do verbo πιστόω (tornar confiável, assegurar), ainda que, no texto, Paulo utilize o substantivo πίστις para enfatizar o estado ou a condição de confiança estabelecida. Desse modo, ao empregar πίστις ὑμῶν ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ, o apóstolo não apenas descreve um ato de crer, mas aponta para uma confiança firmada em Cristo como sua base e garantia.

Jesus Cristo é a temática central do evangelho e a essência da crença dos cristãos; por isso, Ele é a própria πίστις anunciada aos santos (Judas 1:3; Gálatas 3:23; Filipenses 1:27). Nesse sentido, a πίστις não se limita ao ato subjetivo de crer, mas designa também o conteúdo objetivo da fé: a verdade revelada em Cristo, a justiça de Deus manifesta no evangelho e a doutrina entregue aos santos.

O versículo 6 trata dessa πίστις enquanto mensagem do evangelho, isto é, a palavra da verdade que chegou aos colossenses, frutificando e crescendo entre eles. Já o versículo 4 destaca a confiança dos cristãos em Cristo Jesus, ou seja, a resposta dos colossenses à πίστις que lhes foi anunciada. Assim, há uma distinção importante: no versículo 4, evidencia-se a confiança dos cristãos em Cristo; no versículo 6, destaca-se a πίστις como conteúdo anunciado — o evangelho, a verdade, a justiça de Deus e o próprio Cristo.

Paulo e Timóteo oravam em favor dos colossenses porque ouviram acerca da confiança que depositavam em Cristo. Essa confiança, muitas vezes designada como fé (πίστις), não deve ser confundida com o dom de Deus, que é Cristo, conforme exposto em Efésios 2:8–9. A fé enquanto obra de Deus não se identifica meramente com a disposição subjetiva de confiar, mas com Cristo e com o evangelho — a palavra fiel e digna de toda aceitação (1 Timóteo 1:15; 4:9).

Nesse sentido, o homem não pode produzir fé por si mesmo, nem inventá-la à vontade, pois ela está vinculada à palavra revelada. A fé é dada quando Cristo é manifesto, isto é, quando a verdade do evangelho é anunciada aos homens. Portanto, a fé não é infundida de modo abstrato no indivíduo; antes, é anunciada por meio da revelação contida no evangelho: Jesus Cristo-homem.

Quando o homem crê no evangelho, fé e crença tornam-se congruentes. Contudo, fé e crença não são exatamente a mesma coisa quando a fé não é compreendida como Cristo manifesto, ou quando a crença não tem por objeto o evangelho. Por fim, não há mérito no homem quando crê; o mérito está na palavra anunciada, que é fiel e digna, elementos essenciais à persuasão.

A persuasão deriva da palavra fiel e digna, jamais da própria pessoa do crente. O crente só é crente porque ouviu a palavra fiel e digna e, por isso, creu; jamais porque sua imaginação ou capacidade interior teria alcançado essa confiança por si mesma.

A palavra da verdade do evangelho

5 Por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho,

A oração se dá por causa do que Paulo e Timóteo ouviram acerca dos cristãos (v. 4), enquanto o agradecimento a Deus está relacionado à esperança reservada nos céus para aqueles que creem em Cristo.

Essa esperança dos cristãos está guardada nos céus, e eles já haviam tomado conhecimento dela por meio da palavra da verdade do evangelho, que anteriormente lhes fora anunciada (Colossenses 1:23,27).

6 Que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade.

A verdade do evangelho, além de ter chegado aos cristãos de Colossos, também se disseminava por todo o mundo conhecido à época. O “mundo” ao qual o apóstolo Paulo se refere diz respeito às regiões alcançadas pela expansão da mensagem apostólica, conforme o conhecimento geográfico daquele tempo, abrangendo áreas da Europa, da Ásia e da África.

O evangelho frutificava em todo o mundo, da mesma forma que também produzia frutos entre os cristãos de Colossos. Assim, a eficácia da mensagem não se restringia a uma comunidade local, mas se manifestava em todos os lugares onde a palavra da verdade era anunciada e recebida.

Quando os cristãos ouviram o evangelho e creram, conheceram a graça de Deus em verdade. Passaram a conhecer a Deus ou, antes, foram conhecidos por Ele. “Ouvir”, nesse contexto, significa tomar conhecimento, saber, estar a par da mensagem anunciada, o que torna os ouvintes discípulos. “Conhecer”, por sua vez, refere-se a tornar-se um com Cristo, estar n’Ele, participar de comunhão íntima e, consequentemente, ser liberto.

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:31-32);

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gálatas 4 : 9).

Epafras, um fiel ministro de Cristo

7 Como aprendestes de Epafras, nosso amado conservo, que para vós é um fiel ministro de Cristo,

Os cristãos de Colossos aprenderam o evangelho por intermédio de Epafras, a quem Paulo descreve como conservo amado e fiel ministro de Cristo. Essa referência demonstra que Epafras não era apenas um mensageiro ocasional, mas alguém reconhecido por Paulo como cooperador legítimo no ministério do evangelho.

Com essa declaração, Paulo evidencia que Epafras, Timóteo e ele próprio desfrutavam de uma mesma condição fundamental: todos eram servos de Cristo. Embora exercessem funções distintas no ministério, estavam unidos pela mesma sujeição ao Senhor e pela mesma dedicação à palavra da verdade do evangelho.

Epafras provavelmente teve papel decisivo na evangelização da igreja em Colossos. Ao que tudo indica, foi por meio dele que os colossenses ouviram a mensagem da graça de Deus em verdade. Por isso, Paulo faz questão de qualificá-lo como “fiel ministro de Cristo”, a fim de confirmar diante da igreja a legitimidade de sua pregação e de seu serviço. Os cristãos de Colossos deveriam, portanto, reconhecer em Epafras um ministro digno de confiança.

Há, contudo, uma diferença importante entre ser “fiel em Cristo” e ser “fiel ministro de Cristo”. A condição de fiel é própria de todo aquele que está em Cristo (Colossenses 1:2), pois decorre da nova criação e da união com Ele. Já a expressão “fiel ministro de Cristo” refere-se ao exercício do ministério. Nesse caso, a fidelidade aparece como qualidade demonstrada por Epafras em sua atuação: ele era fiel em Cristo e também desempenhava fielmente o serviço que lhe fora confiado.

Assim como Paulo exerceu seu ministério entre os gentios com zelo e perseverança, Epafras também se mostrou fiel no ministério que recebeu. Sua atuação revela não apenas compromisso com a doutrina do evangelho, mas também cuidado pastoral pelos cristãos de Colossos, Laodiceia e Hierápolis, pelos quais ele combatia continuamente, desejando que permanecessem firmes, perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus.

Obediência ao evangelho

Aqui, Paulo demonstra que foi por intermédio de Epafras que ele e Timóteo ouviram acerca da confiança dos cristãos de Colossos em Cristo Jesus e do amor que nutriam para com todos os santos (v. 4).

Entretanto, a temática deste versículo apresenta uma nuance específica: trata-se do amor no Espírito, isto é, da fé que opera pelo amor, e não apenas dos entranháveis afetos pelos santos mencionados anteriormente:

“Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor.” (Gálatas 5:6)

A construção é semelhante à ideia de “operar a salvação com temor e tremor”:

“De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor.” (Filipenses 2:12)

Para compreender essa relação, convém lembrar a exortação de João:

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 João 3:18)

O amor apenas “de palavra” ou “de língua” não passa de lisonja (Salmo 5:9; Ezequiel 33:31). É ter Deus próximo da boca, mas distante do coração (Jeremias 12:2). É aproximar-se de Deus com os lábios, enquanto o coração permanece longe, pois o temor para com Ele se reduz a mandamentos de homens (Isaías 29:13).

O amor sublinhado por Paulo nesse versículo é o ágape (ἀγάπη), que, nesse contexto, não deve ser compreendido como mero sentimento ou afeição, mas como vínculo de sujeição do servo ao seu Senhor. O ágape tem em sua essência a obediência: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” (João 14:15). Da parte do servo, o amor se expressa em obediência; da parte do Senhor, manifesta-se no mandamento. Assim, o servo torna-se extensão da vontade daquele a quem pertence.

Essa lógica também se evidencia no episódio do jovem rico. Ao ouvir a ordem de Cristo, ele não compreendeu que o Senhor requer exclusividade, pois ninguém pode servir a dois senhores: ou a Deus, ou às riquezas (Marcos 10:21; Lucas 16:13).

Considerando que o temor do Senhor está vinculado ao seu mandamento, que o tremor expressa reverência obediente, que a fé corresponde ao evangelho e que o amor se manifesta em obediência, conclui-se que o “amor no Espírito” refere-se à obediência ao evangelho, que é espírito e vida (Gálatas 5:6; 2 Coríntios 3:6).

Em essência, Paulo deixa claro que Epafras, ao trazer notícias dos colossenses, testemunhou que eles haviam obedecido ao evangelho, o mandamento de Deus (Tito 1:3). Isso significa que colocaram o amor em prática, realizando a vontade de Deus: crer naquele que Ele enviou (Tito 1:16; João 6:29).

Intercessão pelos cristãos

Para melhor compreender as cartas paulinas, é necessário observar uma característica recorrente em sua estrutura: o apóstolo Paulo agradece a Deus por aquilo que os cristãos já receberam em Cristo e, quando ora por eles, solicita a Deus aquilo que ainda deveriam alcançar em sua experiência cristã.

Essa característica se repete em diversas epístolas, como Efésios, Filipenses e Tessalonicenses:

“… não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações…” (Efésios 1:16);

“Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós (…) E esta é a minha oração: que o vosso amor aumente…” (Filipenses 1:3–11);

“Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações.” (1 Tessalonicenses 1:2).

Quando Paulo agradece a Deus, geralmente o faz por elementos já concedidos aos cristãos, pertencentes à esperança proposta em Cristo, tais como regeneração, justificação, santificação, eleição, predestinação e herança celestial. É nesse sentido que ele declara:

“Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz…” (Colossenses 1:12).

Por outro lado, quando Paulo ora pelos cristãos, seus pedidos geralmente se referem àquilo que eles ainda deveriam desenvolver, compreender ou experimentar de modo mais pleno. Observando esta e outras cartas, verifica-se que suas súplicas frequentemente dizem respeito ao conhecimento, discernimento e crescimento espiritual:

“… para que sejais cheios do conhecimento da sua vontade…” (Colossenses 1:9);

“… para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo (…) vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação.” (Efésios 1:17);

“E peço isto: que o vosso amor aumente mais e mais em ciência e em todo o conhecimento.” (Filipenses 1:9).

Assim, nas cartas paulinas, a ação de graças volta-se para a obra já realizada por Deus em Cristo, enquanto a intercessão aponta para a necessidade de crescimento dos cristãos na compreensão, na maturidade e na prática decorrente dessa nova condição.

O que pedir em oração?

9 Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual;

Epafras anunciou a Paulo e Timóteo que os cristãos de Colossos haviam obedecido a Cristo, pois receberam a palavra da verdade do evangelho e confiaram n’Ele (Colossenses 1:4). Essa notícia motivou Paulo a orar continuamente em favor deles.

“E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem;” (Hebreus 5:9).

Desde que recebeu notícias acerca dos cristãos de Colossos, Paulo não cessou de orar a Deus por eles. Nessa intercessão, percebe-se claramente a preocupação do apóstolo com aquilo que ainda lhes faltava: crescimento no conhecimento da vontade de Deus.

Na oração, Paulo pede que fossem cheios do conhecimento da vontade divina, em toda sabedoria e inteligência espiritual. Esse pedido levanta algumas questões importantes: por que Paulo ora para que sejam cheios desse conhecimento? Qual o objetivo de conhecerem a vontade de Deus? E por que essa sabedoria e essa inteligência devem ser espirituais?

Estar cheio do conhecimento da vontade de Deus daria aos cristãos as condições necessárias para:

a) andar dignamente diante do Senhor;
b) agradar a Deus em tudo;
c) frutificar em toda boa obra;
d) crescer no conhecimento de Deus.

Esses são os objetivos pelos quais Paulo ora, pois representam aquilo que os cristãos precisavam desenvolver na nova condição recebida em Cristo.

Só é possível conhecer a vontade de Deus mediante sabedoria e inteligência espiritual. Paulo emprega o adjetivo “espiritual” para distinguir essa sabedoria e essa inteligência da sabedoria meramente humana ou secular. Trata-se do conhecimento proveniente do evangelho, ensinado pelo Espírito, e não de especulações humanas.

Essa distinção aparece claramente em 1 Coríntios 2:1–16. Paulo evangelizava consciente de que anunciava o poder de Deus para os que cressem, e não uma mensagem fundamentada em sabedoria humana:

“…não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria (…) a minha palavra, e a minha pregação, não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria humana (…) Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens… ” (1 Coríntios 2:1 -5).

A mensagem apostólica era anunciada com sabedoria e inteligência espirituais, segundo aquilo que o Espírito Santo ensinava:

“As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina…” (1 Coríntios 2:13).

Portanto, Paulo classifica a sabedoria e a inteligência como espirituais para diferenciá-las da sabedoria humana. Essa sabedoria espiritual está vinculada ao evangelho e à renovação do entendimento.

Essa relação aparece em outros textos paulinos:

“… e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:10); compare com:

“ … que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (Colossenses 1:9); compare com:

“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e prefeita vontade de Deus” (Romanos 12:2).

Renovar, transformar e ser cheio do conhecimento dizem respeito ao mesmo processo: o novo homem deve ser revestido daquilo que é próprio de sua nova condição. Aquele que foi criado em Cristo precisa experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, para andar dignamente diante do Senhor e agradá-lo em tudo.

Agradando a Deus

10 Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus;

Os elementos apresentados neste versículo são introdutórios e serão retomados, de modo mais desenvolvido, no capítulo 3, especialmente nos versículos 8 a 11.

O versículo trata do porte do cristão, sem reduzir a questão a um sistema moral ou legal. Os cristãos foram criados em Cristo e feitos idôneos para participar da herança dos santos; contudo, deveriam conformar sua maneira de viver à verdade do evangelho. Andar dignamente é andar como filhos da luz, uma vez que já são filhos da luz (Efésios 5:8). Não é o andar que torna alguém filho da luz, nem é ele que garante tal condição; antes, essa condição decorre do fato de o cristão ter sido gerado de Deus.

Desde que ouviu de Epafras que havia cristãos em Colossos, Paulo passou a agradecer a Deus por eles também serem participantes da esperança reservada nos céus. Contudo, o apóstolo também passou a orar para que adquirissem uma nova maneira de viver, isto é, para que andassem dignamente diante do Senhor.

Essa mesma preocupação aparece em outras cartas:

“Assim como bem sabeis de que modo vos exortamos e consolamos, a cada um de vós, como o pai a filhos; Para que vos conduzísseis dignamente para com Deus, que vos chama para o seu reino e glória” (1 Tessalnicenses 2:11 -12);

“Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo…” (Filipenses 1:27).

A preocupação de Paulo era que os cristãos agradassem a Deus em tudo e frutificassem em toda boa obra. O escritor aos Hebreus expressa essa mesma ideia em uma única frase:

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Jesus Cristo…” (Hebreus 13:21).

Por meio do conhecimento da vontade de Deus, os cristãos poderiam andar de modo digno do evangelho, agradar a Deus e frutificar em toda boa obra (Efésios 2:10), além de crescer no conhecimento de Deus. Esse crescimento no conhecimento os preservaria de desvios como formalismo, legalismo, moralismo e ascetismo, questões que geralmente emergem da religiosidade e que são enfrentadas ao longo da carta.

Observe-se, portanto, que o crescimento do cristão ocorre no conhecimento, pois, quanto à posição em Cristo, ele já alcançou a maioridade: já é participante da herança dos santos na luz.

O poder de Deus

11 Corroborados em toda a fortaleza, segundo a força da sua glória, em toda a paciência, e longanimidade com gozo;

Para alcançar o que foi exposto no versículo anterior — andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus — os cristãos deviam contar com “toda a fortaleza” concedida por Deus. Essa fortaleza não procede do homem, mas é “segundo a força da sua glória”, isto é, segundo o poder que procede de Deus e se manifesta em Cristo.

Essa mesma ideia aparece na carta aos Efésios:

“Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior;” (Efésios 3:16).

O Espírito que corrobora o homem interior diz respeito à ação da palavra do evangelho, pela qual o cristão é fortalecido e conduzido ao conhecimento de Deus. Por isso, Paulo também exorta os cristãos a serem cheios do Espírito (Efésios 5:18), isto é, cheios da palavra que é espírito e vida.

É nesse sentido que Paulo define o evangelho como poder de Deus:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê…” (Romanos 1:16).

E também como evangelho da glória de Deus:

“Conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado.” (I Timóteo 1:11).

A “força da sua glória”, portanto, não é uma energia abstrata, mas o poder de Deus revelado no evangelho, cuja essência é Cristo. É por meio dessa força que o cristão é corroborado no homem interior, permanecendo firme na nova condição recebida.

Somada a essa fortaleza, os cristãos contam com a paciência e a longanimidade de Deus, acompanhadas de gozo. Deus é paciente e longânime para com aqueles que recebeu por filhos, conduzindo-os ao crescimento e à maturidade. O que ainda lhes falta não é idoneidade para a herança, pois isso já receberam em Cristo, mas crescimento até a perfeita varonilidade, “à medida da estatura completa de Cristo”.

Deus criou o homem com capacidade de aprender e compreender; por meio dessas faculdades, deseja preenchê-lo do conhecimento da sua vontade, em toda sabedoria e inteligência espiritual. Sendo Deus paciente e longânime, o cristão deve andar dignamente diante d’Ele, pois dispõe de toda fortaleza segundo a força da sua glória.

Na carta aos Efésios, Paulo também faz referência a esse poder divino operando nos que creem:

“E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” ( Efésios 1:19 ).

Essa força é inseparável da mensagem da cruz, pois o evangelho é o poder de Deus para os que são salvos:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.” (1 Coríntios 1:18);

“Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus.” (1 Coríntios 1:24).

Assim, ser “corroborado em toda fortaleza” é ser fortalecido por Deus mediante o evangelho de Cristo, para permanecer firme, crescer no conhecimento, suportar com paciência e longanimidade as adversidades, e fazê-lo com gozo.

Bendizendo por Bênçãos Eternas

12 Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz;

Paulo deixa de falar a partir da primeira pessoa do plural restrita a ele e Timóteo — “graças damos a Deus…” (Colossenses 1:3–11) — e passa a empregar a primeira pessoa do plural em sentido inclusivo: “dando graças ao Pai que nos fez idôneos…” (Colossenses 1:12–14). Agora, o “nos” inclui Paulo, Timóteo e todos os cristãos.

Essa é uma observação importante na interpretação das cartas: é preciso identificar quando o escritor se inclui ou se exclui da ação descrita. Quando Paulo diz “damos graças a Deus”, ele demonstra que ele e Timóteo agradeciam a Deus; nessa ação, os cristãos de Colossos são o motivo da gratidão, mas não os sujeitos que a praticam. Do versículo 3 ao 11, o apóstolo descreve suas ações e as de Timóteo em favor dos colossenses.

A partir do versículo 12, porém, Paulo passa a descrever a ação de Deus em benefício de todos os cristãos. Por isso, inclui na narrativa os colossenses, Timóteo e a si mesmo, demonstrando aquilo que Deus concedeu a todos os irmãos em Cristo (Colossenses 1:12–14).

Deus fez os cristãos idôneos, isto é, concedeu-lhes plena capacidade para participarem da herança dos santos. Quando creram na mensagem do evangelho, receberam poder para serem feitos filhos de Deus (João 1:12). E, ao serem criados em Cristo, foram criados em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4:24). Desse modo, Deus forma, em Cristo, um novo homem — uma nova criatura — em uma nova condição: as coisas velhas passaram, e tudo se fez novo.

Essa idoneidade própria dos santos lhes confere direito à herança; contudo, isso não significa que o cristão já tenha alcançado a “medida da estatura completa de Cristo” (Efésios 4:13). Essa estatura demanda crescimento e aperfeiçoamento, razão pela qual Paulo ora para que os cristãos sejam plenos “do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (Colossenses 1:9).

Alcançar a medida da estatura completa de Cristo requer desenvolvimento espiritual, o que se dá por meio do alimento adequado à maturidade de cada cristão: o leite racional para os recém-nascidos e o alimento sólido para os exercitados.

“Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo.” (1 Pedro 2:2)

“Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal.” (Hebreus 5:14)

As novas criaturas vêm à existência com pleno direito à herança reservada nos céus, não necessitando permanecer debaixo de tutores ou curadores, como ocorria sob a lei (Gálatas 4:1–2). Participar da herança dos santos na luz é, portanto, uma forma de descrever a nova condição concedida por Deus aos que estão em Cristo.

Como filhos da luz, os cristãos passaram a ser herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Efésios 5:8; Romanos 8:17). Sendo filhos de Deus, possuem herança em Deus, isto é, na luz.

A condição de “santos” decorre da nova natureza recebida na regeneração. Os cristãos, por crerem em Cristo, receberam de Deus o poder de serem feitos filhos, nascidos de semente incorruptível. Por serem novas criaturas em Cristo, tornaram-se participantes da natureza divina (2 Pedro 1:4), receberam a plenitude em Cristo (Colossenses 2:10) e, por isso, são designados eleitos de Deus para serem santos e irrepreensíveis (Efésios 1:4).

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