Colossenses 4 – Perseverar confiante

Dadas as investidas dos judaizantes e as diferenças culturais entre os diversos povos da sociedade da época, o apóstolo Paulo recomenda aos cristãos de Colossos que permanecessem firmes no evangelho, ou seja, que perseverassem confiantes em Cristo.


Perseverar confiante

“Perseverai em oração, velando nela com ação de graças;” (Colossenses 4:2).

O apóstolo Paulo continua fazendo recomendações práticas aos cristãos, tendo por base a submissão ao senhorio de Cristo, de modo que essa sujeição se refletisse em mudanças nas relações sociais (Colossenses 3:24).

Recomendação aos senhores de servos

1- Vós, senhores, fazei o que for de justiça e equidade a vossos servos, sabendo que também tendes um Senhor nos céus.

A base utilizada por Paulo para exortar os senhores é a mesma empregada para exortar os servos. Os senhores deveriam ter em mente que tinham um Senhor nos céus, e os servos, por sua vez, deviam servir aos seus senhores temendo a Deus (Colossenses 3:22).

Temos aqui uma lição importantíssima para a igreja na atualidade. Paulo não lança mão dos pressupostos do evangelho — a liberdade em Cristo — visando mudar a ordem socioeconômica de sua época; antes, exorta os cristãos para que as relações humanas existentes fossem reguladas com justiça e equidade. A proposta não é romper com os sistemas políticos e econômicos da sociedade, mas agir com justiça e equanimidade, apesar das discrepâncias e problemas inerentes à vida social.

Para nós, hoje, é inconcebível a ideia de uma sociedade escravocrata. Muitos questionam por que o apóstolo Paulo não se empenhou em promover uma revolução social. Contudo, esquecem que o discípulo não pode ser maior que o mestre. Basta ao discípulo ser como o mestre:

“Não é o discípulo mais do que o mestre, nem o servo mais do que o seu senhor” (Mateus 10:24).

Cristo veio trazer as boas-novas de salvação, isto é, resgatar o homem da perdição estabelecida no Éden. Assim, se Cristo não veio com o propósito de desfazer diretamente as injustiças sociais, essa não é — nem deve ser — a bandeira central do cristianismo.

Se estiver ao alcance dos cristãos fazer algo para melhorar a vida em sociedade, nada impede que o façam. Contudo, utilizar alguma nuance do evangelho como se fosse um modelo socioeconômico-cultural não coaduna com a proposta de Cristo.

Permanecer firme em oração

2- Perseverai em oração, velando nela com ação de graças;

O “perseverar em oração” não implica passar longas horas de joelhos, mas que o cristão deve confiar em Deus “sem cessar”, continuamente. Os cristãos deveriam manter-se confiantes em Deus, isto é, em oração.

O cristão não deve socorrer-se da oração como um amuleto, do mesmo modo que os gentios se aplicam a repetições vazias (Mateus 6:7). A confiança do cristão deve apoiar-se inteiramente em Deus, que atende às necessidades mesmo quando não conseguimos pronunciá-las (Mateus 6:8). A oração é a expressão da confiança em palavras, pois o poder de realizar é de Deus, e a confiança do crente repousa sobre a fidelidade e a misericórdia divinas. Não há poder intrínseco na oração, mas em Deus.

A oração do profeta Jonas é um exemplo típico. Embora não lhe fosse possível pronunciar palavras de modo convencional, nem assumir uma posição formal de reverência, ele confiou em Deus e expressou sua confiança:

“Quando desfalecia em mim a minha alma, lembrei-me do SENHOR; e entrou a ti a minha oração, no teu santo templo. Os que observam as falsas vaidades deixam a sua misericórdia. Mas eu te oferecerei sacrifício com a voz do agradecimento…” (Jonas 2:8–10).

Basta lembrar-se de Deus, e essa lembrança será contada como oração. Basta lembrar-se de Deus, e tal lembrança será como um clamor, e Deus ouvirá, mesmo que das profundezas do abismo. Deus não é como o juiz injusto, que precisa ser importunado para atender quem o chama (Lucas 18:2).

Ademais, o melhor sacrifício é a voz do agradecimento, isto é, a ação de graças (Hebreus 13:15). Todo aquele que expressa a sua confiança em Deus deve aplicar-se em agradecer.

Súplicas a Deus

3- Orando também juntamente por nós, para que Deus nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual estou também preso;

É significativa a diferença entre permanecer em oração (προσευχή) e o ato de orar, expresso pelo verbo προσεύχομαι. Aqui, Paulo roga por orações com um objetivo específico, diferente do versículo anterior, que trata do exercício contínuo de confiança em Deus.

A confiança de Habacuque em Deus, expressa em forma de oração, é o que se pode denominar προσευχή, visto que tudo ao redor falha, mas o profeta permanece confiando em Deus. Isso contrasta com a ideia de uma petição específica dirigida a Deus, que também envolve confiança, porém apresenta um anseio concreto diante d’Ele.

Paulo pede aos irmãos que orem por ele para que pudesse evangelizar. Ele não buscava bênçãos materiais, inserção política ou qualquer tipo de lucro; antes, desejava abertura para anunciar o evangelho, que trata do mistério de Cristo.

Era justamente pela falta dessa abertura, que possibilitasse a divulgação livre do evangelho, que o apóstolo estava preso.

Estratégia de evangelização

4- Para que o manifeste, como me convém falar.

Paulo tinha conhecimento do mistério de Cristo, mas tal conhecimento, por si só, não era suficiente para evangelizar. Aqui, Paulo deseja que Deus lhe conceda a maneira mais acertada e conveniente de expor a verdade do evangelho. Essa deve ser uma preocupação constante do cristão. Não basta falar algo acerca do evangelho; antes, faz-se necessário ter conhecimento e adequar a mensagem ao ouvinte.

Essa diferença na forma de anunciar o evangelho pode ser observada nos encontros de Jesus com a mulher samaritana e com Nicodemos. Cristo, na qualidade de mensageiro das boas-novas, proclamou a mesma mensagem de salvação, porém com ênfases distintas. Com a mulher samaritana, a ênfase recaiu sobre a disponibilidade da salvação, apesar das questões comportamentais que a expunham diante da sociedade. Já com o mestre em Israel, o enfoque não foi o comportamento, mas a impossibilidade de alguém salvar-se à parte de Cristo.

Nesses dois eventos registrados por João, vemos a conveniência do que deve ser dito aliada ao conhecimento indispensável.

Tempo de Salvação

5- Andai com sabedoria para com os que estão de fora, remindo o tempo.

Paulo preocupava-se com a forma como o comportamento (andar) dos cristãos poderia influenciar positiva ou negativamente os não cristãos.

A maneira como eles deveriam comportar-se não era algo que pudesse ser positivado em um código; antes, tratava-se de uma habilidade que se assemelha a uma arte. Era algo que demandava exercício e aprimoramento constante, pois exigia não dar escândalo nem a judeus, nem a gregos, nem à igreja de Deus.

Esse movimento, permeado de discernimento, tem o condão de aproveitar o tempo oportuno da salvação: hoje.

A expressão “remindo  tempo” remete à declaração do apóstolo Paulo em 2 Coríntios 6:2:

“Porque diz: No tempo aceitável te ouvi e no dia da salvação te socorri; eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação.”

Assim, a ideia de “tempo oportuno da salvação: hoje” está fundamentada na urgência expressa por Paulo — o momento favorável é o presente, ou seja, não se pode perder a oportunidade.

Palavra temperada

6- A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um.

O apóstolo, além de se preocupar com a preservação da doutrina do evangelho, também se preocupava com a forma como essa mesma doutrina estava sendo retransmitida. Na época de Paulo, a sociedade era composta por vários povos, culturas e etnias; portanto, a preocupação com o conteúdo da mensagem somava-se à maneira como ela era comunicada e ao possível impacto que uma exposição mal conduzida poderia causar em determinados segmentos da sociedade.

Como a palavra é comparável ao alimento — visto que o ouvido prova as palavras assim como o paladar prova a comida — segue-se que a palavra do crente, para ser agradável, precisa ser “temperada com sal”. A Palavra do evangelho é única e imutável; porém, dependendo do público-alvo, a forma de anunciá-la deve ater-se a aspectos específicos. Por exemplo, a mensagem que Jesus anunciou a Nicodemos e à mulher samaritana é idêntica em conteúdo, mas a abordagem é diferente em razão das necessidades particulares dos ouvintes. Isso é “temperar” a palavra.

Na lei, o sal representa o elemento humano presente na oferta ou no sacrifício, o que também é pertinente ao homem quando anuncia a mensagem do evangelho.

Deus produz o alimento, e o homem, para degustá-lo, administra a porção de sal necessária para tornar o alimento saboroso e agradável ao paladar.

Considerações finais

Tíquico e Onésimo

7- Tíquico, irmão amado e fiel ministro, e conservo no Senhor, vos fará saber o meu estado; O qual vos enviei para o mesmo fim, para que saiba do vosso estado e console os vossos corações;

Tíquico foi um cristão da província da Ásia, companheiro fiel e colaborador do ministério do apóstolo Paulo, inclusive durante suas prisões. Ele atuou como mensageiro de confiança, entregando cartas (como Efésios e Colossenses) e auxiliando na liderança das igrejas, sendo descrito por Paulo aos cristãos de Colossos como “amado irmão, fiel ministro e conservo no Senhor”.

Além de levar as cartas, o irmão Tíquico foi incumbido de transmitir notícias sobre as condições de Paulo na prisão. Cabia a Tíquico, portanto, não apenas informar a situação do apóstolo em suas cadeias, mas também trazer notícias acerca da igreja, com o objetivo de consolar os corações dos irmãos.

9- Juntamente com Onésimo, amado e fiel irmão, que é dos vossos; eles vos farão saber tudo o que por aqui se passa.

Onésimo foi enviado para acompanhar Tíquico e, por pertencer à comunidade de Colossos, possuía a devida credibilidade para confirmar as notícias acerca de Paulo. Onésimo era o escravo fugitivo de Filemom, amigo do apóstolo, que, após receber sua alforria, passou a servir ao evangelho e, como se observa, estava plenamente integrado à comunidade cristã.

Aristarco

10- Aristarco, que está preso comigo, vos saúda, e Marcos, o sobrinho de Barnabé, acerca do qual já recebestes mandamentos; se ele for ter convosco, recebei-o;

É interessante que, ao escrever a epístola aos colossenses, Paulo se fazia acompanhar de Aristarco, um cristão contado entre os da circuncisão (v. 11), natural de Tessalônica, na Macedônia. Ele é conhecido por ter sido um companheiro leal, que acompanhou Paulo em viagens missionárias, enfrentou tumultos em Éfeso e esteve com o apóstolo até mesmo em situações difíceis, como a viagem com naufrágio (Atos 19:29; 20:4; 27:2; Filemom 1:24).

Aristarco é descrito por Paulo como alguém que lhe servia de “auxílio” e “consolo”, isto é, um cooperador que fortalecia o apóstolo em meio às suas tribulações.

11- E Jesus, chamado Justo; os quais são da circuncisão; são estes unicamente os meus cooperadores no reino de Deus; e para mim têm sido consolação.

Para o apóstolo Paulo, era motivo de consolo ver cristãos convertidos da circuncisão cooperando no evangelho, como era o caso de Jesus, também chamado Justo, Aristarco e Marcos.

Paulo também enumera as pessoas que estavam exercendo o ministério com ele: Tíquico, Onésimo, Aristarco, Marcos, Justo, Lucas, Demas e Epafras.

Epafras, o evangelista

12- Saúda-vos Epafras, que é dos vossos, servo de Cristo, combatendo sempre por vós em orações, para que vos conserveis firmes, perfeitos e consumados em toda a vontade de Deus.

Paulo envia os cumprimentos de Epafras, servo de Cristo que havia evangelizado os cristãos em Colossos (Colossenses 1:7).

Epafras estava sempre em combate pelo evangelho anunciado aos cristãos, visando à conservação dos irmãos firmes, perfeitos e plenamente convictos na vontade de Deus.

O combate aqui não consiste em rogos ou imprecações, mas em plena confiança em Deus, que iniciou a obra e a completará. Trata-se de um combate em defesa da fé entregue aos santos (Judas 1:3; Filipenses 1:27), pois ela é a base imutável sobre a qual o cristão deve permanecer, visto que é o poder de Deus que torna o cristão perfeito e consumado (1 Coríntios 1:8; Filipenses 1:10; 1 Pedro 5:10; 1 Tessalonicenses 5:23). Assim, combater em oração aproxima-se mais do que foi explicado no versículo 2 do que do versículo 3 deste capítulo.

A vontade de Deus é que todo homem se salve e venha ao pleno conhecimento da verdade, o que, em outras palavras, equivale a crer naquele que Ele enviou (João 6:29). Como a palavra do evangelho é digna de toda aceitação, não há quem chegue ao pleno conhecimento

13- Pois eu lhe dou testemunho de que tem grande zelo por vós, e pelos que estão em Laodiceia, e pelos que estão em Hierápolis.

Paulo confirma o zelo de Epafras, conforme já havia mencionado no início da carta (Colossenses 1:7), zelo esse que se estendia também aos irmãos de Laodiceia e de Hierápolis.

14- Saúda-vos Lucas, o médico amado, e Demas. Saudai aos irmãos que estão em Laodiceia e a Ninfa e à igreja que está em sua casa. E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodiceia lede-a vós também.

Paulo menciona o nome de algumas cidades nas quais havia igrejas, como Laodiceia, e também pessoas específicas, como Ninfa, fazendo referência às saudações enviadas. Entre os irmãos citados estão Lucas, que exercia o ofício de médico e foi o escritor de um dos evangelhos e do livro de Atos, e Demas, que posteriormente abandonou o apóstolo Paulo e o evangelho (2 Timóteo 4:10).

As cartas enviadas a Colossos poderiam ser trocadas e lidas também em Laodiceia, e vice-versa.

17- E dizei a Arquipo: Atenta para o ministério que recebeste no Senhor, para que o cumpras.

Arquipo é alertado quanto ao exercício do seu ministério, exortação semelhante à que foi dada a Timóteo (2 Timóteo 4:5).

18- Saudação de minha mão, de Paulo. Lembrai-vos das minhas prisões. A graça seja convosco. Amém.

Paulo encerra a carta saudando os cristãos e autenticando a sua própria escrita. Eles não deveriam esquecer as cadeias do amado servo do Senhor. Essa mensagem final visa evitar que os cristãos se envergonhassem do evangelho em razão das prisões do apóstolo (2 Timóteo 1:8).

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