Romanos 8 – Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo

Romanos 8 inicia com a declaração emblemática de que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. Esse versículo retoma o contraste desenvolvido no capítulo anterior entre dois regimes de serviço a Deus: o antigo regime da “velhice da letra”, associado à Lei, e o novo regime da “novidade do Espírito”, inaugurado pelo evangelho.
Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo
“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8:1).
Novidade de Espírito vs. Velhice da Letra
Antes de prosseguir na análise do capítulo 8 da Epístola aos Romanos, é importante comparar os dois versículos a seguir:
“Mas agora estamos livres da lei, pois morremos para aquilo em que estávamos retidos, a fim de servirmos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” (Romanos 7:6);
“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. De sorte que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne a lei do pecado” (Romanos 7:25).
Qual é o motivo de o apóstolo Paulo dar graças a Deus por intermédio de Jesus Cristo? A razão está no fato de que ele, assim como os demais cristãos, havia sido libertado da lei. Conforme afirma anteriormente — “agora estamos livres da lei” — essa liberdade decorre do fato de que morreram, em Cristo, para aquilo que os mantinha presos: a lei.
Qual é, então, o propósito de Paulo enfatizar que os cristãos morreram para aquilo que os retinha? A resposta é clara: demonstrar que essa morte tem um objetivo específico. Os cristãos foram libertos da lei para servirem a Deus em novidade de espírito, e não na velhice da letra.
Essa ênfase também funciona como um alerta diante do perigo representado pela influência dos judaizantes, que procuravam introduzir entre os cristãos elementos da lei como condição para a vida com Deus (Romanos 13:8-9; 16:17-18). Ao afirmar que morreram para a lei, Paulo destaca que o serviço a Deus agora ocorre em um novo regime: o da novidade do espírito, isto é, do evangelho, em contraste com a velhice da letra, isto é, o regime da lei.
Na carta aos Romanos não há um embate direto contra os judaizantes semelhante ao que se encontra na carta aos Gálatas. Contudo, ao afirmar que “a noite é passada e o dia é chegado”, o apóstolo Paulo sugere, de forma sutil, o risco que tais influências representavam para a igreja primitiva e os meios pelos quais procuravam agir (cf. Romanos 13:12–14; Gálatas 5:14–15; 1 Tessalonicenses 5:5–8).
Desse modo, o apóstolo declara categoricamente que os cristãos foram libertos da lei, uma vez que morreram para ela. A liberdade resultante dessa morte possui um propósito definido: servir a Deus em novidade de espírito. Isso porque, conforme o próprio Paulo explica, a carne não se sujeita à lei de Deus nem pode fazê-lo (Romanos 8:7).
Entendimento vs. Carne
Romanos 7, versos 6 e 25, apresentam contrapontos importantes: “novidade de espírito” em contraste com “velhice da letra”, assim como “entendimento” aparece em oposição à “carne”. A oposição entre “evangelho” e “lei”, expressa nas fórmulas “novidade de espírito” e “velhice da letra”, é relativamente clara. Entretanto, o contraste entre “entendimento” e “carne” não apresenta a mesma nitidez, o que frequentemente ocasiona leituras equivocadas da proposta paulina.
O termo grego traduzido por “entendimento” é νοῦς [1] (nous), possivelmente relacionado à raiz do verbo γινώσκω (ginōskō), que significa “conhecer”. Ao estabelecer o contraponto entre “entendimento” e “carne”, somos levados a considerar o que o apóstolo Paulo afirma no início da epístola: que os homens – como verificado, se trata dos judeus – rejeitaram o conhecimento de Deus (Romanos 1:28). Mais adiante, ele também observa que os judeus possuíam zelo por Deus, porém sem entendimento (Romanos 10:2). Essa avaliação está em harmonia com diversas declarações da Lei, dos Salmos e dos Profetas, que apontam a ausência de entendimento entre o povo da Antiga Aliança:
“Porque são gente falta de conselhos, e neles não há entendimento.” (Deuteronômio 32:28);
“Portanto o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; e os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede.” (Isaías 5:13);
“Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus.” (Salmo 53:2-4);
“O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; bom entendimento têm todos os que cumprem os seus mandamentos; o seu louvor permanece para sempre.” (Salmos 111:10).
No contexto do Novo Testamento, qual seria o entendimento (conhecimento)?
No contexto do Novo Testamento, qual seria esse entendimento ou conhecimento? Trata-se da revelação de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento e por meio de quem os cristãos foram enriquecidos espiritualmente:
“Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.” (Colossenses 2:3);
“Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento” (1 Coríntios 1:5).
O apóstolo Paulo dá graças a Deus no verso 25 porque, por meio de Cristo, foi libertado da condição anterior. A morte em Cristo implica libertação da lei. Assim, surge a pergunta: o que significa servir em “novidade de espírito”? Significa possuir liberdade para servir à vontade[2] de Deus com entendimento (conhecimento), visto que, na condição da carne, só é possível servir à lei do pecado.
Essa realidade encontra eco na promessa da nova aliança:
“Porque esta é a aliança que depois daqueles dias Farei com a casa de Israel, diz o Senhor; Porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; E eu lhes serei por Deus, E eles me serão por povo;” (Hebreus 8:10).
Nos dois versículos analisados, o apóstolo Paulo utiliza o verbo servir, omitindo-o na segunda parte da construção — um recurso retórico conhecido como elipse:
“… a fim de servirmos em novidade de espírito, e não (servirmos) na velhice da letra” (Romanos 7:6);
“… com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne (sirvo) a lei do pecado” (Romanos 7:25).
Através desta análise é fácil diagnosticar que, por causa de leituras equivocadas, ou seja, sem considerar possível uso de certos recursos literários, como figuras de estilo, acabam surgindo inúmeros erros de interpretação.
A ausência dessa percepção literária pode levar a interpretações equivocadas do argumento paulino. A elipse consiste precisamente na supressão de uma palavra facilmente subentendida pelo contexto.
Se o evangelho constitui o verdadeiro entendimento que possibilita servir a Deus, surge então a pergunta: o que significa “carne” nesse contexto?
Para compreender o sentido de “carne”, é necessário considerar que a morte com Cristo liberta o homem tanto da morte — que estabelece o domínio do pecado — quanto da lei do pecado (Romanos 8:2).
O pecado exercia domínio sobre a humanidade por meio do “corpo do pecado”, ligado ao homem velho que remonta a Adão. Esse corpo foi desfeito na crucificação com Cristo (Romanos 6:6). A lei, por sua vez, foi dada aos que estavam debaixo dela e exercia domínio sobre os judeus enquanto permaneciam nessa condição (Romanos 3:19).
Assim, os judeus estavam sujeitos a duas realidades: por um lado, possuíam o corpo do pecado herdado de Adão; por outro, pertenciam à descendência carnal de Abraão. Dessa forma, o pecado possuía um “corpo” por meio do qual exercia seu domínio, enquanto a lei possuía um campo específico de atuação: a carne dos descendentes de Abraão.
Paulo utiliza a analogia do senhor e do escravo para ilustrar a relação do homem — seja quem for — com o pecado. Um senhor exerce domínio sobre o escravo apenas enquanto este vive, pois o seu domínio se estabelece sobre o corpo do escravo, e não sobre a sua vontade. De modo semelhante, o apóstolo introduz a analogia do casamento, segundo a qual a mulher permanece sujeita ao marido enquanto ele vive; porém, morto o marido, a mulher fica livre da lei que a vinculava a ele (Romanos 7:3).
Quando os cristãos participam da morte de Cristo, ocorre uma dupla ruptura: o corpo do pecado é desfeito, encerrando a sujeição ao pecado, e eles também morrem para a lei pelo corpo de Cristo (Romanos 7:4). Desse modo, deixam de estar sujeitos ao antigo regime.
Nesse sentido, no contexto de Romanos 8, o termo “carne” remete aos pressupostos ligados à exterioridade judaica — como a circuncisão — que identificava os descendentes físicos de Abraão (Romanos 2:28). Muitos judeus consideravam-se superiores aos gentios por causa dessa descendência. Entretanto, a lei lhes foi dada para revelar sua verdadeira condição diante de Deus. Ela foi acrescentada por causa das transgressões e fez abundar o pecado (Romanos 5:20).
Enquanto permaneciam sob esse regime, os membros do povo de Israel produziam frutos para a morte (Romanos 7:5). Contudo, ao morrerem para o pecado e para a lei por meio de Cristo, os cristãos deixam também de estar sujeitos aos pressupostos da carne — como a circuncisão, a observância de dias de festa, os sábados e outras prescrições legais.
Essa dupla ruptura — morte para o pecado (Romanos 6:6) e morte para a lei (Romanos 7:4) — corresponde exatamente ao movimento argumentativo desenvolvido por Paulo entre os capítulos 6 e 7 da epístola. Tal progressão prepara a conclusão apresentada em Romanos 8.1:
“Portanto, agora nenhuma condenação há…”
Boa leitura.
Nenhuma condenação
“1. PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8:1)
Este versículo possui caráter conclusivo e sustenta as argumentações que o apóstolo Paulo desenvolveu nos capítulos anteriores, o que permite compreender melhor a estrutura da epístola dirigida aos cristãos em Roma.
O verso 1 introduz uma conclusão por meio da conjunção conclusiva “portanto”, que remete diretamente ao que o apóstolo havia exposto anteriormente.
“Portanto” é uma conjunção conclusiva equivalente a por isso, por conseguinte, por consequência ou consequentemente. Seu emprego introduz uma conclusão baseada no que foi afirmado anteriormente no discurso.
Para compreender a estrutura do argumento paulino, também é importante observar o advérbio de tempo “agora”, que aparece logo após a conjunção conclusiva:
“Portanto, agora…” (Romanos 8:1).
Anteriormente, o apóstolo demonstrou que todos os homens estavam debaixo do pecado (Romanos 3:1–20) e descreveu a justiça de Deus manifestada por meio do evangelho, a fé concedida a todos os que creem, sem distinção (Judas 1:3). Nesse contexto, Paulo também utiliza o advérbio de tempo “agora”:
“Mas agora se manifestou, sem a lei a justiça de Deus…” (Romanos 3:21).
O apóstolo demonstra que a graça de Deus se manifesta a todos os que creem e, ao empregar o advérbio “agora”, indica que essa justiça se torna efetiva no tempo presente. O crente é justo agora, no tempo presente. Trata-se de uma condição própria daqueles que creem em Cristo, e não de uma dádiva que será concedida apenas no futuro (Romanos 3:26; 1 João 4:17).
Mas por que a justiça de Deus se manifesta nesse “agora”, no tempo presente, e é concedida a todos sem distinção? Porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Romanos 3:23).
Observe que Paulo apresenta primeiro a manifestação da justiça de Deus (Romanos 3:21) e, em seguida, recorda a condição da humanidade sem Cristo (Romanos 3.23). Afinal, se a humanidade não estivesse sob condenação, seria incoerente falar em salvação no tempo presente.
Com base nas afirmações contidas em Romanos 3:21–27, o apóstolo chega à seguinte conclusão:
“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei. ” (Romanos 3.28).
A partir desse ponto, Paulo apresenta Abraão como exemplo de alguém que foi alcançado pela graça de Deus por meio da fé muito antes da promulgação da lei (Romanos 4.10). Ao fazê-lo, demonstra que a lei não foi a causa da bem-aventurança de Abraão; antes, essa bem-aventurança decorre da promessa (Romanos 4:13).
Após demonstrar que nem a circuncisão nem a lei são causas da justificação diante de Deus, Paulo apresenta outra conclusão que retoma o argumento iniciado em Romanos 3:21:
“Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1).
A justiça de Deus foi manifestada independentemente da lei, conforme testemunham a própria lei e os profetas (Romanos 3:21). Assim, a justificação pela fé estabelece a paz entre o homem e Deus.
Depois de demonstrar que os cristãos alcançaram paz com Deus — pois foram reconciliados com Ele por meio da morte de seu Filho (Romanos 5:10) — o apóstolo explica como se deu a destituição da humanidade da glória de Deus (Romanos 5:12–20). Em seguida, esclarece que aqueles que morreram para o pecado não podem continuar vivendo nele (Romanos 6:2); afirma que os cristãos foram libertos da lei (Romanos 7:6); apresenta a natureza santa da lei (Romanos 7:12); e evidencia a incapacidade do homem carnal diante dela (Romanos 7:14).
Assim, o desenvolvimento do argumento entre os capítulos 6 e 7 explica a dinâmica da justificação pela fé e prepara a conclusão apresentada em Romanos 8:1.
Por isso, Paulo afirma:
“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”
A salvação em Cristo pertence ao tempo presente. Hoje é o dia da salvação; hoje é o tempo sobremodo aceitável (2 Coríntios 6:2). O homem é salvo agora, no presente, da condenação que teve origem no Éden, no passado. Por isso está justificado agora.
O apóstolo enfatiza que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.
Mas por que Paulo escreve “nenhuma condenação”? Não bastaria dizer apenas “não há condenação”?
A expressão sugere a exclusão completa de qualquer forma de condenação.
A Escritura apresenta dois aspectos da condenação:
- a condenação em Adão, ocorrida no Éden, pela qual todos os homens passaram à condição de pecadores, alienados de Deus (Romanos 5:18);
- a condenação associada ao juízo final das obras, descrito no Grande Tribunal do Trono Branco (Apocalipse 20:12).
Quando Paulo declara que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo, ele indica que aqueles que estão unidos a Cristo foram libertos da condição de condenação decorrente da queda e não estão sujeitos ao juízo condenatório.
Os que estão em Cristo não comparecerão para condenação, mas comparecerão diante do Tribunal de Cristo, onde os crentes serão avaliados para galardão (Romanos 14:10; 2 Coríntios 5:10).
À luz dessa declaração — “Portanto, agora nenhuma condenação há…” — torna-se evidente que o novo homem em Cristo é verdadeiramente bem-aventurado.
Como declarou Davi:
“Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: ” (Romanos 4:6-8).
Aqueles que creem em Cristo tiveram suas iniquidades perdoadas e seus pecados cobertos. Deus não lhes imputa pecado.
Sendo assim, como poderia o cristão ainda considerar-se um homem “desventurado” ou “maldito”?
Se nenhuma condenação há para os que estão em Cristo, é pouco provável que a declaração “miserável homem que sou” (Romanos 7:24) descreva a nova condição do crente em Cristo, mas sim a condição anterior do homem sob o domínio do pecado.
Nova criatura
Considerando que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, surge a pergunta: o que significa estar “em Cristo”? Como alguém pode estar “em Cristo”? Qual é a realidade daqueles que estão nessa condição?
Ao escrever aos cristãos em Corinto, o apóstolo Paulo fez a seguinte declaração:
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” (2 Coríntios 5:17).
Essa afirmação permite compreender alguns aspectos fundamentais da condição daqueles que estão em Cristo:
- Nova criatura — por definição, quem está em Cristo é uma nova criatura;
- Novo nascimento — somente estão em Cristo aqueles que foram gerados de novo por meio da semente incorruptível, que é a palavra de Deus;
- Nova realidade — as coisas antigas já passaram, e tudo se fez novo.
Quando lemos que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”, entende-se que essa declaração se refere à justificação, condição da nova criatura, gerada de novo segundo a palavra da verdade, para viver uma nova existência, marcada por uma nova realidade: tudo se fez novo (Romanos 8:33).
Compare:
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17);
“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Romanos 8:1).
Com base nesses dois versículos, pode-se concluir que ser uma nova criatura corresponde a estar em Cristo, e vice-versa (1 João 4:15). Para aqueles que estão em Cristo — isto é, para a nova criatura — não há condenação.
A segunda parte desses versículos também apresenta uma relação significativa. As “coisas velhas” que passaram correspondem ao antigo modo de vida caracterizado pelo “andar segundo a carne”; por outro lado, o “andar segundo o Espírito” expressa a nova realidade inaugurada em Cristo, na qual tudo se fez novo.
Carne versus espírito
Para prosseguir na exposição, é necessário definir o que significam os termos “carne” e “espírito” nesse contexto, pois uma compreensão adequada desses conceitos é fundamental para uma leitura correta do capítulo 8 da Epístola aos Romanos.
A primeira vez que o apóstolo Paulo utiliza o termo carne na epístola ocorre em referência a Jesus, para demonstrar que Ele é o descendente prometido por Deus a Davi (2 Samuel 7:12–14), o Verbo que se fez carne (João 1:14):
“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne,” (Romanos 1.3).
O termo grego σάρξ (sarx), traduzido por “carne”, é empregado para indicar que Jesus Cristo pertence à linhagem de Davi segundo a descendência humana, isto é, por meio do vínculo de sangue decorrente de seu nascimento. Vale destacar que o vínculo de sangue com a descendência de Davi se estabelece por meio de Maria, que pertencia à linhagem davídica.
O mesmo termo aparece novamente no capítulo 2:
“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne.” (Romanos 2:28).
Nesse versículo, o apóstolo utiliza o termo para se referir à marca da circuncisão que os judeus traziam na carne, em virtude do sinal que Deus havia dado a Abraão (Gênesis 17:10–13). Como essa marca era externa — impressa na carne do prepúcio — distinguia-se da circuncisão do coração, que é interior. Por essa razão, era possível julgar as pessoas segundo a aparência exterior e não segundo a reta justiça (João 7:24). Nesse sentido, a circuncisão podia tornar-se apenas uma “boa aparência na carne” e motivo de jactância entre aqueles que buscavam reconhecimento por sinais externos (Gálatas 6:12–13; Atos 16:3).
A lei determinava:
“E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança.” (Gênesis 14:14).
Mais adiante, o apóstolo Paulo utiliza novamente o termo carne para destacar a incapacidade da lei de justificar e, ao mesmo tempo, incluir os próprios judeus sob a mesma condição de pecado que o restante da humanidade:
“Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.” (Romanos 3:20).
Nesse contexto, a expressão “nenhuma carne” inclui tanto judeus quanto gentios. Paulo discute inicialmente qual seria a vantagem dos judeus (Romanos 3:1–2) e, em seguida, cita diversos textos dos Salmos e dos Profetas que denunciam o pecado do próprio povo de Israel (Romanos 3:10–18). Com base nesses testemunhos, ele conclui que nenhuma carne é justificada pelas obras da lei. Assim, fica evidente que a descendência carnal não torna ninguém melhor diante de Deus.
O termo carne aparece novamente em relação ao patriarca Abraão, quando Paulo questiona um dos fundamentos mais importantes da confiança judaica:
“QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” (Romanos 4:1) .
Se a descendência física de Abraão possuísse a importância que muitos judeus lhe atribuíam (João 8:37), o fato de Abraão ter recebido o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé quando ainda estava incircunciso demonstra que tal confiança na carne era infundada (Romanos 4:10–11).
Da mesma forma, se as obras da lei fossem determinantes para a justificação, então as obras de Abraão também deveriam ter sido a base de sua aceitação diante de Deus. Contudo, Paulo mostra que Abraão foi justificado porque creu na promessa divina. No relato de Gênesis não há referência à lei nem às obras da lei — elementos aos quais os judeus posteriormente atribuíram grande importância (Romanos 4:13).
O apóstolo evidencia que Abraão nada alcançou segundo a lei. Antes, a promessa de que ele seria herdeiro do mundo foi dada quando recebeu o selo da justiça da fé ainda na incircuncisão, tornando-se assim pai de todos os que creem (Romanos 4:10–13).
Se não fosse a palavra de Deus concedida gratuitamente a Abraão, ele seria como qualquer outro homem. Entretanto, Abraão creu na palavra da promessa, e essa fé lhe foi imputada como justiça:
“Então o levou fora, e disse: Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência. E creu ele no SENHOR, e imputou-lhe isto por justiça.” (Gênesis 15:5-6).
Contudo, a promessa estava vinculada à descendência, isto é, ao Descendente prometido. Muitos judeus passaram a interpretar essa promessa como estando ligada à carne — ao vínculo de sangue com Abraão — e à submissão ao sinal da circuncisão.
A progressão no uso do termo “carne”, desde Romanos 1:3, 2:28, 3:20 e 4:1, torna-se mais evidente em Romanos 6.19, quando Paulo destaca a sua fraqueza, isto é, a sua enfermidade. O substantivo grego ἀσθένεια, traduzido por “fraqueza”, refere-se a uma debilidade ou incapacidade, frequentemente associada à condição de enfermidade. Nesse contexto, tomado isoladamente, o termo ἀσθένεια pode sugerir uma enfermidade que aponta para uma limitação da condição humana. Contudo, como o contexto não se refere a uma enfermidade física ao mencionar a “carne”, conclui-se que essa debilidade associada à carne diz respeito a algo que impede a lei de cumprir plenamente o seu papel.
Essa ideia de fraqueza reaparece mais adiante em Romanos 8.3, quando Paulo afirma que aquilo que era impossível à lei se devia à sua debilidade por causa da carne. Nesse versículo, o apóstolo utiliza o verbo ἀσθενέω, que expressa a ideia de incapacidade ou impotência. Assim, a lei se mostra impotente por causa da carne.
“Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.” (Romanos 6:19).
Nesse capítulo, o apóstolo Paulo recorre à analogia da escravidão para ilustrar a condição do homem tanto sob o domínio do pecado quanto sob o domínio da justiça. Em seguida, ele explica o motivo de utilizar essa linguagem: fala “em termos humanos” por causa da fraqueza da carne de seus interlocutores.
“ανθρωπινον λεγω δια την ασθενειαν της σαρκος υμων” Scrivener’s Textus Receptus (1894).
‘em termos humanos falo por causa de a fraqueza[3] da carne vossas’ Novo Testamento Interlinear Grego Português, SBB.
Nos versículos 1 a 14, Paulo discute a impossibilidade de os cristãos permanecerem no pecado, uma vez que morreram para ele. A partir do versículo 15, o apóstolo retoma a questão da relação entre lei e graça, esclarecendo que o fato de os cristãos estarem debaixo da graça, e não da lei, não significa que possam pecar.
“Pois quê? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.” (Romanos 6:15).
Estar “debaixo” de algo equivale a estar sob o seu domínio. Paulo argumenta que aquele que se oferece para obedecer a alguém torna-se servo daquele a quem obedece (Romanos 6:16). No caso dos cristãos, pela graça eles obedeceram ao evangelho e se tornaram servos da justiça (Romanos 6:17–18).
O pronome possessivo ὑμῶν, no genitivo e na segunda pessoa do plural, refere-se diretamente aos interlocutores e enfatiza a expressão “fraqueza da vossa carne”.
Mas a que exatamente o apóstolo se refere ao falar dessa fraqueza? Estaria falando apenas do corpo físico, constituído de matéria orgânica? Dos desejos e impulsos humanos? Ou de aspectos morais e comportamentais?
No contexto da argumentação, Paulo parece destacar a fragilidade do modo de pensar e do sistema de referência sob o qual seus interlocutores haviam vivido anteriormente. Trata-se da forma de doutrina à qual estavam sujeitos quando viviam sob o domínio do pecado, em contraste com a “forma de doutrina” que agora haviam recebido e obedecido (Romanos 6:17).
Perceba que, em Romanos 6:15, Paulo contrasta a lei com a graça, sendo que a graça tornou possível a participação na ressurreição de Cristo (Romanos 6:3); por isso, ontologicamente, os crentes estão mortos para o pecado, ainda que não estejam debaixo da lei (Romanos 6:14–15). Vale lembrar que somente os servos do pecado pecam (João 8:34). Cometer pecado é consequência de estar sujeito ao pecado. Não se trata meramente de comportamento desviante, pois, mesmo que alguém que seja servo do pecado pratique boas ações, tais obras ainda pertencem ao seu senhor (Lucas 11:13). Contudo, os crentes morreram tanto para o pecado quanto para a lei.
Nesse sentido, a expressão “fraqueza da vossa carne” reflete a confiança depositada em elementos externos ligados à descendência e às práticas religiosas judaicas. Muitos se apoiavam no fato de serem descendentes de Abraão segundo a carne.
Esse tipo de argumento era comum entre os judeus quando confrontados pela mensagem do evangelho:
“Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (João 8.33), ou;
“Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão.” (João 8.39).
Assim, a “fraqueza da carne” pode ser entendida como a confiança depositada em elementos humanos ou externos como fundamento de justiça diante de Deus. Nesse sentido, a Escritura adverte:
“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jeremias 17.5).
Nesse sentido, o termo “carne” passa a evidenciar aquilo que Paulo associa ao antigo regime religioso vinculado à lei. O próximo uso do termo “carne” encontra-se no capítulo 7:
“Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.” (Romanos 7:5).
Nesse versículo, o apóstolo Paulo utiliza o termo “carne” para descrever uma condição anterior, demonstrando que, em um tempo passado, tanto ele quanto parte de seus interlocutores estiveram nessa condição. Mais adiante, o apóstolo enfatiza que os cristãos já não estão na carne, mas no Espírito:
“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.” (Romanos 8:9).
A ênfase do apóstolo dos gentios ao contrapor “carne” e “Espírito” dirige-se, em grande parte, aos cristãos de Roma provenientes do judaísmo. Isso difere, em certo aspecto, da situação dos cristãos da Galácia, que haviam se convertido dentre os gentios e estavam sendo influenciados por mestres judaizantes.
Paulo questiona os gálatas:
“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gálatas 3:2-3).
Enquanto os cristãos da Galácia haviam começado a servir a Deus segundo o evangelho — isto é, pelo Espírito — estavam agora sendo persuadidos a retornar a práticas associadas à lei (acabar na carne). Muitos cristãos de Roma, por sua vez, haviam inicialmente vivido sob o regime da carne e da lei, mas, ao crerem no evangelho, passaram a viver no Espírito (Romanos 7:5).
O cristão, portanto, serve a Deus em novidade de espírito, e não na velhice da letra (Romanos 7:6). Assim, o evangelho contrasta com a lei, do mesmo modo que a “novidade de espírito” se opõe à “velhice da letra”, a “pregação da fé” se opõe às “obras da lei”, e o “Espírito” se contrapõe à ‘carne’.
Conclusão
Voltando ao versículo 1 do capítulo 8 da Epístola aos Romanos, fica claro que aqueles que estão em Cristo são novas criaturas livres de condenação, pois não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.
O termo grego πνεῦμα (pneuma), traduzido por “espírito”, nesse contexto refere-se à nova realidade inaugurada pelo evangelho de Cristo. Em razão dessa verdade, o apóstolo Paulo afirma ser ministro de uma nova aliança, caracterizada pelo espírito:
“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Coríntios 3:6).
Esse versículo evidencia o contraste entre “letra” e “espírito”. A lei é chamada de “letra” por ter sido gravada em pedras (2 Coríntios 3:7), sendo apresentada como ministério da morte. Em contraste, o evangelho é descrito como o ministério do Espírito, que produz vida (2 Coríntios 3:7–8).
Assim, estabelece-se a oposição entre “letra” e “Espírito”: enquanto a letra (lei) mata, o espírito (evangelho) vivifica.
[1] “3563 νους nous provavelmente da raiz de 1097; TDNT – 4:951,636; n m 1) mente, incluindo igualmente as faculdades de perceber e entender bem como a habilidade de sentir, julgar, determinar 1a) faculdades mentais, entendimento 1b) razão no sentido mais estreito, como a capacidade para verdade espiritual, os poderes superiores da alma, a faculdade de perceber as coisas divinas, de reconhecer a bondade e de odiar o mal 1c) o poder de ponderar e julgar sobriamente, calmamente e imparcialmente 2) um modo particular de pensar e julgar, i.e, pensamentos, sentimentos, propósitos, desejos Sinônimos ver verbete 5917” Dicionário bíblico Strong.
[2] “3551 νομος nomos da palavra primária nemo (parcelar, especialmente comida ou pasto para animais); TDNT – 4:1022,646; n m 1) qualquer coisa estabelecida, qualquer coisa recebida pelo uso, costume, lei, comando 1a) de qualquer lei 1a1) uma lei ou regra que produz um estado aprovado por Deus 1a1a) pela observância do que é aprovado por Deus 1a2) um preceito ou injunção 1a3) a regra de ação prescrita pela razão 1b) da lei mosaica, e referindo-se, de acordo ao contexto, ao volume da lei ou ao seu conteúdo 1c) a religião cristã: a lei que exige fé, a instrução moral dada por Cristo, esp. o preceito a respeito do amor 1d) o nome da parte mais importante (o Pentateuco), é usado para a coleção completa dos livros sagrados do AT Sinônimos ver verbete 5918” Dicionário bíblico Strong.
[3] “769 ασθ εν εια astheneia de 772; TDNT – 1:490,83; n f 1) falta de força, fraqueza, debilidade 1a) do corpo 1a1) sua fraqueza natural e fragilidade 1a2) saúde debilidade ou enfermidade 1b) da alma 1b1) falta de força e capacidade requerida para 1b1a) entender algo 1b1b) fazer coisas grandes e gloriosas 1b1c) reprimir desejos corruptos 1b1d) suportar aflições e preocupações” Dicionário bíblico Strong.

graça e paz da parte de Cristo Jesus nosso Senhor.aqui é o pr. Agnaldo,da cidade de São Carlos sp.gostei do estudo.